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FICHA TÉCNICA

TÍTULO | TITLE Revista Portuguesa de Enfermagem em Saúde Mental | Portuguese Journal of Mental Health Nursing

PUBLICAÇÃO E PROPRIEDADE | PUBLISHING AND PROPERTY

A Sociedade Portuguesa de Enfermagem em Saúde Mental | The Portuguese Society of Mental Health Nursing

DIRETOR | MANAGING DIRECTOR

Carlos Sequeira, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal

COORDENADOR | COORDINATOR

Luís Sá, PhD - Instituto de Ciências da Saúde - Universidade Católica Portuguesa, Porto, Portugal

COORDENADOR DA COMISSÃO EDITORIAL | EDITORIAL BOARD COORDINATOR

Francisco Sampaio, MSc – Hospital de Braga, Portugal

COMISSÃO EDITORIAL | EDITORIAL BOARD

Amadeu Gonçalves, PhD - Escola Superior de Saúde, Instituto Politécnico de Viseu Analisa Candeias, MSc - Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Minho Bruno Santos, MSc – Casa de Sáude do Bom Jesus - Braga Carlos Vilela, MSc - Escola Superior de Enfermagem do Porto Lia Sousa, MSc - Centro Hospital de São João, Porto Lucília Vale de Nogueira, MSc – Centro Hospitalar do Porto Luís Silva, MSc - Hospital de Magalhães Lemos, Porto Odete Araújo, MSc - Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Minho Olga Cunha Rocha, MSc - Escola Superior de Enfermagem do Porto (Jubilada) Regina Pires, MSc – Escola Superior de Enfermagem do Porto Rita Costa, MSc - Unidade Local de Saúde de Matosinhos, Porto Rosa Silva, MSc - Instituto de Ciências da Saúde - Universidade Católica Portuguesa, Porto

COMISSÃO CIENTÍFICA | SCIENTIFIC REVIEWERS

Agustín Simónelli Muñoz, PhD - Universidad Católica San Antonio, Múrcia, Espanha Aida Mendes, PhD - Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, Portugal Alexandre Marques Rodrigues, PhD - Escola Superior de Enfermagem da Cruz Vermelha Portuguesa de Oliveira de Azeméis Beatriz Araújo, PhD - Instituto de Ciências da Saúde - Universidade Católica Portuguesa, Porto, Portugal Carlos Sequeira, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal Carme Ferré Grau, PhD - Universitat Rovira i Virgili. Tarragona, Espanha Cláudia Mara Tavares, PhD - Escola de Enfermagem AAC - Universidade Federal Fluminense, Brasil Elaine Antunes Cortez, PhD - Escola de Enfermagem AAC - Universidade Federal Fluminense, Brasil Elizabete Borges, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal Francisca Manso, PhD - Escola Superior de Enfermagem de Lisboa, Portugal Geilsa Cavalcanti Valente, PhD - Escola de Enfermagem AAC - Universidade Federal Fluminense, Brasil Guilherme Correa Barbosa, PhD – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Brasil Graça Pimenta, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal Isilda Ribeiro, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal Joaquim Passos, PhD – Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Portugal José António Pinho, PhD – Centro Hospitalar do Porto, Portugal José Carlos Carvalho, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal José Carlos Gomes, PhD - Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Leiria, Portugal José Carlos Santos, PhD - Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, Portugal Juan Roldan Merino, PhD - Escuela de Enfermería Sant Joan de Déu (adstrita a la UB), Espanha Júlia Martinho, PhD - Escola Superior de Enfermagem do Porto, Portugal Luís Sá, PhD - Instituto de Ciências da Saúde - Universidade Católica Portuguesa, Porto, Portugal Margarida Sotto Mayor, PhD - Hospital de Magalhães Lemos, Porto, Portugal Mar Lleixà-Fortuny, PhD - Universitat Rovira i Virgili. Tarragona, Espanha Marluce Miguel de Siqueira, PhD - Universidade Federal do Espírito Santo, Brasil Michell Araújo, PhD - Faculdade Católica Rainha do Sertão - Fortaleza e Hospital de M., Brasil Odete Pereira, PhD - Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, Brasil Raul Cordeiro, PhD – Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Portalegre, Portugal Teresa Barroso, PhD - Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, Portugal Teresa Lluch-Canut, PhD – Escola Universitària d’Infermeria - Universitat de Barcelona, Espanha Zeyne Scherer, PhD – Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - Universidade de São Paulo, Brasil Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 2


Público-alvo:

Enfermeiros, médicos, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e outras pessoas com interesse na área da saúde mental.

Objectivo:

Divulgação de evidências científicas sobre a promoção da saúde, prevenção de doenças, tratamento, reabilitação e reintegração das pessoas com doença mental ao longo da vida.

Âmbito:

Políticas e design dos cuidados de saúde; Avaliação, diagnóstico, intervenções e resultados de enfermagem; Sistemas de informação e indicadores em saúde mental; Direitos e deveres dos doentes mentais; Formação e investigação em enfermagem em saúde mental.

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A Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde mental é publicada duas vezes por ano, Junho e Dezembro O preço por número é: - para instituições € 10.00; - para particulares € 8.00

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ISSN:

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Nursing and Allied Health Literature

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FOTOS | PHOTOS

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Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 3


Índice

EDITORIAL CONVIDADO

1

TECNOLOGIAS DO CUIDAR DESTINADAS A DIMINUIR AS DISPARIDADES EM

SAÚDE MENTAL ........................................................................................................................... 6

ARTIGOS DE INVESTIGAÇÃO

2

EDUCAÇÃO PERMANENTE PRÁTICAS E PROCESSOS COM A ENFERMAGEM EM

SAÚDE MENTAL .......................................................................................................................... 9

3

SAÚDE MENTAL NO ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR MÓVEL: CONCEPÇÕES DE

PROFISSIONAIS ....................................................................................................................... 17 4

COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS DO ENFERMEIRO DE SAÚDE MENTAL ENFATIZADAS

NO ENSINO DE GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM .................................................................. 25

5

BUSCANDO INFORMAÇÕES EM SAÚDE ONLINE: ESTRATÉGIA DE ENFRENTAMENTO

DOS ADOLESCENTES COM DOENÇAS CRÔNICAS

6

INOVAÇÕES NA FORMAÇÃO EM SAÚDE: O PROGRAMA DE EDUCAÇÃO PELO

TRABALHO - SAÚDE MENTAL ................................................................................................ 39

7

ENSAIOS PARA UM ENSINO ESTÉTICO

8

APOIO EMOCIONAL REALIZADO POR ENFERMEIRO AO PACIENTE OSTOMIZADO ............... 49

9

AVALIAÇÃO DA SAÚDE MENTAL POSITIVA DE DISCENTES DE ENFERMAGEM ................. 57

10

SUPORTE EMOCIONAL ÀS GESTANTES QUE CONVIVEM COM DOENÇAS CRÔNICAS ..... 63

11

SITUAÇÕES DIFÍCEIS E SEU MANEJO NA ENTREVISTA PARA DOAÇÃO DE ÓRGÃOS .......... 69

12

PERFIL MOTIVACIONAL E DEMOGRÁFICO DOS ALUNOS DO MESTRADO ACADÊMICO

E PROFISSIONAL ..................................................................................................................... 77

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 4

............................................................. 33

............................................................................... 45


13

PROCESSOS FORMATIVOS DA DOCÊNCIA EM SAÚDE MENTAL NAS GRADUAÇÕES

DE ENFERMAGEM E MEDICINA ................................................................................................ 85

14

AS DIFICULDADES EMOCIONAIS EXPERIENCIADAS POR ACADÊMICOS DE

ENFERMAGEM NA ABORDAGEM AO PACIENTE

15

A QUALIDADE DE VIDA PARA MOTORISTAS DE ÔNIBUS: ENTRE A SAÚDE E O

................................................................ 93

TRABALHO ................................................................................................................................ 101 16

OS LIMITES DO ENSINO TEÓRICO-PRÁTICO DA SAÚDE MENTAL NA FORMAÇÃO

DO PROFISSIONAL DE SAÚDE .............................................................................................. 107

17

SUPERVISÃO DE ESTUDANTES EM ENSINO CLÍNICO: CORRELAÇÃO ENTRE

DESENVOLVIMENTO DE COMPETÊNCIAS EMOCIONAIS E FUNÇÃO DE SUPORTE ........ 115

18

NORMAS DE PUBLICAÇÃO DA REVISTA PORTUGUESA DE ENFERMAGEM

DE SAÚDE MENTAL ................................................................................................................ 123

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 5


Editorial Convidado

1

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0134

TECNOLOGIAS DO CUIDAR DESTINADAS DISPARIDADES EM SAÚDE MENTAL

A

DIMINUIR

AS

| Iraci dos Santos1 |

Inicialmente, agradecemos o privilégio de poder contribuir através de um Número Especial da Revista Portuguesa de Saúde Mental. Tal contribuição se revela na disseminação do conhecimento descrito por professores e estudantes, em 11 trabalhos científicos, ocorrida no I encontro Internacional Inovação no Ensino na Saúde e Enfermagem, realizado na Universidade Federal Fluminense-Rio de Janeiro -Niterói, em 2016. Do mesmo modo, destacamos que este Editorial foi descrito focalizando a necessidade de um atendimento ao cliente com transtornos mentais, privilegiando sua integralidade e dignidade humana. Portanto, vale historiar um pouco do que se passa, atualmente, na qualidade do cuidado aos clientes com sofrimento psíquico. Segundo a World Health Organization (WHO), as pessoas em sofrimento psíquico de um modo geral, ficam mais vulneráveis a violações dentro e fora de contextos institucionais. Existem registros de violência contra essa clientela em diferentes países, seja dentro de suas próprias comunidades e/ou no seio de suas famílias (WHO, 2005). O relatório de projeção da mortalidade e da carga global de doenças 2002–2030 revelou através da Disability Adjusted Life-Year (DALY) a verdadeira dimensão das perturbações mentais. Vários determinantes sociais, tais como o baixo nível socioeconômico (pobreza), a baixa escolarização, dificuldades de acesso ao mundo do trabalho, e a falta de acesso ao tratamento, tem sido extensamente estudada como um forte fator para contribuir para o desenvolvimento dos transtornos mentais (Alves e Rodrigues, 2010). A Carta das Nações Unidades (ONU) e os acordos internacionais tomam como base os direitos humanos, para fundamentar as legislações e políticas em saúde mental. A igualdade é uma condição sine qua non de direitos, afim de evitar a discriminação contra as pessoas com transtornos mentais. Geralmente a discriminação mimetiza-se em diferentes formas - abertas ou involuntárias - afetando diferentes áreas fundamentais da vida. Discriminar pode influir no acesso de uma pessoa ao tratamento e atenção adequada as suas necessidades de saúde. As disparidades em saúde podem aumentar o isolamento, e como consequência exacerbar os transtornos mentais (WHO, 2005).

As disparidades arvoram a vulnerabilidade, principalmente das pessoas em sofrimento psíquico. Para estas minorias historicamente há uma assimetria entre cuidados em saúde e direitos sociais. Alguns desses indivíduos possuem vínculos sociais esmaecidos, apresentam dificuldade para viverem sozinhos e gerenciar suas vidas em sociedade. A noção de vulnerabilidade supera a ideia clássica de risco e se apresenta como um conceito que solicita transformações nas práticas assistenciais, isto porque, em seu bojo, torna-se imprescindível pensar estas práticas como sociais e históricas, que requerem o trabalho de diferentes setores da sociedade, tornando a transdisciplinaridade como um fenômeno indispensável (Coa e Pettengill, 2011). Apesar de adotarem estratégias distintas para realizarem as suas respectivas reformas psiquiátricas, Brasil e Portugal, possuem em comum a criticidade em relação ao modelo manicomial. Em Portugal desde a década de 1960, mais fortemente influenciada a partir da Lei 2118/63, quando através desta, foram apresentados os princípios reformadores da política destinada ao cuidar mais humanizado em saúde mental, alvo de diversa criticas (Filho et. al., 2015). A principal por conservar a característica hospitalar da assistência, o que gerou fortes críticas por parte dos atores envolvidos no processo de reforma, que ansiavam por mais dignidade, podendo-se assim gerar o cuidar. Já no Brasil, o processo de reforma psiquiátrica avulta-se com o fim do período de ditadura militar, iniciando no final da década de 1970, motivado por grupos de trabalhadores em saúde mental inconformados com as condições desumanas, as quais pessoas em sofrimento psíquico se encontravam. No entanto, legislação específica, passou a existir somente na virada do milénio, em 2001, através da Lei 10.216, que incentivou a criação de serviços de base territorial, visando manter os indivíduos integrados aos seus contextos sociais (Filho et. al., 2015). No Brasil, esse processo configura-se pela construção de uma rede de cuidados e de serviços substitutivos ao modelo hospitalocêntrico. Rompendo drasticamente com o modelo psiquiátrico tradicional. Um dos principais instrumentos dessa proposta humanitária de cuidar são os Centros de Atenção psicossocial (CAPS).

1 Professora Titular de Pesquisa em Enfermagem na Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Programa de Pós-graduação em Enfermagem, Boulevard 28 de Setembro, 157, 20551-030 Rio de Janeiro - RJ, Brasil, iraci.s@terra.com.br Citação: Santos, I. (2016). Tecnologias do cuidar destinadas a diminuir as disparidades em saúde mental. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe. 4), 06-08. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 6


Entendidos como uma estratégia de transformação da assistência que se concretiza numa ampla e complexa rede de cuidados, não se esgotando a implementação de um serviço (Yasui, 2010). “O CAPS é meio, é caminho, não o fim. É a possibilidade da tessitura, da trama, de um cuidado que não se faz em apenas um lugar, mas é tecido em uma ampla rede de alianças que inclui diferentes segmentos sociais, diversos serviços, distintos atores e cuidadores” (Yasui, 2010, p. 114). Portanto, pensar sobre o cuidado ofertado em saúde mental se faz urgente para que ocorram transformações nos modelos de prática. Embora cuidar seja um atributo inerente a todos os seres humanos, na área da saúde. Especialmente, na enfermagem, o cuidado é algo genuíno e peculiar. Só se promove o cuidado integral, quando efetivamente é desenvolvido por quem está próximo, junto com o cliente, convivendo e interagindo nos seus movimentos de ser e de estar nessa situação ou condição do viver (Santos, 2012). Alerta-se sobre a adoção histórica do modelo biomédico, este responde apenas às necessidades vitais do corpo físico, sem possibilitar a reflexão sobre a insuficiência de seu enfoque prioritário nas múltiplas dimensões corporais, nas causas físicas e psíquicas das doenças. A contradição dessa opção com o discurso do cuidado atendendo a integralidade do cliente, alvo da atenção humanista pretendida pela enfermagem, provoca conflitos naqueles que, efetivamente a praticam. O I encontro Internacional Inovação no Ensino na saúde e Enfermagem, promovido pela Universidade Federal Fluminense possibilitou reunir diferentes investigadores voltados às inovações tecnológicas do cuidar e em saúde mental. A coletânea de estudos e pesquisas contidos nesta revista, reflete a multiplicidade de olhares sob o cuidar. Referente a necessidade de inovações no cuidar, ratificam Cotta, Castro e Botti (2010), que cotidianamente nesta área, as tecnologias emergem dos processos de trabalho, no qual se articulam os conjuntos de saberes, instrumentos e práticas. Então, com o advento da reforma psiquiátrica, novas tecnologias para cuidar de sujeitos em sofrimento psíquico surgiram. Para esses autores, o componente ético é de suma importância para os profissionais dessa área. Há o desafio de integrar o conhecimento científico, as competências técnicas e principalmente, a sensibilidade humana e a ética numa abordagem transdisciplinar. Instrumentalizando a atuação, bem como a formação profissional, a fim de compreender o cliente com uma patologia psíquica crônica como uma pessoa, possibilitando assim, desconstruir a visão marginalizada existente sobre esta.

O cuidar qualificado remonta ao autoconhecimento do profissional e ao reconhecimento dos clientes, respeitando sua dignidade e necessidades humanas na integralidade de suas dimensões corporais física, mental e espiritual. Pois a enfermidade, em si, não se restringe apenas ao corpo físico e social. Na complexidade existencial, vivemos situações que nos permitem chorar de alegria, enlouquecer de felicidade, mentir para ser feliz, maltratar a quem se ama, ocultar a revolta, a solidão, a tristeza, a infelicidade e trabalhar sem descanso, usando a capa da reconhecida loucura (Santos, Silva, Clos, e Silva, 2015). Aos leitores desta revista, sugere-se a leitura dos estudos que utilizaram a perspectiva estética sociopoética. Considerando a estética como um cuidado que respeita a dignidade humana de um cliente vivo, seja ele autônomo ou dependente saudável ou acometido por alguma moléstia, seja física ou psíquica. Portanto, o cuidar respeita o individuo em suas mais polimorfas dimensões, constituintes de um “eu” (Santos, 2012). O cuidar na perspetiva estética e sociopoética apresenta algumas limitações, tais como, a responsabilidade ética do enfermeiro no ato de cuidar. Esta dependerá de sua inserção política na enfermagem - compreende-se o termo político no sentido oblativo da palavra – este profissional, deve compreender que seu ofício/profissão possui uma práxis, o qual não é um ato mecanicista, pautado no modelo biomédico. Além disto, deve haver uma parceria entre cliente/profissional, visto o cuidado não ser unidirecional e sim, uma ação conjunta, não se cuida de pessoas, se cuida junto com as pessoas (Santos, 2012). Considerar o cuidar, é focar as ações nas necessidades dos sujeitos em sofrimento psíquico. Nos anos vindouros, novos desafios se colocarão aos profissionais de saúde mental, sendo necessária a utilização de outras tecnologias voltadas ao cuidar.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Alves, A. A. M., e Rodrigues, N. F. R. (2010). Determinantes sociais e económicos da saúde mental. Revista Portuguesa de Saúde Pública, 28(2), 127-131. Disponível em http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S0870-90252010000200003&lng=pt Coa, T. F., e Pettengill, M. A. M. (2011). A experiência de vulnerabilidade da família da criança hospitalizada em Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos. Revista da Escola de Enfermagem da USP, 45(4), 825-832. doi: dx.doi.org/10.1590/S0080-62342011000400005 Cotta, E. M., Castro, A. C. H. O. A., e Botti, N. C. L. (2010). Oficina Bem Viver: Construção de tecnologias e significados de educação em saúde na área da saúde mental. SMAD. Revista Eletrônica Saúde Mental Álcool e Drogas, 6, 471-492. Disponível em http://www.revistas.usp.br/smad/article/view/3872 Filho, A. J. A., Fortes, F. L. S., Queirós, P. J. P., Peres, M. A. A., Vidinha, T. S. S., e Rodrigues, M. A. (2015). Trajetória histórica da reforma psiquiátrica em Portugal e no Brasil. Revista de Enfermagem Referência, IV(4), 117-125. doi: http://dx.doi.org/10.12707/RIV14074

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Santos, I., Silva, L. A., Clos, A. C., e Silva, A. V. (2015). Perspectiva estética e sociopoética do cuidar de pessoas com sofrimento psíquico: Apropriação do Tidal Model. Revista Enfermagem UERJ, 22(6). doi: http://dx.doi. org/10.12957/reuerj.2014.15663 Santos, I. (2012). Perspectiva estética: Filosofia e apropriação para o cuidado de enfermagem. In N. M. A. Figueiredo e W. C. A. Machado, Tratado de cuidados de enfermagem médico-cirúrgico (pp. 93-103). São Paulo: Roca. World Health Organization. (2005). WHO resource book on mental health, human rights and legislation. Disponível em http://www.who.int/mental_health/policy/Livroderecursosrevisao_FINAL.pdf Yasui, S. (2010). Rupturas e encontros: Desafios da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz.


Artigo de Investigação

2

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0135

EDUCAÇÃO PERMANENTE: PRÁTICAS ENFERMAGEM EM SAÚDE MENTAL1

E

PROCESSOS

DA

| Amanda dos Santos Mota2; Ana Lúcia Abrahão da Silva3; Ândrea Cardoso de Souza3 |

RESUMO CONTEXTO: Com a Reforma Psiquiátrica brasileira, o processo de trabalho da equipe de enfermagem se deparou com novas convocações no sentido de valorizar o relacionamento terapêutico, aumentando a capacidade de escuta e de diálogo com os usuários. OBJETIVO: Analisar o processo de Educação Permanente (EP) em um hospital psiquiátrico, a partir da dinâmica do trabalho da equipe de enfermagem. METODOLOGIA: Pesquisa descritiva, qualitativa, do tipo intervenção, em que foram empregadas a observação, diário de campo e acompanhamento do grupo. Participaram deste estudo 27 pessoas, sendo a maioria enfermeiros e técnicos de enfermagem que frequentavam o grupo de EP, entre o período de outubro de 2012 a abril de 2013, totalizando oito encontros. Os critérios de inclusão dos participantes foram: possuir vínculo empregatício com o hospital; atuar na profissão de enfermagem há mais de um ano; frequentar regularmente o espaço do grupo de discussão. Os critérios de exclusão foram: profissionais sem experiência no campo da saúde mental e profissionais externos ao hospital. Os dados foram submetidos à análise de conteúdo temática. Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Hospital Universitário Antônio Pedro, da Universidade Federal Fluminense, tendo sido aprovado sob n°125.286. RESULTADOS: Após a análise do material foram elencadas as seguintes categorias: (i) Ser ouvido; (ii) A dinâmica processual do trabalho em saúde. CONCLUSÕES: Há dificuldades para a equipe de enfermagem se fazer presente no espaço de EP, tanto pela própria resistência em se permitir ocupar outros lugares, quanto pelos demais membros da equipe. PALAVRAS-CHAVE: Educação continuada; Enfermagem psiquiátrica; Ambiente de trabalho

RESUMEN

ABSTRACT

“Ongoing education: Practices and processes related to mental health nursing” BACKGROUND: New summons were presented to the work process of the nursing team by the Brazilian Psychiatric Reform aiming at the enhancement of the therapeutic relationship, increasing listening skills and dialogue with users. AIM: To analyze the process of Permanent Education (PE) in a psychiatric hospital, from the dynamics of the nursing team work. METHODS: This is a descriptive and qualitative research, of the intervention type, in which observation, field diary, and group monitoring were employed. The study included 27 people, mostly nurses and nursing technicians who attended the PE group, in the period from October 2012 to April 2013, totalling eight meetings. The inclusion criteria of the participants were: to be legally employed in the hospital; work in the nursing profession for more than one year; regularly attend the space of the discussion group. Exclusion criteria were: professionals with no experience in the field of mental health and external professionals to the hospital. The data were submitted to thematic content analysis. This study was approved by the Research Ethics Committee of the University Hospital Antônio Pedro, Fluminense Federal University, and was approved under No. 125,286. RESULTS: After analyzing the material were listed the following categories: (i) being heard; (ii) The dynamic process of health work. CONCLUSIONS: There are difficulties for the nursing staff to be present within the space of PE; both by the resistance to allow the occupation of other places, as for the other team members.

“Educación permanente: Prácticas y procesos en enfermería de la salud mental” BACKGROUND: New summons were presented to the work process of the nursing team by the Brazilian Psychiatric Reform aiming at the enhancement of the therapeutic relationship, increasing listening skills and dialogue with users. AIM: To analyze the process of Permanent Education (PE) in a psychiatric hospital, from the dynamics of the nursing team work. METHODS: This is a descriptive and qualitative research, of the intervention type, in which observation, field diary, and group monitoring were employed. The study included 27 people, mostly nurses and nursing technicians who attended the PE group, in the period from October 2012 to April 2013, totalling eight meetings. The inclusion criteria of the participants were: to be legally employed in the hospital; work in the nursing profession for more than one year; regularly attend the space of the discussion group. Exclusion criteria were: professionals with no experience in the field of mental health and external professionals to the hospital. The data were submitted to thematic content analysis. This study was approved by the Research Ethics Committee of the University Hospital Antônio Pedro, Fluminense Federal University, and was approved under No. 125,286. RESULTS: After analyzing the material were listed the following categories: (i) being heard; (ii) The dynamic process of health work. CONCLUSIONS: There are difficulties for the nursing staff to be present within the space of PE; both by the resistance to allow the occupation of other places, as for the other team members.

DESCRIPTORES: Educación permanente; Enfermería psiquiátrica; Ambiente de trabajo

KEYWORDS: Continuing education; Psychiatric nursing; Working environment

1 Artigo extraído da dissertação de Mestrado vinculada ao Mestrado Profissional de Ensino na Saúde da Universidade Federal Fluminense, que teve como título “A educação permanente no cotidiano das novas práticas em saúde mental”. 2 Enfermeira; Mestre do Programa de Mestrado Profissional de Ensino na Saúde – Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, Brasil, amandas_mota@yahoo.com.br 3 Enfermeira; Doutora em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual de Campinas; Professora Titular na Universidade Federal Fluminense, Brasil, abrahaoana@gmail.com 4 Enfermeira; Doutora em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca; Professora Adjunta na Universidade Federal Fluminense, andriacz@ig.com.br Citação: Mota, A., Silva, A., & Souza, A. (2016). Educação permanente: Práticas e processos com a enfermagem em saúde mental. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe. 4), 09-16. Submetido em 20-12-2015 / Aceite em 30-05-2016 Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 9


INTRODUÇÃO No conjunto das políticas de saúde desenhadas no cenário brasileiro, a partir da 8ª Conferência Nacional de Saúde (1986), a Reforma Psiquiátrica Brasileira (RPB) é um marco. Ela vêm possibilitando a incorporação de novos conhecimentos e a implementação de novas propostas de assistência ao usuário com sofrimento psíquico, no sentido de romper com as práticas asilares da organização hospitalocêntrica, dando lugar as práticas que resgatem a autonomia, autoconhecimento, e aumento da capacidade de fazer escolhas (Rocha, 2012). Tal reformulação da assistência exigiu uma mudança na prática do cuidado psiquiátrico e da relação terapêutica entre usuário-profissional e usuário-instituição (Borba, Guimarães, Mazza, e Maftum, 2012). A reforma, no campo da psiquiatria, implicou repensar o modelo de assistência tradicional, por meio da vinculação da saúde mental aos conceitos de cidadania e qualidade de vida, a fim de que fosse possível a inclusão social da pessoa com transtorno mental promovendo respeito às diferenças e singularidades dela. A enfermagem, como uma profissão que compõem a equipe de saúde, nesse novo cenário, é convidada a ir além das ações de conter, vigiar e medicar, que durante tantos anos resumiram a sua participação no processo de cuidado em saúde mental. Nessa configuração, o processo de trabalho, principalmente da equipe de enfermagem, se deparou com novas convocações na assistência, no sentido de valorizar o relacionamento terapêutico, aumentando a capacidade de escuta e de diálogo com os usuários. O compartilhar experiências e saberes no trabalho cooperativo pode ser um elemento de contribuição para que a equipe de enfermagem possa reconhecer a necessidade de se aproximar da proposta de substituição do modelo de assistência no campo psiquiátrico e repensar a prática para além de um saber eminentemente técnico e disciplinador. Assim, sentimentos, atitudes, cooperação, solidariedade e responsabilidade social estarão envolvidos num mesmo propósito, colocados como elementos necessários ao processo de aprendizagem. Entretanto, a inovação no campo das ideias e estruturação na saúde mental não foi acompanhada, na mesma proporção, de inovações no campo da formação em saúde e trabalho em saúde na qual, segundo Merhy e Abrahão (2014), um produz o outro. E é nessa perspectiva que os profissionais devem ser vistos como um componente dinâmico que necessita de apoio e investimento permanente (Santos, Portugal, Silva, Souza e Abrahão, 2015), no sentido de acompanhar as mudanças desta nova política que instaura uma outra prática de cuidado. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 10

Uma prática marcada por conflitos derivados da transição paradigmática nos modos de intervenção em saúde mental, em que a prática disciplinadora e técnica é confrontada com uma prática cidadã e produtora de sujeitos. E é nessa configuração que a Educação Permanente em Saúde (EPS) apresenta-se como eixo possibilitador de reflexão e mudanças destas práticas no campo da saúde e, no nosso caso, da Saúde Mental. A educação permanente (EP) é compreendida como sendo um processo educativo contínuo, de revitalização e superação pessoal e profissional, de modo individual e coletivo, com objetivo de qualificação, reafirmação ou reformulação de valores, construindo relações integradoras entre os sujeitos envolvidos para uma praxe crítica e criadora (Slomp Junior, Feuerwerker, & Land, 2015). Se propõe, a partir da análise coletiva, problematizar o processo de trabalho, na perspectiva que seus atores possam ser capazes de se responsabilizarem mutuamente pela produção de autonomia e de cuidados em busca da integralidade da assistência (Ceccim, 2012). Compreende-se, neste artigo, que a educação deve ser construída pelo sujeito na sua relação com os outros e com o mundo. Ela pode ser considerada instrumento de transformação social quando forma profissionais de saúde para serem agentes de mudança, críticos, criativos, reflexivos, propositivos, capazes de assumir, no conjunto das lutas sociais, sua condição de agente ativo de transformação da sociedade e de si próprio, na conquista de direitos e justiça social (Slomp Junior et al., 2015). Baseada na aprendizagem significativa, a EPS também propõe que essa análise seja desenvolvida na interlocução, em rodas de conversas sobre os problemas e dificuldades vivenciados no cotidiano da produção do cuidado, da gestão, da formação dos trabalhadores. Diante desse contexto, este artigo apresenta uma parte da pesquisa A educação permanente no cotidiano das novas práticas em saúde mental, que objetivou analisar o processo de EPS num hospital psiquiátrico público no estado do Rio de Janeiro, a partir da dinâmica de participação da equipe de enfermagem em grupos de discussão sobre o trabalho em saúde mental, entre os anos de 2012 e 2013. Estudar modos de contribuir com a melhora da formação dos profissionais e da assistência prestada aos usuários com transtornos mentais é o foco deste artigo, com base no trabalho da EP como um caminho de debate sobre o processo de trabalho e abertura de novas possibilidades no cuidado.


METODOLOGIA O estudo toma como desenho uma pesquisa qualitativa, descritiva, do tipo intervenção, realizada num hospital psiquiátrico público no estado do Rio de Janeiro. Nesse tipo de pesquisa tem-se as práticas sociais e os referenciais que lhe dão sentido se produzindo simultaneamente. O conhecimento e a ação sobre a realidade são desenvolvidos no curso da investigação, de acordo com a análise e decisões da coletividade envolvida. Ou seja, a presença ativa dos participantes do estudo é garantida no caminhar do processo. Utilizaram-se como técnicas de coleta de dados a observação não participante, o diário de campo e os grupos de discussão sobre o trabalho em saúde mental, no período de outubro de 2012 a abril de 2013, totalizando oito encontros. O grupo estudado foi instituído há quatro anos no hospital psiquiátrico, que fez parte do estudo, com objetivo de viabilizar a discussão de casos relacionados aos pacientes entre os profissionais que compõem a equipe multiprofissional do hospital. Em busca de enriquecer o movimento de discussão no grupo, foi elaborado um caso analisador a partir da criação de um caso fictício, encenado a partir de pequenas esquetes por graduandas de enfermagem, representando a equipe de enfermagem (enfermeiros e técnicos de enfermagem). O caso analisador, ora denominado de ‘analisador artificial’ pela Análise Institucional (AI), é construído pelo analista para ser utilizado como provocador das discussões em grupo. No caso deste estudo, ele foi estabelecido com base em situações colhidas a partir da produção do diário de campo e da observação, e que conduziram a construção das esquetes, do caso analisador, empregadas no grupo estudado. O grupo foi ‘exposto’ ao caso por meio de esquetes teatrais realizada no dia 24 de abril de 2013, com duração de aproximadamente uma hora, no qual se deu a representação e discussão a partir de elementos apresentados: o silêncio dos profissionais nas reuniões; o sono; a resistência em sentar na roda; a presença de figuras de poder da instituição durante as reuniões; trocas de saberes a partir das experiências e o desejo de fazer diferente. Participaram do estudo 27 profissionais de enfermagem, elegíveis após aplicação dos seguintes critérios de inclusão: possuir vínculo empregatício com o hospital; atuar na profissão de enfermagem há mais de um ano; frequentar regularmente o espaço do grupo de discussão. Os critérios de exclusão considerados foram: profissionais sem experiência no campo da saúde mental; profissionais externos ao hospital.

O espaço frequentado de maneira mais assídua foi o grupo de EP que ocorre às quartas-feiras onde acontecia apresentação de casos, e que está constituída há aproximadamente quatro anos. A escolha desse espaço se justifica pelo interesse no movimento da equipe de enfermagem (composta pelo enfermeiro, técnico de enfermagem e auxiliar de enfermagem) participar ou ter um espaço para debate acerca de seu processo de trabalho. E também por esse espaço, apesar de aberto a todos do hospital, ser capaz de reunir uma representatividade desses profissionais (27 em média) oriundos das diversas enfermarias/setores do hospital. A observação de campo gerou a produção de um diário, no qual foram descritas percepções, análise acerca da postura dos profissionais de enfermagem durante a realização dos encontros, os movimentos e intervenções realizadas. O segundo passo foi construído a partir dos acontecimentos identificados no diário que produzem rupturas, que catalisam fluxos, na lógica do processo de intervenção. Denomina-se de analisador este movimento de desnaturalização produzido por estratégias de intervenção de acordo com o modo como os pesquisadores colocam em análise os efeitos das práticas no cotidiano institucional, desconstruindo territórios e sendo capazes de construir novas práticas (Rossi e Passos, 2014). Um analisador faz, então, no caso deste estudo, o grupo falar, dizer coisas que não são conversadas mesmo estando ali, meio oculta, mas acontecendo. Esses analisadores foram identificados (o silêncio dos profissionais nas reuniões; o sono; a resistência em sentar na roda; a presença de figuras de poder da instituição durante as reuniões; trocas de saberes a partir das experiências e o desejo de fazer diferente) e, então, trabalhados em forma de esquetes teatrais, apresentados e, posteriormente, levados para a discussão com os participantes. Os dados coletados pela observação de campo e os discursos produzidos com o grupo, com o uso dos analisadores foram submetidos à análise temática de conteúdo. Para tal, seguiram-se os seguintes passos: transcrição do material resultante da discussão gerada após a apresentação das esquetes; leitura coletiva e; análise do material em grupo de pesquisa. Os participantes receberam nomes fictícios, como forma de preservar o anonimato.

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O grupo de pesquisa constituiu-se em um espaço de produção de conhecimento e análise de dados, onde profissionais e estudantes de outras profissões – grupo multiprofissional - exploraram o material a partir da leitura coletiva. Na sequência, os dados foram depurados e construíram-se as categorias de análise, com a identificação dos analisadores, segundo a AI, que consiste naquilo que expõe elementos do grupo que não eram vistos ou estavam ocultos na dinâmica das relações cotidianas do trabalho, permitindo, assim, a composição dos resultados. Com base nos dados obtidos e posterior análise, identificaram-se os seguintes núcleos de sentido: Ser ouvido e; A dinâmica processual do trabalho em saúde. O estudo foi submetido ao Comitê de Ética e Pesquisa do Hospital Universitário Antônio Pedro, da Universidade Federal Fluminense (HUAP/UFF), tendo sido aprovado em outubro de 2012 sob n°125.286. RESULTADOS Para melhor entendimento dos resultados da pesquisa foram elencados dois grupos de sentidos: Ser ouvido; A dinâmica processual do trabalho em saúde. Ser Ouvido “Ser ouvido” dentro da esfera comunicacional significa ter suas visões, concepções compreendidas e levadas em consideração. Este núcleo de saber está intrinsecamente relacionado com a forma com que o profissional se coloca e participa do processo de trabalho, uma vez que se considera sua voz escutada na organização. Nesse sentido, nos espaços de discussão, se constatou a coexistência da sensação de os profissionais de enfermagem não serem escutados pelos outros membros da equipe, a dificuldade de empoderamento e a insegurança na maneira de se expressarem. “Não há nossa voz no hospital, a gente fala e o médico, psicólogo, ninguém escuta.” (Dama da Noite) “É, mas na mesma hora vão concordar, e depois vão descartar isso, o que falamos... Lógico, dificilmente eles vão ouvir e aceitar o que a gente fala e o que a gente acha.” (Gardênia) “Eu acho que também tem um pouco a ver com a timidez, de muitas pessoas não conseguirem expor, que não vem daqui, vem da infância mesmo, que não tem o hábito de estar falando pra outras pessoas.” (Ires) Percebe-se que o caso analisador proporcionou o extravasamento dos sentimentos e percepções dos profissionais de enfermagem emergidos no cotidiano do trabalho e, sobretudo, no espaço coletivo. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 12

“Acho que a provocação partiu dessas coisas que foram feitas [...] vem a partir daí, e acho que isso pode ser muito interessante. Puxou a corda, né? Puxou a linha da galera.” (Estrelícia) A EPS possui a potência de promover transformações nas relações, nos processos de trabalho, e isso pode ser constatado nos grupos de discussão. “Eu até falei que não ia mais a reunião nenhuma, aí eu pensei, ‘eu vou na reunião aporrinhar mesmo, eu vou passar a ir à reunião’... É aquele negócio, até eu passar a ser ouvida, entendeu?” (Orquídea) “Lógico que você tem que se impor, mostrar sua posição. Eu sou o que sou, é claro, se tiver que resolver junto a gente resolve junto, se tiver que passar a frente e pedir ajuda, é claro que você tem que se posicionar. Nós somos necessários mesmo... e me coloco numa posição assim: eu sou técnico de enfermagem com muito orgulho da minha assinatura.” (Estrelícia) Percebe-se uma dificuldade por parte dos profissionais de enfermagem se enxergarem incluídos no processo de transformação das práticas em saúde mental, fato constatado pelo silêncio de alguns e pelo sentimento de não ‘ser escutado’, por outros. Esse espaço também é identificado como provocador de inquietação, de mudança nas atitudes, além de perceberem o espaço como algo necessário. Há uma sensação de pertencimento e de ideia de grupo. “Acho que nós mesmos estamos diferentes uns com os outros, estamos melhores no convívio um com o outro.” (Gardênia) Em busca de potencializar o presente espaço de EPS foi proposto o formato de roda para organização daquele ambiente, pois se entende a roda como um dispositivo de articulação a fim de impulsionar transformações nas práticas de cuidado da equipe. Como afirmam Ceccim e Feuerwerer (2004) ao reforçarem que as rodas de EP não são meramente arranjos gerenciais, pois trabalham com processos pedagógicos de organização da rede de atenção à saúde, de qualificação das práticas por meio da integralidade da atenção e da produção por meio de aprendizagens significativas. “Uma coisa que surgiu como importante foi a organização da roda, em círculo, né?! E antigamente a gente se preocupava muito com isso, fazia um formato de escolinha, e depois a Chuva de Prata propôs que a gente fizesse em círculo.” (Copo de leite) “Só essa coisa, assim, de estar em roda já é uma coisa diferente.” (Ires) “Eu me sinto, assim, até à vontade, se eu quiser perguntar, eu pergunto.” (Tulipa)


“E o interessante é a troca de experiência. Isso aqui é um grupo, você vai conhecendo melhor as pessoas.” (Gardênia) Sentar na roda, fazer parte dela, representa um compartilhamento de responsabilidade; ao “fazer parte da roda” estariam sendo convocados a pensar em soluções para os problemas reais trazidos por eles próprios (para os quais não tinham respostas prontas e alguém externo ao cotidiano deles para dizer o que deveria ser feito) e, diante disso, se transformariam em corresponsáveis pelas decisões tomadas. E, de certo modo, saindo da posição de passivos, indo à caminho da autogestão e saindo do conforto e falso acolhimento oferecido pela heterogestão, que Lourau (2004) define como “geridos” por “outrem”, o que significa aceitar o instituído como natural. As rodas de EP não são meramente arranjos gerenciais, pois trabalham com processos pedagógicos de organização da rede de atenção à saúde, de qualificação das práticas por meio da integralidade da atenção e da produção através de aprendizagens significativas e novas práticas, que se contrapõem à verticalidade do sistema ainda vigente (Castro e Campos, 2014). A Dinâmica Processual do Trabalho em Saúde Este núcleo agregou diferentes condicionantes do processo de trabalho, como jornada extensa, baixa remuneração e envolvimento com os limites humanos, dor e sofrimento psíquico. “Um dos pontos que eu acho fundamental é que nossa vida, nosso cotidiano fica acorrentado, sai de um pra outro, pra você parar com o colega e perguntar de A à Z todos os problemas. Eu acho que a gente não tem tempo pra isso, a gente tem um outro plantão pra pegar, um outro lugar.” (Estrelícia) “E quando está agitado, o telefone tocando o tempo todo, não tem como!” (Gardênia) “O ti ti ti, cada um pega o seu ônibus e um abraço. Acabou o nosso plantão.” (Estrelícia) “Mas, assim, é difícil, e é isso. Às vezes é difícil até conseguirmos sair para o nosso almoço.” (Lavanda do mar) Pode-se observar através do discurso dos profissionais, que o tempo corrido e a forte rotina de trabalho mostram-se como influenciadores da disposição deles nesse espaço. Assim, muitos encontram nesse espaço um local para descansar e acabam por se sentirem sonolentos. “Acaba sendo um lugar de descanso. Você passa o dia todo em pé na correria, chega num lugar sentado com ar condicionado, fresquinho.” (Ires)

“Depois do almoço, né? Também tem isso, ainda é depois do almoço.” (Margarida) Outro ponto que emergiu a partir das falas dos sujeitos foi o tema abordado no grupo e algumas transformações naquele espaço como fatores que influenciam o interesse e o jeito com que se posicionam. “Mas têm temas também que convocam mais, né? Tem tema aqui que está todo mundo querendo dar opinião e nem consegue, começa a falar ao mesmo tempo.” (Flor do campo) “Quando você vem com um paciente diferente e ninguém conhece, você se interessa. Como que foi antes? Como que está agora? O que você vai fazer? Eu acho que também tem isso, por exemplo, se você for falar de certos pacientes aquilo já é maçante, o conhecido não é bom, o desconhecido que é bom! É o que você vai poder melhorar.” (Tango) “Bem melhor, muito mais produtivo.” (Rosa) Apesar das dificuldades apontadas por eles, constatase o interesse em discutir e estudar casos ou temas considerados complexos e novos. É como se a necessidade de trocas fosse mais pertinente, mediante um novo cenário, um novo paciente. Isso aponta para a existência de profissionais sedentos por novos conhecimentos, por vezes, representado pelo o silêncio (sede de ouvir), ou pelo atropelamento das falas (inquietude na busca de apreensão do novo). Seja lá para que lado a balança decline, trará sempre um certo dinamismo ao grupo, um certo desequilíbrio a esse espaço. Acerca do processo do trabalho em saúde, outro fator se mostrou presente no grupo de discussão, como algo que dificulta a participação de um maior número de profissionais da enfermagem nesse espaço: a dificuldade dos demais membros da equipe multiprofissional em se ocupar do posto de enfermagem para a viabilização do grupo. DISCUSSÃO A trajetória da enfermagem foi marcada por um silêncio diante do predomínio do modelo biomédico a partir da década de 1950, em que a figura do médico era central e à enfermagem cabia cuidar da segurança do paciente, ter a certeza de que o usuário ingeriu a medicação, observar reações, bem como os cuidados de manutenção da vida (Rocha, 2012). Os trabalhadores de enfermagem, então, figuravam como atores coadjuvantes nesse processo, na categoria de executores da ordem disciplinar.

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O forte resquício do passado também pode influenciar na sensação de desvalorização de seu saber, da sua palavra, resultando num posicionamento mais passivo. Há no conflito desses profissionais de enfermagem o motor de sua história e de sua prática, uma profissão que nasceu sob a égide do feminino (Rocha, 2012). No discurso produzido acerca de sua prática, os profissionais de enfermagem parecem afirmar uma cultura profissional, na qual dois dilemas encontramse articulados: um imaginário mimético com relação à medicina e um imaginário feminino de submissão e inferioridade. Entretanto, a potência de equipe está justamente no crescimento coletivo, embora o movimento habitual seja de exclusão. As possibilidades de expressar as diferenças de opiniões, sentimentos, ideias são processos de democratização das instituições, dependente da abertura para acolher as mudanças em si, nos coletivos e nas instituições. Diante disso, percebe-se que o conceito de empoderamento dialoga com o conceito de EP, na medida em que o mesmo implica em avanço e superação por parte daquele que se empodera (sujeito ativo do processo), superando a simples doação ou transferência pelo estado de benevolência e realizando, assim, por si mesmo, as mudanças e as ações que os levam a evoluir e se fortalecer. É nessa lógica que caminha a estratégia de EP pela sua proposta de reflexão e análise por parte dos profissionais da saúde do seu próprio processo de trabalho, de forma a compartilhar coletivamente a responsabilidade de se construir soluções concretas para os problemas que emergem no cotidiano das suas práticas. Para se trabalhar nesse contexto, é imprescindível o trabalho em grupo, pois é somente a partir da sensação de pertencimento, partilhamento de objetivos e estabelecimento de relações positivas que se constroem movimentos sólidos na reinvenção de fazeres. É necessário que os profissionais possam se encontrar uns com outros, com as diferenças e semelhanças percebidas nos mais diversos setores em que trabalham e com as experiências de clínicas múltiplas acumuladas. O hábito de refletirem sua assistência, de gerarem um pensamento crítico, de se distanciarem do senso comum e se sentirem à vontade para pensar e agir, a partir da sua própria experimentação da prática, e da sua análise sobre o seu fazer é algo a ser construído e desenvolvido diariamente nesses espaços. E não ocorrerá sem embaraços, sem atropelamentos, sem divergências, sem as dificuldades de se fazerem compreender, simplesmente porque tais passos fazem parte do caminhar dos que almejam a autonomia da palavra. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 14

No que compete à dinâmica processual do trabalho, é preciso ressaltar que no ambiente hospitalar o trabalhador se depara com excessiva carga de trabalho, contato com o limite, tensão, riscos, plantões em diferentes turnos e longas jornadas de atividade. Esses fatores comprometem a integridade física e mental dos trabalhadores de enfermagem (Rocha, 2012). É comum os profissionais precisarem realizar rodízios de escalas de turnos noturnos e diurnos, duplas ou triplas jornadas de trabalho, em função da baixa remuneração. Soma-se a isso, o fato de que na saúde mental há um intenso envolvimento com os limites humanos, dor e sofrimento psíquico. Nota-se aqui a relevância do dinheiro como analisador, uma vez que, o dinheiro é um dos analisadores mais sensíveis da socioanálise (Lourau, 2014). A partir dele, é possível manter os diferentes objetivos de vida. A maior parte dos profissionais estudados está, há anos, na condição de prestador de serviço e não possui direitos trabalhistas, o que gera, principalmente para os que ganham menos, uma sensação de insatisfação. Tais fatores influenciam o desejo e a disposição dos profissionais em buscar novas maneiras de praticar saúde e, por vezes, inviabilizam a participação deles nos espaços de EP. Se permitir estar em outros lugares, ocupando e se exercendo de outras funções não é uma tarefa fácil e de acontecimento natural, exige trabalho. E este, por sua vez, só é possível por meio da reflexão, da compreensão da importância de um espaço de EPS para qualquer transformação no sentido de se autorizar e ao mesmo tempo se incluir nos processos do cuidado. Nota-se, pois, que a política institucional de EP encaminha-se para uma realidade mais dotada de integralidade, em que os diferentes atores envolvidos no cuidado constroem coletivamente movimentos de transformação das práticas de saúde, com vistas à melhor qualidade do atendimento prestado aos usuários de saúde mental. Diante de tais resultados, pode-se perceber que o melhor movimento pedagógico não está no seu conteúdo formal, mas naquilo que carrega de potencial. Nesse sentido, se a discussão sobre o processo de trabalho gera inquietação, interroga a forma como se está trabalhando, coloca em dúvida a capacidade de resposta coletiva da unidade de serviço; ou ainda, impede de o trabalhador continuar a ser o mesmo que era, o impede de deixar tudo apenas como está e tenciona suas implicações com os usuários de suas ações, ela conseguiu realizar a EPS.


Nessa perspectiva é que se percebe a importância do investimento permanente nesses profissionais, compreendendo o seu papel central para uma prática, em que, por um lado o usuário tenha sua autonomia preservada e incentivada nos pequenos fazeres diário e que essa mesma equipe (de enfermagem) possa ir além da reprodução de prescrições técnicas, se posicionando também como um agente terapêutico; por outro, de serem capazes de se perceberem como agentes produtores do cuidado, corresponsáveis no seu processo de trabalho (Muniz, Tavares, Abrahão e Souza, 2015). Percebemos que os problemas do cotidiano do trabalho podem ser revertidos em questões educacionais, e podem ser empregados como elementos formativos no interior dos serviços, com a participação dos profissionais de saúde. CONCLUSÃO No atual momento em que se encontra a saúde mental, a equipe de enfermagem tem sido convocada a incorporar novas formas de compreender e promover a assistência, o que direciona para a prática voltada à reflexão do processo de trabalho até então construído e a possibilidade de problematização e transformação do mesmo. Em nosso estudo, foi possível identificar a estratégia de EP como uma prática de ensino-aprendizagem e como uma política de educação na saúde. Um lugar de troca, intercâmbio, de possível ‘estranhamento’ de saberes e da ‘desacomodação’ com as práticas vigentes. Nota-se com a presente pesquisa que há dificuldades para a equipe de enfermagem se fazer presente nesse espaço, tanto pela própria resistência em se permitir ocupar outros lugares, quanto pelos demais membros da equipe de saúde ao não compreenderem o papel da profissão no cuidado ao usuário em transtornos psíquicos. Entretanto, consideram-se tais dificuldades como algo esperado e inerente a qualquer proposta de inovação. Por outro lado, constatou-se haver ‘vida’ nesse espaço, marcado por tensões, discussões, reflexões no trabalho. A organização do espaço no formato da roda, ao mesmo tempo em que foi um instrumento visto como resistência por alguns integrantes do grupo, foi compreendida como uma ferramenta capaz de proporcionar dinamismo e aproximação no grupo. E, desse modo, potencializando esses profissionais a se conhecerem, descobrirem e se identificarem como um grupo.

Considera-se importante ressaltar que a EPS se constitui um processo em contínua evolução e adequações. A importância está no grupo poder ir se construindo, se articulando com a possibilidade de reflexão, de análise e construção de soluções coletivas, sendo, portanto, palpável o amadurecimento dos profissionais nesse processo. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA A implementação de espaços de Educação Permanente nos serviços de saúde, na medida que tenciona as práticas proporciona uma ampliação dos espaços de discussão e possibilita um compromisso dos profissionais com melhores condições de assistência à saúde. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Abrahão, A. L., e Merhy, E. E. (2014). Formação em saúde e micropolítica: Sobre conceitos ferramentas na prática de ensinar. Interface - Comunicação, Saúde, Educação, 18(49), 312-324. doi: dx.doi. org/10.1590/1807-57622013.0166 Borba, L. O., Guimarães, A. N., Mazza, V, A., e Maftum, M. A. (2012). Assistência em saúde mental sustentada no modelo psicossocial: Narrativas de familiares e pessoas com transtorno mental. Revista da Escola de Enfermagem da USP, 46(6), 1406-1414. Disponível em www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S0080 Castro, C. P., e Campos, G. W. S. (2014). Apoio institucional paidéia como estratégia para educação permanente em saúde. Revista Trabalho Educação e Saúde, 12(1), 29-50. Disponível em www.scielo.br/ scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981 Ceccim, R. B. (2012). Desenvolvimento de competências no trabalho em saúde: Educação, áreas do conhecimento e profissões no caso da saúde. Tempus: Actas de Saúde Coletiva. 6(2), 253-277. Disponível em http://www.tempus.unb.br/index.php/tempus/ article/view/1128 Lourau, R. (2014). Análise institucional. Petrópolis: Editora Vozes.

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Muniz, M. P., Tavares, C. M., Abrahão, A. L., e Souza, Â. C. (2015). A assistência de enfermagem em tempos de reforma psiquiátrica. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (13), 61-65. Disponível em http:// www.scielo.mec.pt/pdf/rpesm/n13/n13a08.pdf Rocha, R. M. (2012). Enfermagem em saúde mental. Rio de Janeiro: Senac Nacional. Rossi, A., e Passos, E. (2014). Análise institucional: Revisão conceitual e nuances da pesquisa-intervenção no Brasil. Revista EPOS, 5(1), 156-181. Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/pdf/epos/v5n1/09.pdf

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Santos, C. G., Portugal, F. T. A., Silva, M. A. B., Souza, Â. C. S., e Abrahão, A. L. (2015). Formação em saúde e produção de vínculo: Uma experiência PET-Saúde na rede de Niterói, RJ, Brasil. Interface - Comunicação, Saúde, Educação, 19(1), 985-993. doi: dx.doi. org/10.1590/1807-57622014.0868 Slomp Junior, H., Feuerwerker, L. C. M., & Land, M. G. P. (2015). Educação em saúde ou projeto terapêutico compartilhado? O cuidado extravasa a dimensão pedagógica. Ciência e Saúde Coletiva, 20(2), 537-546. doi: dx.doi.org/10.1590/1413-81232015202.00512014


Artigo de Investigação

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Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0136

SAÚDE MENTAL NO ATENDIMENTO PRÉ-HOSPITALAR MÓVEL: CONCEPÇÕES DE PROFISSIONAIS1 | Fabrício Bastos2; Carla Dutra3; João Almeida da Silva4; Kitiana Pacheco5; Thiago Silva6 |

RESUMO CONTEXTO: Muitos profissionais da área da saúde ainda preservam resquícios do pensamento manicomial, interferindo diretamente na produção do cuidado e na compreensão das Redes de Atenção à Saúde e de Atenção Psicossocial. OBJETIVO: Apreender as concepções dos profissionais envolvidos no atendimento pré-hospitalar acerca da atenção à saúde mental. METODOLOGIA: Estudo descritivo e exploratório, a partir de fragmentos de falas de 28 profissionais do SAMU do município de ItabunaBA, que atuam diretamente na assistência ao usuário. Utilizou-se a técnica de análise de conteúdo por categorização temática. A pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética de Pesquisas com Seres Humanos da EERP/USP, com base no Parecer Consubstanciado de nº. 543.516, em 27/02/2014. RESULTADOS: Observou-se concepções negativas em relação à saúde mental, que reproduzem um modelo de atenção fragmentado, que segrega o “louco” para outros espaços, não permitindo a dimensão do cuidado ampliada, com acesso equânime, por entender esse sujeito como diferente, ameaçador, levando à exclusão e ideia de que a única opção, é o encaminhamento/internamento em hospital psiquiátrico. CONCLUSÕES: Os conceitos fragmentados sobre a saúde diminuem o acesso aos serviços e oportunidades de emancipação do portador de transtorno mental. A reorientação dessa lógica é necessária para qualificar o atendimento e promover nesses profissionais o comprometimento com uma atenção à saúde ampliada e integral, com a perspectiva de melhoria do acesso aos serviços dispostos na rede, independente do usuário que utilizará o SAMU. PALAVRAS-CHAVE: Saúde mental; Atendimento pré-hospitalar; Urgência

RESUMEN

ABSTRACT

“Atención de salud mental móvil prehospitalaria: Concepciones de los profesionales”

“Mental health in mobile pre-hospital care: Conceptions of the professionals”

CONTEXTO: Muchos profesionales de la salud aún conservan restos de pensamiento de asilo, lo que interfiere directamente en la producción de la atención y la comprensión de las Redes de Atención de la Salud y de Atención Psicosocial. OBJETIVO: Comprender los conceptos de los profesionales implicados en la atención prehospitalaria sobre el cuidado de la salud mental. METODOLOGÍA: Estudio descriptivo y exploratorio, de fragmentos de discursos de 28 profesionales del SAMU en Itabuna-BA, que actúan directamente sobre la asistencia a los usuarios. Se utilizó la técnica de análisis de contenido por clasificación temática. Estudio fue presentado al Comité de Ética para la Investigación con Seres Humanos de la EEERP/ USP, en base a la autorización 543.516 de 27/02/2014. RESULTADOS: Se observaron concepciones negativas con respecto a la salud mental, que reproducen un modelo de atención fragmentada que segrega el “loco” a otras áreas, no permitiendo la atención prolongada con acceso ecuánime, por entender este usuario como si fuera diferente, amenazante, que conduce a la exclusión y la idea de que la única opción es la remisión/hospitalización en un hospital psiquiátrico. CONCLUSIONES: La fragmentación de conceptos sobre la salud disminuir el acceso a los servicios y las oportunidades de empoderamiento de los pacientes mentales. Es necesaria la reorientación de esta lógica para mejorar el servicio y promover el compromiso profesional con un enfoque en la salud expandida e integral, con la perspectiva de un mejor acceso a los servicios dispuestos en red, independientemente del usuario que va a utilizar el SAMU.

BACKGROUND: Many health professionals still preserve remnants of asylum thought, which interferes directly in the production of care and understanding of Care Networks Health and Psychosocial Care. AIM: To grasp the concepts of the professionals involved in prehospital care about mental health care. METHODS: descriptive and exploratory study from fragments of speeches of 28 professionals SAMU in the city of Itabuna-BA, which act directly on the user assistance. Content analysis technique for thematic categorization was used. The research was submitted to the Research Ethics Committee in Human Beings of EERP/USP, based on the opinion of Embodied No. 543 516 on 02/27/2014. RESULTS: There were negative conceptions regarding mental health, which reproduce a fragmented care model that segregates the “crazy” to other areas, not allowing equality in access to extended care, understanding this subject as different, threatening, leading to exclusion and the idea that the only option is referral/hospitalization in a psychiatric hospital. CONCLUSIONS: Fragmented concepts on health decrease access to services and empowerment opportunities of mental patients. The reorientation of this thought is needed to improve service and promote this professional commitment with a focus on expanded and full health with the prospect of improved access to ready the network services, regardless of the user who will use the SAMU.

DESCRIPTORES: Salud mental; Atención prehospitalaria; Urgencia

KEYWORDS: Mental health; Prehospital care; Urgency Submetido em 20-12-2015 Aceite em 30-05-2016

1 Artigo produzido a partir do banco de dados da tese intitulada “Sistema de Atendimento Móvel de Urgência de Itabuna: A relação entre a tomada de decisão e a produção do cuidado”. Os sujeitos da pesquisa foram 28 profissionais do SAMU do município brasileiro de Itabuna-BA. 2 Enfermeiro pela Universidade Estadual de Santa Cruz; Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto; Professor Assistente na Universidade Estadual de Santa Cruz, Departamento de Ciências da Saúde, Rodovia Jorge Amado, Bairro Salobrinho, Ilhéus-Bahia, Brasil, fabriciojsbastos@yahoo.com.br 3 Enfermeira pela Universidade Estadual de Santa Cruz; Mestre em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente; Professora Assistente na Universidade Estadual de Santa Cruz, Departamento de Ciências da Saúde, 45662-900 Ilhéus-Bahia, Brasil, cdcdutra@uesc.br 4 Enfermeiro pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Mestre em Enfermagem; Prof. Assistente na Universidade Estadual de Santa Cruz, prof.jlalmeida@gmail.com 5 Enfermeira pela União Metropolitana da Educação e Cultura; Mestranda em Desenvolvimento e Meio Ambiente na Universidade Estadual de Santa Cruz; Docente de Enfermagem na União Metropolitana da Educação e Cultura, 45601-000 Itabuna - BA, Brasil, kittypacheco@hotmail.com 6 Enfermeiro pela Universidade Estadual de Santa Cruz; Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal Fluminense, Niterói - RJ, Brasil, tns.thiago@hotmail.com Citação: Bastos, F., Dutra, C., Silva, J., Pacheco, K., & Silva, T. (2016). Saúde mental no atendimento pré-hospitalar móvel: Concepções dos profissionais, acesso à saúde e produção de cuidado. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe. 4), 17-24. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 17


INTRODUÇÃO O atendimento realizado no ambiente pré-hospitalar móvel, aqui compreendido como Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), é protagonizado por profissionais de diversas categorias, oriundas ou não da saúde. A produção do cuidado neste serviço destina-se a promover a saúde em situações de urgência e emergência. A situação da atual estrutura dos serviços de saúde vai de encontro às características definidoras e princípios de integralidade e equidade na assistência. O que é possível desvelar é que há uma disparidade entre o Sistema planejado e pactuado e o Sistema que efetivamente existe em nosso cotidiano. Entre todos os elementos que podem interferir na operacionalização das ações planejadas, dois merecem destaque aqui: o usuário do Sistema de Saúde e o Trabalhador da Saúde. O usuário busca os serviços de saúde de acordo com aquilo que compreende que os serviços oferecem. Assim, não se preocupa exatamente com o fluxo estabelecido para o atendimento à saúde no momento de buscar o que ele deseja com base em seu conceito pessoal e particular sobre o que é saúde ou o que é uma urgência. A realização de ações que resultem no cuidado à saúde de um usuário, família ou comunidade é feita pelos profissionais que atuam na prestação da assistência à saúde. Essa produção apresenta potenciais contribuições para o desenho de um Sistema de Saúde ou seu redesenho ou mesmo para prover a manutenção de um modelo de assistência da maneira como se encontra. Sobre o trabalho em saúde, Merhy e Franco (2008) nos apresentam alguns conceitos-chave para seu entendimento. O primeiro versa sobre as tecnologias em saúde. Para os referidos autores, os trabalhadores em saúde utilizam-se de três tipos de tecnologia para realizar o trabalho em saúde: tecnologias duras compostas pelos instrumentais utilizados para a execução do trabalho em saúde, a exemplo de seringas, estetoscópios, macas etc.; as tecnologias leve-duras que são os saberes elaborados em teorias, protocolos, rotinas; e, por fim, as tecnologias leves, que são relacionais e subjetivas, elas emergem dos contatos entre os diversos atores do cenário da saúde, a exemplo da relação que se estabelece entre trabalhadores da saúde e usuários. O segundo conceito apresentado nos reporta às características do trabalho cujos produtos resultantes podem gerar novos instrumentos ou técnicas que serão utilizados por outro trabalhador para produção de novos bens e serviços. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 18

A este produto do trabalho (o protocolo, por exemplo) já instituído, os autores nomearam de trabalho morto, ou seja, o resultado de uma produção de trabalho que já aconteceu. Ao contrário disto, os autores colocam ainda que o trabalho realizado pelos trabalhadores ocorre no ato do trabalho ou no ato da produção. Este trabalho recebe o nome de trabalho vivo em ato (Merhy e Franco, 2008, p. 278). Tanto na Rede de Atenção às Urgências quanto na Rede de Atenção Psicossocial e suas estruturas de atendimento ao portador de transtornos mentais, o cuidado se dá pelo contato trabalhador de saúde/usuário. Esses cuidados e o conjunto de serviços de saúde compõem um Sistema de Saúde. Em relação aos sistemas de saúde, Mendes define como “respostas sociais deliberadas às necessidades de saúde da população” (Mendes, 2008, p. 4). Em geral, a responsabilização pela criação das respostas necessárias emerge da função do Estado como provedor a partir da análise de dados epidemiológicos e demográficos. No caso do SAMU, os trabalhadores da saúde, que prestam assistência direta ao usuário gravemente enfermo, são os Médicos Intervencionistas, Enfermeiros, Técnicos e Auxiliares de Enfermagem e os Condutores Socorristas. O Médico Regulador realiza atendimento ao usuário gravemente enfermo, a partir da Central de Regulação das Urgências do SAMU, utilizando os recursos da telemedicina. As necessidades de saúde da população ganham nova forma de vocalização ao serem evidenciadas pela ação do SAMU, uma vez que o serviço acaba atendendo as demandas que outros níveis de atenção do sistema poderiam atender de maneira mais equilibrada. Os profissionais do SAMU vivenciam diariamente as condições das portas de entrada do Sistema de Saúde como um todo, uma vez que os mesmos são acionados para a realização de atendimento tanto em domicílios e vias públicas, quanto em serviços de saúde públicos e privados. A partir da reunião de informações decorrentes do trabalho vivo em ato desenvolvido pelos profissionais que prestam assistência, a Central de Regulação das Urgências pode desenhar um panorama das condições do Sistema de Saúde mais ágil. Dentre os usuários atendidos estão os portadores de transtornos mentais. Depois de 40 anos do início dos movimentos pela reforma psiquiátrica e suas vitórias, percebemos que os profissionais que atuam na área de saúde ainda preservam resquícios do pensamento manicomial.


