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FELIZ ANO VELHO

ALCIDES NOGUEIRA baseado em MARCELO RUBENS PAIVA

CENA 1


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FOCO SÓ EM MARCELO, QUE ESTÁ AGACHADO NA FRENTE DO PALCO, DIANTE DA ESCADA. À MEDIDA QUE VAI DIZENDO O TEXTO INICIAL, MARCELO VAI SE LEVANTANDO, E DIRIGINDO-SE À ESCADA. NUM DETERMINADO MOMENTO, ELE SOBE LENTAMENTE OS DEGRAUS, ATÉ CHEGAR AO TOPO. MARCELO Eu só ouvia um som assim: BIIIIIIIIMMMMMM.... Estava debaixo d’água, não mexia nem os braços nem as pernas, somente via a água barrenta... Acabara toda a loucura, baixou um santo em mim e um estado total de lucidez... “Tô morrendo afogado!”... Mantive a calma, prendi a respiração, sabendo que ia precisar dela para boiar e aguentar até que alguém percebesse e me tirasse dali. “Calma, cara, tenta pensar em alguma coisa!”... Lembrei que sempre tivera curiosidade em saber como eram os cinco segundos antes da morte, aqueles em que o bandido, com vinte balas no corpo, suspira: “O.K., xerife, o dinheiro do banco está enterrado na montanha azul !”... Por que o cara não manda todo o mundo tomar no cu e morre em paz?... O fôlego tava acabando... Era estranho não tar mexendo nada... não sentia nenhuma dor e minha cabeça tava a mil por hora.... JÁ NO TOPO DA ESCADA, FAZ UMA POSE DE MERGULHO E BERRA: MARCELO Aí, Gregor, vou descobrir o tesouro que cê escondeu aí embaixo, seu milionário disfarçado! JOGA-SE DA ESCADA SOBRE UM COLCHÃO. BLACK. O COLCHÃO É IMEDIATAMENTE RECOLHIDO PARA A COXIA.

CENA 2 LUZ MUITO BRANCA DE UTI. BARULHO INCESSANTE DE APARELHOS MÉDICOS. LUZ CAI EM RESISTÊNCIA. MARCELO, QUASE NA PENUMBRA, ENTRA EMPURRANDO SUA CAMA DE HOSPITAL, DEITA-SE NELA E FICA IMÓVEL. TEMPO. ENTRA EUNICE PAIVA. EUNICEVocê quebrou a quinta vértebra cervical e comprimiu a medula. A medula, meu filho, é um negócio que liga o cérebro aos músculos por estímulos nervosos; enfim, o cabo que liga o telefone de uma casa à central telefônica. O que aconteceu foi que caiu um poste no meio da rua e todos os telefones de um bairro ficaram sem funcionar, apesar da central telefônica estar inteirinha. EUNICE PÁRA DE FALAR . LENTAMENTE PASSA A MÃO PELO FILHO INERTE E DIZ EMOCIONADA.


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EUNICE Eu não sei se você vai ficar bom. E como te dizer, meu filho, que não posso fazer nada? SOBE UM FOCO DE MEMÓRIA, MEIO AZULADO, NUM CANTO, ONDE APARECE RUBENS PAIVA, DE CHARUTO ACESO, COMO UMA ANTIGA E TRISTE RECORDAÇÃO. RUBENS E você, Eunice, vai bater de porta em porta, de quartel em quartel, de porão em porão, e vai ouvir sempre a mesma história: Rubens Paiva não está aqui. Logo, vão dizer, e até mesmo provar, que eu nem existi. Que eu não nasci, não me casei com você, não tive cinco filhos, não fui deputado, não fui cassado. Não fui nada... Não fui nem um corpo... Esse corpo que você procura agora, desesperadamente, de cemitério em cemitério, de necrotério em necrotério, debaixo de identidades falsas. Eu sei que, se você pudesse, você mandaria dragar toda a baía da Guanabara para saber se foi lá que me mergulharam. Esse corpo, Eunice, foi quebrado! O FOCO SOME, DEIXANDO SOMENTE A ILUSÃO DE RUBENS.

CENA 3 MARCELO ESTÁ NO CHÃO, JOGANDO FUTEBOL DE BOTÃO. É MOLEQUE. MARCELO ..... e Pelé para Coutinho, Coutinho para Pelé, que tabelinha. E preparou, e mirou, e se aprumou e lá vai...... na trave! RUBENS ENTRA. COMEÇA A JOGAR COM MARCELO. RUBENS -

Vai lá, Marcelo, agarra esse chutaço!

MARCELO -

Daí não vale. Tá impedido!

RUBENS -

Que impedido, que nada. Vai lá, agarra!

MARCELO -

Não vale, cê tá roubando ...

RUBENS -

Que roubando? Que roubando? Você vai engolir um frango.

MARCELO Desse jeito eu não jogo mais. Agora, tá impedido. Outro dia, cê anulou um golaço de bicicleta que eu fiz . Só porque cê é maior! RUBENS lá, segura essa! MARCELO -

E desde quando tamanho é documento em jogo de futebol? Vai Agora eu não jogo mais . Vou tirar meu time de campo.


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RUBENS -

Vai, vai, fujão! Tá com medo! Vai, leva tudo... Leva a redinha !

MARCELO Nunca mais jogo com você... Nem com você, nem com o Gasparian, nem com o Zé Aparecido, nem com ninguém da tua turma. RUBENS -

Marcelo Paiva contra o governo Goulart.

MARCELO É isso mesmo... Esse tal de Partido Socialista Brasileiro só serve para roubar no jogo de botão. E de moleque ainda. Vai brigar com a ARENA, vai. RUBENS Ei , esse não é o meu time! Outra coisa : hoje à noite, vai ter um joguinho de poquer aqui em casa. Pára com essa mania de ficar pedindo dinheiro para os meus amigos. MARCELO -

Só vou pedir pra dois.

RUBENS -

Pra quem?

MARCELO -

Pro Almino Afonso e pro Flávio Rangel....

RUBENS Pode tirar o cavalo da chuva. O Flávio Rangel é mão-de-vaca... Nao dá dinheiro pra ninguém. Mas com o Almino eu falo, pode deixar. MARCELO -

Promete?

RUBENS -

Palavra de socialista.

RUBENS VAI SAINDO. PÁRA. RUBENS -

Marcelo.... Vê se aprende a jogar botão!

SAI. MARCELO, IMEDIATAMENTE , VOLTA A SER ADULTO. OUVE-SE NOVAMENTE O SOM DOS APARELHOS DA UTI . LUZ VAI MUDANDO.

CENA 4 MARCELO VAI SE DEITANDO NA CAMA DA UTI. FICA PRATICAMENTE IMÓVEL. MARCELO Que coceira! ....... Ai, essa coceira me deixa maluco! ..... Minha cabeça inteira tá coçando .... Parece que tem um bando de dedinhos nela fazendo cócegas ... Eu não aguento ... Eu não aguento mais ..... (BERRA) Enfermeira!


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Enfermeira !... Eu vou ter que ter alguém eternamente ao meu lada para me coçar. Pra coçar a minha cabeça, o meu braço, o meu pé, o meu saco .... Saco! ENTRA A ENFERMEIRA. UMA ENFERMEIRA QUE REPREENTAM DUAS, ILMA E ELMA, AO MESMO TEMPO. ILMA -

O que é que tá acontecendo?

MARCELO -

Tá coçando.

ILMA -

É claro que tá coçando. É assim mesmo .....

MARCELO -

Como é o seu nome?

ILMA -

O meu nome é Ilma.

MARCELO -

Ilma... dá uma coçadinha pra mim?

ILMA SE APROXIMA DA CABEÇA DE MARCELO ILMA -

Onde é que tá coçando?

MARCELO -

Aqui.

COMO ELE NÃO FAZ MOVIMENTO, ILMA NÃO SABE DE QUE LADO DA CABEÇA ESTÁ COÇANDO. ILMA -

É aqui ou é aqui?

MARCELO -

Qualquer lugar, caralho!

ILMA -

Êpa, não fala palavrão perto de mim que eu não gosto.....

ILMA SE AFASTA E FICA DE COSTAS PARA MARCELO. MARCELO poder se coçar.....

Desculpa, Ilma, é que é duro ficar aqui, sem poder se mexer, sem

ILMA SE TRANSFORMA EM ELMA E SE APROXIMA DA CAMA DELE, MUITO DOCE E SENSUAL. ELMA -

É aqui que tá coçando?

COÇA A CABEÇA DELE. MARCELO Isso. É aí mesmo .... Pode cascar a unha .... Vai firme, Ilma.


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ELMA -

Eu não sou a Ilma. Sou a Elma.

MARCELO -

Elma?

ELMA -

Sim, Elma. El-ma!

MARCELO -

Mas não era a Ilma?

ELMA -

A Ilma é a outra.

MARCELO -

Ceis são irmãs?

ELMA -

Não, mas moramos juntas ....

ELMA COÇA MAIS. MARCELO -

Ai .... que gostoso ... coça assim ... coça ....

ELMA -

Espera, que eu vou pegar uma escovinha para coçar melhor.

AFASTA-SE. FICA DE COSTAS PARA MARCELO. MARCELO Sabe, Elma, eu tenho uma visão assim meio machista de enfermeira, aquelas coisas de filme americano .... Acho que toda enfermeira tem muito mais relação sexual que qualquer outra profissional.... ELMA TRANSFORMA-SE EM ILMA. ILMA -

Quem é que tem relação com quem, garotão?

MARCELO -

Quem taí, agora?

ILMA -

A Ilma.

MARCELO -

Mas não era a Elma?

ILMA -

A Elma é a outra. Nós moramos juntas.

MARCELO -

E não são irmãs!

ILMA -

E não somos irmãs.

MARCELO -

Ah, já saquei tudo ....


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ILMA Sacou o quê ? ... Por acaso cê tá querendo dizer que eu sou lésbica? Fancha? Paraíba ? Sapatão ? (HISTÉRICA) É porque cê ainda não viu o cano que enfiaram no teu pinto! MARCELO -

(APAVORADO) Cano? Que cano, sua bunduda?

ILMA SE TRANSFORMA EM ELMA. ELMA Eu, bunduda, Marcelinho? Até que tenho uma bundinha bonitinha. Só os peitos que são um pouco grandes. Mas, isso, uma boa plástica resolve. (APROXIMA-SE ) Tá doendo muito a sonda que colocaram no seu pênis? MARCELO -

Quem taí?

ELMA -

A Elma, Marcelinho.

MARCELO -

Dá uma olhadinha nele, dá!

ELMA LEVANTA UM POUCO O LENÇOL. ELMA Gente! .... Como ficou grandão .... Deixa eu pegar um algodãozinho pra dar uma limpadinha nele .... AFASTA-SE. MARCELO -

Sabe, Elma, cê é um tesão !

ELMA SE TRANSFORMA EM ILMA. ILMA -

Quem que é um tesão?

MARCELO -

Você, Elma. Um tesãosinho!

ILMA -

Ilma ! Ilma!... Ilmão, ô meu!!!

ARRANCA O LENÇOL DA CAMA. MARCELO PULA E VEM PARA A FRENTE. AGARRA O MICROFONE. A ENFERMEIRA SAI RAPIDAMENTE. LUZ MUDA.


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CENA 5 FOCO SÓ EM MARCELO. A ENFERMEIRA JÁ SAIU. MARCELO Boa-noite, senhoras e senhores. Meu nome é Marcelo Paiva! Marcelo Rubens Paiva!... ENTRAM AS DUAS GAROTAS DO CORO. GAROTAS -

Marcelo! Marcelo!

MARCELO -

Sou filho de engenheiro e advogada. Como vêem, sou gente bem!

GAROTAS -

Gente bem, gente bem, gente bem....

MARCELO O único calo que tenho na mão é de tocar violão. Não tenho marcas de estiletes nem de balas pelo corpo. Apenas alguns arranhões por causa de uma infância passada em campinho de futebol. Eu sempre joguei no gol! GAROTAS -

GOOOOOOOOLLLLLLLL !

MARCELO -

Eu nunca morei do lado errado do rio Tietê!

GAROTAS -

Que fedor!

MARCELO -

Nem molhei os pés numa enchente.

GAROTAS -

Me arrepiou!

MARCELO -

Nunca fiquei na fila do INPS.

GAROTAS -

Olha a frente!

MARCELO -

Nem comi no grupo Sérgio!

