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FLORBELA ALCIDES NOGUEIRA


Esta peça fala da vida de FLORBELA ESPANCA, poeta portuguesa nascida em 1 894 e que se suicidou no dia em que completaria 36 anos, em 1 930. Morreu à mesma hora em que nasceu. Às duas da madrugada. Demorou muito para FLORBELA ESPANCA ser o que é hoje: reconhecida como uma das vozes mais importantes da poesia portuguesa, tão rica em poetas! Sua vida conturbada e a morte trágica fizeram de FLORBELA ESPANCA um enigma. Um mistério que, a cada dia que passa, mais fascinante fica, por conta da enorme gama de emoções e sentimentos que sua pessoa e sua poética geram, à medida que o tempo avança. Esta peça é sobre FLORBELA. Mas não se trata de uma biografia, e sim de uma tentativa de entender o que FLORBELA representa. Como mulher e como poeta. Como corpo e como voz, de onde provêm longínquos dobres de um sino que bate pela necessidade de se viver integralmente. Por isso, embora suicida e presa de profunda depressão, minha FLORBELA é iluminada. Uma luz interior que se espraia pelo Portugal de então, pelo resto do mundo de hoje. Assim, vejo um clima sombrio, onde a grande coloração azulada sai dela. E de seu irmão APELES. Da relação eternamente amorosa que mantiveram, para além dos limites das terras e dos ares. Para além dos desastres aéreos e dos comprimidos para dormir. Para além do Tudo. Basta um palco vazio. Que mostre toda a imensidão da charneca portuguesa. E sua solidão. Tão cara a FLORBELA. E tão cara a mim também! A charneca é a alma. Transposta para o palco, ela adquire a dimensão do eterno. Nesse palco vazio, à esquerda, uma chaise-longue. Nela, muitas vezes, FLORBELA estará deitada. Como se essa chaise-longue fosse o seu único descanso, na longa peregrinação em busca do auto-conhecimento. À direita do palco, os destroços do avião de APELES. Um HANRIOT 33. São os destroços do acidente que o matou, mas também os destroços dos sonhos não realizados. Mas que, no final, conseguem ser acionados e, assim, levantar vôo. Fazendo com que os dois irmãos consigam deixar a mísera e mesquinha carcaça humana aqui embaixo. No centro da cena, a ação biográfica se desenrola. O clima da peça, o décor, é sombrio, mostrando a sociedade de então. Triste, cinzenta, amarrada em sus vestidos negros e sapatos pesados. FLORBELA e APELES, no entanto, são claros! Móveis e soltos! A.N.


Para José João Cury, que me apresentou Florbela Espanca, quando eu começava a descobrir as belezas e as dores da poesia. Alcides Nogueira São Paulo - janeiro de 1988


"QUANDO ALGUM MORRE, DIZEM: OS VIVOS FICAM-SE A RIR! APESAR DO RISO Sテグ OS VIVOS QUE EU LAMENTO." FLORBELA ESPANCA


5 FLORBELA .................................................................

PERSONAGENS FLORBELA ESPANCA APELES ESPANCA JOÃO ESPANCA (pai de FLORBELA e de APELES) MARIANA INGLESA (mulher de JOÃO ESPANCA) ANTONIA LOBO (mãe de FLORBELA e de APELES) HENRIQUETA (empregada e segunda mulher de JOÃO ESPANCA) BUJA (a melhor amiga de FLORBELA) ALBERTO MOUTINHO (primeiro marido de FLORBELA) ANTONIO GUIMARÃES (segundo marido de FLORBELA) MÁRIO LAGE (terceiro marido de FLORBELA) PADRE I PADRE II PADRE III JUIZ I JUIZ II JUIZ III OFICIAL Na verdade, são SETE atores, pois: Os três maridos DEVEM ser representados pelo mesmo ator. ANTONIA e HENRIQUETA também DEVEM ser representadas pela mesma atriz. Os JUÍZES e PADRE devem ser representados pelos mesmos atores.


6 FLORBELA .................................................................

CENA 1 BLACK-OUT. OUVE-SE UM BARULHO DE AVIÃO ANTIGO, SOBREVOANDO TODO O PALCO E PLATÉIA. O BARULHO AUMENTA MAIS E MAIS. QUASE UMA COISA INSUPORTÁVEL. NISSO, UM GRANDE ESTRONDO. LUZ QUE SE ACENDE SÓ SOBRE A CHAISE-LONGUE, COLOCADA À ESQUERDA DO PALCO. FLORBELA, DEITADA NELA, FUMA E, LENTAMENTE, VAI GIRANDO A CABEÇA EM DIREÇÃO A UM PONTO À DIREITA DO PALCO. QUANDO SEU ROSTO ESTÁ TOTALMENTE POSICIONADO, ACENDE-SE FOCO À DIREITA. O AVIÃO DE APELES ESTÁ ALI, DESTROÇADO. APELES, EM UNIFORME DE AVIADOR E CACHECOL, TAMBÉM FUMA, RECOSTADO NO APARELHO. QUANDO APELES PERCEBE O OLHAR DE FLORBELA, SORRI DOCE PARA ELA. FLORBELA JOGA O CIGARRO, PULA DA CHAISE-LONGUE E VEM ATÉ O CENTRO DO PALCO.

FLORBELA -

Apeles!

APELES -

(SORRINDO) Não! Não! Fica!!! Nem um passo a mais!

FLORBELA -

(AINDA QUERENDO AVANÇAR) Apeles, meu irmão!

APELES -

Calma, Florbela!

OS DOIS SE OLHAM. FLORBELA, PARADA NO CENTRO DO PALCO. APELES, AINDA RECOSTADO NO APARELHO.

FLORBELA -

Você está ferido? Eu ouvi o estrondo... Eu vi quando as águas do rio se encresparam e seu avião foi caindo, como se fosse um pião bêbedo...


7 FLORBELA .................................................................

APELES -

(SORRINDO) Estou morto, Florbela!

FLORBELA FICA EM SILÊNCIO. DEPOIS RI. VAI VOLTANDO PARA A CHAISE-LONGUE.

FLORBELA -

Morto?... Não, você está brincando... Morto? Não é possível!...Você não morrerá nunca!

APELES -

Os jornais vão anunciar amanhã. Vão trazer com todas as letras que o aviador Apeles Espanca caiu com seu Hanriot 33 nas águas do Tejo. Caiu das nuvens para afundar na morte! (SOLTA UMA RISADA GOSTOSA)

FLORBELA -

Morto? (T) Não! Eu não autorizo a sua morte!

APELES -

Silêncio, Florbela! Olhe, vão fazer uma homenagem a você!

FLORBELA -

(ESPANTADA) A mim?

APELES -

A você. Um busto!

FLORBELA DEITA-SE NA CHAISE E FICA ESPIANDO. ENTRAM, EM COMITIVA, JOÃO ESPANCA, MARIANA, ANTONIA/HENRIQUETA, MARIDO E BUJA. EMPURRAM UM PEDESTAL, QUE DEVE TRAZER UM BUSTO DE FLORBELA AINDA ENCOBERTO. TODOS RODEIAM O PEDESTAL. SURGEM TRÊS PADRES ENCAPUZADOS. OS PADRES ESPANTAM AS PESSOAS. DEPOIS, VÃO EMPURRANDO O PEDESTAL PARA OS FUNDOS, LENTAMENTE, ATÉ SUMIREM NA ESCURIDÃO. APENAS UM PADRE FICA À MOSTRA. OS OUTROS, MAIS A COMITIVA, SOMEM.


8 FLORBELA .................................................................

APELES -

Não! Não! Continuem com a homenagem! Descubram a estátua de Florbela Espanca! Essa mulher foi uma poeta! Essa mulher foi uma mulher! (QUASE AMARGO) Essa mulher foi minha irmã!

PADRE I -

Essa mulher nasceu de uma relação indigna! Essa mulher foi leviana! Essa mulher não obedeceu às leis de Deus! Essa mulher se casou três vezes e têve amantes! Essa mulher não conseguiu procriar! Essa mulher fez da sua poesia a voz da luxúria e do desencanto! (FORTE) Essa mulher se matou!

APELES -

(FORTÍSSIMO) Não! Vocês estão errados! A Igreja não pode condenar Florbela Espanca... Não pode dizer...

FLORBELA -

(INTERVINDO) Apeles! Agora, quem pede calma sou eu... Não quero homenagens! Eu só gostaria que me enterrassem ao pé do Oceano ingênuo e manso, que rezasse à meia-noite em voz magoada as orações finais em meu descanso...

APELES -

Não! Não!

FLORBELA -

Há-de embalar-me o berço derradeiro o mar amigo e bom para eu dormir! Velei na vida o meu viver inteiro, e nunca mais tive um sonho a que sorrir! (T) E tu hás de lá ir... bem sei que vais... E eu do brando sono hei de acordar para os teus olhos ver uma vez mais! E a Lua há de dizer-me em voz mansinha: Ai, não te assustes... dorme... foi o Mar que gemeu... não foi nada... está quietinha...

FLORBELA ACABA DE DIZER ISSO E SE DEITA NA CHAISE. ACENDE UM CIGARRO. APELES VEM CALMAMENTE ATÉ ONDE ESTÁ FLORBELA. SENTA-SE NA CHAISE. CLIMA DE INTIMIDADE ENTRE ELES. DOCES.

APELES -

Eles iam inaugurar um busto seu! Aqui na nossa terra!


9 FLORBELA .................................................................

FLORBELA -

Os padres não deixariam nunca! (T) (FIRME) Violei as regras, meu irmão querido!

APELES -

Por isso se matou, Florbela?

FLORBELA ENCARA O IRMÃO.

FLORBELA -

Será que já não nascemos mortos?

ENQUANTO ELA COMEÇA A CONTAR, A LUZ DO CENTRO DO PALCO SE ACENDE. JOÃO ESPANCA E MARIANA FRENTE À FRENTE EM SILÊNCIO.

FLORBELA -

Será que eu, e depois você, já não tínhamos todo o destino traçado, quando nosso pai resolveu nos fazer? Quando ele foi procurar uma pobre mulher, para que ela se deitasse com ele e nos gerasse? Será, Apeles, que não foi nesse instante, que eu morri para a vida, ao invés de nascer para ela? E, depois, o mesmo com você?

LUZ SE APAGA NA CHAISE. FICA SÓ EM JOÃO ESPANCA E MARIANA.

JOÃO -

Mariana, deve compreender...

MARIANA -

Não, João Espanca, não compreendo... Eu sou sua mulher... Eu sou sua esposa... Eu lhe fui dada por Deus e pelos homens...

JOÃO -

E de que me adianta isso, se você não pode parir? Se você não pode encher esta casa de filhos? Eu quero uma criança, Mariana! Eu quero e vou ter uma criança...

MARIANA -

(SUBMISSA) Vai me deixar, João Espanca?


10 FLORBELA .................................................................

JOÃO -

Não! Vou ter com outra! Vou me deitar com alguém fértil, que engravide, e me dê um filho...

MARIANA -

(DURA) Eu não permitirei!

JOÃO -

Essa criança será trazida para casa, Mariana... E será criada por nós dois...Você será, oficialmente, a madrinha... Essa criança virá para cá!

MARIANA -

(DOLORIDA) Não suportarei isso!

JOÃO -

Suportará!

LUZ SE APAGA NOS DOIS. ACENDE NA CHAISE. FLORBELA OLHA PARA APELES.

FLORBELA -

Devo ter sido sempre algo monstruoso para a pobre Mariana...

APELES -

Nosso pai...

FLORBELA -

Não! Não fale de João Espanca! Ele só queria filhos... Só isso... Talvez nunca tenha pretendido mais nada da vida...

