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TEATRO DE FIGURAS ALEGÓRICAS: A FERIDA WOYZECK

Um texto tantas vezes maltratado pelo teatro que aconteceu a um jovem de vinte e três anos a quem as parcas cortaram as pálpebras dos olhos ao nascer, dilacerado pela febre até na ortografia (...) desavergonhada a mentira da pós-história diante da realidade bárbara de nossa pré-história. Heiner Müller

A encenação contemporânea como prática pedagógica vem sendo desenvolvida através de um projeto denominado Teatro de Figuras Alegóricas, no Curso de Licenciatura em Teatro da UNISO – Universidade de Sorocaba- SP. Nos últimos anos, a proposta de encenação teve como modelo de ação (Brecht, 1967) o universo pictórico de Peter Brüghel, o Velho: Nós Ainda brincamos como vocês brincavam? (2006); Peixes Grandes comem peixes pequenos (2007) e Chamas na Penugem (2008). Os Jogos Teatrais de Viola Spolin tiveram neste contexto de formação de professores um papel fundamental ao desenvolver habilidades de processo que permitem trabalhar com o leigo em teatro princípios básicos de atuação. Diferentemente de processos de formação de atores, o leigo tem outros interesses no teatro, não necessariamente voltados para o aprendizado de técnicas vocais ou corporais ensinadas de forma tradicional. Ao contrário, a partir da experimentação com os jogos teatrais e do confronto com o texto buscou-se construir a autonomia do grupo e a sua leitura do fragmento. Em 2009 foi realizada a encenação de A Ferida Woyzeck a partir do fragmento de Georg Büchner (Guinsburg e Koudela, 2004). A influencia de Heiner Müller se fez presente nesta encenação, através das provocações radicais de seu universo reflexivo e poético que figura como referencia do teatro pós-dramatico e da importância decisiva que confere à Peça Didática (Koudela, 2003, org.) A tradição do fragmento remonta, na literatura alemã, a Schlegel e Novalis. Visto por Schlegel como uma pequena obra de arte a estender, qual um ouriço, seus espinhos críticos e


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provocadores em todas as direções e por Novalis como projeto, conotando a idéia de espontaneidade e não acabamento, o fragmento é potencialmente uma semente literária, estimulando também o leitor a refazer ou levar adiante o ato de reflexão. A estética do fragmentário está, por sua vez, ligada a critica do otimismo do progresso, e se processa dentro dos horizontes do materialismo histórico, nas obras de Bloch, Adorno, Horkheimer e Benjamin. A montagem moderna de fragmentos é vista como reflexo da desordem real, permitindo uma visão critica do conceito de totalidade. De acordo com Röhl (Röhl, 2006) o trabalho com o fragmento tem para Muller, várias funções. Uma delas, de grande importância, é a de impedir a indiferenciação das partes numa totalidade e ativar a participação do espectador. Na verdade, trata-se de uma continuação radicalizada do teatro praticado por Brecht, principalmente aquele Brecht que cria a teoria do Lehrstück. O fragmento do Learning Play (jogo de aprendizagem) torna-se produtor de conteúdos, abrindo-se à colaboração do receptor, correspondendo ao que Muller vai chamar de fragmento sintético, uma dramaturgia que pretende abrir espaços para o imaginário. Na opinião de Müller essa é uma tarefa política, uma vez que age contra clichês pré-fabricados e padrões produzidos pela mídia. Hoje constituem-se como ilhas de desordem, na expressão por ele cunhada, os grupos de teatro que resistem em meio ao mar da nossa ordem capitalista, a sociedade global contemporânea. O trabalho com o fragmento provoca a colisão instantânea de tempos heterogêneos, possibilitando a revisão critica do presente à luz do passado. O processo de historicização é um dos elementos chave para a operacionalização do conceito de estranhamento em Brecht (Koudela, 1991). Neste sentido é interessante remeter aos comentários de Brecht sobre O efeito de estranhamento nas imagens narrativas de Brüghel, o Velho (Brecht, GW, 1967): Não é apenas uma disposição que parte de imagens como essas, mas uma multiplicidade de disposições. Mesmo quando Brüghel equilibra seus opostos, ele não os equipara uns aos outros. Também não existe nele uma separação entre o trágico e o cômico, o trágico contém o cômico e cômico, o trágico.


