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VII Congresso Internacional ASPESM

A SOCIEDADE PORTUGUESA DE ENFERMAGEM DE SAÚDE MENTAL

E-book: VII Congresso Internacional ASPESM Evidência e Prática Clinica em Saúde Mental

: Carlos Sequeira José Carlos Carvalho Luís Sá Odete Araújo

Bruno Santos Francisco Sampaio Joana Coelho Sónia Teixeira Daniela Martins ASPESM E-book (formato. pdf)

Todos os artigos publicados são propriedade d’ASPESM, pelo que não podem ser reproduzidos para fins comerciais, sem a devida autorização da Sociedade Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental. A responsabilidade pela idoneidade e conteúdo dos artigos é única e exclusiva dos seus autores. A opção do texto com o novo acordo ortográfico ficou a cargo de cada autor.

1. Sequeira, C.; Carvalho, J.C.; Sá, L. & Araujo, O. (Eds.) (2016). VII Congresso Internacional ASPESM: Evidência e Prática Clinica em Saúde Mental. Porto: ASPESM.

Viana do Castelo, Novembro de 2016


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Índice Enquadramento do congresso ……………………………………………………………………………………………………….. 5 Promoção da Transição Para a Parentalidade: Intervenção de Enfermagem ...................... 8 Autismo na Infância: um enfoque contingencial a assistência de enfermagem. ..............22 Análise fatorial confirmatória da escala Positive And Negative Affect Schedule na doença renal crónica.................................................................................................................................33 Metodologias de ensino e práticas docentes: acompanhamento dos estudantes em estágio de Saúde Mental e Psiquiatria ...............................................................................................43 Amigos improváveis: um contributo para o cuidar ......................................................................55 A influência do Psicodrama na atenção concentrada e habilidades sociais em pacientes com esclerose múltipla ............................................................................................................................63 Perfil psicológico de pacientes com esclerose múltipla ...............................................................71 Efeitos da estimulação multissensorial nas emoções momentâneas em idosos ...............99 Vulnerabilidade ao estresse laboral nos gestores educacionais ..............................................92 Apoio a cuidadores informais: Análise dos efeitos de um programa psicoeducativo ....103 O Investigador na Metodologia Sociodramática ..........................................................................115 Determinantes da percepção de Saúde Mental em adultos de Viana do Castelo...........127 Suporte Social, Ansiedade, Depressão e Qualidade de Vida de pessoas idosas a residir na comunidade e em estrutura residencial para pessoas idosas ..........................................139 Controlo da Ansiedade e Biofeedback em Estudantes de Enfermagem .............................151 Qualidade de vida das Pessoas em Cuidados Paliativos ...........................................................163 Apoio social, saúde mental e bem-estar em idosos institucionalizados e não institucionalizados ...................................................................................................................................178 Motivação para a atividade física em pacientes com esquizofrenia: estudo piloto utilizando a versão Portuguesa do Behavioral Regulation in Exercise Questionnaire - 2 (BREQ-2) .....................................................................................................................................................191 A relação entre a Atividade Física, a Qualidade do Sono e a Qualidade de Vida em Indivíduos com Esquizofrenia .............................................................................................................204 Saúde mental do docente do ensino superior de enfermagem práticas de intervenção: um estudo bibliométrico........................................................................................................................216

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Como as pessoas com sintomas depressivos usam e percebem o humor ........................229 Impacto do Autismo na Família: Revisão Integrativa da Literatura ....................................239 Cuidados de natureza psicoeducacional. De que falamos? .....................................................252 A Residência Multiprofissional implementando psicoeducação no Centro de Atenção Psicossocial para dependentes de álcool e drogas .....................................................................265 Perceção Do Estado De Saúde Mental Da População De Paredes De Coura ....................276

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O VII Congresso Internacional da Sociedade Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental inseriu-se no âmbito das atividades regulares da ASPESM, no qual se pretendeu debater o “estado da arte” em saúde mental. Neste evento foi dada ênfase à evidência científica e à prática clínica, inserida num contexto que se promotor de Saúde mental, de modo a que os Enfermeiros e/ou outros profissionais de saúde, possam potenciar o seu contributo na implementação de práticas de qualidade que facilitem a autonomia, adaptação e integração. Preparamos um programa geral com uma matriz construída por conferências (mais concetuais) e comunicações livres e posters (mais práticos e contextuais) de modo a que cada um, em função dos seus interesses/necessidades possa beneficiar da experiência e do saber dos nossos oradores, possibilitando por esta via um maior envolvimento de todos na discussão das temáticas. Agradecemos a todos os palestrantes a sua disponibilidade para nos presentearem com o seu saber e experiência. Tudo fizemos para lhes proporcionar uma experiência positiva. Agradecemos às instituições de assistência e de ensino que se associaram a esta iniciativa da ASPESM, em Especial, à Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Viana do Castelo e à Secção Regional do Norte da Ordem dos Enfermeiros. No primeiro dia do evento (dia 3 de manhã) proporcionaram-se três cursos breves distintos, nos quais se pretendeu debater algumas questões mais concretas da prática clinica, como primeiros socorros emocionais, treino metacognitivo e saúde mental positiva, de modo a que os profissionais possam mobilizar conhecimentos e competências para os seus contextos. Nos dias 3 (tarde) e dia 4 (todo o dia), foram realizadas conferências, mesas redondas e debates por “peritos” nacionais e internacionais. De

modo

a

permitir

a

divulgação

de

um

maior

número

de

experiências/conhecimentos, a organização possibilitou um espaço de debate que integrou comunicações orais, simpósios e posters que complementaram o programa científico.

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Temáticas do evento: Curso 1 – Primeira Ajuda em Saúde Mental Moderador: Luís Sá & Paula Fonseca Dinamizadores: Luís Loureiro Curso 2 – Intervenção Cognitivo Comportamental em Enfermagem Moderador: Joana Coelho/ Francisco Sampaio Dinamizadores: Bruno Romão Curso 3 – Saúde Mental Positiva – como se faz? Moderador: José Carlos Carvalho/ Sónia Teixeira Dinamizadores: Mª Dolores Miguel Ruiz & Núria Albaaca Riboo Curso 4 – Primeira Avaliação da Criança com Alterações de comportamento Moderador: Leonel Fernandes // Raul Cordeiro Dinamizadores: António Nabais O Valor Terapêutico da Rede Social Moderador: Cláudia Mara Tavares – Universidade Federal Fluminense – Rio de Janeiro - Brasil Francisco Megías-Lizancos – Presidente de la Asociación Nacional de Enfermería de Salud Mental (ANESM) – Espanha I Ciclo de Conferências Moderador: José Carlos Carvalho – Escola Superior de Enfermagem do Porto Cuidados Continuados Integrados em Saúde Mental Manuel Lopes – Coordenador da Reforma do Serviço Nacional de Saúde para a Área dos Cuidados Continuados Integrados Integração dos cuidados de Enfermagem de Saúde Mental nos Cuidados de Saúde Primários Manuel Oliveira – Grupo Técnico de Coordenação Nacional para os Cuidados de Saúde Primários

II Ciclo de Conferências Moderador: Maria Isabel Amorim – Escola Superior de Saúde do IPVC Os direitos humanos no internamento de psiquiatria – WHO - Tool Kit - QualityRights Marciana Fernandes Moll – Pós-doutoranda – Universidade de Uberaba Resultados do Programa de Prevenção do Suicídio - + contigo José Carlos Santos – Escola Superior de Enfermagem de Coimbra O Impacto do Estigma nas Pessoas com Esquizofrenia: Estratégias de Intervenção

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VII Congresso Internacional ASPESM Francisco Bevilacqua Guarniero - Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Brasil III Ciclo de Conferências Moderadores: Joaquim Passos – Diretor de Enf. do Hospital Santa Maria Maior - Barcelos

Censos de Enfermagem de Saúde Mental nos internamentos de Psiquiatria – Principais diagnósticos e Intervenções de Enfermagem Patricia Gonçalves – Hospital Magalhães Lemos Consulta de Enfermagem de Saúde Mental Paulo Oliveira – Hospital Senhora da Oliveira- Guimarães, EPE Projeto de Reintegração Social na Comunidade – Espaço Trocas Carla Ferreira - Hospital de Santarém Ensino e Treino do Relaxamento – Uma Estratégia para Diminuir o Stress Catarina Vieira e Filipa Batista – Unidade de ambulatório - Unidade Local de Saúde Alto Minho Conferência de Encerramento Moderadores: Raul Cordeiro – Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Portalegre

Comunicação, Relação Terapêutica e Relação de Ajuda (Psicoterapêutica): Ganhos em Saúde - Carlos Sequeira – Escola Superior de Enfermagem do Porto

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Margarida Ferreira1| Carlos Ferreira2| Diana Gonçalves3

PhD; Professora Auxiliar na Universidade Fernando Pessoa; mm_ferreira@netcabo.pt MSc.; Enfermeiro Chefe no Hospital MagalhĂŁes Lemos; carlosm.monteiroferreira@gmail.com 3 Enfermeira Generalista no CHP, EPE; diana.g.alves@gmail.com 1 2

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Resumo: O nascimento de uma nova vida é uma fase de experiências únicas e gratificantes na vida dos progenitores, mas alguns fatores poderão determinar o modo como os pais vivenciam este período das suas vidas. A parentalidade, usualmente considerada como uma das transições mais relevantes e marcantes na vida dos indivíduos, é promotora de mudanças estruturantes em todos os elementos da família e assinala, particularmente no caso de ser o primeiro filho, o início de uma nova fase do ciclo vital, movendo-se da função conjugal para a parental. A Transição para a parentalidade, está a despertar investimento pela enfermagem, pela procura de cuidados

de

saúde

cada

vez

maior.

As

transições

caraterizam-se

pela

consciencialização, envolvimento, mudança, duração da transição e eventos críticos. A intervenção de enfermagem baseia-se na parceria com família, processo de educação,

contribuindo

para

capacitação

de

competências,

independência

e

reorganização pessoal. Objetivos: compreender como é vivenciado o processo de transição para a paternidade, dos pais pela primeira vez, no 1º ano de vida; Reconhecer contributos dos enfermeiros na resposta a este processo durante o primeiro ano de vida da criança. Metodologia: Desenhou-se uma investigação assente no paradigma compreensivo, com uma abordagem exploratória, transversal e retrospetiva, com uma amostra de conveniência, através de uma entrevista semiestruturada a 20 progenitores de crianças entre os 6 e 12 meses de idade. As respostas foram analisadas pela técnica de Bardin. Resultados/Discussão: O nosso estudo foi constituído por 20 participantes, dos quais 70% mulheres e 30% homens, situando-se maioritariamente no grupo etário dos 25-30 anos. Os pais apresentam-se muito satisfeitos com a promoção da parentalidade, cooperando para este resultado alguns recursos da comunidade, particularmente a participação em sessões de preparação para o parto e parentalidade e vigilância da gravidez. Revelaram também, consciência da transição, mobilizando recursos, manifestando empenhamento na experiência e desenvolvimento de competências. Consideram o enfermeiro elemento ativo da equipa multidisciplinar na preparação para o parto e no pós- parto. Atentam que a relação enfermeiro/utente, família, se salienta

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VII Congresso Internacional ASPESM pela atenção, disponibilidade, proximidade, confiança, associados ao processo contínuo de educação. Conclusões As estratégias de procura de suporte para a transição são utilizados pela maioria dos pais. A preparação a nível de conhecimento e habilidades demonstrou ser uma maisvalia para conhecer a perspetiva dos pais sobre como a parentalidade é vivenciada, desenvolvendo intervenções congruentes, facilitando a adaptação aos novos papéis. Os enfermeiros têm de estar capacitados para o processo de educação, contribuindo para a capacitação de competências, independência e reorganização pessoal e familiar. Cremos que os programas de preparação para o parto e parentalidade desenvolvidos por enfermeiros, são uma mais-valia, visando o empoderamento dos futuros pais na promoção de uma transição saudável e adaptativa. Consideramos pertinente uma maior sensibilização dos futuros pais para a adesão a uma maior participação aos exames/consultas pré concecionais. Palavras-chaves: parentalidade; transição; intervenção de enfermagem.

Resumen: El nacimiento de una nueva vida es una etapa de experiencias únicas y recompensar la vida de los padres, pero algunos factores que pueden determinar cómo los padres experimentan este período de su vida. Paternidad, generalmente considerada como una de las transiciones más importantes y sorprendentes de la vida de las personas, es un promotor de cambios estructurales en todos los miembros de la familia y los puntos, sobre todo en el caso del primer hijo, el comienzo de una nueva fase del ciclo de vida , moviendo la función conyugal de los padres. La transición a la paternidad, está atrayendo inversión por parte del personal de enfermería, la demanda de atención de salud creciente. Las transiciones caracterizan por la conciencia, la participación, el cambio, la duración de transición y eventos críticos. La intervención de enfermería se basa en la asociación con la familia, proceso educativo, contribuyendo a la formación profesional, la independencia y la reorganización personal. Objetivos: Conocer cómo experimentó la transición a la paternidad, los padres por primera vez en el 1er año de vida; Reconocer las contribuciones de las enfermeras en respuesta a este proceso durante el primer año de vida de un niño.

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VII Congresso Internacional ASPESM Metodología: se elaboró una investigación basada en el paradigma integral con un estudio exploratorio, enfoque transversal y retrospectivo, con una muestra de conveniencia a través de una entrevista semiestructurada con 20 padres de niños de entre 6 y 12 meses de edad. Las respuestas fueron analizadas por la técnica de Bardin. Descriptores: la paternidad; transición; intervención de enfermería.

Abstract: The birth of a new life is a phase of unique and rewarding experiences in the lives of parents, but some factors may determine how parents experience this period of their lives. Parenting, usually considered one of the most relevant and striking transitions in the life of individuals, promotes structuring changes in all elements of the family and points out, particularly in the case of being the first child, the beginning of a new phase of the life cycle , Moving from the conjugal to the parental function. The Transition to parenting, is fueling investment by nursing, the demand for everincreasing health care. Transitions are characterized by awareness, involvement, change, duration of transition, and critical events. The nursing intervention is based on partnership with family, education process, contributing to skills training, independence and personal reorganization. Objectives: to understand how the process of transition to paternity is experienced, for the first time in the first year of life; Recognize the contributions of nurses in the response to this process during the first year of the child's life. Methodology: a research based on the integral paradigm was developed with an exploratory study, transversal and retrospective approach, with a convenience sample through a semi-structured interview with 20 parents of children between 6 and 12 months of age. Responses were analyzed by the Bardin technique. Results / Discussion: Our study consisted of 20 participants, of whom 70% were women and 30% were men, and were predominantly in the 25-30 age group. Parents are very pleased with the promotion of parenting, cooperating with this result for some community resources, particularly participation in childbirth preparation and parenting and pregnancy monitoring. They also revealed awareness of the transition, mobilizing resources, showing commitment to the experience and development of skills. They consider the nurse to be an active member of the multidisciplinary team in preparation for childbirth and postpartum. They emphasize that the relation nurse /

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VII Congresso Internacional ASPESM patient, family, stands out for the attention, availability, proximity, confidence, associated to the continuous process of education. Conclusions: Transition support strategies are used by most parents. Knowledge and skills preparation has been shown to be an asset in understanding the parents' perspective on how parenting is experienced, developing congruent interventions, and facilitating adaptation to new roles. Nurses must be trained in the education process, contributing to skills training, independence and personal and family reorganization. We believe that childbirth preparation and parenting programs developed by nurses are an asset, aiming the empowerment of future parents in promoting a healthy and adaptive transition. We believe it is appropriate to raise the awareness of future parents of adherence to greater participation in pre-trial exams / consultations. Keywords: parenting; transition; Nursing intervention.

Introdução A transição para a parentalidade é uma fase da vida da família que implica um conjunto de transformações individuais, conjugais e sociais para os novos pais. Usualmente considerada como uma das transições mais relevantes e marcantes na vida dos indivíduos, é promotora de mudanças estruturantes em todos os elementos da família e assinala, particularmente no caso do primeiro filho, o início de uma nova fase do ciclo vital, movendo-se da função conjugal para a parental (Oliveira, 2012;Relvas, 2000). Requer a interiorização e aprendizagem de novos conhecimentos e aquisição de novas habilidades para o assumir do novo papel (Vieira, 2008). Carateriza-se por um compromisso intenso e envolvimento ativo que requer a reestruturação de responsabilidades e comportamentos. Engloba tarefas relacionadas com a satisfação pessoal, relação com a família de origem e com o cônjuge/companheiro, aceitação do bebé e reestruturação da identidade materna. Relvas (2000), atribuiu ao conceito o significado de relativo à função parental, ou seja qualidade parental, maternidade ou paternidade. Neste âmbito, surge o conceito da parentalidade ou função parenteral, que designa uma atitude de corresponsabilização e partilha nas tarefas do cuidar dos filhos atendendo para a necessidade de participação de ambos os progenitores.

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VII Congresso Internacional ASPESM A vivência e a conceção da maternidade e paternidade levam a uma mudança do modelo de “autoridade paterna/patriarcal”. O pai, atualmente, tem uma participação ativa, desde o estar presente com a companheira, nas consultas de saúde materna e realização de exames, participação nos cursos de preparação para o parto e parentalidade (Aboim, 2010. A qualidade da conjugalidade depende dos padrões de relacionamento, uma vez que estes interferem na qualidade do vínculo estabelecido entre os conjugues e permitem que o casamento resista a diversas circunstâncias, previstas ou não no ciclo da vida do casal (Féres-Carneiro, 2010). A existência de comunicação sobre as necessidades sentidas, a partilha de experiências, dúvidas e ansiedades, conjuntamente com sensibilidade às necessidades do outro, são apontadas, em diversos estudos, como os maiores fatores protetores da união conjugal. Decidir tornar-se pai e tornar-se mãe é assumir um compromisso irreversível, particularidade esta que distingue a parentalidade das restantes transições. Afigurase como uma das transições que ocorrem durante o desenvolvimento da vida dos indivíduos, razão pela qual foi designada por Meleis et al. (2000) e Mercer (2004) como uma transição do desenvolvimento. Refere-se à transição, enquanto processo e experiência dos indivíduos que vivenciam a transição e em que os enfermeiros atuam como agentes facilitadores, de forma a promover o sentido de bem-estar, estabelecendo orientações para a prática profissional de enfermagem, permitindo ao enfermeiro pôr em prática estratégias de prevenção, promoção e intervenção face à transição que a pessoa vivencia. A Transição para a parentalidade, constitui um importante foco de atenção dos enfermeiros que, através das suas intervenções, podem constituir um importante recurso facilitador, no ajustamento à paternidade, estando a despertar investimento pela enfermagem, pela procura de cuidados de saúde cada vez maior. As transições caraterizam-se pela consciencialização, envolvimento, mudança, duração da transição e eventos críticos. As intervenções terapêuticas de enfermagem podem ser entendidas como uma ação interventiva continuada ao longo do processo de transição e antecedida pela compreensão do mesmo. Estas devem oferecer conhecimento e empoderamento àqueles que o vivem, promovendo respostas saudáveis às transições que conduzam ao restabelecimento da sensação de bem-estar através do desenvolvimento de

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VII Congresso Internacional ASPESM cuidados de enfermagem (Meleis et al., 2000). A educação, área privilegiada da enfermagem, surge como um recurso distinto, para possibilitar a preparação dos indivíduos para as suas transições. A intervenção de enfermagem baseia-se na parceria com família, processo de educação, contribuindo para capacitação de competências, independência e reorganização pessoal (Oliveira, 2012; Soares, 2008;Vieira, 2008). Os enfermeiros podem promover a educação para a saúde durante a consulta pré-natal e durante os cursos de preparação para o parto e para a parentalidade. De forma a potenciar a satisfação dos futuros pais durante a aquisição de conhecimentos e aumentar a sua autoestima, é relevante uma avaliação prévia das suas necessidades de aprendizagem (Vieira, 2008). Segundo Soares, (2008), os programas de suporte pós-parto, devem privilegiar a discussão pré natal das expetativas face ao período transacional; o suporte nos primeiros seis meses após o parto e a visita domiciliária. Para que se possa, antecipar, prever ou preparar os ciclos do desenvolvimento da criança, é fundamental que se desenvolvam estratégias, que dotem os pais de competências e conhecimentos de modo a ficarem aptos a identificar e acompanhar as diferentes etapas do desenvolvimento dos seus filhos, prevenindo dificuldades e evitando o aparecimento de ciclos familiares de insucesso.

Objetivos: 1) Compreender como é vivenciado o processo de transição para a paternidade, dos pais pela primeira vez, no 1º ano de vida; 2) Reconhecer contributos dos enfermeiros na resposta a este processo durante o primeiro ano de vida da criança.

Metodologia: Desenhou-se uma investigação qualitativa assente no paradigma compreensivo, com uma abordagem exploratória, transversal e retrospetiva. Os dados foram obtidos pela análise das entrevistas semiestruturada, construída com base na revisão da literatura, realizadas a 20 progenitores de crianças entre os 6 e 12 meses de idade, que se encontravam a viver pela primeira vez a parentalidade. Os participantes reuniam os seguintes critérios: pais pela primeira vez, cujo filho tenha entre 6 meses a 1 ano, ausência de patologia materna e do recém-nascido, habitavam na mesma área geográfica. Relativamente aos participantes, e tendo em consideração as caraterísticas qualitativas do estudo foram selecionadas por conveniência. Posteriormente, as respostas foram analisadas pela técnica de análise de conteúdo categorial de Bardin, considerando os objetivos do estudo. Pela análise e interpretação

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VII Congresso Internacional ASPESM dos dados surgiram quatro dimensões/áreas temáticas, definidas de acordo os objetivos do estudo, respetivas categorias e subcategorias, conforme se representa de forma sucinta: preparação da parentalidade, transição para a parentalidade; recursos mobilizados no processo de transição; intervenção da enfermagem.

Resultados/Discussão A amostra foi constituída por 20 elementos, dos quais 70% do género feminino e 30% do masculino. Situam-se maioritariamente no grupo etário dos 25 – 30 anos (40%), dos quais metade (50%) possuem como habilitações literárias o ensino secundário e 80% desempenham funções no setor terciário nomeadamente profissões da área da saúde, comércio e prestação de serviços.

GÉNERO

Feminino Masculino

n = 14 n=6

70% 30%

GRUPO ETÁRIO

25 - 30 31 - 35 > 35

n=8 n=7 n=5

40% 35% 25%

HABILITAÇÕES LITERÁRIAS

1º Ciclo 3º Ciclo Ensino Secundário Licenciatura Outros

n=1 n=3 n = 10 n=3 n=3

5% 15% 50% 15% 15%

SETOR DE ATIVIDADE

Setor secundário Setor terciário

n =2 n = 18

10% 90%

Tabela I – Caraterização da amostra

Para análise das variáveis em estudo foi contruído um diagrama, que pretende de forma sistematizada expor e organizar as três dimensões em estudo e respetivas categorias.

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VII Congresso Internacional ASPESM DIMENSÃO 1 Preparação para a Parentalidade

DIMENSÃO 2 Transição para a Parentalidade

DIMENSÃO 3 Intervenção de enfermagem

Exames Préconcecionais

Consciencialização/ Responsabilidade/ Aquisição de conhecimentos

Preparação para o parto

Preparação para o parto

Alterações Conjugais/ Reestruturação da relação conjugal

Unidades de Saúde

Mecanismos de adaptação

Relações/ Reestruturação da relação com familiares e amigos Emoções/ Sentimentos associados ao nascimento do primeiro filho

Pós- Parto

Relação Terapêutica Fig.

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– Categorias e subcategorias das variáveis em estudo

Ao longo do conteúdo das entrevistas foram elaboradas diferentes dimensões compostas por categorias e subcategorias, conforme passamos a analisar.

DIMENSÃO 1: Preparação para a Parentalidade O desejo de ser mãe/pai foi considerado como a primeira etapa da preparação para a maternidade, complementada com o planeamento da gravidez e sua concretização (Mercer, 2004). A análise dos dados das variáveis em estudo permite-nos inferir uma baixa adesão aos exames pré-concecionais (2.5%), com idade compreendida entre os 25-30 anos. Esta baixa adesão pode estar relacionada com algum desconhecimento por parte dos pais, gravidez não planeada e contratos de trabalho precários que limitam as ausências para as consultas. A preparação para o parto foi efetuado maioritariamente por mulheres (34,5%), versus 14% dos homens. Esta adesão verificou-se essencialmente nas mulheres com idade entre os 25 – 30 anos (34,5%). A preparação para o nascimento tem um papel fundamental, não só pela informação sobre a evolução e vigilância da gravidez e maternidade, mas também pela valorização da confiança dos pais no desenvolvimento de competências e também pela promoção de exercícios de preparação para o parto. Meleis [et al.] (2004) fazem referência à consciencialização como um dos atributos das propriedades das transições. A tomada de consciência do novo estado nas suas

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VII Congresso Internacional ASPESM vidas, permite que os indivíduos ativem mecanismos capazes de fazer face às necessidades que decorrerão em virtude da vivência da transição. Assim, os mecanismos de adaptação mais referenciados pelos pais foram “paciência”; “força de vontade”; “bom senso” e “racionalidade”, com 41,5% das mulheres a referir utilizarem mecanismos de adaptação para apenas 21% de homens, situando-se estas maioritariamente (28%) no grupo etário dos 25 – 30 anos. DIMENSÃO 2: Transição para a Parentalidade O casal quando decide formar família acredita que a sua experiência enquanto filhos é suficiente para ter sucesso nesta nova etapa, o que se verifica através das vivências dos entrevistados (Cruz & Pinho, 2006). No nosso estudo observou-se uma maior percentagem de mulheres (14%) do que de homens (7%) que se consciencializaram e responsabilizaram para o processo de parentalidade,

maioritariamente

no

grupo

etário

dos

25

30

(14%).

A

consciencialização do novo papel vai influenciar o empenhamento da pessoa, uma vez que esta só se poderá envolver-se na transição tomando consciência da mudança e aumentando o seu nível de compromisso. Com o nascimento do primeiro filho, surgem frequentemente desentendimentos conjugais, que advêm de “alterações conjugais” tais como, “tempo e dedicação”, “foco de atenção no filho”, “passar para segundo plano”, “conflito”… Constatamos que estas alterações se verificam maioritariamente no género feminino (69%), situadas no grupo etário dos 31-35 anos, podendo estar associadas à mudança de papéis, excesso de cansaço, aumento da responsabilidade, stresse e instabilidade emocional. Relativamente à categoria “Reestruturação da relação conjugal” apuramos que existe uma maior percentagem de mulheres (55%), na faixa etária dos 25 – 30 anos que referenciam capacidade para reestruturar a relação conjugal. Quanto à capacidade de reestruturação da relação com familiares e amigos, as mulheres apresentam uma maior percentagem (55,4%) do que os homens (21%). Os indivíduos com idades entre 25 – 30 anos (35%), pertencentes ao setor terciário (76%) e com habilitações literárias de ensino secundário (35%) revelam maior capacidade para reestruturar as relações. Os pais mencionaram que quando existe amor, carinho e cumplicidade, as dificuldades são mais facilmente resolvidas e não se reflete de forma negativa na

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VII Congresso Internacional ASPESM relação do casal, sendo que o maior contributo para a relação conjugal é a comunicação, partilha de sentimentos, angústias e dificuldades (Martins, 2013). Relativamente às emoções e sentimentos associados ao nascimento do primeiro filho, a quase totalidade dos pais relatam sentimentos positivos de alegria, satisfação, amor incondicional,

orgulho,

felicidade,

afeto,

solidariedade,

carinho

e

calma.

sentimentos negativos como cansaço, tristeza, dependência, stresse, medo, exaustão e frustração foram também referenciados por alguns pais. As emoções e os sentimentos são contínuos, não sendo possível delimitar as suas fronteiras. Emoções e sentimentos como a alegria e o prazer estão associados à vivência da parentalidade (RELVAS,2000). Em suma, o nascimento do primeiro filho proporciona ao casal uma experiência maravilhosa, no entanto muitas vezes o casal sente-se inseguro, exausto e sem tempo, dificultando o ajuste do mesmo a esta nova fase das suas vidas. DIMENSÃO 3: Intervenção de Enfermagem Os enfermeiros desempenham um papel preponderante na adaptação ao processo de parentalidade no apoio aos pais durante as transições do ciclo de vida, proporcionando benefícios e influencia positiva desta etapa. Dos nossos resultados, podemos inferir que 27% das participantes valorizam a intervenção da enfermagem na preparação para o parto, com idades compreendidas entre os 25 – 30 anos. Quanto ao papel que os enfermeiros desempenham nas unidades

de

saúde,

podemos

inferir

que

34%

das

mulheres,

com

idades

compreendidas entre os 31 – 35 anos referiram a importância da intervenção de enfermagem nas unidades de saúde. A intervenção do enfermeiro incidiu em sessões de grupo, ensino e treino de técnicas de controlo da dor, respiração, promover o controlo da ansiedade durante a gravidez e trabalho de parto, oferecer informação sobre a gravidez, o parto e o recém-nascido, facilitar trocas de experiências entre grávidas, apresentar o ambiente onde vai decorrer o parto. Podemos considerar que a intervenção de enfermagem incide na formação e preparação dos pais visando torna-los competentes e autónomos no desempenho dos cuidados básicos. A chegada do primeiro filho é considerada como um dos acontecimentos mais significativos na vida de um casal, uma vez que se trata de um acontecimento

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VII Congresso Internacional ASPESM simbólico, do qual advêm múltiplas mudanças. No que concerne á prestação de cuidados de enfermagem no pós-parto são as mulheres com idades compreendidas entre os 25-30 anos (41%) quem mais valorizam a intervenção do enfermeiro, enfatizando o apoio e compreensão face á nova realidade, no auxílio á amamentação e na capacitação dos cuidados. Consideram o enfermeiro um elemento ativo da equipa multidisciplinar no pós-parto. Neves (2013) refere que o profissional de saúde exerce um papel educativo e fundamental no período pós-parto, pois são estes que acompanham a mulher nas primeiras horas após o nascimento dos filhos, constituindo o foco principal do processo de aprendizagem. A relação terapêutica estabelecida entre o enfermeiro o utente/família, salienta-se pela atenção e disponibilidade despendida, pela proximidade, confiança, associados a um processo contínuo de educação. Esta intervenção é realçada relativamente á “gestão de

sentimentos”,

despendida”,

“relação

“colaboração”,

estabelecida”,

“gestão

“profissionalismo”

e

de

informação”,

“desempenho

“atenção

técnico”.

No

desenvolvimento de uma relação terapêutica é importante que os futuros pais se sintam seguros por saber como deverão agir perante a nova ocorrência que surge, isto é, a gravidez, o parto e o pós-parto, pois assim serão capazes de manter a calma e o controlo sobre a situação (Soares, 2008).

Conclusões A preparação para a parentalidade constitui um processo gradual que se inicia nua fase precoce da vida dos indivíduos. Ser pai ou mãe exige múltiplas mudanças na vivência do casal pelo impacto que o nascimento impõe. Implica a abdicação de rotinas diárias de um relacionamento conjugal efetivo, impõe roturas e restruturação. Assistir o casal em processo de transição implica conhecer como cada família cuida e identifica as suas dificuldades. As estratégias de procura de suporte para a transição são utilizados pela maioria dos pais. Com base nos resultados obtidos no nosso estudo podemos considerar: •

Baixa adesão aos exames pré-concecionais (2.5%) nas mulheres com idade compreendida entre os 25-30 anos

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VII Congresso Internacional ASPESM •

A preparação para o parto foi efetuado maioritariamente por mulheres (34,5%), versus 14% dos homens

Os mecanismos de adaptação mais referenciados pelos pais foram “paciência”; “força de vontade”; “bom senso” e “racionalidade”, com quase metade das mulheres a referirem utilizar mecanismos de adaptação.

Maior percentagem de mulheres do que de homens que se consciencializaram e responsabilizaram para o processo de parentalidade.

Foram referenciadas alterações conjugais, maioritariamente no género feminino (69%), situadas no grupo etário dos 31-35 anos.

As mulheres na faixa etária dos 25 – 30 anos apresentam maior capacidade de reestruturação da relação conjugal e da relação com familiares e amigos, do que os homens,

Mais de um terço dos participantes valorizam a importância da intervenção da enfermagem na preparação para o parto e pós-parto.

A preparação a nível de conhecimento e habilidades demonstrou ser uma maisvalia para conhecer a perspetiva dos pais sobre como a parentalidade é vivenciada, desenvolvendo intervenções congruentes, facilitando a adaptação aos novos papéis.

No contexto atual de saúde, os enfermeiros desempenham um papel fundamental de suporte no processo de transição para a parentalidade. Considera-se pertinente identificar os focos específicos de atenção de enfermagem a ter presente durante todo este processo, de forma a promover a educação para a saúde durante a consulta prénatal e durante os cursos de preparação para o parto e para a parentalidade. As intervenções terapêuticas de enfermagem podem ser entendidas como uma ação interventiva continuada ao longo do processo de transição e antecedida pela compreensão do mesmo, oferecendo conhecimento e empoderamento àqueles que vivem este processo, promovendo respostas saudáveis.

Referências Bibliográficas Aboim, S. & Wall, K. (2010). Tipos de Família em Portugal: interações, valores, contextos. Análise Social, 37 (163), 472-506. Cruz H. & Pinho I. (2006). Pais uma experiencia. Porto: Papiro Editora. Fères, C. & Dinis, N. O. (2010). Construção e dissolução da conjugalidade: padrões relacionais. Paidéa, 20 (46), 269-278.

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Gyslany Leal Darc1 | Ingrid Ksênia Ferreira Liah2 | Laura Matias Cruz Gomes3 | Juliana Burgo Godoi Alves4 | Xisto Sena Passos5 |Vanessa Bueno De M. Santos6

Aluna do curso de Graduação de Enfermagem Universidade Federal de Goiás- Regional Jataí-GO, Brasil. Email: gisa_201095@hotmail.com 2 Aluna do curso de Graduação de Enfermagem da Universidade Paulista – UNIP. Goiás, Brasil. 3 Aluna do curso de Graduação de Enfermagem Universidade Federal de Goiás- Regional Jataí-GO, Brasil. Email: lauramatiasgomes@hotmail.com 4 Professora da Universidade Federal de Goiás- Regional Jataí-GO,Brasil. Email:burgogodoi@gmail.com 5 Professor Doutor da Universidade Paulista – UNIP.Goiás, Brasil. Email: xisto.s@hotmail.coml.br 6 Professora e coordenadora do Curso de Enfermagem da Universidade Paulista – UNIP,Goiás, Brasil. Email: vanessabuenoms@gmail.com 1

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Resumo Introdução: O autismo em crianças de acordo com o (DSMI-IV) – Manual Diagnóstico e

Estatístico

de

Desenvolvimento,

Transtornos podendo

Mentais

ter

origem

e

(TID)

hereditária

Transtorno ou

herança

Invasivo

do

afetiva

de

comportamento advindo no período gestacional. Cabe-se também dizer que o autismo pode ter origem em anomalias encontradas no cérebro adquiridas por informação genética ou por riscos gestacionais deletérios ao desenvolvimento cognitivo do feto, tanto no período pré-natal como pós-natal. Objetivo: Objetivou-se com o presente estudo analisar as evidências disponíveis na literatura sobre o autismo enquanto patologia relacionada à pacientes infantis diante de discussões científicas. Assim, determinam-se as ações que competem ao enfermeiro no cuidado com crianças com diagnóstico de autismo. Metodologia: Trata-se de uma revisão bibliográfica sistematizada que agregou treze artigos

selecionados

através

das

leituras

exploratória,

seletiva,

analítica

e

interpretativa, oriundos das bases de dados LILACS e SCIELO. Resultado: A análise permitiu congregar o que os autores levantaram sobre o autismo enquanto patologia, a consequência do diagnóstico tardio em crianças autistas, as consequências que o autismo traz para seu equilíbrio psicoemocional e o conhecimento de como os pais lidam com filhos autistas em seu cotidiano. Conclusão: Concluiu-se que o acesso a alternativas que possam vislumbrar o tratamento do paciente autista é dificultado em razão das condições financeiras das famílias e dos seus cuidadores, que na maioria das para disponibilizarem atenção e tempo aos pacientes, proporcionando a eles uma melhor qualidade de vida e bem estar. Palavras-Chave: Autismo, Terapêutica, Infância, Família.

Resumen Introducción: El autismo en niños de acuerdo con la (DSMI-IV) - Manual diagnóstico y estadístico de los trastornos mentales y (TID) - Trastorno Generalizado del Desarrollo, puede ser un comportamiento herencia hereditaria o afectiva que surgen durante el embarazo. También dicen que el autismo puede ser causado por anormalidades encontradas en el cerebro adquirida por información genética o de embarazo deletéreo riesgos para el desarrollo cognitivo del feto tanto en el prenatal y postnatal. Objetivo: El objetivo de este estudio es analizar la evidencia disponible en la literatura sobre el autismo como un trastorno relacionado con pacientes pediátricos Viana do Castelo, Novembro de 2016


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VII Congresso Internacional ASPESM antes de las discusiones científicas. Por lo tanto, para determinar las acciones que la responsabilidad de la enfermera en el cuidado de los niños diagnosticados con autismo. Metodología: Se trata de una revisión sistemática que se sumó trece artículos seleccionados a través de la lectura exploratoria, selectiva, analítica e interpretativa, procedentes de las bases de datos LILACS y SciELO. Resultados: El análisis permitió reunir lo que los autores plantearon sobre el autismo como una enfermedad, el resultado de un diagnóstico tardío en los niños autistas, las consecuencias de que el autismo trae a su equilibrio psico-emocional y el conocimiento de cómo los padres se ocupan de los niños autistas en su vida diaria . Conclusión: Se concluye que el acceso a alternativas de vislumbrar el tratamiento de los pacientes autistas es difícil debido a las condiciones financieras de las familias y sus cuidadores, que en la mayoría de los casos, si abnegam-de sus sueños, deseos y necesidades, a incluso su autocuidado, para hacer que el tiempo y la atención a los pacientes, dándoles una mejor calidad de vida y el bienestar.

Descriptores: Autismo, Terapia, La infancia, La familia

Abstract This article expounded upon issue of autism in children according to Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders DSMI - IV as PDD - Pervasive Developmental Disorder, which may be hereditary or affective inheritance of behavior arising during pregnancy. It should also be said that autism may be caused by abnormalities found in the brain acquired by genetic information or deleterious to the cognitive development of the fetus, both in the pre Christmas period as postnatal gestational risks. The objectives of this study is to autism pathology as related to infant patients before scientific discussions, and in the background get up there to identify the role of the nurse in the care of children diagnosed with autism; analyze what is the consequence of late diagnosis of autism in children as well as knowing how parents deal with autistic children in their daily lives and the impact that autism brings your balance psycho-emotional. A problem studied is guided by the following question: What importance of early diagnosis of autism in children? What is the role of the nurse through the treatment of infantile autism? The study is descriptive, literature, deductive, presenting information and data in the form of a scientific report. It was concluded that access to alternatives that might glimpse the treatment of autistic

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VII Congresso Internacional ASPESM patients is difficult because of the financial conditions of the families and their caregivers , which in most cases, abnegam up your dreams , desires and needs , even your self care, attention and time to dispense to patients , giving them a better quality of life and well being. Keywords: Autism, Therapeutic, Childhood, Family.

Introdução O autismo é classificado internacionalmente conforme a Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV) Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais como um (TID) Transtorno Invasivo do Desenvolvimento, e seus pacientes apresentam “anormalidades qualitativas nas interações sociais recíprocas e em padrões de comunicação e apresentam um repertório de interesses e atividades restritas, estereotipado e repetitivo”(1). O autismo é considerado como uma patologia que pode vir a provocar sérias consequências aos pacientes diagnosticados, principalmente em crianças, uma vez que possui uma característica de instalar efeitos irreversíveis ao paciente durante o seu desenvolvimento psíquico, emocional. Tais efeitos refletem prejuízos ao paciente no sentido de manter qualidade de vida e aos relacionamentos sociais, familiares e até de lazer, pois o reducionismo de ambiente confortável é claro e evidenciado

(1)

.

O autismo é uma disfunção cerebral orgânica advinda da percepção da existência de retardo mental e convulsões, com prevalência em pacientes do sexo masculino, esse retardo mental está associado ao autismo em 70% dos casos (QI menor que 70) e convulsões em 33% dos casos. Contudo, a predisposição genética, ou seja, a ocorrência entre irmãos é potencializada em comparação com a população em geral, podendo atingir uma possibilidade de incidência de até 75 vezes(2). Entende que a falta de uso e desenvolvimento do senso psíquico do paciente infantil pode promover lesões irreversíveis. O diagnóstico precoce do autismo pode ser realizado através de “elementos clínicos que fazem parte de um conjunto metapsicológico coerente, relacionado com as condições de constituição de todo sujeito humanos”(3). Os pais possuem um papel muito importante no que se refere à percepção da presença de sinais autistas em suas crianças, principalmente a mãe que lida o maior tempo com

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VII Congresso Internacional ASPESM os cuidados essenciais, emocionais e educacionais do paciente. Essa percepção quando precoce vem minimizar significativamente o surgimento ou evolução de efeitos negativos imediatos ou ao longo do ciclo vital(4). Este estudo se justifica pela necessidade de se conhecer melhor a questão do autismo como uma patologia que possa ser minimizada ainda no período da infância, o que vem a enunciar o tema proposto como universo de pesquisa os pacientes infantis. Assim sendo, o papel do enfermeiro é importantíssimo, pois, na maioria das vezes, o entendimento de que possa haver sinais da patologia na criança se perfaz através da percepção de retardo mental e dependência total para vivenciar dia após dia o seu cotidiano. O objetivo deste estudo é conhecer o autismo enquanto patologia relacionada à pacientes infantis diante de discussões científicas, sendo que em segundo plano buscar identificar qual o papel do enfermeiro no cuidado com crianças com diagnóstico de autismo; analisar qual a consequência do diagnóstico tardio do autismo em crianças, bem como conhecer como os pais lidam com filhos autistas em seu cotidiano e as consequências que o autismo traz para seu equilíbrio psico-emocional.

Metodologia Trata-se de uma revisão bibliográfica sistematizada. É o processo de coletar, conhecer, compreender, analisar, sintetizar e avaliar um conjunto de artigo científico com o propósito de criar um embasamento teórico científico (estado da arte) sobre um determinado tópico ou assunto pesquisado. Após definir o tema foi realizada uma busca nas bases de dados Biblioteca Virtual da Saúde. Foram utilizados os descritores: autismo, terapêutica, infância, família. O seguinte passo foi uma leitura exploratória das publicações apresentadas na análise da discussão de resultados de cada artigo científico será relatado o que a literatura científica tem de concreto sobre as percepções do autismo enquanto patologia, seus prejuízos aos seus pacientes e o posicionamento da família e do enfermeiro enquanto cuidadores. Realizada a leitura e seleção do material, identificou-se 27 artigos referentes ao tema central da pesquisa. Após a leitura inicial foram excluídos 14, sendo utilizados 13 artigos.

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VII Congresso Internacional ASPESM A análise das informações coletadas foi realizada de acordo com a fundamentação científica a ser apresentada no referencial teórico e sob a crítica do pesquisador enquanto cuidador de pacientes diagnosticados como autista em sua infância.

Resultados A leitura e análise dos artigos deram origem a duas categorias: 1) Comportamento da criança com transtorno 2) a família e equipe de enfermagem: o relacionamento com o autista. Comportamento das crianças com transtorno autista

De acordo com Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV) Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, a criança para ser diagnosticada como portadora do autismo obrigatoriamente deverá possuir no mínimo seis transtornos existentes na tabela abaixo, inclusive dentre estes, duas anomalias devem ser classificadas como dificuldades reais na interação social e um em forma de comunicação e outro diante das imperícias do comportamento, o qual pode ser interpretado como restrito repetitivo ou estereotipado. Lista de sintomas do transtorno autista Comprometimento qualitativo da interação social: a) Comprometimento acentuado no uso de múltiplos comportamentos não verbais, tais como contato visual direto, expressão facial, posturas corporais e gestos para regular a interação social; b) Fracasso em desenvolver relacionamentos com seus pares apropriados ao nível de desenvolvimento; c) Ausência de reciprocidade social ou emocional; Comprometimento qualitativo da comunicação a) Atraso ou ausência total de desenvolvimento da linguagem falada (não acompanhado por uma tentativa de compensar por meio de modos alternativos de comunicação, tais como gestos ou mímica); b) Em indivíduos com fala adequada, acentuado comprometimento da capacidade de iniciar ou manter uma conversa; c) Uso estereotipado e repetitivo da linguagem ou linguagem idiossincrática; Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesse e atividades a) Preocupação insistente com um ou mais padrões estereotipados e restritos de interesse, anormais em intensidade ou foco; b) Adesão aparentemente inflexível a rotinas ou rituais específicos e não funcionais; c) Maneirismos motores estereotipados e repetitivos (agitar ou torcer mãos e dedos ou movimentos complexos de todo o corpo)

Fonte: Silva e Mulick, 2009, p.119.

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VII Congresso Internacional ASPESM A origem do autismo é questionada a partir do pensamento que pode desenvolver em razão da existência de algum tipo de anormalidade ocorrida no cérebro que ainda não foi cientificamente definida e identificada, sendo, portanto, cogitada a possibilidade de ser de ordem genética(5). O diagnóstico do autismo deve ser realizado por um profissional que tenha capacidade e habilidade clínica para este fim, uma vez que exames laboratoriais não acusam a existência da patologia, embora o profissional da saúde possa solicitar alguns exames com o intuito de identificar a pré-existência de doenças recorrentes a um paciente autista como a Síndrome do X-frágil é responsável geneticamente pelo déficit cognitivo, ligada ao cromossoma X, fazendo com que a criança autista venha a ter contato visual deficitário e insatisfatório com o seu interlocutor, executando movimentos estereotipados, com comunicação falada acelerada, irritada e ecolalia, fenilcetomínia ou esclerose tuberosa(6).. O déficit de comunicação com o portador de autismo se dá por um relacionamento com uso exagerado de detalhes como verificação de datas, idade, endereço, números postais e de telefone, inserção de assuntos específicos com perseverança, mudança de assunto sem introdução a outros objetivos e falta de capacidade de construir relacionamentos positivos mediante problemas durante o diálogo(8). A família e a equipe de enfermagem: o relacionamento com o autista De acordo com Fávero e Nunes a avaliação do portador de autismo faz-se necessário que haja muita compreensão, parcialidade, aceitação e ajuda mútua da família como um todo, pois é importante que haja modificações significantes no desenrolar e vivência do cotidiano tanto do paciente quanto da família, visando assim, a maximização do bem estar dos relacionamentos familiares e sociais(4). No que se refere ao ritmo de vida dos cuidadores de pacientes autistas, vários estudiosos afirmam que para que possam ser ideais e parciais ao mundo reservado autista, faz-se necessário que desistam de suas atividades profissionais, que não sejam compatíveis com a prática da enfermagem e afazeres domésticos, o que vem a trazer à tona, outro aspecto de importância a ser considerada: a maioria das cuidadoras dos filhos autistas não se disponibiliza de tempo e espaço para o seu autocuidado. Esse é um dos motivos em que se possa afirmar que a maioria dos

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VII Congresso Internacional ASPESM cuidadores de autistas, em algum momento de sua trajetória assistencial, tenha sofrido quadros de depressão e angústia, até mesmo stress(9). Em alguns casos, as cuidadoras tendem a afastarem de seus projetos de vida, como sonhos profissionais, desejos de consumo, ou mensuração de suas necessidades conforme o comportamento humano denota-se para o alcance da realização pessoal, profissional, social e familiar(4).

Discussão O autismo é entendido pela linha de pensamento médica como sendo resultado de uma anomalia genética que podem ser apreendidas ainda no processo gestacional, quando há a verificação de ocorrências consideradas riscos como infecções virais através de rubéola ou citomegalovírus ou privação de oxigênio durante o parto. Ademais, fatores que ocorrem no período neonatal e pré-natal podem fazer com que o cérebro entre em sofrimento de alguma forma, o que vem a possibilitar a prevalência do autismo(1). Segundo Klin(12) e Fávero e Santos(1) os pacientes autistas apresentam um repertórios de interesses e atividades restritas esteriotipadas e repetitivas. Para Laznik, Vizani e Rabelo(3) o autismo não diagnosticado precocemente e não desenvolvido o tratamento psíquico podem causar lesões irreversíveis. Montagner, Santiago e Souza(9) e Klin(12) concordam que os critérios para o diagnostico do

autismo

requer

critérios

comportamentais

e

estabelece

critérios

como:

comprometimento qualitativo da interação social, comprometimento qualitativo da comunicação, padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesse e atividades. Sociodemograficamente, o que vem a interferir negativamente no manejo e tratamento de pacientes portadores de autismo é a baixa renda da família que age como aspecto limitador de todas as oportunidades e alternativas que encaminhem o paciente ao acesso de assistência médica, comportamental, bem como ao alívio do stress através da prática de lazer e recreação, o que de certa forma, proporcionará uma melhoria na qualidade de vida e seu bem estar. Além do mais, o acesso à

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VII Congresso Internacional ASPESM assistência multiprofissional e ao lazer e entretenimento amplia o campo de visão ambiental e de si próprio, fazendo com que o autista se inclua ao meio com naturalidade e percepção do seu real papel e importância dentro do seu dia a dia e ambiente social em que vive. Em contra partida, o que se pôde verificar com o estudo realizado, é que as cuidadoras de paciente autistas chegam ao extremo de abrir mão de atividades revertidas ao seu próprio bem estar como o seu auto-cuidado, bem como abrem mão de realizar sonhos profissionais ou de consumo, abandonando-se a si mesmas, ou melhor, eliminando-se a favor do autista.

Conclusão Após realizar a análise dos periódicos colhidos acerca do assunto proposto, pode-se constatar que os objetivos foram alcançados. O autismo no entendimento médico pode ser proveniente de informações genéticas ou de dificuldades existentes durante o parto e pós-parto de acordo com a formação do sistema psiconeural-comportamental, sendo que a cura não é possível, sendo necessário o apoio dos familiares para que a patologia seja controlada e deixada no passado do paciente. Esse deixar no passado é trazer novas prioridades a vida do autista, construindo novos conhecimentos, novas convivências, descobertas, emancipando medos e fantasmas existentes no ambiente domiciliar, social e urbano que possam incomodar os sentidos e percepções do paciente, de forma que venha ocorrer maior retração e descontrole durante as pequenas ações cotidianas. Sabe-se que o autista tem uma grande sensibilidade aos ruídos do dia a dia, e dificuldades em conviver com pessoas e comunicar-se com elas, vivenciando somente um mundo fechado em torno de si, contudo, não se pode afirmar e constatar que o autista se exclui do ambiente ao ponto de não entender, compreender e formar sua própria opinião sobre os acontecimentos ocorridos a sua volta, mesmo que sejam positivos ou negativos, referentes ao paciente ou não. O autista não perde o dinamismo da compreensão, apenas não consegue transpor o seu mundo psicossomático.

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Por essa razão, é necessário que a família tenha uma condição sócio-economica financeira mais estável para que se possa facilitar a busca dos instrumentos de saúde que venham beneficiar a modificação de pensamento e atitudes em volta do paciente autista. Esse um fato serio, pois conforme empreendido nesta pesquisa, o nível da renda familiar denota-se a uma inferiorização da qualidade de vida do portador de autismo, uma vez que as oportunidades de acesso a sistema de assistência fica interrompido em razão da falta de provimento financeiro que venham viabilizar o pagamento de uma pessoa responsável a cuidar do paciente ou de encaminhá-lo adequadamente aos locais específicos para a busca de ajuda especializada à sua inclusão em seu ambiente familiar. Em contra partida, é importante salientar que quando o cuidador do autista é membro da família, faz se necessário que haja uma rotatividade para este cuidado, pois geralmente, ocorrem quadros de depressão, angústia e desalento por parte do cuidador, em função da necessidade de se disponibilizar 24 horas contínuas ao paciente, facilitando suas atividades diárias e o fazendo compreender situações conflituosas de convivência, e até mesmo de administração da terapia medicamentosa. .

Implicações para a Prática Clínica As implicações na prática clínica do tema abordado nesse estudo, é de extrema relevância no âmbito de assitência oferecida pela enfermagem, pois é escasso esse assunto. O autismo ainda é pouco abordado dificultando o tramento do portador do autismo, assim como dificulta as orientações prestadas a família. A redução do estigma que é direcionado ao autista só pode ser vencida a partir do momento que se utiliza a visão clinica para identificar sinais da patologia na criança e identificar as dificuldades da familia para cuidar de crianças autistas, e a partir desse principio oferecer o melhor tratamento.

Referências Bibliográficas Fàvero MÂB, Santos MA dos. Autismo Infantil e Estresse Familiar : Uma Revisão

Sistemática

da

Literatura.

Psicol

2005;18(3):358–69.

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REflexão

e

Crit.


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VII Congresso Internacional ASPESM Menegoli

EB,

Mendonça

I,

Giunco

CT.

Capacitação

de

agentes

comunitários de Saúde sobre o espectro autista. Cuid

Enferm.

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Monteiro CFDS, Batista DONDM, Moraes EGDC, Magalhães TDS, Nunes BMVT, Moura M

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Luís Sousa1 | Cristina Marques-Vieira2 | Sandy Severino3 | José Carlos Gomes4 | Helena Maria Guerreiro José5

Mestre; Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Reabilitação; Enfermeiro no Centro Hospitalar Lisboa Central, Lisboa e Professor adjunto na Universidade Atlântica, Fábrica da Pólvora de Barcarena, 2730-036 Barcarena, Oeira, Portugal. E-mail: luismmsousa@gmail.com ou lmsousa@uatlantica.pt 2 Mestre; Enfermeira Especialista em Enfermagem de Reabilitação; Professora na Universidade Católica Portuguesa, Escola de Enfermagem de Lisboa, Portugal. Email: cristina_marques@ics.lisboa.ucp.pt 3 Mestre; Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Reabilitação; Enfermeira no Centro Hospitalar Lisboa Central, Lisboa. E-mail: sandyseverino@gmail.com 4 Doutor em Saúde Publica. Especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria. Professor Coordenador na Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Leiria. Portugal. E-mail: jcrgomes@ipleiria.pt 5 Doutor em Enfermagem. Especialista em Enfermagem Médico-cirúrgica. Instituto Superior Politécnico de Saúde Multiperfil. Luanda, Angola. E-mail: helena.jose@multiperfil.co.ao 1

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Resumo Contexto: a escala positive and negative affect schedule (panas) foi desenvolvida por watson, clark e tellegen em 1988. Posteriormente foi adaptada e traduzida para a população portuguesa por galinha e ribeiro em 2005, sendo constituída por duas subescalas: afeto positivo e afeto negativo. Objetivo: confirmar a estrutura da panasem pessoas com doença renal crónica em programa de hemodiálise. Método: estudo metodológico. Foi selecionada uma amostra aleatória de 159 pessoas com doença renal cónica, em programa de hemodiálise, em duas clínicas na região de lisboa e num serviço de nefrologia de um centro hospitalar de lisboa, portugal. A colheita de dados foi realizada entre março e junho de 2015. Foi feita análise fatorial confirmatória com recurso ao software amos. Os parâmetros utilizados foram: rácio entre o qui quadrado e os graus de liberdade (χ2/g.l), goodness-of-fit index (gfi), comparative fit index (cfi), tucker-lewis index (tli) e root mean square error of approximation (rmsea). Resultados: para dois fatores apresentam os seguintes resultados: χ2/g.l=2,105, gfi=0,82, cfi=0,85, tli=0,81, rmsea=0,08, χ2/g.l e rmsea indicam um bom ajustamento. Os índices gfi, cfi e tli encontravam-se entre 0,81 e 0,85, apontando para um ajustamento sofrível para a hipótese de dois fatores. Na polaridade afetiva geral o modelo apresentou os seguintes resultados χ2/g.l=1,857, gfi=0,84, cfi=0,90, tli=0,85, rmsea=0,07, com melhoria dos índices de ajustamento gfi, gfi e tli. Conclusões: a versão portuguesa da escala panas em pessoas com doença renal crónica é válida para medir o afeto positivo e negativo, mas também a polaridade afetiva enquanto estado ou disposição. Palavras-chave: emoções; insuficiência renal crónica; estudos de validação; enfermagem.

Resumen Contexto:.la escala positive and negative affect schedule fue desarrollado por watson, clark y tellegen en 1988 y más tarde fue adaptado y traducido para la población portuguesa de galinha y ribeiro en 2005, y consta de dos subescalas: afecto positivo y afecto negativo Objetivo: confirmar la estructura de la positive and negative affect schedule en las personas con enfermedad renal crónica en hemodiálisis. Viana do Castelo, Novembro de 2016


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VII Congresso Internacional ASPESM Método: estudio metodológico. Se seleccionó una muestra aleatoria de 159 personas con enfermedad renal crónica sometidos a hemodiálisis en dos clínicas en la ciudad de lisboa y en el servicio de nefrología de un hospital también en lisboa, portugal. La recolección de datos se realizó entre marzo y junio de 2015. Se llevó a cabo un análisis factorial confirmatorio mediante el software amos. Los parámetros utilizados fueron: relación de la chi-cuadrado y los grados de libertad (χ2 / gl) goodness-of-fit index (gfi), comparative fit index (cfi), tucker-lewis index (tli) y lo root mean square error of approximation (rmsea). Resultados: la solución para dos factores presenta los siguientes resultados: χ2 / g.l = 2.105, gfi = 0,82, cfi = 0,85, tli = 0,81, rmsea = 0,08; χ2 / g.l y rmsea lo que indican un buen ajuste para el caso de dos factor de solución, sin embargo, los índices de gfi, cfi y tli fueron de entre 0,81 y 0,85, que apunta a un mal ajuste. En general, la polaridad afectiva, el modelo mostró los siguientes resultados χ2 / df = 1,857, gfi = 0,84, cfi = 0,90, tli = 0,85, rmsea = 0,07, con índices de ajuste mejorado gfi, gfi y tli. Conclusiones: la versión en portugués de la escala positive and negative affect schedule en las personas con enfermedad renal crónica es válida para medir el afecto positivo y negativo, así como la polaridad afectiva en cuanto estado o disposición. Palabras clave: emociones; insuficiencia renal crónica; estudios de validación; enfermería.

Abstract Background: positive and negative affect schedule scale was developed by watson, clark and tellegen in 1988 and was later adapted and translated for the portuguese population by galinha and ribeiro in 2005, and consists of two subscales: positive affect and negative affect. Aim: to confirm the structure of the positive and negative affect schedule scale scale in people with chronic kidney disease on hemodialysis. Method: Methodological study. A random sample of 159 people with chronic renal disease undergoing hemodialysis in two clinics in the region of Lisbon and nephrology service of a hospital in Lisbon, Portugal was selected. The data collection was done between March and June 2015. A confirmatory factor analysis using the AMOS software. The parameters used were: ratio of the chi-square and the degrees of freedom (Χ2 / gl), goodness-of-fit index (GFI), comparative fit index (CFI), TuckerLewis index (TLI) and root mean square error of approximation (RMSEA). Results: the solution to two factors gives the following results: χ2 / g.l = 2.105, gfi = 0.82, cfi = .85, tli = 0.81, rmsea = 0.08; χ2 / g.l and rmsea indicate a good fit to the

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VII Congresso Internacional ASPESM case of two factor solution, however, the indexes gfi, cfi and tli were between 0.81 and 0.85, pointing to a poor adjustment. The general affective polarity model showed the following results χ2 / df = 1,857, gfi = 0.84, cfi = .90, tli = 0.85, rmsea = 0.07, with improved adjustment indexes gfi, gfi and tli. Conclusions: the portuguese version of positive and negative affect schedule scale scale in people with chronic kidney disease is valid to measure the positive and negative affect, but also affective polarity as a state or disposition. Keywords: Emotions; Chronic Renal Insufficiency; Validation studies; Nursing.

Introdução A doença renal crónica (DRC) é definida como uma condição progressiva e irreversível, caracterizada pela diminuição da função renal (Roso, Beuter, Kruse, Girardon-Perlini, Jacobi, & Cordeiro, 2013; Santos, Oliveira, Nunes, Barbosa & Gouveia, 2015). O tratamento é estabelecido em função da evolução da doença e, neste sentido, pode ser conservador, sendo realizado através de medicamentos, dietas, restrição hídrica, ou por terapias de substituição renal, em que se recorre à hemodiálise, diálise peritoneal ou transplante renal (Roso et al., 2013). Esta doença deteriora a função renal da pessoa e provoca mudanças ao nível físico, psicológico e social (Knihs, Sartori, Zink, Roza, & Schirmer, 2013; Ramos, Cavalcante, Braga, Aguiar & Cavalcante, 2015). As alterações que ocorrem na pessoa com DRC são inúmeras, nomeadamente, a perda das funções fisiológicas e bioquímicas; alterações digestivas e neurológicas; doenças ósseas; anemia; incapacidade para manter a realização de atividades e funções na família; perda de competência física, cognitiva e sexual; e ainda, a dependência de cuidados de saúde e monitor de hemodiálise, o que pode favorecer a privação social (Grasselli, Chaves, Simão, Borges & Botelho, 2012). A hemodiálise é o tratamento mais frequentemente usado (Costa & Coutinho, 2016), que permite prolongar a vida, contudo, apresenta alguns efeitos negativos, nomeadamente, dificuldade na realização de atividades de vida diária, alteração do bem-estar, interferência na ocupação profissional e diminuição da qualidade de vida (Grasselli et al., 2012; Guerra-Guerrero, Sanhueza-Alvarado & Cáceres-Espina, 2012). O afeto é uma dimensão importante na vida das pessoas em situação de doença, relacionado com a saúde, o bem-estar e a qualidade de vida, pelo que é fundamental promovê-lo positivamente de modo a garantir o bem-estar (Galinha & Ribeiro, 2005) nas pessoas com DRC. Viana do Castelo, Novembro de 2016


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VII Congresso Internacional ASPESM A escala Positive and Negative Affect Schedule (PANAS) (Watson, Clark & Tellegen, 1988) foi adaptada e traduzida para a população portuguesa (Galinha & Ribeiro, 2005) é constituída por duas subescalas, a afeto positivo (AP) e a afeto negativo (AN). A versão portuguesa do PANAS revelou 2 fatores, tal como a escala original, com o valor do α de Cronbach de 0,86 para o afeto positivo (α=0,88 na original) e de 0,89 para o afeto negativo (α=0,87 na original) (Galinha & Ribeiro, 2005). A análise fatorial confirmatória (AFC) reforçou a existência de dois fatores (Galinha, Pereira & Esteves, 2014). Em estudo de validação para outras culturas, designadamente, França e Paquistão (Karim, Weisz & Rehman, 2011) e Hungria (Gyollai, Simor, Köteles & Demetrovics,

2011) também se verificou uma estrutura bidimensional nesta escala. Pretende-se com este estudo confirmar a estrutura da escala PANAS em pessoas com DRC em programa de hemodiálise.

Metodologia Trata-se de um estudo metodológico (Lima, 2011), realizado entre março e junho de 2015, num serviço de Nefrologia de um Centro Hospitalar e em duas unidades de diálise da Clínica Diaverum, ambas na região de Lisboa, Portugal. A população do estudo foi constituída por pessoas com DRC em programa de hemodiálise. Os critérios de inclusão definidos para este estudo foram: pessoas com DRC, sujeitas a tratamento hemodialítico há pelo menos seis meses, com idade igual ou superior a 18 anos. Os critérios de exclusão foram: pessoas com défice cognitivo e doença psiquiátrica ativa. A informação sobre os critérios de exclusão foi obtida através do processo clínico e foi validada com o médico assistente de cada pessoa. Foi realizada uma seleção aleatória da amostra. Para a colheita de dados foram utilizados os seguintes instrumentos: versão portuguesa da PANAS (Galinha & Ribeiro, 2005), e um instrumento para obter o perfil da

amostra

tanto

ao

nível

sociodemográfico

como

clínico

(idade,

género,

nacionalidade, escolaridade, atividade profissional, estado civil, tempo de diálise, com o diagnóstico médico de hipertensão arterial e de diabetes). A escala PANAS (Watson, Clark & Tellegen, 1988) foi adaptada e traduzida para a população portuguesa (Galinha & Ribeiro, 2005) e é constituída por duas subescalas: AP e AN, com 10 itens cada, em que os construtos são avaliados numa escala tipo Likert de 1 a 5. Pediu-se aos respondentes que indicassem em que medida sentiam,

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VII Congresso Internacional ASPESM nesse preciso momento, cada uma das emoções (para cada um dos 20 itens) presentes na escala. A dimensão AP está mais presente quanto maior for a pontuação, pontuação essa num máximo de 50 pontos. O mesmo para a dimensão AN. O estudo da versão portuguesa do PANAS revelou, tal como a escala original, a existência de dois fatores: afeto positivo e afeto negativo. Realizou-se uma análise fatorial confirmatória (AFC) com recurso ao software AMOS, numa amostra aleatória de pessoas com DRC em programa de hemodiálise. Utilizouse o método robusto de estimação em máxima verosimilhança (Marôco, 2014). Os índices de ajustamento utilizados para verificar o ajustamento do modelo foram: rácio entre o Qui quadrado e os graus de liberdade (Χ2/g.l); goodness-of-fit index (GFI), root mean square error of approximation (RMSEA); comparative fit index (CFI) e Tucker-Lewis index (TLI) (Marôco, 2014; Sousa, Marques-Vieira, Carvalho, Veludo & José, 2015). Para a realização deste estudo foi concedida autorização pelos autores das versões portuguesas da PANAS (Galinha & Ribeiro, 2005) e obtida aprovação da Comissão de Ética da Diaverum (nº1/2015) e da Comissão de Ética do Centro Hospitalar Lisboa Central (175/2015). Todos os participantes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido após terem sido informados sobre a garantia de sigilo dos seus dados e do direito de desistência sem que daí adviesse qualquer prejuízo.

Resultados A amostra era constituída por 159 pessoas que cumpriam os critérios de inclusão. O perfil sociodemográfico e de saúde é apresentado na tabela 1.