LUZ SE APAGA NA CHAISE. ACENDE NO CENTRO. JOÃO ESPERA, FUMANDO. ANTONIA TERMINANDO DE DAR À LUZ. MARIANA, NUM OUTRO PONTO. ANTONIA DÁ UM ÚLTIMO GRITO. O SINAL DE QUE PARIU. JOÃO ESPANCA APAGA O CIGARRO. MARIANA PERMANECE IMÓVEL. JOÃO VAI ATÉ ANTONIA. UMA CRIANÇA AO LADO DELA. JOÃO LEVANTA A CRIANÇA.

JOÃO -

Parece uma flor! É uma menina linda, Antonia... Parece uma flor!

ANTONIA -

E Flor se chamará!


11 FLORBELA .................................................................

ANTONIA ESTENDE OS BRAÇOS. JOÃO ESPANCA NÃO ENTREGA A CRIANÇA A ELA. VAI COM A CRIANÇA E ENTREGA A MARIANA.

JOÃO -

Aqui está Florbela...Cuide como se fosse sua filha!

MARIANA -

(COMOVIDA) Eu... Eu não tenho leite para essa menina!

JOÃO -

Antonia dará o leite! Como convém!

ANTONIA TIRA UM DOS SEIOS PARA FORA. SEGURA-O. OLHA FIRME PARA MARIANA.

ANTONIA -

Isto alimentará Florbela! É leite bom. Pobre, mas forte!

MARIANA E JOÃO ESPANCA SE RETIRAM COM A CRIANÇA. ANTONIA GUARDA O SEIO, HUMILDE. TEMPO PARA ELA, VAZIA. OLHANDO PARA O NADA. LUZ SE APAGA NO CENTRO E SE ACENDE NA CHAISE. FLORBELA PEGA APELES PELA MÃO.

FLORBELA -

Para a charneca! Para lá, Apeles... Eu sinto o cheiro dessa terra...

OS DOIS SAEM CAMINHANDO, FELIZES.

APELES -

Você sofreu?

FLORBELA -

Eu sempre tenho a impressão de que ficou em minha boca o gosto do leite da minha mãe...

APELES -

Eu quase não me lembro disso! Só sei que papai fez a mesma coisa... Deve ter aberto as pernas da pobre Antonia, dizendo: agora eu quero um menino...


12 FLORBELA .................................................................

FLORBELA -

Ela cuidou de nós como se cuidasse de bonecas... Talvez...

ENQUANTO OS DOIS CAMINHAM, LUZ SE ACENDE NOS FUNDOS. ANTONIA AMAMENTA UMA CRIANÇA, SOB O OLHAR SEVERO DE MARIANA.

APELES -

Mariana Inglesa devia sentir toda a inveja do mundo! Seios tão secos!!!

FLORBELA -

Não sei! Não sei como as duas conseguiam dividir essa questão... Talvez nem se importassem... Talvez não percebessem que nós é que sofríamos!

APELES -

Então, você sofria!

FLORBELA -

Eu me sentia vazia... Eu sempre me senti vazia... Por que acha que gostava tanto de estar na charneca? Porque esse campo era como se fosse o único berço... O único berço que realmente me acolhia...

FLORBELA SAI CORRENDO, CHAMANDO.

FLORBELA -

Vem! Vem, Apeles! A charneca está toda em flor!!! Vem!!!

APELES CORRE ATRÁS DELA... BRINCAM... NUM DETERMINADO MOMENTO, APELES DERRUBA FLORBELA. CAI SOBRE ELA. QUASE UM GESTO SEXUALIZADO. ARFAM. SILÊNCIO ENTRE ELES. OLHAM-SE.

APELES -

E se eu...

FLORBELA ESCAPA. COMEÇA A DIZER O TEXTO, SOFREGAMENTE. COMO PARA ESPANTAR TODOS OS SENTIMENTOS INTERIORES. APELES, A PRINCÍPIO, NÀO A OUVE. FICA DEITADO NO CHÃO.


13 FLORBELA .................................................................

FLORBELA -

(SÔFREGA) Apresento-lhe a charneca ao entardecer, a minha triste charneca donde nasceu a minha triste alma. Selvagem e rude, patética e trágica, tem a suprema graça, cheia de amargura, dos infinitamente tristes, a quem foi negada a doçura das lágrimas!

FLORBELA PÁRA DE FALAR. APELES LEVANTOU-SE. ESTÁ BEM DETRÁS DELA. ENLAÇA-A PELA CINTURA.

APELES -

Florbela, eu...

FLORBELA -

Apeles... A charneca é enorme e é simples; fala e escuta. O que eu lhe tenho ouvido...

APELES -

Deixe a charneca... E me ouça... Eu prometo! Eu prometo que só a você amarei...

FLORBELA -

(FIRME) Pois eu não!

APELES -

Mentira!

FLORBELA -

(GIRANDO A INTENÇÃO) Apeles, o que se passa em sua cabeça...

APELES -

O que se passa em sua cabeça?

FLORBELA -

Também é o que se passa em minha cabeça... Mas as nossas vidas...

ANTES QUE ELA CONTINUE, LUZ SE ACENDE NO FUNDO DO PALCO. TRÊS PADRES OBSERVAM A CENA. DE CABEÇAS BAIXAS. FLORBELA E APELES SE ENTREOLHAM.

FLORBELA -

Eles nos espionam!


14 FLORBELA .................................................................

APELES -

Correrei atrás deles! Jogarei esses malditos padres no rio, como se fossem pedras...

FLORBELA -

Virão outros... e mais outros... e mais outros... E outras pessoas... E outras gentes...

APELES -

O que quer dizer?

FLORBELA -

Solidão! Uma enorme solidão! Não é ressentimento deles... Não será a acusação deles... Não será nada disso... Eu buscarei nos braços de muita gente o carinho para acabar com esse monstro. Mas estarei só... E você estará só... Como estivemos sós quando fomos arrancados do útero da mãe e só pudemos estar em seus braços para mamar... Solidão! Apenas e tão somente isso, Apeles...

E FLORBELA SAI ANDANDO.LUZ ACENDE NO FUNDO DO PALCO. JÁ NÃO ESTÃO OS PADRES. ESTÁ ANTONIA, AMAMENTANDO DUAS CRIANÇAS AO MESMO TEMPO. FLORBELA CONTINUA ANDANDO, E FALANDO. AGORA MAIS CALMA. APELES SEGUE. LENTAMENTE. COMO QUE BEBENDO CADA PALAVRA DELA.

FLORBELA -

Janela aberta, noite alta, o luar canseiroso vem ainda dar a última demão de cal às paredes do meu quarto, e quando o sono me vem, enfim, fechar os olhos, ainda fica a trabalhar até de madrugada, até a esse instante em que a andorinha, a primeira ave acordada, solta o seu grito de ouro e atravessa, como uma flecha, o céu ainda pálido sobre a charneca ainda adormecida!

FLORBELA PÁRA. OLHA FIRME PARA APELES. LUZ SE APAGA SOBRE ANTONIA, QUE DESAPARECE.

APELES -

Florbela!


15 FLORBELA .................................................................

FLORBELA -

Amigo longínquo e querido, a triste charneca desdenhada envia-lhe, em nome de outra desdenhada ainda mais triste, um braçado de saudades acabadinhas de colher!

OS DOIS FICAM UM TEMPO SE OLHANDO. DEPOIS SE ABRAÇAM FORTEMENTE. UMA LUZ AZULADA, INCRIVELMENTE AZULADA, VAI ENCOBRINDO OS DOIS, NO CENTRO DO PALCO. BLACK-OUT.


16 FLORBELA .................................................................

CENA II

AINDA NO BLACK, UMA MÚSICA ALEGRE. MUITO ALEGRE. LUZ VAI SE ACENDENDO. ENTRANDO, COMO NUMA PROCISSÃO FAMILIAR, JOÃO ESPANCA, QUE TRAZ UM APARELHO DE CINEMATÓGRAFO... ATRÁS DELE, MARIANA, FLORBELA, APELES... UM POUCO MAIS ATRÁS, ANTONIA. TODOS FICAM NO CENTRO DO PALCO.

MARIANA -

Não acredito que isso funcione, senhor João Espanca!

JOÃO -

Como não, Mariana? Trata-se do famoso cinematógrafo! Verão figuras animadas... Movimento... Fantasia...

FLORBELA -

Começa!!! Começa, pai!

JOÃO -

Um momento! Não quero que você e Apeles tenham medo... Isto aqui é só uma imaginação... Entra pelo olho e nada mais... Não existe...

MARIANA -

Põe a funcionar, João! Estamos ansiosos!!!

APELES -

O que vai passar aí?

JOÃO -

Surpresa! Surpresa! Acomodem-se... Mariana, fique na frente! Apeles e Florbela, fiquem quietos! Preciso de concentração... (VOLTA-SE PARA TRÁS) Antonia, você pode assistir à fita também...

ANTONIA SE APROXIMA, HUMILDE.

ANTONIA -

Obrigada.

MARIANA -

Fique mais à distância, Antonia. Não vá atrapalhar a visão dos meus filhos!


17 FLORBELA .................................................................

CRIA-SE CERTA TENSÃO. JOÃO ANIMA IMEDIATAMENTE.

JOÃO -

Lá vai!!!! Um... Dois... Três...

DO APARELHO, SAI UMA LUZ FORTEMENTE AZULADA. COMO UM CANHÃO. PRIMEIRO, EM DIREÇÃO À PLATÉIA. DEPOIS, PARA O TETO. MUITAS CORES, ENTÃO, COMEÇAM A INVADIR O PALCO. DOMINANDO TUDO. LINDAMENTE. GIRAM AS CORES. O SOM, COMO UMA CAIXA DE MÚSICA, ACOMPANHA AS CORES, COMO SE ESTAS DANÇASSEM. TODOS ESTÃO MARAVILHADOS. JOÃO ESPANCA, CHEIO DE SI. (T) FLORBELA SE LEVANTA. VAI EM DIREÇÃO À CHAISE, JÁ DIZENDO.

FLORBELA -

Não acredito em nada. As minhas crenças voaram como voa a pomba mansa, pelo azul do ar. E assim fugiram as minhas doces crenças de criança.

ELA CHEGA À CHAISE. A MÚSICA VAI SUMINDO. AS LUZES VÃO SE APAGANDO. BLACK NO PALCO. TODOS SAEM NO BLACK. ACENDE-SE LUZ MUITO TÊNUE, SÓ SOBRE A CHAISE. FLORBELA ACENDE UM CIGARRO. DÁ UMA LONGA TRAGADA. OBSERVA A FUMAÇA QUE SOBE, EM ESPIRAL. FLORBELA FALA, PENSATIVA.

FLORBELA -

Talvez eu fosse feliz... E não soubesse... Ou não me deixassem ver... Ou não percebesse direito... Não sei, não sei, eu tenho medo dessa confusão de sentimentos... Eu tenho medo dessa palavra que inventei só para mim: solidão... Medo... Medo do quê? Da morte?

SILÊNCIO PROFUNDO. JÁ NÃO HÁ MAIS NINGUÉM NO PALCO. FLORBELA FICA MAIS FIRME. REPETE.

FLORBELA -

Medo de quê? Alguém me reponda... Do que tenho medo? Eu não sou uma mulher como as outras: passo a maior parte da vida na cama ou na chaise-longue da minha salinha de estar, onde tenho os meus livros, as minhas flores e o meu cão: a cela de Sóror Saudade. Sou uma inválida, uma exilada da vida. O que mais me tortura são as teimosas


18 FLORBELA .................................................................

insônias. Só consigo dormir com Veronal, ou qualquer outra droga parecida... (PAUSA) De que tenho medo?

