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JORNAL

ENFERMAGEM E O CIDADÃO Secção Regional do Centro da Ordem dos Enfermeiros

Out/Nov/Dez de 2012 | ANO 10 | N.º 32

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DOENÇA CRÓNICA DESAFIOS E PISTAS PARA VENCER

2 Editorial 3 Esclerose Múltipla: Ser doente, Viver com a doença (parte I)

5 Os riscos de desidratação na pessoa com demência 6 Doença de Parkinson… uma nova esperança! 8 Acidentes na infância - queimaduras 9 Quando o esquecimento vai para além de um simples lapso

10 Afinal o que apareceu primeiro, o Ritmo ou a Melodia? Dia Internacional da Música 12 O Enfermeiro de Reabilitação 13 Doenças cardiovasculares, uma prioridade em saúde pública 14 Alzheimer: 11 Filmes 16 Dia Mundial da Saúde Mental

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Editorial

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”(RE)APRENDER”

Aprender com a doença... Segundo a Organização Mundial de Saúde, as doenças vasculares, o cancro, as doenças respiratórias e diabetes, são as principais causas de morte no mundo, sendo responsáveis por 63% das mortes. As doenças crónicas são doenças de longa duração e geralmente de progressão lenta. Estas caraterísticas requerem uma constante adaptação e vigilância das transformações ou sequelas que provocam ao indivíduo. Ninguém duvida que as doenças crónicas o serão para toda a vida, mas condenamos a atitude de resignação perante a sua presença. Será o muito que se faz que define a forma como as pessoas (con) vivem com as suas doenças, evitando manifestações ainda mais penosas e um agravamento mais rápido. Talvez porque vivemos na sociedade da intensidade e da perfeição se defina saúde nestes termos: corpo a funcionar na sua plenitude e sem problemas. Constrói-se desta forma um parâmetro da normalidade que, não raras vezes, segrega e rotula indivíduos fora do padrão estipulado, o que traz riscos para um doente crónico. Por um lado este pode desvalorizar a sua própria doença para se aproximar da normalidade, não adotando medidas preventivas, o que aumenta o risco de sequelas. Por outro lado, pode sobrevalorizá-la, limitando a forma como vive. O conceito de ser saudável não deve emergir de um processo de comparação coletiva mas de uma construção individual de adaptação à própria doença. Considerar esta perspetiva coloca um grande desafio à enfermagem: a exigência de se afirmar e evoluir nas suas competências. A enfermagem não se restringe ao processo de cura, onde cabem o acompanhamento de um quadro clínico traçado e um esquema terapêutico prescrito. No caso específico das doenças crónicas é exigido ao enfermeiro que leve a sua atuação para além da vigilância e da intervenção em complicações. Exige-se que o enfermeiro reabilite.

Ficha Técnica

Poderá parecer contraditório afirmar-se a importância de reabilitar o que é crónico, mas não o é. A reabilitação é também um processo através do qual o indivíduo se adapta à sua nova condição. Mais do que falar em potencial de recuperação, será mais adequado, neste contexto, falar-se de potencial de adaptação. No quadro das doenças crónicas faz parte das competências do enfermeiro, de forma autónoma, a promoção do processo de autonomia e a construção de um novo conceito de ser saudável ao indivíduo com doença crónica. Mais do que ganhos indivíduais, reabilitar traduz ganhos em saúde, porque conduz e acompanha, continuadamente, o indivíduo na construção do seu próprio conceito de normalidade, levando-o a adotar medidas preventivas e estratégias para contornar limitações. Reabilitar faz com que o indivíduo fique menos exposto a complicações e vulnerável a mecanismos de dependência, o que gera: maior autoestima, maior autodefesa e maior autonomia. Reabilitar no âmbito das doenças crónicas é um processo contínuo, porque a cada momento haverá sempre algo a fazer para conduzir o indivíduo ao potencial máximo de adaptação, apresentando-se assim como um desafio a vencer pelos doentes e pelos enfermeiros. Enf.ª Isabel de Jesus Oliveira Presidente do Conselho Diretivo Regional Secção Regional do Centro – Ordem dos Enfermeiros

Diretor Isabel Oliveira • Coordenador Diogo Brandão; Pedro Quintas • Conselho Editorial Hélder Lourenço; Carina Rebelo; Nelson Odilon; Renato Assunção; Pedro Quintas; Diogo Brandão; Aldiro Magano • Colaboração Especiais Rúben Duarte Fernandes; Olívia Gomes; Paulo Pereira; Ana Rodrigues Martinho; Olinda de Jesus Banaco; Carla Gomes; Patricia Quitério; Diogo Brandão; Carina Rebelo; Pedro Ferreira; Emanuel Baptista • Revisão Editorial Diogo Brandão; Pedro Quintas; Maria João Henriques • Redação e Edição Diogo Brandão; Pedro Quintas • Secretariado Liliana Reis • Morada Avenida Bissaya Barreto nº 185, 3000-076 Coimbra; Telf.: 239 487 810; Fax.: 239 487 819; E-mail: srcentro@ordemenfermeiros.pt • Fotografia PMP; Internet; Colaboradores Especiais; Enf. Nuno Sacramento • Maquetização, Produção PMP • Tiragem 3.000 Exemplares • Deposito Legal 178374/02 • Impressão PMP • Textos escritos ao abrigo do acordo ortográfico

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Falando Sobre...

Esclerose Múltipla: Ser doente, Viver com a doença (parte I) Rúben Duarte Fernandes Enfermeiro

A presente década tem registado uma atividade e interesse na Esclerose Múltipla (EM) sem precedentes (Murray, 2005), tornando-se num grande foco de investigação. Esta doença, enquanto crónica e de evolução imprevisível, necessita de um acompanhamento centrado na pessoa e respetiva família, de modo a proporcionar resposta adequada às dúvidas e dificuldades que vão surgindo e, é neste contexto que a enfermagem desempenha um papel fulcral na prestação de cuidados às pessoas com EM. Os profissionais de saúde deparam-se com o cuidar de pessoas confrontadas com a realidade de viver uma doença incapacitante autoimune, situação geradora de uma enormíssima tensão emocional, com um grande impacto na vida das mesmas e, geradora de uma série de respostas psicológicas e emocionais.