Tabela 1: Características das pessoas com DRC avaliadas nas duas clínicas. Amostra

Frequência

Percentagem %

62 97

39,0 61,0

12 80 67

7,5 50,3 42,2

127 31

80,4 19,6

3 62 32

1,9 39,7 20,5

Sexo Feminino Masculino Local de colheita de dados Hospital Clínica 1 Clínica 2 Nacionalidade Portuguesa Outra Escolaridade Analfabeto 4º Ano do Ensino Básico 6º Ano de Escolaridade

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VII Congresso Internacional ASPESM 9º Ano do Ensino Secundário 12º Ano do Ensino Secundário Licenciatura Mestrado e Doutoramento

23 21 13 2

14.7 13,5 8,3 1,3

115 36

76,2 23,8

44 87 16 11

27,8 55,1 10,1 7,0

61 96

38,9 61,1

118 40

74,7 25,3

Atividade profissional Reformado Ativo Estado civil Solteiro(a) Casado(a) Viúvo(a) Divorciado/separado Hipertensão arterial Não Sim Diabetes mellitus Não Sim

A média de idade nesta amostra foi de 58,5 anos (±15). A maioria das pessoas da amostra eram do sexo masculino (61%), de nacionalidade portuguesa (80,4%), com 4 anos de escolaridade (39,7%), reformados (76,2%) e casados (55,1%). Relativamente aos dados de dados de saúde, os sujeitos da amostra faziam hemodiálise há 72,17 meses (±55,6), 61,1% apresentavam hipertensão arterial e 25,3% diabetes mellitus.

Análise fatorial confirmatória Numa amostra de 159 pessoas obteve-se uma AFC neste estudo, para a solução de dois fatores, foram: Χ2/g.l=2,105, GFI=0,82, CFI=0,85, TLI=0,81, RMSEA=0,08; Χ2/g.l e RMSEA indicando um bom ajustamento para a hipótese da solução de dois fatores, no entanto os índices GFI, CFI e TLI encontravam-se entre 0,81 e 0,85, apontando para um ajustamento sofrível. Na polaridade afetiva geral o modelo (figura 1) apresentou os resultados de Χ2/g.l=1,857, GFI=0,84, CFI=0,90, TLI=0,85, RMSEA=0,07, o que apresenta uma melhoria dos índices de ajustamento GFI, GFI e TLI.

Figura 1 - Modelo bidimensional da PANAS em pessoas com DRC.

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Discussão Os resultados da AFC para esta escala demonstraram ter um bom ajustamento (Marôco, 2014) para a hipótese da solução de dois fatores, mas com polaridade afetiva geral. Neste estudo, obteve-se confirmação da solução de dois fatores proposta na versão original (Watson, Clark & Tellegen, 1988) e verificada na versão portuguesa (Galinha, Pereira & Esteves, 2014) e noutras culturas (Gyollai et al., 2011; Karim, Weisz & Rehman, 2011). Contudo, os resultados assemelham-se aos encontrados por Leue e Beauducel (2011), onde encontraram a polaridade afetiva. Esta dimensão introduzida apresenta uma variância adicional que vai além do AP e do AN. Os adjetivos (itens) apresentam cargas relevantes sobre a polaridade afetiva, ou seja, este fator geral representa uma orientação individual, ou de retirada, que pode ser um estado, ou uma caraterística de disposição (Leue & Beauducel, 2011). Este estudo apresenta limitações das quais se destacam a falta de financiamento, o tamanho da amostra, que desejavelmente deveria ser maior e a colheita de dados que foi realizada durante a sessão de hemodiálise, o que pode ter condicionado as respostas, já que há desconforto associada à sessão. A correlação negativa é mais forte quando o relato das emoções é feito em períodos de tempo mais curtos, e onde a intensidade das emoções é maior (Galinha & Ribeiro, 2005).

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VII Congresso Internacional ASPESM Recomenda-se que, em futuras investigações, a colheita de dados seja realizada antes da sessão de hemodiálise e numa amostra superior a 300 pessoas com DRC para replicar a AFC desta escala.

Conclusão A versão portuguesa da escala PANAS em pessoas com DRC é válida para medir o afeto positivo e negativo, mas também a polaridade afetiva enquanto estado ou disposição.

Implicações para a Prática Clínica Este instrumento é útil e adequado para avaliar o impacto das intervenções de enfermagem em pessoas com DRC no âmbito da saúde e bem-estar.

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VII Congresso Internacional ASPESM invariance across cultures. Procedia-Social and Behavioral Sciences, 15, 20162022. Knihs, N. D. S., Sartori, D. L., Zink, V., Roza, B. D. A., & Schirmer, J. (2013). The experience of patients who need renal transplantation while waiting for a compatible organ. Texto & Contexto-Enfermagem, 22(4), 1160-1168. Lima, D. V. M. (2011). Research design: a contribution to the author. Online Brazilian

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Isilda Maria Oliveira Carvalho Ribeiro1

Doutora em Educação; Professora Adjunta na Escola Superior de Enfermagem do Porto, tel. +351 22 5073500; Rua Dr. António Bernardino de Almeida, 4200-072 Porto, Portugal. E-mail: isilda.ribeiro@esenf.pt

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Resumo Problemática: A formação inicial em Enfermagem envolve duas componentes essenciais: teórica e prática, que se articulam e se vão complementando ao longo dos quatro anos de formação académica. A motivação e justificação, para estudar esta temática, encontram-se na necessidade de reflexão acerca do acompanhamento dos estudantes e do papel do tutor. Objetivos: 1) Refletir sobre o acompanhamento dos estudantes em contexto da prática clínica; 2) Relacionar o acompanhamento dos estudantes com o papel do tutor; 3) Refletir sobre um modelo de formação clínica. Metodologia: Optámos pelo modo de investigação um estudo de caso único (Yin, 2005), centralizando a nossa atenção no acompanhamento dos estudantes da Escola Superior de Enfermagem do Porto (ESEP), em ensino clínico. Recorremos à observação participante, diários de aprendizagem e focus group. Resultados: Esta partilha de uma relação de parceria entre: a escola e a instituição de saúde onde decorre o estágio, a teoria e a prática, o docente/tutor e estudante, são essenciais na formação e no desenvolvimento de competências pelo estudante (Ramos, 2003). Para além das questões relacionadas com o acompanhamento dos estudantes em contexto da prática clínica pelos tutores, existe ainda a questão da supervisão feita pelos docentes das escolas de Enfermagem. Apesar de desempenharem papéis diferentes, não são opostos, os seus papéis complementam-se numa relação de parceria, com vista a atingir o mesmo objetivo: o desenvolvimento profissional e humano do estudante (Alarcão & Tavares, 2003), nas diferentes áreas do saber. Conclusões:O apoio do tutor na perspetiva do docente e comungada pela opinião dos estudantes é considerado um momento privilegiado, de reflexão, comunicação, visando o desenvolvimento de competências no estudante, e deve promover neste uma atitude de confiança, empatia e responsabilidade pela qualidade do ensino (Simões & Garrido, 2007).

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VII Congresso Internacional ASPESM O apoio do docente aborda a perspetiva da dimensão relacional, pelo que a sua presença no local de estágio é uma continuidade da escola. Embora, os estudantes considerem os enfermeiros tutores como exemplo, também é de referir a alusão feita pelos tutores no sentido de que a presença do docente no local de estágio é um referencial, exercendo forte influência sobre a construção da identidade do estudante enquanto futuro profissional. Palavras-chave: Acompanhamento dos estudantes, Tutor / Docente

Resumen Problema: formación en enfermería implica dos partes esenciales: teórico y práctico, que encajan y se complementan en los cuatro años de formación académica. La motivación y justificación, para el estudio de este tema, están necesitadas de reflexión sobre el seguimiento de los estudiantes y el rol del tutor. Objetivos: 1) se reflejan en el seguimiento de los estudiantes en el contexto de la práctica clínica; 2) se refieren a la supervisión de los estudiantes con el rol del tutor; 3) reflejan en un modelo de formación clínica. Metodología: decidió por una investigación del solo estudio de caso (Yin, 2005), centrando nuestra atención en la supervisión de estudiantes de la escuela de enfermería (ESEP) de educación clínica. Recurrir a la observación participante, revistas y grupos de enfoque de aprendizaje. Resultados: Esta compartiendo una asociación entre: la escuela y la institución de salud donde el curso de formación, teoría y práctica, el profesor/tutor y alumno, son esenciales en la formación y desarrollo de habilidades del estudiante (Ramos, 2003). Además de las cuestiones relacionadas con el seguimiento de los estudiantes en el contexto de la práctica clínica por tutores, todavía hay la cuestión de la supervisión por parte de los profesores de las escuelas de enfermería. Aunque desempeñan funciones diferentes, no son opuestos, sus roles complementan entre sí en un espíritu de colaboración, con miras a lograr el mismo objetivo: el desarrollo profesional y

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VII Congresso Internacional ASPESM humano del estudiante (Alarcão & Tavares, 2003), en las diferentes áreas del conocimiento. CONCLUSIONES: el apoyo del tutor desde la perspectiva de la comungada de opinión de profesor y alumno se considera un momento privilegiado de reflexión, comunicación, teniendo como objetivo el desarrollo de habilidades del estudiante y debe promover una actitud de confianza, empatía y responsabilidad por la calidad de la enseñanza (Garrido, 2005). El apoyo de la maestra aborda la perspectiva de la dimensión relacional, por lo que su presencia en el lugar de práctica es una continuación de la escuela. Aunque los estudiantes consideran las enfermeras tutoras como ejemplo, también tenga en cuenta la alusión hecha por los tutores en el sentido de que la presencia del curso de capacitación docente in situ es un referente, ejerciendo gran influencia en la construcción de la identidad del estudiante y profesional futuro. Palabras clave: Monitoreo de los estudiantes, el Tutor/Professor

Abstract: Problem summary: initial training in nursing involves two essential parts: theoretical and practical, that fit together and they complement over the four years of academic training. The motivation and justification, to study this issue, are in need of reflection about the monitoring of students and the role of the tutor. Objectives: 1) reflect on the monitoring of students in context of clinical practice; 2) relate to the monitoring of students with the role of the tutor; 3) reflect on a model of clinical training. Methodology: we decided by a single case study research (Yin, 2005), centering our attention on monitoring of students of Nursing School (ESEP) in clinical education. Have recourse to participant observation, learning journals and focus group. Results: This sharing a partnership among: the school and the health institution where the training course, theory and practice, the teacher/tutor and student, are essential in the training and development of skills by the student (Ramos, 2003). In addition to the issues related to the monitoring of students in context of clinical practice by tutors,

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VII Congresso Internacional ASPESM there is still the issue of supervision by the teachers of the schools of nursing. Although play different roles, are not opposites, their roles complement each other in a spirit of partnership, with a view to achieving the same goal: the professional and human development of the student (Alarcão & Tavares, 2003), in the different areas of knowledge. Conclusions: the tutor support from the perspective of the teacher and student opinion comungada is considered a privileged moment of reflection, communication, aiming at the development of student skills, and must promote in an attitude of trust, empathy and responsibility for the quality of teaching (Garrido, 2005). The support of the teacher discusses the perspective of relational dimension, so its presence in the place of internship is a continuation of the school. Although, students consider the nurses tutors as example, also note the allusion made by tutors in the sense that the presence of on-site teacher training course is a benchmark, exerting strong influence on the construction of the identity of the student while professional future. Keywords: Monitoring of students, Tutor/Lecturer

Introdução: A formação inicial em Enfermagem envolve duas componentes essenciais: teórica e prática, que se articulam e se vão complementando ao longo dos quatro anos de formação académica. Enquanto a primeira aprendizagem decorre nas escolas superiores de Enfermagem, a segunda normalmente é nas instituições de saúde. Esta componente prática inclui o estágio do 4.º ano do Curso de Licenciatura em Enfermagem (CLE), que envolve estudantes e docentes das escolas superiores de Enfermagem e enfermeiros da prática clínica onde decorrem os estágios, designados por tutores. Estes enfermeiros, tutores, que desempenham o papel de orientadores pedagógicos, figura criada pelo Decreto-Lei n.º 166 de 05/08/1992, passam a supervisionar os estudantes em colaboração com os docentes responsáveis pelo estágio. No desenvolvimento deste trabalho, surge o acompanhamento dos estudantes, modelo tutorial, como um processo mediador e de suporte das aprendizagens, fundamentado no acompanhamento e orientação sistemáticos e permanentes dos estudantes (Abreu, 2003). Refletir acerca do acompanhamento dos estudantes e do papel do tutor implica abordar o conceito de supervisão.

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VII Congresso Internacional ASPESM Neste contexto Alarcão & Tavares (2007, 16) consideram que a supervisão é um “processo em que um docente, em princípio mais experiente e mais informado, orienta um outro docente ou candidato a docente no seu desenvolvimento humano e profissional”. Este conceito, embora criado para o contexto da formação de professores, pode ser generalizado e aplicado à supervisão em Enfermagem. No entender dos investigadores e partilhando a opinião da autora (Pinto, 2011, 96), a supervisão clínica “é uma estrutura e um método revestido de princípios de prática reflexiva”. Em Portugal o termo mentor é frequentemente substituído por tutor, sendo esta a designação que damos no estudo aos enfermeiros da prática clínica, que orientam, acompanham, supervisionam e avaliam os estudantes em contexto clínico, opinião partilhada por Abreu (2007). Ao tutor compete a responsabilidade de “orientação, monitorização e avaliação de estudantes em contexto clínico” (Abreu, 2007, 189), ou seja, conceito relacionado com a supervisão a nível da formação inicial dos enfermeiros: mentorship. Quando falamos de

acompanhamento

acompanhamento

dos

clínico:

estudantes mentorship,

estamos

a

uma

vez

mencionar que

a

o

processo

aprendizagem

de e

desenvolvimento pessoal e profissional do estudante é supervisionado por enfermeiros da prática clínica experientes. Tendo em conta a relação que se estabelece entre o tutor e o estudante, facilmente se compreende que diversos autores (Abreu, 2003; Alarcão & Tavares, 2003; Golhammer, Anderson & Krajewski, 1993, entre outros) considerem que o tutor é uma peça fundamental no acompanhamento dos estudantes da prática pedagógica e clínica, que atua como um fator facilitador ou dificultador do desenvolvimento profissional e humano do estudante durante o estágio. Um fator preocupante para os investigadores e mencionado por vários autores (Abreu, 2003; Alarcão & Tavares, 2003; Alarcão, 1996; Albuquerque, Graça & Januário, 2005, entre outros) é a qualidade do acompanhamento dos estudantes, considerada por muitos como fator determinante para o sucesso do processo ensino/aprendizagem em contexto da prática clínica (Caires & Almeida, 2001). Esta partilha de uma relação de parceria entre a escola e a instituição de saúde onde decorre o estágio, entre a teoria e a prática, entre docente/tutor e estudante, são essenciais na aprendizagem e no desenvolvimento de competências pelo estudante (Ramos, 2003). No entanto, o Viana do Castelo, Novembro de 2016


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VII Congresso Internacional ASPESM estudante passa grande parte do seu tempo de estágio com o tutor, pelo que é este, o principal modelo para os estudantes (Basto, 1995). Neste sentido e partilhando da opinião da autora a seleção dos tutores deve ser feita de forma criteriosa, ou seja, devem ter formação profissional e pedagógica sólida e atualizada para

em

supervisionarem

e

conjunto avaliarem

com os

os

docentes

estudantes

“de

orientarem, uma

forma

acompanharem, mais

segura,

fundamentada e sistemática, […] com uma maior disponibilidade pessoal e profissional” (Carvalhal, 2003, 178), promovendo a aprendizagem no CLE. Metodologia: Optámos pelo modo de investigação um estudo de caso único (Yin, 2005), centralizando a nossa atenção no acompanhamento dos estudantes do 4.º ano do CLE em estágio de Saúde Mental e Psiquiatria (SMP) no ano letivo 2014/2015 na ESEP e terem sido sujeitos à observação participante. Recorremos à observação participante, diários de aprendizagem e focus group. O focus group foi realizado a três grupos distintos de participantes no estudo: os tutores que colaboram com a ESEP no acompanhamento, supervisão e avaliação dos estudantes do 4.º ano em estágio de SMP (N=6), os docentes que pertencem ao quadro de pessoal da ESEP e tenham orientado estudantes no referido estágio de SMP (N=6) e os estudantes do 4.º ano (N=12). O grupo foi composto por um total de 24 participantes, dos quais 20 eram do sexo feminino e 4 do sexo masculino.

Análise dos resultados: Dos dados recolhidos através da observação participante e do focus group emergiu o domínio “acompanhamento dos estudantes”, a partir do qual foi possível construir a taxonomia: como categorias e subcategorias, respetivamente: apoio: tutor, docente, equipa de enfermagem e colegas e papel do tutor: orientar, servir de espelho, prestar atenção e encorajar, que se apresenta no quadro n.º 1.

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VII Congresso Internacional ASPESM Quadro n.º 1 - Taxonomia do domínio “acompanhamento dos estudantes”

Domínio

Categorias

Subcategorias Tutor Equipa de Enfermagem

Apoio Docente Colegas

Acompanhamento dos estudantes

Orientar Servir de espelho Papel do tutor Prestar atenção Encorajar

No processo de codificação efetuada no domínio do “acompanhamento dos estudantes”, considera-se as categorias: apoio e o papel do tutor (Ribeiro, 2013). É de referir que no focus group dos estudantes, na categoria apoio emergiu mais uma subcategoria, uma vez que os estudantes valorizaram também o apoio dos colegas. Na observação participante, no focus group dos tutores e docentes apenas sobressaiu as subcategorias: tutor, equipa de Enfermagem e docente. Na categoria Apoio - a supervisão constante do tutor e/ou docente orientador que poderá ser um apoio incondicional e facilitador no seu processo ensino/aprendizagem ou poderá funcionar como um obstáculo ao desenvolvimento de competências, perante supervisões

demasiado

controladoras.

Assim,

o

apoio,

a

disponibilidade,

a

compreensão e a presença de uma boa relação com os seus alvos da supervisão, permite que o estudante adquira segurança, autonomia e responsabilidade. Na subcategoria “tutor”, verifica-se que quer estudantes, tutores e docentes consideram o relacionamento, a relação empática, a disponibilidade, a compreensão e a relação de ajuda apoios importantes, facilitadores do processo ensino/aprendizagem e crescimento do estudante em Enfermagem. No entanto constata-se a insatisfação

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VII Congresso Internacional ASPESM de alguns estudantes em relação à falta de apoio do tutor e à pressão que alguns exercem no estudante, sendo um obstáculo no processo de aprendizagem. No processo de codificação efetuada, na categoria “papel do tutor”, considerando os pressupostos de Glickman (1985) é de referir que as diferentes subcategorias mencionadas anteriormente estão sempre presentes na observação participante, havendo diferenças nos diferentes focus group. Para o focus group dos tutores emergiu: “orientar” e “servir de espelho”; para o focus group dos docentes sobressaiu: “servir de espelho” e “encorajar”; no focus group dos estudantes não foi feita qualquer alusão à categoria “papel do tutor”. A subcategoria “orientar” resultou de modo significativo do papel que o tutor desempenha e das estratégias utilizadas para orientar o estudante, mostrando-lhe o caminho a seguir, a atitude mais correta, alertando, esclarecendo dúvidas, mostrando disponibilidade e observando. É de referir que no focus group dos docentes não houve alusão à subcategoria orientar. A subcategoria “servir de espelho” resultou de modo significativo do papel que o tutor desempenha e das estratégias utilizadas, na forma como o tutor é referenciado pelos estudantes como um modelo a seguir. A subcategoria “prestar atenção” resultou da observação participante e da relevância que os estudantes colocaram ao papel que o tutor desempenha e das estratégias utilizadas, na forma como presta atenção, é observador e está atento às práticas dos cuidados, às atitudes, ao “saber-estar” dos estudantes. É de referir que nos diferentes focus group dos estudantes, tutores e docentes não houve alusão à subcategoria “prestar atenção”. A subcategoria “encorajar” resultou da observação participante e da relevância que os estudantes colocaram ao papel que o tutor desempenha e das estratégias utilizadas, na forma como estimula dando reforços positivos ao estudante. É de referir que nos focus group dos estudantes e dos tutores não houve alusão à subcategoria “encorajar”.

Discussão dos resultados: É de extrema importância a relação que se estabelece em estágio entre estudante e tutor, porque estes ajudam os estudantes a controlar possíveis dificuldades intrínsecas ao processo de formação e desenvolvimento do estudante em contexto da prática clínica, atendendo à singularidade de cada estudante (Garrido, 2005). Viana do Castelo, Novembro de 2016


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VII Congresso Internacional ASPESM É de realçar o apoio do tutor como influência positiva: na relação empática estabelecida entre o tutor e o estudante; na disponibilidade e na compreensão deste para com o estudante; na colaboração do tutor com a ESEP há algum tempo, como uma mais-valia, no sentido em que lhe permite conhecer a filosofia da escola, seus objetivos e valores. Assim, os tutores, enfermeiros da prática, nos seus procedimentos por mais básicos que sejam, influenciam sempre o estudante (Granero-Molina, Fernández-Sola & Aguilera-Manrique, 2009). O apoio do tutor na perspetiva do docente e comungada pela opinião dos estudantes é considerado um momento privilegiado, de reflexão, comunicação, visando o desenvolvimento de competências no estudante, e deve promover neste uma atitude de confiança, empatia e responsabilidade pela qualidade do ensino (Garrido, 2005). No entanto temos alguns testemunhos de docentes a referir a falta de apoio por parte dos tutores e a importância do cuidado na seleção do tutor, pois por vezes o tutor até pode ser um excelente profissional na prática clínica mas em termos de atitudes de valores não estar de acordo com o preconizado pela ESEP.

Conclusões: Depois da análise feita no referencial teórico sobre o perfil do enfermeiro que a ESEP deseja formar e uma vez que parte desta investigação ocorreu em estágio de SMP no CLE da ESEP, o acompanhamento em estágio será sempre imprescindível para os estudantes durante o cumprimento do mesmo, pelo que o modelo do docente/tutor pelas suas atitudes são uma referência na aprendizagem. É de mencionar a referência feita por parte dos tutores, no sentido de relevarem a presença assídua do docente para partilharem dificuldades e identificarem estratégias pedagógicas facilitadoras do ensino/aprendizagem. No âmbito do domínio do “acompanhamento dos estudantes” verificamos que na categoria “papel do tutor”, os intervenientes no estudo consideram importante o “orientar”, o “servir de espelho”, o “prestar atenção” e o “encorajar” como imprescindível para a sua aprendizagem no CLE, ou seja, é importante o apoio dos tutores (Ribeiro, 2013). O enfermeiro tutor, não é só enfermeiro, é enfermeiro com valor acrescido, ou seja, deve ser um enfermeiro não só com conhecimentos e competências inerentes à profissão, mas também com o domínio dos conteúdos programáticos da ESEP, o que implica realizar ações de formação aos tutores, no sentido de colmatar algumas dificuldades sentidas de forma a deterem um conjunto

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VII Congresso Internacional ASPESM de outras competências, que permitam mediar a aprendizagem dos estudantes do CLE.

Referências bibliográficas: Abreu,

W.

(2007)

-

Formação

e

aprendizagem

em

contexto

clínico.

Fundamentos, teorias e considerações didáticas. Coimbra: Formasau. Abreu, W. (2003) - Supervisão, qualidade e ensinos clínicos: Que parcerias para a excelência em saúde? Coimbra: Formasau. Alarcão, I. (1996) - Formação reflexiva de professores. Estratégias de supervisão. (org.). Porto: Porto Editora. Alarcão, I. (1995) - Supervisão de professores e inovação profissional. Aveiro: CIDInE. Alarcão, I., & Tavares, J. (2007) - Supervisão da Prática Pedagógica – Uma Perspetiva de Desenvolvimento e Aprendizagem. Coimbra: Almedina. Alarcão, I., & Tavares, J. (2003) - Supervisão da prática pedagógica. Uma perspetiva de desenvolvimento e aprendizagem. (2ª ed.). Coimbra: Almedina. Albuquerque, A., Graça, A., & Januário, C. (2005). A supervisão pedagógica em educação física: A perspectiva do orientador de estágio. Lisboa: Livros Horizonte. Basto, M.L. (1995). Marta Doutora! Revista Sinais Vitais. 5, 9-12. Carvalhal, R. (2003) - Parcerias na formação. papel dos orientadores clínicos. Perspetivas dos atores. Loures: Lusociência. Caires, S. & Almeida, L.S. (2001) - O estágio como um espaço de desenvolvimento de competências pessoais e profissionais: O papel da supervisão. In A. Gonçalves, L.S. Almeida, R. Vasconcelos & S. Caires (ed.), Universidade para o mundo do trabalho. Braga: Universidade do Minho, 227246. Garrido, A. F. S. (2005, Julho). A Supervisão Clínica em Enfermagem e as Condicionantes Organizacionais. Coimbra, Revista Sinais vitais. 61, 11-13. Glickman, C. D. (1985) - Supervision of instruction: A developmental approach. Boston: Allyn and Bacon. Goldhammer, R.; Anderson, R. H., & Krajewski, R. J. (1993). Clinical supervision: Special methods for the supervision of teachers. (3 ed.). Fort Worth, TX: Harcourt Brace Jovanovich College Publishers.

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VII Congresso Internacional ASPESM Granero-Molina, J.; Fernández-Sola, C., & Aguilera-Manrique, G. (2009) Applying a socialisguistic model to the analysis of informed consente documents. Nursing Ethics. 16,6, 797-812. Pinto, C. B. (2011). Desenvolvimento do pensamento ético no contexto da formação inicial dos enfermeiros. Aveiro: na Universidade de Aveiro. Tese de Doutoramento. Ramos, M. F. (2003). A preceptoria como estratégia de formação em estágio de enfermagem pediátrica. Pensar Enfermagem. 7, 3-12. Ribeiro, I. M. O. C. (2013) – Aprendizagem de Valores Profissionais no Curso de Licenciatura em Enfermagem. Tese de Doutoramento, Universidade de Humanidades e Tecnologias Lusófona, Lisboa, Portugal. Yin, R. (2005). Estudo de Caso. Planejamento e métodos. (3ª ed.). Porto Alegre: Bookman.

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Ernestina Maria Batoca Silva1 | Daniel Marques Silva2

Mestre em Ciências de Enfermagem e Doutora em Bioética, Professora coordenadora no IPV, Escola Superior de Saúde de Viseu e membro CI&DETS, Rua da Peça, nº 64, Esculca, 3500-423 Viseu, Portugal. Mail: ernestinabatoca@sapo.pt 2 Mestre em Ciências de Enfermagem e Doutor em Ciências da Educação, Professor coordenador no IPV, Escola Superior de Saúde de Viseu e membro CI&DETS. Rua da Peça, nº 64, Esculca, 3500-423 Viseu, Portugal. Mail: dsilva.essv@gmail.com 1

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Resumo Contexto: O filme “Amigos Improváveis” retrata a relação de Philippe, um multimilionário tetraplégico e de Driss, o seu peculiar cuidador. Dele extraímos aprendizagens sobre as relações entre doente e prestador de cuidados e nos ajudam a esclarecer o sentido do que fazemos e os valores que nos são próprios. Objetivo: Refletir sobre a vulnerabilidade humana e a importância do cuidado e valores humanos na transformação da vida de um tetraplégico e reintegração social de um ex-presidiário. Metodologia: Reflexão crítica com base no filme francês “Amigos Improváveis”, uma comédia dramática, baseada no livro autobiográfico de Philippe Pozzo di Borgo, Le Second Souffle. Resultados: Philippe decide contratar um homem para seu cuidador e escolhe Driss, acabado de sair da prisão e, embora não sendo um profissional de saúde, recebe formação. Com solicitude e compaixão Driss aprendeu a lidar com as dificuldades de Philippe transformando-as em desafios a ultrapassar e levando-o a ter prazer pela vida novamente. Philippe suplantando estereótipos e preconceitos desenvolve a confiança e empatia por Driss e ajuda-o na nova trajetória de vida. Conclusões: Refletimos sobre como superar as limitações físicas inerentes à tetraplegia, encarar as diversidades culturais, a importância da empatia, solicitude e humor no cuidar, a dignidade da pessoa vulnerável e a busca do sentido da vida. Palavras-Chave: Assistência integral à saúde; virtudes; amigos.

Resumen Contexto: La película "Amigos Improbables" retrata la relación entre Philippe, un multimillonario tetrapléjico y Driss, su cuidador peculiar. En esta película aprendemos sobre la relación paciente-cuidador y nos ayuda a dar significado y valor a lo que hacemos y a los valores que poseemos. Objetivos: Reflexionar sobre la vulnerabilidad humana, la importancia del cuidado y los valores humanos en la transformación de la vida de un tetrapléjico y reinserción social de un expresidiario. Metodología: Reflexión crítica basada en la película francesa "Amigos improbables", una comedia dramática, basada en el libro autobiográfico de Philippe PozzodiBorgo, LeSecondSouffle.

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VII Congresso Internacional ASPESM Resultados: Philippe decide contratar a un hombre para ser su cuidador y elige a Driss, recién salido de la cárcel, el cual recibe formación aun no siendo profesional de salud. Con preocupación y compasión, Driss aprendió a hacer frente a las dificultades de Philippe transformándolas en desafíos para superar y volver a disfrutar la vida. Philippe, ultrapasando los estereotipos y prejuicios, crea confianza y empatía por Driss, ayudándole en su nueva trayectoria de vida. Conclusiones: Se reflexiona sobre cómo superar las limitaciones físicas inherentes a la tetraplejia, enfrentando la diversidad cultural, la importancia de la empatía, la preocupación y el humor en el cuidado, la dignidad de la persona vulnerable y la búsqueda del sentido de la vida. Descriptores: Atención integral de salud; virtudes; amigos.

ABSTRACT Background: The movie "Improbable Friends" portrays the relationship of Philippe, a tetraplegic multimillionaire and Driss, his peculiar caregiver. From it we learn about the relationships between patient and caregiver, which help us clarify the meaning of what we do and the values that are our own. Aim: To reflect on human vulnerability and the importance of care and human values in transforming the life of a tetraplegic and in the social reintegration of a former prisoner. Methods: Critical reflection based on the French film “Improbable Friends", a dramatic comedy based on the autobiographical book by Philippe Pozzo di Borgo, Le Second Souffle. Results: Philippe decides to hire a man as his caregiver and chooses Driss, who has just been released from prison and, despite not being a health professional, receives training for this purpose. With care and compassion, Driss learned to deal with Philippe's difficulties, turning them into challenges to overcome and leading him to take pleasure in life again. Overcoming stereotypes and prejudices, Phillipe develops confidence and empathy for Driss and helps him in the new trajectory of life. Conclusions: We reflect on how to surpass the physical limitations inherent to tetraplegia, to face cultural diversity, the importance of empathy, solicitude and humor in caring, the dignity of the vulnerable person and the search for the meaning of life. Keywords: Comprehensive health care; virtues; friends.

Introdução Viana do Castelo, Novembro de 2016


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VII Congresso Internacional ASPESM A adaptação da literatura ao cinema veio reforçar o papel das humanidades no desenvolvimento das capacidades pessoais, como sejam a capacidade de contar e ouvir histórias, imaginar a perspectiva do outro, ser levado a agir de acordo com as expetativas do outro... é também uma opção muito útil para a construção do autoconhecimento e

reflexão crítica. “Amigos Improváveis” retrata a vivência de dois

homens e ajuda-nos a refletir sobre a importância, da tolerância, da amizade, do apoio constante na dor psicológica, da esperança no sofrimento, na transformação e adaptação a uma vida normal de um individuo tetraplégico. Por outro lado, contra todos os estereótipos, podemos refletir também sobre a importância da preocupação, do riso, da afetividade do cuidador que levou ao estabelecer da confiança e cumplicidade na transformação da vida e reintegração social de um ex-presidiário. Uma história de vida que nos ensina a encarar as diversidades, a desvanecer preconceitos, a assumir a empatia pelo próximo, a respeitar a dignidade da pessoa e a vulnerabilidade, a buscar o sentido da vida e a vencer as desilusões do percurso da vida.

Reflexão crítica Philippe vive uma vida muito condicionada fruto da sua tetraplegia, após um acidente de parapente. É viúvo, tem uma filha adolescente e é rodeado de empregadas que gerem e tratam das actividades domésticas. Decide contratar um homem para seu cuidador e escolhe Driss, um senegalês radicado nos subúrbios de Paris, praticamente acabado de sair da prisão, que foi à entrevista de emprego apenas para poder receber subsídio de desemprego. Driss é um homem de raça negra, a viver num bairro pobre, com alta estatura e corpo atlético, bem-disposto e pragmático e contra todas as expectativas acaba por aceitar as condições do milionário: ser seu cuidador nas 24 horas do dia. Perante esta trama somos tocados pela condição de vulnerabilidade humana de ambas as personagens: Philippe um homem rico e dependente de cuidados e Driss um jovem forte mas socialmente desintegrado. De facto, o vulnus emerge como traço da condição humana e a exigência da protecção aos indivíduos vulneráveis aplica-se proporcionalmente. Reconhecer que todas as pessoas são vulneráveis e podem ser feridas por outros é exigência do respeito para a abstenção de qualquer prejuízo (acção negativa), mas igualmente uma acção positiva (Almeida, 2010). Na situação de Philippe a vulnerabilidade e a redução da autonomia são fenómenos associados, pois a perda de autonomia é irreversível tornando-o mais vulnerável. Contudo é impressionante a atenção de Driss ao menor sinal de Philippe, descobrindo

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VII Congresso Internacional ASPESM os seus pensamentos e desejos, protegendo-o nas suas fraquezas na exigência de zelo, cuidado e solicitude para com a vulnerabilidade inerente. Numa outra direção percebemos que Driss, um ex-presidiário, de raça negra e a viver nos bairros pobres de Paris, é vulnerável à descriminação e estereótipos raciais, contudo Philippe aceitao como cuidador, ajuda-o na sua reintegração social e a elevar o seu nível de vida e da sua família. Um outro aspeto importante que queremos realçar e que consta nos valores e princípios do Plano Nacional de Saúde Mental (Portugal, Ministério da Saúde, Alto Comissariado da Saúde, 2008) é que a saúde mental é indivisível da saúde em geral pelo que os cuidados devem ser prestados no meio menos restritivo possível. Philippe não parece tratar-se de um doente psiquiátrico, mas, sofre de instabilidade emocional, é vítima da dor psicológica, tem episódios de ansiedade, acompanhados de falta de ar… Contudo, é na sua mansão, no seu ambiente de luxo que recebe os cuidados ao corpo, às necessidades de vida diária, mas também apoio psicológico. Driss, sempre disponível e diligente, acalma-o com palavras serenas, com gestos suaves e caricias no rosto, levando-o a respirar ar puro e a distrair-se na rua. Apesar de não ter formação específica, Driss teve um período de formação que o habilitou a prestar os cuidados necessários para ser um cuidador. Imbuiu-se de uma atitude responsável e diligente. O humor e a risoterapia são também pontos importantes do modo de ser deste peculiar cuidador. Driss tem um sorriso aberto, espontâneo e contagiante e produz um efeito bastante positivo transformando Philippe num homem risonho e bem-disposto. O riso tem sido estudado como uma ferramenta promotora de saúde (Old, 2012) e foi identificado como um componente benéfico na saúde numa perspetiva holística em todo o mundo (Goodenough et al., 2012). A existência de uma ligação positiva entre humor e saúde é também referido por McCreaddie & Wiggins (2008). O humor como terapêutica é ainda subestimada pelos profissionais que a poderiam usar para ajudar a aliviar o stress físico e mental do paciente e, também, para melhorar as relações entre os profissionais de saúde. Um programa baseado em exercícios do riso, terapia do riso ou tão só o bom humor emergem como uma sugestão a adotar nos serviços e como uma característica dos cuidadores. Driss igualmente se preocupava com a protecção da filha de Philippe defendendo-a de violência no namoro. Na análise destes aspetos não podemos deixar de evocar os princípios da ética. Cabral (2003:25) refere que “o homem não existe por si mesmo, mas antes devido ao outro, a quem se deve”. Uma perspetiva assente em Emmanuel

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VII Congresso Internacional ASPESM Levinás que afirma que é no face a face humano que se irrompe todo o sentido. Diante do rosto do outro, o sujeito se descobre responsável e lhe vem à ideia o infinito. Disso decorre que a justiça para Lévinas se expressa numa responsabilidade incondicional e irrecusável do Eu não só pelo outro, mas também por todos os outros, capaz de romper com o egoísmo e proporcionar condições de que a humanidade atinja sua verdadeira essência de solidariedade e fraternidade (Gomes, 2009). É visível neste filme um homem forte que perante o outro dependente é sensível e lhe confere a segurança e a existência do seu corpo e espaço. Contudo, por sua vez, o outro se admite a reconhecê-lo e a respeitá-lo como homem e a ajudá-lo na construção de um projecto futuro e restruturação socioeconómica da sua família. Aliás, prescinde dos seus cuidados durante um mês para dar espaço a Driss para organizar a sua vida e da sua família. Não podemos, ainda, deixar de refletir na divergência cultural. Philippe e Driss são de contextos socioculturais diferentes e assistimos a vários tipos de manifestações culturais que nos revelam essa variedade: a linguagem, danças, vestuário, música, pintura, poesia que para cada um dos personagens têm sons e nuances diferentes. Sem grande esforço, Philippe e Driss harmonizam-se num processo de respeito pelos gostos e preferências de cada um, em que a comunicação e a cumplicidade são evidentes demonstrando um encontro intercultural assente em valores humanos. O primeiro gosta de ouvir música clássica, que o ajuda a relaxar, mas pode tornar-se triste. Por outro lado, Driss gosta da música rock que impõe um ritmo acelerado e uma disposição para balançar. Dois universos e culturas diferentes que se cruzam e integram para fazer nascer uma amizade especial. Candau (2012) refere que as questões relativas às diferenças culturais vêm se multiplicando na nossa sociedade, com a denúncia de inúmeras situações de discriminação e rejeição, contudo a consciência dessa realidade é cada vez mais forte dando lugar a ações educativas sobre o reconhecimento e valorização das diferenças culturais. Isto é educação em direitos humanos. Na realidade dos cuidados de saúde o aumento da globalização e das migrações fez aumentar a multi/interculturalidade nas sociedades e a coabitação com a diversidade cultural. Esta multiculturalidade faz com que as sociedades sejam confrontadas com uma grande heterogeneidade linguística e cultural dos seus profissionais e cidadãos, o que exige destas o desenvolvimento de competências e a adoção de práticas, estratégias e políticas adequadas para fazer face a estas novas realidades sociais, educacionais, comunicacionais e sanitárias. Daí ser fundamental o desenvolvimento

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VII Congresso Internacional ASPESM de competências interculturais por parte dos gestores e profissionais de saúde para que saibam fornecer cuidados culturalmente competentes e funcionar não só como organizações de saúde, mas também como organizações multiculturais, tendo como fundamento o respeito e a valorização da pluralidade de culturas (Ramos, 2012). Num contexto multicultural como o que vivemos atualmente, as competências científicas, éticas, relacionais/comunicacionais e cívicas constituem uma exigência dos que cuidam.

Conclusão Uma história aparentemente paradoxal que nos faz refletir e perceber que perante a vulnerabilidade, enfermeiros e cuidadores devem adotar uma abordagem holística do cuidar com foco nas necessidades físicas, psicológicas, afetivas, sociais e culturais, com exigência de valores humanos, capazes de transformar vidas e destinos.

Implicações para a Prática Clínica Estamos

convidados

a

fortalecer

o

respeito

pelas

desigualdades,

pela

não

discriminação, pela ajuda ao outro em situação de vulnerabilidade. Algumas iniciativas de caráter pontual são conhecidas, dirigidas a grupos determinados, em momentos específicos. Mas os desafios permanecem e acreditamos que apontamos algumas pistas para a prática de um cuidado cada vez mais humano.

Referências Bibliográficas Almeida, L. (2010). Suscetibilidade: Novo sentido para a vulnerabilidade. Revista Bioética, 18(3), 537-548. Candau, V. (2012). Diferenças culturais, interculturalidade e educação em direitos humanos. Educação Sociedade, 33(118), 235-250. Gomes, C. (2009). Lévinas e o outro: A ética da alteridade como fundamento da justiça. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica - PUC-RIO. Goodenough, B., Low, L., Casey, A., Chenoweth, L., Fleming, R., Spitzer, P., … Brodaty, H. (2012). Study protocol for a randomized controlled trial of humor therapy in residential care: The Sydney Multisite Intervention of LaughterBosses and ElderClowns (SMILE). International Psychogeriatrics, 24(12), 2037-2044.

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VII Congresso Internacional ASPESM McCreaddie M., & Wiggins, S. (2008). The purpose and function of humor in health, health care and nursing: A narrative review. Journal of Advanced Nursing, 61(6), 584-595. Old, N. (2012). Survival of the Funniest: Using therapeutic humor in nursing. Nursing New Zealand, 18(8), 17-19. Portugal, Ministério da Saúde, Alto Comissariado da Saúde. (2008). Plano nacional de saúde mental 2007-2016. Lisboa: Coordenação Nacional para a Saúde Mental. Ramos, M. (2012). Comunicação em saúde e interculturalidade: Perspectivas teóricas, metodológicas e práticas. RECIIS: Revista Eletrónica de Comunicação, Informação & Inovação Saúde, 6(4), 1981-6278.

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Thais Simandi1 | Beatriz Sodré 2| Lucas Felipe Ribeiro dos Santos3 | Rosimeire de Brito4 | Ana Maria Canzonieri5

1

Estagiário de psicologia; ABEM – Associação Brasileira de Esclerose Múltipla; Av. Indianópolis, 2752, São

Paulo, Brasil CEP: 04062-003; apc@abem.org.br 2

Estagiário de psicologia; ABEM – Associação Brasileira de Esclerose Múltipla; Av. Indianópolis, 2752, São

Paulo, Brasil CEP: 04062-003; apc@abem.org.br Estagiário de psicologia; ABEM – Associação Brasileira de Esclerose Múltipla; Av. Indianópolis, 2752, São Paulo, Brasil CEP: 04062-003; apc@abem.org.br 4 Psicóloga; ABEM – Associação Brasileira de Esclerose Múltipla; Av. Indianópolis, 2752, São Paulo, Brasil CEP: 04062-003; psicologia@abem.org.br. 5 Doutora em Ciências da Saúde; Psicóloga; Supervisora Técnica; Associação Brasileira de Esclerose Múltipla; Av. Indianópolis, 2752, São Paulo, Brasil CEP: 04062-003; pesquisa.cientifica@abem.org.br. 3

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Resumo Contexto: Esclerose múltipla (EM) é uma doença inflamatória e desmielinizante do sistema nervoso central (SNC), que pode ocasionar alterações físicas, psíquicas e cognitivas, de acordo com as lesões na bainha de mielina. A disfunção cognitiva na EM caracteriza-se por déficits de memória, atenção, velocidade de processamento de informação e funções executivas impactando na entrega das habilidades sociais. Objetivos: Verificar a influência da técnica do psicodrama na atenção concentrada e habilidades sociais de pacientes com esclerose múltipla. Metodologia: As habilidades sociais e nível de atenção são mensuradas pelos testes psicológicos Inventário de Habilidades Sociais - IHS e o Teste de atenção Concentrada - d2, aplicados no início e término do grupo de sete pacientes com EM, com idades entre 24 e 65 anos frequentadores de Organização Social Civil em São Paulo Capital. Foram realizados 26 encontros semanais, com 2 horas, baseados nas técnicas sociopsicodramáticas. Resultados: No IHS, na característica socialização, houve melhora de 4 pacientes; em auto-exposição a melhora ocorreu com 4 pacientes; para autocontrole foram 3 pacientes; para enfrentamento houve 1 melhora e em auto afirmação 2 pacientes apresentaram melhora. Na atenção concentrada e velocidade de processamento cognitivo houve melhora dos índices que avaliam erros durante execução do teste em 3 pacientes e 2 apresentaram melhora no índice que avalia oscilação durante execução. Conclusões: Após a aplicação das técnicas sociopsicodramáticas foi possível verificar aumento nas caraterísticas de socialização em 57% dos pacientes e 43% dos pacientes apresentaram melhora na qualidade de execução do teste d2, apresentando menor número de erros. Palavras – Chaves: esclerose múltipla; psicodrama; habilidades sociais.

Resumen Contexto: La esclerosis múltiple (MS) es una enfermedad desmielinizante inflamatoria del sistema nervioso central (CNS), que puede causar cambios físicos, psicológicos y cognitivos, de acuerdo con las lesiones en la vaina de mielina. La disfunción cognitiva en la EM se caracteriza por déficits de memoria, atención, velocidad de procesamiento de la información y las funciones ejecutivas que afectan a la entrega de las habilidades sociales.

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VII Congresso Internacional ASPESM Objetivo: Investigar la influencia de la técnica del psicodrama en la atención centrada y habilidades sociales de los pacientes con esclerosis múltiple. Metodología: Las habilidades sociales y el nivel de atención se mide mediante pruebas psicológicas Habilidades Sociales Inventario - IHS y prueba de Atención Concentrado - d2, aplicado al comienzo y al final del grupo de siete pacientes con EM, con edades entre 24 y 65 asistentes Organización Social Civil en Sao Paulo capital. 26 sesiones semanales se llevaron a cabo con dos horas, basado en técnicas de sociopsicodramáticas. Resultados: En el IHS, la característica socialización, se observó mejora en 4 pacientes; para el auto-exposición mejora en 4 pacientes; para el autocontrol 3 pacientes; para hacer frente fue 1 mejora y autoafirmación 2 pacientes mejoraron. La atención, concentró y velocidad de procesamiento cognitivo mejoró los índices que evalúan errores durante la realización de la prueba en 3 pacientes y 2 mostraron una mejora en el índice que evalúa la oscilación durante la ejecución. Conclusiones: Después de la aplicación de técnicas sociopsicodramáticas se observó aumento en las características de socialización en el 57% de los pacientes y el 43% de los pacientes mostraron una mejoría en la ejecución de la prueba d2 calidad, con menos errores. Palabras - clave: esclerosis múltiple; psicodrama; habilidades sociales.

Abstract Background: Multiple sclerosis (MS) is an inflammatory and demyelinating disease of the central nervous system (CNS), which can cause physical, psychic and cognitive alterations, according to lesions in the myelin sheath. Cognitive dysfunction in MS is characterized by deficits in memory, attention, speed of information processing, and executive functions impacting the delivery of social skills. Aim: To verify the influence of the psychodrama technique on the concentrated attention and social skills of patients with multiple sclerosis. Methods: Social skills and level of attention are measured by the Social Skills Inventory (IHS) and the Concentrated Attention Test (D2), applied at the beginning and end of the group of seven MS patients, aged between 24 and 65 years of age Of Civil Social Organization in São Paulo Capital. Twenty-six weekly meetings were held, with two hours, based on sociopsychodramatic techniques. Results: In the IHS, in the characteristic socialization, there was improvement of 4 patients; Self-exposure to improvement occurred with 4 patients; For self-control were 3 patients; For coping there was 1 improvement and in self affirmation 2 patients Viana do Castelo, Novembro de 2016


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VII Congresso Internacional ASPESM presented improvement. In the concentrated attention and speed of cognitive processing there was improvement of the indices that evaluate errors during the execution of the test in 3 patients and 2 showed an improvement in the index that evaluates oscillation during execution. Conclusions: After applying the sociopsychodrama techniques, it was possible to verify an increase in the socialization characteristics in 57% of the patients and 43% of the patients showed an improvement in the quality of the d2 test, presenting a smaller number of errors. Keywords: multiple sclerosis; Psychodrama; social skills.

Introdução A esclerose múltipla (EM) é

uma doença inflamatória,

crônica, autoimune,

desmielinizante do sistema nervoso central (SNC), onde o processo inflamatório causa a desmielinização da bainha da mielina no cérebro ocasionando alterações funcionais do sistema locomotor, cognitivo, visual, variando de acordo com a localização das lesões, por isso os sintomas são muito variados nos pacientes (Tilbery, 2005; Giacomo, 2011). A causa ainda é desconhecida, por isso se atribui seu desenvolvimento a vários fatores como genéticos, ambientais e imunológicos. Sabe-se que um número maior de pessoas acometidas residem em países frios (Giacomo, 2011). A EM acomete mais mulheres do que homens na proporção de 2:1 e incide mais em adultos jovens na faixa etária de 20 a 40 anos, idade altamente produtiva da população (Tilbery, 2005; Alves et al, 2014). Em sua fase inicial ele pode ser classificada como remitente recorrente, em que os surtos (sintomas que se agudizam estão presentes por mais de 24 horas) ou primariamente progressiva, onde não há surtos, porém a degeneração e progressão da doença se faz mais intensa. Normalmente, após 10 a 20 anos da doença, ela pode mudar seu ciclo, para secundariamente progressiva, em que não apresentam-se mais surtos, porém aumenta-se a degeneração e progressão da doença e, progressiva recorrente, em que aparecem surtos após longos anos de degeneração (Giacomo, 2011; Alves et al, 2014). Uma classificação específica para EM, para avaliar os déficts motores é a Escala Expandida de Incapacidade, EDSS (Kurtzke, 1993), que retrata o grau de incapacidade neurológica, em um escore numérico de 0,0 (sem nenhuma alteração) a 10,0 (morte),

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VII Congresso Internacional ASPESM a cada 0,5 ponto, mediante a um questionário de investigação realizado pelo médico neurologista As alterações cognitivas podem estar presentes desde o inicio da doença, bem como a depressão, que pode surgir pelo adoecimento, pelas localizações da lesão em zonas neuronal de controle do humor ou até por decorrência de algumas medicações utilizadas para o processo inflamatório, já que a EM, não tem cura e não tem ainda uma medicação específica para seu tratamento, porém há vários estudos que investigam intervenções terapêuticas e sua eficácia em termos de reabilitação, pois sabe-se que é fundamental para as pessoas com EM alcançar maior funcionalidade nas tarefas diárias (Tilbery, 2005; Giacomo, 2011; Alves et al, 2014). Um dos sintomas presentes pode ser a disfunção cognitiva na EM, que se caracteriza por déficits de memória, atenção, velocidade de processamento de informação e funções executivas, podendo ocasionar desordens emocionais que impactam na entrega das habilidades sociais ao meio, na qualidade de vida pessoal, relacional e profissional (Giacomo, 2011; Alves et al, 2014). Hamdan (2011) e Alves et al (2014) abordam que reforçar que a reeducação e a orientação de uma atividade ao paciente possibilita meios para restaurar a função comprometida. O objetivo proposto por este estudo foi verificar a influência da técnica do psicodrama na atenção concentrada e habilidades sociais de pacientes com esclerose múltipla, dada a importância de impacto da doença na vida das pessoas e seus familiares.

Metodologia Trata-se de um estudo quantitativo longitudinal realizado na ABEM - Associação Brasileira de Esclerose Múltipla, em São Paulo/SP, Brasil. O grupo psicoterapêutico era composto por sete pacientes com EM, segundo critério de Mc Donalds de 2010 (Polman et al, 2011), sendo três homens e quatro mulheres, com idades entre 24 e 65 anos. No período de 6 meses entre março e agosto de 2016, realizaram-se 26 encontros, semanais com 2 horas de duração, com intervenções baseadas nos métodos e técnicas sociopsicodramáticas. A verificação das habilidades sociais e nível de atenção é mensurada por meio dos testes psicológicos Inventário de Habilidades Sociais - IHS (Del Prette & Del Prette, 2009) e o Teste de atenção Concentrada - D2 (Brickenkamp, 2000)., com aplicação ao início e no término do processo grupal.

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VII Congresso Internacional ASPESM Não houve nenhum critério de exclusão e considerou-se todos os tipos de EM. Todos os pacientes consentiram a participação no estudo, todas as sessões foram filmadas e fotografadas. Todos sabiam desde o inicio das actividades, que a proposta do trabalho era criar uma arte a partir dos conteúdos da sessão, com uma apresentação da mesma ao final. Eles deveriam escolher a arte a ser criada, por isso essa atividade recebe o nome de Terapia Cultural. A cada sessão iniciava-se com o aquecimento inespecífico e o aquecimento específico, partindo-se então para os temas trazidos pelos pacientes, como requisitos da técnica psicodramática (Yozo, 1996). A partir da quarta sessão define-se que a arte a ser produzida será uma peça teatral. A peça foi desenvolvida a partir dos conteúdos trazidos sobre o adoecimento, direitos a uma vida comum e a cidadania. Coletavam-se as informações trazidas em cada sessão e amarravam-se uma a uma, nas próximas sessões, porém sem um script, os pacientes registravam na memória as cenas e as falas que iam se transformando de forma espontânea. Princípio do Psicodrama é trabalhar com a espontaneidade (Moreno, 1993; Moreno, 1997). Ao final apresenta-se a peça teatral em 3 eventos sobre a EM, sendo um deles na ABEM, no dia nacional da Esclerose Múltipla.

Resultados Após a aplicação dos testes psicológicos ao final foram feitas as comparações dos escores dos testes. O teste de habilidades sociais, avalia cinco fatores e o resultado baseado na característica socialização, demonstrou melhora dos índices para 4 pacientes, sendo que 3 pacientes permaneceram iguais; na característica auto-exposição a melhora dos índices ocorreu com 4 pacientes, sendo que 2 permaneceram iguais e houve a piora de 1; para a característica autocontrole da agressividade 3 pacientes apresentaram melhora nos índices, 3 permaneceram iguais e 1 piorou; para a característica enfrentamento houve 1 melhora e 1 piora de resultados, sendo que 5 permaneceram iguais; em auto afirmação 2 pacientes apresentaram melhora, sendo que 5 permaneceram iguais. Em relação a atenção concentrada e velocidade de processamento cognitivo, no teste D2 não houve alteração dos índices. Houve melhora dos índices que avaliam erros durante execução do teste em 3 pacientes e 2 apresentaram melhora no índice que avalia oscilação durante execução. Viana do Castelo, Novembro de 2016


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Discussão Percebe-se que houve melhora para as maioria dos pacientes nos quesitos socialização e auto exposição, incluindo até certa ponto auto controle da agressividade, porém os fatores enfrentamento e auto afirmação não apresentaram melhora significativa, porém a manutenção no mesmo estado foi de 71%, o que significa um indice positivo. A técnica aplicada possibilita aos pacientes o desenvolvimento de características das habilidades sociais. Supõe-se que isto contribua para alteração comportamental e manutenção cognitiva, tendo como base que 43% dos pacientes apresentaram diminuição dos erros na execução e 29% mantiveram-se iguais.

Conclusão Após a aplicação das técnicas sociopsicodramáticas pelo período de 6 meses, foi possível verificar que ocorreu aumento nas características de socialização em 57% dos pacientes e 43% dos pacientes apresentaram melhora significativa na qualidade de execução do teste D2, apresentando menor número de erros.

Implicações para a Prática Clínica A utilização de técnicas psicológicas do Psicodrama ,como o sociodrama pode favorecer ao paciente uma compreensão sobre si mesmo e de forma lúdica aprender a lidar melhor com o adoecimento, buscando novas formas de enfrentamento, com melhor qualidade de execução e promovendo a socialização.

Referências Bibliográficas Alves, B. C. A., Angeloni, R. V., Azzalis, L. A., Pereira, E. C., Perazzo, F. F. & Rosa, P. C. P. (2014). Esclerose múltipla: revisão dos principais tratamentos da doença. Saúde e Meio Ambiente, 3(2), 19-34. Brickenkamp, R. (2000). Teste d2 – Atenção Concentrada: Manual de insturções, avaliação e interpretação. Coord Mara Silva Bolonhezi Bittencourt. São Paulo: CETTP. Del Prette, Z.A.P. & Del Prette, A. (2009). Inventário de Habilidades Sociais – manual de aplicação, apuração e interpretação. 4ª ed.; São Paulo: Casa do Psicólogo. Giacomo, M.C.B. (coord), (2011). Esclerose Múltipla: O caminho entre pedras e flores. São Paulo: Atha.

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VII Congresso Internacional ASPESM Hamdan, A. C., Pereira, A. P. A. & Riechi, T. I. J. S. (2011). Avaliação e Reabilitação Neuropsicológica: Desenvolvimento Histórico e Atuais.

Interação

em

Psicologia,

15(n.

especial),

Perspectivas p.

47-58

47.www.ipaf.com.br/arquivos/artigos/avaliacao_neuropsicologia_de_luria.pdf. Kurtzke, J.F. (1983). Rating neurologic impairment in multiple sclerosis an expanded disability status scale (EDSS). Neurology 33.11: 1444-1444. Moreno, J. L. (1993). Psicodrama. Trad Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix. Moreno, J. L. (1997). Psicoterapia de Grupo e Psicodrama. Trad Antonio Mazzaroto e Cezarino Filho. São Paulo: Editorial Psy. Polman, C.H et al. (2011). Diagnostic Criteria for Multiple Sclerosis: Revisions to the McDonald Criteria 2010. ANN NEUROL; 69:292–302. Tilbery, C.P. (2005). Esclerose Múltipla no Brasil: Aspectos Clínicos e Terapêuticos. São Paulo: Editora Atheneu. Yozo, R. Y. (1996). 100 jogos para rupos – uma abordagem psicodramática para empresas, escola e clínicas. 13ª. Ed. São Paulo: Ágora.

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Claudineia Souza1 | Thais Simandi2 | Beatriz Sodré3 | Lucas Felipe Ribeiro dos Santos4 | Ana Maria Canzonieri5

estagiário de psicologia; ABEM – Associação Brasileira de Esclerose Múltipla; Av. Indianópolis, 2752, São Paulo, Brasil CEP: 04062-003 apc@abem.org.br 2 estagiário de psicologia; ABEM – Associação Brasileira de Esclerose Múltipla; Av. Indianópolis, 2752, São Paulo, Brasil CEP: 04062-003 apc@abem.org.br 3 estagiário de psicologia; ABEM – Associação Brasileira de Esclerose Múltipla; Av. Indianópolis, 2752, São Paulo, Brasil CEP: 04062-003 apc@abem.org.br 4 estagiário de psicologia; ABEM – Associação Brasileira de Esclerose Múltipla; Av. Indianópolis, 2752, São Paulo, Brasil CEP: 04062-003 apc@abem.org.br 5 Doutora em Ciências da Saúde; Psicóloga; Supervisora Técnica; Associação Brasileira de Esclerose Múltipla; Av. Indianópolis, 2752, São Paulo, Brasil CEP: 04062-003, pesquisa.cientifica@abem.org.br 1

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Resumo Contexto: Esclerose múltipla (EM) é uma doença inflamatória do sistema nervoso central (SNC) que pode ocasionar diversas e diferentes alterações funcionais, cognitivas e psíquicas. Alterações de humor podem estar presentes. Objetivos: Identificar o perfil de personalidade de pacientes com EM. Metodologia: Pesquisa descritiva transversal de identificação do perfil de personalidade por meio de testes psicológicos como Inventário de Habilidades Sociais (IHS), Bateria Fatorial de Personalidade (BFP) e Pirâmides Coloridas de Pfister (TPC), em 22 pacientes, entre 23 e 68 anos, em Organização Social Civil, Brasil, Resultados: São 82% pacientes com o tipo de EM remitente recorrente, 68% com escolaridade nível superior, 45% são casados e 45% solteiros. No IHS em enfrentamento 29% dos pacientes apresentam repertório moderado, 57% apresentam tendência moderada a expressar sentimentos positivos, 29% apresentam repertório muito alto em desenvoltura social, 48% possui repertório mediano para auto exposição e 33% possui autocontrole da agressividade moderado; no BFP 41% dos pacientes apresentaram tendência a vivenciar de maneira moderada o sofrimento psicológico, 41% apresentam moderação na busca por contatos sociais, 68% apresentam moderada confiança ao outro, 50% apresenta moderada motivação, em abertura situações novas 36% apresentam possibilidade de adaptação ao novo. No TPC apresentaram predominância da cor verde que significa a capacidade equilibrada para os contatos afetivos e sociais, 55% realizaram de maneira ascendente indicando amadurecimento e estabilidade emocional. Conclusão: verifica - se que o perfil psicológico da amostra, apresenta uma entrega equilibrada das habilidades sociais, com traços de personalidade que indicam amadurecimento emocional e capacidade de adaptação. Palavras – Chaves: esclerose múltipla; testes psicológicos, personalidade.

Resumen CONTEXTO: La esclerosis múltiple (EM) es una enfermedad inflamatoria del sistema nervioso central (SNC) que puede conducir a cambios funcionales, psicológicos y cognitivos diferentes y diversos. Cambios de humor pueden estar presentes. Objetivos: identificar el perfil de personalidad de los pacientes con em. Metodología: estudio descriptivo transversal de la identificación del perfil de la personalidad a través de pruebas psicológicas como las habilidades sociales de Viana do Castelo, Novembro de 2016


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VII Congresso Internacional ASPESM inventario (ihs), personalidad factorial de la batería (bfp) y el color de las pirámides pfister (tpc) en 22 pacientes, entre 23 y 68 años en organización social civil, brasil. Resultados: el 82% son pacientes con el tipo de em remitente solicitante, el 68% de estudios de nivel superior, el 45% están casados y el 45% solo. En el ihs para hacer frente el 29% de los pacientes tienen repertorio moderada, 57% tienen tendencia moderada para expresar sentimientos positivos, el 29% tienen muy alta repertorio en el ingenio social, el 48% tienen repertorio mediana para la exposición automática y el 33% tienen el autocontrol de la agresividad moderada; bfp 41% de los pacientes tendían a experimentar angustia psicológica manera moderada, el 41% tiene la moderación en la búsqueda de contactos sociales, el 68% tiene confianza moderada en el otro, el 50% tienen la motivación moderada en la apertura de nuevas situaciones 36% tienen posibilidad la adaptación a la nueva. Tpc mostró predominio del color verde que significa la capacidad equilibrada para los contactos emocionales y sociales, el 55% compone de lo que indica la madurez y estabilidad emocional manera. Conclusiones: que el perfil psicológico de la muestra, proporciona un suministro equilibrado de habilidades sociales, con los rasgos de personalidad que indican la madurez emocional y la capacidad de adaptación. Palavras – Chaves: esclerosis múltiple; pruebas psicológicas, personalidad.

Abstract Background: multiple sclerosis (ms) is an inflammatory disease of the central nervous system (cns) that can cause several different functional, cognitive and psychic changes. Mood changes may be present. Aim: to identify the personality profile of ms patients. Methods:

Cross-sectional descriptive research of

personality profile through

psychological tests such as Social Skills Inventory (IHS), Personality Factor Battery (BFP) and Pfister's Colored Pyramid (TPC) in 22 patients between 23 and 68 years of age, in Civil Social Organization, Brazil. Results: In which 82% of patients with recurrent type of relapsing MS, 68% with higher education level, 45% are married and 45% are single. 29% of the patients presented moderate repertoire, 57% had a moderate tendency to express positive feelings, 29% presented a very high repertoire in social skills, 48% had a median repertoire for self-exposure, and 33% had moderate aggression self-control; 41% presented moderation in the search for social contacts, 68% had moderate confidence in the other, 50% had moderate motivation, in openness new situations 36% Viana do Castelo, Novembro de 2016


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VII Congresso Internacional ASPESM presented a possibility of adaptation to the new. In the TPC they presented predominance of green color that means the balanced capacity for the affective and social contacts, 55% carried out of ascending way indicating maturation and emotional stability. Conclusions: The psychological profile of the sample shows a balanced delivery of social skills, with personality traits indicating emotional maturity and adaptability. Keywords: multiple sclerosis; psychological tests, personality.

Introdução A esclerose múltipla (EM) é uma doença autoimune, inflamatória, progressiva, desmielinizante e crônica, do sistema nervoso central (SNC) que pode ocasionar diversas e diferentes alterações funcionais, cognitivas e psíquicas nos pacientes. Alterações de humor podem estar presentes de forma significativa no decorrer do adoecimento (Tilbery , 2005; Giacomo, 2011). Os dados epidemiológicos nos mostram que a predominância da doença se dá em mulheres na proporção de 2 para 1 em relação aos homens, que acomete mais adulto jovem na faixa etária de 20 a 40 anos, idade produtiva e de maior capacidade funcional. A prevalência é para a população caucasiana e de países frios, não excluído os demais países e a raça negra (Tilbery, 2005; Alves et al, 2014). A EM pode inicialmente se manifestar por diversos sintomas e ser classificada em remitente recorrente, quando o paciente possui agudização dos sintomas e depois recupera-se até um novo agravamento, o que são chamados de surtos, aos agravamentos que perduram mais de 24 horas e o tipo primariamente progressiva, em que o paciente tem uma progressão e degeneração constante sem a presença de surtos. Ao longo de 10 a 20 anos da doença poderá surgir novas formas de manifestação dos sintomas ao que passará ser chamado de secundariamente progressiva, em que não haverá a presença de surto, mas o agravamento da doença e progressiva recidivante em que o paciente passa a desencadear surtos que anteriormente não estavam presente (Tilbery , 2005; Giacomo, 2011; Polman, C.H et al. (2011)). O estado emocional e a estrutura de personalidade são aspectos importantes de serem analisados desde o inicio do adoecimento, pois assim, teremos mais elementos para auxiliar no tratamento do paciente. Sabendo-se que as alterações cognitivas e estados depressivos podem estar presentes desde o inicio da doença e evoluir ao longo do

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VII Congresso Internacional ASPESM adoecimento em função das degenerações neuronais, dos efeitos medicamentosos e da própria condição a ser enfrentada pelo paciente pessoal, social, familiar, relacional e profissional (Giacomo, 2011). Em função dos aspectos de comprometimento da doença, este estudo tem por objetivo identificar o perfil de personalidade de pacientes com EM.

Metodologia Pesquisa quantitativa descritiva transversal, que faz a identificação do perfil de personalidade, por meio de testes psicológicos como Inventário de Habilidades Sociais - IHS (Del Prette & Del Prette 2009), que avalia os quesitos de socialização, Bateria Fatorial de Personalidade - BFP (Nunes, et al, 2010) e Pirâmide Colorida de Pfister TPC (Villemor – Amaral, 2012), ambas avaliam os traços de personalidade, em 22 pacientes, sendo 9 mulheres e 13 homens, idade entre 23 e 68 anos no período de janeiro a agosto de 2016, na ABEM – Associação Brasileira de Esclerose Múltipla, São Paulo, Brasil, no momento de Acolhimento (Feldman, 2002), recepção do paciente a primeira vez a Instituição, por isso não houve critério de exclusão e foram considerados todos os tipos de EM. Todos os pacientes assinam o termo de consentimento para realização dos testes.

Resultados Em 82% pacientes temos o tipo de EM remitente recorrente, 68% dos pacientes apresentam grau de escolaridade nível superior, 45% dos pacientes são casados e 45% dos pacientes solteiros. No IHS que analisam cinco fatores, obtem-se no quesito enfrentamento e capacidade para correr riscos, 29% dos pacientes apresentando repertório moderado, 57% apresentam tendência moderada a expressar sentimentos positivos, 29% apresentam repertório muito alto em desenvoltura social, 48% possui repertório mediano para auto exposição e 33% possui autocontrole da agressividade moderado. No BFP 41% dos pacientes apresentaram tendência a vivenciar de maneira moderada o sofrimento psicológico, 41% apresentam moderação na busca por contatos sociais, 68% apresentam de maneira moderada confiança ao outro, altruísmo e envolvimento em situações de risco, 50% apresentam moderada motivação, perseverança e capacidade de planejamento em função de metas, em abertura a desconhecidos e situações novas 36% apresentam flexibilidade e possibilidade de adaptação ao novo.

