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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE ARTES DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL – JORNALISMO

STEFÂNIA MASOTTI

PRA ONDE VAI O QUE FICA PRA TRÁS?

VITÓRIA 2011


STEFÂNIA MASOTTI

PRA ONDE VAI O QUE FICA PRA TRÁS?

Memorial apresentado à Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) como requisito parcial para obtenção de titulo de Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo. Orientador: Profº Cleber Carminati.

VITÓRIA 2011


STEFÂNIA MASOTTI

PRA ONDE VAI O QUE FICA PRA TRÁS? Memorial apresentado à Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) como requisito parcial para obtenção de titulo de Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo.

Comissão Examinadora

_________________________ Profº Mestre Cleber Carminati

_________________________ Profº Mestre Rafael Paes Henriques

_________________________ Profª Doutora Daniela Zanetti


À minha família de hoje e que está por vir, fundamental em cada passo; Àqueles que foram a minha turma, mesmo sendo de turmas separadas: Susana Kohler, Regina Trindade, Juliana Tinoco, Giselle Pereira, Marcel Bussular Martinuzzo; Àqueles que também fizeram parte: Douglas Lisboa, Eduardo Valente; Àqueles que me deram letra e poesia, tinta e cor, e me ensinaram arte na vida: Juliana Gabriela Caetano, Thalita Covre, Fabrício Costa, Henrique Guimarães, Coletivo Eleve e demais parceiros das minhas aventuras pela UFES; Àqueles e àquelas da AIESEC por tantos aprendizados; Àquela que me deu exemplo: Marilda Rocha; Àqueles professores que plantaram sementinhas muito importantes: Rafael Paes Henriques, Ricardo Maurício, Cleber Carminati; Àquela sem a qual este projeto não seria possível: Rúbia Silveira de Almeida; Àqueles e aquelas fundamentais dentro e fora da faculdade: Bruno Nascimento (BLOK), Rafael Jumbini, Renata Murari, Carine Zorzaneli, Larissa da Cruz Aguiar; Àqueles e àquelas que mais ou menos distantes também foram importantes; A todos que me pararam na rua, no corredor, na grama, na ida, na volta, nos caminhos que percorri até agora, para me mostrar uma flor ou tirar um espinho que me incomodava; A cada um o meu sincero MUITO OBRIGADA!, e o meu desejo que nossos caminhos continuem se reencontrando.


“Se vira, minha filha, você não nasceu quadrada!” Marlene Livi Masotti, minha mãe


RESUMO “Pra onde vai o que fica pra trás?” é uma vídeo-instalação que gera uma sequência de vídeo a partir das respostas do usuário ao programa elaborado para a obra. Em resumo, o

programa gera uma sequência única de vídeos a cada pessoa que

responde completamente o formulário, utilizando como base o significado do número final de cada resposta segundo a Numerologia. Desta forma, cada resposta se transforma em um número e cada número carrega um significado. Este significado é exposto no vídeo e reunido em uma sequência. Tudo feito na hora. Como pano de fundo, uma poesia é narrada. E em outra tela, vídeos pré-editados são exibidos.

Palavras-chave: vídeo-instalação, arte mídia, interação, arte e tecnologia.


ABSTRACT “Pra onde vai o que fica pra trás?” is a video installation that generates a video stream from user responses to the software program developed for the work. In summary, the program generates a unique sequence of videos to each person who completely answer the form, using as basis the meaning of the final number of each response according to Numerology. Thus, each response is translated to a number and each number carries a meaning. This meaning is exposed in the video and combined in a sequence. All done on time. As background, a poetry is narrated. And on another screen, pre-edited videos are displayed.

Keywords: video installation, media art, interaction, art and technology.


SUMÁRIO 1.

Pra onde vai o que fica pra trás? ........................................................................................... 6

2.

Rosa dos ventos: Vá, ande, caminhe! .................................................................................. 8

3.

Sentido Norte: contraste, estranhe, caminhe! .................................................................. 10

4.

Sentido Sul: mas pára! Olhe por onde. .............................................................................. 14

5. Sentido de Leste a Oeste: veja que esquisito, se esquisite, se inquiete, se perceba de costas, tropece, caia nos seus limites.................................................................................. 21 5.1 Poesia como grito ........................................................................................................................ 23 5.2 Vídeos como relatos .................................................................................................................... 23 5.3 Áudio como acaso necessário ..................................................................................................... 28 5.4 Computador como suporte ......................................................................................................... 28 5.5 Programa como meio viabilizador .............................................................................................. 31 5.6 Números como pano de fundo ................................................................................................... 35 5.7 Numerologia como tradutora ..................................................................................................... 37 5.8 Vídeo-instalação como dinâmica ................................................................................................ 44 5.9 Interator como resposta ............................................................................................................. 48 5.10 Estética como sensibilidade ...................................................................................................... 50 6.

Sentido que virá: invente um novo resultado................................................................... 52


7.

Sentidos anexos: deixe pedaテァos de fora ........................................................................... 54 7.1 Poesia .......................................................................................................................................... 54 7.2 Imagens ....................................................................................................................................... 56 7.3 テ「dio ........................................................................................................................................... 63

8.

Sentidos bibliogrテ。ficos........................................................................................................... 63

9.

Sentidos referenciais .............................................................................................................. 64


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1. Pra onde vai o que fica pra trás? vá, ande, caminhe. olhe pro céu, olhe pro chão, contraste, estranhe. caminhe! caminho se faz and ando. mas pára! olhe por onde. entendimento se faz olh ando. mas pára! feche os olhos. veja. pensamento se faz ima gin ando. mas pára! volte. caminhe de costas, veja de um outro ângulo. veja que esquisito, se esquisite , se inquiete, se perceba de costas, tropece, caia nos seus limites.


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mas pára! veje sua ferida. sangue, dor, reação biológica, febre. sinta ANTES de ver. veja sent indo. imagine. seja livre. dor não é só dor. amor também dói. mas pára! esquece a ferida, a dor. não, não não não NÃO ESQUEÇA, mas sorria. veja novas possibilidades. quebre, desconstrua os seus costumes. mas pára! vire 36 graus e meio. dê cinco passos e 25 por cento . interrompa. esqueça o cálculo. erre a conta. invente um novo resultado. viva esse erro tão querido.


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quebre. deixe pedaços de fora. remonte esta morte. e então caminhe, e viva par ando. Stefânia Masotti

2. Rosa dos ventos1: Vá, ande, caminhe! Sou tarada por pés. Não, não se trata de tesão, mas do movimento que eles fazem. Talvez tenha sido o percurso da vida que tenha me colocado os pés e os detalhes dos movimentos deles em meu caminho, cicatrizados na pele de um tornozelo e na distensão de um osso. É desses caminhos que nos atravessam e nos cortam e não nos deixam nunca mais. Um dia um carro avançou o sinal e cruzou o meu caminho. Eu estava de moto e meu tornozelo nunca mais foi o mesmo, assim como os 1

Para guiar os capítulos deste memorial, utilizo a Rosa dos Ventos como referência simbólica. Os capítulos foram divididos em Sul, Norte, Leste e Oeste. Cada um tem uma explicação mística ou pessoal. Para começar, a Rosa dos Ventos que introduz sobre as múltiplas direções do projeto.


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movimentos do meu pé direito. Mas isto não é uma história pessoal. A toda hora um carro cruza o nosso caminho. A toda hora a gente avança um sinal. A toda hora seguimos em frente, pra frente, adiante, avante, a mais. Mas, pra onde vai o que fica pra trás? Neste memorial descritivo vou explicar o que me motivou a transbordar este trabalho para além da poesia, para além do vídeo, para além do computador, para além da Numerologia; transbordando-o para, enfim, a realidade. Passeio por muitas indagações, explicando cada uma delas – hora com teorias, hora com emoções –, sem deixar de lado a técnica que o trabalho envolve e os argumentos teóricos que dão a ele uma fundamentação. Ressalvo que aqui consta apenas uma leitura complementar à experimentação da obra “Pra onde vai o que fica pra trás?”; esta experimentação, sim, é o mais importante. O texto aqui apresentado serve para registrar um processo de criação de cerca de um ano de leituras, reflexões, conversas, idas, vindas, reviravoltas, tentativas, pausas, recomeços, encantamentos, dores, alívios, inspirações, transpirações, pirações, e tudo o mais que envolveu a elaboração deste trabalho. Espero, com este memorial descritivo, que algumas lacunas que a experimentação da obra possa ter despertado sejam esclarecidas e aprofundadas. Aproveito ainda para explicar algumas escolhas técnicas, por mais que estas tenham sido feitas, em sua maioria, inconscientemente.