Essas concepções interferem diretamente na produção do cuidado e na compreensão da Rede de Atenção à Saúde, mais especificamente na visão dos profissionais acerca da Rede de Atenção a Psicossocial. É possível afirmar que o processo de tomada de decisões realizado pelos profissionais do SAMU toma como base suas experiências, conhecimentos, e valores, aglutinados no núcleo de saberes e práticas do Atendimento Pré-Hospitalar. Este núcleo compõe o campo de saberes e práticas da Urgência e Emergência e é perpassado transversalmente pelo campo de saberes da Saúde Coletiva, Educação Permanente em Saúde e Educação Popular em Saúde. Todos os processos de elaboração da realidade vivenciada no ambiente pré-hospitalar têm importância inconteste no atendimento ao usuário portador de transtorno mental. A incerteza de ambientes de atendimento torna o trabalho vivo em ato destes profissionais na prestação do cuidado mais difícil de ser executado. Diferentemente de outros campos de atuação com espaços físicos determinados, a exemplo do atendimento nas portas de emergência hospitalares e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), no caso do atendimento realizado pelas equipes do SAMU não há definição do espaço físico para a prestação do cuidado. Este artigo busca discutir como é percebida, pelos profissionais do Atendimento Pré-Hospitalar (APH) de um município do interior da Bahia – Brasil, a prestação do cuidado ao usuário portador de transtorno mental. Define-se como objetivo: apreender as concepções dos profissionais envolvidos no atendimento pré-hospitalar acerca da atenção em saúde mental. Espera-se que este trabalho contribua com a reflexão e sugestão de novos modos de ser e agir em relação ao cuidado prestado nas situações de emergências psiquiátricas. METODOLOGIA O estudo é do tipo descritivo e exploratório, com abordagem qualitativa. Foram utilizadas falas extraídas do banco de dados gerado pela tese de doutorado Sistema de Atendimento Móvel de Urgência de Itabuna: a relação entre a tomada de decisão e a produção do cuidado. Os sujeitos da pesquisa foram 28 profissionais do SAMU do município brasileiro de Itabuna-BA, que atuam diretamente na assistência ao usuário e atenderam ao critério de inclusão de experiência mínima de seis meses de atuação no SAMU. Como critérios de exclusão foram definidos: os profissionais do SAMU Itabuna que não atuavam na assistência direta ao usuário e que tivessem menos de seis meses no serviço.

A pesquisa foi desenvolvida em consonância e observância do que dispõe e orienta a Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde que trata da pesquisa com seres humanos (Ministério da Saúde, 2012). Anteriormente à coleta, a pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/USP, recebendo aprovação pelo Parecer Consubstanciado de nº 543.516, em 27 de fevereiro de 2014. Para análise dos dados foi utilizada a técnica de análise de conteúdo por categorização temática. RESULTADOS A caracterização profissional da amostra resultou em 09 condutores socorristas (COND), 10 técnicos de enfermagem (TE), 03 médicos intervencionistas (MI), 04 enfermeiros (ENF), 02 médicos reguladores (MR). A partir das falas dos sujeitos, foram compostas 2 categorias temáticas sobre as concepções frente ao transtorno psíquico em situação de urgência/emergência, apresentadas a seguir. Atenção em Saúde Mental no Atendimento Pré-Hospitalar Móvel: Construções Sociais e o Reflexo no Acesso a Saúde A Portaria nº. 2.048 do Ministério da Saúde (2011) traz uma definição de urgências psiquiátricas e sinaliza que os serviços de urgência devem estar aptos e possuir competência técnica para o atendimento a essas situações; nesse sentido, o SAMU possui o dever de acolher e articular com a rede de serviços para a produção do cuidado efetivo às demandas de saúde mental que se apresentarem dentro desse contexto. Contudo, as situações de emergências psiquiátricas ainda são concebidas como complexas, complicadas e merecedoras de uma atenção que parece estar longe do arcabouço de competências de quem proporciona o cuidado, incumbindo outros espaços que são compreendidos como os detentores desse saber, fragmentando o sujeito entre condições clínicas e condições psíquicas, do atendimento do SAMU ao recebimento da demanda pelos hospitais. Os fragmentos das falas a seguir ilustram essa conjuntura: “É complexo, por exemplo, quando você vai a uma vítima que é psiquiátrica, nós temos um hospital psiquiátrico e um hospital que também atende essa parte de psiquiatria; quando é um paciente clínico [...] o hospital clínico de Itabuna é o São Lucas e às vezes tem aquele lado que o hospital não quer receber [...].” E06 TE02 Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 19


“E muitas vezes a gente está com dificuldade também no atendimento médico ao paciente psiquiátrico, a noite não funciona a psiquiatria, que deveria funcionar, a gente acaba saindo com esse paciente, muitas vezes não tem nem necessidade de ir para um hospital de referência, o São Judas.” E19 TE09 Outra fala, a seguir, corrobora com o entendimento de que as situações psiquiátricas possuem um espaço próprio, diferenciado, em que a SAMU não deveria atuar: “O paciente psiquiátrico, o paciente bêbado que está na porta de alguém, só pra gente ir e fazer o trabalho social de tirar de lá. Aí enquanto a gente está fazendo esse trabalho básico que eu acho que não precisava deslocar uma viatura do SAMU para fazer um atendimento que a própria população ou a própria pessoa possa fazer, a gente faz deixando outras pessoas que precisam na mão.” E12 COND 2 Nessa fala, é perceptível que a situação psiquiátrica é entendida como uma condição menor, “básica” em que os outros, mesmo leigos, podem assumir e se responsabilizar pela mesma. Transcorre também, na subjetividade da fala, um descompromisso em que o próprio sujeito é culpado por sua situação de saúde e que, portanto, pode por si só buscar resolução de seu problema e que, por outro lado, pode mostrar uma aversão para acolher o usuário nessa condição. A SAMU, quando acolhe, está fazendo um favor, um trabalho social que deveria ser de outro, ou seja, não é de sua competência. Esse entendimento como um fardo social fere, entre outras prerrogativas do SUS, os princípios da produção do cuidado com atenção equânime e acesso universal. Na fala seguinte, outro elemento constitutivo das concepções dos profissionais frente as situações de urgência psiquiátrica foi a associação com a violência e o risco de agressão: “Geralmente se regula aqui no nosso ambiente de trabalho, a regulação é feita com os casos urgentes, que no caso é infarto, acidentes graves e baleados ou esfaqueados, sem contar os psiquiátricos que estão bastante violentos [...].” E15 COND06 É claro que, em muitas circunstâncias, a crise psiquiátrica pode desencadear reações violentas e temerárias; contudo, se considerarmos ações pautadas na contenção física apenas, sem uma intervenção terapêutica apropriada e acolhedora, a agressão entra na esfera do risco. Dessa forma, o medo e a incapacidade para uma ação promotora de cuidado se limitarão e poderão ser geradores de maior sofrimento ao usuário e exacerbação da raiva, o que pode culminar na efetividade do ato violento e consequências à integridade física de ambos. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 20

Por outro lado, não surgem nas falas, em momento algum, uma necessidade de capacitação que mostre um comprometimento frente às situações de urgência psiquiátrica. Abaixo, uma fala que cita apenas a área psiquiátrica no rol de módulos de um curso, não como elemento mobilizador de uma capacitação específica: “Eu já participei de um curso do PHTLS, já participei do curso Suporte Básico de Vida, Resgate Aero médico, cursos também de APH, pós-graduação em emergência com ênfase em atendimento pré-hospitalar e no momento estou fazendo um curso voltado pra o atendimento pré-hospitalar, um curso do Hospital Alemão Osvaldo Cruz, que abrange 16 módulos, desde da cinemática a áreas clínicas, psiquiátricas, cirúrgicas, pediátricas, gineco-obstétricas, estou fazendo esse curso ainda, falta a conclusão.” E18 TE08 A Fragmentação da Rede: Do Referenciamento à Conduta dos Encaminhamentos Os fragmentos das falas abaixo apontam a ideia de que o hospital psiquiátrico ainda é a preferência para o atendimento de usuários em crise psíquica e o SAMU um instrumento para direcionar esses usuários para a rede hospitalar: “É... o Hospital de Base que recebe tanto os pacientes clínicos como pacientes de trauma, o Hospital São Lucas que tem função de Oncologia, né? Pacientes da oncologia e o Hospital São Judas que recebe pacientes de necessidade de tratamento psiquiátrico.” E09 COND04 “A gente tem emergências traumáticas que são referenciadas para o Hospital de Base, emergências clinicas que são referenciadas ao hospital São Lucas, emergências obstétricas e pediátricas ao hospital Manoel Novais, emergências psiquiátricas à clínica São Judas, e a parte do convênio são referenciadas à Santa Casa de Misericórdia, o hospital Calixto Midlej.” E10 ENF01 “Bom, paciente psiquiátrico, seja qualquer tipo, é encaminhado para o São Judas, paciente clinico, São Lucas, e pacientes graves, isso vinculado a acidentes ou espancamento, para o hospital de Base.” E15 COND06 As falas abaixo corroboram com os fragmentos anteriores citados e trazem a ideia de fluxo voltado para o hospital psiquiátrico, não obedecendo a essa lógica de organização em rede, na qual os profissionais não reconhecem possibilidades de pontos de atenção existentes e não ou não conseguem identificar outras alternativas de atenção extra – hospitalar: “Pacientes clínicos na maioria das vezes vão para o hospital São Lucas, paciente trauma vai para o hospital referência que é o hospital de base, psiquiátrico vai para o hospital de base, sendo que de lá ele é avaliado pelo psiquiatra e encaminhado para o hospital São Judas.” E12 TE05


“Quadro clínico SUS vai para o São Lucas, que não aceita neurológico que vai para o Base, psiquiátrico também vai para a psiquiatria do Base é referência, cada um com sua referência diferente.” E19 TE09 Essa situação chama a atenção para necessidade de fluxos, bem como protocolos de encaminhamentos. Apesar dos resultados não apontarem a falta de protocolo de encaminhamento específico para a saúde mental no município em estudo, a fala abaixo mostra a importância da regulação do SAMU, que deve conter protocolos que respeitem as normas da Política Nacional de Atenção às Urgências e uma regulação médica que realize encaminhamentos adequados: “O médico regulador do SAMU de Itabuna tem o papel de regular as urgências que são atendidas pelo SAMU, as urgências clínicas, cirúrgicas, obstétricas, pediátricas, psiquiátricas.” E18 TE08 A fala abaixo expressa a dúvida em relação ao fluxo ou lacunas quando chega o período da noite, além de descartar a necessidade de uma ambulância com equipamentos de maior densidade tecnológica, para atendimento de estados psíquicos alterados: “Também a parte dos psiquiátricos que não é uma rotina para avançada (USA), mas que eu vejo durante o dia está tudo bem, mas quando chega a noite pode não estar tudo bem, se criaram lá no passado um fluxo de entrar pelo Hospital de Base para depois ir para o Hospital Psiquiátrico, o Hospital de Base tinha que ter esse atendimento 24 horas entendeu? Receber 24 horas.” E24 ENF03 Observa-se, de uma forma geral, que nas falas dos participantes há concepções negativas em relação à questão da saúde mental, reproduzindo aspectos de um modelo de atenção fragmentado que segrega o louco para outros espaços; portanto, não lhe é permitido uma dimensão de cuidado ampliada, de acesso equânime, por entender esse sujeito como diferente, ameaçador, que gera estranheza e desestabiliza. Em função disso, a exclusão é concretizada pela ideia de internação em um hospital psiquiátrico, resultado de uma percepção social difusa, diluída pelas diversas associações de loucura com o lado negativo da razão. A repercussão, além dessa compreensão do profissional, reproduz ainda modelos de formação que confundem atender a crise (urgência e emergência) com atender a demanda.

DISCUSSÃO Na primeira categoria, as falas dos sujeitos trazem as construções sociais interferindo na atenção pré-hospitalar à saúde mental. Ainda hoje, a concepção sobre o portador de transtorno mental na sociedade é negativa, considerando-o como um sujeito sem capacidade de juízo, agressivo e, por isso, perigoso e incapaz que precisa de uma exclusividade “excluidora”, arraigada na ideia da instituição psiquiátrica como a única capaz de promover o cuidado a essa condição (Maciel, Maciel, Barros, Sá e Carmino, 2008). Observa-se que existem sérios entraves sociais, emocionais e/ou culturais que dificultam a implantação e a aceitação das situações psiquiátricas na atenção préhospitalar. Nas propostas para a desinstitucionalização na saúde mental estão previstas estratégias para que os hospitais gerais tenham unidades para as situações de emergência psiquiátrica e, consequentemente, o encaminhamento para uma rede de suporte, pós-crise, que continue a produção do cuidado. Contudo, no município de Itabuna, essa realidade ainda está distante tanto na estruturação de rede como nas concepções e ações dos profissionais frente à demanda do sofrimento psíquico em crise, como se pode observar nas falas iniciais dos sujeitos. Brito, Ramos, Arruda, Dias e Silva (2013) apontaram, no seu estudo, concepções dos profissionais do SAMU que corroboram, expressando que a urgência psiquiátrica é “resultante de uma doença que incomoda, da qual a família quer se livrar e que para isso recorre muitas vezes ao SAMU”. As autoras ainda apontaram que os profissionais entenderam que o transporte de uma pessoa em crise não deveria ser em um veículo comum e que haveria a necessidade de imobilização, uso da força física e auxílio policial para conter. Nas falas do presente estudo, essa situação não surgiu, mas deixa claro, em ambas, que não deve existir forma alguma de acolhimento, empatia ou possibilidade de atenção ao sujeito que está em uma agudização de um processo psíquico. A discussão é quase inexistente quando o assunto é saúde mental no atendimento pré-hospitalar, o que reflete na prática dos profissionais do SAMU, marcando concepções e ações vinculadas ao senso comum e enraizadas nos procedimentos dos antigos hospitais psiquiátricos, como a imobilização mecânica e o auxílio da força física (Jardim e Dimenstein, 2007). Nessa noção também está explícita a de “aprisionar o louco porque ele pode fazer mal”. Barros (1994, p. 184) reforça que “enquanto o sofrimento não consegue encontrar outros canais de expressão se fundamenta o risco potencial de um ato agressivo”. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 21


Pode se observar que ainda existe um estigma da periculosidade do louco associada à maldade e perversidade que deve ser punida, aprisionada, contida. A ideia de imprevisibilidade e o desconhecimento trazem o medo e a insegurança que refletem o enfrentamento defensivo que afasta, que condena e que restringe. Essa necessidade de compreender a situação do sofrimento psíquico para atuar de forma mais efetiva e humanizada perpassa a necessidade do profissional capacitar-se e atualizar-se frente a essa demanda. Nas falas desses sujeitos, essas capacitações, que poderiam causar algum desdobramento na atenção psiquiátrica em urgência, são poucas ou inexistentes. Além disso, as disciplinas psiquiátricas de formação não possuem um enfoque integral que perpasse todos os ciclos e situações de saúde-adoecimento, o que as leva ao isolamento em um lócus de saber que merece atenção somente de quem irá se especializar na área. No atendimento préhospitalar restringem o profissional a reproduzir ações de cuidado equivocadas, excludentes e condenatórias. No processo de desconstrução de todo esse contexto, não é possível restringir a criação de novos espaços e atores com competências assistenciais distanciadas da integralidade dos sujeitos no seu processo saúde-doença. Torna-se necessário ampliar o escopo de intervenção do SAMU para uma efetiva ruptura com valores que ainda justificam práticas e concepções segregadoras de uma cultura psiquiátrica centrada no manicômio. No que se refere à segunda categoria, sobre a rede e o direcionamento da demanda, as concepções trazem uma forma de fluxo também fragmentada e pouco efetiva. A regulação médica das urgências é identificada como porta de entrada, em conjunto com a atenção básica (Ministério da Saúde, 2001a), e deve agir como elemento orientador e ordenador do Sistema de Atenção Integral às Urgências, com o intuito de estruturar a relação entre os vários serviços, bem como qualificar o fluxo dos usuários e estabelecer uma via de comunicação aberta, onde pedidos de socorros são “recebidos, avaliados e hierarquizados” (Ministério da Saúde, 2001b). A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera uma das principais barreiras, para alcançar resultados e eficácia em saúde em muitos sistemas de saúde, a fragmentação dos serviços (WHO, 2008). Estudos constatam que a assistência às crises psíquicas representa um grande desafio aos serviços de urgência e ainda apresenta divergências nos encaminhamentos e dificuldades para consolidar a atuação do SAMU articulada com a Reforma Psiquiátrica Brasileira (Jardim, 2008; Bonfada e Guimarães, 2012; Bonfada, Guimarães e Brito, 2012). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 22

No presente estudo essas perspectivas também são observadas e ainda existe a concepção de que o fluxo dos usuários do SAMU possui direcionamento prioritário para a rede hospitalar, não articulando intervenções juntamente com outros serviços de atenção à saúde mental. Jardim e Dimesntein (2008) ressaltam que o SAMU deve atuar de forma decisiva para contemplar as diretrizes da Reforma Psiquiátrica e não servir somente como simples instrumento de transporte com ambiente manicomial. Além disso, Dias, Vasconcelos, Vasconcelos e Moraes (2013) reforçam que essa prática pode levar ao aumento de pacientes em hospitais, deixando o CAPS como rara opção de escolha de referência. Destarte, os serviços de Atenção à Saúde Mental devem estar organizados em rede com vista ao manejo do paciente psiquiátrico, em nível extra hospitalar, a exemplo de centros de atenção psicossocial, ambulatórios especializados e serviços de atenção primária, bem como identificar outras alternativas, como os serviços de internação parcial, através dos hospitais-dia; e a ampliação das funções dos serviços de emergências para o direcionamento dos pacientes em crise (Barros, Tung e Mari, 2012). Por outro lado, no que concerne ao funcionamento protocolado do SAMU, que deveria trazer tanto as formas de atuação como o direcionamento das demandas, alguns estudos afirmam que nem sempre os atendimentos psiquiátricos contam com capacitações e muito menos com protocolo direcionador. Os autores ainda mostram que cada médico acaba criando o seu e este gira em torno, mais uma vez, de conceitos de agressividade e/ou periculosidade, não implicando em atendimento especializado ou que envolva maior complexidade (Jardim e Dimesntein, 2008). O estudo demonstrou claramente a necessidade de capacitação profissional para compreensão dos fluxos de atendimento, pontos de atenção e reconhecimento da Rede de Atenção à Saúde Mental como um todo, bem como criação de protocolos de encaminhamento específicos para usuários em crise psíquica.


CONCLUSÕES

IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA

Os profissionais que atuam no SAMU preservam concepções teóricas e sociais que tendem a subdimensionar a gravidade das situações de acometimento da saúde mental. Essa é uma situação que requer dos gestores de saúde a adoção de estratégias que envolvam os elementos formadores e a promoção de ações de Educação Permanente em Saúde para suprir as lacunas geradas no processo de qualificação profissional que atenda aos usuários em crise psíquica, em situação de urgência, além da necessidade de também estabelecer continuamente, processos de capacitação de gestores locais, para dar suporte à atuação das equipes de saúde. As consequências de tais concepções, por parte dos profissionais do SAMU, refletem diretamente na produção do cuidado prestado por este serviço. Este cuidado acaba sendo compreendido por estes profissionais como situação não urgente e que, portanto, não deveria ser incluída no rol de atendimentos prestados pelo serviço móvel de urgência. Quando os profissionais, que são os agentes promotores da saúde na situação de urgência, reproduzem concepções distorcidas sobre a saúde, em especial, a atenção em saúde mental, o cuidado produzido tende a repetir os mesmos erros impulsionando e reforçando a segregação do portador de transtorno mental. Além disso, na medida em que o portador de transtorno mental só pode ser atendido no setor da psiquiatria de um determinado hospital e no período diurno, o sistema assume que este usuário não pode ser atendido na unidade de emergência junto com os outros usuários não portadores e reforça a necessidade de fluxos de atendimento adequados e da organização dos serviços existentes. Conclui-se, assim, que ainda há muito a ser feito no processo de promoção, prevenção e atenção à saúde no atendimento dos portadores de transtorno mental, bem como ações de educação voltadas para os profissionais que prestam este cuidado e para gestores. Essas ações são essenciais para a mudança de concepções e atitude, somadas à imprescindível necessidade da reorientação do sistema de saúde em questão.

A partir das concepções da equipe, em que se observou os conceitos e ações fragmentadas e uma noção de rede descontínua, é importante refletir sobre a necessidade da mudança de um modelo em que os profissionais do SAMU não conseguem abarcar a complexidade no atendimento ao usuário em crise psíquica e intervém na “lógica linear de causa e efeito”, não reconhecendo seu potencial e objetivo ordenador e orientador no Sistema de Atenção Integral às Urgências. Assim, a maior implicação para a atenção à saúde é a possibilidade de repensar as dimensões dessa prática assistencial, pois elas são as deflagradoras do processo de prestação de cuidado mais integral ao usuário com transtorno mental, interferindo no acesso aos serviços e oportunizando maior emancipação desses sujeitos no que se refere ao direito à saúde. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Barros, D. D. (1994). Cidadania versus periculosidade social: A desinstitucionalização como desconstrução do saber. In P. Amarante, Psiquiatria social e reforma psiquiátrica (pp. 171-194). Rio de Janeiro: Fiocruz. Barros, R. E. M., Tung, T. C., e Mari, J. (2012). Serviços de emergência psiquiátrica e suas relações com a rede de saúde mental brasileira. Revista Brasileira de Psiquiatria, 32(2), 571-577. Disponível em http:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid =S1516-44462010000600003 Bonfada, D., e Guimarães, J. (2012). Serviço de Atendimento Móvel de Urgência e as urgências psiquiátricas. Psicologia em Estudo, 17(2), 227-236. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid =S1413-73722012000200006 Bonfada, D., Guimarães, J., e Brito, A. A. C. (2012). Concepções de profissionais de saúde do Serviço de Atendimento Móvel quanto à urgência psiquiátrica. Revista Rene, 13(2), 309-320. Disponível em http://www. redalyc.org/pdf/3240/324027981008.pdf Brito, M. A., Ramos, M. A. R., Arruda, V. S., Dias, A. M. A., e Silva, G. B. M. (2013). Percepção da equipe multiprofissional do SAMU frente às emergências psiquiátricas. Revista Piauiense de Saúde, 2(1), 1-11. Disponível em http://www.revistarps.com.br/index. php/rps/article/view/11 Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 23


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Artigo de Investigação

4

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0137

COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS DO ENFERMEIRO DE SAÚDE MENTAL ENFATIZADAS NO ENSINO DE GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM | Cláudia Tavares1; Linda Gama2; Marilei Tavares e Souza3; Lais de Paiva4; Pâmela da Silveira5; Mónica Mattos6 |

RESUMO CONTEXTO: O docente de enfermagem psiquiátrica e saúde mental, ao organizar e desenvolver seu planejamento para o ensino acredita que está formando enfermeiros competentes para a prática assistencial em saúde mental, conforme os princípios da Reforma Psiquiátrica Brasileira. No Brasil, não há consenso e nem regulamentação acerca das competências específicas do enfermeiro especialista em saúde mental. OBJETIVOS: Descrever o perfil sociodemográfico dos docentes da área de enfermagem de saúde mental das instituições públicas de ensino superior do Rio de Janeiro; Discutir as competências específicas do enfermeiro de saúde mental enfatizadas pelos docentes no curso de graduação em enfermagem. METODOLOGIA: Estudo qualitativo, descritivo e exploratório, desenvolvido por meio de entrevista dirigida a 14 docentes que atuam em instituições públicas de ensino superior do Estado do Rio de Janeiro. Adotou-se a técnica de análise temática de conteúdo. RESULTADOS: Os docentes descrevem como competências específicas do enfermeiro de saúde mental: clínica do sujeito; escuta sensível; comunicação terapêutica; trabalho em equipe; autoconhecimento; reforma psiquiátrica; atenção à família; sistematização da assistência de enfermagem; inovação; saber lidar com a diferença e estigmas; desenvolver a própria personalidade. Contudo, indicam que o ensino não está orientado por competências. CONCLUSÃO: O ensino de saúde mental nas instituições de ensino investigadas não está orientado por competências. Há consensos parciais relacionados à formação na perspetiva da clínica do sujeito e da Reforma Psiquiátrica. PALAVRAS-CHAVE: Enfermagem psiquiátrica; Competência profissional; Ensino em enfermagem

RESUMEN

ABSTRACT

“Competencias específicas de los enfermeros de salud mental en el grado de enfermería”

“Specific skills of mental health nurses in undergraduate nursing teaching”

CONTEXTO: En la organización y desarrollo de la planificación de enseñanza de enfermería psiquiátrica y salud mental los docentes creen que se está formando enfermeras competentes para la práctica de los cuidados de salud mental, de acuerdo con los principios de la Reforma Psiquiátrica Brasileña. En Brasil no hay ni consensoni y reglamientos len lo que concierene las habilidades específicas de la enfermera en la salud mental. OBJETIVO: Describir el perfil sociodemográfico de los profesores de área de enfermería de salud mental de las instituciones públicas de educación superior en Río de Janeiro; Discutir las habilidades específicas de enfermera de salud mental enfatizados por los profesores de la licenciatura en enfermería. METODOLOGÍA: Estudio cualitativo, descriptivo y exploratorio, desarrollado mediante entrevista directa a 14 maestros que trabajan en las instituciones públicas de educación superior del Estado de Río de Janeiro. Se adoptó la técnica de análisis de contenido temático. RESULTADOS: Los maestros describen las funciones específicas de la enfermera de salud mental: la clínica del sujeto; escucha sensible; la comunicación terapéutica; trabajo en equipo; conocimiento de sí mismo; La reforma psiquiátrica; atención a la familia; sistematización de la asistencia de enfermería; la innovación; cómo hacer frente a la diferencia y el estigma; desarrollar su propia personalidad. Sin embargo, indican que la educación no está orientado habilidades. CONCLUSIÓN: La educación para la salud mental en las instituciones educativas investigados no están orientados habilidades. Existe un consenso parcial afecta a la formación en vista de la clínica del sujeto y la reforma psiquiátrica.

BACKGROUND: In the organisation and development of his/her teaching syllabus, the psychiatry and mental health nursing teacher believes hat he is training competent nurses for care provision in the mental health area in accordance with the principles of the Brazilian psychiatric reform. No consensus was reached and no regulations are to be found in Brazil about the mental health nurse specialist skills. AIM: To describe the sociodemographic profile of teachers in the area of mental health nursing in public higher education institutions in Rio de Janeiro; to discuss the specific skills of the mental health nurse emphasized by teachers in undergraduate courses in nursing. METHODS: This was a qualitative, descriptive, and exploratory study developed by means of direct interviews with 14 teachers who work in public higher education institutions in the State of Rio de Janeiro. We adopted the thematic content analysis technique to analyse and interpret the results. RESULTS: The teachers referred the following specific skills in the mental health nurse: subject’s clinic; active listening; therapeutic communication; team work; self-knowledge; psychiatric reform; family attention; systematization of nursing care; innovation; capacity of managing difference and stigmas and development of own personality. However, teachers make clear that education is not skill-oriented. CONCLUSION: Mental health education in the educational institutions where the research took place is not skill-oriented. There is partial consensus regarding training in behalf of the subject clinic and the psychiatric reform.

DESCRIPTORES: Enfermería psiquiátrica; La competencia profesional; Escuela de enfermería

KEYWORDS: Psychiatric nursing; Professional competence; Nursing education Submetido em 19-10-2015 Aceite em 20-02-2016

1 Enfermeira; Pós-Doutora em Educação; Professora Titular na Universidade Federal Fluminense, Niterói/Rio de Janeiro, Brasil, claudiamarauff@gmail.com 2 Enfermeira; Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem na Universidade Federal Fluminense; Professora Adjunta na Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, 24020-091 Niterói/Rio de Janeiro, Brasil, nicegama@predial.cruiser.com.br 3 Psicóloga; Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem e Biociências na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, marileimts@hotmail.com 4 Graduanda em Enfermagem na Universidade Federal Fluminense, 24020-091 Niterói/Rio de Janeiro, Brasil, laismpaiva@gmail.com 5 Membro do Núcleo de Pesquisa: Ensino, Criatividade e Cuidado em Saúde e Enfermagem; Graduanda em Enfermagem na Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, 24020-091 Niterói/Rio de Janeiro, Brasil, pamelagioza@hotmail.com 6 Enfermeira; Mestre pelo Programa de Mestrado Profissional Ensino na Saúde da Universidade Federal Fluminense, Niterói/Rio de Janeiro, Brasil, mmontuanog@ig.com.br Citação: Tavares, C., Gama, L., Souza, M., Paiva, L., Silveira, P., & Mattos, M. (2016). Competências Específicas do Enfermeiro de Saúde Mental Enfatizadas no Ensino de Graduação em Enfermagem. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe. 4), 25-32. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 25


INTRODUÇÃO O enfermeiro de saúde mental é um cuidador de afetos. Seu papel fundamental é aumentar o bem-estar, equilíbrio e autoconhecimento das pessoas. Ele tem a autorização social para tocar a pessoa em toda sua complexidade – interior, social e cósmica - mas para isso precisa desenvolver competências profissionais e fruir formas de existência humana, abrangendo sua potência e mistério. Compreendemos que o preparo de profissionais para o exercício da enfermagem de saúde mental requer o desenvolvimento de competências pessoais, profissionais e sociais, engendradas por afetos que visam potencializar a essência da pessoa, que jamais adoece, compreendendo o sentido do sintoma apresentado pelo ser cuidado, escutando sua dor sem repressão e repreensão, resgatando sua inteireza (Tavares, 2001). Assim sendo, consideramos que na enfermagem de saúde mental haja necessidade de se desenvolver competências não só específicas, mas, sobretudo, ampliadas daquelas definidas para o campo profissional da saúde, passando a incluir a competência poética. Conforme nos falou Pignatari (2004), a poesia cria modelos novos para a sensibilidade. Os enfermeiros por meio da competência poética podem mobilizar conhecimento original para lidar de forma vigorosa com a existência singular das pessoas em situação de saúde/doença que demandam orientação/cuidados em saúde. Mas como estão sendo formados os enfermeiros de saúde mental no Brasil? Para além de ser uma especialidade, a enfermagem de saúde mental é também um conhecimento do qual o enfermeiro generalista não pode prescindir. Conforme Formozo, Oliveira, Costa & Gomes (2012), entre as competências sociais necessárias para a efetivação do cuidado em saúde estão às habilidades de comunicação e empatia, conhecimentos próprios do campo da enfermagem de saúde mental. As diretrizes curriculares nacionais orientam-se pela pedagogia das competências, como forma de superar o enfoque descontextualizado e disciplinar do ensino. Existe uma pluralidade de abordagens sobre o que vem a ser competências e algumas delas defendem a inexistência de um conceito de competências por falta de materialidade histórica, considerando-a como uma noção (Ferreira, 2011). Na enfermagem, embora este termo tenha sido muito discutido nos últimos anos, ele mantém-se polissêmico e desconhecido de muitos docentes. Neste estudo, nos referimos a competência como domínios práticos das situações cotidianas que necessariamente passam pela compreensão da ação empreendida e do uso a que essa ação se destina. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 26

Elas só podem ser alcançadas se forem desenvolvidas em conjunto com as habilidades dos alunos, o que só se pode realizar a partir da compreensão do conteúdo que explica aquele domínio (Perrenoud, 1999). Em face dessa perspetiva de competência, destacamos a ideia de que as competências não se desenvolvem apenas nas escolas, mas também, a partir das relações sociais e das nossas condições de existência. No Brasil, não há consenso e nem regulamentação acerca das competências específicas do enfermeiro especialista em saúde mental, o que poderia orientar os Projetos Políticos Pedagógicos dos cursos de graduação, conforme ocorre em outros países, como por exemplo, Portugal, que possui competências específicas do enfermeiro especialista de saúde mental regulamentadas pela Ordem dos Enfermeiros (Ordem dos Enfermeiros, 2011). Há, contudo, certa concordância nacional dos docentes de enfermagem em saúde mental que o ensino deva ser orientado pelos princípios da Reforma Psiquiátrica (RP). Nessa perspetiva, esses docentes acreditam que ao organizarem e desenvolverem o planejamento do ensino estão formando enfermeiros competentes para a prática assistencial em saúde mental. Conforme as atuais Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) do Curso de Graduação em Enfermagem, o currículo de formação do enfermeiro deve ser organizado em conteúdos curriculares, competências e habilidades, conferindo-lhe terminalidade e capacidade acadêmica e/ou profissional para atuar frente às necessidades de atenção a saúde da população, promovendo no aluno e no enfermeiro a capacidade de desenvolvimento intelectual e profissional autônomo e permanente (Brasil, 2001). Destaca-se que estas DCN não definem as competências em saúde mental. Essa tarefa fica a cargo dos Projetos Políticos Pedagógicos das Escolas, que raramente delimitam competências específicas em saúde mental, o que dificulta um alinhamento das competências desenvolvidas na própria prática profissional de enfermagem. Esse problema parece estar relacionado à perspetiva generalista de formação, uma vez que também ocorre em outras disciplinas (Regis & Batista, 2015). Estudo realizado por Lucchese (2005) no estado de São Paulo revelou que o ensino de enfermagem psiquiátrica e de saúde mental não vem formando para as competências, e que há insatisfação com o modelo pedagógico aplicado à formação do enfermeiro, estando os docentes e profissionais da área, em busca de outros modelos, já que ainda não conseguiram superar o paradigma tradicional de formação e cuidado em saúde mental.


Segundo Neves, Lucchese, & Munari (2010), para o ensino de saúde mental operar as transformações apontadas pela RP é necessário realizar ruturas com o modelo hegemônico em saúde, desenvolvendo competências para atuar no modelo de promoção em saúde, em sinergia com o modelo psicossocial, sendo o cotidiano da atenção básica o cenário ideal para constituição de novas competências. Partindo do princípio que a competência para sentir é inata, mas ela pode ser atrofiada ou desenvolvida de acordo com as relações que se estabelece com o mundo, com o outro, com quem se constrói identidade socialmente partilhada e que é o gosto pela sensação, que nasce da capacidade de ser humano, que nos leva inicialmente a nos tornarmos enfermeiros de saúde mental. Que competências específicas são necessárias mobilizar no ensino de enfermagem para formar enfermeiros de saúde mental? Os objetivos do presente artigo foram descrever o perfil sociodemográfico dos docentes da área de enfermagem de saúde mental das instituições públicas de ensino superior (IPES) do Estado do Rio de Janeiro; e discutir as competências específicas do enfermeiro de saúde mental enfatizadas pelos docentes nos cursos de graduação em enfermagem. METODOLOGIA Estudo qualitativo, descritivo e exploratório desenvolvido por meio de entrevista dirigida a 14 docentes (correspondendo há 82,3% do total) que atuam em quatro IPES do Estado do Rio de Janeiro. Enfatizou-se a compreensão da experiência humana como é vivida, coletando e analisando materiais narrativos e subjetivos com base na perceção dos docentes que atuam na área de enfermagem de saúde mental/ psiquiátrica. Os critérios utilizados para exclusão da participação dos sujeitos no estudo foram: a indisponibilidade de tempo para a entrevista e ser professor substituto. Para a coleta de dados foram realizadas entrevistas semiestruturadas na própria instituição de origem do docente, em ambiente reservado. As entrevistas foram gravadas e transcritas na íntegra para, posteriormente, dar início à leitura e interpretação das falas à luz da literatura. Para dar conta da análise e interpretação das conceções que envolvem sujeitos pró-ativos e suas experiências, utilizamos a multireferencialidade teórica a partir da análise temática de conteúdo. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob o nº 21027.

RESULTADOS Num primeiro momento apresentam-se os resultados descritivos relacionados ao perfil sociodemográfico e as características dos participantes, seguindo-se os resultados decorrentes da investigação sobre o ensino das competências de enfermagem de saúde mental. Perfil do Docente Pode ser observado na Tabela 1 que há predominância do sexo feminino (78,6%) em relação ao sexo masculino (21,4%), tendência esta presente no exercício da docência em enfermagem. Em 78,6% dos docentes estão acima de trinta e cinco anos de idade, 64,3% possuem título de doutor e 57,1% trabalham há menos de cinco anos na instituição. Os dados sugerem que não há correlação entre faixa etária e tempo de serviço na instituição, já que a maioria tem entre 35 e 55 anos de idade e trabalham no local há, aproximadamente, cinco anos, podendo indicar que a docência de enfermagem psiquiátrica e saúde mental é exercida por profissionais mais maduros e que têm o título de doutor. Ainda quanto ao tempo de atuação na instituição, vale destacar que há duas faixas distintas – a constituída por profissionais com até cinco anos de docência (57,1%), seguida daqueles com mais de 16 anos (28,6%), reforçando a tendência de exercício da docência por profissionais de menor experiência infere-se que, por isso, estejam menos atrelados ao modelo tradicional de ensino. Tabela 1 - Descrição Sociodemográfica dos Docentes da Área de Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica Indicadores

N14

100%

Sexo Feminino Masculino

11 3

78,6% 21,4%

Faixa etária 25 a 34 anos 35 a 44 anos 45 a 55 anos 55 a 65 anos

3 5 5 1

21,4% 35,7% 35,7% 7,2%

Titulação Doutorado Mestrado

9 5

64,3% 35,7%

Tempo de docência 1 a 5 anos 6 a 10 anos 11 a 15 anos 16 a 20 anos 21 a 25 anos

8 1 1 3 1

57,1% 7,2% 7,2% 21,4% 7,2%

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Competências de Enfermagem de Saúde Mental Enfatizadas no Ensino de Graduação Os dados obtidos neste estudo sugerem que o ensino de enfermagem psiquiátrica e saúde mental nas IPES do Rio de Janeiro não é orientado pela pedagogia das competências. Com base no Quadro 1, que representa a síntese categorial obtida após a análise dos dados, podemos observar 11 temas que foram apontados pelos docentes como uma aproximação com as competências específicas de saúde mental e que são desenvolvidas por eles no ensino de enfermagem de saúde mental e psiquiátrica. Entre os temas apontados figuram: clínica do sujeito; escuta sensível; comunicação terapêutica; trabalho em equipe; autoconhecimento; RP; atenção à família; sistematização da assistência de enfermagem; inovação; saber lidar com a diferença e estigmas; desenvolver a própria personalidade. As competências mais enfatizadas foram as relacionadas com a clínica do sujeito e a escuta sensível, seguida da comunicação terapêutica. Quadro 1 - Competências Enfatizadas pelos Docentes para o Ensino de Enfermagem Psiquiátrica/Saúde Mental

1

2

Competências/ Conhecimentos Enfatizados

Tópicos extraídos das entrevistas (competências enfatizadas no ensino de saúde mental/psiquiatria)

Clínica do sujeito

-Subjetividade. 7 -Cuidado centrado nas necessidades dos sujeitos, independente do diagnóstico médico. - A essência é o cuidar. Habilidade do aluno em cuidar do outro que sofre psiquicamente - investir na pessoa. -Saber respeitar o momento do paciente e suas decisões. -Clínica do sujeito. -Capacidade de identificar as reais demandas do portador de transtorno psíquico. -Prever um projeto terapêutico singular na perspetiva da clínica ampliada.

Escuta sensível

Trabalho em equipe

-Trabalho em equipe com outros profissionais e com outras disciplinas e áreas de conhecimento. -Trabalho em grupo e em equipe. -Equipe de saúde mental. -O cuidado polifônico em equipe.

4

6

Reforma Psiquiátrica

-Desenvolver competências profissionais pautadas na RP. -Compreensão dos aspetos éticos metodológicos da RP. -Políticas nacionais de saúde, sobre o Sistema único de Saúde e a Política Nacional de Saúde Mental. - Atuar em consonância com princípios da RP e com as políticas públicas de saúde mental.

4

7

Atenção à família

-Tratar questões da família. -Lidar com a família e com seu sofrimento. - Acolhimento familiar.

3

8

Sistematização -Raciocínio clínico e discussão baseada na da assistência clinica. de enfermagem -Sistematização dos cuidados de enfermagem e desenvolvimento do olhar clínico. -Aluno crítico, sensível e capaz de analisar o caso clínico. Associação de teoria à prática.

3

9

Inovação

-Inovar a própria prática. -Conhecimento não só técnico-científico, mas biopsicossocial, da condição humana e do processo de adoecimento mental diante das condições externas vivenciadas e expressadas. Construir novos saberes e técnicas. -Posição pró-ativa, visão mais abrangente do indivíduo e inovadora.

3

10

Lidar com a diferença e combate ao estigma

-Principalmente lidar com as diferenças, minimizando preconceitos e segregações. -Articulação reflexiva a respeito do estigma da loucura.

2

11

Personalidade, valores e características pessoais

-Atitude de ajuda como característica pessoal. -Competências pessoais como bom humor e solidariedade.

2

N 14

-Sensibilidade para escutar e enxergar o outro. -Escuta ativa e sensível. -Escuta acolhedora. -Escuta diferenciada. -Capacidade de escuta. -Escuta sensível/acolhedora junto ao portador de transtorno psíquico.

6

DISCUSSÃO

3

Comunicação terapêutica

-Relacionamento terapêutico e promoção de ambiente terapêutico. -Comunicação terapêutica. -Desenvolvimento do relacionamento terapêutico. -Diminuir a ansiedade do aluno de ter respostas para tudo, com base no relacionamento interpessoal. -Investir no acompanhamento terapêutico.

5

4

Autoconhecimento

-Autoconscientização e sensibilização. -Autoconhecimento. -Transferência e contratransferência. - Autoavaliação.

4

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5

A perspetiva pedagógica da competência auxilia o docente a demonstrar os conhecimentos necessários, dentro de situações concretas de domínio de saberes e de habilidades apreendidos e aprendidos, valorizando a capacidade de inovar e a autonomia dos profissionais na tomada de decisão (Perrenoud,1999). Nesse sentido, o ensino passa a exigir uma maior aproximação com a prática profissional desenvolvida nos serviços de saúde, o que vai ao encontro das DCN (Ministério da Educação, 2001) e se contrapõe ao modelo tradicional de ensino.


Os cuidados de saúde também são influenciados por um modelo tradicional – centrado na doença, na positividade da razão e no ato médico, ainda que haja avanços consideráveis nas práticas em saúde em decorrência das discussões suscitadas pela Reforma Sanitária e RP. Segundo Almeida (2009), a abordagem tradicional de atenção em saúde mental se dá através de uma escuta racionalizante que considera o doente consciente das razões de seu sofrimento, e as intervenções são préestabelecidas baseadas em informações que precedem a escuta do sujeito e visa mudanças de comportamentos inadequados, com a finalidade na cura. Observamos que a competência para atuar mediado pela clínica do sujeito foi identificada pelos participantes do estudo como aquela que produz cuidado centrado nas necessidades dos sujeitos, independente do diagnóstico médico, que respeita a decisão do paciente, prevendo um projeto terapêutico singular na perspetiva da clínica ampliada. A clínica do sujeito alinha-se com a Política Nacional de Humanização (PNH), criada como estratégias e métodos de articulação de ações, saberes, práticas e sujeitos, com a responsabilidade de tornar a humanização um movimento capaz de fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS) como política pública de saúde. Fundamentada em princípios da inseparabilidade entre gestão e atenção, transversalidade e o protagonismo dos sujeitos, a PNH opera na tríplice inclusão, ou seja, a inclusão dos sujeitos (trabalhadores, usuários e gestores), analisadores sociais (conflitos e perturbações oriundas da inclusão de diferentes sujeitos e subjetividades) e a inclusão dos movimentos sociais (coletivos organizados de produção da vida), valorizando deste modo, os diferentes sujeitos implicados no processo e o estabelecimento de vínculos solidários, com a construção de redes de cooperação e a participação coletiva no processo de gestão (Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde & Política Nacional de Humanização, 2010) A proposta de clínica ampliada é ser um instrumento para que os trabalhadores e gestores de saúde possam enxergar e atuar na clínica para além dos pedaços fragmentados de doenças, sem deixar de reconhecer e utilizar o potencial desses saberes. Nessa clínica, a escuta sensível é a base para ação profissional, relaciona-se e acompanha o sujeito na descoberta daquilo que constitui seu sintoma. Essa escuta exigente não se propõe apenas a aprender e saber o que se acha oculto na mente do paciente, mas a reconhecer como tais questões afetam o próprio profissional e a relação que estabelece com o paciente (Almeida, 2009).

Como os próprios participantes da pesquisa apontaram, a comunicação eficaz e terapêutica é uma das competências fundamentais do enfermeiro de saúde mental, ela relaciona-se com a clínica do sujeito, abrindo caminhos para o adequado acolhimento nos cuidados de saúde, com base na escuta atenta e no vínculo empático entre o paciente e a equipe de profissionais, constituindo fator de humanização nos cuidados. O desafio da comunicação terapêutica consiste em encontrar mediações técnicas como a habilidade de relacionamento interpessoal. Nessa perspetiva, o profissional é capaz de identificar na narrativa do paciente suas dimensões cognitivo-afetivas, emocionais e culturais, sua história, seus valores, sentimentos, suas expressões de realidade e de seus recursos internos mobilizados que precisam ser sutilmente percebidos e trabalhados pela equipe de saúde: um reforço à atenção singular, bem como do entrelaçamento e interdependência fundamentadas na combinação de direitos e responsabilidades, em que a ética do cuidado assume uma posição essencial. A comunicação terapêutica com seu acolhimento, escuta atenta e vínculo empático, é orientada para um objetivo específico, tem uma intencionalidade e é permanentemente atualizada por contextos específicos, onde muitas vezes, nas narrativas do sujeito, critérios de normalidade nosográfica são colocados em suspensão, transformando a mensagem do outro num enigma a ser desvendado (Sequeira, 2014). O autoconhecimento também é apontado como uma competência essencial no estabelecimento da relação terapêutica. Segundo Gomes et al (2013), o autoconhecimento ajuda a ultrapassar o paradigma da objetividade e do biologicismo, sobrelevando que no atendimento ao usuário, o cuidado do enfermeiro deve ultrapassar o tecnicismo valorizado pelo Modelo Flexneriano. Provocar interações e relações dos alunos consigo mesmos, com seus semelhantes, numa teia de inter-relações colabora para a compreensão da existência de conexões que ajudam a compreender o significado da influência do contexto no processo de cuidar em enfermagem. Daí ser necessário criar oportunidades para que as questões voltadas ao autoconhecimento, comunicação, relacionamento intra e interpessoal sejam discutidas na formação do enfermeiro. O trabalho em equipe é outra competência apontada pelos docentes e também está associada à política de humanização. Trabalhar em equipe significa criar um esforço coletivo, um conjunto de pessoas com objetivos comuns que interagem e compartilham técnicas, procedimentos e responsabilidades para atingir objetivos comuns. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 29


O trabalho em equipe só terá expressão real, quando os membros desenvolverem sua competência interpessoal (Carvalho, 2009). Neste sentido, o desafio no trabalho em saúde mental consiste na organização do trabalho que contemple a alta complexidade de saberes, a responsabilidade coletiva das ações e a efetiva interação das pessoas envolvidas, pois, segundo Vasconcellos (2010), trabalhar em equipe interdisciplinar traz atravessamentos complexos. A dificuldade no estabelecimento de um “solo epistemológico comum” pode ocasionar diferenças conceituais e metodológicas no cuidado prestado, daí a necessidade que emerge de superar as atuações fragmentadas que promovem o isolamento e as relações de poder entre os profissionais que inviabilizam o trabalho em equipe. Diante desta complexidade, o efetivo trabalho em equipe interdisciplinar possibilita um cuidado plural, a caminho da integralidade, afastando-se de práticas reducionistas que remetem ao pensamento hermético de uma hierarquia verticalizada e impositiva, dificultando os ideais preconizados tanto pelo SUS como também pela RP. Segundo os docentes há conhecimentos demandados pela RP que podem constituir-se num bloco básico de competências. Tavares (2006) identificou três eixos que devem sedimentar teoricamente e orientar a formulação da proposta de educação em saúde mental na perspetiva da RP: a) a organização do trabalho em saúde, com ênfase no processo de trabalho dos trabalhadores da área de enfermagem em saúde mental, tendo como perspetiva sua transformação através da construção de práticas renovadas, ante os desafios suscitados em virtude da necessidade de implementar, efetivamente, os princípios do SUS; b) a integralidade da atenção como princípio (re)orientador das práticas sanitárias e (re) organizador dos serviços de saúde; c) as bases para a construção de uma práxis pedagógica crítica, que possa promover a formação de um novo profissional preparado para enfrentar as demandas impostas pela necessidade de transformação da política de saúde, como uma forma e potência de explicitar toda a complexidade do processo de trabalho em saúde, assim como possibilitar a apreensão de novas habilidades necessárias à construção de uma prática mais qualificada em saúde mental. Com as mudanças de paradigmas na saúde mental, altera-se também a implicação da família com o portador de transtorno mental, e, neste processo, o reconhecimento da família como potente meio de cuidado. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 30

O impacto causado pelo transtorno mental na família revela o despreparo e a fragilidade perante o problema, sendo fundamentais para a equipe, dentro da proposta da clínica ampliada, os dados de avaliação de riscos não apenas epidemiológicos, mas sociais e subjetivos. As ações de cuidado de enfermagem em saúde mental estão inseridas num contexto dinâmico e complexo que demandam do profissional, além dos aspetos teóricos da competência, a mobilização dos aspetos pertinentes à relação com o paciente, à equipe e à família. Dessa maneira, a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) é um recurso para aprofundar o conhecimento das condições de saúde física e emocional do paciente em busca de Reabilitação Psicossocial, ampliando e fortalecendo a própria prática de enfermagem. Ser competente para desenvolver cuidados de enfermagem com base na conceção da Sistematização da Assistência de Enfermagem foi um aspeto considerado relevante pelos participantes do estudo. Desenvolver competências para inovar a própria prática foi outro especto apresentado pelos docentes. A capacidade para realizar inovação é fundamental para gerar solução visando o enfrentamento das situações-problemas relacionadas aos serviços de saúde mental no âmbito do SUS. Por meio dela é possível perceber oportunidades, planejar e aplicar estratégias para solucionar problemas e experimentar mudanças. A criatividade e a inovação constituem elementos-chave para o aprimoramento organizacional em saúde e para que, especificamente, a Enfermagem encontre alternativas para solucionar problemas no âmbito profissional. A educação para o pensamento criativo é primeiro passo para a melhoria do nível da inovação nas organizações. A competência para lidar com a diferença e combate ao estigma também foi enunciada pelos docentes. O estigma está relacionado a conhecimentos insuficientes ou estereotipados que levam a preconceitos, à discriminação e ao distanciamento social da pessoa com doença mental. As pessoas em geral apresentam grande desconhecimento sobre as doenças mentais e uma reação negativa à convivência com o doente mental, considerando-os inclusive perigosos. Assim, as estratégias fundamentais para mudar atitudes estigmatizantes envolvem educação. O primeiro contato com a disciplina de saúde mental é o ponto de partida para abordar as questões da diferença associada aos problemas de saúde mental, que originam comportamentos discriminatórios e reforçam o estigma. O combate ao estigma na doença mental é um dos principais desafios apontados pela RP, já que o estigma relacionado às doenças mentais


associa-se à negação de direitos humanos dos próprios doentes mentais trazendo mais sofrimento. Finalmente, as competências pessoais como bom humor e solidariedade foram indicadas pelos docentes como importantes de serem valorizadas no ensino de saúde mental. A perceção e gestão dos próprios sentimentos são tidas por Goleman (2007), como componentes da inteligência emocional. Segundo ele, todas as pessoas podem desenvolver a sua própria Inteligência Emocional, tendo para isso de aprender e treinar as aptidões e competências pessoais. CONCLUSÃO Conclui-se que o ensino de saúde mental não está orientado por competências. Há consensos relacionados à formação na perspetiva da clínica do sujeito e da RP. A importância das competências e da reflexão no processo de ensino de enfermagem psiquiátrica e de saúde mental são desafios para o docente numa sociedade que se transforma aceleradamente, mas que também é marcada por projetos políticos e educacionais em disputa. E, nesta complexidade da ação pedagógica em saúde mental, o profissional assume a responsabilidade de educar-se ao longo da vida, daí a necessidade de conhecer métodos de aprendizagem que possam favorecer esse processo. Compreendemos que a pedagogia das competências não se adequa a qualquer situação, para sua adoção deve-se considerar a historicidade do fenômeno educativo e a singularidade dos projetos pedagógicos institucionais. Contudo, destacamos a importância de se obter consensos mínimos relacionados aos conhecimentos que abarcam o campo da enfermagem psiquiátrica e de saúde mental e a sua apropriação crítica-reflexiva e criativa por parte dos atores envolvidos nesse processo em favor da qualidade dos cuidados em saúde e a promoção da saúde mental e da vida humana com qualidade. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA As competências específicas do enfermeiro de saúde mental nem sempre são claras e não há consenso nacional sobre quais competências deveriam ser mobilizadas no curso de graduação em enfermagem. O consenso em torno de um rol de competências poderá contribuir com o alinhamento dos projetos pedagógicos dos cursos de enfermagem e com o exercício da prática profissional de enfermagem orientada para solucionar os problemas presentes na prática clínica de maneira crítica e criativa.

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Artigo de Investigação

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Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0138

BUSCANDO INFORMAÇÕES EM SAÚDE ONLINE: ESTRATÉGIA DE ENFRENTAMENTO DOS ADOLESCENTES COM DOENÇAS CRÔNICAS1 | Gabriela dos Santos2; Cláudia Tavares3; Rosane de Aguiar4; Ana Queiroz5; Rejane Ferreira6; Cosme Pereira7 |

RESUMO CONTEXTO: Com a internet e as redes virtuais, é possível encontrar informações a respeito de diversos assuntos, de acordo com o interesse do público, e ainda criar grupos para discussões sobre os temas. OBJETIVO: Conhecer os aspetos positivos e negativos relacionados à busca de informações em saúde na internet por adolescentes com doença crônica. METODOLOGIA: Pesquisa qualitativa, realizada a partir de entrevistas semiestruturadas com adolescentes que se tratam no ambulatório de um hospital universitário no Rio de Janeiro. RESULTADOS: Foram apontados aspetos positivos como a compreensão da doença crônica e a influência da mídia no tratamento e no autocuidado. Além disso, aspetos negativos como a ausência de conteúdos inteligíveis e a dificuldade para identificar a segurança do site e veracidade das informações foram apresentadas. CONCLUSÕES: Isso nos mostra que a presença do enfermeiro no ambiente virtual deve ser valorizada como marco orientador e produtor de informações idôneas sobre saúde e cuidado. PALAVRAS-CHAVE: Adolescente; Doença crônica; Rede social

RESUMEN

ABSTRACT

“Buscando información de salud en línea: Estrategias de enfrentamiento de los adolescentes con enfermedades crónicas”

“Pursuing online health information: Coping strategies of adolescents with chronic diseases’”

CONTEXTO: Con el internet y las redes virtuales, es posible encontrar información acerca de diversos temas, de acuerdo con el interés del público, y también crear grupos para discusiones sobre los tópicos. OBJETIVO: Conocer los aspectos positivos y negativos relacionados con la búsqueda de información en salud en el internet por parte de los adolescentes con enfermedad crónica. METODOLOGÍA: Investigación cualitativa, efectuada a partir de entrevistas semiestructuradas con adolescentes tratados en la unidad ambulatoria de un hospital universitario de Rio de Janeiro. RESULTADOS: Se han indicado aspectos positivos como la comprensión de la enfermedad crónica y la influencia de los medios de comunicación en el tratamiento y el autocuidado. Además, se presentaron aspectos negativos como la falta de contenidos inteligibles y la dificultad para identificar la seguridad del sitio web y la veracidad de la información. CONCLUSIONES: Esto nos pone de manifesto que la presencia del enfermero en el entorno virtual debe ser valorada como un marco orientador y productor de información idónea sobre la salud y los cuidados de salud.

BACKGROUND: The Internet and the virtual network allow us to locate information regarding several different matters according to the public interest, and also to create groups for discussions about these. AIM: To understand the positive and negative aspects related to the pursuit of health information on the internet by adolescents with chronic disease. METHODS: Qualitative research, held from semi-structured interviews with adolescents undergoing treatment in the outpatient unit of a university hospital in Rio de Janeiro. RESULTS: Positive aspects such as the understanding of the chronic disease and the influence of media both in the treatment and the self-care procedures have been pinpointed. Furthermore, negative aspects such as the lack of intelligible contents and the difficulty in identifying the safety of the websites as well as the veracity of the information were presented. CONCLUSIONS: This proves to us that the presence of the nursing professional in the virtual environment should be valued as a benchmark that guides and produces trustworthy information about health and care.

DESCRIPTORES: Adolescente; Enfermedad crónica; Red social

KEYWORDS: Adolescent; Chronic disease; Social network Submetido em 20-12-2015 Aceite em 30-05-2016

1 Artigo extraído da Dissertação de Mestrado intitulada “Busca de informação em saúde nas redes sociais virtuais por adolescentes com doenças crônicas: Contribuição da enfermagem”, apresentado no I Encontro Internacional Inovação no Ensino na Saúde e Enfermagem. 2 Enfermeira; Doutoranda na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Enfermagem Anna Nery, Cidade Nova, Rio de Janeiro, Brasil, sisan.gabi@hotmail.com 3 Enfermeira; Professora Titular na Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Niterói - RJ, Brasil, claudiamarauff@gmail.com 4 Enfermeira; Professora na Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, 24020-091 Niterói - RJ, Brasil, rcburla@yahoo.com.br 5 Enfermeira; Professora Associada na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Enfermagem Anna Nery, Rio de Janeiro - RJ, Brasil, abaqueiroz@hotmail.com 6 Enfermeira; Doutoranda na Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Niterói - RJ, Brasil, rejane_eleuterio@hotmail.com 7 Enfermeira; Mestre pela Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, 24020-091 Niterói - RJ, Brasil, cosmehesfa@yahoo.com.br Citação: Santos, G., Tavares, C., Aguiar, R., Queiroz, A., Ferreira, R., & Pereira, C. (2016). Buscando informações em saúde online: Estratégia de enfrentamento dos adolescentes com doenças crônicas. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe. 4), 33-38. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 33


INTRODUÇÃO

METODOLOGIA

As redes sociais virtuais têm inúmeras vantagens e uma delas é a facilidade de acesso em qualquer ponto onde a internet esteja disponível para a conexão. Em todas elas são possíveis encontrar e compartilhar informações a respeito de diversos assuntos, de acordo com o interesse do público, e ainda criar grupos para discussões específicas. Esse recurso beneficia pessoas confinadas a um determinado espaço, impossibilitadas, total ou parcialmente, de estabelecer contato com outros grupos sociais - seja com um membro familiar, amigos e até mesmo com profissionais da saúde. Analisando a rede virtual, podemos apontá-la como um amplo campo através da qual descobrimos novos recursos e ferramentas para divulgação e busca de informações sobre doenças físicas e psicológicas, em um curto intervalo de tempo e com acesso local, regional, nacional e internacional. Podemos considerar que as mídias estão presentes na vida das pessoas e o crescente número de blogs e portais para pacientes mostra que muitos estão ativos nessas redes virtuais (Velden & Khaled, 2013). Greene, Choudhry, Kilabuk & Shrank (2011) mostram que o facebook tem sido um ponto importante de encontro online, com mais de 400 milhões de usuários registrados em todo o mundo. Nele, muitos sites de grupos sobre doença, surgiram representando fontes de informação, apoio para pacientes com doenças crônicas, entre esses encontramos os adolescentes (Greene et al, 2011). A adolescência constitui-se como uma fase de vida crítica para a saúde mental e são várias as perturbações mentais que têm o seu pico de incidência nestas fases, nomeadamente a depressão e tentativas de suicídio, uso de substâncias, perturbações alimentares, ansiedade e psicoses (Morgado & Botelho, 2014). Esses conflitos internos se potencializam quando o adolescente possui em seu histórico uma doença crônica. Com a internet e as mídias, inúmeras redes virtuais têm-se tornado ferramentas de grande utilidade tanto para os profissionais de saúde quanto para as pessoas envolvidas no processo saúde e doença do adolescente, o que contribui de forma positiva para o enfrentamento da doença crônica, seja por meio dos conteúdos disponibilizados relacionados à saúde ou de bate-papo (Santos, Tavares, Ferreira & Pereira, 2015). Assim, este estudo buscou conhecer os aspetos positivos e negativos relacionados à busca de informações sobre doença crônica por adolescentes nas redes sociais virtuais.