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VII Congresso Internacional ASPESM No TPC, os pacientes apresentaram predominância na cor verde que significa a capacidade equilibrada para os contatos afetivos e sociais, 55% realizaram a execução da pirâmide de maneira ascendente indicando amadurecimento e estabilidade emocional, 32% executaram de maneira ordenada, a pirâmide, demonstrando certo grau de rigidez ou organização e 32% desordenada, demonstrando certo grau de desorganização.

Discussão Como verificou – se 82% pacientes tem o tipo de EM remitente recorrente, isto impacta na qualidade de vida do paciente, pois terá surtos com maior frequência o que o levará a estar mais vezes hospitalizados interferindo de modo acentuado nas atividades socias e profissionais, além do alto custo dos agentes de saúde, já que a medicação para a EM, não trata a causa que é desconhecida, mas o processo inflamatório e muitas vezes o paciente precisará de mudanças medicamentosas para o efeito contra a inflamação do SNC e estas medicações dependem do subsidio governamental. Os dados nos mostram que 68% dos pacientes apresenta grau de escolaridade nível superior, ou seja, pacientes em fase produtiva da vida pelo grau de conhecimento adquirido e que em muitos casos deverão mudar de atividade ou até se aposentar, representando um ónus pessoal, social e profissional, inclusive para o Estado. A aceitação de tal situação poderá impactar de forma negativa no estado emocional e necessitar de maiores cuidados dos profissionais da saúde e compreensão dos familiares. Temos que 45% dos pacientes são casados e 45% dos pacientes solteiros, isto pode interferir demasiadamente na qualidade de vida dos pacientes, pois as estruturas relacionais devem ser solidas para o enfrentamento de adoecimento do cônjuge, ou até mesmo para iniciar novos relacionamentos. No IHS, quesito enfrentamento e capacidade para correr riscos, 29% dos pacientes apresentam repertório moderado, o que representa um índice baixo, sendo que os pacientes necessitarão de capacidade de enfrentamento, temos aqui um dado importante para ser trabalhado por profissionais da área da saúde para auxiliar o desenvolvimento do paciente. Sendo que 57% apresentam tendência moderada a expressar sentimentos positivos, isto é um bom aliado para trabalhar o desenvolvimento de uma visão positiva sobre a situação, pois em muitos casos o paciente necessitará de adaptações para locomoção e para o exercício de suas tarefas, inclusive diárias.

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VII Congresso Internacional ASPESM Quando temos que 29% apresentam repertório muito alto em desenvoltura social, temos duas situações importantes de serem analisadas: a) frustração pela mudança que pode ocorrer em alguns casos, levando o paciente ao afastamento das atividades sociais constantes; b) adaptação a situação de limitação que pode ocorrer em alguns casos e pela desenvoltura social, buscar novos meios de estar presente nas diversas situações que a vida oferece. Ao se falar em 48% dos pacientes que possuem um repertório mediano para auto exposição, devemos pensar que ele poderá ter dificuldade de falar da doença com outras pessoas e isso pode levá-lo a uma reclusão. Quando temos que 33% dos pacientes possuem autocontrole da agressividade moderado, também pode nos levar a pensar em possíveis alterações emocionais, pois o adoecimento requer adaptações ao longo da vida e será necessário um repertótio bom para enfrentar as mudanças. Ao analisar o BFP temos que 41% da amostra apresenta tendência moderada a vivenciar o sofrimento psicológico e a buscar por contatos sociais, como 68% apresentam de maneira moderada confiança ao outro, altruísmo e envolvimento em situações de risco e, 50% apresentam moderada motivação, perseverança e capacidade de planejamento em função de metas, isto nos faz pensar que estas pessoas possuem recursos em sua estrutura de personalidade para enfrentar mudanças na vida e que por isso é fundamental para os profissionais da área da saúde conhecerem o paciente e auxiliarem de acordo com suas necessidades. Em abertura a desconhecidos e situações novas temos que 36% apresentam flexibilidade e possibilidade de adaptação ao novo, um índice baixo, mas que frente aos demais recursos internos que possuem, isto poderá ser trabalho com a ajuda dos profissionais da saúde. No TPC a amostra apresentou predominância na cor verde, o que significa capacidade equilibrada para os contatos afetivos e sociais, isto indica que há possibilidades do paciente após o primeiro impacto com a noticia da doença, conseguir se estabilizar com a ajuda dos profissionais da saúde, pois ele está aberto ao contactos sociais, principalmente, porque temos um índice de 55% que demonstram amadurecimento e estabilidade emocional. Quando temos 32% da amostra demonstrando rigidez ou organização e 32% demonstrando certo grau de desorganização, cremos que não devemos nos preocupar acentuadamente, pois estas características podem estar ligadas a estruturas culturais, sociais, da própria idade ou até do próprio momento do adoecimento, já que não

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VII Congresso Internacional ASPESM avaliamos aqui, as questões de tempo de adoecimento e de limitações presentes, pois o objetivo era retratar o paciente quando ele chega a nossa Instituição para saber como podemos auxilia-lo daqui para frente no enfrentamento da doença.

Conclusão É possível verificar que de modo geral o perfil psicológico da amostra, apresenta uma entrega equilibrada das habilidades sociais ao meio, com traços de personalidade que indicam amadurecimento emocional, capacidade de adaptação ao meio, não apresentando desordens emocionais acentuadas, neste momento, o que poderá facilitar a aceitação da doença e o tratamento.

Implicações para a Prática Clínica Conhecer o perfil do paciente com EM é de fundamental importância para o tratamento, pois facilta a forma de intervenção da equipe multidisciplinar no tratamento de neurorreabilitação que o paciente necessitará desde o inicio do diagnóstico e ao longo da vida, pois sendo uma doença crônica demandará de tratamento constante. Devendo sempre fazer uma reavaliação dos testes pelo menos uma vez ao ano para o acompanhamento de possíveis alterações e sempre que necessário incluir os testes neuropsicológicos e para depressão, pois se sabe que os pacientes com EM podem apresentar distúrbios cognitivos e alterações de humor desde o inicio do adoecimento.

Referências Bibliográficas Alves, B. C. A., Angeloni, R. V., Azzalis, L. A., Pereira, E. C., Perazzo, F. F. & Rosa, P. C. P. (2014). Esclerose múltipla: revisão dos principais tratamentos da doença. Saúde e Meio Ambiente, 3(2), 19-34. Del Prette, Z.A.P. & Del Prette, A. (2009). Inventário de Habilidades Sociais – manual de aplicação, apuração e interpretação. 4ª ed.; São Paulo: Casa do Psicólogo. Feldman, C. (2002). Atendendo o paciente. 2ª ed. Belo Horizonte: Crescer. Giacomo, M.C.B. (coord), (2011). Esclerose Múltipla: O caminho entre pedras e flores. São Paulo: Atha. Nunes, C.H.S.S; Hutz, C.S. & Nunes, M.F.O. (2010). Bateria Fatorial de Personalidade – BFP: Manual Técnico. SãoPaulo: Casa do Psicólog,.

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VII Congresso Internacional ASPESM Polman, C.H et al. (2011). Diagnostic Criteria for Multiple Sclerosis: Revisions to the McDonald Criteria 2010. ANN NEUROL; 69:292–302. Tilbery, C.P. (2005). Esclerose Múltipla no Brasil: Aspectos Clínicos e Terapêuticos. São Paulo: Editora Atheneu. Villemor – Amaral, A.E. (2012). As Pirâmides Coloridas de Pfister. São Paulo: Casa do

Psicólogo.

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Joana Venâncio1 | Ana Torres2

Mestre em Psicologia da Saúde e Reabilitação Neuropsicológica; Psicóloga. E-mail: joanafvenancio@ua.pt 2 Doutorada em Psicologia; Psicóloga; Membro efetiva do CINTESIS, Professora Adjunta na Escola Superior de Enfermagem da Cruz Vermelha Portuguesa de Oliveira de Azeméis, 3720-126 Oliveira de Azeméis, Portugal. Email: anatorres@esenfcvpoa.eu 1

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Resumo Contexto: nas últimas décadas, o envelhecimento da população tem sido cada vez mais notório em portugal e no mundo, o que tem despertado um grande interesse nesta área. Esta fase da vida pode estar associada ao agravamento do estado de saúde, ao comprometimento cognitivo e à limitação funcional. Os conteúdos artísticos promovem estratégias para canalizar as emoções por meio da imaginação (gordonnesbit, 2015). A literatura indica que a estimulação multissensorial pode constituir uma boa medida de promoção do envelhecimento saudável (gordon-nesbit, 2015; overshott & burns, 2006 cit. In torres pires, 2008). Alguns estudos têm sugerido benefícios da arte e do mindfulness para a saúde e bem-estar dos idosos (lima, oliveira, & godinho, 2011; windle et al., 2014). Objetivo(s): o objetivo deste estudo é verificar o impacto de um programa de estimulação multissensorial (pem) nas emoções momentâneas de um grupo de idosos, em cada sessão e após 10 sessões de estimulação multissensorial. Metodologia: a amostra é constituída por dois grupos, o grupo de intervenção (gi=16) e o grupo de controlo (gc=17). O instrumento de avaliação aplicado foi a escala de avaliação das emoções (eas), bem como, foram solicitado relatos sobre quais os sentimentos e emoções que as sessões permitiam no final de cada sessão. Também foram colocadas questões abertas no pós-teste. Resultados:

os

resultados

evidenciaram:

(a)

a

diminuição

estatisticamente

significativa das emoções de valência negativa ao longo das sessões; (b) relatos e verbalizações mais positivos no decorrer no pem e no final do mesmo; e (c) maior número de verbalizações de valência positiva ao longo das sessões. Conclusões: este estudo evidencia a importância de implementação de pem com estratégias de mindfulness e arte nas instituições e centros de dia, de modo a diminuir as

emoções

negativas

experienciadas, bem como a proporcionar

relatos

e

verbalizações de valência mais positiva por parte dos idosos. Palavras-chave: estimulação multissensorial; arte; mindfulness; idosos.

Resumen Contexto: en las últimas décadas, el envejecimiento de la población ha sido cada vez más evidente en portugal y en el mundo, lo que ha despertado un gran interés en esta área. Esta etapa de la vida puede estar asociada con el empeoramiento del estado de salud, el deterioro cognitivo y la limitación funcional. El contenido artístico promover Viana do Castelo, Novembro de 2016


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VII Congresso Internacional ASPESM estrategias para encauzar las emociones a través de la imaginación (gordon-nesbit, 2015). La literatura indica que la estimulación multisensorial puede ser una buena medida para promover el envejecimiento saludable (gordon-nesbit, 2015; overshott y burns, 2006 cit en torres pires, 2008). Algunos estudios han sugerido beneficios de la técnica y la atención de la salud y el bienestar de las personas mayores (lima, oliveira, y godinho, 2011; windle et al, 2014). Objetivo(s): el objetivo de este estudio es evaluar el impacto de un programa de estimulación multisensorial (pem) las emociones momentáneas de un grupo de personas de edad avanzada en cada sesión y después de 10 sesiones de estimulación multisensorial. Metodología: la muestra se compone de dos grupos, el grupo de intervención (gi = 16) y grupo control (gc = 17). La herramienta de evaluación se aplicó la escala emociones valoración (eas) y nos dijeron historias sobre lo que los sentimientos y emociones que las sesiones permitieron al final de cada sesión. También se les preguntó abierta en las preguntas posteriores a la prueba. Resultados: los resultados mostraron: (a) una disminución estadísticamente significativa en emociones valencia negativa durante las sesiones; (b) los informes más positivos y verbalización durante el pem y el final de la misma; y (c) mayor número de verbalizaciones valencia positiva a lo largo de las sesiones. Conclusiones: Este estudio pone de relieve la importancia de la aplicación del PEM con las estrategias de atención plena e instituciones de arte y centros de día, con el fin de reducir las emociones negativas experimentadas, y proporcionar informes y verbalización de valencia más positivo para los ancianos. Descriptores: estimulación multisensorial; arte; mindfulness; ancianos.

Abstract Background: In the last decades, the aging of the population has been more and more notorious in Portugal and in the world, which has aroused great interest in this area. This phase of life may be associated with worsening of health status, cognitive impairment, and functional limitation. Artistic content promotes strategies to channel emotions through imagination (Gordon-Nesbit, 2015). The literature indicates that multisensory stimulation may be a good measure of promoting healthy aging (GordonNesbit, 2015, Overshott & Burns, 2006 cit. In Torres Pires, 2008). Some studies have

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VII Congresso Internacional ASPESM suggested benefits of art and mindfulness for the health and well-being of the elderly (Lima, Oliveira, & Godinho, 2011; Windle et al., 2014). Aim: The purpose of this study is to verify the impact of a Multisensory Stimulation Program (PEM) on the momentary emotions of a group of elderly individuals, in each session and after 10 sessions of multisensory stimulation.is to verify the impact of a Multisensory Stimulation Program (PEM) on the momentary emotions of a group of elderly individuals, in each session and after 10 sessions of multisensory stimulation. Methods: The sample consists of two groups, the intervention group (GI = 16) and the control group (GC = 17). The evaluation instrument applied was the Emotional Assessment Scale (EAS), as well as reports about the feelings and emotions that the sessions allowed at the end of each session. Also, open questions were posed in the post-test. Results: The results showed: (a) statistically significant decrease in negative valence emotions throughout the sessions; (b) more positive reports and verbalizations during the PEM and at the end of it; and (c) greater number of positive valence verbalizations throughout the sessions. Conclusions: This study highlights the importance of implementing EMP with strategies of mindfulness and art in institutions and day centers, to reduce negative emotions experienced, as well as to provide more positive valence reports and verbalizations on the part of the elderly. Keywords: multisensory stimulation; art; mindfulness; elderly.

Introdução O envelhecimento humano é um processo inevitável e, como tal, implica um processo de transformação e de mudança progressiva da estrutura biológica, psicológica e social (Ortiz, Ballesteros, & Carrasco, 2006). Algumas capacidades cognitivas, como a aprendizagem e a memória, diminuem com a idade (Organização Mundial de Saúde, 2005). A estimulação sensorial permite promover o envelhecimento saudável e contornar determinados fatores característicos do envelhecimento (Gordon-Nesbit, 2015; Martins, 2011; Overshott & Burns, 2006 cit. in Torres Pires, 2008). Nos últimos anos, a estimulação sensorial e cognitiva tem tido uma significativa importância na reabilitação dos sujeitos. Zimerman (2000) defende que para conseguir a diminuição dos efeitos adversos do envelhecimento, como a diminuição da memória, velocidade

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VII Congresso Internacional ASPESM de processamento, função executiva, entre outras, é através da estimulação, proporcionando aos idosos um aumento da qualidade de vida (QdV). Os conteúdos artísticos têm efeitos estimulantes e existem estudos que o evidenciam. A arte oferece estratégias para canalizar a frustração, a raiva, a deceção e o medo por meio da imaginação (Gordon-Nesbit, 2015). Assim, diversos estudos realizados têm demonstrado que a presença frequente em eventos culturais, tais como concertos, filmes, exposições de arte em museus, está associada a melhores taxas de sobrevivência (Bygren, Konlaan, & Johansson, 1996) e melhor auto perceção de saúde (Wilkinson, Waters, Bygren, & Tarlov, 2007). Windle e colaboradores (2014) defendem que as atividades baseadas nas artes, podem ajudar as pessoas com demência a viver numa melhor condição de saúde e de combate a aspetos negativos da doença. Os mesmos autores defendem o potencial destes programas para melhorar o bem-estar, a QdV, a função cognitiva, o pensamento criativo e a comunicação (incluindo a comunicação não-verbal), facilitando a reminiscência e o aumento da autoestima. A arte é tão estimulante que se incentiva intervenções de arteterapia. A arteterapia (e.g.,

contos,

pinturas,

escrita,

músicas)

enfatiza

o

desenvolvimento

do

autoconhecimento, que ao envolver o doente na arte, regista a sua individualidade e personalidade (Aguiar & Regina, 2010). A música apresenta capacidade de estimulação significativa de atenção e memória (Särkämö et al., 2008), influenciando o estado afetivo-emocional do indivíduo (Miranda & Godeli, 2003). A música é o estímulo que promove indicadores de saúde fisiológica e emocionais, integração social, comunicação, expressão emocional, afastamento da inatividade, do desconforto e da rotina quotidiana, e associações extramusicais (Clair, 1996 cit. in Miranda e Godeli, 2003). Posto isto, pode-se afirmar que o uso da música é significativo na intervenção terapêutica para idosos que apresentam várias patologias, como as demências (Riegler, 1980 cit. in Miranda & Godeli, 2003). O estudo de Murrock e Higgins (2009) indicou que a música evoca uma resposta psicológica que altera o humor e conduz a melhores resultados de saúde. O mindfulness é um conceito originário das práticas meditativas orientais e que se refere a uma forma específica de prestar atenção (Lima, Oliveira, & Godinho, 2011). Estes autores estudaram a promoção do bem-estar nos idosos institucionalizados, com recurso ao treino em mindfulness e destacam os benefícios da meditação mindfulness para adultos idosos, nomeadamente, a nível cognitivo, emocional, fisiológico e comportamental. Segundo Monti e colaboradores (2006), a intervenção arteterapia baseada em mindfulness (MBAT) é conceitualmente fundamentada nos princípios de

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VII Congresso Internacional ASPESM teoria de autorregulação (Leventhal, Zimmerman, & Gutmann, 1984 cit. in Monti et al., 2006), que fornece uma base para a compreensão de reações às perceções física e emocionais do bem-estar. Assim, o objetivo deste estudo é verificar o impacto de um Programa de Estimulação Multissensorial (PEM) nas emoções momentâneas de um grupo de idosos, em cada sessão e após 10 sessões de estimulação multissensorial.

Metodologia Estudo de metodologia mista, incluindo dados quantitativos e qualitativos, com pré e pós-teste, em idosos não demenciados. Numa fase inicial, foi aplicado, em forma de entrevista, o Mini Mental State Examination (MMSE) para avaliar o funcionamento cognitivo, dado que a amostra se foca em idosos não demenciados. Neste sentido, definiu-se critérios de inclusão e exclusão. Os critérios de inclusão são: idade superior a 65 anos e apresentar valores superiores no MMSE aos pontos de corte encontrados no estudo original. Já os critérios de exclusão para além dos valores abaixo do ponto de corte e da idade inferior a 65 anos, também a existência de défices de linguagem, auditivos ou visuais, que impedissem a participação e a realização das atividades, presença de perturbações psicológicas ou psiquiátricas ou características de personalidade que dificultem a participação no grupo, bem como idosos acamados. Assim, a amostra é constituída por 33 idosos com idades compreendidas entre 65 e 94

anos

(M=82.18,

DP=7.85),

não

se

verificando

diferenças

significativas

relativamente à distribuição por idades por desenho experimental [U=128.50, p>.05]. A amostra está dividida em dois grupos, o grupo de intervenção (GI=16) e grupo controlo (GC=17). Os grupos não diferem em relação a variáveis clínicas (doença e medicação prescrita). Relativamente às variáveis relacionadas com a arte, verificamos que há diferenças entre os dois grupos no gosto pela poesia, em que 75.8% gosta de poesia (χ2=5.48, p<.05), na frequência da poesia, em que 30.3% não lê poesia (U=82.50, p<.05) e da frequência da pintura, em que 48.5% pinta uma vez por semana (U=110.00, p<.05). No entanto, neste estudo ocorreu um drop-out de uma participante do sexo feminino, devido ao início de um quadro demencial que apresentava,

observando-se

desorientação

espacial

e

temporal,

passando

a

apresentar um dos critérios de exclusão. O presente estudo inclui uma fase de avaliação e uma fase de intervenção. A fase de avaliação consistiu na aplicação do questionário sociodemográfico e clínico, avaliado no pré-teste e no pós-teste; no pós-teste centravam-se questões acerca do programa. Já a fase de intervenção consiste na implementação do programa, ou seja, nas 10 Viana do Castelo, Novembro de 2016


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VII Congresso Internacional ASPESM sessões bissemanais, bem como na aplicação após cada sessão do instrumento EAS, para avaliar as emoções momentâneas. Teve-se também em consideração a recolha de dados qualitativos no final de cada uma das sessões e no fim do pós-teste. Salienta-se que na sessão pré-teste foram explicados aos participantes os objetivos do estudo, foi fornecido o formulário de consentimento informado, e consequente obtenção do mesmo, exceto aqueles que não sabiam assinar o nome (ficando essa anotação em vez da assinatura). Ressalta-se que foi assegurada a confidencialidade de toda a informação recolhida e fornecida a possibilidade de desistir do estudo em qualquer momento da investigação, por forma a garantir o tratamento ético dos participantes.

Foram,

ainda,

esclarecidas

algumas

dúvidas

que

surgiram,

nomeadamente ao nível da dificuldade das atividades, que era o principal receio dos idosos. Na sessão pós-teste foram ainda colocadas duas questões adicionais aos participantes, para controlar a influência de variáveis externas (acontecimentos de vida significativos e medicação) nos resultados experimentais, como por exemplo, “Teve algum acontecimento de vida significativo neste período e como esse acontecimento contribuiu para o seu estado atual?”, “Como se sentiu com as questões realizadas?”, “Que efeitos as sessões tiveram para si?”, “Considera que houve algum dano para si?” e “Sugestões futuras para este programa”. A análise quantitativa fezse com recurso ao Statistical Package for Social Science (SPSS 21.0). Foi realizada análise de conteúdo, como estratégia de análise qualitativa, das respostas obtidas às questões abertas.

Resultados Resultados Quantitativos Com vista a verificar as emoções experienciadas no final de cada sessão, utilizou-se o teste de Friedmann, e podemos observar que todas as emoções de valência negativa foram diminuindo significativamente ao longo das sessões. Todavia, as emoções de valência positiva não apresentaram alterações estatisticamente significativas, apesar de na emoção felicidade observarmos uma diferença tendencialmente significativa, no entanto, apresentarem uma tendência de aumento progressivo, comparando a evolução ao longo do programa.

Resultados de Observação Qualitativa Durante a realização do estudo foi possível registar algumas observações de ordem qualitativa que considerámos pertinentes no estudo, parte das quais foram objeto de

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VII Congresso Internacional ASPESM avaliação no questionário final, com questões abertas. Deste modo, na primeira sessão as verbalizações que tinham maior percentagem eram “boa” (25.0%) e “memórias antigas” (25.0%), na segunda sessão “boa” era a verbalização com maior percentagem (50.0%), na terceira sessão “bem-estar” (18.8%) e “tranquilidade” (18.8%), na quarta sessão “boa” (20.0%) e “satisfação” (20.0%), na quinta sessão “boa” (26.7%) e “agradável” (26.7%), na sexta sessão “boa” (21.4%) e “convívio” (24.1%), na sétima sessão “boa” (20.0%) e “satisfação” (20.0%), na oitava sessão “satisfação” (33.3%), na nona sessão “boa” (40.0%) e, por fim, na décima sessão “satisfação” (69.2%). Ressaltamos, também, que os idosos ao longo das sessões iam aumentando o numero de verbalizações, sentindo-se mais confiantes e com maior espírito de iniciativa. No início do estudo, foi possível observar que os idosos estavam sentados/parados entre 6 a 8 horas diárias. Com a implementação do programa de estimulação foi possível moverem-se e deslocarem-se para outro ambiente/sala durante 1 hora, duas vezes por semana. Inicialmente, os participantes verbalizavam que “a minha cabeça já não é o que era”, “sinto-me confusa e parada”, “por vezes, esqueço-me das coisas”, “sinto-me só”, “as palavras falham-me”, entre outras. No final do programa, registamos algumas observações, referidas pelos participantes, como por exemplo, “Estas atividades servem

para

conhecer

melhor

quem

somos”,

“Relembramo-nos

de

situações/memórias”, “Consigo ficar tranquila e feliz”, “Consciencializar-nos das nossas memórias” e “Momentos de compartilha. Relembrar os tempos antigos e trabalhamos a memória”. Acrescentamos, ainda, verbalizações referidas pelos responsáveis e chefias, como por exemplo, “os idosos sentiam-se tão bem com as atividades”, “até ficavam mais bem-dispostos e felizes”, “observava-se o bem-estar na cara deles”, “as atividades são uma mais-valia”.

Discussão Os resultados obtidos neste estudo evidenciam que a aplicação de um programa de estimulação multissensorial, que recorre à arte e estratégias baseadas em mindfulness, pode diminuir a experiência de emoções de valência negativas. Assim, os dados obtidos no nosso estudo dão suporte à ideia de que no término do programa as emoções são menos negativas do que ao início do programa, dado que as emoções de valência negativa diminuíram de forma estatisticamente significativa ao longo das sessões. Em contrapartida, as emoções de valência positiva, apesar de não

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VII Congresso Internacional ASPESM evidenciarem resultados estatísticos significativos, aumentaram no decorrer das sessões. Assim, podemos observar que o PEM permitiu vivenciar e experienciar emoções de valências menos negativas e persistir na experiência de emoções de valência positiva, o que nos indica que as sessões do PEM têm efeitos positivos a nível das emoções, dado que estas atividades permitem experienciar sensações de bemestar e de satisfação para com eles e para com os outros. Mas o PEM permitiu, também, estabelecer novas relações sociais e fortalecer as relações interpessoais já existentes. Estes resultados vêm corroborar a literatura, dado que existe uma relação positiva entre a satisfação e as atividades produtivas ou de lazer, sendo que as atividades

influenciam

a

satisfação

e

estão

relacionadas

com

o

facto

de

potencializarem e manterem certas dimensões do self, de forma benéfica (Matos, Branco, Carvalhosa, Silva, & Carvalhosa, 2005). Os mesmos autores acrescentam que o envolvimento em determinadas atividades pode promover o sentimento de capacidade, de controlo, de utilidade, a manutenção da autoestima, mas também, promover o relacionamento social. Deste modo, ser-se socialmente ativo fomenta bem-estar e, por conseguinte, satisfação com a vida. Além disso, as emoções estão relacionadas com o funcionamento físico e mental dos idosos, e influenciam o raciocínio, a atenção e a memória, bem como a tomada de decisão, a resolução de problemas e a criatividade (Grewal, Brackett, & Salovey, 2006). Por fim, o nosso estudo demonstra que no decorrer do PEM os relatos dos idosos são mais positivos, mas também, ao longo das sessões, os participantes iam revelando mais verbalizações, verbalizações essas de valência positiva. Estes resultados vêm corroborar a literatura. De acordo com Forgas (2002), as pessoas idosas que experimentam com frequência emoções positivas geram nelas próprias emoções positivas, e experienciando mais emoções positivas com maior frequência percebem e avaliam mais positivamente o comportamento das outras pessoas, realizam atribuições mais indulgentes e comportam-se de uma maneira mais confiante, otimista e generosa em situações sociais. Por isso, sentir emoções positivas ajuda a que as pessoas estejam mais disponíveis para interagir com as outras pessoas e a pensarem melhor. Posto isto, os idosos ao longo das sessões iam ficando mais confiantes, mais à vontade, sem receio de pronunciarem o que sentiam, daí no decorrer do programa, o número de verbalizações ser mais elevado.

Conclusão

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VII Congresso Internacional ASPESM O envelhecimento da população é uma realidade em Portugal e no mundo, tornandose, cada vez mais, um fator preocupante e alvo de algumas pesquisas no campo da saúde e da psicologia. E, como cuidar da pessoa idosa é valorizar a nossa história e o futuro, é necessário permitir e promover um maior bem-estar e qualidade de vida a esta população. Deste modo, o presente estudo é de enorme importância devido a esta necessidade de “dar mais vida aos anos” (Torres Pires, 2008) e muito existe ainda para fazer nesta área. Deste modo, esta é, ainda, uma área de investigação pouco explorada relativamente à estimulação multissensorial baseada em arte, mas também com recurso de estratégias de mindfulness em idosos, tanto a nível nacional como internacional. Neste sentido, este estudo reporta à primeira aplicação de um programa de estimulação multissensorial com conteúdos artísticos relacionado com estratégias baseadas em mindfulness.

Implicações para a Prática Clínica Este estudo apresenta uma contribuição clínica no aumento da vivência/experiência de emoções de valências menos negativas e no aumento de relatos e verbalizações mais positivas. Mas também, evidencia a importância de implementação de PEM com estratégias de mindfulness e arte nas instituições e centros de dia, de modo a diminuir as

emoções

negativas

experienciadas, bem como a proporcionar

relatos

e

verbalizações de valência mais positiva por parte dos idosos. É importante, ainda, salientar que as atividades implementadas são de fácil realização e de custo reduzido. Atendendo ao estudo realizado, sugere-se a implementação deste tipo de estratégias ou do programa desenvolvido a um número alargado de idosos, bem como, se sugere a continuação da monitorização dos resultados deste tipo de programa, com vista a enriquecer as conclusões encontradas neste estudo preliminar.

Referências Bibliográficas Aguiar, A. P., & Regina, M. (2010). Promovendo a qualidade de vida dos idosos através da arteterapia. Revista de Pesquisa: Cuidado É Fundamental Online, 2, 710–713. Bygren, L. O., Konlaan, B. B., & Johansson, S. E. (1996). Attendance at cultural events, reading books or periodicals, and making music or singing in a choir as determinants for survival: Swedish interview survey of living conditions. British Medical Journal, 313(1), 1577–1580. Retrieved from

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VII Congresso Internacional ASPESM Organização Mundial de Saúde. (2005). Envelhecimento Ativo uma Política de Sáude. Retrieved October 15, 2015, from http://www.prosaude.org/publicacoes/diversos/envelhecimento_ativo.pdf Ortiz, L. A., Ballesteros, J. C., & Carrasco, M. M. (2006). Psiquiatría Geriátrica (2a). Barcelona: Elsevier. Särkämö, T., Tervaniemi, M., Laitinen, S., Forsblom, A., Soinila, S., Mikkonen, M., … Hietanen, M. (2008). Music listening enhances cognitive recovery and mood after middle cerebral artery stroke. Brain, 131(3), 866–876. http://doi.org/10.1093/brain/awn013 Torres Pires, A. C. S. (2008). Efeitos dos videojogos nas funções cognitivas da pessoa idosa. Tese de Mestrado. Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Retrieved from http://hdl.handle.net/10216/22139 Wilkinson, A. V., Waters, A. J., Bygren, L. O., & Tarlov, A. R. (2007). Are variations in population health associated with attending cultural activities in the United States? BMC Public Health, 7, 226. Windle, G., Gregory, S., Newman, A., Goulding, A., O’Brien, D., & Parkinson, C. (2014). Understanding the impact of visual arts interventions for people living with dementia: a realist review protocol. Systematic Reviews, 3(1), 91. http://doi.org/10.1186/2046-4053-3-91 Zimerman, G. I. (2000). Velhice: aspectos biopsicossociais. Porto Alegre: Artes Médicas.

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Lídia Cabral1 | Manuela Ferreira2 | G. L Soares3 | Isabel Bica4 | Amadeu Gonçalves5

Doutora; professora coordenadora; Instituto Politécnico de Viseu, Escola Superior de Saúde, CI&DETS, Portugal- lcabral@essv.ipv.pt 2 Doutora; professora coordenadora; Instituto Politécnico de Viseu, Escola Superior de Saúde, CI&DETS, Portugal - mmcferreira@gmail.com 3 Gestora Educacional, Maceió, Brasil - gildelisboa@hotmail.com 4 Doutora; professora Adjunta, Instituto Politécnico de Viseu, Escola Superior de Saúde, CI&DETS, Portugalisabelbica@gmail.com 1

Doutor; professor Adjunto, Instituto Politécnico de Viseu, Escola Superior de Saúde, CI&DETS, Portugalagoncalvessv@hotmail.com 5

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Resumo Contexto: O stress foi considerado a segunda causa mais frequente dos problemas de saúde relacionados com o trabalho, tendo atingindo 22% dos trabalhadores da união europeia em 2005. É um problema nas empresas e organizações públicas e os seus efeitos tem sido abordados em várias pesquisas pela implicação que tem na saúde física e mental dos trabalhadores e absentismo laboral. Objetivo(s): Determinar a influência das variáveis sócio demográficas – idade, sexo, estado civil, escolaridade e género na vulnerabilidade ao stresse e analisar a relação das variáveis profissionais – vínculo, carga horária e salário na vulnerabilidade ao stresse dos gestores educativos. Metodologia: Estudo quantitativo exploratório, descritivo e correlacional numa amostra de 212 gestores educacionais vinculados à secretaria de estado da educação de maceió/al. Como instrumento de colheita de dados utilizamos um questionário para caracterização das vaiáveis sociodemográficas e profissionais e a escala 23 qvs – de adriano vaz serra (2000). Resultados: Amostra constituída essencialmente por mulheres (56,6%), casadas (60,4%) e com uma média de idades de 47,6 anos. A maioria concursada (87,8%) com 40 horas de trabalho (68,8%) e deslocam-se a pé para a escola 59,9%. Constatamos

que

(36,3%)

dos

sujeitos

se

encontravam

em

situação

de

vulnerabilidade ao stresse. Encontramos diferenças estatisticamente significativas para as variáveis sexo (p= 0,03), escolaridade (p= 0,04) e estado civil (p< 0,05). As demais variáveis não apresentam diferença significativas (p> 0,05). Conclusões: À semelhança de muitas outras questões relacionadas com a saúde mental, o stresse é frequentemente objeto de incompreensão e estigmatização. Os resultados levam-nos a afirmar que as variáveis sócias demográficas e profissionais influenciam o stresse ocupacional/laboral. Assim, é fundamental que as escolas, tenham em atenção o perfil sociodemográfico dos gestores educacionais na organização e gestão do trabalho Palavras chave: Vulnerabilidade, Estresse, Estresse Laboral E Gestores Educacionais

Resumen Contexto: El estrés se considera la segunda causa más frecuente de problemas de salud relacionados con el trabajo, después de haber alcanzado el 22% de los trabajadores de la unión europea en el año 2005. Se trata de un problema en las empresas y organizaciones públicas y sus efectos se han abordado en varios estudios Viana do Castelo, Novembro de 2016


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VII Congresso Internacional ASPESM por implicación que tiene sobre la salud física y mental de los trabajadores y el absentismo. Objetivo (s): Para determinar la influencia de las variables sociodemográficas - la edad, el sexo, el estado civil, la educación y la vulnerabilidad al estrés de género y analizar la relación de las variables profesionales - contrato, horas de trabajo y el salario de la vulnerabilidad al estrés los administradores de la educación. Métodos cuantitativos estudio exploratorio, descriptivo y correlacional en una muestra de 212 gestores de la educación vinculados con el departamento de educación de maceió / al estado. Como instrumento de recolección de datos un cuestionario utilizado para caracterizar los vaiáveis sociodemográficos y profesionales y escala de 23 qvs adriano vaz serra (2000). Resultados: La muestra compuesta principalmente por mujeres (56,6%), casados (60,4%) con una edad media de 47,6 años. La mayoría concursada (87,8%) con 40 horas de trabajo (68,8%) y los viajes a pie a la escuela 59,9%. Observamos que (el 36,3%) de los sujetos se encontraban en una situación de vulnerabilidad al estrés. Se encontraron diferencias estadísticamente significativas para las variables sexo (p = 0,03), el nivel educativo (p = 0,04) y el estado civil (p <0,05). Las otras variables no mostraron diferencias significativas (p> 0,05). Conclusiones: Al igual que con muchos otros temas relacionados con la salud mental, el estrés es a menudo objeto de incomprensión y estigmatización. Los resultados nos llevan a afirmar que los miembros de las variables demográficas y profesionales influyen en el estrés ocupacional / lugar de trabajo. Por tanto, es vital que las escuelas tienen en cuenta el perfil sociodemográfico de los administradores de la educación en la gestión de la organización y el trabajo Descriptores:

Vulnerabilidad,

Estrés,

Estrés

Laboral;

Administradores

de

la

Educación

Abstract Background: Stress was considered the second most frequent cause of work-related health problems, reaching 22% of eu workers in 2005. It is a problem in companies and public organizations and its effects have been addressed in several studies by the implication that it has on the physical and mental health of the workers and absenteeism. Objective: To determine the influence of socio - demographic variables - age, sex, marital status, schooling and gender in the vulnerability to stress and to analyze the

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VII Congresso Internacional ASPESM relationship of the professional variables - bond, workload and salary in the vulnerability to stress of educational managers. Methodology: Exploratory, descriptive and correlational quantitative study in a sample of 212 educational managers linked to the state secretariat of education of maceió / al. As a data collection instrument we used a questionnaire to characterize sociodemographic and professional variables and the 23 qvs scale - by adriano vaz serra (2000). Results: The sample consisted mainly of women (56.6%), married (60.4%) and had a mean age of 47.6 years. The majority (87.8%) had 40 hours of work (68.8%) and they moved to the school 59.9%. We found that (36.3%) of the subjects were in situations of vulnerability to stress. We found statistically significant differences for the variables gender (p = 0.03), schooling (p = 0.04) and marital status (p <0.05). The other variables did not present significant differences (p> 0.05). Conclusions: Like many other mental health issues, stress is often the subject of misunderstanding and stigmatization. The results lead us to affirm that demographic and occupational social variables influence occupational / occupational stress. Thus, it is fundamental that the schools take into account the sociodemographic profile of educational managers in the organization and management of work

Keywords: Vulnerability, Stress, Work Stress and Educational Managers

Introdução As constantes mudanças no campo da educação, os novos modelos sócio educacional, as novas metodologias e tecnologias, podem conduzir a doenças psicossomáticas pelo sentimento de incapacidade de solucionar ou enfrentar o novo. Também a crise, e o seu impacto, ao nível da saúde, física e mental dos profissionais de educação, assumem-se como um tema relevante por profissionais das mais diversas áreas de conhecimento. O termo vulnerabilidade ao stresse começa por ser usado por profissionais da saúde na década de 90, e é ainda um termo em construção. De acordo com Czeresnia e Freitas (2009), este conceito é, ao mesmo tempo, construto e construtor da ampliação da percepção sobre um fato e significa a possibilidade de exposição das pessoas ao adoecimento podendo acarretar maior susceptibilidade à infecção e ao adoecimento. Para Mourufuse et al (2005) stresse é utilizado como sinónimo de cansaço, dificuldade, frustração, ansiedade, desamparo, desmotivação colocando o indivíduo

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VII Congresso Internacional ASPESM susceptível a doenças psicossomáticas. Segundo Vaz Serra (2007) “ninguém está livre do estresse”, por isso, é necessário que o indivíduo se fortaleça em relação ao desempenho de suas atitudes/acções do cotidiano, além das turbulências causadas nas relações interpessoais e nos desafios da sociedade contemporânea. Conforme Lipp (2010) o estresse aparece progressivamente, diante das pressões sofridas no trabalho, na vida familiar, no cotidiano escolar podendo desencadear doenças e trazer consequências à saúde. Malagris & Fiorito, (2006) refere que a Organização Mundial de Saúde coloca os problemas cardiovasculares, em primeiro lugar no ranquing das doenças profissionais e em segundo as perturbações psicossomáticas relacionadas com o estresse, que atingem mais de 50% dos trabalhadores. O termo stresse descreve o estado de vulnerabilidade biológica que se expressa clinicamente com cansaço, insónia, instabilidade, irritabilidade, ansiedade e outras características de difícil descrição que podem confundir-se com depressões, angústia e outras patologias psiquiátricas bem definidas. As fontes do estresse podem ser: Organizacionais:

Referem-se

ao trabalho,

(ambiguidade,

conflito do papel,

dificuldade em conciliar o trabalho com a família), o tipo de liderança (estilo, objetivos pouco claros e chefias mal preparadas), as relações de trabalho (falta de aceitação e reconhecimento do trabalhador pelos colegas, superiores ou subordinados), a estrutura e o clima organizacional (hierarquia, tomada de decisão, insuficiente comunicação e insegurança do emprego), e as condições físicas (o espaço, os recursos, a temperatura, o ruído e a falta de privacidade). Extra organizacionais: Situações que ocorrem ao longo da vida e que quando em excesso podem produzir uma resposta fisiológica, psicológica e comportamental, tendo impacto negativo ao nível individual e organizacional. O stresse profissional emerge da relação entre o indivíduo e a situação em que a pressão do trabalho e da organização, pode produzir consequências psicológicas, fisiológicas e comportamentais Vaz Serra (2005). Actualmente, na escola é preciso enfrentar problemas de violência social, ordem escolar, como drogas, prostituição na adolescência, problemas familiar, mau relacionamento com os colegas no trabalho e, até mesmo com o gestor, de modo a evitar o estresse. A função do gestor educacional, hoje, é compartilhada, tornando-se necessário um desdobramento da liderança em (co) liderança. Assim, o exercício de um líder requer competências

específicas

e

que

demandam

de

capacitação

continuada

no

desenvolvimento do profissional, para cada vez melhor e de forma mais consistente,

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VII Congresso Internacional ASPESM ser capaz de motivar, orientar e coordenar pessoas para o trabalho e aprender, de modo colaborativo. O impacto de um stressor dependerá das avaliações cognitivas da pessoa sobre o nível de ameaça e da sua capacidade de responder à ameaça (Krumrei, Mahoney & Pargament, 2011). Camelo e Angerami (2004) exemplificam como reacções físicas do stresse o aumento de sudorese, tensão muscular, taquicardia, hipertensão, aperto da mandíbula, ranger de dentes, hiperatividade, mãos e pés frios e náuseas. Os sintomas psicológicos de reacção ao estresse incluem ansiedade, tensão, angústia, insónia, alienação, dificuldades interpessoais, dúvidas em relação a si mesmo, preocupações excessivas, inabilidade de concentrar-se em assuntos não relacionados ao stressor, dificuldade para relaxar, tédio, ira, depressão e hipersensibilidade emotiva Afonso & Gomes, (2009) e Pinheiro & Lipp, (2009).

Metodologia Após a devida autorização, a recolha de dados foi efetuada em 212 gestores educacionais de 108 ESCOLAS da rede Estadual da Educação da Secretaria de Estado da Educação de Maceió/AL. Utilizamos um questionário de caracterização socio demográfica e o QVS 23 elaborado e validado por Adriano Vez Serra (2000) e constituise um instrumento de autoavaliação com o objetivo de avaliar a vulnerabilidade que o indivíduo apresenta perante uma situação indutora de stress. Escala de tipo Likert, com cinco classes de respostas com valor atribuído que varia entre 0 e 4, correspondendo a pontuação mais elevada aos aspetos mais negativos da descrição do indivíduo. Quanto mais elevada a cotação final, maior a vulnerabilidade ao stress. Cada fator traduz o seguinte significado: Fator 1: perfeccionismo e intolerância à frustração; Fator 2: Inibição e dependência funcional; Fator 3: Carência de apoio social; Fator 4: Condições de vida adversa; Fator 5: Dramatização da existência; Fator 6: Subjugação e Fator 7: Deprivação de afeto e rejeição.

Resultados A amostra com média de idade de 47,6 (±8,2) anos, entre os 28 e 63 anos, essencialmente mulheres (56,6%), casadas (60,4%) e com especialização (52,4%). Quanto a situação funcional e regime de trabalho, a maioria era concursada (87,8%) e com 40 horas de trabalho (68,9%). As demais características da amostra são apresentadas na tabela 1.

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VII Congresso Internacional ASPESM Tabela 1- caracterização da amostra quanto a variáveis sociodemográficas Variáveis Sexo Faixa etária

Estado civil

Escolaridade

Situação funcional Carga horária

Salário

Acesso

Masculino Feminino 25 a 40 41 a 55 Acima de 55 Solteiro Casado Divorciado Viúvo Superior Especialização Mestrado Concursado Efetivado 20 horas 40 horas 60 horas Até R$ 1.200,00 Entre R$ 1.201,00 e R$ 3.400,00 Acima de R$ 3.400,00 A pé Carro próprio

n 42 120 50 121 41 38 128 32 14 95 111 6 186 9 19 146 47 22 143 47 127 85

% 43,4 56,6 23,6 57,1 19,3 17,9 60,4 15,1 6,6 44,8 52,4 2,8 87,7 4,2 9,0 68,9 22,2 10,4 67,5 22,2 59,9 40,1

Tabela 2- Comparação da média do escore total do QVS-23, de acordo com as variáveis sociodemográficas Variáveis

Sexo Faixa etária

Estado civil Escolaridade

Situação funcional Carga horária

Salário

Acesso

Masculino Feminino 25 a 40 41 a 55 Acima de 55 Solteiro Divorciado Viúvo Casado/em união estável Superior Especialização Mestrado Contratado Concursado Efetivado 20 horas 40 horas 60 horas Até R$ 1.200,00 Entre R$ 1.201,00 e R$ 3.400,00 Acima de R$ 3.400,00 A pé Carro próprio

QVS23 Média 41,8 39,0 41,0 40,3 38,9 41,1 39,6 40,7 40,3 30,0 44,2 40,1 36,0 39,1 40,2 40,7 37,8 40,4 40,7 40,0 40,5

QVS-23 ±dp

QVS-23 p

6,5 12,4 12,6 9,5 9,9 9,9 10,6 8,7 11,1 15,3 5,4 10,5 13,0 10,1 10,4 10,6 9,8 10,4 10,6 10,6 10,0

0,03 0,59

0,29 0,04

0,13 0,87

0,51

0,74

No tocante ao questionário 23 QVS, a média foi de 40,1 (±9,2) pontos, variando de 20 a 68 pontos.

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VII Congresso Internacional ASPESM Tomando por base a ocorrência de vulnerabilidade ao estresse, considerando o ponto de corte de 43 pontos, encontrou-se que 77 (36,3%) sujeitos se encontravam nessa situação, conforme figura 1.

Figura 1- caracterização da amostra quanto a presença de vulnerabilidade ao stresse.

A tabela 3 mostra a distribuição das respostas das questões relativas do QVS-23. As maiores proporções de reposta “concorda totalmente” foram encontradas nas questões Q1 (30,7%), Q17 (33,0%) e Q22 (26,9%). Para a resposta “discordo totalmente”, as questões mais referidas foram as Q5 (20,3%), Q20 (14,6%) e Q21 (25,9%). Por fim, na análise de regressão linear múltipla, permaneceram no modelo final ajustado as variáveis escolaridade e situação funcional. Quanto à escolaridade, tomando como base os sujeitos com mestrado, aqueles que tinham apenas ensino superior ou especialização estavam em situação de pior percepção de estresse, ou seja, aparentemente uma maior escolaridade pode significar um efeito protetor quanto a maior vulnerabilidade ao estresse. Em relação a situação funcional, encontrou-se que apenas a categoria contratado foi fator preditivo do escore total do QVS, sugerindo que essa categoria pode estar em pior situação quanto a vulnerabilidade ao estresse, conforme tabela 3. Tabela 3- Análise de regressão linear múltipla para identificação dos factores preditores do escore total do QVS-23 Variáveis Sexo

Masculino

β 2,080

p 0,15

IC 0,78

95% 4,94

Escolaridade

Feminino Superior

0 9,480

0,03

0,91

18,04

Especialização

9,388

0,03

0,86

17,90

-

-

-

Mestrado

0

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Situação funcional

Contratado

7,169

0,04

1,24

15,58

Concursado

3,419

0,33

3,56 -

10,40

Efetivado

0

-

-

Discussão/Conclusões No atual contexto societário, “ninguém está livre do estresse” Adriano Serra Vaz (2005). Neste sentido, evidencia que o indivíduo sente-se em estresse quando está perante um acontecimento que para si é significativo, diante das exigências impostas as suas aptidões e os recursos sociais para enfrentá-lo. Constatou-se, que as variáveis sócias demográficas e as varáveis profissionais influenciam o estresse ocupacional/laboral, fenómeno constantemente associado à saúde do trabalhador e a produtividade das organizações. Os resultados, evidenciam uma amostra formada por mulheres (56,6%), casadas (60,4%) e com especialização (52,4%), concursada (87,8%) e com 40 horas de trabalho (68,8%). Para Takahashi (2009), os homens apresentaram médias superiores nos fatores pressão no trabalho, clima e funcionamento organizacional e geral. O estudo de Ambiel et al. (2012) apresentou resultados semelhantes, mostrando que homens são mais vulneráveis ao estresse relacionado à infraestrutura e rotina no ambiente de trabalho do que as mulheres. No entanto, para Calais et. al. (2007), Lipp (2001) e Noronha e Fernandes (2007) as mulheres apresentaram maior nível de estresse. Calais, (2007) concluiu que, enquanto 79,30% das mulheres possuía sintomas significativos de estresse, para os participantes do sexo masculino a percentagem era de 51,72%. Já Ambiel et al. (2012) conduzem à reflexão no sentido de que, independentemente da amostra, não existe um padrão contínuo de vulnerabilidade ao estresse entre os géneros. Dessa forma, a vulnerabilidade é uma variável pessoal, independentemente do ambiente de trabalho em que as pessoas estão inseridas. Takahashi (2009) evidenciou que entre os participantes do género masculino e da faixa etária de 30 a 39 anos apresentaram maior susceptibilidade ao stresse. Noronha e Fernandes (2007) também encontram correlação positiva entre a escala de estresse e a idade, revelando que pessoas com mais idade tendem a ser mais vulneráveis. Na Escala 23 QVS, a média foi de 40,1 pontos, variando entre 20 a 68 pontos. Tomando por base a ocorrência de vulnerabilidade ao estresse e, considerando o ponto

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VII Congresso Internacional ASPESM de corte de 43 pontos (23QVS), encontrou-se que 77 (36,3%) dos indivíduos se encontram nessa situação. As questões relativas à Escala 23 QVS, apontou que as maiores proporções de respostas “concordo totalmente” foram encontradas Q1 (30,7%); Q17 (33,0%); Q22 (16,96%). Para as respostas “discordo totalmente”, as questões referidas foram as Q5 (20,3%); Q20 (14,6%) e, Q21 (25,9%). Face às evidências pode se perceber que os 212 gestores e adjuntos pesquisados apresentaram nível de estresse significativo de 36.3%) quando se refere à amostra pesquisada. A vulnerabilidade ao estresse laboral esteve de forma estatística associada às variáveis sociodemográficas e profissionais focadas na emoção, identificando essas variáveis como fator de risco, no ambiente de trabalho. Nos estudos pesquisados as pessoas que assumem ocupação com altos cargos têm mais probabilidade de stresse, Assim sendo, é fundamento que as organizações, busquem alternativas para aliviar ou minimizar os sintomas estressantes gerados no ambiente de trabalho.

Referências Bibliográficas AFONSO, J. M. P., & Gomes, A. R. (2009). Stress ocupacional em profissionais de segurança pública: um estudo com militares da Guarda Nacional Republicana. Psicologia: Reflexão e Crítica, 22 (2),294-303. AMBIEL, R. A. M., Santos, A. A. A, & Sousa, A. C. (2012). Trabalhadores com deficiência auditiva: relações entre vulnerabilidade ao estresse e satisfação no trabalho. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, 3 (1),2-23. CALAIS, S. L, Carrara, K., Brum, M. M., Batista, K., Yamada, K. J., & Oliveira, S. R. J. (2007). Stress entre calouros e veteranos de jornalismo. Estudo Psicologia (Campinas), 24(1),69-77. CAMELO, S. H. H., & Angerami, E. L. S. (2004). Sintomas de estresse nos trabalhadores atuantes em cinco núcleos de saúde da família. Revista Latino Americana de Enfermagem, 12(1),14-21. CZERESNIA, D e FREITAS, CM (orgs.) (2009). Promoção da Saúde: conceitos, reflexões e tendências [online] 2end. Rev, and enl. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, http://books.scielo.org. KRUMREI, E., Mahoney, A., & Pargament, K. (2011). Spiritual Stress and Coping Model of Divorce: A Longitudinal Study, 25 (6), 973–985. LIPP, M.E.N, (2010). Mecanismos Neuropsicofisiológico do Strss: Teoria e Aplicação Clínica, 3ª ed.. São Paulo. MALAGRIS, L., E, & Fiorito, A., C. (2006). Avaliação do nível de stress de técnicos da área de saúde. Estudos de psicologia, 23 (4), 391-398. Viana do Castelo, Novembro de 2016


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A.

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Esquemas

mentais

e

vulnerabilidade

ao

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Rafaela Meira Barbosa1 | Sofia de Lurdes Rosas da Silva2

Mestre; Gerontóloga; Caminho de Retortes n.º 6, 4905-254 Deão – Viana do castelo. E-mail: rafaelameira2008@hotmail.com 2 Doutor; Professora Adjunta; Docente, Instituto Politécnico de Coimbra, Escola Superior de Educação, Rua Dom João III - Sólum, 3030-329 Coimbra, Portugal. Email: sofiace@esec.pt 1

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Resumo Contexto: nem sempre o envelhecimento ocorre de forma saudável, podendo assumir uma trajetória patológica. Nestas situações, a pessoa necessita de cuidados, muitas vezes prestados por cuidadores informais. Uma vez que o ato de cuidar nem sempre se revela fácil e pode apresentar um impacto negativo ao nível da saúde física e mental dos cuidadores, têm surgido programas destinados a apoiá-los e a aliviar-lhes a sobrecarga. Porém, estas intervenções, assim como os estudos sobre os seus benefícios, são ainda reduzidas. Objetivo(s): o presente estudo procurou analisar, em cuidadores informais, os efeitos de um programa de suporte psicoeducativo ao nível da perceção das dificuldades, estratégias de coping e satisfação inerentes ao ato de cuidar da pessoa idosa. Metodologia: seguindo um design não-experimental, foram administrados o Índice Para Avaliação das Satisfações do Cuidador (CASI), O Índice Para Avaliação Das Dificuldades Do Cuidador (CADI), E O Índice De Avaliação Das Estratégias De Coping Do Cuidador (CAMI), em dois grupos de cuidadores (a frequentar ou não um programa de apoio psicoeducativo). Resultados: a análise dos dados obtidos permitiu concluir que existem diferenças entre os cuidadores informais com e sem apoio, sendo que os cuidadores que frequentam o programa percecionam mais dificuldades no ato de cuidar, mas utilizam com mais eficiência estratégias de coping e conseguem sentir-se mais satisfeitos com a prestação de cuidado. Conclusões: apesar das limitações deste estudo, os dados obtidos advogam pelo desenvolvimento deste tipo de programas. Palavras-chave:

cuidadores

informais;

sobrecarga

subjetiva;

programa

psicoeducativo.

Resumen Contexto: el envejecimiento no siempre se produce de manera saludable, pudiendo tomar una trayectoria patológica. Ante esta situación, la persona necesita de cuidado, a menudo proporcionada por lo cuidador informal. Una vez que cuidar no es fácil y puede tener un impacto negativo en la salud física y mental de los cuidadores, se han desarrollado programas para apoyarlos y aliviarlos de la carga sentida. A pesar, intervenciones tales y estudios sobre sus beneficios, quedan reducidos. Objetivo(s): este estudio examinó los posibles efectos de un programa de apoyo psicoeducativo en la percepción de los cuidadores informales de sus dificultades de Viana do Castelo, Novembro de 2016


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VII Congresso Internacional ASPESM cuidar, de la efectividad de sus estrategias de coping y de su satisfacción con la prestación de cuidado a la persona anciana. Metodología: a través de un diseño no-experimental, se administró en dos grupos de cuidadores (que participaban o no en un programa de apoyo psicoeducativo) el Índice de Evaluación de la Satisfacción Del Cuidador (CASI), El Índice de Evaluación de las Dificultades Del Cuidador (CADI), y el Índice de Evaluación de las Estrategias de Coping Del Cuidador (CAMI). Resultados: los datos permitirán concluir que existen diferencias entre los cuidadores informales con y sin apoyo: los con apoyo perciben más dificultades en la prestación de cuidado, pero usan de estrategias de coping más eficientemente y se sienten más satisfechos con lo cuidado que proporcionan. Conclusiones: a pesar las limitaciones de este estudio, los datos abogan por el desarrollo de este tipo de programas. Descriptores: cuidadores informales; carga subjetiva; programa psicoeducativo.

Abstract Background: ageing does not always occur in a healthy way, and can take a pathological path. In these situations, the person needs for care, often provided by informal caregivers. Since providing care is not always easy and can have a negative impact on caregivers’ physical and mental health, programs have been developed to support and relieve their burden. However, these interventions, as well as studies on their benefits, are still scarce. Aim: the present study sought to analyze the effects of a psychoeducational support program on informal caregivers’ perceived difficulties towards care, perceived efficiency when using coping strategies, and satisfaction from taking care of the elderly person. Methods: using a non-experimental design, we administered the Index For Assessment Of Caregiver Satisfactions (CASI), The Index For Assessment Of Difficulties Of The Caregiver (CADI), And The Index For Evaluation Of Ways As The Care Provider Face The Difficulties (CAMI), in two groups of caregivers (attending or not a psychoeducational support program). Results: data analysis allowed us to conclude that there are differences between informal caregivers, with and without support: those who attend the program perceive more difficulties in the act of providing care, but use coping strategies more efficiently and feel more satisfied with care provision.

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VII Congresso Internacional ASPESM Conclusions: Despite this study limitations, data obtained advocate for the development of this type of programs. Keywords: Informal caregivers; Subjective burden; Psychoeducational program.

Introdução Tem sido exaustivamente relatado na literatura que o fenómeno do envelhecimento da população mundial, em crescimento acelerado sobretudo nos países com melhores condições de vida ou desenvolvidos, está na ordem do dia (Vilar, Sousa, Firmino, e Simões, 2016), sendo também frequentemente referido que tal fenómeno coloca às sociedades vários desafios do ponto de vista político, económico e social. A expansão do fenómeno do envelhecimento, a que Portugal não é imune (INE, 2014), tem captado o interesse por parte de organizações, políticos e profissionais, tanto a nível nacional como a nível internacional. Em particular tem-se defendido a necessidade de implementar políticas e práticas promotoras de envelhecimento ativo (Organização Mundial da Saúde [OMS], 2005), sendo ideal que o envelhecimento ocorra, tanto quanto possível, de forma saudável e bem-sucedida. Contudo, o envelhecimento nem sempre ocorre de forma saudável, podendo assumir uma trajetória patológica, que exige a prestação de cuidados específicos (Félix, 2010). Em Portugal, esses cuidados podem ser providenciados em contexto institucional ou no domicílio, muito embora se verifique uma tendência de aumento da procura de apoio junto de instituições especializadas (Ministério da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, 2014). Como refere Brito (2000), alterações sociais vieram condicionar a capacidade das famílias para cuidar dos seus idosos. Apesar destas mudanças, são ainda em número considerável os cuidados prestados no domicílio, na sua maioria assumidos por mulheres com algum grau de parentesco ou proximidade para com a pessoa idosa (Figueiredo e Sousa, 2008; Sequeira, 2013). Sabe-se que o ato de cuidar de alguém, sobretudo em situação de perda de autonomia e de independência, é extremamente difícil e nem sempre uma experiência positiva, exigindo do cuidador um processo de ajustamento às mudanças da pessoa cuidada (Gonçalves, 2008; Félix, 2010). Embora nem todos os cuidadores informais percecionem o ato de cuidar de forma negativa (e.g. Loureiro, 2009; Figueiredo, 2007), de um modo geral, diferentes estudos apontam que estes sofrem de transformações diversas. São referidas, entre outras, alterações na vida pessoal, familiar, profissional e social, problemas financeiros, aumento da morbilidade, sobrecarga física e sobrecarga mental (Figueiredo, 2007; Figueiredo e Sousa, 2008;

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VII Congresso Internacional ASPESM Gomes e Mata, 2012; Santos, Sousa, Brasil, e Dourado, 2011; Saraiva, 2011; Sequeira, 2013). No entanto, como alerta Figueiredo (2007), o ato de cuidar e os seus efeitos no cuidador é um fenómeno complexo, que não se limita a aspetos negativos. A par das dificuldades sentidas, com frequência se verifica a satisfação em prestar cuidado. Em resposta à necessidade de alívio da sobrecarga subjetiva (i.e., perceção que o cuidador tem acerca dos efeitos emocionais colocados pelas exigências inerentes à prestação de cuidados), em Portugal têm-se desenvolvido alguns programas de apoio psicoeducativo, muito embora se tratem ainda de iniciativas localizadas, circunscritas à vontade de técnicos sensibilizados para a problemática e à disponibilidade dos cuidadores. Estas intervenções pretendem, por um lado, educar os cuidadores fornecendo informação sobre patologias associadas ao envelhecimento, de como prestar cuidados e de como cuidar de si próprio (Gonçalves e Sampaio, 2011). Por outro, estas iniciativas procuram também providenciar suporte emocional ao criar um ambiente acolhedor e confiável onde se pode desabafar e partilhar experiências.

Metodologia Design O presente estudo procurou analisar, em cuidadores informais, os efeitos de um programa de suporte psicoeducativo ao nível da perceção das dificuldades, estratégias de coping e satisfação na prestação de cuidado à pessoa idosa. Para concretizar este objetivo, optou-se por uma abordagem quantitativa de natureza não-experimental, envolvendo cuidadores informais com e sem apoio psicoeducativo.

Sujeitos Neste estudo participaram 44 cuidadores informais de pessoas idosas com idades compreendidas entre os 36 e os 72 anos (M= 53.61 ± 8.38), quase todos do sexo feminino (n=43). 14 frequentavam um programa de apoio psicoeducativo e 30 não frequentavam. Todos os cuidadores informais viviam com a pessoa idosa, pelo facto de a pessoa cuidada ser um familiar direto como pai/mãe, irmãos, sogra(o) ou cônjuge. No caso dos cuidadores informais com apoio, a patologia da pessoa cuidada era comum (demência).

Instrumentos

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VII Congresso Internacional ASPESM Para a recolha dos dados foi utilizada a versão Portuguesa

(Brito, 2000) dos

questionários desenvolvidos por Nolan, Grant e Keady (1998): o Índice para Avaliação das Satisfações do Cuidador (CASI) - avalia as fontes de satisfação retiradas da prestação de cuidado; o Índice para Avaliação das Dificuldades do Cuidador (CADI) identifica as principais dificuldades sentidas na prestação de cuidado; e o Índice de Avaliação das Estratégias de Coping do Cuidador (CAMI) - avalia a forma como o prestador de cuidados enfrenta as dificuldades. Foi também administrado um pequeno questionário sociodemográfico. No âmbito deste estudo os valores do Alpha de Cronbach obtidos para os totais de cada instrumento revelaram-se bastante aceitáveis, com valores a oscilar entre .72 (CAMI), .85 (CASI) e .90 (CADI) (Pestana e Gageiro, 2008). No que concerne à consistência interna das dimensões de cada instrumento (cf. Quadro 1), os valores obtidos revelaram-se mais baixos quando comparados com os valores obtidos por Brito (2000), embora aceitáveis para o CASI e o CADI. Os valores observados para as subescalas do CAMI, com valores < .60, revelaram-se inaceitáveis, o que nos impossibilita a sua análise por dimensão neste estudo (Hair, Anderson, Tatham, & Black, 2006).

Procedimento Foram contactados 30 cuidadores informais de pessoas idosas que não participavam num programa de apoio psicoeducativo. Após se terem esclarecido os objetivos do

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VII Congresso Internacional ASPESM estudo e de se terem dado garantias de anonimato e confidencialidade dos dados, foram administrados os questionários CADI, CAMI e CASI. 
Relativamente aos 14 participantes que participavam num programa de apoio psicoeducativo, contactou-se a Direção de uma Unidade de Saúde da Administração Regional de Saúde do Centro, para solicitar autorização para a realização do estudo, tendo-se explicitado os objetivos do estudo, procedimentos de investigação e instrumentos a utilizar.
Após a identificação dos participantes, a coordenação do programa contactou-os por telefone para explicar o que pretendíamos. Os participantes que frequentavam o programa de apoio que aceitaram participar responderam também aos questionários CADI, CAMI e CASI. Foram garantidos o anonimato e a confidencialidade dos dados. Para sistematizar e realçar a informação fornecida pelos dados utilizaram-se técnicas da estatística descritiva e inferencial. Em particular, para avaliar as diferenças nas médias das variáveis em estudo em função dos dois grupos de cuidadores (os que participavam num programa de apoio psicoeducativo e os que não participavam) utilizou-se o teste t de Student (após verificado o pressuposto da normalidade e/ou da simetria da distribuição (Howell, 2010; Kline, 1998). Na ausência de normalidade e/ou de simetria, foi utilizado o teste de Mann-Witney. O nível de significância considerado foi de 5%.

Resultados Observando o Quadro 2, os dados globais obtidos no CADI e CASI indicam que os sujeitos que frequentaram o apoio psicoeducativo, em termos médios, percecionam mais dificuldades e mais satisfação no ato de cuidar, muito embora essa diferença não se revele significativa. Relativamente aos resultados obtidos no CAMI constata-se que os

cuidadores

informais

com

apoio

psicoeducativo

usam

e

beneficiam

significativamente mais das estratégias usadas para resolver problemas e lidar com situações adversas (p=.000).

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Fazendo uma análise do CADI, por dimensão (cf. Quadro 3), observa-se que os cuidadores que participavam no programa de apoio apresentam em todas as subescalas perceções médias de dificuldade mais elevadas do que os cuidadores que não participavam. No entanto, as diferenças encontradas não se revelaram estatisticamente significativas.

Observando os dados relativos às subescalas do CASI (cf. Quadro 4) verifica-se que em média os cuidadores que frequentavam o programa de apoio sentiam mais satisfação na dinâmica interpessoal do que os cuidadores que não tinham este tipo de apoio, sendo encontradas diferenças significativas ao nível do “benefício interpessoal global” (p=.046), e em particular do “benefício interpessoal mútuo” (p=.025). Também nas dimensões da “Satisfação com a Dinâmica dos Resultados” se constata que os cuidadores com apoio psicoeducativo apresentam níveis de satisfação globais

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VII Congresso Internacional ASPESM e relativos a si enquanto cuidadores mais elevados, retirando mais satisfação do ato de cuidar, sendo a diferença encontrada estatisticamente significativa (p<.05). Os resultados obtidos no teste de Mann-Whitney relativos ao “benefício interpessoal, sendo a pessoa dependente a principal beneficiária” (Mann-Whitney U = 236.000; p=.388), ao “benefício intrapessoal, sendo a pessoa dependente a principal beneficiária” (Mann-Whitney U = 145.000; p=.060), e à “satisfação relacionada com a dinâmica dos resultados, sendo a pessoa dependente a principal beneficiária” (MannWhitney U = 259.000; p=.204), levam à conclusão da não existência de diferenças significativas entre os dois grupos.