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3. Sentido Norte2: contraste, estranhe, caminhe! “Pra onde vai o que fica pra trás?” busca gerar uma reflexão sobre o passado recente, um tempo que anda esquecido na atualidade. A toda hora avançamos, seguimos em frente, adiante, mas o que fica para trás logo depois que passamos? O que nos aconteceu há 5 minutos? Somos forçados a sempre seguir, a não parar. Mas quando paramos para refletir sobre o que nos aconteceu? Aliás, será que todos nós sabemos o que nos aconteceu ontem? E na semana passada? O que esses fatos que aconteceram há tão pouco tempo geraram? É sobre este processo de avançar que convido as pessoas a pararem e regredirem um pouco. Um regresso à observação. Mas um regresso rápido, que usa os meios atuais, e não te deixa parado. Não forço uma dinâmica estranha, mas sim conhecida, é uma forma de atrair também quem não pode parar um minuto. Refletindo sobre a sociedade, Milton Santos faz uma observação interessante sobre como reagimos hoje às novidades tecnológicas: 2

São os pensamentos que norteiam este trabalho. Reflexões iniciais sobre a sociedade que me motivaram a fazê-lo.


11 “A gestação do novo, na História, dá-se, freqüentemente, de modo quase imperceptível para os contemporâneos, já que suas sementes começam a se impor quando ainda o velho é quantitativamente dominante. [...] No caso do mundo atual, temos a consciência de viver um novo período, mas o novo que mais facilmente apreendemos é a utilização de formidáveis recursos da técnica e da ciência pelas novas formas do grande capital, apoiado por formas institucionais igualmente novas.” (SANTOS, 2009, p. 141)

Não paramos para pensar sobre como estas novas tecnologias e este novo tempo está tomando conta de nossas vidas, muito menos o que estão fazendo de nós. Não são os robôs que estão se tornando humanos, mas os humanos que estão se tornando robôs. Mas como isto está ocorrendo? Há muitas hipóteses de especialistas (sociólogos, antropólogos e outros tantos). Não sou especialista para afirmar, mas me dói muito as forças da excessiva correria e da excêntrica necessidade de tudo no presente, no agora. Até o gerúndio, tão necessário para os processos, foi condenado e jogado para escanteio. Não vale “eu estou fazendo”, só “ok, pode deixar, eu faço o próximo”. Sempre temos que ir para frente, estar adiante, não podemos parar e olhar para o lado, pro outro lado. Nem pensar em olhar para trás! E aí eu te pergunto, andando a passos largos para te acompanhar, pra me acompanhar, pra sermos acompanhados, pra onde vai o que fica pra trás? “Num mundo em que fosse abolida a regra da competitividade como padrão essencial de relacionamento, a vontade de ser potência não seria mais um norte


12 para o comportamento dos estados[...].” (SANTOS, 2009, p. 148)

Estamos sempre competindo. Principalmente, tendo que competir. E não podemos parar. Nem de competir, nem de andar, nem de evoluir. Não podemos parar. E se, de repente, isso tudo desse erro e todo mundo travasse em um lugar? E se a gente parasse de tanto correr e simplesmente caminhasse? Os vídeos apresentados são de caminhadas. É uma forma de remeter à jornada, à rotina, ao que fazemos todos os dias. Mas em nenhum vídeo os pés aparecem correndo. O único movimento além da caminhada é a parada, a pausa. Isto remete à correria, mas de uma forma desacelerada. “A idéia de história, sentido, destino, é amesquinhada em nome da obtenção de metas estatísticas, cuja única preocupação é o conformismo frente às determinações do processo atual de globalização.” (SANTOS, 2009, p. 155)

Não se vive mais para fazer história, mas para fazer números. Números positivos, claro, os negativos são escondidos, omitidos, jogados fora com o passado. O que está por vir é sempre positivo. O próximo resultado será melhor do que o que acabou de ser alcançado, gerado. Acabou, está acabado, passou, passado, assado, mal passado. A cada mês se repete a mesma frase “vamos superar esta meta”. Uma frase que antes era dita a cada ano. E cada vez mais se aproxima de ser dita a cada dia. O futuro pode ser melhor, mas agora ele me dá medo. E então o que faço? Me


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atraso na esperança que ele chegue mais devagar. Vou divagando por aí nessa esperança. Caminhando e filmando e brincando de fazer arte. Até ele vir, bater, arder e curar. Compartilho do pensamento de Paul Virilio, que afirma que estamos imersos em uma “poluição dromosférica”, “na qual a aceleração imposta pelo ritmo frenético do tempo real e dos novos meios de comunicação afetaria de tal modo nossa percepção do mundo que implicaria uma perda total da noção da narrativa das coisas e da própria memória imediata.” (VIRILIO, apud ARANTES, 2005, p. 163)

Em contrapartida a esta aceleração demasiada, Priscila Arantes (2005) afirma que as obras de arte em mídias digitais permitem parar o tempo para um segundo de reflexão, realizando uma espécie de metacomunicação, de reflexão e olhar sobre o mundo que nos rodeia. Parar alguns minutos no tempo, promover reflexões, mostrar que “velocidade não é dinamismo” (SANTOS, 2009, p. 156), são pensamentos que norteiam este trabalho.


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4. Sentido Sul3: mas pára! Olhe por onde. É difícil definir, ao certo, onde ou quando o projeto começou. A miscelânea de que somos formados e de formatos que cercam a comunicação hoje nos dificultam definir algo, qualquer coisa, sentimento ou até, por que não?, um projeto. Os questionamentos que geraram a idéia do trabalho aqui apresentado explodiram durante uma aula da disciplina de Multimeios, no decisivo primeiro semestre de 2010, quando na verdade já pensava, desde as aulas de Estética – feitas tardiamente, mas no momento certo – no segundo semestre de 2008, em fazer um Trabalho de Conclusão de Curso voltado para uma mistura entre Comunicação e Arte. Não sei ao certo o que me levou a querer experimentar desta mistura, talvez frustrações naturais que acontecem no decorrer do curso e que cada um significa de uma forma, talvez encantamento por uma área tão ampla quanto a Comunicação, talvez o mistério que até hoje me ronda sobre o que pode gerar esta mistura cada vez mais comum e quase sempre surpreendente entre Comunicação e Arte. “Alimentar o separatismo [entre as comunicações e as artes] conduz a severas perdas tanto para o lado da arte quanto para o da comunicação. Por que perde a arte? Porque fica limitada pelo olhar conservador que leva em consideração 3

O sentido Sul deste capítulo é particular, tem a ver com a minha origem. Minha família veio do Sul do Brasil para o Espírito Santo e aqui faço uma referência às minhas raízes para falar sobre as raízes que originaram este trabalho.


15 exclusivamente a tradição de sua face artesanal. Por que perde a comunicação? Porque fica confinada aos estereótipos da comunicação de massa. [...] Convergir não significa identificar-se. Significa, isto sim, tomar rumos que, não obstante as diferenças, dirijam-se para a ocupação de territórios comuns, nos quais as diferenças se roçam sem perder seus contornos próprios.” (SANTAELLA, 2008, p. 07)

Em ordem cronológica, mas não menos caótica, primeiro surgiu a poesia. A explosão de pensamentos, emoções e reflexões, aconteceu no meio da aula de Multimeios. Talvez por mera questão de familiaridade, estas idéias me surgiram primeiramente em texto/poesia, depois foram gritando para outros lados. [Peço licença acadêmica e recomendo aqui a (re)leitura da poesia presente no início deste memorial descritivo] A poesia nasceu pronta praticamente, foram necessários pequenos ajustes apenas. A junção de palavras ficou tão forte que eu simplesmente não sabia o que fazer. O grito, as palavras, as letras, a poesia em si, ficaram ecoando em mim. Você já deve ter vivido esta experiência: quando a gente fica com uma coisa na cabeça, parece que tudo no mundo diz sobre ela, como se o universo te trouxesse tudo. E traz. E trouxe: revirando as imagens no meu computador, vi umas fotos4 e uns vídeos dos meus pés, os vídeos, inclusive, eu havia começado a gravar há pouco tempo. Meus pés sempre foram meus alvos prediletos em auto4

