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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

Esta obra foi digitalizada/traduzida pela Comunidade Traduções e Digitalizações para proporcionar, de maneira totalmente gratuita, o benefício da leitura àqueles que não podem pagar, ou ler em outras línguas. Dessa forma, a venda deste e‐ book ou até mesmo a sua troca é totalmente condenável em qualquer circunstância. Você pode ter em seus arquivos pessoais, mas pedimos por favor que não hospede o livro em nenhum outro lugar. Caso queira ter o livro sendo disponibilizado em arquivo público, pedimos que entre em contato com a Equipe Responsável da Comunidade – tradu.digital@gmail.com Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois assim você estará incentivando o autor e a publicação de novas obras. Traduções e Digitalizações Orkut - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057 Blog – http://tradudigital.blogspot.com/ Fórum - http://tradudigital.forumeiros.com/portal.htm Twitter - http://twitter.com/tradu_digital

Feito por: Carol

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

SINOPSE:

Quando Katrina encontra um homem sem-teto dormindo no beco atrás da cafeteria de sua avó, ela decide lhe deixar uma xícara de café, um saco de chocolate com grãos de café e alguns bolos ao seu lado. O que ela não sabe é que este ato de bondade está a ponto de pôr sua vida de pernas pro ar. Devido a que este adorável vagabundo, Malcolm, é realmente um anjo da guarda, em um descanso entre missões. E ele não pode ir até que tenha recompensado Katrina por seu desinteresse, lhe concedendo seu desejo mais profundo. Agora, se ela pudesse apenas decidir o que poderia ser...

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

CAPÍTULO UM

A primeira vez que o vi, estava atirado no beco detrás da cafeteria de minha avó. Me dei conta de que era algum tipo de vagabundo. A lâmpada amarela por cima da escura porta irradiava uma luz misteriosa, passando por seu cabelo marrom como margarina derretida. O que é que ele estava fazendo ali fora? Pessoas sem lar não vinham para Nordby. Chuva demais. Não há refúgios públicos nem estações de ônibus. Estava morto? Dou um passo cauteloso para fora da porta, pretendendo lhe dar uma olhada melhor. Seu peito se levantava com lentas, e profundas respirações, pela maneira em que estava estirado em suas costas, com seu braço cobrindo sua cara, não, não podia dizer se seus olhos estavam abertos ou fechados. Talvez estivesse bêbado, ou esperando que me aproximasse mais para me roubar - outra garota de 16 anos, era? O problema era que, eu havia esquecido de tirar o lixo na noite anterior e precisava colocálo no contêiner ou empestaria toda a cafeteria. Mas ele bloqueava o caminho. Estava vestido com um kilt cor caqui e um suéter rasgado. Suas pernas nuas estavam pálidas contra as pedras e os dedos de seus pés ultrapassavam os extremos de suas sandálias. Dezembro, em minha parte do mundo, era muito frio para as sandálias. “Olá”, o chamo. “Precisa de ajuda?” “Dormindo”, murmura. Isso foi tudo o que disse. Quem não estava dormido às 6h:00min da manhã? Eu teria amado outra hora na cama, mas como de costume, estava trabalhando no turno da manhã, sozinha. De repente, desejei não lhe haver dito nada. Se fosse algum tipo de assassino, não haveria ninguém para escutar meus gritos. Nenhum dos negócios havia aberto ainda. Os empregados do Java Heaven, nosso vizinho do lado, não apareciam até as 7. Certo, duas cafeterias uma ao lado da outra. Talvez não fosse incomum para o mundo embebedado de café no qual vivíamos, com cafeterias brotando tão rápido como a cárie depois do Halloween. Mas estávamos aqui primeiro! De todos os modos ninguém estaria passeando com o cão em uma manhã tão fria, ou vendo vitrines na escuridão. Apesar de que vovó Anna estava encima, em nosso apartamento, ela estaria com a televisão a todo volume, o que sufocaria meus gritos se esse cara me estrangulasse. Talvez eu estivesse exagerando, mas as pessoas normais, seguras e sãs geralmente não dormem em becos. Ele se virou. Deixei cair o saco de lixo, e entrei correndo e fechei a porta com chave. Então eu fiz o que Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel sempre fazia quando eu não sabia o que fazer. Liguei para meu melhor amigo. Nós éramos ambos madrugadores, eu por causa do meu trabalho, Vincent devido à prática com a equipe de natação. “Vincent”, eu disse, me aferrando ao velho telefone rotativo que minha avó tinha na cozinha. “Tem um homem deitado no nosso beco e me deixando louca”. “Talvez você devesse chamar a polícia”. Isso não era uma ideia muito boa, porque minha avó Anna Svensen, dona da Cafeteria Mundo Escandinavo da Anna, tinha recebido uma severa advertência do oficial Larsen poucos dias antes. “Você não pode continuar chamando o departamento de polícia por qualquer coisa.” Disse depois de tirar sua cabeça do congelador. “Mas isso está fazendo ruídos. Pensei que poderia ser perigoso”. Explicou-se. “Talvez seja um risco de incêndio. Quer que esse lugar se incendeie?” “Se você está preocupada com o perigo de incêndio, pelo amor de Deus, Anna, chame um eletricista. Os refrigeradores barulhentos não fazem parte do meu trabalho. Ou chaves perdidas. Ou entregas tardias, ou turistas que se esqueceram de deixar gorjeta.” Ele colocou os polegares no cinto. “Vai chegar um dia em que terá uma verdadeira emergência e você me quererá do seu lado”. Vovó Anna não gostava que as pessoas lhes dissessem o que fazer e o que não fazer. E porque o seu marido tinha servido a Polícia Nordby pela maior parte de sua vida, ela acreditava que a força local deveria estar à sua disposição, e ponto final. “Não quero chamar a polícia”, digo a Vincent. “Não é uma verdadeira emergência. Mas você pode vir aqui?” “Claro”, diz Vincent. “Eu estarei aí. Apenas no caso, mantenha distância do beco”. Eu desliguei o telefone, sentindo-me menos preocupada. Não levaria muito pra Vincent atravessar a avenida principal em sua bicicleta. Verifiquei a porta novamente, para ter certeza que eu tinha fechado corretamente. Então eu comecei meu dia de trabalho. Todas as manhãs, antes de ir para a escola, eu trabalhava na nossa cafeteria, preparando as coisas para a minha avó Anna, que como todos os dias abriria às 7 horas para seus clientes fiéis. Não me importava madrugar. Eu gostava da escuridão, a forma como todos os negócios dormiam, o modo em que as gaivotas cantavam desde os portos. Vincent passava por aqui antes da prática de natação, para roubar uma rosquinha. Sentávamos no balcão e compartilhávamos o silêncio, como se fossemos as únicas duas pessoas no mundo. Por alguns minutos ele esquecia o seu firme objetivo de vencer uma competição de natação para conseguir uma bolsa de estudos na faculdade e ir para as Olimpíadas. E eu esquecia meu objetivo de, bem, eu não tinha um. Vincent soube que a natação era a sua coisa a partir do momento que acidentalmente Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel entrou na piscina pública de Nordby. Qual era a minha coisa? Minha vida era uma ode ao fracasso, o armário no final do nosso corredor guardava a prova. Um violão, uma gaita, um gravador, um jogo de xadrez, uma máscara de esgrima, uma seca caixa de barro, botas de patinagem, folhas de música do coral, um microscópio, e algumas luvas de boxe, evidências de coisas que eu havia começado, mas nunca terminado. Desejados, mas nunca concluídos. Ok, eu admito. Perdia o interesse nestes projetos, que passavam de uma “ideia nova e divertida” para “oh, merda, eu tenho que fazer isso”. Mas eu tinha a esperança de que chegasse para mim tão naturalmente quanto à natação para Vincent. Supõe-se que cada um de nós é bom em alguma coisa. Talvez isso seja uma das maiores mentiras que eles nos dizem na escola, como nos dizer que Colombo descobriu a América, ou que seu voto realmente conta ou que as crianças são realmente iguais. Alô? Alguém já ouviu falar de biologia? Talvez a verdade terrível seja que alguns de nós não têm a capacidade de ser bom em alguma coisa. Mas eu queria poder dizer, isto é no que eu sou boa, é para isso que eu nasci. Esta é a minha. Mesmo se descobrisse algum dom que Deus me deu como Vincent, eu não teria muito tempo para exercê-lo. O café era o que sustentava vovó e eu, por isso o meu trabalho era uma questão de sobrevivência. Pode parecer que eu estou reclamando, mas eu realmente adoro o lugar. Tem sido a minha casa desde que me lembro. Encaixa com o meu cabelo loiro e meus suéteres tecidos a mão. Olhem a menina norueguesa de avental com belos bordados. Tirem uma foto dela e coloquem em um cartão postal! Eu coloquei meu avental sobre a minha cabeça e depositei o grão do café no moinho. A névoa flutuava além da imagem frontal das janelas. O homem do beco sem dúvida estaria com frio. Não eram os sem tetos que levavam cobertores com eles? Um carrinho de supermercado carregado com sapatos extras, um poncho ou dois, talvez uma tenda? Medi os grãos já processados e os tirei em uma cafeteira enorme. Uma pequena cafeteira foi reservada especialmente para café descafeinado, apenas alguns clientes de vovó consumiam café descafeinado. Escandinavos preferem o café forte e energizante - um desejo por cafeína que estava incorporado em seu DNA depois de todos esses séculos de escuridão e frio. Essa é a minha teoria. Meus pensamentos foram desviados para o rapaz, sem lar. Ele já havia tentado roubar o lugar? Era um viciado em drogas que precisava de dinheiro fácil? Nada parecia ter sido violado. Talvez só estivesse um pouco abaixo em sua sorte. Inclineime na janela traseira. Seu braço havia caído para seu lado. A luz amarela emitia um tom etéreo Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel em seu rosto adormecido, que parecia jovem. Talvez ele tivesse fugido. “Miau”. Caçadora de ratos, a gata da cafeteria, esfregou-se contra minha perna, gemendo pelo café da manhã. Sua barriga geralmente guardava bolas de pelo porque lhe pendurava até o chão. “Miau”. Ela mordiscou meu tornozelo. “Bom dia para você também.” Arranquei a ponta da rosquinha do dia anterior e atirei. A Caçadora de Ratos comeu o pedaço. Supunha-se que ela estava aqui para manter os ratos afastados. Nunca tínhamos visto um rato na cafeteria, mas eles corriam perto da porta. Caçadora de Ratos uma vez apanhou um rato de campo, mas não o comeu, ela preferia os bolos. Comecei a ensacolar os bolos do dia anterior. Ralph, um de nossos fiéis clientes, no geral os levava para alimentar às gaivotas no porto. Os bolos eram perfeitamente bons para isso, só um pouco secos. Os comia todo o tempo. E se o menino sem teto estivesse com fome? E se tivesse que pegar sua comida dos lixos? Provavelmente ele necessitava mais dos bolos do que as mimadas gaivotas. E em uma manhã tão fria, provavelmente ele gostaria de algo quente para tomar. Vincent tinha me advertido que não fosse lá fora, mas eu poderia deslizar a comida, realmente rápido. Não teria que estar próxima do cara. Servi um pouco de café em um copo de isopor, coloquei um cubo de açúcar, agitei dentro um pouco de espuma. Então, agarrei um pacote de grãos de café cobertos de chocolate – uma amostra grátis de nosso fornecedor. Tão devagar como foi possível, abri a porta traseira. Chegando, pus o copo no pórtico e acomodei a bolsa de bolos e o pacote de grãos de café na frente do copo. Logo, fechei com chave a porta, com meu coração batendo selvagemente. Talvez eu não devesse ter assumido o risco. Poderia ser um lunático. Poderia ter uma arma. Seria culpada pelo açúcar e pela cafeína que conduzia uma onda de grandes crimes em Nordby. Estive quase a ponto de sofrer um acidente cérebro vascular quando Vincent bateu na porta de entrada. Apoiou sua bicicleta contra a imagem na janela. Vincent é um garoto grande. “Tão grande quanto um celeiro”, minha avó costuma dizer. Ele tem o corpo de um nadador com forma em V. É como se a sua metade superior houvesse mudado com a metade inferior de outra pessoa. Vincent é meu melhor amigo cara desde a quarta série. Não se preocupem essa não é uma destas histórias de “Estou apaixonada pelo meu melhor amigo”. Por que eu não estava. Mas minha avó parecia não conseguia meter isso na sua cabeça. Ela pensava que os meninos e as meninas não podiam ser melhores amigos, por que ia contra a natureza. Ela não sabia o que estava falando. Este não é o Velho Mundo. Os garotos e as garotas são melhores amigos todo o tempo. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Vincent gostou de mim de imediato por que eu era diferente das outras garotas da sala. Ele nunca viajou em grupo. Ele nunca tentou levantar minha saia para ver minha roupa interior. Ele nunca me disse que eu era alta demais, ou que eu era estúpida, ou que meus sanduíches de salmão eram asquerosos. Nos tornamos melhores amigos. “Olá”. Digo, deixando-o passar. Ele atira suas luvas e o gorro na mesa. Seu cabelo negro estava grudado na testa. “Ainda continua no beco?” “Sim”. Vincent tira um pedaço de papel do bolso de sua jaqueta. “Procurei refúgios na lista de telefones, caso não tenha lar. Há um em Kingston. Escrevi o endereço”. Caminho para a porta traseira e começo a destrancá-la. “Darei lhe dinheiro para o ônibus. Sua avó não o quer por perto. Não é bom para o negócio”. Ele hesita por um momento, então agarra um rolo de cozinha na vitrine. “O que está fazendo?” Pergunto. “Nunca se sabe”. Vincent sempre teve esse modo de manter a cabeça erguida em qualquer situação, sem importar o que estivesse acontecendo. Acho que era tudo isso por nadar volta depois de volta, como meditação submarina. Era como um Buda flutuante. Abro a porta traseira e sobe as escadas. Eu olho por cima de seu ombro. O cara se foi. Os bolos e o café também não estavam. Vincent me dá o rolo de amassar. “Acho que você não tem que se preocupar com ele.” Enruga seu nariz e levanta o saco de lixo. “Isto está podre.” Eu o levo até o contêiner de lixo no final do beco. “Você tem certeza que não imaginou o cara? Talvez você só tenha visto algumas sombras.” Ele aponta a cabeça para um monte de caixas. “Não imaginei”, insisto. “Deixei um pouco de café aqui fora, e também alguns bolos.” “Falou com ele?” “Não. Mas o copo e o saco desapareceram, isso prova que eu não imaginei.” Dentro, Vincent lava suas mãos. “Chegarei tarde ao treino.” “Obrigado por vir.” “Não tem problema. Sempre te cubro Katrina. Vejo você na Assembleia.” Agarra seu gorro e luvas. Dou-lhe um bolinho, a metade do qual ele mete na boca. Podia comer um café da manhã inteiro no tempo em que eu tomava para colocar manteiga no meu pão. Caçadora de Ratos observa com inveja. Paro na calçada enquanto Vincent pedala seu caminho até a rua principal, pelas lojas mais escuras e estacionamentos vazios. Para aperfeiçoar seu talento. “Tchau”, eu grito. Faz um gesto com a mão e desaparece na esquina. Alegro-me que o cara sem-teto tenha desaparecido. Já era difícil fazer todas as minhas tarefas e ainda chegar a tempo na escola, sem acrescentar um possível assassino na mistura. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Tinha parecido jovem para mim, inclusive da minha idade. Ele provavelmente não era um assassino. Desejei que tivesse ido para casa – um lugar mais feliz do que um beco. Talvez o café o mantivesse quente por todo o caminho. Pego o jornal e estava a caminho da entrada, quando um flash branco capta minha atenção. Uma pequena coisa, brilhando como uma lanterna de papel, rolando pela rua tranquila. Rola, passando pela loja de coisas baratas, passando pela loja de suéteres feitos à mão, e pela loja de doces, e logo preso por uma brisa, salta para cima da calçada. Rola passando pela livraria, pela barbearia e para em meu pé. Era um longo e vazio copo de isopor.

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CAPÍTULO DOIS

No ano passado, este cara chamado Aaron começou a me chamar de a Garota do Café. Pelo menos, não era a Garota Furação, que era a opção óbvia já que meu nome era Katrina. E isso era melhor do que ser chamada de Lard Ass1, ou Cara de Cratera ou Homo – títulos encantadores, e outorgados para alguns dos meus companheiros de sala. “Ei, é a Garota do Café”. “Você quer pegar meu pedido, Garota do Café?” “Ei, Garota do Café, por que não dar ao seu Lard Ass o conceito de leite sem gordura?” Suas brincadeiras não eram um grande problema. Nem a garota popular nem a menina rechaçada, eu existia em algum lugar no meio – o lugar perfeito para os sem talento. Felizmente, ele não tinha aumentado a voz além de Aaron e seus amigos. E não era um apelido malicioso. Era só uma declaração dos fatos. De quem eu era – a garota que trabalhava no café de uma anciã estranha. E isso era como eu cheirava, não como uma anciã, mas como café recém passado. Às vezes, os grãos ficavam presos nas dobras da minha camisa ou nos sapatos. Às vezes, a cafeteira a vapor impregnava o aroma no meu cabelo. Os amigos de Aaron me cheiravam. “A Garota do Café cheira beeeem.” “Eu gostaria de bebê-la.” “Tenho uma ótima para você, Garota do Café.” Pergunto-me, será que tem uma lei universal para que os garotos se tornem irritantes a partir dos onze anos e deslizem encosta abaixo a partir daí? Embora eles nunca me dissessem isso quando Vincent estava ao redor. Vincent não tinha um apelido. Podia ter, já que sempre cheirava a cloro, pela forma que seus óculos deixavam marcas ao redor de seus olhos, pela forma em que raspava suas pernas antes das corridas. Mas ninguém irritava Vincent. Ele havia quebrado todos os recordes de natação na secundária de Nordby, embora a natação não desatasse o mesmo tipo de loucura que o basquete e o futebol, não poderia faltar a fila de troféus na vitrine do ginásio. Seu tamanho era considerável, também. Metade nativo americano, metade norueguês, parecia filho de Gerônimo e Conan, o Bárbaro, com exceção da atitude de assassino e todas as armas. Em outras palavras, era absolutamente gato! Assim que, enquanto outros levavam o peso de aberração ou perdedor, Vincent era deixado sozinho, que era exatamente o que ele gostava. Vincent e seu pai pertenciam à tribo 1

Segundo o Urban Dictionary: 1. Alguém que é gordo, preguiçoso ou estúpido. 2. Alguém que come grandes quantidades de comida. 3. Alguém que tem uma bunda gorda Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Suquamish, assim como um quarto dos estudantes de Nordby. O membro mais famoso da tribo era Chefe Sealth, também conhecido como Chefe Seattle. A tribo cobria a maior parte das terras do leste de Nordby, e tinha planos para construir um grande cassino e um complexo turístico. No entanto, até que terminassem o complexo, havia pouco dinheiro das tribos para o ensino superior. E o pai de Vincent não trazia muito como guarda de segurança. Assim, Vincet precisava de uma bolsa de natação. Segunda pela manhã sempre se iniciava com uma assembleia no ginásio. Café em copos de papel com nuvens de logotipo do Java Heaven enchiam o lixo. As crianças passavam o tempo no Java Heaven, por que oferecia o que estava na moda, como batidas, bebidas energéticas, e sorvetes expressos. Cidadãos da terceira idade frequentavam o Anna‟s porque este oferecia o que cidadãos da terceira idade preferiam, como café filtrado, creme sem lactose, e açúcar que vem em cubinhos. Elizabeth, minha melhor amiga, cumprimenta-me das arquibancadas. Sento-me entre ela e um estudante do primeiro ano que eu não conhecia. Vincent se senta com a equipe de natação algumas filas abaixo. Se isso fosse um piquenique ou um cinema, ou essas terríveis corridas de monster truck que ele me arrastava, Vincent haveria sentado ao meu lado. Mas na escola secundária, se reúne no poço d‟água com seu grupo de seguidores. No grupo de Vincent todos vestem as jaquetas da Equipe de Natação, Nordby Otters. Eu não tinha um grupo de seguidores. “Face está sentado ali”, Elizabeth me informa. Ela sempre sabia exatamente onde Face estava sentado. Você pensaria que ela tem uma unidade de GPS em seu traseiro ou algo assim. “Face é tãoooo fofo.” Ela diz isso pelo menos quatro vezes ao dia. Face era o codinome que Elizabeth deu para David Cord. Ela não quer que ninguém saiba que ela tem uma paixão assassina por ele. Face não era um membro do meio mundano. Seu grupo usava camisas polo e passavam às tardes sem chuva no Campo de Golfe Nordby. “Bom dia, estudantes”, Diretora Carmichael cumprimenta na quadra central. “Como todos sabem, a pausa de inverno começa na próxima quarta.” Gritos de alegria explodem. Estudantes batem com seus pés. Sr. Rubens, o professor de educação física, pula de sua cadeira e assopra seu apito. O entusiasmo volta para o tédio. A Diretora pigarreia. “Nós temos muito a fazer antes das férias de inverno, mas o encontro com o conselho escolar é da mais alta prioridade. Anúncios amarelos foram colocados nos armários para lembrar para aqueles estudantes que ainda não cumpriram esta exigência. Estes encontros são obrigatórios.” Alguém atrás de mim grita, “Fascista!” Carmichael faz uma careta. “A consulta anual com o conselho da escola é uma parte importante de sua educação, especialmente para aqueles de vocês que estão planejando ir para uma faculdade ou universidade”. Ela ajusta o microfone. Isso guincha como sempre faz. Elliott, o técnico gênio da escola, Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel sai correndo para consertá-lo como sempre faz. Alguém grita, “Nerd!.” Elliott estava indo para trazer o teletransporte para as massas ou inventar o tempo líquido ou algo assim e todos nós sabíamos disso. “Obrigada, Elliott.” A Diretora Carmichael ajeita seus óculos. “E agora Heidi Darling tem um anúncio, então, por favor, deem-lhe a devida atenção.” Elizabeth e eu grunhimos enquanto Heidi caminha até o microfone. Era toda essa coisa alegre que nos fazia estremecer. Alegria natural é digestível em pequenas quantidades. Mas ela era tão olhos arregalados, tão sorridente, tão saltitante. Que tipo de impressão digital de carbono faz uma pessoa manter esse nível de energia? “Escutem”, Heidi diz, durante seu caminho. “Este ano, o café do meu pai, Java Heaven, está patrocinando o Festival Solstício de Inverno, o que significa que vai ser o maior e melhor festival de todos os tempos.” Ela faz uma pausa, para a expectativa. Ninguém aplaude, mas ela continua sorrindo. “Então a coisa é que, nós precisamos de ajuda, pessoal. A decoração não ficará pronta sozinha.” Gemidos enchem o ginásio. Heidi planta suas mãos em seus quadris. “Meu pai disse que ele vai dar cupons do Java Heaven para aqueles que forem voluntários, válido para um Mocha Cloud Frappé de graça, que é orgânico por que nós nos preocupamos com o meio ambiente.” “Ei, Garota do Café”. Aaron, o irritante idiota, senta-se atrás de mim. “Você tem algo grátis para dar? Eu gostaria de provar seu frappé.” Elizabeth espeta seu queixo com um lápis, em seguida, inclina-se para perto de mim. “Talvez eu devesse pedir para Face ir ao festival.” “Faça isso”, eu digo, encorajando, embora eu saiba que ela nunca iria perguntar para ele. Elizabeth poderia espetar caras com lápis, ela poderia intimidá-los com seus grandes peitos e sua atitude te-digo-na-cara, mas ela não tinha ideia de como pedir para alguém sair com ela. Nós éramos ambas patéticas quando se tratava de homens. Nenhuma de nós jamais tinha estado em um encontro verdadeiro. Heidi acena um dos cupons do Java Heaven. “Se nós mostrarmos nosso espírito escolar, nós poderemos fazer o melhor Solstício de todos os tempos. Vaaaai Otters!” Heidi Darling era como um vírus, do jeito que ela invadia tudo – todos os clubes da escola, todas as comissões e eventos. Na primavera passada, ela pintou um mural no refeitório com o tema “espírito escolar”. Por que uma pessoa quer fazer tudo isso? E quem realmente se preocupa com o “espírito escolar”? Qual é o ponto? “Eu aconselho cada um de vocês a se voluntariar e ajudar com a decoração do festival”, Diretora Carmichael diz, tomando o microfone de Heidi. “O voluntariado será bom em suas aplicações da faculdade.”

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel E lá estava o ponto. Nosso foco principal, como adolescentes, segundo quase todos, é o pacote completo de nossas vidas com atividades para que possamos entrar em uma faculdade da Ivy League e, portanto, ter êxito na vida. Por que essa é a forma que funciona. Aplicações fraca = faculdade péssima. Faculdade péssima = péssimo trabalho. Péssimo trabalho = péssima vida. Em outras palavras, pobreza, alcoolismo, obesidade, e depressão. É suficiente estresse para fazer que seu cabelo caísse. Quando Heidi Darling se graduar, sua aplicação para a faculdade será do tamanho de uma enciclopédia. Ela estava na pista rápida para Harvard. “Obrigada, Heidi”, A Diretora Carmichael diz. Heidi caminha veloz de volta para a arquibancada. “Então, estudantes, lembrem-se de ver seu orientador antes...” A diretora para de falar enquanto as portas duplas do ginásio se abrem. Um cara estranho entra. Ele usa um kilt caqui, um suéter esfarrapado, e sandálias sem meias. Uma sacola está pendurada em seu ombro e seu longo cabelo castanho estava todo despenteado, como se tivesse dormido em um beco. “Posso ajudar?” A diretora pergunta. “Jovem, eu posso ajudar?” “Peço desculpas pela intromissão, madame.” Ele caminha em direção da arquibancada. Talvez ele seja um aluno novo, mas isso ainda não explica por que ele estava dormindo em nosso beco. “Ele é tão fofooo”, Elizabeth sussurra. Eu geralmente ignoro as declarações de Elizabeth de “fofo”. Com cada mês que passava sem namorado, seu padrão diminuía. Ela estava perigosamente perto de substituir “fofo” por “vivo”. No entanto, o rapaz parecia muito melhor sob as luzes brilhantes do ginásio do que sob a luz amarela do beco. “Desculpe-me”, Diretora Carmichael diz. “Você não é um estudante daqui. Temos um estrito código de segurança.” “Eu não sou, mais um momento”. Ele para de andar e observa a arquibancada. “Eu vim procurar uma garota. Quero dizer, uma jovem lady.” Uma gargalhada dos estudantes quebra a tensão. “Você não está procurando ninguém até que se registre no escritório”, a diretora diz. “Sr. Rubens irá lhe mostrar o caminho. Sr. Rubens?” Sr. Rubens coloca sua mão no ombro do garoto. “Venha comigo, jovem.” O rapaz calmamente desliza das garras do Sr. Rubens e caminha até a primeira fila. “Eu devo recompensar sua boa ação.” Então, ele aponta. “Lá está ela.” Oh, Deus.

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CAPÍTULO TRÊS

É uma coisa boa ter toda a população da sua escola virando e olhando para você? Se você marcou o touchdown vencedor – sim. Se você apenas quebrou um recorde de natação – sim. Se um cara estranho usando uma saia começa a gritar seu nome no meio de uma assembleia – nunca. Ele coloca suas mãos em concha ao redor de sua boca. Sua voz ecoa nas paredes enquanto ele direciona suas palavras para a oitava fila – minha fila. “Katrina, você poderia descer? Eu tenho uma entrega para fazer, então se você apenas descer, eu posso recompensar sua boa ação e seguir meu caminho.” Eu não sei que leis da física estão envolvidas, mas se você encher um ginásio com adolescentes e dizer-lhes para olhar para um objeto, o efeito que se produz é o calor. Eu meio que esperava entrar em combustão espontânea. Presa entre um estudante do primeiro ano e uma Elizabeth de olhos arregalados, eu não poderia escapar. Eu queria deslizar sobre a arquibancada. Puxar meu suéter por cima da minha cabeça. Evaporar. Sr. Rubens agarra o braço do cara. “É hora de você sair.” O rapaz levanta sua cabeça. Seu rosto mostrava uma expressão completamente perplexa. “Não há necessidade de violência. Você tem minha palavra de que eu sou um pacifista. Eu só preciso de um pouco de tempo com Katrina”. Eu afundo tanto quanto posso, sem ter uma lesão medular. Eu foco nas botas de couro de Elizabeth. Como ela consegue mantê-las tão brilhantes? Por que ela escolheu laços vermelhos? Por que este cara está fazendo uma cena e como ele sabia meu nome? “Você vai ter que esperar até as três horas, quando a escola acabar. Então, você poderá falar com Katrina”, Diretora Carmichael diz. “Talvez essa não seja a regra em sua escola, mas é a nossa regra.” Uma longa pausa se segue, durante a qual eu mantive minha cabeça abaixada. “Eu não deveria quebrar mais regras”, o cara diz, pensativo. “Eu irei esperá-la até as três horas.” Os passos se desvanecem e as portas do ginásio se fecham. Elizabeth me dá uma cotovelada. “Ele se foi.” Todo mundo começa a falar. Diretora Carmichael nos dispensa para nossas aulas. “Quem era?” Vincent pergunta enquanto saímos do ginásio. “Esse era o cara que estava dormindo no beco.” Eu mantenho minha voz baixa, enquanto os estudantes passam, sorrindo para mim. “Veja, eu não o imaginei.” Elizabeth empurra-se entre nós. “Hein? O que você está falando?”

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Eu não tenho tempo para contar para você...” “Ele tem nossa idade”, Vincent interrompe. “Eu pensava que ele era um velho sem-teto. Por que ele veio para a assembleia? Ele vai vir para esta escola? O que ele quis dizer quando disse que queria recompensar você por sua boa ação?” “Ele é lindo”, diz Elizabeth. “Eu gostaria que ele me recompensasse.” Diretora Carmichael acelera em nossa direção. Embora ela só possa dar pequenos passos em seus saltos altos, ela pega impulso como uma dançarina de sapateado enlouquecida. “Katrina”, ela chama, acenando. Vincent olha para seu relógio, dá de ombros, desculpando-se, então segue para sua sala. “Eu vou te contar tudo na hora do almoço”, eu asseguro para Elizabeth. “É melhor.” Ela se afasta. A diretora alisa seu cabelo curto e prende sua respiração. “Katrina, por favor, explique para seu amigo que este não é um campus aberto e que no futuro ele deve se registrar no escritório. Não podemos ter esse tipo de perturbação novamente. No nosso mundo pós-11/9, devemos estar firmes e fortes com nossos procedimentos.” “Ele não é meu amigo”. Eu viro minhas costas para alguns curiosos. “Não há necessidade de mentir”. Ela suspira. “Você não está em apuros. Ele é muito bonito e eu posso ver por que você iria querer sair com ele.” Ela brinca com sua blusa. “Apenas tenha certeza que isso não aconteça novamente.” “Não acontecerá novamente”, eu digo. “Eu nem sequer o conheço.” “Bem, obviamente, ele conhece você.” Cheguei em Mitologia Mundial um pouco antes que o sino tocasse, pegando minha cadeira atrás de Vincent, ao lado da janela. Sussurros zumbiam ao redor da sala. Olho pela janela para evitar os olhares curiosos. Uma fila de cerejeiras sem folhas estão alinhadas no estacionamento. O céu de inverno estava coberto com nuvens, transformando nosso pequeno canto em um mundo cinzento. Eu devo recompensar sua boa ação. Eu não esperava ser recompensada pelos bolos e café. E nem pelos grãos cobertos de chocolate que tinham sobrado da tarde. Eu nem sequer esperava um agradecimento, mas não fazer um espetáculo para ser agradável. Ele estaria esperando por mim até as três horas. “Vincent, você ainda tem o endereço daquele refúgio?” Vincent enfia a mão no bolso de sua camisa e me entrega um pedaço de papel rasgado de seu caderno. “Eu acho que ele não é um sem-teto”, ele diz. “Eu aposto que ele ficou bêbado em uma festa e acabou desmaiando.” “Sim, isso faz sentido. Mas apenas no caso.” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Se eu cruzasse com ele, eu diria. “De nada, mas não se preocupe em me recompensar”, e ele iria embora, para nunca mais andar no meio de uma assembleia e apontar para mim. Logo, o incidente poderia desaparecer da consciência coletiva, substituída por outro momento embaraçoso de outra pessoa – talvez uma queda no refeitório ou um peido na sala de estudo. Mas o professor de Mitologia Mundial, Sr. Williams, não estava pronto para deixar meu momento embaraçoso evaporar. “Katrina”, ele diz, enquanto ele colocava alguns livros sobre sua mesa. “Seu visitante esta manhã, o que foi que ele disse?” Minhas bochechas queimam. “Ele não era meu visitante. Eu nem sequer o conheço.” Eu finjo que tenho algo para apagar. “Mas ele não disse que queria premiar sua boa ação?” Alguns dos outros garotos riem e repetem, “Boa ação.” “Eu aposto que foi boooom”, Aaron diz, levantando suas sobrancelhas para mim. Ótimo. Dê para um estranho uma xícara de café grátis e, de repente, todo mundo acha que você é uma puta. “Bem, isso é uma coincidência, porque hoje nós começamos um capítulo sobre as boas ações.” O Sr. Williams pega um texto e senta-se sob a borda da sua mesa. Suas coxas se espalham na sua calça de veludo. “A boa ação é um tema comum na mitologia. Algumas vezes é recompensado com fortuna, fama ou poder. Mas às vezes a boa ação causa a queda do praticante.” O ar de inverno escoa sob as janelas da sala de aula. Estremeço. Eu era jovem demais para uma queda, não era? “Começamos esta seção com uma fábula chamada „Androcles and the Lion‟.” Eu só meio que ouvi enquanto o Sr. Williams lia a história de um escravo fugitivo que encontra um leão na selva e tira um espinho da pata do leão. Como recompensa pela boa ação, o leão poupou a vida do escravo, quando mais tarde se encontraram no Coliseu. Eu brincava com um papel amarelo que alguém tinha enfiado em meu armário: Entrevista com o orientador escolar, quarta-feira, 08h:00 da manhã. Minha visão turva quando cruza com o suéter de Vincent, que estava úmido ao redor da gola por causa de seu cabelo molhado pelo treino. Vincent não precisava de um orientador. Ele sabia exatamente o que ele queria e para onde estava indo. Da mesma forma, que o sonho de Elizabeth era abrir uma galeria de arte em Nova York e isso guiava todos os seus movimentos. Eles sabiam. Eu não sabia. O Sr. Williams fecha seu livro. “Um dos temas principais nessas histórias de boas ações é que nunca devemos subestimar aqueles que parecem inferiores, como quando um escravo humilde ajuda um Rei da Selva. Às vezes, as pequenas e dóceis criaturas nos surpreendem. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Suas tarefas nesta semana é escrever sua própria história de boa ação, três ou cinco páginas, baseado numa experiência pessoal, e trazer para a aula na sexta-feira”. Ele sorri para mim. “Vamos aguardar a sua, Katrina, segurando a respiração.” O sino toca. “Oh, e leiam a próxima história para amanhã.” Pelo resto da manhã, eu suportei as perguntas. O que você fez? Onde você fez? Ninguém se preocupava com a verdade. Os rumores foram soltos e vagavam pelos corredores como tarântulas peludas. Elizabeth e eu almoçamos em seu carro, escondidas atrás do vidro fumê. Eu puxo meu almoço da minha mochila e lhe conto tudo. “É isso? Café e alguns bolos?” Ela desembrulha seu sanduíche de hummus. “E alguns grãos de café cobertos de chocolate?” “Novamente, é isso?” “Desculpe desapontá-la”. Eu tiro a tampa de alumínio do meu iogurte. Vovó Anna colocou um dos seus sanduíches do Velho Mundo na minha mochila – um arenque em conserva e cebola. Tente comer um desses no almoço e manter tua posição no meio mundano. “Ei, talvez você possa chamá-lo para o Solstício. E eu chamo Face e nós teremos um encontro duplo.” “O que? Eu nem sequer o conheço.” Quantas vezes eu teria que repetir isso? “Então? Ele é fofo”. “Fofo? Sim, ele é fofo.” Eu admito. “Mas ele usa um kilt estúpido.” “O que há de errado com um kilt? Pelo menos é diferente. Os caras de Nordby só usam camisetas e jeans. Aborrecido!” “Mas ele estava dormindo em nosso beco. Você não acha isso estranho?” Elizabeth tira a casca de seu sanduíche. “Há provavelmente uma boa explicação.” Elizabeth era minha melhor amiga desde a sétima série, quando nossa menstruação veio pela primeira vez no mesmo dia e acabamos no gabinete da enfermaria, chorando e confusas. Bem, eu tinha sido a única a fazer a maior parte do chorar, enquanto ela estava simplesmente chateada. “Não é justo!”, ela gritou quando a enfermeira nos entregou um absorvente com abas. “Como eu vou usar isso com jeans? Todo mundo vai ver.” Eu lhe assegurei que ninguém poderia ver, e ela me assegurou que ninguém poderia ver o meu. Melhores amigas, exatamente assim. “Como é que Heidi está no comando para a decoração da festa?” Elizabeth se queixa. “Eu deveria estar. Ela não é uma artista.” “Heidi está no comando por que ela quer estar no comando.” “Certo. Bem, eu vou me voluntariar este ano. Seria bom nas minhas aplicações para a faculdade.” “Sim, provavelmente seria.” Elizabeth abre um pacote de batatas fritas. Enquanto eu pego um punhado, Vincent e Heidi Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel passam. Por que ele estava andando com ela? Claro, ambos estavam na equipe de natação, mas ele geralmente não saia com as nadadoras. E Vincent sabia que eu não gostava de Heidi Darling. Ele sabia que o café do seu pai tinha roubado a maioria dos nossos clientes. Ele sabia o quanto eu desprezava o Sr. Darling. Heidi ria de alguma coisa, jogando seu rabo de cavalo de um lado para o outro. Vincent sorria para ela. “Você viu como ela parece falsa sorrindo?” Elizabeth pergunta, enchendo sua boca com batatas. “O que é isso? Aposto que ela gosta dele. Aposto que ela vai pedir para ele ir para o festival com ela.” “De jeito nenhum. Sério? Você acha que ela gosta dele?” “Por que não? Por que ela não gostaria? Por que você não gosta dele?” “Por que ele é meu amigo.” E por que eu sabia tudo sobre ele. Eu sabia que ele algumas vezes tinha uma pequena espinha em seu lóbulo da orelha. Eu sabia que ele tinha gases ruins, se ele bebia leite. E eu sabia que ele, às vezes, tinha pesadelos com afogamento. Nosso relacionamento ia muito além do gostar. Nós conhecíamos um ao outro. Mas se Heidi gostava dele, então, isso era um pesadelo total. Se meu melhor amigo namorasse a filha do meu inimigo, então eu teria que ouvi-lo dizer como ela era maravilhosa e eu teria que agir bem por que é isso que os melhores amigos fazem. Eu teria que sair com eles. E eu seria a terceira roda. Heidi e Vincent caminham para o edifício de ciência. Pouco antes da porta se fechar, ele toca seu braço. Um alarme de incêndio dispara na minha cabeça. No grande esquema das coisas, tocar o braço de alguém não é nada. Um braço é apenas um braço. Mas eu não saio por aí tocando os braços das pessoas. Tocar o braço de alguém é sem dúvida um gesto de carinho. O carinho pode levar para outro tipo de coisas. De jeito nenhum. Nunca. Nem em um milhão de anos eu iria sair com Heidi Darling. Esqueça isso. Vincent teria que escolher entre nós duas. E ele me escolheria, pois nós somos amigos desde a quarta série. Ou será que não?

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

CAPÍTULO QUATRO

Chegaram às três horas, justo a tempo. De jeito nenhum que eu ia sair pelas portas da frente da escola. O estranho cara vestindo kilt poderia ficar esperando. Assim, depois de pegar meu dever de casa do armário e escapulir pela porta dos fundos da sala de arte, eu me apresso em passar pela pista de tênis e ir para a calçada, evitando totalmente a frente da escola. Nenhum sinal dele. Ufa. Eu não gostava de ir de ônibus para casa por que a parada era na designada Main Street que ficava em frente ao Java Heaven. Os estudantes que desciam sempre iam direto para a cafeteria do Sr. Darling. Nunca davam os doze passos a mais para a Cafeteria Mundo Escandinavo da Anna. Só eu caminhava aqueles passos, o que sempre me fazia sentir como a única garota que não foi convidada para a festa de aniversário. Sr. Prince, nosso orientador da escola, uma vez fez um discurso em uma assembleia sobre como todos secretamente se sentem uma pária, mesmo as pessoas populares. Como poderia Heidi Darling se sentir como uma pária, com tantas pessoas aglomerando-se na loja de seu pai? Às vezes, eu pego uma carona com Elizabeth, mas nas segundas-feiras ela tinha que ficar depois para as aulas de matemática. Mesmo que eu tenha dezesseis anos, eu ainda não tinha meu carro. Ao contrário de Elizabeth, eu não tinha pais ricos, ou qualquer pai, de qualquer forma. Felizmente, Nordby era pequeno o suficiente para se locomover a pé, ou de bicicleta. Nordby era uma espécie de lugar estranho. A baía era o lar de uma pequena frota pesqueira e uma marina. À beira da água, dois restaurantes de frutos do mar equilibrados em pilares. Main Street, que é cheia de pequenas lojas, corre paralela à água. Os edifícios são pintados brilhantemente e abrandados com adornos de biscoito de gergelim e murais folclóricos. Em um sinal em cada extremidade da rua se lê: VELKOMMEN, que é bem-vindo em norueguês. Em seus primeiros anos, Nordby era tudo sobre a Noruega – daí os grandes Filhos do Salão da Noruega que fica na extremidade norte da Main Street. Mais com o tempo as coisas se misturaram. Alguém construiu uma torre de relógio suíço ao lado da padaria. Alguém ergueu um moinho holandês encima da loja de calçados. Alguém colocou uma estatua de bronze de um menino da Bavária Lederhosen. Eu acho que os planejadores da cidade só queriam que Nordby parecesse como uma cidade de contos de fada. E assim o fizeram. A ida a pé da escola para Main Street normalmente demorava cerca de quinze minutos. Eu passo pelo novo cartaz da Java Heaven. Uma fotografia da família Darling, composta de Heidi, Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel sua mão e seu pai, sorrindo para os pedestres, com halos dourados brilhando acima de suas cabeças. VOTEM PELO CAFÉ ORGÂNICO MAIS CELESTIAL DE NORDBY. Quem votaria? Ninguém tinha me enviado uma cédula de votação. Nós não tínhamos um cartaz para o nosso café. Minha avó não gostava das coisas modernas, como propaganda, que era uma razão para não estarmos fazendo muito dinheiro. No topo disso, tínhamos perdido uma eleição de melhor café. Meu cérebro entrou no modo “Eu sou uma perdedora total” enquanto eu olhava para a cara alegre de Heidi Darling. Ela poderia adicionar “Modelo de Cartazes” na suas aplicações. “Dia agradável.” “Jesus!” Agarro firmemente as alças de minha mochila. O cara do beco estava de pé ao meu lado. “Você me assustou.” “Minhas desculpas.” Seu suéter estava começando a desfiar ao longo da borda e seu kilt tinha uma mancha de grama. Eu esperava que alguém que dormiu em um beco fedesse, mais um perfume agradável e floral desprendia dele, mas não familiar. Ele percebe que eu o estava olhando. “Desculpe a minha aparência. Eu não sou normalmente tão desalinhado, mas é que eu venho de uma festa na Escócia. Você sabia que eles lançam árvores para cima? É um país bonito. Espero que me enviem novamente para lá, mas eu duvido muito que façam isso. Eu fiquei muito mais tempo do que eu devia.” Talvez eu devesse sentir medo. Ele era um estranho, afinal de contas - um estranho muito bonito. Eu nunca tinha visto olhos tão azuis escuros – o tipo de azul que você encontraria em um gráfico de cores primárias. Quando ele pisca, seus cílios espessos tocam suas bochechas. Uma sensação estranha de calma toma conta de mim. Um grupo de estudantes passa entre nós. Alguns apontam para seu kilt. Ninguém em Nordby High usava kilt, nem mesmo o presidente do Comic Book Club. “O que você quer?” Eu pergunto, calma tornando-se vergonha. Ele cruza seus braços. “O que eu quero, Katrina, é cumprir a minha obrigação.” “Oh. Você quer dizer que você quer me recompensar? Você não precisa me pagar.” “Pagar você? Eu temo que eu não tenha nenhuma moeda.” Ele sorri. “Estou aqui para lhe dar o que você mais deseja.” Okay. Alerta de estranho. Eu tiro o papel que Vincent me deu do meu bolso. “Você precisa de um lugar para dormir? Aqui há um endereço de um abrigo. Eu acho que você não precisa de moeda para um abrigo. É que você não pode dormir no nosso beco novamente. Acredite em mim, se minha avó achá-lo lá, ela vai chamar o Oficial Larsen. Ela irá. Ela o chama para tudo.” Ele ignora o papel. “Eu não tenho planos de dormir em seu beco novamente, mas não é minha escolha. Meu trabalho determina onde eu durmo. Um dia eu poderia acordar na cama de Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel um Marajá como convidado e no dia seguinte eu posso me encontrar na tubulação de esgoto de Londres.” Ele dá de ombros. “Felizmente, onde quer que eu acabe, eu absorvo o idioma. Faz as coisas muito mais fáceis.” “Uhum.” O cara era louco. Não importa o quão bom ele cheirava, ou como seu sorriso era encantador, ele estava louco. Enfio o papel na sua mão. “Bem, o abrigo provavelmente será muito mais quente do que a tubulação de esgoto de Londres. Okay, adeus.” Eu rapidamente me afasto. Não me siga, não me siga. É claro que ele segue. Uma vez que você está no radar de um louco, esqueça isso. “Eu não tenho nenhum dinheiro, se é isso que você quer”, eu digo, tentando manter alguma distância entre nós. “O que quero é irrelevante. Estou aqui para discutir o que você quer.” “Você pode, por favor, parar de me seguir?” “Mas eu devo recompensar a sua bondade.” “Não se preocupe com isso.” Mudo para um ritmo mais rápido de caminhada. “Eu não estou preocupado. Mas existem regras relativas a esses assuntos. Sua boa ação não teve nenhuma intenção egoísta por trás. Isso é extremamente raro de acontecer.” Suas sandálias fazem um som de flop-flop quando se igualam ao meu ritmo. “Mesmo que eu quisesse, eu não poderia ignorar sua boa ação altruísta. Eles vão apenas me enviar novamente até que eu te recompense.” Quem eram “eles”? Vozes em sua cabeça? “Não há necessidade. Realmente, não foi nada.” No cruzamento, eu aperto o botão da faixa de pedestres. Um carro repleto de atletas passa por lá. “Ei, é a Garota do Café e o Garoto Saia!” Aaron grita. O cara do beco parece não ouvir o insulto. Ele só continua me encarando. Eu aperto o botão do cruzamento mais três vezes, mas o sinal não acende. E se ele tivesse uma faca em sua mochila? Eu poderia estar em um perigo real. Um ônibus da escola passa, cheio de nadadores em seu caminho para algum encontro. Vincent sorri para mim da janela, então congela no meio de um aceno quando ele percebe o cara do beco. Vincent seria a última testemunha que iria me ver viva? O cara ainda estava olhando. “Se você continuar me seguindo, eu vou chamar a polícia.” Eu aperto o botão novamente. CAMINHAR. Pressionando e afrouxando meus braços, eu cruzo a estrada em velocidade recorde. Se ele tentasse alguma coisa, eu acenaria para um carro e gritaria “AJUDEM!” Quando chego na calçada, viro-me para avisá-lo novamente, mas ele não estava mais lá. Ele tinha desaparecido. Ajustando minha mochila, eu desço a colina íngreme, feliz por ter me livrado dele. Ele tinha problemas. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Uma brisa fria arrasta o cheiro salgado da baía até a costa. O inverno chegava a Nordby em Outubro e ia até Abril. Semana após semana de nuvens e vento era a norma. Enfio as mãos nos bolsos. Aquela tinha sido a sombra de um rabo de cavalo ao lado de Vincent no ônibus escolar? O que havia de errado comigo? Por que eu estava preocupada com Heidi e Vincent? Eles tinham a equipe de natação em comum, era isso. Apenas a equipe de natação. A coisa agradável sobre a Equipe de Natação do Nordby High era que a maioria das pessoas podia entrar. Você não precisava ser um recordista. Tudo que precisava fazer era nadar quatro voltas na piscina sem descansar no meio e sem qualquer tipo de dispositivo de flutuação. Então, se você pudesse fazer isso, você estava dentro. Mais se você tem uma câimbra logo e afunda como uma pedra logo na segunda volta, como eu tive, então você está fora – mesmo você tendo comprado um par novinho de óculos e uma assinatura da revista Swim Magazine, por que você esperava que natação fosse a sua coisa. “Olá.” O cara do beco estava sentado em um banco numa parada de ônibus na minha frente. Quando ele tinha me passado? “Eu só quero deixar bem claro que eu não estou seguindo você. Eu estou apenas repousando um pouco.” Seu longo cabelo castanho balança sobre seus ombros quando a brisa passa. “Você não me deu a oportunidade de explicar.” Minha voz interior gritou, “Corra! Ele é um esquisito. Afaste-se dele”. Se eu tivesse escutado minha voz interior, eu teria me salvado de um monte de problemas, isso é certo. Mas ouvir uma voz interior requer confiança, o que totalmente faltava para mim. Felizmente, havia um homem mais velho sentado no banco, então eu me senti segura – momentaneamente. “Como você sabe meu nome?” “Faz parte do meu trabalho.” Ele pega sua mochila e tira um pequeno livro negro. Estava intitulado, A Lei. “Eu temo que eu não esteja lidando com isso muito bem. Você vê, eu não estou nessa situação há muito tempo. Eu normalmente apenas entrego mensagens.” “Você é um mensageiro?” Eu não tinha ouvido falar de qualquer serviço de mensagens em Nordby. “Isso é correto”. Ele me mostra o lado de sua mochila. Em letras douradas se lia: Serviço de Mensagens. Eu decido que ele provavelmente deve ter algo em torno da minha idade, ou talvez seja um ano mais velho. Aonde ele vai para a escola? Será que ele fugiu de uma instituição mental? Olho para meu relógio. “Eu tenho que começar a trabalhar.” “Espere”. Ele se inclina para frente. “Só ouça”. Ele abre o livro preto e lê. “Se acaso acontecer que no decurso de sua viagem, você seja agraciado por um ato espontâneo de bondade altruísta, então você deve recompensar o ato outorgando a pessoa que te concedeu o Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel desejo mais querido.” Ele coloca o livro aberto no seu colo. As páginas estavam em branco. “Eu devo obedecer ao que está escrito neste livro”. O homem com o jornal olha para o livro em branco, então escapa para a outra extremidade do banco. “CORRE!” grita minha voz interior. Se eu corresse, ele provavelmente me seguiria. Mas se eu deixasse ele me recompensar, então este jogo louco poderia terminar. Ele poderia seguir seu caminho louco e esquisito e eu poderia começar a trabalhar. “Eram apenas alguns bolinhos velhos”, eu digo, agradavelmente. “Eles não valiam muito. Você pode me dar esse lápis e nós deixamos as coisas assim.” Aponto para o lápis que saia de um de seus bolsos do kilt. Ele estreita seus olhos para mim, então lê novamente seu livro falso. “Seja cuidadoso, o presenteador, ao não ter uma disposição egoísta ou avarenta, pode tentar persuadi-lo de que um símbolo ou um adorno seja suficiente.” Ele levanta sua cabeça. “Um lápis? Acho que não. Lápis são bastante comuns nesse século.” Uma jovem mulher hispânica passeia até a costa e senta ao lado do homem com o jornal e o cara do beco. Reconheço-a da farmácia, onde ela trabalhava como caixa. Ela coloca um saco de compras no colo. Olhando por cima de um talo de aipo, ela olha para o cara do beco com um sorriso tímido. Ele devolve seu sorriso, então volta sua atenção para mim. “Bem, o que será? O que você mais deseja?” Eu não estava prestes a dizer para um cara completamente estranho que o que eu mais desejava era não me sentir como uma perdedora o tempo todo. O que eu queria era ser boa em alguma coisa, como Elizabeth com sua arte, ou Vincent com sua natação. Esqueça boa – que tal excepcional? “Eu quero o lápis.” “Eu não acredito em você. Você está sendo desonesta.” “Tudo bem. Então, que tal o livro?” Ele abraça o livro em seu peito. “Você não pode ter este livro. É só para mensageiros.” “Olha, eu não tenho tempo para este jogo.” Eu aponto para meu relógio. “Eu estou atrasada. Por que você não apenas me dá o que você quer me dar para que nós possamos começar a trabalhar?” Ele dá de ombros. “Se eu soubesse o que você mais deseja, eu já teria te dado.” Sinto-me como uma nadadora com uma barbatana dando voltas, voltas e voltas. Eu preciso sair daqui. “Adeus.” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Mas quando eu dou apenas um passo, ele dá um salto, levantando-se. Era isso, o momento entre a vida e a morte. O flash da lâmina de uma faca, o clique de um gatilho. Abro a boca para gritar. Se Elizabeth estivesse aqui, ela o chutaria direto nas bolas. E se eu chutar suas bolas? É mais fácil chutar um cara nas bolas se ele está usando um kilt? O homem com o jornal fica tenso. A mulher com os mantimentos segura firmemente sua bolsa. Mas ele não ataca. Ele só coça sua cabeça. “Tudo bem, então. Se você não vai me dizer, eu descubro sozinho.” Seu olhar varre meu corpo. “Você parece estar vestida da mesma forma que os outros alunos que observei na sua escola. Nada fora do normal, então eu acho que você se considera uma pessoa comum.” Ele estava me dando nos nervos. “Por favor, se apresse.” “Sendo uma pessoa comum, provavelmente você deseja a mesma coisa que as outras pessoas comuns desejam.” “Tanto faz.” Vovó Anna iria começar a se preocupar. Ela provavelmente chamaria o Oficial Larsen, o que poderia ser uma coisa boa, considerando as circunstâncias. Ele folheia as páginas do seu livro, procurando por algo. “Agora, o que pessoas normais desejam? Essa é a questão.” A mulher hispânica fala. “Eu acho que é a paz do mundo.” O Cara do Beco sacode sua cabeça. “Só poucos pedem pela paz mundial. E eles são tão raros como um dia ensolarado em Nordby. Há uma tabela aqui em algum lugar. Aqui está.” Ele passa seu dedo pela página. “Eu deveria ter sabido. Fortuna é o que as pessoas mais desejam.” Ele devolve o livro à sua mochila e me olha, seus olhos arregalados, esperançosamente. “É isso o que você mais deseja, Katrina? Quer fortuna?” Jogue o jogo, se livre do maluco. “Ótimo. Pegarei isso.” Fico de lado enquanto ele revolve seus bolsos. “Agora tenho que encontrar o objeto perfeito para conter o desejo.” Ele tira um rolo de barbante, um punhado de tampinhas de garrafas, todo tipo de lixo. Então, ele puxa o pacote de grãos de café cobertos de chocolate. “Um pequenino grão vai fazer. É como dizem na Escócia, você sabe. Pequeno isto e pequeno aquilo. Você gostaria de ver um pouco da engenhosa magia dos grãos de café, senhorita?” Sorrindo, ele pousa um único grão na palma aberta da sua mão. A mulher inclina-se para ver. “Um grão de café? Eu amo café, mas é tão caro. Eu não compro.” “Eu sinto muito em ouvir isso”, ele diz para ela. Então, ele aperta o grão entre seus dedos e segura-o com o braço estendido, muito perto do meu rosto. “Coloquei seu desejo neste grão de café. Que inteligente de minha parte, não acha?” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Eu levanto minhas sobrancelhas, fingindo espanto. “Vá em frente. Pegue.” “Se eu pegar, você vai me deixar em paz?” “Eu acho que devo fazer isso. Tenho muitas mensagens para entregar.” Estendo minha mão e ele deixa cair o grão nela. “Vá em frente. Coma.” Como se eu fosse comer um grão que estava no bolso de um louco sem-teto. Quem sabe que tipo de germes tinha lá – talvez um pouco do tubo de esgoto de Londres. Se eu comesse, eu pegaria E.coli, disenteria ou alguma lombriga enorme. “Vá em frente”. Seu perfume maravilhoso e não identificável soprou sobre mim – picante e florido, ao mesmo tempo. Mas até mesmo o melhor perfume do mundo não poderia matar os germes E.coli. Eu fingi colocar o grão na minha boca, mas o mantive na minha mão, um velho truque de infância quando vovó Anna costumava me dá cápsulas de óleo de fígado de bacalhau. Enquanto mastigava o ar, eu secretamente deslizo o grão para o bolso do meu jeans. Então, eu engulo falsamente. O Garoto do Beco coça sua cabeça. “Bem, eu não tenho mais negócios com você, eu acho que devo ir.” “Okay. Adeus.” Ele recolhe sua mochila e, para meu alivio, começa a subir a colina íngreme. “Adeus”, ele chama, seu kilt remexendo com cada passo. “Tenha uma vida longa e saudável, Katrina Svensen.” Junto com o homem lendo o jornal, e a mulher segurando a sacola de supermercado, eu observo enquanto ele caminha. Nenhuma dúvida sobre isso, este tinha sido o encontro mais estranho da minha vida. “Seus olhos brilham como a lua”, a mulher hispânica diz. Então, ela enfia a mão na sacola e tira uma lata grande de café. Ela olha para a lata como se nunca tivesse visto isso antes.