GAROTAS -

Arg!

MARCELO Nunca precisei ir à Clínica Dentária do Povo, nem pegar ônibus no Parque Dom Pedro. GAROTAS -

Olha a mão boba!

MARCELO -

Estudei em colégio bom.

GAROTAS -

No Santa Cruz!


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MARCELO -

Onde todos eram príncipes!

GAROTAS -

Fiu-fiu !

MARCELO -

Mas eu era marginal.

GAROTAS -

Udigrúdi.

MARCELO -

Todos usavam um tênis fresco, americano, chamado All Star.

GAROTAS -

Ok, boy!

MARCELO -

Mas o meu não! Eu usava Bamba!

GAROTAS -

Bamba! Bamba!

MARCELO COMEÇA A CANTAR. MARCELO -

Comprei um bamba novo agora vou poder fugir da bomba H subir arranha-céus, quando a luz se apagar. Comprei um bamba novo agora vou poder correr quando a nuvem chegar bater o recorde de quantos metros cuspir . Breque pra cuspida! Fui correndo até a lua para a ela impressionar mas quando cheguei lá, que bronca que eu levei, mandou voltar aqui e avisar que tudo tem que parar, senão ela pede pro moço lá de cima aqui desligar......

O SOM DO ROCK VAI SUMINDO. LUZ VAI CAINDO. MARCELO E CORO SE RETIRAM.


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CENA 6 A LUZ MUDA TOTALMENTE. EUNICE E RUBENS, JOVENS, ENTRAM AO SOM DE “AS TIME GOES BY”. RUBENS TRÁS UM GUARDA- CHUVA ABERTO. CHOVE, OBVIAMENTE. RUBENS -

Você prometeu que dormia comigo hoje, Eunice.

EUNICE -

Não dá mesmo, Rubens .... Não dá.....

RUBENS Mas você falou, Eunice .... Hoje é sexta feira ... Todo dia você promete e não cumpre .... EUNICE -

O meu pai me mata ....

RUBENS mais nada....

Eu já estou cansado disso. De namorinho, de pegar na mão.... e

EUNICE -

Você pensa que eu gosto, é?

RUBENS -

É isso que dá querer namorar moça educada em colégio de freira.

EUNICE -

Olha quem fala? Você estuda no Mackenzie....

RUBENS -

Com os meus filhos não vai ser nada disso....

EUNICE -

Ah, é? .... E com as nossas filhas??....

RUBENS -

Não sei porquê, mas acho que a gente só vou ter filho homem!

EUNICE sejam felizes....

Que bobagem, Rubens.... O importante é que eles sejam livres,

RUBENS -

Tudo isso que você está falando não diminui a minha raiva não.

EUNICE -

Eu sei, Rubens, mas.....

RUBENS -

Então, vamos casar logo ....

EUNICE -

A gente está estudando .....

RUBENS -

Então, vamos dormir juntos ....

EUNICE -

Não dá, Rubens .... Eu vou entrar. Me dá um beijinho ....


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BEIJAM-SE. RUBENS AGARRA MAIS UM POUCO EUNICE. ELA ESCAPA. EUNICE -

Tchau, Rubens, eu vou entrar ....

RUBENS Se você entrar, eu vou fazer aquilo que prometi. Vou fazer um escândalo. Vou tirar a calça bem diante da sua casa. EUNICE SAI CORRENDO. RUBENS TIRA AS CALÇAS E FICA SÓ DE CUECAS E GUARDA-CHUVA. RUBENS -

Eunice!

VÊ QUE ELA NÃO VOLTA, DESANIMA E SAI POR UM LADO DO PALCO, AJEITANDO A CALÇA E MAU-HUMORADO. PELO OUTRO LADO, ENTRA MARCINHA, TAMBÉM DE GUARDA - CHUVA. ALGUÉM ESPIRRA ÁGUA NELA. MARCINHA BERRA, XINGANDO. RUBENS SAI. MARCINHA jeito que ficou!

Viado, vê se olha! Olha aí, minha sandalinha nova.... Olha só o

MARCELO ENTRA, COM A CAMISETA ENFIADA NA CABEÇA, PARA SE PROTEGER DA CHUVA. PÁRA E FICA OLHANDO MÁRCIA. MARCELO -

Ei, você é a Marcinha!

MARCINHA -

E você é o espermatozóide do filme do Woody Allen!

MARCELO -

Marcinha!

MARCINHA -

Marcelo!

ABRAÇAM-SE. MARCINHA -

Que bom te ver .... Mas o que cê tá fazendo por aqui?

MARCELO Tô aí na Faculdade .... Numa assembléia chata pra caralho do movimento estudantil..... MARCINHA -

Cê no movimento estudantil?

MARCELO -

Pois é, Marcinha, virei político... Tô na AP.

MARCINHA -

Cê saiu de casa, Marcelo? Tá morando no apê de quem?


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MARCELO Refazendo....

Hi , Marcinha, não é nada disso ..... AP é Ação Popular .... Tô no

MARCINHA -

No Refazendo? Cê tá tocando com o Gil?

MARCELO Pelo amor de Deus, Marcinha .... Refazendo é nome de uma tendência estudantil .... Mas cê tá linda demais .... Mudou o cabelo .... Tá com uma sandalinha toda xinfrosa.... Na última vez que eu te vi, tava numas de discoteca. Careta paca. O que aconteceu? MARCINHA Aconteceu, Marcelo, que mudou tudo, né cara?... Minha cabeça rodou, cara, quase pirei, daí .... daí mudou tudo..... Mas agora até que tô legal ... MARCELO -

Aposentou o sutiã?

MARCINHA -

Pô, Marcelo, tô falando da minha vida e cê vem com sutiã?

MARCELO -

Desculpa, Marcinha ... é que cê ficou linda demais....

MARCINHA -

Vamos pra casa?

MARCELO -

Pra sua casa? E a chata da tua mãe?

MARCINHA -

Não tô mais morando com a mãe, não. Tô morando sozinha.

MARCELO -

Sozinha?

MARCINHA -

É... Sabe aquele papo de “aprender a ser só”???

MARCELO -

É... mas tem aquele de “aprender a só ser!”

MARCINHA diferente.

Taí , Marcelo, o Gilberto Gil inverteu as palavras e ficou tudo

MARCELO -

Cê que inverteu paca, Marcinha!

MARCINHA -

Vamos pra casa?

AMBOS SAEM , ROMANTICAMENTE , DEBAIXO DO GUARDA-CHUVA DE MARCINHA. OUVE-SE “PRECISO APRENDER A SÓ SER” , COM GILBERTO GIL . CHEGAM A UM CANTO DO PALCO. BEIJAM-SE. MARCINHA ABRAÇA MARCELO. TIRA A CAMISETA DELE. AGARRA MARCELO. DEPOIS O SOLTA E DIZ NERVOSA. MARCINHA -

Não dá, Marcelo, não dá .... Eu não quero transar com você!


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MARCELO -

Claro que quer, Marcinha...

MARCINHA FICA NERVOSA, PENSA UM POUCO, UM POUQUINHO SÓ, E VOLTA AOS BRAÇOS DE MARCELO. BEIJA-O MAIS UM POUCO. DEPOIS, SEPARA-SE NOVAMENTE. MARCINHA -

Não dá mesmo, Marcelo. Eu tô confusa.

MARCELO -

Por que cê tá confusa?

MARCINHA Porque tô namorando um cara no Rio. E, enquanto tiver namorando, não dá para transar com você. MARCELO -

Cê não gosta mais de mim ?

MARCINHA FICA NUMA DÚVIDA CRUEL . DEPOIS, CORRE PARA ELE. MARCINHA -

Claro que gosto!

BEIJAM -SE MAIS. MARCINHA SEPARA-SE DE NOVO. MARCINHA -

Mas não dá mesmo, Marcelo.

MARCELO -

Assim não, Marcinha... parece coisa do tempo da minha mãe.

MARCINHA SAI POR UM LADO. MARCELO FICA. RUBENS ENTRA, COM UM VIOLÃO NA MÃO E TRAZENDO A MOCHILA DE MARCELO. JOGA A MOCHILA PARA MARCELO. RUBENS, AO VIOLÃO, DEDILHA ALGUMA CANÇÃO DE SERENATA DE SUA ÉPOCA. MARCELO TIRA UM TUBO DE SPRAY DA MOCHILA. PICHA, IMAGINARIAMENTE, DIZENDO ALTO. MARCELO -

Marcinha, cê inverteu QUASE tudo!

RUBENS ENTREGA O VIOLÃO PARA MARCELO E ESTE O TUBO DE SPRAY PARA O PAI. RUBENS SE RETIRA . MARCELO , COM O VIOLÃO E A MOCHILA, FICA OLHANDO A CAMA HOSPITALAR QUE ENTROU NO PALCO, TRAZIDA POR CASSY E ANA .

CENA 7 MARCELO ENTREGA O VIOLÃO E A MOCHILA AOS AMIGOS. DEITA-SE NA CAMA E ASSUME O PARAPLÉGICO. ANA ESTÁ COM UM LIVRO DE ICHING NA MÃO; CASSY COM AS MOEDINHAS DO MESMO.


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MARCELO -

Ceis viram a cagada que eu fiz?

CASSY -

Que cagada, que nada, Marcelo. Cê vai ficar bom, cara...

MARCELO -

O que ceis vão me apresentar hoje, Cassy?

CASSY O I-Ching. O I-Ching nunca falha . Tem matemático que já quebrou a cabeça tentando sacar qual é a destas três moedinhas... O I- Ching é tudo! MARCELO -

Como é que é, hein?

CASSY São seis jogadas. Daí, a gente monta a figura. Cheia de tracinhos. Daí vê o que deu o hexagrama. São 64 no total. Procura no quadrinho, vê qual é ele e lê o que diz o livro. MARCELO -

Complicado...

CASSY -

Só no começo. Depois a gente se acostuma.

ANA O negócio é a interpretação. Cê tem de sacar exatamente o que ele quer dizer. Daí, tudo bem. O John Lennon se guiou cinco anos só por uma jogada do I-ching. É loucura, cara, mas é verdade. CASSY -

Vou jogar.... Seu I-Ching, o Marcelo vai sarar?

CASSY JOGA AS MOEDINHAS. CASSY -

Procura aí no livro o que deu, Ana.

ANA PROCURA NO LIVRO. ANA Fogo sobre terra ... “O fogo comerá todo o sítio e a capoeira se verá livre das ervas e das alfaias. A bicha de fogo que se ergue para o firmamento responderá ao pedido da montanha”... SILÊNCIO CONSTRANGEDOR. MARCELO -

Não entendi nada.

CASSY TOMA O LIVRO DE ANA. CASSY -

Caralho, Ana, cê trouxe a edição portuguesa do I-Ching.

ANA Ah, mas dá na mesma .... O pedido da montanha é para que o Marcelo sare.... A bicha de fogo .... Ai, meu Deus, quem será essa bicha de fogo ?


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CASSY -

Bicha é fila em português de Portugal. Não é viado, Ana.

ANA Ah, mas que tá dizendo que vai sarar, tá ... Bom, Marcelo, a gente vai indo. Um Feliz Ano/ ..... Puta que o pariu, é passagem de década .... Ah, então, cara, eu tenho certeza de que 1 980 vai ser um puta ano pra você. Tchau. CASSY Tchau , Marcelo. Olha, eu tô indo pra Barra do Sahi, mas vou ficar pensando em você. Tchau. EUNICE VEM ENTRANDO. CRUZA COM OS DOIS SAINDO. CASSY -

Tchau, dona Eunice.

ANA -

Tchau, dona Eunice.

OS DOIS SAEM. EUNICE CHEGA -SE À CAMA . TOMA O BRAÇO INERTE DE MARCELO. MARCELO -

Cê acredita nisso, mãe?

EUNICE Eu estou acreditando em tudo, filho. Qualquer coisa que me dê uma esperancinha de que você vai ficar bom, eu estou indo atrás. MARCELO -

Cê tá desesperada, mãe?

EUNICE Não, Marcelo. A gente ainda tem muita porta pra bater. Eu já conheço esse caminho. MARCELO -

Fogo sobre terra. Que caralho será isso?

LEVANTA-SE DA CAMA. PULA.