Algumas destas imagens estão disponíveis em: http://www.flickr.com/photos/smasotti/tags/praondevaioqueficapratras/


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retratos. O caminhar, com toda a questão do deslocamento e desafio que ele carrega, também me interessava. Então resolvi aproveitar este material, que na época foi gravado com uma câmera de celular5. Porém, não queria um vídeo meu, queria um vídeo de cada um – na medida do possível. E fazer um vídeo com uma poesia de fundo era pouco, era simplista demais, então continuei procurando. Entre pausas, pensamentos e inquietações, mais adiante surgiu a idéia de montar um vídeo interativo. Para que cada pessoa pudesse gerar um vídeo único, seu, foi desenvolvido um programa de computador, através da parceria com Rúbia Silveira de Almeida, onde são feitas 7 perguntas a serem respondidas pelo espectador. Isso vai ser explicado com mais detalhes a seguir, mas, resumidamente, cada resposta tem seu número calculado segundo os preceitos numerológicos, que transformam as letras em números e os somam, formando assim um único número entre 1 e 9. Estes números carregam características individuais que influenciaram na seleção prévia do vídeo correspondente de cada número. Ou seja, se uma das respostas der 1, na convergência feita através da Numerologia, o vídeo daquela resposta será relacionado às características que este número carrega, neste caso idéias de iniciativa, pró-atividade, etc6. E assim sucessivamente, em cada resposta. Quando o usuário termina de responder a todas as perguntas e manda gerar o vídeo, o resultado final é um vídeo único montado com os 7 vídeos de cada uma das 5 6

Posteriormente será explicado o motivo da escolha das tecnologias e suportes. Isto será melhor explicado na parte do memorial referente à Numerologia.


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respostas dadas. O áudio de cada vídeo final gerado é escolhido de forma aleatória dentre 4 possibilidades de interpretação da poesia-guia. Não sei ao certo explicar a necessidade de fazer esta obra. Sei que é uma necessidade e sei que foi acontecendo. É como se tudo fosse se encaixando a partir da minha vontade de transbordar o que sinto, penso, reflito, para as pessoas. Talvez o que guie uma obra de arte seja justamente a necessidade do artista em se comunicar, em colocar para fora o que lhe perturba. Ou uma necessidade de gritar e ver o que os outros vão responder. Ou a necessidade de saber se está ou não sozinho, se é só você ou não que pensa sobre isso. E é intrigante que para concluir o curso de Comunicação Social eu tenha ido para as Artes na tentativa de me expressar. Depois de quase 6 anos de curso, me cansei do lead7, das fórmulas, das métricas, e resolvi criar minha própria mídia para me expressar. Acabo de perceber agora – sim, exatamente agora, enquanto escrevo este texto – que todos os processos por quais passei foram frutos de uma busca incessante de alguma forma de me expressar. Ao longo do curso fui cada vez me distanciando mais da comunicação tradicional e buscando mais algo que eu não sabia até este exato instante o que era. Durante esta busca eu me aproximei da poesia, me aproximei da vídeo-arte, me aproximei da edição de vídeos, me aproximei das Relações Públicas, 7

Em poucas palavras, “lead” é um guia de perguntas que o primeiro parágrafo de uma matéria jornalística deve responder. Mais informações em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lead


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me aproximei da hipermídia, me aproximei da ilustração, me aproximei dos multimeios, me aproximei das intervenções urbanas... fui me aproximando de uma série de elementos na tentativa de encontrar algum meio para me comunicar. Cada tentativa me empolgou em determinado momento, me acrescentou em muito, me impulsionou pra frente, mas nunca me bastou. Eu precisava criar o meu próprio meio, a minha própria mídia, para conseguir me comunicar. Os meios atuais, por mais amplos que sejam, não saciavam a minha vontade – e eu não entendia. Por isso criei a minha mídia: uma mídia que mistura poesia, vídeo, computador, participação do outro, Numerologia e acaso. Sentia falta de emoção nas mídias, então coloquei a poesia. Precisava ilustrar o que sentia, então coloquei o vídeo. Preciso que o outro me dê suas respostas sobre o que eu digo, então coloquei um programa de computador para as pessoas me responderem. Sentia falta de uma pitada de crença, de fé, para reger, no pano de fundo, tudo isso, e então coloquei a Numerologia. Sentia falta do acaso, de não ter controle absoluto, da possibilidade do erro, do humano, do universal, do imprevisível, e então deixei uma brecha para o acaso acontecer. Cada um desses elementos tem muito a ver com a minha vida. São coisas em que acredito e não vivo sem – à parte a Numerologia, que aqui tem muito mais um caráter de representatividade das ciências ocultas do que uma presença literal em si (o que será explicado adiante). São elementos que me formam enquanto ser humano, comunicativo, social, espiritual, errante. Talvez eu queira muito mais do


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que fazer uma reflexão sobre o tempo, como o próprio título induz e como explicarei a seguir, e sim fazer uma reflexão sobre o homem. O homem que hoje não pode falhar, que não pode sentir, que não pode olhar para trás, que só deve apertar o próximo botão e seguir se assemelhando à maquina com quem convive, que é a sua principal parceira em todos os momentos. Trago com a vídeo-instalação interativa “Pra onde vai o que fica pra trás?” uma oportunidade de interação com o acaso. Uma combinação humana entre números binários, imagens, respostas sensíveis, números místicos, e você. Não sei no que isso vai resultar para cada um, mas eu não estou em busca de um resultado, estou querendo apenas ser e refletir sobre o que eu estou sendo. No campo da arte, fui fortemente influenciada pela arte contemporânea com a qual comecei a entrar em contato há pouco mais de 3 anos. Nunca tive o costume de ir a museus, ainda que sempre tive a vontade de freqüentar e penetrar neste mundo. Foi a Universidade Federal do Espírito Santo e os amigos que ela me trouxe que me levaram a este bom caminho. Das obras e dos artistas que estudei ou tive contato, me marcaram muito a Lygia Clark e a profundidade psicológica a que remetem as suas obras; Giselle Beiguelman e a sua tecnologia aliada à sensibilidade, além de reflexões sobre o transitório, e também sobre as paisagens; as performances artísticas que questionam ações cotidianas; as intervenções urbanas, que vi de outros artistas e vivi com o Coletivo Eleve, que questionam a cidade e os


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movimentos que ela faz; as obras e os pensamentos de Júlio Plaza; a poesia vibrante de Viviane Mosé; o trabalho “olha pro céu, meu filho, porque chão é lugar de cuspir” de Marcio Isensee e Lucas Zappa, do coletivo iz; e tantas outras que me influenciaram durante o processo criativo, assim como as conversas, disciplinas e pessoas com quem tive contato. A arte contemporânea tem isso da multiplicidade, do não-lugar, de refletir sobre a vida cotidiana, de questionar parâmetros, de criar novos suportes e de não querer rotulá-los, de ser um acontecimento, de ser uma obra mas também ser uma ação, de ser um gerúndio a ponto de ficar sob o rótulo do contemporâneo e não conseguir ir pro futuro. Assim como a arte que proponho, quero também ser sempre contemporânea, do meu tempo, ligada ao que acontece aqui e agora, questionar o que está acontecendo ou o que acabou de acontecer, mas sem perder as raízes, aproveitando dos múltiplos meios de hoje e do passado, distante ou nem tanto, espalhando-se para todos os lados, respirando, pirando, suspirando, viver acontecendo. “A imagem, sem dúvida – e toda arte, segundo ele [Couchot] -, não é mais o lugar da metáfora e sim da metamorfose.” (COUCHOT, apud PLAZA, 2008, p. 77)


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5. Sentido de Leste a Oeste: veja que esquisito, se esquisite, se inquiete, se perceba de costas, tropece, caia nos seus limites. Vídeo, poesia, programa de computador, numerologia, interação. Como reunir tudo isso em uma obra? Como transformar esta fórmula em arte? Juntar vídeo e poesia já é algo mais rotineiro, mas o que o restante tem a ver com isso? Somo tudo para gritar em multimeios. Tentativa de mostrar em uma sala para sair pelas janelas feito vento que vem da porta e segue avançando pelos lados que o quadrado lhe permite. Pensar além do quadrado, utilizando uma figura de quatro lados. Fazer pensar, fazer refletir. A conseqüência como mistério, a programação como teatro, a numerologia como tradução, a arte como exposição. A seguir consta o relato técnico, mas nem tanto, da experiência de alguém que tirou um pé da Comunicação e não sabe ao certo onde está pisando. “Pra onde vai o que fica pra trás?” é uma mistura de poesia, vídeo, interatividade e numerologia. Aproveitando a liberdade que a arte nos permite e fazendo a reflexão que a arte contemporânea se propõe a gerar, misturo os elementos e repenso a sociedade. “Figurar para a sensibilidade e dizer através do número” 8. Para refletir 8