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

CAPÍTULO CINCO

Por que nós bebemos café? Quando crianças, nós odiamos isso. É nojento. Mas em algum momento ao longo do caminho aprendemos a aceitar o sabor amargo, e até mesmo a ansiar. Quando isso acontece exatamente? Eu acho que isso acontece quando nós percebemos que nada de excepcional irá acontecer em nosso caminho. Que talvez nós devamos apenas esquecer Shirley Temples2 e suco de abacaxi e limonada, jogar fora os guarda-chuvas de papel festivos e as cerejas maraschino, e se contentar com uma caneca de líquido marrom. Naquela tarde de inverno, o vapor da rua empapava a janela do Café Mundo Escandinavo da Anna. Uma onda de ar quente e úmido me golpeia quando eu entro. “Aí está você”, Vovó Anna me chama. Ela está atrás do balcão segurando algumas toalhas molhadas. “Eu estava preocupada com você. Quase chamei o Oficial Larsen”. “Desculpe-me.” “Olá, Katrina.” Quatro homens acenam da mesa do canto - Ingvar, Odin, Lars, e Ralph. Homens corpulentos que dirigem barcos de pesca nos anos em que o Caranguejo Rei 3 tinha governado o Mar de Bering. Ralph era o único nativo americano do grupo, e apesar de um ocasional argumento sobre os direitos da pesca nativa, eles eram um grupo sólido de amigos. Aposentados, eles se reuniam todos os dias para jogar um antigo jogo Viking chamado Hnefatafl, que significa “Mesa do Rei”. Minha avó chama esses homens de Os Garotos. “Por que é que está tão quente aqui dentro?” Eu pergunto. “A máquina de lavar louça fez kapoot”, Ingvar explica, um cachimbo apagado pendurado no canto da sua boca. “Expeliu vapor como um dragão cuspindo fogo.” “Fez uma verdadeira bagunça”, Odin diz, movendo uma das peças brancas do tabuleiro. “Ei, Anna, onde estão aqueles sanduíches?” Eu sigo minha avó para a sala de trás, onde ela despeja as tolhas em um cesto. Seus sapatos chapinham, encharcados com água e sabão. “Você não vai chamar o Oficial Larsen por causa do lava-louças, né?” Eu pergunto. Ela alisa seus cabelos curtos cinza. “O Oficial Larsen não entende os aparelhos. Ralph olhou. Ele disse que uma bomba quebrou e que eu vou ter que comprar um novo. Ou seja, dois aparelhos mortos neste mês. Eu não sei como vou pagar por eles.” Ela suspira, depois me dá um 2

Bebida não-alcoólica. Esse Caranguejo Rei, é um mega caranguejo que existia no Mar Bering.

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel abraço como sempre faz depois que eu chego da escola, espremendo-me com seu grande e suave estômago. “Ainda estamos quebradas?” “Agora não se preocupe com isso.” Vovó Anna sacode um dedo para mim. “Essa é minha preocupação, e não sua.” “Anna!” Odin grita. “Você quer matar um homem de fome?” “Você está gordo demais para morrer de fome”, ela grita de volta. Ela pega o esfregão em um canto. “Poderia fazer para Os Garotos alguns sanduíches de sardinha? Há ainda uma poça de água para limpar.” Sanduíches de sardinha. Para a satisfação da multidão de escandinavos e turistas que querem um sabor do Velho Mundo, nós servimos sanduíches de pão escuro denso, com camadas de coisas como cebolas vermelhas, arenque, e tomate. E sardinhas. Esses peixinhos deveriam ser bons para você e eles não tem um gosto tão ruim, uma vez que você se acostuma com o fato de que você também esta comendo pele e ossos. Coloco minha mochila em uma prateleira e puxo um avental sob minha cabeça. Depois de lavar minhas mãos, pego um pedaço de pão de centeio e me junto com Irmgaard no balcão. Ela trabalhava no Anna‟s desde que eu consigo lembrar – sempre quando nós abrimos, sempre quando nós fechamos. Além de mim, Irmgaard era a única outra empregada do café. Nós sabíamos que ela morava sozinha em um complexo de apartamentos na periferia da cidade. Nós sabíamos que ela poderia fazer uma sopa ótima. E nós sabíamos que ela era uma bonita para corações, embora ela nunca usasse maquiagem; só usava simples e escuras roupas; e mantinha seu cabelo super curto. Sua beleza era a razão pelo qual, eu imaginava, Os Garotos passavam tanto tempo no Café da Anna. Mas ninguém sabia onde ela morava antes de vir para Nordby. Ninguém sabia sua idade – nós imaginávamos que fosse aproximadamente quarenta. E ninguém sabia por que ela tinha feito voto de silêncio. Irmgaard deixa cair um bloco de manteiga em uma panela de sopa, em seguida, mexe graciosamente enquanto eu construo os sanduíches. Ela coloca dois punhados de cebola na panela. Elas chiam e enchem o bar com seu aroma. Eu não me importo com seu silêncio. Isso nunca pareceu estranho, do jeito que poderia ser com outras pessoas. Isso filtrava em mim, de uma forma hipnótica. Odin berra novamente. Eu empilho os sanduíches em uma bandeja e corro para a mesa do canto. Grandes mãos calejadas agarram os aperitivos salgados. “Obrigado”, dizem Os Garotos. Eu recolho as canecas e encho na cafeteira. “Desejam mais alguma coisa?” Pergunto para uma mulher cujo filho pequeno está escrevendo “cocô” na janela vaporizada. Além dos Garotos, eram os únicos clientes, típico de uma tarde de dezembro. A Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel temporada de turistas não inicia até maio, quando os barcos de lazer chegam à marina. “Nós terminamos”, a mãe responde. Ela paga sua conta, e então, reúne seu casaco e sua bolsa. Seu filho tinha catado todas as cebolas de sua sopa e tinha empilhado encima da mesa. “Então, Katrina, o que há de novo na escola?” Ralph pergunta. “Não muito.” Limpo a mesa oleada, enquanto mãe e filho vão embora. “Ei, vocês sabiam que o Sr. Darling está patrocinando o Festival do Solstício?” “Bem, é melhor que ele não venha aqui e peça uma doação”, Vovó Anna diz, enfiando sua cabeça para fora das cortinas da despensa. “Eu já lhe dei a maioria dos meus clientes. Eu não vou ajudá-lo a decorar a sua loja!” Ingvar ri, deslizando seu cachimbo da boca. “A loja desse homem é uma praga”, Odin diz, reclamando de uma das peças do jogo de Lars. “Todas essas crianças saindo de lá o tempo todo, a aglomeração na calçada. Você pode passar mal no local. Graças a Deus, aqui não tem crianças saindo.” O comentário de Odin se vira para a despensa e eu espero a reação de vovó. Suas preocupações financeiras sempre ficam em segundo lugar por suas preocupações constantes com minha vida social. O que há de errado em ter apenas dois amigos? Pelo menos, eu não tive que comprar a sua amizade com cupons de Mocha Frappés. “Katrina.” Minha avó sai da despensa. Eu respiro fundo, me preparando para o ataque. “Por que você não chama um rapaz agradável para ir com você ao Festival do Solstício?” Ela enxuga suas mãos no avental. “Você é uma menina tão bonita. Eu tenho certeza que há muitos meninos agradáveis querendo ir com você. Você só deve escolher o melhor e perguntar para ele.” As avós podem dizer que você é bonita, e elas irão. Elas podem dizer que você é talentosa e especial e que é a melhor maldita coisa que já caminhou em dois pés. Que qualquer garoto teria sorte em respirar o mesmo ar que você respira. Mas esses comentários não contam. As avós têm que dizer essas coisas. Aqui está o que uma avó provavelmente nunca te diria. Que é ótimo ser loira, se você for alegre e divertida, mas se você for tímida e sem talento, isso não ajuda muito. Que meninos de dezesseis anos não gostam de sair com meninas que sejam mais altas que eles. E que esses mesmos meninos só andam com garotas que não só estejam com um garoto em particular, mesmo que ele só seja seu melhor amigo, por que eles pensam que acontece algo mais. Em seguida, atiram um monte de boatos sobre um cara com uma saia e uma “boa ação”, e você pode, bem, apenas cortar seus pulsos. “Esqueça o trabalho, Katrina. Nós podemos lidar com uma noite sem você. Este ano você deve sair e apreciar o festival.” “Vou pensar nisso.” Eu não ia pensar nisso. Quem eu iria pedir? O único menino que eu conhecia era Vincent. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Às cinco horas chegam, hora de fechar o Café Mundo Escandinavo da Anna. Os Garotos pegam seu jogo de tabuleiro, colocam seus casacos e chapéus, e dão um grande boa-noite para vovó Anna e eu. Então, com uma voz especial afetuosa, dão um grande boa-noite para Irmgaard. Ela sorri, timidamente, mas não olha para cima de sua panela de sopa. Os Garotos dirigem-se para o pub para uma “resfolegada”, que era como eles chamavam uma dose de uísque. Assim quando eu estava prestes a virar a placa de aberto, o Sr. Darling entra. Como sua filha, ele prende seu cabelo em um rabo de cavalo, só que ele não o balançava. Isso caía limpo e fino. Ele ri com a palavra “cocô”, que continua gravada na janela da frente. “Novo item no seu menu?” Ele pergunta. “O que você quer?” Minha avó pergunta entre dentes cerrados. Ele alisa seu suéter azul marinho com o logotipo da nuvem Java Heaven e examina o local vazio. “Eu ficaria feliz em enviar alguns clientes se você precisar, Anna. Para que servem os vizinhos?” Eu odeio a maneira como ele chama a minha avó pelo seu primeiro nome, como se fossem amigos. “Nós estamos fechados”, eu digo para ele. “É por isso que não temos nenhum cliente.” “Eu vejo. Só estou oferecendo a minha ajuda.” Minha avó se eleva em toda a sua pouca altura. “Eu estou neste negócio por mais de quarenta anos”, ela diz. “E eu consegui muito bem sem sua agradável ajuda.” “Durante quarenta anos?” Ele age como se não soubesse desse fato. Como se ele não se preocupasse em ler a placa encima da porta: Café Mundo Escandinavo da Anna, levando o Velho Mundo para Nordby por mais de quarenta anos. Ele aponta um dedo para mim. “Diga, você não vai para a escola com a minha filha?” Eu vou para a escola com Heidi desde a primeira série. Nós até mesmo participamos de recitais de pianos juntas, nos juntamos à tropa das Garotas Escoteiras, lemos poesia no mesmo espetáculo da escola. Mas o Sr. Darling nunca parecia se lembrar de mim. O que me leva a outra coisa que as avós nunca vão dizer para você – Você simplesmente não é memorável, querida. “Qual é o seu nome?” “Katrina.” “Hmmm”. Ele parece duvidoso. “Bem, eu vou tentar me lembrar disso.” Então, ele se senta em um de nossos bancos e cruza suas mãos sobre o balcão. “Quarenta anos é muito tempo para gerir um negócio, Anna. E cada negócio tem seu tempo de vida. Eu aposto que você está cansada deste lugar.” Minha avó fecha as cortinas, escondendo a bagunça das toalhas molhadas. “Por que eu iria estar cansada deste lugar?” Então, ela se ocupa com a cafeteira, esvaziando o conteúdo em um balde, que nós Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel mantemos debaixo da pia, enquanto eu limpo as mesas e Irmgaard trabalha em sua sopa. Um esforço em grupo para ignorá-lo. Uma vez por mês, o Sr. Darling vinha esfregar em nossos narizes o fato de que seu café, que só estava no negócio há dois anos, estava cheio de clientes. A multidão laptop gostava da música moderna. As mães em casa gostavam do café gelado com chantilly que eram basicamente como milkshakes. E todos no planeta gostavam de seu café orgânico. Nosso café não era orgânico. Também não vinha com uma etiqueta extravagante que dizia que tinham sido escolhidos por uma cooperativa nativa, e que seus sacos eram recicláveis, e que 10 por cento de seu lucro era voltado para os fazendeiros de café. Não senhoooor. Nosso café vinha em um grande saco plástico da Companhia Bulk Supply. O rótulo apenas dizia Café. O Sr. Darling pigarreia. “Anna, eu tomei uma decisão que afeta todos nós.” “Eu estou ocupada demais para falar agora”, ela retruca, despejando o café restante na pia. “A menos que você esteja aqui para comprar alguma coisa, eu gostaria que você saísse.” Irmgaard pega algumas batatas da despensa e começa a cortar. Eu queria que o Sr. Darling saísse. Eu sempre me sinto autoconsciente quando ele nos visita, bem consciente da nossa total falta de tendência. Café orgânico é uma ótima coisa. Nós deveríamos servir isso também. Mas vovó Anna dizia que não tinha nada de errado com o café normal, além disso, ela não queria uma despesa adicional. “De fato, eu estou aqui para comprar algo.” O Sr. Darling gira em seu banco. “Você vê o muro?” Ele aponta para a parede que separava os dois negócios. Um retrato de Rei e da Rainha da Noruega estava pendurado lá. Eles tinham visitado uma vez Nordby. “Estou decidido a derrubar o muro para que eu possa expandir meu negócio.” Irmgaard ofega. Algumas batatas rolam para fora do balcão. “O quê?” Eu grito. Sr. Darling sorri. “Eu preciso que você desocupe o mais rápido possível.”

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

CAPÍTULO SEIS

“Desocupar?” Minha avó deixa cair o antigo coador na pia. O Sr. Darling brinca com seu rabo de cavalo. “É o progresso, Anna. Nada pessoal.” “É claro que é pessoal. Sou dona deste negócio.” “Você não pode derrubar esse muro”, eu digo. “Ela tem um contrato de locação – um contrato de locação por toda vida.” “Isso está certo. Eu tenho um contrato de locação por toda vida. Quando meu marido vendeu este edifício, nós garantimos este espaço e o apartamento no andar de cima por uma renda fixa pela vida. E eu estou em forma como um violino4.” Como um pistoleiro de um faroeste, o Sr. Darling toma seu tempo para levantar de sua cadeira. Ele se eleva sobre minha avó, e eu não estou me referindo a sua altura. Enquanto ele prospera, nós ganhamos a vida com dificuldade. Enquanto ele conhece a crescente demanda por produtos amigos-da-terra, nós vendemos copos de isopor com café. Enquanto ele comercializa, nós esperamos, esperançosamente, por uma multidão na temporada de turistas. Dedos cruzados não funcionam tão bem quanto cupons, patrocínios da equipe, e um “sabor da semana”. “Você vai encontrar, se você reler seu contrato, que a vida se refere à vida de seu negócio, não a vida de seu proprietário. Só pelo tempo em que seu negócio está em funcionamento que você receberá a renda fixa.” Ele cruza seus braços, confiante. “E vamos ser honestos. Seu negócio está morrendo. Eu falei com o locatário esta manhã e disse que se você desocupasse, a remodelação poderia começar sem demora. Uma vez que eu derrube a cozinha e abra a sala novamente, eu acho que posso espremer mais umas duas dúzias de mesas. Vou te dar um preço justo para que você saia. Será certamente mais dinheiro do que você está fazendo agora.” O rosto da minha avó está inflamado. Ela aperta a borda do seu avental bordado. “Meu lucro não é da sua conta.” Tanto quanto eu desprezo o Sr. Darling, talvez sua oferta não seja tão ruim assim. Vovó Anna está com setenta e ela sempre dizia que não podia se dar ao luxo de se aposentar. E ela não estava em forma como um violino. Ela tinha sete diferentes frascos de pílulas no seu armário do banheiro. Eu sabia sobre a sua pressão arterial alta e artrite, mas ela não tinha me dito para que os outros comprimidos serviam. O Sr. Darling clareia sua garganta. “Pense no dinheiro, Anna. Este lugar está caindo aos pedaços. Olhe para essas cafeterias velhas e para este fogão velho. A bancada está descascando e as janelas de cristal estão obscurecidas. Vou te dar uma boa quantia para você sair. Tire umas férias. Compre um apartamento na ensolarada Flórida. Isso não seria bom? Minha 4

Esta é uma expressão americana. No original, “And I'm fit as a fiddle”, que quer dizer, que alguém está com a saúde boa. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel mãe está se mudando para a Flórida. A Flórida é um ótimo lugar para se retirar.” Enquanto minha avó circulava o balcão, seus sapatos - ainda encharcados pela explosão da máquina de lavar louças – fazem pequenos sons de flatulência. “Eu não vou comprar um apartamento na Flórida. Nordby é minha casa. Meu marido tomou seu último suspiro nesta cidade. E eu tenho funcionários que dependem de mim.” Irmgaard abaixa sua cabeça, evitando o olhar intimidador do Sr. Darling. “Eu não estou vendendo. Não para você. Não para qualquer um.” “Oh, eu acho que você vai mudar de ideia”, ele diz, levantando um canto do seu lábio superior, com presunção. “Você pode pensar o que quiser, mas eu não vou mudar de ideia.” O canto do seu lábio cai. “Vamos ver.” Vovó Anna leva sua mão até seu peito. “É uma ameaça?” “Meu coração está determinado em expandir meu negócio. Eu não gostaria de ficar desapontado.” Eu estava perto da minha avó. Seus ombros tremem ligeiramente. “Você vai sair.” Ele saiu, mas nos fez esperar um momento enquanto ele limpava algo de seus sapatos. Quando ele vai embora, minha avó bate a porta, virando a placa de fechado, então se senta em uma cadeira. Irmgaard e eu corremos para o seu lado. “Você está bem?” Eu pergunto. “Eu deveria chamar o Oficial Larsen e denunciar esse homem.” Ela bate a palma da sua mão sobre a mesa. “Mas ele está certo. Como eu vou consertar tudo que está caindo aos pedaços? Os Garotos compram algumas xícaras de café e sanduíches. Isso não é suficiente para nos manter durante os meses de inverno.” “Nós iremos fazer algum dinheiro durante o Festival do Solstício”, eu digo. “Nós sempre temos uma longa fila pelo nosso chocolate quente.” “Não no ano passado.” “Oh, certo.” No ano passado, a fila para entrar no Java Heaven era tão longa que havia bloqueado as pessoas que queriam entrar na nossa loja para comprar o famoso cacau Norueguês da vovó. “Nós não podemos confiar no Festival”, ela murmura. “Teríamos mais pessoas aqui se tivéssemos uma máquina de expresso”, eu sugiro pela milionésima vez. Irmgaard assente. “Eu não vou comprar uma máquina de expressos. Este é um café Escandinavo, não um bistrô francês. Máquinas de café expressos não fazem egg coffee5.” Eu penso em dizer Este é o ponto, mas não digo. O egg coffee Norueguês é uma

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É um tipo de café popular na Escandinávia. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel combinação repugnante de borra de café fervido, açúcar e um ovo batido. Sim. Um ovo batido. É uma receita do Velho Mundo e são esses que pedem por isso – pessoas idosas. Não importa muito, afinal. Boas máquinas de café expresso custam centenas de dólares. Minha avó afaga minha mão. “Não se preocupe, Katrina, ou você vai ter rugas de preocupação em todo seu rosto, exatamente como eu. Você deve pensar em suas notas e na faculdade. Esse é o seu futuro. Nisso é que uma garota de dezesseis anos deve estar pensando. E encontrar um bom rapaz para levar você ao festival.” “Eu vou ficar aqui e trabalhar no festival com você. Nós vamos conseguir um bom dinheiro, eu sei que vamos. Eu vou ter certeza que a fila do Sr. Darling não fique no caminho desta vez.” Com um grunhido, minha avó se levanta da sua cadeira. “Você gasta muito tempo aqui.” Ela acaricia minha bochecha. “É tudo minha culpa. Seus pais, que descansem em paz, não iriam querer que você trabalhasse tanto. Talvez fosse melhor que eu fechasse.” Eu não sabia o que dizer. O café era meu lar e, em muitos aspectos, era meu santuário. Talvez eu não adore todos os seus sabores estranhos, mas o seu encanto empoeirado era uma parte de mim. Lá fora, eu era uma aluna mediana, com notas medianas e aparência mediana. Meu nome não foi agraciado com nenhum troféu em ginástica ou qualquer mural nas paredes da escola. Cinco anos a partir de agora, ninguém sequer saberia que eu estive na Nordby High. Mas uma vez que eu piso dentro do nosso café, eu sei exatamente o que fazer e exatamente quem eu sou. Eu era uma importante parte do Anna‟s. Eu trabalhava na caixa registradora, ordenava fornecimentos, fazia sanduíches, e conversava com os turistas. Enquanto minha avó diminuía o ritmo, eu acelerava, assumindo mais responsabilidades. Claro, não era a situação ideal. Ideal seria voltarmos aos tempos em que tínhamos muitos clientes, mais funcionários, e exigia menos do meu tempo. Quando os nativos entravam e eu sabia exatamente o que eles iam pedir. Quando o negócio era conduzido no balcão, e clubes do livro e clubes de tricô se reuniam em dias da semana. Eu não queria ver o Anna‟s fechar. Isso seria como perder a minha família novamente. Nós terminamos nossas tarefas da noite. Eu abro a porta que dá para nosso apartamento no andar de cima. Caçadora de ratos desce as escadas. Ela não tem permissão de ficar no café pela manhã. Eu agacho e coço sua cabeça. Ela bate no bolso do meu jeans, procurando o grão de café. Eu tinha esquecido tudo sobre isso. “Vovó, se você pudesse ter o que mais deseja, o que seria?” “Eu não tenho certeza.” “Alguém me disse que a fortuna é a coisa mais comuns que as pessoas pedem.” “Bem, dinheiro certamente ajudaria.” “É isso o que você mais deseja?” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Ela olha para mim, os vincos em seu rosto se relaxando. “O que eu mais desejo é que você tenha uma vida longa e feliz, querida.” Irmgaard pega seu casaco e bolsa. “Por que não fica e janta com a gente?” Vovó Anna pergunta, como sempre faz. “Não há nenhuma razão para comer sozinha”. Irmgaard balança sua cabeça, como sempre fazia, e sai para pegar o ônibus, um recipiente Tupperware com sopa extra debaixo do seu braço. Nosso apartamento fica acima do café. Teria sido agradável ter um quintal e uma garagem. Eu tinha ambos quando tinha três anos, o ano em que meus pais morreram em um acidente de carro. Mas essas memórias eram apenas borrões – o som do cortador de grama, uma tigela de Cheerios, o lenço de uma mulher, suave e vermelho. Vovó Anna foi para a cama mais cedo que o habitual, incomodada com a visita do Sr. Darling. Eu tiro minhas roupas e fico na frente do espelho do meu quarto. A primeira coisa que sempre reparo quando olho no espelho é minha altura. 1.76 de altura parecia louco para mim. O que era bom para ser alto? Supermodelo alta, talvez. Jogador de basquete alto, totalmente. Deus me ajude, mais se eu crescesse mais um centímetro eu me tornaria membro honorária da tribo Masai. Coloco meus pijamas, deveres de casa por toda minha cama, e o telefone toca. “Ei, eu vi que você estava em pé na calçada com aquele cara. O que ele queria?” Era Vincent. Ele estava comendo algo crocante. “Ele só queria agradecer por ter lhe dado um pouco de café. Como foi o encontro?” “Okay.” Modéstia genuína era uma das coisas que eu realmente gostava em Vincent. “Como você foi?” “Primeiro lugar nos 50 metros, nado de costas.” “Como Heidi foi?” “Heidi?” A trituração para. “Por que você está perguntando sobre Heidi?” “Nenhuma razão.” Por que eu nunca vi você saindo com ela e agora estou pensando o pior. Por que em algum momento você vai conseguir uma namorada, né? É claro que vai. Você é incrível. E então vou ter que deslizar para longe para que ela possa sentar ao seu lado no cinema. E se ela quiser manteiga na pipoca, depois de eu e você concordarmos que a manteiga de cinema tinha um gosto rançoso? Isso poderia ser realmente um problema. “É só que o pai de Heide veio aqui hoje, e ele quer nos dar dinheiro para desocupar o local, para que ele possa expandir o Java Heaven. Ele é um idiota. Ele foi realmente malvado com a vovó. Eu gostaria que o Sr. Darling se afastasse”. “O Sr. Darling é um idiota, isso é certo. Mas Heidi não é tão ruim. Ela não pode evitar a maneira que seu pai é. Você sabe que ela faz um monte de coisas boas para a comunidade. Ela Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel é voluntária no banco de alimentos e eu estava pensando em ajudá-la algumas vezes. Enfim, não se preocupe. O pai dela não pode forçar vocês a sair.” Oh, Deus! Como ele poderia dizer que Heidi não é assim tão mau? Por que ele estava defendendo-a? Deito-me contra os travesseiros. “Sr. Darling disse que não gostava de ser decepcionado. Eu acho que era uma ameaça.” “Basta manter o boicote ao Java Heaven. O que mais podemos fazer? Você sabe que nunca vou comprar o café deles. Ei, você tem certeza que o cara com a saia não está mais incomodando você?” “Ele foi embora.” “Bom. Okay. Vou passar por aí amanhã.” Eu olho para o teto por um longo tempo. O que mais me incomodava – a ideia de Vincent saindo com Heidi, ou a ideia dele sair com alguém? Será que eu estaria tão preocupada se ele começasse a namorar outra pessoa? Eu ficaria bem com isso, ou não? Ele não pode forçá-las a sair. Eu penso nisso enquanto eu abro meu livro de Mitologia Mundial. Parece que o Sr. Darling poderia fazer o que quisesse. Ele conseguiu o espaço ao lado, mesmo depois de vovó pedir que o proprietário não alugasse para ele. Enrolo-me no roupão mais apertado e cravo meus pés sobre a colcha. Nosso apartamento parecia mais frio que o habitual. O aquecedor estava provavelmente quebrado novamente. A próxima história do capítulo da boa ação era “João e o pé de feijão”. Eu bocejo. Eu realmente preciso ler? Todo mundo conhece essa história. Esta criança chamada João troca uma vaca, por um feijão, que cresce em um pé de feijão. Ou talvez sejam três grãos de feijões. Sua mãe fica brava com ele. Ou talvez seja seu pai. Mas eu sabia que eles eram pobres. Algo sobre uma harpa dourada e um gigante devorador de homens. Okay, talvez eu não lembre a história toda. Eu olho para o final da página e leio: “Pegue este feijão”, o estranho homem diz. “Isso vai trazer-lhe fortuna.” Huh? Que coincidência estranha. O telefone toca novamente. Era Elizabeth. “Então, ele estava esperando por você depois da escola?” “Sim.” Eu empurro o livro de lado e conto-lhe tudo sobre o cara e o grão. “Você comeu?” “Não.” “Você deve comer.” “O que? Isso é loucura. Por que eu iria comer?” “Talvez seja loucura, mas nunca se sabe. Eu gostaria que alguém me desse um grão mágico. Eu gostaria que Face me notasse. Droga, eu tenho que ir. Meu pai está enlouquecido por que eu amassei o carro. É apenas um pequeno amassado, mais ele está louco. Te vejo amanhã.” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Minha calça jeans estava no chão. Eu deslizo da cama e arranco o grão do bolso. O chocolate tinha derretido, e manchado o forro do bolso. Eu seguro o grão por um momento em meus dedos. Fortuna resolveria tudo, não é? Nós poderíamos arrumar a loja, comprar uma máquina de expresso, e contratar mais funcionários. Como se. De jeito nenhum eu iria comer aquilo. O Cara do Beco era um lunático. E, no entanto, eu não tinha jogado fora. Por quê? Pela mesma razão em que eu faço um desejo antes de soprar as velas do meu aniversário, e olho para o céu em busca da primeira estrela da noite, e puxo com força extra o osso dos desejos. Por que, no fundo, como um Escandinavo anseia por café, eu anseio por mudança. Eu vivia uma vida pacata no meu mundano, escondida nas sombras de meus dois amigos, mas isso não funcionaria por muito tempo. Quando eles deixassem Nordby para perseguir seus sonhos, eu me tornaria visível, exposta para o que eu era – nada em absoluto. Eu coloco o pequeno grão no topo da minha cômoda.

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

CAPÍTULO SETE

A terça feira de manhã chegou, mas não era possível saber sem ter um relógio. Em dias como este o sol se convertia em algo quase místico. As pessoas diziam coisas como: “Você se lembra quando fez calor? Quando foi isso exatamente?” Depois de ter terminado meus cereais, a chuva desabou na rua principal. Olhei pela janela traseira. Gotas enormes de água caíam do telhado. Ninguém estava dormindo nas úmidas calçadas. Esperei que ele tivesse voltado para casa, para junto de sua família e alguns medicamentos. Fiz o café. Quando estava enchendo os potes de marmelada, Elizabeth, vestida com um modelo de roupa com um padrão de cores de um caleidoscópio6 entra pela porta da frente. Sua expressão estava limitada ao frio. “Pensei que você poderia querer uma carona. Isso está parecendo um tufão ou algo do tipo.” Tirou os pingos da chuva do seu casaco impermeável. Depois se sentou em um dos tamboretes e se serviu com um bolo do dia anterior. A cobertura de canela escorria entre seus dedos. Elizabeth tinha uma coisa para o doce, e quero dizer que ela realmente tinha alguma coisa com o doce, se ela naufragasse em uma ilha deserta e não pudesse tomar sua dose diária de açúcar refinado e farinha branca, ela sofreria da mesma maneira que um dependente de heroína, para sua própria vergonha. Ela pegou um prato de biscoitos, era sempre possível encontrar; ou uma barra de caramelo, ou até mesmo um Ding Dongs no porta-luvas, particularmente o seu favorito era o mazapán7, que ela comia diretamente no tubo. Em fim, uma dependente total. Felizmente Elizabeth é uma dessas pessoas que ainda estando meio gordinhas, estão perfeitamente proporcionais, como um relógio de areia. “O formato dos relógios de areia são clássicos.” Ela dizia, frequentemente. Ao contrário dela eu sou o protótipo das pessoas que são tão magras que são perfeitamente proporcionadas como a corda da bandeira. 6

Um caleidoscópio ou calidoscópio é um aparelho óptico formado por um pequeno tubo de cartão ou de metal, com pequenos fragmentos de vidro colorido, que, através do reflexo da luz exterior em pequenos espelhos inclinados, apresentam, a cada movimento, combinações variadas e agradáveis de efeito visual. 7 O mazapán é um doce cujos ingredientes principais são amêndoas e açúcar, em diferente proporção dependendo da receita e o lugar. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Então, você comeu?” “Não.” “Deixe o caramelo para mim. Talvez funcione comigo”, ela se balançou no tamborete. “Por que jogá-lo fora? Se funcionar dividirei o dinheiro contigo. Vamos.” Não tinha sentido discutir com ela. Não se rendia nunca. Assim foi como conseguiu que seu pai lhe desse um carro, duas semanas sem parar de gemer. Seu pai merecia algum crédito, conseguindo segurar por duas semanas. Eu tendia a me render rapidamente às vezes. “Vamos. Dê-me o grão, por favor. Pelo menos me deixe vê-lo.” “Bem.” Subi e recolhi o grão da minha mesa. Caçadora de Ratos me seguiu, se enrolando nos meus calcanhares por todo caminho. A torneira do banheiro estava aberta enquanto minha avó se preparava para o dia, com seu rádio tocando no corredor. “Puaf!”, disse Elizabeth quando lhe mostrei o grão. “Você disse que estava coberto de chocolate.” “Derreteu.” “Mas está cru. Não posso comer ele assim. Parecerá asqueroso.” “Não disse que você podia comer.” “Você vai comer?” “Não.” Nós olhamos para ele como se nunca tivéssemos visto um grão de café antes. Com se de alguma forma ele fosse diferente. “Olhe”, ela disse. “Vamos moer e depois beber.” Concordo que eu sentia curiosidade à respeito do grão. Supostamente não aconteceria como acontece depois de soprar as velas de aniversário ou depois de quebrar o osso dos desejos do peru. Mas pelo menos algo poderia acontecer. Apesar de saber que não iria... Mas e se acontecesse? “Vamos. Coma.‟‟ Elizabeth me pediu.”Não se preocupe com os estúpidos potes de marmelada. Irmgaad pode enchê-los.” Coloquei o café em uma taça. Depois lavei o grão com sabão e água quente, por precaução. Deixei o grão cair no moedor elétrico. Depois de ouvir um whirrr rápido, um pó apareceu no copo do moedor. Elizabeth se apertou contra meu ombro, observando a pitada de pó do grão moído espalhadas pelo copo flutuando e brilhando como lantejoulas de ouro. “Nunca vi café moído brilhando assim”, falei. Elizabeth se inclinou para mais perto, “Muito menos eu.” Saltamos quando a porta principal se fechou com um golpe. Vincent aproximou-se do contador, a água pingava do seu chapéu de pano. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Está perigoso aí fora. O vento quase me derruba, duas vezes.” “Cuidado, você está me ensopando!”, queixou-se Elizabeth enquanto Vincent sacudiu a cabeça. “Por Deus, o que você é? Um cachorro? Onde está a toalha?” “No quarto de trás”, eu disse. Ela se afastou pisando duro. “Posso conseguir alguma torrada?”, Vincent perguntou. “Sim”, coloquei um pouco de pão na torradeira, e depois, peguei a manteiga da geladeira. Vincent gostava das suas torradas feitas com bastante manteiga em cima, o bastante para untar uma pessoa para dourar no sol. “Este café está diferente”, falou Vincent. Café? Só tinha virado as costas por um momento. Apontei para a taça que tinha o café mágico. “Você tomou isso?” “Só tomei um gole. Tinha um gosto diferente.” Oh Deus! Ele tinha um sabor diferente? E se ele agora estivesse com botulismo ou cólera8? Poderia estar com uma dessas doenças, porque estou bastante segura de que são doenças que podem se transmitidas por uma tubulação de drenagem de água de Londres. Ou de qualquer drenagem de água. E se eu tivesse envenenado meu melhor amigo? Elizabeth saiu do quarto de trás enquanto Vincent tomava o resto do café mágico na pia. Elizabeth pegou a taça vazia. “Olhe, nós íamos beber isto.” “Ele tomou”, eu lhe disse. Ele esfregou o nariz vermelho. “Eu sinto muito. Só queria algo quente.” Elizabeth e eu nos colocamos uma de cada lado, procurando sinais da chuva de diamantes ou de moedas de ouro que se supõe que deveria estar fluindo das orelhas de Vincent, e este tipo de coisas. “Por que estão me olhando assim?” Esperamos as mudanças – como se sua carteira fosse começar a inchar, ou que aparecessem correntes de ouro envoltas do seu pescoço. Nada. A torrada pulou. Ele colocou a manteiga e a comeu. “Oh, bem.” Disse Elizabeth com um suspiro. “Melhor irmos para a escola.” Vicente colocou a sua bicicleta no beco, e logo nos dirigimos para o carro de Elizabeth. Seu limpador de para-brisa guinchava enquanto lutavam contra a chuva. Fomos colina a cima, bem depois da clínica veterinária de Nordby e da estação do Chevron. “Desculpe pelo café estranho.” Disse a Vincent. Perguntei como ele se sentia, estava preocupada se ele estava se sentindo mal, ou que ficasse verde, ou com manchas. 8

Botulismo - Uma forma de intoxicação alimentar que pode matar se não tratada a tempo. Cólera é uma infecção intestinal aguda causada pelo Vibrio cholerae, que é uma bactéria capaz de produzir uma enterotoxina que causa diarreia. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Você não está se sentindo febril, está? Ou sentindo que vai ficar com febre?” Coisas assim. Até que ele me disse. “Esqueça isso.” Quando passávamos pelo salão de manicure, um carro preto começou a ziguezaguear da direita para a esquerda. “O que está fazendo?” Elizabeth perguntou, freando. O carro girou para a esquerda e invadiu a outra pista, justamente na frente de um caminhão. O caminhão para se esquivar entrou na nossa pista. “Cuidado!”, gritei, cobrindo o rosto. Eu iria morrer em um acidente de carro igual a meus pais. Todos iríamos morrer! Elizabeth pisou no freio quando o caminhão se desviou e por pouco não bateu em nós. Deixei cair minhas mãos, observando em estado de choque enquanto o carro preto atingia a calçada, e em seguida, colidiu com uma parada de ônibus. Vincent abriu a porta e saiu correndo pela rua. Outras pessoas saíram de seus carros, mas Vincent foi o primeiro a chegar ao carro batido. Abriu a porta do condutor e um homem caiu no asfalto molhado. O tráfico se deteve. Meu coração batia violentamente quando saí do carro e corri até Vincent, que estava agachado sobre o condutor. Uma sirene soava a distância. A chuva caindo sobre a parada de ônibus. “Oh, meu Deus!” disse Elizabeth. “Esse homem parece morto.”

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

CAPÍTULO OITO

Acabou que o motorista não estava morto. Apenas quase morto. Vincent sabia RCP9 por que ele trabalhou como salva-vidas na Nordby Community Center Pool no último verão. Elizabeth e eu nos encolhemos na chuva enquanto ele, ritmicamente, empurrava contra o peito do homem. Ele procurou pela pulsação no pescoço do homem e, em seguida, empurrou seu peito um pouco mais. Quando a ambulância chegou os médicos apertaram a mão de Vincent. O Oficial Larsen levou Vincent para a delegacia de polícia para responder algumas perguntas sobre o acidente. Encharcadas até a pele, Elizabeth e eu pegamos o carro e fomos para a escola. “Isso foi incrível”, Elizabeth diz. O fato de que Vincent tivesse salvado a vida de um homem mais velho, não me surpreendeu nem um pouco. Se algo de ruim estivesse para acontecer, você iria querer ter Vincent por perto. Enquanto todo mundo estaria pirando e gritando “Terremoto!” ou “Invasão de Aliens!”, ele descobriria como chegar à saída mais próxima, ou a forma de construir uma arma de raios. Graças a Elizabeth, a história se espalhou rapidamente. Quando Vincent voltou da delegacia de polícia, a Diretoria Carmichael o parabenizou pelo alto-falante. Os professores pediram-lhe para relatar o evento. A primeira van de notícias apareceu ao meio-dia. Então, a CNN apareceu. Então a FOX. Acabou que o velho homem era algum criador de um software – um mega bilionário que tinha ido para Nordby comprar um imóvel. Ele teve um ataque cardíaco enquanto dirigia, e o RCP de Vincent tinha definitivamente salvado sua vida. Então, da cama do hospital ele fez um anúncio. Ele recompensaria Vincent com – rufem os tambores, por favor... uma bolsa integral para a faculdade ou universidade que Vincent escolher. Incrível. Essa era a melhor notícia de todos os tempos. “Oh, meu Deus”, Elizabeth diz, quando estávamos no refeitório, vendo as multidões de repórteres colocando microfones no rosto de Vincent. “Eu acabei de lembrar que ele bebeu o café mágico. Ele teve sorte”. “Ele fez um RCP em um homem”, eu lembro para ela. “Ele ganhou esse prêmio. Não teve nada a ver com o grão”. “Realmente?” Ela estreita seus olhos fortemente. “Eu suponho que você acha que isso foi apenas uma coincidência.” 9

Ressuscitação cardiopulmonar. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Sim.” “Katrina, não há coincidências. É tudo parte de algo maior.” “Isso é loucura. Claro que há coincidências. Você e eu estamos ambas vestidas com as mesmas camisas verdes. Nós não planejamos isso.” Ela suspira. “Você acredita no que você acredita e eu acredito no que eu acredito.” Eu não discuto. Outra coisa chama minha atenção. Heidi Darling tinha se apertado ao longo da imprensa e estava ao lado de Vincent. “Nós estamos no mesmo time”, ela diz com um sorriso deslumbrante. Ela está usando a mais nova moda em jeans, tingido por toda parte. Ela parecia bonita. Meus jeans velhos estavam molhados por eu ter ficado na chuva. Encharcada até a pele, não era o tipo de coisa que meu traseiro desejava. Diretora Carmichael brilhava com orgulho, ou talvez com o calor das luzes da câmera. “Nós promovemos bons valores aqui em Nordby High. Na verdade, eu mesmo criei nosso currículo de valores centrais. Não é nenhuma surpresa para mim que um de nossos alunos tenha agido heroicamente.” Os olhos turvos do pai de Vincent aparecem. Ele trabalhava à noite como guarda de segurança na marina e nunca parecia conseguir dormir o suficiente durante o dia. Ele até mesmo andava com um estupor esgotado, geralmente com a barba por fazer, ele tinha aparência boa para um pai. “Ele sempre foi um bom garoto”, Sr. Hawk diz aos repórteres. “Realmente bom.” Sr. Darling faz uma aparição, distribuindo cupons da Java Heaven para os repórteres e seus ajudantes. “Nosso café é cem por cento orgânico. Cem por cento de livre comércio.” Ele empurra um cartaz na minha mão. “Ponha isto em sua janela.” Inacreditável. Eu desenrolo o cartaz que anuncia a “Mocha do Vincent”. O que? Ele tinha nomeado uma bebida do Vincent? E imprimiu cartazes com isso? Ele pode fazer isso? Ele pode nomear uma bebida com o nome de alguém sem pedir autorização para a pessoa? A equipe de natação se reúne para uma foto. Heidi Darling coloca seu braço em torno de Vincent para a imagem que se verá em toda a Internet. Alguém empurra um microfone em seu rosto. “O que você acha de seu companheiro de equipe?” “Vincent é o melhor”, ela responde. “Ele é um grande cara. Eu sempre soube que ele era um grande cara.” “Ela definitivamente gosta dele”, Elizabeth sussurra em meu ouvido. Okay, espere um momento. Eu sabia que Vincent era um grande cara, muito antes que Heidi soubesse. Eu soube quando ele me levou para o escritório da enfermeira na quarta série, depois que meus lábios se abriram nas barras. Eu soube quando ele não me provocou depois Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel que Elizabeth e eu tivemos um caso horrível de piolhos quando usamos uma peruca que compramos em uma loja. Eu soube por que sempre que o chamava no meio da noite, quando eu não conseguia dormir e estava preocupada com alguma coisa, ele nunca ficava com raiva de mim. Mas Heidi agia como se fosse algo que ela tivesse descoberto. Como se estivesse contando a todos nós um segredo. Eles pareciam tão íntimos com seus cabelos clorados e camisas parecidas. “Vincent e eu passamos todas as manhãs juntos”, Heidi diz. Elizabeth se espreme ao lado do repórter. “Se você quer saber sobre Vincent, você deve perguntar para Katrina”. Ela aponta para mim. “Ela é sua melhor amiga.” “Shhh”, o repórter repreende. “A garota com o rabo de cavalo ainda está falando.” Heidi se encosta no ombro de Vincent. “Meu pai é o dono do Java Heaven e ele criou uma bebida especial chamada Mocha do Vincent”. Ela ergue um dos cartazes. “O melhor cacau, o melhor café, o leite mais fresco. Vincent adora.” Bem, se você soubesse metade sobre o Vincent, como você diz saber, você saberia que ele não beberia nem em um milhão de anos por que ele é intolerante a lactose. Vincent parecia completamente surpreso quando ele leu o cartaz. Mas Heidi não lhe deu chance de dizer nada, por que ela continuou falando para os repórteres quão maravilhoso Vincent era. Elizabeth finge amordaçá-la. Enquanto ela não tinha nenhuma razão verdadeira para odiar Heidi, que era apenas excessivamente alegre, ela odiava por mim, por que era isso que os amigos de verdade faziam. “Você notou que seu cabelo está ficando verde?”, ela sussurra em meu ouvido. O cabelo de Heidi não era a única coisa ficando verde. O ciúme me invadiu e eu tinha certeza que parecia exatamente ao Incrível Hulk. “Posso pegar esse cartaz?” Elliott estava ao meu lado. Diretora Carmichael tinha posto em serviço seu técnico. Ele tinha vindo fornecer cabos de extensão para a equipe de filmagem. Dou-lhe o cartaz. “Eu vou conseguir um autógrafo de Vincent, em seguida, para vender no eBay”. Ele sorri para Elizabeth. “Eu gosto de sua capa de chuva listrada.” Ela o ignora. Vincent não assiste nenhuma aula da tarde. Ele senta-se no refeitório, respondendo as mesmas questões repetidamente. Quando eu passo por lá, entre Geometria e Composição de Inglês, ele acena, parecendo totalmente entediado. Eu ainda não tive a oportunidade de parabenizá-lo ou perguntar-lhe sobre o cartaz. Mas eu sabia que ele não tinha concordado com a “Mocha do Vincent”, pois meus amigos e minha família tinham um pacto de longa data de nunca comprar café no Java Heaven, nunca provar o café do Java Heaven e, nunca, nunca entrar no Java Heaven. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Até o fim do dia, as nuvens de chuva tinham clareado, mas o ar frio tinha se movido. Enquanto eu caminhava para casa meu cachecol feito à mão se enrolou em meu rosto, tentando desaparecer no casulo de fios. Eu deveria estar pulando alegremente na rua, comemorando a sorte do meu melhor amigo, mas eu tinha deixado o vírus Darling fazer seu caminho sob minha pele. Eu invento a seguinte teoria da conspiração: que Heidi e seu pai estavam trabalhando juntos. Ela tiraria meu melhor amigo para me deixar infeliz, e em minha infelicidade, eu conseguisse convencer minha avó de que devemos nos mudar para a Flórida. “Eu nunca vou mudar para a Flórida”, eu rosno. “Eu não me mudar para a Flórida também. Muito úmido.” Eu engulo em seco, inalando um bocado de fio. Paro de andar e empurro o cachecol do meu rosto. “Você disse que iria embora.” “Eu estou tentando entregar uma mensagem aqui em Nordby.” Ele bate em sua mochila. “Mas eu ainda não consegui entregar.” “Olha...” Faço uma pausa, pesando minhas opções – fugir ou lidar com ele. “Qual é o seu nome mesmo?” “Eu não tenho nome”. Ele vestia o mesmo kilt e suéter. Esse perfume floral rodando em torno de nós. “Mas se você quiser me chamar por um nome, pode me chamar de Malcolm. Era assim que me chamavam na Escócia. Passei um tempo lá. Então aqui está uma opinião – se você estiver pensando em se mudar, você deveria considerar a Escócia.” “Olha, Malcolm, eu tenho um monte de coisa na minha mente.” “Você tem muita coisa na sua mente? Eu tenho um monte na minha mente.” Deus, aqueles olhos azuis. Se Elizabeth estivesse aqui, iria querer pintá-los. Sinto uma onda de inspiração. Talvez eu devesse tentar pintá-los, mas eu tinha tanto talento artístico quanto um elefante do Jardim Zoológico de Seattle. Todos os domingos, um funcionário do zoológico lhe dava uma tela e ela pintava com sua tromba. Eu não me importava com quantas pessoas deliravam pela pintura do elefante, elas eram terríveis. Só um monte de manchas. Isso era como minhas pinturas sempre pareceram. Era por isso que havia um cavalete e pincéis no meu Armário do Fracasso. Malcolm mantém-se falando. Sua pele era perfeitamente clara. Ele esfoliava, não havia dúvidas sobre isso. E seus longos cabelos castanhos não eram de um marrom normal. De perto, eu podia ver dezenas de tons de marrom, cobre e vermelho – como uma das paletas de Elizabeth. “Você está ouvindo?” Ele acena no meu rosto. “Katrina, eu gostaria que você escutasse.” Saio de meus pensamentos. “Okay, estou ouvindo. Mas só por um minuto, por que eu tenho que começar a trabalhar. Eu não tenho tempo para jogar o jogo do grão de café Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel novamente.” “Esse é o problema”. Ele empurra o cabelo para trás das orelhas. “Você pensava que era um jogo. Você não deveria ter dado o grão para outra pessoa.” “Hein? Eu não dei para outra pessoa.” “Você deu. Você permitiu que seu amigo bebesse o café que você fez do grão, e seu amigo recebeu a fortuna.” Como ele poderia saber isso? Ele estava nos espionando através da janela? Ele era algum tipo de perseguidor? Ar frio faz cócegas em meu nariz. Eu quero me esconder atrás do cachecol novamente. “Vincent conseguiu a bolsa de estudos por que ele salvou a vida de um homem.” “Depois que ele bebeu o café, esse grão era para você, para lhe dar o que você mais deseja.” “Bem...” Tinha que haver alguma maneira de sair desta conversa. “Obviamente, o que eu mais desejava era que Vincent conseguisse sua bolsa de estudos. Então, agora todo mundo está feliz.” Mas eu não estava feliz. Outra coisa tinha chamado minha atenção, algo ainda mais irritante do que Malcolm e seus delírios. O outdoor do Java Heaven estava do outro lado da rua. Uma nova mensagem tinha sido pintada na parte de cima: Pare e tome um Mocha do Vincent, em honra do herói da nossa cidade.. Como o Sr. Darling conseguia fazer isso tão rápido? Será que ele tinha uma legião de pequenos duendes trabalhando para ele, correndo em torno de coisas aqui e ali, imprimindo folders e cupons na velocidade dos elfos? Só tinha uma coisa a fazer. A Cafeteria Mundo Escandinavo da Anna precisava de uma bebida especial do Vincent. E daí se não tivéssemos um outdoor? Nós não podemos apenas sentar e deixar que o Sr. Darling transforme Vincent em uma mercadoria. Ele era meu amigo. Se alguém iria transformá-lo em uma mercadoria, essa seria eu! “Katrina? Você tem que me ouvir.” “Eu tenho que ir. Tchau!” Eu puxo o cachecol sob meu rosto e desço o morro correndo, minha mochila batendo a cada passo. Nós faríamos uma bebida especial para o Vincent e venderíamos no Festival do Solstício. Melhor ainda, Vincent poderia nos ajudar a vender. Isso elevaria em toneladas os clientes. Nós teríamos assim tantos clientes em nossa fila que bloquearíamos a porta do Sr. Darling. Doce vingança. Vincent poderia autografar os copos. Como chamaríamos nossa bebida? Qual era a palavra Viking para herói? Provavelmente algo impronunciável – algo que soasse como se você estivesse limpando catarro de sua garganta. Esqueça isso. Corro para o café. As cadeiras estavam vazias – nenhuma surpresa real já que os garotos não vinham nas terças-feiras. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Que dia emocionante”, vovó Anna diz, dando-me um abraço extra apertado. “Nós soubemos tudo sobre Vincent salvar a vida daquele homem. Algumas dessas vans de notícia vieram aqui. Eu cheguei a conhecer Brad Stone. Você sabe, o âncora do canal sete. Ele entrou na loja com sua equipe.” “Sério?” Eu desenrolo meu cachecol e tiro meu casaco. “O que eles pediram?” Minha avó olha para seus sapatos cômodos. O silêncio enche o espaço entre nós, como gás venenoso. “Vovó?” “Eles não pediram nada. Pensaram que aqui era a entrada para o Java Heaven. Tinham alguns cupons.” Eu poderia colocar dinheiro nisso. “Okay, temos uma situação.” Debruço-me sobre o balcão. Irmgaard para de mexer sua sopa de cenoura. “Lembram-se do Solstício passado, quando o Sr. Darling deu aqueles cookies nuvem celestial e todos fizeram fila?” Irmgaard e vovó acenam. “Este ano pode ser ainda pior.” “O que você quer dizer?” “Quero dizer, que este ano o Sr. Darling estará vendendo um café com o nome de Vincent. Nosso Vincent.” “Oh, querida”. Vovó Anna esfrega sua nuca. “Então, acho que deveríamos criar nossa própria bebida chamada Vincent. Só que tem que ser melhor do que a do Sr. Darling. E nós vamos ter o Vincent verdadeiro aqui, na loja, entregando cafés.” “Vamos?” “É claro. Eu ainda não pedi, mas ele vai fazer isso. Ele nos ama.” “Ele é um bom garoto.” “Mas alguém tem que ir na porta ao lado para comprar uma dessas bebidas para que possamos provar. Precisamos saber o que estamos enfrentando.” Seria bastante difícil tentar enfrentar o Sr. Darling, mas primeiro tínhamos que conseguir a bebida em si, e nós vivíamos pela lei de nunca colocar os pés dentro da Java Heaven. “E um dos garotos?” Eu pergunto. “Oh, não”. Vovó Anna limpa as cenouras que estavam no balcão. “São meus amigos. Eu não vou enviá-los para aquele lugar horrível. Chamarei o Oficial Larsen. Digo que é uma emergência.” “Mas não há uma emergência.” Bato meus dedos sobre o balcão. Eu não pediria para meus amigos irem lá também. Meus dois amigos. Era uma questão de orgulho, mas eu também secretamente temia que eles pudessem nunca voltar, depois que provassem o lado escuro. “Nós poderíamos pedir para um estranho. Alguém que estivesse passando na rua”, sugiro. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “E se este estranho dissesse ao Sr. Darling que era um de nós que queria a bebida? Só por cima do meu cadáver. Eu não vou lhe dá a satisfação”. Vovó Anna aperta seu avental. “Nem uma gota do seu café nunca vai tocar meus lábios!” “Vai ser eu que irei provar a Mocha do Vincent”, eu digo, uma mártir pela causa. “Mas primeiro temos que descobrir como conseguir um.” Olho para fora da janela da frente. Um empregado do Java Heaven passeava pela calçada, distribuindo pequenos copos de amostras para os transeuntes. O avental, com o logotipo de nuvem, era tão nítido e branco como um lençol novinho em folha – completamente ofuscante sob o céu de fim de tarde. Ele chama alguém, então caminha direto passando por nossa janela. Eu abro a porta para espreitar. “Ei, amigo. Gostaria de experimentar nossa nova bebida? É chamado de Mocha do Vincent, em homenagem ao nosso herói local.” “Eu provaria.” Oh, eu conhecia aquela voz.