LUZ SE ACENDE EM APELES, JUNTO AO SEU APARELHO.

APELES -

Aos oito anos, você escreveu isto, Florbela: O que é a vida e a morte Aquela infernal inimiga A vida é o sorriso E a morte da vida a guarida A morte tem os desgostos A vida tem os felizes A cova tem a tristeza E a vida tem as raízes A vida e a morte são O sorriso lisonjeiro E o amor tem o navio E o navio o marinheiro.

ENTRA UM PADRE, QUE FICA POSTADO AO FUNDO DO PALCO. FLORBELA E APELES OLHAM PARA ELE.

PADRE II -

Por que desejar a morte, Florbela?

FLORBELA -

Eu não a desejo... Eu não ligo para ela... A morte, para mim, está aí... Só isso...

PADRE II -

Você se desesperou tanto com a morte de seu irmão...Quando o avião dele se arrebentou todo...

FLORBELA -

(GRITANDO) Apeles não morreu!

PADRE II -

Apeles está em mãos de Deus Nosso Senhor! Você deveria...


19 FLORBELA .................................................................

FLORBELA -

Não me ouse dar ordens! Não me ouse!!! Eu não suporto a autoridade!!! Por favor...

LUZ SE APAGA SOBRE A CHAISE-LONGUE E FLORBELA SAI NO ESCURO. LUZ FICA AINDA NO PADRE II E EM APELES.

APELES -

Não devia ter lhe falado sobre a minha morte... Florbela nunca mais se recuperou...

PADRE II -

Ela o amava?

APELES -

Em que sentido?

PADRE II -

Sabe a que me refiro, Apeles! Incesto!

ZUMBE UM SOM DE CHICOTADA QUE VARRE TODO O PALCO.

APELES -

Não! Vocês todos são indignos! Vocês nunca entenderam o que se passou na alma de Florbela! Por que não deixaram seus preciosos Evangelhos por um momento e leram os seus poemas?

LUZ SE APAGA SOBRE APELES, QUE SAI NA SOMBRA. FICA NO PADRE II, QUE RECITA, QUASE MONOCORDICAMENTE.

PADRE II -

Não se pode beijar um homem sem ir antes casar com ele primeiro algumas vezes se ama ferozmente quando a gente sente assim tão bonito tudo por cima da gente que a gente não pode evitar eu desejo então este homem ou aquele que me tomasse por um tempo quando ele está ali e me beijasse nos seus braços não tem nada como um beijo longo e quente até o fundo da alma da gente que quase paralisa a gente então eu odeio isso de confissão...


20 FLORBELA .................................................................

A VOZ DO PADRE II VAI SENDO ENCOBERTA, AINDA QUANDO DIZ O TRECHO DE JOYCE. A LUZ SOME E OUVE-SE, MUITO ALTO, UMA GARGALHADA E UM SOM DE FESTA. LUZ SOBRE O CENTRO DO PALCO. UMA VASTA MESA ESTÁ POSTA. COMIDAS, QUITUTES, VELAS ACESAS. FESTA DE ANIVERSÁRIO DE JOÃO ESPANCA. ESTÃO JOÃO, MARIANA, ANTONIA, FLORBELA E APELES. CANTAM ALGO ALEGRE. LUZ VEM COM TODA A INTENSIDADE. CONTINUAM CANTANDO. ANTONIA VAI SAINDO DA FESTA EM SILÊNCIO. VAI SE POSTAR NO FUNDO DO PALCO. UM FOCO DE LUZ SOBRE ELA. QUE FICA PARADA. SEMPRE EM SILÊNCIO. JOÃO DISCURSA, INFLAMADO.

JOÃO -

Quando um homem comemora mais um ano de vida assim, rodeado de sua mulher, de seus filhos queridos, ele se sente bem... Muito bem... Ele pode dizer, com toda a sua certeza, que está vivendo...Vivendo para ver tudo o que ele plantou crescer...Vivendo para ver seu país melhorar... Suas posses aumentarem... É mentira... É mentira essa história de que o fado quer dizer o triste destino de nossa gente...

UMA VOZ BRUTAL, EM OFF, INTERROMPE O DISCURSO.

VOZ OFF -

FOI ASSASSINADO EM LISBOA O REI DOM CARLOS! O REI DOM CARLOS FOI ASSASSINADO EM LISBOA! EM LISBOA FOI ASSASSINADO O REI DOM CARLOS!

JOÃO ESPANCA PÁRA, ENFURECIDO.

JOÃO -

Ao raio que o parta o rei! Morrer no dia do meu aniversário????

A VOZ OFF CONTINUA REPETINDO, ENQUANTO JOÃO, MARIANA, APELES VÃO RETIRANDO A MESA E OS DOCES E OS BEBES.

VOZ OFF -

O REI DOM CARLOS FOI ASSASSINADO EM LISBOA! FOI ASSASSINADO EM LISBOA O REI DOM CARLOS!


21 FLORBELA .................................................................

EM LISBOA FOI ASSASSINADO O REI DOM CARLOS!

FLORBELA FICA OLHANDO PARA O PONTO ONDE ESTÁ ANTONIA. PARADA. FLORBELA VAI LENTAMENTE ATÉ ELA. OS OUTROS JÁ SAÍRAM. A VOZ OFF REPETE MAIS UMA VEZ.

VOZ OFF -

O REI DOM CARLOS FOI ASSASSINADO EM LISBOA!

ANTONIA ENCARA FLORBELA.

ANTONIA -

O rei morreu?

FLORBELA -

Estão dizendo que sim...

ANTONIA -

Eu também vou morrer!

FLORBELA -

Como?

ANTONIA -

Eu também estou morrendo, minha filha...

FLORBELA -

Não, mãe... A senhora está muito bem... Hoje é dia do aniversário do meu pai... E, mesmo com a morte do rei, nós vamos continuar cantando e ouvindo histórias divertidas... Papai vai ligar outra vez o cinematógrafo, e eu e Apeles...

ANTONIA -

Chegou minha hora, filha... Eu sinto pena em deixá-la... Mas já estou tão afastada de você... E de seu irmão...

FLORBELA FICA EM SILÊNCIO.


22 FLORBELA .................................................................

ANTONIA -

Não diz nada? Minha morte não a comove?

FLORBELA -

O que devo fazer, minha mãe?

ANTONIA -

O que manda a sua alma?

FLORBELA -

Eu não entendo o que acontece... Por que a senhora vai morrer, aos 29 anos, de uma doença que ninguém sabe o que é?

ANTONIA -

Este hospital é horrível! A festa em sua casa deve ser mais animada...

FLORBELA -

Vou vestir luto pela senhora!

ANTONIA -

Mariana se incomodará!

FLORBELA -

A senhora é minha mãe!

ANTONIA SÓ CRUZA OS BRAÇOS E FECHA OS OLHOS. EM PÉ MESMO. O FOCO SOBRE ANTONIA SE APAGA. FLORBELA SAI LENTAMENTE, PUXANDO UM ENORME VÉU NEGRO... ATRAVESSA TODA A CENA COM O VÉU... PASSA POR JOÃO, MARIANA E APELES, QUE ESTÃO PARADOS. COMO EM UMA FOTO ANTIGA. FLORBELA COLOCA O VÉU SOBRE SEU CORPO E FICA JUNTO DELES. ESTOURA UMA LUZ COMO UM FLASH SOBRE ELES. DEPOIS, JOÃO ESPANCA TENTA ARRANCAR O VÉU DE FLORBELA.

JOÃO -

Não há por quê esse luto!

FLORBELA -

Minha mãe morreu! O senhor também deveria usar o preto...


23 FLORBELA .................................................................

JOÃO -

Eu não amei sua mãe. Apenas me deitei com ela para que você e seu irmão nascessem...

FLORBELA JOGA O VÉU NEGRO SOBRE ELES E SAI CORRENDO. BLACK-OUT.


24 FLORBELA .................................................................

CENA III

LUZ SE ACENDE SOBRE A CHAISE. FLORBELA DEITADA, LENDO AVIDAMENTE. VÁRIOS LIVROS AO LADO DELA. APELES ENTRA E FICA OLHANDO PARA A IRMÃ.

APELES -

O que tanto lê?

FLORBELA -

(ANIMADA) Balzac, e mais "Os Três Mosqueteiros", e "A Dama das Camélias"...

APELES -

(CORTANDO) Sabia que papai está de amores com a empregada?

FLORBELA -

Henriqueta? Não... É mentira...

APELES -

É verdade... Ninguém me contou... Eu vi!

FLORBELA -

Viu o quê, Apeles?

APELES -

Os dois juntos... Na cozinha...

FLORBELA -

E mãe Mariana?

APELES -

Deve estar sofrendo...

FLORBELA -

Ela sabe?

APELES -

Deve saber... Sempre suportou tudo de papai... Não se esqueça de como nascemos...


25 FLORBELA .................................................................

FLORBELA -

(MORDIDA) Não confunda as coisas...

LEVANTA-SE RAPIDAMENTE DA CHAISE. APELES AINDA TENTA DETÊ-LA.

APELES -

O que vai fazer?

FLORBELA -

Quero saber se é verdade!... Eu duvido!... Papai não faria nada com Henriqueta...

FLORBELA SAI DO FOCO DA CHAISE. VAI PARA O CENTRO DO PALCO. JOÃO ESPANCA JÁ ESTÁ ALI. HENRIQUETA TAMBÉM. SENTADA EM UMA CADEIRA, MARIANA, QUE ENROLA LÃ. A LÃ É SEGURADA POR HENRIQUETA, AOS PÉS DA PATROA.

MARIANA -

O que quer, Florbela?

FLORBELA -

Falar com meu pai.

MARIANA -

Ele está lendo. Não atrapalhe...

FLORBELA -

É assunto grave!

JOÃO ESPANCA TIRA O JORNAL DO ROSTO.

JOÃO -

O que houve?

FLORBELA OLHA PARA AS TRABALHANDO. VAI SAINDO.

FLORBELA -

Nada...

DUAS

MULHERES,

QUE

CONTINUAM


26 FLORBELA .................................................................

JOÃO ESPANCA CONTINUA LENDO. MARIANA DEIXA A CENA. (T) JOÃO AGARRA HENRIQUETA ALI MESMO. FLORBELA JÁ ESTÁ EM OUTRO PONTO DO PALCO, JUNTO AOS DESTROÇOS DO AVIÃO. APELES SAI DE DENTRO DELES.

APELES -

Era verdade?

FLORBELA -

Não quero falar sobre isso...

APELES -

Você sempre o defende... Sempre... Ele pode fazer as piores coisas do mundo e você o defende... Com unhas e dentes!

FLORBELA -

É o meu pai!

APELES -

Meu também! Por isso, sei o que estou dizendo...

FLORBELA -

Não, não sabe... Tenho medo de que já esteja contaminado pelos olhos dessa gente...

APELES -

Não, Florbela... Papai...

FLORBELA -

Não fale de meu pai... Não fale... Se me ama, Apeles, fecha essa boca...

APELES VOLTA PARA DENTRO DOS DESTROÇOS DO AVIÃO. FLORBELA VAI ATRAVESSANDO A CENA, LENTAMENTE. QUANDO PASSA PELO MEIO DO PALCO, LUZ SE ACENDE. MARIANA CONTINUA SENTADA, TRICOTANDO. JOÃO ESPANCA E HENRIQUETA SE ABRAÇANDO, VOLUPTUOSAMENTE, ATRÁS DA CADEIRA DE MARIANA. FLORBELA FICA ESPIANDO, PENSATIVA. DEPOIS, VAI PARA A CHAISE. DEITA-SE. LUZ SE APAGA NO PALCO. JOÃO ESPANCA VEM ATÉ A CHAISE.