Muitas vezes, ao longo do processo, a pessoa sente uma perda de parte da sua entidade (o Eu), uma alteração da sua corporeidade, decorrente dos sintomas e que pode levar a que manifeste frustração, medo, abandono, irritação, recusa, apatia, não aceitação da realidade, insegurança, angústia, ansiedade, debilidade, enfim, um sem número de possíveis reações que também afetam quem cuida destas pessoas, na medida em que, como profissionais de saúde e como seres em relação, têm o dever e obrigação de estabelecer uma relação de ajuda, encetando um processo de readaptação à sua nova condição, centrado no que são as suas vivências. Conquistar a confiança, partilhar da sua intimidade, captar dificuldades quotidianas ao contactar com os familiares mais próximos, no fundo tornando-se amigos e confidentes. Assim se intercetam os primeiros sinais de Enfermagem e o Cidadão | 3


Falando Sobre... desânimo, que, muitas vezes, passam despercebidos a outros profissionais de saúde (Sá e Cordeiro, 2008). Trata-se, sobretudo, de um problema cujo grau de dificuldade em lidar com o mesmo é acrescido, a nível pessoal. Toda a pessoa é um ser único e, com cada uma, surge a necessidade de tentar descobrir formas de ultrapassar devidamente a situação (problema este que surge diariamente), o que não constitui tarefa fácil. Se muitas vezes parece que a equipa multidisciplinar de saúde consegue que a pessoa reaja a mais um surto e tratamento ministrado, sabe-se que é depois da sua alta, quando retoma o contacto com o seu ambiente natural que esta enfrenta as maiores dificuldades, os estigmas da patologia, as dificuldades inerentes à medicação, surgindo, assim, algumas questões: qual é o futuro destas pessoas? Como podemos minimizar o impacto da doença? Como vivem e lidam com o seu sofrimento? Não obstante, urge saber, através delas, quais são essas situações que mais afetam o seu bem estar, o possível restabelecimento e quais são os seus sentimentos enquanto pessoas em relação. Entende-se que só conhecendo o que essas pessoas sentem – consciente que cada pessoa é única – é possível tentar promover mecanismos de adaptação adequados. Ao admitir-se o sofrimento enquanto foco de cuidados, abrem-se as portas a um fenómeno abordado unicamente mediante emoções fortes, cuja referência à nossa condição humana de sofredores é inevi-

Toda a pessoa é um ser único e, com cada uma, surge a necessidade de tentar descobrir formas de ultrapassar devidamente a situação (problema este que surge diariamente), o que não constitui tarefa fácil.

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tável. A abordagem e auxílio deverá passar indispensavelmente por um envolvimento relacional exigente, para o qual é normal o profissional de saúde não se sentir profissional ou mesmo humanamente preparado (Gameiro, 1999). Prova disso é o paradoxo anexado ao vocábulo sofrimento, que quase não figura nos dicionários e livros técnicos das áreas da saúde, enfermagem, medicina e psicologia, sendo frequentemente substituído na terminologia profissional por termos mais objetivos, mas menos abrangentes, como dor, depressão, ansiedade e stress, mais fáceis de identificar e tratar, dando ao profissional a sensação de dever cumprido, ao passo que o sofrimento, em si, mantém-se “encoberto”, adiando-se a necessária relação de ajuda de envolvimento humano (idem, ibidem). O alívio do sofrimento é essencial enquanto preocupação ética dos profissionais de saúde, remonta aos primórdios da ciência médica (McIntyre apud Gameiro, 1999) e coloca questões importantes que requerem uma postura e competência que visam compreender a experiência do outro. Referências bibliográficas Gameiro, M. (1999). Sofrimento na doença. Coimbra. Quarteto. Murray, T. (2005). Multiple Sclerosis : the history of a disease. New York. Demos Medical Publishing. Sá, J. e Cordeiro, C. (2008). Coleção compreender a doença, N.º 7, Esclerose Múltipla. Porto. Ambar – Ideias no papel, S.A.


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Falando Sobre...

Os riscos de desidratação na pessoa com demência Olívia Gomes Enfermeira

A demência afeta as funções intelectuais da pessoa, caraterizando-se por uma perda importante da memória, alterações da personalidade e do comportamento social, perda da afetividade, desorientação espacial e temporal e incapacidade de resolver problemas. Para se diagnosticar uma demência, estes sinais devem persistir por mais de seis meses e serem suficientemente acentuados de forma a perturbar as atividades de vida diária. As pessoas que sofrem de demência são mais vulneráveis aos problemas de desidratação, quer pela sua perda de autonomia no plano cognitivo, porque se esquecem de beber e são incapazes de exprimir esta necessidade, quer pelo efeito dos psicotrópicos (medicamentos utilizados em doentes com perturbações mentais) ou pelas contenções físicas a que estão sujeitas. Por outro lado, à medida que se envelhece, a quantidade de água corporal diminui e a sensação de sede é menor. As causas de desidratação podem igualmente estar associadas aos diuréticos, laxantes, diarreia, vómitos, diabetes, diminuição da sede ou ao sobreaquecimento ambiental. É imp�������������������������������������������������� ortante relembrar que a água é o principal constituinte das células humanas, participa em todos os processos fisiológicos e bioquímicos do nosso organismo, permite a re-

gulação da temperatura corporal, é responsável pela eliminação de toxinas através da urina e do suor e, representa cerca de 95 % do plasma sanguíneo. Sem água não seria possível transportar o oxigénio e os nutrientes até às células do nosso corpo. O ser humano pode sobreviver bastante tempo sem alimentação, mas pouco tempo sem água. Em geral, o seu consumo não deve ser inferior a dois litros por dia, contudo varia em função da idade, sexo, massa muscular, tecido adiposo, metabolismo, atividade física, função cardíaca e renal e, da temperatura exterior. Cuidar de pessoas com demência exige prevenção e uma vigilância apertada, uma atenção particular dos cuidadores aos sinais de desidratação, nomeadamente a prega cutânea, a secura das mucosas (língua e boca), a letargia (apatia), a hipotensão (tensão baixa), a dificuldade de alocução (falar) e a confusão. Uma desidratação não tratada pode ser fatal e frequentemente está na origem do agravamento do estado confusional da pessoa, pois a água, pelas suas funções, não só ajuda a melhorar os processos cognitivos como favorece a boa disposição! Referências bibliográficas PHANEUF, Margot - O envelhecimento perturbado: A doença de Alzheimer. Loures: Lusodidacta, 2010. ISBN 978-989-8075-27-7. Enfermagem e o Cidadão | 5