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CAPÍTULO NOVE

Enfio minha cabeça para fora da porta e olho acima da calçada. Lá estava ele em seu kilt gloriosamente desgastado. O empregado do Java Heaven lhe entregou uma amostra. “Espero que você goste.” “Obrigado”, disse Malcolm. “Eu sou completamente aficionado por café. Havia uma mistura em especial no Egito que era colhido no luar e só servido para os faraós. Eu não estava lá, mas me disseram que o reflexo da lua podia ser visto na bebida.” “Legal. Bem, tenha um bom dia.” Eu comecei a limpar a janela enquanto o empregado voltava para o Java Heaven. Em seguida, apressei-me para a calçada. “Hm, olá novamente. Malcolm, certo? Hm, o que é isso? Parece como café. Sim, isso parece como um copo de amostra de café. É isso o que é?” Suaaaaaave. Jogue a atuação no Armário do Fracasso. Ele segura o pequeno copo. Raspas de chocolate decoram uma miniatura com muito chantilly. Um pedaço de menta está preso no topo. Parecia um canudo doce. Será que esses elfos do mal do Java Heaven não param para nada? Quem em seu juízo perfeito pode resistir a tal mistura? Malcolm pigarreia, quebrando meu olhar faminto. “Você parece estar querendo isso.” Ele equilibra a taça em sua mão. “Oh, cuidado.” Eu tento pegá-lo, mas ele se move para fora do meu alcance. “Você quer isso, tenho certeza.” Ele franze a testa. “Por que eu deveria dar a você? Você não me escuta.” Olho por cima do meu ombro, para ter certeza de que ninguém do Java Heaven estava escutando. Irmgaard e vovó Anna, no entanto, pressionaram seus rostos contra a janela. “Se você me der isso, então você terá me dado o que eu mais desejo.” Excelente resposta. “Isso é o que você quer, certo? Essa é a lei, certo?” Ele muda seu peso. O copo balança perigosamente. “Você me disse que a fortuna era o que você mais desejava.” “Eu estava confusa. Eu não sabia. Mas agora eu sei. O que eu desejo realmente é uma xícara de café.” Meus dedos se mexem. Eu só queria agarrá-lo. Será que o café era aromatizado com algo exótico como canela orgânica de livre comércio da floresta equatoriana? “Uma taça pequena de café é o que você mais deseja? Mas você trabalha em um café. Por que você iria querer esta taça em particular? Trata-se de algo especial?” “Só dê para mim”, eu digo entre dentes cerrados. “Por favor.” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Eu suspeito que você esteja tentando me enganar, como você fez com o lápis.” Sua expressão fica séria. “Eu não estou.” “Eu darei a você sob uma condição.” “O quê?” “Depois que eu completar minha entrega, você vai me dizer o que você mais deseja. Sem enganos.” “Tudo bem. Tanto faz.” Eu pego a taça. “Eu voltarei”. Ele troca sua mochila para o outro ombro, em seguida, caminha até a calçada, seu kilt esvoaçando em cada passo seu. Os músculos da panturrilha inchando. Mensageiros provavelmente precisam de pernas fortes. E suas pernas tinham a quantidade certa de pelo. Provavelmente pelos macios, e não espinhosos como das pernas de Vincent quando o pelo começava a crescer novamente após uma competição de natação. “Oh, meu Deus, você o viu?” “Ele é tão bonitinho”. “Quem é ele?” Heidi Darling vira a esquina de braços dados com um par de amigas. Usando abafadores da cor de limão que se aferrava enquanto sacudia sua cabeça. Juro por Deus, se Heidi Darling usasse um saco de supermercado na cabeça, um monte de outras pessoas começariam a usar sacos de supermercado na cabeça. Elizabeth fez uma vez bolsas de supermercado para um projeto de reciclagem. Ela usou algumas vezes, mas nunca funcionou. Estando lá, pega em flagrante, meu cérebro congelou.

Mas as pernas de Heidi não

congelaram. Ela correu até a calçada, um sorriso ocupando metade de seu rosto. “Então, Katrina, vejo que você está bebendo agora nosso café. Eu não culpo você. A Mocha do Vincent é o melhor.” “Eu não estou bebendo isso.” “Por que você está segurando-o, então?” “Eu não estou segurando-o.” Eu marcho até a lata de lixo e jogo o copo de amostra e seu conteúdo. O que mais eu poderia fazer? Foi um dos momentos mais embaraçosos da minha vida. Como quando um vegetariano fica preso com um pedaço de costela. Heidi me segue. Assim como seus clones. “Bem, tenho certeza que vai ser um sucesso. Vincent é famoso. Nós somos bons amigos.” Isso realmente me pegou. Eu queria dizer: “Ele não é seu amigo, ele é meu amigo”. Imagine se nós disséssemos a todas as pessoas exatamente o que estamos pensando – nós soaríamos como um bando de alunos da terceira série. MINHA bebida do Vincent será melhor do Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel que a SUA bebida do Vincent.Em vez disso, eu fingi não me importar. “Tanto faz”, eu resmungo, correndo de volta para a segurança do Anna‟s, dentro minha avó está com um olhar excessivamente curioso. “Você conhece aquele menino?” Vovó Anna pergunta. “Que menino?” “Aquele que deu o café para você?” “Não. Eu não conheço.” “Oh. Isso é muito ruim. Pensei que ele talvez fosse um novo amigo.” Ela manca em direção de sua mesa. Seus pés estão sempre rígidos no fim do dia. “Eu não sei como eles esperam que as pessoas comprem essas pequenas xícaras de café. Quem iria comprar uma xícara tão pequena? Talvez alguém com anorexia.” “Estes são copos de amostra”, explico. “Eles são de graça.” “Graça?” Vovó Anna remexe em sua pilha de cartas. “Como eles podem se dar ao luxo de dar assim tantas amostras? Café orgânico é caro.” Ela balança sua cabeça, enquanto ela examina cada envelope. “Oh, querida.” “O quê?” “Não importa.” “Vovó?” Talvez ela finalmente converse comigo sobre nossas finanças. Talvez ela deixe-me ajudar. “Vovó, eu sei que nós estamos tendo problemas. Eu ouvi você falar com o banco.” “Isso não é sua preocupação. Posso lidar com isso”. Ela aperta os lábios enquanto abre um dos envelopes. Uma brisa fria passa pela sala, derrubando as cartas. “Irmgaard?” Vovó Anna chama. “Feche essa porta. Está frio lá fora.” As cartas voltam a farfalhar. “Irmgaard?” Eu volto para a cozinha. A porta do café estava aberta. Irmgaard estava lá fora, olhando para a calçada. “Irmgaard?” Ela estava com uma expressão atordoada e sem pestanejar brincava com uma cruz que pendia de uma longa corrente, a única peça de joia que ela sempre usava. “Irmgaard?” Bati em seu braço. Ela hesita, depois corre de volta para a loja. “Irmgaard?” Eu digo, seguindo-a. “Qual é o problema?” Ela balança sua cabeça, em seguida, pega seu casaco e bolsa, quase derrubando o Sr. Darling em seu caminho para fora. “Por que alguém não fecha essas portas?” Vovó Anna queixa-se, mancando para a cozinha. “O que você quer?” Ela rosna. O Sr. Darling encosta-se no marco da porta. “Só verificando se você pensou em minha oferta. Estou ansioso para começar a reformar antes que a temporada turística comece.” “Bem, bom para você.” Ela tenta fechar a porta, mas sua grande cabeça estava no caminho. “Aqui está o que estou disposto a pagar. É uma quantia generosa.” Estende um pedaço de Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel papel. “Não estou interessada.” Ele continua segurando o papel, mas ela simplesmente cruza seus braços e olha para ele, seu pescoço se esticando pra ficar na altura. Eu cruzo os braços e olho para ele também – uma frente unida contra sua invasão. Ele ergue as sobrancelhas, em seguida, enfia o papel no bolso. “Você vai mudar de ideia, de uma maneira ou de outra.” Depois que ele sai, vovó Anna volta para o que estava fazendo, mas ela não estava com disposição para conversar. “Vá lá para cima e faça sua lição de casa. Vou terminar aqui.” “Você tem certeza?” “Sim”. Ela volta para seu escritório. “Eu não posso imaginar o que aconteceu com Irmgaard. Ela nunca sai sem me dar um abraço de adeus.” Pego minha mochila e subo as escadas, amaldiçoando Heidi Darling a cada passo. Mais um segundo e eu poderia ter fugido com o copo de amostra. Pelo menos, eu sabia alguns dos ingredientes. Eu ainda precisava ligar para Vincent, para perguntar se ele assinaria os copos para o Festival do Solstício. E eu precisava ligar para Elizabeth. Ela desenharia um bonito logotipo para nossa versão da Mocha do Vincent. Usaríamos o dobro de creme e compraríamos canudos de hortelã do tamanho de presas de morsas! Ninguém atende ao telefone na casa de Vincent. Eu deixo uma mensagem. “Ei, parabéns. Eu não consegui falar com você hoje. Você é tão famoso. Posso ter seu autógrafo?” Sorri, tímida. “Estou realmente, realmente feliz por você. Você fez isso. A bolsa integral. Isso é ótimo. Realmente, realmente ótimo. Hm, eu tenho essa ideia e espero que você possa me ajudar. Então, me ligue.” Ninguém responde em Elizabeth também. Eu despejo o conteúdo da minha mochila na cama. Eu coloco na página de geometria, memorizo as partes de uma célula para Biologia, em seguida, olho para o papel em branco. O Sr. Williams quer que nós escrevamos uma história sobre uma boa ação, de três a cinco páginas, para sexta-feira. Se eu escrevesse sobre ter dado a Malcolm alguns bolos velhos, eu arriscaria parecer como uma arrogante. Oh, olhem para mim, eu ajudo as pessoas desabrigadas. Ou eu sairia como alguém sovina. Por que ela não lhe deu algo do dia? Eu decido escrever sobre a boa ação de Vincent. Eu escrevo um parágrafo, mas o incidente com Heidi continua se intrometendo. Eu fico vendo aquele olhar orgulhoso no rosto moldado por um abafador de ouvido. Eu, de pé lá, segurando a taça. Como todos os incidentes embaraçosos, este ganhou vida própria. “Relembre-me”, sussurrava, mais e mais. “Você está chegando em algum lugar com seu dever de casa? Bem, nós não podemos fazer isso, então é hora de me relembrar novamente”. Porque, porque, porque eu fiquei ali, observando Malcolm caminhar, e olhando para suas pernas como uma idiota? Se eu tivesse vindo direto para o café. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel O telefone toca. Antes que eu possa dizer Olá, Elizabeth grita, “Coloque no canal sete! Vincent está no noticiário!” Efetivamente, lá estava ele, com seu moletom da equipe de natação, respondendo calmamente as perguntas de Brad Stone. Seus cabelos lisos e pretos pareciam extra brilhante com cloro na TV. Eu poderia ter notado que ele falava de forma eloquente e que ele parecia mais maduro do que seus dezesseis anos. Eu poderia ter percebido que ele parecia mais feliz do que eu já o vi. Mas tudo o que eu notei foi o copo do café Java Heaven que ele segurava na mão direita.

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

CAPÍTULO DEZ

Na quarta pela manhã encontrei-me esperando no escritório do meu orientador para a entrevista obrigatória. Eu tiro alguns pelos da Caçadora de Ratos da minha manga, enquanto o sr. Prince termina um telefonema. Cartazes presos cobriam cada centímetro do espaço da parede. A maioria dos cartazes eram motivacionais – Alcance as Estrelas; Seja o que você pode ser; Vá por isso! Esse tipo de coisa. O restante tratava de assuntos sérios como drogas, suicídio e tiroteios na escola – a realidade feia do mundo adolescente. Cada cartaz era exatamente do mesmo tamanho. Ele provavelmente tinha conseguido de algum catálogo de orientadores escolares. Ou talvez ele entrou em um clube de Crises-do-Mês. Eu batia meu pé. Desligue o telefone já. Eu queria ir para a aula e conversar com Vincent. Ele não retornou a minha ligação da noite passada e não tinha parado no café antes do treino. Talvez ele estivesse se sentindo mal por estar segurando aquele copo na TV. Ele deveria saber que eu estaria enfurecida. Java Heaven não precisa exatamente de publicidade gratuita. Se eu carregasse comigo um livrinho preto com as palavras: A Lei escrita na capa, eu insistiria que a primeira lei do livro fosse: Tu nunca, jamais consumirá algo no Café Java Heaven! Mas eu não precisava de um livrinho preto, por que meus amigos – meus dois amigos – já sabiam dessa lei. E quebrar essa lei significaria deslealdade e uma séria mágoa da minha parte. Enfim, o sr. Darling provavelmente tinha enfiado esse copo na mão do Vincent, pouco antes da entrevista. Embora Vincent pudesse tê-lo soltado. Lei #2: Se um copo do Java Heaven é empurrado na tua mão, deves em seguida soltá-lo. “Okay, Katrina, vamos começar.” Sr. Prince desliza um óculos sob seu longo nariz. “Como vai você?” “Bem.” Eu sorrio, docemente, separando minhas mãos. A última coisa que eu queria era entrar em uma conversa com o sr. Prince sobre sentimento. “Tudo está bem.” “Bom.” Ele abre um espaço em sua mesa. “O objetivo desta reunião é para verificar seu progresso e certificar-se de que você está no caminho certo.” “Okay.” “Você é uma estudante do secundário este ano”, diz ele enquanto abre um arquivo. “Sim.” Ele puxa um pedaço de papel do arquivo, olha para ambos os lados, então franze o cenho. “Certamente está faltando algumas páginas. O arquivo é muito fino. Em que tipo de atividades você está envolvida?” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Uh, em nenhuma.” “Clubes? Esportes? Basquete?” “Eu trabalho.” Ele se inclina em sua cadeira. “Trabalhar é admirável, Katrina, mas com certeza você tem tempo para se envolver aqui na escola.” “Eu trabalho todas às manhãs e toda tarde.” “Entendo. Isso é necessário?” “Minha avó não pode se dar ao luxo de contratar mais empregados.” “Ah. Você já pensou no que gostaria de fazer depois de se formar?” “Não realmente. Minha avó quer que eu vá para a faculdade.” “Exatamente.” Ele aponta para um cartaz atrás de sua cabeça. Educação Abre o Caminho para o Sucesso. “Nordby High tem uma excelente taxa de aceitação na faculdade. Quando se está no secundário, é o momento de levar as coisas mais a sério. Não é mais sobre séries. A competição para todas as instituições superiores é intensa. As comissões de admissões querem que os alunos estejam envolvidos em muitos níveis. Deixe-me mostrar-lhe uma coisa.” Ele pega um notebook de sua escrivaninha. “Eu tenho trabalhado em estreita colaboração com Heidi Darling. Você conhece Heidi, não é?” “Sim”. Ugh. Era muito cedo para vomitar? “Este é um trabalho em andamento, para que você saiba, mas suas conquistas são impressionantes – a coisa exata que cada comitê de admissão está procurando.” Ele gira o notebook. “Na verdade, eu pretendo colocar em exposição no corredor.” Eu esperava que um holofote aparecesse e um coro de anjos descesse quando o sr. Prince abriu o notebook para revelar sua glória. Será que eu ficaria cega pelo brilho? Eu deveria ter trazido óculos de sol. E então, naquela manhã de quarta-feira, quando eu poderia estar na aula de Mitologia Mundial perguntando ao Vincent sobre o incidente do copo de café, o Sr. Prince compartilha quão superior era Heidi Darling. A sra. Darling era uma daquelas mães que gostavam de enviar fotos de seus filhos para o jornal. Não de vez em quando. Era mais como uma segunda carreira. A vida inteira de Heidi estava documentada no Nordby News, de seu primeiro dente (Bebê local morde funcionário do supermercado) à venda de biscoitos das Garotas Escoteiras (Garota local declara que o novo sabor de manteiga de amendoim é delicioso), até seu característico rabo de cavalo (Estudante do ensino médio corta cabelos por pacientes com câncer.). Você imagina o ponto. Eu estive no jornal uma vez, quando o rei e a rainha da Noruega vieram para Nordby. Você pode me encontrar na multidão, se você olhar para uma menina alta com cabelo loiro néon em pé na terceira fila, perto da estátua de Leif Erikson. O sr. Prince folheia página após página de recomendações pessoais. Então, página após Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel páginas de atividades: Clube Preparatório, Comitê do Anuário, Comitê de Dança, Clube de Francês, Tesoureira da Classe dos Secundaristas, Futura Líder dos Negócios Americanos, Sociedade Honorária, Filhos da Noruega, Equipe de Natação, Estudante do Mês da Câmara de Comércio de Nordby. Tontura toma conta de mim. O cérebro mediano não consegue processar tantos dados. “Heidi é algo certo”, ele diz, fechando o notebook. “Ela vai conseguir a sua primeira escolha de faculdade, sem problema. Quero que todos os alunos daqui de Nordby entrem para a faculdade de sua escolha. Mas você tem que ser competitiva, Katrina. Você tem que ser mais responsável. O arquivo de Heidi não é tão incomum.” “Não é?” Ele tinha que estar brincando. “Os estudantes de sua idade estão publicando livros, criando empresas na Internet, ganhando recordes mundiais.” “Eles estão?” Eu me inclino para trás e dou um enorme suspiro, imaginando meu Armário do Fracasso. “É por isso que você tem que se envolver. Imediatamente.” Ele me entrega um pedaço de papel. “Isso vai ajudar você a começar. É uma lista de coisas que lhe darão uma melhor chance de entrar na faculdade. Estágios, aprendizagens, serviços comunitários, esse tipo de coisa. A propósito, você sabe em que você gostaria de se especializar?” “Não. Eu deveria?” Ele faz uma careta, como se estivesse pensando, Esta é uma perdedora total, coitadinha. “Nunca é muito cedo para estabelecer metas. Em que você é boa?” Servir café. Limpar mesas. Atrair estranhos em saias. “Nada, realmente.” “Todo mundo é bom em alguma coisa.” “Eu não estou tão certa de que isso seja verdade.” “É claro que é verdade.” Ele aponta para um cartaz com um grupo de pessoas vestidas em vários uniformes diferentes. Todo mundo é bom em algo. “E seus amigos? O que eles gostam de fazer?” “Bem, Elizabeth tem muitas aulas de arte. E ela ganhou alguns prêmios.” “Excelente. Você deveria pegar algumas aulas de arte com ela. Quem mais?” “Bem, Vincent nada e...” “Vincent Hawk? Bem, ele é o candidato ideal, isso pode ter certeza. Se ele é seu amigo, então você deve realmente conseguir uma carta de recomendação dele, antes que ele fique muito famoso. No momento, por que você não faz um teste de aptidão. Levará apenas dez minutos. Responda as perguntas honestamente ou não terá nenhum beneficio para você. As respostas são analisadas por uma empresa de Seattle. Devemos estar com os resultados na segunda ou terça feira.” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Eu tenho que fazer isso? Gostaria de ir para a aula.” “Eu realmente acho que você deveria fazer. Apenas dez minutos.” Então eu fiz o teste. Era um monte de perguntas pessoais sobre o que eu faria em situações diferentes. Eu me derrubaria ante a pressão ou me sairia bem na situação? Eu prefiro grandes grupos ou ficar sozinha? Se eu respondesse todas as questões honestamente, os resultados seriam, Aptidão: Zero. Característica Dominante; Tédio. Principal Escolha de Carreira: Garota do Café. Eu já sabia que não era boa em nada. Eu não tinha necessidade de ver confirmado por escrito. Mas eu respondi honestamente, apenas no caso de algum milagre acontecer e o analisador do teste descobrir algum talento – um diamante bruto. Eu entrego o teste para o sr. Prince. “Certifique-se de começar com essa lista”, ele diz para mim. “Okay.” Enfio a lista no bolso e vou a procura de Vincent.

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CAPÍTULO ONZE

“Está muito frio para comer no meu carro”. Elizabeth diz, enquanto eu fecho meu armário. “As janelas estão geladas.” A Diretora Carmichael tinha regras rígidas sobre não comer no corredor ou no ginásio, de modo que nos deixava, num dia de inverno desagradável, com uma opção. Nos afastamos dos armários e nos juntamos à quente e hormonal corrente de adolescentes famintos, empurrando como se fossem destroços até o refeitório. Eu ainda não tinha falado com Vincent. Ele ainda estava ocupado com as entrevistas. Os estudantes se espremem em bancos, ombro a ombro. Conversas eclodem, utensílios soam, papel e plástico enrugado. A sobrecarga de lâmpadas florescentes à cima ilumina a comida de todo mundo. Elizabeth agarra meu braço. “Face está sentado ali. Olha, ele está comendo batatas fritas.” “Você quer se sentar lá?” Eu não poderia me imaginar sentando na mesma mesa que o time de golfe. Além de parecer totalmente fora de lugar, sobre o que falaríamos? Golfe parece ser o jogo mais chato do mundo inteiro. “Sentar-se com Face? Você está louca?” Encontramos lugares no canto, no chão perto da máquina de vendas. Exceto pelo constante barulho dos petiscos empacotados, não era tão ruim ficar lá. Um rapaz caminhava com sua mão metida no bolso traseiro de uma garota. Elizabeth atira-lhes um olhar desagradável. “Isso é tão humilhante”, ela diz. “Por que não temos namorados?” Eu abro minha garrafa térmica que contem sopa de cenoura. “Por que nós não conversamos com meninos. Exceto Vincent.” “Estamos conversando com Vincent? Nós deveríamos estar dando-lhe o tratamento do silêncio?” “Talvez.” O vapor da sopa sobe até meu queixo. “Eu quero saber o que ele estava fazendo com aquele copo.” “Eu estou lhe dizendo, é tudo por causa da Heidi. Eu ainda acho que ela gosta dele.” Elizabeth empurra suas pulseiras de ouro até seu braço e abre sua mochila com o lanche. “Se eu pedisse para Face para ir ao Festival Solstício comigo, você acha que ele iria?” “Eu não sei.” Parecia improvável, mas quem era eu para acabar com sua fantasia? “Por que ninguém nunca me pediu? Olha para mim. Eu tenho estilo.” Ela levanta a bainha de sua saia de brim, expondo suas meias-calças pintadas à mão. “E eu tenho bom hálito. Não tenho bom hálito?” Assopra em meu rosto. “Sim. Bom hálito.” Naquele momento de minha vida, um namorado não era o ponto alto da Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel minha lista de preocupações. Na noite passada, depois que minha avó tinha adormecido, eu desci para bisbilhotar sua pilha de contas. Algumas estavam carimbadas como Atrasadas. Como você paga contas atrasadas se você não tem clientes? “E eu tenho peitos. Estou transbordando com peitos. Então, qual é o problema? Quero ir ao Festival com um cara este ano.” Ela olha através do refeitório, desejo preenchendo cada célula do seu corpo. Por um momento, seu desejo me contagia e eu me imagino debaixo da árvore decorada do Solstício, de mãos dadas com um namorado. Meu namorado. O Festival Solstício foi por muito tempo meu feriado favorito. Tudo começava com a decoração de uma árvore enorme, erguida no centro da cidade. Quando menina eu preenchia uma pinha com manteiga de amendoim e rolava no alpiste. Então todas as crianças penduravam suas pinhas na árvore. Cada família trazia um par de sapatos desgastados e colocava debaixo da árvore – uma tradição do Novo Mundo que simbolizava a harmonia durante todo o ano. St. Nick viria e traria doces. E nós cantávamos canções e passeávamos pelas ruas, parando em cada loja para um tratamento especial. Então nos vestíamos e íamos para a festa grandiosa no Sons of Norway Hall. Comíamos coisas gostosas, como salmão e pãezinhos quentes, e eu ignorava as coisas repugnantes como lutefisk10 e salada de Jell-O11. Eu parei de encher as pinhas anos atrás, quando comecei a trabalhar no café, mas eu ainda era apanhada pela alegria. As crianças sempre vinham tomar chocolate quente, extra animada se estivesse nevando. Anna‟s era a parada mais popular para chocolate quente. Até o Java Heaven. “Eu vou te dizer qual é o problema.” Elizabeth desembrulha um cupcake. “O problema é que esses garotos estúpidos de Nordby são superficiais. Eles não estão prontos para pensar fora da caixa, sabe? Se eles apenas tirassem suas cabeças de seus traseiros talvez eles percebessem que eu sou um grande partido.” “Você é.” “Então, porque Face não me nota?” “Por que você está sentada em um canto no chão.” Ela suspira. “Qual é o problema comigo? Por que eu não posso ir até ele e conversar? Por que fico tão nervosa?” “Eu não sei”. Eu meio que sabia. Na sétima série eu estava apaixonada por um cara chamado Sean. Eu cortei a foto dele de nosso anuário e enfiei na minha caixa de joias. E ainda está lá. Mas, como

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Lutefisk é o prato tradicional da Noruega, consumido nos países nórdicos e nos Estados Unidos, feito à base de peixe (fisk) branco seco e soda cáustica (lut). 11 Salada de gelatina. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Elizabeth, eu nunca fiz nada sobre isso, apenas desperdicei muito tempo desejando. Ele se mudou no final do ano letivo, sem saber como eu me sentia. Essa imagem me veio à cabeça novamente – eu, em pé debaixo da árvore do Solstício, de mãos dadas com um cara. Ele era alto e bonito, mas não era Sean. Parecia com... Malcolm. “Meus pés começam a suar toda vez que penso em falar com ele”, diz Elizabeth. “Você não acha estranho? Talvez eu devesse ir ao médico.” “Eu não me preocuparia com isso.” Eu tomo minha sopa, então abro minha lista que estava em meu bolso. “O sr. Prince me deu isso.” “Ele deu um para todo mundo.” “Sim, mas você não percebeu nada na minha?” Ela dá de ombros e, em seguida, lambe o glacê de seus dedos. “A minha é cheia de espaços em brancos. Não há nada nisso. Você tem suas aulas de arte e seus prêmios de arte. Você quer ir para a Rhode Island School of Design. Você quer abrir uma galeria em Nova York. O que eu quero fazer?” “Face está pegando ketchup.” Elizabeth estica seu pescoço para observar. Ela não poderia entender minha situação. O talento estava ligado nela. Ela exalava isso. Expelia por seus poros. Ela provavelmente peidava isso. E se eu tivesse nascido sem o gene do talento? Sentada a margem da multidão vibrante, me sentindo como uma aberração com minha lista nua. Certamente haveria outros como eu, nascidos sem noção de direção. Os baderneiros, os itinerantes, os curiosos, unidos por nosso mantra sem propósito – eu não tenho ideia do que fazer da minha vida. Eu era um grande espaço em branco. “E se eu acabar como Irmgaard?” “Você vai fazer voto de silêncio?” “Não, quero dizer, que ela deve ter uns quarenta. E está fazendo sopa e vive sozinha. Isso é triste. Você não acha que isso é triste?” Elizabeth desembrulha um sanduíche. “Talvez ela goste de fazer sopa e viver sozinha.” “O ponto é, se eu não começar a fazer algo com a minha vida, então eu não vou chegar a lugar nenhum”. Aceno para a lista. “Se eu não colocar algumas coisas maravilhosas nesta lista, nenhuma faculdade vai me aceitar.” “Basta colocar um monte de coisas. Quero dizer, quem vai saber?” Elizabeth arranca a lista da minha mão e coloca sobre seus joelhos. “Atividades. Atividades.” Ela puxa uma caneta de sua bolsa. “O que é esse jogo estúpido que aqueles caras velhos estão sempre jogando?” “Hnefatafl.” “Como se escreve isso?” Eu soletro e ela escreve: Capitão do Clube de Hnefatafl, uma sociedade dedicada à preservação da cultura Viking. “Pegue um dos idosos para escrever uma carta de Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel recomendação.” Ela examina a página. “Olha, há um espaço para línguas.” Ela escreve: “Viking.” “Eu não falo Viking.” “Você sabe algumas palavras, não é?” “Eu sei „Hnefataf‟.” “Bem, lá vai você. É mais do que a maioria das pessoas sabe.” Ela tira migalhas do sanduíche da lista. “Oh, olhe, aqui tem espaço para voluntariado. Você está sempre ajudando aqueles caras velhos.” “Os Garotos?” “Sim. Você não faz sanduíches para eles?” “E daí?” Ela escreve: Voluntária Eldercare, ajudando idosos com atividades diárias. “Você está totalmente exagerando.” “Todo mundo exagera. Você acha que eu vou dizer para a comissão de seleção que eu ganhei o primeiro lugar em um concurso de arte no qual só outras duas pessoas participaram? Vou dizer que foi aberto nacional e internacionalmente, por que poderia ter sido. Quero dizer, nada nas regras diz que você não pode enviar um e-mail para a Tasmânia. Você precisa que Os Garotos escrevam cartas de recomendação. Oh, já sei o que mais. Você pode vir comigo esta noite, para minha aula de desenho. O professor também não cobra na primeira visita. Então, você pode acrescentar as suas atividades.” “Eu não consigo desenhar. Você sabe disso.” “Quem se importa? Katrina, você só tem que jogar o jogo.” “O que vocês estão fazendo?” Vincent aparece sobre nós. Enfio a lista de volta no meu bolso. “Nada”, eu digo. Ele se ajoelha, cumprimentando-me com sua usual fragrância de cloro. “Ei, desculpe, por não ter ligado de volta. Eu estava muito cansado quando cheguei em casa ontem à noite. Foi uma espécie de grande dia, sabe?” “Nós vimos você no canal sete”, Elizabeth diz, com sua boca cheia de sanduíche. “Eu estava no canal cinco também. E CNN e FOX”. Ele balança sua cabeça. “Eu ainda não consigo acreditar. Em um dia, eu estou preocupado com o pagamento da faculdade. No dia seguinte, tenho uma bolsa de estudos integral.” Forço um sorriso. Eu deveria jogar meus braços em torno dele, deveria saltar para cima e para baixo como um babuíno. Vincent tinha salvado a vida de alguém e tinha sido recompensado além de seus sonhos. Mas tudo em que eu conseguia pensar era no estúpido copo de café do Java Heaven. Elizabeth me dá uma cotovelada. “Diga para ele.” “Pare com isso.” “Diga para ele.” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Dizer o quê?” Vincent senta contra a parede. Elizabeth se inclina sobre meu joelho e joga no seu rosto. “Nós vimos você, Vincent Hawk. Nós vimos você segurando aquele copo. Você sabe como Katrina se sente sobre o Java Heaven. Você totalmente feriu seus sentimentos.” Vincent muda seu peso. Ele desvia seu olhar. Ele muda novamente por que a culpa pode ser muito desconfortável. “Eu não quis ferir seus sentimentos, Katrina. Eu não comprei aquele copo de café e não o bebi. Você sabe que eu não faria isso.” “Então por que você estava segurando aquilo?” Eu pergunto. “Era o copo de Heidi. Ela pediu para que eu o segurasse enquanto ela ajeitava seu rabo de cavalo e, então, ela saiu. Eu entreguei para o cara da câmera depois que a entrevista começou.” “Oh”. Eu tinha ficado tão irritada depois que o vi segurando o copo que nem vi a entrevista inteira. “E o Mocha do Vincent? Como ele pode usar seu nome nisso? Você deveria dizer-lhe que ele não pode usar seu nome.” “Bem...” Vincent olha para longe por um momento. “Eu não sabia nada sobre essa bebida, mas não tenho certeza se é uma coisa tão ruim, Katrina. Dez por cento dos lucros vai para a equipe de natação. Precisamos para uma nova linha divisória e novos aquecedores.” Ele franze a testa. “É só uma bebida estúpida.” Eu fico rígida. “É mais do que isso. O sr. Darling está tentando nos fechar. Seu nome irá ajudá-lo a ganhar mais dinheiro. E...” Eu não queria admitir o quão ruim as coisas estavam. Vincent sabia como era ser pobre, mas Elizabeth não tinha a menor ideia Enfim, eu fui criada para acreditar que as questões que envolviam dinheiro eram pessoais. Era constrangedor também. Todos os dias nós trabalhamos e trabalhamos, apenas para no afundar cada vez mais em dívidas. Vincent me cutuca. “Não fique irritada. O que posso fazer?” Apesar de sua voz calma e estável, todas as minhas preocupações rompem na superfície. Como em uma experiência fora do corpo, vejo-me do outro lado da sala, dolorosamente ciente de que eu estava agindo como uma criança birrenta. Mas eu não conseguia parar. “Eu quero que você odeie o Java Heaven, tanto quanto eu. Isso é o que eu quero. Você é meu amigo, e não o de Heidi. Eu quero que você nos ajude, e não eles.” Vincent Hawk, meu melhor amigo desde a quarta série, sorri docemente. “Eu sempre serei seu amigo. Se você quer que eu faça alguma coisa pelo Anna‟s, eu farei”. “Se eu aparecer com uma bebida especial, você vai ajudar a servi-la e talvez assinar alguns copos?” “Sim, claro.” Claro que sim. Ele ainda era o mesmo velho Vincent. Heidi poderia enganá-lo para prendêlo com um estúpido copo de café, mas ele nunca seria seu melhor amigo. Eu sinto-me um milhão Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel de vezes melhor. O sino toca. Vincent se levanta. Elizabeth joga seu lixo, então, puxa a lista do meu bolso. “O que você está fazendo?” Eu pergunto. Ela clica a caneta. “Você disse que vai criar uma bebida especial, certo?” “Certo.” Ela rabisca alguma coisa, então, sorri. Vice-presidente de desenvolvimento de produtos.

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

CAPÍTULO DOZE

Esta tarde, o diretor Carmichael anunciou que a revista People faria uma visita quinta-feira, o que queria dizer que o ato bondoso de Vincent se expandiria através das salas de espera e salões de beleza por todos os lugares. Talvez ele assinasse um contrato para escrever um livro. Talvez alguém compre os direitos autorais para um filme. As possibilidades eram infinitas. A fortuna havia lançado sua grande rede dourada sobre o nadador de Nordbv. Apesar do frio, eu me sentia animada. Foi um desses momentos raros quando eu não me comparava com todos os demais. Elizabeth tinha me ajudado a ver como era ridícula a lista de verificação. E com Vincent do nosso lado, nós faríamos toneladas de dinheiro no festival. Nós o chamaríamos de o Herói do Chocolate Quente, e com o herói verdadeiro servindo. Nossa linha divisória iria até a calçada bloqueando a entrada para o Java Heaven. Sorri abertamente, imaginando o Sr. Darling gritando para nós removermos a linha. Doaríamos dez por cento, não, melhor 11 por cento para uma casa de caridade local. Com certeza, o herói do chocolate quente era uma resposta a curto prazo, mas uma coisa de cada vez. Lars, o mais velho dos Garotos, se sentou no banco do ônibus, seu rosto avermelhado meio oculto atrás de um chapéu. "Por que você não está no Anna's?", perguntei. "Não posso descer a colina. Minhas pernas estão doendo." Me sentei próximo a ele. "Você tomou seu remédio para a artrite?" "Não me lembro." Ele tirou uma mecha de cabelo branco de cima da sua orelha. "Talvez eu caia quando estiver descendo a colina. Não há dignidade em cair em público." "Eu te ajudarei a andar", falei. Voluntária no cuidado de idosos. Ele tirou o chapéu de sua orelha. "Não preciso de ajuda. Pego o ônibus." "Mas Lars, você sabe que seu filho não quer você ande de ônibus." Ele estreitou seus olhos nublados. "A mente do meu filho precisa se ocupar dos seus próprios problemas. É um ônibus público e eu sou o público." O filho de Lars era o oficial Larsen. O oficial Larsen tinha enviado seu pai dezenas de vezes à clínica de desintoxicação, mas ele sempre voltava a beber. No ano passado, com a idade de oitenta anos, Lars quase tinha matado alguns corredores em seu caminho para o Bar de Nordby. O Estado lhe tomou a permissão para dirigir. Poucos dias depois ele foi morar com seu filho. O médico disse que o fígado de Lars estava em uma condição terrível, juntamente com o colesterol alto, pressão alta e rigidez articular. Ele necessitava começar a fazer exercício ou ele não viveria por muito mais tempo. Sendo assim o oficial Larsen teve uma ideia „Não abrir álcool Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel em casa‟. Se Lars queria beber, ele teria que andar para o Bar de Nordby em Main Street. Assim ele seria forçado a fazer um pouco de exercício. Ninguém dava a Lars uma carona sequer. Todos aceitaram que isso era para seu próprio bem. Segundo o médico, o andar tinha melhorado a saúde de Lars. Assim toda tarde, ele andava o caminho. Ele parava no Anna's para o café e a sopa (Oficial Larsen mantinha uma conta ali) e a cada dois dias ele jogaria um jogo de Hnefatafl. Então ele terminaria cada tarde em um bar. Seu filho iria pegá-lo a caminho para casa na sua viatura. Mas nesta quarta-feira à tarde em particular, Lars tinha problema na sua mente. Quando o ônibus parou, ele foi. Quando a porta se abriu ele ia entrando. Millie puxou o banco do condutor e bloqueou a entrada. "O que você acha que está fazendo?" "Eu pego o ônibus hoje", disse Lars. "Portanto, fora do meu caminho" "Agora, Lars, você sabe que eu não posso deixá-lo subir." Millie seria um grande sargento, com a sua voz forte. "Olhe aqui, mulher, este é o transporte público." "Eu prometi a seu filho. Você sabe." "Meu filho é um idiota. Mova-se!” "Caminhar é bom para você." Lars tirou o chapéu e sacudiu-o diante dela. "Minhas pernas não aguentam. Eu vou cair. Entenda as minhas palavras eu vou cair, então vou processá-la e todos os outros." Eu me senti envergonhada por ele. Não porque todos nós sabíamos que ele era um alcoólatra, mas porque ele sabia que não era tão forte como havia sido. Essa deve ser a pior parte do envelhecimento. "Você precisa ter um andador12", disse Millie. "Minha tia usou um e ela podia andar, sem nenhum problema. "Eu não preciso de um andador." "Você precisa de alguma coisa para te ajudar." Millie se inclinou na porta. "Hey Katrina. Ajude Lars a descer a colina você poderia?" "Claro", eu disse. Lars balançou o chapéu novamente. "Você acha que eu preciso de ajuda? Olha, mulher, esse corpo carregou dois potes de cem libras com caranguejo do oceano. Estas pernas lutaram tempestades e te quebrariam como um fusível. Eu não preciso de ajuda." "Olhe, velho, não me chame de mulher", disse Millie. "Hey Katrina." Corri para a porta. "Vá à farmácia a caminho de casa e veja se eles têm andadores." 12

Gente, não sei se vocês conhecem por este nome, mas é isso: http://www.andarbem.com.br/37-andador-dobravel-fixo-luxocom-rodizio-e-regulagem.html Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

"Andadores?" Saliva voou dos lábios finos de Lars. "Eu não preciso de um maldito andador." "Você é um teimoso", disse Millie. "Você não quer usar o andador, ou ter a ajuda de Katrina?" "Lars", eu disse suavemente. "É preciso permitir que alguém te ajude." "Eu vou ser feliz em ajudar." Millie colocou a barriga na frente quando Malcolm apareceu, nas escadas do ônibus. "De onde você está vindo?", ela perguntou. "Eu não me lembro de pegar você." Ele parou na escada e sorriu. "E eu não me lembro de já ter visto um motorista de ônibus mais encantador.” Se as pessoas pudessem derreter como sorvete, é o que eu teria acontecido com Millie, apenas uma poça grande na estrada rochosa. Quando Malcolm deu um passo para fora do ônibus sua farda escocesa, kilt, subiu para mostrar suas coxas musculares, junto com suas panturrilhas. Millie pegou em seu cabelo sorrindo como se tivesse bebido o uísque de Lars. "Ei, moça, eu estou atrasado!", alguém gritou da parte de trás do ônibus. Millie retornou ao seu lugar. Malcolm saudou-a enquanto a porta do ônibus assobiou para fechar. Não devia ficar surpresa ao vê-lo. Ele tinha me dito que voltaria após entregar uma mensagem. Talvez com Lars por perto ele não começaria com todo esse papo de boa obra. Ficamos na calçada quando o ônibus se afastou. Lars colocou o chapéu na cabeça, e depois deu a Malcolm um olhar. "Por que você usa uma saia?" Malcolm jogou a carteira no quadril. "Eu sou um pouco parcial com ela. Bastante confortável", ele ofereceu-lhe o braço. "Estou feliz em te ajudar a descer.” "Você é algum tipo de fada?" Lars perguntou, recuando. "É por isso que usa uma saia?", revirei os olhos. "Lars, ele se ofereceu para te ajudar a descer." "Eu te asseguro que não sou uma fada. As fadas são seres de ficção, as manifestações do medo primitivo da humanidade com a natureza. Eu sou um mensageiro." Lars estreitou os olhos. "Whoopdedoo. Eu costumava ser um capitão. Todos me chamavam de capitão Lars. Agora eu sou um bêbado, mas eu ainda tenho a minha dignidade. Eu não preciso de sua ajuda", ele começou a mancar colina abaixo, as pernas ligeiramente dobrando. Nós o seguimos, como guarda-costas de acompanhamento. "Você

sabia

que

Hemingway

era

um

bêbado?"

Malcolm

perguntou.

Lars

olhou para ele com desconfiança. "E também Mozart e Dean Martin. Mas eles tinham a sua dignidade também." Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Malcolm, tinha uma doçura nele, que eu não tinha notado até aquele momento. Talvez o meu estado de espírito feliz tivesse nublado a minha visão como o sorvete pode mascarar a dor de garganta. Mas aqui tinha algo estranho. Embora Malcolm tenha falado com Lars, e que seus olhos tinham sido fixados no rosto de Lars, senti seu olhar em mim. Sentido. Ele não me olhou da forma como olhamos para as pessoas que passam por nós na rua, comida no prato, ou palavras em um livro. Ele me via. Eu tremi. "Eu posso levar isso para você?", ele perguntou, apontando para a minha mochila. "Parece pesado." Eu ainda não sabia muito sobre ele. Ele tentaria roubar a minha mochila? Minha carteira estava lá dentro. Eu só tinha dez dólares, mas mesmo assim. Porém desta vez a minha voz interior não gritava. Ela não dizia, corre. Parte de mim queria mover-me para perto dele e senti-lo me olhando. "Não, obrigada. Estou acostumada a carregar." As articulações de Lars fez o caminho lento. Eu pensei em correr para dizer a minha avó sobre como Vincent iria nos ajudar. Mas eu fiquei, me enrolando na essência floral de Vincent. Consciente da estranha sensação de ser observada. "O que há de errado com sua perna?" Malcolm perguntou para Lars. "Eu sou velho. Isso é o que está errado. Tudo se desmorona. Você vai ver." "Eu não envelhecerei." Ele disse isso, sem qualquer indício de humor. O que ele queria dizer? Ele era um suicida? Um dos cartazes do Sr. Prince ressaltou na minha mente: Conheça os sinais de alerta de Suicídio. Eu não tinha me incomodado em ler mais. "Os jovens pensam que nunca irão envelhecer", Lars reclamou. "Mas a vida passa muito rápido." O choque súbito de emoção fez Lars balançar. Malcolm tomou-o pelo braço. "Vamos." Lars resmungou depois de recuperar o equilíbrio. "Eu não preciso de ajuda. Eu não preciso de um andador. Não há dignidade em usar um andador. É ruim o suficiente que o povo saiba que eu seja um bêbado." Começamos a andar novamente, mas desta vez com Lars na cabeça. "Katrina, você prometeu que quando eu voltasse, me diria o que mais desejas. Ainda preciso pagar sua boa ação." Oh maravilhoso, de volta a isso. Eu peguei um lenço do meu bolso. O ar frio fez o meu nariz escorrer. O que eu poderia dizer a ele? "Espere." Lars parou. Ele se virou e olhou para Malcolm, os olhos meio escondidos pelo chapéu de tecelagem. "Você quer dar para Katrina o que ela mais deseja?", Malcolm assentiu. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel "Eu tentei, mas ela não quer dizer o que é", Lars sacudiu a cabeça. "Ela nunca vai dizer. As mulheres nunca dizem. E um homem nunca pode imaginar. Você irá tentar imaginar pelo resto de sua vida e sempre estará errado. As mulheres gostam de ser desta maneira porque lhes dá algo para queixar-se." "Isso é ridículo", eu disse, franzindo o lenço e colocando em uma lata de lixo. Malcolm puxou sua carteira. "Eu não posso adivinhar pelo resto da minha vida. Isso não é possível. E eu não posso continuar até que a recompense. Ela me aprisionou, você vê." "Aprisionou?" Lars olhou fixamente para mim. "Você deveria estar envergonhada, Katrina, jogando com o coração do menino." "O quê?", eu tinha acabado de me afogar na minha própria saliva. Ambos estavam loucos. "Tudo está neste livro." Malcolm abriu a carteira e tirou um livro negro. "Você está estudando para ser um advogado?", Lars perguntou depois de ler o título do livro. "Quero que processe a cidade para mim. Trata-se de um ônibus público e eu sou o público." "Eu não sou um advogado. Sou um mensageiro." Malcolm abriu o livro e leu. "Se durante as suas viagens, um ato não solicitado,

generoso. Generosidade é dado em recompensa,

recompensar o ato, mediante o maior desejo do bem feitor." Lars coçou a cabeça: "Eu não te disse?" "Não quero adivinhar. Tive problemas no passado, fiz algumas adivinhações que não funcionaram. Eu não posso me permitir cometer outro erro." Lars torceu o rosto. "Uh-huh." Malcolm mudou para uma nova página. "Há uma carta aqui dentro. Ela diz que o mais comum que as pessoas queiram é fortuna. Mas Katrina não queria isso. Ela deu ao seu amigo. A segunda mais comum que as pessoas pedem é a fama”, Lars e Malcolm se viraram e olharam para mim. Sim, sim, eu ainda estava ali. Eu não sei por quê. Eu devia ter deixado os dois idiotas para trás. "Poderia ser a fama que você mais quer?" Malcolm perguntou. Fama. Me parecia que as celebridades em sua maioria eram miseráveis, gastando seu tempo negando boatos, brigando com fotógrafos, inscrevendo-se em clínicas de reabilitação. O que há de bom em ter bilhões de dólares e um rosto conhecido se não poderia começar a passear com o seu cachorro de pijamas, sem que algum idiota estivesse lhe seguindo e depois colocando a sua imagem em todos os tabloides de mercado, onde as pessoas poderiam estar falando como se eles soubessem que você é. Olhe como é gorda. Ela é tão bonita. Ela é tão alta, deve ser anexada à tribo Massai. "Katrina?" O olhar azul de Malcolm caiu sobre mim como um espanador no couro. Tremi Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel novamente. "Você deseja a fama?" Vincent parecia estar desfrutando da sua fama, e não poderia machucar nosso café se eu fosse à pessoa mais famosa do mundo. Em que eu gostaria de ser famosa? Encher potes de conserva? Não que eu acreditasse na magia do doce. Mas eu nunca iria me livrar desse cara se eu não seguisse a corrente. "Escolherei fama." Ele tirou o pacote de grãos de café cobertos de chocolate da sua carteira. "Agora eu só tenho dois. Eles são muito saborosos." Ele escolheu um doce, então fechou os olhos. Tudo ficou em silêncio, nenhum barulho de carros, nenhuma gaivota, até Lars conteve a respiração ofegante. O mundo congelou. Mas eu não. Meu coração disparou. Olhei para a esquerda, em seguida, para a direita. Nada mais mudou de lugar. Eu estava, fora de sincronia um mundo em suspensão. "O quê?" Sussurrei. As pestanas grossas de Malcom repousavam no seu rosto. Ele parecia congelado também. Olhei fixamente para o seu rosto, os olhos, desenho da boca. Alguns caras tinham lábios como lápis finos, mas o seu lábio inferior foi tão perfeito como o lábio superior. Com seria beijá-lo? O pensamento pulou na minha cabeça sem ser convidado, eu fiquei surpreendida por sua intensidade. Malcolm abriu os olhos e, de repente, ele sorriu. Eu dei um passo e o mundo voltou à vida. "Aqui vamos de novo", ele segurou o doce. E eu não pretendo comê-lo como você disse da última vez. Eu não sou estúpida. O que aconteceu? Eu me senti um pouco tonta. E com medo, talvez era falta de um pouco de açúcar no sangue e eu precisava comer um cookie. Precisava voltar para a cafeteria e me sentar. "Se comer este agora, a fama virá em seguida?" "Eu acredito." "Então, eu quero esperar. Quero dizer, olhe para mim. Se eu vou ser famosa, quero arrumar meu cabelo, talvez vestir algo melhor." "Você deveria usar um vestido", Lars disse. "Um vestido bonito. As meninas não usam mais vestidos." "Sim, devo vestir um vestido bonito." Malcolm franziu a testa. "Você não vai comer agora?" ”Eu vou comer mais tarde." "Você não está tentando me enganar?" "Não." "Os nós dos meus dedos estão congelando", disse Lars. "Pegue o doce." Eu peguei os doces e o coloquei no bolso. "Bem, então eu acho que terminei, eu não acho que eu vou te ver novamente." Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Por um momento, seus olhos azuis, tão profundos e vívidos, eles se tornaram cinzentos. Quando ele suspirou, uma brisa gelada percorreu minha espinha. "Hora de ir ou eu vou estar em problemas. Desejo-lhe uma vida longa e saudável, Katrina Svensen. E a você, Lars Larsen, lhe desejo dignidade." Ele se foi colina acima, exatamente como da última vez, exceto que ele parou para olhar para trás, a tristeza no rosto de forma clara. Em seguida ele tinha ido embora. "Eu não acho que esse menino esteja certo da cabeça", disse Lars. "As páginas do seu livro estavam em branco." Talvez eu não estivesse bem da cabeça. A farmácia estava do outro lado da rua. "Espere aqui", disse a Lars. Eles não tinham andadores no estoque. Teriam que pedir um e era muito caro. Eu disse para o atendente que voltaria. Pensei em perguntar se ele sabia alguma coisa sobre alucinações, mas decidi que era melhor não. Quando eu alcancei Lars, ele já estava quase no Anna's. Sua articulação tinha melhorado. "Hey, Katrina." Ele pegou um pedaço de pau. "Não é uma beleza? Olhe o identificador é esculpido como um peixe. E o meu nome nele. Capitão Lars." "Onde você conseguiu?" "Acabei de encontrar", ele acenou sobre a sua cabeça e sorriu. "Agora, isso tem alguma dignidade"

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

CAPÍTULO TREZE

Odin estava sentado sozinho em uma mesa do canto, olhando tristemente para seu tabuleiro. Ralph e Ingvar tinham-no abandonado por que Irmgaard estava fazendo krumkake – pequenos rolinhos de biscoitos aromatizados com amêndoas, limão e

cardamomo. Eles

observavam enquanto ela derramava a massa amarela no forno. A massa afundou nos sulcos do forno, chiando para um marrom dourado. Os Garotos esperavam com expectativa enquanto ela levantava o biscoito macio com uma espátula e, em seguida, enrolava em torno de um cone de metal. O silêncio de Irmgaard e seus graciosos movimentos repetitivos poderiam deixar em transe qualquer pessoa. O vapor do forno quente tinha deixado seu rosto rosado. Poderíamos pensar que homens crescidos teriam algo melhor para fazer em uma tarde de quarta-feira. Mas Ingvar diria, “O que pode ser melhor do que uma bela mulher e um prato de biscoitos quentes?” “Katrina tem um namorado”, Lars anuncia enquanto nós entramos. “O que? Não, eu não.” “O que é isso?” Minha avó atravessa toda a sala, enxugando as mãos em uma toalha de prato. Seu lábio inferior tremia ligeiramente. “Um namorado? Quem é ele?” Seu entusiasmo era embaraçoso. Você pensaria que eu tinha descoberto a cura para a celulite ou algo assim. “Ninguém.” “Ele é um estrangeiro”, Lars diz, desabotoando o casaco. “E ele não está aqui, se você sabe o que eu quero dizer.” Minha avó aperta os lábios. “Ele não é sueco, é?” “Ele veste uma saia”, Lars acrescenta, pegando o assento na frente de Odin. Odin levanta a sobrancelha. “Uma saia?” “Você está namorando um homossexual?”, minha avó pergunta. “Ele disse que ele não era uma fada”, diz Lars. “O que você está falando? Eu não estou saindo com ninguém”. Eu derrubo minha mochila e, em seguida, pego um krumkake. “E Malcolm usa um kilt, e não uma saia. Isso não tem nada a ver com ser gay”. “Ela está certa. Romanos usavam saias”, Ingvar diz. “Romanos não usavam saias. Usavam túnicas”, Ralph diz, com migalhas caindo em sua boca. “Eles usavam saias”, Ingvar insiste. “Com pregas.” Ralph pega outro biscoito. “Eu vou te dizer quem usava saia. Mel Gibson usou naquele Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel filme.” “Sim, bem, ele é um ator, e todo mundo sabe que os atores são fadas”, Odin diz. A sabedoria da idade. Eu como meu biscoito, então derramo leite em um copo alto. O biscoito me ajudou a sentir-me melhor após o episódio do “congelamento mundial”. Talvez eu apenas estivesse cansada ou hormonal. “Onde você conseguiu essa bengala?” Odin pergunta. “Encontramos isso”, diz Lars. Ótimo, nós abandonamos o assunto de namorado. Meus ombros se relaxam enquanto bebo o leite. Por que era um negócio tão grande ter ou não ter um namorado? Claro, eu não me sentiria tão defensiva, se eu tivesse escolhido propositadamente ser namoradeira. Lars move uma das peças do jogo. “O namorado de Katrina disse que ele estava preso. Isso é o que ele disse. Que Katrina tinha aprisionado ele.” Todos param de comer e cozinhar e jogar, e sorriem para mim. Com tontos pequenos sorrisos como se eu tivesse dito minha primeira palavra ou dado meu primeiro passo. Meu rosto parecia que estava pegando fogo. Meto-me dentro do escritório, mas Vovó Anna, apesar de seus joelhos artríticos, mantém-se rápida ao meu encalço. “Foi isso que o menino disse?”, ela pergunta, piscando animadamente. “Aprisionado?” “Eu não sei.” Eu olho em volta para as folhas de pedidos, tentando parecer ocupada. Uma das minhas tarefas era fazer os pedidos de alimentos e suprimentos. Uma pilha de papéis cobria indisciplinadamente a mesa de vovó. Caixas de sapatos cheios de recibo estavam no chão. As gavetas das mesas estavam abertas. “O que aconteceu aqui?” Ela pega alguns papéis. “Eu estou tentando encontrar o recibo da televisão?” “A nova?” Ela desvia o olhar. “Eu pensei que nós poderíamos vendê-la no eBay. Nós realmente não precisamos.” Meu estômago se aperta. Ela adorava a nova televisão, por que ela conseguia ver dois programas de uma vez. Realmente chegamos ao ponto de ter que vender nossos pertences? “As coisas estão tão ruins assim?” “Precisamos de uma nova máquina de lavar louca. É uma questão de necessidade.” “Não se livre da televisão”, eu digo. “Poderíamos fazer uma venda de garagem. Tenho todas essas coisas no armário de cima.” “Falaremos sobre isso mais tarde.” Ela vira seu rosto redondo para mim, suas sobrancelhas arqueadas com esperança. “Você vai chamar esse menino para o Festival Solstício?” Estávamos sem dinheiro e ela estava preocupada com minha vida amorosa. Será que eu deveria também estar preocupada? Não ter um namorado aos dezesseis anos colocava-me na Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel trilha rápida para ser uma solteirona? Será que isso significava que eu passaria o resto da minha vida sozinha, sem filhos, e seca? Aaron poderia começar a me chamar de Solteirona do Café. “Eu não vou chamá-lo para o Festival do Solstício. Eu realmente não o conheço.” Pego uma conta da empresa de energia. “Vovó, quanto dinheiro nós precisamos?” “Isso não é da sua preocupação.” Ela pega a conta da minha mão. “Como você encontrou este rapaz?” “Ele só apareceu. E ele continua me seguindo.” Ela assente. “Isso é o que eles fazem. Acredite em mim, uma vez que um homem se apaixona, ele segue você para toda parte. Ele manda flores, liga, ele te leva para jantar fora, para ir ao cinema. Ele se incrusta como um carrapato”. Ela suspira. “Tão romântico.” “Bem, eu não quero um carrapato.” Sua expressão atordoada desaparece e seu senso comum reaparece. “Então você tem que deixar isso bem claro. Se você não o ama, você não o ama. Não é bom deixá-lo levar adiante. Diga-lhe que aprecia seus sentimentos, mas que você não está interessada”. Ela acaricia minha mão. “Sua hora vai chegar”. Ela volta para a cozinha. Eu não iria dizer para Malcolm que eu não estava interessada, porque ele tinha deixado Nordby. Ele tinha me desejado uma vida longa e saudável. Mesmo que ele acabasse sendo sensato, não importaria. Ele se foi. Pego outra conta, esta da Acme Supply Company. Trinta dias de atraso. Outra do Visa também com trinta dias de atraso. Se pudéssemos simplesmente jogá-las no lixo e terminar com elas, como se fazia com as sardinhas ruins. “Adeus, Katrina. Adeus, Anna. Adeus, Irmgaard”, Os Garotos se despediram, a porta da frente fechando-se atrás deles. “Vovó?” Vou para a cozinha. “Você viu as taxas por atraso dessas contas? Elas acrescentam centenas de dólares.” Ela acena para mim. “Não agora, Katrina. Eu não estou me sentindo bem. Vou me deitar.” Ela se agarra ao corrimão e lentamente se puxa para cima dos degraus. Indo para a cama às 4h:30min da tarde não resolveria nossos problemas de dinheiro, mas às vezes, arrastar-se sob as mantas é a única coisa que uma pessoa pode pensar em fazer. Começo a limpar o balcão, quando Irmgaard abre a bolsa e tira sua caneta. Estende duas notas de vinte dólares. “Oh, obrigado, Irmgaard, mas eu tenho certeza que as coisas não estão tão ruins assim”, digo. “Nós vamos trabalhar com isso.” Ela franze a testa e coloca o dinheiro sobre o balcão. “Você sabe que vovó não vai aceitar isso.” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Eu pego as notas e coloco de volta em sua bolsa. Irmgaard não tem dinheiro para dar. Sem cliente significava sem gorjetas. Eu mudo a estação do rádio. Irmgaard nunca parecia se importar. Perder-se na música sempre fazia a limpeza ir mais rápido. Enquanto eu cantarolava, a imagem de Malcolm com seus olhos fechados não parava de aparecer na minha cabeça. Ele sabia como seu rosto era perfeito? Será que ele sabia que mesmo com as roupas esfarrapadas, ele era lindo? Observando-o ali, eu quis me inclinar para frente e beijar seus lábios. Eu nem conhecia ele e queria beijá-lo. Um toque súbito em meu ombro quase me deu um ataque cardíaco. Irmgaard estava ao meu lado, com seu casaco e chapéu. “Já é hora de fechar?” Eu pergunto. Ela morde o lábio inferior e desvia o olhar, incerta sobre algo. “O que há de errado?” Eu desligo o rádio. Ela puxa um pequeno livro do bolso do seu casaco – um daqueles pequenos livros de brinde que você encontra ao lado de caixas registradoras. As letras douradas do titulo diziam Anjos Entre Nós. Ela acena para mim. “É para mim?” Irmgaard tinha me dado toneladas de presentes ao longo dos anos, lembrando de cada aniversário e de cada feriado. Na Páscoa, ela sempre trazia uma cesta de ovos de chocolate, no Dia dos Namorados, ela trouxe um frasco de perfume da farmácia. Ela não tinha seus próprios filhos, assim que eu sempre achei que eu era uma espécie de filha substituta. Ela aponta para a imagem na capa, uma dessas pinturas religiosas da Idade Média. A pessoa da pintura está vestida, com grandes asas em suas costas e uma aureola dourada irradiando de sua cabeça. Pego o livro. “É um anjo”, eu digo. Ela assente com entusiasmo, em seguida, aponta para a porta da frente. Ela abre a porta, em seguida, acena novamente. Ficamos fora da loja e Irmgaard aponta para cima da calçada. Então, ela aponta para a saia. Eu estava confusa. Ela puxa sua saia. “Eu não entendo”, eu digo. Passamos por isso tempo todo. Era um jogo chamado, O que Irmgaard está tentando dizer? Votos de silêncio podem ser realmente irritantes. Certamente, eles podem criar uma aura de mistério e até mesmo reverência, por que cada tipo de voto requer dedicação, mas se você pretende ficar em silêncio, então é melhor você desenvolver uma aguda capacidade para charadas, ou você vai deixar todos loucos. Ela aponta – calçada, saia, calçada, saia. “Eu ainda não entendi.” Ela suspira, caminha até a calçada, então para. Ela estende a mão, palma para cima, como se equilibrasse alguma coisa. Ela aponta para a mão dela, então para a saia, em seguida, Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel para a calçada. Uma e outra vez, uma e outra vez. Oh. “Você quer dizer o cara que estava aqui na calçada, segurando o copo de amostra? O cara vestindo o kilt?” Ela assente, em seguida, pega o livro e abre no primeiro capítulo. O título era “O Mensageiro.”