Discussão No presente estudo verificou-se que existem diferenças entre os cuidadores com e sem apoio, sendo que os cuidadores que frequentam o programa de apoio percecionam mais dificuldades, mas utilizam mais estratégias de coping e com mais eficiência e conseguem sentir-se mais satisfeitos com o ato de cuidar, podendo de facto este tipo de programas de apoio contribuir para um alívio da sobrecarga subjetiva. No entanto, tais dificuldades acrescidas podem dever-se à situação de saúde em que a pessoa de quem cuidam se encontra (com demência), pelo que estudos que incluam outras variáveis (e.g. patologia da pessoa cuidada) deverão ser realizados. Procurámos perceber se as diferenças nos valores médios encontradas entre os grupos dos cuidadores eram significativas através de testes de hipóteses. Relativamente aos

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VII Congresso Internacional ASPESM resultados obtidos pelos cuidadores para o CADI, total e dimensões, e ao contrário dos resultados encontrados por Lemos, Magalhães e Mata (2013), não se encontraram diferenças estatisticamente significativas. Porém, considerando as cotações médias obtidas em ambos os grupos no CAMI, constatou-se que os participantes que frequentavam o programa de apoio usam mais estratégias de coping e percecionam resultados mais positivos do que os que não o frequentavam. As diferenças significativas encontradas em algumas dimensões do CASI também revelam que os inquiridos com apoio se sentem mais satisfeitos a nível interpessoal e percecionam mais gratificações relacionadas com a dinâmica de resultados. Estes dados levam-nos a concluir que os cuidadores informais com apoio psicoeducativo, embora experienciem mais dificuldades no ato de cuidar, parecem beneficiar da sua participação no programa de apoio psicoeducativo, pelo que programas desta natureza deveriam tornar-se uma prática mais comum.

Conclusão Gostaríamos de concluir tecendo algumas considerações relacionadas com as limitações deste estudo e com o tipo de amostra utilizada. O objetivo do estudo passava por analisar os potenciais efeitos benéficos da participação dos cuidadores informais num programa de suporte social psicoeducativo. Por isso, optou-se por incluir no estudo cuidadores informais que estivessem e não estivessem a ter contacto com este tipo de apoio. Não se revelou de todo fácil encontrar cuidadores que pudessem integrar estes dois grupos, pelo que fomos forçadas a utilizar técnicas de amostragem não probabilística para constituir a nossa amostra. Brito (2000, p. 103) sentiu a mesma dificuldade aquando do seu estudo sobre os cuidadores informais. Ora, o número reduzido da amostra e o seu carácter não probabilístico não nos permite generalizar resultados e conclusões para outros cuidadores. Acresce o facto de termos utilizado um estudo de natureza nãoexperimental que apresenta a limitação de não permitir inferências de causa-efeito entre as variáveis. Assim, face às limitações apresentadas aponta-se a necessidade de conduzir estudos de outra natureza que permitam retirar outro tipo de ilações.

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Referências Bibliográficas Brito, M. L. (2000). A saúde mental dos prestadores de cuidados a familiares idosos. Tese de Mestrado apresentada à Universidade do Porto. Ministério da Solidariedade, Emprego e Segurança Social (2014). Carta Social – Rede de Serviços e Equipamentos. Relatório 2014. Lisboa: GEP – MSESS. Félix, A. M. (2010). Quem cuida do cuidador? O custo invisível do acto de cuidar. Tese de Doutoramento apresentada à Universidade de Aveiro. Figueiredo, D. (2007). Prestação familiar de cuidados a idosos dependentes com e sem demência. Dissertação de doutoramento apresentada à Universidade de Aveiro, Secção Autónoma de Ciências da Saúde. Figueiredo, D., e Sousa, L. (2008). Perceção do estado de saúde e sobrecarga em cuidados familiares de idosos dependentes com e sem demência. Revista Portuguesa de Saúde Pública, 26 (1), 15 – 24. Gomes, J., e Mata, A. (2012). A família provedora de cuidados ao idoso dependente . In F. Pereira (Ed.), Teoria e prática da Gerontologia: Um guia para cuidadores de idosos (pp. 163-174). Viseu: Psicossoma. Gonçalves, M., e Sampaio, D. (2011). Psicoeducação familiar na demência: Da clínica à saúde pública. Revista Portuguesa de Saúde Pública, 29 (1), 3-10. Hair, J., Anderson, R., Tatham, R., & Black, W. (2006). Multivariate data analysis (6th ed.). New Jersey: Pearson Education, Inc. Howell, D. (2010). Statistical methods for psychology (7th ed.). Belmont, CA: Wadsworth. INE, Instituto Nacional de Estatística (2014). Projeções de população residente 2012-2060. Lisboa: INE. Kline, R. (1998). Principles and practice of structural equation modelling. New York: Guilford Press. Lemos, J., Magalhães, C., e Mata, A. (2013). Avaliação das dificuldades dos cuidadores informais de idosos dependentes. In D. Souza, e M. Rua (Coords.), Cuidadores informais de pessoas idosas. Caminhos de mudança (pp. 53-58). Aveiro: Universidade de Aveiro. Loureiro, N. V. (2009). A sobrecarga física, emocional e social dos cuidadores informais de idosos com demência. Tese de Mestrado apresentada à Universidade Fernando Pessoa. Nolan, M., Grant, G., & Keady, J. (1998). Assessing the needs of family carers. A guide for practitioners. Brighton: Pavilion Publishing.

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Neide Marina Feijó1

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Doutora; Enfermeira; Professora Coordenadora (Escola Superior de Saúde Jean Piaget de Vila Nova de

Gaia) Alameda Jean Piaget, s/n, CP 4405-678 – VNG. Email: neidefeijo@gaia.ipiaget.pt

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Resumo Contexto apresentamos o sociodrama como metodologia de investigação, focalizando a sua pertinência na investigação qualitativa e destacamos as características do investigador nessa modalidade. Objetivo(s): conhecer quais as características do investigador que alunos da formação em psicodrama valorizavam. Metodologia: no âmbito da docência do módulo de metodologia da pesquisa científica para os alunos de formação em psicodrama, nível i e ii, da associação brasileira de psicodrama e sociodrama, no 1º semestre de 2016, desenvolveu-se o presente estudo. A recolha de dados e a validação das informações foram realizadas durante uma sessão de sociodrama que teve como tema protagónico: “o lugar desejado: investigador que utiliza o sociodrama como metodologia para investigar com espontaneidade, criatividade e liberdade”. A recolha dos dados foi enriquecida com a observação participante e a sessão foi registada em audio e vídeo, transcrita e analisada através da análise de conteúdos. Resultados: os dados são apresentados em 4 categorias: 1- competências necessárias ao investigador, do ponto de vista prático/aplicado e de conhecimentos; 2- características/valores pessoais; 3- pretensões de transformações no âmbito da investigação e do psicodrama e 4- medos, inseguranças e dificuldades que o investigador enfrenta. Conclusões: apresentam-se os pontos que possibilitam considerar a legitimidade do sociodrama como metodologia de investigação, sendo elemento relevante a participação conjunta do investigador e investigados, a facilidade de observação, recolha e validação sistemática de dados. Palavras-chave: sociodrama; investigação; investigador; investigação qualitativa.

Resumen Contexto: presentamos o sociodrama como metodología de investigación, focalizando su pertinencia en la investigación cualitativa y destacamos las características del investigador en esta modalidad. Objetivo(s): conocer cuáles son las características del investigador que los alumnos de la formación en psicodrama valoraban. Metodología: bajo la enseñanza del módulo de metodología de investigación científica para estudiantes de formación en psicodrama, nivel i y ii, de la asociación brasileña de psicodrama y sociodrama, en el 1º semestre de 2016, desarrolló el presente estudio. Viana do Castelo, Novembro de 2016


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VII Congresso Internacional ASPESM La recopilación de datos y validación de información se realizaron durante una sesión de sociodrama con la temática "el lugar deseado: investigador que utiliza el sociodrama como metodología para investigar con la espontaneidad, la creatividad y la libertad". La recolección de datos fue enriquecida con observación participante y fue grabado en audio y video, transcritas y analizadas usando el análisis de contenido. Resultados: los datos se presentan en 4 categorias: 1- competencias para el investigador, desde un punto de vista prático / aplicado y de conocimientos; 2características / valores personales; 3- pretensiones de transformación en el alcance de la investigación y psicodrama; 4- temores, inseguridades y dificultades que enfrenta el investigador. Conclusiones: se presentan los argumentos que permiten considerar al sociodrama como un método de investigación legítimo, siendo elementos relevantes la participación conjunta del investigador y el sujeto, la facilidad de la observación y la recolección sistemática de datos. Descriptores: sociodrama; investigación; investigador; investigación cualitativa.

Abstract Background: we present sociodrama as an investigative research methodology, focusing on its importance for qualitative research, as well as highlight the characteristics of the researcher in this method. Aim: to identify the characteristics of the researcher that were valued by psychodrama students. Methods: this study was developed during the module methodology of scientific research for students from the course psychodrama, levels i and ii, of the brazilian society of psychodrama and sociodrama, in the 1st semester of 2016. The data collection and validation were held during a sociodrama session that had this main theme: “the desired place: researcher who uses sociodrama as a methodology for research with spontaneity, creativity and freedom”. The data collection was enhanced by the researcher observation and the session was audio and video recorded, transcribed and analysed using qualitative data analysis. Results: the data are presented in 4 categories: 1- the main skills the researcher requires, from a practical/applicable and knowledgeable point of view; 2- personal characteristics and values; 3- the requirements of transformations in the context of the research and psychodrama; and 4- fears, insecurities and difficulties faced by the researcher.

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VII Congresso Internacional ASPESM Conclusions: it is presented the arguments that allow sociodrama to be considered legitimate as a research method, being relevant elements the joint participation of the researcher and the subject, the easiness of the observation and the systematic collection of data. Keywords: Sociodrama, Research, Researcher, Qualitative Research

Introdução Moreno solicitou que o seu epitáfio fosse: “Aqui jaz o homem que trouxe alegria à Psiquiatria”. Gostaria de acrescentar: e prazer à investigação científica. O interesse deste trabalho recai em valorizar o sociodrama como metodologia da investigação. Nos tempos que correm, a metodologia qualitativa é uma realidade praticada por investigadores reconhecidos no meio académico. ‘Viramos a página’ do período em que se dizia que a metodologia qualitativa era um tipo de investigação contra hegemónico. Verificamos que outros autores corroboram da perceção de que as preocupações de Moreno já foram superadas: “nosso objetivo maior é responder ao sonho de Moreno, afirmando que, na década de 2010, o sociodrama tornou-se um dos instrumentos científicos de ação social” (Fleury e Marra, 2010, p. 18). A investigação qualitativa é uma realidade no meio científico da atualidade, no entanto, há uma diversidade considerável de fundamentações teóricas, entre elas devemos incluir o sociodrama, que ainda necessita de se firmar como metodologia (Merengué, 2006). Não conseguiríamos explicitar melhor a importância do sociodrama como metodologia de investigação, como o faz o autor: “Moreno nos legou uma metodologia que permite transitar entre os números, as palavras, os silêncios e os movimentos, sem ignorar as posições estáticas e as expressões gráficas. Podemos fazer pesquisa empregando todas as possiblidades de interação humana, inclusive as imaginárias” (Brito, 2006, p. 39). Nery (2010) e Figusch (2010) referem que o sociodrama é um método de investigação e de intervenção em conflitos grupais, isto é, permite estudar os processos grupais, as situações-problema, por meio da ação e comunicação nos contextos sociais, tendo os papéis sociais como foco principal de atenção. Assim, as pessoas ao protagonizarem os seus ‘dramas’, encontram soluções e desenvolvem a dignidade e a cidadania. Ramos

(2008)

apresenta

como

as

principais

características

da

metodologia

sociodramática que se adequam à investigação qualitativa e à investigação-ação: as

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VII Congresso Internacional ASPESM interações grupais, a ação dramática, a ampliação da expressão de conteúdos que permeiam as relações, a observação e a coleta sistemática de dados; valorização de princípios humanísticos; investigador com duplo papel – observador crítico e participante ativo e participação conjunta de investigador e investigados. Monteiro (2006) considera o método psicodramático revolucionário e aberto à imprevisibilidade (inesperado). Brito (2006) faz um importante destaque sobre o investigador, referindo que se mantêm distinções entre investigador e investigado, sem, contudo, haver classificação de superioridade entre eles. O investigador, ao realizar o seu papel, deve dominar os métodos de investigação e buscar desenvolver experiência nessa tarefa, sem desconsiderar que a ação em conjunto com o grupo a ser investigado, produz conhecimento específico que beneficia a todos. Minayo (2105, p. 75) refere que o investigador tem função própria, que, inclusive os próprios ‘investigados’ esperam que ele a desempenhe. Assim, ele nunca deve buscar ser um igual no que se refere ao seu papel social de investigador, deve fazê-lo “sem pedantismos, segredos e mistérios”. A autora considera essencial que o investigador desenvolva a observação participante para a compreensão da realidade. Antes de concluirmos essa introdução, devemos mencionar outro aspecto do sociodrama que favorece a investigação, isto é, a possibilidade de recolher e avaliar os dados de forma contínua, integrada e em conjunto com os próprios atores sociais. Esse ponto é muito importante e valorizado pelos estudiosos em investigação qualitativa (Gomes, 2015).

Metodologia “O convite à pesquisa é, então, um versão científica do convite ao encontro...” (BRITO, 2006, p. 31) Para alcançar o nosso objetivo principal de conhecer quais as características do investigador que alunos da formação em psicodrama valorizavam, descreveremos uma experiência em grupo que ocorreu durante o Módulo de Metodologia de Pesquisa, ministrado aos alunos do Nível I e II, diretor de psicodrama e didata, respetivamente, na Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama no 1º semestre de 2016. Moreno (2008) já orientava que nos projetos experimentais, o investigador deve considerar a constituição do grupo, no sentido de que os membros estejam motivados para a participação.

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VII Congresso Internacional ASPESM O grupo de estudantes era formado por 7 alunos do nível I e 4 alunas do nível II, num total de 11, sendo 10 mulheres e 1 homem. No desenvolvimento da sessão de sociodrama foram entregues cartões a cada participante, nos quais deveriam escrever as suas reflexões e distribuir nos quatro cartazes que foram afixados nas paredes, com os seguintes títulos:

1- Que

competências você possui para ocupar esse lugar (de investigador) do ponto de vista prático/aplicado – conhecimentos; 2- Que características/valores pessoais você tem como investigador; 3- O que você pretende fazer/mudar/transformar (no âmbito da investigação e no âmbito do psicodrama) e 4- Medos, inseguranças e dificuldades que você enfrenta como investigador. Os enunciados dos cartazes foram pensados como categorias pré-definidas para análise de conteúdo. Com isso já recolhemos os dados a respeito do que é ser um “investigador sociodramático”, segundo os estudantes. Durante a dramatizacão, com a intenção de validar os dados recolhidos a respeito do que é ser investigador, foi feito o convite para que alguém da plateia ocupasse a cadeira vazia com o título “O lugar desejado: investigador que utiliza o sociodrama como metodologia para investigar com espontaneidade, criatividade e liberdade”. Três alunas revezaram a cadeira “de investigador” e, o diretor utilizando a técnica da entrevista, foi questionando se concordavam com as afirmações afixadas em cada um dos cartazes, se desejavam alterar, acrescentar ou retirar algum item. A plateia também participou sugerindo e questionando. Assim, tivemos os dados validados, refletidos e analisados em conjunto com o grupo. Os dados resultantes dessa fase estavam distribuídos pelos quatro cartazes e ampliados pelo debate. Assim, corroboramos com as afirmações de Brito (2006, p. 52) “a especificidade da metodologia psicodramática vai além da natureza ativa dos métodos, abrangendo também a perspectiva de tratamento dos dados coletados”. As etapas de aquecimento específico, dramatização e compartilhamento foram gravadas em áudio e vídeo, com autorização dos participantes, que também assinaram o termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Durante todas as etapas o diretor (investigador) realizou a observação participante e, durante a dramatização utilizou a entrevista, como técnica dialogal promovendo a maior participação dos elementos do grupo. Para a análise dos dados e confirmação das categorias, transcrevemos as gravações, realizamos uma leitura crítica e profunda e lançamos mão do método de análise de conteúdo adaptado de Bardin (2011).

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Apresentação e discussão dos dados “... o ato de compreender caminha na direção de interpretar e estabelecer relações para chegar a conclusões”. (Minayo, 2002, citada por Gomes, 2015, p. 99) A problemática eleita no Sociodrama relatado – ´o investigador sociodramático` é focalizada constantemente na análise e apresentação dos dados, buscando a sua compreensão coerente, sendo que os resultados principais que permitiram essa conceitualização são apresentados através das 4 categorias previamente propostas, as quais, no entanto, foram confirmadas: 1- Competências do investigador do ponto de vista prático/aplicado – conhecimentos: Apresentamos, a seguir, algumas transcrições seguidas da letra E (Estudante) que melhor representam esta categoria: “Sou estudiosa, gosto de ler, possuo boa comunicação (emissão, recepção e percepção), entendo das ferramentas tecnológicas, sou interessada, determinada, tenho habilidades com tecnologia”. (E) (Durante a dramatização recebeu o seguinte acréscimo: “Tenho boa desenvoltura na direção/ação”) “Gosto de ler. Facilidade para conseguir público; ter escrito o TCC I (Trabalho de Conclusão de Curso Nível I)”. (E) Para a confirmação das expressões e validação das informações, a técnica principal utilizada foi o diálogo entre as ideias problematizadas, corraborando com os escritos de GOMES (2015). O debate travado com os estudantes, também, permitiu reflexão, reconhecimento e respeito pelas diferenças. Verificamos, também, que o sociodrama, como método de ação, informa para além das palavras; foi possível identificar gestos, sons, expressões não verbais durante a sessão. Em síntese, as competências mais valorizadas pelos alunos foram: competências comunicacionais; aprendizagem ao longo da vida, através de leituras pertinentes que incrementem os conhecimentos; competências na direção de psicodramas e sociodramas e capacidades crítico-reflexivas. 2- Características/valores pessoais do investigador: Para representar essa categoria, selecionamos algumas expressões dos estudantes:

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VII Congresso Internacional ASPESM “Sou ética, sou alegre, proponho o novo, julgo menos, estimulo o diferente. Procuro propor de forma livre. Sou compreensiva. Respeito. Empatia.” (E) “Adorar escrever e pesquisar, determinação, comprometimento em desenvolver um bom trabalho.” (E) “Dedicação, gosto pela leitura técnica, gosto de desafios, gosto de grupos.” (E) Através dessas expressões, verificamos que as atitutes pessoais do investigador mais valorizadas pelos estudantes foram: comportamento ético; inovação; liberdade; compreensão do outro; respeito pelas pessoas; empatia; determinação; compromisso e opção pelo trabalho com grupos. Neste ponto, houve uma rica troca de informações, manifestações de satisfação na participação com o grupo, reconhecimento das próprias capacidades e da construção do papel de investigador, como por exemplo: “Tô me sentindo cada vez mais pesquisadora.” (E) 3- Pretensões de mudanças e transformações (no âmbito da investigação e do psicodrama): As expressões que melhor compõem esta categoria são: “Propor novas formas e plataforma para a aprendizagem do psicodrama e expansão/divulgação deste.” (E) “Publicar/registrar/relatar encontros vividos, propostas, descobertas, reformulações. Criar hábito de escrever/publicar, compartilhar.” (E) “No meio acadêmico-pesquisa: menos rigidez e mais espontaneidade.” (E) Ao compartilharem desejos de transformação, também, discordaram e esclaraceram termos. Os desejos de mudanças e de ações mais valorizados pelos formandos foram: ampliar divulgação das experiências e da riqueza do sociodrama e psicodrama, dessa forma, compartilhar as experiências. Também gostariam de flexibilizar o processo de investigação acadêmica, o qual consideravam rígido, com poucas possibilidades de ações criativas. 4- Medos, inseguranças e dificuldades enfrentados pelo investigador. Algumas expressões que melhor representam esta categoria são: “Dificuldade em transmitir minhas ideias de forma clara. Presa aos conceitos de autores…”. (E) “Crítica por parte de colegas psicodramatistas. Não ter estruturado ou emperrar em algum ponto.” (E)

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VII Congresso Internacional ASPESM “Por onde ir… relembrar e visualizar a metodologia e o/os instrumentos mais apropriados para a realização da pesquisa.” (E) O grupo foi revendo os medos e inseguranças relativos a ser um investigador e foi concordando com eles. No entanto, no desenrolar do debate considerou os medos mais como desafios a serem enfrentados. Assim, ao debaterem sobre o receio de utilizarem o sociodrama como metodologia de investigação, destacaram a insegurança das estratégias não estruturadas, abertas e flexíveis: “medo de me perder no caminho, não ter estruturado: -poxa não pensei que isso pudesse acontecer e agora?” (E) Nas conclusões desse assunto, concordaram: “Isso não é um risco, é uma realidade... porque estamos pesquisando realidade em movimento... dinâmico... o projeto tem que ser projetado com o andar... essa versatilidade é dada na nossa própria formação no psicodrama.” (E) “Isso vai enriquecendo a nossa prática... isso é muito interessante – a flexibilidade.” (E) Caminhando para a finalização do sociodrama, foi possível a percepção da evolução do entendimento do sociodrama como metodologia de investigação, assim como se identificou o reconhecimento das competências necessárias para o papel de investigador e da incorporação dos conceitos e teoria do sociodrama e investigação. “... até agora a gente estava em role play, agora vem o role creating... estar criando em cima... criar...” (E) Em síntese, essa categoria pode ser respresentada pelos receios de não conseguir expressar as ideias próprias de forma clara; não conseguir utilizar a metodologia sociodramática de forma adequada na investigação e ainda, receio de que os trabalhos científicos produzidos não obtivessem crítica positiva por parte dos psicodramatistas. Figusch (2010) nos falou da importante contribuição do sociodrama em ampliar o conhecimento e a compreensão, facilitando a transformação dos autores/atores. Pois, o sociodrama preconiza a decisão grupal e a democratização. O sociodrama como metodologia da ação impulsionou para a ação transformadora; fortaleceu o grupo e mostrou caminhos, soluções para as questões e conflitos apresentadas pelo próprio grupo. No caso aqui relatado, os membros do grupo ficaram mais encorajados e motivados a desenvolver o seu papel de investigador sociodramático.

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Conclusão O sociodrama é uma metodologia de investigação científica. Para nós, não restam dúvidas sobre isso. No entanto, ainda temos que firmar esse caminho, ultrapassar os próprios limites, criando e recriando, debatendo e inovando. Buscando ousar com responsabilidade, usar das ´conservas` só o que pode engrandecer a prática, para não fazer mais do mesmo, o que tanto criticamos. Para

isso,

assim

como

Moreno,

confiamos

na

espontaneidade

dos

sociopsicodramatistas e investigadores, desejamos a autonomia e a liberdade, considerando o homem como centro da vida social e da sua própria história. Apostamos no sociodrama como um meio de superar conflitos, dificuldades, submissão e ´coisificação` do homem. Não acreditamos de forma banal; estudamos, aplicamos, vivenciamos

e

experimentamos

os

seus

resultados

emancipadores

e

´empoderadores`. Consideramos que os nossos objetivos foram atingidos, pois apresentamos a prática sociodramática realizada, enquanto metodologia de investigação, destacamos as suas potencialidades e especialmente apontamos as características do investigador do ponto de vista dos alunos em formação na área do psicodrama. Vivenciamos e descrevemos aquilo que apresentamos na fundamentação teórica como importantes características da metodologia sociodramática, mais propriamente, do investigador: - O tema trabalhado com o grupo de alunos foi de interesse deles; os participantes foram ao mesmo tempo investigadores; o diretor/investigador foi participante ativo. - O sociodrama foi desenvolvido com suas etapas (aquecimento, dramatização e partilha) e mostrou, mais uma vez, ser facilitador das expressões, sentimentos, crenças e desejos subjetivos dos atores/autores nesse processo. - Os dados foram obtidos através da ação dramática, para além das palavras, se verificaram através de expressões faciais, gestos, sons, etc. - As práticas dialógicas e democráticas mostraram que facilitam o entendimento das questões / conflitos e propiciam soluções, reconhecimento de potencialidades, abertura e motivação para a transformação no sentido daquilo que o grupo deseja ou necessita. Além disso, o sociodrama permitiu, como relatamos na nossa pequena experiência, coletar os dados, debate-los e validá-los junto do grupo, numa construção que interessa aos participantes. As conquistas e criações do próprio grupo produziram uma satisfação manifestamente reconhecida.

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VII Congresso Internacional ASPESM Identificamos a necessidade e estamos estimulados, para num próximo estudo, realizarmos uma análise de dados que discuta mais profundamente os conceitos teóricos do psicodrama, como: teoria de papéis, núcleo do eu, matriz de identidade, tele, entre outros que forem pertinentes. Os caminhos da investigação sociodramática podem parecer mais inseguros aos investigadores

que

terão

que

enfrentar

com

flexibilidade

e

abertura

as

imprevisibilidades e as surpresas de um estudo dinâmico. Pois, trabalharão com pessoas em relações e em movimento, que se reconfiguram o tempo todo. Para acompanhar esse processo vivo, felizmente, temos uma metodologia ´em ação`, que pode, através da espontaneidade ´dar respostas novas a questões antigas e respostas velhas a novas questões`.

Referências Bibliográficas BARDIN, L. (2011) Análise de Conteúdo. São Paulo: Edições 70. BRITO, V. (2006) Um convite à pesquisa: epistemologia qualitativa e psicodrama. In: MONTEIRO, A.M.; MERENGUÉ, D. e BRITO,V. Pesquisa qualitativa e psicodrama. São Paulo: Ágora, pp. 13-56. FIGUSCH, Z. (2010) O modelo contemporâneo de sociodrama brasileiro. In: MARRA, M.M. e FLEURY, H.J. (Orgs) Sociodrama. um método, diferentes procedimento. São Paulo: Ágora, pp. 19-41. FLEURY, H.J. e MARRA, M.M. (2010) Tendências atuais no campo das intervenções e da aplicação do sociodrama como método. In: MARRA, M.M. e FLERY, H.J. (Orgs) Sociodrama. um método, diferentes procedimento. São Paulo: Ágora, pp. 13-18. GOMES, R. (2015) Análise e interpretação de dados de pesquisa qualitativa. In: MINAYO, M.C.S. (org) Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. 34ed. Petrópolis: Vozes, pp. 79-108. MERENGUÉ, D. (2006) Psicodrama e investigação científica. In: MONTEIRO, A.M.; MERENGUÉ, D. e BRITO, V. Pesquisa qualitativa e psicodrama. São Paulo: Ágora, pp. 57-87. MINAYO, M.C.S. (2015) O trabalho de campo: contexto de observação, interação e descoberta. In: MINAYO, M.C.S. (org) Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. 34ed. Petrópolis: Vozes, pp. 61-78.

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VII Congresso Internacional ASPESM MONTEIRO, A.M. (2006) Pesquisa qualitativa e segmentação cênica: uma proposta de sequenciação. In: MONTEIRO,A.M.; MERENGUÉ,D. e BRITO,V. Pesquisa qualitativa e psicodrama. São Paulo: Ágora, pp. 89-120. MORENO, J.L. (2008) Quem sobreviverá. Edição do estudante. São Paulo: Daimon. NERY, M.P. (2010) Grupos e intervenção em conflitos. São Paulo: Ágora. RAMOS, M.E.C. (2008) O agir interventivo e a pesquisa-ação. In: MARRA, M. M.; FLEURY,H. J. (orgs) Grupos: intervenção socioeducativa e métodos sociopsicodramático. São Paulo: Ágora, pp. 45-56.

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Luís Graça1 | Clara Araújo2 | Maria Aurora Pereira3 | Cândida Viana4

Doutor em Enfermagem; professor adjunto; Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Escola Superior de Saúde, Rua D. Moisés Alves de Pinho, 4900-314- Viana do Castelo, Portugal. Telefone 258809550. luisgraca@ipvc.pt 2 Doutora em Psicologia; professora coordenadora; Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Escola Superior de Saúde, 4900-314- Viana do Castelo, Portugal. Telefone 258809550. claraaraujo@ipvc.pt 3 Doutora em Ciências da Educação; professora coordenadora; Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Escola Superior de Saúde, 4900-314- Viana do Castelo, Portugal. Telefone 258809550. aurorapereira@ipvc.pt 4 Mestre em Ciências da Educação; professora adjunta; Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Escola Superior de Saúde, Rua D. Moisés Alves de Pinho, 4900-314- Viana do Castelo, Portugal. Telefone 258809550. candidacracel@ipvc.pt 1

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Resumo Contexto: a saúde mental é o estado de bem-estar através do qual os indivíduos reconhecem as suas capacidades e habilidades, são capazes de se confrontar com o stress normal da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera e contribuir para a comunidade (who, 2005), sendo influenciada por determinantes modificáveis e não modificáveis Objetivo(s): analisar determinantes da percepção de saúde mental em adultos de viana do castelo Metodologia: estudo descritivo correlacional, com uma amostra de 1618 adultos, estratificada por secção de freguesia. O instrumento de colheita de dados foi o mental health inventory (mhi-5) na versão de ribeiro (2001), revelando boa consistência interna (alfa de cronbach: 0,882). Resultados: na amostra predominam as mulheres (60,4%), os casados (62,2%), os com ensino básico (52,1%) e a exercerem uma profissão (50,8%). A média da idade é de 43,43±13,97. Há 53,7% dos adultos que referem doença crónica. Relativamente à saúde mental 20,8% apresenta provável sofrimento psicológico. Observam-se diferenças quanto ao sexo, escolaridade, ocupação, estado civil e presença de doença crónica. Conclusões: dos resultados emerge a necessidade de intervir junto populações mais vulneráveis, através de redes de proximidade, com vista a aumentar a resiliência Palavras-chave: saúde mental; enfermagem de saúde comunitária; enfermagem psiquiátrica;

Resumen Contexto: salud mental es un estado de bienestar por el cual el individuo es consciente de sus capacidades, puede afrontar las tensiones normales de la vida, puede trabajar de forma productiva y frutífera y contribuir para su comunidade (oms, 2005), siendo influenciada por determinantes modificables y no modificables. Objetivo(s): analizar determinantes de la percepción de la salud mental en adultos de viana do castelo Metodología: estudio descriptivo correlacional con una muestra de 1618 adultos, estratificada por la sección de parroquia. El instrumento de recolección de datos fue el inventario de salud mental (mhi-5) en la versión ribeiro (2001), que presenta buena consistencia interna (alfa de cronbach: 0.882). Viana do Castelo, Novembro de 2016


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VII Congresso Internacional ASPESM Resultados: en la muestra predominan las mujeres (60,4%), los casados (62,2%), los que tienen educación básica (52,1%) y tienen una profission (50,8%). La edad media es de 43,43 ± 13,97. Hay un 53,7% de los adultos con enfermedad crónica. En la salud mental 20,8% presentan probable sufrimiento psicológico. Hay diferencias significativas en cuanto al sexo, educación, ocupación, estado civil y la presencia de enfermedades crónicas Conclusiones: de los resultados hay la necesidad de intervenir con las poblaciones más vulnerables con redes de proximidad con el fin de aumentar la resiliencia Descriptores:

salud

mental;

enfermería

en

salud

comunitaria;

enfermería

psiquiátrica

Abstract Background: mental health is the state of well-being in which individual his potential, can cope with normal stress of life, work productively and fruitfully and is able to make contribution to the community (who, 2005). It is influenced by modifiable and nonmodifiable determinants Aim: to analyze determinants of mental health perception in adults in viana do castelo Methods: a descriptive correlational study, with a sample of 1618 adults, stratified by section of parish. The data collection instrument was the mental health inventory (mhi5) in the ribeiro (2001) version, showing good internal consistency (cronbach's alpha: 0.882). Results: in the sample predominated women (60.4%), married (62.2%), those with basic education (52.1%) and practicing a profession (50.8%). The mean age is 43.43 ± 13.97. There are 53.7% of adults who report chronic disease. Regarding mental health, 20.8% present probable psychological distress. Differences in sex, schooling, occupation, marital status and presence of chronic disease are observed Conclusions: From the results emerges the need to intervene with vulnerable populations, through networks of proximity to increasing resilience. Keywords: Mental health; Community health nursing; Psychiatric nursing

Introdução O conceito de saúde varia ao longo do tempo, de acordo com o momento histórico, os grupos sociais e as experiências individuais. Uma das definições mais vulgarizadas é da OMS que se distancia-se da dicotomia saúde/doença e realça uma concepção global e positiva, onde inclui as dimensões mental e social e refere a interacção corpo-mente. Viana do Castelo, Novembro de 2016


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VII Congresso Internacional ASPESM A Saúde Mental é, para a WHO (2005), o estado de bem-estar através do qual os indivíduos reconhecem as suas capacidades e habilidades, são capazes de se confrontar com o stress normal da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera e contribuir para a comunidade. Trata-se de uma perspectiva positiva que compreende o bem-estar subjectivo, a autonomia, a integração social e a realização intelectual e emocional. É uma dimensão fundamental da saúde que contribui para a prosperidade, solidariedade e justiça social (Comissão das Comunidades Europeias, 2005) A avaliação da saúde mental tem evoluído. Se inicialmente se centrava em dimensões psicopatológicas, a partir da década de 70 do século passado começou a dar-se importância a dimensões mais positivas, como o coping e a resiliência (Ribeiro, 2001). Para

Lahtinen, Lehtinen, Riikonen & Ahonen (1999) a saúde mental positiva é

potencial. É o resultado de factores predisponentes, desencadeantes e recursos individuais. Os transtornos mentais e do comportamento estão presentes, em algum momento da vida. Conforme a WHO (2016), referindo-se à União Europeia, 27% dos adultos experienciou um ou mais problemas mentais no último ano, sendo mais frequente nas mulheres, à excepção do abuso de substâncias psicoactivas que é mais frequente nos homens e das psicoses cuja prevalência é idêntica em ambos os sexos. A doença mental está frequentemente associada a outras doenças, que se constituem prioridades de saúde, e coexiste com determinantes sociais como a pobreza, a ausência de abrigo, o desemprego, a baixa escolaridade, o uso de substâncias aditivas, as migrações e os refugiados, no caso das mulheres e crianças a exposição ao abuso e à violência doméstica, e nos idosos o abandono (WHO, 2005; WHA, 2012). Para a WHO/Fundação Calouste Gulbenkian (2014), os determinantes sociais são cada vez mais importantes em termos da sua associação e influência na carga de doença. Em Portugal a prevalência de problemas de saúde mental apresenta comportamento idêntico ao de outros países europeus com características idênticas, ainda que pareça existir risco mais elevado em grupos mais vulneráveis (pobres, mulheres e idosos) (Portugal, 2008). Conforme o Inquérito Nacional de Saúde (Portugal, 2009) cerca de 27,2% da população com 15 ou mais anos, registava existência provável de sofrimento psicológico, sendo a prevalência superior nas mulheres (36,3%) que nos homens (17,3%). Constatava-se ainda que aumentava com a idade. Enquanto até aos 34 anos

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VII Congresso Internacional ASPESM ocorria em menos de 20% da população, nas pessoas com mais de 75 anos ocorria em mais de 40%. Fragoeiro (2009), num estudo com idosos na Região Autónoma da Madeira, constatou elevada prevalência de idosos com saúde mental positiva (67,0%) e bem-estar psicológico (24,3%) e baixa prevalência de idosos com distress psicológico (3,2%) ou depressão (0,3%). A WHA (2012) reconhece que os problemas de saúde mental assumem grande importância nas sociedades e contribuem para o peso da doença e perda da qualidade de vida, com importantes custos sociais e económicos. Solicitou aos estados membros que, de acordo com a especificidade dos seus contextos, fortalecessem políticas e estratégias articuladas de promoção da saúde mental, prevenção da doença mental e identificação precoce, cuidado, apoio, tratamento e recuperação das pessoas com doença mental. A cidade de Viana do Castelo integra a rede europeia das cidades saudáveis e tem entre os seus programas o Observatório de Saúde, que visa, entre outros objectivos, a monitorização do estado da população. Este programa é dinamizado por docentes da Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Viana do Castelo (IPVC), que articulam desenvolvimentos curriculares de disciplinas de investigação dos alunos do Curso de Licenciatura em Enfermagem (CLE), com a produção de indicadores de saúde. Neste

âmbito

desenvolveu-se

o

presente

estudo

com

o

objectivo

analisar

determinantes da percepção de saúde mental em adultos de Viana do Castelo

Metodologia Conforme

o objectivo do

estudo

procedemos a

um

estudo epidemiológico,

observacional, descritivo-correlacional e transversal, que tem por base uma análise secundária de dados decorrentes de estudos efectuados por estudantes do CLE. O estudo decorreu em freguesias rurais e urbanas do concelho de Viana do Castelo com uma população residente de 88725 habitantes (Portugal, 2012). A amostra foi constituída por 1618 pessoas com idades entre os 18 e os 64 anos, estratificada por secção das freguesia, e para a selecção da unidades amostrais na unidade de habitação, recorreu-se ao método de Kish. Instrumento de colheita de dados foi o Inquérito Municipal de Saúde, adaptado do 4º INS. A Saúde Mental foi avaliada através do Mental Health Inventory na versão reduzida (MHI5) de Ribeiro (2001). Conforme o autor o MHI começou a ser

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VII Congresso Internacional ASPESM desenvolvido em 1975 por Veit & Ware como uma medida para avaliar o distress psicológico e o bem-estar na população. O MHI-5 tem demonstrado ser útil na avaliação da saúde mental. Três itens são relativos ao distress (ansiedade, depressão e perda de controlo emocional) e dois ao bem-estar positivo (afecto positivo). Os itens encontra-se operacionalizados numa escala ordinal de seis itens e os scores são obtidos por adição, correspondendo melhor saúde mental a valores mais elevados (Ribeiro, 2001). Para efeitos do tratamento de dados foi efectuada a transformação para números índice e posteriormente dicotomizada, correspondendo scores iguais ou inferiores ≤52 a provável sofrimento psicológico.

O MHI-5 apresenta boa consistência interna (alfa Cronbach 0,882), bem como as duas sub-escalas (distress: 0,829; bem-estar positivo: 0,804). Colheita de dados foi efectuada por entrevista, com a participação de alunos do CLE. Foi salvaguardada a livre participação, anonimato e confidencialidade. Para a análise de dados utilizamos técnicas da estatística descritiva e inferencial, recorrendo-se a testes paramétricos considerando-se a existência de normalidade de distribuição, com base na dimensão da amostra. O nível de significância admitido foi de 5%.

Resultados A

população

inquirida

é

na

sua

quase

totalidade

portuguesa

(97,7%),

maioritariamente do sexo feminino (60,4%), tem idades entre 18 e 64 anos, com uma média de 43,43±13,97 anos e mediana 45 anos. Quanto ao estado civil predominam os casados (62,2%), e solteiros (26,9%), sendo a proporção de divorciados e viúvos de 5,5% e 5,3%, respectivamente. No que se refere à escolaridade 52,1% tem o ensino básico, 20,4% ensino secundário e 23,7% ensino superior. Relativamente à ocupação principal predominam os que exercem uma profissão (50,8%), seguido das domésticas (13,0%) e dos estudantes e reformados (11,9% e 11,1%), sendo de salientar que 10,9% referem que se encontram desempregados. A presença de doença crónica é referida por 53,7% dos inquiridos, sendo as doenças mais frequentes a hipertensão arterial, a depressão, a osteoporose, a dor crónica e a diabetes.

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VII Congresso Internacional ASPESM No que se refere à saúde mental (quadro 1) constata-se que, quer na escala, quer nas sub-escalas, os scores variam entre 0 e 100. O bem-estar positivo apresenta os scores mais baixos, com média 62,68±24,13 e mediana 70, sendo que 25% dos inquiridos apresentam scores inferiores a 40. Os scores mais elevados observam-se no distress com média 75,13±21,22 e mediana 80, apresentado 75% scores superiores a 66,7. Os scores globais tem média de 70,15±20,87 e mediana 76. Após dicotomização verifica-se que 20,8% dos adultos apresenta provável sofrimento psicológico.

Quadro 1 Estatística descritiva da saúde mental Min-Max

Média±Sd

Mediana

P25-P75

Distress

0-100

75,13±21,22

80

66,7-93,33

Bem-estar positivo

0-100

62,68±24,13

70

40,0-80,0

Score Total

0-100

70,15±20,87

76

60,0-84,0

Da análise de possíveis determinantes associados à percepção de saúde mental observam-se diferenças quanto ao sexo (t10,172; gl=1548,790; sig=0,000), sendo que as

mulheres

apresentam

médias

inferiores

aos

homens

(66,17±21,86

vs

76,21±17,63). Também na escolaridade se observam diferenças significativas (F10,172; gl=3;1613; sig=0,000). Através do teste de comparações múltiplas de Tukey os sem escolaridade apresentam médias idênticas aos com ensino básico e inferiores aos com ensino secundário e com ensino superior (sig<0,05), sendo as médias inferiores no grupo com menor nível de escolaridade (Ensino básico 62,57±23,98; ensino básico 67,47±22,00; ensino secundário 73,27±19,08; ensino superior 73,24±19,00). No estado civil consideramos os solteiros, os casados, os divorciados e os viúvos, verificando-se

diferenças

significativas

entre

os

grupos

(F15,880;

gl=3;1613;

sig=0,000). Os viúvos e divorciados apresentam médias idênticas e nos solteiros observam-se medias inferiores a todos os outros grupos (solteiros 73,96±18,96; casados 70,05±20,90; viúvos 61,02±23,14; divorciados 61,48±22,13) (teste de Tukey). Também na ocupação se observam diferenças significativas (F21,012; gl=;1608; sig=0,000). Da análise das comparações múltiplas (teste de Tukey) os estudantes

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VII Congresso Internacional ASPESM apresentam os valores mais elevados (77,48±18,29), sendo diferentes de todos os outros grupos. Os reformados e os que exercem uma profissão têm médias idênticas (70,39±20,87 e 71,92±19,0, respectivamente), e as domésticas e os incluídos em outras situações são idênticos e apresentam as médias mais baixas (65,49±22,94 e 61,09±23,82, respectivamente). Observam-se ainda diferenças na doença crónica (t8,366; gl=1615,664; sig=0,000) com scores médios inferiores entre os portadores de doença (66,2±21,90 vs 74,73±18,60). No que se refere à idade, avaliou-se a associação através da correlação de Pearson, observando-se um associação significativa (sig=0,000), negativa e muito fraca (r0,089).

Discussão O conceito de saúde mental tem subjacente uma perspectiva positiva que compreende o bem-estar subjectivo, a autonomia, a integração social e a realização intelectual e emocional (WHO, 2005). Para a Comissão das Comunidades Europeias (2005) é uma dimensão fundamental da saúde, que contribui para a prosperidade, solidariedade e justiça social. O presente estudo tem por base os dados recolhidos por estudantes do CLE, no âmbito da dinamização do programa Observatório de Saúde do gabinete da cidade saudável de Viana do Castelo. Trata-se de um protocolo entre o Município e a ESS e visa contribuir para o conhecimento do perfil de saúde da população. A amostra de 1618 adultos foi estratificada por secção das freguesias. A quase totalidade dos respondentes é de nacionalidade portuguesa, o que decorre de se tratar de uma região com baixos fluxos de imigrantes. É maioritariamente do sexo feminino e a média da idade é de 43,43±13,97 anos. Quanto ao estado civil predominam os casados, seguido dos solteiros, o que é influenciado pela fase do ciclo vital dos respondentes. Relativamente à escolaridade mais de metade tem o ensino básico, havendo 20,4% com ensino secundário e 23,7% com ensino superior, sendo que estas características estarão relacionadas com o aumento de populações mais jovens a acederem a nível mais elevados de ensino e a escolaridade obrigatória ser, actualmente, o ensino secundário. Relativamente à ocupação principal predominam os que exercem uma profissão, tratando-se de uma população em idade activa. É de

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VII Congresso Internacional ASPESM salientar que mais de 10% referiram estar desempregados podendo ser devido ao período de tempo em que decorreu a colheita de dados, em que o país atravessava uma crise. Ainda que se trate de uma população jovem e adulta, constata-se que 53,7% referiram ter uma doença, sendo a mais referida a hipertensão arterial, seguida da depressão (12,5%). Quanto à depressão os resultados vão de encontro ao referido pela WHO (2016) quando refere que os transtornos mentais e do comportamento estão presentes, em algum momento da vida podendo ainda existir subdiagnóstico. No que se refere à percepção da saúde mental, o bem-estar positivo apresenta os scores mais baixos, com média 62,68±24,13, e os scores mais elevados observam-se no distress com média 75,13±21,22, o que indicia que em algum momento estes adultos se confrontaram com situações de stress. No entanto globalmente os scores são elevados denotando uma população com uma percepção positiva da sua saúde mental, o que é corroborado pelos valores da prevalência de provável sofrimento psicológico (20,8%). Estes valores são inferiores aos observados no Inquérito Nacional de Saúde (Portugal, 2009) em que cerca de 27,2% da população com 15 ou mais anos, registava existência provável de sofrimento psicológico. No entanto é de salientar no nosso estudo só estão incluídos adultos. Eventualmente se incluíssemos toda a população poderíamos ter taxas mais próximas do observado no Inquérito Nacional de Saúde, até porque o sofrimento psicológico se encontra associado à idade. Na análise de factores associados à percepção de saúde mental tivemos em consideração a WHO (2016), quando se refere à União Europeia, em que é expresso que a doença mental é mais frequente nas mulheres, à excepção do abuso de substâncias psicoactivas. Também a WHO (2005) e a WHA (2012) referem que está frequentemente associada a outras doenças, que se constituem prioridades de saúde, e que coexiste com determinantes sociais. Dos determinantes incluídos no presente estudo constata-se que as mulheres tem pior percepção de saúde mental que os homens, o que é corroborado em outros estudos, (Portugal, 2009) em que a prevalência de mulheres com provável sofrimento psicológico é quase o dobro da dos homens. Para além de factores constitucionais da mulher há factores modificáveis, que poderão influenciar estas diferenças. Também quanto à escolaridade se observam diferenças, em que os que tem ensino superior tem melhor percepção da saúde mental. Para além de poderem ser adultos mais jovens, terão mais literacia, que lhes permite mobilizar recursos para se

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VII Congresso Internacional ASPESM confrontarem positivamente com situações adversas. Estes resultados são ainda sustentados pela WHO (2005) e pela WHA (2012), quando consideram que a baixa escolaridade é um determinante da doença mental No que se refere ao estado civil são os viúvos e divorciados que apresentam valores mais baixos, a que não será alheia possível menor rede de suporte social. Na ocupação os estudantes apresentam a melhor percepção de saúde mental enquanto as domésticas e os desempregados apresentam os piores valores. Os primeiros estarão numa situação em que a rede de suporte social é alargada, a idade é mais baixa e as perspectivas de vida são alargadas, enquanto os segundos terão redes mais limitadas, com menos horizontes em termos do futuro. Também a WHO (2005) e a WHA (2012) referem o desemprego como um importante determinante da doença mental. As pessoas com doença crónica apresentam pior percepção de saúde mental o que decorrerá do facto de, sobretudo em doenças sintomáticas como a osteoporose, as doenças reumáticas, a dor crónica ou a diabetes, implicarem limitações nas actividades de via diária e sofrimento. A WHO (2005) e a WHA (2012) referem esta evidência quando consideram que a doença mental está frequentemente associada a outras doenças. Em termos gerais constata-se nos adultos do estudo a presença de factores modificáveis (como o desemprego ou a escolaridade) e não modificáveis (como o sexo ou a idade) que se encontram associados à percepção da saúde mental, pelo que se torna imperioso intervir junto das populações de forma a minimizar o risco de desenvolver doença mental.

Conclusão Saúde mental é uma importante dimensão da saúde que contribui para o bem-estar pessoal, familiar, profissional, e social. Pessoas com transtornos mentais podem alcançar bons níveis de bem-estar e pessoas sem transtorno mental podem ter uma deficiente percepção de bem-estar. Experiências stressantes nem sempre levam a transtornos mentais, mas existem frequentemente transtornos sub-liminares que em algum momento afectam as pessoas e não atingem um limiar de diagnóstico, mas que é importante tem em consideração na intervenção. No presente estudo avaliou-se a percepção de saúde mental, constatando-se que em termos gerais existe uma boa percepção de saúde mental, ainda que 20% apresente

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VII Congresso Internacional ASPESM provável sofrimento psicológico. O provável sofrimento psicológico está mais presente nas mulheres, nos com menos escolaridade, nos desempregados e domésticas, nos viúvos e divorciados, o que faz emergir a necessidade de intervir junto destas populações, através de redes de proximidade, com vista a aumentar a resiliência, de forma a poderem confrontar-se de forma positiva face às adversidades da vida. Das limitações do estudo é de salientar a sobre representação das mulheres, o que pode ter influenciado os resultados. Em estudos posteriores será importante proceder a uma análise logística para se poder avaliar variáveis que efectivamente contribuem para um modelo preditivo, com uma amostra de maior dimensão e inclusão de outras determinantes sociais.

Implicações para a Prática Clínica Com o presente estudo pretendemos contribuir para o conhecimento do estado de saúde da população de Viana do Castelo, articulando a investigação com o desenvolvimento curricular de estudantes do CLE. Esta poderá ser uma forma de despertar os estudantes para a necessidade da incorporação dos resultados de investigação na prática clinica.

Referências Bibliográficas Comissão das Comunidades Europeias (2005). Livro Verde: Melhorar a saúde mental da população, rumo a uma estratégia de Saúde mental para a União Europeira. Bruxelas: Comissão das Comunidades Europeias Fragoeiro, Isabel Maria Abreu Rodrigues. A Saúde Mental das pessoas idosas na Região Autónoma da Madeira. Porto: Universidade do Porto, 2009. Tese de doutoramento. Lahtinen, E., Lehtinen, V., Riikonen, E. & Ahonen, J. (1999). Framework for promoting mental health in Europe. Helsinki: Stakes. PORTUGAL, Instituto Nacional de Estatística (2012). Censos 2011. Resultados definitivos - Portugal. Lisboa: Instituto Nacional de Estatística. PORTUGAL, Instituto Nacional De Estatística e Instituto Nacional de Saúde dr. Ricardo Jorge. (2009). Inquérito Nacional de Saúde 2005/2006. Lisboa: INE e INSA.

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VII Congresso Internacional ASPESM PORTUGAL, Ministério da Saúde. (2008). Plano Nacional de Saúde Mental 2007-2016 - Resumo Executivo. Lisboa: Coordenação Nacional para a Saúde Mental.~ Ribeiro, J. L. (2001). Mental Health Inventory: um estudo de adaptação à população portuguesa. Psicologia, Saúde & Doenças, 2(1), 77-99. WHA. Sixty-Fifth World Health Assemby. (25 de May de 2012). The global burden of mental disorders and the need for a comprehensive, coordinated response from health and social sectors at the country level. WHO. World Health Organization and Calouste Gulbenkian Foundation (2014). Social determinants of mental health. Geneva: World Health Organization. World Health Organization. (2016). Data and statistics. Recuperado em 15 Junho 2016 http://www.euro.who.int/en/health-topics/noncommunicablediseases/mental-health/data-and-statistics World Health Organization. Dept. of Mental Health and Substance Dependence., Herrman, H., Saxena, S., Moodie, R., Victorian Health Promotion Foundation., & University of Melbourne. (2005). Promoting mental health : concepts, emerging evidence, practice : a report of the World Health Organization, Department of Mental Health and Substance Abuse in collaboration with the Victorian Health Promotion Foundation and the University of Melbourne. Geneva: World Health Organization.

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Maria Rodrigues1 | Maria Amorim2

1Mestre

em Gerontologia Social; Gerontóloga Social; Instituto Politécnico de Viana do Castelo-Escola Superior de Educação; 4901 - Viana do Castelo, Portugal. Email:mrmariarodrigues@gmail.com 2 Doutor em Saúde Mental; professor coordenador, Instituto Politécnico de Viana do Castelo-Escola Superior de Saúde; 4900 - Viana do Castelo, Portugal. Email: isabelamorim@ess.ipvc.pt

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VII Congresso Internacional ASPESM

Resumo Contexto: o ambiente onde o indivíduo reside afeta a sua adaptação, sendo este um elemento facilitador ou uma barreira para o dia-dia, afetando diretamente a qualidade de vida. Não existindo um equilíbrio entre a pessoa e o meio envolvente, verifica-se maior vulnerabilidade para sentimentos de ansiedade e depressão. Objetivo: analisar a relação entre aspetos sociodemográficos e relacionados com a situação individual, suporte social, ansiedade, depressão e qualidade de vida de pessoas idosas residentes na comunidade e em estrutura residencial para pessoas idosas (erpi). Metodologia: estudo descritivo-correlacional, comparativo e transversal, com 99 idosos: 50 residentes em estrutura residencial e 49 na comunidade, utilizando-se como instrumentos de recolha de dados a escala breve de redes sociais de lubben (ribeiro et al., 2012), o geriatric anxiety inventory (ribeiro et al., 2011), a escala de depressão geriátrica-15 (pocinho et al., 2009) e a escala de avaliação de qualidade de vida – breve (canavarro et al., 2006). Resultados: na comparação entre grupos, observaram-se diferenças em relação à perceção de suporte social, com valores mais elevados para os idosos a viver na comunidade. Uma melhor perceção de suporte social está associada positivamente à dimensão de bem-estar psicológico da qualidade de vida. A sintomatologia depressiva está positivamente associada à ansiedade, e estas negativamente associadas à perceção de qualidade de vida. Conclusões: o grupo residente em erpi apresenta maior risco de isolamento social. O suporte social parece ser uma variável importante pela sua ação moderadora, permitindo potenciar o bem-estar físico e psicológico. Palavras-chave: qualidade de vida; suporte social; ansiedade; depressão.

Resumen Contexto: el entorno en el que reside el individuo afecta a su adaptación, al ser un facilitador o una barrera para el día a día, lo que afecta su calidad de vida. Cuando no hay un equilibrio entre las personas y el entorno circundante, existe una mayor vulnerabilidad a los sentimientos de ansiedad y depresión. Objetivo: analizar la relación entre los aspectos sociodemográficos y relacionados con la situación individual, el apoyo social, la ansiedad, la depresión y la calidad de vida

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VII Congresso Internacional ASPESM de los ancianos que viven en la comunidad y en el estructura residencial para personas mayores (erpi). Metodología: estudio descriptivo-correlacional, transversal y comparativo, con 99 ancianos: 50 residentes en la estructura residencial y 49 ancianos que residen en la comunidad, utilizando como instrumentos la breve escala de redes sociales de lubben (ribeiro et al., 2012), inventario de ansiedad geriátrica (ribeiro et al., 2011), la escala de depresión geriátrica-15 (pocinho et al., 2009), y la escala de evaluación de la calidad de vida – breve (canavarro et al., 2006). Resultados: en la comparación entre los grupos, únicamente se observaron diferencias en relación con la percepción de apoyo social, con valores más altos para los ancianos que viven en la comunidad. Una mejor percepción de apoyo social se relaciona positivamente con el bienestar psicológico dimensión de la calidad de vida. Los síntomas depresivos se asocian positivamente con la ansiedad, y estos asociados negativamente con la percepción de la calidad de vida. Conclusiones: el grupo que reside en erpi es más riesgo de aislamiento social. El apoyo social parece ser una variable importante por su acción calmante, lo que permite mejorar el bienestar físico y psicológico. Descriptores: calidad de vida; apoyo social; ansiedad; depresión.

Abstract Background: the environment where the individual resides affects their capacities and adaptation, being a facilitator element or a barrier to the daily life, directly affecting their quality of life. When there is no balance between the person and the environment, there is greater vulnerability to feelings of anxiety and depression. Aim: analyze the relationship between sociodemographic aspects and related to the individual situation, social support, anxiety, depression and quality of life of elderly people living in the community and in residential structure for the elderly people (erpi). Methods: a descriptive-correlational, comparative and cross-sectional study which 99 elderly people participated: 50 residents in a residential structure and 49 elderly people living in the community, being used as data collection instruments in the social network brief scale of lubben (ribeiro et al., 2012), the geriatric anxiety inventory (ribeiro et al., 2011), the depression scale-15 (pocinho et al., 2009), and the world health organization quality of life – brief form (canavarro et al., 2006). Results: in the comparison between groups, only differences were observed in relation to the perception of social support, with higher values for the elderly living in the Viana do Castelo, Novembro de 2016


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VII Congresso Internacional ASPESM community. A better perception of social support is positively associated with the psychological

well-being

dimension

of

the

quality

of

life.

The

depressive

symptomatology is positively associated with anxiety, and these are negatively associated with the perception of quality of life. Conclusions: The group residing in a ERPI presents a greater risk of social isolation. The Social Support seems to be an important variable for its moderating action, allowing enhancing physical and psychological well-being. Keywords: Quality of Life; Social Support; Anxiety; Depression.

Introdução O acréscimo de longevidade com que as sociedades atuais se deparam, quer relacionado com a alteração de padrões de natalidade tradicionalmente elevada, quer com o aumento significativo da esperança média de vida, bem como das melhores condições sociais, médicas e tecnológicas (Dias & Rodrigues, 2012), leva ao aumento do interesse social e científico pela população idosa, e à crescente necessidade de analisar o envelhecimento a partir de uma perspetiva individual, resultante de alterações biológicas, psicológicas e sociais ao longo do ciclo de vida (Paúl, 1991). Contudo,

o

processo

de

envelhecimento

não

depende

exclusivamente

das

particularidades individuais da pessoa, mas também do ambiente em que está inserida. O ambiente físico dos idosos é considerado um fator otimizador ou não, no evoluir do processo do envelhecimento, com efeitos diretos na sua autonomia e efeitos indiretos pela indução de ambientes sociais favoráveis ou desfavoráveis ao bem-estar dos mais velhos (Paúl e Fonseca, 2005). Estudar, numa perspectiva ecológica, o que se passa em diferentes cenários onde residem idosos, parece ser prioritário, para de futuro se diversificarem as alternativas que permitam que os idosos tenham um envelhecimento ótimo. Em paralelo, verifica-se que ao nível da interação humana num dado ambiente, o indivíduo responde, não só a uma difusão de estímulos, mas também a uma outra pessoa. Assim, o estudo das relações pessoa-ambiente expressa-se como um sistema aberto, global e não dicotómico, que integra diversos componentes e dimensões.

As

relações

interpessoais

são

fundamentais

aos

indivíduos,

essencialmente para a manutenção do sentido de pertença e bem-estar, existindo ganhos diretos e/ou indiretos dos laços mantidos (Pinheiro, 2004), assim, o Suporte Social é sem dúvida um elemento chave na vida dos indivíduos, onde quer que vivam pois são seres em constante interação. Contudo, não existindo um equilíbrio na interação entre a pessoa e o meio envolvente no qual o indivíduo se move e que lhe

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VII Congresso Internacional ASPESM permite desenvolver as suas potencialidades, este pode evidenciar predisposição para uma maior vulnerabilidade e fragilidade na população idosa, que por sua vez, pode levar a alteração do bem-estar e da saúde mental, nomeadamente relacionados com estados depressivos e de ansiedade nos idosos. Quando a ansiedade perturba o funcionamento do indivíduo e não produz respostas adequadas às situações, estamos perante um caso grave (Hell, 2009), e quando não tratada devidamente, a ansiedade pode vir associada a transtornos depressivos graves, levando a sentimentos de tristeza e isolamento social, atingindo os mais elevados índices de morbilidade e mortalidade. Em suma, o que está em causa é a Qualidade de Vida dos idosos e quais os principais recursos que podem otimizar o bem-estar desta faixa etária, e só conhecendo a forma como o indivíduo se relaciona com os seus e com o meio em que está inserido, é que poderá ser possível uma intervenção eficaz, no sentido da promoção da saúde e de um

envelhecimento

saudável,

aspeto

que

despertou

o

interesse

para

o

desenvolvimento do presente estudo.

Metodologia Estudo de natureza quantitativa, descritivo e correlacional. Recorreu-se a uma amostra não probabilística, constituída por 99 pessoas idosas, sendo 50 idosos residentes em ERPI e 49 idosos na comunidade. Os critérios de inclusão estabelecidos foram: idade igual ou superior a 65 anos; sem patologia mental grave/observável, e sem incapacidade de colaboração por dificuldades de comunicação. O protocolo

de recolha

de informação foi

constituído

por Questionário de

Caracterização Sociodemográfica e aspetos relacionados com a vivência individual do indivíduo; a Escala Breve das Redes Sociais de Lubben (Lubben, 1988; Ribeiro et al., 2012), que avalia o isolamento social em idosos, através da medição da perceção do apoio social recebido por familiares e amigos; a Geriatric Anxiety Inventory (Pachana et al., 2007; Ribeiro, Paúl, Simões e Firmino, 2011) permite medir os sintomas comuns de ansiedade em pessoas idosas; a Escala de Depressão Geriátrica-15 (Yesavage e Brink, 1983; Pocinho, Farate, Dias, Lee e Yesavage, 2009) criada especificamente para a população idosa, avalia a predisposição a ter sintomatologia depressiva; a Escala de Avaliação de Qualidade de Vida-Breve (WHOQOL-Group, 1994; Canavarro et al., 2010) é uma medida de avaliação da qualidade de vida percebida pelo indivíduo. A análise de dados foi efetuada com recurso ao programa IBM SPSS Statistics 21, recorrendo-se a métodos inerentes à estatística descritiva e inferencial. Para comparar os

grupos

da

comunidade

e

de

ERPI

relativamente

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às

características


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VII Congresso Internacional ASPESM sociodemográficas, foram realizados testes de comparação de grupos através do quiquadrado (para comparação de variáveis categóricas), assim como o teste t para amostras independentes (para variáveis contínuas, que seguiam distribuição normal, tal como avaliado pelo teste Kolmogorov-Smirnov). Para explorar associações entre as variáveis, recorreu-se à análise de correlações de Spearman, uma vez que nem todas as variáveis de análise seguiam distribuição normal. Foram também exploradas diferenças entre as pontuações nas escalas de avaliação das variáveis com algumas características sociodemográficas dos participantes (teste t student, ou teste MannWhitney).

Resultados A amostra é constituída por 99 idosos, 27 homens (27,3%) e 72 mulheres (72,7%), com uma média de 80 (dp=7,7) anos, cerca de 40% dos participantes tem entre 65 e 79 anos, e 60,6% tem 80 ou mais anos. O grupo de ERPI é constituído maioritariamente por mulheres (74,0%), com idades compreendidas entre os 65 e os 95 anos (M=81,18, dp=7,4), o grupo da comunidade que é composto por 14 homens (28,6%) e 35 mulheres (71,4%), com 78,7 (dp=7,8) anos em média. Os grupos de ERPI e comunidade são equivalentes na distribuição dos grupos de género e idade (X2<2,31,

p>0,128).Verificam-se

diferenças

significativas

na

distribuição

da

escolaridade entre os grupos (X =10,04, gl=2, p=0,007). No grupo de ERPI, cerca de 2

44% não tem escolaridade obrigatória e 42% frequentou a escola até ao primeiro ciclo, no grupo da comunidade, 73,5% tem o primeiro ciclo e apenas 20,4% não frequentou a escola ou não completou o 1º ciclo. Relativamente ao estado civil, 50,5% dos participantes são viúvos e 29,3% casados/união de facto, sendo estes resultados equivalentes entre o grupo de ERPI e da comunidade. Na análise da rede social, verifica-se diferenças estatisticamente significativas entre os grupos, os idosos de ERPI apresenta uma pontuação total significativamente inferior ao grupo da comunidade (M=12,0 e M=16,2, respetivamente), e pontuações mais baixas nas dimensões da família e amigos, assim como apresenta risco de isolamento social significativamente mais elevado do que os participantes da comunidade (46,0% vs. 24,5%, respetivamente; X2=5,010, gl=1, p=0,025). Quanto à caraterização dos sintomas

de Ansiedade, não se verificam diferenças significativas entre participantes de ERPI e da comunidade (t=-0,75, gl=96,7, p=0,457), nem quanto à proporção de participantes com pontuação indicadora de ansiedade grave (X2=0,508, gl=1, p=0,476), apesar de no grupo de ERPI existir uma pontuação ligeiramente superior de participantes com

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VII Congresso Internacional ASPESM ansiedade grave do que o grupo da comunidade (50,0% vs. 42,9% respetivamente). Em relação à sintomatologia depressiva, não se verificam diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos (t=-1,08, gl=93,7, p=0,283), nem quanto à proporção de maior sintomatologia depressiva (X2=2,100, gl=1, p=0,147). No grupo de ERPI existe maior proporção de participantes que apresenta maior sintomatologia depressiva (38,0% vs. 24,5% respetivamente). Relativamente à Qualidade de Vida, entre os dois grupos não se verificam diferenças estatisticamente significativas relativamente à perceção geral de Qualidade de Vida (M=56,0 e M=61,0 respetivamente; t=1,45, gl=97, p=0,149), nem em relação a cada um dos domínios avaliados. O grupo de ERPI

apresenta pontuações ligeiramente mais baixas em todos os domínios. O domínio das relações sociais apresenta pontuações significativamente diferentes quanto ao género (U=1,219, p=0,049), sendo as mulheres a apresentar pontuações mais elevadas (M=62,4, dp=13,3 vs M=57,1, dp=14,1, respetivamente). Analisando as associações entre as variáveis analisadas e a idade, verifica-se que o suporte social está associado de forma positiva com o domínio psicológico da Qualidade de Vida, a sintomatologia depressiva apresenta uma associação positiva com a ansiedade, e associa-se de forma negativa com todos os domínios da Qualidade de Vida, e a ansiedade apresenta correlações negativas com os vários domínios da Qualidade de Vida.

Discussão O objetivo do presente estudo prendia-se com análise da relação entre Suporte Social, Ansiedade, Depressão e Qualidade de Vida de pessoas idosas residentes na comunidade e em ERPI. Partindo dos resultados obtidos, é permitido verificar que o Suporte Social se mostrou como uma variável de especial interesse, já que o grupo de ERPI apresenta risco de isolamento social significativamente mais elevado do que os participantes da comunidade, com resultados semelhantes nas dimensões da família e amigos com valores significativamente inferiores ao grupo da comunidade. Tal como referido por Wiles e colaboradores (2011) a maioria dos idosos prefere permanecer em sua casa à medida que envelhece para continuarem a manter as ligações com a sua rede de suporte social, nomeadamente os amigos e a família, em oposição aos idosos residentes em instituições que tendem a sentir-se mais sós e insatisfeitos, pois os dias são monótonos e estão afastados das suas redes sociais, como referiu Fonseca (2006).