CENA 8 MARCELO E EUNICE SE DESPEDEM . ELE ESTÁ INDO EMBORA PARA CAMPINAS, ONDE VAI ESTUDAR. PÕE A MOCHILA NAS COSTAS. MARCELO -

Cê não vai dar uma de chorona agora, né, Eunice...

EUNICE aqui pra casa.

Vê se se cuida lá em Campinas, Marcelo. Qualquer coisa, ligue

MARCELO -

Tô batendo asas, dona Eunice. Eu e o meu violão.


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EUNICE -

Você acertou tudo na república?

MARCELO Não é república, Eunice. É casa mesmo. Pode até chamar de comunidade. Mas é casa. EUNICE -

Pra mim é a mesma coisa .

MARCELO República é casa de dois quartos, onde moram dez pessoas, um monte de beliche, uma mesa e uma televisão enorme e pifada no meio da sala... A minha casa vai ser diferente. Uma puta decoração. Muita planta. Vou pintar umas árvores nas paredes... E, no quarto, uma boa cama de casal. EUNICE república.

Pra mim continua sendo a mesma coisa. Casa de estudante é

MARCELO Tá bom, dona teimosa. Deixa eu ir que o Cassy já deve tar me esperando lá embaixo. Tchau, mãe. OS DOIS SE BEIJAM. MARCELO SAI COM SUA MOCHILA, MAS ESQUECE O VIOLÃO. EUNICE -

Ei, Marcelo, vai deixar isto?

ELE VOLTA E PEGA O VIOLÃO. MARCELO Tchau, mãe. Eu vou fazer uma música xinfrosinha pra você. Tchau, a UNICAMP me espera...... SAI CORRENDO. EUNICE VEM PARA A FRENTE DO PALCO.

CENA 9 EUNICE, SOZINHA À FRENTE DO PALCO, TIRA UM CIGARRO. ACENDE, DÁ UMA TRAGADA. EUNICE Eu sempre acho que sou mais forte do que sou na verdade. Mas, a cada vez, me descubro mais frágil e tendo que ser forte ... Meu outro homem foi embora. CAI A LUZ. FOCO EM EUNICE. OUTRO FOCO EM RUBENS, NO OUTRO LADO DO PALCO, ONDE DISCURSA INFLAMADO PARA O PLENÁRIO IMAGINÁRIO DO CONGRESSO.


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RUBENS Senhores deputados, como representantes legalmente eleitos pelo povo, temos o dever, a obrigação, de constituirmos uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar as atividades do Instituto Brasileiro de Ação Democrática, o IBAD.... O que é esse instituto? Por que ele está plantado em sindicatos, em organizações estudantis, na imprensa, querendo desestabilizar o governo Goulart, um governo legalmente eleito?... Quem o financia?... Os senhores sabem que esse instituto é uma fachada que esconde uma ação clandestina de outros países. Eu exijo uma resposta. EUNICE E RUBENS SE ENCONTRAM NO MEIO DO PALCO. A LUZ MUDA. EUNICE -

Rubens, eu pedi para você não se atrasar hoje para o jantar.

RUBENS Hoje eu tenho motivos . Veja os jornais . Eles trazem uma série de acusações contra o IBAD... Eu ainda vou descobrir tudo, Eunice. EUNICE IBAD, Jango .... será que você não está cutucando a onça com vara curta, Rubens? RUBENS Como deputado, e como cidadão, eu tenho a obrigação de descobrir quem está querendo derrubar o governo Goulart. Quem está financiando? De onde vêm esses milhares de dólares que querem a queda do governo constitucional?... É preciso uma CPI, Eunice. EUNICE CPI, dólares, queda, golpe .... Qualquer hora a gente vai enlouquecer .... Ai, meu Deus, esqueci o meu suflê..... CORRE PARA O FUNDO DO PALCO. UM ZUMBIDO IMENSO E FORTE DE HELICÓPTEROS TOMA CONTA DO PALCO. LUZ NA ESCADA. RUBENS VAI SUBINDO A ESCADA PELA FRENTE, À MEDIDA QUE FALA SEU TEXTO. MARCELO VAI SEGUINDO O MESMO COMPASSO DO PAI, SUBINDO A ESCADA, PELO LADO DE TRÁS. NO FINAL DO TEXTO, AMBOS ESTARÃO NO TOPO DA ESCADA. MARCELO UM POUCO MAIS ALTO QUE O PAI. EUNICE, AO PÉ DA ESCADA , GRITA PARA RUBENS. EUNICE -

Rubens, o que aconteceu?

RUBENS As coisas ainda estão muito confusas aqui em Brasília, Eunice. Os militares realmente tomaram o poder. O golpe aconteceu mesmo. Mas ninguém sabe o que vai acontecer. EUNICE ficar com você.

Eu vou pegar as crianças, tomo o primeiro avião e vou para aí,

RUBENS -

Não .... não venha .... Espere as coisas ficarem mais claras....


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EUNICE -

Eu vou, sim.

RUBENS -

Não ... não venha .....

EUNICE -

Rubens, o que vai acontecer?

RUBENS -

E eu sei que merda que se passa na cabeça desses militares ?

MARCELO GRITA. MARCELO Aí, Gregor, eu vou descobrir embaixo, seu milionário disfarçado!

o tesouro que cê escondeu aí

MAS, DESTA VEZ, MARCELO NÃO MERGULHA. TEMPO COM ELE E RUBENS NA POSIÇÃO DO SALTO, COMO SE AMBOS ESTIVESSEM SE JOGANDO. CORTE DE LUZ. FOCO SÓ EM MARCELO, NO TOPO DA ESCADA. RUBENS E EUNICE SAEM NO BLACK. ENTRAM DOIS AMIGOS DE MARCELO, UM DE CADA LADO. NA PENUMBRA, ELES SE PERGUNTAM E CANTAM. MARCELO SÓ OBSERVA, LÁ DE CIMA. AMIGO 1 -

Que dia é hoje?

AMIGO 2 oposição a Vênus.

14 de dezembro de 1 979. Sol em conjunção com Netuno e em

AMIGOS -

(CANTANDO) Você pode parar um segundo antes de mergulhar. Você pode pensar um minuto antes de se jogar. Põe na cabeça uma balança pesa nos pratos o bem e o mal o certo e o tal o vem e o vai. E cai ! Você pode ficar todo fodido por ter se jogado. Você pode chorar amargamente por ter se azarado. Sente no corpo essa lembrança, vê em seu rosto as marcas do mal, o sangue e a dor do peso do salto mortal ! É só um segundo que o separa de ser e não ser. É só um minuto que o impede de vir a morrer. Mas sua cabeça não pensa na horas. Sobe na pedra abre os braços, empina o peito, apruma as pernas e vai!

CORTE DE SOM E LUZ.


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CENA 10 O PALCO TODO É INVADIDO POR UMA LUZ VERMELHA. MÚSICA ITALIANA AO FUNDO. EUNICE E RUBENS ENTRAM, COMO SE PASSEASSEM POR VENEZA. OS TRAPÉZIOS AGORA SÃO ARCADAS, CADA CANTO DO PALCO É UM CANAL. EUNICE Veneza fica toda vermelha a esta hora. Como se a túnica dos doges cobrisse tudo. Essas pontes, esses canais, essa água .... Como se o sol se refletisse em tudo. Como se o tempo tivesse parado para uma fotografia. E só estivéssemos nós... Esse vermelho todo, e essas pombas que não voam... É engraçado, toda a vez que eu vejo pombas .... aqui, na Praça da Sé, na Praça da República, eu penso nos nossos filhos .... RUBENS SE APROXIMA E ABRAÇA EUNICE. EUNICE -

Você não gostaria de ficar aqui em Veneza, Rubens?

RUBENS Muito .... Muito, Eunice .... Mas, às vezes, me dá um apertão assim no peito e uma vontade louca de voltar para o Brasil. Meu lugar é lá ! EUNICE pouco.

Eu também acho. Só que seria melhor as coisas se acalmarem um

OUVE-SE UMA VOZ DE HOMEM EM OFF. HOMEM (OFF) -

Ei, signora, una foto?

ESTOURA UM FLASH SOBRE OS DOIS.

CENA 11 MÚSICA DE CARNAVAL, EUNICE E RUBENS TIRAM OS CASACOS PESADOS QUE VESTIAM NA CENA ANTERIOR E, IMEDIATAMENTE, ESTÃO NO RIO DE JANEIRO, EM PLENO RÉVÈILLON DE 1 971. CAI CONFETE SOBRE ELES. ESTÃO ALEGRES, LIGEIRAMENTE TOCADOS PELO CHAMPANHE.

EUNICE -

Feliz 1 971, Rubens!


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................20

RUBENS -

Feliz 1 971, minha querida! Que, neste ano, você volte a estudar!

EUNICE -

Que, neste ano, você consiga emagrecer!

RUBENS Que, neste ano, a gente tenha calma, sossego, todo o tempo do mundo para olhamos nossas crianças! EUNICE Que, neste ano, se você tiver que virar guerrilheiro, que pegue sua metralhadora e vá à luta! RUBENS Você ficou louca? (RINDO) É uma pena, minha querida, mas eu sou apenas um deputado cassado .... EUNICE Eu estou falando isso porque, se você pegar a sua metralhadora, eu pego a minha, e vou junto.... RUBENS -

Que em 1 971, caia o governo!

EUNICE -

Acabe a ditatura!

RUBENS -

Que, em 1 971, a gente volte a ser feliz!

EUNICE -

Apesar de tudo, Rubens, a gente nunca deixou de ser feliz!

OS DOIS SE BEIJAM LONGAMENTE. MAIS CONFETE. ELES SE SEPARAM, DESDOBRANDO UMA SERPENTINA, ATÉ QUE UM FIQUE NA PONTA DO PALCO E O OUTRO, NA OUTRA EXTREMIDADE. A SERPENTINA OS LIGA. EUNICE -

Feliz 1 971, Rubens!

RUBENS -

Feliz 1 971, Eunice!

MARCELO ENTRA DO FUNDO, EMPURRANDO SUA CAMA. A MÚSICA É SUBSTITUÍDA PELO BARULHO DOS APARELHOS DA UTI, MIXADO A TICTAC DE RELÓGIO. MARCELO AVANÇA E ROMPE A SERPENTINA. EUNICE E RUBENS SE SEPARAM E SAEM. MARCELO VAI AO CENTRO DO PALCO COM A CAMA. DEITA-SE NELA . COBRE-SE . O FOCO DE LUZ FECHA NELE.

CENA 12 O TIC-TAC DO RELÓGIO CONTINUA INSISTENTE. MARCELO ESTÁ DEITADO, COMPLETAMENTE IMÓVEL. ACENDE-SE OUTRO FOCO, NA


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................21

LATERAL. EUNICE ESTÁ SENTADA, SOZINHA, COM UM BOLO NA MÃO. TEMPO. MUITO TEMPO SÓ COM O TIC-TAC E O SILÊNCIO DOS DOIS. EUNICE (FALANDO PARA SI MESMA, COM O BOLO NAS MÃOS) Quinze para a meia-noite. Daqui a pouco será Ano Novo. Como é que eu vou poder desejar um Feliz Ano Novo para você, meu querido? Eu nem sei o que vai acontecer? Ninguém sabe. Nestas horas, eu gostaria de ser o que toda criança pensa: que a mãe pode e saber fazer tudo. Ah, como eu gostaria de saber e poder fazer tudo. Mas você está aí: uma criança indefesa. E eu estou aqui: uma mãe indefesa! MARCELO -

Será que ela tá falando sozinha?

EUNICE -

Será que ele está dormindo ?

MARCELO -

Daqui a pouco vai dar ano novo.

EUNICE -

Agora sim. Já é Ano Novo ... Feliz Ano Novo, Marcelo!

EXPLODE A MÚSICA DE ANO NOVO ALTÍSSIMO. MARCELO E EUNICE IMPASSÍVEIS. TEMPO. DE REPENTE, MARCELO BERRA. MARCELO -

PÁRA! PÁRA! PÁRA!