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

CAPÍTULO QUATORZE

Eu comi um pouco da sopa de molusco que Irmgaard deixou na nossa mesa no andar de cima. Por que ela acha que Malcolm é um anjo? Ela era profundamente religiosa, não há dúvidas sobre isso. Ela, silenciosamente, reza antes de comer qualquer coisa. Eu a tinha visto muitas vezes beijando a cruz que pendia do seu pescoço, e ela mantinha uma bíblia em sua bolsa. Mas os anjos não estão ao redor nas calçadas, conversando com pessoas. Ou usando kilts e dormindo em becos. Eles estavam? Infelizmente, não tive tempo de olhar o livro que Irmgaard me deu de presente. Mal tive tempo de fazer minha lição de geometria quando Elizabeth passou as sete para me levar para sua aula de arte. “Eu liguei para o professor. Há um cavalete extra para você. Isto vai ser divertido.” “Não se iluda.” Eu sabia que massacraria qualquer coisa que pintasse. Mas, pelo menos, a aula poderia ser acrescentada na minha lista importante. Vovó Anna estava na sua cama, seu rádio sintonizado em uma discussão de livros na NPR. “Posso pegar para você alguma coisa?” Eu pergunto. “Não, obrigada, querida”, ela diz, calmamente. “Eu só estou cansada. Vá e se divirta.” “Você tem certeza? Eu não tenho que ir.” Ela parecia mais pálida do que o pálido normal norueguês. “Vá em frente.” Elizabeth e eu comemos o último krumkake no caminho para o centro comunitário. Ela tinha mudado suas calças pintadas – por um expansivo par de jeans com tinta em todo canto. Algumas vezes depois da escola, ela acrescentava uma mecha vermelha em seus cabelos. Eu deslizo para o banco de passageiros com o meu usual jeans e moletom. Elizabeth fala sobre Face durante todo o caminho. Ela o tinha visto no supermercado comprando um saco de batatas fritas, o que lhe deixou esperançosa, por que ela gostava de batatas fritas também. “Você acha que eu deveria me inscrever em aulas de golfe? Não parece ser o jogo mais chato do mundo inteiro?” O estacionamento estava lotado. O edifício de tijolo que abrigava o centro comunitário costumava ser uma escola primária. Panfletos e anúncios estavam pregados por todo o corredor. “Aqui é onde os alcoólatras se encontram”, Elizabeth diz, enquanto passamos por uma sala com uma mesa coberta de donuts. Ela corre e agarra um par de donuts com creme rosa gelado. “Um grupo de homens divorciados se encontram lá”, ela diz, continuando o tour. “Eles choram muito.” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Na sala 105, nós pegamos duas cadeiras e dois cavaletes salpicados com tintas. Elizabeth me dá um pedaço de papel aquarela e algumas tintas. Todos os outros pintores parecem muito mais velhos. Eles levam agradáveis estojos para seus estoques. “Você tem que ter dezesseis anos para assistir essa aula”, Elizabeth diz, entregando-me um pincel. Então ela me apresenta a professora, uma mulher de aparência anoréxica chamada Edna, que deve ter removido todos os ossos da mão, por que eu nunca apertei uma mão tão frouxa. “O que vamos pintar?” Eu pergunto enquanto Elizabeth se acomodava em seu tamborete. Um homem gordo entra, vestindo apenas um roupão de banho. Elizabeth sorri, maliciosamente. “Isto é Desenho Real.” “Hein?” “Não ria”, ela diz. “Isto é sério. O corpo humano é um assunto sério.” Ela amarra o cabelo para trás com um lenço rosa. “Todos os mestres renomados pintam nus.” “Nus?” O Cara Gordo deixa cair seu roupão de banho. Chamam de Desenho Real, mas deveria ser chamado apenas de Desenho de Pessoa Completamente Nua, ou Desenho Deixa Tudo Para Fora. O que há de errado com a pintura de uma bacia de maçãs ou um vaso de flores? Olha, eu admito isso. Eu não sou madura o suficiente para sentar em um banquinho e pintar uma pessoa realmente nua. Está além de mim. Especialmente, homens nus. Eu não tenho irmãos. Garotas que tem irmãos estão muito a frente daquelas que não tem. O único homem na minha casa tinha sido meu avô, e ele nunca andou em nada menos do que seu longo pijama vermelho com bolas de baseball nelas. A professora e o Cara Gordo conversam sobre sua pose. O contraste entre os dois é chocante, seus braços como galhos voam ao redor enquanto ela explica sua visão, seu estômago grande e flácido enquanto ele escuta. Ela continua falando, como se fosse a coisa mais natural do mundo conversar com um cara completamente nu. Ele diz que suas costas estão funcionando mal, então ela sugere uma posição reclinada. E então, ele se reclina, em toda a sua glória. Elizabeth empurra seu cavalete até que toca o meu, criando uma tela para nos esconder atrás, por que ela estava... rindo. A Srta. Artista Sofisticada estava perdendo a compostura. Ela coloca suas mãos como conchas em sua boca. “Oh... meu... Deus...” Ela quase derruba sua vasilha com água. “há, há, há, há, há.” “Qual é o problema com você? Eu pensei que você fazia isso o tempo todo”, eu sussurro. “Esse é o fornecedor do meu pai.” Olho para cima do meu cavalete. O Cara Gordo está conectado a sua própria música, seus pés rosa batendo alegremente. De jeito nenhum eu iria pintar suas partes privadas. Esqueça isso. Elizabeth limpa seus olhos com a manga da blusa e finalmente fazemos juntas. Nós nos Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel mantemos nossos cavaletes lado a lado, para que possamos conversar, o que não parece incomodar ninguém, pois todo mundo está conectado em seu próprio mundo. Com poucos traços, Elizabeth delineia o Cara Gordo, as proporções perfeitas. Eu tento copiar sua pintura, mas seus pés acabam parecendo blocos de madeira, e sua cabeça fica muito grande. Elizabeth mergulha um pincel em magenta. Magenta? Eu não vejo nenhuma magenta em nosso modelo. Eu misturo branco e vermelho e se torna um tom de rosa doentio. “Eu vou chamar Face para vir comigo ao Festival Solstício. Estou indo só para fazer isso.” “Sério?” “Sim. Eu estou ficando doente com toda essa porcaria do nervosismo. Eu estou agindo tão tímida. Eu não sou tímida.” “Não, você definitivamente não é tímida”, eu digo para ela. “Ser tímida nunca levou ninguém a nenhum lugar”. “Não eram os tímidos que iriam herdar a terra?” “Espero que não. Você pode imaginar como seria chato?” Ela franze o cenho para a minha poça de tinta. “O que você está fazendo?” “Fazendo cor de pele.” “É preciso adicionar menos vermelho e mais amarelo.” Apesar da adição de amarelo, meu nu parecia uma explosão de Pepto Bismol. Edna, a professora de arte, passeava por perto. Através de seus lábios apertados, ela assinala que a minha perspectiva estava toda errada, que meu assunto faltava emoção, e que eu precisava adicionar mais amarelo para o meu tom de pele. “Obrigada”, eu digo. E então, para que ela não ache que eu realmente me importava, eu acrescento, “Eu estou fazendo isso apenas por que meu orientador pediu.” “Como é que você vai perguntar a ele?” Eu pergunto depois que Edna elogiou o trabalho de Elizabeth e seguiu em frente. “Em pessoa. Face a face.” Fiquei impressionada com sua coragem, mas eu sempre me senti assim com relação à Elizabeth. É algo que meus dois melhores amigos tinham em comum – uma vez que eles sabiam o que queriam, eles iam atrás. Uma filosofia perfeitamente simples. Eu entendia o conceito, mas nunca conseguia colocar em movimento. Como nadar quatro comprimentos da piscina de Nordby. Sabia o que tinha que fazer, simplesmente não conseguia controlar. “Ele me deu outro grão”, eu digo. Elizabeth quase cutucou seus olhos com o pincel. “De jeito nenhum! Deixe-me comê-lo desta vez. Por favor.” “Você não sabe o que eu desejei.” “Oh. O que?” “Fama.” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Ela senta-se reta. “Por que você desejou fama? Você não quer ser famosa.” Ela olha ao redor do seu cavalete. Fechando um olho, ela levanta seu pincel da maneira que os artistas fazem, medindo alguma coisa. “Eu sou aquela que quer ser famosa. Se eu fosse famosa, então minha galeria seria a mais popular de Nova York”. Eu adiciono mais rosa na sua barriga. “Talvez eu queira ser famosa.” “De jeito nenhum. Você odeia quando as pessoas olham para você, e é isso que acontece com as pessoas famosas. Eles olham para você, eles seguem você por toda parte. Eu adoraria isso.” “O que você acha que eu deveria ter desejado?” “Bem, deveria ser o que você mais deseja, certo?” “Sim.” Ela bate seu pincel contra seu joelho. “Um. Eu não sei. Você realmente não tem qualquer interesse.” Ela encolhe os ombros. “Talvez seu maior desejo seja ter seus pais de volta.” Por que não pensei nisso? De todas as coisas que eu poderia ter pensado, por que isso não bateu na minha cabeça? Não que isso importasse, por que você não pode trazer as pessoas de volta dos mortos, mas não deveria ser o que eu mais desejava? É só que meus pais foram como um sonho, que há muito desapareceu da minha memória, apenas dois rostos numa foto na cabeceira da minha cama. Sentia falta da ideia deles, mas uma ideia não é a mesma coisa que uma memória real. Isso não tem emoção. Então, eu não gasto meus dias desejando por duas pessoas que eu não consigo lembrar. Naturalmente, a dor da minha avó era uma entidade em si mesma. “Se você não comer o grão, você vai me deixar comer?” “Está em casa.” Não era assim. Estava derretendo no bolso do meu jeans, mas por alguma razão eu não me sentia com vontade de partilhar. Elizabeth era tão boa em fazer as coisas da sua maneira, como em ajudar com um dever de matemática ou escolhendo o tipo de refrigerante que dividiríamos no cinema. Eu sabia que se eu mostrasse o grão, eu não o veria novamente. “Quer ouvir uma coisa muito estranha?” “Sim.” “Irmgaard acha que Malcolm é um anjo.” Elizabeth quase cai do tamborete. “DE JEITO NENHUM!” Nos metemos em problemas depois dessa explosão e Edna nos separa. Eu tive que lutar com os tons da pele sozinha. Mais amarelo piorou as coisas. Ele parecia ser feito de massa de modelar. Então, aquelas estúpidas aquarelas escorriam pela página, parecendo como se estivesse vazando. A professora não ficou impressionada. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel O resultado final da aula de Desenho Real não tinha nada a ver com técnica, mas tudo a ver com atitude, o que ilustra a principal diferença entre a maneira como Elizabeth lida com o mundo e a maneira como eu lido com isso. Ela pintou o Cara Gordo em sua totalidade, até suas partes privadas, e acrescentou todos os tipos de elementos decorativos, como uma trepadeira e uma urna grega, e salpicos de magenta e azul turquesa. Eu pintei um pedaço de carne e evitei todos os... detalhes. Eu nunca sequer pensei em adicionar meus próprios toques. Nunca passou pela minha cabeça que era permitido fazer isso. “E o grão?” Elizabeth pergunta enquanto caminhávamos pelo corredor. “Por favor?” Eu desejo não ter lhe dito. Ela nunca vai desistir. “Bem. Vamos moê-lo e beber amanhã de manhã.” “Amanhã não é bom. Eu vou estar fora todo o dia. Mamãe vai me levar para esse dermatologista especial em Seattle. Leva um ano para conseguir uma consulta com ela.” “Okay. Então, vamos fazer isso sexta pela manhã?” “Definitivamente.” “Hey, quando você vai perguntar para Face?” “Sexta. Na hora do almoço. Não me deixe acovardar-me, okay?” “Okay.” “Quero dizer, Katrina. Eu vou fazer isso. Vou caminhar até ele. Por que ser tímida não leva uma pessoa a lugar nenhum.” Amasso a minha pintura e jogo no lixo. Se os tímidos herdarão a terra, pelo menos, eles têm algo impressionante para colocar em suas aplicações para a faculdade.

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CAPÍTULO QUINZE

Quinta de manhã chegou e Vovó Anna continuava se sentindo doente. “É o meu estômago”, ela diz, recusando um prato de torradas. “Você está com gripe?” “Eu acho que não”. Ela empurra para trás a colcha e senta na beira da cama. “Parece com indigestão. Devo ter comido alguma coisa estragada.” “Talvez seja por que você está tão preocupada”, eu digo, sentando ao lado dela. “Por que você não quer minha ajuda com as contas?” “É o meu trabalho se preocupar com as contas”. Ela acaricia minha mão. “Seu trabalho é ir para a escola.” “Mas eu acho que eu deveria ficar em casa e cuidar de você.” “Irmgaard vai cuidar de mim.” Ela calça seus chinelos. “Você vai para a escola. Conseguir boas notas, para entrar em uma boa faculdade.” Minha avó costumava ser tão forte. Mas a idade surgiu, e como Lars, ela não quer ser tratada de forma diferente só por que seu corpo está desacelerando. Anna Svensen tem seu orgulho e ela acredita que seus problemas não eram da conta de ninguém. Como o alcoolismo do meu avô. Ninguém sabia que ele costumava beber para dormir todas as noites. Sorte nossa que ele era um bêbado pacifico, mas ela nunca disse a nenhuma alma. Eu como uma torrada e, em seguida, faço minhas tarefas da manhã. Acendo a luz amarela e olho para fora da janela traseira. O beco estava vazio. Por que Irmgaard achava que Malcolm era um anjo? Ele trabalhava como mensageiro e veio para Nordby entregar uma mensagem – foi o que ele disse. Pode ser que ele seja educado em casa. Pode ser que ele tenha ido a uma festa naquela noite e acabou no beco após se embebedar. Bebedeiras durante a semana eram populares entre um monte de alunos de Nordby High. Ele provavelmente não era diferente. Então, se eu pensasse nisso o suficiente, eu poderia explicar seu súbito aparecimento, mas como explicar seu comportamento estranho? Que ele fosse louco já tinha me ocorrido, mas se ele não fosse louco, então por que ele estaria contando uma história tão esquisita sobre a necessidade de recompensar minha boa ação? Por que ele estaria me seguindo? Ele poderia estar interessado em mim? Que teoria. Quinta-feira foi um aborrecimento total. Elizabeth não estava na escola e eu não vi Vincent por que ele passou o dia inteiro fora do campus, fazendo um talk show pela manhã e, em seguida, um talk show pela tarde. Fico pensando sobre Malcolm, trabalhando repetidamente na minha mente. Ele poderia gostar de mim? Isso importa? Ele disse adeus e eu estava de volta a Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel minha rotina normal. Na manhã de sexta-feira, Vincent mostra-se super cedo. Ele tira seu casaco e chapéu e senta-se no balcão. “Por que você está tão bem vestido?” Eu pergunto. Ele nunca usa camisas de botão. “Tenho hoje uma entrevista com a revista People.” “Oh. Certo.” Corto algumas fatias de pão integral e deixo cair dentro da torradeira. “Você parece bonito.” Ela diz. Ele descansa o queixo na mão e fecha seus olhos. Ele passou a maior parte da sua vida desde a sétima série, exausto. O treino de natação toda manhã e tarde, até tarde da noite para manter sua média A. Ele ajuda seu pai com as coisas da casa também. Ninguém sabe para onde a mãe de Vincent tinha ido. Ela tinha deixado-os há muitos anos atrás, com um homem casado, e não tinha voltado para Nordby. Ele nunca quis falar sobre ela. Embora seu pai tivesse doado todos seus pertences, Vincent tinha mantido escondido algumas coisas em seu quarto – uma blusa bem no fundo de seu armário e um colar escondido na gaveta da sua mesa de cabeceira. Havíamos perdido grande parte de nossas vidas, mas de certa forma, sua situação era pior. Minha mãe não me abandonou propositadamente. O que deveria doer muito mais além das palavras. Ele bocejou. “Você pode parar de nadar”, eu digo. Ele abre seus olhos. “O que você quer dizer?” “Você não precisa ganhar uma bolsa de natação agora.” “Eu não quero parar de nadar.” A torradeira estoura. “Ninguém da tribo Suquamish ganhou uma medalha nos Jogos Olímpicos. Ninguém ainda competiu nos Jogos Olímpicos. Eu quero ser o primeiro.” Como sempre, ele praticava a filosofia simples – se você quer alguma coisa, vá atrás. Elizabeth irrompe no cômodo, seu cabelo puxado em um rabo-de-cavalo conservador. Ela usa um casaco bege e calças jeans claras. Meus dois amigos pareciam como se tivessem se convertido em Jovens Republicanos durante a noite. “O que você está vestindo?” “Eu não quero assustar Face”, ela diz. “Pensei que eu deveria abaixar o volume.” “Quem é Face?” Vincent pergunta. “Esse garoto que eu gosto, se você quer saber.” Seus olhos delineados parecem aumentar mais do que o normal. “Eu vou chamá-lo para ir ao Festival Solstício comigo.” “Oh, ótimo”, Vincent pigarreia. “Uh, a propósito, esta é provavelmente uma boa hora para lhe dizer que eu também vou para o festival.” “Hein?” Eu paro de por manteiga na torrada. Ele força um sorriso. “Heidi Darling me chamou.” “O que?” Eu deixo cair à faca. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Bem, você sabe, ela se juntou a equipe este ano e nós passamos bastante tempos juntos. Ela me chamou ontem e eu disse que iria”. Ele agia como se tivesse compartilhado algo tão inócuo como um boletim do tempo. Sinto como se tivesse sido atingida por um raio. “Eu não me lembro à última vez que fui ao festival.” Eu me lembro da última vez que ele foi. Éramos alunos da sexta série e lembro que nos sentíamos como tontos ao ter que fazer pinhas com manteiga de amendoim para a árvore, mas nós fizemos de qualquer maneira, de alguma forma percebemos que era nossa última chance de sermos criança. Nós esperamos por St. Nick, estendendo nossas mãos para os bastões de doces e alcaçuz. Sabíamos que era Ingvar por trás daquela barba branca, não apenas por que seu cachimbo estava pendurado em sua boca, mais por que estávamos mais sábios e a magia da festa tinha começado a desaparecer. Depois da Grande Festa, o pai de Vincent nos deixou na plataforma atrás do escritório da marina. Vincent e eu nos enrolamos em um corredor para assistir o desfile de navios do Solstício. Eu lembro-me de cada minuto daquela noite. Eu agarro a borda do balcão. “O que você quer dizer com que você vai para o Festival do Solstício com Heidi?” “Eu sei que você não gosta dela, Katrina, mas é apenas um encontro. Eu não vou comprar o café do pai dela.” Ele agarra uma fatia de torrada. Elizabeth pega outra. Eu mal consigo controlar meu pânico. “Mas você deveria estar aqui durante o festival, lembra?” “O que você está falando?” “Eu perguntei se você iria ajudar a distribuir bebidas especiais e assinar os copos.” “Oh, isso. Você não disse que seria durante o Solstício.” “Sim, eu disse.” “Não, você não disse.” Eu olho para Elizabeth por ajuda. Ela encolhe os ombros. “Pensando sobre isso, acho que você não mencionou, quando você iria precisar da ajuda de Vincent.” “O QUE? Claro que sim. Quando mais eu precisaria dele?” Vincent termina sua torrada. “Por Deus, Katrina, não fique tão brava. Como eu ia saber? Eu não leio mentes.” Pânico torna minha voz estridente. “Você tem que me ajudar esta noite. Não conseguiremos vender mais do que o Sr. Darling sem sua ajuda.” “Mas eu já disse sim para Heidi.” “Então?” Eu olho para ele. Ele terá que escolher. Heidi ou eu. “Por que você iria querer sair com ela, em primeiro lugar?” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Ele desvia seu olhar. Esse gesto revela tudo que eu precisava saber. Vincent Hawk, meu melhor amigo desde a quarta série, estava apaixonado pela horrível Heidi Darling, filha do meu pior inimigo. Inacreditável. Ele não estava pensando claramente. Heidi tinha hipnotizado-o com sua beleza fresca e malévola. Eu precisava avisá-lo, ajudá-lo a ver a verdade. “Ela não se importa com você. Ela só está fazendo isso para me atingir.” “O que você está falando?” Ele estreita seus olhos castanhos. “Seu pai está tentando nos pagar para fechar o negócio e nos mudar. Se ela arruinar minha vida, então eu vou ter que me mudar. Você não vê?” “Como a minha ida para o Festival do Solstício com Heidi irá arruinar sua vida?” Elizabeth estava de olhos arregalados, enquanto eu me esforçava por palavras. “Porque... Porque...” Por que Heidi já tem uma vida perfeita, e se você ficar com ela, então ela vai ter tudo. Por que se você sair com ela, então eu vou me sentir como se você tivesse me apunhalado pelas costas e que as coisas vão mudar entre nós. E então não iremos sair mais e eu vou ficar infeliz. “Por que se trata de lealdade”, Elizabeth diz, batendo no ombro de Vincent. “Katrina precisa de você para ajudá-la.” “Eu sou leal. Como você pode dizer que eu não sou leal? Eu faço tudo com Katrina. É só um encontro. Vocês que estão agindo como se fosse o fim do mundo.” Ele desliza para fora do banco. “Olha, Katrina, talvez você tenha que pensar em outra maneira de competir com o Java Heaven. Você pode pensar em algo.” Ele coloca seu casaco. “E eu vou ajudar, você sabe que eu vou. Eu só não posso ajudar durante o Festival Solstício. Heidi está toda animada para ir e eu não quero ferir seus sentimentos.” Tão calmo como sempre, como se ele tivesse pele de titânio insensível aos meus sentimentos, ele coloca seu chapéu e sai. Tinha sido um grande plano, mas o Hero Hot Chocolate não era nada sem o herói. Lágrimas aparecem nos meus olhos. O que era mais perturbador – o fato que meu plano para fazer dinheiro ruiu e queimou, ou o fato que Vincent escolheu o sentimento de outra garota sobre o meu? “Vincent é muito bom para Heidi”, Elizabeth diz, me abraçando. “Ela vai perder o interesse logo quando ela perceber que ele não tem nenhum dinheiro, exceto uma bolsa. Ele não tem sequer um carro. Ela vai terminar com ele depois de alguns encontros.” Eu concordo, encontrando conforto na miséria potencia do meu melhor amigo. “Mas você sabe...” Ela faz uma pausa, depois tira migalhas do balcão. “Eu sinto que preciso ser brutalmente honesta.” Eu luto com mais lágrimas. “O que você quer dizer?” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Isso iria acontecer eventualmente. Vincent é muito bonito para não ter uma namorada. Vocês passaram muito tempo juntos.” Não tempo suficiente. Mas ela estava certa. Como o campeão de natação de Nordby e o herói salva-vidas eram solteiros? Ele teria propostas de casamento de todo o país, logo que a entrevista da People saísse. Mas de todas as pessoas... Heidi Darling. “Está ficando tarde”, Elizabeth diz. “Se nós iremos moer aquele grão, devemos fazer isso logo.” Certo. Aquele grão. Aquele estúpido grão. Eu vou mostrar para Vincent. Eu irei moê-lo e bebê-lo. e ficar realmente famosa e não precisar de sua assinatura nos copos de café. Eu corro para cima. “Você vai chegar atrasada”, minha avó avisa do banheiro. Caçadora de Ratos se esfrega nos meus tornozelos enquanto eu puxo meus jeans de ontem à noite do cesto de roupas. Dentro do bolso, o grão coberto de chocolate está todo pegajoso. Caçadora de Ratos se esfrega entre minhas pernas enquanto eu corro pelo corredor. “Pare com isso”, eu repreendo. Ela se mantém enrolada. No degrau mais alto, ela pisa no meu pé e me faz tropeçar. Eu me seguro no corrimão, mas o grão voa da minha mão e rola escada abaixo. O gato corre atrás. “Caçadora de Ratos!” O grão salta no último degrau e rola pelo chão da cozinha. Caçadora de Ratos move seu traseiro, então, ataca. Ela engole todo o grão. Elizabeth olha para as escadas. “O que você está fazendo aí? Onde está o grão?” Que manhã totalmente péssima. “Caçadora de Ratos comeu.” “Você tem que estar brincando.” “Não estou.” Ela põe as mãos no quadril e franze a testa. “Se o seu gato ficar famoso, eu vou ficar brava com você.”

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CAPÍTULO DEZESSEIS

Como eu tinha dito, a Lei #1 no meu livro de leis é Você nunca, jamais fará parte do Java Heaven. O adendo recente a esta norma é Você não PATICIPARÁ de qualquer coisa do Java Heaven, seja uma bebida, um alimento, ou a FILHA DO PROPRIETÁRIO. Na aula de Mitologia Mundial, eu evitei Vincent e fui para a mesa ao lado de Elliott, temendo o momento que o sr. Williams me chamasse para ler a minha história de boa ação. E ele vai me chamar, por que ele me olhou com impaciência enquanto eu atravessava a sala. Mas primeiro, ele nos fez ouvir três outras histórias que tinham as seguintes coisas em comum: cada história tinha sido escrita por uma menina, cada história era sobre Vincent, e cada história me fez sentir-me mal.

Isabelle leu: “Era uma manhã escura e tempestuosa, quando ocorreu o acidente. Destino olhou para baixo de seu trono no céu e disse, „Eu escolho aquele homem para morrer hoje‟ Mal sabia o Destino que Vincent Hawk estava no bairro.” Oh, por favor.

Ashley lê: “A chuva batia contra o rosto de Vincent quando ele gritou, „Como Deus como minha testemunha, eu não vou deixar este homem morrer‟.” Dá um tempo.

Chloe lê: “Vincent não pensou em sua própria segurança. Quero dizer, e se o homem tivesse caído por causa da gripe aviária? Vincent arriscou sua própria vida para salvar alguém.” Tanto faz. Elas lêem. Elas coram. Elas sorriem para Vincent. Ele absorve a adoração em sua camisa de botões e jeans. O herói perfeito, talvez, mas não o amigo perfeito. Basta com a coisa toda de boa ação. Podemos seguir em frente? “Katrina?” Sr. Williams chama. “Você tem uma história para contar?” “Eu não escrevi sobre Vincent salvando o cara.” “Eu não esperava que você escrevesse sobre Vincent. Tenho certeza que falo por toda a classe quando digo que gostaria de ouvir sobre sua boa ação, que seu visitante se referiu na segunda.” “Eu não escrevi sobre isso também.” Algumas pessoas gemem. “Eu fiz outra coisa.” “Oh”. O sr. Williams franze a testa e bate seus dedos contra a mesa. “Bem, vamos ouvir de qualquer maneira.” Eu não deveria ler em voz alta, pois escrevi a história durante um ataque de raiva, enquanto Elizabeth me levava para a escola. Nunca é uma boa ideia ler em voz alta algo que você escreveu durante um acesso de raiva. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Eu nunca estive zangada com Vincent antes. Bem, só por pequenas coisas, como quando ele derrubou seu clarinete encima do meu sapato na sexta série durante o treino da banda, e quando ele intencionalmente me derrubou da canoa, pois ele sabia que água escura me assustava. Pequenas coisas, coisas de garoto – coisas que não importava. Eu lanço um olhar para ele, sentado ali, todo bem vestido. Ele havia escolhido os sentimentos de Heidi sobre os meus! “Por favor, sentem-se para que possamos ouvir”, Sr. Williams diz. “Era uma vez uma garota que plantava batatas”, eu leio. Mas alunos gemem, alguns caem de volta em seus lugares. Ninguém se importa, já que não era uma história sobre mim e o Cara de Saia. Eu continuo. “Ela trabalhava muito duro todos os dias, plantando suas batatas. Nos fins de semana, ela levava as batatas para o mercado e vendia. E tudo estava bem. Mas, então, um homem comprou um terreno ao lado e começou a plantar batatas. E ao chegar o verão, ele comprou um trator novo, assim ele poderia plantar suas batatas mais rápido. E como ele plantava as batatas mais rápido, ele era capaz de levar o dobro da quantidade de batatas para o mercado. E por que ele colocava em sacos de fantasia com etiquetas orgânicas, o povo começou a comprar suas batatas ao invés das dela.” Não olho para cima. Eu não me importava se eles estavam entediados. Esta história tinha um ponto e eu iria mostrá-lo. “A menina ficou desesperada. Vender batatas era sua única forma de ganhar dinheiro, e o festival de batatas era em poucos dias – o principal dia de vendas do ano. Então ela pergunta se seu melhor amigo pode ajudá-la a plantar para que ela pudesse tentar conseguir o maior número de batatas para o festival e o amigo diz, „É claro que vou te ajudar, por que é isso que os melhores amigos fazem‟. No dia seguinte, a menina se levanta cedo e começa a plantar. Mas onde estava seu amigo?” Eu faço uma pausa dramática. Alguém espirrava. “O rugido do motor do trator se aproxima. Ela olha para cima de sua plantação e vê que seu amigo estava dirigindo o trator do vizinho, no campo do vizinho. Ela fica chocada. „Por que você está dirigindo esse trator?‟, ela pergunta. „Você sabe que pertence ao meu vizinho e ele está roubando todos os meus negócios‟. E seu amigo diz, „Eu estou dirigindo por que seu vizinho me pediu para dirigir‟. E a garota diz, „E então? Você deveria estar me ajudando a preparar tudo para o festival de hoje. Eu preciso de você‟. E o amigo diz, „Mas você nunca me disse que hoje era o dia em que você precisaria da minha ajuda e eu realmente gosto deste trator por que é bonito e não quero ferir os sentimentos do seu vizinho, não o dirigindo‟. E a garota diz, „Tanto faz. FAÇA O QUE QUISER! VOCÊ É UM TRAIDOR!” Eu sento. Ninguém aplaude nem nada. O Sr. Williams coça a cabeça. “Uh, Katrina, é isso? Onde está a boa ação?” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Eu cruzo meus braços. “Não há nenhuma boa ação. Esse é o ponto. Poderia ter sido uma boa ação, mas seu amigo era um idiota total, e ele perdeu a oportunidade de fazer uma boa ação.” “Mas qual é a moral?” “A moral é que às vezes você tem que ajudar seus amigos, mesmo que existam outras coisas que prefira fazer.” Eu sorrio, confiante que tinha feito meu ponto. Sinto-me satisfeita, sentada na minha onda de verdade. Vincent pigarreia. “Talvez a moral é que ela não deve depender de seu amigo para tudo. Talvez ela devesse descobrir como salvar seu negócio de batatas sozinha. Talvez ela deva conseguir uma vida.” Quando as ondas quebram, elas podem realmente esmagar um nadador, especialmente se elas carregam pedaços de conchas e pedras quebradas. Especialmente se elas carregam sentimentos feridos. Eu não fui capaz de assistir o resto das minhas aulas da manhã. Assim que o sino tocou, fugi de Mitologia Mundial. O sr. Prince tinha preenchido o corredor com a exposição de realizações de Heidi. Como Entrar Na Ivy League. Eu reflito, enquanto passo apressada, como um fantasma com cabelo loiro e olhos claros. Eu juro por Deus que ouço sussurrar, “Consiga uma vida.” Eu não me importo que o carro de Elizabeth estivesse coberto de gelo. Eu arranco a chave reserva de seu esconderijo no pneu traseiro, entro, e fico com meu grande mau humor. Quando alguém lhe diz para “conseguir uma vida”, significa que o que a pessoa está realmente dizendo é, “As suas preocupações são estúpidas. Elas são triviais e estão abaixo de mim”. Isso é o que realmente se diz para um amigo. Esta música dos Beatles aparece na minha cabeça – Consigo com uma ajudinha dos meus amigos. Sem Vincent, havia apenas Elizabeth. Quando eu tinha parado de fazer amigos? Quando eu tinha decido que dois era muito? O tempo passa. Eu não fiz nada, o que é a verdade, por que o mau humor faz com que uma pessoa não faça nada. Se você quiser perder tempo, e refiro-me a perder de uma maneira que não acrescenta nem uma gota de sentido para sua vida, ou da vida de outra pessoa, ou o próprio universo, então mau humor é sua resposta. Eu estou com fome. Deslizo no assento, o estacionamento desaparece e tudo que posso ver é a caixa de luvas de Elizabeth. Aproximo-me e pego um pacote de Hostess Ding Dongs 13. Quanto tempo levaria para me congelar até a morte?

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São uma espécie de bolinhos recheados. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel A porta do motorista se abre. Elizabeth se joga dentro do carro, bate a porta e, em seguida, escorrega para perto de mim. “Estou feliz por você estar aqui. Não posso ir até esse refeitório suada hoje. Por que você está se escondendo?” “Eu não quero ver Vincent. Por que você está se escondendo?” “Eu não quero ver Face. Eu pedi para ele.” “Você pediu?” “Ele disse que precisava pensar sobre isso.” “Oh.” Eu abro o pacote de Ding Dongs com meus dentes. Elizabeth agarra o volante. “Isso não é ruim, não é? Quer dizer, se ele não quisesse ir comigo, então ele teria dito que não podia ou algo assim. Mas se ele quisesse ir comigo, então ele teria dito sim.” Seus dedos ficam brancos. “Oh, Deus, ele vai dizer não, não é? Isso é totalmente embaraçoso. Ele vai me fazer esperar e depois me rejeitar. Eu usei essas roupas chatas por nada. Eu o odeio.” “Talvez você só o surpreendeu.” “Talvez”. Ela estende a mão e pega um Ding Dong. “Quanto tempo você acha que ele vai pensar sobre isso? Devo perguntar-lhe quanto tempo ele vai demorar? Oh, meu Deus, isso pareceria tão desesperado.” Eu não tinha conselhos para Elizabeth. Face era tão estranho para mim como qualquer outro cara de Nordby High – inclusive, Vincent. “Ele acha que eu sou gorda.” “Elizabeth...” “Esqueça. Eu não vou sentar e esperar que ele me rejeite.” Ela termina o bolo pegajoso em duas mordidas. “Eu vou enviar-lhe um bilhete dizendo que fiz outros planos. Isso vai ensiná-lo a não me fazer esperar”. Ela bate a mão no volante. Então, ela grita. Um rosto olha para nós, através do para-brisa. Saltamos. Malcolm está no capô do carro, com as pernas cruzadas, sua mochila descansando entre as pernas. As letras de ouro do Serviço de Mensagens brilham. Elizabeth enfia a chave na ignição para que ela pudesse abaixar a janela. Ela se inclina para fora. “Ei, você pode entregar uma mensagem para mim? Eu quero que seja entregue para este cara da escola. Diga, „Querido David, lamento informar que, enquanto eu esperava sua resposta ao meu convite, recebi outra oferta. Que eu aceitei‟. Lamentavelmente – não. Sinceramente – não. „Atenciosamente, Elizabeth Miller‟. Você pode fazer isso? Como, agora?” “Eu não posso fazer isso, temo. As únicas mensagens que eu sou autorizado a entregar são enviadas diretamente do meu empregador.” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Vou pagar em dinheiro. Você não terá que dizer nada ao seu patrão.” “Eu temo que seja contra as regras”. Malcolm inclina a cabeça e olha para mim, sua expressão mortalmente séria. “Por que você não comeu o segundo grão?” Apesar do para-brisa abafar sua voz, sua pergunta se desliza diretamente em meu ouvido. Faz cócegas. “Como é que ele sabe isso?” Elizabeth sussurra. De jeito nenhum ele poderia realmente saber que eu não tinha comido o segundo grão. Mesmo se tivesse espiando pela janela do café, ele não poderia ter visto Caçadora de Ratos. Ela estava na cozinha, quando devorou o grão. Ele estava blefando, jogando seu jogo estranho. Eu abaixo a janela do passageiro e me inclino para fora. “O que faz você pensar que eu não comi?” “Eu vou te mostrar.”

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

CAPÍTULO DEZESSETE

Faltar aulas pode dar um monte de problemas em Nordby High, mas nós deixamos o campus de qualquer maneira, intrigadas com a promessa de Malcolm de nos mostrar algo. “O que está acontecendo?” Elizabeth pergunta, puxando para a vaga de estacionamento disponível em Main Street. Uma multidão se reúne fora da Cafeteria Mundo Escandinavo da Anna, o que seria ótimo se pretendessem comprar um Café Norueguês Egg. Mas esse não era o motivo pelo qual essa multidão estava reunida. Eu reconheço um grupo de lojistas da Main Street e outros locais. Corredores e pessoas que passeiam com cachorros tinham parado, assim como crianças e pais. Agarrando suas bebidas orgânicas, os clientes saiam da Java Heaven pela porta da frente e se espremiam entre a multidão para ver melhor. Ver melhor o quê? Fico com medo. Será que aconteceu algo com minha avó? Terríveis pensamentos passam pela minha cabeça, tudo que poderia dar errado para uma pessoa idosa – uma queda, um acidente vascular cerebral, um ataque cardíaco. Ela não estava se sentindo bem. Por que eu não tinha ficado em casa para cuidar dela? Por que não fiquei mais atenta quando Vincent fez aquela respiração cardio-pulmonar naquele cara? Onde estava a ambulância? Por que ninguém estava fazendo nada? Oficial Larsen estava na margem da multidão, perto da loja de calçados. Corro até ele. “Oficial Larsen, onde está minha avó?” “Ela está no café, mas você não deveria ir lá”, ele diz, escrevendo alguma coisa em um bloco de notas. Seu celular toca. Ele vira as costas para mim antes que eu possa fazer mais perguntas. “É o Oficial Larsen. Nós temos uma situação e não é bonita.” Eu fico mole, como nos sonhos, quando suas pernas não funcionam. Ela está no café. Deitada no café? Morrendo no café? Por um momento, o pânico me derruba. “Vamos lá”, diz Elizabeth. Eu sigo seu rastro enquanto ela dá cotovelada na multidão. “Isso é pior do que dia de vendas após a Ação de Graças. Deixem-nos passar. Nós trabalhamos aqui.” Malcolm havia desaparecido novamente, mas não conseguia pensar sobre isso. Tudo que eu conseguia pensar era em perder minha avó. Enquanto nos forçávamos entre a multidão, o café parecia mais distante. O estranho era que, a multidão não estava silenciosa como acontecia em locais de acidente. Todo mundo estava falando e rindo. Com o coração batendo nos meus ouvidos, eu só conseguia pegar fragmentos de conversas. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Inacreditável.” “Está morto?” “Onde está?” Finalmente chegamos na janela da frente. Vovó Anna estava lá dentro, torcendo as mãos. Seu avental estava desatado. Fora isso, ela parecia ilesa e muito viva. Com um suspiro enorme de alívio, meu coração para sua dança selvagem e minhas pernas param de tremer. Eu agarro a maçaneta, mas a porta estava fechada, a placa de fechado na minha frente. “Vovó?” “Não deixe que nenhuma dessas pessoas entre”, ela diz, depois de abrir a porta com cautela. Elizabeth e eu entramos. Vovó Anna tranca a porta atrás de nós. “O que está acontecendo?” Eu pergunto. Irmgaard estava atrás do balcão, segurando uma enorme faca como se preparando para defender-se. “Que cheiro é esse?” Elizabeth franze o nariz. Um odor, como se fosse de esgoto, e um pouco como cachorro molhado, estava poluindo a sala. “É o gato”, Vovó Anna diz. “O gato?” Eu entro em pânico novamente. Adicionarei a minha lista de talentos: Entro em pânico facilmente. “O que aconteceu com Caçadora de Ratos?” Minha avó aponta. Eu engulo em seco. Elizabeth ofega. Caçadora de Ratos estava na base da janela, estendida em toda sua glória preto e branco. Ela vira seu queixo gorducho e mia em saudação. “Oh. Meu. Deus”. Elizabeth agarra meu braço. “Sobre o que ela está deitada?” “Isso é um rato de cais”, Ingvar afirma da mesa do canto. “Ratos de cais podem crescer até três pés na Noruega. Embora, eu nunca tenha visto um tão grande.” O corpo rígido de um rato preto estava deitado no chão, o longo rabo esticado pela parede. Sua boca estava congelada em uma careta, sua língua mole pendurada sobre uma fileira de dentes afiados. Caçadora de Ratos estava deitada encima do rato, ronronando como uma leoa orgulhosa. “Caçadora de Ratos realmente pegou um rato?” Eu não podia acreditar. Por um momento, senti-me orgulhosa pela garota. Então, eu pensei que poderia vomitar. Ratos me dão arrepio. Eu não quero nem mesmo tocá-los em uma loja de animais, e esses são os menores. Este rato é tão grande que poderia ser meu parceiro de dança. “Pegou-o e matou-o”, diz Lars, apontando com sua bengala para o ar. “Olhe isto. Deve ter

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel umas quarenta libras14.” “Eu acho que vai entrar para o livro dos recordes mundiais”, diz Ingvar. “Esse gato vai ser famoso.” Elizabeth me puxa de lado. “Para onde Malcolm foi?” Ela sussurra. “Nós temos que encontrá-lo.” “Por quê?” “Olha o que seu gato fez. Olhe para todas essas pessoas.” Ela aperta meu braço. “Você não vê o que está acontecendo? Fama.” “Não foi o grão”, eu digo para ela. “É claro que foi o grão.” Ela salta em seus pés, seus peitos quase batendo em mim. “Você não entendeu? Estes grãos realmente funcionam. Isto é como um conto de fadas. Nós temos que encontrá-lo e pegar outro.” Ela para de saltar. “Oh, maldição, eu tenho que voltar para a minha última aula, por que nós teremos uma prova. Se eu reprovar em mais uma prova, meu pai vai tirar meu carro. E então, eu terei que ir às estúpidas férias do trabalho da minha mãe. Maldição ao dobro. Vou ligar para você assim que puder.” Ela começa a sair, então, volta e cochicha. “Se você pegar outro grão, nem sequer pense em comê-lo sem mim.” Durante as próximas horas, eu aprendi muito sobre ratos. Nunca, de acordo com um repórter do Nordby News, um rato deste tamanho foi encontrado em Nordby ou em qualquer outro lugar do mundo. Alguns museus no centro-oeste possuíam esqueletos de ratos pré-históricos, da época em que os ratos compartilhavam cavernas com os tigres dente de sabre. De acordo com o Guinness Book of World Records, o maior rato da modernidade já encontrado foi um rato encontrado em Gâmbia, mas era menor do que esse rato. Nosso rato. O rato encontrado na Cafeteria Mundo Escandinavo da Anna. Meu gatinho amante de bolos tinha trazido para casa o maior rato do mundo. Meu assombro demorou pouco. Pegar um rato do tamanho de um castor era ótimo para vender jornais, pegá-lo dentro de um estabelecimento que vendo comida e bebidas não era tão legal para as vendas do estabelecimento. Era ruim. Realmente ruim. Sem cortinas ou persianas para puxar, tínhamos que suportar os espectadores. Uma mistura variada de faces continuava a se pressionar contra a vitrine – ansiosos, fascinados, rostos desgostosos. O rosto do Sr. Darling apareceu. Ele sorriu, então começou a falar com o Oficial Larsen. “Vá lá fora, Katrina, e veja o que esse homem horrível está dizendo”, minha avó diz. O ar frio diminui o odor do rato de minhas narinas enquanto eu saio. Sr. Darling conversa 14

Essa medida é pounder, que quer dizer, libra. Procurei um conversor e deu cerca de 18 quilos. Mais como não tinha certeza se estava certo, resolvi deixar em libras mesmo. Até por que um rato com 18 quilos é meio impossível. =~ Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel com o Oficial Larsen em uma vez que atinge toda a margem da multidão. “O Departamento de Saúde deve ser notificado. Ratos transportam todos os tipos de doenças transmissíveis – peste, botulismo, doença da vaca louca.” “Esse lugar deve ser sujo”, um local diz. “Eu jamais comeria aqui”, sua amiga diz. Você nunca comeu aqui de qualquer maneira, eu quero dizer. Vocês são traidores abomináveis. Vocês viraram as costas para nós no momento em que o Java Heaven se mudou para cá. Mas ao invés disso, eu digo, “Não é sujo. Nós não sabemos como o rato entrou.” Eles balançam suas cabeças, buracos queimam através de mim com seus olhares de reprovação. Eu poderia culpá-los? Eu ficaria um pouco hesitante em comprar sanduíches na casa do Maior Rato do Mundo. Nada pior do que encontrar um desses pêlos pretos presos em uma fatia de tomate, ou uma pegada de rato no pão, ou excremento de rato flutuando em sua sopa. Um rato do porte de um castor faz uma infestação de baratas parecer como um passeio em um jardim de borboletas. “Anna‟s é limpo”, eu rogo. “Muito, muito, muito limpo. Não há nenhuma razão para...” “Oficial Larsen”, o Sr. Darling me interrompe. “Eu insisto que você feche o Café Anna‟s antes que alguém fique doente.” “Ninguém vai ficar doente.” Eu digo, mas ninguém estava ouvindo por que o Sr. Darling tinha começado a distribuir cupons do Java Heaven. “Vão experimentar nossa nova bebida, a Mocha do Vincent, em honra do nosso herói da cidade.” Ele sorri o mais alegre sorriso que eu já vi como se ele desfrutasse de nossa crise. Justamente quando ele queria nos comprar. Quanta coincidência. Eu sigo o oficial Larsen para dentro do café e ele dá a má notícia para minha avó. “Eu sinto muito, Anna, mas eu vou ter que chamar o Departamento de Saúde.” “Não seja um idiota”, Lars sussurra para seu filho. “Pai, eu só estou fazendo meu trabalho.” “Por que você tem que chamar o Departamento de Saúde? Este rato não vivia aqui”, Vovó Anna diz, seu rosto ficando manchado. Irmgaard balança a cabeça, furiosamente. “Veja, Irmgaard é minha testemunha. Sem ratos por aqui. Nunca houve um rato aqui.” “Ela o pegou fora”, eu minto. “E, então, trouxe para dentro.” “Agora, Katrina, não há necessidade de mentir”, Oficial Larsen diz. “Eu sei que você não deixa esse gato sair.” Ele esfrega sua nuca. “Eu sinto muito, Anna, mas tenho que ligar para o Departamento de Saúde. Além disso, se eu não fizer isso, o Sr. Darling fará. Fez com que todo Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel mundo se enojasse por causa de doenças transmissíveis.” “Não existem doenças no meu café. Pergunte aos Garotos. Eles vêm para cá há vinte anos. Eles já pegaram alguma doença?” Ingvar brinca com seu cachimbo. “Eu não tenho nada a relatar.” Ralph bebe um gole de café. “O doutor diz que eu tenho refluxo ácido.” Odin move uma peça do jogo. “Você não pegou isso de um rato.” Eu pigarreio. “Eu acho que o Sr. Darling colocou esse rato aqui.” Minha avó vira seu rosto preocupado para mim. “Katrina? O que você está dizendo?” “Ele deve ter colocado esse rato aqui. Faz sentido. Ele quer que nós fechemos e mudemos.” “Isso é uma acusação grave. Você tem alguma prova?” Oficial Larsen pergunta. “Não. Mas quem mais teria feito isso?” Eu procuro os rostos de todos na sala, mas ninguém concorda com a cabeça ou me apoia. O fotógrafo do Nordby News pressiona sua câmera contra a janela e um flash de luz ilumina a loja. O Oficial Larsen faz seu telefonema. Após a chamada, ele diz para que não removamos o rato. Ele pendura uma fita amarela ao redor, como se fosse uma espécie de cena de assassinato. “Alguém do Departamento de Saúde estará aqui amanhã. Por enquanto, chamem se precisarem de alguma coisa. Papai, eu venho te pegar mais tarde.” Então, ele sai. Os Garotos se despedem e se dirigem para o pub. À noite, fria, se arrasta pelas ruas de Main Street, e os espectadores vão desaparecendo. “Eu não posso ficar olhando para essa coisa”, vovó diz. Ela joga uma toalha sobre a carcaça. Caçadora de ratos espreita debaixo da toalha, ronronando alto enquanto vovó despenca em uma cadeira. Irmgaard corre com uma xícara de café. “Ponha um pouco de rum nele, por favor?” Enquanto eu olho para o longo rabo, minha suspeita pelo Sr. Darling cresce. Como isso aconteceu? Ele poderia ter comprado o rato de um circo. Como eu poderia provar que ele estava por trás disso? Podem tirar impressões digitais de um rato? Irmgaard começa a arrumar a cozinha. “Por que se preocupar?” Minha avó pergunta. “Você viu o olhar em seus rostos? Ninguém nunca vai por os pés aqui novamente. Mais de quarenta anos nesta cidade.” Ela toma um longo gole de seu café, e depois suspira. “Vá para casa, Irmgaard. Tire o dia livre amanhã. Vou ligá-la e direi o que o Departamento de Saúde disse.” Depois de um longo abraço, Irmgaard sai. Eu sento-me na frente da minha avó. Rodeada pelo ronronar da Caçadora de Ratos e pelo fedor do rato, nós ficamos sentadas por um longo tempo, atordoadas. O que tinha sido mais importante para mim naquela manhã – a traição de Vincent – parecia totalmente sem importância. Nós tínhamos um rato enorme para lidar. “Você não acha que o Sr. Darling fez isso?” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Vovó Anna franze o cenho. “Você não deveria dizer coisas desse tipo, Katrina. Ele pode ser arrogante e até mesmo um pouco valentão, mas colocar um rato em nossa loja estaria abaixo até mesmo de suas normas. Eu não posso acreditar que ele seria capaz de tal crueldade. É apenas má sorte, querida. Ou isso, ou...” Ela olha para o teto. “Ou alguém lá encima está tentando nos dizer algo.”