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VII Congresso Internacional ASPESM Nos resultados que possam indicar sintomas de Ansiedade grave ou presença de sintomatologia depressiva, não se verificam diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos, contudo o grupo de ERPI apresenta resultados ligeiramente superiores ao da comunidade, aspetos que eventualmente se relacionam com a mudança e adaptação do idoso à instituição, e situações completamente novas como espaços, rotinas, pessoas desconhecidas que vão partilhar a sua vida, o que poderá exercer uma influência negativa no seu bem-estar (Fonseca, 2005; Carvalho e Dias, 2011). Resultados que vão de encontro a vários estudos com amostras de idosos institucionalizados e não institucionalizados, demonstrando que aparece maior prevalência de sintomas depressivos entre o grupo institucionalizado. (Frade, et. al., 2015). Também em relação à Qualidade de Vida, não se verificam diferenças estatisticamente significativas relativamente à perceção geral de qualidade de vida, nem em relação aos domínios avaliados. O grupo de ERPI apresenta, no entanto, pontuações ligeiramente mais baixas em todos os domínios, estes resultados vão de encontro a outros que evidenciam que a Qualidade de Vida vivenciada pelos indivíduos parece variar consoante os idosos residam numa instituição ou na comunidade, sendo que os idosos que vivem na comunidade apresentam mais possibilidades de realizarem atividades diárias e de conviver com uma rede social mais alargada, o que melhora a sua Qualidade de Vida (Keeling,1999; Teixeira, 2010), já nas instituições os idosos ficam com muito tempo ocioso, o que poderá levar a problemas de angústia e depressão, entre outras doenças (Lima, Lima e Ribeiro, 2010). A investigação na área demonstra o efeito positivo do Suporte Social na saúde e no próprio bem-estar psicológico e satisfação com a vida dos idosos (Paúl e Fonseca, 2005) resultado observado no presente estudo, com os participantes que obtiveram pontuações médias mais elevadas no Suporte Social apresentam uma perceção de Qualidade de Vida mais elevada no domínio psicológico, que como referido por Canavarro et al. (2010), engloba facetas relacionadas com sentimentos, pensamentos, memória, autoestima, espiritualidade e crenças pessoais, sendo que por outro lado, o domínio das relações sociais considera a atividade sexual, o apoio social e as relações sociais dos idosos, o que pode indicar que a perceção de Suporte Social é mais importante para o idoso, em detrimento de outros domínios. Os resultados obtidos demonstram que sintomatologia depressiva se associa a maiores níveis de Ansiedade e ainda, que mais elevados níveis de sintomatologia depressiva e de Ansiedade estão associados a piores resultados em todos os domínios de perceção

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VII Congresso Internacional ASPESM de Qualidade de Vida, resultados encontrados em outros estudos (Fleck e cols., 2002 como citado em Oliveira, Santos, Cruvinel, e Néri, 2006; Bernardino, 2013). Por sua vez, a perceção e a satisfação com o Suporte Social recebido correlacionam-se positivamente com menores índices de sintomas depressivos e de Ansiedade. A manutenção de contatos sociais com amigos de longa data, e preservação de emoções positivas com os relacionamentos, mesmo na presença de diminuição da rede de relações, parecem positivos para a perceção de Qualidade de Vida.

Conclusão Em síntese dos principais resultados deste estudo, apenas a perceção de Suporte Social apresentou diferenças significativas entre os grupos, com valores mais altos para quem vive na comunidade. No domínio das relações sociais da Qualidade de Vida, observaram-se apenas diferenças significativas em termos de género, com as mulheres a apresentar pontuações mais altas. Verifica-se que melhor perceção de Suporte Social está associada positivamente ao bem-estar psicológico da Qualidade de Vida. A sintomatologia depressiva está positivamente associada à ansiedade. A sintomatologia depressiva e a ansiedade estão negativamente associadas à perceção de Qualidade de Vida global e em todos os seus domínios. Desta forma, a promoção da saúde física e mental para o bem-estar social das pessoas idosas, passa inevitavelmente pela relação direta entre Suporte Social, Qualidade de Vida e uma relação inversa desses fatores com a sintomatologia depressiva e ansiosa, tendo sido apontado por diversas vezes que a capacidade de interagir socialmente e manter

suporte

social

poderá

garantir

uma

melhor

Qualidade

de

Vida,

independentemente do contexto ambiental em que residam. A importância de uma adaptação bem-sucedida ao contexto residencial é mencionada como uma forma de preservação de saúde física e do bem-estar psicológico dos indivíduos. Contudo, e principalmente quando se muda de contexto residencial numa fase tão tardia da vida, os idosos tendem a ter dificuldade em gerenciar os seus sentimentos e emoções, sendo muito comum o aparecimento de sintomatologia depressiva e ansiosa. Quando o individuo não tem apoio da sua rede de Suporte Social, estes sentimentos tendem a

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VII Congresso Internacional ASPESM piorar. Todas estas variáveis afetam a sua perceção de qualidade de vida, dado a subjetividade deste conceito, e quais são os indicadores que mais importam para o idoso. O envelhecimento e a Qualidade de Vida são conceitos complexos quando associados, já que dependem de vários fatores, e com o crescente envelhecimento da população têm sido foco de atenção da investigação. A investigação na área da Qualidade de Vida e da interação pessoa-ambiente é de todo pertinente, uma vez que, só conhecendo a forma como o indivíduo se relaciona com os seus e com o meio em que está inserido, é que poderá ser possível uma intervenção eficaz, no sentido da promoção da saúde e de um envelhecimento saudável.

Implicações para a Prática Clínica Em trabalhos futuros que abordem a temática da qualidade de vida em idosos de contextos residenciais divergentes, importa reconhecer a necessidade de obter informação consistente e credível da prevalência da ansiedade e depressão, de modo a estruturar e projetar meios necessários à prestação de serviços adequados para a população idosa. Assim, programas de prevenção de ansiedade e depressão na comunidade e na instituição ajudará a detetar antecipadamente sintomas e comorbidades, de forma a não errar o diagnóstico. É fundamental incidir em programas de prevenção e promoção da saúde mental em instituições e na comunidade. A prevenção deve compreender a promoção da saúde como uma área específica da prevenção e ressalta a integração entre prevenção, promoção,

tratamento.

O

foco

da

promoção

da

saúde

deverá

incidir

no

desenvolvimento de competências e recursos para o confronto com vulnerabilidades individuais e ambientais. A prevenção deve diminuir os riscos de surgimento de problemas ou transtornos, e o tratamento focar o atendimento assistencial àqueles que possuem um diagnóstico de um transtorno mental. Na complementação deste processo, ações de manutenção são essenciais para adesão ao tratamento ao longo do tempo e para prevenção à recaída e reincidência. As intervenções ao nível do ambiente físico são essenciais, nomeadamente na remoção de barreiras arquitetónicas e adaptação ambiental quer as habitações e instituições, quer nos espaços públicos, para que as condições ambientais permitam aos idosos desempenharem comportamentos biológicos, sociais e psicológicos adaptativos que estão entre as dimensões mais relevantes para o envelhecer com Qualidade de Vida.

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VII Congresso Internacional ASPESM Deve-se ainda, considerar a relevância do Suporte Social para o funcionamento individual, particularmente em situações de maior vulnerabilidade, bem como nas alterações nas redes sociais associadas ao processo de envelhecimento. Assim, é de releva importância intervenções que potenciem as redes sociais das pessoas idosas no sentido de contribuir para um envelhecimento com qualidade, independentemente do ambiente residencial do individuo.

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A.R.P.

(2013).

Depressão

e

Ansiedade

em

Idosos

Institucionalizados e não Institucionalizados: Valorizar o envelhecimento. Dissertação de Mestrado.Universidade da Beira Interior. Canavarro, M.C., Serra, A.V, Pereira, M., Simões, M. R., Quartilho, M.J.R., Rijo, D., Gameiro, S., Carona, C. & Paredes, T. (2010). WHOQOL disponível para Portugal: desenvolvimento dos instrumentos de avaliação da qualidade de vida da OMS (WHOQOL-100 e WHOQOL-Bref). In Canavarro, C. & Vaz Serra, A. (Coord.). Qualidade de Vida e Saúde: uma abordagem na perspectiva da Organização Mundial de Saúde. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Carvalho, P. & Dias, O. (2011). Adaptação dos Idosos Institucionalizados. Millenium, 40, 161‐184. Dias, I. e Rodrigues, E.V. (2012). Demografia e Sociologia do Envelhecimento. In Paúl, C. & Ribeiro, O. (Coord.) Manual de Gerontologia. (p.p. 179-202). Lisboa: Lidel. Fonseca, A. M. (2005). O envelhecimento bem-sucedido. In C. Paul, & A. M. Fonseca (Eds.), Envelhecer em Portugal (pp.97-108). Lisboa: Climepsi Editores. Frade, J., Barbosa, P., Cardoso, S., & Nunes, C. (2015). Depressão no idoso: sintomas em indivíduos institucionalizados e não-institucionalizados. Revista de Enfermagem Referência, 4, pp.41-48.. Hell, D. (2009). Depressão – que sentido faz? Uma abordagem integrativa (1ª Ed.). Lisboa: Sete Caminhos Keeling, S. (1999). Ageing in (a New Zealand) place: Ethnography, policy and practice. Social Policy Journal of New Zealand, 13, 95-114. Lima, D.L., Lima, M.A.V.D., & Ribeiro, C.G. (2010). Envelhecimento e qualidade de vida de idosos institucionalizados. RBCEH, Passo Fundo, 7(3), 345-355. Oliveira, K.L., Santos, A.A., Cruvinel, M. & Néri, A.L. (2006). Ansiedade, depressão e desesperança em idosos. Psicologia em Estudo, 11(2), 351-359. Paúl,

C.

(1991).Percursos

pela

velhice:

uma

perspectiva

ecológica

em

Psicogerontologia. Tese de doutoramento. Porto: Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar.

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VII Congresso Internacional ASPESM Paúl, C. e Fonseca, A. M. (2005). Envelhecer em Portugal: Psicologia, saúde e prestação de cuidados. Lisboa: Climepsi Editores. Pinheiro, M. R. (2004). Uma época especial: suporte social e vivências académicas na transição e adaptação ao ensino superior. Dissertação de doutoramento não publicada. Coimbra: Universidade de Coimbra. Pocinho, M. T. S., Farate, C., Dias, C. A., Lee, T. T., & Yesavage, J. A. (2009). Clinical and Psychometric Validation of the Geriatric Depression Scale (GDS) for Portuguese Elders. Clinical Gerontologist, 32 (2), 223-236. Ribeiro, O., Paul, C., Simões, M., & Firmino, H. (2011). Portuguese version of the Geriatric Anxiety Inventory: Transcultural adaptation and psychometric validation. Aging & Mental Health, 1-7. Ribeiro, O., Teixeira, L., Duarte, N., Azevedo, M.J., Araújo, L., Barbosa, S., e Paúl, C. (2012). Versão Portuguesa da Escala Breve de Redes Sociais de Lubben (LSNS-6). Revista Temática Kairós Gerontologia, 15 (1). pp. 217-234. Teixeira, L. (2010). Solidão, depressão e Qualidade de vida em idosos: um estudo avaliativo exploratório e implementação-piloto de um programa de intervenção. Dissertação de Mestrado. Lisboa: Faculdade de Psicologia. WHOQOL Group (1994). Development of the WOQOL: rationale and current status. Internacional Journal of Mental Health, 23, pp. 24-56. Wiles, J. L., Leibing, A., Guberman, N., Reeve, J., & Allen, R. E. S. (2011). The meaning of “ageing in place” to older people. The Gerontologist, 1-10.

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Paulo Chaló1 | Anabela Pereira2 |Cláudia Chaves3 | Lara Pinho4

Licenciado em Psicologia Clinica e de Aconselhamento pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias de Lisboa, Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde pela Universidade de Aveiro, Doutorando em Psicologia na Universidade de Aveiro. Investigador no StressLab®, Universidade de Aveiro, Campus Universitário de Santiago, 3810-193 Aveiro, Portugal Email: paulo.chalo@ua.pt; Phone: (351) 936385115 2 Licenciada em Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, Doutorada em Psicologia (PhD) pela Universidade de Hull, UK. Professora Associada com Agregação no Departamento de Educação e Psicologia, CIDTFF, CINTESIS, Universidade de Aveiro, Campus Universitário de Santiago, 3810-193 Aveiro, Portugal Email: anabelapereira@ua.pt; Phone: (351) 234370353 (ext. 24213) 3 Licenciada em Enfermagem, Especialista em Enfermagem de Saúde na Comunidade, Mestre em Síndrome de Imunodeficiência Adquirida: da Prevenção à Terapêutica, Doutorada em Ciências da Educação (PhD), Professora Adjunta na Escola Superior de Saúde de Viseu, IPV, CI&DETS, R. D. João Crisóstomo Gomes de Almeida, n.º 102, 3500-843 Viseu, Portugal Email: cchaves@essv.ipv.pt; Phone: (351) 232419100 (ext. 7039) 4 Licenciada em Enfermagem pela Escola Superior de Saúde da Guarda, Especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria, título concedido pela Ordem dos Enfermeiros, Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde pela Universidade de Aveiro, Doutoranda em Psicologia na Universidade de Aveiro. Enfermeira na Unidade de Cuidados na Comunidade de Viseu, ACES Dão Lafões, Avª Dr. António José de Almeida, 3514-511 Viseu, Portugal Email: larapinho7@gmail.com; Phone: (351) 916545031 1

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Resumo Contexto: a elevada incidência de problemas de ansiedade entre os alunos universitários tem sido alvo de preocupação crescente. Na sua adaptação ao ensino superior os alunos estão ainda mais vulneráveis, sendo a enfermagem um dos cursos onde os alunos apresentam níveis de stresse e ansiedade mais elevados. Objetivo(s): o presente estudo teve como objetivo avaliar a eficácia de um programa de biofeedback na prevenção do aumento de ansiedade em alunos de enfermagem do primeiro ano. Metodologia: 50 voluntários sem níveis de ansiedade elevada foram aleatoriamente distribuídos por 2 grupos. Os alunos do grupo de experimental realizaram 1 sessão semanal de biofeedback, durante 8 semanas, enquanto aos alunos do grupo de controlo não foi dada qualquer tarefa. Após o final do programa de biofeedback todos os alunos forma avaliados com recurso à stai-y2 e os resultados obtidos comparados com os resultados da avaliação inicial. Resultados: observou-se uma ligeira redução, não significativa, dos níveis de ansiedade no grupo experimental, enquanto no grupo de controlo se verificou um aumento significativo da ansiedade (z=-2.904; p=.004) . Conclusões: os resultados do grupo de controlo enfatizam a problemática do aumento da ansiedade na adaptação dos alunos de enfermagem ao primeiro ano da universidade. A manutenção dos resultados no grupo experimental realça a eficácia do biofeedback na prevenção da ansiedade. Apesar da necessidade de serem realizados mais estudos, estes resultados sustentam a criação de programas baseados em biofeedback por parte das universidades, na resposta aos elevados níveis de stress e ansiedade evidenciados pelos alunos. Palavras-chave:

ansiedade;

biofeedback;

educação

superior;

educação

em

enfermagem

Resumen Contexto: la alta incidencia de problemas de ansiedad entre los estudiantes universitarios ha sido una preocupación creciente. En su adaptación a la educación superior los estudiantes son aún más vulnerables, siendo la educación de enfermería uno de los cursos donde los estudiantes tienen niveles más altos de estrés y ansiedad.

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VII Congresso Internacional ASPESM Objetivo(s): el presente estudio tuvo como objetivo evaluar la eficacia de un programa de biofeedback en la prevención del aumento de la ansiedad en estudiantes de primer año de enfermería. Metodología: 50 voluntarios sin niveles elevados de ansiedad se asignaron aleatoriamente a 2 grupos. Los estudiantes del grupo experimental realizaron una sesión semanal de biofeedback durante 8 semanas, mientras que a los estudiantes del grupo de control no se les dio ninguna tarea. Después de terminar el programa de biofeedback, todos los estudiantes fueron evaluados usando stai-y2 y los resultados obtenidos comparados con los resultados de la evaluación inicial. Resultados: hubo una ligera reducción no significativa en los niveles de ansiedad en el grupo experimental, mientras que en el grupo control hubo un aumento significativo en la ansiedad (z=-2.904; p=.004). Conclusiones: los resultados del grupo de control enfatizan el problema del aumento de la ansiedad en la adaptación de los estudiantes de enfermería al primer año de la universidad. El mantenimiento de los resultados en el grupo experimental pone de relieve la eficacia de biofeedback en la prevención de la ansiedad. A pesar de la necesidad de más estudios, estos resultados apoyan la creación de programas basados en biofeedback por las universidades, en respuesta a los altos niveles de estrés y ansiedad evidenciados por los estudiantes. Descriptores: ansiedad; biorretroalimentação; educación superior; educación en enfermería.

Abstract Background: the high incidence of anxiety problems among college students has been a growing concern. In their adaptation to higher education, students are even more vulnerable, with nursing education being one of the courses where students have higher levels of stress and anxiety. Aim: the present study aimed to evaluate a biofeedback program in the prevention of anxiety increase in first year nursing students. Methods: fifty volunteers without elevated anxiety levels were randomly assigned to 2 groups. The students in the experimental group performed 1 weekly biofeedback session for 8 weeks while the students in the control group were given no task. After the end of the biofeedback program, all students were assessed using stai-y2 and the results obtained compared to the results from the initial evaluation.

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VII Congresso Internacional ASPESM Results: there was a small, non-significant reduction in anxiety levels in the experimental group, while in the control group there was a significant increase in anxiety (z=-2.904; p=.004). Conclusions: The results of the control group emphasize the problem of increased anxiety in the adaptation of nursing students to the first year of university. The maintained the results of the experimental group highlights the efficacy of biofeedback in preventing anxiety. Despite the need for more studies, these results support the creation of programs based on biofeedback by universities, in response to the high levels of stress and anxiety evidenced by the students. Keywords: Anxiety; Biofeedback; Higher Education; Nursing Education.

Introdução Nos anos recentes tem-se observado uma crescente preocupação com o aumento da prevalência de perturbações mentais entre os estudantes universitários, sendo o stresse e a ansiedade uma das problemáticas mais comuns. Diversos estudos estimam que entre 75% a 80% de alunos apresentem stresse moderado, 10% a 15% stresse acima da média e entre 9% e 12% enorme stresse (Lindsey, 2014; Tavolacci et al., 2013). A entrada no ensino superior coloca os alunos perante novos desafios ao nível pessoal, social e académico que por requererem um processo de poderão gerar stresse e ansiedade. Os alunos de enfermagem encontram-se ainda mais vulneráveis, com alguns estudos a sugerir que os níveis de stresse evidenciados por alunos de enfermagem são superiores aos encontrados em enfermeiros licenciados ou alunos de outros cursos de saúde (Chen, Yang, Wang, & Zhang, 2013; Chernomas & Shapiro, 2013; Patterson, 2016). Se em níveis normais o stresse é comum e pode ser considerado necessário e adaptativo, valores elevados de stresse estão relacionados com o aumento de ansiedade e sintomatologia depressiva, com impacto negativo na saúde, qualidade de vida e desempenho dos alunos, das suas famílias e nas instituições que os rodeiam (Jarasiunaite, Perminas, Gustainiene, Peciuliene, & Kavaliauskaite-Keserauskiene, 2015; Tavolacci et al., 2013). A importância e eficácia de programas de intervenção junto de alunos de enfermagem tem sido realçada por vários estudos experimentais e revisões de literatura. Os têm enfatizando os benefícios obtidos em intervenções tão distintas como abordagens centradas na redução do numero e intensidade de fatores stressores, programas

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VII Congresso Internacional ASPESM baseados em relaxamento muscular, meditação, mindfulness, aromaterapia, técnica de liberdade emocional (emotional freedom technique), grupos de suporte, e biofeedback (Chen et al., 2013; Chernomas & Shapiro, 2013; Patterson, 2016; Torabizadeh, Bostani, & Yektatalab, 2016; Turner & McCarthy, 2017). Destas intervenções destacamos o biofeedback, que é o objeto de estudo do presente trabalho. O biofeedback pode ser descrito como um processo que permite a um individuo aprender a alterar a sua atividade fisiológica com vista à melhoria da saúde e desempenho. Instrumentos precisos medem atividades fisiológicas como padrões de ondas cerebrais, função cardíaca, respiração, atividade muscular, sudação e temperatura da pele. Estas medições são apresentadas rapidamente ao sujeito (feedback) numa forma que lhe permita compreender a tomar consciência das variações na atividade fisiológica. Essa tomada de consciência, muitas vezes em conjunto com mudanças ao nível do pensamento, emoções e comportamento, promovem as alterações fisiológicas desejadas. Através do treino será possível aprender a modificar essa atividade fisiológica, de forma consciente, sem a necessidade de uso continuado do equipamento (Schwartz, Collura, Kamiya, & Schwartz, 2016). Esta aprendizagem ocorre em duas fases: na primeira fase existe uma tomada de consciência sobre as variações desses sinais; e numa segunda fase, através de mecanismos de condicionamento operante, o desenvolvimento de formas de modificar conscientemente esses sinais. Na intervenção em ansiedade no ensino superior observa-se um número reduzido de estudos publicados. Ainda assim os resultados obtidos apontam para a eficácia da intervenção com biofeedback na redução de níveis de stress e ansiedade em alunos universitários (Chaló, Pereira, Sancho, e Mateus, 2016; Chaló, Sancho, Martins, e Pereira, 2013; Lee, Kim, & Wachholtz, 2015; Meier & Welch, 2016; Ratanasiripong, Sverduk, Prince, & Hayashino, 2012). Em estudos realizados especificamente com alunos de enfermagem revelaram também reduções significativas nos grupos que realizaram biofeedback: um estudo com biofeedback e mindfulness revelo que ambos foram eficazes na redução da ansiedade, mas apenas o mindfulness produziu reduções significativas do stresse (Ratanasiripong,

Park,

Ratanasiripong,

&

Kathalae,

2015);

noutro

estudo

o

biofeedback mostrou-se eficaz na redução de sintomas de ansiedade, stress e depressão (Ratanasiripong, Kaewboonchoo, Ratanasiripong, Hanklang, & Chumchai, 2015); num outro estudo forma observadas reduções significativas da ansiedade e

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VII Congresso Internacional ASPESM manutenção do stresse no grupo de biofeedback (Ratanasiripong, Ratanasiripong, & Kathalae, 2012). O presente estudo pretende dar continuidade à linha de investigação iniciada em Portugal sobre a utilização do biofeedback no contexto do ensino superior, e tem como objetivo estudar a eficácia de um programa de biofeedback na prevenção da ansiedade em alunos de enfermagem. Para tal espera-se os níveis de ansiedade iniciais e finais do grupo que realiza as sessões de biofeedback se mantenham estáveis, enquanto no grupo de controlo será espectável observar o aumento significativo da ansiedade no mesmo intervalo de tempo

Metodologia Amostra A amostra final foi composta por 39 alunos, com média de idade de 18,95, sendo 33 do sexo feminino e 6 do sexo masculino. Os alunos foram distribuídos por 2 grupos: o grupo experimental ficou com 22 alunos, com média de idade de 19, sendo 18 do sexo feminino e 4 do sexo masculino; e o grupo de controlo ficou com 17 alunos, com média de idade de 18,82, sendo 15 do sexo feminino e 2 do sexo masculino. Instrumentos Biofeedback 2000x-pert. O Biofeedback 2000x-pert é um equipamento portátil, desenvolvido e comercializado pela Schuhfried. Os módulos deste sistema recolhem sinais à superfície da pele, através de sensores não intrusivos, que são posteriormente filtrados, amplificados, digitalizados e transmitidos via Bluetooth® para um computador onde, num monitor, são representados os parâmetros fisiológicos de forma gráfica. Inventário de ansiedade estado-traço (STAI). O STAI (Silva e Spielberger, 2007) é uma medida amplamente utilizada na avaliação da ansiedade-estado (STAI-Y1) e ansiedade-traço (STAI-Y2) em duas subescalas, cada uma com vinte itens relativos à presença de ansiedade (por exemplo: estou tenso) e à ausência de ansiedade (por exemplo: sinto-me calmo). O formato de resposta caracteriza-se por duas escalas tipo Likert de quatro pontos, que variam entre 1 (Nada) e 4 (Muito). As qualidades psicométricas da medida refletem valores de consistência interna que se situam entre .82 e .96, valores de teste-reteste de .84 e .83 para a STAI-Y2 Traço, e valores de .49 e .63 para a STAI-Y1 Estado. No presente estudo foi apenas avaliada a ansiedade traço, com a STAI-Y2 a apresentar boa consistência interna com valores de .70 na avaliação inicial e .90 na avaliação final.

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VII Congresso Internacional ASPESM Procedimentos Seleção e distribuição da amostra. Os alunos foram recrutados entre as turmas do primeiro ano de enfermagem da Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro. Após a apresentação do estudo, os alunos que demonstraram interesse em participar preencheram o protocolo de avaliação inicial, composto por ficha de dados demográficos, consentimento informado e Inventário de Ansiedade Traço (STAI-Y2). Foram aplicados os critérios de exclusão que consistiam em valores de ansiedade elevada (superiores ao percentil de 75 na STAI-Y2), realização atual, ou no último ano, de processo psicoterapêutico ou psicofarmacológico. Do grupo resultante foram selecionados aleatoriamente 25 alunos para o grupo experimental e 25 alunos para o grupo de controlo. Ao longo do estudo 11 alunos desistiram (3 do grupo experimental e 8 do grupo de controlo). Dinâmica das sessões. Os alunos do grupo de controlo não realizaram qualquer tipo de intervenção. Os alunos do grupo de biofeedback realizaram 8 sessões de biofeedback semanais de 15 minutos cada, utilizando uma sessão pré-definida do software do equipamento Biofeedback 2000x-pert. Esta sessão consiste numa imagem de fundo (imagem de uma praia neste caso), com uma barra vertical preta em cada lado cujo tamanho aumenta ou diminui em função da em função do aumento ou diminuição do nível de condutância da pele (Skin Conductance Level – SCL). Aos participantes era solicitado que se concentrassem em pensamentos agradáveis com vista à redução das barras pretas, permitindo ver o máximo da imagem. Uma semana após terminar o programa de 8 sessões, todos os participantes, grupo de biofeedback e grupo de controlo preencheram a STAI-Y2. Análise dos dados. Os dados foram analisados com recurso ao software SPSS V.22. Na análise da normalidade na distribuição dos resultados, através do teste Shapiro-Wilk, foram obtidos dados que remetem para a utilização de estatística não paramétrica.

Resultados Os resultados obtidos na avaliação final foram comparados com os resultados da avaliação inicial. Na avaliação inicial não foram encontradas diferenças significativas entre os grupos através do teste de Mann-Whitney (U=153.0; p=.347), tendo sido encontradas diferenças estatisticamente significativas no final do estudo (U=84.5; p=.003).

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VII Congresso Internacional ASPESM Da análise da tabela 1 observamos que as médias do STAI-Y2 são semelhantes entre os dois grupos. Após a realização do programa, o grupo que realizou sessões de biofeedback apresenta uma ligeira redução nos valores de ansiedade. Já o grupo de controlo, que não realizou qualquer intervenção, apresentou um aumento dos seus valores de ansiedade. Após a realização do teste de Wilcoxon, verificamos que a redução observada no grupo de biofeedback não é estatisticamente significativa (Z=.666; p=.505), enquanto as diferenças encontradas no grupo de controlo são estatisticamente significativas (Z=-2.904; p=.004).

Tabela 1. Comparação dos resultados da STAI-Y2 para cada grupo STAI-Y2 Inicial

STAI-Y2 Final

p

Média

DP

Média

DP

Grupo de Biofeedback

34,05

5,10

33,18

6,70

n.s.

Grupo de Controlo

34,41

5,01

40,77

8,33

<0,01

De referir também que dos 22 alunos do grupo de experimental apenas 1 aluno apresentou valores finais podem ser considerados de ansiedade elevada (superior ao percentil de 75 na escala STAI-Y2), enquanto dos 17 alunos do grupo de controlo, 6 alunos registaram aumento para valores de ansiedade elevada.

Discussão Os alunos do primeiro ano encontram-se especialmente mais vulneráveis ao stresse e ansiedade em virtude da necessidade de se adaptarem a uma série de novos desafios pessoais, sociais e institucionais. Assim era esperado que os alunos do grupo de controlo apresentassem um aumento dos seus níveis de ansiedade ao longo das 10 semanas em que decorreu este estudo. Os resultados obtidos estão de acordo com essa expetativa, com aumentos estatisticamente significativos dos níveis de ansiedade no final do estudo. Cerca de 82% dos alunos apresentaram um aumento dos seus valores, com cerca de 35 % a revelarem níveis de ansiedade elevada. Estes resultados estão em linha com a maior propensão ao desenvolvimento de ansiedade na adaptação ao ensino superior (Coutinho et al., 2013; Lindsey, 2014) e estudos anteriores que encontraram aumentos nos níveis de ansiedade e stresse em grupos de controlo, ainda que ao nível do stresse as diferenças encontradas não fossem estatisticamente significativas (Chaló et al., 2013; Ratanasiripong, Ratanasiripong, et al., 2012). A

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VII Congresso Internacional ASPESM utilização do biofeedback com vista ao desenvolvimento de competências que permitissem prevenir o aumento dos níveis de ansiedade nos alunos pressupunha que os níveis de ansiedade doa alunos que realizaram as sessões não aumentassem significativamente à semelhança do grupo de controlo. Os resultados obtidos apontam nessa direção, não tendo sido encontradas diferenças estatisticamente significativas na comparação entre os níveis de ansiedade iniciais e finais, com cerca de 50% dos alunos apresentaram ligeiras reduções de ansiedade, e apenas 1 aluno (5%) a apresentar um aumento dos seus valores de ansiedade para níveis considerados elevados. Apenas um estudo anterior faz referência à utilização de biofeedback num grupo sem níveis de ansiedade elevados, o que limita a comparação com outros estudos, tendo-se observado também uma manutenção dos valores de stresse e ansiedade (Chaló et al., 2013). Estes resultados apontam para a eficácia da utilização do biofeedback na prevenção do aumento dos níveis de ansiedade no período de adaptação dos alunos ao ensino superior. Ainda assim algumas limitações requerem cuidado na análise dos dados e generalização dos resultados. Entre as limitações inerentes ao estudo encontra-se a dimensão e representabilidade da amostra e a escassa produção científica nesta área específica, limitando fortemente a comparação dos resultados obtidos com estudos anteriores. A realização de mais estudos assim sugerida, com amostras de maior dimensão e com intervenção em diversas universidades nacionais e internacionais.

Conclusão Os resultados obtidos neste estudo realçam as propriedades preventivas do aumento da ansiedade, complementado a sua eficácia na redução dessa ansiedade evidenciada por estudos internacionais e nacionais. Assim a implementação de programas de biofeedback por parte das instituições de ensino superior poderão ser uma resposta eficaz e acessível na prevenção do aumento de ansiedade em períodos críticos (como a adaptação ao ensino superior) e também na intervenção junto de alunos que apresentam níveis de ansiedade e stresse elevados, promovendo a saúde e performance do alunos e contribuído para reduzir os impactos negativos associados a esta problemática, não só a nível pessoal, como também a nível social e institucional.

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Implicações para a Prática Clínica Os programas de biofeedback apresentam-se como uma solução não farmacológica e sem efeitos secundários, que se revelam eficazes na prevenção e intervenção da ansiedade. Por apresentarem uma boa relação custo-benefício, permitirem uma intervenção relativamente breve e serem de fácil implementação, os programas de biofeedback poderão ser uma ferramenta extremamente útil na intervenção em contexto universitário como resposta aos elevados níveis de stresse e ansiedade que se observa na população de estudantes.

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VII Congresso Internacional ASPESM Tavolacci, M., Ladner, J., Grigioni, S., Richard, L., Villet, H., & Dechelotte, P. (2013). Prevalence and association of perceived stress, substance use and behavioral addictions: a cross-sectional study among university students in France, 2009–2011. BMC Public Health, 13(1). https://doi.org/10.1186/14712458-13-724 Torabizadeh, C., Bostani, S., & Yektatalab, S. (2016). Comparison between the effects of muscle relaxation and support groups on the anxiety of nursing students: A randomized controlled trial. Complementary Therapies in Clinical Practice, 25, 106–113. https://doi.org/10.1016/j.ctcp.2016.09.001 Turner, K., & McCarthy, V. L. (2017). Stress and anxiety among nursing students: A review of intervention strategies in literature between 2009 and 2015.

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22,

21–29.


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Madalena Cunha1 | Anabela Teixeira2 | Rosa Martins3 | António Dias4 | Ana Andrade5 | Isabel Bica6

PhD, Prof. Adjunto, Instituto Politécnico de Viseu, CI&DETS, Escola Superior de Saúde, 232419100, Rua D. João Crisóstomo Gomes de Almeida, n.º 102, 3500 - 843 Viseu, Portugal, madalenacunhanunes@gmail.com 2 MsD, Enfermeira, Instituto Politécnico de Viseu, CI&DETS, Escola Superior de Saúde, 232419100, Rua D. João Crisóstomo Gomes de Almeida, n.º 102, 3500 - 843 Viseu, Portugal, anabelapt@hotmail.com 3 PhD, Prof. Coordenador, Instituto Politécnico de Viseu, CI&DETS, Escola Superior de Saúde, 232419100, Rua D. João Crisóstomo Gomes de Almeida, n.º 102, 3500 - 843 Viseu, Portugal, romymartins@sapo.pt 4 PhD, Prof. Adjunto, Instituto Politécnico de Viseu, CI&DETS, Escola Superior de Saúde, 232419100, Rua D. João Crisóstomo Gomes de Almeida, n.º 102, 3500 - 843 Viseu, Portugal, madureiradias@gmail.com 5 PhD, Prof. Adjunto, Instituto Politécnico de Viseu, CI&DETS, Escola Superior de Saúde, 232419100, Rua D. João Crisóstomo Gomes de Almeida, n.º 102, 3500 - 843 Viseu, Portugal, anandrade67@gmail.com 6 PhD, Prof. Adjunto, Instituto Politécnico de Viseu, CI&DETS, Escola Superior de Saúde, 232419100, Rua D. João Crisóstomo Gomes de Almeida, n.º 102, 3500 - 843 Viseu, Portugal, isabelbica@gmail.com 1

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Resumo Contexto: prestar cuidados paliativos requer cuidados globais e humanizados com o objetivo de proporcionar a máxima qualidade de vida possível às pessoas. Objetivos: avaliar a perceção dos doentes sobre a sua qualidade de vida e analisar de que forma as características sociodemográficas, clínicas e psicológicas influenciam a qualidade de vida dos doentes paliativos. Metodologia: estudo transversal e descritivo, com uma amostra de 83 participantes adultos (50.6% mulheres), com uma média de idades de 70.95 anos. O instrumento de recolha abarcou um questionário sociodemográfico e clínico, o questionário de sono de oviedo, a escala de avaliação de sintomas de edmonton, o herth hope index e a functional assessment of cancer therapy- general. Resultados: um percentual significativo de doentes estava internado na unidade local de saúde (33.7%) com diagnóstico de doença neoplásica (67.5%), cujos sintomas mais frequentes foram: o cansaço (41%) e a dor (39.8%); 45.7% relatam um sono agradável; 41% relataram elevada e reduzida esperança, enquanto 18% esperança moderada. Apenas 39.2% mostrou ter boa qualidade de vida, dos quais 23.0% avalia-a como razoável e 37.8% como má. A qualidade de vida revela-se melhor nos doentes residentes em meio urbano, com diagnóstico de doença neoplásica, com sintomatologia controlada, sono agradável e com elevada esperança. Conclusões: os resultados alcançados revelam a necessidade de se mensurar e monitorizar a qualidade de vida percebida por doentes em contexto paliativo, contribuindo para a maximização da mesma. Palavras-chave: cuidados paliativos; sintomas; esperança; qualidade de vida

Resumen Contexto: prestar cuidados paliativos requiere cuidados globales y humanizados con el objetivo de proporcionar la máxima calidad de vida posible a las personas. Objetivos: evaluar la percepción de los enfermos sobre su calidad de vida; analizar la forma como las características sociodemográficas, clínicas y psicológicas influyen la calidad de vida de los enfermos paliativos.

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VII Congresso Internacional ASPESM Metodología: estudio transversal y descriptivo, con una muestra de 83 participantes adultos (50,6% mujeres), con una media de edades de 70.95 años. El instrumento de recogida incluyó una encuesta sociodemográfica y clínica, el cuestionario de oviedo del sueño, la escala de evaluación de síntomas de edmonton, el herth hope index y la functional assessment of cancer therapy - general. Resultados: un porcentual significativo de enfermos estaba internado en la unidad local de salud (33,7%) con diagnóstico de enfermedad neoplásica (67,5%), en que los síntomas más frecuentes fueron: el cansancio (41%) y el dolor (39,8%); un 45,7% refiere un sueño agradable; un 41% relata elevada y reducida esperanza, mientras un 18% esperanza moderada. Tan solo un 39,2% mostró tener buena calidad de vida, de los cuales un 23,0% la evalúa como razonable y un 37,8% como mala. La calidad de vida se manifiesta mejor en los enfermos residentes en un entorno urbano, con diagnóstico de enfermedad neoplásica, con sintomatología controlada, sueño agradable y con elevada esperanza. Conclusiones: los resultados alcanzados muestran la necesidad de medirse y monitorizar la calidad de vida entendida por enfermos en contexto paliativo, contribuyendo para la maximización de la misma. descriptores: cuidados paliativos; síntomas; esperanza; calidad de vida

Abstract Background: to provide palliative care requires comprehensive and humanized care in order to provide the highest quality of life possible for people. Aim: to assess the perception of patients on their quality of life and how the sociodemographic, clinical and psychological characteristics influence the quality of life of palliative patients. Methods: cross-sectional, descriptive study with a sample of 83 adult participants (50.6% women) with a mean age of 70.95 years. The collection instrument encompassed a sociodemographic and clinical questionnaire, sleep questionnaire oviedo, rating scale symptom edmonton, the herth hope index and the functional assessment of cancer therapy- general. Results: most patients were admitted to the unit local health (33.7%) diagnosed with neoplastic disease (67.5%), the most common symptoms were: fatigue (41%) and pain (39.8%); 45.7% reported a nice sleep; 41%, have high and low life expectancy,

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VII Congresso Internacional ASPESM while 18% had moderate hope. Only 39.2% was shown to have good quality of life, of which 23.0% rate it as fair and 37.8% as poor. The quality of life proves to be better in patients living in urban areas, diagnosed with neoplastic disease, with controlled symptoms, nice sleep and high life expectancy. Conclusions: The results show the need to measure and monitor the quality of life perceived by patients in palliative context, contributing to the maximization of it. Keywords: Palliative Care; Symptoms; Hope; Quality of Life.

Introdução Cuidar é um ato inerente ao ser humano, o qual necessita de cuidados desde que nasce até à sua finitude na morte. É esta a necessidade que pauta os cuidados de saúde, requerendo uma constante adequação às diversas fases da vida de uma pessoa (Vinhas, 2012). Estes pressupostos apontam para a imprescindibilidade da diversidade de cuidados, nomeadamente o controlo de sintomas e o apoio a qualquer outro nível, de modo a que os doentes sejam encaminhados para unidades que estejam preparadas e sensibilizadas para prestar cuidados que satisfaçam as necessidades dos doentes e, consequentemente, potenciando a sua qualidade de vida (Pereira, 2010). Neste sentido, os cuidados paliativos assumem um papel primordial na promoção da melhor qualidade de vida possível a cada doente, através do planeamento de cada cuidado de forma criteriosa, tendo em consideração os problemas físicos, psicológicos, emocionais, familiares, entre outros (Gomes, Sarmento, Ferreira & Higginson, 2013). Deve prevalecer a premissa de que o sucesso dos cuidados paliativos se associa diretamente ao bom relacionamento de uma tríade, doente, cuidador/familiar e profissional de saúde, onde as relações humanas e a pluridisciplinaridade dos cuidados assumem um papel basilar (Pereira da Silva, 2014). Os cuidados paliativos definem-se como uma resposta ativa aos problemas decorrentes da doença prolongada, incurável e progressiva, na tentativa de prevenir o sofrimento que ela gera e de proporcionar a máxima qualidade de vida possível a estes doentes e suas famílias. São cuidados de saúde ativos, rigorosos, que combinam ciência e humanismo (Barbosa & Neto, 2010; Portugal, DGS, 2010). A Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (Portugal, 2012), define que a unidade de cuidados paliativos é uma unidade de internamento, com espaço físico próprio, preferencialmente localizada num hospital, para acompanhamento, tratamento e supervisão clínica a doentes em situação clínica complexa e de sofrimento decorrentes Viana do Castelo, Novembro de 2016


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VII Congresso Internacional ASPESM de doença severa e/ou avançada, incurável e progressiva, nos termos do consignado no Programa Nacional de Cuidados Paliativos do Plano Nacional de Saúde de Portugal. Presta acompanhamento, tratamento e supervisão clínica de doentes em situação clínica complexa e de sofrimento decorrente de doença severa e/ou avançada, incurável e progressiva. Para Correia (2012), o objetivo dos cuidados paliativos, dentre outros, é conseguir a melhor qualidade de vida possível para os doentes e suas famílias, além de diminuir o medo do desconhecido processo de morrer, melhorar o sono, diminuir a ansiedade e a depressão, aumentar a autoconfiança, diminuir a culpa, trabalhar o luto e re-significar alguns conceitos. A qualidade de vida é “a perceção do indivíduo e da sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expetativas, padrões e preocupações” (WHO, 1997). Todavia, importa ressalvar o que para uma pessoa pode ser motivador de angústia e de sofrimento, para outra pode não ser preditor de tal (Neto, 2010). Desta feita, a qualidade de vida relaciona-se intimamente com a capacidade que cada pessoa possui para usufruir das suas atividades do dia-a-dia, partindo dos seus padrões de vida, aspetos culturais, sociais, familiares, profissionais, educacionais, entre outros aspetos (WHOQOL, 1998). Esta apresenta uma relação direta com a capacidade de cada pessoa para enfrentar uma adversidade, como é exemplo o processo de doença e de morte (Pereira & Santos, 2011). Ao contextualizar o conceito de qualidade de vida no âmbito da doença oncológica, Pereira da Silva (2014), afirma que esta inserção possibilitou ampliar a humanização dos cuidados e despoletar uma abordagem holística do doente, abarcando os seus cuidadores, familiares, existindo uma preocupação com o seu bemestar. Uma pessoa que experiencia cuidados paliativos enfrenta igualmente muitas modificações do nível de qualidade de vida concebido até esse momento, na medida em que há uma profunda alteração da sua estrutura sociofamiliar. Tanto o doente, como todos os envolvidos necessitam de apoio para poderem debelar a doença e conseguir viver com qualidade. Certo é que o doente paliativo experiencia um processo de transição, despoletando uma reorganização interior, tomando consciência da sua situação de fim de vida, através de sintomas subjacentes à sua condição clinica (Fonseca, Cruz & Neto, 2012). Ressalva-se que a avaliação da qualidade de vida ganha particular relevância porque possibilita: i) identificar o impacte da doença e o tratamento em várias áreas da vida do doente; ii) melhorar o conhecimento sobre os efeitos secundários dos tratamentos; iii) avaliar o ajustamento psicossocial à doença; iv) mensurar a eficiência dos

Viana do Castelo, Novembro de 2016


168

VII Congresso Internacional ASPESM tratamentos; v) definir e desenvolver estratégias objetivando a melhoria do bem-estar dos doentes; vi) facultar informação prognóstica importante para a resposta ao tratamento e para a sobrevivência (Canavarro, Pereira, Moreira & Paredes, 2010). Deste modo, assume-se como pertinente e de utilidade clínica, avaliar a perceção dos doentes sobre a sua qualidade de vida e a forma como a presença de sintomas, o sono e o nível de esperança a influenciam e/ou a predizem. Tendo em conta a problemática em estudo, formulou-se a seguinte questão geral de investigação:

Que

características

sociodemográficas,

clínicas

e

psicológicas

influenciam a qualidade de vida dos doentes paliativos? Como objetivo principal procurou-se determinar o nível de qualidade de vida dos doentes em contexto de cuidados paliativos e como objetivo específico equacionou-se analisar se as características sociodemográficas, clínicas e psicológicas influenciam a qualidade de vida dos doentes paliativos.

Metodologia O presente estudo de natureza quantitativa com foco transversal e análise descritivo – correlacional, teve como finalidade produzir conhecimentos acerca dos cuidados paliativos a partir da perspetiva dos doentes.

Participantes A população do estudo corresponde aos doentes adultos com necessidade de cuidados paliativos hospitalizados em Unidades de Cuidados Paliativos (em serviços de internamento). A técnica de amostragem foi não probabilística acidental, ficando a amostra constituída por 83 doentes em regime de internamento em unidades de Viseu, Aveiro, Porto, Coimbra, Castelo Branco, Lisboa e Setúbal. A seleção seguiu os seguintes critérios de inclusão: ter idade superior a 18 anos, não apresentar alterações neurológicas, estar consciente e orientado e necessitar de cuidados paliativos. O perfil sociodemográfico dos 83 doentes paliativos é ser do género feminino (50.6%), com idades compreendidas entre os 38 e os 93 anos, com uma média de 70.95 anos (Dp=12.770). Prevaleceram os participantes casados ou a viverem em união de facto (49.4%), residentes em meio rural (65.1%), na zona centro do país (49.4%), com o 1º Ciclo do Ensino Básico (32.5%), aposentados (40.2%), com ordenado análogo ao ordenado mínimo nacional (75.9%) e com prática de uma religião (94.0%).

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VII Congresso Internacional ASPESM Instrumentos A recolha de dados foi suportada num questionário de caracterização sociodemográfica e clínica, na Escala de Avaliação de Sintomas de Edmonton (ESAS) (Bernardo, 2005), a Escala de Esperança (Herth – HHI – PT) (Barbosa, 2010), no questionário do Sono de Oviedo (QSO) (Bobes et al., 1998) e na Escala Functional Assessment of Cancer Therapy- General (FACT-G) versão 4, de Cella et al. (1993), adaptada para a população portuguesa por Pereira e Santos (2011).

Procedimentos O estudo obteve parecer favorável da Comissão de Ética da Escola Superior de Saúde de Viseu, IPV e a colheita de dados foi autorizada, em unidades de saúde de Portugal Continental. O instrumento de colheita de dados foi preenchido pelos utentes/investigadores. Foram explicadas a finalidade e o objetivo do estudo a cada participante e, obtido o seu consentimento informado, garantindo o anonimato e a confidencialidade. Foi utilizado o software informático SPSS 21.0 para o tratamento estatístico.

Resultados O perfil clínico, indica que 33.7% dos doentes estavam internados em instituição numa Unidade Local de Saúde, com doença neoplásica (67.5%) há cerca de 4 anos, com internamentos anteriores (63.9%) possuindo outras doenças associadas (55.4%). Em relação aos sintomas de maior intensidade manifestados pelos doentes, constatouse o predomínio do cansaço e da dor. Os doentes com doença neoplásica apresentam maior desconforto nos 9 sintomas (dor, cansaço, náusea, depressão, ansiedade, sonolência, apetite, bem-estar e respiração). Relativamente à avaliação do sono dos doentes paliativos, apurou-se que 45.7% dos doentes avaliou o seu sono como agradável, enquanto 37.0% o classificou de desagradável. Os resultados sobre a qualidade de vida, indicam que a maioria dos doentes perceciona-se como auferindo de boa qualidade de vida (39.2%), contrariamente a 37.8% que relatam má qualidade de vida.

Tabela 1 - Estatísticas relativas à classificação da Qualidade de Vida Género Qaulidade de vida

Masculino

Feminino

N

N

%

%

Viana do Castelo, Novembro de 2016

Total N

%

X2

p


170

VII Congresso Internacional ASPESM (39)

(52.7)

(35)

(47.3

(74)

)

(100.0 )

Má qualidade de vida

12

30.8

16

45.7

28

37.8

Razoável qualidade de vida

12

30.8

5

14.3

17

23.0

Boa qualidade de vida

15

38.4

14

40.0

29

39.2

3.28

0.19

2

4

Os domínios com maior grau de satisfação foram o bem-estar funcional e o físico, enquanto os domínios social\familiar e emocional apresentam valores negativos de qualidade de vida.

De que modo as variáveis sociodemográficas influenciam a qualidade de vida dos doentes com necessidades de cuidados paliativos? A idade associou-se inversamente com os domínios bem-estar funcional (r=-.210; p=.073), bem-estar emocional (r=-.271; p=.014) e com a nota global da qualidade de vida, sugerindo que quando aumenta a idade diminui a qualidade de vida e o bemestar funcional e emocional. A idade associou-se de forma positiva com os domínios bem-estar físico e bem-estar social\familiar, indicando que quando aumenta a idade, aumenta o bem-estar dos doentes nestes domínios. A idade é responsável por 7.4% da variância do domínio do bem-estar emocional (t=-2.514; p=.014). Os homens manifestam melhor qualidade de vida face às mulheres (OM=39.15 vs. OM= 35.66 respetivamente), mas sem relevância estatisticamente significativa (U=618.0; Z=.699; p=.484). Os doentes casados ou a viver em união de facto revelam melhor qualidade de vida (OM=39.03), tendo os viúvos revelado menor qualidade (OM=34.42), porém as diferenças não são significativas (H=.528; p=.747). As diferenças são estatisticamente significativas somente no domínio do bem-estar funcional (H=5.970, p=.049), indicando que os doentes casados ou viver união de facto possuem melhor bem-estar funcional, enquanto os que os solteiros ou divorciados têm pior qualidade de bem-estar funcional (OM=43.41 vs. OM=31.88).

Existe relação entre as variáveis clinicas (tipo de patologia, tempo de evolução da doença, número de internamentos anteriores e doenças associadas) e a qualidade de vida dos doentes com necessidades de cuidados paliativos?

A qualidade de vida é mais elevada nos doentes com patologia neoplásica face aos doentes que têm doença não neoplásica (OM=41.49 vs OM=27.43; U de Mann Whitney

Viana do Castelo, Novembro de 2016


171

VII Congresso Internacional ASPESM =345.0; Z=-2.538; p=.011). Os doentes com doença neoplásica revelam melhor bemestar físico, emocional e socio\familiar em relação aos doentes com doenças não neoplásicas, os quais têm mais elevado bem-estar funcional. As diferenças são significativa nos domínios do bem-estar físico (U=286.0; p=.000), bem-estar emocional (U=484.5; p=.015) e no bem-estar social e familiar (U=330.5; p=.000). O tempo de evolução da doença associou-se de forma positiva e significativa ao domínio emocional, sugerindo que quando aumenta o tempo de evolução da doença aumenta o bem-estar emocional. A regressão linear simples revela que o tempo de evolução da doença é responsável por 8.3% da variância da nota do domínio do bem-estar emocional (t=2.492; p=.015). Os doentes sem internamentos anteriores possuem melhor qualidade de vida global, contudo as diferenças encontradas não são significativas (p>.05). Os doentes que possuem outra doença associada são os que têm pior qualidade de vida (OM=41.17 vs OM=34.03), contudo sem evidência estatística significativa (U=552.0; Z=-1.429; p=.153).

De que modo os sintomas influenciam a qualidade de vida dos doentes com necessidades de cuidados paliativos? Todos os nove sintomas estudados se associaram de forma positiva e significativa com a qualidade de vida. Os valores das correlações sugerem que a qualidade de vida dos doentes é melhor quando os sintomas são menos presentes/intensos: dor (r=.242; p=.038), cansaço (r=.380; p=.001), náuseas (r=.339; p=.003), depressão (r=.369, p=.001), ansiedade (r=.395; p=.000), sonolência (r=.253; p=.029), bem-estar (r=.295, p=.011) e falta de ar (r=.294; p=.011). Os valores de t da regressão permitem inferir que os sintomas ansiedade, cansaço, depressão e náuseas têm maior peso e são mais responsáveis pela maior variância da qualidade de vida, com valores de 15.6%, 14.4%, 13.3% e 11.5% respetivamente. Por sua vez, o bem-estar, a falta de ar, a sonolência e a dor predizem a qualidade de vida em 8.7%, 8.6%, 6.4% e 5.8%. Deste modo, infere-se que os sintomas exercem uma influência major na qualidade de vida dos doentes em cuidados paliativos.

O sono exerce influência na qualidade de vida dos doentes com necessidades de cuidados paliativos? Apurou-se uma associação positiva da qualidade de vida com a insónia (r=.252; p=.032), hipersónia (r=.197; p=.092) e com a nota global do sono (r=.232; p=.049), ou seja, quando aumentam os sintomas de insónia e hipersónia, a qualidade de vida

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VII Congresso Internacional ASPESM é pior. O valor da regressão linear simples identifica associações significativas com a insónia e com a nota global do sono, significando que a qualidade de vida é influenciada em 6.4% pelos sintomas de insónia e 5.4% pela nota global do sono que os doentes manifestam.

Existe relação entre o nível de esperança e a qualidade de vida dos doentes com necessidades de cuidados paliativos? A esperança associou-se de forma inversa com os domínios do bem-estar físico (r=.552; p=.000) e com o bem-estar social\familiar (r=-.516; p=.000), isto é, quando aumenta o bem-estar destes domínios diminui o nível de esperança dos doentes. A associação com os domínios bem-estar Funcional (r=.289; p=.010) e bem-estar emocional (r=.751; p=.000) revela que quando aumenta do nível de esperança, aumenta o bem-estar destes dois domínios. A regressão linear simples mostra que a esperança é responsável por 56.4% da variância do bem-estar emocional, 30.5% da variância bem-estar físico e por 26.6% e 8.4% da variância do bem-estar social\familiar e bem-estar funcional.

A idade, o tempo de internamento, os sintomas, o sono e a esperança predizem a qualidade de vida dos doentes com necessidades de cuidados paliativos? O teste de regressão linear múltipla permitiu inferir que apenas a ansiedade prediz a qualidade de vida do doente paliativo, apresentando um coeficiente de correlação de 0.374, que corresponde a 12.8% da variância explicada da qualidade de vida do doente em cuidados paliativos. A análise comparativa dos coeficientes de beta sugere que a ansiedade se associou de forma positiva, ou seja, os doentes com mais sintomas de ansiedade possuem pior qualidade de vida.

Discussão Os resultados obtidos revelam que 39.2% dos doentes consideram ter uma boa qualidade de vida o que corrobora os resultados obtidos por Terra, Costa, Damasceno et al. (2013) e Andrade e Martins (2011), cujos doentes paliativos relataram auferir de qualidade de vida. Os doentes do género masculino, casados ou em união de facto, com ordenado mais elevado e habilitações literárias mais elevadas possuem melhores níveis de qualidade de vida. A idade revelou significância estatística, estando associada inversamente à qualidade de vida, nomeadamente nos domínios de bem-estar

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173

VII Congresso Internacional ASPESM funcional e emocional, sugerindo que os doentes mais velhos apresentam pior qualidade de vida nestes domínios, ao contrário dos domínios social/familiar e físico, indicando que quanto maior a idade melhor a qualidade de vida. Estes resultados, estão em parte, em conformidade com os obtidos por Andrade e Martins (2011) que constataram que a idade exerce influência direta na qualidade de vida de doentes paliativos, ou seja, quanto maior a idade menor a perceção da qualidade de vida. A relação inversa entre a idade e qualidade de vida nos domínios do bem-estar funcional e emocional, poder-se-á explicar pelo facto de há medida que a idade avança ocorrer a perda de vitalidade, surgindo doenças crónicas, algumas delas incapacitantes fisicamente, o que influencia negativamente a perceção de qualidade de vida por parte destes doentes. Os resultados encontrados corroboram ainda os alcançados por Andrade e Martins (2011), no domínio do género, porquanto os autores constataram que os doentes paliativos do género masculino e mais jovens, que vivem casados ou em união de facto e que possuem um ordenado mais elevado revelam melhores níveis de qualidade de vida. O local de residência também interferiu na qualidade de vida dos doentes, tendo sido os residentes em meio urbano a apresentarem melhores níveis, o que não está em consonância com o estudo de Teixeira (2010), onde se verificou que os doentes a residirem em meio rural apresentaram melhor qualidade de vida. Apurou-se que o tipo de patologia exerceu influência sobre a perceção de qualidade de vida, existindo melhores indicadores de qualidade de vida nos doentes com doença neoplásica sem internamentos anteriores e sem doenças associadas. Neste âmbito, Campolina, Dini e Ciconelli (2011) constataram que a presença de comorbilidades ou doenças associadas influenciam de forma direta a qualidade de vida em todos os seus domínios. Relativamente à relação entre a presença de sintomas e a qualidade de vida, inferiuse que os sintomas influenciaram a qualidade de vida, o que corrobora os dados apurados por Hermann e Looney (2011), que constataram que a gravidade dos sintomas influência inversamente a qualidade de vida dos doentes. A associação positiva entre o sono e a qualidade de vida dos doentes paliativos, sugere que os doentes com melhor padrão de sono-vigília apresentam melhor qualidade de vida, o que consubstancia os resultados de Freire, Sawada, França et al. (2014), que constataram que as perturbações do sono, exercem influência direta na qualidade de vida dos doentes. Os resultados referentes ao efeito da esperança na qualidade de vida indicaram existir

Viana do Castelo, Novembro de 2016


174

VII Congresso Internacional ASPESM uma relação inversa entre os níveis de bem-estar físico e social/familiar e os níveis de esperança e uma relação direta entre os níveis de bem-estar funcional e emocional e os níveis de esperança, o que está em conformidade com outros estudos da área (Martins e Mestre (2014), os quais revelam que as pessoas que apresentam bons níveis de esperança também relatam melhor qualidade de vida. Por fim, aferiu-se que a ansiedade foi a única variável preditor da qualidade de vida, indicando que os doentes que apresentam sintomas de ansiedade tendencialmente pontuaram com pior qualidade de vida, o que corrobora o estudo de Capela, Marques, Assunção et al. (2009), cujos resultados mostraram que os doentes que apresentam níveis elevados de ansiedade descreveram igualmente sintomas de dor, angústia, distúrbios do padrão do sono o que na sua globalidade gerava baixos níveis de qualidade de vida.

Conclusão Esta pesquisa apesar de não representar a população dos doentes com necessidades de

cuidados

paliativos,

mostrou-nos

resultados

pertinentes,

evidenciando

a

importância da avaliação auto - percecionada da qualidade de vida. Como limitações do estudo assinalamos a existência de um baixo nível de escolaridade funcional assim como baixa literacia para a saúde dos participantes que condicionaram, por vezes, o auto preenchimento do instrumento de colheita de dados. Estes aspetos deverão ser considerados na prática de cuidados e de investigação. Tendo em consideração os resultados obtidos, considera-se que as relações sociais que a pessoa mantém, podem promover a diminuição do estado de ansiedade e que este pode ser um valioso recurso, capaz de favorecer uma melhor adaptação da pessoa às exigências impostas pela doença, constituindo, assim, uma ferramenta importante para o incremento da qualidade de vida dos doentes com necessidades de cuidados paliativos.

Implicações para a Prática Clínica Os resultados obtidos exprimem a importância da monitorização da qualidade de vida em doentes paliativos de modo a poder adequar-se o planeamento da assistência paliativa às suas reais necessidades, pelo que advogamos ser importante que se proceda à identificação dos fatores preditores da qualidade de vida destes doentes,

Viana do Castelo, Novembro de 2016


175

VII Congresso Internacional ASPESM para potenciar a sua obtenção.

Agradecimentos Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto UID/Multi/04016/2016. Agradecemos adicionalmente ao Instituto Politécnico de Viseu e ao CI&DETS pelo apoio prestado.

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Obtido

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Obtido

em

20

de

março

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Viana do Castelo, Novembro de 2016


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Viana do Castelo, Novembro de 2016


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Viana do Castelo, Novembro de 2016


VII Congresso Internacional ASPESM

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Lúcia Alves1 | Carla Fonte2

Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde; Universidade Fernando Pessoa – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Praça 9 de Abril, 349 – 4249-004, Porto, Portugal. Artigo extraído de Dissertação de mestrado, intitulada – Apoio social, saúde mental e bem-estar em idosos institucionalizados e não institucionalizados, 2016, apresentada à Universidade Fernando Pessoa. Email: 25990@ufp.edu.pt 2 Doutoramento; Professora Auxiliar; Universidade Fernando Pessoa – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Praça 9 de Abril, 349 – 4249-004, Porto, Portugal. Email: cfonte@ufp.edu.pt 1

Viana do Castelo, Novembro de 2016


179

VII Congresso Internacional ASPESM

Resumo Contexto: o envelhecimento bem-sucedido está associado a três grandes grupos de condições: baixa probabilidade de ter doenças; manutenção de um elevado nível funcional (físico e cognitivo); e, conservação do empenho social e bem-estar, o que reforça a ideia de que o apoio social e o bem-estar são variantes fundamentais na saúde mental, em particular, na população idosa (fontaine, 2000). Objetivo(s): o presente estudo tem como objetivo caraterizar a saúde mental, o bem-estar e o apoio social de idosos institucionalizados e não institucionalizados. metodologia:

participaram 100

idosos

(50

institucionalizados e

50

não institucionalizados) com idades iguais ou superiores a 65 anos, residentes no grande porto. Os dados foram recolhidos com recurso a um questionário sociodemográfico, à versão portuguesa da escala de bemestar mental de warwick-edinburgh (wemwbs), à escala continuum de saúde mental (mhc-sf) e à escala de rede de apoio social de lubben (lsns-6). O tratamento dos dados foi realizado com recurso ao programa estatístico spss, versão 24. Resultados: verificou-se uma relação positiva entre bem-estar, saúde mental e apoio social, sugerindo que globalmente os idosos que apresentam maior bemestar, apresentam também níveis mais elevados de saúde mental e têm perceção

de

apoio

institucionalização

social

mais elevado.

constatou-se

que

são

Em

termos

os

idosos

do

impacto

da

Institucionalizados,

concretamente as mulheres, que apresentam níveis mais baixos de bem-Estar, saúde mental e apoio social. Ainda a destacar que níveis mais baixos de bemestar e saúde mental nos idosos solteiros ou divorciados, em comparação com os viúvos ou casados, sobretudo nos idosos institucionalizados. Nos idosos não institucionalizados o ter descendência representou um papel importante, uma vez que estes apresentaram níveis mais elevados de bem-estar, saúde mental e suporte social, em particular ao nível da família. Conclusões: em termos globais este estudo indica o impacto menos positivo que a institucionalização pode ter ao nível da saúde mental na população idosa.

Os

dados parecem também sublinhar a relevância do apoio social

enquanto variável associada ao bem-estar

e

saúde

mental

Viana do Castelo, Novembro de 2016

dando

assim


180

VII Congresso Internacional ASPESM importantes

pistas para

a

intervenção biopsicossocial com esta população.

Palavras-chave: saúde mental; suporte social; idosos; istitucionalização.

Resumen Contexto: el envejecimiento exitoso se asocia con tres grupos de condiciones: baja probabilidad de tener la enfermedad; mantener un alto nivel funcional (física y cognitiva); y mantener el compromiso social y el bienestar, lo que refuerza la idea de que el apoyo social y el bienestar son variaciones fundamentales en la salud mental, particularmente en los ancianos Objetivo(s): el presente estudio tiene como objetivo caracterizar la salud mental, el bienestar institucionalizadas

y

el

apoyo

social

de

las

personas

mayores

y no institucionalizadas.

Metodología: participaron 100 personas de edad avanzada (50 institucionalizadas y no institucionalizadas 50) con edades igual o de más de 65 años que viven en el grande porto. Los datos fueron recolectados a través de un cuestionario sociodemográfico, la versión en inglés de la escala de bienestar mental warwick-edinburgh (wemwbs), la escala de salud mental continuum (mhc-sf) y la escala de red de apoyo social lubben (lsn-6). Procesamiento de los datos se realizó mediante el programa estadístico spss, versión 24. Resultados: hubo una relación positiva entre el bienestar, la salud mental y el apoyo social, lo que sugiere que, en general las personas mayores que tienen un mayor bienestar, también tienen niveles más altos de salud mental y tienen una mayor percepción de apoyo social. En cuanto al impacto de la institucionalización se encontró que son los ancianos institucionalizados, en particular las mujeres, que tienen niveles más bajos de bienestar, la salud mental y el apoyo social. Todavía fuera que los niveles más bajos de bienestar y la salud mental en personas mayores solteras o divorciadas en comparación a los viudos o casados, especialmente en los ancianos. En los ancianos no institucionalizados tienen los Descendientes jugado un papel importante, ya que tenían los niveles más altos de bienestar, La salud mental y el apoyo social, en particular en el ámbito familiar. Conclusiones: en general, este estudio indica el menor impacto positivo que puede tener la institucionalización nivel de salud mental en los ancianos. Los

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181

VII Congresso Internacional ASPESM datos también parecen subrayar la importancia del apoyo social como variable asociada con el bienestar y la salud mental proporcionando así pistas importantes para la intervención biopsicosocial con esta población. Descriptores: salud mental; el apoyo social; los ancianos; institucionalización.

Abstract Background: successful aging is associated with three groups of conditions: low probability of having disease; maintaining a high level functional (physical and cognitive); and maintaining the social commitment and well-being, which reinforces the idea that social support and well-being are fundamental variations in mental health, particularly in the elderly (fontaine, 2000). Aim: the present study aims to characterize the mental health, well-being and social support of elderly institutionalized and not institutionalized. Methods: involved 100 elderly (50 institutionalized and 50 non-institutionalized) with ages equal or over 65 years living in the big porto. Data were collected using a socio-demographic questionnaire, the english version of the scale wellness mental warwick-edinburgh (wemwbs), the mental health continuum scale (mhcsf) and the social support network scale lubben (lsns-6). Data processing was performed using the spss statistical software, version 24. Results: there was a positive relationship between well-being, mental health and social support, suggesting that, overall, older people who are more well-off also have higher levels of mental health and perceive higher social support. In terms

of

the

impact

of institutionalization, it has been found that

institutionalized older people, particularly women, have lower levels of well-being, mental health and social support. Still to note that lower levels of well-being and mental health in the elderly singles or divorced, compared to the widowed or married, especially in the institutionalized elderly. In the non-institutionalized elderly, having offspring played an important role, since they had higher levels of well-being, mental health and social support, particularly at the family level. Conclusions: overall, this study indicates the less positive impact that institutionalization may have on mental health in the elderly population. The data also seem to highlight the relevance of social support as a variable associated with well-being and mental health, thus giving important clues to

Viana do Castelo, Novembro de 2016


182

VII Congresso Internacional ASPESM biopsychosocial intervention with this population. Keywords: Mental health; Social support; The elderly; Institutionalization.