(LUZ, 2008, p. 51)


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sobre a relação que temos com o tempo, a obra se relaciona com as pessoas, usa de perguntas como “Onde você está?” e “Onde você gostaria de estar?” complementadas por “Se não agora, quando?”, entre outras, para fazer as pessoas pensarem. Em seguida, responde com vídeos de passos, caminhadas e voltas na tela do seu computador, além de áudio em poesia, no seu ouvido. Uma seqüência de vídeo única a cada pessoa. Enquanto isso, vídeos pré-editados são projetados, em ordem aleatória de exibição, na parede, sem o áudio – na estrutura ideal de exposição a ser apresentada neste memorial. “Linguagens e meios que se misturam, compondo um todo mesclado e interconectado de sistemas de signos que se juntam para formar uma sintaxe integrada” (SANTAELLA, apud ARANTES, 2005, p. 49)

A obra apresentada agora, em maio de 2011, é a versão 2.0. A primeira versão, 1.0, foi apresentada durante o ano de 2010. As diferenças entre uma versão e outra são basicamente técnicas. Na versão inicial os vídeos foram feitos com uma câmera de celular; para esta foi utilizada uma câmera fotográfica digital, o que gerou vídeos com uma qualidade superior para a exibição 9. O áudio também foi regravado no estúdio da Rádio Universitária da UFES10, antes fora utilizada uma gravação feita 9

A explicação pela escolha de câmera digital, e não por uma profissional, será explicada a seguir. Deixo aqui meu agradecimento à Djamile Carreiro que fez o elo entre eu e a Rádio, assim como a todos que permitiram a utilização do espaço da rádio para a gravação dos áudios da obra. 10


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em casa. Além disso, foram consertados alguns erros no programa em si, que antes não aceitava capslock - por exemplo, dentre outros. A seguir descrevo e explico o que ocorre quando a técnica encontra suas razões e desrazões emocionadas. Ou simplesmente uma explicação mais detalhada sobre razões técnicas e emotivas dos elementos utilizados na obra “Pra onde vai o que fica pra trás?”.

5.1 Poesia como grito Como já foi dito anteriormente, a poesia surgiu durante uma aula, dessas verborragias que nos atacam quando a gente menos espera. Veio todo de uma vez e foi pouquíssimo modificado até a sua versão final. Ela reflete explicitamente meus questionamentos sobre o tempo; sobre a necessidade de tudo ser perfeito no mundo, calculado, exato; sobre este avançar contínuo e cego que não olha para os lados, que não vê o que se passa ao seu redor; sobre a perda da imaginação e sobre a falta que ela nos faz; sobre a negação da dor, do sofrimento, do erro, da morte; e sobre tantas outras reflexões que cito aqui neste memorial, além das que cada um pode ter.

5.2 Vídeos como relatos Os vídeos foram todos gravados do mesmo ângulo, na altura da cintura, com a


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câmera voltada para o chão. A escolha do chão, ainda que tenha sido feita inicialmente sem nenhum propósito, apenas por mera coincidência – como já foi dito, foi questionada em determinado momento da ação. Mas por que eu estou filmando o chão? – Me perguntei algumas vezes. O fato de aproveitar vídeos que eu considero também auto-relatos 11 da minha história, do meu caminhar, faz com que esta obra não seja mas também não deixe de ser um auto-retrato. Ela mostra, além de tudo que disse anteriormente e além do mais que vai ser falado ainda, a minha relação com os meus pés e, conseqüentemente, a minha relação com o mundo. É desta forma também que pretendo trazer as pessoas para o chão, a olharem os pés fixados sobre a superfície. O céu tem uma aura muito bonita, um significado que naturalmente nos remete ao sublime. Já o chão é o oposto, é a queda, é o lixo que jogamos sobre ele. Se desejamos sucesso a alguém, estamos desejando que esta pessoa voe alto, como se com os pés no chão não fosse possível chegar muito além. Ora, pra que aviões se temos sonhos e pernas? É no chão que se encontram as dificuldades, as resistências, as pedras. Mas é também no chão que brota a vida, que nasce o alimento, que jorra a fonte de água. É a estabilidade do chão que nos mantêm em 11

Uso aqui a expressão “auto-relato” como uma referência ao “auto-retrato” da fotografia. Como se trata de outro suporte, o vídeo, considero a palavra “relato” mais apropriada, uma vez que relato agrega o valor de continuidade, de diálogo. Cabe observar ainda que tanto “auto-retrato” como “auto-relato” podem ser utilizadas para descrever trabalhos em ambos os suportes.


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pé, mas humanamente preferimos olhar para os céus e desejar aquilo que não temos. No mundo contemporâneo, destes anos de 2011, vivemos sempre em busca do salto, do vôo, da meta mais alta, nunca vamos para baixo, nunca podemos voltar para o chão. Com uma câmera voltada para os pés e para o chão mostro a minha base, aterrizo sobre a minha terra, onde posso correr, andar, e até tocar o sol. É com os pés na terra que fazemos a vida, mas parece que esquecemos disso e só queremos voar. Outros significados também permeiam o chão e geraram reflexões para esta obra. Pela lei da gravidade, o chão é depósito de tudo o que está no ar. Tudo que paira sobre nossas vidas, inevitavelmente, vai para o chão ou está sobre ele. O chão carrega esta firmeza, de ser base de todos os objetos – direta ou indiretamente – e também tem a leveza de ser diferente a cada segundo. Olhe pra onde você pisa agora. Siga em frente e volte ao mesmo lugar daqui a 5min. Ele estará completamente diferente. Já parou para observar isso? O chão é base de sustentação e território das transitoriedades do mundo. No ambiente urbano, o chão é local de dejetos, baratas, bichos mortos, sujeiras, de corpo caído, e, porque não dizer, de morte. Tudo termina a sete palmos abaixo. No campo, ao contrário, o chão é local de fertilização, de origem da vida. Em todos os casos, tudo o que está no chão é, de alguma forma mais rápida ou de outra mais lenta, transitório, impermanente, dali a pouco desfeito, varrido ou re-apropriado.


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Estas são reflexões geradas por três fatores: primeiro, a minha observação do chão; segundo, o trabalho “olha pro céu, meu filho, porque chão é lugar de cuspir” de Marcio Isensee e Lucas Zappa, do coletivo iz12; terceiro, a música “De cabeça pra baixo” escrita por Raul Seixas e Claudio Roberto 13 . Através disso, cheguei às conclusões acima e decidi manter o chão como pano de fundo para as imagens. Afinal, um dos temas abordados e talvez até o principal, é a transitoriedade do mundo. E o chão relata muito bem isso, trazendo ainda a contradição da sustentação. Será então que a transitoriedade é o que nos sustenta? É uma das questões que podem ser levantadas. Outra escolha referente ao vídeo foi a tecnologia de captação: em um primeiro momento optei por uma câmera de celular, que grava em qualidade super baixa. A escolha foi feita inconsciente, de repente me vi fazendo vídeos dos meus pés, das minhas caminhadas e olhando mais para o chão – como disse no início do memorial. Gostei do ângulo e o mantive. Para a segunda versão do projeto, que será apresentada a vocês, optei por captar as imagens com uma câmera fotográfica digital, dessas que também filmam. A escolha do ângulo teve influência direta na escolha das tecnologias de captação, pois dificultaria filmar com uma câmera 12

O contato com a obra foi através da Revista Zupi #14, Agosto de 2009. Site do coletivo: http://www.izfotos.com/ 13 Letra disponível em: http://letras.terra.com.br/raul-seixas/90587/


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profissional, que possuem um tamanho maior do que um celular ou uma câmera fotográfica, no ângulo requerido. Para fazer com uma câmera profissional eu perderia também a liberdade de fazer a captação em diferentes lugares, como o fiz em viagens, além de necessitar da ajuda de outras pessoas para autorizações e outros trâmites que complicariam de forma desnecessária a execução da obra. Portanto, os vídeos foram captados já no formato digital, o que também facilitou o processo de edição. Fiz a edição dos vídeos no meu computador pessoal novamente por uma questão de facilidade e, principalmente, liberdade. A edição consistiu basicamente em escolher os melhores trechos de acordo com a característica de cada número (1 a 9) segundo a Numerologia. Para a primeira versão do programa foi retirado totalmente o áudio de cada vídeo, o que foi mantido para esta versão. Uma mudança que ocorreu foi referente ao tempo dos vídeos. Enquanto na versão 1.0 não havia um tempo pré-estabelecido para a duração de cada um, na versão 2.0 foi definido o tempo de 13 segundos para cada vídeo. Isso porque o áudio tem exatos 1 minuto e 31 segundos e como a seqüência final será a junção de 7 vídeos (cada um correspondente a uma resposta do interator), chegou-se aos 13 segundos para que os tempos dos vídeos se encaixassem perfeitamente com o tempo dos áudios. Não foi fácil traduzir o significado de um número (ver parte da Numerologia) em apenas 13 segundos de imagem. Para isso, montei roteiros e fiz analogias. As analogias


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feitas serão apresentadas a seguir.