Trata-se de estudo descritivo-exploratório de abordagem qualitativa, realizado com adolescentes, que estão em tratamento de patologias crônicas como Lúpus Eritematoso Sistêmico, Doença Renal Crônica, Câncer e Insuficiência pulmonar, no Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente (NESA) Do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro/ Brasil. A partir de um convite formal, tornaram-se participantes deste estudo 14 adolescentes, que em algum momento buscaram informações sobre saúde nas redes virtuais. A coleta de dados se deu através de entrevistas semiestruturadas, individuais, no período de junho a setembro de 2014, nos dias de atendimentos estabelecidos pelo ambulatório de especialidades do NESA. Os critérios de exclusão adotados foram os seguintes: pacientes que nunca acessaram quaisquer mídias virtuais para obtenção de informações relacionadas à saúde a fim de compreender o processo da doença crônica, adolescentes com défice cognitivo e analfabetos e menores de 18 anos cujos responsáveis não consentiram a participação na pesquisa. As questões que nortearam a entrevista foram: Como você sabe que o conteúdo encontrado na internet é confiável? Os conteúdos encontrados no ambiente virtual têm-lhe ajudado com seus problemas de saúde? O que você já sabe sobre as formas de lidar com seus problemas de saúde? As entrevistas foram gravadas com o assentimento dos adolescentes e com o consentimento dos pais. Posteriormente transcritas, sendo realizado a análise de conteúdo temático que seguiu 3 fases: a primeira préanálise foi realizada leitura exaustiva dos dados, seguida da organização do material e formulação de hipóteses. Na sequência, foi realizada a exploração do material, ou seja, a codificação dos dados brutos. Na terceira e última fase, os dados foram interpretados e paralelamente delimitados os eixos temáticos, a partir da compreensão dos significados estabelecidos (Bardin, 2011). Para manter o anonimato dos participantes, as falas foram identificadas, no texto por pseudônimos retirados da sala de bate - papo do site Universo Online (UOL). Os aspetos éticos foram respeitados de acordo com as recomendações da Resolução do Conselho Nacional de Saúde n°466/2012 que prescreve a ética em pesquisa com seres humano (Ministério da Saúde,2012). Sendo o projeto de pesquisa aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição proponente e coparticipante sob o nº 692.112.

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RESULTADOS Foram participantes dessa pesquisa 09 meninas e 05 meninos, com idade de 14 a 20 anos. Após a análise dos dados obtidos, o estudo apontou os aspetos positivos e negativos relacionado a busca de informações sobre doença crônica por adolescentes nas redes virtuais. Aspetos Positivos Apresentados pelos Adolescentes O esclarecimento quanto ao processo da doença, provenientes da obtenção de informação por meio virtual, foi um aspeto muito significativo para os adolescentes como se pode perceber no relado abaixo: “Me ajudou a aceitar, porque eu não aceitava aí eu aceitei. Quando eu aceitei eu melhorei, teve uma época que eu não estava aceitando de jeito nenhum, aí minha mãe falou ou eu aceitava ou eu aceitava. Aí eu tive que aceitar né?. Aí eu comecei a procurar saber mais, aí eu descobri como é que é, que essa doença não é TÃO ruim como eu pensei que ela era, é só cuidar” [Mily]. As informações obtidas na internet pela adolescente contribuíram para que a mesma aceitasse sua condição, e consequentemente, despertou o interesse de obter mais conhecimento a fim de se sentir bem e melhor. Esse processo de conhecer e aceitar a doença crônica desperta nas adolescentes potencialidades de enfrentamento e possibilidades de serem felizes. Além disso, o esclarecimento associado aos relatos de experiência de outras pessoas com o mesmo diagnóstico, contribuiu como incentivo ao tratamento, conforme o depoimento a seguir: “Eu vi que tinha muita gente com o mesmo problema ..., É ...tinha gente se tratando, tinha gente falando que se não tratar ...que deixou de tratar quando jovem aí quando ficou adulto ficou pior, fica difícil de se tratar, perde o controle. Aí, tipo, me deu um incentivo para eu continuar me tratando...” [Aventureiro]. Outra adolescente relatou como a informação na internet a ajudou a compreender melhor o procedimento pelo qual ela havia passado. “Eles falaram que colocaram um catéter duplo “J” em mim, e aí eu queria saber o quê que era. Aí quando eu cheguei em casa, aí eu fui pesquisar e vê o que era e eu vi.[...] aí eu já entendi , eu vi como era, que era um.. um ligado no rim, um ligado na bexiga. Dá pra entender, não cheguei a ler, nem entrar no site, mas vi imagens [Butterfly]. Conhecer a doença que possui é uma necessidade, e as redes virtuais tem auxiliado os adolescentes ao autocuidado e a autonomia:

“Tem que diminuir o sal. Tem que evitar comer algumas coisas. Beber bastante água, essas coisas” [Pocahontas S2]. “Tomar bastante água, comer menos sal, e tomar o remédio direitinho” [Penélope Charmosa]. Aspetos Negativos Apontados pelos Adolescentes Ao recorrer à internet para obtenção de informação, além do sucesso esperado, ele pode se deparar com um universo científico rigoroso que impossibilitará o êxito quanto ao entendimento sobre o conteúdo buscado devido a sua imaturidade. É que tem coisas que eram muito científicas...a linguagem, não deu pra entender muito não.[Kalado 45]. Além do termo “coisas científicas”, o vocabulário técnico da área da saúde foi descrito por uma adolescente como “nomes esquisitos”. Eu pesquisei lá, o que era esse negócio, só que aí tem vários nomes esquisitos. Aí eu...aí eu nunca mais pesquisei não [Princesa]. Ao serem questionados sobre como eles identificam que a veracidade das informações e como eles sabem que o site é seguro, alguns adolescentes não souberam responder, outros se basearam em sua experiência, seus sintomas: Porque às vezes, eles estavam falando do que eu já tinha passado, é... dores nas articulações, às vezes apareciam uma pintinhas vermelhas, no meu caso apareceu, aí eu sabia que tinha fundamento porque algumas situações eu já vivi com o lúpus [Saori]. Outra possibilidade para identificar a veracidade do conteúdo foi por estar disponível em sites populares, como o Wikipédia, por exemplo. Verídico? Porque foi a wikipédia! Então vem assim, poxa foi a wikipédia, a wikipédia mente, mas nem tanto quanto os outros sites, então assim, minha primeira informação foi a wikipédia, aí a partir daí, da wikipédia, eu peguei a wikipédia como fonte para todas as outras pesquisas e muita coisa que eu vi na wikipédia batia com o que eu tava passando no hospital, então foi isso, eu nunca cheguei em outro site, fui e procurei, geralmente foi na wikipédia, só, então foi bem assim [Internauta].

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DISCUSSÃO As redes sociais virtuais criadas nas mídias virtuais, têm-se tornado um forte instrumento adotado com mais frequência para promoção de apoio, incentivo, troca de experiências entre outras atividades, ou seja, ocorre um rompimento das fronteiras com o auxílio das tecnologias. Para Snyder et al. (2011), as ferramentas de comunicação da Internet, tais como salas de bate-papo, fóruns de discussão, blogs e grupos de apoio online podem ajudar os pacientes a compartilhar experiências e fazer perguntas através do apoio mútuo dos outros sobreviventes da condição crônica. O apoio para o tratamento pode vir de pessoas em situações semelhantes com insuficiência similar (Dumaji & Tijsse, 2011). Assim surge um sentimento de pertença, quando encontram grupos que vivem a mesma situação, o mesmo problema de saúde, um espaço que é deles, onde podem inclusive formar vínculos sociais. Neste sentido, Moreira & Souza (2002) refletem esses espaços como “identidades comuns”, onde se identificam como os iguais e discutem a formação de redes de apoio social, pois na adolescência é essencial para o adolescente pertencer a um grupo e sentir-se aceite. Também foi possível perceber nas falas dos adolescentes que o uso das mídias os ajudaram a compreender o processo da doença e intervenções realizadas. O conhecimento que o adolescente possui sobre a doença será determinante no desenvolvimento de estratégias positivas para o enfrentamento, as quais minimizarão os estressores que advirão na sua vida como doente crônico (Araújo, Collet, Gomes & Amador, 2011a). Informações de saúde de alta qualidade podem ser fornecidas através de sites, fóruns, blogs e redes sociais, que têm sido alguns dos canais mais populares para a promoção da saúde entre os jovens. Nos últimos 10 anos, na França, por exemplo, três de quatro pessoas têm acesso à internet e o uso da internet é maior entre os jovens que os adultos (Beck, Lopes, Giuliano & Borgatto, 2011). A comunicação é um processo complexo, subjetivo e que abarca a perceção, a compreensão e a transmissão de mensagens entre pacientes e profissionais de saúde, de modo verbal e não-verbal. Entre o modo não-verbal, menciona-se a busca de conteúdos nas mídias virtuais (Tamaki, Meneguin, Alencar & Luppi, 2014). Em relação aos saberes dos adolescentes, quanto mais ciência o adolescente tiver sobre as causas que o afetam terá mais probabilidade de ser ativo e autônomo diante de sua própria vida (Araújo et al. 2011a). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 36

A partir do diagnóstico de uma doença crônica o adolescente necessita se adequar a um novo estilo de vida, constituído de consultas médicas, realização de exames, uso de medicamentos, limitações físicas, restrições alimentares, sinais e sintomas da doença e uma série de alterações no seu cotidiano, inclusive possíveis internações (Almeida, Lopes & Simões, 2014). O adolescente que convive com uma doença crônica precisa construir autonomia para o cuidado de si, e não ficar dependente do cuidado da família, o que pode levá-lo a se sentir incapaz de enfrentar circunstâncias cotidianas sozinhos (Araújo, Collet, Gomes e Nóbrega, 2011b). Com isso, podemos considerar a busca por informações na internet pelo adolescente, a compreensão do diagnóstico e a forma de cuidado da saúde possibilitam uma independência, incluindo o próprio adolescente no tratamento como um participante ativo, proporcionando o vir a sentir-se bem, conforme foi expresso por eles. “Navegar” pelo ambiente virtual pode ser uma tarefa simples, mas nem sempre é fácil como se espera, ainda mais para o mundo do adolescente, quando uma série de questionamentos perturba sua mente sobre outro mundo desconhecido, que é o da doença crônica. Desde a chegada de intervenções de mídia social para fins relacionados com a saúde, tornou-se claro que nem todas estas intervenções são realmente bem-sucedidas (Van de Belt & Engelen, 2013). Deve-se atentar para a forma como é disponibilizado o conteúdo na internet, se de fato pretende-se que os efeitos sejam informativos, é oportuno considerar a diversidade populacional com as doenças crônicas, e não as generalizar. A informação é fundamental para o cuidado centrado no paciente, e na área da informática em saúde tem acontecido uma evolução nos últimos anos pautada em como a informação é adquirida, armazenada e utilizada nos cuidados de saúde. Talvez o maior desafio para pacientes e provedores seja identificar a informação que é de alta qualidade e que aumente (e não impeça) suas interações. Se há desinformação, os efeitos nos pacientes podem envolver a ansiedade ou questionamentos a respeito da competência médica (Snyder et al., 2011). Ao inserir uma informação em um meio virtual, necessita-se atentar para o público que se pretende alcançar e os possíveis públicos que poderão acessá-los, pois um conteúdo lançado na rede precisa alcançar o seu objetivo proposto e apresentar segurança para quem irá adquiri-lo.


Já que os adolescentes, pela sua imaturidade, e por estarem em processo de descobertas apresentarão essa dificuldade para assimilação e distinção entre o correto e o errado. No Brasil, como forma de qualificar as informações de saúde que são disponibilizadas na internet, destacamse iniciativas como a da Fiocruz, com seu Laboratório denominado Laiss (Laboratório Internet, Saúde e Sociedade), que tem o intuito de criar mecanismos capazes de avaliar a confiabilidade de sites médicos e de informações de saúde veiculadas na rede; e também as ações do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP), que criou, em 20 de fevereiro de 2001, uma resolução (n.º 97) que dispõe sobre a idealização, criação, manutenção e atuação profissional em sites, páginas ou portais sobre medicina e saúde na internet (Moretti, Oliveira & Silva, 2012). Os jovens têm dificuldades de julgar a qualidade do conteúdo na internet, que esteja relacionado à saúde. Para isso, é fundamental ajudar os jovens a encontrar e utilizarem as informações em saúde online mais válidas. Uma estratégia vem a ser a criação de sites referenciados, como já ocorre nos Estados Unidos (Beck et al., 2011). Torna-se necessário o incentivo a autorregulação do setor para se estabelecerem padrões mínimos de qualidade, segurança e confiabilidade dos sites de saúde. A resolução (N.º 97) ainda sinaliza que o usuário da internet, na busca de informações, serviços ou produtos de saúde online, tem o direito de exigir das organizações e indivíduos responsáveis pelos sites: Transparência; Honestidade; Qualidade; Consentimento Livre e Esclarecido; Privacidade; Ética Médica e Responsabilidade e Procedência (Moretti et al., 2012). Esses aspetos negativos apresentados como, por exemplo - a dificuldade de reconhecer um site como seguro ou verdadeiro, que apresente credibilidade para quem utiliza seu conteúdo merecem bastante atenção, por se tratar de conteúdos voltados para a saúde, os prejuízos podem ser imensuráveis. Então, ainda que a internet seja vista como um todo, precisa-se lembrar que por detrás desses ícones virtuais existem pessoas, seres humanos, ainda que capacitados ou não para o exercício dessa atividade online, essas pessoas são passíveis de erros, acertos e todas as potencialidades humanas. Na ida até as redes virtuais para obtenção de informação a fim de compreender o processo de seu diagnóstico espera-se que a resposta venha de um profissional da saúde, especialmente na figura do enfermeiro, pois o mesmo é visto como um profissional da educação em saúde e durante os depoimentos dos adolescentes, a imagem do enfermeiro passou desapercebida.

CONCLUSÃO Embora seja complexo o processo de adaptação do adolescente à sua condição crônica, é de suma importância à participação do adolescente no seu processo de recuperação, uma vez que entre os benefícios está o autocuidado, a adesão ao tratamento e a melhora na autoestima. A busca por informações na internet pelos adolescentes, a compreensão do diagnóstico e a forma de cuidado da saúde possibilitam uma independência, incluindo o próprio adolescente no tratamento como um participante ativo. A busca por informações em saúde obtidas no ambiente virtual caracterizou-se como uma estratégia dos adolescentes deste estudo a enfrentar a doença crônica e manter o tratamento. Por outro lado, não podemos desviar o olhar dos aspetos negativos que dificultaram a compreensão da informação. Entre eles temos a linguagem científica, o excesso ou falta de conteúdo, e a dificuldade para identificação de sites seguros, com informações confiáveis. Embora alguns órgãos venham se debruçando sobre as maneiras como as informações são lançadas no meio virtual, isso ocorre ainda de forma pouco expressiva. Por isso, é necessária agilidade no estabelecimento de critérios que devem ser adotados pelos organizadores de sites, a fim de divulgar seu conteúdo de maneira segura e com credibilidade. O crescimento das mídias sociais ocorre expressivamente, possibilitando a existência de um espaço a ser valorizado pelo enfermeiro. Uma vez que os enfermeiros se inseriram neste mundo virtual, eles devem proteger a privacidade do paciente, manter a confidencialidade de suas ações no exercício do cuidado, e compreender a importância de sua presença nesta nova realidade, pois a disponibilidade de conteúdos deturpados é um risco ao bem-estar do paciente. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA O crescimento das mídias sociais ocorre expressivamente, possibilitando a existência de um espaço a ser valorizado pelo enfermeiro. Uma vez que os enfermeiros ao serem inseridos neste mundo virtual, eles devem proteger a privacidade do paciente, manter a confidencialidade de suas ações no exercício do cuidado, e compreender a importância de sua presença nesta nova realidade, pois a disponibilidade de conteúdos deturpados é um risco ao bem-estar do paciente.

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Artigo de Investigação

6

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0139

INOVAÇÕES NA FORMAÇÃO EM SAÚDE: O EDUCAÇÃO PELO TRABALHO – SAÚDE MENTAL1

PROGRAMA

DE

| Malena Rosa2; Ândrea de Souza3; Ana Lúcia Abrahão4; Dalvani Marques5 |

RESUMO CONTEXTO: A qualificação dos profissionais de saúde ainda se constitui em um grande desafio para o fortalecimento da atenção psicossocial e do Sistema Único de Saúde (SUS). É preciso formar profissionais com habilidades e competências para a implementação de um cuidado em rede, cujo foco seja o usuário. OBJETIVOS: Avaliar se o Programa de Educação pelo Trabalho (PET-Saúde) na saúde mental tem se constituído em uma estratégia de educação permanente para os profissionais. METODOLOGIA: Estudo descritivo com abordagem qualitativa, realizado nos serviços de saúde mental que sediam a experiência do PET no município de Niterói, Rio de Janeiro. Os participantes da pesquisa foram preceptores do PET-Saúde Mental. Para a coleta de dados foram realizadas entrevistas semiestruturadas. O tratamento das informações foi ancorado na análise temática. Esta pesquisa foi aprovada pelo CEP sob n° 209.321. RESULTADOS: Foram entrevistados nove preceptores. A partir da análise do material foram identificadas três categorias analíticas: O PETSaúde Mental como dispositivo de educação permanente; Ações de educação permanente presentes no PET-Saúde Mental na perspectiva dos preceptores; Potencialidades do PET-Saúde Mental como dispositivo de educação permanente. CONCLUSÕES: O PET-Saúde Mental tem se constituído em um disposto potente de novas modalidades de educação permanente em saúde. Este impele para um novo posicionamento dos profissionais diante de seus processos de formação em e nos serviços, convocando-os a ocuparem a centralidade nos processos de educação no cotidiano dos serviços. PALAVRAS-CHAVE: Saúde mental; Educação continuada; Saúde mental; Ensino em saúde

RESUMEN

ABSTRACT

“Innovaciones de la formación en salud: Programa de educación por el trabajo – salud mental”

“Innovation in health education: Education programme through work - mental health”

CONTEXTO: La calificación de los profesionales de salud es todavía un gran reto para el fortalecimiento del cuidado psicosocial y del Sistema Único de Salud (SUS). Es necesario formar profesionales con habilidades y competencias para implementar un cuidado en red enfocado en el usuario. OBJETIVO: Evaluar si el Programa de Educación por el Trabajo (PETSalud) en la salud mental es presentemente una estrategia de educación permanente para los profesionales. METODOLOGÍA: Estudio descriptivo con abordaje cualitativo, realizado en los servicios de salud mental sedes de la experiencia del PET en el municipio de Niterói, Rio de Janeiro. Los preceptores del PET-Salud Mental fueron los participantes de la investigación. Para recolectar los datos se realizaron entrevistas semiestructuradas. El tratamiento de las informaciones se basó en el análisis temático. Esta investigación fue aprobada por el CEP con el n° 209.321. RESULTADOS: Se entrevistaron a nueve preceptores. A partir del análisis del material fueron identificadas tres categorías analíticas: El PET-Salud Mental como dispositivo de educación permanente; Acciones de educación permanente presentes en el PET-Salud Mental en la perspectiva de los preceptores; Potencialidades del PET-Salud Mental como dispositivo de educación permanente. CONCLUSIÓN: El PET-Salud Mental se ha convertido en un dispositivo potente de nuevas modalidades de educación permanente en salud. Este impele hacia un nuevo posicionamiento de los profesionales frente a sus procesos de formación en los servicios, convocándolos para que ocupen la centralidad en los procesos de educación en el cotidiano de estos.

BACKGROUND: The qualification of health professionals still remains a major challenge for the reinforcement of psychosocial care and the Sistema Único de Saúde (SUS) (Unified Health System). It is necessary to train students in order to provide them the skills and competences for the implementation of a user-focused care network. AIM: To confirm if the Program of Education through Work (PETHealth) on mental health has resulted in a permanent education strategy for practitioners. METHODS: This is a descriptive study performed by means of a qualitative approach, carried out in mental health service units that host the PET experience in Niterói, Rio de Janeiro. The participants were trainers of PET-Mental Health. Data collection was performed by means of semistructured interviews. Information processing was based in the thematic analysis. This study was approved by the CEP under No. 209,321. RESULTS: Nine preceptors were interviewed. From the analysis of the material, three analytical categories were identified: PET-Mental Health as a continuing education device; permanent education actions present in the PET-Mental Health from the perspective of preceptors; potentialities of PET-Mental Health as a continuing education device. CONCLUSION: PET-Mental Health has proven to be a powerful tool for the provision of improved types of permanent health education. It boosts the positioning of professionals in the training processes and service provision, summoning them to occupy a key role in education processes that happen in daily services.

DESCRIPTORES: Educación en salud; Salud mental; Educación continua

KEYWORDS: Mental health; Continuing education; Health education Submetido em 22-02-2016 Aceite em 30-05-2016

1 Este artigo é oriundo da Dissertação de Mestrado intitulada “O Programa de educação pelo trabalho como dispositivo inovador na formação do ensino na saúde”, vinculada ao Programa de Mestrado de Ensino na Saúde da Universidade Federal Fluminense. 2 Enfermeira; Mestranda do Programa de Mestrado Profissional de Ensino na Saúde na Universidade Federa Fluminense, Niterói - RJ, Brasil, malenastorani@bol.com.br 3 Enfermeira; PhD em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca; Professora Adjunta na Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, 24020-091 Niterói – RJ, Brasil, andriacz@ig.com.br 4 Enfermeira; PhD em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual de Campinas; Professora Titular da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, abrahaoana@gmail.com 5 Enfermeira; Professora Adjunta na Escola de Enfermagem da Universidade Estadual de Campinas, 13083-970 Campinas - SP, Brasil, marquesdal@yahoo.com.br Citação: Rosa, M., Souza, A., Silva, A., & Marques, D. (2016). Inovações na formação em saúde: O programa de educação pelo trabalho – saúde mental. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe. 4), 39-44. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 39


INTRODUÇÃO A formação profissional em saúde mental é um processo em constante construção, sendo um tema frequentemente debatido com o intuito de criar estratégias e desenvolver ações capazes de qualificar profissionais para uma prática diferenciada, que tenha o sujeito como seu principal foco de ação e que seja mais condizente com os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS). Ao mesmo tempo, o modelo de atenção em saúde mental preconizado pelo SUS vem se consolidando através de muitas mudanças de paradigmas e buscando cada vez mais atender a população de maneira integral, o que exige profissionais de saúde envolvidos com o contexto histórico-social dos usuários e que possam atuar como transformadores do processo saúde-doença. Para tanto, o Ministério da Saúde implementou uma nova estratégia para a formação de profissionais, um programa que tem como um dos seus objetivos a reorientação da formação profissional, objetivando profissionais mais qualificados para a atuação no SUS: o Programa de Educação pelo Trabalho na Saúde (PET-Saúde). O PET-Saúde prevê a atuação em redes temáticas de atenção: atenção psicossocial, doenças crônicas não transmissíveis, rede cegonha, entre outras. Cada grupo Pet-Saúde Mental é composto por um coletivo formado por professores universitários, alunos de graduação e profissionais dos serviços. O programa prevê a participação de todas as categorias profissionais concernidas ao campo da saúde e tem como uma das suas principais características a interdisciplinaridade. De acordo com Morais, Jales, Silva e Fernandes (2012) a dinâmica interdisciplinar do programa tende a favorecer a apreensão de um novo conhecimento para a produção de outras práticas que intencionam a articulação do saber com as necessidades dos sujeitos. A experiência interdisciplinar além de enriquecer o saber com novas formas de cooperação e comunicação entre os profissionais e entre estes e o usuário, dá ao profissional de saúde condições de perceber o sujeito como um todo, necessitando, assim, de uma visão mais ampla, que ultrapasse a sua especificidade profissional, e que caminhe na direção da compreensão das implicações sociais decorrentes de sua prática (Loch-Neckel, Seemann, Eidt, Rabiske e Crepaldi, 2000). Uma outra premissa do PET é tomar o mundo do trabalho como espaço de aprendizado. Nesse sentido, o programa encontra-se contextualizado na Política de Educação Permanente em Saúde que defende o conceito de aprendizagem-trabalho como sendo aquela que acontece no cotidiano das pessoas e dos serviços. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 40

Propõe que o processo de educação dos trabalhadores da saúde se faça a partir da problematização do processo de trabalho, pautando a necessidade de formação e desenvolvimento dos trabalhadores pelas necessidades de saúde das pessoas. Desse modo, um bom ponto de partida para o desenvolvimento de uma estratégia consistente de educação permanente seria conhecer a realidade dos serviços e, a partir das experiências já adquiridas pelos profissionais, levantar sugestões e promover espaços de troca e discussões relativas ao processo de trabalho. É preciso valorizar o conhecimento produzido no próprio cotidiano do serviço, mas acima de tudo estimular a reflexão acerca do mesmo, de forma a superar as possíveis dificuldades encontradas e possibilitar novas ações que promovam uma atenção cada vez mais integral aos usuários dos serviços de saúde mental. A experiência é destacada por Abrahão e Merhy (2014) como um elemento dinamizador da formação, que implica colocar-se à disposição do exercício de apreender com e no mundo do trabalho, enquanto um campo essencialmente micropolítico. Enfatizam que a formação nos convoca a experimentar durante o cuidar, durante o ato do trabalho, sensações e afetos produzidos no cuidado. A educação permanente cria espaços de reflexão para que os profissionais possam repensar sua prática, entender os processos de trabalho no qual estão inseridos e rever condutas, de modo a buscar novas estratégias de intervenção, superação de dificuldades individuais e coletivas no trabalho. Por ser uma estratégia inovadora e recente no campo da saúde mental e que, segundo Rodrigues, Souza e Pereira (2012) está sendo construída por sujeitos sociais que optaram por uma proposta dinâmica de formação por meio do trabalho em saúde e, utilizando a educação permanente como ferramenta, busca consolidar uma formação mais condizente com a política nacional de saúde mental, rompendo, inclusive, com padrões históricos e tradicionais do processo de ensino-aprendizagem. O objetivo deste estudo consiste em avaliar se o PetSaúde tem se constituído em uma possibilidade de educação permanente dos profissionais/preceptores dos serviços de saúde mental do município de Niterói, RJ, Brasil.


METODOLOGIA Este estudo consiste em uma pesquisa descritiva com abordagem qualitativa. O cenário deste estudo foram os serviços da rede pública de saúde mental do município de Niterói que são vinculados ao PET-Saúde Mental. Os participantes da pesquisa foram os profissionais de saúde que atuavam como preceptores do Pet-Saúde Mental. Os critérios de inclusão adotados foram: profissionais de saúde que atuavam nos serviços da rede pública de saúde mental de Niterói como preceptores do PET. Foram excluídos os profissionais que atuavam como voluntários do PET, os servidores que se encontravam em licença e ou férias durante a realização da pesquisa. Para coleta de dados foram realizadas entrevistas semiestruturadas com oito preceptores. Estas foram realizadas nos serviços de saúde mental que esses profissionais atuavam. Para o tratamento dos dados optou-se por realizar a análise temática. Esta pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Antônio Pedro da Universidade Federal Fluminense e recebeu parecer favorável nº 862.452. RESULTADOS Foram entrevistados oito profissionais que atuavam nos serviços de saúde mental do município de Niterói e que participavam como preceptores do PET-Saúde Mental. Dos participantes do estudo, 50% pertenciam ao sexo feminino e 50% ao masculino. Todos trabalhavam na rede pública de atenção psicossocial do município, sendo que dois atuavam no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) álcool e drogas, um atuava no CAPS para infância e adolescentes, um atuava na gestão, dois trabalhavam no setor de álcool e drogas, um no setor de emergência do hospital psiquiátrico e um atuava no consultório na rua. Os dados foram coletados nos locais de trabalho dos preceptores por meio de entrevista semiestruturada, nos meses de junho a agosto de 2015. A partir da análise dos dados foram identificadas três categorias analíticas: O PET-Saúde Mental como dispositivo de educação permanente; Ações de educação permanente presentes no PET-Saúde Mental na perspectiva dos preceptores; Potencialidades do PETSaúde Mental como dispositivo de educação permanente.

O PET como Dispositivo de Educação Permanente Uma das prerrogativas do PET-Redes de Atenção Psicossocial é incentivar a formação e qualificação técnica de profissionais de saúde mais adequadas às necessidades do SUS, fomentando seu espírito crítico para a construção de um cuidado cada vez mais integrado e pautado na indissociabilidade entre ensino-serviçocomunidade. Entendendo os serviços de saúde como campos potentes para a formação, seja pelos desdobramentos produzidos pelo encontro dos alunos com os usuários e cenários das unidades de saúde, mas principalmente na troca estabelecida na relação aluno-preceptor e demais profissionais dos serviços é que o PET-Saúde pode ser apontado como um dispositivo de educação permanente. Do universo de oito preceptores do programa entrevistados, 100% consideraram o PET uma proposta de educação permanente. “Os profissionais são incentivados a trazerem suas questões para o debate com seus colegas possibilitando troca de saberes, estranhamento e desacomodação de saberes”. (P4) “Sim. Pois é um contínuo de busca por respostas e problematizações das práticas cotidianas de cuidado na rede”. (P9) - Ações de educação permanente presentes no PETSaúde Mental na perspectiva dos preceptores Na saúde mental, grande parte do processo de trabalho se dá nos espaços de reunião de equipe e supervisão institucional e isso aparece também no discurso dos preceptores participantes desta pesquisa. Dentre as ações de educação permanente apontadas pelos preceptores, destacam-se: as reuniões mensais do PET com tutores, preceptores e alunos; preceptoria em serviço; os espaços de reunião de equipe e supervisão institucional; a busca de informações e pesquisa de material bibliográfico. “Encontro permanente entre os profissionais na busca de articular a prática e lugar de discussão teórica e clínica, tendo o ensino e a formação o seu objetivo”. (P4) “Supervisões clínico institucionais... encontros de preceptoria e encontros mensais com todos os alunos, preceptores e tutores”. (P4) - Potencialidades do PET como dispositivo de educação permanente Mais do que descrever as ações que podem ser consideradas como de educação permanente, este estudo buscou avaliar se o PET é um dispositivo em potencial para que o trabalho de educação permanente aconteça.

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Existem processos de formação que surgem no ato da preceptoria, em cada encontro com a prática, com as dificuldades, com os desafios; processos que não estão previamente determinados. E é nesse cenário do imprevisto, do novo, do que surge da vivência de cada profissional com o exercício da preceptoria que se pretende qualificar as potencialidades do PET para a educação permanente. “A forma como se propõe a transmissão do conhecimento e a valorização da experiência em ato é um dos principais pontos que caracteriza o PET como uma educação permanente”. (P2) DISCUSSÃO Através da parceria estabelecida entre Ministério da Saúde e Ministério da Educação com o objetivo de estimular mudanças curriculares nos cursos de graduação da área de saúde, de modo a formar profissionais com perfil mais adequado às necessidades do SUS, surgiram nos últimos anos alguns programas de destaque do qual o PET-Saúde faz parte. A partir dos resultados do estudo é possível considerar o PET-Saúde Mental como um dispositivo inovador e potente para a qualificação e educação permanente na saúde. A educação permanente é um dispositivo importante para a implementação de mudanças no SUS, e também para reforçar a relação das ações de formação com a gestão do sistema dos serviços, com o trabalho da atenção à saúde. O PET como dispositivo da educação permanente é um provocador de mudanças nas práticas de saúde, visto que proporciona reflexão crítica sobre o cotidiano do trabalho de profissionais na rede de serviços. O PET-Saúde: Redes de Atenção Psicossocial lançou mão de estratégias focadas no cenário da prática, no processo de ensino-aprendizagem que se dá na rede de serviços, envolvendo o docente, o estudante, a equipe de saúde do serviço e os usuários do SUS para incitar processos de educação permanente nos serviços. Entendendo que para prestar um cuidado global ao usuário é preciso conhecer os fatores determinantes do processo saúde-doença, faz-se necessária uma atuação em saúde pautada na integralidade e cada vez mais em estratégias interdisciplinares que possam atender às diferentes demandas envolvidas na promoção da saúde de um indivíduo (Muniz, Tavares, Abrahão e Sousa, 2015).

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Sendo assim, o PET-Saúde abrange diversos profissionais e busca a integração entre eles, por meio de atividades desenvolvidas na prática e que possam promover uma vivência interdisciplinar para os profissionais de distintas formações. A experiência do PET-Saúde Mental na promoção de melhor articulação entre os serviços de saúde, a universidade e a comunidade, tem sido relatada em diversos estudos, assim como as dificuldades e desafios para sua implantação. Destaca-se entre eles a desconstrução de uma visão fragmentada do processo de cuidado por parte dos profissionais. A fragmentação do saber e a pouca articulação entre os profissionais são apontadas como dificuldades relevantes a serem superadas para que se possa construir processos de trabalho interdisciplinares. Abrahão e Merhy (2014) destacam a necessidade de aumentar o número de intervenções realizadas conjuntamente por profissionais de duas ou mais áreas e identifica a rotina de serviços e a falta de cultura de alguns trabalhadores para desenvolver atividades multiprofissionais, engendradas por uma concepção interdisciplinar, como os principais fatores a serem reformulados para que se tenha processos de cuidado mais condizentes com as demandas dos usuários. Sugere ainda que a criação de mais oportunidades de encontro entre as áreas envolvidas possibilitaria uma vivência interdisciplinar entre eles. A educação permanente é um dispositivo importante nesse cenário, já que se trata de um dispositivo para mudanças nas práticas de saúde, baseadas na reflexão crítica sobre o cotidiano do trabalho de profissionais na rede de serviços, considerando a integralidade como princípio da formação profissional. O PET-Saúde: Redes de Atenção Psicossocial reúne características para se concretizar como um dos agentes da mudança na maneira de pensar a formação profissional. Tanaka et al. (2012) afirmam que o PET-Saúde é um instrumento para qualificação do serviço e incentiva a integração ensino-serviço-comunidade, a institucionalização das atividades pedagógicas dos profissionais do serviço e o estímulo para a inserção das necessidades do serviço como fonte de produção de conhecimento e pesquisa na universidade. Com a entrada em cena de docentes e estudantes atuando junto com os trabalhadores, há certamente uma oxigenação, uma motivação que aponta para a alteração na cultura estabelecida no cuidado em saúde.


CONCLUSÃO Na perspectiva de repensar a formação para a atenção psicossocial é que está inserida a proposta do PETSaúde Mental, tendo também como princípio orientador a integralidade. O cuidado integral em saúde requer um olhar interdisciplinar e no PET-Saúde Mental isso se dá não apenas pela observação do trabalho em equipe nos campos de prática, mas também nos encontros dos profissionais com os usuários, onde podem observar a necessidade de se promover uma atenção compartilhada tanto com os demais profissionais quanto com outros dispositivos de uma rede de saúde envolvida no cuidado do usuário. Para realizar uma prática que atenda à integralidade, o trabalho em equipe precisa ser exercitado desde o processo de formação do profissional de saúde, a partir de estratégias de aprendizagem que favoreçam o diálogo, a troca, a transdisciplinaridade entre os distintos saberes que contribuam para as ações de promoção de saúde no âmbito individual e coletivo. Sendo assim, trabalhar a integralidade desde a formação se faz indispensável para que se tenha uma atenção em saúde centrada no usuário e voltada não apenas para atender as suas demandas, mas também para fazê-lo parte integrante de seu processo de cuidado. O PET-Saúde Mental tem servido como uma ferramenta para a aproximação das políticas públicas de saúde e a prática dos profissionais em suas próprias áreas de atuação. Contudo, não se pode esquecer dos desafios que impõem essa transformação. Para que de fato sejam criados espaços de aprendizagem através do próprio ambiente de trabalho, é imprescindível a desconstrução de um modelo de formação profissional pautado no tecnicismo, centrado em procedimentos e na doença. Cabe destacar o caráter de continuidade exigido por esse processo, onde cada profissional torna-se protagonista na construção de seu próprio conhecimento e na criação de novos espaços que possibilitem a formação conjunta com outros profissionais. Trata-se de se permitir aprender de novo, de questionar um fazer que já é dado como certo e repensar se ele pode ser realizado de outra forma. Não é, contudo, tarefa fácil para um profissional, tomar o saber acumulado em sua formação e reinventá-lo ou readaptá-lo ao cotidiano sem que haja um exercício, um incentivo a essa prática, o que pode, muitas vezes, gerar resistência por aqueles que executam o trabalho.

As barreiras impostas à implantação da educação permanente ocorrem também por parte das unidades de saúde mental, devido a pouca organização dos serviços e das escalas dos profissionais de modo a não favorecer a criação de espaços de discussão que possibilitem uma reflexão sobre a prática e a promoção de melhorias no cuidado prestado aos usuários. Fazer caber no cotidiano dos serviços espaços de educação permanente torna-se um desafio face às inúmeras demandas, rotinas e processos de trabalho que dificultam o encontro dos profissionais. A educação permanente é um processo que impõe uma série de desafios que precisam ser transpostos para garantir sua efetividade. É preciso inserir seus fundamentos na rotina de trabalho e considerar, portanto, as atividades dentro da carga horária contratual do trabalhador. Nas unidades de saúde mental que integraram o PETSaúde Mental, em função de várias ações de educação permanente colocadas em prática, desde oficinas até os benefícios de ordem material e patrimonial, houve uma desacomodação na cultura estabelecida, ou seja, houve uma provocação positiva no ânimo e no comportamento dos trabalhadores. O PET Atenção Psicossocial tem proporcionado aos profissionais de saúde mental do município de Niterói uma reflexão prática sobre conceitos que sustentam o campo. Tem-se constituído um espaço de educação permanente no interior dos serviços. Os profissionais atribuem, principalmente, às reuniões de supervisão em serviço para discussão de casos clínicos e às reuniões com os tutores, os espaços privilegiados de educação permanente no cotidiano dos serviços. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Destacando a importância da formação de profissionais cada vez mais implicados para a adoção de um trabalho articulado em rede e na rede e de acordo com as reais necessidades do SUS, o PET-Saúde: Rede de Atenção Psicossocial, constitui-se em um dispositivo para viabilizar programas de aperfeiçoamento e especialização em serviço dos profissionais de saúde, estimulando sua constante qualificação e tornando-os coprodutores de conhecimentos e práticas que atendam às demandas dos usuários. O Pet Saúde Mental tem estimulado a reflexão sobre o trabalho que já é desempenhado pelos profissionais e, aproveitando suas experiências, criar novas formas de transmitir informação, reinventar o cenário da prática e articular o cotidiano do serviço. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 43


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Abrahão, A., e Merhy, E. (2014). Formação em saúde e micropolítica: Sobre conceitos-ferramentas na prática de ensinar. Interface-Comunicação, Saúde, Educação, 18(49), 313-324. doi: dx.doi.org/10.1590/180757622013.0166 Loch-Neckel, G., Seemann, G., Eidt, H., Rabuske, M., e Crepaldi, M. A. (2009). Desafios para a ação interdisciplinar na atenção básica: Implicações relativas à composição das equipes de saúde da família. Ciência & Saúde Coletiva, 14(Suppl. 1), 1463-1472. doi: dx.doi. org/10.1590/S1413-81232009000800019 Machado, M., Monteiro, E., Queiroz, D., Vieira, N., e Barroso, M. (2012). Integralidade, formação de saúde, educação em saúde e as propostas do SUS - uma revisão conceitual. Revista Brasileira de Educação Médica, 36(1), 136-140. Disponível em http://www.scielosp. org/pdf/csc/v12n2/a09v12n2.pdf

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Morais, R., Jales, L., Silva, M., e Fernandes, S. (2012). A importância do PET-Saúde para a formação acadêmica do enfermeiro. Trabalho, Educação e Saúde, 10(3), 541-551. doi: dx.doi.org/10.1590/S198177462012000300011 Muniz, M., Tavares, C., Abrahão, A., e Souza, A. (2015). A assistência de enfermagem em tempos de reforma psiquiátrica. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (13), 61-65. Disponível em http://www. scielo.mec.pt/pdf/rpesm/n13/n13a08.pdf Rodrigues, A., Souza, S., e Pereira, H. (2012). Rede pet em Feira de Santana: O desafio da integralidade. Revista Baiana de Saúde Pública, 36(3), 651-667. Disponível em http://inseer.ibict.br/rbsp/index.php/rbsp/article/ view/545/0


Artigo de Investigação

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Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0140

ENSAIOS PARA UM ENSINO ESTÉTICO1 | Marcela Muniz2; Ana Abrahão3; Cláudia Tavares4; Flávio Alves5; Andrea Elias6; Luciana Higino7 |

RESUMO CONTEXTO: Os processos de ensino-aprendizagem trazem marcas disciplinares e capitalísticas que o cerceiam. Isso implica na necessidade de restabelecer-se um debate crítico comprometido com um regime estético que busque enfrentar a disciplinarização e docilização dos corpos presentes nas práticas de ensino na saúde, nas quais as nuances da diferença continuam sendo vistas sob o ponto de vista de algo a ser corrigido e governado. OBJETIVO(S): O presente estudo teve como objetivo realizar uma reflexão teórico-crítica a respeito dos espaços de formação que se têm configurado no âmbito do ensino em saúde. METODOLOGIA: Utilizou-se como método a reflexão com base no referencial teórico-metodológico ético-estético. RESULTADOS: Apesar da “tradição do novo” evocada pelos discursos atuais, vimos sustentando um modelo de ensino pragmático em saúde que ainda isola corpo sensível do estudante do corpo pensamento do estudante, bem como o corpo pensamento do professor do seu corpo sensível. É necessária a busca de pluralidade de afecções nas relações de ensino para que se promova a realização sensível de uma humanidade na formação em saúde. CONCLUSÕES: Neste sentido, conclui-se que é necessário o investimento em dispositivos para a produção de um ensino em saúde comprometido com modos de vida livres, em seu sentido ético-estético. PALAVRAS-CHAVE: Ensino; Instituições acadêmicas; Materiais de ensino

RESUMEN

ABSTRACT

“Ensayos para una enseñanza estética”

“Aesthetic teaching trials”

CONTEXTO: Los procesos de enseñanza-aprendizaje traen marcas disciplinarias y capitalistas capaces de limitar su alcance. Esto implica la necesidad de reestablecer un debate crítico comprometido con un régimen estético que busque afrontar la disciplinarización y docilización de los cuerpos presentes en las prácticas de enseñanza en salud, dónde los matices de diferencia siguen siendo percibidos como un detalle que debe ser corregido y gobernado. OBJETIVO(S): El presente estudio tuvo como objetivo realizar una reflexión teórico-crítica acerca de los espacios de formación que han sido configurados en el ámbito de la enseñanza en salud. METODOLOGÍA: Se utilizó como método la reflexión basada en el referencial teórico-crítico y ético-estético. RESULTADOS: A pesar de la “tradición del nuevo” esgrimida por los discursos actuales, observamos el sostenimiento de un modelo de enseñanza en salud pragmático que aún aísla el cuerpo sensible del estudiante del cuerpo pensamiento del estudiante, así como el cuerpo pensamiento del enseñante de su cuerpo sensible. Se hace necesaria la búsqueda de la pluralidad de las afecciones en las relaciones de enseñanza para fomentar la realización sensible de una humanidad en la formación en salud. CONCLUSIONES: En este sentido, se concluye que se hace necesaria la inversión en dispositivos para la producción de una enseñanza en salud comprometida con estilos de vida libres, en su sentido ético y estético.

BACKGROUND: The teaching-learning processes bear disciplinary and capitalistic marks that surround them. This entails the need to re-establish a critical debate committed to an aesthetic regime that seeks to deal with the disciplinarization and docilization of the bodies that feature health teaching practices, since the nuances of diversity are still viewed from the standpoint of something to be amended and governed. AIM: This study was intended to accomplish a theoretical-critical reflection about the training fields that are being shaped in the scope of the health teaching. METHODS: The reflection based on the ethical-esthetic and theoretical-critical framework was used as a method. RESULTS: Despite the “tradition of the new” evoked by the current speeches, we have perceived the sustainment of a pragmatic health teaching model that still insulates the sensitive body of the student from his/her thinking body, as well as the thinking body of the teacher from his/her sensitive body. There is a need to seek plurality of affections in the teaching-related relationships in order to promote the sensitive achievement of humanity in the health training. CONCLUSIONS: We have thus concluded that the investment in devices is necessary to produce a type of health teaching committed to free lifestyles, with regard to their ethical-esthetic meaning.

DESCRIPTORES: Enseñanza; Instituciones académicas; Materiales de enseñanza

KEYWORDS: Teaching; Academic institutions; Teaching materials Submetido em 22-02-2016 Aceite em 30-05-2016

1 Este estudo é um recorte da experiência do método de pesquisa ético-estético, utilizado no desenvolvimento do projeto de Doutorado “Um encontro da enfermagem com a saúde mental” (Marcela Pimenta Muniz) apresentado durante o I Encontro Internacional de Inovação no Ensino na Saúde e Enfermagem na modalidade “roda de conversa”. 2 Doutoranda do Programa de Ciências do Cuidado em Saúde na Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa; Enfermeira; Professora Assistente na Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Niterói, Brasil, marcelapimentamuniz@gmail.com 3 Doutora em Saúde Coletiva; Enfermeira; Professora Titular na Universidade Federal Fluminense; Diretora da Universidade Federal Fluminense, abrahaoana@gmail.com 4 Pós-Doutora em Enfermagem; Enfermeira; Professora Titular na Universidade Federal Fluminense, Niterói, Brasil, claudiamarauff@gmail.com 5 Mestrando em Ensino na Saúde na Universidade Federal Fluminense; Professor na Escola Municipal Ariosto Espinheira do Rio de Janeiro, flavioalves2001@yahoo.com.br 6 Doutoranda do Programa de Ciências do Cuidado em Saúde da Univ. Federal Fluminense; Enfermeira na Univ. Federal do Rio de Janeiro, andreadamiana@gmail.com 7 Mestranda em Ensino na Saúde na Universidade Federal Fluminense, Enfermeira na Universidade do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro - RJ, Brasil, luciana.alleluia@gmail.com Citação: Muniz, M., Silva, A., Tavares, C., Alves, F., Elias, D., & Higino, L. (2016). Ensaios para um ensino estético em saúde. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe. 4), 45-48. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 45


INTRODUÇÃO

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O presente estudo aborda a temática do ensino, considerando-se a necessidade de restabelecer-se as condições de inteligibilidade para um debate crítico comprometido com um certo regime estético (Guattari e Rolnik, 1999) que busque enfrentar as marcas disciplinares e capitalísticas que cerceiam os processos de ensino-aprendizagem. A disciplinarização e docilização dos corpos (Foucault, 2000) ainda está presente nas práticas de ensino na saúde, nas quais as nuances da diferença continuam sendo vistas sob o ponto de vista de algo a ser corrigido e governado. A “tecnologia” disciplinar do corpo constrói um sujeito com utilidade capitalista e docilidade e, não apenas, repressão e dominação. Isso se dá de modo discreto e sutil, para que não seja percebido, tornando a disciplina mais eficaz do que os métodos violentos. Destaca-se que a disciplina é “uma técnica de distribuição dos indivíduos através da inserção dos corpos em um espaço individualizado, classificatório, combinatório” (Foucault, 2000, p. 153). Trata-se de um mecanismo que propiciará uma transformação do sujeito, tirando da “força do corpo” sua “força política” e tornando máxima sua “força útil”. Desta forma, justifica-se a escolha do objeto de estudo pela necessidade de restabelecer-se as condições de inteligibilidade para um debate crítico comprometido com um ensino ético, que privilegie o sensível específico (Rancière, 2014) dos envolvidos em detrimento da totalização e docilização do sujeito. O objetivo do estudo foi realizar uma reflexão teóricocrítica a respeito dos espaços de formação que se têm configurado no âmbito do ensino em saúde.

As formações sociais contemporâneas, principalmente ocidentais, operam por modos de poder, que rebaixam a vida, que separam a vida do que ela pode produzir. As práticas de ensino, por sua vez, também têm sido governadas por esta lógica. O maior grau de autonomia que se consegue investir junto aos envolvidos é ensinar a obedecer, a seguir modos de viver que o atual regime capitalista considera serem os melhores. Apesar da “tradição do novo” evocada pelos discursos atuais, vimos sustentando um modelo de ensino pragmático que ainda isola corpo sensível do estudante do corpo pensamento do estudante, bem como o corpo pensamento do professor do seu corpo sensível. Os espaços de ensino estão, sobretudo, a serviço da disciplinarização e docilização dos estudantes e professores. Foucault (2000a) descreveu vários processos de disciplinarização dos corpos em diferentes instituições, como colégios, fábricas, oficinas, conventos e quartéis, demonstrando que a principal característica de tais instituições é a disciplina corporal. A operação moralizadora da disciplina institucional não atingiu só os corpos, mas também os próprios conhecimentos a serem ensinados. Atualmente os sistemas de ensino propõem matérias e métodos de ensino a partir de um padrão que tem como critério algo que está fora dos próprios estudantes (ou até mesmo do professor), algo que não passa por eles. Estas práticas só suportam a vida em estado rebaixado e, nunca, intensivo. O que é intensivo no corpo e no pensamento não é tolerado, mesmo quando atualmente se diz “viva as diferenças” (que seria um modo farsante de resolver esse problema). Então o que podem o estudante e o professor? Como eles podem-se reinventar no ensino a cada encontro? Inventa-se pelo que lhe afeta (e não quando se é indiferente), pelas conexões que estabelece ou as relações que se constroem. Surge, nesta matiz, a possibilidade de linhas de fuga através de iniciativas que apostem em modos de vida implicados com uma ética em que as experiências no ensino estejam comprometidas consigo, a partir de experimentações de um ensino estético (Rancière, 2014). O objetivo dessas experimentações deve ser o de “formar homens capazes de viver numa comunidade política livre” (Rancière, 2014, p.39), através da realização sensível de uma comunidade comum. Na busca para a superação do paradigma disciplinar, acreditamos na necessidade da nossa própria reinvenção.

METODOLOGIA Utilizou-se a reflexão com base no referencial teórico ético-estético. Considera-se que o regime estético está desobrigado de regras específicas ou de uma hierarquia de temas e gêneros (Rancière, 2014). A noção Estética não é o rigor do domínio de um campo já dado (campo de saber), mas sim o da criação de um campo, que encarna as marcas no corpo do pensamento, como numa obra de arte. E o que se define como ético é a escuta às diferenças que se fazem nos envolvidos e se afirma o devir a partir dessas diferenças (Guattari e Rolnik, 1999).

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A lógica disciplinar é uma “fábrica” de indivíduos, ela é a técnica específica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exercício. Não é um poder triunfante que, a partir de seu próprio excesso, pode fiar-se em seu superpoderio, é um poder modesto, desconfiado, que funciona a modo de uma economia calculada, mas permanente. São humildes modalidades, procedimentos menores, se os compararmos aos rituais majestosos da soberania ou aos grandes aparelhos do Estado (Foucault, 2000a). Neste sentido, aponta-se a passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de controle, que busca a produção do novo sujeito moral, o sujeito flexível, tolerante e supostamente autônomo, visando fomentar a atitude autoempreendedora capaz de produzir o “capital humano” exigido pelos tempos que correm (Foucault, 2000b). Escolas e universidades atuam diretamente sobre este funcionamento, tornando-se preciso o constante debate desta temática, objetivando o enfrentamento dos mecanismos de disciplinarização e controle. A instituição “ensino” aponta a necessidade premente de inventarmos máquinas potentes para a produção de formas autônomas da vida, que caminhem na superação da atual lógica de dominação-servitude (Foucault, 2000a). Isto é ainda mais relevante quando se trata do ensino em saúde, pois requer a formação de um profissional capaz de não se tornar indiferente ao sofrimento e as demandas do outro. É necessária a busca de pluralidade, de afecções nas relações de ensino para que se promova uma elevação das potências de agir. “Por afeto entendo as afecções do corpo, pelas quais a potência de agir desse corpo é aumentada ou diminuída, favorecida ou entravada, assim como as ideias dessas afecções” (Espinosa, 1997, p.276). A partir de um conhecimento dos afetos, com exploração daqueles que aumentam a potência de agir (encontros alegres), surge a possibilidade de professores e estudantes dedicarem-se à realização sensível de uma humanidade ainda latente do homem (Rancière , 2014, p.39). Se a subjetivação contemporânea encontra-se implacavelmente ancorada em dispositivos capitalistas, isso não significa o seu aprisionamento absoluto. É sempre possível resistir ao presente, escapar das modelizações dominantes, apropriar-se diferentemente do que nos é oferecido cotidianamente pela televisão, pelo cinema, pelo patrão, pelo cônjuge, pela escola ou pelo outdoor (Soares e Miranda, 2009). Uma vez que “esse desenvolvimento da subjetividade capitalística traz imensas possibilidades de desvio e singularização” (Guattari, & Rolnik, 1999).

Em suma, é sempre possível atrever-se a singularizar (Guattari e Rolnik, 1999, Deleuze e Guattari, 2012), o campo da saúde fornece diversas possibilidades para isso e necessita que os profissionais tenham esta produção de singularização do cuidado em sua prática clínica e política. CONCLUSÃO O regime disciplinar hegemônico tenta reger a multiplicidade dos homens buscando redundá-los em corpos individuais a serem vigiados, treinados, utilizados e, inclusive, eventualmente punidos. Neste sentido, conclui-se que é necessário o investimento em dispositivos que produzam um ensino em saúde comprometido com modos de vida livres, em seu sentido ético-estético, a fim de que o profissional de saúde cuide com seu corpo pensamento e seu corpo sensível.Investir em processos de formação éticos e versáteis permite a qualificação das práticas de cuidado, sobretudo, para lidar com as dimensões humanas mais singulares de maneira sofisticada e para uma realização genuína do encontro com o outro. A limitação deste texto encontra-se na abordagem à conjuntura econômica das insituições de ensino, recomendando-se estudos posteriores que articulem o ensino estético com a própria teoria do capital humano, uma vez que isto interfere diretamente com a possibilidade ou com a dificuldade de criação de novas formas de ensino. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Considera-se que o ensino sensível, o conhecimento afetivo e a compreensão da importância da vida em comum são fundamentais para o enfrentamento da força disciplinar silenciadora, para alcance de maiores níveis de produção de liberdade no ensino e para a formação de profissionais que produzam um cuidado ético e cidadão.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Deleuze, G., e Guattari, F. (2012). Mil platôs: Capitalismo e esquizofrenia (2ª ed.). Rio de Janeiro: Editora 34. Espinosa, B. (1997). Ética: Demonstrada à maneira dos geômetras. Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural. Foucault, M. (2000a). Vigiar e punir. Nascimento da Prisão (23ª ed.). Rio de Janeiro: Vozes. Foucault, M. (2000b). Microfísica do poder (15ª ed.). Rio de Janeiro: Graal.

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Guattari, F., e Rolnik, S. (1999). Micropolítica: Cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes. Rancière, J. (2014). A partilha do sensível: Estética e política (3ª ed.). São Paulo: Editora 34. Soares, L. B., e Miranda, L. L. (2009). Produzir subjetividades: O que significa?. Revista Estudo e Pesquisa em Psicologia, 9(2), 408-424.


Artigo de Investigação

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0141

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APOIO EMOCIONAL REALIZADO POR ENFERMEIRO AO PACIENTE OSTOMIZADO | Marilei Tavares e Souza1; Adriana Moraes2; Carlos Balbino3; Zenith Silvino 4; Cláudia Tavares5; Joanir Passos6 |

RESUMO CONTEXTO: A existência de ostomia altera a imagem corporal do paciente, despertando vergonha e medo da rejeição social. O indivíduo passa a viver uma nova realidade, passando a mobililizar sentimentos e emoções negativas, interferindo em sua saúde mental. OBJETIVO: O estudo objetiva identificar reações causadas pela ostomia, medidas adotadas a partir do desconforto percebido pelo paciente ostomizado e a importância do apoio emocional proporcionado pela enfermagem. METODOLOGIA: Pesquisa de abordagem qualitativa, realizada com 33 pacientes ostomizados, atendidos em uma Associação na cidade de Mendes - RJ. Os dados obtidos por meio de preenchimento de formulário foram submetidos à análise de conteúdo. Com aprovação do CEP, atendendo aos requisitos da Resolução 466/12 do CNS/MS. RESULTADOS: As principias alterações constatadas na vida dos pacientes ostomizados estão relacionadas à vida social, imagem corporal, perda do controle sobre o corpo e sobre as emoções. Dentre as principais reações e sentimentos causados pela ostomia, destacam-se: vergonha, constrangimento, medo diante da nova situação, mal estar com odor, limitação e discriminação. CONCLUSÕES: Ações de enfermagem necessitam ser sistematizadas para melhor atender as necessidades do paciente ostomizado. Para que ocorra amenização dos incômodos identificados, ressalta-se a importância de sistematização das intervenções de enfermagem e a adoção de medidas de apoio emocional por parte dos enfermeiros. PALAVRAS-CHAVE: Enfermagem; Ostomia; Emoções em saúde

RESUMEN

ABSTRACT

“Apoyo emocional realizado por la enfermera delestomía a paciente”

“Emotional support provided by the nurse to the ostomized patient”

CONTEXTO: La existencia de estomía altera la imagen corporal del paciente, despertando la vergüenza y el miedo al rechazo social. El individuo comienza a vivir una nueva realidad comenzó a influir en los sentimientos y las emociones negativas, lo que afecta su salud mental. OBJETIVO: El estudio tiene como objetivo identificar las reacciones causadas por la estomía, medidas tomadas desde el malestar percibido por el paciente de estomía y la importancia del apoyo emocional proporcionado por el personal de enfermería. METODOLOGÍA: La investigación cualitativa realizada con 33 pacientes con estomía, se reunieron en una asociación en la ciudad de Mendes - RJ. Los datos obtenidos a través de la forma de llenado se sometieron a análisis de contenido. Aprobado por el CEP, el cumplimiento de los requisitos de la CNS / MS Resolución 466/12. RESULTADOS: Los principales cambios observados en las vidas de los pacientes con estomía están relacionados con la vida social, la imagen corporal, la pérdida de control sobre el cuerpo y las emociones. Las principales reacciones y sentimientos causados por la estomía en especial: la vergüenza, la vergüenza, el miedo ante la nueva situación, malestar con olor, limitación o discriminación. CONCLUSIONES: Acciones de enfermería deben ser sistematizados para satisfacer mejor las necesidades del paciente con estomía. Para disminuir la problemática identificada, se hace hincapié en la importancia de la sistematización de las intervenciones de enfermería y la adopción de medidas de apoyo emocional por las enfermeras.

BACKGROUND: The presence of ostomy alters the patient’s body image arousing shame and fear of social rejection. The individual begins to live a new reality through negative feelings and emotions, which could affect their mental health. AIM: The study aims to identify reactions caused by ostomy, measures taken based on the discomfort perceived by the ostomized patient, and the importance of emotional support provided by the nursing staff. METHODS: This was a qualitative research conducted with 33 ostomized patients treated at an Association in the city of Mendes - RJ. The data obtained through forms were subjected to content analysis. The study was approved by the CEP in compliance with requirements of the CNS/MS 466/12 Resolution. RESULTS: The major alterations observed in the life of ostomized patients are related to social life, body image, and loss of control over body and emotions. The main reactions and feelings caused by ostomy are: shame, embarrassment, fear in the face of a new situation, malaise with odor, and limitation or discrimination. CONCLUSIONS: Nursing actions need to be systematized to better meet the needsofostomized patients. The importance of systematization in nursing interventions and adoption of emotional support measures is emphasized to ameliorate identified discomforts.