A MÚSICA PÁRA. MARCELO Isto não tem sentido. Ceis tão alegres, mas eu não tô. Ceis tão felizes, mas eu não tô. Tô aqui sozinho e triste!... Desculpem , eu sei que ceis todos tão me dando a maior força. Mas sou eu que tô aqui deitado, desejando a própria morte. Mas eu não tenho nem forças para morrer. Até meu corpo me abandonou. Que forças eu tenho para encarar um Ano Novo? EUNICE TIRA UNS CARTÕES DO BOLSO. LÊ. EUNICE (LENDO) Feliz Ano Novo, Marcelo. Vou levar flores e perfume pra Iemanjá pra você. Ana. (LÊ OUTRO) Marcelo, aqui na Barra do Sahi, todas as conchas e estrelas do mar mandam beijos e abraços para você. Feliz Ano Novo, cara. Cassy. (LÊ OUTRO) Marcelo, estou indo pra uma festa finíssima. Depois eu te conto, Beijão, Marcinha. (LÊ MAIS UM) Marcelo, daqui de cima de Itatiaia, a gente enxerga sete cidades. Em todas elas, as luzes e estrelas piscam, desejando um Feliz Ano Novo pra você. Maurão. MARCELO -

Feliz Ano Velho, Marcelo. Pra você também, Marcelo.

EUNICE SAI NA PENUMBRA. FOCO SÓ EM MARCELO.


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................22

MARCELO Foram vinte anos bem vividos. Vou deixar muitas saudades e alguns bons amigos. De que vale a eternidade, se um orgasmo dura poucos segundos? A história se fará com ou sem a minha presença. A morte é apenas um grande sono, sem despertador pra acordar. Não tem dor, medo, solidão. O sol vai continuar nascendo . A terra se fertilizará com meu corpo. Meu violão, coitado, vai acabar num depósito de velharia, meu gravador vai ser roubado.... É... Feliz Ano Velho. Tchau, mãe, se cuida, tá ? Veroca, Eliana, Nalu e Big, minhas irmãs, juízo, hein? Marcinha e Ana, ceis são belas mulheres! Cassy querido, eu te amo. Continua tocando que cê chega lá. Maurão, seu viado, não bebe tanto. Zequinha, seu puto, largue os livros e bata punheta. Bundão, meu querido .... Lúcia, Lúcia, linda, cê fica me devendo uma transa. Tchau, pessoal! O TIC-TAC AUMENTA. DEPOIS DE UM TEMPO, A LUZ SOBE TOTAL. APARECE LÚCIA DE BÚZIOS AO LADO DA CAMA. LUZ TOTAL . MARCELO SE LEVANTA.

CENA 13 MARCELO FICA OLHANDO, ESPANTADO PARA LÚCIA. LÚCIA -

Oi!

MARCELO -

(MAU - HUMOR) Oi.

LÚCIA -

É cê que vai me levar pra São Paulo?

MARCELO É. Mas é um pé no saco... Tá legal, menina, que teu primo morreu. Tá legal que teu pai pediu pra eu dar uma força. Me deu até a grana da viagem, mas que é um pé no saco é. Tá certo que eu me comprometi a te levar de Búzios até São Paulo. MAS QUE É UM PÉ NO SACO, É! LÚCIA Qualé, Marcelo? Cê ia ter que voltar mesmo, pra transar a tua matrícula?.... Do que tá reclamando? Descolou até a grana da viagem. Além de tudo, cê é do tipo que deve adorar se sentir protetor de donzelas como eu. MARCELO -

Protetor? Eu ????

LÚCIA Escuta, Marcelo, por que a gente não faz o seguinte: vamos de carona até o Rio e a gente economiza a grana do ônibus. E gasta tudo em São Paulo.... MARCELO Tudo em São Paulo, é ? (TEMPO) Tá legal.... Então, fica ali naquele cantinho, que eu vou mostrar como se pega uma carona.....


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................23

LÚCIA VAI PARA UM CANTO. ENQUANTO MARCELO TENTA PEGAR CARONA. ENQUANTO ELE TENTA PEGAR A CARONA, ELA VAI SE TRANSFORMANDO DE UMA MENINA BOBOCA EM UMA GAROTA MUITO SEXY. MAS MARCELO AINDA NÃO NOTA ISSO. MARCELO -

Veja como se faz, garotinha..

FICA COM DEDO ESTENDIDO. BARULHO DE CARRO QUE PASSA E NÃO PÁRA. MARCELO -

Vai com Deus, meu filho!

TENTA DE NOVO. MARCELO -

Aquele ali, quer ver ?

DE NOVO O CARRO PASSA E NADA . MARCELO PEGA O VIOLÃO. MARCELO Vou jogar o charme com a viola. Assim, nunca falha! Sai fusqueta, carro pequeno eu não quero. Kombi também não: quero conforto ... Ali, aquele carrrão lá .... Vem cá, filho, vem .... BARULHO DE CARRO QUE SE APROXIMA. PÁRA. MARCELO -

Eu não disse? Com a viola nunca falha .....

VAI CORRENDO. O CARRO ARRANCA E DEIXA MARCELO NA MÃO . MARCELO -

Oh, merda! Será que eu tô perdendo a chinfra da carona?

LÚCIA SE APROXIMA TODA SEXY. FAZ A POSE DE CARONA. UM CARRO PÁRA, IMEDIATAMENTE, PARA ESPANTO DE MARCELO. ENTRAM DOIS ATORES, UM CASAL, COMO SE ESTIVESSEM NUM CARRO. LÚCIA -

Ceis tão indo pro Rio?

MOTORISTA -

Estamos.

LÚCIA -

Dá uma carona pra gente?

MOTORISTA -

Podem entrar.

LÚCIA -

Vem, Marcelinho ....


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................24

MARCELO ENTRA NO CARRO, TODO TÍMIDO. A CAMA DE HOSPITAL VIROU O ASSENTO DE TRÁS DO CARRO. LÚCIA E MARCELO SENTAM-SE NELA. LÚCIA -

Eu e meu marido tamos indo para o Rio. Perdemos o ônibus...

MULHER -

Vocês são casados? Nossa, parecem tão jovens!

LÚCIA -

E já temos um baby de um ano!

MOTORISTA -

Você trabalha rápido, hein, meu ?!

MARCELO ESTÁ SUPER ENVERGONHADO. LÚCIA O nenê não fica muito com a gente, porque nossa vida é uma loucura. Ele é guitarrista do Raul Seixas .... MULHER bem?

Bem que tava desconfiada. Lembra dele no show do Canecão,

LÚCIA A vida da gente e tão movimentada, que a gente começou a namorar pulando de páraquedas. MOTORISTA -

De páraquedas??????

LÚCIA Nós e mais dois caras távamos fazendo um vôo, quando pintou um defeito no motor do avião. Daí, a gente têve que pular. Eu tava com um pouco de medo ... Daí, o Marcelo disse pra mim: “Tudo bem, Lúcia, pula comigo”. “Me dá a mão”. Eu dei, fechei os olhos e pulei. Logo depois, senti um beijo na boca. Depois, ouvi: “Eu te amo”.... Foi tão bonito! MOTORISTA -

E vocês caíram onde?

LÚCIA mesmo.

Numa cama de folhas, bem perto de um laguinho. Lindo, lindo

MULHER Aiiiiiiiiii ..... que coisa bonita!!!... Isso nunca aconteceu com a gente, não é, xuxu?! MOTORISTA -

Você é mesmo guitarrista do Raul Seixas?

MARCELO -

É .... sou .....

MOTORISTA -

Então, canta aquela da mosca que caiu na sopa !


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................25

MULHER -

Essa é tão joinha ....

ANTES QUE MARCELO FALE ALGUMA COISA, TODOS CANTAM MUITO ANIMADOS A MÚSICA DE RAUL SEIXAS. MOTORISTA -

Aí , moçada .... Rio de Janeiro .... Onde vocês querem ficar?

MULHER Amorzinho, por que eles não ficam lá em casa? Devem estar mortos de cansados..... LÚCIA -

A gente aceita, não é, Marcelinho?

MARCELO -

Bem ... não .... claro que não.....

LÚCIA -

Não? Mas, por que não?

MARCELO O baby .... Cê se esqueceu do baby? (TEMPO) Ai , xará, naquele farol tá ótimo. A gente fica ali mesmo ...... MOTORISTA -

(BRECANDO) Aqui? Então, até a próxima.

LÚCIA , MARCELO DESCEM DO CARRO. MARCELO -

Até a próxima!

MOTORISTA -

Qualquer dia, você me ensina a pular de páraquedas....

O MOTORISTA E A MULHER SAEM, COMO DE AINDA ESTIVESSEM NO CARRO. TEMPO. MARCELO VAI A UM CANTO, COMO SE FOSSE O GUICHÊ DA RODOVIÁRIA. MARCELO -

Aí , companheiro , me vê duas para São Paulo.

VEM ATÉ LÚCIA . MARCELO -

Quase perdemos o ônibus pra São Paulo....

LÚCIA alta mordomia....

Cê foi idiota ..... A gente podia ter ficado na casa deles.... Ia ser

MARCELO -

Qualé, garota? Cê se esqueceu de quem é o protetor aqui?

LÚCIA OLHA PARA ELE COM INTERESSE. LÚCIA -

Cê gosta de mim?


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................26

MARCELO VAI RESPONDER, QUANDO LÚCIA BERRA. LÚCIA -

Olha o ônibus ...

ENTRAM NO ÔNIBUS. A CAMA DE HOSPITAL AGORA É POLTRONA . LÚCIA JOGA AS BAGAGENS AO LADO. FAZ COMO SE ABRISSE A JANELINHA DO ÔNIBUS. LÚCIA O dia tá acabando .... Já é o por-do-sol .... Eu vou dormir um pouco no seu ombro, tá? CAI NO COLO DE MARCELO E DORME. ESTE FICA MUITO SEM JEITO. PENSA EM TOCAR EM LÚCIA MAS DESISTE. TEMPO. LÚCIA -

Marcelinho, quando passar em Aparecida, cê me chama?

MARCELO -

Claro .... claro.... claro ....

TEMPO. MAIS TEMPO AINDA. COMO DE VIAJASSEM... OUVE-SE A VOZ QUE ANUNCIA OS ÔNIBUS NA RODOVIÁRIA DE SÃO PAULO . VOZ OFF -

Casas Pernambucanas informam as próximas partidas!

MARCELO -

É São Paulo! É São Paulo! Chegamos!

DESCEM DO ÔNIBUS. LÚCIA protetor....

Bom, tchau, garotão. A gente se ve outro dia. Obrigada,

VAI SAINDO. MARCELO GRITA. ELA PÁRA. MARCELO -

Ei, Lúcia, eu gosto de você !

LÚCIA -

Qualquer dia cê me diz isso de novo, gostosão !

LÚCIA SAI. MARCELO AINDA GRITA . MARCELO Ei, louca, linda, garotinha.... Ei, eu gosto de você, Lúcia de Búzios.... Nunca mais vou me esquecer de você.... ENTRA UMA MULHER TODA SEXY. PÁRA NA FRENTE DE MARCELO, ENQUANTO ELE FAZ A DECLARAÇÃO DE AMOR A LÚCIA. A MULHER DÁ UMA TREMENDA OLHADA PARA ELE. MARCELO TAMBÉM OLHA. A


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................27

MULHER SEGUE. MARCELO VAI ATRÁS. A MULHER VAI EMBORA. MARCELO FICA TODO ARREPIADO. VEM À BOCA DE CENA E DIZ. MARCELO dure!

Que não seja eterno, posto que é chama, mas infinito enquanto

EXPLODE UMA MÚSICA DE CIRCO. MUDA TODA A LUZ, AGORA COLORIDA.

CENA 14 MÚSICA CIRCENSE MUITO ANIMADA. MARCELO SAI DE CENA. ENTRAM OS ATORES VESTIDOS DE PALHAÇOS. FAZEM UMA EVOLUÇÃO EM CENA E SAEM. VOLTAM, TRAZENDO MARCELO CARREGADO. COLOCAM MARCELO DEITADO NA CAMA DE HOSPITAL . FAZEM PÔSE E ANUNCIAM EM CORO: ATORES -

O DR. MANGUEIRA!

O DR. MANGUEIRA, VESTIDO DE MÉDICO, MAS TAMBÉM NO CLIMA DO CIRCO, ENTRA TRAZENDO UM COLETE DE COLUNA. MANGUEIRA -

Eis o colete.

ATORES -

Ohhhhhhhhhh !

MANGUEIRA -

Quando você menos esperar, vai estar sentado !

ATORES -

Ohhhhhhhhhh !