Introdução O envelhecimento é considerado na atualidade como uma etapa do ciclo vital do ser humano, com características e valores particulares (Neto & Monteiro, 2008). O mesmo comporta diversas alterações biopsicossociais, desenvolvendose ao longo de três fases sucessivas - Idoso, Senescência e Senilidade. A nível psicológico, a saúde mental e o bem-estar

(BE)

parecem

desempenhar

um

papel preponderante neste processo, pois o envelhecimento acarreta algumas alterações que podem conduzir o idoso para a solidão e o isolamento social (Novo, 2003). Ao nível social, o apoio social também apresenta um forte impacto no BE dos idosos, podendo traduzir-se em ajuda emocional, instrumental e financeira, por parte da rede social (Berkman, Glass, Brissette & Seeman, 2000). O apoio social consiste nos recursos sociais que as pessoas percebem estar disponíveis, ou que são efetivamente prestados por não profissionais no contexto de ambos os grupos de apoio, formais e informais, das relação de ajuda (Gottlieb & Bergen, 2010) Portanto, o BE e o apoio social adequado são fundamentais para uma saúde mental positiva, sendo esta caraterizada como uma síndrome de sintomas de sentimentos positivos e funcionamento positivo, operacionalizada através de medidas de bem-estar” (Keyes, 2002). Alguns autores têm vindo a considerar que a saúde mental positiva inclui o bem-estar emocional (BEE), bemestar psicológico (BEP) e bem-estar social (BESo) (Keyes, 2005, 2007). Neste sentido, o presente estudo tem como objetivo geral a caraterização da saúde mental, do BE e do apoio social de idosos institucionalizados e idosos não institucionalizados.

Metodologia Os

dados

foram

recolhidos

junto

100

idosos

(50

institucionalizados

e

50 não institucionalizados), 75 de sexo feminino e 25 do sexo masculino,

Viana do Castelo, Novembro de 2016


VII Congresso Internacional ASPESM

183

com idades compreendidas entre 65 e 94 anos, com média global de 81.10 anos (DP=7.14), residentes na Região do Grande Porto. Os instrumentos de recolha de dados foram: o questionário sociodemográfico construído para o efeito; a Versão Portuguesa da Escala de Bem-estar mental de Warwick-Edinburgh (WEMWBS); a Escala Continuum de Saúde Mental (MHC-SF) e a Escala de Rede de

Apoio

Social

primeiramente

de

Lubben

procedeu-se

(LSNS-6).

ao

pedido

Relativamente de

ao

autorização

aos

procedimento, autores

dos

instrumentos anteriormente referidos, seguindo-se a submissão do projeto à comissão de ética da Universidade Fernando Pessoa. Após o parecer positivo da mesma e as devidas autorizações, deu-se início à recolha dos dados junto dos Lares de Terceira Idade e dos Centros de Dia. Posteriormente foram apresentados

aos

participantes

os

objetivos

do estudo bem como os

procedimentos éticos, sendo a aplicação dos instrumentos realizada de forma individualizada, na presença de uma investigadora do projeto de investigação. Os dados recolhidos foram tratados com recurso ao programa estatístico SPSS (versão 24). Resultados Tabela 1. Saúde mental positiva, BE e apoio social. Amostra (n=100) Mínimo Saúde Mental Positiva

Máximo

M

DP

70.00

53.73

9.66

18.00

13.44

3.92

25.0 0 Bem-estar emocional

3.00

29.00

19.60

5.81

Bem-estar social

5.00

36.00

27.21

6.86

Bem-estar psicológico

8.00

15.00

8.39

3.63

15.00

5.66

4.

Apoio social – Família 0.0 0 Apoio social - Amigos 0.0 0

Viana do Castelo, Novembro de 2016


No que respeita à caraterização da saúde mental positiva, do BE e do apoio social dos idosos, verificou-se que os mesmos apresentam níveis relativamente elevados de saúde mental e BE e que a família é o principal

apoio

social

destes

(Tabela

1).

Relativamente

ao BE,

verificaram-se níveis elevados de BEE (M=13.44), BESo (M=19.60) e BEP (M=27.21). Quanto ao apoio social, os resultados sugerem a existência de um apoio razoável ao nível da família (M=8.39) e mais baixo ao nível dos amigos (M=5.66). Ao medir a correlação entre BE, saúde mental e apoio social, com base no coeficiente de correlação de Spearman, verificou-se que todas estas dimensões se encontram relacionadas, em ambos os grupos, exceto entre o BEP e apoio social da família

nos

institucionalizados.

Em

relação

aos

idosos

não

institucionalizados verificou-se que a saúde mental positiva se encontra correlacionada com o BE, ao nível do BEE (rs=.703, p<.01), BESo (rs =.503, p<.01) e BEP (rs=.517, p<.01) e, o apoio social, ao nível da família (rs=.332, p<.05) e amigos (rs=.382, p<.01). Ainda se verificou que todas as dimensões de BE se encontram relacionadas: BEE com BESo (rs=.521, p<.01) e BEP (rs=.552, p<.01) e BESo com BEP (rs=.561, p<.01). Constatou-se ainda que níveis mais elevados de apoio social, ao nível da família e dos amigos, também representam

níveis

mais

idosos

elevados

de

BEE,

BESo

e

BEP.

No

grupo

dos

institucionalizados a saúde mental positiva correlacionou-se com o BE, ao nível do BEE (rs=.739, p<.01), BESo (rs=.543, p<.01) e BEP (rs=.565, p<.01) e ainda com o apoio social ao nível da família (rs=.496, p<.01) e amigos (rs=.472, p<.01). Também neste grupo se verificaram correlações entre as dimensões de BE: BEE com BESo (rs=.615, p<.01) e BEP (rs=.677, p<.01) e BESo com BEP (rs=.612, p<.01). Estes resultados sugerem que os idosos que apresentam resultados elevados ao nível do BE, também têm índices mais elevados de saúde mental e de apoio social. Ao analisarmos o impacto da institucionalização, considerou-se que os participantes apresentam níveis médios/elevados de

BEE,

sendo superior

nos

indivíduos

não

institucionalizados

(M=14.16, DP=3.90), quando comparados com os institucionalizados (M=12.72, (Z=1.17,

DP=3.84), p=.03).

encontradas

com

diferença

Relativamente

ao

diferenças estatisticamente

estatisticamente

significativa

BESo

não

e

BEP,

significativas.

foram

Quanto

ao


185

VII Congresso Internacional ASPESM

apoio social, os resultados revelam uma identificação mais elevada de apoio social nos idosos não institucionalizados, em particular ao nível familiar,

onde

significativos

foram

encontrados

(Z=3.98,

institucionalizados

resultados

p<.001).

obtiveram

uma

Neste,

estatisticamente

os

pontuação

idosos

média

não

de M=9.84

(DP=3.30) e os idosos institucionalizados uma pontuação média de M=6.94 (DP=3.39). Não foram encontrados resultados estatisticamente significativos no apoio social, relativo aos amigos. Ao comparar os resultados obtidos através das escalas utilizadas em função do sexo, verificou-se a existência de diferenças estatisticamente significativas no BE nos idosos não institucionalizados ao nível do BESo (U=46.00, p=.010), com valores médios mais elevados nos idosos (M=24.67, DP=2.07),

comparativamente

Relativamente

aos

encontradas diferenças

idosos

às

idosas

(M=19.77,

institucionalizados

estatisticamente

DP=5.45).

foram

significativas

na

também dimensão

BEE (U=194.50, p=.044), com resultados mais elevados nos idosos (M=14.16, DP=3.15) do que nas idosas (M=11.84, DP=6.50). Quando analisados os dois grupos comparativamente ao estado civil, não se encontraram diferenças estatisticamente significativas nos idosos não institucionalizados, em nenhuma das escalas avaliadas. Nos idosos institucionalizados

foram

encontrados resultados

estatisticamente

significativos ao nível da saúde mental positiva (H(2)=6.152, p=.046), com resultados mais elevados nos idosos institucionalizados casados (M=62.67, DP=3.06),

comparativamente

DP=9.65)

ou

e

solteiros

aos

viúvos

(M=52.22,

divorciados (M=48.73, DP=8.46). Foram

também encontrados resultados estatisticamente significativos no BE, na dimensão de BEE (H(2)=6.003, p=.049), com resultados mais elevados nos idosos institucionalizados casados (M=17.33, DP=0.58), comparativamente com os viúvos (M=12.34, ou

divorciados

(M=12.60,

DP=3.27).

DP=4.04)

Quanto

e

solteiros

à descendência, no

caso dos idosos não institucionalizados foram encontradas diferenças estatisticamente significativas no apoio social, ao nível da família (U=25.000, p=.004), com resultados mais elevados nos idosos com descendência (M=10.33, DP=2.98), em comparação com os idosos sem

descendência

(M=5.40,

DP=2.88).

Nos

idosos

institucionalizados não foram encontrados resultados estatisticamente

Viana do Castelo, Novembro de 2016


186

VII Congresso Internacional ASPESM

significativos

em qualquer uma das escalas. No que concerne à

dependência, no caso dos idosos não institucionalizados foi encontrado um resultado estatisticamente significativo no BE ao nível do BEP (U=116.500, p=.015), com resultados mais elevados nos idosos não dependentes (M=29.70,

DP=5.93),

quando

comparados

com

os

dependentes (M=26.00, DP=6.50). Ao comparar os resultados obtidos através das escalas utilizadas em função dos grupos de idade separadamente por idosos não institucionalizados e institucionalizados foram encontrados resultados estatisticamente significativos no grupo de idosos institucionalizados ao nível da saúde mental positiva ((H(2)=7.554, p=.023) e perceção do apoio social dos amigos ((H(2)=6.620, p=.037). Em ambas as medidas foram obtidos resultados mais baixos no grupo de idosos institucionalizados entre os 7 5 e 84 anos de idade. Ainda foi possível verificar-se diferenças estatisticamente significativos na faixa etária dos 75-84 anos ao nível da saúde mental positiva (U=136.000, p=.0.001), BEE (U=190.000, p=.025), perceção do apoio social da família (U=162.000, p=.005) e amigos (U=171.000, p=.016), sendo que os idosos institucionalizados obtiveram valores médios mais baixos em todas as medidas referidas. Na faixa etária dos idosos com pelo menos

85

anos

foram

encontrados

resultados

estatisticamente

significativos no que toca ao BEE (U=61.500, p=.025) e perceção do apoio

social

da

institucionalizados

família

(U=127.500,

quem

p<.001),

apresentam

valores

sendo mais

os

idosos baixos.

Relativamente aos idosos mais jovens (65-74 anos) não foram encontrados resultados estatisticamente significativos.

Discussão Esta investigação teve como principal objetivo avaliar o apoio social, o BE e a saúde mental em idosos institucionalizados e não institucionalizados. Constatou-se relativamente

que

os

elevada

participantes de

BE,

obtiveram

condição

uma

importante

pontuação para

um

envelhecimento bem-sucedido (Fontaine, 2000). Quanto ao apoio social, verificou-se um apoio razoável ao nível da família e baixo ao nível dos amigos, sendo a família a fonte predileta de apoio (Nina & Paiva, 2001). Através da análise da relação entre BE, saúde mental e apoio social nos idosos em estudo, verificou-se que estas dimensões se Viana do Castelo, Novembro de 2016


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VII Congresso Internacional ASPESM

encontram correlacionadas em ambos os grupos de idosos. É de referir que níveis mais elevados de apoio social refletem também níveis mais elevados de BEE, BESo e BEP. Nos idosos institucionalizados, os resultados evidenciam que o BE e a saúde mental também se encontram correlacionados, bem como o apoio da família e amigos. Ainda se constatou que níveis elevados de apoio social refletem também níveis elevados de BEE, BESo e BEP. Ao comparar o BE, saúde mental e apoio social, considerando os

dois grupos

de idosos

em causa,

não

institucionalizados e institucionalizados, verificou-se uma tendência para resultados mais elevados no primeiro grupo. Em particular salientam-se as dimensões do BE, mais especificamente o BEE e, apoio social da família. Face ao BE, saúde mental e apoio social relativamente ao sexo nos idosos institucionalizados e não institucionalizados, os resultados demonstram que nos primeiros são os idosos que apresentam valores mais elevados, com exceção da perceção do apoio social prestado

pelos

amigos.

Quanto

ao estado

civil,

nos

idosos

institucionalizados, os casados apresentam resultados mais elevados em todas as medidas analisadas, em comparação com os divorciados, viúvos e solteiros, sugerindo que a presença de um companheiro(a) influencia a qualidade de vida(Carvalho, 2013). No que respeita à descendência, denota-se que os idosos não institucionalizados com filhos apresentam níveis mais elevados ao nível do apoio social da família. Este resultado reflete o que é elencado na literatura (Bisconti & Bergeman,

1999), pois

as

redes

de

suporte

social

refletem

tranquilidade nos idosos. No que respeita à dependência, nos idosos não institucionalizados, os não dependentes apresentam níveis mais elevados de BE, saúde mental e apoio social, sendo que o grau de dependência influencia Spuldaro,

2009).

diretamente

Os

a

vida

do

idoso

(Jede

&

idosos institucionalizados apresentam maior

prevalência na faixa etária dos idosos mais velhos (≥85 anos), ao contrário dos não institucionalizados cuja faixa etária com maior prevalência é a intermédia (75-84 anos), o que corrobora Almeida (2008). Nos idosos institucionalizados foram encontrados resultados mais baixos na faixa etária intermédia (73-84 anos) ao nível do BE e perceção do apoio social da família, o que vai de encontro ao estudo de Rodrigues

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188

VII Congresso Internacional ASPESM

(2011). Por outro lado, quando comparados os grupos de idosos não institucionalizados e institucionalizados, etária,

os

resultados

separadamente

por

faixa

sugerem que a institucionalização afeta mais

os idosos mais velhos, na faixa etária intermédia, ao nível do BE, BEE e perceção do apoio social da família e amigos e na faixa etária dos idosos mais velhos, ao nível do BEE e perceção do apoio social da família. A idade parece assim estar relacionada com níveis mais baixos de BE e perceção mais baixa de apoio.

Conclusão Os resultados permitem concluir que o BE, a saúde mental e o apoio social se encontram relacionados, em ambos os grupos de idosos. Este estudo ainda sugere que a institucionalização está relacionada com perdas ao nível da perceção de BE, saúde mental e apoio social dos idosos e consequente vulnerabilidade a estes níveis. Atendendo aos resultados obtidos e ao que é exposto na literatura, é de realçar a importância das respostas sociais

para

ajustadas

e

às

suas

necessidades

a

população

idosa

serem

condições. Destaca-se ainda a

relevância da família, que deve ser parte integrante no processo de institucionalização. Neste estudo a prevalência de idosos mais velhos (≥85 anos) fez-se sentir mais nos idosos institucionalizados, sendo estes quem apresentam níveis mais baixos de BE e perceção do apoio social. Em suma, pode referir-se que a institucionalização desempenha um papel negativo na perceção do BE, saúde mental e apoio social nos idosos, parecendo assim estar relacionado com a perda de qualidade de vida.

Implicações para a Prática Clínica Este estudo evidencia-se pertinente na área da saúde mental, pois permite

uma

possibilitando

melhor compreensão assim

um

da

população

aprimoramento

nas

em

estudo,

estratégias

de

intervenção.

Referências Bibliográficas Almeida, A. J. (2008). A Pessoa Idosa institucionalizada em Lares:

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VII Congresso Internacional ASPESM

Aspetos e contextos da Qualidade de Vida. Dissertação de Mestrado. Porto: Instituto De Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto. Berkman, L., Glass, T., Brissette, I., & Seeman, T. (2000). From social integration to health: Durkheim in the new millennium. Social Science & Medicine, 51, 843-857. Bisconti, T. & Bergeman, C. (1999). Perceived social control as a mediator of the relationship among social support, psychological well

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perceived

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K.

(2014).

Caraterização

da

Saúde

Mental

numa

população jovem dos Açores: da psicopatologia ao bem-estar. Dissertação de Mestrado. Porto: Universidade Fernando Pessoa.

Viana do Castelo, Novembro de 2016


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VII Congresso Internacional ASPESM

Moreno, V. (2015). O papel dos Centros de Dia na Qualidade de Vida dos Idosos na Cidade da Praia. Dissertação de Mestrado. Cabo Verde: Universidade Jean Piaget de Cabo Verde. Neto, F. & Monteiro, H. (2008). Universidade da Terceira Idade: Da Solidão á Motivação. Porto: Livpsi. Nina, E. & Paiva, C. (2001). Idosos Rurais e urbanos: Estudo comparativo. Geriatria: Revista Portuguesa de Medicina Geriátrica,14, 138, 9-32. Novo, R. (2003). Para além de eudaimonia. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Nogueira, J. (2009). Carta Social – Rede de Serviços e Equipamentos. A dependência: O Apoio Informal, a Rede de Serviços e Equipamentos e os Cuidados Continuados Integrados. Lisboa: Gabinete de Estratégia e Planeamento; Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social. Rodrigues, S. I. (2011). A Satisfação com a Vida de Idosos Institucionalizados. Dissertação de Mestrado. Coimbra: Escola Superior de Altos Estudos do Instituto Superior Miguel Torga.

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VII Congresso Internacional ASPESM

Raquel Costa1 | Paulo Lourenço2 | Rui Corredeira3 | Tânia Bastos4

Mestre; Professora Atividade Física Adaptada; Doutoranda; Centro de Investigação em Atividade Física, Saúde e Lazer (CIAFEL) Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP), 4200-450 Porto, Portugal. E-mail: raquelfcosta7@gmail.com 2 Mestre; Professor-Adjunto, Escola Superior de Educação, 4200-465 Porto, Portugal. E-mail: plourenco@ese.ipp.pt 3 Doutor; Professor Auxiliar, Centro de Investigação em Atividade Física, Saúde e Lazer (CIAFEL) Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP), 4200-450 Porto, Portugal. E-mail: rcorredeira@fade.up.pt 4 Doutor; Professor Auxiliar Convidado, Centro de Investigação, Formação, Inovação e Intervenção em Desporto (CIFI2D), Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP), 4200-450 Porto, Portugal. Centro de Investigação em Desporto, Saúde e Desenvolvimento Humano, CIDESD, Instituto Universitário da Maia, ISMAI, Portugal. E-mail: tbastos@fade.up.pt 1

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VII Congresso Internacional ASPESM

Resumo Contexto: pacientes com esquizofrenia apresentam baixa motivação para praticar atividade física (AF). Devido aos benefícios da af, torna-se necessário entender os processos motivacionais ligados à adoção de estilos de vida saudáveis por parte destes pacientes. Objetivos: este estudo teve três objetivos: i) analisar as propriedades psicométricas do behavioral regulation in exercise questionnaire–2 (BREQ-2) em pacientes com esquizofrenia; ii) identificar os motivos mais valorizados para praticar af e; iii) identificar as perceções dos pacientes sobre o impacto da af nos sintomas da doença e identificar os outros significativos que influenciaram a sua decisão de praticar af. Metodologia: a amostra foi constituída por 51 pacientes com esquizofrenia. Foi aplicada a versão portuguesa do breq-2. O alfa de cronbach foi utilizado para estabelecer a consistência interna e a estabilidade temporal foi examinada através da correlação de pearson e do teste-t medidas emparelhadas (p≤0.05). Os dados qualitativos foram analisados utilizando análise de dados de conteúdo hierárquico. Resultados: os resultados demonstraram: i) aceitável consistência interna e estabilidade temporal; ii) os itens de relativos à motivação intrínseca e identificada foram os mais valorizados; iii) a maioria dos participantes percecionou melhorias nos sintomas da doença e a equipa técnica foram identificados como os principais significativos que influenciaram os pacientes a praticar af. Conclusões:

os

resultados

demonstraram

aceitáveis

propriedades

psicométricas do breq-2, sendo recomendado a sua aplicação em pacientes com esquizofrenia. O conhecimento e identificação dos motivos para a prática de af pode constituir-se como uma mais-valia na reabilitação dos pacientes com esquizofrenia. Palavras-chave: espectro da esquizofrenia e outros transtornos psicóticos; motivação; psicometria.

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VII Congresso Internacional ASPESM

Resumen Contexto: los pacientes con esquizofrenia presentan baja motivación hacia la practicar de actividad física (AF). Dados los beneficios que la af aporta, es necesario comprender los procesos motivacionales relacionados con la adopción de estilos de vida saludables eneste colectivo. Objetivos: tres objetivos: i) analizar las propiedades psicométricas del behavioral regulation in exercise questionnaire–2 (BREQ-2) en pacientes con esquizofrenia; ii) identificar que conductas influyen más en la práctica y af; iii) identificar las percepciones de los pacientes sobre el impacto de la fa en los síntomas de la enfermedad e identificar qué otros factores influyeron significativamente en su decisión de practicar af. Metodología: muestra de 51 pacientes con esquizofrenia. Se aplicó la versión portuguesa de breq-2. El coeficiente alfa de cronbach se utilizó para establecer la consistencia interna, la estabilidad temporal se analizó con una correlación de pearson y un t-test de medidas pareadas (p≤0.05). Un análisis de datos jerárquicos se utilizó para analizar los datos cualitativos. Resultados: se reveló: i) aceptable consistencia interna y estabilidad temporal; ii) los elementos relacionados con la motivación intrínseca e identificada fueron los más valorados; iii) muchos de los participantes percibieron mejoras en los síntomas de la enfermedad por la práctica de la af, siendo considerado el equipo técnico una razón importante por la que practicar af. Conclusiones: se mostraron aceptables propiedades psicométricas del breq-2, recomendándose su utilización en pacientes con esquizofrenia. La identificación sobre los motivos de la práctica de af puede de gran valor en el proceso de rehabilitación de pacientes con esquizofrenia. Descriptores: espectro de esquizofrenia y otros trastornos psicóticos; motivación; psicometría

Abstract Background: patients with schizophrenia presents lack of motivation for physical activity (PA). Due to the benefits of pa, is necessary to understand the motivational process linked to the engagement of patients in active lifestyles.

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VII Congresso Internacional ASPESM

Aim: this study has three aims: i) to analyze the psychometric properties of behavioral regulation in exercise questionnaire – 2 (BREQ-2) in patients with schizophrenia; ii) to identify the most value motives to practice pa and; iii) to identify the patient’s perceptions about the impact of pa on the disease symptoms and to identify the significant others that influenced the decision to practice pa. Methods: the sample comprised 51 patients with schizophrenia. The portuguese version of the breq-2 was applied. Cronbach’s alpha was used to establish the internal consistency and temporal stability was examined through the pearson correlation and paired sample t test (p≤0.05). Qualitative data were analyzed using hierarchical content data analysis. Results: the results demonstrated: i) acceptable internal consistency and temporal stability; ii) intrinsic and identified regulation items were the most valued; iii) most participants perceived improvements in the symptoms of the disease as a result of pa practice and were influenced by medical staff to initiate pa. Conclusions: The results showed acceptable psychometric properties of the Portuguese version of the BREQ-2, recommending its use to assess the motivation to PA of patients with schizophrenia. Therefore, the knowledge about the motives to PA might be of added value in rehabilitation of patients with schizophrenia. Keywords:

Schizophrenia

Spectrum

and

Other

Psychotic

Disorders;

Motivation; Psychometrics.

Introdução De acordo com a literatura, os pacientes com esquizofrenia apresentam pouca motivação para praticar atividade física (AF) (Vancampfort et al., 2012), devido à presença de sintomas negativos, depressão, bem como sentimento de incompetência para iniciar/praticar uma AF (Vancampfort et al., 2011). Estes pacientes não demonstram interesse em praticar AF ou não valorizam esta atividade de modo a que o exercício seja uma prioridade na sua vida (Vancampfort, Probst, et al., 2013). Para Vancampfort, De Hert, et al., (2013) é de extrema importância considerar a fraca vontade em praticar AF por parte da população com esquizofrenia. Os mesmos autores reportam

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ainda a necessidade de investigar os níveis de motivação e de que forma estes podem estar associados à adoção de comportamentos saudáveis, nomeadamente um estilo de vida ativo. Neste sentido, o entendimento dos processos da motivação poderá constituirse como uma mais-valia na intervenção na área da AF junto de pacientes com esquizofrenia, no sentido de promover a adesão à prática. A Teoria da Autodeterminação (Deci & Ryan, 1985) poderá contribuir para uma correta identificação dos tipos de motivação para a AF em cada paciente. De acordo com Deci e Ryan (2000) esta teoria centra-se num continuum motivacional, desde a amotivação, motivação extrínseca, a qual se divide em externa, introjetada e identificada, terminando na motivação intrínseca. Apesar da importância da motivação para a AF nos estilos de vida ativos em pacientes com esquizofrenia, escasso número de estudos relacionam a motivação para a AF nesta população (Rastad, Martin, & Asenlof, 2014; Vancampfort

et

al.,

2015;

Vancampfort,

De

Hert,

et

al.,

2013).

Especificamente, ao nível nacional não temos conhecimento de nenhum estudo que tenha analisado as questões motivacionais ligadas à AF na população com esquizofrenia. Outra lacuna ao nível da investigação situa-se na escassez de instrumentos válidos e fiáveis que permitam avaliar a motivação para a AF na população com esquizofrenia. Neste contexto apenas temos conhecimento do estudo de Vancampfort, De Hert, et al., (2013) que validaram o Behavioral Regulation in Exercise Questionnaire-2 (BREQ-2) de Markland e Tobin (2004) para a população belga com esquizofrenia. Neste sentido, o primeiro objetivo do presente estudo foi analisar as propriedades psicométricas da versão

Portuguesa

do BREQ-2

em pacientes

com

esquizofrenia. O segundo objetivo pretendeu identificar os motivos mais valorizados pelos pacientes para praticar AF. Por último, o terceiro objetivo consistiu em identificar as perceções dos pacientes sobre o impacto da AF nos sintomas da doença e identificar os outros significativos que influenciaram a sua decisão de praticar AF.

Metodologia Três unidades de psiquiatria foram convidadas a participar no estudo. Uma amostra de conveniência foi selecionada com base na disponibilidade e

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interesse dos pacientes para integrar o estudo, sendo que a seleção inicial dos participantes contemplou os seguintes critérios de inclusão: i) maiores de 18 anos; ii) sem défice cognitivo associado e; iii) diagnóstico de Esquizofrenia, de acordo com Diagnostic and Statistical Manual of Disorders (DSM-5) (American Psychiatric Association, 2013). Este estudo fez parte de um projeto de investigação aprovado pela Comissão de Ética da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP) (CEFADE 13.2014). Todos os participantes envolvidos no projeto assinaram uma declaração de consentimento informado. De

modo

a

caracterizar

a

amostra

foi

aplicado

um

questionário

sociodemográfico, envolvendo questões relativas aos dados pessoais e historial clinico. Foram recolhidos, através de questões fechadas e abertas, dados referentes à perceção dos doentes acerca das alterações na sintomatologia da doença decorrentes da prática da AF (“A prática de atividade física promoveu alguma alteração nos sintomas da sua doença?” e “No seu entender o que causou essas mudanças?”) e sobre a identificação dos principais significativos que influenciaram a tomada de decisão em praticar AF (“Houve alguém que o tivesse influenciado a praticar atividade física? Quem?”). Para a formulação das questões abertas/fechadas foi adotada a metodologia de Sorensen (2006) e de Rouse, Ntoumanis, Duda, Jolly, e Williams (2011), respetivamente. Para avaliação da motivação para a AF foi aplicada a versão Portuguesa do BREQ-2 (Palmeira, Teixeira, Silva, & Markland, 2007). Este questionário inclui 19 itens agrupados em 5 fatores estando intercalados sem sequência, sendo as respostas aos itens obtidos numa escala de likert de 4 pontos. No que se refere aos dados quantitativos, foram analisados recorrendo ao programa estatístico Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versão 21.0. Foi utilizada a estatística descritiva nas variáveis do estudo. O alfa de Cronbach foi usado para estabelecer a consistência interna das subescalas de motivação e a estabilidade temporal foi examinada através da correlação de Spearman e do Teste-T para medidas emparelhadas (p≤0.05). O testereteste foi realizado na totalidade da amostra tendo o questionário de motivação sido preenchido duas vezes num intervalo de duas semanas. O Teste-T para amostras independentes e a análise de variância One-Way Anova foram usados para analisar as diferenças nas subescalas de motivação.

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Quando se verificavam diferenças significativas, o teste post-hoc (Sheffe) foi analisado e reportado para um nível de significância de p<0.05. No que se refere aos dados qualitativos, adotamos o procedimento de análise hierárquica do conteúdo (Patton & Patton, 2002) tendo-se definido à posteriori as categorias de análise.

Resultados A amostra deste estudo foi constituída por 51 indivíduos adultos com diagnóstico de esquizofrenia, com idades compreendidas entre os 21 e os 59 anos (M= 42.94 anos; DP= 8.66 anos), sendo 10 do sexo feminino (M= 45.60 anos; DP= 8.96 anos) e 41 do sexo masculino (M= 42.29 anos; DP= 8.58 anos). Dos participantes envolvidos, 41 encontravam-se em situação de ambulatório,

enquanto

os

outros

10

participantes

encontravam-se

internados. Para analisar a fiabilidade da versão portuguesa do BREQ-2 avaliamos os constructos da motivação em indivíduos com esquizofrenia usando o alfa de Cronbach. Na Tabela 1 encontra-se a estatística descritiva e os valores do alfa de Cronbach das subescalas de motivação e verificamos que os valores variam entre α =.64 e α =.80 indicando adequada consistência interna. Tabela 1 - Estatística descritiva do BREQ-2 (media, desvio padrão) e valores do alfa de Cronbach nas subescalas de motivação (n=51) M

DP

α

.71

.89

.76

Motivação Externa

1.47

1.10

.76

Motivação Introjetada

1.48

1.16

.71

Motivação Identificada

2.67

.77

.64

Motivação Intrínseca

2.96

.94

.80

Amotivação

M= média; DP= desvio padrão

Para

avaliar

a

fiabilidade

do

questionário

procedemos

também

à

determinação da estabilidade temporal (n=51). Na Tabela 2 encontram-se os valores da estatística descritiva, o t-teste amostras emparelhadas e as correlações de Pearson para as diferentes subescalas de motivação.

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Tabela 2 - Teste-reteste e correlações de Pearson do BREQ-2 num intervalo de duas semanas (n=51) Sub-escalas de motivação

M

Amotivação

Teste DP

Reteste M DP

t

p

ρ

.71

.89

.72

.84

-.12

.91

.51**

Motivação Externa

1.47

1.10

1.48

1.27

.07

.95

.61**

Motivação Introjetada

1.48

1.56

1.39

1.17

.50

.62

.38**

Motivação Identificada

2.67

.77

2.60

.78

.68

.50

.58**

Motivação Intrínseca

2.96

.94

2.93

1.00

.43

.68

.83**

**ρ≤0.01; M= média; DP= desvio padrão Tabela 3 - Estatística descritiva e ranking dos três itens do questionário mais valorizados pela amostra. #

Questão

18. Fico bem disposto(a) e satisfeito(a) por praticar AF. 3. Dou valor aos benefícios/vantagens 2 do exercício. 15. Acho a AF uma atividade 3 agradável. M= média; DP= desvio padrão 1

M ± DP

Sub-escala de motivação

3.31 ±1.10

Motivação intrínseca

3.22 ±0.92

Motivação extrínseca identificada

3.20 ±1.11

Motivação intrínseca

No que se refere à identificação dos principais significativos que influenciaram a decisão dos participantes em praticar AF, verificamos que a maior frequência de resposta foi obtida na categoria equipa técnica (i.e., médicos, terapeutas, professores de AF) (n=28), seguida da categoria família (i.e., pai, mãe, irmão, primos) (n=22), da categoria outros significativos (n=6) e, por último, a categoria amigos (n=6). Importa mencionar que 17 participantes indicaram duas categorias de resposta e 6 participantes referiram não terem tido a influência de outros significativos na decisão de praticar AF. Relativamente às perceções dos participantes sobre as alterações nos sintomas da doença decorrentes da prática de AF, da análise do conteúdo emergiu a categoria “Sintomas da esquizofrenia” constituída por 22 unidades de registo que deram origem a quatro subcategorias de segunda ordem: diminui, aumentou, permaneceu igual e não sei. No que diz respeito à primeira subcategoria de segunda ordem, diminuição dos sintomas, a maioria dos participantes reportou diminuição dos sintomas da esquizofrenia em consequência da prática de AF que se traduziu em benefícios ao nível psicológico (bem-estar psicológico, redução da ansiedade e relaxamento), físico (bem-estar físico, mais magro) e social (relacionamento). Em relação à

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segunda subcategoria de segunda ordem, aumento dos sintomas, somente um participante reportou qua a sintomatologia da doença tinha piorado em consequência da AF e que essa situação se traduziu numa redução da autoestima e da autoconfiança. Em relação à segunda subcategoria de segunda ordem, permaneceu igual, somente um dos participantes reportou o porquê de ter mantido igual (“a medicação é que causou, não o desporto”). Em relação à segunda subcategoria de segunda ordem, não sei, um dos participantes reportou que não sabia dizer afirmando que a ansiedade era controlada pelos participantes.

Discussão No que se refere à fiabilidade da versão portuguesa do BREQ-2 aplicado à população com esquizofrenia, os resultados demonstraram adequada consistência interna nas diferentes subescalas da motivação, variando o alfa de Cronbach entre .64 e .80. Estes valores são similares aos encontrados por Vancampfort, De Hert, et al., (2013) (α =.75 - .80) na versão belga do BREQ2 para indivíduos com esquizofrenia e por Palmeira et al. (2007) (α =.63 .79) na versão portuguesa do questionário para a população em geral. Assim sendo, a análise preliminar das propriedades psicométricas do BREQ-2 aplicado a um grupo de indivíduos com esquizofrenia, indica adequada consistência interna e estabilidade temporal. Os resultados sugerem que o questionário pode ser utilizado em indivíduos com esquizofrenia e pode constituir-se como uma ferramenta importante para identificar as principais fontes de motivação dos pacientes. Consequentemente, os profissionais responsáveis pela implementação e monitorização de programas de AF podem recorrer a este instrumento para adequar as estratégias de motivação e adesão em função das necessidades específicas dos indivíduos com esquizofrenia e, assim, melhorar substancialmente a intervenção. No caso específico da realidade portuguesa, esta situação assume ainda maior importância devido à inexistência de instrumentos válidos e fiáveis para avaliar a motivação para a AF na população com esquizofrenia. Neste sentido, sugere-se que a investigação futura proceda à validação transcultural do BREQ-2 para a população em causa, recorrendo a métodos estatísticos mais

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sofisticados (i.e., análise exploratória e confirmatória) de modo a realizar a validação final do instrumento. No que diz respeito à identificação das fontes de motivação dos pacientes e os motivos mais valorizados, podemos constatar que, de uma forma geral, a maioria dos participantes reporta motivação intrínseca. Este subtipo de motivação é um indicador de extrema importância, pois pode sugerir que estes indivíduos estarão comprometidos e dedicados à AF a longo prazo. Tal como Vancampfort, De Hert, et al., (2013) afirmam, quando as pessoas com esquizofrenia são motivadas de forma autónoma experienciam vontade de praticar que, por sua vez, está associada a uma maior participação na AF. Um outro aspeto inovador do presente estudo foi a identificação dos principais significativos que influenciaram a decisão dos pacientes com esquizofrenia em praticar AF, tendo-se verificado que é a equipa médica (i.e., médicos, terapeutas, professores de AF) que tem um papel mais preponderante nessa tomada de decisão. Estes resultados estão em concordância com Rouse, Ntoumanis, Duda, Jolly, e Williams (2011) que constataram que existe uma variedade de outros significativos (i.e., colegas, familiares e médicos) que contribuem para a motivação para a prática de AF em indivíduos com depressão. Não temos conhecimento de nenhum estudo prévio que tenha feito esta análise na esquizofrenia. No presente estudo a maioria dos participantes reconheceram que a prática de AF tem um impacto positivo na sua doença, reduzindo a sintomatologia. Especificamente, os participantes destacaram benefícios ao nível mental (i.e., relaxados, motivados, dinâmicos, menos ansiosos, mais autoconfiantes), ao nível físico (i.e., mais aptos, mais magros, mais energéticos, mais resistência) e ao nível social (menos estigma, melhor relação e comunicação com os outros). Também Sorensen (2006) afirma que os pacientes psiquiátricos quando estão inseridos numa AF, os sintomas diminuem, demonstrando assim que a AF é uma parte importante para o tratamento psiquiátrico. Apesar deste estudo colocar em evidência resultados muito positivos relativamente à perceção dos pacientes sobre o impacto da AF na sua doença, não podemos ignorar que um participante referiu que a AF teve um impacto negativo na doença, agravando a sua sintomatologia. Neste sentido, reforçase

uma

vez

mais

a

importância

de

desenvolver

Viana do Castelo, Novembro de 2016

uma

intervenção


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individualizada, considerando as características específicas desta população e as necessidades individuais de cada participante.

Conclusão O nosso estudo demostrou que o BREQ-2 é uma ferramenta válida e fiável para ser utilizada na população com esquizofrenia. Segundo o ranking dos itens mais valorizados pela amostra, torna-se evidente um predomínio de motivos autodeterminados onde se salienta a importância da AF para a saúde, bem-estar e satisfação intrínseca na prática. Por último, verificamos que a maioria

dos

participantes

reconhece

o

impacto

positivo

da

AF

na

sintomatologia da sua doença e identifica os elementos da equipa técnica, responsáveis pelo processo de reabilitação do paciente, como os significativos mais importantes na adesão à prática de AF. É evidente o número escasso de estudos, de âmbito nacional e internacional, sobre a motivação para a AF na população com esquizofrenia, o que limitou em grande medida a discussão deste trabalho.

Implicações para a Prática Clínica A existência de um instrumento que avalia a motivação para a AF, adequado a pacientes com esquizofrenia constitui-se como uma mais-valia para profissionais de saúde. A identificação dos processos de motivação de cada paciente irá possibilitar aos profissionais de saúde mental promover intervenções adequadas. Apesar de a equipa técnica que acompanha a reabilitação do paciente ter sido referenciada pela maioria dos participantes, é notório que o incentivo à prática deve também começar em casa, por parte da família e dos amigos. Neste sentido, poderá constituir uma iniciativa eficaz envolver os familiares na AF, convidando-os a assistirem a uma aula. Aos professores de AF que trabalham com esta população exige-se práticas apelativas, cativantes, agradáveis e que estimulem o prazer na prática para que os participantes sejam mais autónomos e autodeterminados nas suas motivações. Agradecimentos:

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Os autores gostariam de agradecer a todos os participantes e equipas técnicas (i.e., médicos psiquiatras, enfermeiros, terapeutas, e professores de AF) que colaboraram neste estudo, pertencentes às seguintes instituições: Associação Nova Aurora para a Reabilitação Psicossocial (ANARP), Porto; Unidade de Psiquiatria Comunitária e Hospitais de Dia do Hospital de São João, Porto; Casa de Saúde São José, Barcelos.

Referências Bibliográficas American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and statistical manual of mental disorders DSM-5 (5th ed.). London: American Psychiatric Publishing. Deci, Edward L., & Ryan, Richard M. (1985). Intrinsic Motivation and Self-Determination in Human Behavior. New York: Plenun Press. Deci, Edward L., & Ryan, Richard M. (2000). The "What" and "Why" of Goal Pursuits: Human Needs and the Self-Determination of Behavior. Psychological Inquiry: An International Journal for the Advancement of Psychological Theory 11(4), 227-268. doi: 10.1207/S15327965PLI1104_01 Markland, David, & Tobin, Vannessa. (2004). A Modification to the Behavioural Regulation in Exercise Questionnaire to Include an Assessment of Amotivation. Journal of Sport & Exercise Psychology(26), 191-196. Palmeira, A., Teixeira, P., Silva, M. , & Markland, D. (2007). Confirmatory Factor Analysis of the Behavioural Regulation in Exercise Questionnaire – Portuguese Version. Halkidiki, Greece: 12th European Congress of Sport Psychology Patton, Michael Quinn, & Patton, Michael Quinn. (2002). Qualitative research and evaluation methods (3 ed.). Thousand Oaks, Calif.: Sage Publications. Rastad, C., Martin, C., & Asenlof, P. (2014). Barriers, benefits, and strategies for physical activity in patients with schizophrenia Phys Ther (Vol. 94, pp. 1467-1479). United States. Rouse, P. C., Ntoumanis, N., Duda, J. L., Jolly, K., & Williams, G. C. (2011). In the beginning: role of autonomy support on the motivation, mental health and intentions of participants entering an exercise referral scheme. Psychol Health, 26(6), 729-749. doi: 10.1080/08870446.2010.492454 Sorensen, M. (2006). Motivation for physical activity of psychiatric patients when physical activity was offered as part of treatment Scand J Med Sci Sports (Vol. 16, pp. 391-398). Vancampfort, D., De Hert, M., Skjerven, L. H., Gyllensten, A. L., Parker, A., Mulders, N., . . . Probst, M. (2012). International Organization of Physical Therapy in Mental Health consensus on physical activity within multidisciplinary rehabilitation programmes for

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minimising cardio-metabolic risk in patients with schizophrenia. Disabil Rehabil, 34(1), 1-12. doi: 10.3109/09638288.2011.587090 Vancampfort, D., De Hert, M., Stubbs, B., Ward, P. B., Rosenbaum, S., Soundy, A., & Probst, M. (2015). Negative symptoms are associated with lower autonomous motivation towards physical activity in people with schizophrenia. Compr Psychiatry, 56, 128-132. doi: 10.1016/j.comppsych.2014.10.007 Vancampfort, D., De Hert, M., Vansteenkiste, M., De Herdt, A., Scheewe, T. W., Soundy, A., . . . Probst, M. (2013). The importance of self-determined motivation towards physical activity in patients with schizophrenia. Psychiatry Research, 210(3), 812-818. doi: 10.1016/j.psychres.2013.10.004 Vancampfort, D., Probst, M., Scheewe, T., De Herdt, A., Sweers, K., Knapen, J., . . . De Hert, M. (2013). Relationships between physical fitness, physical activity, smoking and metabolic and mental health parameters in people with schizophrenia. Psychiatry Res, 207(1-2), 25-32. doi: 10.1016/j.psychres.2012.09.026 Vancampfort, D., Sweers, K., Probst, M., Maurissen, K., Knapen, J., Minguet, P., & De Hert, M. (2011). Association of the metabolic syndrome with physical activity performance in patients with schizophrenia Diabetes Metab (Vol. 37, pp. 318-323).

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Sandra Silva1 | Eluana Gomes2 | Raquel Costa3 | Rui Corredeira4 | Tânia Bastos5

Mestre; Professora Atividade Física Adaptada; Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP), 4200-450 Porto, Portugal. E-mail: s_silva54@hotmail.com 2 Doutora; Investigadora, Centro de Investigação em Atividade Física, Saúde e Lazer (CIAFEL) Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP), 4200450 Porto, Portugal. E-mail: aeluana@yahoo.com.br 3 Mestre; Doutoranda, Centro de Investigação em Atividade Física, Saúde e Lazer (CIAFEL) Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP), 4200-450 Porto, Portugal. E-mail: raquelfcosta7@gmail.com 4 Doutor; Professor Auxiliar, Centro de Investigação em Atividade Física, Saúde e Lazer (CIAFEL) Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP), 4200450 Porto, Portugal. E-mail: rcorredeira@fade.up.pt 5 Doutor; Professor Auxiliar Convidado, Centro de Investigação, Formação, Inovação e Intervenção em Desporto (CIFI2D), Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP), 4200-450 Porto, Portugal. Centro de Investigação em Desporto, Saúde e Desenvolvimento Humano, CIDESD, Instituto Universitário da Maia, ISMAI, Portugal. E-mail: tbastos@fade.up.pt 1

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Resumo Contexto:

as

perturbações

do

sono

podem

conduzir

a

alterações

significativas no funcionamento do indivíduo, comprometendo qualidade de vida (qv). Indivíduos com esquizofrenia apresentam baixos níveis de qv e de qualidade do sono (qs). A atividade física (af) melhora a qs na população em geral,

contudo,

não

existem

estudos

analisando

essa

relação

na

esquizofrenia. Objetivos: este estudo teve três objetivos: i) caracterizar a qs dos indivíduos com esquizofrenia; ii) analisar as componentes do sono em diferentes variáveis e; iii) analisar a relação entre qs, qv e nível de af. Metodologia: a amostra foi constituída por 51 indivíduos com esquizofrenia. Foram aplicados três questionários: i) ipaq-sf para avaliação do nível de af; ii) psqi para avaliação da qs e; iii) whoqol-bref para avaliação da qv. O teste de variância da anova, mann-whitney e kruskal-wallis foram utilizados de acordo com o tipo de variáveis. A correlação de pearson e de spearman foram utilizadas. Resultados: indivíduos com boa qs são adultos jovens, tomam antipsicóticos de 2ª geração e praticam af. Disfunção durante o dia relacionase com prática de af. Indivíduos que apresentam distúrbio do sono têm menores valores de qv no domínio físico e ambiental, a disfunção durante o dia correlacionou-se com o domínio físico e psicológico. Não foram encontradas correlações entre nível de af e qv. Conclusões: a relação entre qs e qv salienta a importância de futuros estudos aprofundarem sobre os fatores que podem influenciar a qs. A exploração destes fatores poderá contribuir para a melhoria da qv nesta população. Palavras-chave: espectro da esquizofrenia e outros transtornos psicóticos, atividade motora , qualidade de vida, sono

Resumen Contexto: las perturbaciones de sueños pueden conducir a un cambio significativo en el funcionamiento del individuo, comprometiendo calidad de vida (cv). Individuos con esquizofrenia presentan bajos niveles de cv y calidad de sueño (cs). Una actividad física (af) mejora la cs en la población en general, sin embargo, no hay estudios que analicen esta relación en esquizofrenia. Objetivos: este estudio tuvo tres objetivos: i) caracterizar a cs de individuos con esquizofrenia; ii) análisis de los componentes del sueño en diferentes variables; iii) analizar una relación entre cs, cv y nivel de af.

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Metodologia: una muestra constituida por 51 individuos con esquizofrenia. I) ipaq-sf para la evaluación del nivel de af; ii) psqi para evaluación de qs e; iii) whoqol-bref para evaluación de cv. El teste de variabilidad de anova, mann-whitney y kruskal-wallis fueron utilizados de acuerdo con el tipo de variables. Se utilizó una correlación de pearson y de spearman. Resultados: individuos con buena cs son adultos jóvenes, toman antipsicóticos de 2ª generación y practica af. Disfunción durante el día relaciona-se con práctica de af. Individuos que presentan distorsiones del sueño tienen valores menores de cv en el dominio físico y ambiental, una disfunción durante el día se correlacionó con el dominio físico y psicológico. No se encontraron correlaciones entre el nivel de af y cv. Conclusiones: la relación entre cs y cv enfatiza la necesidad de futuros estudios profundando sobre los factores que pueden influir en cs. Una explicación de estos factores puede contribuir a mejorar la calidad de la población. Descriptores: espectro de esquizofrenia y otros trastornos psicóticos, actividad motora, calidad de vida, sueño.

Abstract Background: sleep disturbance can lead to changes in functioning of the individuals compromising their quality of life (qol). Individuals with schizophrenia have low levels of qol and sleep quality (sq). Physical activity (pa) improves sq in the general population, however there are no studies analyzing this relationship in the population with schizophrenia. Aim: this study has three aims: i) to characterize the sq of individuals with schizophrenia; ii) to examine the components of sq according to specific variables and iii) to analyze the correlation between sq, qol and pa. Methods: the sample comprised 51 patients with schizophrenia. Three questionnaires were applied: i) pa level was assessed by the ipaq-sf; ii) sq was assessed by the psqi and; iii) qol was assessed by the whoqol-bref. Analysis of variance one-way anova, mann-whitney test and the kruskalwallis test were used accordingly to the type of variables. Pearson and spearman correlations were used. Results: individuals with good sq are young adults, take 2nd generation antipsychotics and practice pa. Dysfunction during the day is related to pa practice. Individuals who present sleep disorders have lower qol values on

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physical and environmental domain, dysfunction during the day correlates with the physical and psychological domain. No correlations were found between the pa level and qol. Conclusions: the relationship between sq and qol emphasizes the importance of further studies in depth on the factors that can influence SQ. The exploration of these factors may contribute to the improvement of QOL in this population. Keywords: Schizophrenia Spectrum and Other Psychotic Disorders, Motor Activity, Quality of Life, Sleep.

Introdução A esquizofrenia é uma das doenças psiquiátricas mais graves, apresentando um risco de obesidade maior, comparativamente com população em geral (De Hert, Schreurs, Vancamprfot, & Van Winkel, 2009). Consequentemente, a qualidade de vida (QV) dos pacientes com esquizofrenia é inferior à população em geral (Gomes et al., 2016). Fatores como a diminuição da capacidade funcional e o sedentarismo são enunciados como tendo influência negativa na QV desta população (Lindamer et al., 2008). O sono, caracterizado como um estado ativo fundamental para o bem-estar físico, mental e emocional do indivíduo (Costa e Silva, 2006), é um dos fatores que também influencia a QV (Ritsner, Kurs, Ponizovsky, & Hadjez, 2004). Costa e Silva (2006) refere que os pacientes com esquizofrenia têm pior sono comparativamente com os indivíduos saudáveis. da mesma forma, Simões do Couto et al. (2011) verificaram que as perturbações do sono foram uma das comorbilidades mais frequentes na população portuguesa com esquizofrenia. A atividade física (AF) é considerada uma terapia fundamental no tratamento multidisciplinar da esquizofrenia (De Hert et al., 2009; Vancampfort et al., 2011). A prática de AF, para além de ser um aspeto determinante para a melhoria da QV (Gomes et al., 2014; Vancampfort et al., 2011), torna-se igualmente importante para a melhoria da qualidade do sono (QS). Os benefícios da AF também foram observados após um programa de exercício físico, verificando-se melhorias nos valores do domínio físico, social e ambiental do WHOQOL-Bref (Gomes et al., 2016). Apesar da importância da AF na melhoria da QV e da QS dos pacientes com esquizofrenia, ainda se verificam elevados níveis de sedentarismo nesta população, sendo que

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apenas 30% dos pacientes com esquizofrenia são regularmente ativos (Lindamer et al., 2008). No que se refere à relação entre QV e QS sabe-se que os pacientes com esquizofrenia com má QS têm piores valores de QV (Ritsner et al., 2004). Apesar de estudos demonstrarem a associação entre QS e QV, ao nível nacional são escassos os estudos que realizaram a associação entre estas variáveis na população com esquizofrenia (Afonso, Brissos, Figueira, & Paiva, 2011; Brissos, Dias, Carita, & Martinez-Aran, 2008). Para além disso, os estudos que caracterizam a QS na população portuguesa com esquizofrenia são também escassos (Afonso, Brissos, Canas, Bobes, & BernardoFernandez, 2014; Afonso et al., 2011). Desta forma, com o presente estudo pretendemos caracterizar a QS dos pacientes com esquizofrenia, verificando as diferenças nas componentes da QS entre os pacientes com boa e má QS. Pretendemos também analisar a QS em função do género, idade, habilitações académicas, condição de tratamento, medidas antropométricas, medicação utilizada, prática atual de AF. Adicionalmente, analisamos a variação das componentes da QS em função da QS subjetiva auto-relatada. Por último, analisamos a relação entre a QS, QV e o nível de AF.

Metodologia Uma amostra de conveniência foi selecionada em três unidades de psiquiatria com base na disponibilidade e interesse dos pacientes para participar no estudo. A seleção inicial dos participantes apresentou os seguintes critérios de inclusão: i) maiores de 18 anos; ii) diagnóstico de Esquizofrenia, de acordo com Diagnostic and Statistical Manual of Disorders (DSM-5) (American Psychiatric Association, 2013); iii) situação clínica estável. Este estudo foi submetido e aprovado pela Comissão de Ética da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP) (CEFADE 13.2014). Após uma sessão de esclarecimento sobre as características do estudo, todos os participantes envolvidos assinaram uma declaração de consentimento informado. A caracterização da amostra foi realizada através de um questionário sociodemográfico,

desenvolvido

pelos

pesquisadores.

As

medidas

antropométricas avaliadas foram peso, altura, circunferência da cintura e da

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anca. Índice de Massa Corporal (IMC) e razão cintura-anca (RCA) foram calculados. A qualidade de vida (QV) foi avaliada através da versão portuguesa do WHOQOL-Bref (Vaz-Serra et al., 2006). O WHOQOL-Bref apresenta 26 perguntas distribuídas por 4 domínios: i) físico; ii) psicológico; iii) relações sociais; e iv) ambiente, e duas questões relacionadas com a perceção geral da QV e saúde. O WHOQOL-Bref foi utlizado na população portuguesa com esquizofrenia (Gomes et al., 2014; Gomes et al., 2016). Para avaliar a qualidade do sono (QS) foi utilizado o Pittsburgh Sleep Quality Index – PSQI (Buysse, Reynolds, Monk, Berman, & Kupfer, 1989). O PSQI apresenta 19 itens que avaliam 7 componentes do sono, como a qualidade subjetiva do sono, a latência do sono, a duração do sono, a eficiência habitual do sono, os distúrbios do sono, o uso de medicação para dormir e a disfunção durante o dia (Buysse et al., 1989). Este questionário foi utilizado na população portuguesa com esquizofrenia (Afonso et al., 2014; Afonso et al., 2011). Para a avaliação do nível de AF foi utilizado o International Physical Activity Questionnaire Short Form – IPAQ-SF (Craig et al., 2003). Pesquisadores como Lindamer et al. (2008) e Vancampfort et al. (2015) avaliaram o nível de AF da população com esquizofrenia através do IPAQ-Bref. Foi utilizada a estatística descritiva nas variáveis do estudo. Teste de tstudent foi utilizado para as variáveis paramétricas com duas categorias e o teste da ANOVA com aplicação do teste de post hoc de Sheffe para variáveis com mais de duas categorias. Para as variáveis não paramétricas com duas categorias foi aplicado o teste de Mann-Whitney e para variáveis não paramétricas com mais de duas categorias foi aplicado o teste de KruskalWallis. Para correlação entre as variáveis não paramétricas foi utilizada a correlação de Spearman e correlação de Pearson para variáveis paramétricas. O nível de significância foi de 5% (p ≤ 0.05). O programa utilizado foi o Statistical Package for Social Sciences (SPSS), versão 21.0.

Resultados No que se refere ao grupo que apresenta boa e má QS, a tabela 1 apresenta a QS em função das características sociodemográficas, da medicação antipsicótica e da prática de AF atualmente.

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Observa-se que os participantes adultos têm pior QS. Apesar de não se observar diferenças estatisticamente significativas, participantes que utilizam apenas antipsicóticos de 1ª geração e não praticam AF são propensos a apresentarem má QS. No que se refere a QS dos participantes do estudo, a tabela 2 apresenta os valores da estatística descritiva da QS da amostra em função das componentes do sono. Tabela 2 - QS da amostra em função das componentes do sono. Boa QS (n = 25) M (DP) 0.44 (0.51)

Má QS (n = 26) M (DP) 0.96 (0.60)

p 0.003

Latência do Sono

0.52 (0.71)

1.73 (1.00)

<0.001

Duração do Sono

0.08 (0.28)

0.27 (0.53)

0.135

Eficiência do Sono

0.00

0.69 (1.12)

0.001

Distúrbios de Sono

1.00 (0.50)

1.38 (0.64)

0.007

Uso de medicamentos para dormir

1.24 (1.48)

2.00 (1.36)

0.063

Disfunção durante o dia

0.60 (0.65)

1.19 (0.85)

0.011

PSQI Total

3.88 (1.39)

8.23 (2.25)

<0.001

Qualidade Subjetiva do Sono

QS = Qualidade do sono; PSQI = Pittsburgh Sleep Quality Index. M= média; DP= desvio padrão.

Observa-se que, com a exceção do uso de medicamentos para dormir e da duração

do

sono,

os

pacientes

com

QS

apresentam

valores

significativamente superiores em todas as componentes do sono e no valor total do PSQI.

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No que se refere a QV, observa-se uma correlação negativa entre o domínio físico e a disfunção durante o dia (ρ = - 0.348; p = 0.012) e com os distúrbios do sono (ρ = -0.439; p = 0.001). O domínio psicológico correlacionou-se positivamente com o uso de medicamentos para dormir (ρ = 0.414; p = 0.003) e negativamente com a disfunção durante o dia (r = - 0.326; p = 0.020). Observou-se uma correlação negativa entre o domínio ambiental e os distúrbios do sono (r = - 0.321; p = 0.022). Não foram encontradas correlações significativas entre o nível de AF com a QS e QV.

Discussão O objetivo do presente estudo foi caracterizar a QS dos pacientes com esquizofrenia, verificando as diferenças nas componentes da QS entre os pacientes com boa e má QS. É importante realçar a originalidade e inovação da temática abordada neste estudo, onde se associa a importância da QS e da AF na QV da população com esquizofrenia. Este é o primeiro trabalho que procura avaliar as diferenças nas componentes do sono, qualidade subjetiva do sono e AF nos pacientes com esquizofrenia. Os participantes adultos (entre 41 e 60 anos) têm pior QS comparativamente com os adultos jovens (entre 18 a 40 anos). Da mesma forma, (Costa e Silva, 2006) constataram que os indivíduos com mais de 71 anos têm maior latência do sono comparativamente com os indivíduos mais jovens, e Xiang et al. (2009) verificaram que pacientes com esquizofrenia com a má QS apresentam idade avançada. No que diz respeito à medicação antipsicótica, pacientes que utilizam apenas antipsicóticos de 1ª geração têm tendência a apresentar pior QS. Xiang et al. (2009) verificaram que a má QS está associada ao uso menos frequente de antipsicóticos de 2ª geração e os antipsicóticos de 1ª geração geralmente são associados a pior QS pelos seus efeitos

secundários

como

tremores,

agitação

e

rigidez

muscular.

Relativamente à prática atual de AF, verifica-se que a maior parte dos participantes não estão envolvidos em prática regular de AF revelam má QS. Estes resultados estão em concordância com Faulkner and Sparkes (1999) que, após a aplicação de um programa de exercício físico para indivíduos com esquizofrenia, verificaram que os pacientes reportaram melhorias na QS.

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Os participantes do presente estudo que apresentaram má qualidade do sono (QS), também apresentam piores valores em todas as componentes do sono. Vale ressaltar que Afonso et al. (2014) indicam que pacientes que reportam apresentar distúrbios de sono apresentam pior QS em todas as componentes do PSQI. Doi et al. (2000) indica que, em comparação com a população em geral, os pacientes com esquizofrenia revelam piores resultados no valor global do PSQI e em todas as componentes do sono, à exceção da duração do sono. No que se refere às componentes do sono, observa-se que o indivíduo que apresenta distúrbio do sono tem menores valores de QV no domínio físico e ambiental. O indivíduo que apresenta disfunção durante o dia também apresenta menores valores de QV no domínio físico e psicológico. Além disso, observamos que um maior uso de medicamentos para dormir relaciona-se com melhores valores de QV no domínio psicológico. Desta forma, os resultados do presente estudo estão em concordância com a literatura (Hofstetter, Lysaker, & Mayeda, 2005; Ritsner et al., 2004) no qual indica que uma melhor QS reflete diretamente numa melhor QV. Importa salientar que a escassez de estudos na área foi uma limitação para a discussão dos resultados encontrados. Contudo, apesar da carência de resultados estatisticamente significados no presente estudo, a literatura reporta a importância da AF no controlo do excesso de peso (Vancampfort et al., 2011), bem como na possível regulação do ritmo circadiano (Afonso et al.,

2011).

Estes

fatores

estão

diretamente

ligados

com

a

QS

e

consequentemente com a QV. Neste sentido, devido à importância da temática apresentada consideramos fundamental que estudos futuros continuem a explorar esta linha de investigação, aumentando o número de amostra e adotando estudos longitudinais com a aplicação de programas de AF estruturada, para se averiguar o impacto da prática na QS e, consequentemente, na QV do indivíduo.

Conclusão O presente estudo demonstrou que os indivíduos com esquizofrenia que apresentam má QS são mais velhos, têm pior qualidade subjetiva do sono,

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maior latência do sono, pior eficiência do sono, mais distúrbios do sono e pior disfunção durante o dia comparativamente com os indivíduos que apresentam boa QS. Relativamente à AF observamos que os pacientes que apresentavam boa QS praticam AF atualmente. A relação entre as componentes da QS e os domínios da QV salienta a importância de futuros estudos aprofundarem sobre os fatores que podem influenciar a QS (e.g., medicação, tempo de doença, alimentação). A exploração destes fatores poderá contribuir ainda mais para a melhoria da QV nesta população.

Implicações para a Prática Clínica O controlo de todas a variáveis que podem influenciar a QV na população com esquizofrenia constitui-se uma mais-valia para os profissionais de saúde mental. Assim como os profissionais de saúde mental devem ter atenção à medicação utilizada no controlo dos sintomas da doença, bem como as psicoterapias desenvolvidas para melhoria da capacidade funcional deste grupo, o sono pode constituir como mais uma variável que refletirá na condição clínica do indivíduo. Devido à influência que a prática de AF pode ter na melhoria da QS, os profissionais

de

saúde

mental

devem

incentivar

os

indivíduos

com

esquizofrenia a envolver-se em programas de AF regular. O aumento dos níveis de AF destes indivíduos, além de influenciar na melhoria da QS, também auxilia no controlo de doenças metabólicas, no bem-estar psicológico e nas relações socias deste grupo populacional.

Agradecimentos Os autores gostariam de agradecer a todos os participantes e equipas técnicas (i.e., médicos psiquiatras, enfermeiros, terapeutas, e professores de AF) que colaboraram neste estudo, pertencentes às seguintes instituições: Associação Nova Aurora para a Reabilitação Psicossocial (ANARP), Porto; Unidade de Psiquiatria Comunitária e Hospitais de Dia do Hospital de São João, Porto; Casa de Saúde São José, Barcelos.

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Referências Bibliográficas Afonso, P., Brissos, S., Canas, F., Bobes, J., & Bernardo-Fernandez, I. (2014). Treatment adherence and quality of sleep in schizophrenia outpatients. Int J Psychiatry Clin Pract, 18(1), 70-76. doi:10.3109/13651501.2013.845219 Afonso, P., Brissos, S., Figueira, M. L., & Paiva, T. (2011). Schizophrenia patients with predominantly positive symptoms have more disturbed sleep-wake cycles measured by actigraphy. Psychiatry Res, 189(1), 62-66. doi:10.1016/j.psychres.2010.12.031 American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and statistical manual of mental disorders DSM-5 (5th ed.). London: American Psychiatric Publishing. Brissos, S., Dias, V. V., Carita, A. I., & Martinez-Aran, A. (2008). Quality of life in bipolar type I disorder and schizophrenia in remission: clinical and neurocognitive correlates. Psychiatry Res, 160(1), 55-62. doi:10.1016/j.psychres.2007.04.010 Buysse, D. J., Reynolds, C. F., 3rd, Monk, T. H., Berman, S. R., & Kupfer, D. J. (1989). The Pittsburgh Sleep Quality Index: a new instrument for psychiatric practice and research. Psychiatry Res, 28(2), 193-213. Costa e Silva, J. A. (2006). Sleep disorders in psychiatry. Metabolism Clinical and Experimental, 55(2), S40-S44. doi:10.1016/j.metabol.2006.07.012 Craig, C. L., Marshall, A. L., Sjöström, M., Bauman, A. E., Booth, M. L., Ainsworth, B. E., . . . Sallis, J. F. (2003). International physical activity questionnaire: 12-country reliability and validity. Medicine & Science in Sports & Exercise, 35(8), 1381. De Hert, M., Schreurs, V., Vancamprfot, D., & Van Winkel, R. (2009). Metabolic syndrome in people with schizophrenia: a review. World Psychiatry, 8(1), 15-22. Doi, Y., Minowa, M., Uchiyama, M., Okawa, M., Kim, K., Shibui, K., & Kamei, Y. (2000). Psychometric assessment of subjective sleep quality using the Japanese version of the Pittsburgh Sleep Quality Index (PSQI-J) in psychiatric disordered and control subjects. Psychiatry research, 97(2), 165-172. doi:10.1016/S0165-1781(00)00232-8 Faulkner, G., & Sparkes, A. (1999). Exercise as therapy for schizophrenia: an ethnographic study. Journal of Sport & Exercise Psychology, 21(1), 52-69. Gomes, E., Bastos, T., Probst, M., Ribeiro, J. C., Silva, G., & Corredeira, R. (2014). Effects of a group physical activity program on physical fitness and quality of life in individuals with schizophrenia. Mental Health and Physical Activity, 1-8. doi:http://dx.doi.org/10.1016/j.mhpa.2014.07.002 Gomes, E., Bastos, T., Probst, M., Ribeiro, J. C., Silva, G., & Corredeira, R. (2016). Quality of life and physical activity levels in outpatients with schizophrenia. Revista Brasileira de Psiquiatria, 38, 157–160. doi:10.1590/1516-4446-2015-1709 Hofstetter, J. R., Lysaker, P. H., & Mayeda, A. R. (2005). Quality of sleep in patients with schizophrenia is associated with quality of life and coping. Bmc Psychiatry, 5(13).

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Lindamer, L. A., McKibbin, C., Norman, G. J., Jordan, L., Harrison, K., Abeyesinhe, S., & Patrick, K. (2008). Assessment of physical activity in middle-aged and older adults with schizophrenia. Schizophrenia research, 104, 294-301. doi:10.1016/j.schres.2008.04.040 Ritsner, M., Kurs, R., Ponizovsky, A., & Hadjez, J. (2004). Perceived quality of life in schizophrenia: relationships to sleep quality. Qual Life Res, 13(4), 783-791. doi:10.1023/B:QURE.0000021687.18783.d6 Simões do Couto, F., Queiroz, C., Barbosa, T., Ferreira, L., Firmino, H., Viseu, M., . . . Figueira, M. L. (2011). Clinical and therapeutic characterization of a Portuguese sample of patients with schizophrenia. Actas Esp Psiquiatr, 39(3), 147-154. Vancampfort, D., Guelinckx, H., Probst, M., Stubbs, B., Rosenbaum, S., Ward, B., & De Hert, M. (2015). Health-related quality of life and aerobic fitness in people with schizophrenia. International Journal of Mental Health Nursing, 24(5), 394-402. Vancampfort, D., Probst, M., Scheewe, T., Maurissen, K., Sweers, K., Knapen, J., & De Hert, M. (2011). Lack of physical activity during leisure time contributes to an impaired health related quality of life in patients with schizophrenia. Schizophrenia research, 129(2–3), 122127. doi:10.1016/j.schres.2011.03.018 Vaz-Serra, A., Canavarro, M. C., Simões, M. R., Pereira, M., Gameiro, S., Quartilho, M. J., . . . Paredes, T. (2006). Estudos psicométricos do instrumento da avaliação da qualidade de vida da organização mundial da saúde (WHOQOL_Bref) para portugues de Portugal. Psiquiatria Clínica, 27(1), 41-49. Xiang, Y. T., Weng, Y. Z., Leung, C. M., Tang, W. K., Lai, K. Y., & Ungvari, G. S. (2009). Prevalence and correlates of insomnia and its impact on quality of life in Chinese schizophrenia patients. Sleep, 32(1), 105-109.