DESCRIPTORES: Enfermería; Estomía; Emociones salud

KEYWORDS: Nursing; Ostomy; Emotions in health Submetido em 22-02-2016 Aceite em 30-05-2016

1 Mestre; Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem e Biociências da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro; Professora do Curso de Enfermagem na Universidade Severino Sombra,Rua Xavier Sigaud, Rio de Janeiro, Brasil, marileimts@hotmail.com 2 Enfermeira no Hospital Nelson Salles, 26650-000 Rio de Janeiro, Brasil, adriana@frontincom.br 3 Mestre em Enfermagem Assistencial pela Universidade Federal Fluminense; Professor na Universidade Severino Sombra, Brasil, carlosmbalbino@hotmail.com 4 Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio de Janeiro;Titular na Universidade Federal Fluminense, Niterói - RJ, Brasil, zenithrosa@terra.com.br 5 Pós-Doutora pela Universidade de São Paulo; Doutora em Enfermagem; Professora Titular na Universidade Federal Fluminense, Brasil, claudiamarauff@gmail.com 6 Doutora em Enfermagem pela Universidade de São Paulo; Professor Associado na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Brasil, joppassos@hotmail.com Citação: Souza, M., Moraes, A., Balbino, C., Silvino, Z., Tavares, C., & Passos, J. (2016). Apoio emocional realizado por enfermeiro ao paciente ostomizado. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe. 4), 49-56. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 49


INTRODUÇÃO Portadores de estoma possuem características comuns que os unem em um grupo especial, com necessidades e reações próprias implícitas à sua identidade e subjetividade. Assim, a resposta à problemática causada pela abertura do estoma guarda relação com as condições pessoais de cada um, bem como com as variações externas, como qualidade do suporte familiar, financeiro e assistencial recebidos em todas as fases do tratamento cirúrgico gerador de estoma. A palavra estoma tem origem grega e exprime a ideia de boca ou abertura do segmento cólico na parede abdominal, visando o desvio do conteúdo fecal para o meio externo (Violin, 2008). Os estomas podem ser implantados em diversas áreas do corpo que necessitam de um tratamento, e auxílio no melhor funcionamento orgânico. A presença de ostomia altera a imagem corporal do paciente, podendo despertar sentimentos de vergonha e medo da rejeição social (Barbutti, Silva e Abreu, 2008). O indivíduo que possui estoma passa a viver uma nova realidade, o que mobiliza sentimentos e emoções negativas, interferindo em sua saúde mental(Marques e Lopes, 2015). Devemos considerar que é de suma importância o planejamento e implementação da assistência de enfermagem, que requer além dos cuidados físicos, ensinar ao paciente os cuidados de higiene e troca de bolsas de ostomia, incluindo planejamento da assistência ao período operatório com visitas e o pré-operatório, demarcação de estoma, preparo físico propriamente dito, integração das intervenções com a equipe do bloco cirúrgico. Requer ainda a retomada do ensino préoperatório para o autocuidado, envolvendo paciente/ família, visando à reabilitação e encaminhamento ao Programa de Ostomizados, que é mantido pelo serviço público, para aquisição dos dispositivos e seguimento ambulatorial (Barbutti, Silva e Abreu, 2008). Articulando-se com os preceitos do Sistema Único de Saúde (SUS) no que se refere à divulgação do conceito de saúde como qualidade de vida e direito do cidadão, humanização do atendimento e desenvolvimento de atividades de promoção da saúde. Mas para que ocorra implementação do cuidado com ações humanizadoras, torna-se indispensável valorizar a dimensão subjetiva e social em todas as práticas de atenção (Souza, Passos e Tavares, 2015).

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A complexidade da assistência de enfermagem a ser prestada nos remete à necessidade de compreender as modificações que ocorrem em sua vida, como estimular a autonomia, acolher os sofrimentos, resolver os problemas, estabelecer vínculos (Neves, Souza, Tavares e Vasconcelos, 2014). Muitas vezes, ao tentar conhecer os mecanismos produtores de doenças, os profissionais de saúde distanciam-se das relações com os seres humanos. O desenvolvimento de tecnologias de relacionamento pode ser um meio de restabelecer diálogos, acolher os sofrimentos, resolver os problemas, estabelecer vínculos e responsabilidades e estimular a autonomia dos usuários (Souza, Passos e Tavares, 2015). O estudo tem por objetivo identificar reações causadas pela ostomia, medidas adotadas a partir do desconforto percebido pelo paciente ostomizado e a importância do apoio emocional proporcionado pela enfermagem. METODOLOGIA Trata-se de investigação do tipo exploratória de natureza qualitativa, cuja ênfase são as relações, representações, crenças, histórias, percepções e opiniões, produtos das interpretações que os humanos fazem a respeito de como vivem, constroem seus artefatos e a si mesmos, sentem e pensam (Minayo, 2010). A pesquisa foi realizada na Associação dos Ostomizados localizada no Centro-Sul Fluminense, na cidade de Mendes, Rio de Janeiro. Elegeu-se como técnica de investigação, um formulário contendo: dados sócios demográficos, seguido das questões: quais incômodos têm por ser ostomizado? Que medida(s) adota(m) para melhoria dos incômodos relatados? A coleta dos dados ocorreu entre março e abril de 2014. Foram participantes do estudo 33 pacientes ostomizados que fazem parte do Núcleo dos Ostomizados de Mendes.Foram selecionados para participar do estudoaqueles que atenderam aos critérios de inclusão da pesquisa: mais de seis meses de uso da bolsa de colostomia, tempo ideal para adaptação e participar do núcleo dos ostomizados do serviço referido. Critérios de exclusão: clientes com idade igual ou inferior a 18 anos de idade. A análise dos dadosdeu-se a partir da Técnica de Análise de Conteúdo Categorial (Bardin, 2011). Na pré-análise selecionou-se o material, e, em seguida, realizou-se a leitura flutuante do mesmo, deixando-se impregnar pelo conteúdo, observou-se a dinâmica existente entre a questão norteadora inicial e as questões emergentes, complementando-as com a leitura de textos teóricos relacionados ao tema.


Foi garantido o anonimato de cada participante do estudo, utilizou-se a letra “P” (participantes) seguida dos números 1 ao 33, atendendo às exigências da Resolução Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde, que dispõe sobre as normas e diretrizes regulamentadoras de pesquisas envolvendo os seres humanos (Ministério da Saúde do Brasil, 2012). O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Faculdade Sul Fluminense (FASF) de Volta Redonda, Rio de Janeiro, sob o número 01/2014. RESULTADOS Caracterização da Amostra Através dos resultados apresentados no Quadro 1 podemos verificar que em relação ao gênero 57.57% da amostra, o sexo feminino predomina. Quadro 1 - Caracterização Quanto ao Gênero dos Participantes Gênero

Frequência

f (%)

Feminino

19

57,57

Masculino

14

42,42

TOTAL

33

100%

A faixa etária da população estudada é apresentada no Quadro 2, no qual podemos observar que há predomínio de adultos e idosos, prevalecendo ida¬de superior aos 40 anos, seguida de aumento da incidência com o avanço da idade. Portanto, o envelhe-cimento apresenta-se como um fator de risco para o desenvolvimento da neoplasia e, conse¬quentemente, a possibilidade de realização do estoma, evidenciada através do predomínio da faixa etária de idosos, representando 66,66% da amostra. Quadro 2 - Distribuição da Idade dos Participantes por Faixa Etária Idade (em anos)

Frequência

f (%)

21 |----------- 31

2

06,06

31 |----------- 41

2

06,06

41 |----------- 51

7

21.21

51 |----------- 61

8

24,24

61 |----------- 71

8

24,24

71 |----------- 81

5

15,15

81 |----------- 91

1

03,03

TOTAL

33

100%

Os dados apresentados no Quadro 3 permitem visualizar o tipo de ostomias utilizadas pelos participantes do estudo, apontando maior frequência para colostomias, com 63,64 (n=21), seguido de ileostomias, com 30,30% (n=10).

Quadro 3 - Classificação dos Pacientes quanto ao Tipo de Ostomia Tipo de ostomia

Frequência

Percentual

Colostomia

21

63,64%

Ileostomia

10

30,30%

Urostomia

02

6,06%

Total

33

100.0%

Principais Fatores que Causam Sofrimento na Vida dos Ostomizados Reações e sentimentos dos ostomizados. As principias alterações constatadas na vida dos pacientes ostomizados estão relacionadas à vida social, imagem corporal, perda do controle sobre o corpo e sobre as emoções. E dentre as principais reações e sentimentos causados pela ostomia, destacam-se: vergonha, constrangimento, medo diante da nova situação, mal-estar com odor, limitação e discriminação. Como pode ser destacada nas transcrições a seguir: Como posso ir para casa, sem saber aonde vou conseguir a bolsa para sobreviver após a cirurgia? Será que um dia vou voltar a fazer o que fazia antes? Ter uma vida normal, contato com o público, vida social, família, amigos é difícil sem um bom equipamento. [P9] Por não ter uma bolsa adequada à pele fica machucada, assada, dura e ferida. A bolsa descola e as fezes caem, passamos constrangimentos na rua e em casa. Assim, não podemos sair de casa por não ter segurança. A vida sexual também fica difícil por causa da bolsa.[P10] [...] usava pano e ficava dentro de casa com vergonha de falar com o vizinho por causa do cheiro ruim[...]. [P16] Ser discriminado, falta de informação e bolsas de qualidade. Estar seguro para continuar a minha vida como antes. [P17] Vários incômodos, como por exemplo viajar, participar de festas, dificuldade de lidar com a ostomia. [P26] Desconforto causado pela ostomia. Para pacientes portadores de ostomia, o desconforto ou incômodo, na maioria das vezes, está relacionado à falta de orientação sobre como usar a bolsa e sobre o autocuidado, além da falta de apoio emocional. Sendo este um dos fatores que contribuem para a boa adaptação ou não do ostomizado. O suporte emocional deve ser dado pela família, amigos e, sobretudo pelo enfermeiro, como se verifica nos depoimentos a seguir: Sair do hospital sem saber como irá fazer para conseguir as bolsas coletoras, então, passa na sua cabeça: como vou viver com a ostomia sem bolsa adequada para levar uma vida melhor e digna na sociedade e na família? [P2] Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 51


Vou a associação para obter as bolsas, lá eles ensinam como usar a bolsa para sair de casa, passear e ter contato com a sociedade. [P3] Encaminham as pessoas para receber bolsas coletoras, para a vida ser normal e também orientam a família. [P25] Ainda não encontrei nenhuma medida para amenizar o meu incômodo. [P26] Tratar ostomizado com carinho. [P32] Apoio emocional prestado pela enfermagem. Para que a transmissão de afetividade se dê de forma concreta é necessário que o enfermeiro trabalhe junto ao paciente, aspectos práticos como o conhecimento sobre ostomia e a maneira como o paciente imagina a vida com a bolsa coletora.Esse suporte permitirá que o paciente expresse seus sentimentos e o enfermeiro tenha subsídios para possíveis intervenções, como pode ser percebido na transcrição a seguir: Sair do centro cirúrgico sem saber o que fazer, por estar com um saco no abdome, e não saber o que fazer quando sair do hospital. [P9] Desta forma, para que o paciente se sinta mais seguro, e possa falar sobre seus sentimentos e primeiras impressões acerca da ostomia, o apoio emocional prestado pela enfermagem deve ocorrer desde a primeira consulta. Orientação, após a cirurgia, o paciente ostomizado, tem que sair do hospital com orientação, que tem que participar da associação, para ser reabilitado e saber que pode levar uma vida normal. [P2] Como a enfermagem é a responsável pelas primeiras orientações sobre ostomia, deve reservar tempo para o suporte emocional tanto do paciente como para a família, apontando aspectos positivos do tratamento. Entender que dar apoio emocional implica, sobretudo, mostrar aspectos que possam amenizar o tratamento. [...] pensar que pessoas estão passando pelo que eu passei. Sai do hospital e não tive um apoio, num tive aonde conseguir bolsas, passei vergonha, usei bolsa de mercado na barriga.[P1] Como podemos perceber nas transcrições dos depoimentos dos participantes, o apoio emocional prestado pela enfermagem poderá se manifestar em atitudes como respeito, atenção, informação, segurança, afeto, incentivo, deixar claro para o paciente que está disponível para auxiliá-lo. Sair do hospital sem saber como vou conseguir bolsas é desumano. Sair do hospital sem informações é falta de amor aos outros. [P24] Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 52

O depoimento a seguir destaca a necessidade de formação específica do profissional de saúde para atender às necessidades de cuidados dos pacientes ostomizados. O próprio paciente fala das deficiências da formação profissional nesse sentido, destacando a importância do preparo dos profissionais durante seu processo de formação. Tem enfermeiro e também outros profissionais que desconhecem o caso e que nunca viram um estoma durante sua formação. Já passei por várias situações. Médicos, enfermeiros e outras autoridades teriam que se voltar mais para esse assunto, os ostomizados merecem mais atenção. [P9] DISCUSSÃO A partir da análise conjunta dos resultados referentes a caracterização da amostra, verifica-se que o resultado está em consonância com a estimativa da incidência de câncer no Brasil (Instituto Nacional de Câncer, [INCA], 2012). Cabe ressaltar que a incidência de câncer no mundo cresceu 20% na última década. O impacto do câncer na população corresponderá a 80% entre os países em desenvolvimento, dos mais de 20 milhões de casos novos estimados para 2025. No Brasil, estima-se 576 mil casos novos para o 2016 (INCA, 2015). A idade superior a 60 anos é descrita na literatura como um dos principais marcadores para a identificação de grupos de risco. A relevância deste fato acentua-se na constatação das projeções da Organização Mundial da Saúde (OMS) para 2025, que aponta o Brasil entre os 10 países do mundo com maior número de idosos. Mudança que tem relação com uma importante transição epidemiológica, representando significativo crescimento da demanda de serviços de saúde, acarretando tratamento de longa duração, recuperação mais lenta e intervenções com custos elevados. Ou seja, requer um sistema amplo, coordenado e contínuo de ações (Perez, 2008). Importante ressaltar que a transição demográfica, que se caracteriza pelo envelhecimento populacional, é um processo que ocorre mundialmente, seguido de mudança epidemiológica apontada pela prevalência de doenças crônicas degenerativas, entre elas o câncer. Mais de 60% dos casos encontram-se na população idosa (Vieira e Marcon, 2008). Hoje, o envelhecimento populacional é considerado um dos maiores desafios da saúde pública contemporânea.


Um fenômeno que ocorreu inicialmente nos países desenvolvidos, mas vem acontecendo de forma mais intensa nos países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil (Ramos, 2009). Neste sentido, cabe destacar a importân¬cia do papel do enfermeiro, que deve favorecer o autocuidado e segurança do paciente como fator prepon¬derante em sua recuperação, bem como intensificar o trabalho junto à população adulta para a melhoria da qualidade de vida e diminuição dos agravos a sua saúde. Quanto a classificação e tipo de ostomia, o resultado está em consonância com estudos já realizados, onde a ocorrência do evento está relacionada à causa que levou o sujeito a estomia, que na maioria das vezes se dá pela presença de câncer de intestino, seguido de obstrução intestinal (Santos, Bezerra, Bezerra e Paraguassú, 2007). Os tipos de ostomia podem variar, mas em todos os casos requer atenção e orientação adequada para evitar agravos e complicações referentes ao manuseio inadequado de sua ostomia. A participação do enfermeiro neste processo é fundamental para orientar e contribuir com o atendimento adequado, promovendo aos usuários um cuidado livre de riscos e orientado à promoção da sua saúde. Neste sentido, o enfermeiro exerce uma função de mediação, devendo auxiliar o ostomizado ou candidato a ostomia, a resolver seus problemas, incluindo apoio emocional no processo de adaptação e autonomia (Balbino, 2010). Como o portador de ostomia inicia sua trajetória na internação hospitalar, com continuidade no retorno ao meio em que vive, é importante prestar a devida orientação quanto a sua nova condição, que inclui modificações físicas, biopsíquicas, sociais, econômicas e culturais. Assim, no retorno a sua rotina é travada uma luta constante, onde o enfermeiro deve oferecer todo o suporte tanto ao paciente quanto ao seu familiar, para que haja qualidade de vida para o paciente com ostomia. Torna-se primordial um tempo interno para viver a dor da perda, reavaliar conceitos e buscar recursos de enfrentamento para se adaptar à nova vida (Barbutti, Silva e Abreu, 2008). O desenvolvimento de intervenções efetivas direcionadas para a assistência integral durante o tratamento é considerado um desafio para a enfermagem. Requer estratégias relacionadas na reavaliação positiva, apoio emocional e suporte social, formas ativas e positivas que resultem na adaptação ao processo de enfrentamento do problema (Nunes e Souza, 2015).

No que diz respeito as reações e sentimentos, verificase a partir das transcrições dos depoimentos dos participantes do estudo que é preciso investir no trabalha emocional junto ao paciente ostomizado para que haja a reconstrução de sua autoimagem, sendo necessário apoia-lo a viver e elaborar o luto do corpo da antiga imagem corporal. A alteração da imagem corporal pode refletir negativamente na autoestima, no autoconceito, na sexualidade e, consequentemente, na identidade pessoal (Barbutti, Silva e Abreu, 2008). É comum o acometimento de isolamento social, alteração da vida sexual e da vida laboral impostos pelo próprio paciente, em razão dos sentimentos de inutilidade, incapacidade, desprestígio e vergonha por se sentir diferente (Nascimento, Trindade, Luz e Santiago, 2011). O portador de estomia, muitas vezes, incorpora um estigma social, pois se sente desigual diante das outras pessoas, apresentando a preocupação de esconder a estomia até mesmo de seus familiares. Conviver com a estomia pode acarretar dificuldades no desenvolvimento de atividades de lazer e de convívio social (Caetano et al., 2014). Quanto ao resultado relacionado ao deconforto causado pela ostomia, nos leva a refletir sobre a realidade vivida pelo portador de ostomia e o quanto é importante uma prática adequada.Pelo fato de o enfermeiro ter papel primordial junto ao paciente ostomizado, geralmente é ele quem dá as primeiras orientações sobre a ostomia, ou seja, sana as dúvidas, trabalha junto ao paciente nos cuidados básicos, incentiva a pessoa a olhar para si, pois alguns pacientes adiam esse momento e encontram dificuldade para isso. A prática adequada da enfermagem é essencial e faz parte do processo de incorporação e integração psicológicas da ostomia. Assim, o apoio emocional incorporado à prática do enfermeiro favorece a interação e mediação com o paciente, tornando-o capaz de reconhecer ações que trazem segurança e tranquilidade emocionais, o que indica que os próprios pacientes podem encontrar em si mesmos, meios para educarem suas emoções (Fonseca e Tavares, 2015). Apoio emocional constitui ação profissional com intuito de oferecer ao paciente amparo, segurança, suporte, orientações e proteção. De acordo com Sluzki (1997), refere-se a intercâmbios que conotam uma atitude emocional positiva, clima de compreensão, simpatia, empatia e estímulo; é o poder contar com a ressonância e a boa vontade do outro.

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Dar apoio emocional significa conversar, mostrar afetividade, o que pode resultar em ações que envolvam contato físico e aspectos subjetivos, com escuta sensível, o que permite ao profissional agir de modo mais espontâneo. Para que o apoio emocional seja eficaz, torna-se indispensável conhecimento sobre o assunto, envolvimento com o paciente e escuta sensível. Além de habilidades técnicas, o enfermeiro deve ter habilidade interpessoal, competência emocional e, sobretudo sensibilidade para perceber as diferentes necessidades que podem demandar desse momento tão difícil na vida do paciente e sua família. Para isso, é fundamental que o enfermeiro leve em consideração o tempo que é necessário para reflexão e adaptação do paciente à nova realidade, ou seja, tempo para compreender e se tornar ostomizado. Neste sentido, o enfermeiro deve mostrar-se à disposição, demonstrar para o paciente que não está sozinho e que pode conviver com a ostomia. Transmitir informações adequadas é, portanto, uma forma eficiente de oferecer apoio emocional ao portador de ostomia, bem como orientar onde adquirir as bolsas, o que fazer com os odores, com as alterações que ocorrerão com o corpo e sua vida pessoal. O enfermeiro pode apoiar-se em recursos didáticos, e apresentar além das bolsas, algum material informativo/educativo, auxiliando-o para trabalhar questões que facilitem sua adaptação a esta nova realidade.

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CONCLUSÃO Constatou-se que as ações de enfermagem necessitam ser sistematizadas para melhor atender as necessidades do paciente ostomizado. Para que ocorra amenização dos incômodos identificados, ressalta-se a importância de sistematização das intervenções de enfermagem e a adoção de medidas de apoio emocional por parte dos enfermeiros. O desconforto/incômodo contribui para agravar a situação do ostomizado. A falta de orientação foi apontada como o principal desconforto para o ostomizado, seguido do fornecimento de bolsas de má qualidade por conta dos programas de auxílio existentes, somados a vergonha e o constrangimento por serem ostomizados. O encaminhamento imediato dos recém-ostomizados, o uso de bolsas de boa qualidade e o fornecimento das devidas orientações sobre o assunto e autocuidado aos ostomizados e seus familiares, são medidas apontadas como fundamentais para amenizar o desconforto ocasionado. Em síntese, o paciente ostomizado requer apoio tanto de seus familiares quanto dos enfermeiros, no que se refere aos cuidados com a estomia como no apoio emocional.


IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA No que se refere ao apoio emocional prestado pela enfermagem ao paciente ostomizado, o estudo demonstrou a relevância em prestar orientações adequadas sobre a nova realidade a ser vivenciada, auxiliando no processo de compreensão e desenvolvimento da capacidade de trabalhar suas emoções. O enfermeiro deve possuir subsídios que favoreçam o cuidado efetivo dos pacientes ostomizados e seus familiares. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Balbino, C.M. (2010). A gerência do cuidado de enfermagem na implantação de um espaço de cuidar em saúde à comunidade escolar (Dissertação de Mestrado). Niterói, Rio de Janeiro: Universidade Federal Fluminense.

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Artigo de Investigação

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0142

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AVALIAÇÃO DA SAÚDE MENTAL POSITIVA DE DISCENTES DE ENFERMAGEM | Michelle Ferreira1; Elaine Cortez2; Jorge da Silva3; Maylu Júlio Ferreira4 |

RESUMO CONTEXTO: A importância da saúde mental é reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), na sua própria definição de saúde, como um estado de completo bem-estar físico, mental e social. OBJETIVO(S): O objetivo geral foi avaliar a saúde mental positiva dos discentes de enfermagem por meio do Questionário de Saúde Mental Positiva (QSM+) de Lluch (2003) traduzido e adaptado para o português (Carvalho & Sequeira, 2009) que visa avaliar a capacidade do aluno em termos de gestão das variáveis positivas que integram a saúde mental. METODOLOGIA: Trata-se de pesquisa quantitativa exploratória, que teve como sujeitos 269 acadêmicos de enfermagem. Foi traçado inicialmente o perfil dos sujeitos da pesquisa com finalidade de agrupar e conhecer a população. RESULTADOS: Com base nos objetivos foi evidenciado que os acadêmicos de enfermagem, em sua maioria, estão satisfeitos com sua vida pessoal, são bons ouvintes, tem dificuldade para lidar com o stress, pouco confiantes em si mesmos, menos da metade se diz disposta a ajudar o próximo, possuem facilidade para estabelecer relações interpessoais. CONCLUSÕES: Há necessidade de se investir em estratégias que viabilizem promover a saúde do acadêmico de enfermagem, durante sua formação, para que na vida profissional tenham melhor equilíbrio diante das situações impostas pelo ambiente de trabalho, bem como a necessidade de conscientização da importância do cuidado. PALAVRAS-CHAVE: Discentes; Saúde mental; Enfermagem

RESUMEN

ABSTRACT

“Evaluación de lasalud mental positiva de losestudiantes de enfermaria”

“The positive mental health evaluation of nursing students”

CONTEXTO: La importancia de la salud mental es reconocida por la Organización Mundial de la Salud(OMS), en su propia definición de la salud como un estado de bienestar físico, mental y social. OBJETIVO(S): El objetivo general fue evaluar la salud mental positiva de los estudiantes de enfermería a través del Cuestionario de Salud Mental Positiva (QSM+) de Lluch (2003) ha sido traducido y adaptado para el portugués (Carvalho y Sequeira, 2009) diseñado para evaluar la capacidad del alumno en cuanto a la gestión de las variables positivas que integran la salud mental. METODOLOGÍA: Se trata de una investigación exploratoria y cuantitativa que tuvo como el tema 269 estudiantes de enfermería. Se trazó inicialmente el perfil de los sujetos de investigación con el fin de agrupar y conocer a la gente. RESULTADOS: Sobre la base de los objetivos se evidenció que los estudiantes de enfermería, en su mayoría, están satisfechos con su vida personal, son buenos oyentes, tienen dificultades para hacer frente al estrés, la falta de confianza en sí mismos, menos de la mitad se dice dispuesto a ayudar a continuación, tienen facilidad para establecer relaciones interpersonales. CONCLUSIONES: Hay necesidad de invertir en estrategias que permitan promover la salud de los estudiantes de enfermería durante su formación, por lo que la vida profesional tiene un mejor equilibrio en la cara de situaciones impuestas por el ambiente de trabajo y la necesidad de tomar conciencia de la importancia de la atención.

DESCRIPTORES: Estudiantes; Salud mental; Enfermería

BACKGROUND: The importance of mental health is recognized by the World Health Organization (WHO) in its own definition of health as a state of complete physical, mental and social well-being. AIM:The overall objective was to evaluate the positive mental health of nursing students through the Positive Mental Health Questionnaire (QSM +) of Lluch (2003), already translated and adapted to Portuguese (Carvalho&Sequeira, 2009) that aims to assess the student’s ability in terms of management of positive variables that integrate mental health. METHODS: This is a quantitative exploratory research, which took as subjects 269 nursing students. It was initially traced the profile of the research subjects with a purpose of grouping and understand the population involved in the research. RESULTS: Based on the quantitative targets we showed that nursing students mostly are satisfied with their personal life, are good listeners, have trouble dealing with stress, lack of self confidence, unwilling to help others, and have facility to establish interpersonal relationships. CONCLUSIONS: Thus, we conclude that it’s necessary to invest in strategies to promote nursing student health during training allowing them to have better balance against situations imposed by the work, as well as the consciousness regarding the importance of care.

KEYWORDS: Leaners; Mental health; Quality health Submetido em 22-02-2016 Aceite em 30-05-2016

1 Fisioterapeuta; Enfermeira pela Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Niterói - RJ, Brasil, mi.ju@hotmail.com 2 Enfermeira; Pós-Doutora em Enfermagem/Saúde Mental; Professora naUniversidade Federal Fluminense,Departamento Materno-Infantil e Psiquiatria, 24020-091 Niterói RJ, Brasil, nanicortez@hotmail.com 3 Enfermeiro; Doutor em Enfermagem/Saúde Pública; Professor na Universidade Federal Fluminense,Departamento Materno-Infantil e Psiquiatria, jorgeluizlima@gmail.com 4 Bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica; Acadêmica de Enfermagem na Universidade Federal Fluminense, Brasil, maylus2@gmail.com Citação: Ferreira, M., Cortez, E., Silva, J., & Ferreira, M. (2016). Avaliação da saúde mental positiva de discentes de enfermagem. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe. 4), 57-62. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 57


INTRODUÇÃO A saúde mental está na agenda da saúde pública de todo o mundo. Sabe-se hoje que as perturbações mentais afetam todas as faixas etárias e são responsáveis por elevados custos sociais e econômicos (Comissão Nacional para a Reestruturação dos Serviços de Saúde Mental, 2007). Dessa forma, foi realizado uma revisão sobre o tema onde se evidenciou a necessidade deste estudo pela constatação de poucos estudos realizados. Na busca realizada na base de dados da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), utilizaram-se os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): “discentes, saúde mental e enfermagem”, aceitando-se apenas textos disponíveis na íntegra, nos idiomas português e inglês e estudos com menos de 10 anos de publicação, excluindo-se todos aqueles que não incluíam nesse perfil de busca, foram encontrados 39 trabalhos publicados, entre teses e artigos. Entre esses, apenas 5 tratavam sobre a saúde mental dos estudantes universitários, com destaque para o artigo intitulado Avaliação da saúde mental positiva em estudantes do ensino superior (Sequeira et al, 2009), o qual objetivou avaliar os níveis de saúde mental em estudantes do ensino superior e correlacionar a saúde mental com a morbilidade psiquiátrica referida pelos estudantes, através dos Questionário de Saúde mental positiva – QSM+ (Lluch, 2003) e Inventário de Saúde Mental - ISM (Ribeiro, 2001). Como conclusão verificou-se elevada correlação negativa entre ambos os instrumentos utilizados o que reforça a necessidade de intervenção em nível de promoção da saúde mental como estratégia de prevenção a morbilidade psiquiátrica. Também, dentre os estudos encontrados, destacam-se o de Castillo& Schwartz (2013) e o de Eisenberg, Gollust, Golberstein, & Hefner (2007), que afirmam que no Ensino Superior (ES) o número de jovens estudantes com perturbações mentais tem aumentado progressivamente, assim como a própria severidade dos problemas psicológicos evidenciados pelos estudantes que procuram ajuda nos serviços de aconselhamento disponibilizados nas Instituições de Ensino Superior (IES) (Hunt &Eisenberg, 2010). Nesse sentido, o contexto do ensino superior proporciona ao estudante uma série de desafios, tanto pessoais quanto profissionais a qual exige capacidades e habilidades talvez não utilizadas anteriormente. Sabe-se do impacto de determinadas situações de vida na condição de saúde das pessoas.

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Estudos têm demonstrado a influência, por exemplo, do contexto universitário, e as mudanças que o mesmo deflagra na vida do indivíduo e na saúde mental dos jovens (Giglio, 1976; Adewuya, 2006;). Além disso, o impacto de determinadas situações de vida - que podem ou não configurar uma crise - têm um reflexo importante na saúde, física ou psicológica dos indivíduos (Dias, Rubin, Dias e Gauer, 2007). De acordo com os dados obtidos pelo National Survey of Counseling Center Directors (Gallagher, 2013), está patente um aumento substancial de casos de alunos com problemas psicológicos severos (82%), situações de crise que requerem uma resposta imediata (80%), questões relacionadas com a medicação (73%), dificuldades de aprendizagem (61%), uso de drogas ilícitas (52%), automutilações (48%), agressões sexuais no campus (40%), abuso de álcool (34%), perturbações alimentares (34%) e preocupações com o futuro profissional (30%). Diante desta revisão, observa-se a necessidade de que mais estudos envolvendo esta população sejam desenvolvidos na realidade brasileira, e que os mesmos produzam mais conhecimentos sobre novas formas de intervenção para a promoção da saúde, no contexto universitário. Deste modo, esta pesquisa torna-se relevante, pois estudo sobre saúde mental de estudantes universitários requer investigação que considere o contexto do ensino superior, e as questões pertinentes para que mais intervenções de promoção da saúde mental sejam elaboradas e executadas de acordo com a realidade. Ressalta-se que, saúde mental é definida como o estado de bem-estar no qual o indivíduo percebe as próprias habilidades, pode lidar com os estresses normais da vida, é capaz de trabalhar produtivamente e está apto a contribuir com sua comunidade. É mais do que ausência de doença mental, e não existe saúde sem saúde mental (Organização Mundial de Saúde [OMS], 2002). Numa perspectiva holística, a saúde mental inclui a capacidade do indivíduo para apreciar a vida e procurar o equilíbrio entre as atividades, e os esforços para atingir a resiliência psicológica (Sá, 2010). Diante desse contexto, o estudo teve como objetivos gerais avaliar a saúde mental positiva dos discentes de enfermagem em termos de satisfação pessoal, atitude positiva, autocontrole, autonomia, capacidade de resolução de problemas e habilidades de relação interpessoal, de acordo com o Questionário de Saúde Mental positiva (QSM+) de Lluch (2003), traduzido e adaptado para o português (Carvalho e Sequeira, 2009).


METODOLOGIA Trata-se de estudo com abordagem quantitativa, pois se pretendeu recolher e tratar de forma sistematizada e estatística, estabelecendo relações entre variáveis no intuito de responder às questões de investigação. Caracteriza-se por ser do tipo transversal, onde os dados recolhidos num só momento, sem existir intervenção. Os dados visaram avaliar a capacidade do aluno em termos de gestão das variáveis positivas que integram a saúde mental. Ressalta-se que ao escolher a pesquisa de campo, não podemos deixar de abordar sobre os aspectos que envolvem a eticidade da pesquisa, nos termos do que dispõe a Resolução n° 466/12 do Conselho Nacional de Saúde ([CNS], 2006). A pesquisa foi encaminhada à Plataforma Brasil e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina/Hospital Universitário Antônio Pedro sob o protocolo número: CEP CMM/HUAPE nº 836.513 em 17/10/2014. Os discentes foram convidados a participar da pesquisa, receberam os esclarecimentos necessários sobre o objetivo da pesquisa, da garantia de sigilo e anonimato, do caráter voluntário da participação, sem incidência de prejuízos. Após tal ciência, os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, confirmando sua participação voluntária na pesquisa. O cenário da pesquisa foi a Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa (EEAAC/UFF), localizada no município de Niterói (RJ-Brasil). O Curso de Enfermagem da UFF possibilita ao acadêmico uma estreita relação com as questões da saúde, em geral, e da profissão em particular, através de disciplinas ministradas desde o 1º período, tornando o curso mais atraente para o aluno. A formação do enfermeiro tem caráter generalista, o que possibilita conhecimento amplo da enfermagem no âmbito da assistência, ensino e pesquisa. Tem como objetivo formar um profissional crítico e reflexivo com competência técnico-científica, ético-política, social e educativa, comprometido com a prática social, capaz de identificar as necessidades individuais e coletivas da população, seus determinantes e atuar no processo saúde-doença, garantindo a qualidade da assistência de enfermagem em todos os níveis de atenção à saúde. Ressalta-se que o curso de Graduação de Enfermagem e Licenciatura da UFF tem carga horária de 5.440 horas, sendo que deste total, 24% são destinados aos estágios curriculares obrigatórios do campo de formação específica e da licenciatura, respectivamente 900 e 400 horas.

O currículo do curso de enfermagem e suas atividades agregadas exigem dedicação intensa do estudante, havendo uma grade horária com pouco tempo livre. Tal realidade, somada ao excesso de conteúdo ministrado, leva o estudante a diminuir suas horas de sono e apresentar sonolência diurna, que afeta a sua qualidade de vida. Os mesmos passam 4 anos e meio entre vários campos de estudos (Campus Gragoatá, Instituto Biomédico, Valonguinho, EEAAC/UFF, Hospital Universitário e diversos campi) ao longo do dia, visto que o curso se dá em forma de período integral. Foram considerados sujeitos da pesquisa os discentes do curso de graduação em enfermagem. Ressalta-se que os critérios de inclusão dos sujeitos do estudo foram: discentes matriculados no 2º semestre do ano de 2014, ou seja, do 1º ao 9º período, excluindo os que se encontravam com a matrícula trancada. De acordo com dados colhidos do site da EEAAC/UFF, constam 580 estudantes matriculados no curso de enfermagem, dessa amostra 269 participaram (N=269) e 268 (N=268) responderam ao questionário, cursando do 1º ao 9º período, de entre os quais com maior participação os discentes do 1º período 17,1%, seguido pelo 6º período 16,7%. A técnica utilizada na coleta de dados foi o questionário, colhendo impressões individuais sobre aspectos relacionados aos objetivos do estudo dentre os quais o Questionário de Saúde Mental Positiva (QSM+), desenvolvido inicialmente por Lluch (2003), seguindo os critérios de Saúde Mental Positiva formulados por Jahoda (1958). Foi reformulado e validado por Carvalho e Sequeira(2009), versão portuguesa. Esse questionário propõe um Modelo Multifatorial de Saúde Mental Positiva configurado por seis fatores/dimensões, algo diferente formulado por Jahoda. O QSM+ trata-se de um questionário com 39 questões que contém uma série de afirmações sobre a forma de pensar, sentir e agir de cada um, agrupadas em seis fatores/dimensões (satisfação pessoal, atitude positiva, autocontrole, autonomia, capacidade de realização de problemas e habilidades de realização interpessoal), que oferece aos inquiridos quatro possibilidades de resposta: sempre ou quase sempre, com bastante frequência, algumas vezes, quase nunca ou nunca. Os dados recolhidos foram editados pelo investigador em base de dados criada para o análise no programa SPSS (Statistical Package for the Social Sciences) versão 20.0 do Windows. O conjunto das informações recolhidas foi inicialmente analisado, de acordo com a metodologia descritiva usual, após a sua informatização. Apenas foram validados os questionários preenchidos de forma correta e completa. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 59


RESULTADOS O ingresso do estudante no ensino superior traz consigo uma gama de mudanças em nível pessoal, cognitivo, profissional, afetivo e social, além de acarretar uma série de expectativas em relação ao curso de graduação escolhido. Essas expectativas, muitas vezes, estão acompanhadas por ansiedade, medo e dúvidas acerca de como será seu desempenho acadêmico e sua formação profissional. Desse modo, o curso de graduação será o novo ambiente de formação dos estudantes, capaz de interferir de forma positiva ou negativa em sua construção como acadêmico e futuro profissional. Na pesquisa feita, realizou-se análise descritiva dos dados onde foram diagnosticados indicadores significativos nos itens em cada dimensão pesquisada, dentre as opções de resposta: sempre ou quase sempre; na maioria das vezes; algumas vezes; raramente ou nunca. Na dimensão avaliada “satisfação pessoal”, a maioria das escolhas feitas pelos estudantes de enfermagem reflete que estão satisfeitos na maioria das vezes com suas escolhas, com seu aspecto físico (56,1%), e são otimistas quanto ao seu futuro (71%), não permitindo que o sentimento negativo seja preponderante em suas vidas. Dela Coleta e Dela Coleta (2006), ao estudarem felicidade e bem-estar subjetivo em uma amostra de 252 estudantes universitários, entre muitos achados, encontraram resultados superiores à média, indicando sentimentos positivos de felicidade, satisfação geral e com diferentes aspectos da vida, gratidão, plenitude, deleite (flow), auto avaliação do rendimento escolar e expectativas futuras, tanto do ponto de vista pessoal quanto profissional. Mostraram também que os sujeitos com níveis mais altos de felicidade, satisfação com a vida, bem-estar subjetivo apresentam mais elevado auto avaliações como estudantes e condutas escolares mais apropriadas, tendo em vista o aproveitamento acadêmico. Pensando na segunda dimensão avaliada, “Atitude Pró-social”, observa-se com os resultados encontrados no estudo com os discentes, que se pode afirmar que se mostram pessoas altruístas, bons ouvintes (76,6%), preocupam-se em ajudar o próximo (47,2%). Tal resultado é muito relevante quando se associa esses discentes ao seu campo de estudos. A enfermagem profissional no mundo foi erigida a partir das bases científicas propostas por Florence Nightingale, que foi influenciada diretamente pela sua passagem nos locais onde se executava o cuidado de enfermagem leigo e fundamentado nos conceitos religiosos de caridade, amor ao próximo, doação, humildade, e também pelos preceitos de valorização do ambiente adequado para o cuidado, divisão social do trabalho em enfermagem e autoridade sobre o cuidado a ser prestado. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 60

De acordo com os resultados encontrados na dimensão de “Autocontrole”, os discentes de enfermagem demonstram pouco controle emocional diante das adversidades da vida, permitindo que percam seu equilíbrio interior (52,4%), demonstrando ansiedade e pouca habilidade para lidar com o stress (46,8%). Justifica-se o fato de estudarem em período integral, com pouco tempo de lazer, pressões dos pais e da própria instituição de ensino. Pôde-se perceber, de acordo com os resultados na dimensão “Autonomia”, que os discentes são em sua maioria são independentes, capazes de tomar suas próprias decisões apesar da pouca idade, e apesar de estarem distante dos pais no seu cotidiano, mostram-se seguros em suas escolhas (53,9%), não estão muito preocupados com a opinião que os outros podem ter (59,1%) e essa mesma opinião não influencia em suas decisões (44,6%) e sabe dizer “não” sem problemas (64,7%). Pensando na dimensão “Resolução de problemas e Realização pessoal” e analisando os resultados encontrados em nossa pesquisa, pode-se dizer que os discentes de enfermagem encontram problemas e limitações para gerenciar seus próprios problemas, onde não possuem habilidade para adaptarem-se as mudanças em sua vida. Não se preocupam em sua evolução pessoal, não se importado em melhorar como pessoa. Contudo, o mais preocupante é o fato dos dados terem demonstrado que a maioria (72,1%) não gosta de ajudar o próximo. Fato preocupante, uma vez que a universidade visa formar futuros enfermeiros, cuidadores de seres humanos que necessitam de atenção e carinho. Por fim, na dimensão “Habilidades de relação interpessoal”, em sua grande maioria como demonstrado anteriormente, os discentes tem facilidade para estabelecer relações interpessoais (56,1%), para dar apoio emocional (62,5%) e conseguem entender o conceito de hierarquia, pois tendem a ter uma boa relação com seus superiores. O que muito nos preocupa é que esses mesmos jovens não se consideram pessoas sociáveis (46,1%) e não se acham bons conselheiros (42,8%). Dada questão deve-se ao fato ainda serem imaturos e pouco experientes, o que os impede de pensar que podem ajudar seu próximo com seus conhecimentos e socializar para trocar experiências. Mas em um contexto geral, pode-se observar que são jovens dispostos a estabelecer relações interpessoais, manter relações com maior intimidade, que buscam melhorar em sua vida, pois sabem que o networking é de extrema importância no mundo competitivo em que vivemos. Em suma, observou-se nos resultados que a maioria dos discentes de enfermagem é do sexo feminino, com idade entre 18 e 47 anos.


Nos dados obtidos em cada dimensão pesquisada, em termos positivos, encontram-se satisfeitos com sua vida pessoal, veem seu futuro com otimismo, se consideram pessoas importantes e úteis, são bons ouvintes, entendem bem os sentimentos dos outros, preocupam-se pouco com críticas recebidas, tem facilidade para estabelecer relações interpessoais, principalmente quando se trata de pessoas superiores em seus cargos (chefia/ professores). Em contrapartida, evidenciaram-se dados importantes que destacam um aspecto negativo e preocupante. Em sua maioria encontramos discentes que não sabem lidar com o estresse, são ainda muito dependentes para tomar suas próprias decisões, inseguros, não procuram melhorar como pessoa, não são dignos de confiança, apresentam dificuldades para arranjar soluções para seus problemas, e não gostam de ajudar o próximo quando o mesmo necessita. DISCUSSÃO A entrada no ensino superior constitui, para muitos jovens, uma situação de transição acompanhada por um conjunto de mudanças pessoais e sociais, com implicações ao nível da sua saúde mental. A saúde mental do estudante de enfermagem deverá ser uma prioridade e constituir um foco de atenção das instituições de ensino superior em articulação com os serviços de saúde. O questionário de Saúde Mental Positiva revelou-se com um instrumento importante para avaliar a saúde mental dos estudantes do ensino superior. Trata-se também de um instrumento de grande relevância para a prática clínica, na medida em que permite avaliar o potencial das pessoas para lidar com as adversidades e, por outro lado, permite identificar as pessoas com maior vulnerabilidade mental. O presente estudo oferece uma nova visão acerca da importância da avaliação da Saúde Mental Positiva, integrada numa lógica de Promoção da Saúde Mental, defendida como prioritária, há vários anos, por diversas organizações de renome internacional. Esses dados alertam para a necessidade de intervenção ao nível da promoção da saúde mental dos estudantes de enfermagem, essencialmente ao nível da saúde mental positiva, intervindo na melhoria da autoestima, na promoção da autonomia, no desenvolvimento de habilidades de resolução de problemas, de forma a ser efetivo na prevenção da ansiedade e da depressão. Precisamos investir em estratégias que viabilizem promover a saúde do acadêmico de enfermagem durante sua formação para que na vida profissional tenham um maior equilíbrio diante das situações impostas pelo ambiente onde irão atuar e a necessidade de conscientização da importância do cuidado.

CONCLUSÃO Conclui-se que precisamos investir em estratégias que viabilizem promover a saúde do acadêmico de Enfermagem durante sua formação para que, na sua vida profissional, tenham um maior equilíbrio diante das situações impostas pelo ambiente de trabalho e sejam conscientes acerca da importância do cuidado. Também como proposta, pensou-se na implementação de projetos de apoio emocional e cognitivo, objetivando promover suporte profissional suficiente para prevenir, reduzir ou mesmo cessar situações de stress. Desta forma, busca-se a melhora da qualidade de vida dos discentes, uma vez que são os futuros profissionais que estarão à frente do atendimento a clientes mais ou tão vulneráveis quanto eles. Torna-se viável ainda, pensar em uma reformulação das disciplinas que são feitas fora do Campus da Enfermagem. É desgastante para os estudantes a locomoção de um campus ao outro, às vezes com calor em demasia, chuva, refeições rápidas para chegar a tempo nas aulas e a distância percorrida que chega a ser de quilômetros entre um campus e outro. As disciplinas deveriam concentrar-se em um mesmo local, com professores voltados ao ensino na Escola de Enfermagem, o que facilitaria a dinâmica do dia, já que o curso é tido em tempo integral. É importante que este caminho seja dado como opção no nosso ambiente de estudo para que possibilite um crescimento não somente como futuros profissionais, mas como pessoas. Compreender e trabalhar o indivíduo e/ou coletivo em busca de um ser que desenvolve estratégias de enfrentamento de sucesso capazes de garantir–lhe a saúde integral e conquista de seus objetivos pessoais, de cidadão e profissional. Assim, é importante que a universidade esteja consciente de seu papel na formação não somente técnica, mas também sociocultural do enfermeiro e de como isso irá refletir no início da carreira profissional destes alunos. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA

O desenvolvimento de pesquisas que abordem o tema é fundamental, pois o estresse não é somente um processo resultante da mudança dos hábitos e estilos de vida inadequados, mas, também, um fator de risco para outras doenças e distúrbios psíquicos, podendo ser causador de enfermidades no decorrer da vida. Além disso, influencia aqueles que convivem com os que sofrem de estresse, como familiares, amigos, colegas de trabalho, que estão envolvidos no desenvolvimento dessa morbidade e, também, no apoio para sua resolução. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 61


Estudos como este deveriam ser aplicados a outros cursos, para que pudéssemos ter um paradigma da verdadeira situação de como está a saúde mental dos estudantes. A monitorização deste problema deve ser uma prioridade das instituições de ensino superior, de modo a proporcionar uma resposta precoce e adequada a todos os estudantes, que por uma razão ou outra, se encontram com maior vulnerabilidade mental. Como limitações do estudo, referimos o fato de os resultados não puderem ser generalizado a outros cursos do ensino superior, uma vez que amostra incidiu apenas em estudantes de enfermagem. E também a ausência no questionário proposto de perguntas sobre a situação sócio demográfica, dando a chance de obter dados mais fidedignos acerca da vida desse estudante. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Adewuya, A. O. (2006). Prevalence of major depressive disorder in Nigerian college students with alcohol-related problems.General Hospital Psychiatry, 28, 169-173. Conselho Nacional de Saúde. (2006). Diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Rio Grande do Sul: Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Disponível em http://www.bioetica.ufrgs. br/res19696.htm Comissão Nacional para a Reestruturação dos Serviços de Saúde Mental. (2007). Relatório da Comissão Nacional para a Reestruturação dos Serviços de Saúde Mental. Disponível em http://www.hmlemos.min-saude.pt/docs/ PNacSM2007.pdf Carvalho, J. C.,e Sequeira, C. (2009). Tradução para a população portuguesa do Questionário de Saúde Mental Positiva (QSM+). In C. Sequeira, J. C. Carvalho, I. Ribeiro, T. Martins, e T. Rodrigues (Eds.), Qualidade de vida em análise (pp. 303-314). Porto: Escola Superior de Enfermagem do Porto. Castillo, L. G., & Schwartz, S. J. (2013). Introduction to the special issue on college student mental health. Journal of Clinical Psychology, 69(4), 291-297. Dela Coleta, J. A., e Dela Coleta, M. F. (2006). Felicidade, bem-estar subjetivo e comportamento acadêmico de estudantes universitários. Psicologia em Estudo, 11(3), 533539. Disponível em http://www.scielo.br

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Dias, H. Z. J., Rubin, R., Dias, A. V., e Gauer, G. J. C. (2007). Relações visíveis entre pele e psiquismo: Um entendimento psicanalítico. Revista Psicologia Clínica, 19(2), 23-34. Eisenberg, D., Gollust, S. E., Golberstein, E., & Hefner, J. L. (2007). Prevalence and correlates of depression, anxiety, and suicidality among university students. American Journal of Orthopsychiatry, 77(4), 534-542. Gallagher, R. P. (2013). National survey of college counseling centers, section three: Counseling center clinicians. Pittsburgh: University of Pittsburgh. Giglio, J. S. (1976).Bem estar emocional em estudantes universitários: um estudo preliminar. 188 f. Tese (Doutorado em Psicologia Médica) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1976. Disponível em http://libdigi. unicamp.br Hunt, J.,&Eisenberg, D. (2010). Mental health problems and help-seeking behavior among college students. The Journal of Adolescent Health: Official Publication of the Society for Adolescent Medicine, 46(1), 3-10. Jahoda, M. (1958). Currentconceptsof positive mental health. New York: Basic Books. Lluch, M. T. (2003). Construcción y análisis psicométrico de un cuestionario para evaluar la salud mental positiva. Barcelona: Universidad de Barcelona. Organização Mundial de Saúde. (2002). Relatório mundial da saúde. Saúde mental: Nova concepção, nova esperança. Disponível em http://www.who.int/whr/2001/en/whr01_ ch1_po.pdf Ribeiro, J. L. P. (2001). Mental Health Inventory: Um estudo de adaptação à população portuguesa. Psicologia, Saúde &Doenças, 2(1), 77-99. Sá, L. (2010). Saúde mental versus doença mental. InC. Sequeira, e L. Sá (Eds,), Do diagnóstico à Intervenção em saúde mental. Porto: Sociedade Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental. Sequeira, C. A. C., Sá, L., Carvalho, J. C. M., Borges, E. M. N., e Sousa, C. N. (2009).Avaliação da saúde mental positiva em estudantes do ensino superior.Revista Científica da Unidade de Investigação em Ciências da Saúde: Enfermagem. Coimbra: Escola Superior de Enfermagem de Coimbra.


Artigo de Investigação

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0143

10 SUPORTE EMOCIONAL ÀS GESTANTES QUE CONVIVEM COM

DOENÇAS CRÔNICAS1

| Pâmela da Silveira2; Claudia Tavares3; Fernanda Marcondes4 |

RESUMO CONTEXTO: A mulher que convive com a doença crônica se tornará uma grávida de alto risco e poderá encontrar dificuldades para as adaptações emocionais impostas pela nova realidade. OBJETIVO: Discutir a demanda de acolhimento emocional das gestantes que convivem com doença crônica e o trabalho dos enfermeiros no pré-natal de alto risco. METODOLOGIA: Pesquisa qualitativa de abordagem sociopoética, realizada no Ambulatório de Pré-Natal do Hospital Universitário Antônio Pedro, Niterói/RJ. Participaram do estudo, 06 gestantes em acompanhamento pré-natal que convivem com doenças crônicas. A produção de dados se deu por meio de técnica criativa através da “linha da vida gestacional” e do dispositivo grupo-pesquisador. A análise de dados utilizada foi a análise de conteúdo temático-categorial. RESULTADOS: Em decorrência da formação – o foco da atenção do enfermeiro se mantém ligado à doença ou as suas formas de expressão - sinais e sintomas, o que torna o estado emocional da mulher, assim como, os fatores sociais esquecidos no seguimento de sua gestação. CONCLUSÃO: Há necessidade de escuta ativa aos anseios em todo o seguimento da gestação de alto risco, pois as mulheres se encontram fragilizadas e instáveis, e não encontram espaço para exporem seus medos, angústias e expectativas, acolhimento emocional que deve ser realizado por enfermeiros PALAVRAS-CHAVE: Gestante; Doenças crônicas; Saúde mental; Pré-natal

RESUMEN

ABSTRACT

“El apoyo emocional a las mujeres embarazadas con enfermedades crónicas”

“Emotional support to pregnant women living with chronic diseases”

CONTEXTO: La mujer que vive con la enfermedad crónica se convertirá en una embarazada de alto riesgo y puede encontrarse con dificultades en los ajustes emocionales impuestos por la nueva realidad. OBJETIVO: Analizar la demanda de apoyo emocional de las mujeres embarazadas que viven con una enfermedad crónica y el trabajo de las enfermeras en la atención prenatal de alto riesgo. METODOLOGÍA: La investigación cualitativa del enfoque poética llevada a cabo en la clínica prenatal del Hospital de la Universidad Antonio Pedro, Niterói / RJ. 06 mujeres embarazadas que viven con enfermedades crónicas participaron en control prenatal. Los datos se produjeron a través de la técnica creativa por “línea de vida gestacional” y el dispositivo grupo-investigador. El análisis de datos fue el medio de análisis del contenido de temática categórica. RESULTADOS: Como resultado de la formación - el foco de atención de la enfermera sigue siendo la enfermedad o sus formas de expresión - signos y síntomas, lo que hace que el estado emocional de la mujer, así como los factores sociales sean olvidados tras su embarazo. CONCLUSIÓN: Existe la necesidad de una escucha activa de las preocupaciones a lo largo de los embarazos de alto riesgo, porque las mujeres se encuentran frágiles e inestables, y no hallan un lugar para exponer sus miedos, ansiedades y expectativas, cuidado emocional que debe ser realizada por personal de enfermería.

BACKGROUND: Women who live with chronic disease will become high-risk pregnant and may encounter difficulties in the emotional adjustments imposed by the new reality. AIM: To discuss the demand of emotional assistance of pregnant women living with chronic illness and the work of nurses in high-risk prenatal care. METHODS: Qualitative research of the social poetic approach held in Prenatal Clinic of Antonio Pedro University Hospital, Niterói / RJ. 06 pregnant women in prenatal care living with chronic diseases participated in the study,. Data was collected through creative technique by “line of gestational life” and group-researcher device. Data analysis was used to analyze categorical-themed content. RESULTS: As a result of training - the focus of the nurse’s attention remains attached to the disease or its forms of expression - signs and symptoms, which produces the emotional state of women, as well as forgotten social factors following her pregnancy. CONCLUSION: There is the need of active listening the concerns throughout the follow-up of high-risk pregnancies due to women’s fragility and instability, and the lack of room to expose their fears, anxieties and expectations, emotional care that should be performed by nurses.