27 FLORBELA .................................................................

JOÃO -

O que há de tão importante?

FLORBELA -

Henriqueta.

JOÃO -

Não gosta dela?

FLORBELA -

É importante para o senhor que eu goste? (MUDANDO COMPLETAMENTE) Meu pai, eu quero sua amizade acima de tudo no mundo... E o que não farei para merecer isso? Quer que eu não fique brava com Henriqueta? Não ficarei... O que não farei para agradar ao senhor? O que quer que eu faça? Para mim não me sinto nem humilhada nem triste... Quer que eu fale com ela? Quer que eu a adore?

JOÃO SORRI, TERNO. AFAGA FLORBELA. JOÃO -

Que imensa necessidade de amor você tem, minha filha! Que imensa...

FLORBELA DEIXA O GESTO DO PAI NO AR E VAI ATÉ O CENTRO DO PALCO. A LUZ SE ACENDE. AGORA, SÓ HENRIQUETA ESTÁ ALI. SENTADA NO CHÃO. A CADEIRA DE MARIANA VAZIA.

FLORBELA -

Henriqueta, deve-se amar sempre o homem que Deus escolheu para ser nosso companheiro na vida...

HENRIQUETA FAZ CARA DE SONSA. FLORBELA VAI DIZER ALGUMA COISA, QUANDO OS TRÊS PADRES CRUZAM A CENA, COM INCENSO E ENTOANDO CÂNTICOS RELIGIOSOS. MEIO NA PENUMBRA, PARAM DIANTE DAS DUAS.

PADRE III -

Não deveria concordar com os atos de seu pai...

FLORBELA -

Não fez nada demais! Ama! Só isso!


28 FLORBELA .................................................................

PADRE III -

Um amor pecaminoso! Um amor corroído! Um amor adúltero! Um amor proibido! Como o seu! Como o seu! Como o seu!

OS PADRES SAEM REPETINDO.

PADRES -

Como o seu! Como o seu! Como o seu!

HENRIQUETA SE VOLTA PARA FLORBELA.

HENRIQUETA -

O que o seu pai lhe disse, Florbela?

FLORBELA -

Nada, Henriqueta... Mas eu repito: deve-se amar sempre o homem que... que... que VOCÊ escolheu para ser o companheiro na vida...

LUZ SE APAGA SOBRE AS DUAS. ACENDE EM OUTRO PONTO. PERTO DA CHAISE. JOÃO ESPANCA ESTÁ ALI. FALA ALTO E SOZINHO.

JOÃO -

Tenho muito prazer em recebê-lo nesta casa, Alberto Moutinho... Afinal, você e minha filha Florbela já se conhecem há tanto tempo...

LUZ SOBRE APELES, JUNTO AO AVIÃO.

APELES -

Não! Não! Florbela não quer nada com Alberto Moutinho!


29 FLORBELA .................................................................

JOÃO -

Por favor, Alberto... Queira entrar... Florbela não demorará...

ALBERTO MOUTINHO ENTRA. APERTA A MÃO DE JOÃO ESPANCA. OS DOIS FICAM EM SILÊNCIO. APELES CRUZA O PALCO, CORRENDO. VEM ATÉ A CHAISE, ONDE A LUZ SE ACENDE. FLORBELA ESTÁ DEITADA ALI, LÂNGUIDA.

APELES -

Você não vai namorar Alberto Moutinho.

FLORBELA -

Já estou namorando... Escondido...

APELES -

Ele está aqui... Florbela, não pode...

FLORBELA -

(TRISTE) Talvez seja bom, Apeles...Talvez seja muito bom...

FLORBELA PÁRA... DEPOIS CAMINHA ATÉ APELES... PASSA A MÃO DE LEVE SOBRE OS OLHOS DELE. JOÃO ESPANCA E ALBERTO SENTAM-SE EM SILÊNCIO, CRUZANDO AS PERNAS. ESPERAM.

FLORBELA -

(PARA APELES) Olhos que façam chorar, só os teus, de mais ninguém! Por que me lembrais, ó olhos, os olhos de minha mãe? Essa lembrança bendita é apenas crueldade... Por que me lembrais, ó olhos, A minha imensa saudade? Deixai-me esquecer a mágoa dos olhos da minha mãe...

APELES -

Florbela, eu lhe peço... Não vá ter com Alberto...

FLORBELA -

Eu vou me casar com Alberto Moutinho, Apeles!


30 FLORBELA .................................................................

APELES -

(SARCÁSTICO) Por causa dos olhos da nossa mãe?

FLORBELA -

À procura dos SEUS olhos!

LUZ SE ACENDE NOS FUNDOS. REPETE-SE A AMAMENTANDO EM SILÊNCIO AS DUAS CRIANÇAS.

CENA

DE

ANTONIA

FLORBELA APANHA UM CADERNO E VEM ATÉ ONDE ESTÃO JOÃO ESPANCA E ALBERTO MOUTINHO. LUZ TAMBÉM EM APELES, TRISTE. ENQUANTO FLORBELA FALA, APELES AVANÇA SOBRE A CHAISE E LÊ AVIDAMENTE OS PAPÉIS QUE ESTÃO POR ALI.

FLORBELA -

Alberto, eu lhe trouxe um presente...

ALBERTO -

É muita delicadeza sua, Florbela...

JOÃO -

Fiquem à vontade... Onde está Apeles?

FLORBELA -

Não sei, meu pai... Talvez à procura de um bom par de olhos!

JOÃO NÃO ENTENDE... FLORBELA SORRI PARA JOÃO, QUE SAI... APELES BERRA.

APELES -

Mãe!!!!!!!!

APAGA-SE IMEDIATAMENTE A LUZ SOBRE ANTONIA. ELA SAI NO BLACK. FLORBELA SORRI PARA ALBERTO. ALBERTO -

O que é o presente?


31 FLORBELA .................................................................

FLORBELA -

Comecei um livro de poemas...

ALBERTO -

Para mim?

FLORBELA -

(DURA) Não. Para mim...

ALBERTO -

(CONFUSO) Mas e o presente?

FLORBELA -

O presente é contar a você que escrevo um livro de poemas...

ALBERTO -

Sim... Por certo... (T) Você me ama, Florbela?

FLORBELA RESPIRA FUNDO E SAI CORRENDO PELO PALCO. ALBERTO CONTINUA EM SEU PONTO. FLORBELA VAI ATÉ A OUTRA EXTREMIDADE. A LUZ SE ACENDE E ALI ESTÁ BUJA, A AMIGA.

FLORBELA -

Buja, por piedade...

BUJA -

O que houve, Florbela? Não está com Alberto Moutinho?

FLORBELA -

Buja, minha amiga... Minha melhor amiga... Eu preciso de você...Você que tem sido a única talvez a entender a minha alma...

BUJA -

Pare! Diga logo o que está havendo!

FLORBELA -

Eu vou me casar com Alberto!

BUJA -

Sim, eu sei...


32 FLORBELA .................................................................

FLORBELA -

Mas também amo José!

LUZ SE ACENDE SOBRE HENRIQUETA, NO FUNDO DO PALCO.

HENRIQUETA -

Deve-se amar sempre o homem que Deus escolheu para ser nosso companheiro na vida...

FLORBELA -

(PARA BUJA) Que EU escolhi!

BUJA -

O que diz, Florbela?

LUZ SE APAGA SOBRE HENRIQUETA, RINDO MUITO ALTO.

FLORBELA -

Nada... O que faço, Buja?

BUJA -

Case-se com Alberto... Florbela, toda essa sua angústia, toda essa sua aflição vem disso... De não estar realmente com alguém...

FLORBELA -

Estou comigo mesma... Buja, por favor, entregue uma quadrinha a José...

BUJA -

Florbela, está traindo Alberto?

FLORBELA -

Não é traição! Amar assim é trair? Não... Não... Só esta quadrinha: Avec tout ton coeur aime-moi Car tout mon coeur n'aime que toi Je ne puis te voir sans émoi Je t'aime bien plus que ma vie.

E FLORBELA VAI SAINDO RAPIDAMENTE PARA ONDE ESTÁ ALBERTO. BUJA AINDA GRITA.


33 FLORBELA .................................................................

BUJA -

Não posso fazer isso, Florbela... Não posso...Você precisa se decidir... Alberto ou José...

FLORBELA PÁRA NO MEIO DA CENA.

FLORBELA -

(ALTO) Alberto! Alberto Moutinho! Esqueça José... Mas não jogue fora a quadrinha!

FLORBELA VEM PARA PERTO DE ALBERTO. ESTE A TOMA NOS BRAÇOS. UM BEIJO FORTE. LUZ TAMBÉM SOBRE BUJA, QUE DECLAMA.

BUJA -

Avec tout ton coeur aime-moi Car tout mon coeur n'aime que toi Je ne puis te voir sans émoi Je t'aime bien plus que ma vie.

TODA A LUZ SE APAGA, MENOS UMA QUE SE ACENDE SOBRE ANTONIA, AMAMENTANDO AS DUAS CRIANÇAS. MARIANA SURGE E VAI ATÉ ELA. ARRANCA AS DUAS BONECAS. MARIANA PEGA FIRME UMA EM CADA LADO. SEM VIOLÊNCIA. SOMENTE FIRMEZA. ANTONIA FICA ABANDONADA.

ANTONIA -

Deve-se amar sempre o homem...

MARIANA -

Que Deus escolheu para ser nosso companheiro na vida!

ANTONIA -

Deus?

UM PADRE SURGE E FICA EM SILÊNCIO JUNTO DELAS. MARIANA SAI COM AS BONECAS. LUZ APAGA ALI. LUZ SE ACENDE SOBRE APELES, FUMANDO SOZINHO JUNTO AOS DESTROÇOS DO AVIÃO.


34 FLORBELA .................................................................

APELES -

(DURO) Por que vai se casar, Florbela? Você acha o casamento uma coisa revoltante! E isto por uma única razão, mas que para você é tudo! Para você e para aquelas mulheres que não são apenas fêmeas. Para todas as delicadas. Para as que têm pudor. Espírito. E consciência.

LUZ SE ACENDE SOBRE UM GRUPO. ESTÃO FLORBELA, JOÃO ESPANCA, MARIANA, UM JUIZ E ALBERTO MOUTINHO. JUIZ, SORRINDO, ENTREGA AS ALIANÇAS. ALBERTO MOUTINHO POE A ALIANÇA NO DEDO DE FLORBELA. ESTA FAZ O MESMO. JOÃO ESPANCA E MARIANA SORRIEM. ALBERTO BEIJA FLORBELA DOCEMENTE. FLORBELA ENTREGA A ALBERTO UM CADERNINHO. ENTRA VOZ OFF DE FLORBELA.

FLORBELA -

(OFF) É só teu o meu livro; guarda-o bem; Nele floresce o nosso casto amor Nascido nesse dia em que o destino Uniu o teu olhar à minha dor!

FLORBELA -

(AO VIVO) Florbela Espanca Moutinho.

O GRUPO TODO SE CUMPRIMENTA. BLACK-OUT.


35 FLORBELA .................................................................

CENA IV

LUZ SOBRE APELES, JUNTO AO AVIÃO DESTROÇADO. APELES COMEÇA UM TANTO PARA BAIXO. DEPOIS, INFLAMA-SE.

APELES -

Sou um homem! Deixei lá embaixo todo o fardo pesado e vil com que me carregaram ao nascer; deixei lá embaixo todas as algemas, todos os férreos grilhões que me prendiam, toda a suprema maldição de ter nascido homem; deixei lá embaixo a minha sacola de pedinte, e livre, indômito, sereno, na minha mísera couraça de pano azul, estendo em cruz os braços, que transformei em asas!