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CAPÍTULO DEZOITO

Minha avó não dormiu nessa sexta-feira à noite. Nem eu. Fiquei pensando que o rato mutante podia ter alguns amigos mutantes com vingança em sua mente. Eu juro que em um ponto durante a noite, algo atravessou por minhas pernas. A luz noturna se manteve acesa depois disso. Dizem que é sempre mais escuro antes de amanhecer. Aqui, por enquanto, está tudo na escuridão. Na manhã de sábado há uma manchete no Nordby News, no qual se lê: Caçadora de Ratos, o Gato do Café, Captura o Maior Rato do Mundo. Graças às maravilhas da tecnologia, este artigo foi espalhado por todo o mundo com apenas um clique de envio. Não é ótimo? Leitores de Londres e Cairo estremeceram quando leram que um rato com uma cauda de seis pés estava dormindo em nossa despensa. É claro que não tinham prova de que ele estava dormindo em nossa despensa, mas o proprietário anônimo de um certo café orgânico especulou que ele estava dormindo lá. Leitores de Paris e Moscou se contorceram quando leram que um rato do tamanho de um São Bernardo tinha sido encontrado em nossa despensa. Leitores em Monte Carlo e Estocolmo sufocaram quando leram que um rato com fezes do tamanho de M&M‟s foi encontrado encima da mesa, provavelmente lambendo os saleiros. Mais uma vez, especulações fornecidas por uma fonte anônima. A vítima de Caçadora de Ratos estava em todos os editoriais sobre ratos e doenças. Você sabia que basta uma pulga das costas de um rato para iniciar um surto de peste bubônica? Nas lojas de todo mundo o veneno de rato se esgotou. Um rato gigante significava que poderia haver outros ratos gigantes a espreita para conquistar o mundo. Alguns ambientalistas culparam os poluentes pelo tamanho do rato. Uma fonte anônima culpou uma dieta interminável de krumkake e sanduíches da sardinha pelo seu tamanho – estranhas comidas do Velho Mundo que ninguém deveria comer em primeiro lugar. Eu gostaria de atirar as sardinhas na cabeça de um certo Sr. Fonte Anônima. Quando as estações de televisão souberam da história, o foco passou de questões de saúde para a própria Caçadora de Ratos. Seu doce e gordo rosto, um contraste bem-vindo ao aperto terrível de morte que ela deu no rato, passava em toda parte. “Podemos entrevistá-la?”, um repórter da CNN perguntou. “Ela é um gato”, eu disse. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Gostaríamos muito de entrevistá-la. Podemos marcar uma hora? Ela é sensível a luzes brilhantes? Ela já usou um microfone? Ela tem um agente?” “Ela é um gato.” Vovó e eu nos escondemos lá encima. Já que nós normalmente não tínhamos o sábado livre, não estávamos certas sobre o que deveríamos fazer. Nós comemos ovos mexidos e purê. Não consigo me concentrar na lição de casa. Eu quero ligar para Vincent, mas não. De qualquer forma, ele deveria ter ligado e dito que estava arrependido. Mas e se ele não estivesse arrependido? E se ele quisesse ter dito o que disse? Eu era apenas uma amiga incômoda, sem vida e nossa amizade tinha tomado seu curso. Ele se mudou para coisas melhores e mais bonitas. Eu sinto a falta dele, terrivelmente. Ser acusada de espalhar a peste bubônica teria sido muito menos terrível se Vincent estivesse do meu lado. “O que é isso?” Eu pergunto, pegando um folheto que estava sobre a mesa. “O Sr. Darling nos enviou.” Ela acena com desgosto. “Ele comprou uma dessas unidades para sua mãe. Pobre mulher.” O folheto era do Retiro Universo, uma expansão de rosas e amarelas cabanas no Sul da Flórida. Cada cabana parecia exatamente igual, assim como seus moradores com cabelos grisalhos e pele bronzeada. Casais vestidos com shorts xadrez e camisas polo montados em carrinhos de golfe e rindo, como se eles estivessem tendo o melhor tempo de suas vidas. Eu nunca tinha visto minha avó usando shorts. Face provavelmente se aposentaria no lugar como aquele. “Tanto sol não é bom para uma pessoa”, vovó Anna diz. Ela olha para o relógio de parede, em seguida, tamborila os dedos sobre a mesa. “Eu gostaria que o Departamento de Saúde aparecesse e levasse essa coisa para longe, para que possamos seguir com nossas vidas.” “Vovó, o que aconteceria se eles nos fechassem?” Ela esfrega seus olhos cansados. “Eu não sei.” “Quão ruins estão as coisas? Quero dizer, de quanto dinheiro você precisa?” Ela leva seu prato para a pia. “Você sabe que eu não gosto de falar sobre dinheiro.” “Mas temos que falar sobre isso. É obviamente um problema. Eu vi as contas atrasadas.” Ela não diz nada. E encosta-se no balcão. “Você acha que talvez devêssemos seguir adiante e aceitar a oferta do Sr. Darling?” Eu odiava ter que perguntar, mas era a óbvia, embora repugnante, solução. Seus ombros ficam rígidos. “Eu prefiro pegar dinheiro com o diabo.” Em seguida, seus ombros se envergam, enquanto sua fachada corajosa torna-se pesada demais para se usar. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Mas talvez tenhamos que fazer isso.” Naquele momento, sua voz suave, e seus olhos cansados, ela parecia mais velha do que seus setenta anos. Eu tinha me acostumado com seus movimentos lentos, o número crescente de pílulas no banheiro, e as sestas mais frequentes. Mas sua vulnerabilidade bateu em mim forte. Ela era a adulta. Ela era minha família. Sua vulnerabilidade era minha vulnerabilidade. No sábado ainda pela manhã, Caçadora de Ratos finalmente libera sua vítima. Depois de comer um pedaço de bolo de café, ela recua para meu quarto e adormece no meu cesto de roupas, entediada com a coisa toda do rato. Para decepção dos curiosos que continuavam a se amontoar na vitrine, tínhamos colocado uma toalha sobre a carcaça. Como ordenado, não tocamos na fita estúpida amarela de cena de crime. Elizabeth ligou umas cem vezes naquela manhã para gritar sobre o quão famoso era meu gato e perguntar se eu tinha visto Malcolm. Eu não tinha visto Malcolm, mas na verdade, eu não tinha deixado o edifício desde o incidente com o rato. Vincent não ligou. A equipe de natação estava em Eastern Washington para um encontro de fim de semana. Eu sei como fato que há jornais em Eastern Washington. Certamente ele tinha ouvido falar sobre nosso desastre. Acho que ele ainda estava chateado com a minha história na aula de Mitologia Mundial – sobre eu tê-lo chamado de traidor. Mas eu não podia esquecer seu comentário. Eu tinha uma vida. Estava caindo em pedaços, mas era minha. O funcionário do Departamento de Saúde chega à tarde. Toda vez que nós fazemos uma pergunta, ele diz, “Eu não posso responder essa questão até que eu faça uma inspeção completa.” “Mas se alguém colocou o rato aqui de propósito?” Eu pergunto. “Não é contra a lei?” “Eu não posso responder essa perguntar, até que eu faça uma inspeção completa.” “Mas isso não parece estranho? Ratos não crescem tão grandes em Nodby.” “Eu não posso responder essa perguntar, até que eu faça uma inspeção completa.” Ele realmente se irritou por causa da toalha. Ele pega um par de pinças e a coloca em um saco de lixo. Seus cabelos grossos brilhantes estavam revestidos com algum tipo de gel. Quem faz isso? E ele manteve uma expressão em seu rosto enrugado como se tudo isso lhe desagradasse. “Um rato deste tamanho não é algo com que se deve mexer”, ele diz, tirando uma máscara de gás. “Eu não mexi nisso”, vovó Anna diz para ele. “Eu só não queria olhar para ele.” “Nós esperamos que você não tenha mexido nisso.” Ele ergue sua máscara. “Peste bubônica e outra contaminações podem ser transportadas pelo ar.” Bem, isso é ótimo. É bom saber, depois que respiramos o ar durante toda a noite. Ele coloca sua máscara, e então um par de luvas. Eu me viro quando ele enfia o rato morto Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel em um saco de lixo. Quando ele arruma todo seu equipamento, ele diz, “Eu estarei de volta na quarta-feira às dez horas, para realizar uma inspeção completa. Até, então, este lugar está fechado.” “O que?” Minha avó cospe a palavra. “Eu não posso ficar fechada até quarta-feira. Eu estou lidando com um negócio.” “É o melhor que posso fazer. Sou o único inspetor desta área.” Ele coloca uma placa na porta. Fechado pelo Departamento de Saúde Até Novo Aviso. “Você tem que colocar isso aí? As pessoas vão pensar o pior”, diz vovó Anna. “Eu temo que eles já pensem isso”, eu murmuro. O sr. Inspetor de Saúde coloca o rato ensacado encima do seu ombro. “Não removam a placa ou vou multá-las em quinhentos dólares. É a lei”. Ele sai. Minha avó liga para o Oficial Larsen. “Uma placa. Logo na porta. Você vem para cá e a tira. Agora... O que você quer dizer com não pode? Meu marido trabalhou para o departamento de polícia durante trinta anos. Isso deve servir para alguma coisa.” Ela bate o receptor. “Como iremos sobreviver se não ficarmos abertos?” Então, ela liga para Irmgaard contando as más notícias. Eu aspiro o tapete durante quinze minutos, então pulverizo o lugar com ambientador. Tanto quanto eu consigo lembrar, o café nunca esteve tão sombrio. Essa placa amarela de Departamento de Saúde poderia muito ter sido em néon, pelo modo como brilhava. Atenção: Armadilha da Morte! Vovó recua para seu quarto. Ela diz que precisava de algum tempo para si mesma. Com uma tarde inteira pela frente, arrumo minhas coisas e pego um ônibus para a casa de Elizabeth para fazer minha tarefa. Coloco o casaco enorme do meu avô para me proteger do frio do inverno e dos frios olhares de julgamento. Millie estava dirigindo o ônibus naquele dia. Ela pergunta por Malcolm. Eu digo que não tenho lhe visto. O ônibus passa pela Main Street e sobe a Viking Way, além da escola. A senhora ao meu lado trabalha com algumas agulhas de tricô. Será que Malcolm iria aparecer novamente? O que eu diria se ele me oferecesse outro grão? Eu balanço minha cabeça. Eles eram apenas grãos de café cobertos de chocolate, nada mais. Acme Supply Company tinham nos dado dez caixas de amostra. Eu tinha comido três das caixas antes de conhecer Malcolm, e nada estranho tinha acontecido. Mas ainda assim, minha vida se tornou tudo menos normal depois que o conheci. Elizabeth morava na colina acima da escola, no único condomínio fechado de Nordby. Um espaço verde ao redor de cedros e casas incrustadas perto do rio e rochas. Ela tinha um bulldog Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel que sempre tentava arrancar meus sapatos quando eu entrava pela porta. “Sai fora, Mr. Big”, eu rosnava. “Elizabeth está em seu quarto”, a Sra. Miller me diz. Elizabeth está sentada na frente de seu computador, seu cabelo enrolado em uma echarpe tingida. “Eu chequei meu e-mail esta manhã. Nada. E ele não me ligou também.” “Vincent?” “Não. Face”. Ela ainda estava de pijamas – rosa, com o rosto de Marilyn Monroe. “O que ele está fazendo, me torturando? O que eu fiz com ele?” Eu afasto uma colônia de almofadas de veludo e sento na sua cama. Seu colchão de plumas suporta o peso das minhas esforçadas preocupações. Ela retorce seu lábio inferior. “Talvez ele esteja esperando alguém melhor e se ninguém mais chamá-lo, ele vai comigo. Talvez seja por isso que ele está esperando.” “Por que você não liga para ele?” Eu pergunto. “O que? Assim ele vai pensar que estou carente.” Nós duas estávamos à espera que um cara ligasse, como se isso fosse fazer tudo certo no mundo. Sinto ainda mais pena de mim do que eu sentia antes. Elizabeth verifica seu celular. “Se eu ligar, ele vai achar que estou apaixonada por ele.” “Você está, não está?” “Talvez. Mas ele não precisa saber disso. Qual o problema com você? Por que você está falando tão baixo?” “Estou deprimida. O Departamento de Saúde nos fechou.” “Oh. Isso é péssimo.” Ela clica como louca no teclado. “Mas aqui está a boa notícia. Seu gato é a coisa mais popular da Internet. Olhe este vídeo.” Alguém filmou o evento de ontem. Eles deram um bom close no rato. E ali estava eu, olhando estupefata para o Sr. Darling enquanto ele informava ao Oficial Larsen que deveria avisar o Departamento de Saúde. “Por que minha boca sempre fica aberta assim?” Elizabeth clica um pouco mais. “Tem mais de três milhões de acessos. Esta é a maior coisa da Internet desde aqueles caras nus fazendo peixe e batatas-fritas.” Simplesmente fantástico. Deito-me e olho para as estrelas pintadas no teto de Elizabeth. “Seu gato é FAMOSO”, Elizabeth cantarola. “Se tivéssemos comido o grão, Katrina, nós estaríamos famosas agora.” “Não tem nada a ver com o grão. O Sr. Darling colocou esse rato no nosso café.” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Onde ele iria encontrar um rato como esse?” “Oh, ele conseguiria. Ele provavelmente roubou do zoológico.” “Se ele roubou, então alguém estaria procurando por ele. E ninguém está procurando por ele. Você não pode ignorar o que aconteceu – primeiro para Vincent e depois com seu gato.” Ela joga um travesseiro em mim. “Abra seus olhos, Katrina. Esses grãos são maravilhosos. Temos que encontrar Malcolm e pegar um pouco mais.” “Elizabeth, pare de falar sobre os grãos. Tenho sérios problemas.” Eu sento-me. “Os negócios não têm sido bons ultimamente. É por isso que eu estava tão animada com a ajuda de Vincent no festival. Vovó tem um monte de contas na sua mesa que ela não consegue pagar. E nós não podemos fazer dinheiro, já que fomos fechados. E mesmo que reabramos, o que vai ser do nosso café agora? Esse rato nos arruinou.” Por que eu me sinto tão envergonhada? Nosso fracasso não era devido à preguiça. Irmgaard, vovó e eu trabalhamos duro todos os dias. Mas eu percebo que eu deveria ter feito mais. Eu deveria ter ajudado vovó a manter o mundo fora das nossas portas. Quando ela disse não para a Internet, não para o café orgânico e não para o papel ao invés do isopor, eu deveria ter insistido. “A coisa é, se o café falhar e nós não conseguirmos pagar o aluguel, então nós iremos perder o espaço e nunca conseguiremos encontrar outro espaço tão barato. Nós temos um acordo com o proprietário. É o aluguel mais barato de Nordby.” Se eu estivesse falando sobre qualquer coisa que não fosse dinheiro, Elizabeth não teria parecido tão perplexa. Mesmo a física quântica teria sido mais fácil para ela digerir. Mas dinheiro nunca tinha sido uma preocupação para ela. Ela possuía todos os artigos de alta tecnologia disponíveis. Ela tinha um armário repleto de roupas novas, algumas que ela nunca usaria. Ela ordenava e conseguia qualquer coisa que quisesse. “Se sua avó precisa de dinheiro, meu pai pode emprestar-lhe algum.” “Obrigada, mas não há como minha avó aceitar isso. Ela morreria se soubesse que estou falando sobre isso.” “Então nós precisamos encontrar seu amigo anjo e pegar outro grão.” “Ele não é um anjo.” Lembro-me do livro de Irmgaard. Eu não tive tempo, nem sequer, de olhar para ele. “Como você sabe? Anjos podem aparecer em qualquer lugar, a qualquer momento. Eles ajudam as pessoas quando elas precisam de ajuda. Parece-me que você precisa de ajuda, Katrina. Como vamos encontrá-lo?” “Eu não sei. Ele só aparece.” Ela volta para seu teclado. “Ele disse que as mensagens têm que passar por seu chefe. Então, vamos chamar seu chefe e nós mesmas enviarmos uma mensagem. Quando Malcolm for entregá-la para nós, pedimos outro grão. Como se chama seu chefe?” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Apenas dizia Serviço de Mensagem em sua mochila. Isto é um desperdício de tempo, Elizabeth. Eu tenho que descobrir como salvar o café.” “Isso é o que estou tentando fazer.” Ela digita loucamente. “Nada aparece. Há algum tipo de logo?” “Não. Só letras de ouro. Eu não posso acreditar que você esta tentando encontrar um rapaz que alega ter grãos mágicos. Você não acha isso uma loucura?” “Eu vou dizer-lhe o que é loucura. Eu ter pedido Face para ir ao Solstício, isso é loucura.” Ela clica loucamente. “Não há serviços de mensagens listados em Nordby. Há apenas uma listada em Bremerton e se chama Serviço de Mensagens da Lily e o logotipo é rosa.” “Não se preocupe com isso”, eu digo. “OH!” Ela bate sua mão na mesa. “Eu só percebi agora. É claro. Nós podemos encontrar seu chefe, se ele é um anjo, então seu chefe é... Deus. Nós podemos enviar um e-mail para Deus.” Eu reviro meus olhos e afundo nos travesseiros. Eu não consegui dormir naquela noite. Às 10h:30min, Caçadora de Ratos derrubou um copo. Eu desço para limpar. Eu aperto o cinto do meu roupão e me escondo na cozinha escura enquanto funcionários do Java Heaven vagavam por lá, depois de ter terminado o turno noturno. Eles estavam indo para uma festa? Se Vincent estivesse em casa e nós não estivéssemos brigados, poderíamos ir assistir a um filme. Ele gostava de pipoca com falso queixo polvilhado por cima. Eu gostava de Junior Mints. Vincent sempre dizia que tinha gosto de pasta de dente, então eu nunca precisava compartilhar, o que era perfeito, por que eu posso comer uma caixa inteira. Na semana passada, nós tínhamos ido assistir a um filme de espionagem. Na semana passada, nós estávamos em condições de conversar. Na semana passada, nosso mundo era sem fortuna e fama. A escuridão pressiona sobre mim, mas eu não quero acender a luz, em caso de que mais alguém estivesse vagando por perto. Olhem a menina norueguesa, sentada sozinha no café cheio de pragas. Tire uma foto dela e coloque em um cartão postal. O lugar parecia condenado por sua fragrância de rato e a grande placa amarela queimava um buraco na porta da frente. O rei e a rainha da Noruega olhavam da parede. Eles nunca comeram em um lugar como este. De jeito nenhum eu seria capaz de dormir. Talvez eu pudesse fazer a lição de casa ou ler algo para me distrair. Minha mochila estava em um banco. Eu puxo o livrinho dela. Anjos entre nós. Eu abro. Na parte inferior, impresso em letras douradas estava: Propriedade da Irmã Irmgaard. Abadia St. Clare. Uau. Irmgaard havia sido uma freira? O livro era quase uma coleção de desenhos e pinturas antigas. Era divido em três seções: Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “O Mensageiro”, “O Guardião” e “O Caído”. Eu folheio as pinturas a óleo de criaturas aladas com vestes brancas. Reconheci alguns dos pintores – Raphael, Michelangelo, e Caravaggio. Então, eu paro de folhear. Era Malcolm. Seu rosto perfeito, seus olhos elétricos, seus longos cabelos castanhos, suas pernas fortes. O nome do artista era Carlino Botolucci e sua pintura era chamada de O Mensageiro, pintada em 1845. Um arrepio corria pela minha coluna. Eu refleti sobre todos os acontecimentos estranhos, mas esta foto levou-me ao extremo. Eu corro para a porta de trás. O beco está vazio. Onde ele estava? Eu corro para fora da porta da frente e paro na calçada. “Malcolm”, eu sussurro, envolvendo meus braços ao redor do meu roupão rosa, enquanto o vento gelado passava por meus tornozelos nus. Música provinha do pub, mas nem sequer uma única pessoa caminhava pela Main Street. Escuridão reunia-se à distância onde as luzes da rua acabava. Meus pés descalços estavam insensíveis contra o cimento frio. “Malcolm. Onde você está?” “É melhor você entrar.” Ele enfia a cabeça para fora de nossa porta da frente. “Parece que uma tempestade está se formando.”

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

CAPÍTULO DEZENOVE

Apenas um sussurro e ele tinha aparecido. Como ele tinha acabado no interior do café? Isso deveria ser a pergunta na minha mente, mas eu só conseguia pensar era no brilho. Apesar do sol ter se posto há horas, eu podia jurar que este estava atrás de Malcolm, embrulhando seus raios dourados em torno dele como em um abraço. Luz saia da porta como em uma daquelas pinturas do livro de anjos. Era uma auréola pairando sobre sua cabeça? Eu não podia me mover. Isso era real? Não eram loucas as pessoas que viam anjos? Talvez eu tivesse um tumor no cérebro ou talvez eu estivesse a beira de um ataque. “Katrina?” Quando ele entrou pela porta, o brilho regressou novamente para sua fonte – uma lâmpada acima do balcão da cozinha. Nada celestial, depois de tudo. Deixo escapar um suspiro enorme, sentindo-me decepcionada e aliviada ao mesmo tempo. Ficar cara a cara com um ser de outro mundo seria surpreendente e assustador. Eu tinha saltado para uma conclusão impossível. Sua semelhança com a pintura era explicável. Se puxássemos para trás o cabelo de Elizabeth, tirasse a maquiagem, e ela tivesse dez anos a mais, ela pareceria exatamente como a Mona Lisa. Mais ou menos. “Katrina?” Ele estende sua mão. Uma súbita rajada de vento faz com que seu kilt batesse sobre suas pernas. “Você não está vestida adequadamente para o frio. Venha para dentro.” Pensei em pegar sua mão, mas me senti muito autoconsciente. A rajada de vento levanta meu roupão felpudo. Por que eu estava vestindo essa coisa velha? Por que eu não tinha roupões glamorosos feitos de seda e plumas? Eu precisava ter um daqueles. E um salto alto para combinar com a pluma. Elizabeth tinha um roupão francês. Meu roupão era do Wall-Mart. E por que eu tinha tirado minha máscara e puxado meu cabelo em um nó? Eu provavelmente parecia como se estivesse com gripe. Ele segurou a porta para mim. Enquanto eu caminhava em sua direção, eu imaginei pisar no paraíso ameno de uma ilha tropical, por que era isso que parecia. O vento do inverno mantinha sua distância, como se Malcolm estivesse em uma bolha de verão. Uma vez lá dentro, a fragrância de rato foi substituída pela fragrância de Malcolm. Será que ele mantinha alguma fragrância em seu bolso? “Para onde você foi?” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Negócios.” “Irmgaard, a mulher que trabalha aqui, acha que você é um anjo?” “Ela acha?” Ele fecha a porta. Nós estávamos sozinhos, à noite, e eu ainda não tinha provas de que ele não era louco – só um sentimento. Se ele tivesse algum plano sinistro, esta seria a oportunidade perfeita. Eu ando para trás do balcão, usando-o como escudo. “Por que ela acha que você seja um anjo?” “Por que eu entreguei uma mensagem para ela.” “Você entregou? Quando?” “Depois que eu acordei no seu beco. Você não precisa ter medo de mim, Katrina.” Ele coloca sua mochila sobre uma mesa, em seguida, para diante do retrato do rei e da rainha da Noruega. “Esta é sua família?” “Não. A foto dos meus está ali.” Eu aponto para a foto que minha avó mantém perto da caixa registradora. Minha mãe, a fonte de meu cabelo loiro pálido, estava em uma praia com meu pai no dia do seu casamento. “Eles morreram em um acidente de carro quando eu tinha três anos. Você tem uma família?” Ele corre um dedo ao longo do retrato. “Mensageiros não têm familiares.” Ele diz com toda a naturalidade. “Mas com quem você mora?” “Ninguém.” Minha primeira impressão sobre ele era verdadeira, afinal. “Você é um sem teto?” “Eu suponho que você poderia dizer isso, já que os mensageiros não têm casa. Nós somos nômades. Nós vamos onde somos necessários.” Ele vira sua atenção para a cafeteira, passando a mão ao longo de sua superfície, parando para analisar os saleiros, recipientes de guardanapo, um vaso de flores falsas – inspecionando os itens como se nunca tivesse visto antes. Eu estava olhando para ele de uma forma muito intensa. “Quantos anos você tem?” Eu pergunto. “Eu não tenho certeza.” Ele abre a tampa de um pote de geleia. “Jovem, no entanto, em comparação com os outros. O que é isso?” “Geleia Loganberry.” Ele cheira, então, inclina sua cabeça para trás e despeja todo o conteúdo do pote na sua boca. Estremeço, pensando em quão doce deve ser o gosto da geleia. Ele engole, e depois sorri. “Isso é muito bom. Eu não tive muita chance de experimentar a comida. Eu não deveria Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel participar dos costumes locais, mas às vezes não consigo evitar. Na Escócia, eu experimentei pudim cozido.” Ele encontrou outro pote de geleia e despejou seu conteúdo, e depois outro. “Malcolm?” Encosto-me no balcão, minha cabeça girando com perguntas. O que era verdade e o que era ilusão? Será que ele realmente trabalha em um serviço de mensageiros? Será que ele realmente não tem casa nem família? Por que Vincent tinha tido sorte e Caçadora de Ratos conseguido fama? E por que a foto do livro de Irmgard parecia como ele? “Por que Irmgaard acha que você é um anjo?” Faço uma pausa. “Você é?” “Alguns chamam assim.” Ele limpa a boca com as costas da mão. “Eu não acho que a última fosse loganberry.” “Marmelada”. De repente, me sinto suando. “Isso é loucura.” “Sinto muito. Será que você não quer comer marmelada?” “Não. Você me dizendo que é um anjo. Isso é loucura.” Ele faz uma careta. “Eu sou muitas coisas, mas de boa-fé não sou louco.” “Anjos deveriam ter asas e usar vestes brancas e voarem por aí com harpas.” Ele fecha o pote de geleia e franze o cenho. “Quem disse?” “Todo artista que já pintou um.” Eu estendo o livro. Ele cruza seus braços. “Eu já vi esse livro e apenas dois desses artistas realmente encontraram com um anjo – Michelangelo e Botolucci, e eles decidiram acrescentar aureolas e asas para os retratos, pois era isso que o povo do seu tempo esperava. Eu não acho que o retrato pareça comigo.” Era exatamente parecido com ele. “Prove que você é um anjo”, eu digo. “Quer dizer, que você quer que eu faça com que sapos caiam do céu? Ou... fazer o tempo parar?” Parar o tempo? Aquele momento passa pela minha cabeça, o mundo congelado ao meu redor, olhando para seu rosto e lábios. Querendo beijá-lo. “Você fez isso? Você realmente fez o tempo parar?” Ele dá de ombros. “Não espere que eu faça isso novamente, por que se não vou acabar sendo rebaixado. Não quero ter que preencher envelopes novamente.” “O que você quer dizer?” Ele puxa um envelope dourado de sua mochila. A superfície do envelope brilha como se fosse a escama de um peixe dourado. “Vê isso?” Eu assinto. “Esta é a mensagem para Irmgaard.” Ele deixar cair sobre a mesa. Aterrissa com um baque alto. “Mas você disse que entregou.” “Eu entreguei, mas ela não quis ficar. E ela ainda não pegou. Eu tentei e tentei. E cada dia que passa sem ser entregue, isso fica mais pesado. Vá em frente, tente levantar.” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Eu caminho até a mesa e tento pegar o pedaço resplandecente de papel. O envelope era mais pesado do que um saco de cimento. Eu só consegui levantar um canto. Como poderia pesar tanto? Então Malcolm estende a mão e o leva para fora da mesa com o dedo indicador e o polegar. Coloco as mãos no bolso do meu roupão para esconder meu tremor. Às vezes, a verdade vai para cima de mim como um calafrio. “Como você fez isso?” “Fez o quê?” “Torná-lo tão pesado.” “Isso se faz sozinho, para me punir por não ter entregado. É minha primeira e única obrigação como mensageiro. Mas Irmgaard continua recusando.” “Por quê?” “Ela tem medo do que a mensagem possa dizer.” Ele enfia o envelope de volta em sua mochila, como se não pesasse mais do que um envelope normal. “A mensagem para Irmgaard é uma notícia ruim?” “Eu não sei. Temo que haja uma Lei de Confidencialidade. Verdade seja dita, eu me atrapalhei. Deixei-me ser visto, quando deveria apenas ter deslizado a mensagem para ela enquanto estava dormindo. Eu sempre faço confusão com as coisas, como eu fiz quando lhe dei dois desejos que você obviamente não queria, em primeiro lugar.” Ele olha para mim novamente, através da minha pele e meus ossos, vendo-me como um cara com um óculos de raio X. “Eu deveria ter prestado mais atenção. Eu sei como é querer algo, mas não querer admitir isso para ninguém.” Ele leu minha mente? “Se você ainda quer me dar uma recompensa, então você pode me dar uma grande pilha de dinheiro.” “Mas você já pediu por fortuna.” “Sim, mas eu não peguei. E agora eu realmente preciso.” Ele balança sua cabeça. “Você não pode pedir a mesma coisa. Se fortuna fosse seu verdadeiro desejo, então o grão não teria ido para outra pessoa. Eu não vou dar-lhe outro desejo, até que eu tenha certeza que seja o verdadeiro desejo do seu coração. Mais um erro e não vou ter nenhuma chance de ser promovido.” Ele desce do banco. “Você tem mais alguma coisa para comer?” Ele caminha até a cozinha, abre a geladeira, e puxa uma barra de manteiga. Antes que eu o impeça, ele dá uma mordida. Ele trabalha a manteiga em torno de sua boca, depois engole. “Pedaço estranho”, ele diz, colocando o resto da barra no balcão. “Por que não posso pedir fortuna se é o que quero? Você me disse que deveria me dar o que eu quero.” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Há uma diferença entre o que você quer e o que você deseja. Tenho certeza que você poderia listar uma centena de coisas que você queira, como um roupão novo, por exemplo. Mas o desejo é um anseio mais profundo. Ele vem da alma, e não da mente.” Em um momento ele estava comendo manteiga como uma criança, no próximo ele estava falando com eloquência. A luz da lâmpada da cozinha fez aquilo novamente, reunindo-se na margem de Malcolm, iluminando-o como um ator no palco. Sua aura infiltrou em mim. Derreteu a barra de manteiga meio-comida. O que eu estava sentindo exatamente? Por que eu queria beijá-lo? Alguém bate na porta da frente. Lá fora, Vincent inclina sua bicicleta contra a vitrine. O relógio diz meia-noite. “Por que você saiu tão tarde?” Eu pergunto depois de abrir a porta. “Acabei de voltar. A viagem de ônibus durou uma eternidade.” Ele aponta para a placa do Departamento de Saúde. “Meu pai me contou sobre o rato. Eles realmente fecharam vocês?” Um vento frio soprava através do café. Eu puxo Vincent para dentro e fecho a porta. Fragrância de Malcolm dá lugar ao frescor do cloro. “O que ele está fazendo aqui?” Vincent pergunta, apontando para meu convidado. Estar em um feixe de luz da geladeira, Malcolm esguicha ketchup em sua boca. “Ele está... visitando”, eu digo. Vincent estreita seus olhos e sua voz adquire um tom paternal. “Por que ele está aqui à meia-noite?” Malcolm lambe o interior de uma tampa de mostarda, então diz, “Eu estou aqui à meianoite, por que estou cumprindo um desejo de Katrina.” “O que?” Vincent faz uma analise rápida do meu roupão. “Oh, nossa, Katrina, você nem sequer conhece esse cara.” “Não é assim”, eu tento explicar. Como ele pode pensar uma coisa dessas? “Tanto faz. Não quis interromper. Eu pilotei até aqui por que eu estava preocupado com você. Eu terei certeza em ligar da próxima vez.” Então, ele coloca a boca junto do meu ouvido. “Eu pensei que você tivesse um gosto melhor do que este.” Ele fecha a porta com uma batida enquanto sai. Ou talvez tenha sido o vento que bateu. Eu não tenho certeza. Eu abro a porta. “E eu pensei que você tinha um gosto melhor.” Ele agarra seu guidão cromado. “Você precisa se acostumar com o fato que estou saindo com Heidi.” “Bem, talvez eu esteja saindo com alguém também”, eu digo. “Tanto faz. Você pode fazer o que quiser. Eu nunca te diria com quem você pode ou não sair. Se você começou a sair com alguém, eu iria aceitar. Eu não iria agir como um idiota total Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel sobre isso.” “Oh, realmente. Então, por que você ficou tão louco agora?” “Por que ele não é certo para você. Olhe para ele. Ele é um anormal.” “Bem, Heidi não é certa para você. Ela é uma falsa.” “Ela não é uma falsa.” “Bem, ele não é uma pessoa estranha.” Eu não me viro para olhar Malcolm, por que ele estava provavelmente comendo sabão de lavar pratos ou maionese ou algo assim. Vincent franze o cenho. “Você realmente está me dizendo que você está saindo com um cara sem-teto que você acabou de conhecer?” “Sim”. A mentira não poderia ser interrompida. Quem era ele para ficar julgando? Como se Heidi Darling, a maníaca por fazer coisas, era melhor do que um Verdadeiro Anjo. “Ele vai me levar para o Festival do Solstício.” Eu cruzo meus braços, tentando parecer confiante. “Eu pensei que você tivesse que trabalhar.” “Qual é o ponto, agora que você não está mais me ajudando a vender o Hero Hot Chocolate?” “Tanto faz”. Vincent levanta-se em sua bicicleta e pedala para longe. “Isso está certo”, eu grito. “Tanto faz!” No interior, Malcolm se inclina sobre o balcão, seu livrinho preto na sua frente. “Diz aqui que a terceira coisa mais comum que as pessoas pedem é o amor.” Ele ergue suas sobrancelhas. “É isso que você deseja? Amor?” Antes que eu pudesse negar, ou ficar na defensiva, ou até mesmo rir, minha avó aparece na parte inferior das escadas. “Katrina!” Ela segura sua mão sobre seu peito. “Eu... Eu... Eu...” Seu rosto se contorce pela dor. Ela cambaleia, segurando-se no balcão. Malcolm a pega quando ela cai.

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

CAPÍTULO VINTE

Eles não me deixaram ir na ambulância. Não havia espaço suficiente, ou algo estúpido. O paramédico colocou uma máscara sobre o rosto da minha avó, essa foi a última imagem que eu tive dela quando fecharam as portas da ambulância. Tentei gritar, tentei dizer que ela não ficasse com medo, mas as palavras não vinham. Como você diz para alguém que vai ficar tudo bem quando não parece que vai ficar tudo bem? Será que ela vai morrer com uma máscara horrenda de plástico em seu rosto – com apenas um estranho de uniforme do seu lado? “Vocês deveriam ter uma ambulância maior!” Eu grito, quando eles vão embora. Eu corro para o café e pego as chaves do carro da minha avó e bolsa. Sinto-me tonta. Eu não consigo respirar rápido o suficiente. De longe, muito longe, Caçadora de Ratos mia, implorando por atenção. Eu tropeço pela porta dos fundos. Nada importava, nem o grão mágico, nem o amor de Vincent, nem a lista de verificação do Departamento de Saúde ou contas não pagas. O peso desse momento me esmagou enquanto minha avó permanecia entre este mundo e o próximo. Um momento em que se coloca tudo em perspectiva. Mantemos o velho Buick no beco, próximo do híbrido do Sr. Darling. O motor de arranque se agita quando eu viro a chave. Eu consegui minha licença a três meses atrás, depois de aulas com o pai de Vincent, mas eu só tinha dirigido o carro um punhado de vezes. Eu viro a chave novamente. Não liga. Por que não está ligando? O tanque estava pela metade. “Liga”. Eu viro, e viro, e viro. Eu bato minha mão no volante. “LIGA!” Malcolm desliza para o banco do passageiro. Ele fecha a porta, em seguida, coloca seus dedos ao redor da minha mão enquanto eu desesperadamente agarro a chave. “Tente novamente”, ele diz, calmamente. Viro mais uma vez e o motor liga. Sua mão fica por um momento na minha, então ele se afasta e olha para fora da janela. Parecia certo que ele estivesse sentado ao meu lado, como se ele pertencesse ali. Como se eu sempre dirigisse com ele ao meu lado. Eu saio do beco, então viro para a Main Street. O hospital mais próximo se encontrava em Bremerton, trinta minutos dirigindo de Nordby Harbor. Eu só tinha ido ao hospital uma vez antes, quando Irmgaard escorregou em uma poça de café derramado e cortou sua perna. Durante essa Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel visita eu não tinha me sentido mal do estômago – não me senti como se o mundo pudesse desaparecer tão facilmente como café em pó em um vendaval. Não deixe que ela morra, eu repito em minha cabeça, mais e mais e mais. “Malcolm, você acha que ela vai morrer?” Ele não diz nada. Eu quase atravesso um sinal vermelho. “Eu não quero que ela morra. Você entende? Isso é o que eu mais quero no mundo. Isso é o que eu mais desejo.” “Eu acredito em você. Mas eu não tenho o poder de vida ou morte.” Ele empurra seu cabelo para trás. “Eu sinto muito.” Meu estômago se enrola em um nó. Algo de ruim estava para acontecer. Nós dirigimos pela cidade. As luzes das lojas e os faróis corriam por um rio sem fim. Eu viro em um estacionamento lotado. Este é o único hospital de toda a região. A Sala de Emergência brilhava em letras vermelhas do outro lado da calçada. Uma ambulância está estacionada fora das portas automáticas. Eu estaciono torto, ocupando dois espaços, então eu salto para fora do carro e corro tão rápido que eu posso. Que odor é esse que te saúda quando você entra em um hospital? Limpeza? Formol? Vômito? Ou será que o medo tem cheiro, e vaza dos poros dos pacientes e de suas famílias? As luzes do teto quase me cegam. Eu pisco, olhando por todas as direções. Sala de Espera. Banheiros. Balcão de Informações. Minha ansiedade aumenta enquanto eu corro em direção do balcão. Uma mulher negra está sentada lá, seu cabelo puxado em dezenas de tranças apertadas. “Posso ajudar?” “Eu estou procurando minha avó.” “O nome dela?” “Anna Svensen.” Lágrimas agrupam-se em minhas pálpebras inferiores. Seu nome nunca soou tão pequeno, tão delicado. A mulher digita, olha para o monitor, então digita um pouco mais. “Ela não está na lista.” “Eles a trouxeram em uma ambulância.” “Quando?” “Agora.” “Demora um tempo para que as informações do paciente apareçam na minha tela. Por favor, pegue uma cadeira que irei chamá-la assim que as informações estiverem disponíveis.” Ela fala gentilmente, o que me parece um milagre a uma da manhã. “Mas onde ela está? Ela está morta?” “Eles provavelmente estão avaliando ela. Assim que seu nome aparecer, vou chamá-la. Seu nome?” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Katrina Svensen.” “E qual seu relacionamento com...” A mulher para de falar. Seus olhos castanhos se arregalando quando ela olha sobre minha cabeça. Eu não precisava me virar. Eu sabia que Malcolm estava diretamente atrás de mim, não só por causa do odor infernal ter desaparecido, mas por que a recepcionista parecia que ia desmaiar. “Olá?” Eu aceno com minha mão até que ela pisca. “Quanto tempo você acha que eu vou ter que esperar até que seu nome apareça?” “Não muito. Por favor, pegue um assento na sala de espera.” Quando a recepcionista diz, “Não muito”, ela realmente quer dizer, “Oh, em algum lugar entre AGORA e a ETERNIDADE.” Eu imediatamente vou para a sala de espera, com suas cadeiras de plástico e o chão de linóleo frio. Esperar não era o que eu queria fazer. Esperar não ajudaria em nada. Pessoas preocupadas estão sentadas nessa sala horrível, torcendo as mãos, tentando encontrar distração em cópias de Field & Stream e Good Housekeeping. Um aquário enorme está no canto. Os tanques de peixes deveriam ser suaves com seus barulhinhos de bubble-bubble e suas cores suaves. Mas até mesmo os movimentos lânguidos dos peixes não me acalmam. O único lugar onde eu me sentia segura era ao lado de Malcolm, que estava na frente do aquário. A luz do aquário cruzava seu rosto. Apenas alguns dias atrás, eu queria que ele fosse embora, mas agora eu era atraída por ele, pedindo por seu cheiro familiar e a aura de calor que irradiava de seu corpo. Buscando a calma que eu costumava encontrar em Vincent. Eu cerro meu maxilar. Será que ela estava bem? Será que ela estava com dor? Se Malcom não estivesse lá para pegá-la, ela poderia ter quebrado o quadril ou algo pior. Ele se inclina sobre o tanque, seus olhos dardejando os movimentos dos peixes. “Eu entendo essa sensação.” “De nadar?” “Não. Cativeiro.” “Você não gosta de ser um... mensageiro?” “Não é uma questão de gostar ou não gostar. É o que fui escolhido para fazer.” Ele se agacha, e fica cara a cara com um peixe palhaço. “Eu não deveria me sentir desse jeito.” “Você quer dizer, como se estivesse preso?” “Sim.” Ele sussurra a palavra, então se vira e olha para mim. Algo tinha mudado em seus olhos. Seu olhar se intensifica e eu não consigo fugir. Eu não queria fugir.

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Pela primeira vez desde meu encontro com ele, eu sabia exatamente do que ele estava falando. Eu nunca havia dito: “Ei, eu realmente quero passar a maior parte do meu tempo trabalhando no café da minha avó.” Mas ela precisava de mim. Então, eu trabalhava. Houve uma época em que eu realmente gostava, na época em que o lugar era lotado. Eu sabia o que os frequentadores queriam, mesmo sem pedirem. Eu podia trabalhar no telefone e no caixa e ao mesmo tempo manter todos os pedidos em ordem. Nós todos compartilhávamos histórias e fofocas da cidade, como se fosse apenas uma grande sala comunal. Mas agora eu me sentia presa em um lugar que já não me cabia, era como pressionar seu pé crescido em um sapato do ano passado. Uma sirene me traz de volta para a sala de espera. As portas de entrada se abrem e o paramédico se apressa, empurrando um idoso em uma cadeira de rodas. Outro paramédico aparece sobre a cabeça do idoso e coloca uma intravenosa nele. Eles desaparecem por um par de portas duplas no fim do corredor.

Proibida a Entrada. Minha avó estava em algum lugar por trás daquelas portas. Talvez morrendo. Talvez já estivesse morta. “Katrina Svensen?” Eu corro para o balcão da recepção. A recepcionista sorri educadamente. “Sua avó está nos cuidados intensivos. Não são permitidas visitas até que ela tenha se estabilizado.” Eu agarro a bolsa da minha avó. Ela estava instável, como uma cadeira de três pernas, como Lars sem a bengala – como uma pessoa oscilando entre a vida e a morte. “Será que ela vai ficar bem?” A mulher empilha papéis sobre seu balcão. “Eles precisam ser preenchidos? Você tem cartão de seguro?” “Eu não tenho certeza.” Ela coloca uma caneta no topo da pilha e ergue suas sobrancelhas. “Alguém tem que preencher isto. Suas informações sobre o seguro são necessárias.” Eu vasculho entre os papéis. Tantas perguntas: Número da Segurança Social, medicações usadas, seguro primário e secundário. Eu não sabia nada dessas coisas. “Não posso simplesmente vê-la, e depois, preencher isso?” Eu imploro. A recepcionista sacode sua cabeça. Suas tranças tilintam. “Eu não posso deixar você ir até lá, até que a enfermeira ou médico diga que está tudo bem.” “Mas eu não sou uma visitante. Eu sou sua neta.” “É política.” “Eu só quero saber o que está acontecendo.”

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “E você saberá. Logo.” “Quão logo?” “Eu não sei.” Os apresentadores costumam usar a frase “algo repentino”. O cara que entra no posto e começa a atirar nas pessoas, a mulher que atropela o marido com seu carro – eles eram pessoas perfeitamente normais até que algo repentino aconteceu. O que era esse algo? É realmente uma parte do cérebro que se enche de frustração, até que se estende em um ponto que explode? Malcolm está olhando para o peixe, perdido em seu mundo aquoso. Eu não aguento mais nem um segundo. Eu corro pela porta dupla, rompendo através delas, minha cabeça virando para esquerda e para a direita. Onde ela estava? O idoso na cadeira de rodas estava sentado no primeiro quarto. Ele gemia enquanto alguém o examinava. Eu seguro a bolsa da minha avó, correndo pelo corredor como um lunático que escapou de roupão e chinelos. Eu encontro uma mulher grávida que estava respirando muito rápido. Um médico diz para ela que eles estavam indo para a cirurgia na Seção C. Os próximos dois quartos estão vazios. Eu encontro um depósito e algumas máquinas que piscam. ONDE ELA ESTÁ? O corredor parecia estender-se para sempre, refletindo as luzes do teto como uma casa de espelhos em um pesadelo. “Jovem, você não deveria estar aqui.” Um segurança agarra meu braço. “Você vai ter que esperar na sala de espera.” “Mas...” Eu considero bater nele com a bolsa, mas ela era muito leve e frágil para nocauteá-lo. Eu provavelmente acabaria presa. “Eu só quero dizer a ela que estou aqui.” “Temos regras.” Com um aperto firme, ele me leva de volta através das portas duplas. Enquanto nós chegamos ao saguão, eu arranco meu braço de seu aperto, completamente humilhada e frustrada. Uma dor de cabeça pelo estresse explode em minhas têmporas. Os leitores de revistas me olham por cima de suas revistas. A recepcionista franze o cenho. O homem da segurança aponta para uma cadeira. Seu plástico azul range quando eu me sento. A recepcionista se aproxima e me entrega a pilha de papéis, mas quando ela faz isso, Malcolm escapa por entre as portas duplas, despercebido. A recepcionista e o cara da segurança voltam para o balcão de informações e começam a falar sobre algum restaurante novo que acabou de abrir. Eu fico na cadeira, silenciosa e obediente, para não levantar suspeita. Eu finjo que preencho a papelada, mas meu olhar periférico nunca deixa as portas. Malcolm iria encontrála. Eu tinha falhado, mas eu sabia que ele não iria. Cinco minutos depois, enquanto o segurança e a recepcionista flertavam descaradamente, Malcolm aparece. Ele se senta ao meu lado. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Bem?” Alguns dos papéis deslizam do meu colo. “Ela teve um pequeno ataque cardíaco.” “Oh, meu Deus.” Eu deixo o resto dos papéis caírem. “Ela está...?” “Ela está viva.” Ele coloca a mão no meu ombro e meu batimento cardíaco diminui. “Não é sua hora, Katrina. Ela não vai deixar você.” Essa foi a melhor coisa que alguém já tinha dito para mim. Uma onda de alívio escorre pelo meu corpo, então eu começo a chorar, interrompendo a leitura de todas as importantes revistas. Malcolm estende sua mão, hesitante, então acaricia a minha cabeça, claramente sem saber o que fazer. “Você está infeliz?” Ele pergunta com uma carranca. “Eu estou feliz.” Esfrego meus olhos. “Muito feliz. Obrigada por encontrá-la. E obrigada por segurá-la.” “De nada. Eu gostaria de poder fazer mais por você, Katrina.” Ele se senta na cadeira e estica suas pernas, apoiando seus pés calçados na mesa de café. Foi quando eu vi. Logo atrás de seu tornozelo esquerdo. Eu observo por um momento e logo depois desaparece. Não tinha nada a ver com o fato que meus olhos ainda estivessem borrados por lágrimas. Eu vi. Uma asa branca minúscula. E foi nesse momento em que eu realmente comecei a acreditar.