DESCRIPTORES: Embarazada; Enfermedades crónicas; Salud mental; Prenatal

KEYWORDS: Pregnant; Chronic diseases; Mental health; Prenatal Submetido em 22-02-2016 Aceite em 30-05-2016

1 Este artigo é parte do trabalho de conclusão de curso intitulado “Estratégias de promoção à saúde mental com gestantes que convivem com doenças crônicas”, apresentado no I Encontro Internacional Inovação no Ensino na Saúde e Enfermagem. 2 Enfermeira; Membro do Núcleo de Pesquisa: Ensino, Criatividade e Cuidado em Saúde e Enfermagem; Mestranda do Programa de Mestrado Acadêmico em Ciências do Cuidado em Saúde pela Universidade Federal Fluminense, Rua Dr. Celestino, 74, 24020-091 Niterói/RJ, Brasil, pamelagioza@hotmail.com 3 Enfermeira; Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio de Janeiro;; Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem e do Curso de Mestrado Profissional Ensino na Saúde; Professora Titular na Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Brasil, claudiamarauff@gmail.com 4 Enfermeira; Membro do Núcleo de Pesquisa: Ensino, Criatividade e Cuidado em Saúde e Enfermagem; Mestre em Ciências do Cuidado em Saúde pela Universidade Federal Fluminense, 24020-091 Niterói/RJ, Brasil, fe_laxe@yahoo.com.br Citação: Silveira, P., Tavares, C., & Marcondes, F. (2016). Suporte emocional às gestantes que convivem com doenças crônicas: demandas de trabalho emocional do enfermeiro. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe. 4), 63-68. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 63


INTRODUÇÃO A gestação é uma experiência única na vida de uma mulher. Nesse período, ocorrem mudanças físicas, sociais e emocionais que são capazes de gerar ansiedade, medo, novas descobertas e expectativas, o que requer instruções e ensinamentos para auxiliá-la no que tange a gestação, autocuidado, preparo para o parto e para a maternidade (Vasques, 2006). Por ser um fenômeno fisiológico, a gestação, tem o seu desenvolvimento, na maioria dos casos, sem intercorrências. Entretanto, algumas mulheres por apresentarem algum tipo de patologia crônica, sofrerem algum dano ou desenvolverem problemas, se tornam vulneráveis a evoluir para uma gestação prejudicial, tanto para a mãe quanto para o feto (Ministério da Saúde, 2012). A doença crônica, por muitas vezes, pode significar uma ameaça aos planos futuros de vida dos indivíduos acometidos pela mesma, pois lhes são impostas grandes mudanças nos seus padrões de consumo, hábitos e rotina, além do controle permanente de sinais e sintomas que, se não mantidos dentro dos padrões, podem progredir para níveis mais graves e ocasionar a morte (Quevedo, Lopes, e Lefevre, 2006). A mulher que convive com a doença crônica se tornará uma grávida de alto risco. Em virtude disso, poderá encontrar dificuldades para as adaptações emocionais impostas pela nova realidade. Em consequência da patologia se tornar um fator de risco à gestação, acabam surgindo determinadas situações tais como: o medo em relação a sua própria saúde e a do bebê; as modificações que estão ocorrendo com seu corpo; o receio de seu filho nascer com alguma anormalidade e, adicionado a esses fatores, a perda de controle em relação à gravidez e a si mesma (Quevedo, 2010). Urge que o enfermeiro no pré-natal desenvolva conhecimentos e sensibilidade para detectar e entender o processo emocional que rodeia o acompanhamento da gestação de alto risco (Ministério da Saúde, 2012). A assistência ao pré-natal tem conquistado cuidado especial na saúde materno-infantil, em decorrência de taxas desfavoráveis relacionada aos coeficientes de mortalidade materna e infantil o que tem estimulado o desenvolvimento de políticas voltadas ao ciclo gestacional e puerperal, como o Programa de Humanização no Prénatal e Nascimento (PHPN) (Duarte, 2012). Tal programa visa assegurar a melhoria do acesso, da cobertura e da assistência ao parto e puerpério às gestantes e aos recém-nascidos. Entre as ações realizadas pelo programa estão: exames laboratoriais básicos e os procedimentos obstétricos considerados essenciais, classificados como adequados, inadequados ou intermediários (Duarte, 2012). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 64

Dessa forma, o pré-natal apresenta-se como um conjunto de ações voltadas à mulher grávida e ao bebê, que visa: diagnosticar ou confirmar enfermidades maternas; realizar o tratamento; acompanhar a evolução da gravidez a partir das condições da gestante e o desenvolvimento fetal; tratar as complicações clínicas referentes à gravidez; orientar quanto medidas preventivas para saúde da gestante/feto e instruir a mãe para o momento do parto e o posterior aleitamento (Caldas, Silva, Boing, Crepaldi, e Custódio, 2013). Com a ampliação do Programa Saúde da Família, a assistência a gestante no pré-natal ocorre de forma multidisciplinar, permitindo que as condutas e cuidados sejam compartilhados (Duarte, 2012). De acordo com o funcionamento atual do Sistema Único de Saúde, a atenção básica é responsável por realizar atendimento ambulatorial de pré-natal de gestantes que não apresentam risco e por encaminhar as gestantes identificadas como “alto risco” para os serviços de referência (Caldas et al., 2013) O objetivo da assistência pré-natal de alto risco consiste em intervir para diminuir os danos que as complicações relacionadas à patologia materna possam vir a causar para a mãe e para o feto. Com isso, o enfermeiro como integrante da equipe multiprofissional, deve estar preparado para enfrentar quaisquer fatores que possam afetar a gravidez, em uma visão integral, ou seja, considerando os aspectos clínicos, socioeconômicos e emocionais. (Ministério da Saúde, 2012) Entretanto diante da complexidade envolvida em gestações de mulheres que convivem com doenças crônicas (gestação de alto risco), a assistência de saúde prestada se limita a consulta médica individual, que tem como foco a patologia e como esta influencia na vida da mãe e do feto, não sendo abordadas questões que envolvam o estado emocional da gestante e como a mesma enfrenta as situações impostas pela doença. Maçola, Vale e Carmona (2010) relatam que estudos evidenciam a importância da atenção à saúde mental da gestante e sua relação com o desenvolvimento do vínculo mãe-filho. Porém, ainda é escassa a realização de programas de pré-natal que abordem efetivamente as questões emocionais, visando auxiliar a mulher a lidar com o processo de gestação e maternidade. Dessa forma, a inserção de estratégias de promoção da saúde mental das gestantes no âmbito do pré-natal se torna essencial, pois visa minimizar os efeitos negativos que a presença da patologia na gravidez possa gerar. Para Guerra, Braga, Quelhas e Silva (2014) algumas estratégias definidas como promotoras de saúde mental em gestantes são: identificação precoce de fatores de risco, estabelecimento de uma relação de confiança com o


enfermeiro especialista em saúde materna e obstétrica, preparação para o desempenho do papel, identificação da rede de suporte social, incentivar o envolvimento do pai na vigilância da gravidez nos cuidados com a criança e realização de cursos de preparação para a parentalidade em grupo. De acordo com Arrais, Mourão e Fragalle (2014) quando a assistência pré-natal abrange, além do aspecto biológico, continente ou base consistente para a mulher e sua família, o enfermeiro torna o cuidado obstétrico humanizado e integral, o que contribui para a redução da morbimortalidade materna e transforma a realidade vivenciada pelas mulheres durante o período da gravidez. Para Shimizu e Lima (2009) a consulta de enfermagem contribui para que a gestante enfrente esta etapa da vida com mais tranquilidade, pois lhe permite compreender e expressar os diversos sentimentos vivenciados. Além disso, o enfermeiro é o profissional habilitado e de fácil acesso as mulheres no acompanhamento gestacional, devendo acolher não só a gestante, mas ao contexto familiar e social em que a mesma está inserida, prestando uma assistência integral e qualificada, proporcionando assim uma gravidez tranquila e feliz à mulher e o nascimento de um bebê saudável (Santos, 2014). O enfermeiro deve acolher a gestante e sua família de forma a ouvir suas dúvidas e questionamentos, sem julgamentos ou preconceitos, de forma a criar um vínculo profissional de confiança. É fato que a assistência à mulher durante o pré-natal já não se satisfaz mais com medidas biomédicas, a gestação passou a ser vista como um momento de mudanças não apenas fisiológicas, mas também, como um momento de profundas transformações emocionais e biopsicossociais, onde cada casal a vivencia de forma única, exigindo, portanto, atenção individualizada e holística (Santos, 2014). Este contexto de acolhimento e humanização reforça o profissional enfermeiro como elemento ativo da equipe de saúde, por exercer papel educativo e contribuir para que se produzam mudanças concretas e saudáveis, nas atividades das gestantes, familiares e comunidade, buscando o bem-estar e qualidade de vida (Lima e Moura, 2005). Assim, o trabalho do enfermeiro com as emoções das mulheres que convivem com doenças crônicas no âmbito do pré-natal contribui com a promoção da sua saúde mental, favorecendo a exposição de sentimentos, como expectativas perante a maternidade e aflições decorrentes do convívio com a doença crônica e outros problemas relacionados direta ou indiretamente à gravidez. Contudo, ainda são escassos os estudos que abordam as potencialidades do enfermeiro no âmbito do pré-natal, assim como, no período investigado foram inexistentes pesquisas que referissem o trabalho do enfermeiro no

acolhimento emocional prestado as gestantes, numa abordagem humanizada e holística destinada a estas mulheres. METODOLOGIA Trata-se de um estudo qualitativo, de abordagem sociopoética, realizado no ambulatório de Pré Natal de alto risco do Hospital Universitário Antônio Pedro (HUAP), Niterói/RJ. As participantes da pesquisa foram definidas a partir dos seguintes critérios de inclusão: gestantes que convivem com doenças crônicas como Hipertensão Arterial Crônica e Diabetes Mellitus, patologias mais frequentes no ambulatório de pré-natal. Como critério de exclusão as gestantes menores de 18 anos, as que estavam acompanhadas de crianças e as que apresentaram algum tipo de intercorrência clínica no momento da coleta de dados. Aplicando-se os critérios estabelecidos participaram do grupo-pesquisador 6 gestantes. A produção de dados baseada nos princípios da sociopoética se deu por meio da constituição do grupopesquisador. A sociopoética é um método de pesquisa que visa à produção de subjetividade, utilizando a sensibilidade, a criatividade e a relação com o outro. Essa abordagem de pesquisa se concretiza através dos seguintes pontos: a importância do corpo como fonte de conhecimento; a importância das culturas dominadas e de resistência; das categorias e dos conceitos que elas produzem; papel dos sujeitos pesquisadores como co-responsáveis pelos conhecimentos produzidos, “copesquisadores”, papel da criatividade de tipo artístico no aprender, no conhecer e no pesquisar; a importância do sentido espiritual, humano, das formas e dos conteúdos no processo de construção dos saberes (Moraes, Braga, e Silveira, 2003). Para produção criativa dos dados desenvolveu-se a técnica da “linha da vida gestacional” na qual as gestantes dividiriam um papel cartolina em três etapas (1º, 2º e 3º trimestre gestacional) e ali através de desenhos ou de figuras de revistas ilustrariam os principais acontecimentos que marcaram sua gestação, seguido da questão que norteou o grupo- pesquisador: Você se sente acolhida emocionalmente pela equipe de saúde durante a realização do pré-natal? Recebe algum tipo de apoio emocional por parte dos profissionais durante as consultas de pré-natal realizadas no ambulatório? A inspiração da linha da vida gestacional se deu a partir da técnica linha da vida, que segundo Szenészl (2011) é uma representação da organização espacial do tempo de uma pessoa. Tem a particularidade de indicar características do modo como ela se organiza e se adapta em sua relação com seu meio externo, sendo também uma Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 65


metáfora sobre como ela vê, sente e interpreta aspectos de sua vida emocional. Essa técnica é a via de acesso à representação dos eventos significativos da vida do cliente. Os dados produzidos com as gestantes foram submetidos a técnica de análise de conteúdo temático-categorial. As etapas definidas por Bardin (2009) para tal análise são: pré-análise; exploração do material ou codificação; tratamento dos resultados, inferência e interpretação. Essas etapas podem ser especificadas como: Primeira Etapa (Pré-análise): Nesta etapa são desenvolvidas as operações preparatórias para a análise propriamente dita. Consiste num processo de escolha dos documentos ou definição do corpus de análise; formulação das hipóteses e dos objetivos da análise; elaboração dos indicadores que fundamentam a interpretação final. Segunda Etapa (Exploração do material ou codificação): Consiste no processo através do qual os dados brutos são transformados sistematicamente e agregados em unidades, as quais permitem uma descrição exata das características pertinentes ao conteúdo expresso no texto. Terceira Etapa (Tratamento dos resultados - inferência e interpretação): Busca-se colocar em relevo as informações fornecidas pela análise, através de quantificação simples (frequência) ou mais complexas como a análise fatorial, permitindo apresentar os dados em diagramas, figuras, modelos etc. Respeitando os preceitos da resolução 466/2012, do Conselho Nacional de Saúde/ Ministério da Saúde, o trabalho foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF), cumprindo o que preceitua a Resolução nº 466/12 (CNS), e aprovado segundo nº: 45480915.5.0000.5243. RESULTADOS Após a análise dos dados obtidos, os resultados estão dispostos abaixo, através do Perfil sócio-demográfico e Gestacional das mulheres e da seguinte categoria de análise “Alterações emocionais vivenciadas a cada trimestre gestacional”, na qual está inserido o seguinte tema “Demandas de acolhimento emocional”. Perfil Sócio-Demográfico e Gestacional A maioria das gestantes participantes do estudo tem entre 30-38 anos, são brasileiras, naturais do estado do Rio de Janeiro, três possuem ensino fundamental incompleto e três, ensino médio incompleto, são casadas e referiram renda familiar média de dois salários mínimos. Apresentam a condição crônica de saúde relacionada à diabetes ou hipertensão, três são primíparas e outras três relataram ter realizado aborto em gestações anteriores experienciando complicações ao longo da gestação. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 66

As 06 participantes relataram uso contínuo de medicação, não fazerem uso de álcool e cigarro e nem realizarem atividade física. Demandas de Acolhimento Emocional Observamos, ao iniciar o grupo, que as gestantes iam chegando para participar da nossa oficina com um olhar sério e inquieto, muitas estavam preocupadas com a consulta de pré-natal. Conforme os relatos eram expostos, misturavam-se a choros, desabafos e sensação de alívio. Percebemos, então, que o ambiente anterior, de possível tensão, havia se transformado em um espaço para troca de experiência e acolhimento emocional, o que não acontecia no ambulatório de pré-natal, segundo informações colhidas. Nesse tema as gestantes evidenciaram um dos grandes desafios que encontraram no decorrer da gestação de alto risco: a falta de acolhimento emocional durante a assistência prestada no pré-natal. O acolhimento constitui-se em um desafio na construção de um cuidado integral, sendo o elemento de fundamental importância para a qualidade do serviço. É considerado ferramenta essencial para o estabelecimento de um processo de trabalho diferenciado e para a concretização de relações humanitárias entre usuários e profissionais (Araújo, Andrade, e Melo, 2011). Assim, o acolhimento emocional está diretamente relacionado a uma escuta sensível, transpessoalidade, disponibilidade e empatia, dessa forma, os enfermeiros juntamente com o serviço de saúde devem contribuir para a resolutividade das demandas, valorizando as queixas e identificando as reais necessidades emocionais que atingem essas mulheres. Abaixo segue a fala de algumas das gestantes: Eu acho que elas deveriam parar pra escutar a gente, é uma maneira de desabafar, quando a gente desabafa consegue ficar mais leve. (Vida e Inspiração) Eu acho que é um trabalho que deveriam fazer com a gente. Não é um exercício físico, é um exercício para a mente, para a gente relaxar e tentar sair daqui melhor. (Vida minha, Ezequiel) Então eu acho que deveriam tirar um dia só para a gente vir aqui no ambulatório relaxar, conversar e desabafar. Acho que deveria ter isso aqui. (Filhote e Paixão) Eu acho que seria muito legal se tivesse um acompanhamento emocional, um grupo pra gente sentar e conversar. (Mãe) Eu acho que elas deveriam... Já que a gente está dizendo que está se sentindo ruim, que alguém trabalhasse isso com a gente, o emocional, a gente ficaria mais segura. (Filhote e Paixão)


DISCUSSÃO Embora tanto se discuta hoje sobre a humanização da assistência, onde devemos compreender o indivíduo de forma integral e não mais fragmentado, ainda sim, nos deparamos com um cuidado distanciado do que é preconizado, baseado nos preceitos de assistência do modelo biomédico, onde o foco do tratamento está centralizado na doença e como esta pode influenciar de forma negativa na vida da gestante/bebê, sendo negligenciados pelos enfermeiros os aspectos emocionais que envolvem essa mulher. Os enfermeiros focalizam seu tratamento nos aspectos fisiológicos das gestantes como avaliação de peso, mensuração da altura uterina, verificação da pressão arterial, ausculta dos batimentos fetais, orientação quanto à alimentação correta e a prática de exercícios físicos, não demonstrando interesse pelos aspectos emocionais destas gestantes (Oliveira, 2008). De acordo com a Política Nacional de Humanização do SUS (Ministério da Saúde, 2006, p. 35), acolhimento é: “Recepção do usuário, desde sua chegada, responsabilizando-se integralmente por ele, ouvindo sua queixa, permitindo que ele expresse suas preocupações, angústias, e, ao mesmo tempo, colocando os limites necessários, garantindo atenção resolutiva e a articulação com os outros serviços de saúde para a continuidade da assistência, quando necessário.” A atenção às gestantes é uma das propostas do acolhimento, sendo oferecido toda vez que a usuária procura o serviço de saúde e tem suas necessidades atendidas, seja por meio da assistência ou através de orientações, ou seja, quando a equipe multiprofissional demonstra interesse pelos seus problemas e se empenha na busca de soluções (Oliveira e Madeira, 2011). Azevedo, Araújo, Costa e Júnior (2009) em seu estudo observou que as gestantes classificadas como alto risco em atendimento ambulatorial se apresentavam visivelmente ansiosas com o desenrolar de sua enfermidade, e não encontravam espaço para conversar especialmente sobre questões ligadas à dimensão emocional da doença durante a consulta. Revelar como se dá a assistência às gestantes em todo o seu contexto não é algo tão simples. Esse obstáculo se deve aos poucos estudos referentes à comunicação entre as gestantes e médicos, enfermeiros e nutricionistas, assim como ao número limitado de locais onde a assistência à gestante seja desenvolvida por uma equipe multiprofissional (Oliveira e Madeira, 2011). O pré-natal de alto risco é realizado em blocos, separado por especialidade, onde em nenhum momento entre um atendimento e outro ou até mesmo no final de cada plantão é discutido com o enfermeiro o plano terapêutico dessa mulher e a melhor forma de atingir com êxito a integralidade da assistência.

Se o enfermeiro focasse o atendimento nas queixas relatadas pelas pacientes, além dos aspectos fisiológicos da doença, esquecendo um pouco a anamnese tradicional, provavelmente as gestantes sairiam mais tranquilas, satisfeitas e preparadas para lidar com qualquer tipo de adversidade no decorrer da gestação (Azevedo et al., 2009). CONCLUSÃO Este estudo debruçou-se essencialmente sobre o aspecto emocional das gestantes que convivem com algum tipo de doença crônica, buscando encontrar estratégias de promoção à saúde mental destas mulheres. Os depoimentos revelaram a necessidade de escuta ativa aos anseios em todo o seguimento da gestação de alto risco, onde as mulheres se encontram fragilizadas e instáveis, e diante de um atendimento tão robotizado e fragmentado não encontram espaço para exporem seus medos, angústias e expectativas do que é ser gestante e conviver com uma doença crônica. Percebemos que é através da interação entre o enfermeiro e a gestante durante a rotina de consultas do pré-natal que podemos nos apropriar das reais necessidades emocionais destas mulheres. Certificamo-nos, assim, que se torna cada vez mais essencial uma assistência fundamentada na humanização, nas políticas nacionais de saúde e que traz a integralidade como ponto chave da qualidade da assistência prestada. Contudo, diante dos aspectos e experiências aqui relatadas, percebemos a necessidade de transformação da conduta do serviço de saúde no processo de busca por uma assistência de qualidade no que tange a abordagem do estado emocional e os aspectos que envolvem a subjetividade dessa mulher. Para tal, se fazem fundamentais a escuta sensível e o uso da visão holística. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA A condição clínica pré-existente a gestação pode desencadear uma série de questionamentos envolvendo o futuro de sua gravidez interligado a sentimentos como ansiedade, medo, insegurança e impotência, que resultam em um estado de desequilíbrio emocional. Tendo em vista a instabilidade psíquica, se torna essencial uma assistência de enfermagem de qualidade a fim de propiciar um meio em que as mesmas se sintam acolhidas, escutadas, compreendidas, e que somado a um cuidado humanizado possam ter o suporte emocional necessário para enfrentar os possíveis obstáculos da gestação.

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Artigo de Investigação

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0144

11 SITUAÇÕES DIFÍCEIS E SEU MANEJO NA ENTREVISTA PARA

DOAÇÃO DE ÓRGÃOS

| Paula da Fonseca1; Cláudia Tavares2; Thiago da Silva3; Vagner do Nascimento4 |

RESUMO CONTEXTO: A formação em Comunicação de Notícias Difíceis pelos coordenadores avançados em transplantes, não os isenta de lidarem com as situações mais diversas. OBJETIVO: Identificar os fatores e/ou situações representativas de situações difíceis vivenciadas pelos coordenadores avançados em transplantes; e descrever como manejam tais fatores e/ou situações na condução da entrevista familiar. MÉTODO: Abordagem qualitativa, estudo hermenêutico. Dados obtidos por entrevista semi-estruturada contendo oito questões abertas dirigidas à 24 coordenadores avançados em transplantes, no período de janeiro a maio de 2012. Utilizada análise do discurso dos sujeitos com base na interpretação proposta na hermenêutica filosófica de Gadamer para organização e compreensão dos dados relatados que foram gravados e, em seguida, transcritos na íntegra. Estudo aprovado pelo Comitê de Ética UFF/HUAP. RESULTADOS: Identificados como fatores e/ou situações difíceis no momento da entrevista: ambiente; profissionais que falham na comunicação com os familiares; e assistência prestada. Manejos descritos: modo de conduta do entrevistador no trabalho; aspectos emocionais; que envolvem os familiares do potencial doador; lançar mão dos próprios instrumentos de enfrentamento das dificuldades; e ainda o “eu não sei, nunca parei para pensar nisso”. CONCLUSÃO: O afastamento da situação e o tratar sobre o assunto em outro momento lhes permitiu se conhecer melhor, no sentido de saber como agem em sua prática cotidiana laboral. PALAVRAS-CHAVE: Emoções manifestas; Pessoal de saúde; Transplante; Enfermagem psiquiátrica; Entrevista

RESUMEN

ABSTRACT

“Situaciones difíciles y su manejo en la entrevista para la donación de órganos”

“Difficult situations management in organ donation interview”

CONTEXTO: La formación en Comunicación de Noticias Difíciles por los coordinadores avanzados en trasplantes no les exime de hacer frente a las situaciones más diversas. OBJETIVO: Identificar los factores y/o situaciones representativas de situaciones difíciles experimentadas por los coordinadores avanzados en trasplantes; y describir cómo manejan estos factores y/o situaciones en la conducción de la entrevista familiar. MÉTODO: Enfoque cualitativo, estudio hermenéutico. Los datos furon obtenidos mediante una entrevista semiestructurada conteniendo ocho cuestiones abiertas dirigidas a 24 coordinadores avanzados en trasplantes, durante el período de enero a mayo de 2012. Se utilizó el análisis del discurso de los sujetos basándose en la interpretación propuesta en la hermenéutica filosófica de Gadamer para la organización y la comprensión de los datos reportados, que fueron grabados y, seguidamente, transcritos en su totalidad. Este estudio fue aprobado por el Comité de Ética de la HUAP/UFF. RESULTADOS: Fueron identificados como factores y/o situaciones difíciles en el momento de la entrevista: entorno; profesionales que fallan en la comunicación con los familiares; y asistencia prestada. Manejos descritos: modo de conducta del entrevistador en el trabajo; aspectos emocionales, que involucran la participación de los familiares del potencial donante; uso de sus propios instrumentos de afrontamiento de las dificultades; y aún el “yo no sé, jamás me detuve a pensar en ello”. CONCLUSIÓN: El alejamiento de la situación y el tratamiento del tema en otro momento les permitió un mejor conocimiento mutuo, en el sentido de saber cómo actúan en su práctica cotidiana laboral.

DESCRIPTORES: Emociones manifiestas; Personal de salud; Trasplantes; Enfermería psiquiátrica; Entrevista

ABSTRACT: The training in Communication of Difficult News by advanced coordinators in transplantation does not exempt them from dealing with the most varied situations. OBJECTIVE: To identify the factors and/ or situations representative of difficult situations experienced by advanced coordinators in transplantations; and to describe the coping methods and/or situations while conducting family interviews. METHODS: Qualitative approach, hermeneutic study. Data were obtained from semi-structured interview containing eight open questions directed to 24 advanced coordinators in transplantations, from January to May 2012. We used subject discourse analysis based on the interpretation proposed in the philosophical hermeneutics of Gadamer for organization and understanding of the reported data, which were recorded and, subsequently, fully transcribed. This study was approved by the Ethics Committee of HUAP/UFF. RESULTS: We have identified the following as difficult factors and/or situations at the time of the interview: environment; professionals who fail to communicate with family members; and assistance provided. Managements described: mode of conduct of the interviewer at work; emotional aspects, which involve the family members of potential donors; to make use of their own instruments to confront the difficulties; and also the “I do not know because I have never thought about that”. CONCLUSION: The estrangement from the situation and dealing with the matter at another time allowed a better understanding of each other, regarding the coping actions in their daily work practice.

KEYWORDS: Manifested emotions; Health personnel; Transplantations; Psychiatric nursing; Interview Submetido em 22-02-2016 Aceite em 30-05-2016

1 Doutoranda em Ciências do Cuidado em Saúde na Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa; Enfermeira; Professora Assistente na Universidade Estácio de Sá, Estrada do Cabumgui, 786A, 22785-020 Rio de Janeiro/RJ, Brasil, paulaisabellafonseca@gmail.com 2 Pós-Doutora em Educação; Enfermeira; Professora Titular na Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro/RJ, Brasil, claudiamarauff@gmail.com 3 Enfermeiro; Mestre em Ciências do Cuidado em Saúde pela Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, tns.thiago@hotmail.com 4 Doutorando no Centro Universitário São Camilo; Professor na Escola de Enfermagem da Universidade Estadual do Mato Grosso, Brasil, vagnerschon@hotmail.com Citação: Fonseca, P., Tavares, C., Silva, T., & Nascimento, V. (2016). Fatores representativos de situações difíceis e seu manejo na entrevista familiar para doação de órgãos. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe. 4), 69-76. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 69


INTRODUÇÃO Os denominados coordenadores avançados em transplantes são os responsáveis por realizarem as entrevistas familiares para doação de órgãos. Estes profissionais podem estar vinculados a uma unidade hospitalar representando a Comissão Intrahospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT), ou mesmo representarem uma Organização de Procura de Órgãos (OPO), esta que está coadunada a uma Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDO). Tais dispositivos são regulamentados pelo Sistema Nacional de Transplantes (SNT), que é responsável pelo controle e pelo monitoramento de todos os transplantes de órgãos, tecidos e partes do corpo humano realizados no Brasil. Suas atribuições incluem ações de gestão política, promoção da doação, logística, credenciamento das equipes e hospitais para a realização de transplantes, definição do financiamento e elaboração de portarias que regulamentam todo o processo, desde a captação de órgãos, até o acompanhamento dos pacientes transplantados (Decreto n° 2268/97). Embora esta seja a divisão disponível em legislação própria (Portaria nº 2600/09), nem todos os estados dispõem de aporte de gente, financeiro, logístico e infraestrutural para fazerem todos os dispositivos supracitados estarem ativos. Entretanto, independentemente do dispositivo ao qual este profissional esteja ligado, esse ao possuir formação em Comunicação de Notícias Difíceis, idealmente, está habilitado a realizar entrevistas familiares. Esta formação é citada em estudos e manuais, nacionais e internacionais, que tratam da capacitação e aprimoramento dos profissionais em saúde que atuam no processo de doação de órgãos (Cuiabano, 2010; Moraes, 2013; Pierro, 2015; Programa Avançado em Coordenação de Doação/Transplante, 2007; Roza, 2005). Porém, tal formação não isenta estes coordenadores de lidarem com as situações mais diversas possíveis na realidade com a qual convivem diariamente nos mais diferentes cenários em que a entrevista possa ocorrer. Desta maneira, além dos dilemas morais que cotidianamente enfrentam neste momento (Fonseca e Tavares, 2015), outros fatores acabam por não corroborar com o desfecho harmonioso ou menos difícil desta etapa tão fundamental do processo de doação de órgãos, que vão desde observações em razão da falta de estrutura no atendimento pré-hospitalar ao doador, falta de condições de cuidar do doador ou de agilizar o processo de doação, Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 70

exposição do doador na mídia, falta de conscientização por parte dos profissionais em manter a condição clínica do indivíduo em morte encefálica, para tornar-se um potencial doador, até a falta de padronização no trabalho (Lima, 2013). Diante disso, o estudo objetivou: identificar os fatores e/ou situações representativas de situações difíceis vivenciadas pelos coordenadores avançados em transplantes; e descrever como manejam tais fatores e/ ou situações na condução da entrevista familiar. METODOLOGIA Estudo qualitativo de abordagem hermenêutica interpretativa, baseada na perspectiva de Hans-Georg Gadamer – compreende que a interpretação leva a conhecer as condições em que se dá a compreensão; ou seja, procura compreender a própria linguagem e, através dela, o próprio homem, a sua história e existência, pois é através da linguagem que se dá o acesso ao mundo e às coisas (Gadamer, 2008). O enfoque metodológico da hermenêutica interpretativa possibilita conhecer a tradição do preparo emocional dos profissionais que realizam entrevista familiar para doação de órgãos que, mediante a linguagem utilizada pelos dos coordenadores avançados em transplantes, vem à tona. A tradição é a bagagem de conceitos repassados ao longo dos tempos e condicionam as ações presentes de forma inconsciente, manifestando-se através da linguagem. O Ser é linguagem, e nomeia o mundo. A linguagem caracteriza a relação do Ser com o mundo, diferenciando-o de todos os demais seres vivos. Com a linguagem, o Ser torna-se livre face ao mundo que o circunda, pois é aberta a possibilidade de interpretá-lo, o que lhe traz a dimensão ontológica (Gadamer, 2008). O cenário foi a Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDO) do estado do Rio de Janeiro, Brasil. Coletou-se dados em janeiro a maio de 2012. Os participantes totalizaram 24 coordenadores de transplantes - 17 enfermeiras, 2 assistentes sociais, 2 médicos e 3 psicólogos – que compõem ou já compuseram a equipe que atua como coordenadora do processo de doação de órgãos. Critério de inclusão utilizado: profissionais que realizaram ou realizam entrevistas familiares para doação de órgãos e que estavam trabalhando no período de coleta de dados na equipe da Central de Transplantes. Critérios de exclusão: profissionais que não realizam ou nunca realizaram entrevistas familiares, e ainda aqueles que mesmo tendo realizado entrevistas familiares não atuassem mais na CNCDO em questão no período de coleta de dados.


Utilizou-se entrevista semi-estruturada a partir de instrumento composto das seguintes perguntas a respeito das emoções e seu manejo em situações acontecidas na entrevista familiar para doação de órgãos: “Existe algum fator ou situação que torna para você a entrevista mais difícil? Como você lida com ela? ”. Foi utilizada a análise do discurso dos sujeitos com base na interpretação proposta na hermenêutica filosófica de Gadamer, para organização e compreensão dos dados que foram gravados e, posteriormente, transcritos na íntegra. Para resguardar o anonimato dos participantes, seus depoimentos nesse estudo serão identificados com nome de cor. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Antônio Pedro/UFF sob o nº 321/11 em Nov/2011. Respeita os princípios éticos da Resolução nº 466/2012 que trata, no Brasil, sobre os princípios éticos a serem seguidos em pesquisas que envolvem seres humanos. RESULTADOS Nesta sessão serão identificadas as situações difíceis relatadas pelos coordenadores avançados em transplantes num primeiro momento, seguido da descrição dos manejos desses fatores representativos das dificuldades que emergiram na entrevista familiar. Assim, as situações difíceis vivenciadas no momento da entrevista familiar para doação de órgãos identificadas, giraram basicamente em torno do hospital notificador, ou seja, da unidade hospitalar que notifica um possível doador à CNCDO. Na figura 1 abaixo podemos observar quais os elementos contidos no hospital notificador que foram ressaltados como dificultadores do desenvolvimento da entrevista familiar nas falas dos participantes.

Figura 1 - Fatores representativos de situações difíceis na entrevista familiar para coordenadores avançados em transplantes, 2016

O Ambiente como Dificultador do Desenvolvimento da Entrevista Familiar A situação dos ambientes em que ocorre a entrevista familiar foi relatada como precária, sendo apontada pelos participantes do estudo como principal elemento dificultador do desenvolvimento da entrevista familiar na unidade notificadora. O ambiente... o ambiente não adequado, no corredor, a família em pé assim... pessoas que não estão envolvidas naquela situação prestando atenção... eu acho que isso interfere bastante, é bastante desconfortável. E... eu já falei, além disso associado ao estado emocional da família. Eu acho que o ambiente, se você tem uma sala, um local reservado para abordar a família, faz a diferença. Já tive casos em que, tive que fazer no corredor, só tinha duas cadeiras e vários familiares e eu tive que ficar de pé... é uma situação ruim, mas eu também não podia fazer diferente - ficar sentada e falando com a pessoa de pé. Então ali, não tinha outra situação, a gente tentou, mas... isso, isso é desconfortável. Desconfortável porque você não consegue interagir, aí ficam pessoas passando, presta atenção, entendeu? Ficam olhando.... Você tira o teu foco, entendeu? Pessoalmente você também não consegue manter o controle adequado da situação. (Azul Hortência) Fica claro no relato que a falta de um ambiente adequado que possibilite à família privacidade e tranquilidade, minimamente oportunizando ao familiar sentar-se e estar protegido de ruídos externos, poderia possibilitar um melhor acolhimento por parte da equipe do transplante. Os Profissionais que Falham Inseridos no Hospital Notificador É possível observar que uma abordagem sem preparo adequado, ou seja, sem a técnica de comunicação de más notícias, feita no momento errado, seja antes do fechamento do protocolo de morte encefálica ou no momento em que a família precisa ainda assimilar a situação de morte, causa muitos ruídos e percepções distorcidas acerca da doação por parte dos familiares. Isto leva os entrevistadores a encontrarem, nestes casos, situações recidivamente difíceis, como se pode perceber logo em seguida. Quando o médico que está assistindo o doador, que está ali na manutenção do doador, médico do hospital, não nosso, se antecipa em conversar com a família sobre doação. Isso para mim é o que... é 99% de chance de dar errado, entendeu? Eu tenho percebido isso, entendeu? De todas as vezes que houve interferência do médico, que está na manutenção, o médico do hospital, que se antecipa em falar com a família sobre a doação, dá errado. (Amarelo Ocre) Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 71


O que é difícil é quando a pessoa não foi preparada. Quando ela.... Foi aberto o protocolo, a família não foi comunicada, o médico avisa que uma cliente, que a pessoa está morta ou então o médico não esclarece que a morte, que é morte encefálica. Ou então, como o que ocorreu com uma médica - ela foi falar com o pai de um menino que se suicidou que ele estava indo, quer dizer, se ele estava indo, e ele não foi, e isso dificulta muito. (Verde Oliva) A Assistência Prestada pelas Unidades Notificadoras Destacou-se aqui a questão principalmente do mau atendimento prestado na unidade notificadora como agente causador de transtornos para os familiares a priori, o que reflete num momento posterior, na entrevista. Este tipo de atendimento contém: falta de leitos para o paciente ainda vivo e sem critérios de morte encefálica, demora para atendimento na emergência do hospital, falta de atenção para os familiares dispensada pela equipe da Unidade de Terapia Intensiva, falta de acolhimento/humanização por parte da equipe do hospital notificador. A entrevista muito difícil eu acho que é quando a história do paciente no hospital já é uma história difícil “assim”, quando você vê uma, um caso que chegou não identificado ou então ficou muito tempo na emergência, então acaba que a gente entra num momento de crise. Então você acaba pegando o resultado de tudo o que aconteceu com aquele paciente ali no hospital, então eu vejo muito isso: às vezes a gente tem péssimas entrevistas, que poderiam ser melhores, em razão do cuidado que aquela pessoa recebeu no hospital desde quando chegou. [...] Eu acho que a gente sofre muito isso, a gente sofre muito com o cuidado não adequado do hospital inteiro. É... as vezes a gente escuta muito isso: poxa vocês são as primeiras pessoas que chegaram e quiseram dar atenção “pra” gente agora que, agora que meu parente está morto vocês querem ter cuidado então isso é péssimo. Então acho que é isso, isso que atrapalha o andamento da entrevista. (Terra Siena Queimada) Com certeza quando o paciente... quando o potencial doador, ele... a família e ele não estão bem acolhidos no hospital em que eles estão... com certeza. Isso você já chega para entrevista, praticamente já com uma negativa. Porque a primeira (ênfase) coisa que você começa a escutar é tudo que aconteceu, desde quando o paciente deu entrada no hospital. (Verde Inglês) Quanto aos manejos realizados nos momentos destacados, as falas dos participantes trouxeram os seguintes pontos impressos na Figura 2. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 72

Figura 1 - Manejos das situações difíceis vivenciadas nas entrevistas familiares relatados pelos dos coordenadores avançados em transplantes, 2016

Manejos de Situações Difíceis com Base na Conduta do Coordenador na Entrevista Familiar Os participantes declararam que: manejam a situação finalizando a entrevista, mesmo não tendo dado 100% do seu potencial para finalizá-la; trabalham de maneira não-espontânea, quando a opinião profissional não é respeitada; focam suas perspectivas de superação com o que se pode fazer pelo receptor; nomeiam outra pessoa do plantão para fazer a entrevista familiar quando previamente se sente mal com a história; e, amenizam conflitos entre a equipe do hospital notificador e a da central de transplantes. Ao dizer como lida com as situações difíceis na entrevista familiar, Azul Cobalto traz a seguinte fala: [...] eu focava no receptor. Assim, nessa hora eu sentia que não podia fraquejar perto da pessoa [...] E eu focava no receptor [pensando]... tem a criança na fila, mas tem alguém que vai ser beneficiado com essa situação... sempre foi assim. (Azul Cobalto) A estratégia de pensar no próximo, ou seja, quem receberia a vida que se guardava no corpo do doador, foi citada por três dos participantes entrevistados como forma de enfrentamento da situação difícil. Manejos de Situações Difíceis com Base nos Aspectos Emocionais As falas trouxeram os seguintes manejos das emoções: quando sentem sinais de voz embargada e olhos marejando, os coordenadores avançados em transplantes dão um tempo na entrevista; observam o conforto dos familiares na autorização da doação e respeitam o não dos pais e após, tentam esquecer o sofrimento daquela situação; não se mostram emotivos para passarem confiança, credibilidade do processo, permitindo que a família se abra; e, agradecem por não estarem naquela situação difícil.


Manejos de Situações Difíceis em Relação aos Familiares do Potencial Doador Os participantes declararam como manejo da situação a priori: perguntar para a família o que o médico da unidade hospitalar já disse; e, ouvir o desabafo da família. Para Amarelo Ocre, o contato prévio do médico da unidade notificadora no momento errado ou com informações desencontradas, representa uma situação frequentemente difícil e para manejar esta situação, temos a fala a seguir: [...] primeira pergunta que faço é: o médico já conversou com vocês? O quê o médico conversou com vocês? Então a partir daí eu tento entender até onde eles sabem, o quê que eles sabem, se o médico falou alguma coisa que vai beneficiar ou atrapalhar. (Amarelo Ocre)

No entanto, manter tais princípios com qualidade é uma tarefa complexa que envolve desde a política local e financiamento destinado à saúde, até a educação da população, papel este que também está contido nas atividades de um grande hospital.

Manejos de Situações Difíceis com Base nos Instrumentos de Enfrentamento das Dificuldades As falas mostraram que os manejos envolvem: ter noção da realidade e entender que as pessoas morrem o tempo todo, em todo lugar; aceitar/se resignar diante do que considera “batalha perdida”; entender o papel social do entrevistador; se apegar com os filhos em casa; fazer uma oração e pedir a Deus para receber aquela alma; e, respirar fundo. Amarelo de Cádmio classifica como situação frequentemente difícil “encontrar noradrenalina em veia periférica, encontrar o paciente abandonado sendo comido por moscas varejeiras, com fraldas sujas”, o que acaba criando conflitos entre familiares e a equipe do hospital notificador. Neste momento, se revolta com esta situação, mas sabe que se abordar a equipe de maneira grosseira, perderá estes profissionais os quais os coordenadores da CNCDO também dependem para iniciar a notificação. Com isso, maneja esta situação de maneira política como coloca a seguir: Você também tem muito jogo político em off. Eu não posso chegar lá no hospital dizendo: Você abandonou essa pessoa, está sujo, imundo! Não! [...]. Nesse momento eu vou respirar fundo, eu vou respirar fundo e vou conversar com aquela equipe que está ali [...] Acabo de certa forma, amenizando este conflito da família com a unidade. (Amarelo de Cádmio) Tendo em vista a realidade posta nos hospitais notificadores do estado do Rio de Janeiro, muitas adversidades podem ser observadas e vivenciadas por aqueles que trabalham e são atendidos nesses locais. Falta de material humano, falta de infraestrutura logística e material são algumas das dificuldades que profissionais de saúde e familiares enfrentam na busca de um atendimento em saúde eficaz, equânime e integral como propõe o Sistema Único de Saúde Brasileiro.

DISCUSSÃO

(Não) Manejo de Situações Difíceis - “Não Sei, Nunca Parei para Pensar Nisso” Esta categoria surgiu da fala de um sujeito que informou não ter se deparado com este questionamento anteriormente, por isso não havia parado para refletir acerca deste assunto, o que traduz a dificuldade que alguns sujeitos evidenciaram em fazer o exercício de olharem para seus próprios mecanismos de enfrentamento e de manejo das situações, não somente as difíceis.

O hospital notificador representou o reduto das situações difíceis vivenciadas pelos coordenadores avançados em transplantes. Por meio da linguagem que caracteriza a relação do ser com o mundo, diferenciando-o de todos os demais seres vivos, foi possível conhecer a tradição do preparo emocional dos profissionais que realizam a entrevista familiar para doação de órgãos. Gadamer (2008) afirma que a linguagem caracteriza a relação do Ser com o mundo, diferenciando-o de todos os demais seres vivos. O ambiente inadequado, a não-formação específica e a má assistência formam uma tríade reforçada por outros estudos que citam o local da entrevista, a assistência prestada ao potencial doador e aos familiares (Santos e Massarollo, 2011), e a necessidade de capacitação profissional para conhecer, identificar e lidar com fatores que facilitam ou dificultam o diálogo com os familiares (Santos, Massarollo, e Moraes, 2012), como aspectos dificultadores do desenvolvimento da entrevista familiar. Ao trazerem em suas falas estas situações, os participantes, representantes do Ser, tornam-se livres face ao mundo que os circundam (Gadamer, 2008), pois seus relatos permitem abertura para interpretá-los. Desta maneira, revelam ideias e situações empoderados de um conhecimento pertencente ao seu universo, que constitui parte do mundo. Sobre isso o Guía de buenas prácticas en el proceso de donación de órganos (Organización Nacional De Trasplantes [ONT], 2011) enfatiza dentre outras questões, a necessidade de uma formação específica em Comunicação de Más Notícias e a promoção de um atendimento humanitário e respeitoso aos familiares, o que reforça a relevância destes elementos na composição do trabalho de doação. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 73


Desta forma, estabelecer uma assistência adequada durante a internação, somada ao esclarecimento do que é a morte encefálica antes da solicitação da doação, adotar uma postura sensível do entrevistador de modo que este promova o acolhimento da família e a utilização do tempo necessário na abordagem familiar são entendidos como aspectos favoráveis a doação (Kesselring, Kainz, & Kiss, 2007) e podem ser colocados em prática para que os obstáculos destacados sejam transpostos. Outros aspectos que auxiliam na promoção da saúde mental dos profissionais, são que: devem ser adotadas pelos estabelecimentos de saúde políticas que estejam voltadas para a melhoria da qualidade de vida e de saúde física e mental dos trabalhadores e que busquem adaptar o trabalhador aos esforços no trabalho (Rodrigues, Freitas, Assunção, Bassi, e Medeiros, 2013). Quanto aos manejos das situações observadas foi possível observar naquele relacionado a conduta do entrevistador que alguns dos coordenadores avançados em transplantes, traçam um objetivo para além da situação vivenciada na entrevista que é de pensar no receptor e nos benefícios que aquela doação trará para outra (s) família (s). Com isso, veem uma espécie de justificativa benevolente na ação implementada, o que lhes fortalece no enfrentamento das situações difíceis. A este respeito, estudo com profissionais de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) revela que os significados do trabalho estão atrelados à contribuição social e a responsabilidade e/ ou troca. Afirma que, quando o profissional de saúde atende a pacientes que verdadeiramente necessitam de assistência, é algo visto positivamente. Desta maneira, a assistência em saúde, em alguns casos, se mostra como fonte de auxílio à manutenção da saúde mental, podendo se configurar como um fator de promoção à saúde mental (Silva et al., 2015; Baasch e Laner, 2011). Nesta linha, o profissional percebe que seu trabalho é extremamente significativo, por estar fazendo um bem, algo bom, que pode gerar vidas (Lima, 2013) e isso o possibilita um feedback positivo em relação ao complexo trabalho que é realizado no processo de doação de órgãos. O retorno positivo quanto às investidas laborais o motiva, fazendo-o acreditar mais no processo e também em si mesmo, o que corrobora para a manutenção de sua saúde mental (Fonseca e Tavares, 2014). Junto a isso, nos manejos relacionados aos aspectos emocionais, estes sujeitos procuram respeitar a decisão familiar se disponibilizando a ouvi-los e, neste momento, estes profissionais recebem despejos de tensões, frustrações, insatisfações dos familiares, principalmente se o atendimento na unidade notificadora não foi satisfatório. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 74

Desta forma, o contato com familiares nesta situação traz mais cargas emocionais aos entrevistadores que precisam lançar mão de, além da escuta terapêutica, alguns dos cuidados caritativos como os propostos por Jean Watson, ao fazerem uso do seu sistema de valores humanísticos e altruísticos, da sensibilidade para si e para os outros, precisando ainda desenvolver as relações de auxílio, confiança, cuidado com os familiares e neste contexto, expressar seus sentimentos e emoções, positivas e negativas quanto a esta situação (Watson, 1994). Outro ponto a se destacar neste tipo de manejo, é a relação de abafamento emocional travestida na expressão de profissionalismo ao lidar com os familiares, ao se afirmar que para se passar uma sensação de segurança é preciso que o profissional não se permita ser emotivo. Seguindo este tipo de relação com as emoções, soma-se a expressão utilizada “Não sei, nunca parei para pensar nisso” que demonstra que aspectos relacionados ao olhar para si, auto compreensão e atenção as reações emocionais não são postos em prática. A respeito destes dois últimos modos de enfrentar/lidar com as próprias emoções, Casassus (2009) explana que a pessoa que não reconhece a emoção ou o estado de ânimo em que se está ou tem uma vaga consciência dele, que se sente mal e não se dá conta, sendo irritável, pessimista ou desanimada sem assumir responsabilidade por esse estado, achando que o mundo e a vida são assim, é denominada como Incompetente Emocional. Este conceito representa um sinal de pouco contato consigo mesmo/autoconhecimento. O autor traz que a Educação Emocional (Casassus, 2009) essencialmente é um movimento de autoconhecimento e auto concessão emocional, por isso ao agir em favor de suas emoções reconhecendo-as e ventilando-as, o profissional se permite, a partir disso, se entender e se respeitar, agindo assim, melhor e mais assertivamente diante da situação difícil, o que o auxilia na manutenção de sua saúde mental (Fonseca e Tavares, 2015), tendo a possibilidade de retomar sua atividade mais firme e seguro. No manejo relacionado aos familiares os coordenadores avançados percebem os parentes como um agente complementar às informações oferecidas pela unidade notificadora. É como se fossem uma espécie de raio-x do atendimento oferecido pelo hospital em que se encontra o possível doador e também de seu próprio desempenho laboral. Indicam ainda que uma informação desencontrada ou oferecida num momento anterior ao que deveria ser declarado, pode ser fatal para o aceite ou não, dos familiares à doação.


Portanto, falar da doação antes do protocolo de avaliação de morte encefálica ser fechado, por exemplo, pode dar desde esperanças de doação aos familiares - o que pode não se concretizar caso o protocolo não confirme a morte encefálica ou o doador faça uma parada cardíaca neste ínterim – até criar a sensação de revolta nos mesmos, pois seria a antecipação do quadro de óbito, sem as devidas comprovações clínicas. Assim, como afirma o Guía de buenas prácticas en el proceso de donación de órganos (ONT, 2011) é imprescindível a informação de comunicação das más notícias ser transmitida para as equipes que lidarão com os casos de possíveis e potenciais doadores. Mas, para além da formação técnica, é preciso que os profissionais também tenham sensibilidade, empatia, escuta sensível, promovam o acolhimento dos familiares (Silva et al., 2015). Este fato não somente mudaria os aceites ou negativas familiares à doação, mas deixaria as equipes mais seguras e bem informadas quanto aos passos da doação e aos momentos mais oportunos de acessar os parentes. Por fim, no manejo que lança mão dos instrumentos próprios de enfrentamento foi possível observar o quanto estes profissionais usam da diplomacia ao dialogarem com familiares não satisfeitos com o atendimento oferecido pela unidade notificadora ou mesmo aqueles que não aceitam ou entendem o diagnóstico de morte encefálica (Torres e Lage, 2013), situação comumente vivenciada por quem realiza a entrevista. A estratégia diplomática relacional busca dirimir o desgaste e os conflitos, seja com os parentes ou com a equipe que oferece um mau atendimento. Os participantes demonstram com isso, fazerem uso da tradição pensada por Gadamer (2008), pois utilizam elementos de suas reservas emocionais e estratégias para lidarem com o outro e, muitas vezes, tais elementos são representados de ações e emoções inconscientes. Neste sentido, Gadamer (2008) afirma ainda que a existência do Ser se dá em um horizonte experiencial que contém concomitantemente a condicionalidade da finitude humana, a tradição constituída pelo contexto sócio-histórico e a incondicionalidade da abertura do Ser. CONCLUSÃO Embora o papel das unidades notificadoras seja de grande relevância, pois é neles que são identificados os possíveis doadores, questões como as que emergiram nesse estudo, que envolvem a falta de um ambiente reservado para a realização das entrevistas familiares, equipe acolhedora e profissionais capacitados, representam obstáculos a serem transpostos pelo país que possui o maior sistema público de transplantes do mundo

(Portal Brasil, 2015). Os manejos das situações difíceis trazidas pelos participantes, demonstraram que estes usam grande parte de recursos não somente técnicos, mas principalmente, próprios/subjetivos de enfrentamento, estando a relação com as emoções em destaque, seja com os familiares do potencial doador, seja com a equipe da unidade notificadora ou mesmo consigo mesmos na atividade da entrevista familiar. Deste modo, é relevante atentar para a formação/educação emocional destes profissionais que lidam frequentemente com dilemas morais e que enfrentam em suas realidades laborais constantes desafios em prol da causa da doação de órgãos. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA A promoção do cuidado emocional dos coordenadores avançados em transplantes, pode impactar não somente na qualidade das entrevistas familiares, aumentando a possibilidade do aceite para doação de órgãos, mas também pode valorizar pequenos enfrentamentos e manejos que guardam significação positiva para o profissional, influenciando diretamente em seu autoconhecimento e manutenção de sua saúde mental. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Baasch, D., e Laner, A. S. (2011). Os significados do trabalho em unidades de terapia intensiva de dois hospitais brasileiros. Ciência & Saúde Coletiva, 16(Suppl. 1), 1097-1105. Disponível em http://www. scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141381232011000700041&lng=en Casassus, J. (2009). Fundamentos da educação emocional. Brasília: UNESCO, Liber Livro Editora. Cuiabano, R. S. (2010). Morte encefálica no contexto da doação de órgãos. Cuiabá, Mato Grosso. Decreto n° 2268/97. Regulamenta a Lei nº 9.434, de 4 de fevereiro de 1997, que dispõe sobre a remoção de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fim de transplante e tratamento, e dá outras providências. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1997/d2268.htm Fonseca, P. I. M. N., e Tavares, C. M. M. (2015). O manejo das emoções dos coordenadores em transplantes na realização da entrevista familiar para doação de órgãos. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe. 2), 39-44. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 75


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Artigo de Investigação

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0145

12 PERFIL

MOTIVACIONAL E DEMOGRÁFICO MESTRADO ACADÊMICO E PROFISSIONAL1

DOS

ALUNOS

DO

| Rejane Ferreira2; Claudia Tavares3 ; Gabriela dos Santos4; Letycia Manhães5; Fernanda Marcondes6; Taísa Felippe7 |

RESUMO CONTEXTO: O curso de mestrado em enfermagem tem contribuido para o avanço da profissão ao longo dos seus 40 anos, devido à alta produção científica. OBJETIVO: Conhecer o perfil dos alunos de mestrado acadêmico e profissional do estado do Rio de Janeiro, e suas motivações para realizar o mestrado. METODOLOGIA: Pesquisa quantitativa, baseada em dados primários obtidos através da aplicação de questionário sociodemográfico aos alunos regulares matriculados nos programas de mestrado em enfermagem das universidades públicas do estado do Rio de Janeiro. RESULTADOS: Verificou-se que os alunos mais jovens de idade e de profissão optam pelo mestrado acadêmico, enquanto que o oposto opta pelo mestrado profissional. A motivação dos alunos esta ligada a busca de novos conhecimentos e qualificação para melhorar a atuação tanto na prática assistêncial, quanto na docência em saúde. Foi constatado que o incentivo precoce às atividades acadêmicas durante a graduação contribui positivamente na motivação do aluno para ingressar no mestrado. CONCLUSÕES: O perfil e as motivações que levam os alunos a ingressarem nas duas modalidades de mestrado – acadêmico e profissional, são bem características e encontram correspondência com a proposta de cada curso. PALAVRAS-CHAVE: Educação de pós-graduação em enfermagem; Motivação; Enfermeiras

RESUMEN

ABSTRACT

“Perfil motivacional y demográfico del estudiante de master académico y professional”

“Motivational and demographical profile of academic and professional master students”

CONTEXTO: El Máster en enfermería ha contribuido al avance de la profesión a lo largo de sus 40 años, debido a la intensa producción científica. OBJETIVO: Conocer el perfil de los estudiantes de máster académico y profesional en el estado de Río de Janeiro, y sus motivaciones para ingresar en dichos másters. METODOLOGÍA: La investigación cuantitativa, basada en datos primarios obtenidos mediante la aplicación del cuestionario socio demográfico de los estudiantes regulares inscritos en programas de máster en enfermería en las universidades públicas en el estado de Río de Janeiro. RESULTADOS: Se concluyó que los estudiantes más jóvenes y con menor experiencia profesional eligen el máster académico, mientras que lo contrario opta por el máster profesional. La motivación de los estudiantes está vinculada a la búsqueda de nuevos conocimientos y habilidades para mejorar el rendimiento tanto en la práctica de atención, como la enseñanza de la salud. Se ha encontrado que los principios de fomento de las actividades académicas durante la graduación contribuyen positivamente a la motivación del estudiante para participar en los másteres. CONCLUSIONES: El perfil y los motivos que llevan a los estudiantes a frecuentar los dos tipos de maestro - académico y profesional, son muy característicos y se hacen coincidir con la propuesta de cada curso.

BACKGROUND: The Master’s degree in nursing has contributed to the advancement of the profession throughout its 40 years, due to the high amount of scientific production. OBJECTIVE: Getting to know the profile of academic and professional master’s students in the state of Rio de Janeiro, and their motivations for taking the Master. METHODS: Quantitative research, based on primary data obtained through the application of sociodemographic questionnaire to regular students enrolled in master’s programs in nursing of public universities in the state of Rio de Janeiro. RESULTS: It was found that younger students and with less professional experience choose the academic master, while the opposite opt for a professional master. The students’ motivation is linked to the quest for knowledge and skills to improve performance both in the care practice, and in the health teaching. It has been found that early encouragement of academic activities during graduation contributes positively to the student’s motivation to enrol for the Masters. CONCLUSIONS: The profile and the motivations that lead students to join the two types of master - academic and professional, are very characteristic and match with the proposal of each course.

DESCRIPTORES: Educación Graduado en Enfermería; Motivación; Enfermeras

Submetido em 18-04-2016 Aceite em 17-06-2016

KEYWORDS: Education, nursing, graduate; Motivation; Nurses

1 Este artigo foi extraído da dissertação intitulada “A motivação do enfermeiro para a realização do mestrado e sua relação com o desenvolvimento profissional”, 2015. 2 Enfermeira; Doutoranda em Ciências do Cuidado em Saúde na Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ, Brasil, rejane_eleuterio@hotmail.com 3 Enfermeira; Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Pós-Doutorada pela Universidade de São Paulo; Professora Titular na Universidade Federal Fluminense, 24020-091 Niterói, RJ, Brasil, claudiamarauff@gmail.com 4 Enfermeira; Doutoranda pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Mestre em Ciências do Cuidado em Saúde pela Univ. Federal Fluminense, sisan.gabi@hotmail.com 5 Enfermeira; Mestre em Ciências do Cuidado em Saúde pela Universidade Federal Fluminense, Docente da Faculdade São Fidélis, RJ, Brasil, letyciasardinha@gmail.com 6 Enfermeira; Mestre em Ciências do Cuidado em Saúde pela Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ, Brasil, fe_laxe@yahoo.com.br 7 Enfermeira; Mestre em Ciências do Cuidado em Saúde pela Univ. Federal Fluminense, Docente de Enfermagem na Universidade do Grande Rio, taisadiva@gmail.com Citação: Ferreira, R., Tavares, C., Santos, G., Manhães, L., Marcondes, F., & Felippe, T. (2016). Perfil demográfico e motivacional dos alunos do mestrado acadêmico e profissional. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe. 4), 77-84. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 77


INTRODUÇÃO A pós-graduação stricto sensu é de natureza acadêmica e de pesquisa, compreende programas de mestrado e doutorado com obtenção de diploma na conclusão do curso (Parecer nº 977/65). Os cursos stricto sensu objetivam a produção de dissertações e teses que formulem e comprovem teorias novas para o entendimento de fatos e de suas relações (Lei nº 9394/96). Na América Latina a pós-graduação Stricto Sensu em enfermagem surgiu em 1969 com a criação dos primeiros mestrados acadêmicos na Venezuela e Colômbia (Scochi et al., 2013). Com intuito de qualificar enfermeiros para sua inserção no mercado de trabalho, em instituições de ensino, de pesquisa ou de prestação direta de serviços, iniciou no Brasil em 1972, o primeiro mestrado em enfermagem fundamental, na Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O doutorado surgiu na década seguinte na Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP) em parceria com a Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (Erdmann, Fernandes, e Teixeira, 2011). O primeiro curso de mestrado profissional em enfermagem, teve início em 2004, na Escola de Enfermagem Aurora Afonso Costa (EEAAC), da Universidade Federal Fluminense (UFF) (Silvino, 2013). Os programas de pós-graduação stricto sensu em enfermagem no Brasil no auge dos seus 40 anos permanecem em expansão. O impacto desse progresso pode ser percebido no aumento gradual de cursos e na titulação de mestres e doutores, comparados nos últimos anos, assim como o crescimento das produções científicas indexados nas bases de dados nacionais e internacionais (Monteiro et al., 2012). Os avanços da pesquisa científica vêm sendo concretizados quase que totalmente nos espaços ou ambientes onde se efetivam os cursos de mestrado acadêmico, mestrado profissional e doutorado. Estes são produzidos em meio às atividades acadêmicas, centradas nos grupos de pesquisa, que integram alunos de todos os níveis de formação, da graduação ao estágio pós-doutoral, com vínculos e procedências diversas (Scochi et al., 2013). Pesquisa realizada por Monteiro et al. (2012), mostra que a motivação para cursar uma pós graduação stricto sensu deve começar ainda na graduação. Segundo ele, os enfermeiros que receberam, no decorrer da graduação, incentivos para a pesquisa, sendo bolsistas ou voluntários, tendo participado de monitoria e projetos extensionistas, com identificação de situações problemas e Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 78

objeto de estudo a serem investigados, são os que apresentam maior motivação para fazer a pós-graduação stricto sensu. Em contrapartida, o desconhecimento ou conhecimento limitado dos programas são fatores desmotivadores do interesse em investimento na formação continuada. Na enfermagem, a pós-graduação strictosensu além de contribuir com a qualificação dos profissionais para atuar na assistência em saúde e docência, colabora com a construção de novos conhecimentos e com a ampliação do horizonte profissional, pessoal e social do enfermeiro (Ferreira e Tavares, 2015). As questões referentes à motivação para o profissional investir em sua formação devem ser bem estudadas, pois a sociedade precisa de profissionais qualificados e atualizados. Vale ressaltar que o mestrado é o primeiro acesso do enfermeiro ao curso de pós-graduação stricto sensu, e também é o curso que antecede o doutorado . Sendo assim, o estudo tem como objetivo conhecer o perfil dos alunos de mestrado acadêmico e profissional do estado do Rio de Janeiro, e suas motivações para realizar o mestrado. METODOLOGIA Trata-se de uma investigação do tipo exploratória, de abordagem quantitativa, baseada em dados primários obtidos através da aplicação de questionário sociodemográfico, no mês de junho de 2014, aos alunos matriculados em três programas de Mestrado Profissional (MP) e quatro programas de Mestrado Acadêmico (MA) de escolas de enfermagem das universidades públicas do estado do Rio de Janeiro. Os sujeitos deste estudo foram os enfermeiros que cursam o mestrado nas quatro universidades públicas selecionadas. Como critério de inclusão no estudo estabeleceu-se: enfermeiros matriculados no curso de mestrado, que estivesse cursando entre o 1º ao 4º semestre, matriculados nas disciplinas obrigatórias no primeiro semestre de 2014. E como critério de exclusão: alunos com matrícula trancada, alunos ouvintes e profissionais não enfermeiro. O tamanho da população do estudo era N=340, sendo necessário um tamanho amostral ideal com erro amostral de N=150, erro máximo admitido cometer, de 0,08 (8%) com 95% de confiança. Baseando-se na amostragem aleatória estratificada por tipo de mestrado, ou seja, pelo total de alunos em cada programa de mestrado (acadêmico e profissional), o tamanho amostral ideal com erro amostral foi N=101 no mestrado acadêmico e N=49 no mestrado profissional. Foram aplicados 176 questionários: 126 nos alunos do (MA) e 50 nos alunos do (MP), superando a amostragem estatística para cada modalidade de mestrado.


Todos os questionários foram aproveitados. Os dados foram organizados em um banco de dados produzidos no Microsoft Office Excel 2007, processados e analisados de forma descritiva e de acordo com a literatura pertinente. As análises foram feitas no programa estatístico BioStat 5.3, utilizando o Teste Qui-quadrado de tendência linear, ao nível de significância estatística de 5% (p ≤ 0.05). Os resultados foram descritos e apresentados em forma de tabelas. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa sob o nº 695.428. RESULTADOS Perfil Demográfico O perfil dos alunos dos dois mestrados em enfermagem caracteriza-se por uma população em sua maioria do gênero feminino (85%) e que se declararam de característica étnico-racial branca (56%). Os enfermeiros solteiros mais jovens são alunos do mestrado acadêmico (MA), enquanto que os mais velhos e casados são do mestrado profissional (MP) (Tabela 1). Tabela 1 - Características Demográficas dos Enfermeiros que Cursam o Mestrado em Enfermagem. Brasil, 2015. (N = 150) DADOS PESSOAIS Mestrado Acadêmico (MA)

Mestrado Profissional (MP)

SEXO

SEXO

Feminino

Masculino

Feminino

Masculino

106 (72%)

20 (28%)

44 (88%)

6 (12%)

IDADE

IDADE

25 a 30 anos

35 a 40 anos

CARACTERÍSTICAS ÉTNICORACIAIS

CARACTERÍSTICAS ÉTNICORACIAIS

Branco

70 (56%)

Branco

28 (56%)

Negro

10 (8%)

Negro

3 (6%)

Pardo

44 (35%)

Pardo

19 (38%)

Não respondeu

2 (1%)

Não respondeu

-

ESTADO CIVIL Solteiro

73 (58%)

ESTADO CIVIL Solteiro

18 (36%)

Casado

40 (31%)

Casado

17 (34%)

Divorciado

6 (5%)

Divorciado

7 (14%)

Desquitado

1 (1%)

Desquitado

1 (2%)

Viúvo

1 (1%)

Viúvo

2 (4%)

União Estável

4 (3%)

União Estável

3 (6%)

Não respondeu

1 (1%)

Não respondeu

2 (4%)

Não

Sim

103 (18%)

28 (56%)

FILHOS Sim 23 (82%)

Total: 126

FILHOS Não 22 (44%) Total: 50

Características da Formação dos Alunos do Mestrado em Enfermagem Quanto à formação verificou-se que 3% dos alunos do MA concluiu mais de um curso de graduação, a maioria (64%) tem até cinco anos de formação, 81% concluiu um ou mais cursos de especialização e que mais da metade (55%) já foram alunos da instituição onde estão realizando o mestrado, sendo a UFF a instituição que mais tem ex-alunos cursando o mestrado acadêmico e profissional. No MP todos os alunos concluíram apenas um curso de graduação, 44% têm mais de 10 anos de formado, apenas um não cursou a especialização, 28% estudaram na mesma instituição onde estão realizando o mestrado e 40% são oriundos de instituição privada (Tabela 2). Tabela 2 - Características da Formação dos Enfermeiros que Cursam o Mestrado em Enfermagem. Brasil, 2015. (N = 150) FORMAÇÃO DOS PARTICIPANTES DA PESQUISA Mestrado Acadêmico (MA)

Mestrado Profissional (MP)

GRADUAÇÃO

GRADUAÇÃO

4 alunos 3% tem mais de uma graduação.

Todos têm apenas uma graduação.

TEMPO DE FORMAÇÃO

TEMPO DE FORMAÇÃO

Últimos 5 anos

81 (64%)

Últimos 5 anos

12 (24%)

Últimos 10 anos

26 (21%)

Últimos 10 anos

16 (32%)

Depois de 10 anos

19 (15%)

Depois de 10 anos

22 (44%)

ESPECIALIZAÇÃO

ESPECIALIZAÇÃO

Nenhuma

Um ou mais

Nenhuma

Um ou mais

24 (19%)

102 (81%)

1 (2%)

49 (98%)

EGRESSOS

EGRESSOS

Mesma instituição

Instituição privada

Mesma instituição

Instituição privada

69 (55%)

33 (26%)

14 (28%)

20 (40%)

Total: 126

Total: 50

No que diz respeito às atividades acadêmicas extracurriculares, os alunos do MA foram os que mais participaram - 21% de congresso, 16% de monitoria e outras modalidades de bolsa e 14% de grupo de pesquisa, projeto de extensão e estágio extracurricular. Já no MP a atividade mais freqüente foi congresso (31%), sendo que as demais atividades não passaram de 14%. Em relação aos alunos do MA 70% afirmaram que as atividades acadêmicas extracurriculares contribuíram muito ou totalmente para sua formação, enquanto que os alunos do MP ficaram divididos - metade deles disse que contribuiu muito ou totalmente e a outra afirma que contribuiu pouco ou nem um pouco.

Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 79


Vale, contudo, ressaltar, que os alunos do MA tiverem durante a graduação mais incentivo a participarem de atividades acadêmicas extracurriculares, com relevo as de iniciação científica que os alunos do MP e esse aspecto teve influencia direta na decisão de cursarem o mestrado. Características Empregatícias dos Alunos do Mestrado em Enfermagem No que diz respeito ao emprego, verificou-se que 24% dos alunos do (MA) não trabalham. Dos que trabalham, 43% em ambiente hospitalar, 3% em serviços de atenção básica, 20% no ensino e 10% exercem outras atividades. Já no (MP), todos trabalham, até mesmo porque esse é um critério para acesso aos programas de MP, 51% trabalham em hospitais, 9% em serviço de atenção básica, 30% no ensino e 10% exercem outras atividades. Quanto ao vínculo empregatício verificou-se que 31% dos alunos do (MA) trabalham com carteira assinada, 27% são concursados, 13% tem contrato temporário, 5% tem outros vínculos não informados e 24% não trabalham. No (MP) 67% do alunos são concursados, 29% trabalham com carteira assinada, 2% têm contrato temporário e 2% tem outros vínculos não informado. O salário mínimo no período da coleta era de 724,00 (setecentos e vinte quatro reais). No que se refere a renda, verificou-se que 28% dos alunos do (MA) ganham de 1 à 2 salários mínimos como enfermeiros, 33% ganham de 3 à 5 salários mínimos, 22% ganham de 5 à 8 salários mínimos e 9% ganham acima de 9 salários mínimos. Enquanto que os alunos do (MP) 4% ganham até 2 salários mínimos como enfermeiro, 20% ganham de 3 a 5 salários mínimos, 30% ganham de 5 a 8 salários mínimos e 36% ganham acima de 9 salários mínimos. Motivação para Ingressar no Curso de Mestrado Verificou-se que 22% dos alunos do MA buscam qualificação para o ensino em enfermagem e formação teórica para a pesquisa, e 21% qualificação para o mercado de trabalho. No MP, 22% buscam melhorar a atuação na atividade prática que exercem e 21% qualificação para o ensino de enfermagem. Quanto à motivação para realizar o mestrado, os alunos do MA declaram: capacitação para pesquisa (91%), ampliar conhecimento (87%), valorização profissional através da cientificidade da profissão (85%), desejo de ser docente e realizar o doutorado (85%). Já os alunos do MP, ampliar conhecimento (87%), aprimoramento prático (86%), necessidade de melhorar a qualidade profissional (76%) e valorização profissional através da cientificidade da profissão (74%). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 80

As motivações menos citadas foram: Prestígio social por 40% dos alunos do (MA) e 26% do (MP), Status por 44% dos alunos do (MA) e 30% do (MP) e recompensa financeira por 63% dos alunos do (MA) e 48% do (MP). Foi verificado quais são os incentivos para manter-se no mestrado e identificou-se que 72% dos alunos do (MA) e 88% dos alunos do (MP) utilizam recurso financeiros próprios. As bolsas de estudos são oferecidas apenas para alunos do (MA). Nesse estudo 27% dos alunos recebem esse incentivo. O convênio entre a instituição de trabalho e de ensino tem feito parte apenas dos programas de MP, porem apenas 8% dos alunos estudam por meio de convênio. O incentivo financeiro da instituição onde trabalham, tem contemplado apenas 1% dos alunos do (MA) e 4% dos alunos do (MP). O apoio emocional da família é o maior incentivo que os mestrando recebem para manter-se no mestrado, declarados por 54% dos participantes, apenas 22% recebe da instituição onde trabalha liberação de horário para estudo e 15% enfrenta dificuldade financeira ou social para manter-se no mestrado. DISCUSSÃO O estudo constatou que a presença de alunos do sexo feminino ainda é muito forte nos curso de enfermagem, ou seja, esta característica é um reflexo histórico da profissão que é exercida majoritariamente por mulheres (Camelo, Silva, Laus, e Chaves, 2013). Desta forma, a escolha do tipo de mestrado não está relacionada ao gênero dos alunos. Esse fato foi verificado através de teste do Qui-Quadrado com (p) = 0,808. Quanto a faixa etária da população estudada, os dados conferem com o perfil dos enfermeiros cadastrados no Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), no qual a categoria apresenta a maior concentração de profissionais na faixa etária de 26 a 35 anos (COFEN, 2011). Os resultados estatísticos indicam que os alunos mais jovens ingressam em maior número no (MA), enquanto os mais velhos buscam o (MP). O comportamento analisado é comprovado pelo teste do Qui-Quadrado com p<0,05. No que se refere às características étnico-raciais dos mestrandos, utilizando-se a classificação usada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), verificou-se que 43% dos alunos se declararam negros, pardos e indígenas, sendo que apenas 7% dos alunos são negros.


A última pesquisa de características étnico-raciais da população realizada pelo IBGE constatou um aumento expressivo da parcela da população que espontaneamente declara a própria etnia como negra ou parda. Ou seja, nas últimas décadas houve uma maior valorização da negritude, refletida na mudança das declarações (IBGE, 2013). Tal valorização se fez retratar nas respostas dos mestrandos entrevistados quanto às questões relativas à declaração de raça. No entanto, este resultado pode ser um reflexo do sistema de cotas, uma lei recentemente implementada nos processos seletivos para os cursos de graduação. A Lei nº 12711/12 garante a reserva de 50% das matrículas por curso e turno, nas 59 universidades federais e 38 institutos federais de educação, ciência e tecnologia. As vagas reservadas às cotas serão subdivididas, metade para estudantes de escolas públicas - com renda familiar bruta igual ou inferior a um salário mínimo e meio, e metade para estudantes da rede pública com renda familiar superior a um salário mínimo e meio. Os demais 50% das vagas permanecem para ampla concorrência (Lei nº 12711/12). A motivação do enfermeiro para cursar a pós-graduação stricto sensu pode começar por meio de uma inserção precoce dos graduandos em programas de iniciação científica, monitoria e projetos em grupo de pesquisa (Monteiro et al., 2012). E no presente estudo o teste Qui-Quadrado revelou significância na relação dos alunos cursarem o mestrado com o fato de terem realizado durante a graduação atividades acadêmicas como projeto de extensão e grupo de pesquisa, com (p) = 0,0008. A participação dos alunos nas atividades acadêmicas, ajuda-os a ter uma visão do curso de mestrado, ou seja o aluno não será desmotivado por pouco ou falta de conhecimento do curso, assim como terão conteúdos científicos que ajudaram na trajetória de construção de conhecimento durante o mestrado. Os alunos que comentaram mais vezes sobre sua participação em atividades acadêmicas durante a graduação como uma colaboração parcial ou total para seu ingresso na pós-graduação stricto sensu, foram os alunos do mestrado acadêmico, e esses são oriundos de universidades públicas. As universidades públicas oferecem mais subsídios para que os alunos exerçam, durante o período da graduação, atividades de iniciação científica, enquanto que as universidades privadas nem sempre estabelecem esses parâmetros no conteúdo curricular, sendo os trabalhos de conclusão de curso (TCC), basicamente o único e último ensaio científico no curso de graduação (Ferreira, Tavares, Santos, e Fonseca, 2015).

As universidades públicas, muitas das vezes, além promover estímulos aos alunos às atividades acadêmicas de pesquisa durante a graduação, incentiva-os a realizar o mestrado como podemos observar nesse estudo, no qual verificou que é significativa a relação de ex-alunos realizando mestrado na instituição, conforme o resultado obtido no teste do Qui-Quadrado com (p) = 0,0011. A UFF foi a instituição com maior número de mestrandos (MA e do MP) graduados na própria instituição, representando relevância estatística, quando aplicado o teste Qui-quadrado, onde (p) = 0,0369. Este resultado relevante sob a ótica estatística mostra que a UFF é uma instituição diferenciada das demais citadas por este estudo. Uma das razões apontadas como origem e causa dos dados conclusivos é a existência do programa Altos Estudos, que promove a integração entre os cursos de graduação e a pós-graduação, acelerando e tornando viável a formação de alto nível. O programa Altos Estudos possibilita que os estudantes experimentem o ambiente de pesquisa e pós-graduação inserindo-o no Curso de Mestrado durante a sua graduação; permitir a este estudante reduzir o tempo de conclusão da graduação e da pós-graduação stricto sensu, através de uma trajetória curricular avançada e integradora; contribuir para o desenvolvimento de competências gerais, específicas e transversais necessárias a sua formação e projeção profissional e como cidadão; propiciar a este aluno um ambiente estimulador que favoreça a manifestação de suas altas habilidades (UFF, 2014). Mostrou relevância com resultado do teste Qui-Quadrado com (p) = 0,0001, a relação dos alunos do mestrado acadêmico serem mais jovens na profissão e terem uma renda mais baixa, assim como a relação dos alunos do mestrado profissional serem mais experientes e com uma renda maior. Verificou-se que 28% dos alunos do (MA) ganham menos que o piso salarial, estabelecido pela lei n.º 6983/15, que instituiu o piso salarial no âmbito do estado do Rio de Janeiro, para a categoria de 2.432,72 (dois mil, quatrocentos e trinta e dois reias e setenta e dois centavos). Enquanto que apenas 4% dos alunos do (MP) ganham abaixo do piso (Lei nº 6983/15). Bem como, verificou-se que 63% dos alunos do (MA) buscarem recompensa financeira. Para Cunha, Junior, e Martins, (2010) o investimento na formação representa enorme valor para o próprio sujeito, para o mercado e para a comunidade, que retribuiriam com maior remuneração, mobilidade, diferenciação e estabilidade profissional, status, prestígio, respeitabilidade e reconhecimento, dentre outros. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 81


Porém no estudo esses não foram os principais fatores que motivam o enfermeiro a ingressar no mestrado. Apesar do valor que o profissional com título acadêmicos tem no mercado de trabalho, observou-se no estudo que há pouco incentivo das instituições empregatícias para os funcionários realizarem mestrado. A titulação é valorizada no processo seletivo para admissão do profissional, porém o incentivo para o funcionário fazer uma pós-graduação stricto sensu ainda não é comum no país, principalmente na área da enfermagem. As instituições que trabalham com prestação de serviços na área da saúde, tem como meta a produtividade, sendo seus investimentos focados em equipamentos modernos reforma de estrutura física, ou seja estão investindo em tecnologia (Bezerra, 2010), porem a Tecnologia é, também, “um conjunto de conhecimentos (científicos e empíricos) sistematizados, em constante processo de inovação, os quais são aplicados pelo profissional de enfermagem em seu processo de trabalho, para melhorar a qualidade de cuidado e a cientificidade da profissão (Koerich et al., 2006). Ou seja, apesar de todo o reconhecimento do profissional com título de mestre, as instituições empregatícias não tem muita cultura de incentivo ao estudo, o que desmotiva os profissionais a estudar. O que predominou dentre as motivações dos alunos para realizar o mestrado em enfermagem foi o desejo de ampliar o conhecimento, seja para capacitação para a pesquisa e exercer a docência dito pelos alunos do (MA) quanto para aprimorar a prática e a valorização profissional através da cientificidade da profissão dito pelos alunos do (MP). A característica mais forte do mestrado profissional é a possibilidade de aproximar a pesquisa do exercício profissional. O curso é dirigido à capacitação de profissionais mediante o estudo de técnicas, processos, ou temáticas por meio da incorporação do método científico, habilitando o profissional para atuar em atividades técnico-científicas e de inovação que atendam aos avanços da profissão (Tavares e Silva, 2014). Tal ênfase nos estudos e técnicas, diretamente voltadas ao desempenho de um alto nível de qualificação profissional, é a única diferença em relação ao acadêmico (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, 2015).

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CONCLUSÃO O perfil dos alunos do MA e do MP é bem distinto. Os alunos mais jovens de idade e de profissão optam pelo mestrado acadêmico, enquanto o oposto opta pelo mestrado profissional. A principal motivação dos enfermeiros cursarem o mestrado foi a busca por novos conhecimentos, seja para o aprimoramento da prática dos alunos do (MP), ou para qualificá-los para a docência, quando se trata de alunos do (MA). Essa motivação vem desde a graduação, quando projetos de pesquisa proporcionam a inserção de alunos, como bolsistas, em pesquisas de extensão ou de iniciação científica, também pode ser por desenvolvimento de atividades como monitorias, sem esquecer o trabalho final de curso, mas conhecido como TCC, entre esses e outros encorajamentos à pesquisa que encontramos a motivação para o ingresso ao programa stricto sensu. Os enfermeiros que tiveram mais incentivos durante a graduação para a realização de atividades extracurriculares optaram pelo mestrado acadêmico, almejando inclusive realizar o doutorado na sequência do mestrado, enquanto que os alunos que tiveram uma trajetória profissional dedicada à prática profissional optam pelo mestrado profissional. Constata-se assim que os interesses dos alunos vão ao encontro das propostas de cada curso. Este estudo apontou o perfil dos alunos de mestrado acadêmico e profissional do estado do Rio de Janeiro, e suas motivações para realizar o mestrado. Porém, as instituições coparticipantes foram da esfera pública, o que caracteriza uma limitação desta pesquisa, por sua vez, esta limitação possibilita novas pesquisa sobre esta temática, entretanto, com uma nova lente crítica que envolva as instituições da rede privada, o que permitirá a produção de novos conhecimentos. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA O curso de mestrado tem contribuído para a formação de enfermeiros mais críticos e reflexivos, que buscam no curso soluções para os problemas relacionados à prática profissional, como é o caso dos alunos do mestrado profissional, assim como qualificação para a docência, como é o caso dos alunos do mestrado acadêmico. Todo o conhecimento construído no mestrado implica em uma prática assistencial e educacional qualificada e cientificizada.


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Artigo de Investigação

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0146

13 PROCESSOS FORMATIVOS DA DOCÊNCIA EM SAÚDE MENTAL NAS

GRADUAÇÕES DE ENFERMAGEM E MEDICINA | Josenaide dos Santos1; Débora Lino2; Erika Vasconcellos3; Rozemere de Souza4 |

RESUMO CONTEXTO: Este estudo surgiu de inquietações sobre processos formativos na docência dos cursos de Medicina e de Enfermagem com a temática saúde mental, convergentes com os princípios da reforma psiquiátrica, haja vista serem as profissões de frente do cuidado na Atenção Psicossocial. Busca contribuir com o debate sobre a formação comprometida com a produção de práticas pedagógicas profícuas no contexto da saúde mental, e de perspectivas mais críticas em relação às práticas desenvolvidas nos cursos. OBJETIVO: Conhecer processos formativos da docência em saúde mental nas graduações de Enfermagem e Medicina de instituições de ensino superior públicas no estado da Bahia, Brasil. METODOLOGIA: Pesquisa qualitativa, realizada com nove docentes dos cursos de Enfermagem e Medicina de cinco universidades públicas do estado da Bahia, Brasil. Os dados foram coletados mediante entrevista semi-estruturada, no período de março a julho de 2008, e analisados a partir do discurso do sujeito coletivo, seguido de análise temática. RESULTADOS E CONCLUSÕES: Dos conteúdos emergentes das entrevistas foram formuladas ideias centrais representadas pelos seguintes temas: percepções sobre a reforma psiquiátrica; trajetórias de preconceitos; formação a partir de atividades práticas; metodologia problematizadora como eixo de formação em saúde mental; interdisciplinaridade como estratégia de ensino e dispositivo de inter-relacionamento. Os discursos produzidos mostraram que a formação de enfermeiros e de médicos em saúde mental requer investimento e compreensão aprofundada da reforma psiquiátrica, tornando-se inevitável para sua eficiência a articulação de vários saberes e a integração ensino, pesquisa, extensão e serviços. PALAVRAS-CHAVE: Ensino superior; Saúde mental; Docentes de enfermagem; Docentes de medicina

RESUMEN

ABSTRACT

“Procesos formadores de docencia en salud mental en los cursos de grado en enfermería y medicina”

“Teaching training processes in mental health for nursing and medical degrees”

CONTEXTO: Este trabajo cuestionó sobre cómo los docentes de los cursos de enfermería y medicina de universidades públicas perciben la salud mental, ya que se tratan de profesiones relevantes para el cuidado psicosocial. Se busca contribuir con el debate sobre la formación comprometida con la producción de prácticas pedagógicas y de cuidado innovadoras en salud mental. OBJECTIVO: Conocer los procesos formativos de la enseñanza en materia de salud mental en la Facultad de Enfermería y Medicina de las instituciones públicas de educación superior en el estado de Bahia, Brasil. METODOLOGÍA: Estudio cualitativo realizado con nueve docentes de los cursos de enfermería y medicina de cinco universidades del estado de Bahia en Brasil. Los datos fueron recogidos mediante entrevista semi-estructurada, entre marzo y julio de 2008 y analizados a partir del discurso del sujeto colectivo, seguido de análisis temática. RESULTADOS Y CONCLUSIONES: A partir de los contenidos obtenidos en las entrevistas, se formularon ideas centrales representadas por los siguientes temas: percepciones sobre la reforma psiquiátrica; trayectorias de los prejuicios; formación a partir de actividades prácticas; método basado en problemas, como eje en la formación en salud mental; interdisciplinaridad como estrategia de enseñanza y dispositivo de interrelacionamiento. Los discursos producidos demuestran que la educación de enfermeros y médicos en salud mental requiere inversiones y profunda comprensión de la reforma psiquiátrica, se hace inevitable para su eficiencia la articulación de varios saberes y la integración de enseñanza, investigación, extensión y servicios.

BACKGROUND: This study emerged from concerns over teaching practices in mental health education within the psychiatric reform framework. We investigate the vision of nursing and medicine professors in public universities on mental health, since these are important professions in what psychosocial care is concerned. We aim to enrich the debate about engaged education in the production of useful practices in the context of mental health as well as stronger critical perspectives over the practices developed in the courses. OBJECTIVE: To understand the mental health teaching training processes in the undergraduate Nursing and Medicine courses of public higher education institutions in the state of Bahia, Brazil. METHODS: Qualitative research performed with nine nursing and medicine professors from five public universities from the state of Bahia in Brazil. Data were collected by means of semi-structured interviews between March and July 2008, and analysed through the discourse of the collective subject, followed by theme analysis. RESULTS AND CONCLUSIONS: Some main ideas were outlined from the contents and are represented by the following topics: perceptions about psychiatric reform; evolution of prejudices; activity-based education; problem-based methodology as an axis in mental health education; interdisciplinarity as a teaching strategy and inter-relationship tool. The discourses produced pinpoint that the education of nurses and medical practitioners in mental health demands investment and deep knowledge of the psychiatric reform. The connection of different types of knowledge and the fusion of teaching, research, extended learning and services are paramount to its efficiency.

DESCRIPTORES: Estudiantes de enfermería; Enseñanza clínica; Trabajo por turnos; Insomnio

KEYWORDS: Higher education; Mental health; Nursing faculty; Medical faculty Submetido em 18-04-2016 Aceite em 10-09-2016

1 Psicóloga e Terapeuta Ocupacional; Doutora em Ciências da Saúde; Professora Adjunta da Universidade de Brasília, Faculdade de Ciências da Saúde, Ceilândia, Brasília, DF, Brasil, josenaidepsi@gmail.com 2 Psicóloga; Mestre em Enfermagem e Saúde Coletiva; Professora da Faculdade Madre Thaís, 45650-015 Ilhéus - BA, Brasil, floreslino@ig.com.br 3 Psicóloga; Doutora em Ciências Médicas; Professora Adjunta da Universidade Estadual de Santa Cruz, 45662-900 Ilhéus - BA, Brasil, erika.a.vasconcellos@gmail.com 4 Enfermeira; Doutora em Enfermagem Psiquiátrica, Professora Titular (Plena) da Universidade Estadual de Santa Cruz, Ilhéus - BA, Brasil, rozemeresouza@ig.com.br Citação: Santos, J., Lino, D., Vasconcellos, E., & Souza, R. (2016). Processos formativos da docência em saúde mental nas graduações de enfermagem e medicina. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe. 4), 85-92. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 85


INTRODUÇÃO A formação em saúde mental exige mudanças nas estruturas burocratizadas, departamentalizadas e disciplinadas das nossas instituições universitárias. Estas devem ser substituídas por agir solidário, afetivo e transdisciplinar por parte dos docentes e discentes, processo que evitará formas estigmatizadas de atenção ao portador de sofrimento mental, para melhor produção de cuidado a partir do contexto da universidade. As mudanças na forma de cuidar dos indivíduos com transtorno mental requerem transformações na educação, sendo este um dos princípios da reforma psiquiátrica cujo pensamento estruturante tem, no direito do cidadão e na cidadania das pessoas com transtornos mentais, um dos maiores desafios. No Brasil, a reforma psiquiátrica provocou mudanças na atenção à saúde mental, a partir da lei 10.216/2002 e de conquistas, como espaços de discussões políticas, sociais e novas tecnologias de cuidado. Muitas instituições de ensino superior (IES) não estão indiferentes a esta movimentação, mesmo porque são as principais responsáveis pela formação de profissionais que implementam a reforma psiquiátrica nos variados dispositivos de cuidado de base comunitária. Exemplo disso foi a experiência de uso do teatro como ferramenta de ensino - aprendizagem na disciplina de saúde mental de uma IES pública, que resultou em experiência inovadora de produção, dentre outros ganhos, de autoconhecimento, de compartilhamento de saberes e de ressignificação da loucura (Aragão e Soares, 2015). Contudo, ainda se observam, no cotidiano das universidades, permanências do ensino de saúde mental centrado no modelo hospitalar, o que desafia a implementação de práticas pedagógicas e contextos inovadores, na formação de profissionais de saúde. Neste estudo, investigamos a percepção dos docentes dos cursos de Enfermagem e de Medicina de universidades públicas da Bahia a respeito do tema Saúde Mental, haja vista serem os cursos de formação das profissões de frente dos vários serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), especialmente, daqueles que compõem a Atenção Primária a Saúde, definidos como “porta de entrada” de todo o sistema de saúde. A RAPS, regulamentada pela Portaria de no 3088 do Ministério da Saúde (2011), preconiza o atendimento às pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de Crack, Álcool e Outras Drogas. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 86

Essa rede é formada por: Atenção Básica em Saúde, Atenção Psicossocial Especializada, Atenção de Urgência e Emergência, Atenção Residencial de Caráter Transitório, Atenção Hospitalar, Estratégias de Desinstitucionalização e Reabilitação Psicossocial. A diversificação desses cenários é uma estratégia para aproximar os cursos de Medicina e Enfermagem da vida cotidiana das pessoas e estimular olhares acadêmicos críticos voltados para os problemas reais da população. Assim, este estudo fundamentou-se na seguinte questão norteadora: Como ocorrem os processos formativos da docência em saúde mental nas graduações de Enfermagem e Medicina de instituições de nível superior públicas, no estado da Bahia, Brasil? Compreende-se o docente como protagonista da inovação dos processos de mudança do perfil profissional, e compartilha-se da ideia de que cabe ao mesmo agir para que o discente, dentre outros aspectos, “possa prover de saber, aprendendo a aprender a derrubar os muros que circundam a mentalidade que colocou no ostracismo dos tempos da Saúde Mental que mesmo reformada, tem algo de destruído” (Aragão e Soares, 2015, p. 63). Portanto, o estudo teve por objetivo: Conhecer processos formativos da docência em saúde mental nas graduações de Enfermagem e Medicina de instituições de ensino superior públicas no estado da Bahia, Brasil. Além disso, busca contribuir, de forma crítica, com o debate sobre a formação em saúde mental, imprescindível para os que estão comprometidos efetivamente com inovação das práticas pedagógicas e de cuidado à saúde. METODOLOGIA A pesquisa é parte dos resultados do estudo, intitulado “Construção social da aprendizagem em saúde mental e saúde da família”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB), fruto do Programa de Pesquisas Prioritárias para o Sistema Único de Saúde (PPPSUS). Foi desenvolvida a partir de uma parceria entre a Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e a Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, a partir da técnica de análise do discurso do sujeito coletivo (DSC), porque permite correlações do discurso individual com o da coletividade. DSC é uma técnica de tabulação de dados qualitativos, desenvolvido por Lefèvre e Lefèvre (2014) como método de construção do pensamento coletivo que visa revelar como as pessoas pensam, atribuem sentidos e manifestam posicionamentos sobre determinado assunto, compartilhando ideias dentro de um grupo social.


O Discurso do Sujeito Coletivo é um espelho coletivo, como se as pessoas se olhassem e, a partir daí, se reconhecessem. Participaram do estudo nove docentes responsáveis por disciplinas de saúde mental nos cursos de Graduação em Medicina e Enfermagem de cinco universidades públicas do estado da Bahia, Brasil, e que atenderam aos seguintes critérios de inclusão: atuar no ensino de saúde mental há mais de um ano e concordar com a participação na pesquisa de forma livre e voluntária. É importante salientar que a identificação dos entrevistados foi mantida em sigilo e somente os que se interessaram pelo estudo participaram da entrevista, mediante assinatura de um termo de consentimento livre e esclarecido. A pesquisa obedeceu às normas e diretrizes que regulamentam a pesquisa com seres humanos do Conselho Nacional de Saúde. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Estadual de Santa Cruz UESC, sob protocolo de número 76/06. Para a coleta dos dados, o instrumento utilizado foi a entrevista semiestruturada, cujo roteiro constava de 4 perguntas norteadoras, as quais envolveram conhecimento acerca de saúde mental dos docentes na universidade. As perguntas norteadoras foram às seguintes: a) Fale sobre a sua opinião acerca de saúde mental e reforma psiquiátrica nos cursos de Medicina e Enfermagem; b) Nas aulas ministradas, quais os métodos de ensino utilizados?; c) Qual o alcance e limite encontrado no processo de ensino/aprendizagem de saúde mental?; d) Existe alguma relação da disciplina de Saúde Mental com outras disciplinas? As entrevistas foram realizadas no contexto de atuação dos docentes, de março a julho de 2008, com média de 50 minutos de duração. É importante salientar que as entrevistas foram gravadas e a identificação dos docentes foi mantida em sigilo e os que se interessaram pelo estudo participaram da entrevista, mediante assinatura de um termo de consentimento livre e esclarecido. Após a transcrição das entrevistas, identificadas pela letra E seguida de números arábicos (E01, E02, E03... E09), fez-se a síntese de cada discurso. Para construção dos discursos foram utilizadas como figuras metodológicas as operações: expressões-chave (E-Ch), ideias centrais (ICs). As E-Ch são trechos selecionados do material verbal de cada depoimento, que melhor descrevem o conteúdo, as ICs descrevem os sentidos, ou expressão linguística que revela e descreve, de maneira sintética e precisa, o sentido presente nos depoimentos, usando as palavras do entrevistado, não constituindo interpretação.

Dessa forma, apreendeu-se o que os docentes expressaram sobre os processos formativos em saúde mental. As uniões dessas ideias foram encadeadas, representando o imaginário social desses sujeitos, o modo real e concreto, construídos simbolicamente e sinteticamente apresentados na ideia central. A Ideia Central (IC) consoante Lefèvre e Lefèvre (2014) é um nome ou expressão linguística que revela, descreve e nomeia, da maneira mais sintética e precisa possível, o(s) sentido(s) presente(s) em cada uma das respostas analisadas. As expressões-chave foram agrupadas, de acordo com as categorias extraídas dos discursos individuais identificadas na pesquisa, dentro de categorias temáticas, definidas a partir das repetições presentes nas entrevistas e da essência do discurso. Assim, o DSC aqui apresentado engloba depoimentos sintetizados e analisados, redigidos na primeira pessoa do singular e expressando o pensamento coletivo por meio do discurso dos sujeitos. RESULTADOS Os resultados construídos discorreram sobre as concepções, experiências e sentimentos dos docentes entrevistados, enfatizando o vivenciado, experimentado e o contexto onde estavam inseridos, apresentados no DSC. Aqui se apresentam cinco discursos compostos de expressões chaves e ideias centrais, dentro das seguintes categorias temáticas: percepções sobre a reforma psiquiátrica; trajetórias de preconceitos; formação a partir de atividades práticas; metodologia problematizadora na formação em saúde mental; interdisciplinaridade como estratégia de ensino. 1) Discurso das percepções sobre a reforma psiquiátrica. Ideia Central: A reforma psiquiátrica é um processo moroso e por isso ainda não foi acertado, dificultando a sua concretização: “...a reforma psiquiátrica ainda é algo em curso, ela não se concretizou... ainda não consigo ter otimismo com a reforma... acho que tem muito o que ser feito... acho que o modelo ainda não foi acertado, o modelo assistencial ainda não se concretizou... vai demorar muito pra a gente vê... a gente tá caminhando a passos de tartaruga...” O discurso acima nos dá noção do quanto a reforma psiquiátrica é um processo não linear, complicado e em permanente construção que parece ser lenta aos olhos dos participantes. Sobre isto, Dalmolin (2006) destaca a importância de ressaltar que não se modifica um modo de pensar nem um comportamento na mesma velocidade em que se aprovam leis, portarias ou decretos. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 87


Disto decorre a suposição de que a impressão de lentidão sinalizada nos discursos dos participantes está associada ao comportamento dos profissionais envolvidos na atenção a saúde mental. Identifica-se no discurso dos participantes: desânimo, descrédito e desmotivação em decorrência da crença de lentidão desse processo. Para Alverga e Dimenstein (2006), o principal desafio para concretização da Reforma Psiquiátrica não está na velocidade de sua implementação, mas na direção em que ela vem acontecendo. A direção que, segundo o discurso dos sujeitos, está pouco sintonizada com a urgência que requer a reforma psiquiátrica. Não esqueçamos que no universo da reforma tentamos superar o ideal de positividade da ciência moderna em sua racionalidade de causa e efeito, para voltarmo-nos à invenção da realidade enquanto um processo histórico e que tem fim. 2) Discurso sobre trajetórias de preconceitos Ideia Central: O preconceito é visto como principal limitação para que os alunos se aproximem do tema saúde mental, impedindo a cooptação de discentes para a área: “...o pessoal tem muito preconceito em saúde mental... o estigma da psiquiatria não atinge não só o doente mental, mas a disciplina de psiquiatria também... nós fazemos todo o processo para mobilizar os estudantes... Talvez o preconceito com a doença mental... que eles tem né, o medo, preconceito, estigma... Ainda fica muito introjetado a figura do louco que mata, que agride, que bate...” Aranha e Martins (2003) relatam que o preconceito é uma opinião ou um conceito formado antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento dos fatos internalizados, fruto da herança histórico cultural. Já o estigma “será usado em referência a um atributo profundamente depreciativo” numa linguagem de relações (Goffman, 1975, p. 13). Este discurso expressa que o estigma referente ao transtorno mental é um dos entraves para que os discentes se aproximem do tema saúde mental. Consoante aos discursos, pode-se perceber que ao louco é atribuída a característica de perigoso “que agride, bate, mata...”. O diferente, do ponto de vista psicológico, jamais passa em “brancas nuvens”, muito pelo contrário: ameaça, desorganiza, mobiliza (Amaral, 1992). Representa aquilo que foge ao esperado, ao simétrico, ao belo, ao eficiente, ao perfeito... E, assim como quase tudo que se refere à diferença, dificulta aproximação de discentes na área de saúde mental. Possivelmente, a origem do preconceito encontra-se na desinformação, no desconhecimento, gerando nas pessoas a imagem e o estereótipo de periculosidade e agressividade. Fato esse gerador de medo e repulsa das pessoas (Candido et al., 2012). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 88

3) Discurso da formação a partir de atividades práticas. Ideia Central: A formação do profissional em saúde mental é analisada a partir das atividades práticas que acontecem no campo de estágios, visitas técnicas e projetos: “...temos as práticas do campo, a gente tem trabalhado sempre assim, voltado para a prática e agora nos mais diversos setores... Dá um foco prático para que o aluno saia com uma análise bem diferenciada a partir dos hospitais psiquiátricos, CAPS, ambulatórios, CAPS ad... Mas como visita técnica... A gente espera que saia outro profissional porque eles sabem a realidade... Os estágios ficam voltados tanto para que eles vejam a instituição total e no CAPS... Eu acho que essa abordagem faz o aluno chegar a outra visão”. Os discursos aqui apresentados estabelecem o hospital e serviços substitutivos como locus privilegiado de aprendizagem indispensável para a formação acadêmica. Valorizam as atividades práticas na saúde mental, as ações que são executadas para a diminuição do estigma que perdura em relação à saúde mental. O discurso faz emergir uma importante discussão sobre o conhecimento em saúde mental que não deve ser construído apenas dentro da universidade, mas também por meio de atividades práticas, como visitas aos serviços de saúde mental e estágios curriculares, promovendo um aprendizado muito mais consciente. Outros trechos de fala que dão exemplos do discurso da formação a partir das atividades práticas referem à atuação de discentes em projetos e cursos de pós-graduação: “... Tem pesquisa...envolvimento de estudante de graduação no projeto...e extensão... Temos dois (projetos): catadores de lixo e Violências entre adolescência......Nós temos um grupo que é o GESAM, Grupo de Estudo em Saúde Mental... Projeto de extensão do Vale do Jiquiriça...os grupos de discussão, projeto de extensão que envolve a comunidade local.... Nós temos o curso de especialização... Tem a residência de Psiquiatria, residência em Psicologia...Temos um projeto que teve como resultado uma publicação”. No Plano Nacional de Extensão Universitária (Fórum de Pró-Reitores de Extensão, 2000/2001), é assegurado que, em relação ao ensino, é necessário aprofundar-se em todos os espaços dentro e fora da universidade, a exemplo das práticas e estágio curriculares, formas de viabilizar a extensão da prática profissional, fazendo parte da integralização do currículo e, se possível, iniciado desde os primeiros momentos da formação, aliado aos projetos.


Assim, sobre as práticas oriundas da participação dos discentes em projetos, no discurso do sujeito, há o reconhecimento da importância da pesquisa, extensão e grupos de estudos como forma de melhorar a formação no âmbito da saúde mental, considerando que a integração dessas atividades deve acontecer como forma de amadurecimento na formação dos discentes. Conforme Silva e Vasconcelos (2006), a extensão universitária, grupos de estudos e de pesquisa produzem mudança significativa na própria concepção do estudo e da prática profissional no campo de cuidado da saúde. A formação do aluno ultrapassa a aquisição de conhecimentos técnicos científicos, sendo necessário habilitar o sujeito a aprender e recriar permanentemente, consolidando a universidade como lócus de construção/ produção de conhecimento. Para isso, é fundamental à formação o incentivo à pesquisa, aos grupos de estudos e aos projetos de extensão, que promovam aperfeiçoamento e inovação na produção do conhecimento. 4) Discurso sobre a metodologia problematizadora como eixo de formação em saúde mental Ideia Central: A condução das aulas em saúde mental tem foco na problematização, permite uma aula participativa avançando na discussão sobre o tema: “... Nós utilizamos a teoria da problematização... É aprendizado baseado em problemas... Todo atendimento é discutido com os estudantes... A metodologia de ensino deve ser a mais participativa possível... É necessário valorizar a discussão, os grupos de discussão... Dentro da realidade (do contexto onde vivem as pessoas)”. O discurso coletivo se refere a uma tecnologia educacional, uma estratégia de ensino, a partir da realidade local, a aprendizagem baseada em problemas. Essa estratégia tem como método o desenvolvimento do processo de ensino/aprendizagem a partir de um determinado problema, baseada em descobertas, com a valorização do aprender a aprender (Cyrino e Toralles-Pereira, 2004). Durante as entrevistas, os participantes resgataram princípios norteadores do referencial teórico da problematização, o que facilita o aprendizado e colabora para que estudantes e profissionais ressignifiquem os estudos, desenvolvam formas mais coletivas e interdisciplinares, como foi pontuado por Ceccim e Feuerwerker (2004). Para esses autores, na formação para a área da saúde, é necessário problematizar o processo de trabalho, possibilitando mudanças das práticas profissionais. 5) Discurso da interdisciplinaridade enquanto estratégia de ensino e dispositivo de inter-relacionamento.

Ideia Central: A interdisciplinaridade como estratégia no ensino requer entre os profissionais inter-relacionamento em vistas a realização de produção comum: “... Trabalhar em conjunto, não, atualmente não... Muito difícil a intercessão com as disciplinas... Não existe esta relação, existe, sim, com professores e com pessoas que você se identifica... Uma coisa entre professores... Mas uma relação oficial não”. Este discurso retrata a dificuldade do exercício interdisciplinar, este ocorre de forma incipiente, a partir de uma relação interpessoal entre docentes. Para Alves (2001), a influência do modelo tradicional de cuidado é a grande dificuldade dos profissionais para renunciarem a um papel especifico – afinal são especialistas, e estarem abertos ao exercício interdisciplinar. A importância da interdisciplinaridade é que ela pode provocar profundas transformações na pedagogia e num novo tipo de formação. Para Moraes e Omelli (2005), a interdisciplinaridade tem como objetivo superar as barreiras e compartimentalismo entre as disciplinas, visando aproximação dos conhecimentos nos diferentes campos de saberes. No discurso aqui construído, a interdisciplinaridade continua no papel, mas não efetivamente na prática pedagógica, o que acaba também por não mudar a formação dos docentes e, consequentemente dos discentes e atuação profissional com vistas ao cuidado integral. DISCUSSÃO O Traçado dos Discursos Coletivos na Construção do Conhecimento O desenho dos discursos coletivos retrata a reforma psiquiátrica como um processo lento, que ainda não foi concretizado, ocasionando descrédito dos docentes em relação à mudança da assistência. Esta visão interfere na formação dos discentes, uma vez que o conhecimento é construído a partir da crença dos sujeitos e, se os docentes se apresentam desmotivados com o processo da reforma psiquiátrica, essa visão influenciará a produção de conhecimento em saúde mental. Para Machado, Monteiro, Queiroz, Vieira e Barroso (2007), a formação em saúde deve trazer compromissos ético-estéticopolíticos que não podem estar vinculados aos valores tradicionais, mas sim, às mudanças da sociedade e valores em transformação. Pinto (2005) afirma que o ensino, ferramenta básica para transformação dos processos de trabalho em saúde e educação, implica uma ressignificação de conceitos e práticas para produzir uma força de trabalho capaz de empreender mudanças que a práxis profissional precisa traduzir, na perspectiva de uma Reforma Psiquiátrica transformadora da assistência tradicional. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 89


Nos discursos sobre preconceito na trajetória de saúde mental identificou-se pontos nodulares e impeditivos que têm necessidade de ressignificações sociais/culturais. Entre as diferentes formas de expressarem o preconceito, emergiu nas falas o medo, justificado pela estreita relação atribuída entre agressividade e transtorno mental. Se o preconceito é algo que emerge nas falas dos entrevistados como algo que incomoda e provoca medo, o estigma evidencia algo que extrapola uma atitude de prejulgamento, como sinal infamante, indigno e desonroso, mancha na reputação de alguém (Goffman, 1975). De fato, na representação do “louco” vagando pelas ruas, há no imaginário social uma expressão de perigo que advém do comportamento considerado imprevisível e violento, homogeneizando “louco” e loucura como expressão do perigo. O estigma em relação aos indivíduos com transtorno mental também é considerado uma barreira para recrutar discentes para saúde mental, uma vez que representam algo mau dentro da sociedade que deve ser evitado (Goffman,1975), em síntese, são identidades deterioradas por uma ação social. Evidenciou-se nos discursos dos sujeitos coletivos que a formação ainda é pautada no modelo flexeneriano, na qual a interdisciplinaridade não existe, dificultando a comunicação e a não superação dos termos especializados da psiquiatria clássica. Existe uma pedagogia oculta no modo de operar os cursos de Enfermagem e Medicina no âmbito da construção do conhecimento em saúde mental, isto, na medida em que não há correlação com outras disciplinas, para que o discente tenha uma visão ampliada de atenção e cuidado ao usuário dos serviços, ou seja, não é observada uma atuação interdisciplinar na formação. Paradoxalmente, nos discursos, é sinalizado que a metodologia problematizadora é ponto de partida na condução do conhecimento em saúde mental nos cursos de Enfermagem e Medicina. Não obstante, a ausência da relação interdisciplinar dificulta a relação dialógica, o compartilhamento de saberes e, consequentemente, o enfretamento de problemas cotidianos da saúde mental como prevê a metodologia problematizadora. Segundo Ceccim e Feuerwerker (2004), o ensino tradicional desconhece as estratégias didático-pedagógicas ou modos de ensinar problematizador com protagonismo ativo dos discentes, ignorando a construção de aprendizagens que favorece a produção e o compartilhamento de saberes na contemporaneidade.

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O emprego da metodologia problematizadora em novas práticas educativas pode ampliar a capacidade de crítica e reflexão dos profissionais acerca da realidade dos indivíduos com transtorno mental e o reconhecimento da complexidade que envolve questões da loucura. Isso redimensionará o enfrentamento das contradições relacionadas ao universo dos indivíduos envolvidos com questões do processo saúde/doença mental (Pinto, 2005). O estigma em relação aos indivíduos com transtorno mental também é considerado uma barreira para recrutar discentes para saúde mental, uma vez que o preconceito com o louco dificulta o interesse dos indivíduos pela área. A teoria da problematização pode ser uma aliada na desmistificação do estigma do louco, porém nos discursos dos sujeitos não é evidenciada a utilização dessa metodologia para provocar transformações nas concepções dos discentes. Utiliza-se a metodologia problematizadora, mas não é verificado sinal de modificação na realidade posta, o que é contraditório na formação de profissionais de saúde críticos, reflexivos e questionadores, como afirma Libâneo, Oliveira e Toschi (2003). O presente estudo constatou que apesar das dificuldades encontradas, observa-se investimento dos docentes de Enfermagem e Medicina em extensão, pesquisa e grupos, incentivando e qualificando o discente para formação na área. Ademais, a atuação de forma interdisciplinar é algo que vem acontecendo, mesmo de forma incipiente, mas refletidas na atuação de alguns docentes que tentam trabalhar de forma conjunta, mesmo que seja por afinidades. CONCLUSÃO A intenção, com este estudo, é de contribuir para alimentar, de forma crítica, o debate sobre o conhecimento de saúde mental, no âmbito da formação nas graduações de Enfermagem e Medicina. A análise dos processos formativos da docência em saúde mental nos cursos estudados revelou discursos fundamentais de uma imagem distorcida da saúde mental, atrelada a um arcabouço teórico e prático, envolvido com o reducionismo característico da psiquiatria tradicional. Diante disso, entendeu-se que a formação de enfermeiros e médicos requer investimento, crença e compreensão mais aprofundada da reforma psiquiátrica pelos docentes.


É inevitável articular os vários saberes, assim como integrar ensino, pesquisa, extensão e serviços de saúde, com a finalidade de atender à complexidade da produção do conhecimento em saúde mental. É relevante que seja dada continuidade às pesquisas Referentes à formação em saúde mental, uma vez que existe escassez de estudos sobre a temática. Ademais, o reconhecimento da importância e da necessidade de intensificar o conhecimento em saúde mental é fundamental para superar as fragmentações no campo da pesquisa, ensino e assistência de melhor qualidade, como preconiza o Sistema Único de Saúde. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Saúde Mental é um campo de atuação que exige hoje prática orientada pela clínica ampliada, centrada no território onde vivem as pessoas, portanto, baseada em novo perfil profissional. Nesse sentido, nos discursos produzidos aqui, onde se dão evidências de permanências e rupturas do ensino/aprendizagem em saúde mental, esperam-se reflexões e ações em torno das mudanças ocorridas e necessárias na formação de profissionais, com impacto inovador sobre a prática clínica. O estudo pode estimular também avanços quanto à descoberta e ao uso de métodos e de novos cenários de práticas de ensino/ aprendizagem que signifiquem mudança com o habitual, a exemplo da aprendizagem baseada em problemas e da produção de diálogos interdisciplinares. Esperam-se, ainda, investimentos na qualificação de docentes, para que cumpram a missão de serem protagonistas na formação de novos perfis profissionais. Vimos que alguns deles carecem de conhecimentos e de afetações em relação à reforma da atenção psiquiátrica. Encontros, seminários, formação de grupos em redes sociais poderão, dentre outros espaços de diálogos, servir de instrumentos para que essa qualificação ocorra. Por fim, compartilhamos dos dizeres de Cortes et al. (2014), quando afirmam ser o ensino, executado e pautado nos serviços comunitários de saúde mental, o meio possível da produção de cuidado de Enfermagem aproximada do que entende-se por ideal. De modo semelhante, essa ideia, fundamentada na atenção psicossocial, aplica-se à formação de enfermeiros, médicos, psicólogos, assistentes sociais e de outros profissionais da saúde. É preciso avançar e ocupar os serviços substitutivos e para além deles, os cenários da vida, da casa, do trabalho, do lazer, como espaços privilegiados do ensino/aprendizagem em saúde mental.

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Artigo de Investigação

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0147

14 AS

DIFICULDADES EMOCIONAIS EXPERENCIADAS POR ACADÊMICOS DE ENFERMAGEM NA ABORDAGEM AO PACIENTE1 | Thainá Oliveira Lima2; Claudia de Melo Tavares3 |

RESUMO CONTEXTO: A expressão ou a inibição das emoções depende do desenvolvimento cognitivo e do contexto cultural em que se vive. Sendo assim, o fenômeno educativo não pode ser entendido de maneira fragmentada, mas sim, como uma prática social situada historicamente, que envolve diversos aspectos, principalmente emocionais, que permeiam todo o processo de formação do enfermeiro. OBJETIVO: Discutir junto aos estudantes de enfermagem as dificuldades emocionais experenciadas na abordagem ao paciente. METODOLOGIA: Estudo qualitativo, descritivo e exploratório, realizado com alunos do curso de graduação em Enfermagem, da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense, no estado do Rio de Janeiro, Niterói, Brasil. A coleta de dados se deu através da entrevista em grupo focal. A análise dos resultados foi feita a partir da análise temática de conteúdo. RESULTADOS: conhecer as histórias dos alunos e fazê-los rememorar as situações que julgaram mais marcantes, lhes possibilitou reconhecer as próprias emoções, passo para a construção da Inteligência Emocional, que é capacidade de gerenciar as emoções dentro de nós e em nossos relacionamentos. Em diversas ocasiões os alunos reagem de forma diferente diante dos mesmos acontecimentos. Isto é de grande importância, pois quer dizer que boa parte de nossas ações não estão nos estímulos externos, e sim em condições pessoais, que podem ser conscientes ou inconscientes. CONCLUSÃO: foi possível dar visibilidade às experiências de dificuldade emocionais vivenciadas pelos estudantes de enfermagem e, assim, propor mudanças e abertura de novos espaços de discussão no ambiente universitário. PALAVRAS-CHAVE: Emoções; Enfermagem; Inteligência emocional; Educação em enfermagem

RESUMEN

ABSTRACT

“Dificultades emocionales de los estudiantes de enfermería en la aproximación al paciente”

“Emotional difficulties experienced by nursing students in the approach to patients”

CONTEXTO: La expresión o inhibición de las emociones depende del desarrollo cognitivo y del contexto cultural en el que vivimos. Así, el fenómeno educativo no puede entenderse de manera fragmentada, sino como una práctica social, históricamente situado, lo que tiene muchas implicaciones, sobre todo emocionales, que impregnan todo el proceso de formación en enfermería. OBJETIVO: Discutir junto a los estudiantes de enfermería dificultades emocionales experimentadas en el abordaje del paciente. METODOLOGÍA: Estudio cualitativo, descriptivo y exploratorio realizado con estudiantes de grado en Enfermería de la Escuela de Enfermería de la Universidad Federal Fluminense Afonso Costa Aurora en el estado de Río de Janeiro, Niterói, Brasil. La recogida de datos se llevó a cabo a través de grupo de entrevista. El análisis se realizó a partir del análisis de contenido temático. RESULTADOS: Conocer las historias de los estudiantes y inducirlos a recordar las situaciones que consideren más destacadas, les permitirá reconocer sus emociones, paso a la construcción de la inteligencia emocional, que es la capacidad de manejar las emociones en nosotros y en nuestras relaciones. En varias ocasiones, los estudiantes reaccionan de manera diferente a los mismos hechos. Esto es de gran importancia, porque significa que la mayoría de nuestras acciones no son espoleadas por estímulos externos, pero en las condiciones personales, que pueden ser conscientes o inconscientes. CONCLUSIÓN: Es posible hacer visible la dificultad emocional experiencias de los estudiantes de enfermería y así proponer cambios y la apertura de nuevos espacios para la discusión en el ámbito universitario.

BACKGROUND: The expression or inhibition of emotions depends on the cognitive development of the cultural context in which we operate. Therefore, the educational phenomenon cannot be understood as fragmented, but like a social practice which involves various aspects, especially emotions, which are a vital part of the entire nursing training process. OBJECTIVE: To discuss with students the emotional difficulties experienced when approaching patients. METHODS: Qualitative, descriptive study, conducted with graduation students of Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa from Universidade Federal Fluminense, on Rio de Janeiro state, Brazil. Data collection was carried out through focus group interview. The analysis was made from the thematic content investigation. RESULTS: To know stories of these students and make them recall situations they deemed most outstanding and that will enable them to recognize their own emotions, a step in the construction of Emotional Intelligence, which is the ability to manage emotions within ourselves and in our relationships. On several occasions, students react differently to the same events. This is of great importance, since it means that most of our actions are not triggered by external stimuli, but by personal conditions, which may be conscious or unconscious. CONCLUSION: It was possible to make difficult emotional experiences of nursing students visible, and thus propose changes and the opening of new spaces for discussion in the university environment.

DESCRIPTORES: Emociones; Enfermería; La inteligencia emocional; Educación en enfermería

KEYWORDS: Emotions; Nursing; Emotional intelligence; Nursing educationh Submetido em 18-04-2016 Aceite em 10-09-2016

1 Este artigo é parte do Trabalho de Conclusão de Curso, intitulado “A educação emocional na formação do enfermeiro”, apresentado no I Encontro Internacional Inovação no Ensino na Saúde e Enfermagem. 2 Enfermeira no Setor de Internação de Longa Permanência do Hospital Psiquiátrico de Jurujuba – Niterói; Membro do Núcleo de Pesquisa: Ensino, Criatividade e Cuidado em Saúde e Enfermagem; Mestranda em Ciências do Cuidado em Saúde pela Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ, Brasil, oliveira.thina@hotmail.com 3 Enfermeira; Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem e do Curso de Mestrado Profissional Ensino na Saúde; Professora Titular na Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Brasil, claudiamarauff@gmail.com Citação: Lima, T., & Tavares, C. (2016). As dificuldades emocionais experienciadas por acadêmicos de enfermagem na abordagem ao paciente. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe. 4), 93-99. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 93


INTRODUÇÃO As emoções servem para estabelecer a nossa posição no confronto com o meio ambiente e levam-nos ao encontro de certas pessoas, estratégias de ação e ideias, enquanto, ao mesmo tempo, nos afastam de outras. A expressão ou a inibição das emoções depende do desenvolvimento cognitivo do indivíduo e do contexto cultural em que vive (Cunha, 2013). Assim, o fenômeno educativo não pode ser entendido de maneira fragmentada, ou como uma abstração válida para qualquer tempo e lugar, mas sim, como uma prática social situada historicamente numa realidade total, que envolve aspectos valorativos, culturais, políticos, econômicos e principalmente emocionais, que permeiam a todo o processo de formação do enfermeiro (Schafranski, 2005). Manejar os impulsos negativos emocionais como ansiedade, frustração, raiva e tristeza fazem com que as pessoas tenham foco para incorporar o autoconhecimento, a autoconsciência e empatia, trazendo benefícios mensuráveis até para a qualidade de vida e a produtividade. Quem demonstra “controle emocional”, autoestima elevada e autoconfiança têm capacidade para identificar muitas soluções para os problemas enfrentados no diaa-dia. É notório, por exemplo, que administrar conflitos é uma das competências que mais exige o uso da habilidade ou capacidade emocional, uma vez que no ato de uma negociação a pessoa demonstra, ou não, equilíbrio entre razão e emoção. As duas capacidades emocionais se complementam, pois técnica, experiência e visão são fundamentais, porém tudo isso se torna poderoso quando aliado à Inteligência Emocional (Pizzol, 2013). A orientação moderna para o sucesso profissional pressupõe que os indivíduos saibam criar condições onde se sintam seguros, motivados, satisfeitos e confortáveis para enfrentar os desafios requeridos por suas realizações pessoais frente ao mesmo. A inteligência emocional está relacionada com o uso inteligente das emoções, inclusive nos aspectos relacionados ao trabalho. Afinal, para efetuá-lo, uma pessoa é envolvida em todos os seus aspectos, inclusive psicológicos. Dessa maneira, as emoções inevitavelmente interferem na maneira do indivíduo executá-las, contribuindo tanto para a satisfação quanto para a insatisfação pessoal. (Gomes, 2013). Diante disso, fica evidente a necessidade de adoção de medidas para uma qualificação adequada dos estudantes da graduação de enfermagem.

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É preciso capacitar emocionalmente as pessoas que futuramente irão trabalhar no cuidado direto e indireto de outras pessoas, pois a capacitação acadêmica no sentido das habilidades técnicas, já é oferecida pela graduação. Além de melhorar a qualidade das relações, a educação emocional evita desgastes biológicos, evitando o aparecimento de doenças mentais e psicossomáticas. O desenvolvimento da inteligência emocional na graduação é essencial para a prosperidade, senão para a sobrevivência da profissão de enfermagem. Sendo assim, o objetivo do estudo é discutir junto aos estudantes de enfermagem as dificuldades emocionais experenciadas na abordagem ao paciente. METODOLOGIA A abordagem metodológica utilizada neste estudo foi qualitativa, do tipo descritivo- exploratória. Para atender a necessidade da pesquisa, utilizou-se como campo de estudo a Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa (EEAAC), pertencente à Universidade Federal Fluminense (UFF), Niterói, estado do Rio de Janeiro, Brasil. A escolha deste local visou contribuir para a melhoria da educação emocional dos estudantes da instituição em que atuamos. Os participantes desta pesquisa foram dez estudantes do curso de graduação. Como critérios para inclusão, estabeleceram-se: graduandos do 9° período (alunos que cursaram a maior parte das disciplinas teóricas e práticas da graduação), alunos regularmente matriculados no curso, e que aceitaram participar da pesquisa assinando o termo de consentimento livre e esclarecido. Como critério de exclusão: alunos ouvintes e transferidos de outras instituições. A técnica para a coleta de dados foi a da entrevista em grupo focal. O grupo ocorreu no mês de outubro/2014, durante a realização do grupo os alunos puderam responder livremente as questões do roteiro (“Já passou por alguma experiência que teve dificuldade emocional na abordagem ao paciente? Se sim, qual? Você recebeu orientações sobre como lidar com suas emoções em algum momento do curso de graduação em enfermagem? Se sim, em qual momento ou disciplina ocorreu? Quais foram? De que forma elas te ajudaram?”), o grupo teve duração de uma hora e trinta minutos. Os dados foram submetidos à análise temática de conteúdo e discutidos com conceito de Inteligência Emocional (Goleman, 2012) e de Educação Emocional de Casassus (2009).


Para resguardar o anonimato dos participantes, os depoimentos nesse estudo foram identificados com base na adjetivação dos nomes das emoções. Pesquisa aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa: 000.783.975 (CAAE: 33728014.0.0000.5243). RESULTADOS Os resultados da pesquisa estão dispostos abaixo através do Perfil Sócio-Demográfico dos Participantes e Descrição das Experiências de Dificuldade Emocional na Abordagem ao Paciente, apresentadas nas seguintes categorias de análise: As dificuldades emocionais associadas às situações pré-existentes dos graduandos; O professor e as dificuldades emocionais dos alunos no ensino teórico-prático; as dificuldades emocionais associadas ao envolvimento emocional dos alunos no ato de cuidar. Perfil Sócio-Demográfico dos Participantes do Estudo O estudo contou com o total de 10 graduandos. Em relação ao sexo, 100% dos participantes eram do sexo feminino. Em relação à idade, 5 estudantes tinham idade inferior a 25 anos (50% dos alunos), 4 estudantes com idade entre 25 e 30 anos (40% da amostra) e 1 estudantes com idade superior a 30 anos (10%). De acordo com quem residiam, 6 estudantes (60% dos estudantes) moravam com a família (pais e irmãos), 2 estudantes (20% dos graduandos) com companheiro (cônjuge) e outros 2 alunos (20%) sozinhos. Sobre a situação conjugal, 8 alunos (80% da amostra) encontravam-se solteiros, 1 estudante (10%) casado e 1 estudante (10%) em união estável. A renda mensal era de 1 salário mínimo para 1 estudante (10% dos participantes), de 2 a 3 salários mínimos para também 1 aluno (10%) e acima de 3 salários mínimos para 8 estudantes (80% dos alunos). Pode-se perceber que este estudo em sua totalidade contou com participantes do sexo feminino. Isto se deve ao fato da profissão de enfermagem ser predominantemente feminina, por socialmente estar associada a aspectos maternais, de sensibilidade, de afetividade e de cuidado. Este é um dado importante, pois a mulher em suas características naturais tende a ser mais emotiva do que o homem, expressando suas emoções e muitas vezes podendo fazer uso delas para a compreensão das necessidades alheias (necessidades dos pacientes).

Outro dado que merece destaque, é a idade dos alunos; a maioria dos estudantes têm menos de 25 anos, o que contribui de certa forma para a imaturidade emocional, uma vez que, por conta da pouca idade, muitos podem não ter vivenciado experiências para tal maturidade. O fato de residirem com os pais, é outro aspecto que pode contribuir para imaturidade emocional, visto que, os alunos que moram sozinhos tendem a acumular responsabilidades, sendo muitas vezes obrigados a administrar os afazeres diários e até mesmo os aspectos emocionais. O salário mínimo acima de 3 para 80% dos alunos é um aspecto positivo, pois dificuldade financeira é outra questão que pode contribuir de forma negativa para a estabilidade emocional. Descrição das Experiências de Dificuldade Emocional na Abordagem ao Paciente Neste momento os alunos são questionados sobre suas experiências durante o estágio curricular. Em seguida, os alunos descrevem através das falas as situações nas quais tiveram dificuldades emocionais na abordagem ou procedimentos realizados com os pacientes. As dificuldades emocionais associadas às situações pré-existentes dos graduandos. Nos depoimentos abaixo podemos evidenciar que a expressão das emoções dos alunos de enfermagem, quase sempre esteve relacionada a algum evento ou situação pré-existe, principalmente ao que tange aos aspectos familiares. Também é possível perceber como situações aparentemente parecidas desencadeiam emoções distintas. Quando eu estava no 6° período em DIP (Doença Infecciosa e Parasitária) eu passei pelo momento da minha vida que eu descobri que a minha mãe estava doente. Tinha uma paciente que não se mexia, e quando me colocavam para falar com ela, aquilo acabava comigo. Eu não tinha estrutura emocional para chegar ali e falar com aquela paciente, interagir com ela, eu não conseguia aquilo me bloqueava. Eu falava assim: Pelo amor de Deus professora, faz tudo, me deixa com todos os pacientes, mas não me deixa com essa paciente, eu não tinha estrutura emocional porque eu já saía de casa com aquilo, eu sabia que aquela pessoa poderia ser a minha mãe. E. P. Confiante (comunicação pessoal, Outubro 15, 2014).

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Eu também passei por uma situação em ESAI (Enfermagem na Saúde do Adulto e do Idoso) quando... No meu primeiro semestre de monitoria, eu estava no 6° período, meu pai tinha acabado de falecer, tinha pouco tempo e eu lembro até hoje que era a ‘’fulana’’ que estava comigo lá no setor e tinha um paciente lá que era igualzinho ao meu pai. Ele tinha feito uma cirurgia. A filha dele estava lá pegando na mão dele e tudo, e eu lembro que quando fui perguntada se podia ficar com aquele paciente eu respondi - claro não tem problema não. Quando eu cheguei lá e vi que ele era igual ao meu pai eu comecei a chorar. A professora veio e disse assim: o que aconteceu? Eu falei não, eu não estou conseguindo, eu não estou conseguindo! A professora falou - calma respira e eu não consegui falar com ela, eu não conseguia controlar minhas emoções, todo mundo no setor olhando pra mim e eu não consegui de jeito nenhum... Ela falou você quer mudar de paciente? Eu falei não, ela disse você não quer mudar de paciente? Eu falei não, eu tenho que aprender a controlar isso, porque sempre quando eu me deparar com essas coisas eu não vou fazer? Não, eu tenho que saber me controlar. Só sei que eu fiquei com aquele paciente do início ao fim, chorando, mas fiquei. Depois no outro dia eu voltei e graças a Deus não senti mais nada. D. B. Terna (comunicação pessoal, Outubro 15, 2014). Os depoimentos expressam o quanto os alunos são atingidos por processos de transferência quando se encontram cuidando. Não são raras as situações em que se defrontam com pessoas e situações que lhes remete a contextos pessoais e familiares. O professor e as dificuldades emocionais dos alunos no ensino teórico-prático. Muitas situações imprevisíveis podem ocorrer no momento do aprendizado prático. Nem todas as experiências podem ser conhecidas, e até mesmo monitoradas pelo professor. Como preparar-se para enfrentar essas situações? As falas a seguir permitem esta reflexão. Foi assim, eu peguei uma paciente de pneumo, ela estava entubada, estava com uma gastrostomia só que com sonda vesical, de foley, e era banho no leito e ela era toda atrofiadinha, a gente foi dar banho nela e quinto período você não viu nada ainda... Eu e a minha dupla seguimos o banho, a sonda soltou da gastro e eu não sabia o que fazer, eu fiquei desesperada pedindo ajuda para a equipe, e a equipe simplesmente botou a culpa na gente. Não sabia o que fazer e a médica fechou a cara para gente. E eu vou fazer o que? Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 96

E tipo naquela situação, eu nunca tinha passado por isso, a gente terminou o banho limpamos tudo e tudo mais... E eu fiquei com um peso sabe, parece que tudo veio para cima de mim, me senti tão mal que sai da enfermaria depois que fiz tudo, prestei cuidados integrais a ela nem tinha terminado o estágio ainda e fui lá pra fora e comecei a chorar. A professora foi atrás de mim e começou a conversar comigo e eu chorando, e ela perguntou: porque você está chorando? E eu não soube explicar o que eu estava sentindo, mas me senti mal diante daquilo. Não era algo proposital, tanto que eu não gosto da clínica médica feminina, não suporto aquele lugar porque aquela equipe me traumatizou, porque a equipe ao invés de me ajudar não... Nesse dia a professora falou para eu ir embora, descansar, ir pra casa... Mas eu não sei explicar o que eu senti, mas foi um peso, um mal estar [...] T. M. Triste (comunicação pessoal, Outubro 15, 2014). ESAI (Enfermagem na Saúde do adulto e do Idoso) é um divisor de emoções! (Risos) T. S. Ansiosa (comunicação pessoal, Outubro 15, 2014). Exatamente, só que eu era o que? Acadêmica não entendia nada... E tipo é engraçado que mexe muito com você cara... Eu não consegui prestar mais cuidados a ela, diante disso eu não soube lidar, eu não enfrentei, eu acho que hoje seria diferente até porque a gente está se formando, mas tinha acabado de sair de fundamentos estava cruazinha ainda, nem tinha feito esses acadêmicos que eu fiz. T. M. Triste (comunicação pessoal, Outubro 15, 2014). Comigo foi em fundamentos na época, na sala de vacinação, tinha aplicado a vacina só que na hora de desprezar a seringa eu desprezei no lugar errado, na frente da paciente a professora chamou minha atenção e a paciente ficou completamente nervosa, achando que eu tinha feito errado e eu disse não calma o procedimento eu fiz certo só que o erro foi meu na hora de desprezar, na hora eu fiquei muito nervosa, mas consegui sair mais ou menos bem. Fui para casa muito mal, pensando: eu não quero mais isso! Revoltada... D. S. Inquieta (comunicação pessoal, Outubro 15, 2014). O discurso acima aponta para a necessidade e importância do professor apoiar e incentivar uma postura de segurança emocional da discente. As dificuldades emocionais associadas ao envolvimento emocional dos alunos no ato de cuidar. Através das descrições abaixo, fica evidente não só a dificuldade para lidar com as situações, mas a dificuldade emocional está atrelada ao envolvimento emocional dos alunos em certas ocasiões no ato de cuidar dos pacientes.