LUZ SE ACENDE SOBRE A CHAISE, ONDE FLORBELA ESTÁ ESCREVENDO FRENETICAMENTE. AO SEU LADO, ALBERTO MOUTINHO FUMA, ENFADONHAMENTE.

APELES -

E, lá no alto, eu-homem estou contente. Como quem atira pedras ao vento, num gesto de desdém, um punhado de pétalas, atiro cá pra baixo uns miseráveis restos de ouro que levei, do ouro de lembranças de que tinha me esquecido. Estou contente.

FLORBELA PÁRA DE ESCREVER. OUVE-SE O BARULHO DO MOTOR DO AVIÃO SOBRE O PALCO. FLORBELA OLHA PARA CIMA, EMBEVECIDA. ALBERTO MOUTINHO SEGUE O OLHAR.

APELES -

Atiro as asas mais ao alto, escalando os cimos infinitos, já fora do mundo, na sensação maravilhosa e embriagadora de um ser que se ultrapassa! Sinto-me um deus! As mãos desenclavinham-se, desprendem-se da terra onde estão presas por um derradeiro fio de ouro...Caio na eternidade... (T) Tanto azul!

FLORBELA COMEÇA A FALAR PARA O APELES QUE VOA IMAGINARIAMENTE.

FLORBELA -

Você é mais um filho dos homens?


36 FLORBELA .................................................................

APELES -

(RINDO) Não... Não vê que tenho asas?..

FLORBELA -

Então, é um filho dos deuses?

APELES -

Não... Não vê que sorrio?... E você? Ainda sorri? Presa nesse mundo tão pequeno? Presa nessa casa, nesse quarto, nessa cama, com seu marido?

FLORBELA NÃO RESPONDE. QUEDA-SE EM SILÊNCIO, OLHANDO ALBERTO MOUTINHO.

ALBERTO -

O que foi, Florbela?

FLORBELA -

Ele está lá em cima...Ouve?

O RUÍDO DO AVIÃO CESSA QUANDO ELA PERGUNTA.

ALBERTO -

(FIRME, DURO) Não... Não ouço...

FLORBELA -

Ele é feito de asas... Ele voa...

ALBERTO -

Por que, ao invés de pensar em Apeles todo o tempo, não pensa em seu marido? (PAUSA. MAIS DOCE) Não me ama mais, Florbela? Passa todo o tempo a escrever e a sonhar... Mergulhada nessa melancolia... Pensa em Apeles e não em mim... Não me ama mais?

FLORBELA VAI SAINDO DA CHAISE-LONGUE E INDO PARA O CENTRO DO PALCO.

FLORBELA -

Eu queria estar lá...Com ele... Saindo desta mediocridade... Saindo desta alcova onde me deitei, pensando estar deitada com a


37 FLORBELA .................................................................

felicidade... Eu não o amo mais, querido Alberto...Talvez não tenha nunca o amado... Mas fui absolutamente sincera ao me casar com você... Eu esperava... Eu esperava que pudesse espantar a amargura, como se tira pó de um móvel, ou como se arrasta um tapete velho e se põe ao sol... Eu esperava...

DO CENTRO DO PALCO, FLORBELA SE VOLTA PARA ALBERTO MOUTINHO, QUE ESTÁ SENTADO, CABEÇA ENTRE AS MÃOS.

FLORBELA -

Perdão por não amá-lo mais! Mas não consigo mentir...

ENTÃO, FLORBELA, SOB O OLHAR DE APELES, VAI ATRAVESSANDO TODA A CENA, LENTAMENTE, COMO SE PROCURASSE POR ALGO LÁ EM CIMA. (T) ALBERTO MOUTINHO DIZ UM POEMA, QUASE SEM EMOÇÃO.

ALBERTO -

A Noite passa, noivando. Caem ondas de luar. Lá passa a doida cantando Num suspiro doce e brando Que mais parece chorar!

FLORBELA SAI DA CENA. (T) JOÃO ESPANCA VEM ATÉ ALBERTO MOUTINHO.

JOÃO -

Dará o divórcio, Alberto Moutinho?

ALBERTO -

Direi que eu abandonei o lar...Talvez seja melhor para Florbela... Talvez ela se livre dos comentários maldosos...

E ELE DEIXA A CENA, FURIOSO. PELO LADO OPOSTO POR ONDE SAIU FLORBELA.


38 FLORBELA .................................................................

LUZ CONTINUA EM JOÃO ESPANCA E EM APELES, QUE ASSISTE TUDO. UM PADRE PASSA, ENCAPUZADO.

PADRE -

Esta mulher desafia Deus! Esta mulher desafia o Amor! Esta mulher peca! Peca! Peca!

O PADRE VAI SAINDO, SEGUIDO POR JOÃO ESPANCA, ASSUSTADO. LUZ VAI MORRENDO SOBRE APELES, LENTAMENTE. ACENDE EM OUTRO PONTO, ONDE BUJA ESPERA, NERVOSA. (T) SURGEM FLORBELA E MARIANA.

BUJA -

Finalmente! Pensei que não viessem mais do médico... E ficar aí na rua, com o frio...

BUJA NOTA QUE AS DUAS ESTÃO CALADAS.

BUJA -

O que foi? O que o doutor disse à senhora, dona Mariana?

MARIANA -

Estou mal, Buja... Muito mal... Florbela pode explicar melhor...

MARIANA VAI SE RETIRAR. FLORBELA A SEGURA.

FLORBELA -

Não, não... minha mãe!

MARIANA ENCARA FLORBELA, ESPANTADA.

MARIANA -

Mãe? Nunca me chamou assim!


39 FLORBELA .................................................................

FLORBELA -

A senhora me criou, não?

MARIANA -

Sim... Mas sempre têve Antonia como...

BUJA -

Dona Mariana...Talvez prefira repousar...

MARIANA -

Tem razão, Buja... Estou cansada... Depois, não me espera mais grande coisa na vida...

MARIANA DEIXA A CENA. (T) BUJA VOLTA-SE PARA FLORBELA.

BUJA -

O que ela tem?

FLORBELA -

Um tumor... Mas não morrerá tão cedo...

BUJA -

Você me parece triste, Florbela...

FLORBELA -

Sim... Por ela e por mim... (T) Acabei o casamento com Alberto Moutinho...

BUJA -

Eu já esperava isso!

FLORBELA -

(FIRME) Todos vocês dizem isso! Mas eu o amei! Eu o amei de verdade... Mas há algo dentro de mim que me impede...

BUJA -

E você não sabe o que é?

FLORBELA -

Não... Não sei... Sei que sofro... Mas tentarei sempre, Buja... Sempre... Tenho uma imensa necessidade de amor...


40 FLORBELA .................................................................

BUJA -

Proteja-se, Florbela... Não se exponha!

FLORBELA -

Não tenho medo, minha amiga...Tenho medo de muitas outras coisas... Tenho medo de mim, sobretudo... Mas não tenho medo do amor... Esse, eu perseguirei sempre! Preciso todo o tempo me sentir amada, querida... (TRISTE) Por que tenho a sensação de que nunca me gostaram?

BUJA VAI TENTAR UM CARINHO. FLORBELA BRECA.

FLORBELA -

Dona Mariana morrerá sim! Eu é que não consigo imaginar isso!

NESSE INSTANTE, ENTRA APELES, COM UMA MÁSCARA DE CARNAVAL. EUFÓRICO.

APELES -

Não se fala de coisa triste! É carnaval! A folia está em toda a parte! Vamos!!!

BUJA -

Vá, Florbela... Pode ser bom para você...

FLORBELA -

Eu não gosto da folia, Buja!

APELES -

Venha!

FLORBELA TENTA PROTESTAR. MAS APELES JÁ RETIRA UMA MÁSCARA E COLOCA SOBRE O ROSTO DE FLORBELA. OS DOIS SAEM PARA OUTRO PONTO DO PALCO. BUJA FICA OLHANDO. MARIANA TAMBÉM SURGE E OLHA PARA OS DOIS. (T) LUZ VAI CAINDO SOBRE AS DUAS MULHERES E SE TORNANDO MUITO CLARA ONDE ESTÃO APELES E FLORBELA.

FLORBELA -

Ainda estou triste, Apeles...


41 FLORBELA .................................................................

APELES -

Você sempre será triste... Mas o carnaval também é assim...

ANTES QUE ELE CONTINUE FALANDO, PASSA UM GRUPO DE MASCARADOS. LENTAMENTE. A MÚSICA DE CARNAVAL AGORA ESTÁ MUITO ALTA. O GRUPO AGARRA APELES E VAI CONDUZINDO OS DOIS PARA FORA DA CENA. FLORBELA AINDA TENTA UM GESTO, UMA PALAVRA.

FLORBELA -

Apeles! Apeles! Eu não gosto da folia!!!

APELES É ARRASTADO, FELIZ. FLORBELA FICA SOZINHA. SENTA-SE NO CHÃO. RETIRA A MÁSCARA LENTAMENTE. LUZ SE ACENDE NO OUTRO PONTO DO PALCO. ESTÁ ANTONIO GUIMARÃES, QUE OLHA PARA ELA E SORRI. FLORBELA NOTA O OLHAR. ANTONIO VEM SE APROXIMANDO DELA, SORRINDO. FLORBELA VAI DIZENDO, COM MEDO, OS VERSOS.

FLORBELA -

Sóror Saudade abriu a sua cela... E, num encanto que ninguém traduz, Despiu o manto negro que era dela, Seu vestido de noiva de Jesus. E a noite escura, extasiada, ao vê-la, As brancas mãos no peito quase em cruz, Têve um brilhar feérico de estrela Que se transformasse em pétalas de luz! Sóror Saudade olhou...Que olhar profundo Que sonho e espera? - Ah, como é feio o mundo. E os homens vãos! - Então, devagarinho, Sóror Saudade entrou no seu convento... E, até morrer, rezou, sem um lamento, Por um que se perdera no caminho!

ANTONIO GUIMARÃES JÁ ESTÁ AO LADO DELA.

ANTONIO -

Por que está assim? É carnaval!

FLORBELA -

A folia me pegou desprevenida...


42 FLORBELA .................................................................

ANTONIO -

Mas eu não!

FLORBELA OLHA FIRME PARA ELE.

FLORBELA -

Não me conhece... Não conhece Sóror Saudade...

ANTONIO -

Talvez mais do que pensa... Talvez menos do que eu queira... É melhor lembrar doidamente o que esquecemos...

FICAM-SE OLHANDO. (T) O GRUPO DE MASCARADOS VOLTA NOVAMENTE COM APELES TAMBÉM MASCARADO. JUNTO, JOÃO ESPANCA E MARIANA. ESTA APOIADA EM JOÃO. ANTONIA TAMBÉM VEM, CARREGANDO AS DUAS BONECAS. PASSAM TODOS LENTAMENTE POR ANTONIO E FLORBELA, QUE SE OLHAM FORTEMENTE. ANTONIO PEGA FLORBELA PELA MÃO. OS MASCARADOS TENTAM IMPEDIR QUE ELES SAIAM. OS DOIS FORÇAM A PASSAGEM.

APELES -

(GRITANDO) Florbela, não!!! Mal conhece Antonio Guimarães!!!

FLORBELA E ANTONIO RIEM. E SAEM CORRENDO. OS MASCARADOS CONTINUAM CANTANDO O CARNAVAL, SOTURNAMENTE. VÃO SAINDO. LUZ VAI COM ELES. SEMPRE LENTAMENTE. CAI SOBRE O BLOCO MASCARADO, QUE DEIXA A CENA. LUZ SE ACENDE SOBRE FLORBELA E ANTONIO, JUNTOS, NA CHAISE-LONGUE.