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

CAPÍTULO VINTE E UM

Ligar para Irmgaard sempre foi uma experiência estranha. Eu sabia que ela estava lá por que ela tinha pegado o telefone e eu podia ouvir sua respiração. Eu tento me lembrar exatamente o que o médico tinha dito. Minha avó tinha sofrido um ataque cardíaco moderado e precisava ficar mais alguns dias para testes e observação. Irmgaard prende a respiração algumas vezes. Apesar do pouco que eu sabia sobre ela, eu sabia que ela se importava profundamente com minha avó. Caso contrário, por que ela trabalhava longas horas quando a artrite de vovó a impedia de trabalhar? Por que ela traria ramos de flores no verão ou fazia a sopa favorita de cenoura de vovó durante as tardes escuras do inverno? Sem nunca trocar uma palavra, ela se tornou parte da nossa família. Mas embora ela compartilhe muitos dos nossos momentos, nós nunca compartilhamos os seus. Ela não nos deixa entrar em sua vida fora do café. Eu espero até que ela desligue primeiro, para que eu pudesse ter certeza que ela tinha ouvido tudo. Então, eu ligo para Vincent. Ele gostaria de saber. Vincent e minha avó sempre foram próximos. Quando éramos pequenos, ela sempre planejava suas festas de aniversários, já que seu pai sempre estava exausto por causa dos seus turnos noturnos na marina. Ela fazia bolo e nos levava para a piscina ou para o boliche. Ela estava lá quando Vincent teve catapora, quando ele caiu de bicicleta e precisou de pontos, e quando ele nadou em sua primeira competição. “Desculpe ligar tão tarde, mas vovó teve um ataque cardíaco”, eu digo para a secretária eletrônica de Vincent. “Ela está no Bremerton General.” Alguém pega o telefone. “Katrina?” A voz de Vincent estava grogue. Eu olho para o relógio de parede. Duas horas. “O que aconteceu com Anna?” Sua voz traz lágrimas aos meus olhos. Assim mesmo. Por que eu podia ouvir sua preocupação e isso trouxe minha preocupação de voltar para a superfície. Mas eu tento esconder isso. Eu digo para ele o que aconteceu, embora com frases mais curtas do que eu normalmente diria, tentando não revelar o medo que eu sentia. Tentando parecer forte, algo que eu nunca tinha precisado fazer na frente de Vincent. Eu queria que ele pensasse que eu era forte. Que eu não precisava dele para tudo. “Eu ainda não a vi por que ela precisa se estabilizar primeiro.” “Estarei aí, em seguida. Eu não quero que você fique sozinha.” “Eu não estou sozinha. Malcolm está aqui.” Silêncio mortal. Quando ele fala, seu tom era gelado. “Eu vou de qualquer jeito.” “Não. Não precisa.” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel A verdade era, eu ainda estava brava com ele. A experiência quase-morte de vovó deveria ter me feito esquecer isso, deveria ter me feito fazer um balanço de todas as coisas boas da minha vida. Mas eu estava exausta, estressada e de mau humor. Se ele se preocupava com vovó por que ele nos abandonou no festival só para sair com Heidi? Só assim ela poderia acrescentar Saindo com um Herói em sua lista de aplicações. “Está tarde. Eles não querem que ela tenha visitante. Ainda não.” Eu estava tentando ferilo, mantê-lo afastado. Tentando fazer ele se sentir excluído. Foi um dos momentos mais idiotas da minha vida. “Eu vou te ligar mais tarde.” Debruço-me contra a parede. Tudo tinha mudado. Amizades, inevitavelmente, seguiam seu curso. Mesmo que ele nunca tivesse começado a sair com Heidi, teria havido alguma coisa para nos separar. Ele teria ido para a faculdade, provavelmente fora do estado. Mas, nesse caso, teríamos nos despedido como amigos. Por um momento, eu me senti como se estivesse me afogando. Ele estava certo. Eu precisava arranjar uma vida. Malcolm se aproxima, carregando um prato com gelatina. Os quadrados de gelatina, laranja e verde, tremem como entranhas de alienígenas. Naquele momento, ele parecia como uma criança, pela maneira como ele sorria como se tivesse acabado de descobrir um tesouro enterrado. “Onde você conseguiu isso?” Eu pergunto. “Há uma sala no andar de baixo cheia de comida. Eu nunca tinha visto esse tipo.” Ele me oferece o prato. Normalmente, eu não sou fã de gelatina, não desde que alguém me disse que era feito de cascos de cavalos, mas eu estava quase morrendo de fome. Pego seis quadrados de gelatina. “Eu posso conseguir mais se você quiser. Eles permitem que você pegue quanto quiser.” “Uh, Malcolm?” Ele havia deixado sua mochila no carro. “Você pagou pela comida?” “Pagar?” Ele jogou um quadrado no ar, então pegou com sua boca. Eu suspiro. Um prato roubado de Jell-O era a menor das minhas preocupações. Enquanto caminhamos para a sala de espera, Malcolm entrega quadrados de Jell-O para todos por quem passamos, desejando para cada um deles um bom dia. A recepcionista olha para ele por cima de uma pasta de arquivos. Apesar da barreira dos arquivos, eu podia dizer que ela estava sorrindo. Quem poderia culpá-la? Eu me sinto cansada, preocupada com o futuro do café, com o futuro de vovó, com o meu futuro. A única coisa boa, naquele momento, era o calor que me envolveu quando eu me sentei perto de Malcolm. Uma abertura estreita separava meu braço de seu ombro – uma lacuna eletricamente carregada. Eu sinto-me tão autoconsciente, sentada ali, parecendo um lixo total. Eu tenho certeza que é algum tipo de pecado, sentir-se atraída por um anjo. “Venha aqui, Marge. É agradável e acolhedor.” Um homem acena para sua mesa e eles Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel vêm sentar ao nosso lado. “Algo deve estar errado com o sistema de aquecimento.” Não demorou muito para que o resto das pessoas da sala de espera reivindicassem as cadeiras perto de Malcolm e de mim. Eles esticavam seus corpos como se estivessem se aquecendo debaixo de uma lâmpada solar. “Cheira tão bem aqui”, uma mulher diz. Ela folheia um jornal. “Diz aqui que eles fecharam o café onde encontraram um rato enorme. Eu nunca comeria lá”. Eu estava cansada demais para defender-me. A mulher vira para a outra página. “Oh, olhe, querido, Nordby vai ter o Festival Solstício no próximo fim de semana.” Isso me relembra. Viro-me para Malcolm. “Eu menti para Vincent. Eu disse que você iria me levar para o festival.” Ele coloca o prato vazio na mesa de café. “Você não quer ir?” Ele senta-se em linha reta. “Você não quer ir comigo?” “Não, não é isso”, eu digo, bem ciente que a mulher com o jornal estava nos observando. Assim como todos os outros. “Eu só não quero que você sinta como se você tivesse que ir comigo.” Eu puxo as bordas do roupão em volta do meu pescoço. “Eu não quero que você pense que é um encontro ou algo assim. Por que eu não esperaria que você saísse para um encontro, sendo quem você é.” Eu sussurro essa última parte. Ele não diz nada. Então, ele se inclina, de modo que seu braço toca meu ombro. Um choque percorre meu corpo. Todos do pequeno grupo observam, esperando sua resposta. “Eu ficaria honrado em acompanhar você, Katrina.” “Oh. Okay.” Eu puxo a gola do roupão tão alto, para que pudesse esconder o rubor de minhas bochechas. Malcolm bate com a mão no meu joelho, então se vira para o homem sentado ao nosso lado, falando muito alto, “Eu vou levar Katrina para o Festival do Solstício.” “Bom para você, garoto.” “Katrina Svensen?”, uma enfermeira chama. “Você pode ver sua avó agora.” A enfermeira leva Malcolm e eu para a Unidade de Terapia Cardíaca. Ela nos diz que podemos ter alguns minutos e então nós teríamos que sair, por que ela iria fazer um ecocardiograma e um angiograma. Minha avó estava deitada sobre algumas almofadas; um tubo gotejava líquido claro em seu braço. Sua pele estava branca como os lençóis hospitalares, como se a intravenosa tivesse diluído toda a cor dela. As rugas do seu rosto pareciam mais profundas. Seus cachos cinzas se amontoavam em sua testa. Ela está viva, eu disse para mim mesma. Era a única coisa boa que eu pensei que poderia conjurar, por que não há nada de bom em ver alguém que você ama enfraquecido, esparramado e esgotado. Eu não queria enfrentar o pensamento horrível que viria mais tarde pela noite. Cada um de nós vai morrer. Eu vou morrer. Não há como fugir disto. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel E o outro pensamento horrível: Quando minha avó morrer, eu vou ficar sozinha. Minha avó consegue dar um sorriso fraco e pega minha mão. “Eu estava me sentindo tão cansada”, ela diz. “Eu não sabia que era meu coração. Eu deveria ter visto um médico.” Eu apenas a abraço, com medo que ela desmaiasse. Sento-me em um espaço na borda da cama, segurando as lágrimas de alívio. “Você vai ficar bem agora.” “Sinto muito tê-la assustado.” Seu olhar viaja por cima do meu ombro. Seu sorriso se ilumina quando ela vê Malcolm. “Você me pegou quando eu caí. Você é amigo da Katrina.” “Eu sou Malcolm.” Ela cheira. “Que cheiro agradável é esse?” “É o cheiro das Montanhas Escocesas. Eu o trouxe de volta comigo como uma lembrança.” Vovó Anna acena para que ele se aproxime mais. “Eu pensei que você iria dizer para ele que não estava interessada.” “Bem, eu ia, mas...” “Eu vou acompanhar Katrina no Festival Solstício”, Malcolm anuncia. Ele olha para a intravenosa, observando o líquido escorregar devagar para dentro do tubo. “Você tem um encontro?” Minha avó se esforça para se sentar. Era demais. Suas pálpebras tremem. Ela geme. Ela ia ter outro ataque cardíaco? “Vovó”, eu imploro. Ela cai de volta no travesseiro. “O médico me disse sem movimentos bruscos.” Malcolm seguia o tubo até o lugar onde ele entrava na mão da minha avó. “Interessante”, ele murmura. “Eles costumam tirar fluídos corporais para curar os males, e agora colocam de volta.” “Você precisa de um vestido”, Vovó Anna diz, sua respiração mais calma. “O que?” Eu não estava seguindo seu raciocínio. Malcolm estava examinando um penico de plástico. “Vestido?” “Para o festival. Você precisa de um vestido novo.” Ela suspira e fecha seus olhos. “Eu nunca vou esquecer a primeira vez que eu fui com um garoto para o Festival Solstício. Seu nome era Harold – Harry para encurtar. Minha mãe fez um vestido de veludo azul, com pequenos botões de pérola.” Sua voz tornou-se um sussurro. Malcolm deixa o penico de lado e fixa seus olhos em azuis em vovó. Ele inclina sua cabeça enquanto ela deriva em um mundo de lembranças. “Harry me levou para a Grande Festa dos Filhos da Noruega. Nós tivemos cinco danças.” Ela sorri, com ar sonhador. “Ele só pisou no meu pé por duas vezes. E, então, ele me beijou.” Ela abre seus olhos. “Eu me pergunto onde ele está agora.” “Cabo Harold Jorgenson morto em combate no Vietnã em 14 de Julho de 1966”, Malcolm Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel diz. Antes que minha avó possa perguntar-lhe como ele sabia sobre isso, a enfermeira volta, “Já é o suficiente. Ela precisa de descanso. Você poderá vê-la depois que os exames forem feitos”. Ela enxota Malcolm para o corredor. “Eu estarei aqui”, eu digo para a enfermeira, então eu dou na minha avó outro abraço suave. “Katrina.” Ela acaricia meu cabelo. “Eu provavelmente vou estar aqui por alguns dias. Não perca tempo se preocupando comigo. Vá para casa e durma um pouco. E não falte a escola. Você precisa manter suas notas. Eu vou pedir para que Irmgaard e os Garotos irem lhe ver antes da escola, para se assegurarem que você tomará café da manhã, e depois da escola no caso que precise de alguma coisa. E você não esqueça de me ligar antes de ir para a cama assim eu saberei que você está bem.” “Mas vovó...” “Há duzentos dólares na minha conta corrente. Use para os mantimentos. Há um cartão de crédito na gaveta do meu escritório, para emergências. O cheque da pensão do seu avô virá na quarta. Leve ao banco e deposite imediatamente. Use para comprar um vestido novo.” “Eu não preciso de um vestido novo.” “Claro que sim. Não é todo dia que uma menina sai para seu primeiro encontro. E com um menino tão bonito. Eu nunca vi um menino mais bonito. Um novo vestido é uma absoluta necessidade e eu não vou ouvir nenhuma outra palavra sobre isso.” “Mas nós não podemos nos permitir isso”, eu digo. Vovó Anna acena afastando o comentário. Então, ela fica séria. “Diga para Irmgaard que ela deve procurar um novo emprego o mais rápido possível.” “Mas ainda podemos salvar o café”, eu insisto. “O Departamento de Saúde vai ver que tudo foi um grande erro e nós poderemos fazer algo no Solstício. Eu vou ficar e trabalhar, e Elizabeth vai me ajudar...” “Não adianta.” “Mas eu tenho certeza que eu posso fazer isso, vovó. Estou certa que eu pensarei em algo.” “Querida”. Ela acaricia minha mão. “Eu amo o café mais do que você pode imaginar. Sua mãe, seu pai e seu avô são parte daquele lugar. Possui tantas memórias. Eu sei que suas intenções são de coração, mas você não pode salvar o café.” Palavras não ditas pairam sobre nós. Você não pode salvar o café, por que você sempre começa as coisas e nunca consegue terminá-las, razão pelo qual temos um Armário do Fracasso no final do corredor. Você nunca se interessou realmente por algo. Nunca foi mais além quando as coisas começaram a ficarem difíceis. É muito mais fácil dizer que você não é boa em alguma coisa e depois desistir. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Você vai para o festival com um jovem bonito. Não há necessidade de se preocupar com o café, por que eu já tomei uma decisão.” E, então, ela diz às palavras que eu nunca pensei que a ouviria dizer. “Eu quero que você me prometa que amanhã você vai dizer ao Sr. Darling que eu estou pronta para discutir a oferta. Estou pronta para fechar a loja.”

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CAPÍTULO VINTE E DOIS

Depois de deixarmos a Unidade de Terapia Cardíaca, Malcolm e eu voltamos para a sala de espera da emergência, onde eu tinha deixado toda a papelada. Eu queria fingir que não tinha ouvido a decisão da minha avó de fechar o café, mas suas palavras me seguiam, ecoando nas paredes do elevador. Ela poderia ter sofrido danos cerebrais? Não. Eu sabia no meu coração que ela tinha tomado a decisão certa. Se nós não tivéssemos que ceder o espaço para aquele porco. À medida que saímos do elevador, Irmgaard atravessa as portas automáticas da entrada do hospital, uma mala na mão. Na distância, um táxi se retira da zona de carga/descarga. Vestida com um casaco de lã cinza e um xale preto nos ombros, ela poderia facilmente ser a Irmã Irmgaard. Seus olhos se arregalam quando ela nota Malcolm. Ela larga a mala e volta correndo para fora. “Irmgaard?” Eu chamo, correndo atrás dela. “Aonde você vai?” Eu me encontro com ela na beira do estacionamento. “Irmgaard?” Ela para de andar e olha para o hospital, seus olhos selvagens. “É a mensagem?” Eu pergunto. Ela assente furiosamente. “Você não quer isso?” Ela balança sua cabeça. “Por que você não quer? O que você acha que é?” Claro, ela não disse nada. “Irmgaard, você estava certa. Ele é um anjo.” Eu pauso. “Você é uma freira? Você era uma freira?” Isso explicaria o cabelo extra-curto, as roupas simples e o rosto sem maquiagem. E a falta de jóias, exceto a cruz de prata. Talvez um juramento de silêncio fosse exigido na St. Clare. Mas por que seria necessário no mundo exterior? Ela dá um passo para trás, seus olhos cheios de lágrimas. Qual era o problema dela? Uma freira ou ex-freira não deveria estar emocionada por encontrar com um anjo? Este não deveria ser o melhor momento de sua vida? “Oh, Irmgaard”, eu digo, segurando sua mão. “Não se preocupe. Você não precisa ler a mensagem. Eu digo para Malcolm que você não quer. Por favor, venha para dentro. Eu preciso da sua ajuda com a papelada do hospital. Eu não entendo algumas das perguntas e se eu não preencher o formulário do seguro, então nós teremos que pagar por tudo nós mesmos.” Os olhos de Irmgaard relaxam e ela balança sua cabeça. Eu a levo para a sala de espera, recolhendo a mala no caminho. Malcolm tinha ido. Algumas pessoas estavam reclamando da queda brusca na temperatura. A recepcionista pergunta ao zelador para onde os peixes foram. A

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel exceção de um fluxo de bolhas em um tubo, nada se mexia no aquário. Malcolm os tinha liberado? Claro que ele tinha. Nós sentamos. “Você pode encontrar as informações do seguro de vovó?” Eu pergunto. Ela abre a mala e tira outra bolsa – a bolsa que minha avó usava durante o dia. Eu tinha pegado a bolsa errada. Ela também tinha pegado pijamas para vovó, chinelos, roupão, rádio de cabeceira, todos os medicamentos que ela guardava no banheiro, e um recipiente de sopa caseira. Mostro-lhe a pilha de papéis. Ela abre a bolsa e retira um cartão Medicare15. Então, ela começa a preencher os formulários. “Obrigada”, eu digo, sentindo-me completamente aliviada. Malcolm se apressa pelas portas automáticas, segurando sua mochila. Antes que eu pudesse impedi-lo, ele acena com o envelope dourado. “Você tem que pegá-lo”, ele diz. Irmgaard engasga e solta a caneta, seus olhos dardejando loucamente. Uma parede, um aquário e um anjo bloqueando seu caminho. Ela fecha seus olhos, e depois os abre. Fecha, depois abre, como se tentasse desejar que ele sumisse. “Eu não irei desaparecer neste momento”, Malcolm diz. “Não quero fazer nenhum dano em você, Irmgaard, mas você não pode se recusar a receber a mensagem.” “Malcolm, ela não quer isso”, eu digo. “Você não vê que você está perturbando-a?” “Eu não quero causar transtornos”. Ele olha para o envelope. “Todas as mensagens são importantes, mas está se tornando um verdadeiro fardo continuar carregando essa.” “Basta baixá-la”, eu digo para ele. “Podemos falar sobre isso mais tarde. Agora temos que terminar os formulários.” Ele abre sua mão. O envelope flutua pelo ar, muito lentamente, como uma pluma. Quando ele pousa na mesa de vidro, a mesa se quebra. Aqueles que estavam sentados próximo saltam de suas cadeiras. A recepcionista chama o segurança. “Tente carregar isso por ai”, Malcolm diz, irritado. “Ela precisa pegar antes que fique mais pesado.” Então, Irmgaard faz algo que me surpreende totalmente. Eu nunca a tinha visto antes com raiva. Ela acreditava que Malcolm era um anjo, mas ela o encarou, seus olhos brilhando. Mantendo seu pescoço reto, olhando diretamente para seus olhos brilhantes, ela cruza seus braços e se recusa a pegar o envelope. Ele joga suas mãos para o ar. “O que eu devo fazer? Você tem alguma ideia do tipo de problema em que eu estou?” Ela sacode um pedaço de vidro do seu sapato, então lhe vira as costas, continuando a

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Programa de segurança social administrado pelo governo norte-americano Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel trabalhar nos documentos. Seu desafio era chocante. Não deveria uma freira ter medo de algum tipo de ira celestial? “Irmgaard, você quer que eu leia isso?” Eu pergunto. “Você não pode”, Malcolm diz. “Eu não posso sequer lê-lo. Só ela pode.” Ele pega o envelope e desliza de volta em sua mochila. “Vocês duas são as mulheres mais desconcertantes que eu já conheci.” As portas automáticas se abrem e Malcolm, com seu kilt batendo em cada passo irritado, irrompe na noite.

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CAPÍTULO VINTE E TRÊS

O resto do domingo passou em um borrão. Às seis da manhã, a enfermeira me deixa entrar para dizer tchau para minha avó, mas ela estava dormindo. Malcolm não voltou. Eu esperei um pouco no estacionamento do hospital, ainda sussurrei seu nome, mas ele não apareceu. Depois de dirigir o velho Buick para casa, eu alimento Caçadora de Ratos, então, caio em um sono profundo, e durmo por toda a tarde. Eu acordo e faço um sanduíche de manteiga de amendoim, ligo para Elizabeth, então caiu na cama novamente, e sou engolida pelo sono sem sonhos do coma. Segunda pela manhã sinto-me mais pesada e não é por que Caçadora de Ratos está dormindo em meu peito. Quando eu abro meus olhos, minha nova realidade desce como uma almofada sufocando meu rosto. Vovó estava no hospital e em algum momento naquele dia, eu teria que dizer para o Sr. Darling, que nos rendíamos. O chuveiro não me animou, como fazia normalmente. Eu fico lá por um longo tempo, observando o fluxo de sabonete escorrendo por minhas pernas magras. O barbeador corta minha perna duas vezes, o que eu tomo como um sinal de que eu deveria ter ficado na cama. Eu coloco meus jeans habituais e meu favorito suéter vermelho, então como uma tigela de cereais Cheerios. Eu tinha prometido para a minha avó que eu não perderia as aulas, mesmo que eu não estivesse preparada para qualquer uma das minhas classes. Como eu poderia ter feito a lição de casa como todo o caos da minha vida? Considerando a situação, talvez meus professores me dessem uma extensão. O início das férias de inverno começava na quarta, que também era o dia em que o inspetor do Departamento de Saúde iria voltar. Não parecia importar se ele encontrasse fezes de rato ou não. As portas do Café Velho Mundo Escandinavo da Anna iria fechar para sempre. Eu escovo meus dentes, então olho para o espelho. Eu realmente estava indo para o Festival Solstício com um anjo? Como você se envolve em algo como isso? Existem tantas histórias sobre garotas saindo com vampiros e reis fadas, mas são histórias sombrias, histórias perigosas onde o simples ato de se apaixonar coloca a vida da garota em risco. Malcolm não parece muito perigoso. Anjos devem ser puros e não terem pecados, por isso seria um encontro puro e sem pecados. Eu não tinha problemas com isso. Era uma espécie de alivio que eu não tivesse que me defender de sugadores de sangue ou de um encantamento no meu primeiro encontro. O qual provavelmente seria nosso único encontro. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Mas eu era boa o suficiente para ir a um encontro com um anjo? Você não tem que ser... perfeita? Certo, minha pele era muito boa e meus cílios eram longos, apesar de serem loiros e você mal conseguir vê-los. Se eu arrumasse meus cabelos, pareceria mais velha, mas nunca perfeita. Um dos meus dentes inferiores era torto e meus lábios sempre rachavam no inverno. E eu tenho certeza que os anjos não precisam lidar com o hálito da manhã. Ou suor. Ou uma miríade de outras condições humanas. Malcolm sempre cheirava... perfeito. Eu nunca tinha pensado realmente nos anjos antes. Eu tinha visto It's a Wonderful Life, o filme sobre anjos que queriam conseguir suas asas. E eu tinha ido à igreja vezes o suficiente para ouvir histórias sobre Gabriel, o arcanjo, e Satanás, o anjo caído. Mas era isso que eles eram para mim, histórias. Histórias fantásticas e improváveis. E ainda que eu tenha me convencido que a pequena asa branca tinha sido uma alucinação, provocada pela intensa luz brilhante do hospital e pela tortura psicológica da espera, eu não podia negar todas as outras coisas. Sem o rádio da vovó, uma estranha calma flutuava pelo apartamento. No andar de baixo, era pior. Sem o barulho dos coadores, o café parecia sem vida. Eu sento no último degrau com Caçadora de Ratos. “Não se preocupe”, eu digo para ela, enquanto coço suas orelhas pretas. “Vovó vai estar em casa logo”. Mas onde seria nossa casa depois que fechássemos? Teríamos que deixar Nordby e viver em alguma comunidade de aposentados como a mãe do Sr. Darling? Retiro Universal não ficaria muito bom como um endereço de retorno de minhas aplicações para a faculdade. Eu terminaria todas as minhas cartas de solicitação com: Ajuda, tirem-me daqui. “Miau.” Sirvo para Caçadora de Ratos alguma comida. Ela cheira o café da manhã, então se afasta, e isso chama minha atenção. Eu não tinha ligado as luzes do café, então não tinha certeza do que eu estava vendo. Uma poça azul estava na mesa, brilhando. Enquanto eu andava nessa direção, Caçadora de Ratos salta sobre a mesa e fareja a poça. Eu me aproximo esperando encontrar algum líquido, mas encontro veludo. O tecido azul deslizava suavemente sob minha mão. “É um vestido”, eu sussurro, pegando-o. Pequenos botões de pérolas pontilhavam na frente, tal como o vestido da minha avó. Eu seguro no comprimento do meu braço. Não poderia ser o vestido da minha avó, por que era muito longo para ser ele, mas era perfeito para mim. Uma pequena etiqueta na parte de trás dizia: Feito

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

Exclusivamente para Katrina. Eu seguro o vestido no meu rosto e respiro as Terras Altas. Era o melhor presente que eu já ganhei. O ônibus da escola passa. Eu rapidamente penduro o vestido no meu quarto, fecho meu casaco, e pego minha mochila. Mas quando eu estava prestes a sair, alguém bate na porta da frente. Um grupo de turistas japoneses estão lá fora, apertando seus rostos contra a janela. “Sim? Posso ajudar?” Eu pergunto, abrindo a porta. Um dos turistas aperta minha mão. “Caçadora de Ratos? Caçadora de Ratos vive aqui?” “Caçadora de Ratos!” Outro grita, apontando. Ela senta-se à mesa do canto, limpando suas patas, alheia aos seus fãs. “Um, estamos fechados”, eu digo. Eles empurram para dentro. “Nós podemos tirar uma foto do gato famoso?” “Sinto muito”, eu digo, “mas estamos fechados. Eu tenho que ir para a escola.” “Nós tiramos fotos.” E eles começam a tirar fotos, posando com Caçadora de Ratos, sorrindo e rindo, completamente emocionados com o momento. Um deles segurava um rato de borracha pequeno, mas Caçadora de Ratos ignora. Eu deixo eles fazerem o que querem por alguns minutos. Com que frequência uma pessoa encontra com a gata mais famosa do mundo? “Eu tenho que ir”, eu digo para eles, apontando para o relógio. Eles acenam e saem. Um deles me entrega uma nota de vinte dólares, e faz uma reverência. Eu tento devolver, mas ele continua inclinando-se. “Dinheiro pelas fotos. Obrigado.” Nuvens de tempestade rolam pelo céu. Não há tempo para andar, então eu entro no Buick, que demorava em esquentar. Dirijo pela colina. A estrada ainda estava molhada pela chuva da noite passada. Em algum momento durante o fim de semana, o antigo outdoor do Java Heaven havia sido substituído por um brilhante novo outdoor do Java Heaven, este no formato de uma enorme xícara de café que continha o rosto de Vincent.

Café e um Herói Local, uma Combinação Feita no Céu – Java Heaven. O que importava? O Sr. Darling tinha ganhado. Ele era supremo. Ele tinha tomado nosso negócio e meu melhor amigo. Ele deveria receber um prêmio ou algo assim. No meu caminho para a assembleia de Segunda, muitos alunos me perguntaram sobre Caçadora de Ratos – garotos com quem nunca tinha conversado antes, o que se restringia em aproximadamente todos. Alguns deles queriam seu autógrafo – uma impressão da pata, eu imaginava. Eles queriam tirar uma foto dela para colocar em seus blogs. Ela ainda estava na moda na Internet. Eu disse

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel que voltaria a falar com eles. Eu disse que iria marcar uma hora em que eles poderiam ir vê-la. Talvez não. Nós provavelmente estaríamos na Flórida, até então. Elizabeth senta no lugar de sempre nas arquibancadas, com os ombros curvados, um chapéu laranja puxado sobre suas sobrancelhas. “Como vai Anna?” Eu sento ao lado dela, colocando minha mochila entre meus pés. “Eu vou ligar para ela no intervalo. Ela deveria fazer testes esta manhã. Por que você está sentada assim?” “Eu não quero que ele me veja.” “Face?” “Ele não me ligou. Ele teve o fim de semana todo para ligar e não ligou. Eu o odeio”. Ela puxa o chapéu mais para baixo. “Você deveria apenas perguntar para outra pessoa.” “Por que? Para que eu possa ser rejeitada por outro perdedor? Esqueça.” Ela deita sua cabeça no meu ombro. “Eu vou ajudá-la no café, como fiz no ano passado. Eu não preciso de um festival estúpido.” “O café não estará aberto para o festival. O Sr. Darling vai nos dar dinheiro para fecharmos o negócio. Então, ele poderá expandir o Java Heaven.” “Oh, eu sinto muito. Bem, então nós podemos ir para o Solstício juntas.” “Uh, há algo que você deveria saber.” Eu não podia acreditar que eu estava prestes a dizer o que eu estava prestes a dizer. “Eu meio que tenho um encontro.” Elizabeth senta-se reta, como se alguém tivesse beliscado ela. “O que? Com quem?” Eu abaixo minha voz. Eu não quero mais fofocas rondando pela escola. “Com Malcolm.” “De jeito nenhum.” Ela arranca seu chapéu. Seu cabelo cintila com a estática. Eu me pressiono mais perto dela. “Ele tem asas nos seus tornozelos.” “Oh. Meu. Deus.” Nós nos reunimos. “Todo tipo de coisas estranhas tem acontecido desde que ele apareceu, coisas que eu nem sequer te contei. Não é só que Vincent tenha fortuna e Caçadora de Ratos tenha fama, mas quando Lars pediu um pouco de dignidade, ele conseguiu, e quando uma senhora no ponto de ônibus pediu café e ela conseguiu. E Irmgaard tem algum tipo de mensagem, mas ela não quer abrir e eu não consigo levantá-la por que pesa uma tonelada e é apenas um pedaço de papel. E vovó queria que eu comprasse um vestido novo e depois lá estava, na mesa da cozinha esta manhã.” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Mas e você?” Elizabeth murmura. “Você deveria conseguir o que mais deseja. Lembra?” “Ele não vai me dá outro grão. Ainda não. Ele disse que precisa ter certeza que o que eu peça seja o que eu realmente desejo ou ele vai ter problemas. Rebaixado ou algo assim.” “Ei, Garota do Café”, Aaron diz, sua cabeça gorda aparecendo entre nós. “Ouvi dizer que você está servindo fezes de rato.” “Cale-se, Aaron”. Elizabeth bate nele com seu cotovelo. Então, se inclina para amarrar o cadarço de seus sapatos vermelhos. Eu me inclino com ela. “Eu sabia que ele era um anjo no minuto em que o vi. Ele é muito bonito para ser humano. Você acha que ele me deixaria pintá-lo? O que você vai desejar?” Do centro do ginásio, Diretora Carmichael faz alguns anúncios sobre coisas que não eram importantes. Quando você está contemplando sua chance de desejar algo que pode se tornar realidade, coisas como inspeção de armários e permissões de estacionamento parecem triviais. Elliott se apressa e ajeita o microfone. Então, como sempre, Heidi Darling, tem algo que dizer. Ela aquieta a todos, clareando sua garganta. “Okay, então aqueles de vocês que se voluntariaram para a decoração do festival, o tema deste ano é Serenata de Flocos de Neve. Nós temos lotes de flocos de neve para fazer, então encontrem Vincent e eu, no Java Heaven, esta tarde às quatro e meia.” Meu estômago embrulha. Sua traição era completa.

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CAPÍTULO VINTE E QUATRO

Vincent Hawk, melhor amigo desde a quarta série, poderia muito bem ter enfiado uma faca no meu coração. Ele não só estava entrando no Java Heaven naquela mesma tarde as quatro e meia, ele ia ficar lá e fazer artesanato. Então, o que importava se íamos fechar o café? Ele não sabia disso. Então o Java Heaven não seria mais nosso concorrente? Eu ainda odeio aquele lugar e ainda acho que meus amigos não devem ser clientes. Isso não é pedir muito. Não é como se você não pudesse mais comprar café em todos os lugares nestes dias. “Digam para seus pais e amigos para que comprem Mochas do Vincent, por que dez por cento vai para a equipe de natação de Nordby”, Heidi diz, ainda de pé na frente do microfone. Então, ela dá um soco no ar. “Vaaaai, Nordby Otters.” Ele quebrou sua promessa por causa dela. Então, o que poderia fazer se ela era bonita e conseguia nadar? Como ele conseguia suportar toda a desenvoltura dela? Como tudo poderia ter mudado tanto em uma semana tão curta? E se eu desejasse que tudo voltasse, que tudo voltasse ao normal? Talvez seja isso o que eu mais desejava. Heidi volta para a arquibancada e senta ao lado de Vincent. Ele estava preste a dar um beijo em sua bochecha, mas ele a para e diz algo. Ela franze a testa e diz algo de volta. Ele se vira. O que temos aqui? Problemas no paraíso? Eu saboreio o momento. Enquanto eu evito Vincent na saído do ginásio, Elizabeth evita Face. Eu levo um momento para ligar para minha avó. “Você deveria ver todas essas flores. Parece que alguém morreu”, ela diz, suas palavras um pouco arrastadas. Ela estava provavelmente medicada contra a dor. “Vincent e seu pai enviaram um lindo buquê. Os Garotos vieram aqui. Eu ainda não vi Irmgaard, entretanto. Coitada. Ela provavelmente está chateada por ter que encontrar outro emprego.” “Como você está se sentindo?” Eu pergunto. “Não se preocupe comigo. Você já falou com o Sr. Darling?” “Não. Eu vou depois da escola.” “Bom. Diga-lhe que vamos discutir os detalhes quando eu estiver melhor.” “Vovó...” “Agora Katrina, não tente me fazer mudar de ideia. Há mais nisso do que você imagina. É hora de seguir em frente.” O Sr. Prince tinha enfiado um envelope no meu armário: Katrina, aqui está os resultados

do seu teste de aptidão. Venha discutir. Enfio na minha mochila. Se eu for a seu escritório, ele me perguntará sobre minha lista, que, com exceção das adições de Elizabeth, eu tinha esquecido de preencher. Eu ainda não

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel tenho nada para colocar nisso, exceto talvez Proprietária do Gato mais Famoso do Mundo, ou ExAmiga do Herói Local de Nordby. Eu sei o que seria realmente bom na lista – Saindo com um Anjo. Nós tínhamos uma professora substituta em Mitologia Mundial e ela nos mandou para a biblioteca. O bibliotecário encurrala Vincent, fazendo todo tipo de perguntas sobre sua bolsa. Eu encontro um corredor vazio na parte de trás e sento-me no chão. Talvez eu pudesse passar toda a aula sem ter que falar com ele. Eu não queria ouvir sua desculpa por quebrar sua promessa. Ele diria algo como, “Você não manda em mim”, e eu diria algo como, “Oh, sim, tudo bem”, e tudo se deslizaria encosta abaixo. Elliott vaga no meu santuário. “Esta é a seção negócios/tecnologia”, ele me informa, como se eu estivesse perdida. “Sim, eu sei. Talvez eu goste de tecnologia”. Eu puxo um livro da prateleira e finjo ler. Elliott dá de ombros, em seguida, escolhe um livro e senta no chão. “Eu gostei da sua história sobre o produtor de batatas.” Ele limpa os óculos com a camisa listrada rugby. “Embora eu não tenha entendido o final. O vizinho da garota comprou um trator novo e atualizou suas embalagens de batata, mas por que a menina desistiu? Eu tenho certeza que havia maneiras de ela manter a concorrência.” Eu olho por cima de minha leitura falsa. “Huh?” “Ela poderia ter feito uma pesquisa de marketing para ver que tipo de batatas os clientes preferem. Ela poderia ter pesquisado os últimos híbridos de batata de maior rendimento, dandolhe uma vantagem no mercado. Existem empréstimos para pequenas empresas e...” “Não importa, Elliott. Era apenas uma história idiota.” “Okay”. Ele coloca seus óculos. “Ei, posso pedir sua opinião?” Eu nunca tive uma conversa verdadeira com Elliott, embora estivéssemos na mesma escola desde sempre. Ele era pequeno, como se a puberdade não tivesse pegado ele. Ele parecia perfeitamente legal, e já que meu grupo de amigos tinha diminuído para UM, eu imagino que seria uma boa ideia começar a falar com mais pessoas. “Claro. Pergunte.” Ele pega um pedaço de papel e o aproxima. “Você já preencheu o seu?” “Não, realmente.” “O Sr. Prince disse que mesmo minhas notas sendo altas, eu preciso me juntar a mais alguns clubes. Até agora tenho o Clube de Xadrez, Clube de Francês e o Clube de Robótica. Você tem alguma sugestão?” “Você está perguntando para a pessoa errada. Eu não pertenço a nenhum clube.” “E a sua amiga... Elizabeth?” “Ela não está em qualquer clube. Mas ela tem um monte de aulas no centro comunitário.” “Oh, e esta seção, Habilidade e Talentos? Eu escrevi: Programação de Computadores, Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Fotografia Digital e Engenharia de Áudio, mas o Sr. Prince disse que eu preciso ampliar minha lista, fazer com que pareça que eu estou mais arredondada. Como eu faço isso?” “Mais uma vez, você está perguntando para a pessoa errada. Eu sou tão ignorante que ele me mandou fazer uma prova de aptidão.” “E o que deu?” “Eu não sei.” Eu puxo da minha mochila. “Tenho uma espécie de medo de olhar.” “Por que?” “Eu provavelmente reprovei. Eu não sou boa em nada, realmente.” “Não se pode reprovar em um teste de aptidão.” Elliott estende sua mão e mexe seus dedos. Poderia muito bem descobrir. Entrego meus resultados. Ele desliza o polegar sobre a aba e abre o envelope. “Resultado de Katrina Svensen: Perfil Empresarial”, ele lê. “Uau, isso é ótimo.” “Empresarial?” “Isso significa que você seria boa começando seu próprio negócio.” Eu sabia o que “empresarial” significava. O que eu não sabia era como isso se referia a mim. O Sr. Prince teria me dado os resultados errados? Elliott continua lendo. “Empreendedores possuem as seguintes características: eles são criativos na solução de problemas, eles têm a capacidade de ver possibilidades, eles podem tomar decisões importantes, e eles inspiram, persuadem e motivam os outros.” Pego o papel e viro para ver se o nome de outra pessoa estava nele. Tinha que ser um erro. “Quais aulas Elizabeth faz?”, ele pergunta. “Talvez eu vá me inscrever em algumas delas.” “Ela ficaria feliz em falar sobre suas aulas. Pergunte a ela.” As bochechas de Elliott ficam como pequenos tomates cerejas. Ele abre seu livro. “Bem, eu tenho alguma pesquisa para fazer.” Ele se deita de costas e começa a ler. Deito-me e leio os resultados do teste repetidamente. Que tipo de problemas eu tinha resolvido? Quem eu tinha inspirado? Eu via possibilidades, ou estava sempre olhando para a minha vida com uma mentalidade de perdedor? Quando o sino toca, me asseguro que Vincent fique bem à minha frente no corredor. Entre o segundo e o terceiro período, eu entro no banheiro para evitar Heidi, e na hora do almoço eu faço um longo caminho até o estacionamento para evitar Vincent novamente. Elizabeth me esperava no carro. Assim que eu fecho a porta do passageiro, ela cai em prantos. “Ele disse não.” “Eu não acredito nisso.” “Ele disse que tinha outra coisa para fazer naquela noite.” “Como o que? Todo mundo vai para o Festival Solstício.” “Ele provavelmente vai, ele só não quer ir... comigo.” Seu nariz começa a escorrer. “Eu não Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel o culpo. Eu sou gorda e feia. Quem vai sair com isso?” Ela passa suas mãos sobre seu casaco roxo e calças xadrez. Ela joga a bolsa do almoço no banco de trás. “Eu não vou comer por um mês.” “Ele é um idiota”, eu digo. Eu tinha esquecido de pegar meu almoço, então eu pego uma maçã da bolsa de Elizabeth, em seguida, solto uma enxurrada de infelicidades. “Eles são todos uns idiotas. Eles querem garotas perfeitas. Perfeitas, esportistas e alegres meninas. E quando eles conhecem essas meninas, eles se esquecem de seus amigos. Okay, talvez ele não estivesse com o copo de propósito durante a sua entrevista na televisão e talvez não tenha sido culpa dele que o Sr. Darling deu seu nome para uma bebida, mas ele prometeu que ele nunca entraria no Java Heaven e agora ele vai. Heidi fez uma lavagem cerebral nele contra mim. É tudo culpa dela. Ela está fazendo isso de propósito. Ela é tão mau.” Arranco um pedaço da maçã. Elizabeth enxuga seus olhos, deixando uma mancha de rímel em sua manga. Antes que eu pudesse vomitar mais alguma infelicidade, ela diz, “Eu vou ser totalmente honesta e eu não quero que você fique brava.” “O que?” Ela toma um grande fôlego. “O pai de Heidi é um total idiota, nenhum argumento sobre isso, mas eu nunca vi Heidi agir como uma idiota. Claro, ela consegue ser boa e completamente irritante, mas ela não é má para as pessoas.” Eu quase engasgo. “Eu não posso acreditar que você está dizendo isso. Eu pensei que você a odiava tanto quanto eu.” “Eu não a odeio. Eu não gosto dela por que eu sei que ela estressa você e ela só não é o tipo de pessoa com quem eu gostaria de sair junto. Eu sempre me sinto como uma fracassada total perto dela.” “Oh, Deus, obrigado.” “Você sabe o que quero dizer.” “Não, eu não sei. Você gosta de sair comigo por que eu não tenho objetivos, por que eu não faço nada? Por que você não se sente como uma fracassada em torno de mim?” “Claro que não. Jesus. Eu saio com você por que você é minha amiga e eu te amo. Mas você decidiu odiar Heidi simplesmente com base no que seu pai faz para viver.” “Então?” Elizabeth pega seu almoço e desembrulha seu sanduíche. “Eu não acho que você está chateada com Heidi por causa do café de seu pai. Eu acho que tem a ver com Vincent. Eu acho que você deveria apenas admitir que é apaixonada por ele.” “O que?” Um pedaço de maçã voa da minha boca. “Eu NÃO sou apaixonada pelo Vincent.” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Com certeza parece que você é.” “O que você está falando?” “Sim, ele é um idiota por ter concordado em entrar no Java Heaven para fazer flocos de neve. Isto está errado. E nós deveríamos dar a ele o tratamento silencioso. Mas...” “Mas nada. Eu não sou apaixonada por ele.” Nós ficamos sentadas em silêncio por um tempo. Eu olho para fora da janela. Como ela poderia pensar uma coisa dessas? Estava tudo e todos contra mim? E é aqui quando eles passam caminhando, justo como antes. Vincent e Heidi, em suas camisas do time de natação. Mas, desta vez, ele não estava apenas tocando seu braço, ele estava segurando a mão dela, seu argumento da manhã há muito esquecido. Eu começo a chorar. Elizabeth bate sua mão no volante. “Eu sabia!”

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CAPÍTULO VINTE E CINCO

Eu não poderia dizer que um sentimento se encerrou e outro começou. Eu estava preocupada com minha avó, envergonhada com o fechamento do café, animada com o terceiro grão de café e toda a coisa de anjo, triste com a possibilidade de ter que deixar Nordby, e miserável, com raiva e confusa sobre perder meu melhor amigo. Estava o amor misturado nisso? Eu estava apaixonada por Vincent? Isso não faz sentido. Eu nunca tinha pensado em beijá-lo. Okay, talvez uma ou duas vezes, mas era apenas curiosidade, nada mais. Eu tinha visto ele em traje de banho um milhão de vezes e eu nunca olhava para ele daquele jeito. Claro, eu gostava de sentar ao lado dele no cinema, por que eu poderia esconder meu rosto em seu ombro, caso tivesse medo. E claro, quando nós estudávamos juntos, eu gostava de esticar meus pés sobre seus joelhos, para mantê-los aquecidos. Eu gostava quando ele deixavame usar seu casaco ou suéter. E eu especialmente gostava quando, de todas as pessoas em nossa escola, todas as pessoas perfeitas e bonitas e legais, ele sempre escolhia se sentar ao meu lado na aula. Isso era amor? Eu disse no início que esta não era uma daquelas histórias “Eu estou apaixonada por meu melhor amigo”. De repente, nessa segunda-feira, eu não sabia o que pensar. Eu não sabia. Vou para casa. Uma faixa está pendurada na Main Street, anunciando o Festival Solstício. Lojistas tinham alinhado suas portas e colocado nos toldos pequenas luzes brancas. Amostras de pão de gengibre, bonecos de neve e bengalas doces preenchiam as vitrines. Festividade flutuava no ar, mas ricocheteava diretamente por mim enquanto eu passava na frente de nossa porta.

Fechado pelo Departamento de Saúde até Novo Aviso. O rato era minha culpa. Ele tinha aparecido por que eu tinha mentido para um anjo, e então eu tinha deixado a mentira cair da minha mão, diretamente no chão, onde meu gato gordo tinha comido. Eu não poderia culpar o Sr. Darling por tudo. Eu paro no beco. “Olá, Katrina”, Ingvar diz, abrindo a porta de trás. Ele segurava uma vassoura. “Seu avô me deu uma chave há muitos anos atrás. Eu espero que você não se importe que nós tenhamos entrado. Nós fizemos uma limpeza.”

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel O café cheirava a água sanitária e Pine-Sol16. Enquanto Ralph enxugava o chão da cozinha, Odin limpava as prateleiras da despensa e Lars limpava o fogão. “Oi, Katrina”, eles dizem. “O que está acontecendo?” Eu pergunto. “Nós estamos arrumando o lugar antes que o idiota do inspetor de saúde volte”, diz Lars. “Não podemos deixar Anna se preocupar com essas coisas”, diz Ralph. “Preocupação é ruim para o coração.” Ingver mergulha uma esponja em um balde com água e sabão. “Nós limpamos muitos barcos em nossos dias. Gordura de cozinha é uma brisa comparado a tripa de peixes. Esse lugar ficará impecável. Esse inspetor não vai encontrar nenhum cocô de rato.” Se nos mudarmos para a Flórida, eu provavelmente nunca mais veria esses homens novamente. Eles eram como tios que nunca tive. O avô que eu perdi. O pai que levaram. Eu não conseguia suportar contar para eles que minha avó tinha decidido fechar. “Onde está Irmgaard?” Odin pergunta. “Ela está no hospital?” “Eu não sei”, eu digo para ele. Ele me entrega uma caixa postal cheia de cartas. “Tudo isso chegou hoje. A maioria é para Caçadora de Ratos.” “O telefone tocou o dia todo também”, Ralph diz. “Peguei um monte de mensagens. Todo mundo quer falar com o gato.” “E muita gente parou por aqui também”, Lars diz. “Obrigada.” Eu carrego a caixa para o escritório e coloco sobre a mesa. Eu abro um dos cartões. Uma menina que tinha feito um desenho de Caçadora de Ratos e o rato. Eles estavam sentados juntos, sorrindo. Caçadora de Ratos tinha um arco rosa na cabeça e o rato usava uma gravata roxa. A menina queria saber se Caçadora de Ratos iria escrever de volta. Eu mexo na caixa e encontro mais três contas todas vencidas. Chegam a mais de quatrocentos dólares. Vovó disse que ela tinha duzentos em sua conta corrente. Minha mochila escorrega do meu ombro e cai no chão com um baque. Eu me sinto como se estivesse caindo com a mochila e me curvando em uma bola. Honestamente para Deus, uma garota de dezesseis anos não deveria ter tantos problemas de uma só vez. Ingvar enfia a cabeça dentro do escritório. “Eu disse que ele poderia usar seu chuveiro. Espero que não se importe.” “Quem?”

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Marca de desinfetante. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Seu namorado. O garoto com a saia.” “Malcolm está usando meu banheiro?” “Foi minha sugestão. Ele estava encharcado até os ossos. Disse que ele ficou sentado na chuva à noite toda. Se você não se importa que eu diga, Katrina, ele poderia usar algumas roupas novas. Talvez você pudesse emprestar algo do seu avô?” Eu sinto o cheiro dele antes que o veja, seguindo o cheiro até as escadas e pelo corredor da cozinha. Ele está sentado na mesa de fórmica, comendo Cheerios na caixa. Seu cabelo estava molhado e penteado para trás, seu torso perfeitamente limpo e esculpido. Isso mesmo, seu torso. Eu não podia dizer de onde eu estava, mas parecia que sua outra metade estava nua. “Uh, oi”, eu digo. “Olá.” Ele sorri, dessa forma agradável, dando-me toda a sua atenção, como se eu fosse o centro do universo. Então, ele estende a mão sobre a mesa e pega uma maçã da fruteira. “Você sabe, houve um momento em que este foi considerado um pedaço de fruta muito perigosa.” “O que você fez com suas roupas?” Eu pergunto. “Elas se foram.” Ele rola a maçã em sua mão. “Você jogou fora?” “Eu decidi tirá-las e agora elas se foram. É o melhor. Eu deveria me misturar aonde eu vou, como um camaleão. Não parece que kilts são populares por estas bandas, então eu poderia muito bem vestir algo mais condizente com seu pequeno canto do mundo”. Ele começa a se levantar. “Uh, não faça isso.” “Não faz o quê?” “Basta sentar aí e eu vou te dar algumas roupas.” Sair com um anjo poderia não quebrar nenhuma lei cósmica, mas eu estava certa que ver um anjo nu me mandaria direto para o inferno ou algo assim. Ou muitos, muitos anos de psicoterapia. Minha avó era uma dessas pessoas que tinham problemas para se livrar das coisas – daí o Armário do Fracasso lotado. “Você pode precisar um dia dessas coisas”, ela sempre dizia. Então, na parte de trás do seu armário, ainda havia algumas das roupas do meu avô, incluindo seu uniforme de policial. Algumas das suas outras roupas estavam cuidadosamente dobradas no fundo da gaveta da cômoda. Malcolm era alto, como meu avô, e magro como ele era também. Eu encontro um par de calças caqui, uma camiseta azul marinho, e um pulôver branco islandês. Será que ele precisava de cuecas? Eu não queria ter essa conversa com um anjo, então eu pego um par de boxers. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Eu não consegui encontrar sapatos”, eu digo, enquanto volto para a cozinha. “Eu não preciso. Eu tenho minhas sandálias. Elas vão para onde quer que eu vá.” “Aqui”, eu digo, fechando meus olhos enquanto ele se levanta. “Você pode se trocar no banheiro.” Quando ele retorna, ele parece um modelo da Ralph Lauren. E tudo que eu conseguia pensar naquele momento era em seus ombros nus e sem pelo no peito – um milhão de vezes melhor do que o nu do Cara do Bufê. “Katrina?” Ele estava perto de mim. “O que você está pensando?” Como se ele não soubesse. Eu dou um passo para trás e suspiro. “Você pode me dar um grão agora?” “Só se você estiver pronta para ser honesta.” “Eu quero as coisas de volta do jeito que costumavam ser”, eu digo. “Eu queria que o Java Heaven nunca tivesse aberto. Então, nós ainda teríamos nossos clientes antigos e vovó não teria se estressado e tido um ataque cardíaco. E Vincent e eu continuaríamos sendo amigos e eu não teria que ir dizer ao Sr. Darling que estamos dispostos a ir embora”. Eu sento-me em uma das cadeiras da cozinha. “Eu não quero ir. Só quero que o Java Heaven desapareça.” Em algum momento, enquanto eu estava falando, o cabelo de Malcolm tinha secado. Caia em ondas suave e era tão brilhante que se você o visse andando pela rua, pensaria, “Eu me pergunto que tipo de xampu aquele cara usa.” “Tem certeza que é isso que você deseja?” “Sim.” Ele enfia a mão na sua mochila e tira um pacote de grãos de café. Ele joga o último grão em sua mão, então se senta na beirada da mesa da cozinha, bem na minha frente. “Você está certa, Katrina? Por que isso vai mudar sua vida.” “Eu estou certa”, eu digo. “Eu espero que sim, por que todo nosso futuro está montado sobre isso.” “Eu estou.” Eu odiava aquele lugar. Eu queria que desaparecesse. Desaparecesse para sempre. “Eu estou certa.” Malcolm fecha seus olhos e tudo fica quieto, como antes. Sem carros passando pela rua, sem Ingvar cantando “Blow the Man Down”, sem Caçadora de Ratos afiando suas garras no sofá. O relógio para seu tique-taque, a geladeira para de zumbir. Um deseja poderia mudar tudo. Tudo estaria bem novamente. Mas por quanto tempo? Outro café abriria na Main Street. Vincent encontraria outra namorada. Vovó teria de se aposentar, eventualmente. E eu ainda teria que preencher essa lista estúpida. “Espere”, eu digo. Os olhos de Malcolm se abrem e o mundo volta ao normal. “O que você quis dizer com que o nosso futuro estava montado sobre isso?” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Eu só tenho mais uma chance de fazer isso direito. Se eu fracassar novamente, eu nunca vou conseguir aquela promoção que eu quero. Eles me mandaram para longe. Estarão me rebaixando.” “Eles farão isso?” Quem eu estava enganando? Eu não tinha mais certeza sobre esse desejo do que qualquer coisa da minha vida. Eu coloco minha cabeça sobre a mesa. “Eu não sei o que eu realmente desejo. Eu não consigo entender. É muito difícil.” Malcolm devolve o grão de café para seu pacote e coloca novamente na mochila. “Todos sabem o que mais desejam.” “Você sabe?” “Eu não deveria ter qualquer desejo.” Sento-me. “Mas você quer a promoção.” “Sim. Mais do que você pode imaginar.” “Então, você tem um desejo.” “Mais do que um.” Seu olhar passa por mim, mas dessa vez, não se sente como uma pluma. Era mais como uma lixa fina, como a língua de um gato. Parecia ótimo. Eu queria me aproximar e me envolver em seus braços. Eu penso naquelas histórias de namorados sugadores de sangue e encantamentos. Eu estava sob algum tipo de magia angelical, ou estava me sentindo assim por que ele era bonito, interessante, agradável e diferente de qualquer um que eu já conheci? “Diferente” era um eufemismo – ele nem sequer era humano.

ELE NEM SEQUER ERA HUMANO!

O que eu estava fazendo? Isso era loucura. Eu precisava sair daquela sala e resolver meus sentimentos. Olho para o relógio. “Eu tenho que falar com o Sr. Darling agora, ou eu não serei capaz de chegar ao hospital antes que o horário de visita acabe.” “Eu vou com você”, diz Malcolm. “Não. Eu quero fazer isso sozinha.” Corro escada abaixo, cada passo me levando para mais longe de sua aura. Sem dizer uma palavra aos Garotos, eu caminho pela porta da frente do Café Velho Mundo Escandinavo da Anna para entrar nas entranhas da besta.

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CAPÍTULO VINTE E SEIS

Quando eu tinha onze anos, fui para um parque com Vincent e seu pai. O Sr. Hawk, em seu estado normal de exaustão, deu a cada um de nós dez dólares, então tirou um cochilo na sombra. Uma vez que nós só tínhamos dinheiro suficiente para três passeios, nós tivemos que ceder. Concordamos com o Giant Sack Slide, então eu escolhi a roda-gigante e Vincent o Corredor dos Horrores. Eu não queria ir para o Corredor dos Horrores, mas nós tínhamos um acordo. “Eu fui para a estúpida roda-gigante”, Vincent queixa-se me arrastando através da entrada. A fachada do Corredor dos Horrores tinha uma foto gigante de um vampiro, algumas cabeças em jarros, e um monte de zumbis com sangue escorrendo de suas bocas. Eu fiquei com minhas mãos trêmulas e minhas palmas começaram a suar. Esse cara realmente feio e sem dentes, pega nossas entradas. “É assustador?” Eu pergunto para ele. Ele apenas dá de ombros. “Eu não reembolso ninguém, se você vomitar ou algo assim.” Ótimo. Isso soava ótimo. Gritos de terror surgiam da porta de entrada com cortinas pretas. Uma gargalhada maligna nos chamou para que entrássemos, se nos atrevêssemos. Vincent parece certo, com um grande sorriso em seu rosto, como se ele estivesse a procurar de ovos da Páscoa ou de algum tipo de tesouro. O homem feio me manda se mover, por que o resto da fila estava esperando. Eu não vomito, mas eu fecho os olhos e seguro com força a manga da camisa de Vincent. “Bem-Vindos ao Corredor dos Horrores”, uma voz gravada diz. “Uma vez que você entrar, nunca poderá escapar.” E era exatamente como eu me sentia do lado de fora do Java Heaven. Eu preferia ir milhões de vezes para o Corredor dos Horrores do que aquele lugar. Eu prefiro enfrentar incontáveis potes cheios de cérebros e rostos contorcidos do que o sorriso branqueado alegre do pessoal do Java Heaven. Sem uma manga para segurar, eu entro. O lugar era limpo, acolhedor e amigável. Nuvens gigantes pendiam do teto. Um grande cartaz de publicidade do novo Mocha do Vincent estava pendurado atrás do balcão. Vozes e músicas da moda enchiam o ar. Minha cabeça não explode. Meu corpo não se desintegra. Mas minha alma se encolhe. Dou uma olhada na habitação rapidamente. Os grupos de Heidi estavam sentados nas

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel mesas em volta, cortando flocos de espuma. Eu não vi Vincent, o que foi um alivio, por que eu não queria explicar por que eu estava quebrando minha própria lei. Heidi contaria a ele em breve. Todo mundo ia saber, logo. Para chegar ao balcão, eu tinha que serpentear por pacotes embalados e por todo tipo de mercadorias com o logotipo da nuvem – muito inteligente. Pequenos sacos marrons estão cheios da Mistura Orgânica da Manhã e a Mistura de Férias Orgânica do Java Heaven que lotam as prateleiras. “O que você está fazendo aqui?” Heidi pergunta. Ela segurava um prato de biscoitos. “Você veio ajudar com os flocos de neve?” “Eu preciso falar com seu pai.” “De jeito nenhum. Isso é estranho. Você nunca vem aqui.” De perto, ela era ainda muito bonita, mas ela tinha esses círculos escuros sob seus olhos. Finalmente a superação nos trabalhos tinha pegado ela? “Onde ele está? Seu pai?” “Ele está no escritório. É lá.” Ela aponta, então entrega os biscoitos para o grupo de trabalho. Viro meu rosto para longe dos alunos fazendo flocos, e caminho para o fundo da loja. Esta era a pior espécie de Corredor dos Horrores, por que o monstro não era um manequim ou uma voz gravada ou um robô – o monstro era real e ele estava sentado atrás da sua mesa. Ele não parecia surpreso ao me ver. “Onde está sua bandeira branca?” Ele pergunta, recostado na cadeira. Eu acho que era completamente óbvio que nosso café tinha naufragado. O Departamento de Saúde foi apenas a cereja no seu bolo da vitória. “Eu preciso lhe dizer algo.” “William, o que é isso?” Uma mulher idosa invade o escritório, me empurrando para o lado. Ela acena para um pedaço de papel. “Eu disse que queria voar de primeira classe. Isto claramente não é uma passagem de primeira classe.” “Agora, Mamãe”, o Sr. Darling se levanta. Ele passa suas mãos sobre sua camisa azul marinho, alisando as dobras. “Este é o melhor negócio que eu pude conseguir.” “Melhor negócio?” Ela enfia a passagem em seu rosto. “Você é um pão-duro. Isso é o que você é. Você sempre foi um pão-duro. Ruim o suficiente você está me mandando para o Retiro do Inferno...” “É o Retiro Universal.” “É a morte, isso é o que é. Você está me mandando lá para morrer.” Ela bate a passagem em sua mesa. “Se você quiser se livrar de mim, então você terá que fazê-lo de primeira classe. Quero outra passagem.” Ela me olha. “Eu espero que sua avó esteja se sentindo melhor.” Então, ela sai, rapidamente. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel O Sr. Darling ajeita sua camisa novamente, então retorna para sua cadeira. Ele não parece nem um pouco envergonhado que ele, um homem adulto, tenha acabado de ouvir gritos de sua mãe. “Você estava dizendo?” Eu me firmo, meus pés afastados, para compensar o peso da humilhação. “Minha avó queria que eu dissesse que ela está disposta a aceitar sua oferta.” “É claro que ela está.” Ele cruza suas mãos. “Mas minha oferta foi retirada.” “O que?” “Eu estou comprando todo o edifício. Eu serei seu novo proprietário. O negócio será fechado em trinta dias. Agora que vocês têm uma reputação de abrigarem roedores, eu prevejo que vocês estarão fora dos negócios nesse fim de semana. E uma vez que seu aluguel esteja atrasado, não haverá necessidade de honrar seu contrato. Eu posso legalmente despejá-las.” “Mas você disse que nos pagaria por nosso espaço”, eu grito. Ele se levanta. “Agora eu estou te dizendo que não preciso.” Ele abre a porta de trás, apontando para o beco que nossos negócios compartilham. “Eu tenho certeza que você estaria mais confortável se sair dessa maneira.” Existe uma palavra maior para ódio? Desprezo, abominação, detestar. Pegue todas essas palavras e misture, foi isso que eu senti. Se eu estivesse estrelando um filme antigo, eu teria lhe dado um tapa e o chamado de canalha. Mas um tapa no mundo real era chamado de agressão grave. Dê-me esse grão de café. Dê-me agora, por que o que eu mais desejo não é fazer o Java Heaven sumir, mas é fazer este grande idiota desaparecer! “Mas...” “Adeus.” Ele aponta para a porta. “Mas...” E então algo surpreendente acontece. O vento sopra e vai direto para o escritório do Sr. Darling. Balança todos os papéis em sua mesa, e manda alguns para o beco. O Sr. Darling os persegue. Observá-lo lutar para pegar cada um, praguejando e quase tropeçando, é um pequeno consolo. Com o último papel recuperado, ele olha para mim, me manda sair, então, bate a porta. Eu fico no beco. Se alguma vez houve um momento para chorar, teria sido ali mesmo. Mas eu não chorei. Alguma coisa tinha me chamado à atenção. Um pedaço de papel, que ainda continuava no ar, flutuando para cima. Ele vibra, em seguida, cai bem encima de minha mão estendida. Era um recibo da Acme Supply Company, a mesma empresa que nos fornecia. O recibo era da entrega de 200 quilos de café genérico. Café genérico? Isso era ainda mais barato do que a marca que nós utilizávamos. De acordo com os Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel cartazes e os comerciais de televisão, o Java Heaven só vendia café 100 por cento orgânico, de livre-comércio, e de uma área preservada da floresta, e não café genérico. Mais dois itens estavam listados no recibo – uma caixa de sacos de papel marrom, e dez rolos de etiquetas impressas personalizadas. Oh, pequeno pedaço de papel, por onde você esteve durante toda minha vida?