MANGUEIRA Aguente até quando der. No começo, vai doer um pouco, mas você precisa de acostumar . Assim que tiver se acostumando, nós iremos inclinando a cama devagarinho. Até você ficar sentado....... PÕE O COLETE EM MARCELO. INCLINA A CAMA DE UMA VEZ, COM FORÇA. MARCELO FICA MEIO SENTADO, OLHANDO, COM DOR. NÃO AGUENTA MUITO E GRITA. MARCELO -

Tira! Tira! Tira!

MANGUEIRA TIRA O COLETE. HORIZONTAL NOVAMENTE.

COLOCA

A

CAMA

NA

POSIÇÃO


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................28

MARCELO -

Ufa !

CORO -

Ufffffffffaaaaaaaa !

MANGUEIRA De manhã , eu quero colete. À tarde, eu quero colete. Mas, à noite, mais colete ainda! Temos que vencer essa etapa, não é garotão??? MARCELO -

(QUASE SEM FÔLEGO) É isso aí ..... Mangueira!

MANGUEIRA -

Vamos embora!

NOVAMENTE A MÚSICA DE CIRCO. TODOS SAEM FAZENDO EVOLUÇÃO. CORTE NA MÚSICA. BLACK TOTAL. SÓ MARCELO NO PALCO, DEITADO NA CAMA.

CENA 15 NO ESCURO, CASSY ACENDE UM SPOT. ANA ENTRA COM UM ESPELHO. CASSY BATE O FOCO NO ESPELHO E ESTE REFLETE A LUZ, COMO SE FOSSE O SOL. CASSY -

Ei , Marcelo ... Ei , Marcelo ....

MARCELO -

Quem tá aí? É o Cassy?

CASSY -

Com um presente pra você. Ao vivo e em cores.

ANA Pra te esquentar a vida ... Pra iluminar teus olhos ... Pra te queimar o corpo .... ANA E CASSY CANTAM -

Como uma bola vermelha rompendo a placenta do espaço explode uma imensa centelha que é fogo, que é brilho, que é aço. Como uma praia deserta ao longo de um mar eterno o sol se estende alerta e é céu, é terra e inferno. Como uma rosa exangue colhida na hora da estrela


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................29

sua cor se mancha de sangue e pinga, esguicha e espelha. Como uma faca brilhante cortando a nuvem de cal sua ponta espeta o horizonte que cai, ferino e fatal. Deixa o sol entrar deixa o sol entrar deixa o sol ! ELES GIRAM COM O ESPELHO E O SPOT, POR TODA A CENA. MARCELO ESTÁ MUITO, MUITO EMOCIONADO . MARCELO Porra , eu nem sabia mais como era o sol . E ele tá aí ... Tá aqui Porra ..... o sol existe, sim ... é uma bola de fogo que me queima, quente, quente ..... Bate na minha retina .... e cega.... Lindo demais .... É como se fosse uma praia .... Como se fosse uma brasa .... Queima .... Esquenta .... Arde ... QUE MARAVILHA! EXPLODE UM ROCK BEM PESADÃO. CASSY VAI VIRANDO FRENETICAMENTE O SPOT, CRIANDO UM CLIMA DE LOUCURA. MARCELO E ANA SAEM .

CENA 16 AO SOM DO ROCK PESADO, OS ATORES ENTRAM PARA UMA FESTA. CONTINUA A MÚSICA. ROLA UM BASEADO DE MACONHA ENTRE ELES . TODO MUNDO MUITO, MUITO LOUCO. ABRAÇAM-SE, DANÇAM, ETC... TEMPO. ENTRA UMA GAROTA, VESTIDA COMPLETAMENTE FORA DE MODA, TIPO CARETA, OUT MESMO. FICA NUM CANTO, SEM SABER MUITO O QUE FAZER. TEMPO. ENTRA MARCELO, COM UM PONCHO , CACHECOL, GORRINHO PERUANO, TODO LATINIDAD. MUITOS ABRAÇOS, GRITOS, BEIJOS. ATOR -

Aí , Marcelo, deixa eu te apresentar Pilar, a paraguaia!

PILAR DANÇA TODA ANIMADA. MARCELO FICA LOUCO POR ELA ATOR -

Pilar, este é um amigo nuestro .... Marcelo .....

MARCELO -

Oi, tudo bien? (PRO ATOR) Gostou do bien ?


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................30

PILAR NÃO DÁ BOLA PRO MARCELO. CONTINUA A DANÇAR . MARCELO RONDA UM POUCO. O AMIGO O CHAMA. ATOR -

Cê não chega nela?

MARCELO -

Como que eu vou chegar, se a paraguaia não senta ?

ATOR -

Claro que senta ... Vai lá ....

MARCELO -

Tô dando um tempo ......

ATOR -

Pra que um tempo?

MARCELO ....

Pra treinar a cena que eu preparei, a cena de conquistar garotas

ATOR Vai lá com seu trunfo : o teu sorriso de machista liberal. Cê tá bonito .... tá na moda .... Tá parecendo estudante da PUC. MARCELO FICA UM POUCO EM DÚVIDA , MAS CHEGA PERTO DE PILAR. MARCELO Oi, tô lendo um livro incrível: Veias Abertas da América Latina. Eduardo Galeano. Puta mensagem! PILAR NÃO DÁ ATENÇÃO. MARCELO -

Ontem, ouvi o último disco da Mercedes Sosa ... Incrível !

PILAR NÃO DÁ BOLA MESMO. MARCELO -

E fui ver o show do Tarancón e do Raíces de America. Puta som!

PILAR PERDE A PACIÊNCIA . PILAR -

Tu es un babacón !

PILAR SAI. SAEM TODOS, DANDO RISADA DE MARCELO. ESTE FICA SEM JEITO. OLHA PRA LÁ, OLHA PRA CÁ E VÊ A GAROTA FORA DE MODA PARADA NUM CANTO. RESOLVE INVESTIR NELA. FOI O QUE SOBROU .... MARCELO -

Oi , tudo bem ?

NEIDE -

Tudo jóia...


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................31

MARCELO -

Tava boa a festa, né??

NEIDE -

Tava legalzinha pra xuxu!

MARCELO -

Como é seu nome?

NEIDE -

Neide.

MARCELO -

Neide?

NEIDE -

Ivoneide. Mas gosto que me chamem de Neide. Mais chic!...

MARCELO -

Certo... Chic... Neide, o que cê está fazendo aqui ainda?

NEIDE -

Tô esperando meu pai vir me buscar.

MARCELO -

Se cê quiser, eu te levo .... Limpezinha, sem problema .....

JÁ VAI SE CHEGANDO NELA. NEIDE FICA TODA ANIMADINHA. BUZINA DE CARRO. NEIDE -

Droga ! Meu pai chegou!

SAI CORRENDO. DEIXA MARCELO NA MÃO. BLACK.

CENA 17 QUANDO A LUZ SE ACENDE, RUBENS ESTÁ SENTADO DE FRENTE A EUNICE, NA MESA DO CAFÉ DA MANHÃ. ENTRA MARCELO, GAROTO. DEPOIS, BIG, SUA IRMÃ, DEPOIS OUTRA IRMÃ... SENTAM-SE TODOS, COMO SE ESTIVESSE TOMANDO CAFÉ. RUBENS Talvez seja só imaginação minha, Eunice .... Paranóia..... Telefonaram para mim, dizendo que tinham uma carta de um amigo do Chile .... Perguntaram onde eu morava .... Eu dei todo o endereço ..... Depois, a realidade, o medo da realidade caiu sobre mim .... Mas talvez não seja nada ..... Talvez seja só esse medo absurdo ....Talvez seja mesmo apenas uma carta de um amigo do Chile.... ENTRA UM MILITAR. RUBENS ENTENDE E SAI, DE MÃOS ATADAS. AS CRIANÇAS CORREM PARA O LADO DE EUNICE. O MILITAR SENTA-SE ACINTOSAMENTE NUMA CADEIRA, PONDO O PÉ EM OUTRA. ESTÁ COM UMA METRALHADORA.


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................32

MARCELO -

Tira o pé daí ! Minha mãe não gosta que ponha o pé na cadeira !

EUNICE -

Marcelo !

MARCELO -

É sim ! Só por que ele é guarda, pode?

EUNICE crianças....

O senhor poderia tirar o pé? É por causa do exemplo para as

MILITAR TIRA O PÉ DE MÁ VONTADE. MARCELO VAI SAINDO DE ONDE ESTÁ . MILITAR -

Ei, moleque, onde pensa que vai?

MARCELO -

Vou jogar bola.

MILITAR -

Não pode.

MARCELO -

Por que não pode?

EUNICE -

Marcelo.

MARCELO VOLTA PARA SEU LUGAR . MARCELO -

O que esse cara tá fazendo aqui?

TEMPO. EUNICE TIRA UM CIGARRO. RASGA O PAPEL DO MAÇO, ESCREVE ALGUMA COISA RAPIDAMENTE, PÕE O PAPELZINHO DENTRO DA CAIXA DE FÓSFORO. ENTREGA A CAIXA DE FÓSFOROS PARA MARCELO. EUNICE Tenta chegar na casa da Helena e entrega isto para ela. Sai pelo quarto de empregada. Vai pelo telhado. Mas cuidado. MARCELO PEGA A CAIXA DE FÓSFORO. CHEGA PERTO DO MILITAR . MARCELO -

Vou fazer xixi.

SAI CORRENDO. LUZ CAI. FOCO SÓ EM MARCELO NUM CANTO DO PALCO. TODOS OS OUTROS SAEM DE CENA. MARCELO TIRA A CAIXA DO BOLSO, ABRE, PEGA O PAPELZINHO E LÊ. MARCELO (LENDO) “Helena, o Rubens foi preso. Ninuém pode vir aqui, que será preso também. Eunice.”


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................33

LUZ MUDA. MARCELO JOGA A CAIXA. VOLTA, IMEDIATAMENTE A SER ADULTO. CONTINUA O FOCO SOBRE ELE.

CENA 18 LUZ SOBRE MARCELO, QUE VOLTOU A SER ADULTO. CAMINHA EM DIREÇÃO À CAMA. MARCELO Eu não aguento mais! Eu não aguento mais.... Essa dor de barriga que não passa .... Eu não consigo dormir ..... VAI SE DEITANDO NA CAMA. MARCELO Me dêem uma injeção .... Me dêem uma porrada na cabeça .... Mas eu quero dormir .... Façam alguma coisa .... Senão, eu vou começar a gritar aqui no hospital .... Vou gritar meu nome .... meu nome é Marcelo Paiva .... Marcelo Rubens Paiva.... FOCO EM EUNICE, NO OUTRO CANTO DO PALCO, EM PÉ E FUMANDO EM SILÊNCIO. MARCELO -

(BERRANDO) Marcelo Paiva.... Marcelo.... Rubens.... Paiva....

CALA-SE, EXAUSTO. CORTE DE LUZ NELE. FICA SÓ EM EUNICE. EUNICE Vinte e três de janeiro de 1 971. São cinco horas da manhã. Eles acabaram de passar por aqui, exigindo que cada preso dissesse o seu nome. Eu disse o meu. Mas não ouvi o seu, meu querido, gritado ou gemido em nenhuma cela. Onde você está? Tenho ligado todas as minhas antenas, aguçado meus ouvidos, posto meu cérebro a mil, para tentar descobrir alguma pista, algum indício da sua presença. Mentira. Da sua presença, não. A sua presença está aqui, na minha mão, no meu olho, na minha boca. São cinco horas da manhã e todos os presos gritaram seus nomes, para que não consigam dormir. Eu ouvi um por um, menos o seu. Só o meu coração grita o seu, o tempo todo, o tempo, pingando cada sílaba insistentemente, como essas goteiras, que eles deixam nas celas, sobre as cabeças, para que se enlouqueça de vez. São cinco horas da manhã e não ouvi o seu nome. A ausência do seu nome, Rubens, é a minha imensa solidão. Rubens! LUZ CAI SOBRE EUNICE. BLACK.


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................34

CENA 19 LUZ. MARCELO, BIG E A OUTRA IRMÃ DESMONTAM AS CADEIRAS QUE FICARAM DA CENA DO CAFÉ DA MANHÃ . MARCELO -

Eu não quero ir pra Petrópolis!

BIG -

Cê é bobo. É super bobo. Lá tem piscina .... tem até tênis.

MARCELO -

Eu não sei jogar tênis.

IRMÃ 2 -

Aprende, né, seu bocó!

MARCELO -

Eu não gosto. Eu gosto de futebol.