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Cláudia Maria Messias1 | Geilsa Soraia Valente Cavalcanti2 | Elaine Antunes Cortez3 |Carlos Alberto da Cruz Sequeira4

Doutora Professora Auxiliar Universidade Castelo Branco. UCB Rua: Gustavo Sampaio nº 172 Apt:401 Leme. 2201010 Rio de Janeiro. Brasil.email.cmmessias@hotmail.com 2 Doutora Professora Adjunto IV Departamento de Administração em Enfermagem Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa. Rua Dr. Celestino – 74 Centro 24020091 - Niterói, RJ – Brasil. geilsavalente@yahoo.com. 3 Doutora Professora Adjunta Departamento de Administração em Enfermagem Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa. Rua Doutor Celestino, 74Centro 24020-091 - Niterói, RJ – Brasil. geilsavalente@yahoo.com.br 1

Doutor e Coordenador Escola de Enfermagem do Porto · Saúde mental e psiquiatria e gestão de sinais e sintomas Portugal · Porto - Diretor de Pesquisa - NursID: Desenvolvimento de Inovação em Enfermagem - Centro de pesquisa em tecnologia e serviços de saúde Escola Superior de Enfermagem do Porto · centro de pesquisa em tecnologia e serviços de saúde Portugal · Porto 4

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Resumo Apesar dos fenômenos da saúde mental estarem em acessão, na questão central para os trabalhadores na atualidade, faltam estratégias para a integração dessa temática nas ações de vigilância em saúde do trabalhador. Considerou-se que o presente trabalho assume um caráter relevante, por buscar preencher uma lacuna na literatura da área de prevenção de agravos da saúde mental. Os objetivos foram identificar a produção científica sobre as intervenções para saúde mental do docente de ensino superior de enfermagem no período entre 2005 e 2015 e Descrever a produção científica identificada de acordo com: o número de artigos publicados; ano; periódico em que foi publicado; delineamento do estudo; temática abordada e descritores usados. Trata-se de revisão bibliométrica da literatura. Para a seleção dos artigos foram utilizadas as bases de dados lilacs (literatura latinoamericana e do caribe em ciências da saúde), medline (medical literature analysis and retrieval sistem on-line), Bdenf (base de dados de enfermagem) e cinahl (cumulative index to nursing and allied health literature). Os critérios de inclusão dos artigos foram: artigos publicados em português, inglês e espanhol com disponibilidade on-line na íntegra; publicados no período compreendido entre janeiro de 2005 e janeiro de 2015; os termos controlados utilizados foram: ensino superior, enfermagem, saúde mental, docente. Os resultados identificaram 98 artigos e selecionados 20, a partir da leitura dos estudos na íntegra, sendo excluídos os estudos duplicados e aqueles que não atendiam aos critérios de inclusão. Quanto aos periódicos, foram identificados 06, sendo 04 específicos de enfermagem, quatro da área de saúde geral e dois voltados para a área de psicologia. os artigos analisados neste estudo deixam claro que as condições de trabalho, a precarização do ensino e a percepção que o professor tem sobre sua realidade profissional, têm relação direta com sua saúde. No intuito de investigar propostas de intervenção com cunho preventivo, vemos a prática distante das diretrizes teóricas. os resultados encontrados permitiram caracterizar a produção científica no contexto dos últimos dez anos, sendo possível identificar o quantitativo, distribuição, temáticas, delineamentos, autores, evidenciando uma tendência a grande expansão. concluímos que os estudos aqui apresentados contribuíram para apontar caminhos e direcionar ações na tentativa de desenvolver estratégias/intervenções o nos trabalhadores e auxiliar o indivíduo a desenvolver manobras prevenção de enfrentamento da doença, minimizando o sofrimento e colaborando com sua qualidade de vida e saúde mental. descritores :saúde mental; enfermagem; docentes; intervenção

Abstract Even though the phenomena of mental health are in access, in the central issue for the workers at the present time, there are no strategies for the integration of this theme in the health surveillance actions of the worker. It was considered that the present work assumes a relevant character, as it seeks to fill a gap in the literature on the area of prevention of mental health disorders. the objectives were to identify the scientific production on the Viana do Castelo, Novembro de 2016


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interventions for mental health of the teaching staff of nursing higher education in the period between 2005 and 2015. To describe the scientific production identified according to: the number of articles published; year; periodical in which it was published; study design; thematic approach and descriptors used. this is a bibliometric review of the literature. The Lilacs (latin american and caribbean literature in health sciences), Medline (medical literature analysis and retrieval system online), Bdenf (nursing database) and Cinahl ( cumulative index to nursing and allied health literature). the criteria for inclusion of the articles were: articles published in portuguese, english and spanish with online availability in full; published in the period between January 2005 and January 2015; the controlled terms used were: higher education, nursing, mental health, teacher. the results identified 98 articles and selected 20, from the reading of the studies in full, being excluded the duplicate studies and those that did not meet the inclusion criteria. as for the journals, 06 were identified, of which 04 were specific to nursing, four from the general health area and two focused on the area of psychology. The articles analyzed in this study make it clear that working conditions, the precariousness of teaching and the teacher's perception of their professional reality are directly related to their health. In order to investigate proposals for preventive intervention, we see the practice far from the theoretical guidelines. The results allowed to characterize the scientific production in the context of the last ten years, being possible to identify the quantitative, distribution, thematic, delineations, authors, evidencing a tendency to great expansion. we conclude that the studies presented here have contributed to point out ways and direct actions in the attempt to develop strategies / interventions o the workers and help the individual to develop maneuvers prevention of coping with the disease, minimizing suffering and collaborating with their quality of life and mental health. keywords: mental health; nursing; teachers; intervention

Resumen A pesar de los fenómenos de salud mental están en la adhesión, la cuestión central para los trabajadores en la actualidad, la falta de estrategias para la integración de este tema en las acciones de vigilancia de la salud ocupacional. Se consideró que este estudio da un carácter importante, por tratar de llenar un vacío en la literatura para la prevención de enfermedades de salud mental. Los objetivos fueron identificar la literatura científica sobre las intervenciones para la enseñanza de la salud mental de enfermería la educación superior entre 2005 y 2015. describe la producción científica identificada de acuerdo con: el número de artículos publicados; año; revista que se publicó; el diseño del estudio; tema tratado y se utiliza descriptores. es opinión bibliométrico de la literatura. para la selección de los elementos que utilizamos las bases de datos lilacs (américa latina y el caribe ciencias de la salud), medline (análisis de la literatura médica y recuperación en línea sistem), bdenf (base de datos de enfermería) y cinahl (cumulative index de enfermería y afines de la bibliografía de salud). Los criterios de inclusión fueron los artículos:

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artículos publicados en portugués, inglés y español con disponibilidad en línea en su totalidad; publicado en el período comprendido entre enero de 2005 y enero de 2015; términos controlados utilizados fueron: la educación superior, enfermería, salud mental, la enseñanza. Los resultados identificaron 98 artículos y se seleccionaron 20 de la lectura de los estudios en su totalidad, se excluyeron los estudios duplicados y los que no cumplían con los criterios de inclusión. en cuanto a publicaciones periódicas, 06 fueron identificados, 04 de enfermería específicos, cuatro de la salud general y dos hacia el área de psicología. los artículos analizados en este estudio ponen de manifiesto que las condiciones de trabajo, la precariedad de la enseñanza y la percepción de que el maestro tiene en su realidad profesional, están directamente relacionados con su salud. Con el fin de investigar las propuestas de intervención con carácter preventivo, vemos la práctica distante de directrices teóricas. Los resultados permitieron caracterizar la producción científica en el contexto de los últimos diez años, y pueden identificar la cantidad, distribución, temas, diseños, autores, mostrando una tendencia en auge. llegamos a la conclusión de que los estudios presentados aquí han contribuido a señalar diversos modos y acciones directas en tratar de desarrollar estrategias / las intervenciones sobre los trabajadores y ayudar al individuo a desarrollar la enfermedad de afrontamiento maniobras de prevención, reduciendo al mínimo el sufrimiento y colaborando con su calidad de vida y la salud mental. palabras clave: salud mental; enfermería; profesores; intervención.

Introdução O imaginário popular o fazer docente, é visto mais como uma vocação, uma missão a ser desempenhada, do que propriamente uma profissão. Assim sendo, a remuneração do educador, carrega consigo um atributo que se assemelha mais a uma “ajuda de custo” do que propriamente o pagamento pelas atividades desenvolvidas (Carvalho,2014). Se por um lado o professor é visto como desempenhando uma atividade vocacional, por outro perdeu sua autonomia, tendo que se submeter a dispositivos, métodos e normas dos quais não participou para seu estabelecimento e muitas vezes não concorda. O cotidiano escolar também exige questões de cunho burocrático como o preenchimento de relatório de atividades, planos de aula, cadernetas de frequência e notas, reuniões pedagógicas, orientações, pesquisa e extensão, que tomam um tempo considerável e não auferem retorno (BenevidesPereira,2012). Em estudo de Carloto e Câmara (2010) com 101 docentes da rede pública estadual da cidade de Maringá – PR utilizando também o MBI, foram encontrados valores acima da média para 42,5% dos educadores com exaustão emocional, 36,5% com reduzida realização pessoal em suas atividades ocupacionais, enquanto que 31,7% apresentavam desumanização.

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Atualmente o mercado educacional apresentou nas últimas décadas crescimento, principalmente entre as instituições particulares/privadas proporcionando uma disputa desse mercado entre os docentes, que necessitam estarem atualizados com os temas de sua disciplina e acumulando cada vez mais funções, além de terem que concorrer com a grande rapidez das novas informações divulgadas pela internet e outros meios de comunicação. As principais mudanças ocorridas no cenário educacional atual relacionam-se à redução da amplitude de sua atuação docente, isto é, tarefas de alto nível são transformadas em rotinas, exigindo do docente a submissão à um conjunto de aspectos burocráticos. O docente possui atualmente menos tempo para executar seu trabalho, menos tempo para atualização profissional, lazer, convívio social e reduzidas oportunidades de trabalho criativo (Leão, 2014). Neste sentido as análises sobre as tendências e configurações do trabalho contemporâneo apontam situações importantes de serem refletidas quando se pensa a vigilância e suas interfaces com as problemáticas da saúde mental dos docentes. Com a incorporação da informatização e das novas tecnologias tem intensificado as pressões psicológicas, pois elas demandam maior vigilância, atenção e disponibilidade dos trabalhadores docentes. Paralelamente, percebe-se o aumento da vigilância e controle sobre os trabalhadores, seus rendimentos e performance via dispositivos digitais e tecnologias da informação (Pena,2011). Apesar dos fenômenos da saúde mental estarem em acessão, na questão central para os trabalhadores na atualidade, faltam estratégias para a integração dessa temática nas ações de vigilância em saúde do trabalhador. Ainda são incipientes as diretrizes institucionais indutoras de atuações que vão além da atenção aos agravos, da notificação compulsória de transtornos mentais relacionados ao trabalho e de encaminhamentos para especialistas em clínicas de psicologia e psiquiatria. Convém ressaltar ainda que os programas convencionais de saúde e segurança no trabalho, em geral, estejam voltados para lidar com os riscos físicos, químicos, biológicos ou ergonômicos nos ambientais de trabalho, mas não oferecem alternativas de intervenções quanto às relações entre a organização do trabalho e as diversas manifestações de desconfortos no que se refere a saúde mental (Moreno,et al 2011) Considera-se que o presente trabalho assume um caráter relevante, por buscar preencher uma lacuna na literatura da área de prevenção de agravos da saúde mental, além de possibilitar debate acerca do processo de intervenção em saúde e seus desafios, favorecendo a construção de novos saberes.

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Objetivos • Identificar a produção científica sobre as intervenções para saúde mental do docente de ensino superior de enfermagem no período entre 2005 e 2015. • Descrever a produção científica identificada de acordo com: o número de artigos publicados; ano; periódico em que foi publicado; delineamento do estudo; temática abordada e descritores usados.

Metodologia Trata-se de revisão bibliométrica da literatura. A bibliometria tem como objetivo analisar quantitativamente o processo de publicação científica ou técnica em determinada área de conhecimento e, assim, permitir o desenvolvimento de indicadores confiáveis.11 Para a seleção dos artigos foram utilizadas as bases de dados LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), MEDLINE (Medical Literature Analysis and Retrieval Sistem on-line), BDENF (Base de Dados de Enfermagem) e CINAHL (Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature). Os critérios de inclusão dos artigos foram: artigos publicados em Português, inglês e espanhol com disponibilidade on-line na íntegra; publicados no período compreendido entre janeiro de 2005 e janeiro de 2015; e estudos que discorressem sobre artigos que retratassem procedimentos, intervenções ou diretrizes a saúde mental do docente do ensino superior de enfermagem. A busca foi realizada pelo acesso on-line nas bases de dados selecionadas, de forma independente, por dois revisores. Os termos controlados utilizados foram:

ensino

superior,

Enfermagem,

saúde

mental,

docente.

Para

organização da amostra de estudos, foi elaborada uma planilha no programa Microsoft Office Excell.

Resultados Foram identificados 98 artigos e selecionados 20, a partir da leitura dos estudos na íntegra, sendo excluídos os estudos duplicados e aqueles que não atendiam aos critérios de inclusão. Quanto aos periódicos, foram identificados 06, sendo 04 específicos de Enfermagem, quatro da área de saúde geral e dois voltados para a área de psicologia.

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VII Congresso Internacional ASPESM

De 2006 a 2011 e no ano de 2013, observou-se maior número de publicações relacionadas a saúde mental do trabalhador do ensino superior, sendo: 5% em 2006, 5% em 2008, 15% em 2009, % em 2010, 5% em 2011, 10% em 2012, 25% em 2013 e 5% em 2014. A distribuição de artigos foi maior nos seguintes periódicos: Revista Brasileira de Enfermagem - REBEN (10%), Revista da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo - REEUSP (15%) e Revista Latino-Americana de Enfermagem - RLAE (20%). Embora tenha sido identificado um maior número de publicações nestes três periódicos, observou-se um aumento progressivo de publicações sobre saúde mental do trabalhador nos demais periódicos consultados da área específica de saúde mental (Tabela 1).

Tabela 1: Distribuição da produção acerca da saúde mental do docente do ensino superior segundo periódico e ano de publicação. Rio de janeiro, Brasil 2016. Ano

200 5

200 6

200 7

200 8

200 9

201 0

Revista Brasileira de Enfermag em

-

-

-

-

2

-

Revista da Escola de Enfermag em da USP

-

-

-

-

-

-

Revista Latino American a de Enfermag em

-

-

-

-

-

Medline

-

1

-

1

Cinahal

-

-

-

Revista Gaúcha de Enfermag em

-

-

-

-

Periódico

Revista Mineira de

201 1

201 2

201 3

201 4

201 5

Tot al

-

-

-

-

2

-

1

2

-

-

3

2

-

-

2

-

-

4

-

-

-

-

-

1

-

3

-

-

-

1

-

-

-

-

1

-

-

-

-

-

1

-

-

-

1

-

-

1

-

1

-

-

-

2

-

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VII Congresso Internacional ASPESM

Enfermag em

Cogitare de Enfermag em Total

-

-

-

1

-

-

-

-

1

-

2

1

-

1

2

2

1

2

5

1

0

20

Quanto ao delineamento dos estudos, a maioria dos autores utilizou uma abordagem qualitativa (79%), seguida da quantitativa (14.5%) e 6,5% uma abordagem mista. Quanto ao tipo de publicação 12 (60%) eram constituídos de artigos originais, sendo destes 07 (35%) eram estudos descritivos e apenas 01 (5%) estudo de intervenção. Com relação às temáticas abordadas nos estudos destacaram-se os artigos que abordaram o processo condições do trabalho docente (30%), trabalho docente (30%) Vigilância em saúde mental do trabalhador (15%) e Riscos ocupacionais e psicossociais do docente (15%), como mostram os dados da Tabela 2. Tabela 2: Distribuição da produção acerca da saúde mental do docente do ensino superior segundo a temática abordada. Rio de Janeiro, Brasil 2016

Temática/assunto abordado

Número de artigos

%

6

30%

Condições de Trabalho do docente Trabalho docente

6

30%

Interdisciplinaridade favorecendo a saúde do trabalhador

1

5%

Vigilância em saúde mental do trabalhador

3

15%

Impacto com uso de intervenção na saúde do trabalhador

1

Riscos ocupacionais e psicossociais do docente

3

Total

15%

20

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5%

100


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Tabela:3 Distribuição das palavras-chaves utilizadas para indexação dos estudos que abordaram a prática de intervenção na saúde mental do docente do ensino superior. Rio de janeiro, Brasil,2016

Palavras-Chave

n: 20

intervenção/ saúde mental/ docente, ensino superior/ enfermagem/ trabalhador/professor/ enfrentamento,

estratégias/

02/03 01/01 02/03/01

intervenção na crise/ saúde do trabalhador/ educadores/saúde mental professor universitário/ enfermagem/outros.

01/01 02/01 01/01

As principais palavras-chave pelas quais os estudos

indexados incluíram:

intervenção, saúde mental, docente, professor, ensino, ensino superior, intervenção na crise, enfermagem, aquelas citadas somente uma vez foram agrupadas em outros.

Discussão Inicialmente, observou-se que poucos artigos analisados explicitam relações entre seus achados com o uso de intervenções ou diretrizes para a saúde mental do docente do ensino superior , tão pouco do docente de enfermagem. Para chegar a essas relações, neste estudo, foi preciso levar em conta conteúdos implícitos ou idéias subjacentes aos conteúdos explícitos do corpus analítico.

Evidenciamos que as perspectivas teóricas e as práticas sanitárias em saúde mental no país são ainda bastante limitadas e há muito que se avançar nesse

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sentido. Seria necessário incorporar uma multiplicidade de conceitos e métodos das abordagens teóricas para fundamentar as práticas cotidianas dos serviços públicos do trabalhador de saúde. Grande parte das ações de atenção, prevenção, recuperação e promoção em torno da saúde mental ainda são protagonizadas por atores sociais que permanecem produzindo ações que permeiam o reconhecimento da patologia e concomitante o uso da ação curativa (Pena,2011).

O Movimento da Reforma Psiquiátrica Brasileira favoreceu a expressão de uma maior maturidade teórica e política que transcende a busca de soluções exclusivamente técnicas ou administrativas, que propõem que se trabalhem, num único momento, as questões de âmbito teórico, político, cultural e social do indivíduo (Freitas e Cruz,2010) Ressaltou-se nos artigos que a eficácia das intervenções, ainda estão no combate a doença estabelecendo-se uma errônea resolutividade. As ações preventivas devem ser vistas como viáveis, sendo o evento da saúde mental ainda estigmatizado e considerado unicamente como responsabilidade individual e um estreito limite entre o relacionamento profissional-usuário, devendo começar a ser entendido como um problema da relação indivíduo processo de trabalho e organização. Consideramos que a prevenção em saúde mental deve estar associada à idéia de

antecipar

aspectos

que

influenciam

o

cotidiano

das

pessoas

(Carvalho,2014).

A abordagem dos artigos ressaltaram algumas questões, como o trabalho docente e as condições deste trabalho, abrangem a categoria docente como é uma das mais expostas e exigidas dentre as categorias profissionais, sofrendo críticas e cobranças da sociedade

Neste sentido o sistema educacional vem enfrentando nos últimos 30 anos uma crise sem precedentes, com os professores reivindicando respeito e condições mais dignas de trabalho. Entretanto, exige-se desses profissionais boa qualificação, qualidade de ensino, contínua atualização de conhecimento, sem que lhes sejam dados subsídios para isso; na maioria das vezes o

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professor faz investimentos com recursos próprios para se manter qualificado (Bernardo et al,2011)

Os artigos analisados neste estudo deixam claro que as condições de trabalho, a precarização do ensino e a percepção que o professor tem sobre sua realidade profissional, têm relação direta com sua saúde. No intuito de investigar propostas de intervenção com cunho preventivo, vemos a prática distante das diretrizes teóricas. Na maioria dos estudos com delineamento sistematizados constatou-se que os autores ainda buscam o desvelar de quem são esses indivíduos, em que cenário estão inseridos, que fatores esse ambiente determina e que riscos tanto ocupacionais e pscissocias afetam esses sujeitos. O recente aumento no número de estudos sobre o adoecimento de docentes, permite a constatação de que por muito tempo, pouca atenção foi dada à saúde de trabalhadores que exercem a importante missão de ensinar. Considerando que

a educação

é o lastro de uma nação, cabe o

questionamento sobre como é possível não haver preocupação nem provisão de boas

condições

de

trabalho,

justamente para

aqueles que são

responsáveis por essa tarefa. Em estudo de Bernardo (2010) o autor corroborou, trazendo descrito nas narrativas de todos os entrevistados indicações que eles tinham consciência da precarização e do desgaste a que estão submetidos (alguns fazendo referência ao (“mercantilismo” ou “produtivismo” acadêmico). Salientamos que além de buscar conhecimentos sobre as relações entre a atividade profissional e o surgimento de doenças, torna-se relevante que sejam feitos estudos que resultem em propostas efetivas de mudanças nas relações de trabalho dos docentes, o que necessariamente perpassa por sua valorização (melhor remuneração), a fim de que não sejam necessárias jornadas duplas ou até triplas (manhã, tarde e noite) de trabalho para garantir o seu sustento e de sua família, evitando o desgaste físico generalizado (Amarante,2013). De igual modo, o pagamento por atividades de atualização dos professores (cursos, treinamentos, palestras, congressos e outros) deve ser promovido pelo governo no caso das escolas públicas, e pelas instituições de ensino no

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caso das escolas particulares, não se restringindo àquelas que têm maior custo para os estudantes. Por isso, o âmbito da saúde mental demanda uma análise cuidadosa dos dados existentes, buscando qualificar essas informações. Há limitações nessas notificações e nos registros dos eventos quanto à relação com o trabalho, ainda mais porque determinadas manifestações de sofrimento não necessariamente são quantificáveis.

Conclusão Os resultados encontrados permitiram caracterizar a produção científica no contexto dos últimos dez anos, sendo possível identificar o quantitativo, distribuição, temáticas, delineamentos, autores, evidenciando uma tendência a grande expansão. Os estudos aqui apresentados contribuíram para apontar caminhos e direcionar ações na tentativa de desenvolver estratégias/intervenções o nos trabalhadores e auxiliar o indivíduo a desenvolver manobras prevenção de enfrentamento da doença, minimizando o sofrimento e colaborando com sua qualidade de vida e saúde mental.

Referências Bibliográficas Carvalho. G M.(2014) Enfermagem do Trabalho. Editora Pedagógica e Universitária. São Paulo. Benevides-Pereira. A. M. T. (2012). Considerações sobre a Síndrome de Burnout e seu impacto no ensino Boletim de Psicologia, Vol. LXII, Nº 137: 155-168. São Paulo. Carlotto. M. S, Câmara, S. G .(2010). Propriedades psicométricas do Maslach Burnout Inventory em uma amostra multifuncional. Estudos de Psicologia; Campinas, São Paulo 24(3); 325-332; julho/ setembro. Leão. L. H. C (2014).

Vigilância em saúde mental do trabalhador:

subsídios para a construção de estratégias de intervenção. 2014.Tese de Doutoramento.

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Pena. P. G. L.(2011) A exploração do corpo no trabalho ao longo da história. In: Vasconcellos.

L. C. F, Oliveira. M. H. Barros. (Org.).

Saúde, Trabalho e Direito. 1ed. Rio de Janeiro: Editora: EDUCAM, v. 1, p. 85-123. Moreno.F.N,

Gil.G.P,

Haddad.M.C.L,Vannuchil.M.T.O

Estratégias e Intervenções no

Enfrentamento

(2011).

da Sindrome de

Burnout. Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2011 jan/mar; 19(1):1405. Freitas. R.G. Cruz, R.M (2010). Condições de trabalho docente. XXVIII Encontro Nacional

de

Engenharia de Produção.ABREPO.2010.

Salvador. Bahia. Bernardo.M. H, Garbin. A.C (2011). A atenção à saúde mental relacionada ao trabalho no SUS: desafios e possibilidades. Rev. Brasileira de Saúde Ocupacional. vol.36, n.123, pp. 103-117. Bernardo. M. H. (2010). Produtivismo e precariedade subjetiva na universidade pública: o desgaste mental dos docentes. Psicologia & Sociedade; 26(n. spe.), 129-139. Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas/São Paulo, Brasil Amarante, P (2013). Saúde mental e atenção psicossocial. Rio de Janeiro, Ed. Fiocruz,3º edição.

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Carlos Melo-Dias1 | Patrícia A. H. F. Semedo2

1

PhD; Professor-Adjunto; Especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica;

Investigador responsável do Projeto PBE-MENTAL [UICISA-E]; Investigador no Portugal Centre for Evidence Based Practice: A JBI Centre of Excellence (PCEBP). Escola Superior de Enfermagem de Coimbra. Rua 5 de Outubro (Pólo B), gab. 6, Apartado 7001. 3046-851 Coimbra, Tel: 239802850. cmelodias@esenfc.pt MSc; Especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica; Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (CHUC); Praceta Prof. Mota Pinto, 3000-075 Coimbra. patyhortasemedo@gmail.com 2

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Resumo Contexto O uso do humor pode desenvolver as competências sociais e as relações interpessoais, contribuindo para a melhoria do funcionamento psicossocial dos doentes, tendo assim impacto positivo na saúde. Nos sentimentos depressivos, o humor pode ajudar a lidar com as desilusões, perdas, desgostos e culpa fortalecendo a autoestima. Objetivo(s) Conhecer qual a compreensão do uso do sentido do humor das pessoas com sintomatologia depressiva? Metodologia Estudo descritivo-correlacional, com 39 pessoas por amostragem de conveniência, com sintomatologia depressiva, internadas em hospital. Utilizou-se o questionário demográfico e a escala multidimensional do sentido de humor, avaliando quatro dimensões: produção e uso social do humor; humor adaptativo; atitude pessoal face ao humor e apreciação do humor. Resultados “humor adaptativo” e a “apreciação do humor” com pontuação mais elevada, enquanto que os mais baixos foram “produção e uso social do humor”, “atitude pessoal face ao humor” e “objeção do uso do humor”. Sem correlação estatisticamente significativa entre a compreensão do uso do sentido de humor e a idade de início e tipo de doença, número de internamentos, nem com os dados demográficos. Conclusões Existe capacidade de apreciação do humor, com disposição positiva, apesar dos sintomas depressivos. As duas dimensões ligeiramente acima, permitem considerar que os doentes ainda retêm considerável uso e compreensão desta estratégia de interação social e de bem-estar e controlo dos fatores de ansiedade, e também têm necessidade de desenvolverem e/ou potenciarem essa compreensão e uso do humor.

Palavras-chave: humor; autoestima; sintomas depressivos; enfermagem.

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Resumen Contexto El uso del humor puede desarrollar las competencias sociales y las relaciones interpersonales, lo que contribuye a la mejora del funcionamiento psicosocial de los pacientes y, como consecuencia, tiene un impacto positivo en la salud. En los sentimientos depresivos, el humor puede ayudar a lidiar con las desilusiones, las pérdidas, los disgustos y la culpa, lo que fortalece la autoestima. Objetivo(s) Conocer cuál es la comprensión del uso del sentido del humor de las personas con sintomatología depresiva. Metodología Estudio descriptivo, correlacional, con 39 personas, por muestra de conveniencia, con sintomatología depresiva internadas en el hospital. Se utilizó el cuestionario y la escala multidimensional del sentido del humor, y se evaluaron cuatro dimensiones: producción y uso social del humor; humor adaptativo; actitud personal frente al humor, y apreciación del humor. Resultados El «humor adaptativo» y la «apreciación del humor» obtuvieron una puntuación más elevada, mientras que los más bajos fueron «producción y uso social del humor», «actitud personal frente al humor» y «objeción del uso del humor». Sin correlación estadísticamente significativa entre la comprensión del uso del sentido del humor y la edad de inicio y el tipo de enfermedad, el número de internamientos ni con los datos demográficos. Conclusiones Existe capacidad de apreciación del humor, con disposición positiva, a pesar de los síntomas depresivos. Las dos dimensiones ligeramente por encima permiten considerar que los pacientes aún retienen un considerable uso y una comprensión de esta estrategia de interacción social y de bienestar y control de los factores de ansiedad, y también tienen necesidad de desarrollar y/o potenciar esa comprensión y uso del humor.

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Descriptores: humor; autoestima; síntomas depresivos; enfermería.

Abstract Background The use of humor can develop social skills and interpersonal relationships, and contribute to improving patients’ psychosocial functioning, thus having a positive impact on their health. Humor can help individuals with depressive feelings to deal with disappointments, losses, sorrows, and guilt by strengthening their selfesteem. Aim To analyze how people with depressive symptoms perceive the use of humor Methods Descriptive, correlational study with a convenience sample of 39 hospital inpatients with depressive symptoms The demographic questionnaire and the multidimensional sense of humor scale were used to assess four dimensions: production and social use of humor; adaptive humor; attitude toward humor; and appreciation of humor. Results The highest scores were found in the dimensions adaptive humor and appreciation of humor, whereas the lowest scores were obtained in the dimensions production and social use of humor, attitude toward humor, and negation to use humor. No statistically significant correlation was found between individuals’ perception and the use of humor and the age of onset and type of disease, the number of hospital admissions, and demographic data. Conclusions Individuals are capable of positively appreciating humor, despite their depressive symptoms. The two dimensions with highest scores suggest that patients still use and understand this strategy of social interaction, wellbeing, and anxiety management and feel the need to further develop and/or enhance this perception and use of humor.

Keywords: Humor; Self-esteem; Depressive Symptoms; Nursing.

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Introdução e Estado da Arte A autoestima está relacionada com o sentido de eficiência pessoal, de autovalorização, e interpretação dos feedbacks externos. A autoestima é definida como o sentimento duradouro e afetivo de valor pessoal,

baseado

em

autoperceções

precisas

(Bednar,

Wells,

&

Peterson,1989) e tem a ver com os aspetos avaliativos que um indivíduo elabora a seu respeito, das suas qualidades ou desempenhos (Serra & Pocinho, 2001). Como conceito dinâmico e adaptativo, desenvolve ao longo do ciclo de vida intrinsecamente relacionada com os comportamentos e estratégias de coping. Os baixos níveis de autoestima baseiam-se no evitamento em detrimento do enfrentamento, e por conseguinte, as autoavaliações tornam-se negativas, podendo conduzir a perturbações de ansiedade social (Bednar, Wells, & Peterson, 1989). A elevada autoestima revela grau de aceitação, segurança e vinculação de si e dos demais, no seu ambiente e nas relações sociais, sendo que as emoções positivas promovem a saúde física, intelectual e psicossocial (Fredrickson, 2001). O uso do humor nos cuidados de enfermagem surge como uma forma de comunicação muito diversificada, permitindo fazer face a uma variedade de situações parecendo estar associado à tolerância, sinceridade, criatividade e sabedoria (José, & Parreira, 2008). A pesquisa dos últimos trinta anos suporta que o humor pode ter um impacto positivo na saúde, com potencial no alívio da dor, reforço da função imunitária, melhoria das emoções positivas, moderação do stresse e melhoria dos processos interpessoais (Gelkopf, 2011), e aumento significativo da autoestima (Garcia et al., 2009). A investigação de Helena José com uma amostra de 19 enfermeiros e 77 doentes dum serviço de cirurgia concluiu que o humor se mostrou vantajoso na promoção da relação pessoal, e no alívio da ansiedade dos doentes. E ainda que o valor do uso do humor na enfermagem ficou patente nos discursos dos doentes e enfermeiros, ganhando relevância enquanto foco de atenção do enfermeiro, com a intencionalidade de originar respostas humanas à nova fase de transição do doente (José, 2009, 2010).

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A investigação experimental de Ko e Youn sobre os efeitos da terapia pelo humor em idosos com depressão, numa amostra de 109 pessoas, realizando uma sessão por semana de terapia pelo humor, num período de 4 semanas, concluiu que a terapia pelo humor está correlacionada com o aumento da autoestima, tendo também um efeito positivo no sono e sobre a depressão (Ko & Youn, 2011). O uso do humor, enquanto intervenção terapêutica, pode contribuir para a resolução de problemas, desenvolver as competências sociais e as relações interpessoais, visando a melhoria do funcionamento psicossocial dos doentes (Del Rio, Blanco & Jurado, 2008).

Metodologia No âmbito do Mestrado em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria realizou-se

um

estudo

de

investigação

descritivo-correlacional,

onde

participaram 39 pessoas selecionadas por amostragem de conveniência, com sintomatologia depressiva, internadas numa unidade de saúde Portuguesa. Utilizou-se o questionário como instrumento de recolha de dados. O enfermeiro colhia os dados demográficos e clínicos e cada doente preenchia a Escala Multidimensional do Sentido de Humor (José & Parreira, 2008), instrumento que avalia os aspetos multidimensionais do sentido de humor, considerando quatro dimensões: produção e uso social do humor; humor adaptativo; atitude pessoal face ao humor e apreciação do humor (a quinta dimensão “objeção do uso do humor” não apresentou valores estatísticos satisfatórios de consistência interna, pelo que não foi considerada na análise). Pretendia-se construir a resposta à questão de investigação principal: Qual a compreensão do uso do sentido de humor na pessoa adulta com sintomas depressivos e internada em serviços de psiquiatria?

Resultados Das várias dimensões que compõem esta escala, apenas duas possuem pontuação média superior ao ponto médio permitido, sendo elas o “humor adaptativo” (=14.03, s=4.64; ponto médio=12) e a “apreciação do humor” (=8.69, s=1.82 ponto médio=6), sendo que nestas duas dimensões houve pelo menos um doente a obter a pontuação máxima (quadro 1)..

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Quadro 1- Estatísticas resumo do Total e das Subescalas da Escala Multidimensional do Sentido de Humor (n= 39) Amplitude

Dimensões e total da escala

possível

Total da EMSH

Ponto médio#

s ̅

Mín.

Máx.

P25

P50

P75

72

Produção e uso social do humor Humor adaptativo Objeção do uso do humor * Atitude pessoal face ao humor *

24 - 120

36

68.90

14.51

33.00

91.00

58.00

72.00

81.00

12 - 60

12

34.26

11.92

12.00

54.00

24.00

37.00

43.00

4 - 20

9

14.03

4.64

12.00

20.00

11.00

15.00

18.00

3 - 15

9

5.69

2.73

3.00

12.00

3.00

5.00

8.00

3 - 15

6

6.39

2.58

3.00

11.00

3.75

7.00

9.00

8.69

1.82

4.00

10.00

8.00

10.00

10.00

2 - 10

Apreciação do humor

* subescala com itens de pontuação invertida. # fórmula de cálculo= [(máx.– mín.)/2] + mín. (Semedo, 2015)

Relativamente à apreciação do humor verifica-se através do percentil 25 que neste ponto de corte (ou seja, os 25% de indivíduos que se obtiveram pontuações mais baixas) a pontuação obtida (8.00) já é superior ao ponto médio (6.00). Com resultados abaixo do ponto médio surgem, para além do score total da escala, as dimensões “produção e uso social do humor” (=34.26, s=11.92; ponto médio=36), “objeção do uso do humor” (=5.69, s=2.73; ponto médio=9) e “atitude pessoal face ao humor” (=6.39, s=2.58; ponto médio=9). A dimensão “produção e uso social do humor” foi a única em que a mínima pontuação possível (12) foi obtida (quadro 1). Não se verificou qualquer correlação estatisticamente significativa entre a compreensão do uso do sentido de humor e as outras variáveis estudadas, nomeadamente a idade, género, habilitações académicas, estado civil, estado profissional atual, idade de início da doença, número de internamentos e o diagnóstico médico.

Conclusão Este estudo fornece dados de que existe capacidade de apreciação do humor, apesar

dos

sintomas

depressivos.

Os

resultados

Viana do Castelo, Novembro de 2016

medianos

para

a


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VII Congresso Internacional ASPESM

compreensão do uso do humor sugerem, no geral, uma disposição positiva para o humor na amostra, sendo na globalidade abaixo do ponto médio permitido pela escala, mas com duas dimensões ligeiramente acima: o “humor adaptativo” e a “apreciação do humor”. A compreensão do uso do sentido de humor não é influenciado pela idade das pessoas internadas com sintomas depressivos, assim como o estado civil, a idade de início da doença, número de internamentos e a sua doença. Podemos afirmar que quanto maior as habilitações académicas dos participantes maior a compreensão do uso do sentido de humor, embora não exista diferença estatisticamente significativa na compreensão do uso do sentido de humor, no Humor adaptativo e no total da EMSH. Permite assim duas considerações, os doentes ainda retêm considerável uso e compreensão desta estratégia de interação social e de bem-estar, e também têm uma necessidade atual e pertinente de desenvolverem e/ou potenciarem essa compreensão e uso do humor, sabendo que lhes irá permitir alcançar mais frequentemente níveis elevados de bem-estar e melhoria das relações interpessoais, bem como contribuir para o controlo dos fatores de ansiedade. Aponta-se como limitação do estudo, o facto do instrumento de colheita de dados não ter pontos de corte que permitam categorizar os indivíduos quanto ao nível de compreensão do uso do sentido de humor, e, também ao número limitado

do

grupo

de

doentes

com

esquizofrenia,

perturbação

da

personalidade e perturbação de ansiedade. Outro dado a acrescentar é o desequilíbrio da amostra quanto ao género, sendo que a maioria é caracterizada por mulheres, sendo necessário uma amostra mais alargada para investigar a tendência de correlação. Seria interessante que os profissionais de saúde utilizassem esta terapia nos cuidados, pelos seus benefícios, baixo custo e ausência de efeitos colaterais, dai que incrementar o uso desta estratégia, terapia, intervenção será potencialmente uma mais-valia no cenário das técnicas psicoterapêuticas e socioterapêuticas dos Enfermeiros Especialistas em Enfermagem de Saúde Mental. Seria interessante, em estudos futuros, determinar que tipos de humor é que são mais poderosos para a mudança e também os resultados favoráveis da

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237

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aplicação da intervenção da terapia do uso do humor em doentes com doença mental. De acordo com a perspetiva de resiliência, um bom sentido de humor pode acrescentar um grau de riqueza e plenitude à vida, incluindo maior prazer, na vivência positiva de experiências, maiores emoções positivas, obtendo uma visão mais positiva de si mesmo e maior bem-estar psicológico.

Referências Bibliográficas Bednar, R., Wells, M. & Peterson, R. (1989). Self-esteem: paradoxes in clinical theory and practice. Psychological Association, 1-16. Del Rio, M., Blanco, B. & Jurado, A. (2008). Aplicación terapêutica del humor en personas com enfermedad mental grave: grupo de mejora del sentido del humor. 9º Congresso Virtual de Psiquiatria. Fredrickson, B. (2001). The role of positive emotions in positive psychology: the broaden-and-build theory of positive emotions. American Psychologist, 56 (3), 218-226. Garcia, A., Fernández, E., Liébana, C., Vázquez, A. M., Castro, M. & López, I. (2009). La risoterapia como intervención enfermera eficaz para mejorar la autoestima. Consejo de Enfermería de la Comunidad Valenciana (CECOVA), Alicante, 2008, Vol. II, pp. 29-32. Gelkopf, M. (2011). The use of humor in serious mental illness: a review. Evidence Based Complementary and Alternative Medicine, 2011, 1-8. José, H. (2009). Humor na esfera de competências dos enfermeiros. Revista do SNESuperior, 32, 38-44. José, H. (2010). Resposta humana ao humor: humor como resposta humana. Lisboa: Lusociência. José, H., e Parreira, P. (2008). Adaptação para Português da Escala Multidimensional do Sentido de Humor (MSHS). Referência II, 6, 7-18. Ko, H.J. & Youn, C.H. (2011) Effects of laughter therapy on depression, cognition and sleep among the community-dwelling elderly. Geriatrics Gerontology. Jul, 11(3):267-74. Semedo, P.A.H.F. (2015). A compreensão do uso do sentido de humor na

pessoa

com

sintomas

depressivos. Tese

de

Mestrado

em

Enfermagem de saúde mental e psiquiatria, Escola Superior de

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Enfermagem de Coimbra, Orientador: Professor-Doutor Carlos MeloDias, 21 de Maio, Coimbra, nĂŁo publicada. Serra, A.V., & Pocinho, F. (2001). Autoconceito, coping e ideias suicidas. Psiquiatria ClĂ­nica, 22 (1), 9-21.

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Dorine Moreira1 | Catarina Câmara2 | Carla Melo3 | Luís Ferreira4 | Sónia Novais5

Enfermeira Especialista em Saúde Mental e Psiquiatria; Técnica Superior de Higiene e Segurança no Trabalho; Enfermeira no Hospital do Divino Espirito Santo - Ponta Delgada – Entidade Pública Empresarial; Rua Grotinha 9500-370, Arrifes, Ponta Delgada, Portugal. dorine.gomes@gmail.com 2 Enfermeira Especialista em Saúde Mental e Psiquiatria; Enfermeira na Unidade de Saúde de Ilha de São Miguel- Centro de Saúde de Vila Franca do Campo; A norte do Hospital do Divino Espírito Santo, Grotinha, Ponta Delgada; Portugal. catarina.r.camara@gmail.com 3 Enfermeira Especialista em Saúde Mental e Psiquiatria; Enfermeira no Hospital do Divino Espirito Santo - Ponta Delgada – Entidade Pública Empresarial; Rua Grotinha 9500-370, Arrifes, Ponta Delgada, Portugal. carlapachecomelo@gmail.com 4 Enfermeiro Especialista em Saúde Mental e Psiquiatria; Enfermeiro no Hospital do Divino Espirito Santo - Ponta Delgada – Entidade Pública Empresarial; Rua Grotinha 9500-370, Arrifes, Ponta Delgada, Portugal. luisdiogo.ferreira@hotmail.com 5 Professora na Escola Superior de Enfermagem da Cruz Vermelha Portuguesa de Oliveira de Azeméis; Rua da Cruz Vermelha Cidacos, Apartado 1002, 3720-126 Oliveira de Azeméis; Portugal. Sonianovais.esenfcvpoa@gmail.com 1

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Impacto do Autismo na Família: Revisão Integrativa da Literatura Contexto: conviver com uma pessoa autista tem um impacto significativo na vida dos familiares. Objetivo: identificar quais as dificuldades vivenciadas pela família no cuidado ao autista. Metodologia: recorreu-se à pesquisa em base de dados científicas, nacionais e internacionais. Obteve-se inicialmente um total de 2560 artigos que, após análise segundo os critérios de inclusão resumiu-se a 129 artigos científicos. Após análise crítica dos artigos, e aplicação dos critérios de exclusão, obteve-se 6 artigos científicos. Resultados: da análise da evidência científica e para dar resposta à pergunta de partida, as dificuldades vivenciadas pelos familiares constatadas nos artigos foram agrupadas em 10 domínios: impacto do diagnóstico do autismo na família; adaptação da família ao diagnóstico; alterações emocionais; alterações do quotidiano; alterações conjugais; alterações sociais; conhecimento acerca do autismo; situação económica; educação e preocupações com o futuro. Conclusões: as evidências, neste estudo, demonstram que os familiares de um autista enfrentam diversas dificuldades, sendo o papel dos profissionais de saúde relevante, aquando a intervenção de instruir os familiares de forma a possuírem estratégias adaptativas para lidar com a sua nova realidade. Palavras-chave: transtorno autístico; família; adaptação psicológica.

El impacto del autism en la vida familiar: revisión integradora de la literatura Contexto: vivir con una persona autista tiene un impacto significativo en la vida de los miembros de la familia. Objetivo: identificar qué dificultades experimentadas por la familia en el cuidado de autista. Metodología: recurrido a la investigación sobre la base de los datos científicos, nacionales e internacionales. Inicialmente se obtuvo un total de 2560 artículos que, tras el análisis de acuerdo con los criterios de inclusión sumadas hasta 129 artículos científicos. Después de un análisis crítico de los artículos, y la aplicación de los criterios de exclusión, se obtuvo 6 artículos científicos.

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Resultados: el análisis de la evidencia científica y para responder a la pregunta inicial, las dificultades experimentadas por la familia observaron en los artículos han sido agrupados en 10 áreas: impacto diagnóstico de autismo en la familia; la adaptación familiar para el diagnóstico; los cambios emocionales; los cambios de la vida cotidiana; los cambios maritales; los cambios social; el conocimiento sobre el autismo; situación económica; la educación y la preocupación con el futuro. Conclusiones: la evidencia en este estudio muestran que la familia de los autistas se enfrentan muchas dificultades, por lo que lo papel de los profesionales sanitarios es relevante, para instruir los miembros de la familia con el finalidad de poseer estrategias de adaptación para hacer frente a su nueva realidad. Descriptores: trastorno autístico; familia; adaptación psicológica.

Impact of autism on the family: integrative literature review Background: living with an autistic person has a significant impact on the lives of family members. Aim: to identify difficulties experienced by the family in the care of autistic. Methods: resorted to the research on the basis of scientific, national and international data. Was initially obtained a total of 2560 articles which, after analysis according to the inclusion criteria summed up to 129 scientific articles. After critical analysis of articles, and application of the exclusion criteria, was obtained 6 scientific articles. Results: the analysis of scientific evidence and to respond the initial question, the difficulties experienced by family noted in articles have been grouped into 10 areas: autism diagnosis impact on family; family adaptation to diagnosis; emotional changes; changes of everyday life; marital changes; social change; knowledge about autism; economic situation; education and concerns about the future. conclusions: the evidence in this study show that the family of an autistic face many difficulties, and the role of relevant health professionals, when intervention to instruct family members in order to possess adaptive strategies to cope with their new reality. Keywords: Autistic Disorder; Family; Adaptation Psychological.

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Introdução Rpesm _Impactodoautismonafamília_congresso_2016_poster 64.docx. A nomenclatura do autismo tem vindo a sofrer alterações ao longo dos tempos. O autismo consiste num transtorno de neurodesenvovilmento, que segundo a classificação DSM-5 encontra-se englobado no Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). As suas características essenciais são o défice persistente na comunicação social e sua interação social e padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades (APA, 2014). A família é considerada como um suporte de extrema importância para o autista, para que o mesmo se desenvolva, forme e aprenda a viver em sociedade. A realidade de um autista num seio familiar é de elevado impacto na dinâmica da mesma, fazendo com que se altere o ciclo de vida familiar, conduzindo a uma sobrecarga para os pais (Costa, 2012). Reconhecendo a prevalência do autismo e o seu impacto no seio familiar, desenvolveu-se uma Revisão Integrativa da Literatura, que desse resposta à questão de investigação “Quais as dificuldades vivenciadas pela família no cuidado ao autista?”, com o intuito de tomar conhecimento do estado da arte neste domínio e promover conhecimentos emergentes aos profissionais de saúde.

Metodologia Tendo em consideração os conhecimentos que se pretendiam sintetizar, realizou-se uma Revisão Integrativa da Literatura, que tem como objetivo identificar as dificuldades vivenciadas pela família perante um familiar com autismo. Para melhor organização da problemática, recorreu-se à abordagem PICO (Patien; Intervention; Comparation e Outcome) expressa no Quadro 1. Quadro 2: Abordagem PICO PICO Paciente Intervenção Comparação Outcomes (desfecho)

Familiares de autistas. Impacto do autismo nos familiares. Diferentes sentimentos vivenciados pelos familiares e as alterações do quotidiano.

A pesquisa bibliográfica foi realizada entre janeiro e fevereiro de 2016. Foram selecionados trabalhos publicados entre janeiro de 2011 e Janeiro de 2016 publicados nos motores de busca EBSCOhost; SAGE Publishing; SCIRUS; Elsevier - Science Direct (Freedom Collection); PsychiatryOnline; PubMED; Porta de Pesquisa da BVS; SciELO e MedlinePlus. Foi utilizada a língua inglesa

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como idioma preferencial. Para dar resposta à pergunta de partida identificámos três descritores: Transtorno Autístico (Autistic disorder, Trastorno Autístico); Família (Family, Familia) e Adaptação psicológica (Adaptation psychological, Adaptación Psicológica) validados através dos Descritores em Ciências da Saúde – DeCS (compatível com Medical Subject Headings – MeSH). Utilizou-se a expressão booleana “AND” para conjugar os diferentes descritores. Procedeu-se à seleção dos estudos que respeitassem os critérios explícitos no Quadro 2. Quadro 3: Critérios de Inclusão e Exclusão Critérios de inclusão Estudos publicados entre 2011 e 2016 Estudos Qualitativos e Quantitativos Artigos em Inglês, Espanhol, Francês e Português Artigos de acesso livre Artigos Quantitativo e Artigos Qualitativos

dos artigos Critérios de exclusão Artigos de revisão, teses, livros Direcionados a mais patologias Que não incluam fatores de impacto familiar

No primeiro refinamento foram identificados 2560 artigos. Após aplicação dos critérios de inclusão deteve-se 129 potenciais artigos. Após leitura do título, resumo e aplicação de critérios de exclusão foram excluídos 88 artigos. Procedeu-se à análise integral de 41 artigos científicos. Após leitura integral dos 41 artigos, foram ainda excluídos 25 por inadequação aos critérios de inclusão/exclusão e 10 por serem repetidos. O processo de constituição do corpo documental foi realizado conjuntamente por quatro autores, e por último, em reunião de consenso alargado pelos quatro autores, resultando desse processo a seleção consensual de seis artigos. No Quadro 3, apresentam-se os artigos selecionados para a revisão integrativa da literatura numerados, identificando os seus autores, a data e o título. Quadro 4: Identificação dos Estudos Científicos selecionados Nº Autores Ano Título E1 Nogueira e 2011 A Família com Criança Autista: Apoio de Enfermagem Martins do Rio E2 Segeren & 2014 As Vivências de Mães de Jovens Autistas Françozo E3 Kaufmann 2014 La Familia Atravesada por el Autismo de un Hijo E4 Pozo & Sarriá 2015 Still stressed but feeling better: Well-being in Autism spectrum disorder families as children becomes adults E5 Martins et al 2014 The impact of the diagnosis of autism in parents of children E6 Hall & Graff 2011 The relationships among adaptive behaviors of Children with autism, family support, parenting Stress, and coping

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Resultados Para uma melhor organização da apresentação dos resultados obtidos, optouse por abordar primeiramente os estudos de índole qualitativa, seguidos pelos estudos de índole quantitativa. A descrição dos estudos, bem como os resultados obtidos nos seis artigos triados são apresentados de forma esquemática nos quadros que se seguem. Quadro 5: A Família com Criança Autista: Apoio de Enfermagem Identificação do Estudo: E1 Objetivos Identificar o impacto da família aquando do diagnóstico de autismo, dificuldades de uma família com um membro diagnosticado com autismo, alterações sentidas a nível social e familiar e necessidades de uma família em que um dos seus membros tenha sido diagnosticado com perturbações autistas. Tipo de Estudo Estudo Qualitativo Participantes 1 Participante (mulher de 48 anos, mãe de uma criança autista, com 15 anos. Instrumentos de Entrevistas semiestruturadas. colheita de dados Resultados Sentimentos da mãe: revolta aquando o nascimento; estado de choque e negação aquando o conhecimento da patologia; indignação com falta de informação sobre a doença por parte dos profissionais de saúde; Revolta com o estigma e indiferença da sociedade; Preocupação e frustração com a educação; preocupação e ansiedade face à continuidade dos cuidados após a morte dos cuidadores; aceitação da doença; impotência pela falta de recursos económicos para fazer face a um seguimento especializado e manutenção da qualidade de vida. A mãe refere ainda o desenvolvimento de problemas psiquiátricos, a grande cumplicidade entre os familiares e o autista, os laços afetivos entre irmãos, a implicação na vida conjugal, o afastamento dos amigos e família, a diminuição do envolvimento social, a negligência e desvalorização de queixas por parte dos profissionais de saúde e a necessidade e apoios governamentais, dos profissionais de saúde e de educação. Quadro 6: As Vivências de Mães de Jovens Autistas Identificação do Estudo: E2 Investigar as vivências de mães de jovens autistas; identificar as reações iniciais ao diagnóstico de autismo do filho e as orientações recebidas e as dificuldades encontradas na fase da adolescência do Objetivos filho autista e as expectativas e sentimentos das mães em relação ao futuro do filho autista e conhecer as rotinas diárias do jovem e sua família. Tipo de Estudo Estudo Qualitativo 11 Mães de jovens com o diagnóstico de autismo, com idades Participantes compreendidas entre os 12 e os 25 anos de idade. Instrumentos de Entrevistas semiestruturadas. colheita de dados Mães referem défice de informação aquando o diagnóstico, falta de tempo para si, viverem a vida dos filhos, prejuízo na vida social, escassos recursos financeiros, insegurança para delegação de tarefas a familiares, dificuldade em lidar com as alterações Resultados comportamentais na adolescência (agressividade, agitação, gritos) e com o amadurecimento sexual, dificuldade face ao preconceito, desconhecimento de apoio profissional relativamente à sexualidade e preocupação face à independência dos filhos.

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Quadro 7: La Familia Atravesada por el Autismo de un Hijo Identificação do Estudo: E3 Verificar se a criança com sinais de autismo aumenta a sua predisposição de evitar o contato com as pessoas, pelo modo particular em que os pais e o terapeuta estruturam a qualidade do vínculo que estabelecem com a criança; descrever os efeitos Objetivos causados pelo impacto do conhecimento do diagnóstico de autismo nas crianças e seus pais e verificar a relação existente entre as mudanças subjetivas das crianças e as mudanças dos pais no seu papel de parentalidade. Tipo de Estudo Qualitativo (Estudo de Caso) Participantes 3 Crianças autistas e seus pais Seguimento do tratamento de 3 crianças autistas durante 3 anos. Instrumentos de Grelha de avaliação do processo terapêutico e o Algoritmo David colheita de dados Liberman. Perante o conhecimento da patologia, os pais vivenciam falta de ressonância emocional recíproca, interferência negativa no vínculo, formas miméticas de identificação e o sentimento de culpa. Vivenciam sentimentos de dor e culpa, por não conseguirem Resultados partilhar as vivências dos seus filhos autistas. Assumem sacrifício e preocupação para exercer as suas funções. Também referem sentimentos de desesperança, culpa, desvitalização, solidão, fragilidade e desvalorização. Quadro 8: Still stressed but feeling better: Well-being in Autism spectrum disorder families as children becomes adults Identificação do Estudo: E4 Comparar o bem-estar dos pais de crianças autistas em idade escolar, adolescentes e adultos. Avaliar a relação entre o bemObjetivos estar dos pais com as características dos filhos, apoio social, idade dos pais e a perceção sobre a situação. Tipo de Estudo Estudo Quantitativo 102 Participantes: 51 pais e 51 mães. 46 pais de crianças em idade Amostra escolar; 30 pais de adolescentes e 26 pais de adultos. Questionários. Escalas aplicadas: Behaviour Problems Inventory Variáveis e (BPI); Checklist of suportts for parents of the Handicapped (CSPH); instrumentos de SOC Questionnaire; Parental Stress Index Short Form (PSI-SF) e colheita de dados Childhood Autism Rating Scale (CARS). O bem-estar dos pais tem relação com o estadio de desenvolvimento da criança com autismo. Pais de autistas adultos apresentam menores níveis de ansiedade. Pais de adolescentes Resultados apresentam Scores de depressão mais baixos em comparação aos pais de crianças. Os pais com maior perceção da situação apresentam menores níveis de stress, ansiedade e depressão e maior bem-estar psicológico. Quadro 9: The impact of the diagnosis of autism in parents of children Identificação do Estudo: E5 Avaliar a qualidade de vida de crianças/adolescentes irmãos de autistas; conhecer a perceção/opinião dos irmãos sobre o impacto Objetivos do autismo na família; verificar a associação entre as variáveis sociodemográficas e o impacto do autismo na família e a qualidade de vida dos participantes. Tipo de Estudo Quantitativo, não experimental, descritivo correlacional. 68 adolescentes irmãos de autistas(40 do sexo feminino e 28 do Amostra sexo masculino). Variável dependente: qualidade de vida dos adolescentes. Variáveis Variáveis e independentes: dados sociodemográficos. instrumentos de Escala de Kidscreen. Dimensões da escala: Saúde; Sentimentos; colheita de dados Humor; Auto Perceção; Tempo livre; Família/Ambiente; Questões económicas; Amigos; Ambiente escolar e Provocação.

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Resultados

O autismo afeta principalmente o tempo livre, amigos e ambiente escolar dos irmãos. A preocupação foi o sentimento predominante aquando o conhecimento do autismo através dos pais. As reações predominantes foram a surpresa, revolta, rejeição, tristeza e choque. Referem ainda necessidade frequente de vigilância, necessidade de ajuda constante e compreensão. As meninas expressam mais implicações na vida pessoal do que os rapazes: sentimento de injustiça; compreensão, falta de atenção dos pais e diminuição de socialização.

Quadro 10: The relationships among adaptive behaviors of Children with autism, family support, parenting Stress, and coping Identificação do Estudo: E6 Compreender as relações entre os comportamentos adaptativos das Objetivos crianças autistas, suporte familiar, stress dos pais e estratégias de coping. Tipo de Estudo Quantitativo Amostra 73 pais biológicos (50 mães e 23 pais), uma avó, e um padrasto. Entrevista. Coping Health Inventory for Parents [CHIP]; Family Variáveis e Support Scale [FSS]; Parenting Stress Index-Short Form [PSI-SF]; instrumentos de Vineland Adaptive Behavior Scales, Second Edition [Vineland-II]; colheita de dados Demographic Form. Modelo ABCX Duplo do Stress Familiar Elevados níveis de stress foram relatados quando um cônjuge ou parceiro está ausente na vida dos pais de crianças com autismo. Referem sentimentos de insatisfação sobre o profissionalismo nas Resultados escolas e currículo das mesmas. Quanto menor a função adaptativa da criança autista, maior o stress dos pais, a necessidade de suporte familiar adicional e a necessidade de estratégias de coping eficazes

Discussão Tomando em primeira análise as vivências dos familiares dos autistas expressas nos artigos supra apresentados, consideramos pertinente agrupar as dificuldades vivenciadas pelas famílias em dez domínios distintos, expressos de seguida. No que respeita ao Impacto do Diagnóstico do Autismo na família, perante o diagnóstico, a família sofre um impacto significativo, vivenciando sentimentos e emoções como a tristeza, culpa, angústia, choque, insegurança e medo (Kortmann, 2013). Os resultados corroboram com os mesmos, no entanto o E1 refere negação aquando o conhecimento da patologia, indignação com a falta de informação dos profissionais de saúde sobre a mesma e défice de informação facultada aos familiares durante o diagnóstico. O E5 revela que, os irmãos ao terem conhecimento do diagnóstico por parte dos pais, despoletam preocupação, surpresa, revolta, rejeição, tristeza e choque. Relativamente à Adaptação da Família ao Diagnóstico de Autismo, o E3 demonstra que os pais preocupam-se com o exercício do seu papel como pais, assumem sentimentos de sacrífico, falta de ressonância, interferência negativa no vínculo, sentimento de culpa e solidão, o que corrobora com

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Kortmann (2013), que refere que com o passar do tempo os pais experienciam a adaptação, onde os sentimentos oscilam entre o desespero e o conformismo. Níveis elevados de perceção da doença são considerados como fator de proteção contra o desenvolvimento de stress nos pais, sendo imprescindível a dotação de conhecimentos aos mesmos (Pozo e Sarriá, 2014). O E4 refere que os pais com maior perceção da situação apresentam menores níveis de stress, ansiedade e depressão e maior bem-estar psicológico. Quanto às Alterações Emocionais, no decorrer da convivência com os autistas, os familiares vivenciam diferentes sentimentos, nomeadamente desespero e conformismo (Kortmann, 2013). O E1 refere aceitação da doença, mas também demonstra que se podem desenvolver problemas psiquiátricos, o E2 refere que as mães sentem insegurança para a delegação de tarefas a terceiros, pois apenas as mesmas compreendem os seus filhos, o

E3

faz

referência

a

sentimentos

de

desesperança,

fragilidade,

desvitalização, desvalorização, dor e culpa uma vez que não conseguem partilhar das vivências dos seus filhos. O E4 evidencia que os pais de autistas adultos apresentam menores níveis de ansiedade. Os pais de adolescentes autistas apresentam níveis de depressão mais baixos quando comparativamente com os pais de crianças. Concomitantemente aferem que os pais com maior perceção da situação apresentam menores níveis de stress, ansiedade e depressão, e por consequência, maior bem-estar psicológico. Este achado culmina com o apresentado por Pozo e Sarriá (2014), que salienta que os pais com elevado Sentido de Coerência (SOC) apresentam menos stress do que os pais com menor SOC. O E6 refere ainda que quanto menor a adaptação do autista, maior é o stress apresentado pelos pais. No que concerne às Alterações no Quotidiano, as irmãs participantes do E5 referem diminuição da atenção dos pais facultada a elas. No E5, os irmãos referem que os irmãos autistas necessitam de maior vigilância, ajuda constante e compreensão e as irmãs expressam mais implicações a nível pessoal, referindo sentimentos de injustiça e falta de compreensão. Estes dados vão ao encontro, em parte, do exposto por Fernandes (2010), que refere no seu estudo a uma família com uma criança autista que os pais ficam muitas vezes absorvidos pelos cuidados às crianças autistas, levando-os a

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negligenciar os outros filhos, despoletando neles sentimento de tristeza que não manifestam. Relativamente às Alterações conjugais, os pais referem que o facto de terem filhos autistas têm interferência, segundo o E1. O mesmo é salientado no estudo de Macedo (2014), que afere a necessidade do casal no que respeita ao tempo para os mesmos, para responder a todas as tarefas e solicitações e pelo E6 onde são relatados níveis de stress no progenitor que coabita com o autista, em situação de monoparentalidade. Ainda no E2, as mães referem viver a vida dos filhos autistas, resultando numa falta de tempo para si próprias. No que respeita às Alterações Sociais, Fernandes (2010) e Macedo (2014), nos seus estudos, referem que as pessoas próximas dos pais apresentam reações de estigma, que resultam em atitudes como o medo, insegurança, afastamento ou condescendência face à patologia. Corroborando, no E1 é referido que os autistas provocam alterações na dinâmica familiar, nomeadamente o afastamento dos amigos e familiares, por outro lado referem existir grande cumplicidade entre os familiares e o autista, a salientar os laços afetivos entre os irmãos. Nos E1 e E2, é referida a diminuição do envolvimento social e revolta com o estigma e indiferença social e dificuldade face ao estigma, respetivamente. A convivência com um irmão autista pode acarretar diversas alterações e dificuldades em termos de cognição,

ambiente

escolar,

emoções

e

socialização (Fernandes, 2010). O E5 demonstra que os irmãos de crianças autistas, de um modo geral, têm alterações a nível do seu tempo livre, ambiente escolar, e amigos e que as irmãs referem mesmo diminuição da socialização. Quanto ao Conhecimento acerca do Autismo, o mesmo autor defende que deve ser facultada informação sobre a patologia, apoios existentes e estratégias adaptativas para os pais de autistas. No E1, as mães referem negligência e desvalorização por parte dos profissionais de saúde e no E2 o desconhecimento

de

apoio

profissional

relativamente

aos

problemas

deparados com a adolescência, nomeadamente a sexualidade. Relativamente à Situação económica familiar, no E1 e E2, os pais referem-se aos recursos financeiros com impotência, pela falta destes para dar seguimento especializado e manutenção da qualidade de vida aos filhos

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autistas, salientando a necessidade de apoios governamentais neste âmbito, o que corrobora com Macedo (2014), que conclui num estudo com crianças com TEA, que as famílias das mesmas deveriam ser comparticipadas pelo estado neste sentido. Já no que diz respeito à Educação, Kortmann (2013) refere que a inclusão social é um desafio para os profissionais no âmbito da educação. Os achados dos estudos analisados convergem com o exposto, no E1 é evidenciada a preocupação e frustração com a educação, havendo necessidade de apoios governamentais. Por fim, as Preocupações com o futuro, em que Fávero e Santos (2005) num estudo acerca do autismo infantil e stress familiar, tal como o E1 e E2 concluem que o futuro dos filhos autistas são suscetíveis de stress para os pais, pois provocam ansiedade e preocupação face à continuidade dos cuidados após morte dos progenitores, pela indeterminação quanto ao futuro e face à independência dos filhos.

Conclusão O conhecer o diagnóstico do autismo implica uma adaptação dos familiares a uma nova realidade. Estudos identificam diferentes sentimentos relatados pelos familiares, nomeadamente desesperança, fragilidade, desvitalização, desvalorização,

angústia,

negação,

raiva,

dor,

ansiedade

e

culpa.

Demonstram que ao longo do ciclo de vida, na adaptação à nova realidade diagnóstica, os pais com maior perceção da doença detêm menores níveis de ansiedade. A educação é uma área de necessidade eminente de investimento e especialização, sendo a inclusão social um desafio para os profissionais. A situação económica das famílias, é muitas vezes precária, não possuindo respostas sociais para fazer face ao acompanhamento especializado que os autistas necessitam. No que respeita ao conhecimento acerca da patologia, conclui-se que maioria dos familiares têm um défice neste campo, pelo que é necessário dotar os profissionais de saúde de conhecimentos e competências para intervir junto destas famílias, dotando-as de capacidades adaptativas objetivando a resolução de problemas.

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Em síntese, dos resultados dos seis artigos analisados, pode-se reter que os familiares, principalmente os pais e irmãos dos autistas vivenciam momentos de elevada tensão, com dificuldades a nível financeiro, passando por momentos difíceis, muitas vezes isolando-se como forma de defesa.