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

CAPÍTULO VINTE E SETE

No momento em que o recibo tinha chegado a minhas mãos, o Sr. Darling já tinha fechado a porta com um gracioso, “Boa Sorte!” Eu poderia ter batido na porta para devolver o pequeno pedaço de papel. Eu poderia ter feito isso. Mas eu não fiz. Por quê? Por que se alguma vez houve um momento para acreditar em sinais, este era o momento. Minha mão tremia enquanto eu lia o recibo novamente. Isto era grande. O Homem de Negócios do ano não parecia ser muito certo. O Grande e Gordo Mentiroso parecia ser mais certo. Minha mente acelerava. Eu deveria mandar por fax para o Nordby News? O Sr. Darling me mataria. Ele contrataria algum tipo de assassino que atiraria em mim pela manhã enquanto eu estivesse enchendo potes de geleia. Okay, talvez ele não fosse tão longe, mas ele buscaria algum tipo de vingança terrível. Eu teria que enviar anonimamente. Amanhã a manchete seria: Java Heaven Vende Café Proveniente de Trabalho Escravo. E depois disso: Proprietário do Java Heaven é Indiciado por Fraude. E então: Java Heaven Fecha Para Sempre. Elizabeth poderia publicar em seu blog e as notícias se espalhariam durante a noite, exatamente como aconteceu com Caçadora de Ratos. Mas então um pensamento muito astuto me ocorreu. Seria mais valioso se ninguém soubesse ainda – e se eu utilizasse o recibo como chantagem? Eu tremo. Eu poderia ser uma chantagista? Isso seria uma adição interessante para a minha lista. “Adivinha o que eu achei”, eu grito enquanto caminho para o nosso café. Ninguém responde. Os Garotos tinham deixado um recado: Limpeza terminada, vamos tirar um cochilo. Malcolm ainda estava lá encima. Ele tinha encontrado o álbum de fotografias da minha avó, e estava lentamente folheando as páginas. Eu ainda não estava acostumada a vê-lo de calças. Eu de algum modo sentia falta do kilt. “Olha”, eu digo, acenando com o recibo. Ele se inclina sobre o álbum, sua expressão espantada. “Esta é você”, ele diz, calmamente. Ele aponta para uma foto tirada de um estúdio barato em um pequeno shopping. Eu tinha dois anos, estava sentada em um cavalo de balanço, e colocada sobre um fundo com panorama de queda. Dois dentes, dois rabos de cavalo, e dois arcos vermelhos completavam o visual idiota.

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Sim, essa sou eu. Olha, o que eu...” Ele folheia mais algumas páginas. “Este livro é um registro de sua vida, seu primeiro corte de cabelo, seu primeiro aniversário, seu primeiro recital de piano. Eu nunca vi nada como isso antes.” “Sério? Todo mundo tem um álbum de fotografias.” Ele fecha o álbum, em seguida, passa uma mão sobre a capa. “Nem todos, Katrina. Para se ter um registro de sua vida, é necessário você ter uma vida.” Ele estava dizendo que ele não tinha uma vida? Ele provavelmente estava ocupado demais para ter uma vida. Vincent tinha me dito para conseguir uma vida. “Você é um anjo. É uma vida emocionante. Você não precisa de um álbum de fotos estúpido.” “Não é o álbum. É a vida. Veja, Katrina, eu não estou vivo.” Eu sento na cadeira desgastada do meu avô, tentando absorver essa frase. “Mas você está respirando. Vejo você respirar agora. E você está quente. Eu posso sentir você aqui. E você come. O que você quer dizer com que você não está vivo?” Ele suspira. “Eu existo. É evidente que eu existo. Mas eu não tenho uma vida da forma que você tem.” “Quer dizer que você não morre? Você vive para sempre?” Esse pequeno fato mataria qualquer chance de nos tornar um casal. Imagine ter um namorado que nunca envelhecerá. Eu ficaria sentada na minha cadeira de rodas motorizada com cabelos grisalhos e sem dentes e ele estaria jogando vôlei na praia com seu kilt. “Eu não sou imortal. Eu fico aqui por um tempo e depois vou.” “Oh. Então eu não entendo.” “Eu vou existir enquanto eu for necessário, mas é uma existência solitária, Katrina. Vou de uma entrega para outra, entrando e saindo de vidas como um vapor, deixando aquelas vidas transformadas. Toda vez que eu estico uma visita é por que eu quero saber como é nadar no oceano, ou andar em uma roda gigante, ou dançar em uma reunião dos clãs das Terras Altas. Ou como é ter uma família.” Sinto-me pequena na cadeira do meu avô – insignificante e mortal. Uma pessoa normal que nasceu e depois morreria. Que vida eu tinha transformado? “Todos os mensageiros estendem suas viagens?” “Não. Eu sempre fui diferente. A curiosidade é uma verdadeira carga para um mensageiro.” Ele se inclina para frente, seus antebraços apoiados em seus joelhos. “A maioria das pessoas está muito ocupada ou distraída para fixarem-se em mim, a menos, que eu de propósito me manifeste para estas pessoas. Mas por alguma razão que eu ainda não entendo, você me viu dormindo naquele beco. Você se fixou em mim, quando não tinha sido minha intenção ser notado. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Isso nunca tinha ocorrido antes.” “Eu percebi você por que ninguém nunca antes tinha dormido em nosso beco. Era estranho.” “Não é tão simples”, ele sorri. “Ou talvez seja simples. Talvez simplesmente fosse nosso destino nos conhecer. Eu gostei de te conhecer, Katrina. Eu gostei de ser uma pequena parte de sua vida. Você é muito sortuda por ter sua avó e seus amigos. Eu gostaria de poder...” Se detém, seu estado de ânimo ficando sério novamente. “Eu gostaria de ter algumas das coisas que você tem.” Uma poderosa onda de emoção correu através de mim nesse mesmo momento e lugar. Confiava em mim o suficiente para compartilhar seus sentimentos. Que garoto faria isso? Inclusive Vincent não se abria sobre sua mãe ou seu medo de fracassar. Afasta o álbum para um lado e se levanta. “Tenho que ir. Tenho que conseguir entregar essa mensagem de uma vez por todas.” Recolhe sua mochila, esforçando-se para subi-la até o ombro. Logo, sem dizer uma palavra, vai embora. Eu o observo pela janela enquanto caminha pela Main Street. De costas, parecia um rapaz normal em um par de monótonas calças caqui e suéter branco. Quão solitário deve ser a vida de um mensageiro, entregando envelopes que irão transformar a vida das pessoas. Eu percebo, ali mesmo, que eu sou uma dessas pessoas “copo-meio-vazio”. Embora eu não tivesse popularidade, talento ou namorado, estes espaços em branco não eram nada comparado com o que eu tinha – as coisas que ele desejava. Eu pego o recibo. Eu chego ao hospital com somente vinte minutos para o horário de visitas. Um casal que era dono de uma loja de presentes na Main Street acabava de se despedir enquanto eu me apresso para o quarto de minha avó. “Blá, blá, blá”, minha avó se queixava depois que eles tinham ido. “Só por que sou uma prisioneira nessa cama não significa que eu queira ouvir tudo sobre o refinanciamento de sua casa. Pelo amor dos céus, eu sou uma mulher doente.” Ela estende seus braços. “Mas quero saber tudo sobre você.” Ela estava usando um pijama azul floral e bata. Seu pequeno rádio estava ligado perto da cama. A intravenosa tinha sumido, mas ela ainda estava conectada a um monitor. Quatro ramos de flores estavam no balcão. “Olhe isto”, digo, empurrando o recibo para ela. “Eu não estou com os meus óculos. O que é?” “É um recibo da Acme Supply Company.” Seguro em meus dedos como se fosse uma criança pequena. Esta seria a melhor notícia que ela iria escutar em muito tempo. “Não é uma conta, verdade?” Ela coloca seu braço na sua frente. “Realmente não posso Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel pensar nisso agora.” “Não, não é uma conta. Pertence ao Java Heaven. Encontrei no beco.” “O que está acontecendo com você? Você precisa usar o banheiro?” “Não.” Deixo de me mexer e leio o recibo. Como se pronunciasse um discurso de abertura, digo cada palavra claramente, precisa, esperando para inspirar. Vovó Anna não diz nada, assim leio novamente. Sua expressão fica em branco. “Não vê? Ele não está vendendo café orgânico, está vendendo a coisa mais barata que pode conseguir e logo o etiqueta como café orgânico de livre comércio e preservação de florestas. Esteve mentindo para todos.” Agito o recibo. Ela cruza suas mãos, apoiando em seu ventre redondo. “Não me surpreende. Ele sempre foi um sem-vergonha”. Sua voz carecia da emoção que batia sobre mim. “Se dermos isto ao jornal ou inclusive ao Oficial Larsen, o Java Heaven saíra do negócio. E então nossos antigos clientes voltariam. Podemos salvar o café.” Balança sua cabeça. “O Departamento de Saúde não nos aceitou deixar abrir novamente.” “Eles deixarão. Você sabe que eles deixarão. Não temos ratos vivendo em nosso café.” Minha avó respira fundo e vira seu rosto para a janela. A escuridão pressionando contra os cristais. Quando ela me olha, seus olhos estão cheios de rendição. “Não iremos fazer nada com esse recibo.” “O que?” Era algum tipo de confusão induzido pelos remédios? Eu tinha pensado que ela ficaria entusiasmada com o recibo, pronta para tirar cópias e cobrir as ruas com elas. Talvez estivesse secretamente temerosa que o Sr. Darling pudesse fazer algo com a anciã que o entregou para as autoridades. Talvez o ataque do coração tenha feito-a se sentir vulnerável. “Mas isto solucionará tudo. É como uma resposta para todas as nossas orações.” “Não é uma resposta para minhas orações”. Ela dá umas palmadinhas na cama. “Venha, sente-se.” Sento-me. “Katrina, o café não ficou endividado por causa do Sr. Darling. É fácil culpá-lo, mas tenho que olhar para mim mesma. Não me mantive moderna com o passar dos tempos. Neguei-me a provar coisas novas, e isso é um suicídio para o dono de um negócio.” “Mas não é muito tarde.” “Eu não vou ter êxito pisando em outra pessoa. Inclusive se esse alguém for um ladrão.” “Mas as pessoas tem direito de saber.” “Sim, acho que tem, mas não vão ouvir de nós. Você não deveria estar com esse recibo – Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel é propriedade privada. Ele poderia te acusar de roubo.” “Mas...” “O que ele faz é problema dele. Ele faz sua cama. E ele é o único que tem que deitar nela.” O que isso queria dizer? Sua cama estava cheia de dinheiro. Ele deitaria nela o dia todo se pudesse. “Vovó, você não entende. Ele disse que vai comprar o prédio inteiro. Ele disse que assim que deixarmos de pagar o aluguel, ele vai nos expulsar.” Isso deveria ter mudado sua ideia, mas não aconteceu. “Então é hora de nos mudar. Eu não quero passar nem um dia com o Sr. Darling como meu senhorio.” Ela aperta minha mão. “Não leve as coisas tão difíceis, Katrina. As mudanças vêm para todos. Anos atrás, eu teria ficado pronta para uma luta, mas estou cansada. Eu luto pelo café há muito tempo. Eu não consigo fazer mais. Mas eu não vou ser responsável pela queda de outro negócio, não importa o quão inconveniente seja o Sr. Darling. Ele tem uma família. Eu não seria capaz de dormir sabendo que o levei a ruína.” Ela era uma pessoa tão boa. Eu sinto uma onda de vergonha por eu ter estado tão pronta para expor o Sr. Darling – tão ansiosa em comemorar sua queda. Mas ainda assim, isso era injusto. O vilão não deveria ganhar. Parecia a resposta perfeita. “Livre-se desse recibo. Pare de se preocupar tanto com nosso café. Você deveria estar pensando nos seus trabalhos de escola e no próximo festival. Você deveria estar pensando em toda a diversão que você vai ter com esse menino bonito.” “Isso significa que teremos que nos mudar?” “Sim.” “Para o Retiro Universal?” “Céus não. Eu tenho algum dinheiro em um Certificado de Depósito. Encontraremos algum lugar alugar e ficaremos bem. O cheque da aposentadoria de seu avô ajudará com o café. Agora isto pode nos ajudar. Nós não seremos ricas, mas nós faremos algo. Entretanto, há alguém com quem estou preocupada. “Irmgaard?” “Sim. Ela adora o lugar tanto quanto eu. Ela vai ter um momento difícil para se adaptar. Eu não sei onde ela vai arranjar um emprego em que possa fazer sopa.” A enfermeira enfia sua cabeça pela porta para me dizer que o horário de visita tinha acabado. Vovó se empurra para os travesseiros. “Katrina, há algo que você deve saber sobre Irmgaard.” “Que ela é uma freira?” “Como você sabia disso?” “Ela me deu um livro e dizia que era de Propriedade da Irmã Irmgaard.” “Ela costumava ser uma freira. Ela deixou a abadia.” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Por quê?” “É melhor deixar isso no passado. O que quero que você saiba sobre Irmgaard é que eu a considero parte da nossa família”. Vovó Anna boceja. “Eu estou muito cansada. Vá para casa agora. Dirija com cuidado.” Eu a abraço. Ela se recosta e fecha os olhos. Então, enquanto eu estava saindo, ela murmura, “Recorde-se sempre que perdoar alguém é deixar alguém em liberdade.” Amasso o recibo e jogo no banco traseiro. Antes um farol brilhante de esperança, agora somente um pedaço de papel estúpido. Por que minha avó mencionou perdão? Será que ela realmente espere que eu perdoe o Sr. Darling pela compra do prédio e por nos chutar? De jeito nenhum. Eu devolvo seu recibo, mas seria um dia frio no inferno quando eu parasse de odiá-lo. Talvez isso me fizesse uma pessoa ruim. Ou talvez isso me fizesse uma pessoa normal e comum, com sentimentos normais e comuns. Eu como três tigelas de cereais naquela noite, por que não sinto nenhuma vontade de cozinhar. A caixa afirmava que uma porção continha todas as vitaminas e minerais requeridos diariamente, por isso se vovó perguntasse se eu tinha tido uma alimentação saudável, eu poderia dizer que sim. A secretária eletrônica piscava, cheia de mensagens para Caçadora de Ratos. Eu ouço algumas, então apago. Será que Malcolm voltaria? Caminho até a janela. Como de costume, a Main Street estava esvaziada de pessoas e carros, exceto por poucos carros estacionados fora do bar e mais alguns estacionados fora do Java Heaven. Eu observo o final da rua, desejando que Malcolm aparecesse e virasse a esquina. Espero que ele esteja sorrindo, por que Irmgaard finalmente tinha pegado o envelope. Mas algo mais aparece – uma pequena luz branca. Ela surge do local onde a rua termina, deslizando cada vez mais como uma pequena estrela cadente. Eu me pressiono contra a janela para poder ter uma visão melhor. A luz cresce como se flutuasse. Era um farol de bicicleta. O piloto para na rua e desliza para fora. Vincent não me cumprimenta. Eu também não o cumprimento. Ele continua segurando o guidão e olha para cima. Eu não abro a janela e grito, Ei, sobe. Como eu teria dito, apenas uma semana atrás. A extensão da estrada que nos separa parece como um abismo. Meus sentimentos ainda estavam machucados. Eu sabia que as pessoas quebram promessas o tempo todo, mas era minha única promessa e meu único melhor amigo. Perdoar é deixar alguém livre. Ficar brava com alguém era como um peso enorme pendurado em meu pescoço – com essa sensação que eu tinha depois de nadar a segunda volta na piscina do Nordby High. Perdoar é deixar alguém livre, mas o perdão parecia impossível. Nós olhamos, nenhum de nós se move. Então, ele passa a perna sobre o assento e Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel pedala. Na noite em que meus pais morreram, quando eu deitei na cama, eu provavelmente me senti terrivelmente solitária. Eu estou apenas adivinhando, por que eu realmente não me lembro daquela noite. Mas a noite em que Vincent se afastou pedalando foi muito mais solitária do que eu poderia suportar.

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

CAPÍTULO VINTE E OITO

Terça-feira era o último dia de aulas antes das férias de inverno. Normalmente, teria sido uma manhã de animação antecipada, mas eu mal consegui me arrastar para fora da cama. O café continuava fechado. Malcolm não apareceu, nem Irmgaard. O barulho da torradeira, o ritmo de Irmgaard no agitado bloco, o som de Odin e Lars argumentando – que era minha trilha sonora. Mas tudo tinha desaparecido como um eco. “Oh, Katrina”, o Sr. Prince acena para mim do seu escritório enquanto eu tentava me esgueirar para longe. “Devemos discutir os resultados do seu teste de aptidão. Muito promissor, você não acha?” Dou de ombros, olhando para o copo do Java Heaven que ele segurava. Juro por Deus, que eu queria arrancá-lo de sua mão e pisar nele. “Você deve levar esses resultados a sério, Katrina. Pense em ir para a escola de negócios. Talvez até mesmo para o MBA. Ganhe alguma experiência empresarial. Todo empreendedor precisa de experiência empresarial. Você já teve um emprego? Você conhece alguém que poderia escrever-lhe uma carta de recomendação? Você poderia se junta aos Futuros Lideres da América. Heidi Darling organiza o grupo. Você a conhece?” Oh, Deus, se eu tiver que ficar aqui mais um segundo, eu vou gritar! Ele toma um gole no seu canudo de hortelã. “Você já tentou o Mocha do Vincent? É delicioso.” Eu fujo. Na Mitologia Mundial, pego a cadeira vazia ao lado de Elliott. O Sr. Williams está sentado na borda da sua mesa, como sempre fazia. “Hoje nós vamos terminar nosso capítulo da boa ação. Por favor, abram seus livros no próximo tópico, chamado „A Donzela em Apuros.‟” Eu sabia que Vincent estava mais perto da janela. Eu sabia que os seus fios de cabelo estavam pingando em sua camisa, e que ele estava mastigando seu lápis. Mas eu não queria olhar para ele. “Quem pode me dar um exemplo de uma donzela em perigo em um conto de fadas?” O Sr. Williams pergunta. A mão de Brianna dispara. “A Bela Adormecida.” “Continue.” “Bem, ela não pode acordar até que o príncipe a beije. Ele tem que cortar seu caminho por essas videiras até chegar a ela.” “Okay, outros exemplos?” “Branca de Neve”, diz Ashley. ”Ela está morta em um caixão de vidro, então, o príncipe

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel chega a beija e ela acorda.” O Sr. Williams acena. “Graças a Walt Disney, todos vocês estão familiarizados com donzelas em perigo. Este tema é comum em toda mitologia. As mulheres, tradicionalmente vistas como as mais fracas entre os sexos, e historicamente mais vulneráveis, são colocadas em algum tipo de perigo. Sua sobrevivência depende da ação heroica do homem, geralmente um príncipe, mas às vezes um homem de posses humildes que é recompensado por sua boa ação. Muitas vezes, a recompensa é um beijo, que em um contexto mais amplo, significa a disponibilidade sexual.” Aaron franze os lábios e faz alguns sons de beijos. “Onde eu posso encontrar uma donzela em apuros?” Olho para a ilustração do capítulo com uma menina olhando por uma janela que estava em uma torre alta. Seus longos cabelos loiros emolduravam sua expressão triste. Ela encosta-se no painel, observando, esperando que o príncipe venha resgatá-la. Olho até que minha visão fique turva e seu rosto se transforme no meu. Na noite passada, eu tinha observado da minha própria janela, esperando por Malcolm, esperando que ele aparecesse com seu grão mágico para fazer tudo certo novamente. Esperando ser resgatada. E não foi isso que sempre fiz, sempre esperei por Vincent? Ligando sempre que eu precisava de algo, confiando nele para me levar ao cinema e ir para lugares comigo se Elizabeth não pudesse ir. Para aparecer quando eu ficasse com medo por que achei um estranho dormindo no meu beco. Para ser o único que eu sempre podia chamar qualquer hora do dia ou da noite. Maldição! Eu era exatamente como aquela menina estúpida da torre. “Sr. Williams?” Eu levanto minha mão, interrompendo a leitura. “Sim?” “E sobre as histórias em que a própria donzela em perigo se salva?” “O que?” “Quando ela não espera pelo príncipe.” Ele coloca o livro no colo. “A donzela em perigo não se salva nessas histórias, Katrina. Ela não pode se salvar por que uma maldição ou uma magia a mantém prisioneira.” “Mas talvez ela possa se salvar, se ela tentar”, eu solto. Todos olham para mim. “Um, eu tenho que ir ao banheiro.” Eu pego minha mochila e corro da sala. Eu estava cansada de me sentir como uma perdedora, como eu não podia fazer nada direito. Eu estava cansada de que tudo que me importava estava prestes a ser tirado. Eu não era capitã de natação ou presidente do Clube de Canto. Eu era a Garota do Café e eu não iria perder isso sem lutar. Vovó não podia me parar, por que ela não estava em casa para me impedir. Se eu soubesse exatamente quanto devíamos, e Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel quanto exatamente tínhamos, então eu poderia fazer um plano. Talvez fosse por pura ignorância da minha parte, mas em algum lugar dentro de mim, eu sentia que poderia fazer isso. Consiga alguma experiência em negócios, o Sr. Prince tinha dito. Todo empreendedor precisa de experiência empresarial. Qual é a melhor experiência do que salvar um negócio? Mas haveria tempo suficiente? Eu passo pelo corredor, observando o visor de sucessos de Heidi. Bom para ela, eu penso. Ela não está esperando em alguma torre. Na biblioteca, eu vou até o corredor de negócios/tecnologia e acho um livro chamado Como Ser Um Empreendedor Bem Sucedido, escrito por esse cara realmente rico de Nova York. O autor escreveu que a coisa mais importante para garantir o sucesso é selecionar uma equipe de apoio excelente. Eu corro para o escritório. “Senhora Kolbert? Qual é a classe de Elliott? Elliott Minor. Eu preciso vê-lo imediatamente.” Os dedos da senhora Kolbert digitam em seu teclado. “Elliott Minor está em Trigonometria. Sala Dezoito.” Acenando como uma pessoa louca na janela de vidro da sala 18, eu finalmente consigo a atenção de Elliott. Ele ergue sua mão, pedindo para ser dispensado e, em seguida, se junta comigo no corredor. “O que você está fazendo?” “Elliott, eu preciso de sua ajuda.” Eu começo a andar. “Você realmente entende tudo sobre essas coisas de pesquisas de marketing e empréstimos para pequenas empresas?” “Eu acho que sim.” “Bem, o café da minha avó vai sair do negócio a menos que eu faça alguma coisa imediatamente. Ela deve muito dinheiro. Eu preciso de alguém que seja bom com números. Nós iremos trabalhar juntos. Eu vou lhe pagar, tão logo eu possa, se você me ensinar a configurar tudo no computador.” “Por que você está pedindo para mim?” “Por que eu preciso conseguir a melhor equipe de apoio, e eu acho que você é o garoto mais esperto desta escola.” Ele estreita seus olhos, desconfiado. “E eu vou chamar Elizabeth para a equipe também.” Os cantos de sua boca transformam-se em um pequeno sorriso. “Quando começamos?” Elizabeth não estava em sua aula de biologia. Eu ligo para ela. “O que há de errado? Você está doente?” “Eu estive na cama o dia todo.” “Por quê?” “Sinto-me tão depressiva. Eu odeio me sentir assim.” “Isso é por causa de Face?” “Sim. Isso não é patético?” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Não é patético. Você está com seus sentimentos feridos. Não há nada de patético nisso.” Eu debruço-me sobre a parede, pressionando o celular de Elliott sobre meu ouvido. “Face é um idiota. E daí se ele não gosta de você? É perda dele. Agora, saia da cama.” “Eu estou vendo esse programa sobre insetos. Você sabia que o louva-deus come a cabeça de seu namorado depois que eles saem? Eu me pergunto o que ela faria, se ele a rejeitasse?” Elizabeth, não-a-bagunceira-artista-extraordinária, tinha se envolvido em um cobertor de auto piedade. Algum idiota estúpido que não podia ver além de suas roupas estranhas e rosto rechonchudo a tinha reduzido para assistir televisão no meio do dia, o que é um sinal muito ruim. “Elizabeth, eu sei que você está se sentindo bem mau agora, mas ambas precisamos parar a depressão ao nosso redor. Face é história. Vincent é história. E o café vai ser história, se eu não fizer algo. Eu preciso que você saia da cama, se vista, e me encontre lá embaixo.” O som de um envoltório de plástico chega aos meus ouvidos. “Por quê?”, ela pergunta com a boca cheia. “Por que você é a pessoa mais talentosa que eu conheço. Por que você tem visão. Por que você faz tudo interessante e bonito. Por que sem você, isso nunca vai funcionar.” “Sério?” Ela funga. “Eu preciso de você.” “Tudo bem. Vou te encontrar lá.” Elliott e eu deixamos a escola no Buick. Eu disse que estava com dor no estômago, e ele forjou uma nota para uma consulta de alergia. Eu compartilho todos os detalhes do café sem vergonha ou constrangimentos. Vovó Anna me perdoaria, por que enfrentar a verdade é a única forma de avançar. Eu viro para a Main Street. A organização da festa na noite passada produziu centenas de flocos de espuma. Lojistas penduraram em suas janelas e em seus toldos. Cordas de flocos de neve penduradas em toda a rua e ao redor dos postes de luz. Passamos pela Viking Square, onde o abeto azul estava decorado com flocos de neve e luzes. Mágico. Nós passamos pelo café da Anna, a única loja na rua não decorada, a menos que você considere o Fechado pelo Departamento de Saúde uma adição festiva. Não houve tempo para se preocupar com flocos de neve. Elizabeth tinha estacionado na rua de trás e estava esperando por nós. “O que ele está fazendo aqui?”, ela sussurra quando Elliott sai do carro. “Você vai ver.” Dentro, eu ligo o aquecimento e as luzes. Elliott dá uma boa olhada em Caçadora de Ratos, enquanto eu ligo a cafeteira. Nós precisaríamos de muitíssima cafeína. Eu faço um prato de torradas com manteiga e, enquanto comemos, eu descrevo o plano que estava saltando na minha cabeça. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Nós temos três dias antes do Festival Solstício. Eu acho que podemos fazer dinheiro com a fama de Caçadora de Ratos. Eu quero transformar este lugar em um Emporium Caçadora de Ratos. Nós temos o cheque da aposentadoria do meu avô e cerca de duzentos dólares em uma conta da minha avó e um cartão de crédito para caso de necessidade. Tenho algum dinheiro das gorjetas. O que vocês acham?” Eu estendo meus braços e espero a reação deles. Eles param de mastigar. “Está tudo bem com sua avó?” Elizabeth pergunta. “Ela não sabe nada sobre isso. Ela ainda vai ficar no hospital. E mesmo assim, ela decidiu fechar o café, então eu poderia muito bem usar o espaço como eu quiser.” “Ela não vai ficar brava se você gastar o dinheiro dela?” Elliott pergunta. “Provavelmente, mas é nossa única chance. Esse dinheiro só paga algumas contas e depois nós ainda estaríamos em dívidas e sem um café.” Elizabeth se inclina sobre o balcão e sussurra: “Por que você só não chama você sabe quem e pede para que lhe dê você sabe o que?” “Eu não preciso de um terceiro grão. Vou fazer isso sozinha. Todo mundo ainda quer conhecer Caçadora de Ratos. Não podemos competir com o Java Heaven no mercado de café, então por que não fazemos algo completamente diferente? Elliott, eu preciso que você trabalhe na parte financeira. Elizabeth, eu preciso que você trabalhe na parte de marketing.” “E o Departamento de Saúde?” Elizabeth pergunta. “Eu não vou servir comida, então o que importa para eles?” “É um risco”, diz Elliott, limpando as migalhas de sua boca. “Mas todo grande empreendimento começa com risco.” Elizabeth finalmente sorri. “Emporium Caçadora de Ratos. Eu adorei.” Elliott instala seu laptop no escritório e traz meu computador para baixo para Elizabeth. Elliott e eu mexemos em todos os arquivos e gavetas. Ele cria uma planilha listando todo dinheiro que devíamos e as despesas atuais e futuras. Elizabeth e eu pensamos nos produtos. Nós tiramos uma foto de Caçadora de Ratos, então enviamos por e-mail para uma empresa que imprimi em canecas de café, notas adesivas, e latas de biscoito. Pagamos pelo transporte no dia seguinte. Elizabeth cria um logotipo bonito do rosto sorridente de Caçadora de Ratos e cria um site simples, em seguida, envia para todos os seus amigos blogueiros. Ela contata o Nordby News e algumas estações de rádios locais. Eu respondo as mensagens, em seguida, deixo uma mensagem no telefone para que os usuários saibam que o Emporium Caçadora de Ratos será aberto oficialmente na sexta-feira para o Festival Solstício. A noite chega. Eu ligo para o hospital. Vovó diz que teve muitos visitantes e que eu não me preocupasse em ir lá. Ela não tinha visto Irmgaard e estava preocupada. Eu ligo para o Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel apartamento de Irmgaard, mas ninguém atende. Eu não a tinha visto desde seu encontro com Malcolm no hospital. Fico esperando algum deles aparecer. Embora eu tivesse gostado de ajudar Irmgaard, era provável que fosse melhor não ter Malcolm ao redor, enchendo meu cérebro com todos esses sentimentos. “Esta vai ser uma noite em claro”, Elliott diz. Ele liga para seus pais. Seu pai chega com um roupão de banho e saco de dormir e um monte de petiscos empacotados, por que Elliott tinha essa coisa de baixo açúcar no sangue. A mãe de Elizabeth nos traz uma caçarola de frango e arroz, que estava delicioso. Eu me sinto energizada e não era pela cafeína. Algo poderoso surge através de minhas veias. Era confiança? As pessoas confiantes andam sentindo o tempo todo – que tudo vai dar certo? Era um ótimo sentimento. “Você sabe o que está faltando?”, diz Elizabeth, bebendo sua terceira xícara de café. Eu balanço minha cabeça. Minha resposta teria sido Vincent, mas eu não digo isso. Enquanto Elizabeth, Elliott e eu formávamos uma grande equipe, não éramos o trio original. Vincent não sabia nada sobre folhas de cálculo ou de marketing, mas teria sido bom ter ele aqui. Ele poderia distribuir folhetos com seu jeito calmo e amigável. Eu deveria ter acenado para ele quando ele olhou para cima de sua bicicleta. Eu deveria ter corrido lá para fora, abraçado ele e dito, Não importa. Você quebrou sua promessa e eu agi como uma idiota ciumenta e insegura. E nós dissemos coisas ruins. Vamos esquecer isso e seguir em frente. “Eu vou te dizer o que está faltando. O rato estúpido é o que está faltando”, Elizabeth diz. “Hein?” “Nós precisamos pegar esse rato de volta.” Ela empurra sua cadeira para longe da mesa. “Por que eles levaram de qualquer maneira? Parece-me que pertence a você. Era de sua loja.” “Você está certo”, eu digo, de repente, indignada. “Por que eles tiveram que levar? As pessoas vão querer ver o rato. Eu preciso recuperá-lo.” Então, eu me lembro. “Mas ele cheirava nojento.” “Você pode conseguir o rato empalhado”, Elliott diz. Ele estava deitado no seu saco de dormir, digitando números em seu laptop. “Meu pai foi caçar no ano passado e tinha este cliente que limpou e dissecou os cervos que ele atirou.” “Isso é uma grande ideia”. Eu me lembro deste lugar em Seattle chamado Ye Olde Curiosity Shoppe, cheio de todos os tipos de coisas estranhas mortas. As pessoas adoram aquelas coisas mortas. Eu imagino os turistas pousando com o roedor maciço. “Isso é realmente uma grande ideia.” “Meu pai é um advogado”, Elliott diz. “Vou ligar para ele. Aposto que ele pode conseguir o rato de volta.” Nós trabalhamos durante a noite, ao redor das três da manhã, eu adormeço na mesa. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Elizabeth se enrola perto de Elliott, o que não me surpreende. Eles haviam trabalhado juntos durante todo o dia, compartilhando lanche, falando sobre a aula de arte. Ambos roncavam, mas isso só me acordou duas vezes. Caçadora de Ratos, completamente sem saber que ela era o centro do nosso universo, roeu seu caminho através de uma das caixas de Elliott. Eu queria que eu tivesse alguém para me aconchegar ao lado – alguém quente. O telefone me acorda. Esperando outra ligação de um “fã”, eu não atendo. “Katrina?” A secretaria eletrônica diz na voz abafada do Oficial Larsen. “Eu tenho um rapaz aqui na delegacia que diz que é um amigo seu. Detido por invasão. Eu não consigo encontrar sua família e ele se recusou a fazer esse telefonema. Pensei que você poderia ser capaz de esclarecer isso. Ele diz que trabalha como mensageiro.”

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

CAPÍTULO VINTE E NOVE

A última vez que eu estive dentro da Delegacia de Polícia de Nordby foi para um estudo de campo na quinta série. Estávamos entediados, por que o local não era como no cinema. Sem caras de pijamas listrados, nem cães farejadores de drogas. Sem prostitutas à espreita nos corredores dizendo coisas como, “Ei, garota, por que não me dá um cigarro?” ou “Meu advogado vai processar você, porco!” Nordby não era o tipo de lugar que transbordava com criminosos. A maioria das prisões listada no Boletim Policial eram por dirigir bêbado, seguido por adolescentes entediados que foram pegos pichando algo ou explodindo caixas de correio. Esse tipo de coisa. Quando eu estaciono o Buick, eu penso sobre o recibo do café genérico, ainda no banco traseiro. Eu poderia acidentalmente deixar cair no chão do departamento de polícia. Fraude contra o consumidor seria uma adição interessante no Boletim. Mas eu já tinha usado o cartão de crédito da vovó sem permissão dela – eu não queria quebrar minha promessa também. O prédio de tijolos fica ao lado da loja de ferragens. Dois carros da polícia estão estacionados no exterior. Música country provinha do corredor. Uma secretária me mostra onde fica o escritório do Oficial Larsen. “Oi, Katrina”, ele diz. Ele puxa uma cadeira, mas eu não sinto vontade de sentar. Então ele se segue uma xícara de café de uma garrafa intitulada Mr. Café. “Como vai Anna?” “Vão lhe dar alta depois do fim de semana.” “Oh, que bom ouvir isso. Mas muito ruim por que ela vai perder o Solstício.” “Ela não seria capaz de desfrutar, de qualquer forma. Eles querem que ela fique na cama por um tempo.” “Vai ser difícil manter aquela mulher na cama”. Ele toma um gole. “Então, Katrina, como você conheceu este garoto mensageiro? Eu não consegui nenhuma informação sobre ele.” “Seu nome é Malcolm. Ele veio da Escócia. Das Terras Altas. Eu o conheci na semana passada e ele está ajudando no café.” Eu brinco com a barra do meu casaco. O que mais eu poderia dizer? “Ele é realmente legal.” A mochila de Malcolm está no chão. As palavras Serviço de Mensagens já não brilhavam tanto. Eles se tornaram de dourado para cinza, como se tivesse sido escrito em fuligem. “Ele não me deu um sobrenome.” Eu não tenho a menor ideia de qual é o seu sobrenome. “Ele está preso?” “Ele estava fora do apartamento de Irmgaard, chamando o nome dela. O zelador reclamou. Disse que ele vivia aparecendo, principalmente, durante a noite.” “Isso é contra a lei?”

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Nós temos um toque de recolher para menores de idade aqui em Nordby. Os menores de dezoito anos devem estar fora das ruas até depois das dez.” “Sério?” Eu nunca ouvi falar sobre isso. Vincent ficava fora até tarde o tempo todo e ele nunca tinha sido preso por isso. “Se Irmgaard estiver disposta a assinar uma declaração de que ele estava importunando-a, então eu tenho uma boa razão para mantê-lo aqui.” “E se Irmgaard, não assinar a declaração, você vai deixá-lo ir?” O Oficial Larsen solta sua caneca. “Podemos ter um problema maior. Ele parece não ter qualquer identificação. Você disse que ele é da Escócia? Sem um visto ou passaporte, eu poderia ter de entregá-lo para a imigração.” Será que os anjos tinham carteiras de motorista ou passaporte, ou um cartão de sindicato? “Eu tenho certeza que ele tem uma identificação. Está provavelmente no café. Posso vê-lo?” O Oficial Larsen me leva por um corredor até uma cela, juro por Deus, onde estava sentado um anjo, juro por Deus. Malcolm não estava exatamente sentado, ele estava espalhado pelo banco, seu braço atirado sob seu rosto como da primeira vez que eu o tinha visto, que parecia ter sido há uma milhão de anos atrás. “Você pode ter alguns minutos”, o Oficial Larsen diz. Eu o observo caminhar pelos corredores, então eu me jogo nas barras. “Malcolm? O que você está fazendo aqui? Por que você não vai embora? Você pode ir, não pode?” “Para aonde eu iria?” Ele se deita perfeitamente imóvel. “Você pode voltar para o café.” “Por quê? Então, eu posso continuar estragando sua vida? Eu deveria ter sabido o que você mais desejava. Qualquer outro mensageiro poderia ter feito isso com os olhos fechados. Mas eu errei com o primeiro grão, e por isso você não está mais falando com seu melhor amigo. Então, eu errei com o segundo grão, e por isso sua loja foi fechada”. Eu agarro as barras com as duas mãos. “Malcolm, nada disto foi culpa sua. Vincent e Heidi teriam ficado juntos de qualquer maneira, mesmo se ele não tivesse se tornado um herói. Eles nadam juntos e ela é realmente... bonita. E o café estava devendo muito dinheiro antes que você aparecesse. Teríamos fechado mesmo sem o rato. Vovó é uma ótima pessoa, mas ela não tem faro para negócios.” “Sou horrível como um mensageiro.” Até onde eu sabia, ele estava dizendo a verdade. Ele parecia estar tendo um monte de problemas. Limpo a garganta, procurando as palavras certas. Afinal, não é todo dia que você dá conselhos para um anjo. “Olha, Malcolm pense em todas as outras mensagens que você já entregou. Aquelas deram certo, não foi?” Ele não diz nada. Oops. Tento outra tática. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Irmgaard é difícil de entender. Quero dizer, ela nunca falou nem uma palavra em todo o tempo que convivi com ela. Você tem que ser muito teimoso para manter um voto de silêncio, você não acha? É por isso que você está tendo problemas com ela. Quando ela decide fazer algo, então se esqueça da ideia de fazê-la mudar de opinião”. Mas eu não conseguia encontrar outro exemplo da teimosia de Irmgaard, além do voto de silêncio. Ela geralmente era fácil de trabalhar junto, quase submissa. Minha conversa tinha um ponto fraco. Ele não se mexe, nem diz nada, afunda-se cada vez mais no poço escuro que eu conhecia tão bem. No início da manhã, eu teria me juntado a ele, e nossa tristeza junta poderia ter se tornado a depressão do século. Mas eu tinha saído disso, ele também poderia. Anjos deveriam cair em graça, e não ter surtos de auto piedade. Oh, e o que eu sabia? Ele não era nem um pouco parecido com um anjo dos livros de história. Ele era ele mesmo. Eu queria jogar meus braços sobre ele e dizer que as coisas iriam melhorar. “Malcolm, vamos se preocupar com a mensagem mais tarde. Vou falar com Irmgaard. Vai funcionar. Venha, vamos sair daqui? Você não pode simplesmente escapar através da parede ou algo assim? Eu poderia realmente usar sua ajuda no café. E você ainda me deve aquele terceiro grão, certo? Assim, até eu descobrir o que eu mais desejo, você está preso comigo.” Lentamente, esforço aparece em sua expressão, ele se levanta e olha para mim. Seus olhos azuis brilhantes se tornaram cinza. O suor desce para seu lábio superior. Ele geme e se apoia contra a parede. “Malcolm, você está doente?” Ele levanta a bainha da camisa do meu avô. O envelope dourado estava debaixo do seu cinto. “Eu escondi do oficial. É muito pesado. Em poucas horas, não vou conseguir mover.” Não será capaz de se mover? Ele não estava depressivo. Ele estava seriamente sentindo dor! “Então, se livre disso. Coloque no chão.” “Eu não posso. É meu fardo para carregar.” Ele faz uma careta. “Katrina, eu não posso ser visto com isto. Eu preciso de sua ajuda.” Ele estava preso naquela cela. O que aconteceria se o mundo descobrisse sobre ele? Ele ia ficar em sérios apuros. Eu corro de volta para o escritório. “Oficial Larsen?” Eu grito. Ele estava mexendo em uma papelada. “Eu preciso levar Malcolm para o café. Ele está doente.” “Eu não posso liberá-lo ainda.” “Irmgaard não vai prestar queixa. Eu vou falar com ela. Eu sei que ela não vai. E Malcolm vai voltar para casa logo que ele melhorar. Eu prometo que ele irá.” Oficial Larsen coça seu queixo. Ele era um homem de regras. Eu nunca o tinha visto fazendo exceções. “Por favor.” Eu ando na frente de sua mesa. A cobertura da mídia de Vincent e Caçadora de Ratos não Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel seria nada comparado com o frenesi que um anjo de verdade faria. “Você me conhece toda a minha vida. Eu prometo a você que ele não é um terrorista ou um criminoso de qualquer espécie. Ele só veio para cá de férias, mas ele está muito doente.” “Você tem certeza que ele está doente? Ele não parecia doente quando eu o trouxe para dentro. Vamos dá uma olhada.” Ele pega um conjunto de chaves do seu cinto e me leva de volta para a cela. “Você está certa, ele com certeza não parece bem”, o que era um eufemismo total por que Malcolm estava com um tom claro de verde. “Talvez devêssemos levá-lo para um hospital.” “É só uma gripe”, eu digo. “Está por aí. Talvez você não deva chegar muito perto. É muito contagioso.” O Oficial Larsen se afasta da cela. “A gripe pode deixar um homem de joelhos. Na última vez que eu peguei, minha febre chegou a trinta e nove graus.” “Eu já fui exposta, então vou levá-lo de volta para o café e Irmgaard fará uma sopa para ele.” Vamos, vamos, apenas deixe-o ir. Os olhos de Malcolm estavam fechados novamente. Eu acho que ele estava tentando esconder sua dor. “Por favor, Oficial Larsen.” “Bem, eu acho que até que eu ouça Irmgaard, não tenho nenhuma razão para mantê-lo aqui. E, pelo que eu posso dizer, não há nenhum mandado para prendê-lo.” “Ele pode ir?” O Oficial Larsen assente. “Considere isso como um favor para você, Katrina. Eu agradeço por todas as vezes que você ajudou meu pai. Eu tenho sua palavra que você conseguirá o passaporte deste garoto?” “Sim.” O que mais eu poderia dizer? Ele abre a porta. Eu entro. Uso todas as minhas forças, mas mesmo assim não consigo mover Malcolm. “Malcolm”, eu sussurro em seu ouvido. “Você tem que me ajudar a te tirar daqui”. Ele abre seus olhos, geme, então se levanta com suas pernas trêmulas. “Não se aproxime”, eu digo para o Oficial Larsen. Embora eu pudesse usar sua ajuda, como eu iria explicar o fato de que Malcolm pesava tanto quanto um elefante? E se ele encontrasse o envelope? “Não se esqueça de desinfetar este lugar depois que sairmos.” Malcolm tropeça. Eu coloco seu braço sobre meu ombro, então nós mancamos pelo corredor. “Obrigado”, eu digo enquanto o Oficial Larsen desliza a mochila por meu braço. Então, ele abre a porta da frente. Demora uma eternidade levar Malcolm até o Buick. Apesar do vento invernal, eu começo a suar. O carro se inclina quando ele finalmente cai sobre o banco do passageiro. Os pneus se Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel aplanam um pouco, mas aguentam bem como se estivéssemos em um carro de desenho animado. Malcolm geme novamente e se dobra. “O que acontecerá se ela não pegar a mensagem?” Eu pergunto. “Isso vai me esmagar”. Ele diz, calmamente. “Esmagar você?” “Como um inseto debaixo do seu pé.” Eu piso no acelerador. “Estamos quase lá.” Nós guinchamos no estacionamento do condomínio de apartamentos. Não é fácil manobrar com um carro desequilibrado. Eu já tinha vindo até o prédio algumas vezes, mas eu nunca tinha entrado. Irmgaard nunca nos convidou para jantar ou assistir um filme. Sua vida fora do café era um mistério total. O prédio fica em um canto realmente deprimente, no ponto exato onde o charme escandinavo de Nordby terminava e os centros comerciais começavam. Além se estendia as paisagens comuns na América – manicures baratas, restaurantes de fast food e lojas de roupas. Eu estaciono torto, ocupando dois espaços. “Espere aqui”. Ele não ia há lugar nenhum e não tinha nenhuma maneira de eu conseguir fazer com que ele suba as escadas. Malcolm assente. Seus longos cabelos sobre seu rosto. Eu não quero que nada aconteça com ele. Ele foi o único anjo que eu já conheci - talvez o único que eu fosse conhecer. Ele era gentil, honesto, e bonito, e eu era a única pessoa que poderia ajudá-lo. Imagine isso. Corro pelas escadas da frente e entro no prédio enquanto um idoso saía. Irmgaard vivia no apartamento 201. Eu sabia por que eu sempre ajudava vovó a endereçar nossos cartões de Natal. Na primeira batida, Irmgaard não abre a porta. “Sou eu”, eu digo. Nenhuma resposta. “Irmgaard, por favor, me deixe entrar. Vovó teve outro ataque cardíaco.” A porta se abre. Irmgaard agarra a maçaneta, seus olhos arregalados com alarme. Eu voo para dentro. “Não se preocupe. Ela não teve outro ataque cardíaco. Ela está bem. Preciso falar com você sobre a mensagem.” Irmgaard puxa um xale preto sobre seus ombros. O lugar estava congelante e estéril, com apenas uma velha mesa de loja de segunda mão e uma cadeira de madeira. A única coisa que estava pendurada na parede branca era uma cruz de madeira. Sem televisão, sem fotos, sem rádio. Parecia uma cela de convento no meio do nada ao invés de um apartamento perto de um Teriyaki Hut. O lugar me dava arrepios? Por que uma pessoa viveria sem confortos? Como algum tipo de punição? “Irmgaard?” Eu olho direto em seus olhos. “Cada dia que você passa sem pegar a mensagem, ela fica mais pesada e mais pesada.” Eu aponto para a janela. “Malcolm está sentado lá embaixo. Ele mal consegue se mover. A mensagem está esmagando-o. Eu acho que ele Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel poderia morrer. Ou deixar de existir. Ou algo parecido. É muito confuso.” Ela puxa seu xale mais apertado, encolhendo sob suas dobras. “Olha, se for uma má notícia, eu irei te ajudar. Vovó irá ajudar você. Os Garotos irão te ajudar também. Mas talvez seja uma boa notícia. Talvez seja algo surpreendente”. Eu forço um sorriso débil, imaginando Malcolm se dobrando. “Não temos muito tempo.” Sombras escuras circulam seus olhos normalmente bonitos. Seu silêncio não se sente confortável ou hipnótico. Sente-se estranho e assustador. Ela sabia que ele era um anjo, mas ela parecia não se importar. Eu reconheço o olhar firme em seu rosto. “Irmgaard, por que você está com medo? Diga-me. Eu não posso ajudá-la e não posso ajudar Malcolm, se eu não souber. Ele está realmente em apuros.” Ela assente, em seguida, faz sinal para que eu me sente em uma cadeira, o que eu faço enquanto ela entra em outra sala. O que ela estava fazendo? Eu me inquieto e estava prestes a gritar o nome dela quando ela volta com uma pasta nas mãos. Ela coloca a pasta sobre a mesa, em seguida, se afasta. Eu a abro. Três recortes de jornal estavam dentro. No topo havia uma foto de um carro destruído.

Marido e Mulher Local Morrem em Batida. Eu nunca tinha visto o artigo antes. Por que minha avó nunca me mostrou? Meu coração acelera enquanto eu leio. De acordo com meu artigo, meu pai e minha mãe estavam dirigindo em uma névoa extremamente grossa no seu caminho para um final de semana na costa. Em um trecho cheio de curvas, onde a estrada se aproximava do Lago Crescent, uma van que se aproximava desvia de um veado e atravessa a linha central. Meus pais morreram imediatamente. Eu examino a foto por sinal deles, mas só encontro a foto preto e branco, granulado e desbotado pelo tempo. No recorte seguinte, tinha a manchete: Funeral dos Svensen. O funeral ocorreu na igreja luterana de Nordby. Uma foto mostrava vovó, vovô e eu de mãos dadas enquanto saiamos da igreja. Eu aproximo a foto, tentando ver cada centímetro do que tinha sido eu aos três anos de idade. Meus Mary Janes, meu casaco de lã abotoado até o queixo, meu rosto triste, meu cabelo comprido, entrançado e dourado. A única lembrança que tenho daquele dia é que eu tive que me sentar na primeira fila da igreja e que vovô ficava me entregando caramelos, um de cada vez, como recompensa por eu ficar parada. Eu ainda podia me lembrar de sua grande mão calejada aberta para revelar cada cubo doce, como se tivesse aparecido magicamente. Mas eu não me lembro de nada mais. Minha mente de três anos de idade tinha escolhido salvar a memória do caramelo, provavelmente a única memória feliz daquele dia. Eu hesito, sentindo que algo terrível me esperava no terceiro artigo.

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

Motorista da Van Recebe Alta do Hospital. O motorista da van não-identificado que causou a morte do Sr. e da Sra. Svensen foi liberado hoje, após duas semanas no hospital para tratamento de um pulmão perfurado e três costelas quebradas. A foto da van mostra sua extremidade dianteira, completamente esmagada. No lado da van estavam as palavras: Abadia St. Clare. O recorte dizia que a Abadia St. Clare ficava em um lugar remoto nas Montanhas Olympic, e que as freiras só se aventuravam no mundo externo por suprimentos, que era para onde o motorista da van se dirigia naquela tarde fatídica. Eu olho para Irmgaard. Ela está rígida como uma estátua, seus braços segurando firmemente o xale. Seu rosto está vazio de cor, sua expressão cheia de angústia. Eu não queria ler mais. Eu sabia o que o artigo iria me dizer. Inclino-me sobre a foto. Dois paramédicos estavam encurvados sobre uma figura em uma maca. Eu olho. Da maca, o rosto de Irmgaard olha para trás de mim.

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CAPÍTULO TRINTA

Não disse nenhuma palavra. Sentei-me e respirei fundo, assimilando a horrível verdade. Irmgaard explodiu em lágrimas e se atirou aos meus pés. O intumescimento se apoderou de meu corpo, como se eu estivesse assistindo um filme. Como isso poderia ser verdade? A mulher que havia trabalhado conosco diariamente, que havia enchido nossos estômagos com uma maravilhosa sopa, que tinha enchido a loja com o aroma de krumkake recém-saído do forno e havia se tornado parte da família, havia matado meus pais? Esta era a vida de outra pessoa. “Eu não entendo”, murmuro. Mas eu entendia. Os fatos estavam impressos aqui, neste artigo, uma prova irrefutável. Irmgaard continuava chorando, com a cabeça baixa. A ira se precipitou através de mim, intensa e física. Eu queria investir nela, para culpá-la por tudo que tinha dado errado. Por um instante, senti verdadeiro ódio. Eu admito. Mas a sensação se foi tão rápido quanto apareceu. Eu olho para ela. Seu cabelo era cortado tão curto que eu podia ver partes do seu couro cabeludo branco. Parte de seu castigo, eu percebo, junto com nada em seu apartamento e seu voto de silêncio. Ela se odiava. Eu seguro o artigo em minha mão trêmula. “Minha avó sabia sobre isso quando te contratou?” Eu pergunto. Irmgaard assente, seus ombros tremendo com os soluços.

Perdoar é deixar alguém livre, Vovó tinha murmurado de sua cama no hospital. Esta era a pessoa que ela queria que eu perdoasse, não o estúpido Sr. Darling. Mas como perdoar alguém que causou a morte de meus pais? Precisava de tempo, era muito para digerir neste momento. Isto mudaria para sempre a forma como eu me sentia sobre Irmgaard? Ela continua sendo a mesmo, quem tinha me ensinado a cozinhar e a tecer. Assim como ver um anjo quando eu apenas tinha visto um homem sem-teto. “Foi um acidente horrível”, eu digo, tanto para ela quanto para mim mesma. “Nada pode mudar o que aconteceu. Malcolm nem sequer pode trazê-los de volta a vida.” Malcolm. Ele estava no carro, lutando por respirar. Não havia tempo para trabalhar meus sentimentos. Eu me abaixo da cadeira e me ajoelho ao lado de Irmgaard. “Meus pais estão mortos. Mas você e eu, estamos aqui. E tudo que podemos fazer é seguir adiante, Irmgaard, mas tentemos fazer as coisas funcionar sem eles.” Ela deixa de chorar. A culpa que tinha carregado era tão pesada quanto à mensagem que ameaçava esmagar Malcolm.