FLORBELA -

Antonio Guimarães, aquele que conseguiu me conquistar em um baile de carnaval...

ANTONIO -

Não seria um militar se não tivesse coragem, estratégia e... garra!

FLORBELA -

(RI) É preciso tudo isso para estar com Florbela Espanca?


43 FLORBELA .................................................................

ANTONIO -

Talvez muito mais ainda... Mas gosto da guerra...

FLORBELA -

Falou bem, Antonio...Guerra... E não sei se sou troféu que valha a pena... Filha que o pai não reconheceu... Mãe que já morreu... A postiça também morrendo...Um aborto... Casamento desfeito... Tristeza... Amargura...

ANTONIO -

Não! Não diga mais nada! (PAUSA) Do que mais gosta?

FORBELA SORRI, MENINA.

FLORBELA -

Da charneca! Da linda e rude charneca portuguesa!

ANTONIO -

Pois eu lhe darei todas as charnecas de Portugal!

FLORBELA -

Exagerado!

ANTONIO -

Não subestime Antonio Guimarães! Sei por quem estou lutando!

ANTONIO VAI SE CHEGANDO A ELA. ABRAÇAM-SE. ELE COMEÇA A TIRAR UMA PEÇA DA ROUPA DE FLORBELA. DEITAM-SE NA CHAISE. LUZ VAI CAINDO, AINDA NA SENSUALIDADE. ACENDE EM APELES, JUNTO AO AVIÃO, COM A MÁSCARA NA MÃO. AO SEU LADO, JOÃO ESPANCA.

JOÃO -

Se ela se juntar com esse homem, nunca mais quero vê-la!

APELES -

Florbela não fará isso!

JOÃO -

Mal deixou Alberto Moutinho! Mal se divorciou...


44 FLORBELA .................................................................

UM PADRE PASSA APRESSADO ENTRE ELES. COMO SOMBRA.

APELES -

Florbela, meu pai...

JOÃO -

Quieto, Apeles... Se ela ficar com Antonio Guimarães...

MARIANA SURGE, E SE APROXIMA DELES.

MARIANA -

Toda a província já comenta!

APELES E JOÃO OLHAM PARA ELA. SÉRIOS.

MARIANA -

Florbela está com Antonio Guimarães sim! Até o Comando Geral da Guarda Nacional Republicana já sabe disso... Florbela escreveu uma carta a Antonio... Uma carta comprometedora... E os dois passaram a viver juntos!

JOÃO -

(SECO) Não se fala mais em Florbela nesta casa!

APELES ABAIXA A CABEÇA. MARIANA SE APÓIA, FIRME E SOLIDÁRIA, NO MARIDO. LUZ SOBRE OS TRÊS CAI LENTAMENTE. VAI ACENDENDO NA CHAISE. FLORBELA E ANTONIO, DEITADOS, FUMANDO.

ANTONIO -

Mas se eles mudam toda a sua poesia, quando publicam...

FLORBELA -

Não tem importância...Quero que publiquem...Quero que publiquem todos os meus versos... Eu tenho pressa...

ANTONIO -

Pressa ou vontade de se exibir?


45 FLORBELA .................................................................

FLORBELA -

Você não entende, Antonio...

ANTONIO -

Entendo mais de outras coisas...

ANTONIO COMEÇA UM CARINHO EM FLORBELA. NISSO, ENTRA UM OFICIAL ARMADO.

OFICIAL -

Senhor Antonio Guimarães e senhora Florbela Espanca... Se não se casarem, se não regularizarem essa situação escandalosa, a Guarda Nacional Republicana expulsará o senhor Antonio Guimarães de suas fileiras...

OFICIAL CONTINUA ENCARANDO OS DOIS.

ANTONIO -

Quer se casar comigo, Florbela?

FLORBELA -

Talvez, assim, minha família me aceite de novo... Muito bem... Serei Florbela Espanca Guimarães!

O OFICIAL BATE UMA CONTINÊNCIA PARA OS DOIS. BLACK-OUT.


46 FLORBELA .................................................................

CENA V

LUZ SE ACENDE NUM PONTO ISOLADO DO PALCO. BUJA ESTÁ SOZINHA. COM UM VIOLÃO. CANTA O POEMA MUSICADO. TRISTE. BUJA -

(CANTANDO) Eu quero amar, amar perdidamente! Amar só por amar: aqui... além... Mais este e aquele, o outro e toda a gente... Amar! Amar! E não amar ninguém! Recordar? Esquecer? Indiferente! Prender ou desprender? É mal? É bem? Quem disser que se pode amar alguém Durante a vida inteira é porque mente.

APELES ENTRA E VEM PARA PERTO DE BUJA. FICA A OUVIR BUJA CANTAR.

BUJA -

(CANTANDO) Há uma primavera em cada vida: É preciso cantá-la assim florida, Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar! E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada, Que seja a minha noite uma alvorada, Que me saiba perder... pra me encontrar...

LUZ SE ACENDE NO FUNDO. UM PADRE, PARADO, ERETO.

APELES -

Buja, tem notícia de Florbela?

BUJA NÃO RESPONDE. QUEM RESPONDE É O PADRE, SEVERAMENTE.

PADRE -

Como era de se esperar, Florbela vive mal com Antonio Guimarães. Casaram-se somente para que ele não fosse expulso do Destacamento. Florbela está destruindo mais esse homem! Ela só é capaz de pensar em si! Em sua maldita poesia! Poesia de luxúria e de decadência!


47 FLORBELA .................................................................

LUZ SE APAGA EM TODOS OS PONTOS. ACENDE-SE SOBRE A CHAISE. FLORBELA, ANIMADA, ESCREVE FRENETICAMENTE. ESCREVE LAUDAS E LAUDAS. JOGANDO OS PAPÉIS PARA O ALTO. ESTÁ FELIZ. (T) SURGE ANTONIO GUIMARÃES. FICA A OLHAR PARA ELA. ATRÁS DELE, COMO DUAS SOMBRAS, ESTÃO DOIS PADRES. SILENCIOSOS. MEIO NA PENUMBRA. ANTONIO AVANÇA ATÉ A CHAISE. AGARRA PAPÉIS E COMEÇA A RASGÁ-LOS.

FLORBELA -

Não! Não, Antonio... Minha poesia...

ANTONIO -

(IRADO) Estou cansado da sua poesia... Estou cansado dos seus sonhos... Magníficos sonhos, que não levam a nada... Por que não olha para mim? Por que não me vê? Chega!!! Só tem olhos para esses malditos papéis!

RASGA MAIS ALGUNS DELES. FLORBELA TENTA ARRANCAR OS PAPÉIS DE ANTONIO. ESTE SEGURA FLORBELA COM FORÇA. MUITA FORÇA.

ANTONIO -

Só tem olhos para seus poemas e para seu irmão. Devia ter se casado com Apeles, Florbela Espanca!

ANTONIO BATE VIOLENTAMENTE NELA. FLORBELA VAI CAINDO SOBRE A CHAISE, CHORANDO BAIXINHO, MUITO BAIXINHO. GRUDADA EM SEUS PAPÉIS. LUZ SE ACENDE TAMBÉM SOBRE BUJA E APELES, HORRORIZADOS COM O QUE VÊEM.

APELES -

(GRITA) Florbela!

BUJA SEGURA O BRAÇO DE APELES. FLORBELA CONTINUA ENCOLHIDA SOBRE A CHAISE.

ANTONIO -

Sua poesia não é nada! Você não é nada! Você não cabe neste mundo, mulher! Eu quero o divórcio!... O divórcio!


48 FLORBELA .................................................................

ANTONIO GUIMARÃES DEIXA A CENA, VIOLENTAMENTE. OS PADRES COM ELE, RECITANDO LADAINHAS BAIXINHO E MONOCORDICAMENTE. FLORBELA COMEÇA UM CHORO QUE É QUASE UM UIVO.

APELES -

Florbela, querida... Minha querida... Buja, Buja, precisamos estar com Florbela...

BUJA -

(TRISTE) Ela sabe seu caminho, Apeles!

E BUJA RECOMEÇA A CANTAR, MUITO TRISTE.

BUJA -

(CANTANDO) Eu quero amar, amar perdidamente! Amar só por amar: aqui... além... Mais este e aquele, o outro e toda a gente... Amar! Amar! E não amar ninguém!

AS DUAS CENAS VÃO SE FUNDINDO LENTAMENTE. APAGANDO AO MESMO TEMPO. ENQUANTO SE ACENDE EM OUTRO PONTO, SOBRE JOÃO ESPANCA E MARIANA. FRENTE À FRENTE.

JOÃO -

Você não morrerá por minha causa, Mariana!

MARIANA -

Muita vez penso se você e Florbela não são feitos do mesmo barro!

JOÃO -

Só quero o divórcio! Vou me casar com Henriqueta!

MARIANA -

Estou doente! Um tumor! Mas jamais me rastejarei diante de você, João Espanca! Fique com a empregada! Eu ficarei com meu orgulho! E morrerei quieta e digna, como convém a uma portuguesa... E onde está Henriqueta, para que eu lhe passe o marido?

JOÃO -

(ENVERGONHADO) Cuida de Florbela, que está mal!


49 FLORBELA .................................................................

MARIANA SAI, ALTIVA. LUZ CAI LENTAMENTE SOBRE JOÃO. ACENDE SOBRE A CHAISE. FLORBELA, DEITADA. HENRIQUETA JUNTO A ELA. APELES TAMBÉM.

HENRIQUETA -

Quietinha, Florbela... Dói menos...

FLORBELA -

Henriqueta, é o segundo aborto... Eu sei que nunca poderei ter filhos...

APELES -

Florbela, acalme-se... O doutor disse...

FLORBELA -

(DURÍSSIMA) O doutor disse que tive um abortus syphiliticus... Meus ovários nunca poderão gerar um filho... Será que não conseguem entender isso? Será que não conseguem perceber como me sinto amputada, diminuída, pequena? (T) Eu só posso gerar poemas... e desamores!... Eu não consigo ter um filho! (T) Que ironia! Meu pai precisou deitar com outra mulher, porque a dele não conseguia engravidar! Fez isso para que eu e você nascêssemos, Apeles... E eu nem posso fazer nada!

HENRIQUETA FAZ UM CARINHO EM FLORBELA. ESTA FICA COMO UMA CRIANÇA.

FLORBELA -

Henriqueta, agora que está casada com meu pai, cuide de mim... Por favor, cuide de mim...

HENRIQUETA -

Ficarei com você, Bela... Todo o tempo!

FLORBELA -

Todo o tempo não! Lembra-se do que lhe disse? Deve-se cuidar sempre do homem que escolheu para companheiro!

HENRIQUETA -

(SINCERA) Você nunca fez isso!


50 FLORBELA .................................................................

FLORBELA -

Ninguém nunca cuidou de mim, Henriqueta... A não ser... A não ser Apeles...

HENRIQUETA VAI SAINDO. APELES SE APROXIMA DELA. ESTENDE AS MÃOS. SORRI.

APELES -

Quer voar comigo?

FLORBELA -

Não, por Deus! Nunca... Lá em cima?... É uma loucura...

APELES -

Mas se anda tão entusiasmada com o que Gago Coutinho e Sacadura Cabral fizeram... Essa travessia do Atlântico...

FLORBELA -

Não tente imitar os dois, Apeles! Não se mete em coisa assim! Eu suplico!

APELES -

Voe comigo! Só nós dois lá em cima... Como deuses...