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© Foto: www.parkinson.dk

Doença de Parkinson… uma nova esperança! Paulo Pereira Enfermeiro

A doença de Parkinson é provocada por uma alteração no funcionamento cerebral, uma perturbação degenerativa no sistema nervoso, do qual resultam sintomas como a rigidez muscular, o tremor e lentidão na iniciação de movimentos (Santos, 2012). Estas dificuldades anunciadoras da doença surgem na maior parte dos casos perto dos 60 anos e a sua incidência aumenta com a idade. O tratamento mais frequente inclui medicamentos com dopamina (mediador químico que falta no organismo e faz surgir a doença) ou, em estados mais avançados, a cirurgia (Santos, 2012). A doença de Parkinson, tratando-se de uma doença neurológica e degenerativa, que não apresenta uma cura na atuali-

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dade, confere ao portador da mesma uma limitação na qualidade de vida, que o impede de exercer uma função laboral na sua plenitude, com repercussão a nível psicossocial. Desde 2002 que no Hospital de São João no Porto se pratica uma técnica cirúrgica inovadora baseada na estimulação profunda do cérebro. A cirurgia consiste em colocar profundamente no cérebro dois elétrodos (um em cada hemisfério), em que cada um controla o lado oposto do qual está colocado. Os elétrodos vão depois provocar múltiplas pequenas descargas elétricas no núcleo profundo do cérebro, o núcleo subtalâmico. Os dois elétrodos estão ligados por cabos (que ficam debaixo da pele), a uma bateria, que funciona como gerador de corrente, colocada no tórax, abaixo da clavícula (figura 1). A bateria dura


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cerca de 5 anos. Esta técnica, designada Ativa DBS, resulta numa melhoria da qualidade de vida dos doentes, reduzindo cerca de 70% dos sintomas (Obeso, 2005). A cirurgia de Parkinson não é sinónimo de cura da doença, mas antes um tratamento que tem vindo a apresentar muito bons resultados em formas graves e selecionadas da doença (o grande tratamento continua a ser feito através de medicamentos, que permitem uma melhoria da qualidade de vida durante muitos anos). A cirurgia está indicada para as formas do Parkinson que são resistentes à medicação, ou em casos em que os doentes não podem tomar os medicamentos por efeitos laterais. Estas formas mais graves constituem cerca de 5-10% dos casos (Associação Portuguesa de Doentes de Parkinson). Uma das grandes vantagens desta nova cirurgia é a de não lesar o tecido nervoso, e ser uma técnica reversível (se o doente não estiver bem, pode-se desligar a estimulação). A regulação de intensidade das descargas é também um ponto a favor porque o estímulo elétrico não é uniforme nos doentes e nas formas da doença, uma vez que há um pequeno aparelho que se encosta à bateria situada sob a pele no tórax e permite regulá-la (Obeso, 2005). Tarefas simples para o doente como virar-se na cama, lavar-se, vestir-se e sair de casa, fazer uma vida quase normal e independente, são o principal resultado deste tratamento. Mais do que falar sobre esta patologia, posso dizer que já a vivi, uma vez que o meu pai é doente parkinsónico há mais de 14 anos. Numa fase inicial os sintomas não se manifestavam com tanto vigor, devido ao efeito da medicação e portanto não havia grandes modificações na sua qualidade de vida. Desde há 5 anos que os sintomas como os tremores e por outro lado a rigidez muscular se acentuaram e daí para a frente a sua qualidade de vida sofreu uma drástica mudança. O tratamento médico, que até agora era eficaz revelou-se infrutífero, face à evolução constante da doença e assim deixou de poder exercer a sua função laboral, começando a isolar-se no seio familiar e a limitar a sua interação social. Nesta altura, posso confessar que fui embutido de um sentimento de frustração, uma vez que queria ajudá-lo a ultrapassar esta dura etapa na sua vida, mas nada do que fazia era suficiente para minorar todos estes sintomas que o afetavam física e psicologicamente. Foi já numa fase em que não havia grande esperança, que o neurologista que o seguia, falou-me de uma cirurgia inovadora que se faz no Hospital de São João no Porto e com bons resultados na atenuação dos sintomas. De imediato, tentei arranjar o contato da neurologista responsável pela cirurgia e no espaço de um mês o meu pai teve consulta, passadas 2 semanas foi internado para fazer uns testes de avaliação, para saber se reunia as condições necessárias para ser submetido a cirurgia e no espaço de 2 meses foi operado. Trata-se de uma cirurgia delicada, com 7/8 horas de duração em que o doente se encontra acordado e desempenha um papel ativo na eficácia da cirurgia, uma vez que à medida que se coloca os elétrodos

este vai respondendo a estímulos externos provocados pela neurologista. Volvidos 4 meses, posso dizer que tenho um “pai novo”, mais independente, com mais autoestima, com vontade de fazer e de viver. Sei que não vencemos a guerra com a doença e que a todos os segundos esta evolui, mas conseguimos ganhar tempo, tempo precioso, que nos vai ajudar a ganhar forças e vontade de lutar para enfrentar todos os desafios que o futuro nos reserva. Aproveito esta oportunidade para agradecer a toda a equipa multidisciplinar do Hospital de São João (Médicos, Enfermeiros e Assistentes Operacionais), por tudo o que fizeram e pela vida nova que deram ao meu pai. E claro também quero agradecer a ti, meu pai, pela forma lutadora e corajosa como encaraste este desafio.

Fonte: revistagalileu.globo.com

Figura 1 – Ilustração da colocação dos elétrodos e respetiva bateria. Referências bibliográficas Associação Portuguesa de Doentes de Parkinson – Viver com Parkinson, Cirurgia de Parkinson – DBS [em linha]. [consult. 20 de setembro de 2012]. Disponível em www.parkinson.pt. OBESO, J. A. [et al.] - Bilateral deep brain stimulation in Parkinson’s disease: a multicentre study with 4 years follow-up. Brain. Oxford. Vol. 128, nº10 (outubro, 2005), p. 2240-2249. SANTOS, Filipe Sobral Blanco Heleno – Alterações cognitivas e demência na doença de Parkinson [em linha]. Coimbra:2009. [consult. 20 de setembro de 2012]. Disponível em http://hdl.handle.net/10316/15914.