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Você tem que pegar essa mensagem. Sei que está com medo. Entrei no Java Heaven e enfrentei ontem o Sr. Darling. Tive medo de ir até lá, mas fui. Não sei o que é que essa mensagem diz, mas se você não a pegar, algo terrível vai acontecer com Malcolm. Por favor, pegue a mensagem, Irmgaaard. Se for uma má notícia, eu estarei aqui para te ajudar. Não estará sozinha.” Ela não se levanta. Só se ajoelha em uma espécie de transe. O que mais eu poderia dizer? Como eu poderia convencê-la de pegar esta mensagem? Corro para a janela. Só uns poucos carros estavam no estacionamento. Mas algo tinha mudado. O Buick não parecia estar bem. Ainda estava inclinado pelo peso da mensagem, mas parecia mais perto do chão. Por que eu não podia ver as rodas? Por que o carro estava se movendo? Oh, meu Deus. Abro a porta de Irmgaard, corro pelas escadas até o primeiro andar e em direção da porta principal. Alguns corredores estão no estacionamento, apontando. “Não se aproxime do carro”, um deles exclama, enquanto corro para o carro. Os pneus não estavam visíveis por que tinham se fundido ao pavimento! “Afaste-se daí”, diz outro corredor, acenando violentamente. “É uma dolina 17. Acabo de chamar o 911.” “Meu amigo está lá”, grito, tentando abrir a porta do motorista. O ar no interior do carro estava tão frio quanto no apartamento de Irmgaard. Sem aura tropical, sem cheiro das Terras Altas. Malcolm estava apoiado contra a janela do passageiro. “Malcolm, sai do carro”. Eu puxo por seu braço. Ele não se move. O carro se estremece, logo se funde uns centímetros mais. Deslizo-me para o assento, e envolvo meus braços ao redor de sua cintura, mas não conseguia movê-lo. Saio do carro e corro para o lado do passageiro. “Alguém me ajude”, eu grito. Devido à inclinação do veículo, a porta do passageiro estava parcialmente submergido em um buraco que se formou e não abria. Corro para o lado do motorista, mas antes que eu possa entrar novamente, um homem me agarra. “Você está louca? Tudo pode desabar em qualquer momento”, ele me adverte, me puxando para a calçada. Vestia o uniforme de um mini-mart. Uma multidão tinha se reunido. Mulheres com algodões entre seus dedos e pacotes de alumínio no cabelo saíram do salão de beleza. “Ele está preso lá”, grito, tentando me liberar do controle do homem. Eu corro até o carro. “Vou tentar.” O proprietário do teriyaki hut entra e tenta mover Malcolm, mas Malcolm 17

Dolina (do esloveno, pequeno vale) é uma depressão no solo característica de relevos cáusticos, formada pela dissolução química de rochas calcárias abaixo da superfície. Geralmente possuem formato aproximadamente circular e são mais largas que profundas.

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel continua apoiado contra a janela do passageiro. O carro se inclina ainda mais. O homem se assusta e desce para a segurança. “Baixem a janela”, um cara grita. “Talvez nós possamos tirá-lo deste lado.” A janela do passageiro já estava no nível do chão, assim eu tinha que agir com rapidez. Deslizando no banco novamente, passo através de Malcolm e giro a antiquada maçaneta tão rápido quanto eu posso. Uma vez que a janela do passageiro estava aberta, dois homens se aproximaram dele, mas ainda assim, Malcolm não se movia nem um centímetro. A terra se estremece. O homem cai para trás enquanto o carro se funde mais. Malcolm parecia estar dormindo. “Acorda, Malcolm. MALCOLM”. Eu o sacudo e puxo seu braço. Ele ia ser engolido? É isso que acontece com os anjos quando eles são rebaixados? Eles são engolidos? É isso que acontece com as garotas que se apaixonam por anjos? “Malcolm!” Por que ele não conseguia despertar? “Por favor, Malcolm, quero te ajudar. Eu quero...” O terceiro grão. “Malcolm, me dê esse grão agora. Com todo meu coração, eu desejo que você não morra. Você me ouve? Com todo meu coração! Me dê esse grão. Por favor, Malcolm. Eu quero esse grão.” Agarro a mochila do chão e derrubo seu conteúdo, mas nada cai. Não havia pacotes, nem grãos. Meus olhos se enchem de lágrimas? O que eu ia fazer? Nem sequer o Superman poderia levantar este envelope. Mas, espera. Havia uma pessoa que poderia levantá-lo. “Irmgaard!” Eu grito pela janela. “Sai daí”, uma senhora grita da calçada. O carro se inclina mais e a porta do motorista se fecha. Incorporo-me no assento, baixo a janela, então saio do carro. Irmgaard estava nas escadas do seu edifício, com terror em seus olhos. O terror tinha invadido meu corpo, mas eu, pelo menos, estava tentando ajudar. “Irmgaard. Você é a única que pode salvá-lo.” A metade da janela do passageiro já estava debaixo do pavimento. Eu fico estendida de bruços na borda da janela, segurando a mão fria de Malcolm. Meu pulso batia em meu pescoço. “Malcolm, Irmgaard está vindo.” “Katrina”, ele sussurra. “Se algo acontecer comigo...” “Ela está aqui. Vai pegar a mensagem. IRMGAARD!” “Se não houvesse sido por esta mensagem, eu nunca teria te conhecido.” Seus olhos se fecham. “Alegro-me de ter te conhecido, Katrina. Alegro-me por você ter me deixado ser parte de Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel sua vida.” Essas palavras soam como suas últimas palavras. Isto não ia ser uma cena de morte. De jeito nenhum. Solto sua mão e me viro. “IRMGAARD!” Ela estava lá. Aproxima-se do meu lado enquanto a janela se fundia mais. “Se apresse. Pego o envelope. Está preso em seu cinturão.” Ela se aproxima do com seu delgado braço e consegue facilmente tirar o envelope para fora do carro. A mudança é instantânea. A dolina deixa de tremer. Uma nuvem de ar quente sai pela janela do passageiro. Malcolm se senta e me olha. Seus olhos eram da cor azul elétrico. SIM! Enquanto fico em pé, ele se arrasta através da janela do motorista e fica nesse lado do carro. A multidão grita para que se afaste do buraco. Uma ambulância se ouve na distância. Um carro da polícia chega ao estacionamento. “Afaste-se dessa dolina”, Oficial Larsen ordena. Irmgaard e eu nos afastamos. “Como isso aconteceu?” Eu não sabia como responder essa pergunta. Como eu poderia explicar? “É uma emergência”, eu lhe digo. “Desta vez, se tratava de uma emergência real.” Enquanto Malcolm sai de perto do carro, meus olhos lhe seguem. Corro até ele e coloco meus braços ao redor do seu pescoço. Ele me abraça de volta, seus braços fortes estavam apertados ao redor da minha cintura. Meu coração se desacelera. Enterro meu rosto em seu cabelo longo e aspiro o doce perfume que eu tinha chegado a amar. “Obrigado”, ele sussurra em meu ouvido. Oficial Larsen coloca uma fita amarela ao redor do buraco. Os bombeiros chegam. “Temos nosso deslizamento”, ele diz para eles. “Todo mundo para fora do estacionamento.” Malcolm e eu paramos na calçada. “Quero agradecer a Irmgaard”, ele diz. Nós a encontramos sentada em um banco de cimento por trás do edifício. O envelope estava em seu colo. Sento-me junto a ela e coloco minha mão sobre seu rígido ombro. “Está tudo bem”, eu lhe digo, com calma. “Estou aqui contigo. Nós dois estamos aqui contigo.” Ela assente. Logo, lentamente, levanta a aba dourada. Tira um pequeno pedaço de papel. Uma palavra ressaltava na folha, uma simples palavra que uma pessoa poderia tomar por certo, enquanto que outra poderia desejar-lhe com todo o coração.

Viva. Enquanto nós três respirávamos as palavras, o papel e o envelope se dissolvem em nada.

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

CAPÍTULO TRINTA E UM

Os próximos dias passam voando. Eu, basicamente, corro como uma galinha com a cabeça cortada, como minha avó dizia. Na manhã de quarta-feira, o Sr. Inspetor de Saúde passa por aqui. Ele parecia estar com o mesmo humor que da última vez, fazendo careta e sons como “hmpf”. Eu me asseguro de que Caçadora de Ratos fique lá encima, enquanto ele se mete na despensa, procurando pela peste bubônica. Ele coloca alguns tubos de ensaio e conta gotas no balcão. Finalmente, ele me entrega um pedaço de papel. “Você passou. Mas você deve substituir a máquina de lavar louça quebrada. Todo o resto parece satisfatório.” O que ele não disse era: “Eu estou tão arrependido de ter fechado vocês desnecessariamente.” “Ótimo”, eu digo, segurando a porta aberta para ele. Passar na inspeção era uma boa notícia, mas sua visita tinha nos deixado mais lentos. Para conseguir dinheiro suficiente para comprar uma máquina nova, nós precisávamos que o Emporium Caçadora de Ratos abrisse e estivesse em funcionamento. Quando eu dizia “nós” eu estava falando em Elizabeth, Elliott, Irmgaard e Os Garotos. Malcolm tinha desaparecido, mais uma vez. Logo após o “Incidente Dolina”, que foi uma notícia vincula pelo Nordby News, Malcolm tinha agarrado sua mochila e não tinha sido visto desde então. Mas ele voltaria. Afinal, ele ainda me devia um grão de café mágico. E nós tínhamos um encontro – não que eu estivesse pensando nisso. Nem um pouco. Ir para um encontro com um anjo no Festival Solstício era a última coisa em minha mente. A última coisa. Realmente. A dolina acabou engolindo três vagas da garagem. Trouxeram um guindaste para levantar o Buick. Com exceção de alguns amassados, o carro estava milagrosamente intacto, o que era ótimo por que comprar um carro novo não era uma despesa que eu gostaria de acrescentar a lista. O engenheiro da cidade chamou a dolina de uma catástrofe natural, embora não houvesse nada de natural nisso. Naquela manhã, na casa de Irmgaard, tudo tinha mudado. Agora eu entendia sua atenção e por que ela tinha mantido sempre seus olhos em mim. Sua vida conosco, de repente, fazia sentido. Ela havia se tornado uma mãe suplente tanto para seu próprio bem, quanto para o meu. Eu gostaria de lutar com a raiva e a culpa, como qualquer pessoa normal. O que eu aprendi era que a tragédia se espalha em um grande círculo, como uma gota de tinta em uma piscina, tocando muitas vidas. Nós trabalharíamos nisso juntas. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Nos dias após a dolina, Irmgaard começou a falar. A primeira coisa que disse foi: “Eu sinto muito”. Pessoa dizem eu sinto muito todos os dias. Dizemos isso com pequenas coisas, coisas sem importância, mas este foi o maior “Eu sinto muito”, que eu já ouvi. Nós nos abraçamos e choramos um pouco mais. Mais tarde, quando Ralph se sentou no balcão e lançou seu bom dia, ela disse: “Bom dia”. Ele quase caiu do banco. Mas suas palavras eram poucas e cuidadosamente selecionadas. Outra pessoa poderia ter uma reação oposta ao ter sua voz de volta. Ela poderia falar sobre tudo, mesmo que fosse completamente entediante. Ela poderia cantar todos os dias, gritar tão alto quanto poderia, e cantar à tirolesa no telhado. Mas Irmgaard tratava sua voz como se fosse algo precioso que não deveria ser desperdiçado. Odin disse que se mais pessoas agissem como Irmgaard e mantivesse suas opiniões estúpidas para si mesmas, o mundo seria um lugar melhor. As coisas avançam para nossa grande inauguração. Eu vou a Prefeitura e consigo um alvará de funcionamento temporário. Ingvar faz uma placa. Elizabeth pinta um logotipo de um gato sorridente que ela tinha projetado. Odin e Ralph limpam o café, empilhando as cadeiras e mesas no escritório. Lars e Elliott arrumam algumas prateleiras que estavam reunindo pó no sótão do Oficial Larsen. As mercadorias começam a chegar na manhã de quinta-feira. As mais belas canecas de café com o rosto gordo de Caçadora de Ratos, pratos de plástico de comida para gatos com seu nome, tiaras rosa com orelhas de gatos, bandanas pretas com orelhas de gatos – todo tipo de coisas bobas. Sr. Darling enfia sua cabeça grande e arrogante cerca de um milhão de vezes para perguntar o que estávamos fazendo. “Você precisa de uma licença comercial.” “Eu tenho uma.” “Você não pode ter um gato em um lugar que serve comida.” “Não estou servindo comida.” “Você...” “Por que você não se mete em seu próprio negócio?” Eu digo, na sua cara confiança correndo através de mim. Ele estreita seus olhos, em seguida, passa a mão ao longo de seu rabo de cavalo fino. “Você não será capaz de salvar este lugar. Logo que a venda se concretizar, eu irei chutála para fora daqui.” “Você não pode nos expulsar legalmente, se continuarmos pagando o aluguel.” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Ele ri. “Você acha que esse gato estúpido vai te ajudar a pagar o aluguel? Emporium Caçadora de Ratos. Que desperdício de tempo.” Ingvar e Odin “escoltam” o Sr. Darling até a porta. Eu tento manter o emporium como um segredo da minha avó por que eu sabia que isso a estressaria, mas a senhora da loja de calçados conta para ela. “O que está acontecendo aí?” Ela pergunta pelo telefone. “Eu estou presa nesta cama de hospital e você está fazendo não sei o quê.” “Você disse que queria fechar o café.” “Sim, mas...” “O café está fechado. Mas vovó, não podemos ignorar nossos problemas ou nos constranger com eles. Elliott me ajudou a fazer uma planilha e nós temos um monte de dívidas para pagar, então eu vou aproveitar a multidão do Solstício. Nós iremos conseguir algum dinheiro. Vai ser ótimo.” Por que eu me sinto tão animada e tonta? Eu estava arriscando nossos últimos poucos dólares, mas o risco alimenta a alma do empreendedor. Riscos faz você se sentir como se tivesse tomado muito café e estava esperando no topo de uma montanha-russa, um pouco antes do mergulho. Eu gosto desta sensação. Cada vez que a porta da frente se abre, eu esperava ver Malcolm. Mas ele havia ido. Eu desejava que ele se juntasse a nós, e eu sussurro seu nome quando ninguém podia me ouvir. Na tarde de quinta-feira, depois de falar com um agente de viagens local que queria reservar alguns tours com Caçadora de Ratos, nós temos a melhor notícia de todas. O pai de Elliott conseguiu o rato. Não me pergunte como ele conseguiu isso, mas ele é uma espécie de deus entre os advogados. O taxidermista concorda em empalhá-lo e entregá-lo na sexta pela manhã. Eu peço para deixar a criatura em pé em suas patas traseiras, para que fique alto o suficiente para as fotos. Ingvar e Irmgaard criam um pedestal com um banco velho e um tecido vermelho. Ralph suspende uma placa no teto de “Maior Rato do Mundo”. Do outro lado do emporium, Elizabeth e Elliott pintam uma cadeira velha de madeira para ficar parecida como um trono. Odin pendura uma placa de “O Gato Mais Famoso do Mundo”. O trono fica completo quando Elizabeth adiciona uma almofada de veludo da sua cama. Na noite de quinta-feira, nos reunimos lá encima e comemos a sopa cremosa de Irmgaard. Sentada à mesa da cozinha, rodeada de amigos, eu me sinto mais feliz do que já tive em muito tempo. Amanhã será um dia excitante. Reviso os deveres de cada, logo paro e levanto meu copo de água em um brinde sincero. “Isto é por todos vocês”, eu digo, sentindo-me subitamente tímida enquanto todos olham para mim. “Eu não poderia ter feito isso sozinha.” “Não subestime a si mesma”, Lars diz, sua bengala encostada em sua cadeira. “Você tem Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel uma boa cabeça sobre seus ombros.” “Se o seu avô estivesse aqui, ele estaria muito orgulhoso”, diz Ingvar. “Obrigada.” Eu levanto o copo. “Aos velhos amigos e os novos.” Eu aceno para Elliott. Ele está sentado ao lado de Elizabeth. Engraçado, mas durante os últimos dias, ela não tinha mencionado Face. Caçadora de Ratos salta para cima da mesa e lambe minha tigela de sopa vazia. “E aqui está Caçadora de Ratos, o Gato Mais Famoso do Mundo.” “Por Caçadora de Ratos”, todo mundo grita. Caçadora de Ratos pensa que estávamos gritando com ela, então ela pula fora da mesa. Quando a comida acaba, eu ando até a janela da sala. O Festival Solstício era mais divertido quando nevava, mas não havia nenhuma nuvem e o céu estava cheio de estrelas. Nenhum anjo vagando pela rua. Nenhum melhor amigo andando de bicicleta. Felicidade é mais doce quando é compartilhada, minha avó gostava de dizer. Vincent tinha sido sempre uma parte de minhas memórias mais felizes. Lembro-me da palavra que tinha flutuado na mensagem de Irmgaard. Viva. Quantos de nós precisávamos ser lembrados de que a vida não tem nada a ver com tentar ser tão bom quanto alguém, ou tentar se encaixar em alguma categoria, ou preencher os espaços em branco em alguma lista estúpida. Isso não tem nada a ver com se punir por erros passados. Eu era estúpida por ter ficado brava com Vincent. Quem se importava que ele tivesse entrado no Java Heaven para fazer flocos de neve? Quem se importava que ele tivesse segurado algum copo estúpido na televisão? A lei que eu tinha imposto aos meus amigos, Tu nunca entrarás no café Java Heaven, não era mais importante. Nós estávamos seguindo em frente. Eu estava seguindo em frente. Eu pego o telefone para ligar para ele. Mas ele não atende.

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

CAPÍTULO TRINTA E DOIS

Sexta pela manhã, poderia parecer como qualquer outra manhã de inverno em Nordby, exceto por uma coisa – o Festival Solstício tinha chegado. O Solstício de inverno era a época em que a posição do sol está em sua maior distância angular do outro lado do plano equatorial, o que significa que é o dia mais curto e a noite mais longa do ano. Muitas culturas ao redor do mundo usavam este dia para prestar homenagem, mas já não tantas, para abrir caminho para o feriado religioso. Mas no nosso pequeno canto do mundo, embora o Natal e o Hanukkah ainda fossem um grande negócio, nós mantínhamos a tradição do Velho Mundo. Até mesmo a tribo Suquamish adicionava sua tradição de assar salmões em pranchas de ferro. Como Nordby em si, o Festival Solstício era uma miscelânea de culturas antigas e novas. Embora Caçadora de Ratos e seu gigante rato empalhado não tivessem nada a ver com as antigas tradições, eu tinha certeza que seriam recebidos de braços abertos. O Emporium Caçadora de Ratos é aberto oficialmente às nove horas da manhã. O taxidermista entra o rato em um carro de mão. Seus olhos de vidro e pelo preto brilhante me dão arrepios. Caçadora de Ratos dormia em seu trono. Irmgaard estava pronta atrás da caixa registradora. Elliott, com a câmera digital na mão, estava ao lado do rato. Elizabeth brincava com uma corrente para chaves de Caçadora de Ratos. Elizabeth nunca tinha trabalhado antes, nem mesmo como babá. Trabalhar era uma grande coisa para ela. Trabalhar era uma coisa normal para mim. Exceto que tudo estava funcionando naquele dia de trabalho. Tudo. “Onde estão todos?” Elizabeth pergunta. Ela pintou bigodes no seu rosto e usava uma bandana de orelhas de rato. Eu passo ao lado da porta. Vou para fora da porta e olho para a rua. Cones laranja bloqueavam cada extremo da rua, fazendo a Main Street uma rua só para pedestres. Flocos de espuma cintilam como orvalhos na manhã. Luzes brancas acenam de cada porta e janela – incluindo a nossa. Algumas pessoas com laptops entram no Java Heaven. Um grupo de crianças corre em torno do gigante aberto azul. “Ainda é cedo”, eu digo, tentando esconder o medo na minha voz. Eu esperava uma fila. Não apenas uma fila qualquer, mas uma fila que ia ficar na história de Nordby. Então, muitas pessoas tinham ligado. Muitos e-mails foram enviados. Eu tinha anunciado no jornal. Os Garotos tinham entregado folhetos de cupons com 10% de desconto por uma foto com Caçadora de Ratos. Talvez eu devesse ter colocado um outdoor. A energia nervosa cavava em meu estômago. O que eu havia feito? Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Tinha gastado nosso último centavo, literalmente. Eu olho ao meu redor, o café estava transformado. O que faríamos com todas as coisas se ninguém as comprasse? Não havia espaço suficiente no Armário do Fracasso. Empreendedora, que piada. O teste de aptidão do Sr. Prince tinha sido uma farsa. Minha energia nervosa torna-se náusea. Volto para dentro. Caçadora de Ratos, sentindo meu temor, acaricia meu tornozelo. Eu a pego e enterro meu nariz em seu pescoço preto e branco. “Onde eles estão?” Eu sussurro. Ela ronrona. “Olá? Ouvimos falar que você tem o rato?” Uma mulher japonesa estava na porta. Atrás dela estava o mesmo grupo de turistas de poucos dias atrás. “Tentamos chegar aqui, mas tem uma placa gigante de um copo de café caída e bloqueando a estrada. Agora já está tudo bem.” “Venham”, eu digo, um grande sorriso se espalhando por meu rosto. “O rato está aqui”. Eles entram. Eles riem e acariciam o rato. Eles pousam para fotos e, em seguida, compram sete canecas de café, doze notas adesivas e vinte pacotes de Balas de Menta Caçadora de Ratos. E as coisas ficam ainda cada vez melhores. No momento, Lars mancava pela rua com sua bengala de fantasia e a fila ia até a porta da frente do Java Heaven, o que era a melhor coisa de todos os tempos. “Mova esta fila”, o Sr. Darling berra, entrando em nossa loja lotada. “Por quê?” Eu pergunto. É tão bom quando uma pessoa não te assusta mais. Quando você pode olhar para um rosto que costuma te intimidar e dizer, “Qual é o seu problema?” “Sua fila é o meu problema. Está bloqueando meus clientes.” “Eu me lembro que sua fila bloqueava os clientes do Anna‟s ano passado”, Ingvar diz. O Sr. Darling cruza seus braços. “Eu não sei do que você está falando”, ele zomba de mim. “Eu acho que este velho colocou de propósito a fila em direção da minha porta.” “Eu não sei do que você está falando”, eu digo. Ralph e Odin acenam pela vitrine. Minha avó ficaria tão orgulhosa. “Vamos ver isso. Vou ligar para o Oficial Larsen.” O Sr. Darling derruba uma exposição de garrafas de água Caçadora de Ratos em seu caminho para fora. Eu não me preocupo com o Sr. Darling. Acabou, que Elizabeth era muito boa em arrumar mercadorias. E Elliott, entre sessões de fotos, mantinha um olho nos recibos, enchendo-me de boas notícias enquanto o dia passava. “Ele é realmente muito inteligente”, Elizabeth diz, quando Elliott faz uma pausa para o banheiro. “Se ele usasse lentes de contato, ele seria realmente fofo. Estou pensando em pedir-lhe para ver um filme ou algo assim. Você acha que é estranho?” “Eu acho que é uma grande ideia.” Muitos dos estudantes de Nordby High vieram, incluindo Face e seu rebanho de amigos. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Eu pensei que Elizabeth iria se esconder lá encima, mas ela caminhou até ele, na frente dos seus amigos, e disse, “Olá. Posso ajudar?” “Oh”, ele sorri, desconfortavelmente. “Oi, Elizabeth.” “Eu pensei que você não poderia vir ao Festival por que você tinha outras coisas para fazer.” “Sim. Eu vou para Tahoe com minha família em uma hora. Então, eu não posso festejar nem dançar.” “Tahoe”, ela diz, depois que ele sai. “Não foi por que eu sou muito gorda. Ele vai para Tahoe”. Ela ri. “Eu não sei o que eu vi nele, em primeiro lugar. Ele é tãoooo conservador.” Às quatro da tarde começa a nevar – grandes flocos de neve rapidamente cobrem à calçada e a rua. A multidão do Solstício crescia a cada hora. Mas alunos de Nordby High vão até o Emporium. Não me incomoda nenhum pouco que alguns deles estejam segurando Mochas do Vincent. O primeiro grupo de cantores passeia em seus trajes vitorianos. Crianças passam correndo carregando seus pinhões com manteiga de amendoim e alpiste. Elizabeth e Elliott fazem uma pausa e se afastam para ver como a decoração da árvore está indo. Quando voltam trazem um saco de bolinhos quentes com geleia loganberry que um grupo de Meninas Escoteiras estava vendendo. Entre o trabalho na caixa registradora e atender telefonemas, eu mal tenho tempo para pensar em outra coisa. Até que ele entra pela porta. Ele estava todo trajado como nas Terras Altas, com um kilt xadrez vermelho e verde e uma jaqueta preta com botões dourados, como um personagem de um filme. Eu estava vestindo jeans, uma camiseta e um avental do Emporium, como uma menina de loja. Hipnotizada, eu passo direto por Elizabeth. “Uau. Você está ótimo”, Elizabeth diz para ele. “Onde posso conseguir uma jaqueta dessas?” “É um traje formal”, ele diz, orgulhoso. “Eu tentei um smoking, mas acho que isso me serviu melhor.” E servia. Ele parecia incrível. Será que eu ainda tenho alguma maquiagem? Quando foi a última vez que eu escovei meus cabelos? Ele empurra para trás seus longos cabelos. Os fios de cobre brilhavam como filamentos. “Eu estou aqui para acompanhá-la para a grande festa.” Eu tento agir indiferente. “Oh, eu quase esqueci isso.” Olho para o relógio. A grande festa dos Filhos da Noruega começaria em meia hora. A loja ainda estava cheia de clientes. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Eu deveria ficar e ajudar...” “Oh, não, você não vai.” Elizabeth me empurra para a cozinha. Irmgaard a segue. “Você tem um encontro e você irá para esse encontro.” “Mas a loja...” “Nós podemos cuidar dela”, Irmgaard diz, suavemente. Malcolm posa para uma foto com um grupo de senhoras e Caçadora de Ratos. Os botões da sua jaqueta brilham. Todas as luzes do cômodo pareciam atraídas para ele. “Você tem um encontro com um anjo”, Elizabeth diz. “Pelo amor de Deus, Katrina, o que você vai fazer? Rejeitar um anjo?” Eu sorrio. “Eu já volto.”

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel

CAPÍTULO TRINTA E TRÊS

Você teria que ser algum tipo de idiota para desistir de um encontro com um anjo. Eu flutuo ao redor do meu quarto como um furacão humano. Visto a roupa, coloco meus sapatos, escovo meus cabelos, arrumo a maquiagem, checo as axilas, checo por alguma linha visível de minha calcinha, olho-me centenas de vezes no espelho para ver como meu bumbum parecia. Parecia muito bom. Mas o que isso importava? Ele era um anjo. Eu coloco tanto batom que fico parecendo um palhaço. Minha mão tremia enquanto eu tirava um pouco. Acalme-se. É só um jantar e talvez um pouco de dança. E, então, ele vai sair para algum outro lugar, para entregar outra mensagem, e eu nunca mais o verei. Ainda assim, o encontro contava. Eu estava saindo com um cara que não era meu melhor amigo, por isso contava totalmente. Eu me olho mais uma vez no espelho. O produto final não era tão ruim. O vestido encaixava perfeitamente e meu cabelo formava graciosas ondas. Descendo as escadas, eu me sinto uma Cinderela transformada. Eu espero que toda menina possa ter um momento como esse, quando ela se veste bem e todos os olhos ficam sobre ela. Odin assobia. “Olha o que temos aqui.” “Katrina, você é um colírio para os olhos”, Lars diz. “Que beleza”, Ralph diz. Ingvar arranca o cachimbo de sua boca. “Nossa menina está crescendo.” Então, Os Garotos voltam sua atenção para Malcolm. “Que horas você vai trazer ela de volta?” “Não a manterei fora por muito tempo.” “Não beba nada.” “Por que você está vestindo uma saia?” “Okay, parem com isso”, eu os repreendo. “Vocês, caras, estão totalmente me deixando envergonhada.” Mas eu gosto da atenção, da mesma forma. Quando você não tem um avô, um pai ou até mesmo um irmão, é bom saber que alguém está olhando por você. Uma das coisas agradáveis sobre passear com Malcolm era que eu não precisava usar casacos ou botas. Claro, estava nevando lá fora, e a noite mais longa do ano já tinha começado, mas no minuto em que ele pegou minha mão, calor inundou meu corpo inteiro. “Tchau”, digo para todos.

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Ele me leva para fora da porta. Ele poderia ter me levado para qualquer lugar que eu teria lhe seguido. Até mesmo a tubulação de esgoto de Londres. Talvez eu reclamasse um pouco sobre a tubulação de esgoto, mas eu ainda o seguiria. Apaixonar-se não era um processo racional. Isso não poderia ser previsto ou evitado. Acontecia – para o bem ou para o mau, simplesmente acontecia. Eu sabia que ele eventualmente iria embora. Eu sabia que não podíamos ficar juntos, mas eu me apaixonei de qualquer maneira. Não foi só a magia ou sua boa aparência – embora eu não vou mentir e dizer que essas coisas não importaram. Definitivamente, ele estava na frente da maioria dos caras de Nordby. Mas o que também o deixava na frente era que ele era gentil e atencioso. Ele era honesto sobre suas falhas e preocupações. Ele parecia vulnerável e forte ao mesmo tempo. No fim, eu nunca seria capaz de descobrir isso. Tentar dar sentido ao amor era como tentar dissecar um arco-íris. Nós caminhamos pela rua cheia de gente, passando por outros casais com suas roupas de férias. Mulheres de todas as idades sorriam para Malcolm. A antiga eu teria suspeitado que elas estivessem pensando: “O que ele está fazendo com ela?” Mas eu me sinto bonita e... bem sucedida. É claro que ele estava comigo. “Você está bonita”, Malcolm diz, apertando minha mão. “Você está cheirando muito bem também.” “Obrigada”, eu olho par abaixo, tentando esconder meu rubor. “Então, onde você esteve?” “Fazendo meu trabalho”, ele diz. “Onde está sua mochila?” “Eu não estou de plantão. Esta noite, eu sou todo seu.” Todo meu. Isso realmente soou estranho. E agradável. Heidi Darling estava na entrada do salão dos Filhos da Noruega. Ela parecia muito bonita, em um vestido longo cor pêssego. “Oi, Katrina”, ela diz, sem maldade. Seu olhar se fixa em Malcolm. “Oi”, eu digo. “Esse é um vestido bonito.” “Oh, obrigada. Seu vestido é bonito também.” “Vocês dois estão juntos?” Ela levanta suas sobrancelhas. “Estou acompanhando Katrina esta noite”, Malcolm diz. Olho em volta. Onde estava Vincent? Eu tinha esperança de vê-lo e tentar suavizar as coisas. “Ingressos?” Heidi estende sua mão, realizando mais um de seus trabalhos voluntários. Oh, droga! Este momento da noite acontece uma parada brusca. Eu tinha esquecido de dizer para Malcolm que nós precisávamos de ingressos para entrar. Eles vendem todo ano. Meu Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel coração afunda em meu estômago. Mas Malcolm solta minha mão e enfia sua mão no casaco. "Aqui está”, ele diz, entregando-lhe dois bilhetes brancos. Heidi joga-os em uma cesta. “Divirtam-se”, ela diz. “Olá, Katrina”, Oficial Larsen bloqueia nossa entrada no salão. “É bom ver que seu amigo está se sentindo melhor. Já resolveram o problema do passaporte?” “Sim”, Malcolm diz. “Eu vou embora esta noite.” “Entendo.” Oficial Larsen relaxa e se afasta. “Bem, tenha uma viagem segura.” Acabaria esta noite. Eu fico com uma cara brava. Aproveite a noite, eu digo para mim mesma. Lembre-se de cada segundo dela. Há mesas de ponta a ponta, estendendo-se por todo o comprimento do salão dos Filhos da Noruega. O garçom nos senta perto dos músicos, um quarteto local, o que tornava impossível ter uma conversa, mas eu não me importo. Eu estava totalmente focada em não derramar comida em meu vestido. Uma salada de alface com camarão veio primeiro. Preocupei-me em ficar com algo verde entre meus dentes, então eu só mordiscava. Malcolm comeu tudo como se fosse sua última refeição. Nossa última refeição. Nosso encontro iria terminar com um, Desejo-lhe uma vida longa e saudável, Katrina Svensen. Eu nunca mais o veria. Empurro o inevitável para fora de minha mente. O prato principal era salmão, preparado pelos membros da tribo Suquamish. Veio com batatas assadas e feijão verde. Eu deixo de me preocupar com minha aparência e como tudo. Arriscar o último centavo de outra pessoa trabalhando abria o apetite. Enquanto eu como meu último feijão, percebo que Heidi estava sentada algumas mesas abaixo. Um cara chamado Jordan estava sentado ao seu lado. Onde estava Vincent? O quarteto faz uma pausa, enquanto o prefeito de Nordby faz seu discurso. “E nós todos devemos uma enorme roda de agradecimentos para a família Darling e o Java Heaven o patrocinador do nosso festival este ano.” O Sr. e a Sra. Darling junto com Heidi agradecem os aplausos e o Sr. Darling diz, “Servir a comunidade é tudo que importa”. Todos aplaudem. Eu faço careta para sua hipocrisia, por que eu estava me divertindo compartilhando um prato de torta de maça com Malcolm. Os garçons empilham as cadeiras e empurram as mesas para perto da parede para dar espaço para dançar. O quarteto volta a tocar. As luzes do teto se esmaecem. Cordas de flocos de neve, amarradas no teto, brilham como pequenas luzes brancas. A dança começa com uma música lenta. “Você me daria à honra de dançar comigo?” Malcolm pergunta. “Sim.” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel SIM! SIM! SIM! Eu evitava dançar na escola desde a escola secundária, quando eu era a garota mais alta e os únicos meninos desesperados o suficiente que me chamavam para dançar eram maníacos sexuais que tentavam pressionar seus rostos em meu peito. E a ideia de ficar em pé no canto durante as danças na escola secundária, a garota alta, não desejada, nunca me atraiu. Então, eu me aproximo da pista de dança, ansiosa. Será que eu sabia mesmo dançar música lenta? Malcolm pega minha mão, pressionando sua outra mão em minhas costas, e começa a mover-se facilmente, graciosamente. Eu tenho prazer de informar que não pisamos nos pés um do outro. Ele não bate com seus joelhos e nem se agarra a mim com suas mãos suadas. Seu corpo se pressiona no meu em todos os lugares certos. Seu ombro tem a altura ideal para que eu possa descansar minha cabeça. Seu cheiro me deixa sonolenta. “Katrina?” “Hmmm.” “Eu parei hoje para ver sua avó. Ela parece muito melhor.” “Isso foi muito agradável de sua parte ir vê-la.” “Eu queria dizer adeus.” Eu seguro minha respiração. Ele ia terminar ali mesmo? “Agora que a mensagem foi entregue, não posso adiar minha volta. Eu quebrei todas as regras por conhecê-la, por encontrar seus amigos e familiares. Eu tenho que lhe dar esta recompensa e depois seguir meu caminho.” Ele me puxa para mais perto. “Mas eu não quero ir.” Não chore, não chore. Você sabia que isso ia acontecer. De todas as coisas que tinham acontecido naquela semana – quase perder o café, quase perder a minha avó, a briga com Vincent, enfrentar o Sr. Darling, saber a verdade sobre Irmgaard e arriscar tudo no Emporium – Malcolm tinha sido uma luz brilhante. Ele era... um anjo. Eu olho em seus olhos. “Eu acho que nós temos que nos despedir.” E foi aí que aconteceu. Ele se inclinou e me beijou. Era a última coisa que eu esperava acontecer. E era meu primeiro beijo. E primeiros beijos, pelo que eu tinha ouvido, eram normalmente estranhos. Você tem que saber o modo de inclinar a cabeça, como não bater os dentes, e o que fazer com a língua. É muita coisa para pensar. Mas não havia tempo para pensar em nada disso, por que no momento em que seus lábios tocam os meus, uma sacudida elétrica corre até os meus dedos, como se eu tivesse prendido meus lábios em uma tomada. Isto não era uma metáfora. Eu estou sendo literal. Foi um choque elétrico real. Nós dois pulamos. “Ouch”, eu digo, me afastando. Um pequeno fio de fumaça se ergue de seu lábio inferior. Ele franze a testa e se esfrega. Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Eu acho que eu não deveria ter feito isso.” “Eu acho que não.” Eu esfrego meu lábio inferior também. “Isso realmente machuca.” Enquanto os outros casais estavam dançando, eu estava ali, cheirando a carne chamuscada. Meu primeiro beijo quase tinha liquidado meu rosto. O que iria acontecer depois? O chão se abriria e nos engoliria em outra dolina? “Katrina”, ele diz, tristemente. “Eu sei. Você tem que ir.” Saímos do salão. A neve continua caindo, lançando seu charme silencioso em tudo que tocava. Mesmo os hidrantes pareciam mágicos com seus chapéus de neve. St. Nicholas nos entrega a cada um de nós um bastão doce enquanto caminhávamos perto do abeto azul, seus galhos pesados com pinhas e luzes. Um círculo de sapatos debaixo da calçada para brindar a harmonia da cidade. Um grupo de cantores de Natal cantava no coreto. Nós nos sentamos em um banco e olhamos para a baía. Neve caia em meus ombros e se emaranhavam nos cabelos de Malcolm. “Eu tenho uma confissão a fazer.” Sua mochila aparece no banco, as letras douradas brilhando mais uma vez. Ele pega o pequeno livro preto de leis. “Não há realmente nada aqui. Eu inventei tudo.” “Inventou tudo?” “Um pouco sobre recompensar sua boa ação. Você vê, eu fui mandado aqui para entregar a mensagem para Irmgaard. Eu não estava autorizado para conceder desejos. Mas eu queria conhecer a menina que tinha reparado em mim. Eu queria passar um pouquinho de tempo com você, para ver como sua vida era, e então talvez eu entender por que você, de todas as pessoas, tinha reparado em mim. Então, eu fiz esta promessa de recompensar sua boa ação. Isso me colocou em muitos problemas. Eu não irei receber...” “Deixe-me adivinhar”, eu digo. “Você não vai receber sua promoção.” Ele sorri. “Você está prestando atenção.” “Então tudo isso, a fortuna, a fama, era só para me conhecer?” “Sim.” Uma rajada de vento passa entre nós, enviando nossos cabelos ao voo. Malcolm pega sua mochila novamente e retira um pacote de grãos de café cobertos de chocolate que eu havia lhe dado, em seguida, ele derruba o último grão na palma de sua mão. “Um anjo nunca quebra uma promessa. O que você mais deseja, Katrina. Será seu.” Ele me entrega o grão. “Eu já tenho o que eu mais desejo”, eu digo. “Eu descobri que eu sou boa em alguma coisa.” “Mas você fez isso sozinha. Eu ainda preciso lhe conceder um desejo. Certamente você tem um novo desejo?” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel O vento vem de novo, mas forte desta vez. Quase me derruba do banco. As pontas do cabelo de Malcolm batem contra seu rosto. “Eu posso desejar que você fique?” Eu pergunto em voz alta, enquanto o vento ruge sob minhas orelhas. “Mensageiros não podem ficar”, ele diz. O banco começa a tremer. O vento está mais forte. Malcolm agarra minha cintura para me impedir de ser levada. “Eu tenho que ir. Depressa, Katrina. Faça seu pedido.” Eu fecho as mãos em torno do grão. “O que eu faço?” Eu grito. “Só deseje. Mas, lembre-se, só vai funcionar se for o que você mais deseja. Faça isso agora. Nós estamos correndo contra o tempo.” O que eu mais desejo. O que eu mais desejo. Eu olho bem dentro de seus olhos elétricos e faço minha escolha. Então, eu jogo o grão na minha boca e engulo inteiro. Por um momento, o mundo para. Nós sentamos em uma bolha de silêncio, só nós dois, isolados da neve e do vento. Seus olhos se arregalam. “Mas, Katrina, este desejo deveria ser para você.” “É o que eu mais desejo.” E era. A bolha estoura. Outra rajada de vento chega, levando neve em nossa direção no banco. Isso passa por nós e antes que eu possa dizer qualquer coisa, a mão de Malcolm que aperta mais a minha cintura, e então, ele se dissolve em redemoinhos de brilhantes flocos de neve. Ele se foi. Eu alcanço o espaço vazio. Frio perfura meu vestido de veludo azul. Eu nunca mais o veria. Então, ouço uma voz gritando meu nome.

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CAPÍTULO TRINTA E QUATRO

O pai de Vincent, vestido em seu uniforme de segurança, caminha em minha direção. “O que você está fazendo aqui sozinha?”, ele pergunta. “Ei, você está tremendo.” Ele tira seu casaco cinza com um emblema prata e envolve em meus ombros. Então ele se senta no lugar onde um anjo se sentou poucos momentos atrás. “Katrina? Qual é o problema?” Eu não quero explicar. Perder alguém é o pior sentimento. A perda criava um profundo buraco vazio. Não havia mágica para preenchê-lo, nem medicamentos, nem Band-Aid ou cirurgia para curar. Eu suponho que com o tempo você se acostuma, assim como eu tinha me acostumado a não ter meus pais por perto. Mas o sentimento nunca desaparece completamente. E quanto mais tempo você passa na terra, mas buracos você consegue. Mas é parte da vida. É a vida. Alguns de nós temos a sorte de estar vivo. “Onde está o Vincent?” Eu pergunto, através dos meus dentes trementes. “Ele está na plataforma atrás da cabine, observando os navios do Solstício.” O Sr. Hawk abotoa o casaco para que não caísse dos meus ombros. “Por que você não está com ele? Ele esteve desanimado ultimamente. Vocês brigaram?” Desanimado? Vincent se sentia tão mal quanto eu me sentia? “Obrigado pelo casaco, Sr. Hawk”, eu disse, pulando para meus pés. Então, eu corro passando pelo coreto e os cantores que cantavam “Frosty the Snowman”. A queda de neve havia diminuído. Flocos suaves flutuavam pelo céu, brilhando como lantejoulas. Corro para as docas. Os navios do Solstício estavam alinhados na marina. Luzes coloridas se enrolavam ao redor dos postes ao longo da plataforma. Música do feriado provinha do barco principal. Vincent está sentado em um banco atrás da cabine de segurança, observando a água. Eu não me preocupo com rejeição, vergonha ou orgulho. Eu limpo a neve de cima do banco e me sento. “Eu não queria quebrar nossa tradição”, eu digo. Ele empurra para trás seu chapéu, seus olhos se abrem com surpresa. “Uh, nem eu.” Tomo um grande fôlego e olho em seus olhos castanhos. “Desculpe-me, eu fiquei tão irritada. Fui um pouco louca. Eu não tinha direito de lhe dizer para não ir ao Java Heaven. E foi estúpido da minha parte ter ficado brava só por que você está saindo com a Heidi. Eu acho que eu estava acostumada em ter você só para mim, eu não estava pronta para compartilhar você. O que é ridículo, quando penso nisso.” Eu esfrego a ponta dos meus dedos.

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Não é ridículo.” Ele tira suas luvas e dá para mim. Estava quente no interior. “Eu me senti da mesma maneira. Quando eu te vi com aquele cara, isso me fez sentir um pouco triste.” Ele se mexe. “Olha, Katrina, eu nunca entrei no Java Heaven. Eu quero que você saiba disso. Heidi mentiu na assembleia. Eu nunca concordei em ajudar com os flocos de neve. E quando o Sr. Darling colocou meu nome no outdoor, eu deveria ter reclamado. Eu acho que eu meio que gostei de ver meu nome em um outdoor. Estranho, hein?” Os sentimentos ruins pareciam como uma pele de cobra que eu só queria lançar e deixar para trás. “Você estava ajudando a equipe de natação. E Heidi é sua namorada. Eu estou bem com isso. Sério. Eu não me importo mais com o Java Heaven.” “Heidi não é minha namorada. Ela só queria aparecer em todas as entrevistas que eu estava dando.” Ele suspira e se inclina, apoiando seus braços sob seus joelhos. “Ela queria sair com Vincent, o herói.” “Eu sinto muito que não tenha funcionado.” Eu sentia. Realmente sentia. Meu melhor amigo tinha seu coração partido e eu podia sentir sua dor quase tão profundamente quanto eu podia sentir a minha. “Realmente, realmente sinto muito.” Ele senta-se ereto. “Está tudo bem. Eu vou superar isso. Ela teria me matado, afinal, com suas atividades extras. Seu pai faz com que ela faça todas essas coisas. Ele realmente a empurra com força. Eu sinto pena dela. E você? Você ainda está saindo com aquele cara?” “Não. Ele deixou a cidade.” “Oh. Eu sinto muito que não tenha funcionado.” “Eu também.” Meu queixo tremia, parte por causa do frio, mas, principalmente, por que a tristeza se rastejava sobre mim. Vincent alcança a parte debaixo do banco e puxa um cobertor, em seguida, coloca sob nossas pernas. Pessoas se reuniam ao longo do cais para ver como os navios saiam lentamente do porto. St. Nicholas acena do barco principal. Por uma noite mágica, todo o povo de Nordby se reúne para prestar homenagem a temporada, para lembrar tempos passamos e dançar ao som de músicas antigas. Para comer alimentos estranhos do Velho Mundo, bebidas a partir de café do Novo Mundo, e para ver um rato mutante gigante empalhado. Nós dois, como tinha sido a tanto tempo, sentados naquele banco, sabendo que nunca iria ser a mesma coisa outra vez. Iríamos por caminhos separados, empurrados por nossos desejos como barcos a vela para fora do porto. Mas naquele momento, enquanto o festival nos rodeava, podíamos fingir que seria sempre o mesmo. Vincent estende suas longas pernas magras. “Você sabe, nós vamos ter que nos acostumar com isso.” Comunidade Orkut Traduções e Digitalizações - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel “Com o quê?” “Conosco saindo com outras pessoas.” “Eu sei.” “Não pode sempre ser nós dois.” “Eu sei.” Eu olho para o céu invernal. “Você acha estranho que nós não estamos apaixonados um pelo outro?” “Não. Eu acho que é perfeito.” “Eu também.” Eu me aproximo e descanso minha cabeça em seu ombro que cheira a cloro.

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CAPÍTULO TRINTA E CINCO

Bem, a história ainda não acabou. Eis o que aconteceu após o Festival Solstício Invernal. Um repórter do Nordby News contou a história sobre o café genérico do Sr. Darling, chamando de “escândalo”. Parece que quando o motorista do guindaste puxou o Buick da dolina, um certo pedaço de papel amarrotado saiu pela janela e caiu nos pés do repórter. Sim, é verdade. O barulho foi enorme. A câmara municipal votou para que o Sr. Darling deixasse todas as comissões e o departamento de polícia revisou as possíveis acusações de fraude ao consumidor. A Coligação do Café Orgânico ameaça processá-lo em nome de todos os consumidores. O Sr. Darling fez suas malas e deixou a cidade, abandonando seu café e sua oferta de comprar o prédio. Heidi e sua mãe ficaram, no entanto, o que foi ótimo por que Heidi se tornou outra pessoa da noite para o dia. Seu pai é quem a empurrava para todas essas atividades extras. Ela parou de fazer todas as coisas do espírito escolar e centrou sua energia na equipe de natação. Ela e Vincent acabaram ficando juntos e eu me acostumei de tê-la ao redor. Nós resolvemos o problema do cinema sentando Vincent no meio das duas. Você pode se acostumar com qualquer coisa, se você colocar sua mente nisso. A fama de Caçadora de Ratos cresceu. Graças a gênia do marketing Elizabeth e suas conexões na web, Nordby se tornou o Lago Ness do Estado de Washington, com “rumores de aparições” de um rato mutante gigante que vivia na baía. Alguns pensavam que era a companheira em luto do rato morto. O Emporium vende toneladas de coisas, pelúcias de gatos preto e branco, e coisas de ratos. Elizabeth cria um livro de colorir e Elliott trabalha uma tarde por semana, como nosso contador. Eles começaram a sair juntos. Elliott engordou quatro quilos e meio de imediato, o que é realmente fácil de acontecer se você sai com Elizabeth. E o Café Velho Mundo Escandinavo da Anna? Bem, nós nos mudamos para o espaço do Java Heaven. Nós compramos alguns dos equipamentos da Sra. Darling, que estava feliz por se livrar disso. Junto com o café orgânico, nós continuávamos servindo as coisas à moda antiga. A multidão com laptop dividia o espaço com a multidão de aposentados, e aqueles sanduíches de sardinha se tornou um dos nossos artigos mais populares. Irmgaard se tornou a gerente e continuava fazendo sopa e krumkake. Ela deixou o cabelo crescer, e embora ela se mantivesse uma mulher de poucas palavras, as palavras que ela escolhia eram dignas de um lugar neste mundo.

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel Vovó Anna se recuperou, mas ela diminui suas horas de trabalho e começou alguns novos hobbies. Ela aprendeu a jogar Hnefatafl. Ela foi para um cruzeiro na Riviera Mexicana, com as senhoras da loja de sapatos. Ela levantou dinheiro para a ala cardíaca do hospital, com uma venda de garagem na vizinhança, incluindo todo o lixo do meu Armário do Fracasso. Seu coração batia firme e forte. Eu? Bem, eu me concentrei em minhas notas da escola, por que meu novo objetivo era fazer o MBA, que é uma das melhores em administração de empresas. Eu decidi me tornar uma capitalista de risco. Este é um título para alguém que arrisca seu dinheiro ajudando outras pessoas em criar seu próprio negócio. Parecia que eu tinha um dom para alguma coisa, afinal. Mas isso ainda não é o fim da história. Havia uma pequena coisa com aquele terceiro grão de café. O que eu tinha desejado naquela noite de inverno, enquanto o vento passava fortemente, era que Malcolm conseguisse sua promoção. Mas eu não tinha como saber se meu desejo tinha se realizado. Até que eu fui jogar o lixo em uma manhã de sábado em março. Eu tinha uma caixa de papéis do Emporium que eu precisava deixar ao lado do lixo. Na minha parte do mundo, as manhãs são ainda mais escuras em março, então eu acendi a luz amarela do beco. E lá estava ele, sentado sobre uma pilha de caixas, vestindo um kilt caqui e o suéter branco do meu avô. Sua mochila estava pendurada em seu ombro e ele sorria como uma criança. Eu largo o lixo. “Malcolm?” Eu não podia acreditar que ele estava sentado lá. Eu não tinha parado de sentir falta dele, esperando cada dia que talvez ele tivesse outra mensagem para entregar em Nordby. Que talvez ele aparecesse no beco novamente. Ele não diz uma palavra. Somente caminha até mim e é isso o que faz. Ele passa seus braços em volta da minha cintura e me beija. Meu rosto não se derrete. Sem carne chamuscada, sem fumaça. O beijo mesmo assim ainda se sentia elétrico, mas de uma forma não fatal. Então, eu me afasto. “O que...?” “Eu consegui a promoção”, ele diz, com um sorriso deslumbrante. “Você conseguiu?” Alguma coisa tinha mudado. Eu o cheiro. Onde estava seu cheiro das Terras Altas? Onde estava aquela nuvem de ar tropical? Eu coloco minha mão em sua bochecha. Parecia fria. Ele estende sua mochila. As palavras SERVIÇO DE MENSAGENS tinham sumido. “Você conseguiu sua promoção.” Eu digo as palavras, lentamente, a verdade me enchendo

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Suzanne Selfors – Coffeehouse Angel de medo. “Oh, não, isso é culpa minha. Eu fiz isso com meu desejo. Eu sinto muito, Malcolm.” Eu me afasto. “Por que você está se desculpando?” Ele era mortal. Eu tinha feito ele mortal. “Eu não sabia que a promoção significava que você se tornaria... Oh, meu Deus, Malcolm, você nunca vai me perdoar? Por causa de mim você irá...?” “Viver. Por causa de você eu vou viver.” Ele sorri novamente e estende seus braços. “É exatamente o que eu desejava, Katrina. É tudo que eu sempre quis. É a maior honra que um anjo pode alcançar.” “É?” Ele me puxa para perto. “Você sabe onde posso conseguir um daqueles álbuns de fotos? Então eu posso começar um registro da minha vida?” “Nós temos alguns no Emporium, se você não se importa de ter um rato gigante na capa.” Entramos no café, enquanto a manhã movimentada passava ao nosso redor, clientes encontrando assentos, metidos em conversas, digitando em seus laptops, o leite fervendo, o café sendo moído, pessoas começando seus dias, Malcolm e eu compartilhando um krumkake na mesa do canto como se o mundo tivesse realmente parado. Ele olha nos meus olhos, e assim como antes, um sentimento toma conta do meu corpo inteiro. Então, vamos em frente, tiramos uma foto disto e colamos em um cartão postal.

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AGRADECIMENTOS

Nordby é baseado em uma pitoresca vila de Poulsbo, Washington, não muito longe da minha casa. Se você tiver a chance de visitar Poulsbo, você não irá se desapontar. É uma delicia. Eu escrevi muito deste livro lá, sentada em um dos meus cafés favoritos, o Hot Shots Java. Eu gostaria de agradecer a sua equipe por me fornecer um excelente café e um ótimo lugar para escrever. E aqueles pequenos canudos de chocolate são sempre apreciados. E novamente, eu gostaria de agradecer ao grupo de escritores que deram uma atenção meticulosa à primeira versão: Anjali Banerjee, Carol Cassella, Sheila Rabe, Elsa Watson, e Susan Wiggs. Eu ainda sou abençoada por ter meu agente, Michael Bourret, e minha editora, Emily Easton. Obrigada a todo o pessoal do Walker Books for Young Readers. Eu sempre gosto de ouvir os meus leitores, por favor, escrevam para mim. Você pode visitar meu site em www.suzanneselfors.com.

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Esta obra foi digitalizada/traduzida pela Comunidade Traduções e Digitalizações para proporcionar, de maneira totalmente gratuita, o benefício da leitura àqueles que não podem pagar, ou ler em outras línguas. Dessa forma, a venda deste e‐ book ou até mesmo a sua troca é totalmente condenável em qualquer circunstância. Você pode ter em seus arquivos pessoais, mas pedimos por favor que não hospede o livro em nenhum outro lugar. Caso queira ter o livro sendo disponibilizado em arquivo público, pedimos que entre em contato com a Equipe Responsável da Comunidade – tradu.digital@gmail.com Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois assim você estará incentivando o autor e a publicação de novas obras. Traduções e Digitalizações Orkut - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057 Blog – http://tradudigital.blogspot.com/ Fórum - http://tradudigital.forumeiros.com/portal.htm Twitter - http://twitter.com/tradu_digital

Feito por: Carol

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