5.3 Áudio como acaso necessário Antes de gravar o áudio me questionei sobre quem iria fazer a leitura da poesia, assim como o tom que ela deveria ter. Acabei optando por utilizar minha própria voz, mas a dúvida sobre a entonação mais adequada continua pertinente. Nas primeiras apresentações da obra, utilizei locuções feitas em casa na minha voz aproveitando um momento de rouquidão, foi uma oportunidade de afastar um pouco a obra de mim que veio a calhar naquele momento. O áudio era escolhido de modo aleatório pelo programa, variando entre 5 opções disponíveis, e assim hora se juntava ao vídeo um tom mais sério, hora um tom mais alegre, hora mais seco. Para a versão 2.0, fiz novas gravações em estúdio, novamente com várias entonações. Optei, desta vez por 4 opções de áudio, também com interpretações diferentes. Mantive a aleatoriedade na escolha do áudio, mas mantive o padrão do tempo de 1 minuto e 31 segundos, o que incluiu momentos de silêncio em alguns casos, propícios para as reflexões que o vídeo desperta.

5.4 Computador como suporte Segundo Arlindo Machado, “A arte sempre foi produzida com os meios de seu


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tempo.” (MACHADO, 2008, p. 09). O autor relembra que Bach compôs fugas para cravo por ser este o instrumento mais avançado da sua época. E Stockhausen optou por compor texturas sonoras para sintetizadores eletrônicos porque já não fazia mais sentido, naquela época, escrever peças para cravo. Outra associação que podemos fazer é referente ao uso de tintas. As tintas se modificaram ao longo do tempo. Foram melhorando a sua qualidade, textura, adquirindo uma infinidade de cores e tons. Os pintores foram aderindo às novas tintas, mais modernas, nas suas pinturas, assim como aderiram e inventaram novas técnicas. “Por que, então, o artista de nosso tempo recusaria o vídeo, o computador, a Internet, os programas de modelação, processamento e edição de imagem? Se toda arte é feita com os meios de seu tempo, as artes midiáticas representam a expressão mais avançada da criação artística atual e aquela que melhor exprime sensibilidades e saberes do homem do início do terceiro milênio.” (MACHADO, 2008, p. 10)

A escolha do computador como principal suporte para a realização da obra foi inevitável. Além de ser uma ferramenta atual, típica deste século, ele também carrega a característica de ser único e, ao mesmo tempo, múltiplo, que permite a união de vários meios, como conceitua Arlindo Machado: “O computador carrega, portanto, essa contradição de aparecer como uma mídia única, sintetizadora de todas as demais, e, ao mesmo tempo, um híbrido, onde


30 cada um dos meios (texto, foto, vídeo, gráfico, música) pode ser tratado e experimentado separadamente.” (MACHADO, 2008, p. 73)

Utilizando o computador como meio de transmissão e meio de interface, integro nele poesia, áudio, vídeo e espectador. São estes meios que se relacionam entre si na obra. E a escolha destes, e não de outros, não foi ao acaso. O fato de já estar familiarizada com estes meios individualmente na Comunicação acabou se refletindo nesta minha aventura no campo da Arte. Após anos escrevendo, gravando e editando texto, áudio e vídeo, à mão ou ao computador, para passar claramente uma mensagem, é hora de tentar “algo assim como: „comunicação... sem comunicação‟” (LYOTARD; apud PARENTE (org), 2008, p. 258) Outro motivo pela escolha destas ferramentas tecnológicas é o fato de elas atenderem ao objetivo proposto: promover a interatividade. Eu poderia utilizar aqui outros tantos recursos muito mais modernos, mas optei pelos mais simples. Até mesmo porque muitas pessoas já se sentem à vontade com um teclado e uma tela de computador, pois lidam com estas interfaces freqüentemente em outras situações. Sei que a escolha destes meios inclui riscos, como explica Arlindo Machado: “Quem faz arte hoje, com os meios de hoje, está obrigatoriamente enfrentando a todo momento a questão da mídia e do seu contexto, com seus constrangimentos de ordem institucional e econômica, com seus imperativos de dispersão e


31 anonimato, bem como com seus atributos de alcance e influência.” (MACHADO, 2008, p. 29)

Como toda tentativa inclui conseqüências, ao fazer este projeto optei por me arriscar em um novo mundo. O curso de Comunicação me ensinou muito e contribuiu para o meu processo de expansão, me trouxe novas visões. Optei por terminar minha graduação sem interromper com este processo, sem parar nesta caminhada contínua de efusão e alegria. “Não é necessário renunciar ao passado ao entrar no porvir. Ao trocar as coisas não é necessário perdê-las.” (CAGE, apud PLAZA, 2008, p. 72). E se o futuro não é mais como era antigamente, é hora de tentar fazer tudo novo de novo. Pelo menos um mundo novo.

5.5 Programa como meio viabilizador Durante a elaboração do projeto, surgiu a idéia de que o vídeo não fosse só meu, mas também, de alguma forma, das pessoas que fossem ver a obra. Incomodavame também a idéia de ter que reduzir tantas reflexões a somente um vídeo. Claro que caberia tudo em um vídeo, mas seria apenas uma visão, um ângulo, enquanto meu desejo era muito maior. A partir disso comecei a pensar em como essa multiplicação poderia ocorrer. Por questão de familiaridade e também de acesso, pensei em utilizar a interface de


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um programa de computador. Porém, como eu não sei elaborar um programa, eis que entrou o auxílio técnico de Rúbia Silveira de Almeida. Engenheira de Computação de formação que atuou como programadora, ela gentilmente aderiu à idéia e elaborou o programa utilizado na obra. O programa em si é simples, é praticamente um formulário digitalizado, como mostra a imagem abaixo.


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Figura 1 – Imagem do programa onde as pessoas vão responder a perguntas.


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Fazer um formulário destes é tecnicamente simples, mas transformá-lo em vídeo não foi assim tão fácil. A primeira tradução que o programa faz é transformar as letras em números de acordo com a lógica da Numerologia. Ou seja, colocamos condicionantes para que tudo fosse feito segundo o que determina a ciência oculta dos números. Isso até que foi tranqüilo, a parte mais complexa foi pegar cada vídeo correspondente a cada resposta e renderizá-los para formar uma seqüência única. Ah, e ainda tinha que colocar o áudio da poesia aí no meio! Ainda que seja possível prever as milhares de possibilidades de seqüências finais do vídeo, editar cada uma delas geraria um trabalho excessivamente desgastante e que hoje inviabilizaria a realização da vídeo-instalação em uma estrutura tão reduzida como a que proponho 14 . Por isso, optou-se por um tipo de programa que renderizasse automaticamente os vídeos e juntasse o áudio pré-determinado. [Informações técnicas: a biblioteca de vídeo encontrada, ou seja: o recurso que permite a renderização dos vídeos, era para ambiente .NET 15 e permitia a aplicação em duas linguagens, C# e linguagem VB. Por ter uma maior gama de recursos e opções, optou-se pela C# . NET16.] Os ajustes no programa e na estrutura da vídeo-instalação foram feitos em decisões 14

Mais detalhes sobre esta estrutura a seguir. Mais sobre a biblioteca utilizada em http://directshownet.sourceforge.net/about.html 16 Mais sobre esta linguagem de programação em http://pt.wikipedia.org/wiki/C%E2%99%AF 15


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conjuntas entre eu e a Rúbia. A meu ver, não é só a idéia do artista que faz a obra, mas também quem a executa. Ambos são artistas, e por isso divido os méritos deste projeto com Rúbia Silveira de Almeida. Roy Ascott (apud ARANTES, 2005, p. 52) defende que as artes em mídias digitais são essencialmente híbridas não somente pela atuação conjunta do artista com outros profissionais, como engenheiros, mas também porque o artista propõe uma obra de arte que se desenvolve em tempo real a partir das intervenções do interator. Utilizei as tecnologias que fazem parte do meu dia-dia, que são hoje de fácil acesso e manipulação para mim. Reconheço, assim, que não há nada super inovador na tecnologia empregada nesta obra, e é importante que fique claro que este não é meu objetivo aqui. É apenas mais uma tentativa de refletir sobre os processos que envolvem a tecnologia, a sociedade, e, principalmente, a influência deles sobre a forma como nos relacionamos com o tempo.