Contatos úteis: www.parkinson.pt www.hsjoao.min-saude.pt

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Acidentes na infância - queimaduras Ana Rodrigues Martinho Olinda de Jesus Banaco Enfermeiras

Todo o ser humano, percorre o ciclo de vida, utilizando diferentes estágios de mobilidade. Inicialmente somos crianças e apresentamos limitações, que não nos permitem avaliar ou percecionar o risco inerente ao nosso comportamento. Deslocamo-nos a correr, tudo é novo e diferente para nós tornando-nos em verdadeiros exploradores, em que a curiosidade natural sobre o que nos rodeia, nos impulsiona para situações de perigo. Os acidentes surgem, assim, na infância como uma importante causa de mortalidade e morbilidade em todo o mundo, ocupando “o 1º lugar nas causas de morte e incapacidade temporária e permanente em crianças e jovens” 2:46. As sequelas estéticas e funcionais, muitas vezes permanentes, e os custos económicos, pessoais, familiares e sociais levam a enquadrar este tipo de situação como sendo um grave problema, em termos de saúde pública, nos nossos dias 2. Este é um assunto socialmente preocupante na população portuguesa, sendo fundamental despertar consciências que promovam o desafio de criar estratégias que visem a prevenção de acidentes em crianças. As autoras, sendo mães e enfermeiras, sentem a necessidade de ajudar na consciencialização desta temática. Ao longo destes anos algumas crianças, vítimas de lesões por queimadura, foram alvo dos nossos cuidados. E a inquietação e indignação são sempre as mesmas. As queimaduras são situações frequentes de acidente na infância, sendo consideradas a 2ª causa de morte acidental em crianças, com menos de cinco anos 2. Acarretando muitas vezes traumas psicológicos intensos e alterações funcionais e da imagem importantes, são muitas vezes esquecidas nas campanhas de prevenção que se realizam. Daí, sentirmos necessidade de relembrar este assunto de forma a educarmos para a segurança, convictas que, pais, educadores e profissionais de saúde ficarão mais despertos. A sensibilização e consequente mudança de comportamentos dos pais e educadores passa pelo cumprimento de algumas normas preventivas que poderão fazer a diferença entre o prevenir e o remediar. Há que apostar em campanhas atrativas para as crianças, recorrendo aos meios de comunicação social e aprovar leis que diminuam os riscos e penalizem o seu não cumprimento. Portugal conseguiu melhoras significativas na tomada de medidas para a segurança de crianças e adolescentes 3, no entanto, há ainda um longo caminho a percorrer em relação à introdução, implementação e cumprimento de políticas que promovam a prevenção de acidentes nomeadamente, queimaduras. Medidas simples, como as que apresentamos de seguida, fariam a diferença na prevenção a acidentes por queimadura 3: • Legislação que imponha uma temperatura para prevenção de queimaduras (que não ultrapasse os 50ºC) a instalar nas torneiras de água quente das habitações; 8 | Enfermagem e o Cidadão

• Regulamento de construção que imponha a instalação de detetores de fumo funcionais em todas as casas particulares; • Política nacional que determine a venda de cigarros com propensão de ignição reduzida; • Legislação que imponha a utilização de tecidos que retardem a propagação da chama no vestuário de dormir das crianças; • Estratégia nacional aprovada pelo Governo, com objetivos e prazos específicos em relação à prevenção de queimaduras em crianças e adolescentes; • Programa nacional de visitas domiciliárias a famílias com crianças que inclua a educação sobre a prevenção de queimaduras/escaldões em crianças; • Campanha institucional nos meios de comunicação sobre a prevenção de queimaduras em crianças e adolescentes. “É imperativo que a sociedade garanta a segurança das crianças como um direito humano fundamental”. 4:1 Referências bibliográficas 1 APSI - Vale a pena crescer em segurança: evitar os acidentes no primeiro ano de vida 9ª ed. Lisboa: APSI, 2010. ISBN 978-972-95995-8-3 2 GOMES, Dora – Prevenção de acidentes na criança e no jovem. Saúde infantil 32:1 (Abr. 2010) 46-48 3 MACKAY M. e VINCENTEN J. - Child Safety Report Card 2009 – Relatório de Avaliação sobre Segurança Infantil �������������������������� Portugal. Amsterdam: European Child Safety Alliance, Eurosafe; Abril 2009. [Consult. 12 Set. 2012]. ���� Disponível em WWW:< http://www.apsi.org.pt/24/portugal_brochura_16pgs. pdf>.ISBN: 978-90-6788-403-7 4 PORTUGAL. Ministério da Saúde – Programa Nacional de Saúde Escolar: Avaliação das condições de Segurança, Higiene e Saúde dos Estabelecimentos de Educação e Ensino Nº12/DSE. Lisboa: DGS, 2006. [Consult. 10 Set. 2012]. Disponível em WWW:<http://www.dgs.pt/upload/membro.id/ ficheiros/i008418.pdf>


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Todos os Dias são Dias

Quando o esquecimento vai para além de um simples lapso Carla Gomes Patrícia Quitério Enfermeiras

Quantos de nós já nos esquecemos de alguma coisa na vida? De pagar a conta da água dentro do prazo estabelecido, de ir buscar os filhos à escola à hora combinada, do sítio onde arrumamos aquele trabalho importantíssimo, do local onde deixamos as chaves de casa… e quantos de nós já dissemos “a minha memória já não é mais a mesma”? Faz parte da vida, e atendendo à conjetura socioeconómica vigente de “crise”, que nos obriga a concentra-mo-nos noutras prioridades, é natural que a nossa memória fique comprometida. Sabemos que com o envelhecimento as nossas faculdades cognitivas ficam afetadas. Mas nem sempre é assim… nem sempre o esquecimento representa um simples lapso… quando não nos lembramos do caminho para casa, quando deixamos de reconhecer os nossos familiares, quando não reconhecemos aquela cara que vemos no espelho e que afinal ela não é mais do que o nosso reflexo. Muitas das vezes as alterações cognitivas devem ser valorizadas, pois poderão ser indicativas de patologias que vão comprometer seriamente a nossa vida e a daqueles que nos rodeiam, sobretudo dos nossos entequeridos. É neste contexto e no sentido de dar visibilidade à doença de Alzheimer que surge a presente reflexão, atendendo a que dia 21 de setembro foi o dia mundial da pessoa com doença de Alzheimer e a divulgação de informação revela-se fulcral na melhoria da qualidade de vida destes doentes. Assim, a doença de Alzheimer é a patologia neurodegenerativa mais frequente nos idosos. Contempla consequências que no inicio se revelam insignificantes, mas que com a evolução da patologia podem mostrar-se drásticas. No princípio são pequenos esquecimentos, aceites pelos familiares como fazendo parte do processo natural de envelhecimento, mas com o tempo estes vão-se agravando progressivamente e tornam-se preocupantes quando afetam o quotidiano da pessoa. A perda de memória pode condicionar de muitas maneiras a vida diária, conduzindo a problemas de comunicação, riscos de segurança e problemas de comportamento. As pessoas com doença de Alzheimer tornam-se confusas, com alterações de personalidade e distúrbios de conduta. Com a progressão os doentes tornam-se dependentes de terceiros, iniciam-se as dificuldades de locomoção, inviabiliza-se a comunicação, há necessidade de supervisão e cuidados permanentes mesmo para as atividades de vida diária, tais como a higiene, o vestuário e a alimentação. A abordagem destes doentes implica uma equipa multidisciplinar, na qual se insere o enfermeiro especialista de Reabilitação de importância particular. O Enfermeiro de Reabilitação vê o doente como um todo e não como a soma das suas partes, valorizando as capacidades remanescentes, sendo capaz de delinear um plano onde as diversas dimensões do indivíduo são contempladas e estimuladas: dimensões físicas, psicológicas, cognitivas e sociofamiliares. Na dimensão física este ajuda