FLORBELA -

Eu não quero ser deus! Quero apenas ser mulher! Uma mulher que consiga ter filhos!

APELES -

(CARINHOSO) Minha pequena Florbela! Eu a amo tanto!

APELES SE DEITA JUNTO DE FLORBELA. LUZ VAI CAINDO SOBRE ELES. E ACENDE EM PENUMBRA SOBRE ANTONIA, NUM PONTO, AMAMENTANDO AS DUAS BONECAS. VOZ OFF DE PADRE, ZUMBINDO COMO CHICOTE.

PADRE -

(OFF) Incesto!!!

APELES E FLORBELA RAPIDAMENTE SE SENTAM CADA UM DE UM LADO. COSTA À COSTA.


51 FLORBELA .................................................................

LUZ SE ACENDE TAMBÉM SOBRE MARIANA, NUM OUTRO PONTO.

MARIANA -

Meus seios eram secos, Florbela, porque, como você, nunca gerei nada... Nem mesmo amor em seu pai... Como você não tem gerado amor em homem algum... Não adianta cantar seus amores, e sua fome de carinho em seus poemas... Nenhum homem pode tocá-la...

ENQUANTO MARIANA FALA, LUZ CONTINUA SOBRE ANTONIA AMAMENTANDO AS DUAS BONECAS. FLORBELA E APELES SE LEVANTAM. APELES SOME. FLORBELA ANDA LENTAMENTE, COMO SE ESTIVESSE NA CHARNECA, ATRAVESSANDO A CENA. ATÉ SAIR DO PALCO, PELO LADO OPOSTO POR ONDE SAIU APELES.

MARIANA -

Porque você, querida Florbela, procura em todos eles o único homem que sempre quis: Apeles...Vocês dois foram gerados no mesmo útero e nunca saíram dele... Trocaram o útero de Antonia por essa charneca...Você passeia pelos campos e Apeles a namora lá de cima...Você anda em meio às urzes e flores e ele em meio às nuvens... É a mesma coisa... (T) Não sei o que Antonia tinha em seu leite, ou seu pai em seu esperma... Para vocês se amarem tanto! Só sei que Florbela é o avesso de Apeles e Apeles é o avesso de Florbela.

LUZ VAI CAINDO SOBRE MARIANA. BLACK-OUT.


52 FLORBELA .................................................................

CENA VI LUZ SOBRE O CENTRO DO PALCO. TRÊS JUÍZES TOGADOS. ANTONIO GUIMARÃES FRENTE A ELES.

JUIZ I -

Senhor Antonio Guimarães?

ANTONIO -

Sim.

JUIZ I -

Confirma o que alega contra sua mulher Florbela Espanca Guimarães?

ANTONIO -

Sim... Abandono do lar e injúrias de toda espécie...

JUIZ I -

Seja mais claro, senhor Antonio Guimarães.

ANTONIO -

Injúrias, senhor Juiz... Todas as injúrias... Contra a minha pessoa... Contra o meu nome... Contra a minha posição...

JUIZ I -

O senhor nunca praticou qualquer violência contra a senhora Florbela Espanca?

ANTONIO -

Foi ela quem praticou a maior das violências, casando-se comigo... Ela é veneno!

JUIZ I -

E onde se encontra sua esposa, atualmente?

ANTONIO -

(SARDÔNICO) Provavelmente, passeando por aí... Com o irmão... Ou, na falta dele, com qualquer outro homem...Quem sabe até com seu próprio médico...


53 FLORBELA .................................................................

JUIZ I -

Pode dizer o nome desse médico?

ANTONIO -

Mário Lage!

LUZ VAI CAINDO SOBRE O GRUPO. ACENDE-SE SOBRE A CHAISE. ESTÃO FLORBELA E BUJA.

BUJA -

Mário Lage? Quem é ele, Florbela?

FLORBELA -

O homem que tem aguentado meus nervos estraçalhados, Buja...

BUJA -

É apenas seu médico, Florbela?

FLORBELA -

É apenas meu médico... E um bom amigo... (PAUSA) Buja, estou preocupada com Apeles...

BUJA -

Por quê?

FLORBELA -

Desde que morreu sua noiva, ele tem me escrito coisas terríveis... Fala em suicídio...

BUJA -

Apeles não se mataria!

FLORBELA -

Por que não? Ele tem coragem...

BUJA -

E acha que se matar é mostrar coragem, Florbela?

FLORBELA -

Não acho nada. Só acho que Apeles está terrivelmente sozinho... E eu gostaria de estar com ele... Mas não posso... Não consigo... Mal saio desta cama...


54 FLORBELA .................................................................

BUJA -

(BRINCANDO) Sempre à espera de seu médico, Bela?

FLORBELA -

Não brinque, Buja... Mário Lage tem se mostrado de uma paciência infinita... infinita... Não fosse ele, eu já...

BUJA -

(ASSUSTADA) O que passa por sua cabeça, Florbela?

FLORBELA -

Nada, Buja, minha querida... Prometa que irá procurar Apeles... Irá dizer a ele que estou perto da sua dor... Que estou junto... Mesmo no meio das nuvens... Eu não sei porque aquele maluco continua voando... Pode cair a qualquer hora... Morro de medo, Buja!

LUZ CAI SOBRE AS DUAS. ACENDE SOBRE APELES, SENTADO SOBRE OS DESTROÇOS DE SEU AVIÃO. FUMANDO.

APELES -

Ouço a sua voz, Florbela, que me diz palavras carinhosas... Ouço quando fala para que eu não sofra... Afinal, minha noiva morreu como morrem todas as outras pessoas... Só nós dois não morremos, não é, minha querida? Só nós dois continuamos presos a esta carcaça horrorosa, onde nos prenderam, desde que nascemos. Por isso, vôo como se quisesse nascer de novo... De outra forma... (PAUSA) Minha noiva? Quem foi ela? Não sei... Talvez nunca tenha sabido... Mas tentei... Como você tentou... Casando-se com Alberto, depois com Antonio... E, agora, aproximando-se devagar de Mário Lage... Por que isso, Florbela querida? Por que precisamos de noivas e maridos? Nós não nos bastamos?

LUZ FICA UM TEMPO NELE. ACENDE-SE SOBRE A CHAISE. FLORBELA, DEITADA. MÁRIO LAGE AO LADO DELA. BONS AMIGOS.

MÁRIO -

Florbela, deveria ter se defendido... Antonio Guimarães usou palavras pesadas contra você...


55 FLORBELA .................................................................

FLORBELA -

Para que mágoas, Mário? Sempre pensei que Antonio fosse meu amigo, mas não era... Mas ainda bem que consegui sair do casamento...

MÁRIO -

Saiu mesmo?

FLORBELA -

Saí, Mário querido...Chegou o dia em que percebi que a vida passava, que a minha bela e ardente mocidade se apagava, que eu estava a me transformar na mais vulgar das mulheres. Por orgulho, e, ainda mais, por dignidade, olhei de frente e sem covardias, nem fraquezas, o que aquele homem estava a fazer da minha vida, e resolvi liquidar tudo simplesmente, sem um remorso, sem a mais pequena mágoa!

MÁRIO -

Como se sente?

FLORBELA -

Vazia. Oca. Ah, Mário, se meus nervos não estivessem tão sensíveis... eu tentaria sair um pouco... Eu tentaria me arrancar desta cama... Eu...

MÁRIO -

Venha... Para um passeio!

FLORBELA -

Eu não aguento! Estou fraca demais! Estou completamente tonta... sem força...

MÁRIO -

Não, não! Vamos passear... e se sentirá muito bem... Ou não me chamo Mário Lage!... Quer ir à charneca?

FLORBELA -

Sim... A charneca é como se fosse... (RI) Eu e Apeles brincávamos, dizendo que a charneca era nosso verdadeiro berço...

MÁRIO -

À charneca, pois sim...


56 FLORBELA .................................................................

MÁRIO ESTENDE A MÃO. FLORBELA SE LEVANTA. OS DOIS SAEM PARA UM PASSEIO. LUZ SE ACENDE SOBRE APELES, NO AVIÃO DESTROÇADO.

APELES -

Vai tentar mais uma vez, Florbela? Para quê? Para quê?

LUZ SE ACENDE SOBRE JOÃO E HENRIQUETA.

JOÃO -

Minha filha está ficando completamente doida. Dizem tanta coisa sobre ela agora...

HENRIQUETA -

O médico é bom, João!

JOÃO -

É um homem! Florbela precisa de alguém que cure seu espírito, e não seu corpo! Esse homem vai se aproveitar dela!

HENRIQUETA -

Uma na charneca, envolta em tristeza... O outro no céu, envolto em nuvens. Por que seus filhos sofrem assim? Por que são tão tristes?

LUZ SE ACENDE SOBRE MARIANA E BUJA.

MARIANA -

Chego ao fim, Buja... Logo estarei morta. E deixo tudo para Florbela. Ela é minha herdeira, apesar de não ter sido minha filha...

BUJA -

Ficará boa, dona Mariana!

MARIANA -

Não, Buja. Sei que morrerei. E até acho melhor. Não quero mais ver Florbela sofrendo nas mãos de tanta gente! (PAUSA) Você gosta dos poemas dela?

BUJA -

Muito.


57 FLORBELA .................................................................

MARIANA -

Por que não publicam? Por que não falam dela?

BUJA -

As pessoas têm medo de Florbela!

MARIANA -

Não são poemas da alma? Não são poemas tristes?

BUJA -

Muito tristes... Florbela é como se fosse uma freira... A Sóror Saudade presa eternamente num convento de dores...

MARIANA -

Deviam publicar. Todos deviam saber o que Florbela Espanca pensa!

LUZ CAI SOBRE AS DUAS. ACENDE SOBRE FLORBELA E MÁRIO LAGE SENTADOS EM UM PONTO, COMO SE ESTIVESSEM NA CHARNECA.

MARIO -

Aqui está o seu campo tão amado!

FLORBELA -

Obrigada, Mário... Por que as outras pessoas não percebem toda essa poesia que há aqui?

MÁRIO -

Porque não têm olhos privilegiados como os seus...

FLORBELA -

Não, meu amigo. Eu não tenho forças, não tenho energia, não tenho coragem para nada... Sinto-me afundar... Sou o ramo de salgueiro que se inclina e diz sim a todos os ventos!

MÁRIO LAGE PEGA A MÃO DELA.

MÁRIO -

Vou fazê-la feliz, Florbela. Pela primeira vez na vida será feliz...Quer se casar comigo?


58 FLORBELA .................................................................

FLORBELA NÃO RESPONDE. FICAM SE OLHANDO. FIRMES. LUZ VAI SE APAGANDO. ACENDE-SE SOBRE ONDE ESTÃO JOÃO ESPANCA, APELES E HENRIQUETA. JOÃO ESPANCA LÊ UMA CARTA.

JOÃO -

(LENDO) Estou casada civilmente com Mário Lage, devendo meu casamento religioso realizar-se na próxima semana. Não quis deixar de, imediatamente, comunicar-lhes uma coisa que decerto lhes dará muito prazer. Destes dois anos que se passaram falaremos um dia, pois que o assunto não é para cartas, na certeza de que me darão toda a razão, pois o meu procedimento foi sempre como podia e devia ser.

LUZ SOBRE OS TRÊS. ACENDE SOBRE UM PADRE QUE REALIZA O CASAMENTO DE MÁRIO LAGE E FLORBELA. FLORBELA COM UMA PEQUENA GUIRLANDA DE FLORES NA CABEÇA E UM BUQUÊ NAS MÃOS. CERIMÔNIA EM SILÊNCIO. TERMINADA, ELA JOGA O BUQUÊ PARA APELES

FLORBELA -

Florbela Espanca Lage!