BIG -

Marcelo, eles não vão soltar o pai e a mãe?

MARCELO -

Claro, Big .... Cadeia é coisa pra bandido!

CORTE. BLACK OUT.

CENA 20 QUANDO A LUZ SE ACENDE, ENTRA UM GENERAL, ACOMPANHADO POR EUNICE. O MILITAR FAZ GINÁSTICA DURANTE TODO O TEMPO QUE CONVERSA COM ELA. MILITAR Dona Eunice, nós não temos absolutamente nada a dizer a respeito do seu marido. Talvez a senhora mesmo saiba mais do que todos nós. A senhora pode procurar em todos os lugares, em todos os quartéis, em todas as prisões. O deputado Rubens Paiva não está em nenhum desses lugares. O deputado Rubens Paiva não está preso. EUNICE Eu tenho um recibo , assinado, da devolução do carro dele. Quando os senhores o prenderam..... MILITAR intimado a depor.

Nós não prendemos ninguém. O deputado Rubens Paiva foi

EUNICE Quando os senhores o intimaram a depor, ele veio dirigindo o próprio carro. Esse carro ficou estacionado aqui. E depois foi retirado pela irmã dele, que exigiu um recibo. Esse recibo lhe foi entregue.


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................35

MILITAR -

Esse recibo não prova nada.

EUNICE -

Como não prova nada?

MILITAR Dona Eunice, a versão mais convincente é essa mesma que os jornais estão publicando. O deputado Rubens Paiva foi retirado de um de nossos carros, quando estava sendo levado para um depoimento, por seus companheiros subversivos. Houve tiroteio, ele se aproveitou, correu e fugiu. Temos até o carro baleado para mostrar a quem quiser ver. EUNICE Como que o Rubens, que era gordo, cardíaco e diabético, podia correr? Além disso, ele não estava algemado? E a segurança que ia junto com ele? Como ele pôde fugir? MILITAR Eu não sei de onde seu marido tirou forças para fugir, dona Eunice. Mas ele fugiu. Às vezes, as pessoas são capazes de ações espetaculares, em situações como essa. EUNICE organização ....

Eu não acredito. O Rubens não tinha envolvimento com nenhuma

MILITAR -

Talvez a senhora não estivesse bem informada .....

EUNICE Eu sabia de tudo, absolutamente de tudo o que se passava na vida do meu marido. A única coisa que eu não soube, e talvez nunca saiba, é o que os senhores fizeram com ele. Onde está ele agora? Eu sei que ele está morto. Mas como? Mas quando? Mas onde? E o corpo? E o corpo do meu marido, onde está? MILITAR -

Calma, dona Eunice.

EUNICE Calma? O senhor me pede calma? Eu estou cansada de ter calma. Eu tenho tido calma até demais pra enfrentar essa situação absurda. Mas eu não desisto. Eu vou até o fim. Os senhores não se livrarão tão facilmente de mim. MILITAR -

Talvez ele tenha sofrido apenas alguns arranhões ....

EUNICE O Rubens não é homem de sofrer arranhões. Ou ele sai ileso, ou leve um golpe fatal na cabeça. Algo que o destroce de vez, que o deixe paralítico, indefeso, ou morto. MILITAR SAI. FOCO SÓ SOBRE EUNICE, QUE VAI PARA UM CANTO DO PALCO, NA PENUMBRA. ATORES CRUZAM O PALCO, DIZENDO RAPIDAMENTE AS FRASES.


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................36

ATOR para lá.

Seu marido está em Fernando de Noronha . Eu mesmo o levei

ATOR 2 -

Está preso no Xingu e passando bem.

ATOR 3 -

Está internado num hospício, como indigente.

ATOR 1 -

Está no Uruguai, esperando um momento melhor para voltar.

ATOR 2 -

Está numa embaixada, asilado.

ATOR 3 (CHEGA-SE EM EUNICE) Dona Eunice, seu marido foi espancado na minha frente , até cair no chão, sobre uma grande poça de sangue. LUZ VAI CAINDO SOBRE EUNICE. ESTA ABAIXA A CABEÇA. A LUZ MUDA TOTALMENTE, ENQUANTO ELA SAI.

CENA 21 LUZ BRANCA DE UTI. BARULHO DOS APARELHOS DE HOSPITAL, MARCELO DEITADO NA CAMA IMÓVEL . MARCELO Meu Deus, eu quero tanto sair desta porra de hospital . Cair fora, tar na cidade, dar de cara com as pessoas na rua, tomar chuva, ver tudo .... Fugir .... fugir .... Nem que seja me arrastando por estes corredores brancos de merda, me enfiando nas frestas das portas dos quartos, me esgueirando por entre macas, camas e tubos de oxigênio. FOCO EM RUBENS, QUE APARECE EM UM CANTO, EM UM CLIMA DE MEMÓRIA. RUBENS -

Você anda lendo muito gibi.

MARCELO -

Deita aqui. Quero ver se cê aguenta.

RUBENS -

Você está no hospital para se curar.

MARCELO Às vezes, eu acredito nisso. Então, consigo ter paciência. Outras vezes, me bate o desespero e fico achando que a única coisa que vou poder fazer na vida vai ser vender bilhete de loteria na Praça da Sé. RUBENS -

Isso é autopiedade.


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MARCELO Autopiedade, o caralho. Cê sabe, pai, que eu reclamo, xingo, resmungo, mas no fundo tenho um puta medo de sair daqui do hospital. RUBENS -

Por quê?

MARCELO De certa forma, o hospital me dá uma tremenda segurança. Mas, o meu grande medo é perceber que, em termos médicos, meu caso está definido. Agora, é só esperar o tempo e a recuperação. RUBENS -

Então, espere o tempo e a recuperação.

MARCELO Mas que merda é essa de medicina que não serve pra nada? Será que ninguém vai me curar? Será que a ciência não inventou uma porra de injeção que me cure? Nenhum tipo de operação? Nada, só eu e meu corpo? RUBENS -

Lute, Marcelo, lute!

MARCELO Não dá. Sou muito imaturo pra lutar sozinho. Preciso da ciência, das drogas, dos bisturis. Será que ninguém tem um remédio? Acupuntura? Macumba? Reza? Deus?... Puta que o pariu: o homem foi à Lua e ainda não descobriu a cura para uma lesão de medula. Vai todo mundo tomar no cu! FOCO SOBRE RUBENS VAI CAINDO EM RESISTÊNCIA. RUBENS Cacareco!

Que é isso, Marcelo? Que é isso, Cacareco! Ei , Cacareco! Ei,

LUZ VAI MUDANDO.

CENA 22 LUZ MUDA PARA ALGO MEIO MÁGICO . MARCELO ESTÁ FORA DA CAMA . É GAROTO. JUNTO, ESTÁ BIG, SUA IRMÃ. ESTÃO NA PRAIA DE SANTOS . MARCELO -

Cê ouviu, Big?

BIG -

Ouvi. Ouvi direitinho. O papai tá aqui em Santos.

MARCELO -

Ali.

OS DOIS CORREM PARA UM DOS LADOS DO PALCO.


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BIG -

Não, é ali !

MARCELO -

(GRITANDO) Pai ! Rubens Pai! Rubens Pai!

MARCELO E BIG -

Rubens Pai! Rubens Pai!

MARCELO E BIG PARAM DESANIMADOS . BIG -

Acho que vinha lá do meio do mar!

MARCELO -

Acho que vinha da avenida! Ali, do meio dos carros.

BIG -

A gente não vai mais encontrar o Rubens, Marcelo?

MARCELO -

Não sei, Big, não sei! (TEMPO) Olha um navio lá!

BIG -

É grandão.

MARCELO -

De que cor é a bandeira dele?

BIG -

Não sei ..... não dá pra ver .....

MARCELO -

É azul, sua boba. Vamos correr até a Ilha Porchat?

BIG -

Vamos !

SAEM CORRENDO, DANDO VOLTAS PELO PALCO . BIG -

Espera eu, Marcelo .... Espera eu .....

MARCELO -

Vamos, Big, vamos ......

NUMA DAS VOLTAS, AMBOS DESAPARECEM NAS COXIAS.

CENA 23 MARCELO REAPARECE CORRENDO. JUNTO, ESTÁ RUBENS. AMBOS DE MAIÔS . COMO SE NADASSEM. MAS FAZENDO OS MOVIMENTOS EM PÉ . RUBENS o Country Club.

Ali é o canal do Jardim de Alá. A gente pode chegar nadando até


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MARCELO -

A gente não consegue!

RUBENS Quem disse que não consegue? Quem disse que não consegue? Os Paiva? A gente vai nadando e quando chegar na frente do Country, dá um susto na granfinagem! OS DOIS NADAM. MARCELO -

Pai, eu tô com medo das ondas!

RUBENS cabeça. Assim.

Não tem que ter medo, não filho. Se a onda vier, entre nela de

OS DOIS FURAM UMA ONDA. MARCELO -

Pai, acho que me afoguei!

RUBENS -

Que afogou, nada. Aí vem outra! Vamos, de cabeça.

FURAM OUTRA ONDA. CAEM EXAUSTOS CONTEMPLAM A BAÍA DE GUANABARA.

NO

CHÃO.

TEMPO.

RUBENS Esse mar do Rio de Janeiro é lindo . Eu imagino a cara da portuguesada quando chegou e viu esta maravilha. Deviam construir um trampolim imenso aqui, pra gente pular de cabeça em plena baía de Guanabara. Ia ser lindo! Assim! Xiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii ! CORTE DE LUZ NOS DOIS. ACENDEM-SE FOCOS SOBRE UM TRAPÉZIO . RUBENS E MARCELO SAEM NA PENUMBRA.

CENA 24 FOCO NOS TRAPÉZIOS . BARULHO DE HELICÓPTEROS. DOIS MILITARES NOS TRAPÉZIOS. MILITAR 1 -

Essa baía de Guanabara é linda!

MILITAR 2 -

E funda!

MILITAR 1 -

Preparar para soltar a carga!

MILITAR 2 -

Acho que ele nunca pensou em mergulhar desta altura!


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MILITAR 1 -

Dá o rasante!

BARULHO DE RASANTE DE HELICÓPTERO. DESAPARECE FOCO NOS MILITARES. FOCO NO OUTRO TRAPÉSIO. RUBENS E MARCELO DIRIGEM UM AVIÃO. RUBENS -

São Paulo está ali, filho! Olha lá, Marcelo!

MARCELO -

Deixa eu segurar o manche, pai. Deixa!

RUBENS Segura firme, comandante... Os nazistas estão bombardeando os caças aliados. As bombas V 2 vêm de todo o lado. Mas o comandante Marcelo Paiva vai se desviando delas. Ele é um herói dos espaços. A carga que ele transporta é muito importante! FOCO SOBRE OS MILITARES. O FOCO SOBRE MARCELO E RUBENS SE MANTÉM . MILITAR 1 Dez ..... nove.... oito.... sete.... deis.... cinco.... quatro.... três.... dois.... um.... zero.... SOLTAR ! MILITAR 2 -

E lá se foi nossa carga importante !

UM ZUMBIDO TERRÍVEL TOMA CONTA DE TODA A CENA . FOCO DOS MILITARES SOME. FOCO SOBRE RUBENS E MARCELO CAI LENTAMENTE . MARCELO DESCE DO TRAPÉZIO E, DO CHÃO, FICA VENDO O PAI QUE DESAPARECE LENTAMENTE EM RESISTÊNCIA. MARCELO VAI ATÉ A CAMA DE HOSPITAL E SE DEITA. CORTE NO FOCO SOBRE RUBENS.

CENA 25 MARCELO ESTÁ DEITADO. ENTRA ANA E COMEÇA A MASSAGEAR A BARRIGA DELE. MARCELO -

É... Meu pai realmente morreu!

ANA -

Não pensa nisso, Marcelo. Já faz tempo!

MARCELO -

E eu, de certa forma, morri também!

ANA Não, não morreu não .... Cê tá mal .... Tá muito doente .... Tá com problema sério .... Mas as coisas vão dar certo.


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MARCELO -

Por que cê tem pintado aqui, Ana?

ANA -

Porque eu gosto de você!

MARCELO -

Então, por que não deu certo?

ANA -

Não deu certo o quê?

MARCELO -

O nosso amor.

ANA -

Porque não era amor. Era paixão.