e orienta o doente a realizar exercícios e atividades que potenciem a sua locomoção, tais como exercícios que conservem ou aumentem a força e resistência muscular, que potenciem o equilíbrio, que facilitem o caminhar, a transferência cama – cadeira e a mastigação/deglutição que numa fase mais tardia da doença começam a ficar afetadas. Mas não só, também o ajuda a tornar-se independente noutras atividades que realiza diariamente, tais como o vestir-despir, a alimentação, a higiene e a continência urinária e intestinal. Tal como já mencionado, a parte cognitiva também tem que ser arduamente trabalhada de forma a atrasar a evolução da doença. Assim, o enfermeiro de Reabilitação estimula o doente a realizar exercícios que maximizem a memória, a atenção, a linguagem, o raciocínio, etc. Na dimensão sociofamiliar o enfermeiro de reabilitação auxilia a família a reajustar-se de forma a estimular a pessoa, afasta-a ainda de perigos, mas permite-lhe a máxima integração no seio familiar/ sociedade. É ainda um elo de ligação com a restante equipa de saúde. Em suma, a doença de Alzheimer pode ser devastadora, mas uma abordagem adequada minimiza as suas limitações e amplia a qualidade de vida do doente e da família, os quais só ficam a ganhar se usufruírem dos cuidados do enfermeiros de Reabilitação. Referências bibliográficas Alzheimer Portugal: trabalho preparatório para a conferência “doença de alzheimer: que políticas” – Outubro de 2009.

Sabia que? Na Europa são mais de 7,3 milhões de pessoas com demência, prevendo-se que estes números deverão duplicar nas próximas 3 décadas. O que significa que em 2040 teremos 14 milhões de europeus com demência, isto é, o correspondente a cerca de 150% do total da população portuguesa atual. Enfermagem e o Cidadão | 9


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Afinal o que apareceu primeiro, o Ritmo ou a Melodia? Dia Internacional da Música Diogo Brandão Enfermeiro

“do ritmo e do som, a música atinge a motricidade e a sensorialidade; e, por meio da melodia, atinge a afetividade” Ducourneau (1984) Sou um curioso inato, com alguma frequência dou por mim a tentar dar uma resposta lógica a questões aparentemente insignificantes, uma delas, clássica, poderia ser: “ovo ou galinha?” o que apareceu primeiro? Mas hoje a atenção virou-se para a música portanto: “ritmo ou melodia? O que apareceu primeiro?”. A resposta à partida parece-me lógica, o ciclo vital do Homem é completamente envolvido por acontecimentos rítmicos, não fosse ele próprio um ciclo, basta sentirmos o bater do coração, pensarmos nos nove meses de gestação do Ser Humano, no dia e noite, na inspiração e expiração, na forma como caminhamos e contrabalançamos os braços em movimentos perfeitamente coordenados, num automóvel a trabalhar, enfim, 10 | Enfermagem e o Cidadão

o ritmo é a essência de tudo. As frequências biológicas rítmicas do nosso corpo foram fundamentais para as noções de tempo e a criação do relógio, bem como no desenvolvimento de artes como a música, a poesia e a dança. O ritmo é particularmente significante para a música popular massiva, é que um tempo estável e um padrão de batida interessante oferece um dos modos mais fáceis de penetrar num evento musical, eles permitem que um ouvinte sem prática instrumental responda “ativamente”, experiencie a música à sua maneira no corpo e na mente. As acentuações, os tempos, os silêncios, as “batidas” estão relacionadas com o modo como experienciamos a vida. Com a evolução da inteligência e dos primeiros grunhidos animais surgiu a melodia, uma sucessão coerente de sons e silêncios, que se desenvolvem numa sequência linear com identidade própria, o ritmo dita a sua duração.


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Hoje é consensual que a música está no corpo e mente do Homem e que o influencia em todos os aspetos da vida: no amor, no humor, na viagem, no consumo, na concentração, na saúde, etc. Atualmente, a música é usada também como uma terapia. A “musicoterapia” pretende desenvolver potenciais e/ ou restaurar funções do indivíduo para que ele ou ela alcance uma melhor qualidade de vida, através de prevenção, reabilitação ou tratamento. Alguns tratamentos são recetivos, quando o musicoterapeuta toca música para o paciente, mas na maior parte dos casos a musicoterapia é ativa, ou seja, o próprio paciente toca os instrumentos musicais, canta, dança ou realiza outras atividades com o terapeuta. O uso da música como método terapêutico vem desde o início da história humana. Alguns dos primeiros registos a esse respeito podem ser encontrados na obra de filósofos gregos pré-socráticos. No entanto, a sistematização dos métodos utilizados só começou, após a Segunda Guerra Mundial, com pesquisas realizadas nos Estados Unidos. Assim, o primeiro curso universitário de musicoterapia foi criado em 1944 na Michigan State University. O ritmo e a melodia estão presentes em toda a vida inteligente e o futuro promete uma contínua e fantástica evolução, por isso é bom que cada um de nós aproveite muito bem cada segundo da vida, porque um dia, depois de acalmar, o ritmo irá certamente parar.

Todos os Dias são Dias Ahh… relativamente à história do ovo e da galinha, segundo a teoria da evolução de Darwin o ovo apareceu primeiro, mas há quem diga que foi Deus que criou a galinha… continuo curioso. Referências bibliográficas CANDÉ, Roland de (2001). História Universal da música. 2 volumes. São Paulo: Martins Fontes. ISBN 8533615000. S. JANOTTI JR, J. (2009), Gêneros musicais, performance, afeto e ritmo: uma proposta de análise midiática da música popular massiva. In Contemporânea - Revista de Comunicação e Cultura, América do Norte, n.º 2, jul. 2009. Disponível em http://www.portalseer.ufba.br/index.php/contemporaneaposcom/ article/view/3418. Acesso em 15 Set. 2012.