5.6 Números como pano de fundo A inter-relação entre meios na obra se faz através dos números. Seja pelas imagens, que ao serem capturadas em formato digital se transformam em pixels, ou seja, em números; seja pelas letras transformadas em números e em logo depois traduzidas em imagens. É como um caleidoscópio circular, onde se acrescentam alguns


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elementos a cada movimento, mas sempre tem um ímã que o faz congruir para formar as imagens. O ímã aqui são os números, são eles que fazem o elo entre cada elemento da obra. Seja na forma técnica, seja na forma subliminar. Perceber que o que une, o que dá a liga, à obra são os números foi um processo difícil para mim. Sempre fui condicionada a pensar em letras, em palavras, em texto. Meu raciocínio se conclui quando eu escrevo. Antagonicamente, é difícil, para mim, pensar em números, chego ao ponto de confiar no vendedor na hora do troco cegamente porque até eu fazer a conta do troco... Mas de repente me vi emergida em meio a números por todos os lados. A gente não tem idéia do quanto nossa vida é guiada por números – e eu menos ainda. Admitir que são os números que dominam a obra é quase como se os brasileiros admitissem que os argentinos são melhores no futebol do que a gente. Dói. Doeu. Demorei para perceber que a minha falta de afinidade com os números se dava porque eu só os via sob o viés da dureza dos cálculos matemáticos ou porque não entendia a mensagem que os números, os cálculos, as fórmulas, tentavam me passar. Desses caminhos que o processo de criação da obra me levou, descobri a sensibilidade dos números. Seja porque a captação de imagens na natureza binária é bem mais fácil do que na natureza filmográfica – assim digamos; seja porque percebi que os números podem dizer muito quando estudamos a história de cada um e percebemos o tanto de significados (coincidentes ou nem tanto) que eles carregam e dizem sem a gente


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perceber. A relação com os números foi intensa e desgastante. Não queria uma obra dura. Precisei encontrar a sensibilidade dos números para conseguir me comunicar através deles. O mais fácil seria eu me render ao código binário. Com uma lógica simples, tudo seria resolvido rapidamente. Mas queria um contraponto, ir além do 0 e do 1, e eis que me esbarrei com a Numerologia. Os estudos da Numerologia mostram significados interessantes dos números – e eu não me refiro aqui à parte mística desta ciência oculta, mas sim à parte histórica e perceptiva. Exemplo: visualmente você consegue contar de 1 a 6, depois de 7 você só vê que são muitos (BANZHAF, 2009, p. 72). Faça o teste. Se você experimentou a vídeo-instalação antes, logo deve ter pensado “para quê tantas perguntas?”, mas não eram tantas, eram apenas 7 – e você achou que fossem muitas. Viu só?, são os números te dizendo para além das contas. Há outros exemplos na mesma linha que a história de cada número nos revela. Mas não foi só a parte histórica que me atraiu, claro, a sensibilidade da Numerologia trouxe à obra o toque místico que eu procurava. Afinal, se é para reunir vários elementos, o oculto não pode ficar de fora.

5.7 Numerologia como tradutora Muitos me questionaram sobre o uso da Numerologia em um trabalho acadêmico,


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mas, honestamente, não vejo nada de errado. Ainda que neste caso não seja uma experiência científica, há quem pense que academia e religião não deve se misturar, quiçá ciência. A discussão é antiga, mas vou resumi-la com uma frase famosa atribuída a Albert Einstein: “Ciência sem religião é paralítica. Religião sem ciência é cega”. A Numerologia é vista hoje como uma ciência oculta. “Ciências ocultas” é um ou mais conjunto de teorias e práticas que não utiliza as metodologias científicas e busca desvendar os segredos da natureza, do Universo e da Humanidade 17 . Segundo Costa Ribeiro (1999), a Numerologia é uma ciência oculta, porque os números, que são seus símbolos, ocultam muitos significados. Ela esclarece ainda que o mesmo ocorre com a Astrologia, com seus símbolos planetários e signos, e o Tarot com suas imagens pictóricas, entre outras tantas ciências ocultas (RIBEIRO, 1999, p. 6). A autora destaca ainda que nas ciências ocultas, por vezes o oculto está ligado a uma não-capacitação da explicação racional, científica, comprovada tecnicamente com a clareza de certos instrumentos concretos. Por isso, ela mesma frisa a importância do ser humano se compreender por inteiro, seja no racional, como no emotivo; no visível, como no invisível; e assim por diante. 17

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ocultismo , consultado em 27/12/2010


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Falando um pouco da história da Numerologia, apenas para contextualizar de onde vem esses significados, não se sabe ao certo a origem dela, sabe-se apenas que esta ciência oculta vem sendo relatada há milhares de anos. Antigos gregos, romanos, egípcios e chineses utilizaram da Numerologia. Além disso, ela se mistura com outras ciências ocultas, como o Cabala, o Tarot e a Astrologia. Seu grande mestre é Pitágoras. Ainda que não se tenha nenhum registro deixado por ele, pois para ele o conhecimento tinha de ser memorizado e não decorado, a ponto dele não permitir que se fizessem anotações durante as aulas que dava a seus seletos alunos18, muito do que ele ensinou foi repassado através dos anos, de pessoa para pessoa oralmente, até chegar a grandes filósofos, como Platão, que utilizou os ensinamentos de Pitágoras em seu livro A Replública19 . A escolha da Numerologia foi inicialmente motivada por ser ela quem se adéqua melhor à minha necessidade de traduzir palavras em números a fim de facilitar o processo, porém, conforme fui estudando e me aproximando desta ciência, percebi que a Numerologia não é formada apenas de previsões. Ao contrário do que é comumente associada, comercializada e utilizada editorialmente – seja em reportagens de final de ano, seja em livros de numerólogos famosos – a 18

Segundo Ribeiro, “as aulas [de Pitágoras] eram todas memorizadas, não podiam ser anotadas [...], e assim os alunos eram treinados e selecionados pela habilidade de atenção e percepção” (RIBEIRO,1999, p. 16). 19 Fonte: RIBEIRO, 1999, p. 18


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Numerologia tem um foco muito maior na essência da pessoa do que na previsão do seu futuro. Por exemplo, o número mais importante de um mapa numerológico é o número do Destino, que corresponde à soma dos algarismos da sua data de nascimento completa. Ainda que o nome indique uma previsão, para a Numerologia, o Destino – assim, com “D” maiúsculo para diferenciar de “destino”20– indica aquilo que a pessoa realmente é, o foco de sua existência. A Numerologia busca mostrar as características que as pessoas carregam a fim de que elas se conheçam melhor e, a partir deste conhecimento, consigam promover o positivo e se afastarem do negativo de cada característica, alcançando assim uma vida mais harmoniosa e mais bem sucedida. É isso que a Numerologia busca. E não um simples adivinhamento ou previsão. Este olhar para o auto-conhecimento traz à obra um aspecto de espelho. Ao converter as respostas das pessoas em números e traduzí-las utilizando a Numerologia, busco mostrar a elas os passos que estas respostas indicam que elas dão no seu dia-dia. E a partir dessa "amostragem" - assim digamos, gerar uma reflexão sobre como sua caminhada está sendo conduzida. Esta inclinação da Numerologia para o auto-conhecimento, me fez ter a certeza de que eu fiz a escolha 20

Segundo Ribeiro, o Destino na Numerologia é escrito com letra maiúscula para se diferenciar do “destino” usado no cotidiano. (RIBEIRO, 1999, p. 109)