Eu já tive experiências iguais, de chorar de me emocionar, porque eu também sou muito emotiva, mas agora a pouco tempo na monitoria de Gerencia 1, eu estava no Carlos Antonio com o pessoal e uma mãe que tem problemas psicológicos, faz tratamento enfim, ela já tem três filhos e agora com essa criança que está com quadro de desnutrição. A criança já estava dois meses sendo acompanhada pelo posto e ela não conseguia ganhar peso nenhum, nenhum, inclusive ela até perdeu. A médica foi falar com essa mãe perto da gente (eu como monitora e os alunos), se essa mãe não criasse alguma forma de melhorar o quadro dessa criança, que a criança poderia vir... Ela não falou em questão de morte, mas a mãe ainda falou: você tá querendo dizer que a minha filha vai morrer? Ela respondeu não, mas se você não cuidar dela é o que pode acontecer, ela pode ter algum problema cardíaco... E a mãe falava o tempo todo assim: ninguém tira a vida não, só Deus e a médica meio que se estressou e eu fui tentar conversar com a mãe. Eu falei - mãe ela precisa de você, ela precisa seguir uma dieta, passar pela nutricionista... A mãe virou para mim e falou assim: você tem filho? Eu falei não, a mãe disse: então pega ela pra você. Na hora eu estava com muita pena daquela criança, mas a minha emoção foi de raiva, de muita raiva, sabe? A criança não tem nada com isso. E eu falava - ela é sua filha e ela precisa de você, entende? É você quem tem que cuidar dela... Mas a mãe renegava a filha o tempo todo, meu sentimento foi de muita raiva, e não suportava as coisas que ela falava [...] J. M. Temerosa (comunicação pessoal, Outubro 15, 2014). Ah, me deixa falar uma coisa que aconteceu. Está até aqui no celular, essa semana uma paciente lá do DIP (Doenças Infecciosas e Parasitárias), estágio curricular, que é usuária de droga, HIV positivo de transmissão vertical, tem câncer e foi renegada pela mãe, fugiu. Ela foge, ela evadiu-se do hospital por duas vezes só essa semana, vai embora e volta no dia seguinte, e o que a gente faz? Ela gosta de escrever, desenhar, e ela é um ano mais velha que eu e me chama de tia. E pra gente tentar manter ela lá a enfermeira do plantão deu um conjunto de canetinha para ela e eu uma lição; escrever sobre a equipe de enfermagem, escrever sobre o setor e ela escreveu. Não dá para ler a carta porque é bem grande, mas eu vou mostrar o desenho só, que ela fez, está aqui no celular, ela além de ter feito a carta muito bonita ela fez esse desenho escrito: tudo posso naquele que me fortalece, o nome dela e eu amo vocês. E a carta dela é essa aqui, frente e verso e está pendurada no mural do DIP para que toda a equipe possa ler.

Assim a gente tem um misto de pena, tristeza quando ela vai embora, de raiva e felicidade quando ela volta. Vamos embora! Segura! Vamos terminar esse tratamento! Ela volta para tentar se tratar mais uma tentativa, e é uma mistura de emoções. D. B. Terna (comunicação pessoal, Outubro 15, 2014). Teve uma vez que assim, não era nem eu que estava com essa paciente, acho que foi em ESAI (Enfermagem na Saúde do Adulto e do Idoso), eu não lembro porque eu fui até o leito dela, ver o que estava acontecendo... A paciente tinha acordado de uma cirurgia de amputação da perna, ela tinha acordado desesperada e ela chorava dizendo o que eu vou fazer da minha vida? Como é que eu vou trabalhar? E a minha vontade era sentar do lado dela e chorar e dizer: realmente o que você vai fazer da sua vida? Como é que você vai trabalhar? Eu não tinha estrutura nenhuma para lidar com aquilo ali, nenhuma, nenhuma mesmo, a vontade era de se juntar a ela e chorar junto e seria a melhor coisa que eu poderia fazer naquele momento... Eu quis sair de perto, me afastei, já não era minha paciente mesmo e dei graças a Deus por isso... (Risos). E me afastei. U. S. Alegre (comunicação pessoal, Outubro 15, 2014). Em função da idade jovem, muitos dos alunos não tiveram tempo de vivenciar formas de processar e lidar com o sofrimento, e muitas vezes isso ocorre no momento do cuidar, em ambiente hospitalar. DISCUSSÃO Ao conhecer as diferentes situações vivenciadas pelos estudantes podemos também avaliar a questão da Competência ou Incompetência Emocional proposta por Juan Casassus, que demonstra como agimos em relação ao enfrentamento e reconhecimento das nossas emoções, para que a partir disso, possamos estar aptos à Educação Emocional, ou seja, um conjunto de habilidades que o indivíduo adquire para auxiliar no desenvolvimento das suas emoções e sentimentos, ensinando-o a manifestá-las de uma maneira melhor, orientando na questão do autocontrole sobre o comportamento emocional (Casassus, 2009). Podemos ver em diversas ocasiões, que as pessoas reagem de formas diferentes diante dos mesmos acontecimentos externos. Por isso, podemos dizer que acontecimentos não determinam, mas disparam reações diversas em pessoas diversas, e que as emoções são disparadas por avaliações cognitivas de acontecimentos externos. Essa distinção é de grande importância, pois quer dizer que a explicação de boa parte de nossas ações não está nos estímulos externos, e sim em nossas condições pessoais, que podem ser conscientes ou inconscientes (Casassus, 2009). Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 97


Isto é perceptível na primeira categoria, na qual os depoimentos das alunas expressam sua capacidade de lidar, ou não, com as emoções diante de processos semelhantes aos vivenciados em família. No primeiro depoimento a aluna não consegue enfrentar suas emoções, porém no segundo, mesmo com a dificuldade emocional, a aluna consegue reconhecer suas emoções e contornar/enfrentar a situação que remete ao adoecimento familiar. Sendo assim, ao invés de nos limitarmos a sentir que são as emoções que nos atinge, devemos nos aproximar do que sentimos nos avizinhando de nossas emoções. Iniciaremos assim uma relação com uma emoção, com a aceitação da experiência emocional que se tem. Podemos, então, sentir um suporte ou um apoio que nos permita manter essa relação e não precisaremos negar o que sentimos (Casassus, 2009). Já na segunda categoria fica evidente a necessidade de preparo docente para auxílio das emoções dos alunos, no segundo depoimento destaca-se o nervosismo da aluna diante da forma como é chamada a atenção pela professora, o que configura falta de orientação da academia para com o docente ao que tange tais situações. Deste modo, o docente de enfermagem precisa estar aberto às mudanças em sua forma de trabalhar, apesar das dificuldades que nascem em meio a uma quebra de paradigmas; precisa, também, estar atento às metodologias ativas e às novas práticas pedagógicas, que extrapolam o simples repasse de informação/conteúdo. É essencial priorizar a troca de construção de conhecimento de cada um, assim como a escuta e o acolhimento nas relações, para que os futuros profissionais possam comungar com uma prática profissional humanista (Araújo e Vieira, 2013). Além disto, corrigir publicamente uma pessoa é o primeiro pecado capital da educação. Um educador jamais deveria expor o defeito de uma pessoa, por pior que ele seja, diante dos outros. A exposição pública produz humilhação e traumas complexos difíceis de serem superados. Um educador deve valorizar mais a pessoa que erra do que o erro da pessoa (Cury, 2003). A partir da terceira categoria podemos levantar os seguintes questionamentos: “Quantas emoções circulam no processo de aprendizagem de cuidar de enfermagem? Como desenvolver competências sócioemocionais? Apenas através da experimentação e exposição ao risco emocional? ”. Com base nos depoimentos, fica notória a necessidade de preparo e também do desenvolvimento de espaços de supervisão, e escuta das emoções vivenciadas pelos aprendizes do cuidar.

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A aprendizagem centrada no aluno tem como premissa principal permitir a participação ativa do discente no seu processo de aprendizado que envolve seu crescimento pessoal e profissional e tem como pressuposto a ideia de que a colaboração docente-discente melhora a eficácia da ação docente (Araújo e Vieira, 2013). Nesse contexto, o adequado preparo emocional, e mesmo simulações ou estudo de situações-problemas como forma de preparo para entrada no cenário hospitalar se torna necessário e imprescindível. A educação problematizadora mostra-se como uma forma de vialibilizar questões referentes ao ensino. Dentre as várias propostas de metodologias ativas, a problematização tem sido muito utilizada como estratégia, uma vez que estimula a participação do educando, desenvolvendo sua autonomia e sua compreensão da responsabilidade individual e coletiva no processo de aprendizagem (Giannini e Afonso, 2012). Sendo assim, é importante que o docente esteja atento a essas novas possibilidades e procure se adequar as novas exigências de ensino e aprendizagem impostas ao seu processo de trabalho. De acordo com Assad e Viana (2003), a partir da experiência pessoal, entendemos que a formação do enfermeiro atuante na área hospitalar está diretamente relacionada à sua experiência assistencial. Os resultados do processo formativo podem ser mais ou menos fecundos, de acordo com a intensidade e fundamentação teórica, que alicerça a reflexão sobre as ações. Quando são sistemáticas, intensas e críticas, facilitam avanços no sentido de conhecer a si mesmo e ao ambiente que o cerca, desenvolver o poder de argumentação, a capacidade de equilibrar teoria e prática e, finalmente, intercambiar experiências com a equipe e com suas emoções. Conhecer estas histórias e fazê-los rememorar as situações que julgaram mais marcantes, lhes possibilitou identificar/reconhecer as próprias emoções, passo número um na construção da Inteligência Emocional, que é [...] capacidade de identificar nossos próprios sentimentos e os dos outros, de motivar a nós mesmos e de gerenciar bem as emoções dentro de nós e em nossos relacionamentos (Goleman, 2012).


CONCLUSÃO Este estudo possibilitou a identificação de experiências de dificuldade emocional vivenciadas pelos estudantes de enfermagem da Universidade Federal Fluminense. Foi possível dar visibilidade a tais situações e assim propor mudanças e abertura de novos espaços de discussão e interação do tema ao ambiente universitário. Através da análise dos depoimentos, foi possível perceber a inexistência de orientação sobre as emoções na graduação por parte dos docentes, não que estes sejam culpados por isto, pois não há no currículo um conteúdo uma disciplina ou atividade que aponte para este tema, e nem mesmo uma perspectiva acadêmica que considere essa abordagem de forma transversal e contínua. É possível dizer que ainda não se teve a dimensão da importância deste assunto na academia, e este trabalho busca justamente isto, dar notoriedade ao tema e, talvez, propor uma mudança no currículo que inclua a educação emocional na graduação de enfermagem. Analisar as estratégias adotadas pelos alunos diante do sofrimento emocional é fundamental para nos aproximarmos de nossa própria condição humana, que se escutada, refletida e comparada com outros contextos podem ajudar muito no processo de ressignificação da dor e do desenvolvimento de uma atitude acolhedora diante da dor do outro e porque não da nossa própria dor, já que fazemos parte do gênero humano. Considera-se que estudos como este contribuem para uma análise ampliada das questões que envolvem a formação do enfermeiro. Acredita-se que é possível contribuir com parâmetros que norteiem o processo ensinoaprendizagem e dar, através desta pesquisa, visibilidade a questões que não são discutidas no ensino da enfermagem. IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Reconhecer a importância da habilidade emocional do enfermeiro para lidar com os pacientes se faz necessário para manter uma abordagem na assistência de enfermagem que contemple empatia, inteligência emocional e autoconhecimento, para que assim as emoções que irão emergir de situações da prática profissional, não sejam capazes de influenciar de forma negativa a atuação do enfermeiro e seu cuidado com o paciente.

Identificar quais dificuldades o acadêmico de enfermagem encontra diante de sua prática ainda em construção e maturidade, pode permitir o reconhecimento de situações emocionais imprevisíveis que o docente no momento da prática não consiga perceber no acadêmico, e abrir um espaço de fala e escuta ativa com reflexão pode ajudá-lo a vencer os desafios que são experimentados diante das complexas situações do trabalho. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Araújo, E. S. C., e Vieira, V. M. O. (2013). Práticas docentes na saúde: Contribuições para uma reflexão a partir de Carl Rogers. Revista Semestral da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional, 17(1), 97-104. Assad L. G., e L Viana L. O. (2003). Saberes práticos na formação do enfermeiro. Revista Brasileira de Enfermagem, 56(1), 44-47. Casassus, J. (2009). Fundamentos da educação emocional. Brasília: Unesco Liber Livro Editora. Cunha, T. A. A. (2013). Função das Emoções. Lisboa: Blog Oficina de Psicologia. Cury, A. J. (2003). Pais brilhantes professores fascinantes. Rio de Janeiro: Editor Sextante. Giannini, D. T., e Afonso, D. H. (2012). Construção colaborativa de um manual: Estratégia no processo ensino e aprendizagem na residência. Anais do Congresso de Avanços Tecnológicos em Saúde e Educação, Rio de Janeiro. Goleman, D. (2012). Inteligência Emocional. Rio de Janeiro: Editora Objetiva. Gomes, J. E. A. (2013). A relação entre afeto e aprendizagem: A partir do sentir e do pensar. Disponível em http://www.revista.ulbrajp.edu.br/ojs/index. php/actabrasileira/article/viewFile/287/23 Pizzol, A. D. (2013). Emoção e sentimento. Disponível em http://www.coladaweb.com/psicologia/emocao-esentimento Schafranski, M. D. (2005). A educação e as transformações da sociedade. Revista Letras e Artes, 13(2), 101112. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 99


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Artigo de Investigação

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0148

15 A QUALIDADE DE VIDA PARA MOTORISTAS DE ÔNIBUS: ENTRE

A SAÚDE E O TRABALHO1

| Vanessa de Alcantara1; Rose Silva2; Eliane Pereira3; Marcos Andrade Silva4 |

RESUMO CONTEXTO: O trabalho do motorista de ônibus exige habilidade técnica e controle emocional. É importante a equalização das necessidades de deslocamento da população e a saúde mental do motorista, que está submetido ao humor dos passageiros. OBJETIVO: Descrever, sob a luz do referencial fenomenológico de Maurice Merleau Ponty, o significado de qualidade de vida para os motoristas de ônibus e sua contribuição para a saúde mental destes trabalhadores. METODOLOGIA: Estudo do tipo descritivo. Participaram 16 motoristas de ônibus. Dados coletados por entrevista fenomenológica com um roteiro semiestruturado com três perguntas abertas, no período de abril a novembro de 2014. A pergunta explorada foi:“para você o que é qualidade de vida?”. Os motoristas de ônibus responderam as questões no próprio roteiro de entrevistas e a análise dos dados obedeceu ao método fenomenológico, considerando quatro passos: suspender, intuir, analisar e descrever. Estudo aprovado pelo Comitê de Ética UFF/ HUAP n° 506/339. RESULTADOS: Para os motoristas de ônibus, a qualidade de vida foi ameaçada pela insatisfação quanto à condição ergonômica dos ônibus em que trabalham e é influenciada pela percepção de valorização profissional mediante melhores salários. CONCLUSÕES: A qualidade de vida depende de fatores internos e externos. Questões familiares estão diretamente ligadas ao bem-estar do profissional no trabalho. A melhoria apontada é o início de um diálogo entre o trabalhador e a organização, pois a relação de trabalho não é de rivalidade, mas de parceria. PALAVRAS-CHAVE: Consciência; Percepção; Promoção da saúde

RESUMEN

ABSTRACT

“La calidad de vida de los conductores de autobús: Entre salud y trabajo”

“Life quality of bus drivers: Between health and work”

CONTEXTO: El trabajo del conductor de autobús requiere habilidad técnica y control emocional. Es importante igualar las necesidades de desplazamiento de la población y la salud mental del conductor que está sometido al estado de ánimo de los pasajeros. OBJETIVO: Describir a la luz de fenomenológica referencial de Maurice Merleau Ponty el significado de calidad de vida para los conductores de autobús y su contribución a la salud mental de estos trabajadores. METODOLOGÍA: Estudio descriptivo, con la participación de 16 conductores de autobús. Datos recogidos por medio de la entrevista fenomenológica y un guión con tres preguntas abiertas semi-estructuradas entre abril y noviembre de 2014. La pregunta explorada fue: ¿Qué significa calidad de vida para usted? Los conductores de autobús respondieron a las preguntas directamente en su propio guión de entrevistas y el análisis de datos siguió el método fenomenológico considerando cuatro pasos: suspender, intuir, analizar y describir. Estudio aprobado por el Comité de ética de FFU/Huapi n ° 506/339. RESULTADOS: La calidad de vida de los conductores de autobuses fue amenazada por el descontento respecto a la condición ergonómica del autobús que trabajan y fue influenciada por la percepción de valoración profesional a través de salarios más elevados. CONCLUSIONES: La calidad de vida depende de factores internos y externos. Cuestiones familiares están directamente relacionadas al bien estar del profesional en el trabajo. Las mejorías identificadas son el inicio de un diálogo entre el empleado y la organización, ya que la relación de trabajo no implica rivalidad, sino de asociación.

DESCRIPTORES: Conciencia; Percepción; Promoción de la salud

BACKGROUND: The bus driving job requires technical skills and emotional control. It is important to equalise the displacement needs of the population and the mental health of drivers, who are subject to the emotional condition of passengers. OBJECTIVE: To describe, under the light of the phenomenological referential of Maurice Merleau Ponty, the meaning of life quality for bus drivers and its contribution to the mental health of these workers. METHODS: A descriptive study, with the participation of sixteen (16) bus drivers was performed. Data was collected by means of a phenomenological interview with a semi-structured script that included three open questions in the period from April to November 2014. The explored question was: what means life quality for you? The bus drivers answered the questions in their own interview scripts and the data analysis followed the phenomenological method, considering four steps: suspend, intuit, analyze, and describe. The study was approved by the Ethics Committee of UFF/ HUAP no. 506/339. RESULTS: The quality of life of the bus drivers was threatened by dissatisfaction in terms of the ergonomic condition of the bus in which they work and the professional development by means of better wages. CONCLUSIONS: Life quality depends on internal and external factors. Family issues are directly linked to professional well-being at work. The improvements identified are the beginning of a dialogue between the employee and the organization, since work relationship does not mean rivalry, but partnership.

KEYWORDS: Consciousness; Perception; Health promotion Submetido em 18-04-2016 Aceite em 17-06-2016

1 Este artigo foi extraído da dissertação intitulada “O Mundo da Vida de Motoristas de Ônibus: Estudo Descritivo” (2015), apresentado no I Encontro Internacional Inovação no Ensino na Saúde e Enfermagem. 2 Psicóloga; Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências do Cuidado da Saúde da Universidade Federal Fluminense; Mestre em Cuidado em Saúde; Pós-Graduada no Curso de Especialização Psicossomática e Cuidados Com O Corpo pela Universidade Federal Fluminense; Niterói, RJ, Brasil, vanessagilpsicologa@hotmail.com 3 Enfermeira; Filósofa; Psicóloga; Professora associada IV da Universidade Federal Fluminense; Doutora em Psicologia Social pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro; Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Niterói, RJ, Brasil, roserosauff@gmail.com 4 Pós-Doutora pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro; Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Professora Associada III na Universidade Federal Fluminense; Docente na Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Niterói, RJ, Brasil, elianeramos.uff@gmail.com 5 Doutorando em Ciências do Cuidado na Saúde na Universidade Federal Fluminense; Especialista em Enfermagem do Trabalho; Presidente do Centro de Estudos do Hospital Estadual Getúlio Vargas; Enfermeiro no Hospital Federal de Bonsucesso, Rio de Janeiro - RJ, Brasil, m.andradesilva1@gmail.com Citação: Alcantara, V., Silva, R., Pereira, E., & Silva, M. (2016). O fenômeno qualidade de vida a favor da saúde mental de motorista de ônibus. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe. 4), 101-106. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 101


INTRODUÇÃO A qualidade de vida (QV) é multifatorial (Ribeiro, Cotta, e Ribeiro, 2012) e pode ser definida como o grau de prazer e realização pessoal na vida de um indivíduo. Para um elevado nível de QV, devem ser atendidas,minimamente, as necessidades básicas de uma pessoa. As condições laborais e o estilo de vida contribuem sobremaneira para a promoção ou não da QV, influenciando no bem-estar físico e emocional dos indivíduos. Pode-se afirmar que a saúde física dos trabalhadores é afetada pela atividade laboral. Em estudos de diferentes países, há convergência quanto aos problemas de saúde mais frequentes nessa população: distúrbios osteoarticulares, doenças cardiovasculares, cânceres, distúrbios sensoriais e digestivos, problemas mentais (Thierry, Chouanière, & Aubry, 2008). A oportunidade de dar voz aos motoristas foi uma tentativa de superação da carga emocional negativa vivenciada dia a dia por eles. Para que o sujeito se mostre de forma original e sensível, é necessário que a comunicação se estabeleça de maneira a enunciar uma fala falante, isto é, considerando os significados psíquicos atrelados ao discurso. É por meio da fala que se consegue estabelecer novas possibilidades, relações mais abertas ao diálogo e à discussão franca de problemas nas relações. Os trabalhadores do transporte coletivo urbano são frequentemente vítimas de condições precárias de trabalho e, consequentemente, de problemas de saúde associados à atividade laboral (Assunção e Silva, 2013). O referencial teórico utilizado é a fenomenologia de Merleau Ponty, que é uma filosofia transcendental que coloca em suspensoatos e crenças para compreender as afirmações da atitude natural. É também uma filosofia para a qual o mundo está sempre “ali”, antes da reflexão, como uma presença inalienável, e cujo esforço consiste em reencontrar este contato ingênuo com o mundo, para lhe dar, enfim, um estatuto filosófico. É a tentativa de uma descrição direta de nossa experiência tal como ela é e sem nenhuma deferência à sua gênese psicológica e às explicações causais (Merleau-Ponty, 2011). A busca de qualidade de vida para o profissional em análise vem ao encontro da própria necessidade de solidez da mobilidade urbana, que pode ser definida como a capacidade de deslocamento das pessoas e de bens nas cidades, cujas variáveis são tão complexas quanto as variáveis que constituem a própria cidade (Kneib, 2012).

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Portanto, o objetivo deste estudo édescrever o significado de qualidade de vida para os motoristas de ônibus e contribuir para a saúde mental destes trabalhadores, pois as condições laborativas podem influenciar a qualidade de vida que é bem-estar físico, emocional e psicológico integrados. METODOLOGIA Estudo descritivo e qualitativo, realizado na zona leste do estado do Rio de Janeiro, de abordagem fenomenológica. Possui como principal característica a análise do fenômeno; epor “fenômeno”Merleau-Ponty se refere àquilo que aparece na correlação intencional¬– realidade-experiência percebida por alguém. O método fenomenológico transcende a dualidade corpo e mente. Merleau-Ponty considera que o estudo da experiência não é um ato psíquico, mas de percepção, de significado ao que vivemos; percepção é o campo onde se fundem sujeito e objeto ancorados no mundo. O sentir e a percepção sãoa ligação fundamental com o mundo e o fio condutor da existência humana (Silva, 2011). É a partir da sensação do mundo que o percebemos como mundo externo a nós. O mundo fenomenológico não é o ser puro, mas o sentido que transparece na intersecção entre as experiências do sujeito, e com as do outro, pela engrenagem de umas nas outras. Ele é, portanto, inseparável da subjetividade e da intersubjetividade que formam sua unidade pela retomada das experiências passadas em presentes, da experiência do outro na do sujeito (Merleau-Ponty, 2011). Para o filósofo francês, não há verdade absoluta - essa redução impediria o desvelamento do significado feito a partir da experiência individual.O pesquisador descreve e apreende com quem já viveu ou vive a experiência sobre a qual ele quer aprimorar seus conhecimentos; toda consciência é, em algum grau, consciência perceptiva. Se o sujeito pudesse desenvolver todos os pressupostos daquilo que chama de minharazão ou minhas ideias, sempre encontraria experiências que não foram explicitadas, contribuições maciças do passado e do presente, toda uma “história sedimentada” que não concerne apenas à gênese de pensamento, mas determina seu sentido (Merleau-Ponty, 2011). A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de ética e pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense/FM/UFF/HU, sendo aprovado sob o CAAE nº 19593513.2.0000.5243.


Os critérios de inclusão foram estabelecidos a partir da política da empresa: profissionais com mais de um ano no cargo, acima de 22 anos, que assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Participaram desta pesquisa 16 profissionais.A proposta do estudo foi apresenta aos participantes, bem como a leitura e a explicação do TCLE, a fim de orientar sobre possíveis questionamentos. Tudo transcorreu de acordo com as especificações éticas e legais da Resolução CNS/N 466/2012 do Ministério da Saúde do Brasil, que regulamenta a pesquisa com seres humanos no país. Excluíram-se os motoristas que não assinaram o TCLE que possuíam menos de um ano na profissão ouque ficaram afastados de suas atividades por mais de dois anos devido a tratamentos de saúde até a data das entrevistas. As entrevistas foram realizadas entre os meses de abril e novembro de 2014 com 16 motoristas na sala de reunião da garagem de ônibus, localizada no setor de operações. Não houve tempo estipulado para duração, fato que enriqueceu a experiência do encontro. A pergunta norteadora foi: o que é para você qualidade de vida? Após a coleta de dados realizou-se a etapa metodológica da categorização dos dados à luz do método fenomenológico. Os roteiros de entrevistas foram lidos na íntegra e revisados para serem extraídas declarações significativas. Depois de repetidas leituras, formulou-se o significado a fim de articular o insight psicológico em cada uma das unidades de significado (Minayo, 2012). Os roteiros foram separados por aproximação de significados descritos pelos motoristas de ônibus. Após esta etapa, foi realizada a síntese de todas as unidades de sentido transformadas. Para que houvesse uma declaração consistente, os profissionais escreveram no roteiro suas percepções. Os roteiros foram enumerados de 01 a 16, correspondendo à ordem de leitura. A enumeração teve como fim preservar a identidade do sujeito participante na análise dos dados. Resultados Emergiram três categorias: “a saúde do motorista de ônibus ameaçada pelo desconforto no trabalho”,“aimportância da profissão” e “a qualidade de vida é viver em família”. Na primeira categoria – “a saúde do motorista de ônibus ameaçada pelo desconforto no trabalho” - foi possível compreender a importância da equalização entre as condições de trabalho na direção do ônibus e o relacionamento interpessoal com os clientes.

Para os motoristas de ônibus desta pesquisa, a qualidade de vida foi ameaçada pela insatisfaçãocom as condições ergonômicas dos ônibus em que trabalham. O interesse por melhores salários também foi evidenciado nas falas a seguir: Deveria melhorar o respeito no setor de trabalho, como a condição dos bancos dos motoristas que é muito deficiente. E o calor: poderiam dar um conforto para o motorista que começa e termina as viagens (Motorista 02). Condição de trabalho dos coletivos, melhores salários para todos. Maior empenho de toda classe e maior empenho das autoridades competentes, inclusive do sindicato dos rodoviários (Motorista 05). Sabe-se que o estresse no trânsito altera o comportamento de clientes e dos profissionais.A educação sobre as rodas se esvai quando o tempo é curto e o atraso é inevitável.Os ônibus que servem a cidade transportam, além de vidas humanas, histórias, conversas, expectativas. O inconsciente do motorista articula-se enquanto trabalha, viaja com ele tentando significar situações, sentimentos vividos no cotidiano laboral. A segunda categoria, intitulada “aimportância da profissão”, correspondeu ao valor dado pelos motoristas de ônibus participantes à profissão. Elesconsideram que qualidade de vida também é a oportunidade de exercer a atividade que gostam, como evidenciam as falas abaixo: Trabalhar como motorista de ônibus é uma profissão boa. Você conhece pessoas todos os dias, o salário não é tão ruim assim. Como todo trabalho, tem o seu lado positivo e negativo. O lado negativo é o trânsito. Às vezes aparecem passageiros abusados, motoristas estressados, porém o mais importante nesta profissão é cuidado, pois você trabalha com vidas (Motorista 07). Ser motorista é movimentar a história em geral, pois sem essa função, o país para. E quando se faz com amor, uno o útil ao agradável, e torna minha vida bem melhor (Motorista 08). A satisfação no trabalho é base para a qualidade de serviços e de vida. Para isso, são necessários investimentos em vários níveis. Novas tecnologias foram contratadas para maior conforto e eficácia do trabalho, e os ônibus trocados a fim de promover maior qualidade ao longo da jornada de trabalho. Ações como estas são tomadas constantemente para que o trabalhador tenha condições de terminar sua atividade sem comprometer sua saúde física e mental. Além disso, continuar satisfeito com sua profissão.

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Na categoria “qualidade de vida é viver em família”, os motoristas explicitaram a satisfação de recorrer à família como ponto de equilíbrio para vencer as intempéries do dia a dia: É tudo aquilo que envolve uma vida saudável e tranquila. Um bom salário, um bom relacionamento familiar, um bom convívio com a sociedade, ter horas de lazer constantes(Motorista 11). É tudo aquilo que gera frutos e que deixa saudades, no que se realiza: casar, ter filhos, etc.(Motorista 13). Qualidade de vida para mim é estar feliz com saúde e com sua família; o resto você corre atrás(Motorista 15). O equilíbrio familiar está vinculado ao processo de trabalho do motorista de ônibus. Afinal, sua atenção concentrada na direção e nos agentes externos depende da mente tranquila. Conflitos em casa interferem na concentração do profissional que, enquanto dirige, traz à memória suas angustias e insatisfações.O conflito com o outro é um sofrimento que ganha força no silêncio do fazer solitário que é dirigir. DISCUSSÃO A fenomenologia pode ser definida como a filosofia vivenciada (Dartigues, 2008). É o estudo das essências, e todos os problemasresumem-se em defini-las: a essência da percepção, a essência da consciência (MerleauPonty, 2011). Ela é um referencial teórico, bem como metodológico.O fenômeno é o desvelar da essência do pensamento para os motoristas de ônibus. Fenômeno de qualidade de vida é um conjunto de melhorias a partir do prisma de suas falas sobre a sua atividade,sem a rigidez de preconceitos. A percepção do espaço não é uma classe particular de “estados de consciência” ou de atos, e suas modalidades exprimem sempre a vida total do sujeito, a energia com a qual ele tende para um futuro por meio de seu corpo e de seu mundo (MerleauPonty, 2011). O trabalho, como direito fundamental do ser humano, deve ser realizado em condições que contribuam para uma melhor qualidade de vida, no intuito de garantir a integridade física e mental ao trabalhador (Bendassolli e Sobol, 2011). A atividade do motorista de ônibus exige equilíbrio entre o corpo e o psiquismo. São necessárias intervenções garantindo o cuidado ao sujeito motorista. A promoção de saúde por meio de melhoria nosônibus é o passo inicial que a empresa pode realizar para garantir o conforto do trabalhador.

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O ajuste dos bancos, respeitando o tamanho e peso do motorista, torna-se importante fator de dimensionamento de sua qualidade de vida no trabalho. O salário e as condições de trabalho estão em constante questionamento pelos próprios trabalhadores, que sempre buscam escalas de trabalho que os possibilitem fazer horas extras, turismos no fim de semana a fim de aumentar a sua renda. A empresa em questão possui preocupação acentuada com este problema, pois o período de descanso é imprescindível para o profissional e para a mobilidade urbana. Para os motoristas, o salário está diretamente ligado à valorização da atividade. A partir das considerações dos motoristas descritas acima, pode-se afirmar que os gestores devem conhecer os quesitos que geram insatisfação dos funcionários. Em seguida, propiciar ao trabalhador uma abertura para a expressão dos seus recursos internos –autovalorização, satisfação e realização pessoal -; bem como externo – facilitando a adaptação do trabalhador à instituição por meio de boas condições de trabalho e infraestrutura, melhores salários, promoções e plano de carreira. A percepção de sua função na sociedade é o ponto principal que define a maneira de conduzir a vida,o trabalho, em cada modulação gestual que o trabalhador põe em jogo para realizar a tarefa que ele se engaja pelas prescrições da organização. Desse modo, encontra-se na atividade do motorista de ônibus uma pluralidade de sentidos em função das múltiplas forças em luta na sua existência pelos mundos em que habita. É essa pluralidade de forças e lutas que interessam na atividade do motorista. O que é apenas vivido é ambivalente: existem em mim sentimentos aos quais não dou nome e também felicidades falsas em que não estou por inteiro. Entre a ilusão e a percepção, a diferença é intrínseca, e a verdade da percepção só pode ser lida nela mesma (Silva, Keller, & Coelho, 2013). A família é a primeira sociedade do sujeito. Seus membros estão unidos por laços consanguíneos de adoção, interesse e/ou afetividade. Ela tem identidade própria, possui e transmite crenças, valores e conhecimentos comuns influenciados por sua cultura e nível socioeconômico. As famílias têm direitos e responsabilidades. Residem em um determinado ambiente em interação com outras pessoas e familiares em diversos níveis de aproximação, definem objetivos e promovem meios para o crescimento, desenvolvimento, saúde e bem-estar de seus membros (Silva, Pereira, Santo, e Silva, 2008).


Este estudo, subsidiado pela fenomenologia, possibilitou compreender o fazer sob a percepção do motorista de ônibus. Os resultados desta pesquisa nas categorias apontaram para a relevância da fenomenologia ao desvelar o fenômeno da percepção em contraponto à significação da profissão, das relações com os clientes que, em fenomenologia, podem ser definidas como a relação do mundo da vida com o mundo dinâmico, a condição de ir e vir. Pela valorização do sujeito motorista de ônibus, o estudo possibilita a reflexão dos profissionais das áreas de enfermagem enquanto educadores em saúde, podendo inserir-se no contexto organizacional com programas de controle de peso, da pressão arterial (PA), prevenção de doenças ocupacionais e acidentes. A inserção do enfermeiro neste contexto contribuiria para o controle de ausências ao trabalho (absenteísmo) e também agravos de longa duração. Quanto aos psicólogos, sugerem-se programas de treinamentos motivacionais, destacando a importância da profissão, e ações estratégicas em saúde mental, permitindo aos profissionais a superação de questões estressoras. CONCLUSÃO Destaca-se que a pesquisa fenomenológica propiciou o mergulho no mundo vivido pelos profissionais do volante, permitindo a descrição do que para eles é qualidade de vida. Os sentidos revelados por eles nesta pesquisa direcionam para a renovação do pensamento organizacional e abertura de novos horizontes para diferentes modos de escuta, ensino eeducação em saúde. Sugerem-se mais estímulos a programas de promoção de saúde ao trabalhador para prevenção de sintomas ocupacionais. O motorista é a força motriz para o serviço do transporte eficaz nas cidades. A manutenção de bem-estar é multifatorial, porém é de suma importância lembrar que os motoristas de ônibus necessitam de condições positivas para circular pela cidade diariamente. A qualidade de vida depende de fatores internos e externos aos motoristas. As melhorias apontadas são o início de um diálogo entre o trabalhador e a organização, pois a relação de trabalho não é de rivalidade, mas de parceria.

IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Pela valorização do sujeito motorista de ônibus o estudo possibilita a reflexão dos profissionais das áreas de Enfermagem que atendem na própria organização o motorista de ônibus quando a saúde lhe falta, sugere se ao enfermeiro encaminhar o motorista de ônibus aos Recursos Humanos quando o discurso dele transcender ao sintoma observado e aos profissionais de Psicologia como um exercício de reflexão nos Recursos Humanos da organização, que atrás do volante existe um ser humano demandando atenção, é necessário que os Recursos Humanos lhes permitam falar de seus anseios, angustias expectativas e estresses. Sugere-se que mais estudos sobre o tema sejam produzidos a fim de que possa ser superada a invisibilidade da profissão diante da sociedade e promover ações estratégicas para a saúde mental dos motoristas de ônibus. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Assunção, A. A., e Silva, L. S. (2013). Working conditions on public buses and common mental disorders among drivers and fare collectors: Greater Metropolitan Belo Horizonte, Minas Gerais State, Brazil, 2012. Cadernos de Saúde Pública, 29, 2473-2486. Bendassolli, P., e Sobol, L. A. P. (2011). Clínicas do trabalho: Novas perspectivas para compreensão do trabalho na atualidade. São Paulo: Atlas. Dartigues, A. (2008). O que é fenomenologia? (10ª ed.). São Paulo: Centauro. Kneib, E. C. (2012). Mobilidade urbana e qualidade de vida: Do panorama geral ao caso de Goiânia. Revista Universidade Federal de Goiás, 3(12), 71-78. Merleau-Ponty, M. (2011). Fenomenologia da percepção (4ª ed.). São Paulo: Martins Fontes. Minayo, M. C. S. (2012). Análise qualitativa: Teoria, passos e fidedignidade. Ciência & Saúde Coletiva, 17(3), 621-626. Ribeiro, A. G., Cotta, R. M. M., e Ribeiro, S. M. R. (2012). A promoção da saúde e a prevenção integrada dos fatores de risco para doenças cardiovasculares. Ciência & Saúde Coletiva, 17(1), 7-17. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 105


Silva, A. A. (2011). O cuidado de si do/a profissional de enfermagem em saúde mental (Dissertação de Mestrado). Rio Grande do Sul: Universidade Federal de Santa Maria.

Silva, A. M. B., Keller, B., e Coelho, R. W. (2013). Associação entre pressão arterial e estresse percebido em motoristas de ônibus. Journal of the Health Sciences Institute, 31(1), 75-78.

Silva, R. M. C. R. A., Pereira, E. R, Santo F. H. E., e Silva M. A. (2008). Cultura, saúde e enfermagem: O saber, o direito e o fazer crítico-humano. Revista Eletrônica Enfermagem, 10(4), 1165-1171.

Thierry, S., Chouanière, D., & Aubry, C. (2008). Conduite et santé: Une revue de la littérature. Documental Medical Travail,113, 45-63.

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Artigo de Investigação

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0149

16 OS LIMITES DO ENSINO TEÓRICO-PRÁTICO DA SAÚDE MENTAL

NA FORMAÇÃO DO PROFISSIONAL DE SAÚDE1 | Wagner Rodrigues2; Lucia Mourão3; Ana de Almeida4; Gilson de Oliveira5 |

RESUMO CONTEXTO: A efetivação do ensino da atenção psicossocial no curso de Medicina em uma Universidade do Estado do Rio de Janeiro envolve a articulação de mudanças em várias dimensões simultâneas e inter-relacionadas nos âmbitos político-ideológico e teórico-prático. OBJETIVO: Buscou-se analisar os limites do ensino teórico-prático da saúde mental na formação do profissional de saúde e destacar a utilização da metodologia da socioclínica institucional na realização de pesquisas ligadas ao ensino e à saúde. METODOLOGIA: Trata-se de pesquisa intervenção, com abordagem qualitativa, realizada em um município do Rio de Janeiro de 2013 a 2014, utilizando o método socioclínico institucional em sua modalidade de análise institucional das práticas. Os dados foram coletados em um diário de pesquisa, nos relatórios dos alunos e em entrevista coletiva realizada com os mesmos. A pesquisa teve aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa da Fundação Educacional Serra dos Órgãos com CAEE 22980513.8.0000.5247, em 21/10/2013. RESULTADOS: apontam para limites do ensino teórico-prático da saúde mental na formação profissional; os efeitos do tempo para apreensão do aporte teórico-prático da saúde mental; a percepção da rede de atenção à saúde mental, e a valorização excessiva do especialista no cuidado em saúde mental. CONCLUSÕES: Considera-se que, apesar das limitações, nos debates entre alunos, professor e profissionais da saúde foram elaboradas algumas propostas instituintes indicando a construção de um embrião de uma nova prática na atenção psicossocial. PALAVRAS-CHAVE: Saúde mental; Educação de graduação em medicina; Prática profissional; Desinstitucionalização

RESUMEN

ABSTRACT

“Límites de la enseñanza de salud mental en la formación del profesional de salud”

“Limits of theoretical-pratical mental health education in health professional training”

CONTEXTO: La educación en atención psicosocial en la escuela de medicina de una Universidad del Estado de Río de Janeiro, implica la articulación de los cambios en varias dimensiones simultáneamente y están interrelacionadas en el ámbito politico-ideológico y teórico-práctico. OBJETIVOS: Analizar los límites de la enseñanza teórica y práctica de la salud mental en la formación de los profesionales de la salud y poner de relieve el uso de la metodología socio clínica institucional en la investigación en salud y educación. METODOLOGÍA: Intervención con un enfoque cualitativo, realizado en 2013 y 2014, utilizando el método socio clínico institucional en su forma de análisis institucional de las prácticas. Los datos fueron recogidos en diario de pesquisa, en los informes finales de los alumnos del cuarto período y en una conferencia de prensa con estos estudiantes en el Segundo semestre de 2014, cuando éstos ya cursaban el quinto período. Aprobación CEP CAEE 22980513.8.0000.5247, en el 21/10/2013. RESULTADOS: Han apuntado hacia los límites de la enseñanza teórica y práctica de la salud mental en la formación del profesional de la salud; los efectos del tiempo de comprender la teoría y práctica de la salud mental de los estudiantes; la percepción de la atención a la red de atención a la salud mental y la sobrevaloración del experto en atención a la salud. CONCLUSIONES: A pesar de las limitaciones, se pudieron observar propuestas instituyentes con que los profesores, estudiantes y profesionales de la salud han podido construir un embrión de una nueva práctica en la atención psicosocial.

BACKGROUND: The effectiveness of psychosocial care education in the medical school of a Public University of Rio de Janeiro involves the simultaneous articulation of changes in several dimensions and interrelated in politicalideological and theoretical-practical fields. OBJECTIVES: Was sought to examine the limits of theoretical-practical teaching of mental health in the training of health professionals and highlight the use of institutional socio-clinical methodology to carry out research linked to education and health. METHODS: Intervention research with a qualitative approach, carried out in a municipality of Rio de Janeiro from 2013 to 2014, using the institutional socio-clinical method in its form of institutional analysis of practices. Data were collected through a daily research, the student’s reports and collective interview performed with them. The research was approved by the Research Ethics Committee of the Educational Foundation Serra dos Órgãos with CAEE 22980513.8.0000.5247 on 21/10/2013. RESULTS: Limits of theoretical-practical teaching of mental health in vocational training are highlighted; the effects of time to grasp the theoretical-practical contribution of mental health; the perception of the mental health system, and the excessive appreciation of expert in mental health care. CONCLUSIONS: It is felt that, despite the limitations, the discussions between students, teachers and health professionals allowed the elaboration of some instituting proposals indicating the construction of an embryonary new practice in psychosocial care.

DESCRIPTORES: Salud mental; Educación de pregrado en medicina; Desinstitucionalización

KEYWORDS: Mental health; Education undergraduate medicine; Professional practice; Deinstitutionalization

Submetido em 01-06-2016 Aceite em 10-09-2016

1 Elaborado a partir da dissertação “A institucionalização do ensino da atenção psicossocial na formação do médico, na estratégia de saúde da família”, do Mestrado Profissional de Ensino em Saúde, da EEAAC/Universidade Federal Fluminense, 2015. 2 Enfermeiro; Mestre pelo Programa de Mestrado Profissional em Ensino na Saúde: Formação Docente Interdisciplinar para o SUS da Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Rua Dr. Celestino, 74, 24710200 Niterói, RJ, Brasil, wagnerfront@hotmail.com 3 Enfermeira; Doutora em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual de Campinas; Professora Associada na Universidade Federal Fluminense; Professora no Programa de Mestrado Profissional de Ensino em Saúde da Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Niterói, Brasil, luciamourao@hotmail.com 4 Enfermeira; Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Professora aposentada pela Universidade do Grande Rio Prof. José de Souza Herdy; Professora voluntária do Mestrado Profissional de Ensino em Saúde da Universidade Federal Fluminense, 24710200 Niterói, RJ, Brasil, ana.vieiradealmeida@gmail.com 5 Cientista Social; Doutor em Saúde Coletiva pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz; Professor Associado no Pólo Universitário de Nova Friburgo da Universidade Federal Fluminense, 28625-650 Nova Friburgo - RJ, Brasil, gilsonsaippa@id.uff.br Citação: Rodrigues, W., Mourão, L., Almeida, A., & Oliveira, G. (2016). Os limites do ensino teórico-prático da saúde mental na formação do profissional de saúde. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe. 4), 107-114. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 107


INTRODUÇÃO Os sujeitos são atravessados por diferentes instituições, o que determina a natureza das suas implicações. A Análise Institucional (AI) que se constituiu a partir de um conjunto de disciplinas e movimentos que ocorreram na sociedade francesa, a partir dos anos 40 e 50, teve como objetivo compreender uma determinada realidade social e organizacional a partir dos discursos e práticas dos sujeitos, tendo por base um conceito dialético de instituição. Para a AI, as instituições estão em constante movimento com os seus momentos instituídos, instituintes e de institucionalização. A introdução do conceito de implicação na AI surgiu com os institucionalistas ao negarem a neutralidade científica nas suas intervenções, colocando coletivamente em análise os seus pertencimentos, engajamentos e recusas diante das situações de crise. O analista deve implicar-se, falar dos seus problemas, dos seus desejos, ultrapassando as ilusões positivistas e elucidando a relação do investigador com a sua produção, com o seu objeto de investigação, a sua relação com o saber, o ter e o poder. O método socioanalítico institucional aqui empregado, baseado no referencial teórico-metodológico da AI, compreende a elucidação de conceitos como os de encomenda, de demanda, de implicação e de analisador. (L´Abbate, 2012; Monceau, 2013; Lourau, 2014). As implicações profissionais do primeiro autor com a saúde mental e com a atenção psicossocial iniciaramse ao escolher a área da Saúde para exercer a sua profissão, fazendo o curso de graduação em Enfermagem, e neste, já direcionando seu olhar para a saúde mental e a psiquiatria. Foi contratado por uma universidade na Região Serrana do Rio de Janeiro, como docente para dar aulas no curso de graduação em Enfermagem nas disciplinas de Semiologia/Semiotécnica e Enfermagem em Saúde Mental e Psiquiatria, após concluir a sua especialização. A disciplina de Enfermagem em Saúde Mental e Psiquiatria tinha o seu estágio curricular desenvolvido no Hospital das Clínicas da cidade, administrado pela universidade e nas Equipes de Saúde da Família (ESF), organizadas pela Secretaria Municipal de Saúde do mesmo município onde se encontrava a universidade. No seu percurso como docente, participando de reuniões nas comissões de currículo, avaliação e integração ensino-serviço-comunidade, suscitou discussões no sentido de revisitar os processos do ensino da Saúde Mental na ESF visando provocar nos sujeitos reflexões e ações que levassem a práticas mais integradas na formação profissional em Enfermagem e Medicina. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 108

A ESF, dispositivo de organização da rede da atenção à saúde no Brasil, implementada a partir da década de 90 em âmbito nacional, é orientada pelos princípios da integralidade, da universalidade, da equidade e da participação social, entre outros. Tem sua ênfase na atenção primária de saúde às famílias e comunidade. As práticas de suas equipes multidisciplinares, compostas basicamente por médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e agentes comunitários de saúde, são acompanhadas por uma equipe de apoio matricial integrada por especialistas. Entre suas atribuições estão as ações instituintes de promoção, prevenção e reabilitação em saúde mental, executadas em um território, com acompanhamento longitudinal dos usuários, famílias e comunidade, de acordo com o preconizado pela Reforma Psiquiátrica (Portaria n.º 2448/2011). A oportunidade de ampliar as reflexões sobre a formação profissional em saúde mental surgiu de uma encomenda do Coordenador do curso de graduação em Medicina, endereçado à Coordenadora da Prática do primeiro ao quarto períodos, no sentido de revisitar a integração do ensino teórico com a prática da atenção psicossocial, no ano de 2013, motivada pelas muitas declarações de insatisfação dos alunos e preceptores com o cuidado em saúde realizado na ESF, registradas nas reuniões. Com relação à compreensão dos conceitos de encomenda e demanda, o enunciado da demanda, mesmo quando formalizado por escrito, não informa diretamente sobre a situação em questão, no entanto, ela constitui um diagnóstico inicial formulado por quem encomenda a intervenção ao socioanalista institucional. As demandas surgem gradualmente com o avanço da análise e são produzidas por todos os envolvidos no trabalho socioanalítico institucional (Baremblit, 2012; Monceau, 2013). No âmbito dessas transformações, o primeiro autor exercia suas atividades na gestão, docência e preceptoria, onde eclodiam a todo instante, situações que punham em discussão a forma de inserção dos alunos de Medicina nos cenários de prática, nos quais se entrecruzavam os profissionais de saúde, os alunos em processo de formação e os usuários do sistema de saúde. Por outro lado, deparava-se com a falta de preceptores para acompanhar esses alunos no serviço de saúde dificultando, assim, a maior integração do ensino-serviçocomunidade. Cabe destacar que a preceptoria é uma prática pedagógica que ocorre no ambiente de trabalho, voltada à formação profissional, exercida por profissionais universitários do campo de prática com o objetivo de construir conhecimentos no processo saúde-doençacuidado em seus diferentes níveis de atenção (Missaka e Ribeiro, 2011).


Outro problema observado era com relação à insatisfação das famílias e dos usuários da saúde mental quanto à resolutividade e continuidade das ações promovidas pelos alunos. Esses usuários sentiam-se usados como meros objetos na construção do conhecimento do aluno, sem obterem respostas significativas para as reais necessidades de suas vidas. A partir deste contexto, ficam explícitas as implicações do primeiro autor com a saúde mental e com a atenção psicossocial, pela maneira como percebia o sofrimento humano e os problemas da sociedade, revelando sua postura não neutra frente aos acontecimentos referentes às instituições Educação e Saúde. Os demais autores implicados nessa temática como docentes e pesquisadores no campo da formação em saúde, contribuem com essa reflexão com suas expertises na área de Saúde Coletiva e Análise Institucional. Desenvolveu-se este estudo no âmbito do Programa de Mestrado Profissional de Ensino em Saúde da UFF, visando analisar os limites do ensino teórico-prático da saúde mental na formação do profissional de saúde e destacar a utilização da metodologia socioclínica institucional na realização de pesquisas ligadas ao ensino e à saúde como contribuições para as transformações nessas instituições. A Atenção Psicossocial: Um Pouco de História Destaca-se alguns movimentos na evolução da reforma psiquiátrica no mundo contemporâneo visando contextualizar o sentido que hoje orienta a atenção psicossocial na ESF, preconizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e a sua influência na formação do médico e dos demais profissionais de saúde. O Hospital Psiquiátrico, assim como o olhar para a doença mental e seu tratamento, sofreram importantes críticas no período pré Segunda Guerra Mundial. Os momentos vividos diante da violência e da exclusão na guerra, dispararam reflexões e discussões mais intensas sobre o sofrimento mental no sentido da superação dos modos degradantes de cuidar das pessoas, através de novas abordagens conceituais e operacionais. Nesse momento, a sociedade passou a refletir acerca da natureza humana, tanto com relação à crueldade quanto à solidariedade entre os homens. Foram lançados olhares sobre o hospício e compreendeu-se que os mesmos deveriam mudar, pois as práticas nele ocorridas, eram muito semelhantes às que ocorriam nos campos de concentração. Desse contexto, surgem as primeiras experiências com relação à Reforma Psiquiátrica (Amarante, 2007).

Foram necessárias décadas de lutas para garantir o direito a um atendimento à saúde mental que contemplasse o paciente no âmago da sua existencialidade. Na década de 50, era iminente à necessidade de mudança no interior dos hospitais psiquiátricos, inserindo-se, então, a Comunidade Terapêutica e a Psicoterapia Institucional. A comunidade passa a integrar o movimento da Reforma Psiquiátrica na década de 60, com a Psiquiatria de Setor e a Psiquiatria Comunitária ou Preventiva. Por fim, na década de 70, os questionamentos direcionavam-se para a própria a Psiquiatria clássica com os movimentos ascendentes da Antipsiquiatria e da Psiquiatria Democrática Italiana, destacando-se como grande precursor dessa reforma a figura de Franco Basaglia. Nas décadas de 60 e 70, foram implantados vários serviços de saúde mental na comunidade, como: centro de saúde mental, oficinas protegidas, lares abrigados, hospitais-dia e leitos em hospitais gerais para que o hospital psiquiátrico se tornasse dispensável, mas as mudanças ocorriam prioritariamente no interior dos hospitais (Basaglia, 2005; Amarante, 2007). O processo de Reforma Psiquiátrica no Brasil, nos anos 70, deu-se com questionamentos a respeito do modelo hospitalocêntrico de atenção à saúde, da incapacidade dos serviços privados em oferecer tratamento que atendessem minimamente as necessidades dos usuários, da falta de assistência médica, da deficiente organização dos hospitais psiquiátricos que culminava na superlotação e da falta de higiene. Práticas degradantes de assistência, como uso de camisa de força, maus tratos e privação de comida, geravam indignação aos que conviviam com esse processo (Amarante, 2007; L’Abbate, 2013; Luzio, 2013). Pode-se afirmar que no Brasil, a Reforma Psiquiátrica foi um processo político e social complexo, composto por atores, instituições e forças de diferentes origens, que incidiu em territórios diversos, nos governos federal, estaduais e municipais, nas universidades, no mercado dos serviços de saúde, nos Conselhos profissionais, nas Associações de pessoas com transtornos mentais e de seus familiares, nos movimentos sociais, e nos territórios do imaginário social e da opinião pública. Compreendida hoje como um conjunto de transformações de práticas, saberes, valores culturais e sociais, é no cotidiano da vida das instituições, dos serviços e das relações interpessoais que o processo da Reforma Psiquiátrica avança, marcado por impasses, tensões, conflitos e desafios (Ministério da Saúde, 2013).

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A incorporação dessa nova forma de lidar com o sofrimento psíquico, exige dos profissionais de saúde competências que são adquiridas no processo de qualificação profissional inicial ou permanente, considerando que “a mudança no campo da saúde mental impõe transformações na área da Educação, requerendo profissionais comprometidos com uma nova forma de lidar com o conhecimento, capazes de articular conhecimentos profissionais específicos com o de toda a rede de saberes envolvidos no sistema de saúde, por meio de uma ação dialógica com diferentes atores sociais, visando o enfrentamento dos problemas de saúde e a melhoria nas condições de vida” (Tavares, 2006, p. 404). É com esse propósito que o modelo da atenção psicossocial almeja superar a forma como a sociedade se relaciona com a loucura. A atenção psicossocial supõe um processo de transformações no paradigma manicomial, psiquiátrico e medicamentoso, nas esferas político-ideológica e teórico-técnica (Mourão e Luzio, 2013). A importância da inserção da saúde mental na ESF, com o desenvolvimento de ações voltadas à atenção psicossocial, decorre do entendimento de que as pessoas busquem precocemente o atendimento e sejam acolhidas em seus problemas e sofrimento psíquico, dispensando muitos encaminhamentos aos níveis mais complexos de atenção (Amarante, 2007, Luzio, 2013). Ao ingressar no curso de Mestrado, o primeiro autor traz seu tema e objeto de estudo relacionados à atenção psicossocial para ser analisado à luz do referencial teórico metodológico da AI Lourau-Lapassadeana, na sua modalidade socioclínica institucional, na esfera da ESF (Monceau, 2012; Lourau, 2014). METODOLOGIA Trata-se de uma pesquisa intervenção, com abordagem qualitativa, realizada nos anos de 2013 e 2014, utilizando o método socioclínico institucional em sua modalidade de Análise Institucional (AI) das práticas. A pesquisa-intervenção nos moldes da AI é entendida como aquela na qual o pesquisador e os sujeitos participantes são constituídos ao mesmo tempo “num processo mediatizado pelos saberes e pelos não saberes sobre o que foi possível produzir e pensar” (Pezzato e Prado, 2013, p. 169). Para os autores, o importante na pesquisa intervenção é a atitude do pesquisador, a análise das suas implicações com o problema e, principalmente, seu papel de participante em todo contexto onde se desenvolve a pesquisa, sendo possível uma interação que possibilita a produção de conhecimentos e de mudanças em uma dada realidade. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 110

A intervenção socioclínica institucional pode ser desenvolvida a partir de oito características, a saber: a “análise da encomenda e das demandas; a participação dos sujeitos no dispositivo; o trabalho dos analisadores; a análise das transformações que ocorrem na medida em que o trabalho avança; a aplicação da modalidade de restituição; o trabalho das implicações primárias e secundárias; a intenção da produção de conhecimentos e a atenção aos contextos e às interferências institucionais” (Monceau, 2013, p. 93). Estas características não são percebidas como obstáculos, tomadas em sequência ou como condição inicial do trabalho, mas como material necessário para se apresentar os desafios colocados pelas situações, facilitando a investigação. O cenário do estudo foi um município da Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro, com uma população de aproximadamente 163.805 habitantes, à época, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010). O sistema de saúde dessa cidade contava com uma capacidade instalada de 13 unidades da ESF, acomodando 16 equipes de saúde que cobrem 32% da população do seu território, 03 hospitais privados e uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Os participantes do estudo foram 12 alunos do quarto período do curso de medicina e os dados foram coletados em: entrevista coletiva, diário de pesquisa e relatórios de atividades dos alunos. Os encontros aconteceram durante o semestre de 2014. A entrevista coletiva foi realizada no ano de 2015, quando os alunos já cursavam o quinto período, sendo gravada e posteriormente transcrita. O fato de o primeiro pesquisador atuar como professor dos participantes, foi um facilitador para o desenvolvimento da pesquisa. As anotações do diário de pesquisa foram discutidas com os outros autores por ocasião das reuniões do grupo pesquisador. Para a entrevista coletiva, algumas questões foram elaboradas previamente abordando a integração do ensino teórico e prático; a importância do ensino da atenção psicossocial na formação do profissional de saúde; a percepção dos alunos sobre a atenção psicossocial na ESF e a interação dos alunos com os preceptores, com a equipe do ESF e com a comunidade. Ciente das Diretrizes e Normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos da Resolução nº 466, do Conselho Nacional de Saúde, o projeto foi submetido à Plataforma Brasil, protocolado sob nº CAEE 22980513.8.0000.5247, obtendo aprovação em 21/10/2013.