Sabia que? O Dia Internaconal da Música comemora-se anualmente a 1 de Outubro. A data foi instituída em 1975 pelo International Music Council, uma instituição fundada em 1949 pela UNESCO, que agrega vários organismos e individualidades do mundo da música. O objetivo da celebração do Dia Internacional da Música é: Promover a arte musical em todos os setores da sociedade; Aplicar as ideais da UNESCO como a paz e amizade entre as pessoas, evolução das culturas e troca de experiências.

Abbey Road foi o 12° álbum lançado pela banda britânica The Beatles. Foi lançado em 26 de setembro de 1969, e leva o mesmo nome da rua de Londres onde se situa o estúdio Abbey Road, Londres. Foi produzido e orquestrado por George Martin para a Apple Records. Este álbum está na lista dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame… Enfermagem e o Cidadão | 11


Consigo pela Sua Saúde

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© Foto: Nuno Sacramento

O Enfermeiro de Reabilitação Carina Rebelo Enfermeira

Desafio o leitor a imaginar-se numa cama de hospital, sem força num braço, sem conseguir falar, incapaz de andar… Tudo isto devido a um acidente vascular cerebral (AVC). Como poderá o Enfermeiro de Reabilitação ajudá-lo? E, se afinal todos vestem fardas brancas e passam 24 horas perto de si, o que o diferenciará dos outros profissionais de saúde e mesmo dos outros enfermeiros? O Enfermeiro de Reabilitação é aquele que o ajuda a persistir, mesmo quando o utente só tem vontade de desistir. Este profissional de saúde procura melhorar a qualidade de vida dos utentes, promovendo a sua independência funcional ou a sua adaptação à deficiência, resultante de doença, trauma ou sequelas, ajudando-o com dignidade e fomentando-lhe a autoestima. A Reabilitação faz parte dos cuidados de Enfermagem enquanto especialidade, centrando a sua ação no utente-cuidador/familiar. Como profissionais de saúde especializados, é indispensável pensar no significado das nossas ações. Na saúde, o “ajudar” e o “cuidar” não são um simples facto do senso comum enraizado nas boas intenções de quem ajuda. É preciso atuar com vocação, sabedoria e entrega científica, pois esse fazer, é uma forma de arte! Na atualidade, ser Enfermeiro de Reabilitação requer uma autêntica vocação pessoal, prestando cuidados não só com a técnica, mas também com sensibilidade, considerando o utente como um todo e não apenas como um caso. É importante que sejam criadas condições favoráveis à promoção de autonomia e, para isso, a pessoa deve ser estimulada a utilizar as suas capacidades. O caminho nem sempre é fácil. Pode ser lento e moroso, mas pequenos ganhos, tal como beber um copo de água, são autênticas conquistas! Cada vez mais é reconhecido o papel determinante dos Enfermeiros Especialistas de Reabilitação, designadamente na prevenção de complicações, na manutenção ou recuperação da independência nas atividades diárias, na diminuição do impacto das incapacidades instaladas (quer por doença, quer por 12 | Enfermagem e o Cidadão

acidente), ou no aumento da qualidade de vida da pessoa e da família, fatos estes, que têm vindo a contribuir positivamente para ganhos, tanto ao nível da saúde como da economia. A prática de enfermagem de reabilitação tem, neste contexto, um âmbito abrangente, intervindo ao nível das disfunções neurológicas, respiratórias, cardíacas, ortopédicas, traumatológicas e nas deficiências e incapacidades, tornando-se imprescindível, nomeadamente, em Unidades de AVC, Serviços de Medicina, Cardiologia, Pneumologia, Neurologia, Neurocirurgia e serviços com grande número de idosos e/ou dependentes. Trata-se de um processo de cuidar precoce, abrangente e holístico enquanto um modelo assistencial, mas essencialmente educativo. As preocupações do Enfermeiro de Reabilitação passam cada vez mais, por dar conforto ao utente, controlar sintomas indesejados e ensiná-lo a reaprender a viver com as incapacidades adquiridas, estimulando assim a autonomia e promovendo a independência, fatores estes, fundamentais na estruturação do seu autoconceito de qualidade de vida. Atuando na saúde e na doença, aguda ou crónica, este profissional contribui para maximizar o potencial funcional e de independência física, emocional e social das pessoas, minimizando as incapacidades, nomeadamente através da reeducação funcional respiratória, reabilitação funcional motora, treino de atividades de vida diária, ensino sobre a otimização ambiental e utilização de ajudas técnicas. Compete-nos a nós profissionais da saúde, encarar os utentes como seres humanos únicos, compreendendo as suas limitações e dando-lhes pistas que tornem o seu dia a dia mais risonho. Cada ser humano é um ser ímpar, que deve ser tratado especificamente, sem descurarmos as suas capacidades, incapacidades, motivações e desmotivações. Neste sentido, os Enfermeiros Especialistas em Reabilitação, abordam cada utente numa perspetiva que ultrapassa a compreensão única de uma condição de saúde, estando-lhes implícita uma forte componente de humanidade, dedicação e paixão, que se reflete no seu desempenho, onde dão sempre o máximo de si.


SECÇÃO REGIONAL DO CENTRO

Consigo pela Sua Saúde

Doenças cardiovasculares, uma prioridade em saúde pública Pedro Ferreira Enfermeiro