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Na leitura da obra de Brüghel, Brecht busca um modelo que o ajuda a romper com a tradição do teatro dramático e encontrar a nova forma do Teatro Épico. A formulação de Muller que tarefa da arte é tornar a realidade impossível aponta para o potencial do teatro como espaço que trabalha de mãos dadas com a impossibilidade da realidade, oferecendo assim um gesto no qual o político reassume a sua força. Como práxis talvez esse gesto seja impotente, mas o espaço vazio assim aberto assume significado político. A perspectiva do teatro político como mimese da realidade é relativizada, aparecendo na arte e no teatro de forma indireta, através de um viés obliquo. Ou seja, o político só se torna efetivo na arte e no teatro quando não é mais passível de ser traduzido ou vertido em lógica, sintaxe e conceituação do discurso político na realidade social. Na didática simbólico-diabólica de Brüghel, Brecht encontra um modelo aparentemente paradoxal no qual o político não é mimese, mas sim interrupção do político (Lehmann, 2009). Vejamos o comentário de Brecht sobre a obra A Queda de Ícaro (Brüghel, 1558): A pequena dimensão deste acontecimento lendário (é necessário procurar o acidentado). Os personagens se afastam do acontecimento. Bela representação da atenção que envolve o arar. O homem que está pescando à direita em frente tem uma relação especial com a água. O sol já no poente, que a muitos causou admiração, deve significar que a queda demorou muito tempo. De que outra forma representar que Ícaro voou alto demais? Já não se vê Dédalo há muito. Contemporâneos flamengos em uma paisagem sulina antiga. Beleza e alegria especial na paisagem durante o acontecimento terrível (Brecht, GW, 1967). A própria obra executa a interrupção de si mesmo, obrigando o olhar do fruidor a construir a sua visão e interpretação, transformando a contemplação em atitude participativa. A imagem não se impõe em seu contexto dramático, provocando identificação. Ao contrário a forma narrativa exige decodificação dos vários elementos cujo caráter paradoxal leva ao espanto. Brecht pretende que seu teatro execute a interrupção de si mesmo como espetáculo. O teatro pode criar situações nas quais a inocência do espectador seja perturbada, colocada em questão.


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Trata-se de um trabalho (político) através do qual a estética do teatro ilumina as implicações do espectador, sua responsabilidade latente. A FERIDA WOYZECK De acordo com Sábato Magaldi (Magaldi, 1963): Admiramos muitas peças e muitos personagens. Reconhecemos intelectualmente a genialidade de muitas obras. A Woyzeck, amase, como a um semelhante. Sem ser profeta, pode-se imaginar que, no futuro, ele encarnará uma nova mitologi – a mitologia de nosso tempo. O drama de farrapos, na feliz expressão cunhada por Anatol Rosenfeld é uma obra que se oferece ao encenador e aos atuantes desfazendo as perspectivas de tempo e espaço. As cenas podem ser deslocadas e rearranjadas em novo continuo. Cada cena representa um momento substancial que encerra variados aspectos do mesmo tema – o desamparo de Woyzeck que se agita e contorce enredado no labirinto do mundo, balbuciando toscamente em seu desespero mudo. Mais do que buscar uma solução prévia para o arranjo das cenas, com vistas à leitura e representação nos termos comumente realizados pelos diferentes editores da obra, a escritura buchneriana talvez devesse ser considerada, quanto ao modo de estruturá-la, no sentido em que Brecht (Brecht, 1986) colocou a questão: É permitido perguntar se o esboço de uma peça deve ser representado quando ela existe em forma mais completa. É permitido responder que por si só a grande importância do complexo textual, no caso do Fausto justifica a encenação do UrFaust (Primeiro Fausto). Mas existe ainda uma outra justificativa. O Ur-Faust tem vida própria. Pertence, juntamente com o Robert Guiskard, de Kleist e o Woyzeck de Büchner a um gênero muito especial de fragmentos. Eles não são incompletos, porém obras de arte feitas na forma de esboços. A FERIDA WOYZECK foi encenada no contexto de um curso de formação de professores de teatro. Havia entre os participantes do grupo alguns atores e outros que nunca tinham participado de uma estréia no teatro. Os Jogos Teatrais de Spolin foram