MARCELO Cê gostou de mim ? (NÃO PARA ANA) É muito importante para um cara saber se uma mulher gostou dele. (PARA ANA) Mas sempre foi muito bom, não foi? ANA Sempre foi muito bom. (NÃO PARA MARCELO) E se eu engravidar? Isso não sai da minha cabeça. A primeira vez de uma mulher é sempre muito importante. Eu tinha medo de ficar grávida. Mas não via a hora de entrar naquela barraca. MARCELO PULA DA CAMA. MARCELO -

A gente tinha tomado um tantão de vinho.

ANA -

Foi na praia. Cê me carregou no colo, como num filme.

MARCELO CARREGA ANA. COMEÇAM A RODOPIAR. MÚSICA MUITO SUAVE. COLOCA ANA DELICADAMENTE NO CHÃO. FICAM JUNTOS. MARCELO -

Me dá um beijo?

BEIJAM-SE. MÚSICA AUMENTA. A INTENSIDADE ENTRE ELES TAMBÉM. MAS NÃO SE TOCAM . MARCELO -

Cê tá tensa?

ANA -

Um pouco. Se doer eu te aviso!

MARCELO -

Tá tudo bem?

ANA -

A gente tá suando demais!

MARCELO -

Isso é bom. A gente fica mais colado!


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OLHAM-SE . TEMPO. ABRAÇAM-SE. CAEM NO CHÃO. MARCELO -

Eu vou gozar!

ANA -

Eu também!

BEIJAM-SE FORTEMENTE. MARCELO -

Eu te amo, Ana!

ANA -

Eu te amo, Marcelo!

LEVANTAM-SE. RODOPIAM. ANA SE DESPRENDE DELE E SAI SUAVEMENTE. MARCELO, DE ALEGRIA, PULA NO AR. ESTOURA A MÚSICA CIRCENSE. ANA SAI.

CENA 26 MÚSICA CIRCENSE . MARCELO PULA NA CAMA. ENTRAM OS ATORES NOVAMENTE VESTIDOS DE PALHAÇOS. ATORES -

O DR. MANGUEIRA !

ENTRA O DR. MANGUEIRA. MANGUEIRA E, agora, Marcelo, você vai ficar sentado! Nós vamos colocá-lo na posição vertical. Você vai ficar um pouco zonzo. É normal! ATORES -

Normalíssimo!

MANGUEIRA -

Pode ser até que desmaie. É normal!

ATORES -

Normalíssimo!

MANGUEIRA COLOCA MARCELO SENTADO. MANGUEIRA -

E então?

MARCELO -

Acho que vou ....

MARCELO DESMAIA. MANGUEIRA DÁ DOIS TAPAS NO ROSTO DELE. MARCELO VOLTA A SI .


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MARCELO -

O que aconteceu??

MANGUEIRA -

Você desmaiou. É normal!

ATORES -

Normalíssimo!

MARCELO -

Mas por que eu desmaiei?

MANGUEIRA -

Seu coração está bombeando menos sangue que o normal e....

ATORES -

Normalíssimo!

MANGUEIRA SE IRRITA. PEDE SILÊNCIO. MANGUEIRA Seu coração mandou pouco sangue para o cérebro. Pouco sangue significa pouco oxigênio. O sangue não consegue subir direito, paralisando as atividades por um momento. MARCELO -

E se eu ficasse mais tempo desmaiado?

MANGUEIRA Depois de uns quinze minutos, provavelmente, seu cérebro pararia. É normal! ATORES -

Normalíssimo!

MARCELO -

E depois?

MANGUEIRA -

Depois, você morreria. É normal!

ATORES -

Normalíssimo!

MANGUEIRA -

E, agora, a cadeira de rodas!

A CADEIRA DE RODAS DESCE DO TETO, TODA BRILHANTE, ENQUANTO ESTOURA O SAMBA-ENREDO, PUXADO POR MANGUEIRA E DANÇADO PELOS ATORES. MANGUEIRA -

(CANTANDO) Vejam que maravilha esta é a coisa mais linda que se pode pedir. E ela é mais uma que brilha vamos todo mundo aplaudir. Para alegria geral, geral, de todos aqui no hospital


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em todo o universo não existe nada igual é a cadeira que comanda o carnaval. Se a moda pega todo mundo vai rodar. É melhor ir de cadeira que pedir pra carregar. A CADEIRA CHEGA AO CHÃO. OS ATORES CADEIRA. MANGUEIRA inteiro!

COLOCAM MARCELO NA

E, agora, Marcelo, você está preparando para conhecer o hospital

EMPURRA A CADEIRA. CASSY E ANA PEGAM A CADEIRA. VÃO EMPURRANDO, CANTANDO O SAMBA, ENQUANTO OS OUTROS DEIXAM A CENA.

CENA 27 MARCELO PÁRA A CADEIRA. OLHA. CASSY E ANA ESTÃO COM ELE. CASSY -

Esse terraço é um barato,né?

MARCELO -

É São Paulo?

CASSY -

Inteirinha procê. Do jeitinho que cê pediu.

ANA -

Suja, poluída, e cheia de trombadinha.

MARCELO Mas linda de morrer. É o Pacaembu lá? É o Minhocão? E aquelas árvores? Gente, São Paulo tem verde, tem verde mesmo .... E tem passarinho. ANA -

Não é passarinho. É guarda apitando.

MARCELO Deixa eu sonhar um pouquinho. É passarinho, sim ... E tem criança gritando enquanto brinca e tudo. ANA Deve ser nego sendo assaltado. criança brincando em play-ground .....

Mas, se cê prefere, deve ser


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MARCELO Eu prefiro, sim. E, agora, deixem eu sentir o som da minha Paulicéia Desvairada, Pirada, Enlouquecida .... CASSY E ANA SAEM. MARCELO FICA EM SILÊNCIO UM TEMPO. DE REPENTE , OUVE -SE MÚSICA DE DESFILE DE MODAS.

CENA 28 MARCELO VÊ ENTRANDO UM HOMEM TODO CHEIO DE ATADURAS, EM UMA CADEIRA DE RODAS. MARCELO Desfilando pela passarela, velho que foi operado do cérebro. Um metro e setenta, 58 kilos, estado emocional confuso ..... VELHO ATRAVESSA O PALCO E SAI. ENTRA UM LOUCO, ANDANDO DESVAIRADAMENTE COM SUA CADEIRA DE RODAS . LOUCO -

Ó, ó o que eu consegui , uma cadeira de rodas cross ......

APARECE UMA ENFERMEIRA CORRENDO ATRÁS DO LOUCO . ENFERMEIRA - Da próxima vez que cê roubar uma cadeira de rodas, eu corto as suas duas pernas. Quer dar uma voltinha? Quer? Então, vamos passear na escada! LEVA O LOUCO ATÉ A COXIA. JOGA A CADEIRA DE RODAS. BARULHO DE GENTE DESPENCANDO. A ENFERMEIRA SAI, TODA CALMA E FELIZ... APARECE MENINO COM MULETA . MARCELO Desfilando pela passarela menino que amputou a perna por algum motivo desconhecido. Altura: l,12... Peso: 40 Kg... Perna: no lixo... estado emocional: infantil... Sorridente e simpático. O MENINO PÁRA DIANTE DE MARCELO. SORRI. MENINO -

Oi, tudo bem?

MARCELO -

Tudo bem, e você?

MENINO -

Tudo.

MARCELO -

O que cê tem nesse saquinho?


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MENINO -

Mijo.

MARCELO -

Ah!

MENINO -

Cê vai ficar bom?

MARCELO -

Claro que vou.

MENINO -

Quer que eu reze procê?

MARCELO -

Quero.

MENINO -

O que foi que aconteceu?

MARCELO Cê é enxerido, não? Não vou dizer que tive uma lesão medular com fratura na quinta cervical, porque cê não vai entender porra nenhuma. MENINO -

Ah, é? Então, vai tomar no cu!

SAI TODO FURIOSO E MANCANDO. GRITARIA. ENFERMEIRA ENTRA CORRENDO. ENFERMEIRA -

O louco pôs fogo no quarto dele e tá lá!

O LOUCO ESTÁ SE BALANÇANDO NO TRAPÉZIO, COMO SE FOSSE A JANELA DO QUARTO DELE. O VELHO E O MENINO ENTRARAM TAMBÉM. MARCELO CHEGA PERTO. ENFERMEIRA -

O que a gente faz?

MARCELO -

Apaga o fogo.

ENFERMEIRA -

Mas a porta tá trancada.

MARCELO -

Arromba.

ENFERMEIRA -

Boa idéia!

ENFERMEIRA LEVA TODO MUNDO PRA PERTO DO TRAPÉZIO. ENFERMEIRA -

A gente apaga o fogo ou pega o louco?

LOUCO -

Apaga o fogo e depois eu falo o que tenho para falar.

ENFERMEIRA -

Dá licença?


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ARRANCA O SAQUINHO DE XIXI DO MENINO APAGA O FOGO E JOGA O XIXI NO PÉ DO VELHO. ESTE FICA FURIOSO. MARCELO -

Ô louco, o que cê tá fazendo aí?

LOUCO -

Não vem não, cara. O louco aqui sou eu.

MARCELO dólares.

Então, desce daí .... Já sei, cê quer um helicóptero e um milhão de

LOUCO -

Eu não quero helicóptero ....

MARCELO -

Por quê?

LOUCO -

Porque eu tenho um puta medo de altura.....

MARCELO -

Então, desce daí ...... Já sei, cê quer a minha vó como refém ....

LOUCO -

Eu quero a vó dele como refém .....

MENINO hein louco ......

Que vó, louco? Aqui não tem vó nenhuma .... Cê tá muito louco,

LOUCO -

Eu desço, se me derem uma cadeira de rodas igual a do velho.

TODOS OLHAM PARA O VELHO. MENINO -

Ô velho, dá a sua cadeira pra ele .....

VELHO -

A minha não. Ela é do consórcio .....

O VELHO SAI CORRENDO DE CENA. LOUCO -

Não vai dar? Então, eu vou pular .....

FICA DEPENDURADO NO TRAPÉZIO. GRITARIA. CONFUSÃO. MÚSICA ANIMADA E ALTA, INICIANDO UMA AULA DE GINÁSTICA. SAI TODO MUNDO DE CENA , MENOS MARCELO, QUE FICA EM SUA CADEIRA, EM UM CANTO.


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CENA 29 ENTRA UMA PROFESSORA DE GINÁSTICA. PROFESSORA -

O primeiro exercício é com os braços. Assim, bem levemente.

VAI LEVANTANDO OS BRAÇOS. MARCELO VÊ E ACHA QUE PODE FAZER TAMBÉM. MARCELO -

Esse eu acho que consigo!

A PROFESSORA DESEMBESTA A FAZER O EXERCÍCIO RAPIDAMENTE. MARCELO DESANIMA. PROFESSORA O segundo exercício é com as pernas. Uma flexão e um pulinho. Uma flexão e um pulinho. Uma flexão e um pulinho. O terceiro exercício é juntando as pernas e os braços. Vejam com que leveza eu faço esses movimentos. Rodopie e salte. Rodopie e salte. Rodopie e salte! O quarto exercício é juntando tudo. Assim! FAZ OS EXERCÍCIOS FRENETICAMENTE. PULA. GRITA. RODOPIA. JOGA OS BRAÇOS, AS PERNAS, TUDO. MARCELO ASSISTE, SEM ENTENDER NADA. PROFESSORA SAI, MUDANÇA DE LUZ.

CENA 30 ENTRA UM APRESENTADOR DE PROGRAMA DE TELEVISÃO. APRESENTADOR - Ninguém rindo. Ninguém batendo palma. Só pode fazer isso quando a luzinha acender. Gravando! Atenção!... Você é o Marcelo Paiva? MARCELO LEVANTA-SE DA CADEIRA. MARCELO -

Sou.

APRES -

Você que compôs o Diversões Eletrônicas, né?

MARCELO -

Não , essa é do Arrigo Barnabé .....

APRES Caralho .... sempre me dão a pauta em cima da hora .... Ah, você é aquele do pretinho que corre o tempo todo da polícia .... MARCELO -

Não .... esse é o Itamar Assumpção.


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................49

APRES -

Que cacete .... O que você compôs, então?

MARCELO -

O Bamba Novo .....

APRES O Bamba, cacete .... O Bamba ..... Gravando ..... Festival da Cultura, um festival jovem, feito por gente jovem e para gente jovem. Aqui ao meu lado, um jovem, que vai dar muito o que falar, com seu sambinha.... MARCELO -

É rock.