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Maria de Fátima Marques1

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Mestre em Ecologia Humana; Professora Adjunta na Universidade de Évora, Escola

Superior de Enfermagem S. João de Deus, 7000-811 Évora, Portugal, mfm@uevora.pt

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Resumo Contexto: o conceito de psicoeducação abarca uma forma de intervenção estruturada e sistemática, com aplicabilidade no campo da saúde. A lei de saúde mental em 1998, modificou o modelo assistencial de referência; é na comunidade e com a família que se prioriza a prestação de cuidados de saúde mental, o que abre caminho para os cuidados psicoeducacionais, os quais também são da competência dos enfermeiros. Objetivo: compreender a importância da psicoeducação como técnica de intervenção em saúde mental Metodologia: pesquisa de natureza teórica Resultados: a psicoeducação coloca o sujeito no centro de toda a intervenção, considerando-o como um ser em constante desenvolvimento, capaz de descobrir as suas potencialidades e fortalecer a sua autonomia. A intervenção psicoeducacional facilita a compreensão da patologia, promove a reabilitação psicossocial, diminui a sobrecarga na relação familiar, melhora a adesão ao tratamento farmacológico, contribui para a redução das recaídas e reinternamentos e promove hábitos e estilos de vida saudáveis, levando ao desenvolvimento de estratégias de enfrentamento mais eficazes. Como intervenção que é, deve resultar de um processo de avaliação diagnóstica que permita identificar e planear cuidados. Conclusões: a psicoeducação é um instrumento fortíssimo, envolvendo um conjunto de abordagens que visam dotar os doentes e familiares de conhecimentos sobre a doença mental, novas formas de lidar com ela e com os problemas do quotidiano. Favorece a relação intrafamiliar assente numa plataforma de compreensão e comunicação eficaz, permitindo o envolvimento e tomada de decisões no processo terapêutico. Palavras-chave: psicoeducação; doente mental; família.

Resumen Contexto: el concepto de psicoeducación abarca una forma de intervención estructurada con aplicabilidad en el campo de la salud. La ley de salud mental en 1998, modificó el modelo de atención de referencia; la prestación de cuidados de salud mental ocurre fundamentalmente en la comunidad y familia, preparando el camino para la atención psicoeducativa, que es también responsabilidad de la enfermería. Objetivo: comprender la importancia de la psicoeducación como una técnica de intervención en salud mental Metodología: investigación de naturaleza teórica

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Resultados: la psicoeducación pone al sujeto en el centro de toda la acción, considerándolo como un ser en constante desarrollo, capaz de descubrir su potencial y reforzar su autonomía. La intervención psicoeducativa facilita la comprensión de la enfermedad, estimula la rehabilitación psicosocial, reduce la sobrecarga familiar, mejora la adherencia al tratamiento farmacológico, contribuye a la reducción de las recidivas y reinternamentos y promueve hábitos y estilos de vida saludables, llevando al desarrollo de estrategias de afrontamiento más efectivas. Como intervención, resulta de un proceso de evaluación de diagnóstico que permite identificar y planificar los cuidados. Conclusiones: la psicoeducación es un instrumento muy fuerte, que implica una serie de enfoques que tienen como objetivo proporcionar a los pacientes y familia, el conocimiento sobre las enfermedades mentales, las nuevas formas de lidiar con ellas y con los problemas cotidianos. Favorece la relación intrafamiliar basado en una plataforma de comunicación y comprensión eficaz, que permita la participación y toma de decisiones en el proceso terapéutico. Descriptores: psicoeducación; enfermo mental; familia.

Abstract Background: the concept of psychoeducation encompasses a structured and systematic form of intervention, with applicability in the field of healthcare. The mental health act, in 1998, changed the reference model of care; mental healthcare provision must be prioritized in the community and with the family, what clears the way for psychoeducational care, which also falls within the competence of nurses. Aim: to understand the importance of psychoeducation as a technique of intervention in mental health Methods: research of theoretical nature Results: psychoeducation places the individual in the hearth of any intervention, considering him as a continually evolving being, capable of discovering his full potential and strengthen his autonomy. Psychoeducational intervention makes pathology understanding easier, promotes psychosocial rehabilitation, decreases the overload in the family relationship, enhances the adherence to pharmacological treatment, contributes for reducing the number of relapses and rehospitalization cases and promotes healthy habits

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and lifestyles, leading to the development of more effective confronting strategies. As an intervention, it must result from a diagnostic evaluation process that makes it possible to identify and plan care. Conclusions: psychoeducation is a very strong tool, involving a set of approaches that aim to provide patients and their relatives with knowledge on the mental illness, new ways of dealing with it and with everyday problems. It favours familial dynamics based on an effective comprehension and communication platform, enabling the involvement and the decisionmaking in the therapeutic process. Keywords: Psychoeducation; mentally ill; family.

Introdução É com alguma frequência, que na literatura atual sobre intervenção em saúde mental, encontramos o termo psicoeducacional e/ou psicoeducação. No sentido de conhecer a sua raiz etimológica, procurámos a palavra psicoeducacional em vários dicionários da língua portuguesa, em suporte papel e em suporte digital. A busca mostrou-se infrutífera, e, assumindo uma atitude cirúrgica, dissecámos a palavra psicoeducacional em dois termos: psico e educacional. Iniciámos nova busca para as duas palavras isoladamente e de acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa (2014), psico deriva do grego psykhé e significa alma. Assim, o termo psico constitui um elemento de formação de palavras que exprime a ideia de alma, espirito ou mente. Por sua vez, a palavra educacional é formada por sufixação e tem as suas origens no latim educatiõne que significa educação. Fazendo uso dos significados encontrados, juntámos o que tínhamos separado anteriormente e deparámo-nos com um significado que nos pareceu reducionista e pouco claro - psicoeducacional, significava a educação da alma, do espirito ou da mente. Perante um exercício que não podia ser feito, tal como acontece na perspetiva holística, tornou-se claro que a palavra psicoeducacional é muito mais do que a simples soma das palavras que a integram, e que a compreensão do seu significado não pode ser feita a partir da análise dos seus constituintes. A abordagem inicial não permitia compreender a dimensão do mega conceito psicoeducação, porque ele extravasa o simples significado etimológico das palavras, para se constituir numa forma de intervenção estruturada, regrada e sistemática, com aplicabilidade em vários campos, nomeadamente no campo da saúde, embora não seja esse o seu primórdio. Passada esta fase, impunha-se a necessidade de perceber, sucintamente, a origem da psicoeducação e da abordagem psicoeducacional, num contexto temporal e histórico, recorrendo a uma pesquisa de natureza teórica alicerçada em obras publicadas.

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Um olhar retrospetivo Lebon (1997), citando trabalhos de Maurice Capul (educador e psicólogo), publicados em 1996, refere a existência de trechos datados do século XII onde se evidenciam atitudes educativas dirigidas a crianças e adolescentes em situação de risco psicossocial, que em seu entender, permitem distinguir os componentes estruturais do atual modelo de psicoeducação, a partir das premissas de uma filosofia direcionada à educação especializada. Tendo por base o funcionamento de grandes instituições de carater asilar, destinadas a crianças e adolescentes com variadíssimas problemáticas comportamentais, os trechos anteriormente referidos, apesar de se reportarem a práticas socioeducativas alicerçadas em conceções assistencialistas dificilmente individualizadas e marcadas por uma disciplina rígida e por vezes punitiva, deixam transparecer um rasgo de preocupação com uma educação especializada (Bazon, 1997; Lebon, 1997). O interesse pelas crianças e a necessidade de ir ao seu encontro, reconhecendo que aquilo que é aprendido em criança se reveste de sentido para a vida, são aspetos que emergem da análise cuidada dos trechos (Lebon, 1997). A posterior evolução de conhecimentos, resultantes dos trabalhos de psicólogos e educadores como Bruno Bettelheim e Alexander Neil, em ambientes socioeducativos semelhantes, despertaram o interesse de Jeannine Guindon (psicóloga) e Gilles Gendreau (educador), no início dos anos 50, levando-os a utilizar e transformar esses conhecimentos numa nova perspetiva de abordagem, que viria a tornar-se na psicoeducação (Bazon,1997; Lebon,1997). Esta abordagem caraterizava-se por uma integração consistente entre os conhecimentos teóricos e científicos e a sua aplicação no contexto real (Bazon,1997), de tal modo que o educador se assumia “como terapeuta NO e PELO acontecimento quotidiano” (Lebon,1997, p.12), interessando-se com afinco por todos os aspetos da vida da criança e assumindo-se assim como um verdadeiro agente de transformação. O educador é o responsável por conceber um ambiente terapêutico e/ou educacional, e cumpre o seu papel profissional, mantendo uma relação de acompanhamento assente em pressupostos de ajuda, através da vivência partilhada de acontecimentos quotidianos que são experienciados pela criança (Bazon, 1997; Lebon, 1997). Neste contexto de vida tudo tem importância e a intervenção ocorre por trocas verbais e atividades dirigidas, tendo por base o comum, o banal, o habitual do quotidiano, bem como o surpreendente que surge de forma imprevista na relação interpessoal de cada momento. De acordo com os autores anteriormente referidos, a psicoeducação traduzse numa prática revolucionária. Ela coloca o sujeito no centro de toda a intervenção, desenvolvendo com ele uma relação profunda, dirigida fundamentalmente às suas inquietações, dúvidas e sentimentos, considerando-o como um ser em constante desenvolvimento e atualização. Desta forma, o sujeito descobre as suas potencialidades através de um programa de intervenção estruturado, que favorece a sua participação nas tomadas de decisão e estimula a sua autonomia.

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A psicoeducação na psiquiatria Partindo do contexto mais restrito onde se gerou, a abordagem psicoeducacional começou a ser desenvolvida como prática clínica de psiquiatria na década de 70, surgindo em oposição e alternativa às formas de intervenção comumente utilizadas na época, nomeadamente os tratamentos psicanalíticos e os tratamentos que incitavam a expressão de sentimentos (Andrade, 1999; Menezes e Souza, 2012), os quais se revelavam ineficazes quando estava em causa a melhoria da qualidade de vida de doentes mentais graves e crónicos e dos respetivos familiares (Anderson, Reiss & Hogarty, 1986). Esta intromissão da abordagem psicoeducacional no contexto da prática clinica surge timidamente, uma vez que, segundo o paradigma vigente, os doentes e familiares eram vistos como leigos e, portanto, incapazes de entender e participar no processo terapêutico, devendo por isso ser mantidos à distância das decisões no tratamento (Andrade, 1999). De acordo com a mesma autora, o envolvimento afetivo e as dúvidas referentes à etiologia e evolução da doença, representavam um obstáculo à racionalidade exigida no processo terapêutico, razão pela qual os doentes e familiares eram instruídos a seguir as indicações dos profissionais de saúde, e não tinham qualquer participação ativa nem poder de decisão nesse processo. A partir dos anos 80 e fruto de pesquisas clinicas, surgem evidências claras de baixos níveis de ajustamento social e fraca qualidade de vida em doentes bipolares, apesar de estes apresentarem longos períodos de eutimia à custa de estabilizadores de humor, acompanhados por longos períodos sem internamento psiquiátrico. A doença parecia estabilizada e os aspetos biológicos controlados, mas a recuperação psicossocial era insatisfatória. Além disso e quase que em simultâneo, eram também divulgados resultados de pesquisas, salientando elevados índices de não adesão terapêutica e consequentes recaídas, o que sugeria a necessidade de tratamentos alternativos associados à terapêutica farmacológica, bem como a inclusão de doentes e familiares no processo de tratamento, de modo a favorecer a sua implicação direta (Andrade, 1999). Surgia a necessidade de um novo modelo de abordagem, porque o modelo biomédico dominante até então, e com contributos inquestionáveis no avanço da medicina, insinuava alguns sinais de desgaste e desadequação (Borrell-Carrió, Suchman & Epstein, 2004; Engel,1980). Neste contexto desejoso de mudança, desponta o modelo biopsicossocial em saúde, já proposto por George Engel em 1977 (Andrade, 1999), o qual, a partir de uma ancoragem na Teoria dos Sistemas, propõe uma visão holística da saúde e da doença, abarcando os aspetos biológicos, psicológicos e sociais do ser humano, por considerar que estes desempenhavam um papel importante no contexto da doença e na sua perceção (Engel,1980), superando largamente o modelo clássico de causa-efeito, e abrindo caminho para um novo paradigma na medicina (Andrade; 1999; Borrell-Carrió, et al.,2004).

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Assumindo a mudança paradigmática proposta pelo modelo biopsicossocial, a psicoeducação ganha protagonismo e propõe-se como forma de tratamento adjuvante dos psicofármacos, com o intuito de manter os pacientes na comunidade, evitando as recaídas e os internamentos psiquiátricos prolongados, como era comum entre as práticas clinicas da altura (Andrade, 1999).

Definir psicoeducação De um modo pioneiro, em 1980, Anderson e os seus colaboradores descrevem o conceito de psicoeducação como uma terapia comportamental fundamentalmente dirigida para o doente (mas onde os familiares também eram incluídos), a qual era constituída por 4 elementos: informar o doente relativamente à sua doença, treino de solução de problemas, treino de comunicação e treino de auto assertividade, visando a promoção da autogestão do processo de saúde/doença (Anderson et al, 1986). A intervenção psicoeducacional é então definida não como uma terapia, mas como uma técnica que implica a administração sistemática de informações às pessoas doentes e seus familiares, acerca dos sintomas, etiologia, tratamento e evolução da doença, com o objetivo de aumentar o conhecimento de ambos e modificar comportamentos (Figueiredo, Souza, Dell’Áglio e Argimon, 2009). Podendo as definições de psicoeducação ser variadas, de acordo com os objetivos também variados dos autores que a definem, há alicerces comuns que demarcam a matriz da intervenção psicoeducacional, nomeadamente, facilitar o entendimento e compreensão da patologia, potencializar os aspetos positivos do doente, promover a reabilitação psicossocial, diminuir a sobrecarga na relação familiar, melhorar a adesão ao tratamento farmacológico, ampliar o conhecimento sobre os efeitos colaterais da medicação, contribuir para a redução das recaídas e reinternamentos e promover hábitos e estilos de vida saudáveis (Andrade, 1999; Ceretta, Schwalm, Bez Birollo, Dagostim e Quevedo, 2009; Figueiredo et al., 2009; Menezes e Souza, 2012; Santana 2011). De uma forma sintética, podemos afirmar que a psicoeducação é um importante alicerce para o desenvolvimento de estratégias de coping, capacitando o doente e família para lidar com situações stressantes, resultantes do processo de doença e da maneira de o vivenciar e interpretar.

A importância da psicoeducação no paradigma assistencial Em Portugal, com a publicação da Lei de Saúde Mental em 98 (Lei 36/98 de 24 de julho), verificou-se uma alteração do modelo assistencial de referência, priorizando a promoção da prestação de cuidados de saúde mental a nível da comunidade, de forma a manter o doente do seu meio habitual e a facilitar a sua reabilitação e inserção social. A nova Lei corporaliza uma política de saúde mental sedeada em novos paradigmas, que se tornam mais efetivos com o Plano Nacional para a Saúde Mental 2007-2016, o qual enfatiza a posição paradigmática da desinstitucionalização; a integração dos cuidados de saúde Viana do Castelo, Novembro de 2016


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mental a nível dos cuidados primários e dos cuidados continuados; a redução do tempo de internamento e a realização de intervenções na comunidade asseguradas por equipas de saúde mental comunitária (Programa Nacional para a Saúde Mental [PNSM], 2012). Deste modo, a decisão de internamento deve ser tomada como último recurso, e os familiares devem ser considerados parceiros na prestação de cuidados, devendo receber o treino e educação necessários para tal (PNSM, 2012). Ou seja, a família passa a assumir um papel crucial na gestão das necessidades do doente, envolvendose de forma mais interventiva nos cuidados quotidianos (Menezes e Souza, 2012). Esta proposta de postura e organização muda tudo e frequentemente os familiares são confrontados com a necessidade de lidar com uma pessoa doente a quem têm forte ligação afetiva e que manifesta comportamentos e sintomas perturbadores (Gonçalves-Pereira e Sampaio, 2011), enfrentando situações que não dominam porque não têm conhecimentos teóricos nem treino de competências para lidar com elas (Figueiredo et al, 2009; Menezes e Souza, 2012). Paralelamente, e com alguma frequência, a pessoa doente também não conhece a sua doença porque a sente exterior a si. De facto, ninguém consegue lidar com o que não conhece, tal como não pode desenvolver estratégias de enfrentamento se não sabe o que enfrenta. Para complicar a situação, na maioria das vezes o doente não reconhece capacidade ao familiar para o ajudar, ao mesmo tempo que a comunicação entre eles se torna maioritariamente ineficaz e escassa, principalmente quando o tema central é a doença e tudo o que a envolve (Marques e Lopes, 2015). Então, e perante este cenário complexo, estão abertos os caminhos para os cuidados psicoeducacionais, os quais são também da competência dos enfermeiros (Ceretta et al., 2009; Menezes e Souza, 2012) porque se inserem nos domínios da prática de enfermagem ao recaírem nas funções de ajuda e de educação e guia, que Benner preconiza (Lopes, 2006).

A avaliação diagnóstica na psicoeducação Sendo a psicoeducação uma intervenção, é necessário que esta resulte de um processo de avaliação diagnóstica, que permita identificar e planear adequadamente os cuidados psicoeducacionais a realizar. A partir do reconhecimento da experiência do outro (doente e/ou família), bem como da identificação das suas necessidades e potencialidades, com recurso a um processo de avaliação diagnóstica compreensiva, importa o modo como a pessoa experimenta as coisas, as suas vivências, a sua verdade sobre o mundo que se traduz numa realidade subjetiva, em detrimento da realidade objetiva (Abreu, 2011). Para que tal seja possível, é necessário co experienciar, penetrar nas vivências do outro para as compreender, evitando os juízos sobre a verdade da sua realidade (Abreu, 2011). É preciso que o enfermeiro tenha grande disponibilidade e empatia, para estar atento a tudo o que vem do outro e se pode tornar significativo num processo de avaliação diagnóstica, como a linguagem verbal e o seu conteúdo, as expressões faciais, as posturas, os gestos, os pequenos detalhes (Silveira, Siqueira,

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Oliveira, Nishio & Nóbrega, 2013). Para recolher a informação de forma mais consistente e estruturada, visando a compreensão do doente e/ou família, a avaliação diagnóstica deverá orientar-se em três vertentes diferentes, mas complementares: - o que o doente e/ou família sabe e pensa sobre a doença; o que preocupa o doente e/ou família; estratégias e capacidades que o doente e/ou família podem usar (Lopes, 2006). Podendo ser considerada a génese de todo o processo psicoeducacional (Lebon, 1997), porque constitui o ponto de partida, a avaliação diagnóstica encerra em si finalidades diagnósticas e simultaneamente terapêuticas, permitindo que os sujeitos verbalizem as suas dúvidas, medos e preocupações a alguém que se mostra interessado (Lopes, 2006). Por outro lado, permite identificar o conhecimento, as necessidades e as potencialidades dos sujeitos para lidarem com a situação de saúde/doença, o que possibilita planear intervenções psicoeducacionais centradas sobretudo nas forças das pessoas, tendo em conta as suas fraquezas, de modo a fornecer a cada um o poder de agir numa situação problemática (Figueiredo, et al., 2009; Lebon, 1997). As evidências apontam para o facto de que um maior conhecimento e consciência sobre uma doença ou determinada situação de saúde, e as suas implicações na vida do sujeito e na dos que o rodeiam, aumenta a sensação de controlo e leva ao desenvolvimento de estratégias de enfrentamento mais eficazes (Menezes e Souza, 2012; Ponce et al., 2011). A psicoeducação é uma abordagem que coloca o seu enfase na educação e na aprendizagem (Ponce et al. 2011), promovendo o autoconhecimento e auto compreensão, uma vez que, informar sobre as caraterísticas comuns ao transtorno mental que é vivenciado por cada um de forma particular e subjetiva, educa e faz aprender, mas também contribui para aumentar o autoconhecimento do sujeito portador (Menezes e Souza, 2012; Santana, 2011). Além disso, o autoconhecimento é imprescindível, na medida em que permite a autonomia e responsabilidade na tomada de decisões, dando a liberdade ao sujeito de escolher o caminho a seguir, porque aflora à consciência os seus limites e potencialidades (Lemo et al., 2013; Santana, 2011). Podemos assim afirmar que a psicoeducação assume um papel educativo e simultaneamente exploratório (do próprio individuo), desenhando um caminho que vai do conhecimento ao autoconhecimento. Isto permite que o sujeito se torne parceiro ativo em todo o processo de tratamento, e desenvolva novas formas de lidar com a doença mental e com os problemas do quotidiano dela resultantes, o que facilita a reabilitação psicossocial e o bem-estar em vivências futuras (Figueiredo et al., 2009; Lemo et al., 2013; Santana, 2011).

Estratégias de cuidados psicoeducacionais Para que todo este processo tenha êxito, é necessário que a informação veiculada pelo enfermeiro seja clara, de modo a facilitar a aquisição de conhecimentos por parte do doente e/ou família (Figueiredo, 2009).

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Para operacionalizar o planeado, de acordo com a avaliação diagnóstica realizada, as intervenções são variadas dependendo da situação clinica em causa, e os muitos trabalhos disponíveis revelam evidências claras de intervenções psicoeducacionais, principalmente para pessoas com esquizofrenia (Anderson et al.,1986; Bäum et al., 2006), transtorno do humor bipolar (Andrade, 1999; Ceretta et al., 2009; Figueiredo et al., 2009; Lemo et al., 2013; Menezes e Souza, 2012; Mussi, 2012), demência e Alzheimer (Gonçalves-Pereira e Sampaio, 2011; Lopes e Cachioni, 2012; Ponce et al., 2011), e respetivas famílias. Dentro de uma variabilidade com traços comuns, a metodologia utilizada centra-se na abordagem teórico-prática recorrendo a diversificados meios de natureza audiovisual (CDs e DVDs), filmes, manuais, livros de leitura e compreensão fácil, flyers, folders, palestras e contactos telefónicos (Figueiredo et al., 2009; Lemo et al., 2013; Lopes e Cachioni, 2012; Menezes e Souza, 2012). Com o grande objetivo de fazer do doente e/ou família colaboradores ativos e empenhados, parceiros do enfermeiro e outros profissionais de saúde envolvidos, os cuidados psicoeducacionais devem ser limitados no tempo, estruturados, diretivos, centrados no presente, na situação concreta, visando a resolução de problemas identificados (Figueiredo et al., 2009; Lopes e Cachioni, 2012). Cada programa é geralmente constituído por várias sessões, embora se encontrem relatos de programas com uma única sessão e cada sessão tem um programa próprio que deverá ser rigorosamente cumprido e dado a conhecer aos participantes antes do seu início (Lopes e Cachioni, 2012; Menezes e Souza, 2012). O tempo de cada programa é variável e depende dos objetivos a atingir; habitualmente, a sua duração situa-se entre as 8 e as 24 semanas com a realização de uma sessão semanal, num espaço de tempo, que oscila em média entre 1 a 2 horas (Lopes e Cachioni, 2012). As sessões podem ser individuais (com um doente, um familiar ou uma só família) ou em grupo; neste último caso, grupos só com doentes, só com familiares, ou com familiares e doentes em conjunto, dependendo a escolha dos participantes, dos objetivos a atingir com a intervenção. Se o programa psicoeducacional é de natureza individual, as sessões assumem um caráter mais intimista e privado; no entanto, o sujeito ou a família, podem manifestar alguma relutância em expor as suas dúvidas ou dificuldades perante o profissional de saúde, por se sentirem intimidados, ao mesmo tempo que vivem uma sensação de isolamento por não poderem partilhar experiências com outros que vivem situações semelhantes. Na verdade, parece haver alguma concordância entre os autores, baseada em evidências, relativamente aos benefícios das sessões em grupo. O grupo é visto pelos participantes como um espaço protetor e promotor de confiança, que estimula o questionamento e favorece a exposição das vivências acerca da doença (Menezes e Souza, 2012). É um espaço livre de preconceitos, onde o facto de ser portador de doença mental ou viver com uma pessoa que tem uma doença mental, não é estigmatizado. É um lugar de expressão e de encontro com um elevado potencial educativo, onde as trocas são constantes e onde

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cada um aprende a situar-se em relação ao outro, encontrando similitude nas vivências (Lebon, 1997; Menezes e Souza, 2012). Quando o grupo se destina aos familiares (psicoeducação familiar), o foco de atenção centra-se nas necessidades dos cuidadores, tendo em conta a passagem de informação e o trabalhar competências para lidar com a doença do seu familiar (Gonçalves-Pereira e Sampaio, 2011), nomeadamente para monitorizar o curso da doença e alertar os profissionais de saúde das recaídas (Ponce et al., 2011). Para além desta componente pragmática, as sessões de grupo podem ajudar a reduzir a sensação de isolamento familiar, proporcionando uma oportunidade para os membros da família partilharem experiências e encontrarem algum conforto junto de outras famílias com problemas semelhantes aos seus, de modo a construírem uma rede social de apoio (Menezes e Souza, 2012; Ponce et al., 2011). No atual contexto, se a família é o grande suporte da pessoa com alterações da saúde mental, é pertinente e necessário inclui-la como elemento adjuvante no processo de cuidados. Assim sendo, a psicoeducação dirigida à família, permite diminuir os pensamentos e comportamentos disfuncionais, melhorando a sua autoeficácia através do desenvolvimento de estratégias de enfrentamento, que permitam lidar harmoniosamente com a situação de saúde do seu familiar (Lopes e Cachioni, 2012). No caso de sessões de grupo com familiares e doentes em conjunto, a maioria das vezes, o objetivo é melhorar o relacionamento entre eles, assentindo que sejam verbalizadas muitas das emoções contidas e que por circunstâncias várias não foram expressas (Anderson et al, 1986).

Conclusão Com alguma independência face ao tipo de intervenção realizada, a psicoeducação está alicerçada por evidências clinicas claras, ocupando um lugar central nos cuidados de saúde mental e psiquiatria, em parceria com a vertente farmacológica, muitas das vezes indispensável para um funcionamento harmonioso do doente e respetiva família. É possível perceber que a psicoeducação é um instrumento fortíssimo, envolvendo um conjunto de abordagens que visam dotar os doentes e familiares de conhecimentos sobre a doença mental, novas formas de lidar com ela e com os problemas do quotidiano, bem como, favorecer a relação intrafamiliar assente numa plataforma de compreensão e comunicação eficaz, que permita o envolvimento e a tomada de decisões no processo terapêutico. Citando Santana e em jeito de síntese, “a psicoeducação é a democratização das informações que dizem respeito ao próprio individuo” (2011, p.2), cobrindo um direito fundamental dos doentes: o de serem informados sobre a sua doença e a forma de lidar com ela (Ceretta et al., 2009; Figueiredo et al., 2009).

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Nathália de Freitas Costa Fernandes1 | Karlla Rackell Fialho Cunha2 | Allan Jhones Silva Lopes3 | Marciana Fernandes Moll4

Psicóloga; Residente da Equipe Multiprofissional Atenção à Saúde em Rede - Universidade de Uberaba. Rua Vinícius de Morais, 279, Apto. 101 - Bairro Universitário - Cep: 38050-560 Uberaba – MG – Brasil. E-mail: nathaliafcfernandes@gmail.com – Telefone institucional: 3433251700 2 Cirurgiã Dentista; Residente da Equipe Multiprofissional Atenção à Saúde em Rede Universidade de Uberaba. Avenida Nenê Sabino, 1133, Apto. 102 - Bairro Universitário - Cep: 38055-500 - Uberaba – MG – Brasil. E-mail: karlla.rackell@gmail.com - Telefone institucional: 3433251700 3 Farmacêutico; Residente da Equipe Multiprofissional Atenção à Saúde em Rede Universidade de Uberaba. Rua Bernardo Guimarães, 232 – Bairro Estados Unidos. Cep: 38015-150, Uberaba-MG – Brasil. E-mail: allanjslopes@gmail.com - Telefone institucional: 3433251700 4 Enfermeira; Professora Doutora - Universidade de Uberaba. Avenida Nene Sabino, 1801 – Bairro Universitário – Cep: 38055-500 – Uberaba – MG – Brasil. E-mail: mrcna13@yahoo.com.br - Telefone institucional: 3433198926 1

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Resumo O presente estudo teve como objetivo relatar as experiências vivenciadas por residentes da equipe multiprofissional, no desenvolvimento de atividades de psicoeducação em um CAPS AD. Trata-se de um estudo exploratório, fundamentado na abordagem de pesquisa qualitativa. Foram realizados encontros quinzenais durante quatro meses com os usuários do serviço. O grupo era composto por uma média de 25 usuários. Com caráter educativo, utilizou-se de palestras e dinâmicas para abordar diferentes temas relacionados à saúde. Como resultados dessa experiência, constatou-se a importância da atuação interdisciplinar em propostas de psicoeducação. Limitações na estrutura física foram identificadas, além de desafios no manejo

e

condução

do

grupo.

Acredita-se

que

atividades

como

a

desenvolvida vem contribuir para consolidação da proposta de tratamento, cuidado e reinserção social dos usuários do CAPS AD. Palavras-chave:

Educação

em

saúde;

Saúde

mental;

Transtornos

relacionados ao uso de substâncias.

Resumen El presente estudio pretende informar las experiencias vividoa por los residentes del equipo multidisciplinario, en el desarrollo de actividades de psicoeducación en un CAPS AD. Se trata de un estudio exploratorio, basado en el enfoque de investigación cualitativa. Durante cuatro meses se celebraron reuniones quincenales con los usuarios del servicio. El grupo fue compuesto por un promedio de 25 usuarios. Con carácter educativo, se utilizó de palestras y dinámicas para abordaje de diferentes temas relacionados con la salud. Como resultado de esta experiencia, señaló la importancia de propuestas

interdisciplinares

de

la

psicoeducación.

Se

identificaron

limitaciones en la estructura física, así como desafíos en la gestión y la conducta del grupo. Se cree que las actividades desarrolladas pueden contribuir a la consolidación de la propuesta de tratamiento, atención y reinserción social de los usuarios de CAPS AD. Palabras clave: Educación en salud; Salud mental; Trastornos relacionados con el consumo de sustancias.

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Abstract The present study aimed to report the situations, experienced by residents of the multidisciplinary team, in the development of activities of psychoeducation in an AD CAPS. This is an exploratory study, based on qualitative research approach. Fortnightly meetings were held for four months with the service users. The group was composed of an average of 25 users. With educational characteristics, dynamics and seminars were used to address different topics related to health. As a result of this experience, the importance of interdisciplinary proposals of psycho-education were noted. Limitations on physical structure were identified, as well as challenges in the management and conduct of the group. It is believed that activities such as the one developed to comes to contribute to consolidation of the treatment, care and social reintegration proposal of the AD CAPS users. Keywords:

Health

education;

Mental

health;

Substance

use-related

disorders.

Introdução Na atualidade, o modelo de assistência psiquiátrica predominante do Brasil inspirou-se em movimentos que se iniciaram na Europa em meados da década de 70, os quais priorizavam a descontrução do modelo hegemônico (Gonçalves & De Sena, 2001; Pitta, 2011). Diante dessa realidade, novos espaços de cuidados surgiram, dos quais se destacam os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) para atender pessoas com transtornos mentais graves e/ou em uso de crack, álcool e outras drogas. Para seu funcionamento, dispõe de uma equipe multiprofissional e o tratamento é direcionado por um Projeto Terapêutico Individual (Brasil, 2011). O uso prejudicial de álcool e outras drogas é um fenômeno largamente presente no mundo e em todo o território nacional, sendo considerado um problema de saúde pública e um tipo de adoecimento mental. Levantamentos epidemiológicos no Brasil, tem contribuído para uma melhor compreensão do

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uso de substâncias psicoativas pela população e suas repercussões (Alves & Lima, 2013). Estima-se ainda que a prevalência do uso de outras drogas pela população brasileira entre 12 e 65 anos, divide-se em: álcool (12,3%), tabaco (10,1%), maconha (01,2%) e benzodiazepínicos (0,5). O sexo masculino apresenta uso mais intenso e maior dependência de álcool comparado com a mulheres em todas as faixas etárias. Sendo a faixa etária entre 18 e 24 anos a que apresenta maior dependência de álcool, seguida da de 24 e 34 anos (Duarte, Stempliuk & Barroso, 2009). Entre as repercussões do consumo de drogas destaca-se: ocorrência de acidentes, violência, surgimento e agravamento de diferentes doenças, queda no desempenho escolar e laboral, transtornos mentais, além de prejuízos sociais e conflitos familiares (Duarte et al., 2009). Nesse contexto, o Centros de Atenção Psicossocial para dependentes de álcool e/ou drogas (CAPS AD), constitui-se como um importante recurso para o enfrentamento desta problemática, pois nele se proporciona acolhimento, tratamento interdisciplinar, promoção de vínculos e reinserção social (Vargas, Bittencourt, Rocha & Oliveira, 2015). Ao buscar atender as novas práticas em saúde mental e promover a reabilitação psicossocial dos sujeitos, as ações em saúde mental demandam abordagens

terapêuticas

inovadoras

desenvolvidas

por

uma

equipe

profissional com formações distintas para se atingir a integralidade (Xavier & Monteiro, 2013). Considerando a necessidade de inserir profissionais qualificados para atender as necessidades em saúde foram criados, no Brasil, os Programas de Residência Multiprofissional e em Área Profissional da Saúde que constituem uma especialização lato-sensu e objetivam integrar práticas e saberes de diferentes profissões para contribuir na construção de competências compartilhadas (Ceccim, 2010). E para contribuir para a proposta do CAPS AD, profissionais integrantes da residência multiprofissional utilizaram a psicoeducação definida por Campos e Domitti (2007), como um processo de capacitação dos usuários, para busca de maior qualidade de vida, integrando aspectos físicos, mentais, ambientais e sociais, com vistas ao empoderamento das pessoas por meio de novos

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saberes

que

possibilitem

o

aumento

do

autocuidado

e

da

corresponsabilização no tratamento. Diante disso, este estudo tem como objetivo relatar as experiências vivenciadas por residentes da equipe multiprofissional, no desenvolvimento de atividades de psicoeducação em um CAPS AD em uma cidade de Minas Gerais- Brasil.

Metodologia Estudo descritivo advindo de um relato de experiência de abordagem qualitativa que foi desenvolvido em uma cidade com aproximadamente 300 mil habitantes, localizada no interior de Minas Gerais. O CAPS AD que constituiu o cenário da investigação classifica-se como CAPS III (serviço que disponibiliza de acolhimento noturno para as pessoas que requerem deste serviço para a estabilização do quadro resultante do uso prejudicial de álcool e outras drogas). Participantes

Todos os usuários que estavam em tratamento terapêutico nos dias de realização do grupo foram convidados a participar, não havendo recusa quanto a participação. O grupo era composto por uma média de 25 usuários adultos de ambos os sexos e de diferentes faixas etárias. Coleta de Dados

Os residentes da equipe multiprofissional em saúde, composta por uma Psicóloga, uma Dentista e um Farmacêutico realizaram encontros quinzenais, durante quatro meses do ano de 2015, o que totalizou uma carga horária de 40 horas. Realizou-se palestras e dinâmicas para abordar diferentes temas relacionados à saúde coletiva, tais como: Doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, cuidados relacionados à higiene oral, estratégias para o alívio da ansiedade, importância da prática de atividades físicas, cuidados gerais e armazenamento correto dos medicamentos, diabetes, hipertensão e doenças sexualmente transmissíveis. Os encontros foram realizados na própria instituição, em um espaço reservado para reuniões e seguiam um padrão que consistia na apresentação dos coordenadores do grupo e dos novos integrantes, uma vez que era comum a participação destes, após esse momento uma dinâmica relacionada ao tema era realizada, seguida pela apresentação

e

discussão

da

temática.

Adotou-se

uma

postura

horizontalizada, buscando estabelecer trocas e proporcionar a participação

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dos usuários. Utilizou-se do diário de bordo para registrar os encontros e, posteriormente viabilizar a análise dos dados

Análise dos Dados Os dados foram analisados por meio de análise de conteúdo, que constitui um conjunto de técnicas de análise de comunicação visando a sistematização do conteúdo das mensagens efetuando deduções lógicas e justificadas, considerando emissor, contexto e efeitos (Bardin, 1995). Após essa técnica de análise, os dados foram sistematizados e analisados, também por meio da análise temática, na qual foram identificados conteúdos que convergiram para significados semelhantes e foram agrupados em unidades temáticas. Assim, os conteúdos das vivências foram analisados por todos os autores e agrupados em unidades temáticas. Na primeira etapa, todos os autores leram e releram o conteúdo das entrevistas. A seguir, cada pesquisador, separadamente, explorou e organizou os dados em unidades temáticas representando o contexto, significados e interpretação do tema identificado. Este método de análise se fundamentou nas diretrizes que estabelecem as seguintes fases: conhecimento total das informações coletadas, criação de códigos,

estabelecimento

de

possíveis

temas,

revisão

dos

temas

estabelecidos, nomeação definitiva dos temas e redação do texto final (Braun & Clarke, 2006). Considerações Éticas Este estudo foi submetido à análise do Comitê de Ética em Pesquisas da Universidade de Uberaba e foi aprovado pelo parecer

nº 257.490. Posteriormente, todos os participantes

receberam esclarecimentos sobre os objetivos e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, para formalizar que concordavam em participar da investigação.

Resultados e Discussão Psicoeducação Ao compreender o ser humano como um ser biopsicossocial, devem ser propostas intervenções que atendam as necessidades de cada pessoa, afim de beneficiá-la. Ao planejar as temáticas a serem trabalhadas com o grupo

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de usuários do CAPS AD, buscou-se refletir sobre a relevância dos temas para a realidade dos mesmos e de que maneira poderíamos envolvê-los, despertando o interesse para o que seria apresentado. Pensando na Reforma Sanitária Brasileira, vale ressaltar que tal mobilização pautava-se na necessidade de implementar uma estrutura sistemática que atendesse as reais necessidades da população nas questões de saúde, enquanto direito de cidadania. Segundo Campos e Domitti (2007), a educação em saúde pode induzir a mudanças de comportamento, ao ampliar a intervenção do sujeito sobre sua própria realidade, modificando seu contexto de vida. Dessa forma o desenvolvimento de atividades educativas dentro do CAPS AD, foi proposto com o intuito informar e motivar os participantes do grupo, possibilitando a eles olharem para si, observarem e escolherem ações e formas para cuidar da sua própria saúde, seguindo o princípio fundamental do autocuidado, no qual o sujeito se responsabiliza por mudanças que refletem em sua vida e em sua saúde. Para a efetivação de uma prática que contemple a integralidade, é necessário o trabalho em equipe, além do estabelecimento de estratégias didáticas que favoreçam o aprendizado, a troca e a transdisciplinaridade entre os distintos saberes (Machado et al., 2007). A intervenção multiprofissional é algo que fez parte de todas as ações realizadas no decorrer do trabalho. Embora apenas três profissionais residentes estivessem como facilitadores do grupo, o planejamento foi realizado com toda a equipe, o que facilitou a estruturação da metodologia a ser usada. Na prática, observou-se a relevância do saber teórico e prático dos demais membros da equipe, complementando e mostrando as diferentes dimensões do cuidado integral, para promover a saúde individual e coletiva. Pensando a partir do ponto de vista pedagógico de uma Residência Multiprofissional em Saúde, os contextos de ensino e prática não anulam os saberes das diferentes profissões, acredita-se que ocorra o movimento inverso, uma melhor qualificação para as práticas, além da expansão de saberes (Ceccim, 2010).

Desafios Encontrados O primeiro desafio enfrentado pelos residentes foi propor atividades de psicoeducação voltadas para um grupo de dependentes de álcool e outras Viana do Castelo, Novembro de 2016


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drogas, até então desconhecido. O novo gera receio, visto que durante a formação acadêmica, os facilitadores tiveram pouco contato com esse de público e serviço, além de ser profissionais com bagagem teórica diferente. Desse modo, para que pudessem atuar de modo efetivo, se fez necessário descontruir algumas práticas, saberes e técnicas uniprofissionais para dar lugar ao interdisciplinar. Corroborando

para a proposta das residências

multiprofissionais, inserindo os profissionais de diferentes saberes em práticas de ações interdisciplinares no âmbito da saúde; Silva et al. (2007) reforçam o olhar ampliado para as práticas em saúde coletiva, uma vez que profissionais

com

conhecimentos

distintos,

compartilham

saberes,

potencializando intervenções e mudanças significativas nos processos de trabalho. Ao analisar a vivência com esse grupo, identificou-se que estimular a participação dos usuários, foi outro importante desafio encontrado. Uma parte do grupo se mostrava interessada e colaborativa com as atividades e outra parte se mantinha quieta, sonolenta e até mesmo desviando o assunto do tema abordado. Em relação a sonolência infere-se que era justificável, pois o horário que o grupo iniciava suas atividades era análogo ao da administração dos medicamentos. A grande maioria destes medicamentos utilizados no cuidado terapêutico dos pacientes, principalmente os que estavam internados para tratamento, possui como principal efeito a redução das funções do sistema nervoso central, levando ao quadro de sonolência (Diehl, Cordeiro & Laranjeira, 2010; Julien, 2013). Como estratégia para o manejo do sono, os residentes optaram pela realização de alongamentos e dinâmicas de grupo para inserir o tema a ser trabalhado. Desse modo, além da diminuição da sonolência, a inserção do tema se dava de maneira interativa.

Limitações Identificadas Dentre as limitações identificadas, destacaram-se as restrições físicas do local, representadas pela pouca ventilação e iluminação, bem como pelo pequeno espaço para a realização das atividades. O ambiente mantinha um aspecto hospitalar pouco acolhedor, uma vez que o CAPS AD é instalado em uma antiga unidade de saúde. Kantorski et al. (2009) apontam a deficiência Viana do Castelo, Novembro de 2016


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de infraestrutura em vários CAPS, sendo que em alguns locais, há escassez de materiais para o trabalho cotidiano nas oficinas, a ausência de medicamentos e de recursos humanos, recursos que quando em falta comprometem o tratamento do usuário. Em relação às dificuldades relacionadas aos participantes do grupo observouse a falta de informação prévia dos temas trabalhados, cabendo ressaltar que são temas relevantes na área da saúde e amplamente comentado em veículos de comunicação. Outra dificuldade identificada foi a baixa compreensão do que era explanado, mesmo com uso de uma linguagem simples e isso parecia se correlacionar à falta de atenção/concentração. Ao realizarem uma avaliação neuropsicológica com usurários de crack em tratamento, verificaram um prejuízo significativo de importantes funções cognitivas, como a memória e funções visuo-construtivas (Rodrigues, Caminha & Horta, 2007). Drogas como álcool, maconha, cocaína, dentre outras são substâncias que alteram o funcionamento mental das pessoas em curto e longo prazo. Tais alterações cerebrais podem repercutir em déficits na atenção, memória, julgamento, fluência verbal, aprendizagem, tomada de decisão, além de déficits motores e outros problemas a nível físico e mental (Rodrigues et al., 2006; Sayago, Lucena-Santos e Horta, 2014). A baixa escolaridades é outra condição observada em estudos com usuários de serviços

de

tratamento

para

dependentes

de

substâncias

químicas.

(Rodrigues et al., 2006). As realidades apontadas nestas investigações, nos auxiliaram na compreensão de algumas dificuldades referentes aos próprios participantes.. Outro prejuízo decorrente das complicações associadas ao uso de tais substâncias é a baixa aderência e abandono do tratamento (Rodrigues et al., 2006), desse modo faz-se fundamental conhecer as dificuldades e limitações do individuo e do grupo, a fim de trabalhar com propostas que despertem interesse e motivação para manter-se no tratamento. Nesse sentido, uma das propostas do CAPS AD

é a implementação de

práticas

de

humanizadas

e

horizontalizadas,

afim

atender

necessidades de saúde dos usuários (Alves & Lima, 2013).

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às

reais


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Conclusão A partir deste estudo foi possível reafirmar a importância das práticas em saúde mental em serviços substitutivos ao hospital psiquiátrico. Com os ideais da Reforma Psiquiátrica, atualmente as intervenções se dão de uma maneira mais acolhedora, focando na integralidade do sujeito, o que acaba por beneficiá-lo, o ajudando a ser protagonista de sua vida, principalmente quanto aos cuidados com sua própria saúde. Apesar das dificuldades encontradas no percurso do trabalho com o grupo, a experiência foi relevante para os residentes, por desmistificar ideias referentes a esse público, além de permitir a atuação de modo interdisciplinar. Acredita-se que para os usuários, a experiência com o grupo também foi positiva, o que pode ser observado por meio da adesão às atividades, elogios verbais e principalmente por relatos dos mesmos que enfocaram a busca por um estilo de vida mais saudável.

Implicações Para a Prática Clínica Acredita-se que o uso de psicoeducação como técnica de trabalho pode facilitar as práticas e a condução das atividades em serviços comunitários de saúde mental.

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Andrea Camacho1 | Ariana Miranda2 | Diana Sá3 | Inês Ferreira4 | Mariana Barbosa5 | Prof. Doutor Luís Carlos Graça6

Licenciada em Enfermagem. andrea_camacho94@hotmail.com, de Póvoa de Varzim, Portugal 2 Licenciada em Enfermagem. arianamiranda0@gmail.com, de Barcelos, Portugal 3 Licenciada em Enfermagem. Enfermeira de cuidados gerais na Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Ponte de Lima – Ambulância INEM e SAPE (Serviço de Atendimento Permanente de Enfermagem). dianamanuelasa@hotmail.com, de Barcelos, Portugal 4 Licenciada em Enfermagem. Enfermeira de cuidados gerais no Serviço de Atendimento Médico Permanente do Hospital da Luz de Póvoa de Varzim. imperadeiro.rf@gmail.com, de Viana do Castelo, Portugal 5 Licenciada em Enfermagem. Enfermeira de cuidados gerais na Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Ponte de Lima – Ambulância INEM e SAPE (Serviço de Atendimento Permanente de Enfermagem). marianabarbosah@gmail.com, de Ponte de Lima, Portugal 6 Professor adjunto. Escola Superior de Saúde – IPVC. Doutor em Enfermagem. luisgraca@ess.ipvc.pt, de Viana do Castelo, Portugal 1

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Resumo Introdução: Apesar da conceção de Saúde Mental não ser consensual entre a população, a mesma é entendida como sendo um estado de bem-estar, através do qual o indivíduo consegue executar as suas capacidades em situações de stress, trabalhando de forma produtiva e frutífera para a comunidade onde se encontra inserido (Comissão das Comunidades Europeias [CCE], 2005). Assim, e uma vez que o enfermeiro assume um papel preponderante na intervenção em saúde, cabe-lhe intervir em saúde mental, promovendo-a. Objetivos: Descrever o estado de saúde mental da população de Paredes de Coura, no ano 2015. Metodologia: O estudo decorreu em meio natural, segundo um desenho descritivo, inserido num paradigma quantitativo. Trata-se de um estudo transversal e epidemiológico. A recolha de dados foi realizada através de um inquérito por entrevista, tendo por base o IV Inquérito Nacional de Saúde. Para avaliação da probabilidade de sofrimento psicológico foi utilizado o Mental Health Inventory-5. A amostra de 441 pessoas foi estratificada por freguesia, recorrendo ao método de Kish para a seleção das unidades amostrais. Resultados: A amostra é maioritariamente do sexo feminino (56,2%), com idades compreendidas entre os 0 e os 99 anos, sendo que a média é de 56,49 ± 21,674 anos e o grupo etário predominante corresponde às pessoas com mais de 65 anos. A maioria da população, (73,2%), não apresenta provável sofrimento psicológico. Conclusões: Esta população encontra-se maioritariamente sem provável sofrimento psicológico, o que pode estar relacionado com o contexto de estudo e a rede de suporte social existente. Palavras-chave: Saúde Mental; Enfermagem; Promoção da Saúde

Resumen Introducción: Aún que la definición de Salud Mental no sea consensual entre la población, se entiende como un estado de bienestar, en que el individuo puede desempeñar sus habilidades en situaciones de estrés y trabajar

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productivamente en la comunidad donde se inserta (CCE, 2005). Una vez que los enfermeros tienen un papel destacado en el logro de beneficios para la salud, debemos intervenir en la salud mental, mediante su promoción. Objetivos: Caracterizar el estado de salud mental de la población de Paredes de Coura en el año de 2015. Metodología: Este estúdio fue echo en un medio natural, de acuerdo con un diseño descriptivo, situado en un paradigma cuantitativo. Este es un estudio epidemiológico transversal. La recolección de datos se realizó a través de una encuesta por entrevista, baseado en la VI Encuesta Nacional de Salud. La muestra de 441 personas se estratificó por parroquia, y para la selección de las unidades se utilizó el método de Kish. Resultados: La muestra es constituída en su mayoría por mujeres (56,2%), con edades comprendidas entre los 0 y los 99 años, el promedio es de 56.49 ± 21,674 años y el grupo de edad predominante es el de las personas mayores de 65 años. La mayor parte de la población (73,2%) no tiene ninguna probabilidad de trastornos psicológicos. Conclusiones: Esta población se encuentra, en su mayoría, sin probable trastorno psicológico, el cual puede estar relacionado con el contexto estudado y con la rede social existente. Palabras clave: Salud mental, Enfermería, Promoción de la Salud

Abstract Introduction: Although the concept of Mental Health is not consensual among the population, it is understood as being a state of well-being, through which the individual manages to execute their capacities in situations of stress and to work in a productive and fruitful way for the community where he is inserted (CCE, 2005). Therefore, nurses assume a crucial role in obtaining health gains, and must intervene in mental health by promoting it. Objective: To characterize the mental health status of the population of Paredes de Coura, in the year 2015. Methodology: This study was made in a natural environment, according to a descriptive, cross-sectional, epidemiological and quantitative study. The data collection was done through an interview survey, based on the IV National Health Survey. The sample was 441 people stratified by parish and to select the sample we applied the Kish method.

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Results: Our sample is mainly female (56,2%), with ages ranging from 0 to 99 years, the average being 56.49 ± 21,674 years, and the predominant age group are people over 65 years. Most of the population (73.2%) is not likely to have psychologically suffering. Conclusions: This population is mostly without probable psychological suffering, which my be related to the context studied and the existing social support network. Keywords: Mental Health, Nursing, Health Promotion

Introdução A saúde constituí um dos direitos do Homem e a sua obtenção depende de vários fatores que se interligam. Porém, a definição universal do conceito de saúde é difícil, atendendo à evolução sofrida por esta ao longo do tempo e à impossibilidade de definir uma fronteira clara entre saúde e doença. Segundo a World Health Organization (1946, p.1) a saúde é entendida como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas ausência de doença ou enfermidade”. Esta definição introduz a noção de saúde mental, física e social. Estamos perante uma dimensão subjetiva do conceito onde a presença de uma patologia não subentende a ausência de doença, motivo pelo qual a saúde pode ser entendida como um recurso para a vida. Existem fatores capazes de condicionar o estado de saúde individual e coletivo das pessoas pelo que, os profissionais de saúde desempenham um papel significativo na identificação e capacitação das pessoas para o reconhecimento desses fatores, na promoção da saúde e na prevenção e gestão da doença. Também a saúde mental surge como um conceito complexo onde se inclui a autonomia e a competência, não se resumindo à ausência de perturbações mentais. A mesma é entendida como sendo um estado de bem-estar, através do qual o indivíduo consegue contornar positivamente situações de stress, trabalhando de forma produtiva e frutífera para a comunidade onde se encontra inserido (CCE, 2005).

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A afirmação da Comissão das Comunidades Europeias (2005, p.8), “sem saúde mental não há saúde”, remete-nos para a influência que a mesma exerce sobre as múltiplas vertentes do ser humano. Ou seja, a saúde mental é a base para o funcionamento eficaz da pessoa. Deste modo, não existe nenhum grupo ou sociedade totalmente isenta de doença mental, uma vez que, esta é produto de múltiplas e complexas interações, que incluem fatores biológicos, psicológicos e sociais (Townsend, 2009). De entre os múltiplos determinantes de saúde destacam-se o emprego, a educação, a pobreza, a habitação, a urbanização, a cultura, as experiências precoces e os acontecimentos de vida stressantes (Alves e Rodrigues, 2010). A promoção da saúde mental atravessa todo o ciclo de vida, sendo o processo que pretende aumentar a capacidade das pessoas, grupos e comunidades controlarem a sua saúde, o seu bem-estar mental, o seu funcionamento psicossocial e a sua qualidade de vida (Organização Mundial da Saúde, 1986). De acordo com o IV Inquérito Nacional de Saúde, 27,2% da população portuguesa com 15 ou mais anos apresenta provável sofrimento psicológico; sendo este superior nas mulheres com 36,3% e 17,3% nos homens. Relativamente à escolaridade, com apenas quatro anos de escolaridade, a probabilidade de sofrimento psicológico era de 61,2%. Nos trabalhadores ativos e estudantes a probabilidade de sofrimento psicológico é menor quando comparativamente com o total estimado para a população. No que concerne à idade, a probabilidade de sofrimento psicológico aumenta com a mesma verificando-se um aumento progresso até aos 75 anos, idade na qual se verifica uma prevalência máxima de 41% (Instituto Nacional de Estatística, I.P. / Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge [INE/INSA], 2009). Em Portugal, é notória a importância que o Programa Nacional de Saúde Mental ostenta face à elevada taxa de prevalência de doença mental e percentagem significativa de indivíduos sem acesso a cuidados de saúde mental, não beneficiando de intervenção adequada (Direcção-Geral da Saúde, 2012). Com base neste panorama, é fundamental o papel dos profissionais de saúde no que concerne à promoção da saúde mental e intervenção face às respostas desajustadas do indivíduo, seja nos cuidados de saúde primários, nos

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hospitais e/ou nos cuidados continuados, tornando-se crucial a reorientação das práticas dos profissionais para o empoderamento pessoal e comunitário. Ora para respostas mais adequadas às necessidades torna-se importante ter uma boa caracterização da situação inicial. Neste sentido foi objetivo do estudo descrever o estado de saúde mental da população de Paredes de Coura, no ano 2015.

Opções metodológicas O presente estudo é descritivo, transversal e epidemiológico, inserindo-se num paradigma quantitativo. Foi realizado num meio natural no concelho de Paredes de Coura, sendo a sua população constituída por 9198 indivíduos (Instituto Nacional de Estatistica [INE], 2011), sendo que para o estudo se selecionaram freguesias tipo.

A população alvo é constituída por 2272

indivíduos. A dimensão da amostra, foi calculada para um estudo de prevalência, com um erro tolerável de 3,7% e um intervalo de confiança de 95%, sendo constituída por 603 pessoas. Para a avaliação da perceção de saúde mental foram definidos os seguintes critérios de inclusão: ser residente no concelho de Paredes de Coura, responder voluntariamente ao questionário, ser maior de 15 anos e ser o próprio a responder, ficando constituída a amostra final por 447 pessoas.

A técnica de amostragem é aleatória, estratificada e proporcional, em função das freguesias e para a escolha das unidades amostrais recorreu-se ao método de Kish. Para a recolha de dados optamos pelo inquérito por entrevista. O instrumento utilizado foi o “Inquérito Municipal de Saúde”, sendo uma adaptação do IV Inquérito Nacional de Saúde, realizado em 2005/2006. O inquérito é constituído por perguntas fechadas. Para o presente estudo, foram utilizados os dados referentes à caracterização sociodemográfica e à Saúde Mental. Esta última é avaliada através do MHI-5, que, segundo Ware,

Kosinski, M., & Gandek, B.

(1993, citado por Ribeiro,

2001, p.87),

J., Snow, K.,

é “uma versão rápida

que, tanto é utilizada isoladamente, como teste de rastreio (screening), como é incluída em outras escalas tal como o SF-36. Inclui os itens 11, 17, 19, 27 e 34, do MHI: três itens pertencem à escala de Distress e dois à escala de Bem-Estar Positivo.”

Então, os indivíduos foram

questionados em relação às quatro últimas semanas: (1) quanto tempo se

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sentiu muito nervoso(a); (2) quanto tempo se sentiu tão deprimido(a) que nada o(a) animava; (3) quanto tempo se sentiu calmo(a) e tranquilo(a); (4) quanto tempo se sentiu triste/desanimado(a) e em baixo/abatido(a); e (5) quanto

tempo

se

sentiu

feliz.

Sendo

que

estas

variáveis

estão

operacionalizadas numa escala ordinal com 6 atributos que vão desde o “sempre” (valor 1) até ao “nunca” (valor 6). Como as questões 3 e 5 se referem a sentimentos positivos, a sua escala foi recodificada, e invertida passando “sempre” a corresponder ao valor 6 e o “nunca” ao valor 1. Os scores obtêm-se pelo somatório dos itens e posteriormente foi realizada a transformação para base 100, relativamente ao distress e ao bem-estar positivo. O ponto de corte aplicado foi o valor 52, seguindo o critério observado no IV Inquérito Nacional de Saúde. Deste modo, os indivíduos, cujo valor do MHI5 fosse inferior ou igual a 52, eram classificados como tendo probabilidade de sofrimento psicológico, e aqueles, cujo valor fosse superior a 52, sem probabilidade de sofrimento psicológico. A escala revelou uma boa consistência interna, com um ∝ - Cronbach de 0,874. Para o tratamento de dados, foi utilizado o SPSS 21 (Statistical Package for Social Sciences) e, tendo em consideração o objetivo do estudo foram utilizadas técnicas estatísticas adequadas a um estudo descritivo, tendo em consideração as variáveis quanto à escala de medida.

Resultados Os dados de caracterização sociodemográfica referem-se às 603 pessoas que integraram o estudo. Assim a amostra é constituída maioritariamente por agregados familiares com mais de 2 pessoas (50,3%), prevalecendo os indivíduos do sexo feminino (56,2%), com idades compreendidas entre os 0 e os 99 anos, sendo que a média é de 56,49±21,674 anos, mediana de 62 anos e o grupo etário predominante é o das pessoas com mais de 65 anos (46,3%). A maioria são de nacionalidade portuguesa (98,3%), casados e/ou em união de facto (56,1%), com o 1º ciclo concluído (46,4%).

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Quanto à ocupação principal nas duas últimas semanas, predominam os reformados/aposentados (38,5%), seguindo-se as pessoas que exercem uma profissão, tem um trabalho, mesmo que não remunerado para uma pessoa de família (24%). É de destacar que a percentagem de desempregados é de 5,3%, dos quais 3,3% está desempregado há um ano ou mais. Por outro lado, as pessoas à procura do primeiro emprego representam 1,3% e os alunos/estudantes representam 9,1%. Nos grupos profissionais predominam os trabalhadores qualificados da indústria, construção e artífices com 24,6%, seguido dos agricultores e trabalhadores qualificados da agricultura, da pesca e da floresta (21,6%). As menos representadas são as profissões das forças armadas (0,5%) e os representantes do poder legislativo e de orgãos executivos, dirigentes, directores e gestores executivos (1%). Relativamente à saúde mental, dos 603 inquéritos válidos, conforme os critérios de inclusão, consideramos as pessoas com idades superiores a 15 anos e sendo os próprios a responder, correspondendo a 447 pessoas. Em relação ao distress, apresenta valores que variam entre 0 e 100, com média de 71,4691±23,06, mediana de 73,3, moda de 80, percentil 25 de 60,0 e percentil 75 de 86,67. Relativamente ao bem-estar positivo, apresenta valores que variam entre 0 e 100, com média de 60,98±25,40, mediana de 60, moda de 80, percentil 25 de 40 e percentil 75 de 80. Em relação à probabilidade de sofrimento psicológico, apresenta um score que varia entre 0 e 100, com média de 67,28±22,64 e mediana de 72. Quando consideramos o cut point 52, utilizado no IV Inquérito Nacional de Saúde (INE/INSA, 2009) constata-se que 26,8% apresentam probabilidade de sofrimento psicológico e 73,2% não a apresentam (gráfico 1).

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26,8%

73,2%

Provável Sofrimento Psicológico (≤52) Sem Provável Sofrimento Psicológico (>52)

´

Gráfico 1 - Distribuição conforme a Probabilidade de Sofrimento Psicológico (n=447)

Discussão dos Resultados A saúde mental, tal como a saúde, é conceito complexo onde se inclui a autonomia e a competência, sendo definida como sendo um estado de bemestar, através do qual o indivíduo consegue contornar positivamente situações de stress, trabalhando de forma produtiva e frutífera para a comunidade onde se encontra inserido (CCE, 2005). O presente estudo é descritivo e decorreu no concelho de Paredes de Coura, com uma amostra de 603 pessoas. Trata-se de um concelho do interior do Alto-Minho e a população é constituída por 9198 indivíduos, sendo que 37,5% tem mais 65 anos (INE, 2011). A amostra do estudo apresenta características idênticas às da população

com uma

pirâmide populacional invertida, encontrando-se envelhecida, sendo um indicador deste facto, a média de idades ser 56,49±21,674 anos, a mediana 62 anos. O sexo predominante é o feminino o que é uma característica associada ao envelhecimento, com as mulheres a terem uma maior esperança média de vida. Relacionado com a idade está a ocupação, sendo que 38,5% das pessoas são reformadas/aposentadas. Além disso, esta grande percentagem de idosos pode também remeter para uma maior percentagem de indivíduos casados e em união de facto (56,1%), bem como de uma percentagem significativa de viúvos (17,7%). Visto que a população de Paredes de Coura apresenta maioritariamente indivíduos que concluiram o 1º ciclo do Ensino Básico (46,4%) e uma

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percentagem significativa de indíviduos sem escolaridade (17,2%), podemos supôr que isto poderá estar relacionado com as características do concelho, por este ser constituido maioritoriamente por um meio rural, interior e com população idosa. Também por esta razão, as profissões que predominam são as que não requerem grandes habilitações literárias, estando inseridos os trabalhadores qualificados da indústria, construção e artífices; e agricultores e trabalhadores qualificados da agricultura, da pesca e da floresta Relativamente ao número de elementos que constituem os agregados familiares, predominam as familias com mais de 2 pessoas (50,3%), sendo a mediana de 3 pessoas. Porém, existe uma percentagem significativa de individuos que vivem sozinhos (14,8%). Devemos atender ao aspeto anteriormente mencionado, por estarmos perante individuos que se encontram provavelmente na fase de “ninho vazio” e/ou morte do conjuge, uma vez que a faixa etária que predomina é a dos idosos. Relativamente à Saúde Mental, as pessoas inquiridas representam 74,13% da amostra deste estudo, sendo constituída pelas pessoas com idade superior a 15 anos e que foram os próprios a responder, ficando constituída por 447 pessoas. Destes, a maioria (73,2%) não apresenta provável sofrimento psicológico, contudo verificou-se que existe ainda uma percentagem significativa de indivíduos em provável sofrimento psicológico, uma vez que 26,8% dos inquiridos apresenta MHI-5 <52. Abordando as dimensões distress e bem-estar positivo, relativamente à primeira dimensão,

esta apresenta valores (71,4691±23,05956) que

sugerem existir menor distress na população de Paredes de Coura comparativamente com o bem-estar positivo (60,9843±25,40113). Esta dimensão apresenta também menor dispersão de valores comparativamente à dimensão bem-estar positivo. Sendo a saúde mental influenciada pelo meio em que o indivíduo vive (Alves e Rodrigues, 2010), esta percentagem de pessoas com provável sofrimento psicológico pode estar relacionada com o facto de Paredes de Coura ser uma área rural, havendo a possibilidade de existir falta de transportes e comunicações, dificuldade de acesso aos meios de educação e formação profissional, isolamento e falta de oportunidades económicas. Por outro lado,

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a rede social pode ser mais coesa pelo conhecimento das pessoas e redes de vizinhança De acordo com os resultados obtidos no INS 2005/2006 (INE/INSA, 2009), a percentagem de indivíduos em sofrimento psicológico a nível nacional é de 27,2%. Uma das possíveis razões para termos obtido uma percentagem semelhante (26,8%), poderá estar relacionada com o apoio familiar, uma vez que o agregado familiar com mais de duas pessoas é o que prevalece. Neste sentido, consideramos que o facto de existirem mais do que um elemento dentro do agregado familiar promove o apoio psicológico entre os membros, podendo justificar o valor que obtivemos. Em conclusão, constatamos então que o facto de o valor que obtivemos no nosso estudo ser semelhante ao valor do INE poderá significar que a população de Paredes de Coura tem características muito parecidas à restante população Nacional.

Conclusões O presente trabalho teve como objetivo caracterizar o estado de saúde da população de Paredes de Coura no ano 2015, nomeadamente no que refere à Saúde Mental. Trata-se de uma amostra com predomínio de pessoas do sexo feminino, idosas, com baixa escolaridade e trabalho pouco diferenciado. A Saúde Mental é avaliada através do MHI-5 e comporta duas grandes dimensões: o distress e o bem-estar positivo. Permitindo ainda avaliar a probabilidade de sofrimento psicológico. Assim, em relação ao distress, este apresenta piores valores que o bem-estar positivo. No que diz respeito ao provável sofrimento psicológico, verifica-se que estamos perante uma população maioritariamente sem provável sofrimento psicológico, contudo verifica-se que cerca de ¼ das pessoas apresenta provável sofrimento psicológico. Em termos das limitações, há uma sobre representação de idosos, o que poderá estar relacionado com a seleção dos participantes, o que não permite a generalização de resultados.

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Caracterizar o estado de saúde da população em relação à Saúde Mental permite programar ações promotoras de saúde e preventivas de doença, identificar necessidades e estabelecer prioridades de atuação. Assim, do conhecimento desta realidade, poderá resultar a efetiva adequação dos cuidados a prestar à população, bem como a consequente melhoria do estado de saúde da mesma em relação à saúde mental. Desta forma, consideramos que este trabalho é um importante contributo para a caracterização do estado de saúde da população de Paredes de Coura. Contudo, e face aos resultados do nosso trabalho, deixamos algumas sugestões, nomeadamente: promoção do apoio emocional e intelectual dos grupos/indivíduos por parte dos profissionais de saúde; promoção de estilos de vida saudáveis através da educação para a saúde e promoção de ambientes favoráveis à saúde, nomeadamente através do reforço de redes de proximidade. A nível de investigação será importante evoluir-se para estudos descritivo correlacionais,

nomeadamente

de

avaliação

da

associação

com

as

características sociodemográficas.

Referências Bibliográficas Alves, Ana Alexandra Marinho e Rodrigues, Nuno Filipe Reis (2010). Determinantes sociais e económicos da Saúde Mental. Revista Portuguesa Saúde Pública. Junho-Dezembro. Comissão das Comunidades Europeias (2005). Livro Verde - Melhorar a saúde mental da população rumo a uma estratégia de saúde mental para

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Acedido

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Instituto Nacional de Estatística, I.P. / Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, I.P. (2009). Inquérito Nacional de Saúde 2005/2006. Lisboa. ISBN 978-972-673-845-8 Organização Mundial da Saúde (1986). Carta de Ottawa para a promoção da saúde. Lisboa: Divisão da educação para a Saúde. Ribeiro, José Luís Pais (2001). Mental Health Inventory: um estudo de adaptação

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http://www.scielo.mec.pt/pdf/psd/v2n1/v2n1a06.pdf Townsend, Mary C. (2009). Enfermagem em Saúde Mental e Psiquiátrica. s.l. : Lusociência. ISBN 978-972-8930-61-5. World Health Organization (1946). Constitution of the World Health Organization.

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Acedido

http://apps.who.int/gb/gov/assets/constitution-en.pdf

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em:

Ebook VII Congresso viana de castelo 2016  
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