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fundamentais no processo de encenação, ao abrirem a possibilidade da improvisação teatral como exercício de liberdade na leitura e apropriação do texto de Büchner. Os eixos de aprendizagem do jogo teatral como foco, instrução e avaliação formaram a base metodológica do processo. A instrução, que é um comando dado pelo coordenador enquanto o jogo está em movimento, possibilitou o direcionamento do processo em função do texto a ser experimentado pelo grupo. A avaliação, realizada sistematicamente após o término do jogo às vezes era feita com os jogadores na platéia e outras, quando o grupo todo estava envolvido na cena, simplesmente em roda através de perguntas colocadas pelo coordenador. O acento do foco do jogo teatral foi a construção de uma atitude neutra em cena. Os Jogos de Espelho e Siga o Seguidor (Spolin, 2008) permearam todos os ensaios instaurando o processo colaborativo no grupo. Neste sentido, as cantigas de roda coordenadas por Elaine Ferreira, colaboradora no processo, auxiliaram na construção das relações de parceria entre os atuantes e foram elaborados como material cênico na construção das cenas e do texto espetacular. Outro foco enfatizado na experimentação com o grupo foi o espaço (Onde) com suas inúmeras variantes. A apresentação se deu em um espaço de arena. A cenografia da encenação era constituída através do objeto no espaço (Spolin, 2008), sendo que as atitudes corporais foram construídas pelos atuantes que criaram o espaço imaginário da tenda, do quarto, do pântano. Os personagens foram construídos através de jogos teatrais que tinham o quem como foco. Jogos como Quem sou eu? (Spolin, 2008) que mantém embutido o principio da charada foram fundamentais para a criação dos coros de Woyzeck e Marie. Nascidos destas relações de jogo foi possível realizar com o grupo de vinte e oito atuantes uma encenação que classificamos como singela, mas que guardava a pulsão do jogo na qual teve origem. O processo de criação do personagem Woyzeck partiu de um modelo de ação (Handlungsmuster) introduzido no processo de jogos teatrais. A imagem escolhida foi Ladrão de Passarinho* (Brüghel, 1568). A seguir, transcrevemos a descrição da imagem, elaborada em função da encenação de A Ferida Woyzeck:


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(inserir imagem) Um rude camponês aponta para outro rapaz que está atrás dele trepado em uma árvore. O rude camponês parece não ver o riacho diante de seus pés. Parece que vai cair no molhado – um perigo que nós reconhecemos, mas que o rude camponês não percebe. O corpo do rude camponês parece estar saindo do quadro. As pernas, principalmente a esquerda, parecem encurtadas. À direita as águas formam um lago, atrás dele há uma casa de campo diante da qual há pessoas e galinhas. À direita, cavalos voltam para a cocheira. A paisagem é pastoril. As roupas do rude camponês estão coladas ao seu corpo, como uma segunda pele. No primeiro plano há uma curvatura. Parece que estou olhando em um espelho convexo! O gesto é uma charada: O que é aquele saco que está ali no chão? A presa já está no saco? O que tem ali em cima na árvore? O rude camponês sabe de alguma coisa? O rude camponês tem cara de estúpido, esperto ou melancólico? * Óleo sobre madeira, 59x68cm, Kunsthistorisches Museum, Viena. A última pintura feita em vida por Peter Brueghel representa um único provérbio. Ladrão de Passarinho é um titulo comumente encontrado, embora não se saiba exatamente qual provérbio a pintura representa. De acordo com Benjamin, (...) podemos dizer que os provérbios são ruínas de antigas narrativas, nas quais a moral da história abraça um acontecimento, como a hera abraça um muro. A encenação de A Ferida Woyzeck, partiu de uma busca nas pistas de linguagem oferecidas pelo próprio texto. O confronto de Woyzeck com seus superiores, representantes dos estratos sociais dominantes, é indicado pelos vários padrões de linguagem