Todos os sujeitos envolvidos autorizaram sua participação através da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), sendo preservado o respectivo anonimato com o uso da palavra “aluno”, seguida do algarismo arábico conforme a realização das entrevistas (Ex. Aluno ‘... Aluno 12). A análise dos dados coletados iniciou-se com a leitura das transcrições das entrevistas e a organização das informações contidas no diário do pesquisador e nos relatórios dos alunos. Nesta fase, foi possível identificar os seguintes eixos de análise: o ensino teórico-prático da saúde mental na formação do profissional de saúde; a percepção dos alunos da rede de atenção à saúde mental; efeitos do tempo para apreensão do aporte teóricoprático da saúde mental; a preceptoria das equipes da unidade; a efetividade das ações para os portadores de transtorno mental; a organização do sistema de saúde no município. A partir de novas leituras e debates entre os autores, foi possível identificar situações que indicavam descontentamento com o ensino teórico-prático, o que proporcionou uma nova análise e o surgimento dos analisadores. Para Monceau (2013, p.98), “analisador é tudo aquilo que apoia a análise das dinâmicas institucionais, independente da modalidade de trabalho socioclínico”. Os analisadores na pesquisa socioclínica institucional, podem surgir a partir de um dispositivo, seja um relatório, um texto ou a presença implicada do pesquisador, que permitam à instituição falar. No estudo, foi possível identificar dois analisadores: os limites do ensino teórico-prático da saúde mental na formação do profissional de saúde e a influência do dinheiro na relação de uma organização educacional com os seus educadores. Os resultados são apresentados a partir dos achados obtidos durante a elucidação das características da socioclinica institucional. Destaca-se quatro dessas características por permitirem apresentar a utilização dessa metodologia na realização de pesquisas ligadas ao ensino e à saúde, um dos objetivos deste artigo. As eleitas foram: a “participação dos sujeitos no dispositivo de intervenção” que para Monceau (2013, p. 97), “ pode assumir diferentes formas dependendo da modalidade da pesquisa podendo ser: contribuição para a coleta de informações, aceitação de ser observado ou ainda investimento em sessões de grupo com objetivo analítico”; “As transformações que ocorrem na medida em que o trabalho avança” que segundo Monceau (2013) não são percebidas imediatamente pelos sujeitos, podendo ser observadas apenas algum tempo depois;

“A intervenção e a intenção da produção de conhecimentos” que indica de acordo com Monceau (2013) que as mudanças que ocorrem em determinado território, podem se ampliar a partir de reflexões enfocando aspectos mais abrangentes. Por último a aplicação da modalidade de restituição que segundo Lourau (2014), é uma atividade intrínseca à pesquisa, um feedback tão importante quanto os dados contidos em artigos de revistas e livros científicos. A restituição pode ocorrer ao final do processo de intervenção e/ou quando começam a aparecer os primeiros resultados. A discussão foi realizada a partir do analisador “os limites do ensino teórico-prático da saúde mental na formação do profissional de saúde”. RESULTADOS Destacam-se abaixo os resultados que apontam para diferentes aspectos com relação às dificuldades percebidas pelos alunos na teoria e na prática da atenção psicossocial, na ESF. A participação dos sujeitos no dispositivo de intervenção revelou que os debates para apresentação e discussão dos casos de forma horizontalizada, permitiram melhor entendimento sobre as lacunas do ensino teórico-prático, como exemplificado a seguir: ‘Tivemos a teoria aqui na faculdade, acho que ficamos meio que... sei lá... desamparados, porque a gente não conseguiu fazer lá o que aprendemos aqui, entendeu...” (Aluno 5). Este depoimento revela a insegurança do aluno em relação ao aporte teórico-prático oferecido. Outro aspecto importante dos debates diz respeito ao real ganho do paciente com a inserção da universidade no serviço. O diário do primeiro pesquisador evidenciava estas situações: “Algumas questões dos alunos e da equipe de saúde se faziam presente a cada oficina. Como, quem, quando se fará o acompanhamento da família? Como será à volta para o seu meio? A interrupção do cuidado é inevitável? E agora? Isso nos inquietava”. Um dos alunos complementa com sua fala: “O grupo fez o atendimento lá no posto... fizemos ao final, as possíveis propostas para melhorar a qualidade de vida dos pacientes... mas a gente nunca vai saber se foi feito, se foi solucionado o problema dele, se conseguiram encaminhálo para a psiquiatria, para um psiquiatra...” (Aluno 3). Nas transformações que ocorreram na medida em que o trabalho avançava percebeu-se mudanças nas dinâmicas institucionais levando os participantes a reposicionamentos sucessivos. Uma delas foi a maneira como os alunos tiveram que modificar sua forma de ver o mundo, ao entrarem em contato com a comunidade. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 111


As anotações do primeiro autor em seu diário revelam que: “Ao realizar a primeira incursão dentro da comunidade, os alunos de medicina demonstram surpresa quanto às condições de vida daquela população, seja na falta de acesso aos serviços de saúde, no seu baixo nível cultural, de moradia precária, e até mesmo, de parcos recursos básicos de sobrevivência. Os alunos reagem de várias formas frente aquela situação. Alguns negam a necessidade de construir seu conhecimento nessas áreas, outros se comovem com a situação e relatam o desejo de ajudar financeiramente a comunidade”. Outro resultado indicativo dessa mudança vem do depoimento de um aluno ao trazer uma nova percepção sobre o atendimento dos serviços de saúde oferecidos pelo SUS, relacionando o que aprendeu na teoria e o que acontece na prática. “Tenho pensado sobre os problemas do SUS... quando você está na faculdade, você é treinado a realizar uma consulta de qualidade de 20 minutos, 25 minutos, só que você chegar na ESF, tendo 60 pacientes na fila, (...) você não pode oferecer uma consulta de qualidade...” (Aluno 12). O posicionamento dos alunos com relação às práticas de saúde revela os conflitos entre os tipos de formação médica: generalista ou especialista. Este comportamento crítico-reflexivo deixa antever uma mudança em relação aos pressupostos iniciais que tinham em relação à ênfase que dariam às suas carreiras. Referem que: “... a médica lá do meu posto, ela é obstetra, então ela não tem conhecimento daquela área ali, de psiquiatria ela só tem uma noção, então se tivesse um apoio do especialista, do psiquiatra...” (Aluno 6), ao que outro aluno se contrapõe: “Mas acho isso perigoso, iria contra a faculdade [que enfatiza a formação generalista]... ” (Aluno 2). Com a intenção de produzir conhecimentos através dessa intervenção foi possível identificar debates e reflexões sobre as políticas e diretrizes do SUS, quando os alunos expressaram como percebiam o papel da ESF e sua falta de articulação com os outros níveis de atenção do SUS no município: “Olha eu entendo assim, o médico da ESF só deve identificar e encaminhar para o especialista. Acho que o médico da ESF só deve saber reconhecer a doença do paciente o resto é com o especialista... em outra unidade de saúde” (Aluno 4). O Aluno 7 corrobora essa percepção expressando que: “O médico da unidade tem a condição de falar... esse paciente tem um problema psiquiátrico, mas ele não consegue tratar”. Outro resultado que revela como a intervenção pode favorecer a criação de novos conhecimentos, vem do depoimento dos alunos ao entenderem a importância dos equipamentos sociais da comunidade, como redes de apoio social às pessoas com transtornos mentais: Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 112

“Pelo que a gente viu aqui... que a gente teve contato com a ESF... eles oferecem a medicação necessária, os exames necessários e o acompanhamento psicossocial dele... mas a inclusão dele na sociedade não acontece” (Aluno 11). Em uma das restituições, o primeiro pesquisador retomou as questões do tempo necessário ao aprendizado teórico-prático, e também da seleção dos conteúdos pertinentes à formação profissional, após ter ouvido no último encontro o seguinte posicionamento de um aluno: “acho que a gente tem uma noção geral de tudo, mas acho que falta tempo para gente aprofundar em cada coisa dessas... por exemplo, se a gente tem esquizofrenia no curso, a gente consegue dar uma olhada em esquizofrenia em algum outro cenário, mas a gente não consegue muitas vezes achar um caso de esquizofrenia na comunidade, e eu acho que isso é tempo de curso, na ESF” (Aluno 6). Estes resultados revelam como a utilização da socioclínica institucional constitui-se em metodologia capaz de levar alunos, docentes e profissionais de saúde a refletirem coletivamente sobre sua prática social, seja no meio acadêmico ou nos serviços de saúde, produzindo resultados que podem ensejar diferentes discussões. DISCUSSÃO A identificação do analisador “os limites do ensino teórico-prático da saúde mental na formação do profissional de saúde” proporcionou a compreensão da realidade social e organizacional da formação do profissional de saúde, a partir dos discursos e práticas dos sujeitos envolvidos no estudo. Os dispositivos implementados fizeram as instituições educação e atenção psicossocial falarem, emergindo dos participantes o que permanecia oculto nas instituições, ou seja, os limites para o ensino da atenção psicossocial. Um dos pontos recorrentes nas falas dos alunos referese à percepção dos mesmos acerca da seleção insuficiente dos conteúdos de saúde mental; o pouco tempo para o aprendizado teórico prático; o espectro reduzido da atuação do profissional médico na ESF; o desconhecimento da organização do processo de trabalho na ESF e da organização dos serviços de saúde no SUS. Com relação à abordagem dos conteúdos teóricos, percebe-se nas falas a clara valorização do biológico, do curativo, do tratamento direcionado à doença, além da ausência dos conceitos da atenção psicossocial, criando um descompasso entre teoria e prática, pois se na teoria aprendem como tratar as doenças, na prática é enfatizado um cuidado de prevenção e de promoção coerentes com a atenção psicossocial.


A esse respeito, Mourão e Luzio (2013, p. 356) constataram que “as organizações de ensino, responsáveis pela formação dos profissionais de saúde, de maneira geral, tem influenciado muito lentamente na construção do SUS e da atenção psicossocial, assim como na definição das novas políticas públicas de Saúde e Saúde Mental”. Outro ponto destacado, e que pode se constituir em um limite para a integração teoria e prática, vem de conceitos instituídos de que o médico que atende pessoas com transtornos mentais deve ser um especialista em psiquiatria. Severo e Dimenstein (2013) enfatizam que a valorização excessiva do cuidado prestado pelos especialistas, tem se apresentado como um problema na efetivação do SUS, pois a divisão de trabalho dificulta a integração entre os profissionais de saúde no processo de cuidado das pessoas com transtornos mentais. Este pensamento vem contrapor-se ao que preconiza o Artigo 3º das Diretrizes Curriculares Nacionais (Conselho Nacional de Educação, 2001), ao destacar que o Curso de graduação em Medicina tem como perfil do formando egresso/profissional, o médico, com formação generalista, humanista, crítica e reflexiva, revelando a necessidade de enfatizar os objetivos da formação inicial desses profissionais e a inserção precoce dos alunos nos cenários de prática. Este aspecto leva a outro limite, que é o pouco conhecimento do aluno quanto ao processo de trabalho na ESF, que preconiza que os profissionais devem romper com a excessiva divisão do processo de trabalho, porque dificulta a integração da equipe no conhecimento, na discussão e na busca de estratégias. Com relação ao processo de trabalho na ESF, a Portaria n.º 2448/2011 refere que os profissionais de saúde devem “realizar trabalho interdisciplinar e em equipe, integrando áreas técnicas e profissionais de diferentes formações” (Portaria nº 2448/2011, p. 1) A questão do tempo, apontada pelos alunos como um limite para o aprendizado da teoria e da prática na saúde mental, evidencia a não integração entre a universidade e a ESF durante a formação profissional. Delega-se ao formando a responsabilidade de realizar essas articulações teóricas sem uma correspondência com o real processo de trabalho vivenciado nos serviços de saúde. Como elucida Tavares (2006), a adequada formação profissional é fundamental para a execução plena das políticas do setor de saúde mental. O processo de formação realizado no âmbito da ESF, por trazer mudanças na instituição formação profissional em saúde, pode ser considerado instituinte, porém, ainda existem entraves para sua plena efetivação, como um distanciamento entre teoria e prática, entre discurso e ação, inviabilizando mudanças significativas no ensino da saúde mental. Torna-se necessário, portanto, o estreitamento desses laços.

CONCLUSÕES Analisar as implicações dos sujeitos, como dispositivos de produção de conhecimento, leva o profissional e/ou o pesquisador a perceber/intervir por suas relações sociais e coletivas, na rede institucional. Os limites do ensino teórico-prático da saúde mental destacados nas falas dos participantes, revelaram que apesar da existência das leis que regulamentam a formação e a atuação dos profissionais de saúde, as mesmas ainda não se concretizaram na prática, estando em processo de construção. A dicotomia entre as proposições contidas nos documentos destinados à formação de um profissional generalista, capaz de atuar em todos os níveis de atenção do SUS, e a implementação destas propostas na prática, enfrenta obstáculos relacionados à visão biologicista e mecanicista de docentes e profissionais dos serviços com relação à atenção psicossocial. De acordo com a AI, estes são comportamentos instituídos na prática social daqueles trabalhadores que se submetem ao pensamento hegemônico da área. No que diz respeito aos cuidados integrais às pessoas com transtornos mentais, as mudanças instituintes preconizadas pelas DCN, pela ESF e pela atenção psicossocial, produzem resistências a um novo olhar para o processo de formação e para os usuários dos serviços de saúde. Observam-se ainda aspectos dos modelos da psiquiatria biológica e da atenção psicossocial, com relativa predominância do primeiro, no processo de formação acadêmica dos profissionais de saúde. Este fato tem contribuído para uma prática na ESF mais voltada à intervenção especificamente nas doenças do que no atendimento integral ao sofrimento psíquico das pessoas com ou sem transtornos mentais. O processo de intervenção possibilitou que algumas práticas instituintes colocassem em análise as práticas já instituídas na conduta dos profissionais de saúde a respeito do cuidado as pessoas, possibilitando que professor, preceptor, alunos e profissionais de saúde pudessem construir um embrião de uma nova prática na atenção psicossocial. Produziu-se, de acordo com a AI, uma institucionalização com a realização de encontros intersetoriais capazes de levar os sujeitos a questionarem as suas concepções de saúde, numa atitude mais autônoma de prática de cuidados integrais.

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IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Considera-se que realizar estudos e debates a respeito dos aspectos relacionados à formação dos profissionais de saúde, poderá trazer transformações para a prática clínica porque ao se revelar os limites para a efetivação da atenção psicossocial na ESF, pretendem-se mobilizar gestores, docentes, preceptores e comunidade para um repensar nos caminhos que vem tomando a efetivação da atenção psicossocial nas universidades e nos serviços de saúde. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Amarante, P. (2007). Saúde mental e a atenção psicossocial. Rio de Janeiro: Fiocruz. Baremblit, G. F. (2012). Compêndio de análise institucional e outras correntes: Teoria e prática (6ª ed.). Belo Horizonte: Instituto Felix Guattari. Basaglia, F. (2005). Escritos selecionados em saúde mental e reforma psiquiátrica. Rio de Janeiro: Garamond Universitária.

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Artigo de Investigação

Disponível em http://dx.doi.org/10.19131/rpesm.0150

17 SUPERVISÃO

DE ESTUDANTES EM ENSINO CLÍNICO: CORRELAÇÃO ENTRE DESENVOLVIMENTO DE COMPETÊNCIAS EMOCIONAIS E FUNÇÃO DE SUPORTE | Paula Diogo1; Joana Rodrigues2; Odete Lemos e Sousa3; Hugo Martins4; Nuno Fernandes5 |

RESUMO Os estudantes de enfermagem têm que lidar com situações emocionalmente intensas nas interações de cuidados. Estas experiências comportam um trabalho emocional de dupla centralidade (aprendizagens ao nível da gestão das emoções dos clientes e ao nível do seu mundo emocional interno). Esta problemática conduz a um estudo com a finalidade de analisar o efeito da função de suporte do enfermeiro supervisor no desenvolvimento de competências dos estudantes de enfermagem em ensino clínico, para o desempenho do trabalho emocional. É um estudo exploratório, descritivo e correlacional, de abordagem mista. A amostra é intencional e tem como participantes 168 estudantes do 4.º ano do Curso de Licenciatura em Enfermagem e 25 enfermeiros supervisores que realizaram o Curso de Supervisão em Ensino Clínico de uma Escola Superior de Enfermagem portuguesa. Recorreu-se a um questionário aplicado aos estudantes e a jornais de aprendizagem elaborados pelos enfermeiros, como instrumentos de recolha de dados. Os dados quantitativos foram submetidos a análise estatística descritiva do tipo não-paramétrico e os dados qualitativos foram sujeitos a análise de conteúdo convencional, procedendo-se ao respetivo cruzamento. Os resultados revelam que as necessidades formativas e as expetativas dos estudantes face à supervisão são consonantes com as estratégias de suporte de gestão emocional mobilizadas pelos enfermeiros supervisores. Tendo em conta a hipótese de estudo, corrobora-se que a função de suporte do enfermeiro supervisor é potenciadora do desenvolvimento de competências para o desempenho do trabalho emocional no estudante de enfermagem em ensino clínico. PALAVRAS-CHAVE: Supervisão; Estudantes de enfermagem; Inteligência emocional; Competência clínica

RESUMEN

ABSTRACT

“Supervisión de estudiantes de enfermería en formación clínica: Correlación el desarrollo de habilidades emocionales y la función de apoyo”

“Supervision of nursing students in clinical education: Correlation between the support function and the development of emotional skills”

Los estudiantes de enfermería se enfrentan a situaciones emocionalmente intensas en las interacciones de cuidado. Estas experiencias implican una doble centralidad del trabajo emocional (aprendizaje en relación a la gestión de las emociones del cliente y su mundo emocional interior). Este problema lleva a un estudio con el fin de analizar el efecto de la función de apoyo de los enfermeros supervisores en el desarrollo de habilidades de los estudiantes de enfermería en la formación clínica para el desempeño del trabajo emocional. Es un estudio exploratorio, descriptivo y correlacional, de diseño mixto. La muestra es intencional siendo sus participantes 168 estudiantes del cuarto año del curso de Grado en Enfermería y 25 enfermeros supervisores con curso de supervisión en la formación clínica realizado en una escuela de enfermería portuguesa. Para la colección de dados se usaron los diarios reflexivos de los enfermeros supervisores, así como un cuestionario a los estudiantes. Los datos cuantitativos fueron sometidos a análisis estadístico descriptivo y no paramétrico; y los datos cualitativos fueron sometidos a análisis de contenido convencional, procediendo a la posterior intersección. Los resultados indican que las necesidades y expectativas de formación de los estudiantes de enfermería son consistentes con las estrategias de apoyo de gestión emocional movilizados por los enfermeros supervisores. Considerando la hipótesis de investigación, este estudio confirma que la función de apoyo del enfermero supervisor potencia el desarrollo de habilidades para el desempeño del trabajo emocional en el estudiante de enfermería en formación clínica.

Nursing students deal with emotionally intense experiences in care interactions. Those experiences require a double-centred emotional labour (managing clients’ emotions and their own internal emotional world). This constitutes the research problem that leads to a study aiming at analysing the support role of the clinical instructors and its correlation with the development of nursing students’ emotional skills in clinical practice, required to effectively engaging in emotional labour. It is an exploratory study, with a mixed method research design, involving descriptive and correlational analysis. The sample is intentional, comprising 168 final-year students and 25 clinical instructors who attended a clinical supervision programme at a Portuguese nursing school. Data collection instruments were a questionnaire applied to the students and reflexive journals of clinical instructors. Quantitative data were submitted to descriptive, non-parametric statistical analysis whereas qualitative data were submitted to conventional content analysis; quantitative and qualitative data were crossed. Findings reveal that students’ educational needs and expectations related to clinical supervision are consonant with support and emotional management strategies provided by clinical instructors. The support role of clinical instructors contributes to the development of nursing students’ skills for engaging in effective emotional labour; thereby, the research hypothesis is confirmed.

DESCRIPTORES: Salud mental; Educación de pregrado en medicina; Desinstitucionalización

KEYWORDS: Supervision; Nursing students; Emotional intelligence; Clinical competence Submetido em 22-07-2016 Aceite em 10-09-2016

1 PhD; Professor Adjunto na Escola Superior de Enfermagem de Lisboa, Unidade de Investigação & Desenvolvimento de Enfermagem - Linha de Investigação “Emoções em Saúde”, Av. Prof. Egas Moniz, 1600-190 Lisboa, Portugal, pmdiogo@esel.pt 2 MSc; Enfermeira Especialista no Agrupamento de Centros de Saúde Lisboa Central; Unidade de Investigação & Desenvolvimento de Enfermagem - Linha de Investigação “Emoções em Saúde”, 1600-190 Lisboa, Portugal, guarda.joana@gmail.com 3 MSc; Professor Adjunto na Escola Superior de Enfermagem de Lisboa; Unidade de Investigação & Desenvolvimento de Enfermagem - Linha de Investigação “Emoções em Saúde”, 1600-190 Lisboa, Portugal, olemos@esel.pt 4 PGDip; BSc; Enfermeiro, no Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca, EPE; Unidade de Investigação & Desenvolvimento de Enfermagem - Linha de Investigação “Emoções em Saúde”, 1600-190 Lisboa, Portugal, martins.hdoncalves@gmail.com 5 PGDip; BSc; Enfermeiro no Hospital de Vila Franca de Xira, PPP; Unidade de Investigação & Desenvolvimento de Enfermagem - Linha de Investigação “Emoções em Saúde”, 1600-190 Lisboa, Portugal, fernandes.npfs@gmail.com Citação: Diogo, P., Rodrigues, J., Lemos e Sousa, O., Martins, H., & Fernandes, N. (2016). Supervisão de estudantes em ensino clínico: Correlação entre desenvolvimento de competências emocionais e função de suporte. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (Spe. 4), 115-122 Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 115


INTRODUÇÃO A supervisão clínica é uma temática essencial para enfermagem enquanto disciplina e profissão, uma vez que é determinante no percurso académico dos estudantes de enfermagem, particularmente no que respeita à componente de ensino clínico (Diogo, Rodrigues, Caeiro, e Sousa, 2016). Revela-se como um instrumento que envolve um processo focalizado de reflexão na, para e sobre a prática, objetivando a sua melhoria e a obtenção de ganhos em saúde (Falender & Shafranske, 2014). Embora a supervisão clínica em enfermagem se centre essencialmente na supervisão de enfermeiros em exercício profissional, este conceito torna-se extensivo ao período de formação (Silva, Pires, & Vilela, 2011), no qual o estudante contacta com diferentes contextos clínicos, o que lhe permite experienciar uma complexidade de ações/interações de cuidados nas suas várias dimensões. Esta diversidade de experiências enquadra-se nos objetivos desejados para o crescimento e aprendizagem do estudante de enfermagem. No entanto, e apesar destas experiências serem essenciais e ricas, são também conotadas com uma forte dimensão emocional, cujo impacto pode ser perturbador para o estudante devido à sua intensidade e exigência. O enfermeiro supervisor está, por isso, numa posição privilegiada de suporte ao implementar intervenções que visam transformar positivamente as vivências intensas e perturbadores dos clientes (e dos próprios estudantes/enfermeiros), com a intencionalidade de promover o bem-estar global das pessoas envolvidas (Diogo, 2015). A formação dos estudantes deve por isso “seguir no sentido de uma individualização do processo ensino/aprendizagem, de forma a contribuir para “o desenvolvimento total da pessoa – espírito e corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal, espiritualidade” (Delors et al., 2010, p. 99). De igual modo, o metaparadigma de cuidados de saúde associado à teoria de Jean Watson (2002) salienta a importância da “totalidade da natureza do indivíduo, no seu domínio físico, social, estético e moral” (Watson, 2002, p. 86), enquadrando o enfermeiro e o cliente numa dinâmica onde “estão ambos num processo de serem e de se tornarem” (Watson, 2002, p. 104), sendo esta concepção orientada pelo paradigma da transformação, segundo o qual se rege a filosofia dos cuidados de enfermagem na atualidade.

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Esta atenção para com a singularidade do indivíduo, assim como para com a emocionalidade presente no processo relacional, implica o desenvolvimento simultâneo de “competências pessoais, relacionais, sociais e afetivas que «abrem a porta» às competências cognitivas e técnicas” (Rabiais, 2010, p. 45). Assim, o cerne da supervisão é procurar uma complementaridade entre aspetos emocionais e cognitivos, os quais não podem ser vistos isoladamente (Rabiais, 2010). É neste sentido que a supervisão clínica requer o desenvolvimento de competências emocionais enquanto “capacidade adquirida baseada na inteligência emocional” (Goleman, 1999, p. 38), ou seja na capacidade de gerir os sentimentos e as emoções no plano pessoal e nas relações. O trabalho emocional (emotional labour) resulta na “indução ou supressão dos sentimentos para manter uma aparência exterior que resulte num cuidado com os sentimentos dos outros, proporcionando um ambiente seguro” (Hochschild, 1983, p. 36), pelo que assume valor de destaque neste processo. Smith (2012), pioneira no estudo sobre o trabalho emocional em enfermagem, defende que este tem uma dupla centralidade – direciona-se tanto para profissionais como para clientes dos cuidados de saúde –, isto é, os estudantes/enfermeiros devem aprender a gerir as suas próprias emoções e as dos clientes. Identifica, também, as componentes do trabalho emocional do enfermeiro como sendo: dar suporte e tranquilidade, delicadeza e amabilidade, simpatia, animar, utilizar o humor, ser agradável, ter paciência, aliviar o sofrimento, compaixão, conhecer o cliente e ajudar a resolver os seus problemas. Ainda de acordo com a mesma autora, o trabalho emocional apresenta várias características: o contacto face-a-face ou de voz com pessoas; a produção de um estado emocional na outra pessoa; a presença de um grau de controlo sobre as atividades de trabalho emocional através da formação e da supervisão clínica. O estudo de Smith (2012), sobre a aprendizagem dos estudantes de enfermagem do trabalho emocional, sugere que estas competências são, na sua maioria, aprendidas informalmente no local de trabalho, e menos em contexto de formação, pelo que os estudantes aprendem a gerir as emoções adotando uma abordagem orientada pela tarefa no seu cuidado. Por este motivo, a autora defende que o trabalho emocional é de natureza especializada e que tem de ser aprendido, da mesma forma que as competências de prestação de “cuidados físicos”, dando ênfase à aprendizagem da gestão das emoções, mas também às componentes do trabalho emocional do enfermeiro.


Destaca-se, então, que o desempenho do trabalho emocional se fundamenta na complexidade do conceito de cuidado humano (Watson, 2002) e que está presente não só no quotidiano dos enfermeiros, mas também na vertente formativa, incrementando a sua qualidade quando é mobilizado pelos enfermeiros supervisores no desempenho da sua função de suporte. O Modelo de Supervisão Interativa de Proctor (1986) enquadra a função de suporte como estando focalizada nas respostas emocionais e no suporte necessário às funções e responsabilidades inerentes às exigências do contexto, ou seja, está centrada no apoio às ações e respostas do supervisado com vista não só à diminuição do stress, mas também à sustentação das emoções adequadas às situações (Cruz, 2008), conduzindo, assim, ao desenvolvimento de competências emocionais (capacidades baseadas na gestão dos sentimentos e das emoções no plano pessoal e nas relações sociais – perceção, autorregulação, motivação, empatia e aptidões sociais), que são fundamentais para o desempenho do trabalho emocional em enfermagem. Para além do modelo de Proctor, outros modelos enquadram a função de suporte como uma das intervenções que desempenham um papel essencial na perceção dos estudantes como bem-sucedidos (Sloan & Watson, 2001). Face ao exposto, os contributos da evidência científica permitem estabelecer conexões entre a função de suporte da supervisão (Proctor, 1986), o trabalho emocional em enfermagem (Smith, 2012), a experiência emocional de cuidar vivida pelo estudante e, consequentemente, como esta determina o desenvolvimento de competências emocionais. O desenvolvimento destas competências é fundamental para gerir emocionalmente as situações intensas da prática de cuidados de enfermagem e a função de suporte (Proctor, 1986) do enfermeiro supervisor poderá influenciar o desenvolvimento destas competências. Este estudo surge, assim, da necessidade de aprofundar a função de suporte da supervisão clínica, e de clarificar e explicitar as conexões desta função com o desenvolvimento de competências emocionais dos estudantes de enfermagem em ensino clínico, tendo sido definida a pergunta de investigação: “De que forma a função de suporte do enfermeiro supervisor é potenciadora do desenvolvimento de competências emocionais no estudante de enfermagem em ensino clínico?”. Tem como finalidade analisar o efeito da função de suporte do enfermeiro supervisor no desenvolvimento de competências dos estudantes de enfermagem em ensino clínico para o desempenho do trabalho emocional.

METODOLOGIA Este estudo é exploratório, descritivo e correlacional, de abordagem mista. Os participantes são estudantes do 4.º ano do Curso de Licenciatura em Enfermagem (CLE) e enfermeiros orientadores de estudantes que realizaram o 3.º Curso de Supervisão de Estudantes de Enfermagem em Ensino Clínico (regime b-learning). A amostra é constituída por 168 estudantes e por 25 enfermeiros supervisores de ensino clínico. Recorreu-se a uma técnica de amostragem intencional e de conveniência, pelo que as inferências indutivas dizem unicamente respeito à amostra analisada. Foi construído um questionário misto sobre a função de suporte do enfermeiro supervisor/orientador e o desenvolvimento de competências para o desempenho do trabalho emocional, na ótica dos estudantes do CLE quando estão em ensino clínico. Este é composto por três questões de resposta aberta e uma questão de resposta fechada que contempla 24 itens (grelha associada a uma escala de importância), tendo sido elaborado com base na revisão de literatura (sobre desenvolvimento de competências emocionais e função dos enfermeiros supervisores), tendo-se optado pela mobilização do Modelo de Supervisão Interativa de Proctor (1986) para a função de suporte. Os 24 itens que compõem a grelha correspondem às características da função de suporte do supervisor clínico, e são adaptados do artigo científico de Brunero e Stein-Parbury (2008). Esta grelha integra as variáveis que pretendemos medir, sob a forma de afirmações que podem ser classificadas segundo uma escala de Likert, desde “nada importante” a “muito importante” (de 1 a 5). Foi realizado o pré-teste a 8 estudantes pertencentes à amostra a inquirir. A aplicação deste instrumento permitiu obter dados quantitativos e qualitativos. A par da aplicação do questionário aos estudantes realizou-se a análise documental de jornais de aprendizagem elaborados pelos enfermeiros, segundo o modelo estruturado do Ciclo de Gibbs, que frequentaram o 3.º Curso de Supervisão de Estudantes de Enfermagem em Ensino Clínico (regime b-learning). A seleção dos jornais de aprendizagem foi realizada através da leitura integral dos 243 documentos, que se encontravam depositados na plataforma informática do Curso de Supervisão, tendo sido analisadas a descrição e a reflexão sobre a função de suporte, as situações emocionalmente intensas vividas pelos estudantes que exigiram supervisão e os resultados no desenvolvimento de competências nesses estudantes. O recurso a este instrumento permitiu obter dados qualitativos.

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O tratamento de dados quantitativos foi realizado no programa SPSS® (Statistical Package for the Social Sciences), versão 20, - estatística descritiva do tipo nãoparamétrico. A partir da grelha de itens que integra o questionário elaborou-se uma base de dados para facilitar o tratamento dos mesmos. As variáveis em estudo foram os 24 itens da grelha do questionário. Os dados de natureza qualitativa foram sujeitos a análise de conteúdo convencional. Foi ainda realizado o cruzamento de dados quantitativos com dados qualitativos de modo a complementar a informação obtida e a enriquecer a análise. O pedido de autorização para recolha de dados foi realizado em novembro de 2012, à Presidência e Comissão de Ética da Escola Superior de Enfermagem. Obtivemos parecer positivo através da Presidente do Conselho Técnico-Científico, em fevereiro de 2013. A aplicação dos questionários aos estudantes realizou-se no dia 20 de fevereiro, num auditório, no final da sessão de introdução ao ensino clínico do 4.º ano (8 turmas, 288 estudantes). No sentido de salvaguardar a condição ditada pela Comissão de Ética/Presidência da Instituição – “A aplicação dos instrumentos de recolha de dados junto dos estudantes não deverá ser realizada por professores” –, dois colaboradores da linha de investigação “Emoções em Saúde” (não docentes) apresentaram aos estudantes o estudo e solicitaram a sua participação. Cada estudante, que optou por participar, respondeu individualmente ao questionário, anonimamente. A análise documental dos jornais de aprendizagem elaborados pelos enfermeiros formandos do 3.º Curso de Supervisão de Estudantes de Enfermagem em Ensino Clínico (regime b-learning) foi realizada entre maio e setembro de 2013. RESULTADOS E DISCUSSÃO Os estudantes participantes definem trabalho emocional em enfermagem como produto, como desempenho, como trabalho stressante, e como trabalho sobre si próprio. As subcategorias obtidas relativas ao conceito de trabalho emocional, quer como produto (na medida em que permite transformar uma emoção, através de um processo, por forma a alcançar um resultado/benefício), quer como desempenho (no que diz respeito, às características necessárias para o seu exercício) vão ao encontro da definição e das características deste conceito (Hochschild, 1983; Smith, 2012), assim como das componentes do trabalho emocional do enfermeiro (Smith, 2012).

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Contudo, os estudantes também definem o trabalho emocional como trabalho stressante, ou seja, enquanto efeito da atividade de cuidar sobre as suas emoções, nomeadamente, o sofrimento, as sensações dolorosas e perturbadoras. Vários autores reforçam os resultados encontrados, nomeadamente o enfoque dado às situações emocionalmente intensas (Smith, 2012; Diogo, 2015) Na categoria como trabalho sobre si próprio, os estudantes referem-se ao trabalho emocional enquanto processo interno de gestão das emoções, que contempla o autoconhecimento, a compreensão do impacto das emoções e a expressão, reflexão e o controlo das emoções e sentimentos, sendo este trabalho contínuo no tempo. Este trabalho emocional exige inteligência emocional, tal como nos é apresentada por Goleman (1999) e Feather (2009), uma vez que implica a autoperceção e a autorregulação. No que diz respeito às necessidades formativas para o desempenho do trabalho emocional, os estudantes referem as necessidades de dimensão reflexiva, emocional, cognitiva e contextual. As necessidades de dimensão reflexiva centram-se na partilha sistemática na e sobre a ação, das emoções e pensamentos, e dos conhecimentos mobilizados. São inúmeros os autores que corroboram esta necessidade de partilha dos estudantes, sublinhando o papel dos distintos parceiros neste processo (Alarcão e Rua, 2005). Smith e Gray (2001) referem que o trabalho emocional é cumulativo através da experiência de enfermagem, e provém da capacidade de refletir sobre essa experiência com a equipa e colegas. Também Benner (2001) defende que os jornais de aprendizagem são instrumentos fundamentais para a análise das práticas, permitindo o desenvolvimento da reflexão na e sobre a ação. Quanto à dimensão emocional, os estudantes identificaram necessidades formativas no âmbito da gestão emocional, no plano intrapessoal e no plano interpessoal. Algumas das necessidades formativas integram as componentes do modelo apresentado por Mayer e Salovey (1997), no qual estão descritas as quatro dimensões que compõem a Inteligência Emocional, nomeadamente: (1) a perceção, avaliação e expressão da emoção; (2) a integração e assimilação da emoção; (3) a compreensão e análise de emoções aplicando conhecimento emocional; (4) a regulação reflexiva das emoções que promove o crescimento emocional e intelectual. No plano intrapessoal os estudantes referem ter necessidade de formação promotora do autoconhecimento, o que vai ao encontro do defendido por Rabiais (2010).


A dimensão cognitiva também foi valorizada pelos estudantes, nomeadamente no que diz respeito às técnicas e componentes do trabalho emocional, ao processo emocional, à relação interpessoal, assim como à pessoa enquanto sistema, aos fenómenos de saúde-doença e às intervenções de suporte. Através destes resultados verifica-se uma complementaridade entre aspetos emocionais e cognitivos que, tal como refere Rabiais (2010), não podem ser encarados isoladamente, mas sim com um estreito grau de interdependência. Transversal a estas dimensões surge o contexto das práticas, traduzido na dimensão contextual, que os estudantes incluem como necessidade formativa. Nesta linha de pensamento, Rogers (1969) destacava a importância do ambiente onde a aprendizagem ocorre, devendo o mesmo fornecer uma configuração de confiança e de apoio no qual o estudante se sinta seguro para explorar os seus sentimentos e expressar as suas opiniões. Integrados nesta categoria surgem os atributos que os estudantes valorizam no enfermeiro supervisor para o desempenho do trabalho emocional, nomeadamente, o humanismo, a visão holística, a capacidade para promover a expressão de sentimentos, a interação afetivo-emocional e a gestão de emoções. São vários os autores que enunciam os atributos referidos (Smith & Gray, 2001; Rabiais, 2010). A função de suporte, tal como é apresentada por Proctor (1986), coaduna-se com estes resultados, uma vez que realça que o processo supervisivo se concretiza no apoio às ações e respostas do estudante, de modo a que o mesmo supere situações significativas, não só diminuindo o stress que vivencia como adequando as emoções às situações. No que diz respeito às expetativas face à orientação do supervisor clínico para o desempenho do trabalho emocional, os estudantes valorizam que este promova o trabalho sobre si próprio, ou seja, esperam que o supervisor clínico os conduza ao autoconhecimento, através da promoção da reflexão sobre as emoções vividas, fomentando a descentração do próprio Eu, o que está em consonância com as necessidades formativas (Abreu, 2002; Smith & Gray, 2001). Outra expetativa mencionada diz respeito à promoção de competências facilitadoras do estabelecimento de relações interpessoais, ou seja, da gestão interna impulsionadora do estabelecimento de uma relação com o Outro, seja com a equipa, com os colegas ou com os clientes. Neste âmbito, foi destacado o papel do enfermeiro supervisor na promoção da interação com o cliente, em que o enfermeiro sugere estratégias ao estudante para o ajudar a lidar com as situações, e lhe proporciona espaço para a interação.

Rabiais (2010) reforça que frequentemente as necessidades emocionais sentidas pelos estudantes de enfermagem prendem-se com o facto das relações interpessoais não serem as mais adequadas. A inteligência emocional e o trabalho das emoções são apontados por vários autores como elemento fulcral do desenvolvimento desta competência (Freshwater & Stickley, 2004). Os estudantes esperam do supervisor, ainda, a capacidade de promover a gestão emocional das situações. Quanto aos supervisores clínicos e às características facilitadoras da aprendizagem do trabalho emocional valorizadas pelos estudantes, estas estão alinhadas com as apresentadas por Brunero e Stein-Parbury (2008), relativas à função de suporte do enfermeiro supervisor. Interessante também é verificar que as características que emergiram nesta subcategoria estão relacionadas com os atributos do enfermeiro supervisor valorizados na dimensão contextual, inerente às necessidades formativas dos estudantes. A promoção de um ambiente de suporte foi valorizado pelos estudantes como facilitador do desempenho do trabalho emocional. Por seu lado, a análise das características da função de suporte do supervisor clínico quantificadas pelos estudantes permite identificar aquelas que se configuram como principais meios de aprendizagem do desempenho do trabalho emocional em enfermagem. Dos resultados relativos à questão fechada do questionário aplicado aos estudantes destacam-se as características da função de suporte que obtiveram uma classificação de 4 ou 5 (“muito importante”) superior a 90%: escutar e compreender (96.4%), promover a autoconfiança (95.8%), promover o sentimento de segurança no grupo (95.2%), promover a capacidade de gerir emocionalmente as situações (94.6%), garantir o bom relacionamento com a equipa (92.9%), manter o envolvimento com o contexto de cuidados (92.9%), incrementar o interesse pela experiência (91.1%), evitar o tédio e a ausência de interesses (91.0%), aliviar e atenuar a experiência (90.4%), construir uma estratégia de coping enquanto recurso e disponibilidade para ajudar a lidar com as situações (90.4%), favorecer o relacionamento com os enfermeiros (90.4%). O cruzamento dos dados quantitativos com os dados qualitativos obtidos através do questionário aplicado aos estudantes permite, por um lado, compreender a importância atribuída à função de suporte do enfermeiro supervisor, e por outro identificar as características de suporte mais valorizadas pelos estudantes.

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Da análise aos jornais de aprendizagem elaborados pelos enfermeiros emerge uma compreensão da perspetiva dos supervisores clínicos em relação à sua função de suporte na orientação de estudantes, salientando-se os seus pontos de vista e pressupostos que constituem antecedentes fundamentais para o desempenho da função de supervisão (Proctor, 1986). As perspetivas emergentes sobre o processo supervisivo e a função de suporte focalizam a valorização global da supervisão, as experiências/respostas emocionais dos estudantes e o suporte necessário às funções e responsabilidades inerentes às exigências do contexto, ou seja, centradas no apoio às ações e respostas do supervisado com vista não só à diminuição do stress como também à sustentação das emoções adequadas às situações (Cruz, 2008). Os resultados revelam ainda que no contexto clínico o estudante de enfermagem vivencia de forma muito intensa os problemas das pessoas que cuida, absorvendo as respostas emocionais de tal sofrimento e revelando sinais de stress e disrupção emocional (Morse, Bottorff, Anderson, O’Brien, & Solberg, 2006). As situações emocionalmente intensas identificadas pelos enfermeiros participantes são: o período de integração, o sofrimento e morte do cliente, a construção do relacionamento com o cliente, a realização de procedimentos, o perfil/estado emocional do estudante, os conflitos e o momento de avaliação. Os enfermeiros participantes consideram que a supervisão e a função de suporte envolvem tanto a gestão das emoções dos estudantes como a gestão das emoções dos clientes no processo de cuidados (Smith, 2012), mas este suporte tem como alicerce fundamental a relação estabelecida entre enfermeiro supervisor e estudante, e visa o desenvolvimento de competências emocionais nos estudantes. A análise de conteúdo aos jornais de aprendizagem dos enfermeiros fez ainda emergir categorias que caracterizam o seu desempenho da função de suporte na supervisão de estudantes em ensino clínico (cinco categorias), que foram agrupadas em dois tipos: - Tipo I – Abordagem direta na gestão emocional – os enfermeiros procuram fomentar a gestão emocional dos estudantes e da relação de cuidados ao processar o estado emocional (promover a autoconfiança e autoestima, transmitir tranquilidade, motivar) e ao elaborar as emoções (compreender as vivências emocionais, facilitar a gestão emocional). - Tipo II – Abordagem indireta na gestão emocional - os enfermeiros procuram construir a relação enfermeiro supervisor/estudante, fornecer orientações sobre dinâmica do serviço e dos cuidados, refletir sobre as práticas e ensino clínico e ainda mobilizar a modelagem. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 120

As características da função de suporte do supervisor clínico (Brunero & Stein-Parbury, 2008) corroboram em muitos aspetos as estratégias emergentes, que se enquadram na perspetiva holística e construtivista da formação, e que contribuem para o desenvolvimento de competências emocionais. Estas competências são fulcrais no trabalho emocional inscrito no cuidar humano e holístico descrito por Diogo (2015): (1) promover um ambiente seguro e afetuoso; (2) nutrir os cuidados com afeto; (3) gerir as emoções dos clientes, (4) construir a estabilidade na relação; (5) regular a disposição emocional para cuidar. As necessidades e estratégias formativas para o desempenho do trabalho emocional identificadas pelos estudantes coincidem, em grande parte, com estratégias realçadas pelos enfermeiros supervisores como potenciadoras do desenvolvimento de competências emocionais, o que é corroborado igualmente pela evidência científica. Destaca-se das estratégias formativas para o desempenho do trabalho emocional: análise das práticas no local de trabalho com enfermeiros experientes, treino de competências emocionais centradas no cliente, treino centrado no autoconhecimento, aprendizagem reflexiva/supervisão clínica; técnicas de dinâmica de grupo, reflexão sobre a prática, autoconhecimento das emoções; treino de autoconhecimento, sessões de grupo para análise de situações/supervisão clínica; prática reflexiva. Os resultados evidenciam, ainda, a importância do clima de confiança, ambiente de abertura e tranquilidade que favorece a reflexão sobre as práticas e a expressão emocional na relação enfermeiro supervisor/estudante. O desempenho da função de suporte, tendo em conta as diversas estratégias mobilizadas no processo de supervisão, tem repercussões no desenvolvimento de competências no estudante (Quadro 1). Os resultados em termos de desenvolvimento de competências nos estudantes demonstram que a função de suporte do enfermeiro supervisor potencia o desempenho do trabalho emocional e promove o crescimento pessoal, conduzindo a mudanças de atitude (postura, discurso, análise, adaptação e tranquilidade), ao desenvolvimento de confiança, iniciativa e autonomia, ao reconhecimento das dificuldades e à aceitação da crítica de modo construtivo. Mas também conduz à aquisição de conhecimentos teóricos resultantes da confrontação com outras formas de interpretação das circunstâncias, exigindo uma adaptação a novas experiências e a um domínio de termos científicos.


Quadro 1 - Promoção do Desenvolvimento e de Competências Emocionais no Estudante de Enfermagem Subcategorias

Categorias

Mudanças de atitude: postura, discurso, análise, adaptação, tranquilidade Desenvolver a confiança Desenvolver a iniciativa e autonomia

Crescimento pessoal

Reconhecer as dificuldades e aceitar a crítica de modo construtivo Adquirir de novos conhecimentos na confrontação com outra formas de interpretação das circunstâncias e com a adaptação a novas experiências Domínio de termos científicos

Aquisição de conhecimentos teóricos

Aumentar a confiança Trabalhar a autoestima Consciencializar do fluxo de emoções na relação de cuidados

Aperfeiçoar as habilidades relacionais

Compreender o potencial terapêutico da relação de cuidados Aperfeiçoar o desempenho Compreender os resultados terapêuticos das ações de enfermagem Evitar que o estado emocional do estudante contamine a relação de cuidados

Otimizar o desempenho profissional

Compreender as suas emoções e sentimentos Libertar e descomprimir através da expressão emocional Ajudar o cliente a sentir calma e serenidade Aprender a gerir situações de stress influenciando positivamente o desempenho

Mobilizar estratégias de gestão emocional centradas no cliente e no próprio

Manter a estabilidade emocional

A função de suporte permite, ainda, aperfeiçoar as habilidades relacionais, aumentando a confiança, trabalhando a autoestima, consciencializando o estudante para o fluxo de emoções na relação de cuidados e ajudando-o a compreender o potencial terapêutico da relação de cuidados. Tudo isto permite otimizar o desempenho profissional, pois o estudante gradualmente consegue compreender os resultados terapêuticos das ações de enfermagem e evitar que o seu estado emocional contamine a relação de cuidados, passando a mobilizar estratégias de gestão emocional centradas no cliente e no próprio. Desta forma, o estudante consegue: compreender as suas emoções e sentimentos; libertar e descomprimir (através da expressão emocional); ajudar o cliente a sentir calma e serenidade; aprender a gerir situações de stress, influenciando positivamente o desempenho e regulando a sua estabilidade emocional. Sem um envolvimento emocional qualquer ação, ideia ou decisão assentaria exclusivamente em bases racionais, pelo que Damásio (2012) defende que o desenvolvimento emocional faz parte integrante do processo de tomada de decisões e funciona como um vetor de ações e ideias, consolidando a reflexão e o discernimento.

Assim sendo, a formação em enfermagem “não se deve confinar ao processo técnico e científico, mas também sublinhar o desenvolvimento pessoal do estudante pelo papel gerador que tem em todas as competências” (Rabiais 2010, p. 36), ou seja, não é possível separar as dimensões cognitivas, sociais, afetivas e emocionais quando se pretende clarificar os fatores que estão na base do desenvolvimento da aprendizagem do Cuidar de Enfermagem. Também as emoções são, então, uma dimensão essencial não só para o enfermeiro mas também para o estudante, que procura o sucesso muitas vezes num emaranhado turbulento de experiências, pensamentos e emoções que precisa de aprender a gerir. CONCLUSÕES E IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA Os estudantes demonstram conhecer a conceção de trabalho emocional, o que revela que este é trabalhado pelo menos de uma forma implícita no Plano de Estudos da Licenciatura de Enfermagem. Além disso, identificam necessidades formativas de dimensão reflexiva, emocional, cognitiva e contextual para o desempenho do trabalho emocional. As características da função de suporte do supervisor clínico, bem como os resultados do questionário aos estudantes, corroboram em diversos aspetos as estratégias identificadas pelos enfermeiros supervisores, revelando um conjunto de estratégias diretas (Tipo I) e indiretas (Tipo II) de gestão emocional, que contribuem para o desenvolvimento de competências para o trabalho emocional em enfermagem. Também as respostas dos estudantes são consonantes, em termos das necessidades formativas e expetativas face à supervisão, com as estratégias de suporte mobilizadas pelos enfermeiros supervisores que se encontram a frequentar o curso de supervisão. Destaca-se, ainda, que o ambiente de suporte é essencial na supervisão dos estudantes, visando a partilha, confiança e abertura para a expressão e gestão emocional. Nesta supervisão de suporte, o processo reflexivo, a descentração e o autoconhecimento são fundamentais. Os resultados deste estudo permitem apresentar uma compreensão mais aprofundada das estratégias de supervisão, mobilizadas pelos enfermeiros na orientação de estudantes em ensino clínico, no âmbito da função de suporte, e ainda sobre a relação entre a supervisão, o desenvolvimento de competências emocionais e o desempenho do trabalho emocional. O desenvolvimento de competências emocionais revela-se fulcral na capacidade de gerir emocionalmente as situações intensas presentes no exercício da enfermagem, com repercussões na qualidade dos cuidados e na equipa de saúde, Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 121


e a função de suporte do enfermeiro supervisor influencia o desenvolvimento de tais competências. Os supervisores assumem um papel central na aprendizagem dos estudantes de enfermagem, nomeadamente no envolvimento no trabalho emocional e no seu desenvolvimento enquanto enfermeiros. Estas conclusões permitem alargar a compreensão da conceção de trabalho emocional em enfermagem, e contribuir para a fundamentação da sua integração nos programas curriculares dos cursos de enfermagem desde a formação inicial com impacto futuro na prática de cuidados. Em estudos futuros, importa clarificar em que medida o docente é promotor do trabalho emocional no estudante de enfermagem em ensino clínico e em que medida a parceria de cuidados que estabelece com o enfermeiro supervisor potencia o desenvolvimento do trabalho emocional. Importa também compreender se o trabalho emocional promove o bemestar no cliente, ou seja, quais os resultados em saúde.

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18 NORMAS

DE PUBLICAÇÃO DA ENFERMAGEM DE SAÚDE MENTAL

REVISTA

PORTUGUESA

DE

A Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental é publicada duas vezes por ano, em junho e dezembro, tratando-se de uma revista indexada em bases de dados nacionais e internacionais. A Revista apresenta, atualmente, as seguintes secções: Artigos de Investigação; Artigos de Revisão (Narrativa, Sistemática e Integrativa) da Literatura; Artigos de Boas Práticas/Reflexão. 1 – Procedimentos de Submissão do Artigo: 1.1 – Submissão eletrónica: os artigos devem ser sempre submetidos eletronicamente no sítio da Sociedade Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental: http://www.aspesm.org/. 1.2 – Para a submissão dos artigos, deverão sempre ser enviados os seguintes documentos: a) Artigo integral, obedecendo às normas da revista; b) Checklist de autoverificação, preenchida na totalidade c) Declaração de Cedência de Direitos de Autor e de Observação dos Princípios Éticos da Investigação, provando que os autores concordam que o artigo, uma vez aceite, fique da propriedade d’ ASPESM, não podendo, por isso, ser publicado noutra fonte, e que foram cumpridos todos os princípios éticos inerentes a um trabalho de investigação. Nota: a Direção da Revista reserva-se o direito de retirar um artigo do processo de revisão ou das bases de dados (no caso dos artigos publicados), sempre que se verifique que os autores publicaram uma versão idêntica noutra Revista. 2 – Processo de Revisão: Os artigos propostos são apreciados num processo Double Blinded (duplamente cego). Neste processo, o artigo é enviado por dois Peer Reviewers (Pares Revisores), os quais o examinam e arbitram sobre a sua qualidade, dando as recomendações que julgarem convenientes. Sempre que não se verifique acordo entre os dois revisores, o Diretor da Revista reserva-se o direito de indicar um terceiro revisor. A Direção da Revista enviará ao autor informação sobre a eventual aceitação definitiva, aceitação com alterações, ou não aceitação. No caso da aceitação com alterações, os autores receberão os pareceres e recomendações sugeridas pelos Peer Reviewers. O autor deve efetuar as alterações e reenviar o documento, via eletrónica, no tempo regulamentado. Nota: caso não se verifique o cumprimento rigoroso do tempo estipulado para correção do artigo, este pode ser excluído do processo de revisão. Cada artigo será, posteriormente, verificado pelo Diretor e Coordenador da Revista, que analisam a primeira versão do artigo e a versão corrigida, em função das recomendações dos Peer Reviewers. O processo de revisão será efetuado online. As fases do processo de revisão e recomendações encontram-se descritos no quadro abaixo: Fase Receção do Artigo Revisão Reformulação do Autor Verificação Redatorial Publicação

Procedimento Após o envio do artigo, este será submetido a um processo de revisão técnica (revisão dos aspetos formais e de normalização, de acordo com as normas de publicação da Revista). O artigo é enviado para 2 Peer Reviewers, que o examinam e arbitram sobre a sua qualidade, dando as recomendações convenientes. A Direção da Revista enviará ao autor informação sobre a aceitação definitiva, aceitação com alterações, ou não aceitação, bem como os pareceres e recomendações dos Peer Reviewers. As alterações a efetuar pelo autor deverão ir, rigorosamente, de acordo com as recomendações dos Peer Reviewers. Cada artigo deverá ser verificado pelo Diretor e pelo Coordenador da Revista, que analisam a primeira versão do artigo e a versão corrigida, em função das recomendações dos Peer Reviewers. A oportunidade de publicação é da inteira responsabilidade da Direção da Revista.

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3 – A decisão final acerca da oportunidade de publicação dos artigos é da responsabilidade do Diretor da Revista. 4 – O artigo: 4.1 – Tipo de artigo: devem ser artigos científicos originais e versarem temas de saúde mental, Enfermagem de saúde mental ou educação em saúde mental. O conteúdo dos artigos é da exclusiva responsabilidade dos seus autores, aos quais compete respeitar os princípios éticos da investigação e cumprir as normas da edição da Revista. A Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental poderá incluir artigos em língua portuguesa, espanhola, inglesa ou francesa, consoante a origem dos artigos. 4.2 – Estrutura do artigo 4.2.1 - Título: o artigo deverá incluir um título informativo (que vá de encontro ao âmbito do trabalho) e sucinto (em português, espanhol e inglês); máximo de 16 palavras, sem abreviaturas e sem a indicação da localização geográfica da investigação. 4.2.2 - Autores: os autores devem estar devidamente identificados, com o nome, habilitações académicas, categoria profissional, instituição onde exercem funções, contactos (morada, e-mail e telefone institucionais) e informação no caso de o artigo ser extraído de Dissertação ou Tese (indicando o título, ano e instituição onde foi apresentada). O nome e afiliação dos autores deve surgir imediatamente após o título em português. As afiliações devem estar por extenso (ex.: Local de Trabalho – Escola Superior de Enfermagem do Porto). Os endereços de correio eletrónico dos autores dos artigos devem estar com hiperligação (com link disponível). 4.2.3 - Resumo: o resumo do trabalho deve ser apresentado em português, espanhol e inglês, e não deve exceder as 250 palavras, devendo incluir a descrição do contexto, objetivo(s), metodologia, resultados e conclusões. 4.2.4 - Palavras-Chave: o artigo deve apresentar, no máximo, 4 palavras-chave, transcritas de acordo com os descritores MeSH (em português, ver DeCS), em português, espanhol e inglês. 4.2.5 - Corpo do artigo: O artigo (tratando-se de um trabalho de investigação) deve ser estruturado em secções, devendo incluir os seguintes capítulos: Introdução, Metodologia, Resultados, Discussão, Conclusão, e Implicações para a Prática Clínica). Os artigos de revisão e de boas práticas/reflexão não têm que obedecer, necessariamente, a esta divisão. 4.3 - Formato: • O texto deve ser apresentado em formato Word, letra Arial, tamanho 11, espaçamento 1,5, páginas em formato A4, em coluna única, evitando negritos e sublinhados, variação do tipo de letra, fundos de cor, etc.; • Todas as margens devem ter 2,5 cm.; • Não devem ser incluídas notas de rodapé. • O artigo não deve ultrapassar as 15 páginas incluindo resumo (em português, espanhol e inglês), referências, tabelas, quadro e figuras. • O artigo não deverá ser paginado. • Os parágrafos não devem ser indentados. • O artigo deve ser redigido de acordo com o Novo Acordo Ortográfico (caso não o seja, a Comissão Editorial reserva-se o direito de realizar a conversão). Nota: caso o(s) autor(es) se recuse(m) a redigir o artigo segundo o Novo Acordo Ortográfico devem, aquando do seu envio, manifestar essa posição de forma clara e inequívoca. • Na primeira utilização de uma sigla esta deve estar, primeiramente, por extenso, por exemplo: Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). • Quando se realizarem citações de três a cinco autores, todos os nomes devem ser mencionados na primeira vez que a citação é feita (ex.: Bradley, Ramirez, & Soo, 1999). Nas vezes seguintes, deve utilizar-se apenas o nome do primeiro autor seguido de “et al.” (ex.: Bradley et al., 1999). Caso a citação seja de seis ou mais autores, logo na primeira vez em que a citação é feita deve utilizar-se apenas o nome do primeiro autor seguido de “et al.”. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 124


• No corpo do artigo, ao citar autores coletivos, na primeira vez que a citação é feita, deve ser mencionado o nome por extenso (ex.: National Institute of Mental Health [NIMH], 2003). Nas vezes seguintes, pode ser utilizada a abreviatura (ex.: NIMH, 2003). • Os títulos dos capítulos devem seguir a seguinte estrutura: Nível do Título Formato 1 Centrado, Negrito, com Maiúsculas e Minúsculas 2 Alinhado à Esquerda, Negrito, com Maiúsculas e Minúsculas 3 Indentado, negrito, em minúsculas terminando com ponto final. 4 Indentado, negrito, itálico, em minúsculas terminando com ponto final. 5 Indentado, itálico, em minúsculas terminando com ponto final. 4.3.1 - Tabelas, quadros, gráficos e figuras: devem ser incluídos apenas os que sejam absolutamente essenciais para a compreensão do artigo e numerados por ordem de inclusão no texto, em função de cada tipo. As tabelas e quadros devem apresentar o título em cabeçalho e os gráficos e figuras devem apresentar o título por baixo. Para tabelas e quadros o tamanho da letra pode ser reduzido até um mínimo de 9 e sem espaçamentos. As tabelas, quadros, gráficos e figuras devem surgir imediatamente após o parágrafo em que é feita referência às mesmas. 4.3.2 - Citações: todos os autores citados no artigo devem constar da lista de referências bibliográficas. Exemplo: Sequeira (2006), (Sequeira, 2006), ou “Em 2006, Sequeira (...)”. Deve indicar-se o número de página, no caso de citação textual, tal como nos exemplos: Sequeira (2006, p. 32) ou (Sequeira, 2006, p. 32). Quando citar dois ou mais autores numa mesma paráfrase, deve ordená-los por ordem alfabética, tal como no exemplo: (Miller, 1999; Shafranske & Mahoney, 1998). Nota: utilizar o símbolo “&” apenas nas paráfrases em que os autores citados sejam de países em que o português não é uma língua oficial (ex.: EUA, Reino Unido, etc.). 4.3.3 - Referências Bibliográficas: • As referências selecionadas devem permitir evidenciar as publicações mais representativas do “estado da arte” da problemática em estudo (últimos 5 anos, extensíveis a 10 anos para problemáticas que tenham sido pouco estudadas), resultando da pesquisa de bases de dados de revistas indexadas nacionais e internacionais. • As referências bibliográficas devem estar elaboradas de acordo com as normas da 6ª Edição da American Psychological Association (APA). Todas elas deverão estar citadas no artigo. • Nas referências bibliográficas, independentemente do número de autores, estes devem ser todos referidos, não sendo permitido o uso de “et al.”. • O título das revistas nunca deve ser abreviado nas referências bibliográficas. Por exemplo, não se deve escrever “RPESM”, mas sim “Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental”. • Sempre que se inclua um site nas referências bibliográficas, a sua hiperligação deve estar presente e funcionante. Nota: as fontes devem ser alvo de seleção criteriosa, em função da sua pertinência, e não devem ultrapassar um total de 20 referências, organizadas por apelido do autor e ordenadas por ordem alfabética. APA 6ª Edição (Exemplos – consultar http://www.apastyle.org/) 4.3.3.1 Modelo de referências (indicar o nome de todos os autores – não usar “et al.”): Livros Shotton, M. A. (1989). Computer addiction? A study of computer dependency. London, England: Taylor & Francis. Trabalho académico (Dissertação/Tese) Healey, D. (2005). Attention deficit/hyperactivity disorder and creativity: An investigation into their relationship. Tese de Doutoramento, University of Canterbury, Christchurch, New Zealand. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 125


Trabalho académico (Dissertação/Tese) Healey, D. (2005). Attention deficit/hyperactivity disorder and creativity: An investigation into their relationship. Tese de Doutoramento, University of Canterbury, Christchurch, New Zealand. Editor literário Barkley, R. A. (Ed.) (2008). Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade: Manual para diagnóstico e tratamento (3ª ed.). Porto Alegre: Artmed. Capítulos de livros Haybron, D. M. (2008). Philosofy and the science of subjective well-being. In M. Eid & R. J. Larsen (Eds.), The Science of subjective well-being (pp. 17-43). New York, NY: Guilford Press. Autor coletivo American Psychological Association. (2010). Publication manual of the American Psychological Association (6ª ed.). Washington, DC: Author. Artigos de publicações periódicas Com DOI Herbst-Damm, K. L. & Kulik, J. A. (2005). Volunteer support, marital status, and the survival times of terminally ill patients. Health Psychology, 24, 225-229. doi: 10.1037/0278-6133.24.2.225 Sem DOI Light, M. A. & Light, I. H. (2008). The geographic expansion of Mexican immigration in the United States and its implications for local law enforcement. Law Enforcement Executive Forum Journal, 8(1), 73-82. Documentos eletrónicos Livros Schiraldi, G. R. (2001). The post-traumatic stress disorder sourcebook: A guide to healing, recovery, and growth [Adobe Digital Editions version]. doi: 10.1036/10071393722 Artigos de publicações periódicas Wheeler, D. P. & Bragin, M. (2007). Bringing it all back home: Social work and the challenge of returning veterans. Health and Social Work, 32(1), 297-300. Acedido em http://www.naswpressonline.org Outros (póster, comunicação livre, etc.) Leclerc, C. M. & Hess, T. M. (2005, agosto). Age diferences in processing of affectively primed information. Póster apresentado na 113ª Annual Convention of the American Psychological Association, Washington, DC. Nota: no caso de os autores serem de países de língua oficial portuguesa, nas referências bibliográficas o “&” deve ser substituído por “e”. 5 – Formato Padrão do Artigo a submeter: Primeira Página • Título (em português, espanhol e inglês) • Nome dos autores (separados por ponto e vírgula); • Afiliações dos autores (uma afiliação por linha); • Indicação caso o artigo seja extraído de Dissertação/Tese. Nota: esta página, posteriormente, é retirada pelo Coordenador da Comissão Editorial, sendo atribuído um número codificado que identifica o artigo junto dos revisores Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016) | 126


Segunda Página • Titulo (em português); • Resumo (em português); • Palavras-Chave (em português); • Título (em espanhol); • Resumen; • Descriptores; • Titulo (em inglês); • Abstract; • Keywords. Páginas Seguintes: • Introdução; • Metodologia; • Resultados; • Discussão; • Conclusões; • Referências bibliográficas; • Apêndices (se existentes), agradecimentos (se existentes), conflitos de interesses (se existentes), fontes de financiamento (se existentes), e contribuições dos autores (se aplicável).

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