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certa. Escolha porque há outras ciências que também trabalham com a tradução de letras em números, como a Cabala. Inclusive existem várias tabelas para guiar essa tradução, como a Tabela dos Caldeus, Tabela da Cabala e Tabela do Tarô Numerológico. Entre tantas opções, optei pela Tabela de Pitágoras. Como explica Ribeiro (1999), a Tabela de Pitágoras é a mais comum, mais fácil, mais popular e mais moderna para este tipo de tradução. "[A Tabela de Pitágoras] Tem sentido prático e objetivo, de desenvolvimento pessoal. Conscientiza a pessoa no mundo, portanto potencializa seu efeito no mundo externo, mas com envolvimento no mundo interno.” (RIBEIRO, 1999, p. 23)

Figura 2 – Tabela Pitagórica Valores das Letras Além da escolha pela Tabela de Pitágoras, optei também por considerar apenas os


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números de 1 a 9. A escolha foi feita por sua relevância, são estes os números principais para a Numerologia. Números como 11, 22, 33 e outros, carregam significados muito específicos ao seu contexto, o que poderia confundir e atrapalhar na identificação entre interator e seqüência de vídeo. Na Numerologia, cada número carrega características neutras, positivas e negativas. De acordo com diversas associações e análises feitas durante a elaboração do mapa numerológico, além do diálogo com a pessoa analisada, percebe-se qual característica está mais sobressalente daquele número em cada situação específica. Uma pessoa pode aproveitar tanto as características positivas como as negativas, tudo vai depender de como ela vai se desenvolver na sua vida. Por se tratar de uma análise mais superficial, sem um aprofundamento nas características do interator, os vídeos que representam cada número de 1 a 9 foram baseados nas idéias neutras de cada algarismo. Assim, obtenho uma característica genérica da resposta da pessoa. É uma forma de identificação entre interator, resposta e vídeo. Para guiar as gravações dos vídeos, elaborei uma lista simples com as principais características de cada número. A partir desta lista, fiz os roteiros de cada vídeo.


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Segue a lista com os números e seus respectivos significados abaixo 21: 1 → É o impulso criador a iniciativa, a força consciente, participação ativa, maestria. É a máxima "eu alcanço o que quero". 2 → Simboliza o outro, a alternativa desejável, o pólo oposto que atrai, a liberdade de decisão, mas também a ambivalência, a dúvida, o antagonismo, a indecisão. É o lema "eu recebo". 3 → Tradicionalmente é o número divino, da trindade santa, é o novo ("tudo o que é novo sempre surge como o terceiro elemento da unificação dos opostos"); é a esperança, o sorriso, a criatividade, a natureza. É o lema "eu gero". 4 → É o símbolo da realidade terrena, é também o símbolo da nossa ordem de tempo e espaço; é considerado o número do poder, é o concretizador, o que coloca em prática (terra) os desejos (água), as idéias (ar) e as intenções (fogo), tornando-as realidade. Representa ordem e continuidade. Lema: "eu concretizo". 5 → É o sentido22 da realidade; representa a essência, o significado e o sentido que estão ocultos na criação; é o símbolo da perfeição. Lema: "eu creio".

21 22

Fontes: BANZHAF, 2006; e RIBEIRO, 1999. É interessante observar que a palavra "sentido" significa "direção" em várias línguas. (BANZHAF, 2006, p. 58)


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6 → É a unificação dos opostos, simboliza a união do divino com o terreno, é um movimento que sai de si e gera algo a partir de si mesmo. Lema: “eu amo”. 7 → É o número da plenitude, da perfeição, significa o todo ou simplesmente muito 23. Lema: eu ouso. Máxima: eu me alegro pelo novo que virá. É a pessoa que sabe onde quer chegar. 8 → É o número do equilíbrio, da justiça, da renovação. Ele é a fronteira, o elo, o intermediário para uma esfera ou um mundo melhor, maior ou mais elevado. É o recomeço, é o tempo e a eternidade juntos (infinito), é liberdade, é o despertar da consciência, é o equilíbrio. Lema: eu assumo a responsabilidade. 9 → É o número da iniciação e do recolhimento antes de se dar um passo para o novo, é um caminho de fora para dentro, é um numero de preparação, simboliza o tempo de concentração antes de darmos um passo definitivo. O recolhimento é para se auto-conhecer melhor. Tem também o significado da solidão, do isolamento, mesmo perto de outras pessoas. É um guia da seqüência certa dos passos a serem tomados. Lema: eu vou ao fundo das coisas.

5.8 Vídeo-instalação como dinâmica 23

Como já foi dito, percebemos até 6 flores só de olhar, a partir de 7 sabemos simplesmente que são muitas. (BANZHAF, 2006, p. 72)


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Unindo cada um dos elementos descritos acima, temos a vídeo-instalação interativa “Pra onde vai o que fica pra trás?”. Não imaginava que uma poesia feita com a única pretensão de desabafar pudesse gerar tudo isso, mas dada a multiplicidade das reflexões despertadas, vejo como natural chegar a um suporte tão amplo como este. O fato de este trabalho ser uma vídeo-instalação é uma conseqüência e não um objetivo. Foi algo que simplesmente gerou-se através de combinações entre os vários suportes. Utilizo a dinâmica parecida com a de uma vídeo-instalação, em que a pessoa entra em uma sala escura, onde um vídeo é projetado. A diferença é que desta vez, além da projeção de um vídeo, tem um computador no meio da sala. O computador, que pode ser tanto um notebook ou um desktop, serve aqui para intermediar a interação do espectador e a obra. Neste momento da interação, ele se torna interator e também autor da obra. Incluir a participação para gerar a reflexão em cada um e cada um gerar uma nova obra. Portanto, só é possível chamar de “obra” a totalidade da relação traçada entre a instalação de equipamentos condicionados à realização da obra, o espaço em que ela se insere e o espectador, que não está do lado de fora da obra, mas sim dentro dela, sem o qual nada se realiza. “De fato, se fosse possível resumir em uma só palavra a condição da cultura


46 digital, não poderíamos fugir da palavra hibridez. Sob o signo da interconexão, da inter-relação entre homens em escala planetária, da obsessão pela interatividade, da interconexão entre mídias, informações e imagens dos mais variados gêneros, a cultura da atualidade vai se desenhando como um grande caleidoscópio.” (ARANTES, 2005, p.52)

O desenho abaixo ilustra como pretende ser a instalação da obra em dois cenários, o cenário perfeito de uma sala para exposição individual (Figura 3) e o cenário no contexto de uma exposição coletiva (Figura 4).

Figura 3 – Simulação de uma exposição individual


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Figura 4 – Simulação de uma exposição coletiva

Figura 5 – Simulação da exposição no prédio de Multimeios do curso de


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Comunicação Social. Ou seja, em resumo, utilizarei os seguintes recursos: •

Sala com iluminação voltada para projeção do vídeo;

Sistema de projeção e áudio para a exibição do vídeo;

Computador para que as pessoas possam interagir;

Fone de ouvido para que a pessoa ouça o áudio do vídeo

gerado por ela; •

Uma pessoa para monitorar e orientar a interação do espectador

com a obra.

5.9 Interator como resposta Uma obra aberta a modificações e contribuições do usuário, é uma obra cuja textualidade não pode ser considerara um sistema fechado de signos, ela é uma ação em devir. E mesmo que a interação do usuário seja limitada a algumas possibilidades, não há como prever o resultado.


49 “[...] o usuário interage com o sistema segundo possibilidades que são préordenadas e definidas; o resultado da interação, porém, não é totalmente previsível.” (BETTETINI, 2008, p. 70)

Isto ocorre na vídeo-instalação “Pra onde vai o que fica pra trás?”. Há uma possibilidade limitada de interação com o usuário, porém o resultado é sempre inesperado. Pode, inclusive, dar “erro”, quando a atitude é tão inesperada que o programa simplesmente não sabe como reagir e trava. E tudo deve ser considerado. Bettetini complementa: “Poderemos dizer, então, que, à diferença dos textos audiovisuais tradicionais, o projeto do enunciador – que neste caso coincide com as potencialidades do sistema – é apenas condição necessária, mas não suficiente para a realização do projeto. Estas novas tecnologias jogam com a dialética entre as possibilidades oferecidas pelo sistema e a integração criativa do usuário.” (BETTETINI, 2008, p. 71)

Sem a interação do espectador não há obra, não há seqüência de vídeo, não há nada. Estou ciente do risco que corro em deixar a efetivação da obra na mão do espectador, mas não vejo a vida sem este risco, pois a toda hora confiamos a nossa vida nas mãos de alguém – seja do motorista do ônibus, do piloto de avião, ou de quem anda ao nosso lado no trânsito – , é necessário confiar nas pessoas para se conseguir manter de pé e caminhar. E se a nossa caminhada não vai para o lado


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que queremos, será que estamos dando a mão às pessoas certas ou será que não estamos mais confiando nas pessoas? Confio a finalização do trabalho de um ano ao interator, na torcida de que ele faça bom proveito e me guie para caminhos diferentes a cada palavra.