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utilizados por Büchner. Enquanto o Capitão, o Médico e o Professor empregam com moderação o dialeto de Darmstadt, as personagens populares falam o dialeto puro: Woyzeck, Marie, Margareth, Karl, avó crianças. Woyzeck, soldado e barbeiro, faz a barba do Capitão tagarela e bitolado. O Médico, o Tambor-mor e o Capitão podem dar ordens a Woyzeck, enquanto a este só é dado cumpri-las sem manifestar vontades. Surpreende a quantidade de inserção de versos e cantigas populares inseridas por Büchner nas várias versões do fragmento. Foi com o intuito de expandir esse gesto presente no texto que trabalhamos inicialmente com cantigas de roda no processo da encenação. Essas cantigas viriam a substituir os versos alemães por referencias populares brasileiros sendo que o canto, os versos e a dança introduziam e faziam o comentário das cenas. Durante o processo de leitura do texto de Büchner pelos atuantes, a apropriação se dava através das formas do teatro improvisacional. No jogo teatral com o texto nasciam os gestos das figuras Woyzeck e Marie. O que fazer com a grande quantidade de material gestual assim gestado? Todas eram interessantes e se as incorporássemos na encenação, ela teria muitas horas de duração. A opção foi mostrar os Woyzecks e Maries multifacetados. Na mesma cena, quatro protagonistas faziam o mesmo papel. Assim tínhamos quatro Woyzecks e quatro Capitães na cena cujo titulo é Woyzeck faz a barba do capitão, por exemplo. Assim a leitura de cada atuante pode ser mostrada para a platéia que passou a ser participante do processo através das diferentes perspectivas oferecidas pelas figuras em cena. Outros cenas seguiram esta estrutura mostrando a percepção diferenciada que cada atuante construiu das figuras. No depoimento dos atuantes: Vários Woyzecks e Andrés, vários proponentes, vários seguidores em um mesmo jogo. Dos gestos, das sensações e das ´sacacas´ do jogo do parceiro é que vão surgindo as cenas. Marie é mulher feita de poeira, areia e lama. Marie quer ser mais do que poeira, areia e lama, pois ainda que não tenha um chapéu, um relógio e uma bengala, ela tem lábios vermelhos e um espelho para refleti-los.


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Woyzeck jamais consegue chegar, corre para não se sabe onde e como a aranha não desiste nunca de alcançar um objetivo que não lhe faz sentido. Na janela, de um lado da rua, um punhado de Maries enfileiradas ninam seus filhos imaginários. Do outro lado uma fila de vizinhas Margareths apenas observam. Percebem a chegada da banda marcial. Um desfile. Soldados do exercito passam cantando e cortejando. À frente o tambor-mor flerta com as mulheres ao som da cantiga de roda: Cavalheiro rode a dama que a minha eu já rodei! Na roda de versos, o estribilho era cantado, entremeado pelos versos improvisados pelos atuantes durante o processo de criação da cena. Estes versos resumem o enredo da peça e anunciam o foco da encenação nas figuras Woyzeck e Marie. Trazemos o texto assim criado: Ô abre a roda povo, sill sill sill Quero vadiar sill sill sill Esta roda é de amor sill sill sill Eu também quero amar sill sill sill (estribilho) Eu conheço um bom homem, sill sill sill Pobre soldado trabalhador De tanto comer ervilhas Matou seu lindo amor Ô abre a roda povo sill sill sill (estribilho) A Marie tem um filhinho Que não gosta de dormir não Ela sempre dá um geitinho Chama o bicho papão Ô abre a roda povo sill sill sill As mulheres nas janelas De olho no batalhão Uma se sente ofendida A outra faz malcriação


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Ô abre a roda povo sill sill sill O Doutor fala difícil Mesmo sem ter o que dizer Sua intenç��o é única É diminuir você Ô abre a roda povo sill sill sill O Woyzeck é um bom soldado Faz a barba do Capitão É cobaia do Doutor Ervilha sua única refeição Ô abre a roda povo sill sill sill Woyzeck sucumbe sob o peso de uma realidade que não consegue enfrentar e diante da qual é impotente. É manipulado e convertido em fantoche. A perda de modulações da voz e a mecanização de suas ações imprimem-lhe uma feição grotesca. Woyzeck é nesse sentido acompanhado tanto pelo Capitão como pelo Doutor e pelo Tambor-mor, figuras construídas com perfis esquemáticos que vivem em função de suas idéias fixas. Woyzeck atravessa a peça em agitação desesperada, contorcendo-se como um titere suspenso por fios. Corre pelo mundo como uma navalha aberta. Vendo-o chispar pela rua, seguido aos pulinhos pelo Doutor, o magro pelo gordo, o Capitão exclama às gargalhadas: Grotesco! Grotesco! O elemento grotesco, tão presente no texto, foi explorado de variadas formas. Os personagens do Doutor e do Capitão foram encenados através de máscaras, acentuando o Gestus da dominação do pobre e coitado Woyzeck, submetido aos experimentos medicinais e à exploração. O ventríloquo, sugerido por Büchner, foi expandido através da construção de um boneco realizado por Jaime Pinheiro, também responsável pelo figurino da encenação, que recebeu o apelido de Sir Woyzeck e acompanhava a encenação do coro de quatorze Maries e onze Woyzecks sentado em poltronas destinadas à platéia do teatro, ao lado do Pregoeiro, do Charlatão (e do Bobo) também anunciados pelo nosso autor na cena Tendas, Luzes, Povo (3).