APRES Corta ! É rock, porra ... Gravando: Festival da Cultura, um festival jovem, feito para gente jovem, com gente jovem. Aqui ao meu lado um jovem .... VOZ OFF :

É aniversário dele.

APRES É mesmo? É seu aniversário?... Então, gente, vamos todos cantar o Parabéns a Você! CANTAM O PARABÉNS A VOCÊ . APRES -

E por que você compôs o Bamba Eletrônico?

MARCELO É Bamba Novo. É o seguinte: um dia, eu entrei numa loja de tênis e vi a quantidade de tipos que tinha por ali. Tinha tênis de tudo quanto era jeito. Tênis colorido, com risquinho, com florzinha, com tudo. Só faltava um que tivesse luzinha. Então, eu me lembrei do meu tempo de infância, quando só havia o velho e bom Bamba. Tinha aquela coisa de ser meu companheiro. Então, eu comprei um Bamba e fiz essa música em sua homenagem. APRES -

E o que você acha do Festival da Cultura?

MARCELO -

Não gosto.

APRES Então, você gosta? E, agora, com vocês, finalmente, Marcelo Paiva, O Bamba Novo ... e .... como é mesmo o nome do conjuntinho que vai te acompanhar? MARCELO -

Os Bostas!

APRES -

Como?

MARCELO -

Os Bostas!


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................50

APRES(QUASE CHORANDO) Marcelo Paiva, no Festival da Cultura, com sua música O Bamba Novo e Os Bostas ...... SAI O APRESENTADOR. TEMPO. MUDA A LUZ. MUDA O CLIMA DE COMÉDA. MARCELO, EMPURRANDO SUAVEMENTE SUA CADEIRA, MURMURA A LETRA DA MÚSICA, QUASE SEM CANTAR, E MUITO TRISTE. VAI SAINDO NESSE CLIMA. MARCELO -

Comprei um Bamba Novo ..... agora vou poder fugir .... da bomba H .... Subir arranha-céus ..... Quando a luz se apagar .... Comprei um bamba novo .... agora vou poder correr .... quando a nuvem chegar .... bater o recorde ..... de quantos metros cuspir ....

BLACK.

CENA 31 FOCO SÓ EM EUNICE, QUE ESTÁ EM UMA BANQUETA, DE RÔBE DE CHAMBRE , COMO DE FRENTE A UMA PENTEADEIRA IMAGINÁRIA. TEM UM POTE DE CREME NA MÃO, E UMA CAIXA DE LENÇOS DE PAPEL. PASSA CREME NO ROSTO. EUNICE Não há creme que tape estas rugas que estão começando a aparecer no meu rosto. Mas eu vou lutando contra elas. Se aparece mais uma, vai mais uma lambada de creme à noite .... Está ficando vaidosa, Eunice? Não. É que eu quero ficar menos gasta, menos apagada, menos entristecida ... Mas isso é bobagem ... Você passa creme apenas para reativar suas células mortas. Faz bem para a saúde. Você precisa cuidar da saúde. (PASSA MAIS UM POUCO DE CREME, EM SILÊNCIO) Eunice, encare-se friamente. Friamente, mulher. Você, por acaso, ainda acredita que ele possa voltar? (TEMPO) Não, claro que não. Isso é loucura. Isso é bobagem. Eu tenho que ser uma mulher fria, dura, feroz. Lutadora. Eu ainda tenho de brigar muito, muito, muito. Ele não volta mais. Eu sei que ele não volta mais! Eu tenho certeza de que ele não volta mais. (SILÊNCIO. COMEÇA A TIRAR O CREME COM OS LENÇOS DE PAPEL. VAI JOGANDO OS LENÇOS À SUA VOLTA, NO CHÃO) Mas, às vezes, eu acho que a saudade vai arrebentar meu peito. Que eu não vou conseguir mais segurar e vou abrir a boca e chorar tudo o que tenho direito. Eu tenho todo o direito do mundo de fazer isso ! (TEMPO) Não, não tem, Eunice. Você


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tem de ficar quieta, amargar isso dentro de você e ser forte. Sempre. (TEMPO) Mas, meu Deus, às vezes eu tenho tanta saudade de você. Uma saudade inteira, imensa, gigantesca. Parece que ainda me embelezo e me preparo para você. Para encontrar você. Parece que quero ficar nova, suave, limpa, cheirosa para que você venha devagarinho por trás e me de um beijo na nuca.... FOCO IRREAL SOBRE RUBENS A UM CANTO DO PALCO. ELE, COM SEU CHARUTO... OUVE-SE O “AS TIME GOES BY”. EUNICE Rubens, eu achei que estava enlouquecendo. Imagine, querido, que eu comecei a acreditar que você tinha morrido mesmo. Que eles tinham batido tanto em você, mas tanto, mas tanto, que você tinha despencado no chão, em cima de uma poça de sangue... E que, depois, eles tinham levado seu corpo para um avião e jogado na baía da Guanabara ... Eu pensei que fosse enlouquecer. Mas olha só que cabeça a minha. E você está aí! Tão bonito! Mais magro, mais elegante. Parece até mais moço ... E eu aqui imaginando tanta besteira. Eu tive muita saudade, meu querido ... Muita saudade. E vou confessar: eu tive um pavor imenso de que você estivesse morto. Um pavor horroroso, medonho, terrível! VOLTA -SE PARA ONDE ESTÁ RUBENS. MAS O FOCO JÁ SE APAGOU. FICA UM LEVE CHEIRO DE CHARUTO. FUMAÇA. A MÚSICA CESSA. BLACK.

CENA 32 NO ESCURO, MARCELO ENTRA EM SUA CADEIRA , EMPURRADO POR UM ATOR. ALGUÉM COM UMA LANTERNA OS CONDUZ. ESTÁ NUM CINEMA. SOM DE FILME EM INGLÊS. ALGUÉM CHEGA E ESBARRA NA PERNA DE MARCELO. ATOR 1-

Ô, moleque, cê quer tirar a perna pra eu passar?

ATOR 2 -

O senhor não pode dar a volta? Ele não pode mexer a perna.

ATOR 1 Eu não vou dar a volta. O filme já começou, ali tem um lugar e eu quero me sentar. Quer fazer favor de tirar a perna? ATOR 2 -

Ele não pode tirar a perna. Ele sofreu um acidente.

ATOR 1 Eu também já sofri acidente na vida. Quer fazer o favor de tirar essa perna, moleque? ATOR 2 -

(BERRA COM ÓDIO) ELE É ALEIJADO, PORRA !


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................52

LUZ SE ACENDE TODA. MARCELO ESTÁ DESAMPARADO EM SUA CADEIRA. OS ATORES SUMIRAM. SÓ ESTÁ EUNICE EM CENA.

CENA 33 EUNICE CHEGA PERTO DA CADEIRA. EUNICE Filho, eu posso fazer tudo, menos ajudar você a andar. Isso, de uma forma ou de outra, você vai ter de aprender. E sozinho infelizmente... A minha lição, apesar de muito parecida com a sua, não pode ser escrita no mesmo caderno. Cada um tem sua linha, a sua caligrafia e a sua caneta ... É muito duro ficar só, filho. Mas a gente aprende a sobreviver! ENTRAM OS AMIGOS DE MARCELO. CASSY -

Ei, Marcelo, que cara é essa? Vamos passear...

MARCELO -

Cassy, arruma o meu pé?

CASSY ARRUMA O PÉ DE MARCELO. CASSY -

Onde vamos?

MARCELO -

Avenida Paulista.

EUNICE -

Então, eu pego uma carona com vocês.

ELES SÃO INTERROMPIDOS POR SEIS ROBÔS QUE ENTRAM. ANA -

O que é isso?

MARCELO -

Os alunos do Objetivo.

OS ROBÔS SAEM. MARCELO -

Vamos pro índio da Sears.

CASSY -

Ah não .... Vamos pra Augusta, paquerar umas gatinhas.

ANA -

Então vamos pro MASP, paquerar uns gatinhos.


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................53

AMIGA -

Vamos pro Trianon, descansar.

ANDAM PELO PALCO. PARAM DIANTE DA ESCADA. EUNICE SOBE ALGUNS DEGRAUS . EUNICE -

Olha aqui o prédio onde eu trabalho.

MARCELO -

É aí, mãe?

EUNICE -

Word Trade Center.

MARCELO você.

World Trade Center ... qualquer hora eu jogo uma bomba em

TODOS PEGAM TUBOS DE SPRAY IMAGINÁRIOS. AMIGA -

(PICHANDO) Abaixo o Primo Carbonari.

CASSY -

Não adianta, dona Lucy, a senhora pinta, nóis picha!

ANA -

Ah , esse muro estava tão branquinho.

AMIGA -

Mamãe, eu dei .... e gozei !

CASSY -

E viva a Democracia Corintiana!

MARCELO -

O meu tem dedicatória: PT, saudações!

EUNICE (SEM PICHAR) Oh, meu Deus, foi aqui na Avenida Paulista que em 1 954 a gente viu a chuva de estrelas prateadas. Era 25 de janeiro. Quarto centenário da cidade. São Paulo inteira estava de olho no céu. E chovia prata sobre nossas cabeças. OS ATORES ACENDERAM ALGUNS PALITOS DE FÓSFOROS COLORIDOS E CHUVA DE PRATA. MARCELO Minha Menina Paulista, hoje eu queria fazer uma música em sua homenagem. Um rock, um blues maluco, um samba .... Alguma coisa que dissesse da minha imensa emoção em botar a minha cara na sua cara de novo .... Tem uma melodia pintando na minha cabeça .... Mas agora o braço não dá .... Mas eu ainda sou um compositor. ENTRA UMA MÚSICA MUITO SUAVE , ENQUANTO TODOS VÃO SAINDO DE CENA. LUZ CAI EM RESISTÊNCIA. BLACK.


FELIZ ANO VELHO.............................................................................................................. ..................54

CENA 34 MARCELO ESTÁ DEITADO. EUNICE ESTÁ SENTADA NA CADEIRA DE RODAS, AO LADO DA CAMA. MARCELO Mãe, hoje é dia 14 de dezembro. Tá fazendo um ano do meu acidente. Eu vou ficar bom? EUNICE Eu sentei aqui um pouquinho pra ter a sensação de como é andar de cadeira de rodas. É estranho. Como deve estar sendo estranho pra você, Marcelo, se recuperar, se reconquistar .... Quando mataram seu pai, eu pensei que não fosse ter força para resistir. E resisti. E criei vocês. Quando me telefonaram de Campinas, avisando do seu acidente, de novo pensei que não fosse resistir. Era o segundo mergulho que eu presenciava sem poder fazer nada. Uma impotência total. Mas resisti. Com a morte do seu pai eu consegui lidar porque, para mim, ficou clara a necessidade de descobrir quem era o responsável. Com o seu acidente não havia responsável! Mas acabei descobrindo que é possivel se deslocar o eixo da própria existência e tocar o barco adiante! ... Você tem esse corpo. Ele está diferente, está lesado, está deslocado, mas está aí! E você vai aprender a lidar com ele. Você vai refazer sua relação com o mundo. Na verdade, você renasceu. E essa é a grande diferença que há entre você e seu pai. MARCELO -

Uma enorme diferença, né?

EUNICE Você está vivo, Marcelo. Vivo. E disso não se abdica. E disso tem que se tirar prazer ... É verdade: hoje está fazendo um ano de seu acidente. Será que eu não deveria desejar um Feliz Ano Novo para você? MARCELO beijo?

Claro que sim, mãe. Claro que sim, Eunice. (TEMPO) Me dá um

EUNICE LEVANTA-SE LENTAMENTE DA CADEIRA. CHEGA ATÉ MARCELO. PASSA A MÃO PELA FRONTE DO FILHO E BEIJA-O TERNA E SUAVEMENTE. LUZ VAI CAINDO EM RESISTÊNCIA AZULADA, COM MÚSICA SUAVE AO FUNDO.

FIM

São Paulo, março/junho de 1983

FELIZ ANO VELHO peça Alcides Nogueira  

ALCIDES NOGUEIRA baseado em MARCELO RUBENS PAIVA CENA 1 LUZ MUITO BRANCA DE UTI. BARULHO INCESSANTE DE APARELHOS MÉDICOS. LUZ CAI EM RESISTÊ...