5.10 Estética como sensibilidade Como este projeto carrega muitas características estéticas, me atrevo a falar um pouco sobre o assunto, apenas comentando leituras que fiz a respeito e que servem para delinear a estética envolvida na obra “Pra onde vai o que fica pra trás?”. Por ser uma obra que busca resgatar a sensibilidade das pessoas em meio a tanta correria, é válido o resgate também do conceito estético, da origem da palavra, que deriva do grego aisthesis, e que, por sua vez, traz como significado “aquilo que é sensível e deriva dos sentidos” (ARANTES, 2005, p. 155). Outro conceito estético interessante, ainda que o conheça somente superficialmente através de breves citações em livros utilizados na bibliografia, é o de Kant, que diz que o objeto estético é definido muito mais pelo sentimento por ele causado no sujeito que o percebe do que por suas qualidades intrínsecas.


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Arantes explica que “Com a expansão das práticas artísticas em mídias digitais, principalmente após a década de 1990, tem havido um interesse crescente por parte dos teóricos no desenvolvimento de novos conceitos estéticos que possam expressar as especificidades da cultura digital. É possível perceber que, se existe algo em comum entre todos esses discursos, é o caráter fluido, parafraseando Marcos Novak, da estética digital. Isso quer dizer que, em vez de implicar um único conceito, a estética contemporânea tem sido analisada sob diversos pontos de vista, que, em uma espécie de caleidoscópio, parecem entrecruzar-se, formando uma grande rede conceitual.” (ARANTES, 2005, p. 168 e 169)

Segundo Arlindo Machado (2008), uma escritura múltipla como a proposta aqui, em que texto, vozes, ruídos e imagens simultâneas se combinam e se entrechocam para compor a obra, constitui aquilo que se convencionou chamar de uma estética da saturação, do excesso e também da instabilidade. Esta multiplicidade, por sua vez, leva a um outro conceito já famoso na estética: o barroco. O estilo consagrado por Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, agora vem em nova versão, denominada de “segundo barroco” ou “neobarroco”. Definida como uma “tendência geral da arte e dos meios contemporâneos caracterizada pela recusa das

formas

unitárias

e

sistemáticas

e

pela

aceitação

deliberada

da


52 pluridimencionalidade, da instabilidade e da mutabilidade como categorias produtivas no universo da cultura.” (MACHADO, 2008, p. 75)

Estudiosos como Severo Sarduy, afirmam que o barroco “está sempre associado a momentos de crises epistemológicas, quando valores perenes – principalmente no campo da astrofísica – em que se baseavam os sistemas políticos, as crenças e as religiões são abalados por novas descobertas, como a não-centralidade da Terra no sistema solar, a relatividade do tempo e do espaço ou da efemeridade do universo. O barroco é expressão de momentos em que falta à humanidade solo firme para pisar.” (SARDUY, apud MACHADO, 2008, p. 75)

Finalizo esta breve conceituação com o pensamento de Vattimo (VATTIMO, apud ARANTES, 2005, p.164). Para ele, a estética se propaga de tal maneira que ultrapassa as fronteiras da arte tradicional e se confunde com a própria experiência da vida cotidiana.

6. Sentido que virá: invente um novo resultado


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Este projeto aborda direta e indiretamente diversos temas contemporâneos. São temas sobre o tempo, a sociedade, as imagens técnicas, a estética, a arte contemporânea, o capitalismo, as novas tecnologias, análise do uso destas tecnologias, a poesia, o texto, a linguagem, a comunicação, a numerologia, as correntes escolhidas, as mensagens subliminares das imagens, do texto e do áudio, etc. "Pra onde vai o que fica pra trás?" me pegou de surpresa e ecoa em minha vida há alguns anos. Ainda não entendi tudo o que esta obra quer me dizer, mas mesmo assim tento repassar algo que entendi para o mundo. Mais do que tudo, este projeto é um grito e uma pausa. Um grito que mesmo depois que é escutado, fica martelando na cabeça, uma palavra aqui, outra ali. Uma pausa, aquele instante necessário pra vir uma nova idéia, pra surgir uma lembrança, pra lembrar da vida. Deixo a obra aberta, com todas as suas sugestões e não-respostas, com muitos questionamentos não-resolvidos, com muitas análises não-feitas, para que outras pessoas possam complementar e agregar a este grito, a esta pausa, a este caminho. "Pra onde vai o que fica pra trás?", por mais que tente falar do passado, é um projeto pro futuro, é pra todos os lados. Cabe ao receptor, da obra ou deste memorial, escolher qual lado seguir. Seja qual for, posso ir contigo?


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7. Sentidos anexos: deixe pedaços de fora 7.1 Poesia Pra onde vai o que fica pra trás? vá, ande, caminhe. olhe pro céu, olhe pro chão, contraste, estranhe. caminhe! caminho se faz and ando. mas pára! olhe por onde. entendimento se faz olh ando. mas pára! feche os olhos. veja. pensamento se faz ima


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gin ando. mas pára! volte. caminhe de costas, veja de um outro ângulo. veja que esquisito, se esquisite , se inquiete, se perceba de costas, tropece, caia nos seus limites. mas pára! veje sua ferida. sangue, dor, reação biológica, febre. sinta ANTES de ver. veja sent indo. imagine. seja livre. dor não é só dor. amor também dói. mas pára! esquece a ferida, a dor. não, não não não NÃO ESQUEÇA, mas sorria. veja novas possibilidades. quebre, desconstrua os seus costumes. mas pára!


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vire 36 graus e meio. dê cinco passos e 25 por cento . interrompa. esqueça o cálculo. erre a conta. invente um novo resultado. viva esse erro tão querido. quebre. deixe pedaços de fora. remonte esta morte. e então caminhe, e viva par ando.

7.2 Imagens a) Imagem da mensagem inicial.


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b) Imagem ilustrativa do programa que faz a interação com o usuário.


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c) Imagens prĂŠvias do programa funcionando, mostrando o vĂ­deo de acordo com a resposta da pessoa.


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7.3 Áudio Os

áudios

da

obra

encontram-se

disponíveis

para

download

em

http://www.4shared.com/dir/ESCh3cwT/pra_onde_vai_o_que_fica_pra_tr.html

8. Sentidos bibliográficos

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ARANTES, Priscila. @rte e mídia: perspectivas da estética digital. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2005. BETTETINI, Gianfranco. Semiótica, computação gráfica e textualidade. In: PARENTE, André (Org.). Imagem máquina: a era das tecnologias do virtual. 3ª ed. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993. p. 65-71. LYOTARD, Jean-François. Algo assim como: comunicação... sem comunicação. In: PARENTE, André (Org.). Imagem máquina: a era das tecnologias do virtual. 3ª ed. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993. p. 258-266. 24

Bibliografia utilizada neste trabalho.


64

MACHADO, Arlindo. Arte e mídia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. PLAZA, Julio. As imagens de terceira geração, tecno-poéticas. In: PARENTE, André (Org.). Imagem máquina: a era das tecnologias do virtual. 3ª ed. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993. P. 72-88. RIBEIRO, Anna Maria Costa. Conhecimento da numerologia: o mais completo manual de interpretação. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1999. Tradução de Thaïs Balázs. 1ª ed. São Paulo: Pensamento, 2009. SANTAELLA, Lucia. Por que as comunicações e as artes estão convergindo?. 3ª ed. São Paulo: Paulus, 2008. SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 18ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.

9. Sentidos referenciais

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BAUMAN, Zygmunt. A arte da vida. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009. 25

Outras referências que ajudaram a compor esta obra.


65

BEIGUELMAN, Giselle. Link-se – arte/mídia/política/cibercultura. São Paulo: Peirópolis, 2005. GOSCIOLA, Vicente. Roteiro para as novas mídias: do cinema às mídias interativas. 2ª ed. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2003.

e então caminhe, e viva parando.


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