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O coro de Maries e Woyzecks foi a forma encontrada para a alegorização das figuras. Através do gesto, do canto e da palavra estendidos, o coletivo dos atuantes construiu o Gestus da experiência da coisificação. Na nossa cena final, o Epilogo, o Charlatão, o Pregoeiro, o Bobo e Sir Woyzeck levantavam das poltronas para fazer o comentário das cenas mostradas pelo coro: PREGOEIRO: No mundo não há permanência, todo devemos morrer, disso sabemos muito bem. Pobre homem, velhinho! Pobre criança! Criancinha! Preocupações e festas! CHARLATÃO: Um homem precisa ser também tolo por entender, para que possa dizer: mundo tolo, mundo bonito! O Bobo, um personagem do fragmento de Büchner que tem algumas falas esporádicas, também foi expandido durante a encenação, sendo que a aluna/atriz Fernanda Brito, que construiu esta figura, pesquisou falas de Bobos em Shakespeare, as quais foram inseridas em algumas cenas. O resultado era um comentário caustico dos acontecimentos. Trago como exemplo sua fala após o assassinato de Marie: BOBO: Um bom assassinato, um autêntico assassinato, um belo assassinato, mais belo como não se poderia desejar, faz tempo que não tínhamos nada igual. No programa anunciamos um comentário sobre o Woyzeck de Georg Büchner, que deu o titulo à encenação. Nas palavras de Heiner Müller: Woyzeck é a ferida aberta. Woyzeck vive onde o cachorro está enterrado, o cachorro chama-se Woyzeck. Esperamos a sua ressurreição com medo e/ou esperança. Que ele volte como lobo. O lobo vem do sul. Quando o sol está no zênite, quando se torna uno com a nossa sombra, inicia a hora da incandescência, a história. Somente quando a história acontece vale a pena a decadência coletiva na geada da entropia ou, abreviado politicamente, no raio atômico que é o fim das utopias e será o inicio de uma realidade para além do homem. Para Heiner Müller o teatro deve traduzir o Cronos em outro tempo, ou seja, gerar simultaneidade entre passado, presente e futuro – só assim a História se torna visível. Trata-se de uma dissolução dos planos do tempo em um novo tempo teatral.


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Através da colisão provocada entre as cantigas, as danças e o texto os tempos heterogêneos da cultura brasileira e da nossa contemporaneidade possibilitaram a revisão critica do presente à luz do passado, destruindo qualquer sentido de totalidade e mostrando a ferida através do texto de Georg Büchner.

Referencias bibliográficas: BRECHT, BERTOLT Gesammelte Werke, Frankfurt: Suhrkamp, 1967. GUINSBURG, J. e KOUDELA, I.D. Georg Büchner. Na Pena e na Cena SP: Ed. Perspectiva, 2004. KOUDELA, INGRID D. (org) Heiner Müller. O Espanto no Teatro SP: Ed. Perspectiva, 2003. --------------------- Brecht: um jogo de aprendizagem SP: Ed. Perspectiva, 1991. --------------------- Brecht na Pós-Modernidade SP: Ed. Perspectiva, 2001. --------------------- Texto e Jogo SP: Ed. Perspectiva, 1996. MAGALDI, SÁBATO O Texto no Teatro SP: Perspectiva, 1989. RÖHL, RUTH Literatura da República Democrática Alemã SP: Ed. Perspectiva, 2006. ------------ O Teatro de Heiner Müller, SP: Perspectiva, 1997. ROSENFELD, ANATOL O Teatro Moderno SP: Perspectiva, 1977. SPOLIN, VIOLA Jogos Teatrais na Sala de Aula SP: Perspectiva, 2008.


ARTIGO Teatro de figuras alegóricas - Ingrid