As doenças cardiovasculares (DCV) continuam a ser um problema à escala mundial e a ocupar lugar primordial no que se refere a taxas de mortalidade. Segundo a Organização Mundial de Saúde, correspondem a cerca de 31% das mortes no Mundo e são conhecidas como a principal causa de morte nos países desenvolvidos. Em parte, resultado de estilos de vida inadequados e da adoção de comportamentos pouco saudáveis, que se refletem no desenvolvimento dos fatores de risco cardiovasculares responsáveis pelo aparecimento da doença. Por outro lado, a saúde global tem vindo constantemente a ser desafiada pelo envelhecimento da população, pela rápida urbanização e globalização das sociedades (WHO, 2011). Conhecer os fatores de risco que atualmente causam as DCV tem sido um desafio que tem vindo a acompanhar estudos epidemiológicos desde os anos 40. O estudo Framingham, talvez o mais conhecido, desde 1948 e ao longo de várias décadas, tem identificado fatores e características que contribuem para as DCV, entre os quais se destacam a hipertensão arterial (HTA), hipercolesterolémia, obesidade, diabetes, tabagismo, sedentarismo e consumo de bebidas alcoólicas (Carrageta, 2010; WHO, 2011). Para além destes fatores de risco, também a idade, género, raça e características socioeconómicas (profissão, educação, rendimento), são particularmente importantes quando se abordam as DCV. Atualmente torna-se crucial o controlo dos diversos fatores de risco cardiovasculares. Para além de políticas de saúde dire-

cionadas à promoção da saúde e prevenção da doença, também cabe a cada um de nós, enquanto cidadãos e profissionais de saúde, valorizar ainda mais a prevenção, deteção e controlo dos fatores de risco, ajudando os indivíduos a percecionar e perceber as causas das DCV. Procurar mudar hábitos de vida, não é tarefa fácil, mas possível com esforço, vontade e motivação. Por isso, comece já hoje a responsabilizar-se pela sua própria saúde. As DCV não escolhem pessoas e a sorte nunca foi considerada um fator cardioprotetor, por isso comece por avaliar com regularidade a sua pressão arterial, de forma a mantê-la controlada, evitando valores superiores a 120/80 mmHg. Reduza o consumo de sal, evitando alimentos naturalmente salgados, como enchidos, enlatados, aperitivos, fritos. Substitua o sal por condimentos como as ervas aromáticas ou sumo de limão. Controle o seu peso corporal e opte por uma alimentação de cozidos e grelhados, com preferência para o peixe (cavala, carapau, sardinha, etc.), vegetais, fibras, frutas frescas e produtos lácteos magros. Procure distribuir a sua alimentação por 5 a 6 refeições diárias, nunca esquecendo o pequeno-almoço. A sopa deve ser considerada como primeiro prato ao almoço e ao jantar. Evite refrigerantes e bebidas alcoólicas. Para além de uma dieta saudável, dedique pelo menos 35 a 60 minutos por dia à atividade física, em função das suas características individuais, e comece já hoje a caminhar… Referências bibliográficas Carrageta, M., Como ter um coração saudável. 2010. Lisboa: Editora Âncora. World Health Organization (WHO), Global atlas on cardiovascular disease prevention and control. 2011. Disponível na web em http://whqlibdoc.who.int/ publications/2011/9789241564373_eng.pdf.

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Cultura e Lazer

SECÇÃO REGIONAL DO CENTRO

Alzheimer: 11 Filmes Longe Dela 2007 (Away From Her)

Em Longe Dela, Julie Christie foi nomeada para os Óscares como melhor atriz pelo seu papel de Fiona, uma mulher com Doença de Alzheimer que entra voluntariamente num centro de cuidados de longo prazo, para evitar ser um fardo para Grant, seu marido há 50 anos. Após uma separação de 30 dias recomendada pelo centro, Grant visita Fiona e descobre que esta perdeu a memória em relação a ele e que desenvolveu uma amizade próxima com outro homem no centro. Grant tem de recorrer ao profundo respeito e amor inabalável que tem por Fiona para escolher aquilo que lhe trará maior felicidade perante a Doença. Christie ganhou um globo de ouro para melhor actriz na categoria de drama pela sua interpretação neste filme.

Os Savages 2007 (The Savages)

Laura Linney e Phillip Seymour Hoffman interpretam dois irmãos nesta comédia trágica acerca de adolescentes que têm de crescer à força porque tomam conta do pai com demência. Laura Linney foi nomeada para os Óscares na categoria de melhor actriz e Tâmara Jenkins para o melhor argumento original. Phillip Seymour Hoffman, numa rara combinação de humildade, dignidade e humor, foi nomeado para o globo de

ouro de melhor ator (musical ou comédia), pela sua interpretação de um professor neurótico que apesar dos rancores se une à sua irmã pelo bem do pai de ambos.

Aurora Boreal 2006 (Aurora Borealis)

Donald Sutherland e Louise Fletcher ofuscam os demais e arrebatam o público neste filme sobre relacionamentos e escolhas difíceis. Sutherland representa um avô com demência que requer mais cuidados do que aqueles que a mulher lhe consegue fornecer. Contratam a ajuda de uma cuidadora ao domicílio ( Julliette Lewis) e do seu neto ( Joshua Jackson), que desenvolvem uma amizade com a personagem de Sutherland, que à medida que fica cada vez mais debilitado insiste que consegue ver a aurora boreal a partir da sua janela. Foi considerado um filme independente bem concebido e estreou apenas em salas restritas.

Pôr-do-Sol 2005 (Sundowning)

Sundowning acompanha as rivalidades e laços de 3 gerações de pescadores de lagostas em Little Stone Island no estado do Maine nos E.U.A.. Quando o avô e patriarca Tobey (Minor Roots) é atingido pela demência, o seu filho e o seu neto têm de aprender a cuidar dele ao mesmo tempo que mantêm o seu sustento. À medida que os 2 se apaixonam pela vizinha que cuida de Tobey, têm de abandonar as suas rivalidades profundas e aceitar que a proximidade dela de Tobey é de facto uma bênção. Um filme quase desconhecido que tem recebido excelentes críticas.

O Diário da Nossa Paixão 2004 (The Notebook)

Em jovens, Allie (Rachel McAdams) e Noah (Ryan Gosling), apaixonam-se profundamente durante um verão replecto de emoção e liberdade. O jovem casal rapidamente é separado pelos pais de Allie que insistem que Noah não pertence ao seu mundo. Vários anos mais tarde, eles encontram-se no14 | Enfermagem e o Cidadão


Cultura e Lazer

SECÇÃO REGIONAL DO CENTRO

vamente e o amor que sentem inflama-se de novo, forçando Allie a escolher entre o amor e a sua classe social. Terá o amor força suficiente para vencer? Décadas mais tarde, um homem ( James Garner) lê um diário antigo para uma mulher (Gena Rowlands) que visita regularmente num lar. Embora a memória dela esteja enfraquecida, pouco a pouco, ela deixa-se envolver pela magia da presença dele, do que ele lhe lê, pela ternura dele... E o milagre acontece. Baseado no best-seller de Nicholas Sparks, O Diário da Nossa Paixão é uma história com uma força delicada e comovente, uma beleza surpreendente e arrebatadora.

Nunca cantei para o meu pai 1970 (I Never Sang For My Father)

Esta história intensa acerca de conflitos familiares conta com Gene Hackman como um professor de Nova Iorque que planeia começar de novo casando-se com a sua namorada e mudando-se para a Califórnia. Quando a sua mãe morre e o seu pai desenvolve uma demência, ele tem de escolher entre viver a vida com que sempre sonhou ou abandonar os seus planos para cuidar do seu pai. Este filme comovente foi baseado numa peça de Robert Anderson.

Uma canção para Martin 2001 (A Song For Martin)

Sven Wollter e Viveka Sidahl – casados na vida real – representam o casal Martin e Barbara, neste filme sueco com legendas em inglês. Martin é um maestro e compositor e Barbara violinista. Conhecem-se e casam-se já adultos, mas pouco depois, descobrem que Martin sofre de Doença de Alzheimer. Esta história comovente é considerada um dos retratos mais realistas da prestação de cuidados em filme.

Iris 2001 (Iris: A Memoir of Iris Murdoch)

Baseado no livro “Elegy for Iris” de John Bauley, este filme conta a história verídica da romancista Íris Murdoch que mergulha na Doença de Alzheimer e do amor incondicional de Bailey, seu companheiro há 40 anos. Jim Broadbent venceu um prémio da Academia de Hollywood e um Globo de Ouro para melhor ator secundário pela sua representação de Bailey nos seus derradeiros anos de vida. Judi Dench e Kate Winslet receberam respectivamente nomeações para os Óscares e Globos de Ouro nas categorias de melhor atriz e melhor atriz secundária, pelos seus desempenhos como Íris enquanto jovem e enquanto mulher mais velha.

Sonhos de Pirilampo 2001 (Firefly Dreams)

Este filme japonês com legendas em inglês recebeu vários prémios em festivais internacionais. Conta a história de Naomi (Maho) uma adolescente perturbada enviada para o campo durante o Verão para trabalhar para os seus tios. É-lhe pedido que cuide de uma vizinha idosa com Doença de Alzheimer. Naomi fica inicialmente descontente mas depressa se liga à senhora, operando-se nela uma transformação.

Amigos de Sempre 1989 (Age Old Friends)

Hume Cronyn atinge mais uma grande performance como John Cooper, que escolhe viver num lar, em vez de com a sua filha (papel desempenhado pela sua filha na vida real Tandy Cronyn) como maneira de manter a sua independência. Torna-se amigo de Michael (Vincent Gardénia), que começa a mostrar sinais de demência. Quando a filha de John lhe apresenta a oferta de poder viver com ela outra vez, ele tem de decidir entre abandonar a estrutura e disciplina rígida da casa de repouso, ou ficar e ajudar o seu amigo a lidar com a Doença.

Poesia 2010 (Poetry)

Mija (Yun Jung-hee) é uma mulher de 66 anos que, recuperando uma antiga paixão nunca concretizada, se inscreve em aulas de poesia. O professor diz-lhe que para encontrar a sua voz terá de observar verdadeiramente o que a rodeia. Só que a realidade de Mija irá revelar-se cada vez mais insuportável. Ela é uma mulher numa posição extremamente vulnerável, que para lá dos subsídios que recebe do Estado, tem de sobreviver com o que ganha com um part-time a tomar conta de um idoso semi-paralizado por um AVC. A somar a esse quadro, um dia uma médica dá-lhe a trágica notícia que sofre de Alzheimer e que os primeiros sintomas, que já começou a sentir, irão em breve agravar-se. Pouco depois vem também a saber que o seu neto é um dos miúdos que repetidamente violaram uma colega de liceu que acabou por se suicidar.

Fonte: Alzheimer Portugal - Associação Portuguesa de Familiares e Amigos de Doentes de Alzheimer. Revista nº47. Agosto a Outubro 2011. www.alzheimerportugal.org

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ENFERMAGEM E O CIDADÃO DOENÇA CRÓNICA - DESAFIOS E PISTAS PARA VENCER

Dia Mundial da Saúde Mental Emanuel Baptista Enfermeiro

A 10 de outubro assinala-se o Dia Mundial da Saúde Mental. Em situações de crise económica, como a que o país vive, há tendência para o aumento da incidência de doenças do foro mental. A falta de dinheiro, o stresse associado à incerteza do futuro, a diminuição da qualidade de vida, o desânimo, o desemprego e a perda de autoestima são, entre outros, fatores precipitantes de doença mental como sugere um relatório recente da Organização Mundial de Saúde (OMS). Sendo Portugal o país europeu com a maior taxa de prevalência de doenças mentais na população (cerca de 22%) e sendo expectável que esta taxa aumente em consequência da crise económica, encontramo-nos numa situação extremamente preocupante. Mais ainda, tendo em conta uma investigação realizada entre 1970 e 2007, em 26 países europeus, que concluiu que a cada aumento em 1% da taxa de desemprego correspondeu um aumento em 0,8% de suicídios na população com idade inferior a 65 anos (ou a 4,5 % quando a taxa de desemprego apresentava um aumento superior a 3%). De facto, nos últimos anos o número de suicídios tem disparado, sendo já o número de mortes por suicídio bastante superior ao número de mortes por acidentes de viação. Assistimos ainda a um momento de mudança nos cuida-

dos de saúde mental em Portugal. O Plano Nacional de Saúde Mental preconiza a substituição dos antigos hospitais psiquiátricos por uma rede de serviços na comunidade. Porém temos presenciado o encerramento dos hospitais psiquiátricos sem que haja ainda alternativas sólidas na comunidade para acompanhamento e apoio dos doentes de foro mental. É urgente encarar as doenças mentais como um problema grave de saúde pública. É facilmente compreensível a influência destas doenças em fatores como “produtividade” e “absentismo” – palavras tantas vezes usadas como justificação para a crise em que o país se encontra. Menos compreensível é que o país siga um caminho em que as pessoas ganham menos, trabalham mais horas, têm menos regalias e menor estabilidade nos empregos. Afinal, todos estes são fatores que prejudicam a saúde mental das pessoas e, consequentemente, a sua produtividade, motivação e capacidade de inovar. É desta forma que se espera um país competitivo? Compete-nos a todos nós, cidadãos, exigir que quem nos governa passe a dar mais valor às pessoas e menos aos números. Não está em causa somente a nossa saúde mental. Estão em causa muitas vidas. E os números sem as pessoas não têm qualquer significado.

http://www.ordemenfermeiros.pt/sites/centro

JEC  

jornal editado pela SRC da OE

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