FLORBELA E MÁRIO SE BEIJAM. APELES FICA COM AS FLORES NAS MÃOS. DEPOIS, A LUZ VAI SE APAGANDO SOBRE TODOS. ACENDE-SE EM OUTRO PONTO, ONDE MARIANA, EM PÉ, VAI CRUZANDO OS BRAÇOS PARA MORRER, ENQUANTO DIZ:

MARIANA -

Oh mulher! Como és fraca e como és forte! Como sabes ser doce e desgraçada! Como sabes fingir quando em teu peito A tua alma se estorce amargurada! (T) Em nome de Deus, Amen. Eu, Mariana do Carmo Ingleza Espanca, natural de Vila Viçosa, sem ascendentes nem descendentes, livre de toda e qualquer coação, estando com saúde em meu juízo, entendimento, faço meu testamento pela forma seguinte. Em primeiro lugar declaro que sou católica romana, que protesto morrer na mesma religião. Instituo única herdeira de todos os meus bens direitos e ações minha afilhada Florbela Dalma da Conceição Espanca de maior


59 FLORBELA .................................................................

idade. Quero o meu enterro religioso. Deixo trinta missas pela minha alma, e pela alma de meu pai e de minha mãe e de minha madrinha... (VOZ SOME E ELA CRUZA OS BRAÇOS E FECHA OS OLHOS).

SINOS DOBRAM. TRÊS PADRES SE APROXIMAM, INCENSANDO MARIANA. LUZ VAI CAINDO. CAI TOTAL. OUVE-SE UM BARULHO MUITO FORTE DE AVIÃO CIRCULANDO PELO PALCO E PELA PLATÉIA. LUZ SE ACENDE. FLORBELA, NUM CANTO, OLHANDO PARA CIMA. EM OUTRO CANTO, JOÃO ESPANCA, TAMBÉM OLHANDO PARA CIMA. BUJA, FAZENDO O MESMO, DE OUTRO PONTO. ANTONIA, AMAMENTANDO AS CRIANÇAS, FAZENDO O MESMO. EM OUTRO PONTO, MÁRIO LAGE. BARULHO AUMENTA, AUMENTA, AUMENTA. EXPLOSÃO! BLACK-OUT. ACENDE-SE SOMENTE SOBRE OS DESTROÇOS DO AVIÃO. DEPOIS, SÓ EM FLORBELA, OLHANDO VAZIA PARA O INFINITO. DEPOIS, EM JOÃO ESPANCA DIZENDO, FRIO. JOÃO -

A Direção da Aeronáutica Naval comunica que no dia 6 do corrente, pelas 14:30 horas, o aparelho Hanriott 33 tripulado pelo primeiro-tenente aluno aviador Apeles da Rocha Espanca se despenhou de cerca de 200 metros no rio Tejo, em frente à Torre de Belém. A lancha número 2, que imediatamente se dirigiu ao local do desastre, apenas encontrou destroços do aparelho. O piloto deve ter tido morte instantânea e foram infrutíferas todas as tentativas para encontrar seu cadáver.

LUZ CONTINUA EM JOÃO ESPANCA. E EM FLORBELA, QUE COMEÇA DIZENDO FRIAMENTE. DEPOIS, CARREGANDO NA FALA COM DIGNIDADE E EMOÇÃO. FLORBELA -

É verdade, meu pai. O nosso rapaz. O nosso querido pequenino morreu. Parece um pesadelo mas não é. Morreu. Parece que morreu tudo, que ele não deixou cá ficar nada, parece que levou tudo. A gente é muito forte, já que não endoidece nem morre depois de um pavor assim. Mas eu choro o meu maior amor, o meu orgulho, metade da minha alma. Perdemos muito, meu pai, perdemos muitíssimo. É uma sombra de luto que nunca poderá deixar-nos.

FLORBELA E JOÃO ESPANCA FICAM EM SILÊNCIO. LUZ SOBRE BUJA.


60 FLORBELA .................................................................

BUJA -

Ela disse quase nada. Encerrada em si mesma como num cofre selado, foi um túmulo fechado e mudo, onde as revoltas e os gritos, as censuras e as carícias iam se despedaçar em vão. À noite, viam-na vaguear, horas e horas, sozinha, pelas ruas do jardim, sem se voltar, sem um gesto, sem um olhar de interesse pelas coisas que não via!

LUZ SE APAGA EM JOÃO ESPANCA E EM BUJA. FICA SÓ EM FLORBELA. (T) ELA BERRA E SAI CORRENDO EM DIREÇÃO AOS DESTROÇOS. FLORBELA -

Apeles! Apeles!

CHEGA AOS DESTROÇOS. NINGUÉM POR ALI. DESCONTROLADA. APANHA DOIS DISCOS DO AVIÃO. FLORBELA -

LUZ CAI. BLACK-OUT.

(SOFRIDA) Apeles, meu amor!

FLORBELA

CHORA,


61 FLORBELA .................................................................

CENA VII LUZ SE ACENDE SOBRE OS TRÊS PADRES NO FUNDO DO PALCO. PADRES EM ROUPA PRETA, COMO URUBUS RONDANDO.

PADRE I -

Ele caiu no Tejo!

PADRE II -

Ela caiu em depressão!

PADRE III -

Os dois caíram no Inferno!

PADRE I -

A voz de Deus era mais alta!

PADRE II -

Não se desafia o amor dos Homens impunemente!

PADRE III -

Não se pode deixar levar pela lascívia, pela sedução, pelo arroubo!

PADRE I -

Ela, na depressão! Ele, no fundo do Tejo!

LUZ SE APAGA EM RESISTÊNCIA SOBRE OS PADRES. ACENDE-SE NA CHAISE-LONGUE. FLORBELA, DEITADA, FUMANDO TRISTE. MUITO TRISTE. MARIO LAGE, AO LADO DELA EM PÉ. OLHANDO. LUZ SE ACENDE SOBRE APELES, SENTADO SOBRE OS DESTROÇOS DO SEU AVIÃO.

APELES -

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia


62 FLORBELA .................................................................

ELE ACENDE UM CIGARRO. FLORBELA TAMBÉM FUMA. MÁRIO LAGE TAMBÉM FUMA. MÁRIO FICA OLHANDO MAIS E MAIS PARA FLORBELA. DEPOIS, FAZ UM GESTO DE ENFADO E SAI DA CENA. (T) APELES SORRI. FLORBELA CONTINUA SEM VÊ-LO.

APELES -

Minha criança, estou esperando por você! Vem... O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

LUZ SE APAGA SOBRE APELES. FICA SÓ EM FLORBELA, FUMANDO, LÂNGUIDA, NA CHAISE-LONGUE. LUZ EM RESISTÊNCIA. CAI TODA. ACENDE-SE SOBRE JOÃO ESPANCA E BUJA.

JOÃO -

Você sabe o que anda acontecendo com ela. Sabe e não quer me dizer...

BUJA -

Está mal. Está muito mal... O senhor sabe como ela e o irmão...

JOÃO -

Sei, sei... Mas Florbela não pode ficar assim...

BUJA -

Ela não tem mais escolha. A depressão é enorme!

JOÃO -

E o marido? O marido não faz nada? Não é médico?

BUJA -

Nem sei se o marido é marido...

JOÃO -

(REAGINDO) O que quer dizer com isso, Buja?


63 FLORBELA .................................................................

BUJA -

Nada!

LUZ CAI SOBRE ELES. ACENDE-SE NA CHAISE. FLORBELA CONTINUA ESTÁTICA. MÁRIO LAGE ESTÁ ALI. NERVOSO.

MÁRIO -

Assim, é impossível! Você já deveria ter se recuperado da morte de Apeles.

FLORBELA -

(SEM REAGIR)

MÁRIO -

Na verdade, Florbela, eu não aguento mais a situação...

FLORBELA -

Nem eu...

MÁRIO -

Você não reage...

FLORBELA -

Acabou...

MÁRIO -

E nosso casamento, acabou também?

FLORBELA AÍ, REAGE.

FLORBELA -

Acha que eu deveria pedir perdão? Não, Mário. Não. Nosso casamento foi um engano... Mais meu que seu...

MÁRIO -

Está me acusando?

FLORBELA -

Estou dizendo uma verdade! Você acabou me usando como escudo...


64 FLORBELA .................................................................

MÁRIO -

Escudo?

FLORBELA -

Descobri muita coisa do que você era e do que você é... Eu entendi, meu caro, que ter-se casado com uma mulher tão visada como eu, tão criticada, veio da sua necessidade de se defender da sociedade...

MÁRIO -

Você está louca!

FLORBELA -

Talvez! Talvez esteja! Ou talvez sempre tenha estado louca! E você se aproveitou disso! Era bom! Será que é tão egoísta que não vê que tenho febre todos os dias, que não como, que estou arrebentada?

MÁRIO -

E fuma todo o tempo!

FLORBELA -

Preciso me alimentar de algo! Que, ao menos, seja de fumaça e nicotina...

MÁRIO -

Está querendo morrer, Florbela!

FLORBELA -

(SORRI)

MÁRIO -

Porque ele morreu! Por isso! Grudados na vida e grudados na morte!

FLORBELA -

Você, como todos os outros, nunca entendeu nada. Sabe o que penso, Mário Lage? Que quando algum morre, dizem: os vivos ficam-se a rir! Apesar do riso, são os vivos que eu lamento!

MÁRIO -

Eu não a entendo mais. Diga-me... Ao menos, ainda me ama?


65 FLORBELA .................................................................

FLORBELA -

O amor! Ah, sim, o amor! Linda coisa para versos! A minha dolorosa experiência, Mário, mostrou-me que sou só, que por mais que a gente se debruce sobre o mistério de uma alma nunca o desvenda, que as palavras nada exprimem do que se quer dizer e que um grande amor, de que a gente faz o sangue e os nervos e as próprias palpitações da nossa própria vida, não passa duma pobre coisa banal e incompleta...

MÁRIO LAGE VAI SE RETIRANDO E FLORBELA CONTINUA FALANDO, SOZINHA.

FLORBELA -

Uma coisa imperfeita e absurda, que nos deixa iguais, miseravelmente iguais ao que éramos antes, ao que continuaremos a ser... Então, para quê? Tenho imensa pena de lhe não poder dizer, com verdade, que sou feliz.

LUZ SE ACENDE SOBRE JOÃO ESPANCA, EM OUTRO PONTO.

JOÃO -

E o seu talento?

FLORBELA -

(EM PÉ) O meu talento! De que tem me servido? Não trouxe nunca às minhas mãos vazias a mais pequenina esmola do destino. Até hoje não há ninguém que de mim se tenha aproximado que me não tenha feito mal. Talvez por culpa minha... Talvez...

FLORBELA SE ENCAMINHA ATÉ UM PONTO. AÍ ESTÁ ANTONIA. LUZ SOBRE ELA. ANTONIA MOSTRA A FLORBELA UMA BONECA. UMA SÓ.

ANTONIA -

Você! Que sempre ficou comigo... Ou no seu mundo, não sei...

FLORBELA -

O meu mundo, mãe, não é como o dos outros. Quero demais. Exijo demais. Há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta,


66 FLORBELA .................................................................

atormentada; uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê! A senhora entende isso?

ANTONIA -

(HUMILDE) Entendo...Você bebeu do meu leite! Você e ele!

FLORBELA CONTINUA ANDANDO PELO PALCO. LUZ SE APAGA SOBRE ANTONIA. E ACENDE-SE SOBRE MARIANA.

MARIANA -

Por que a tristeza, Florbela?

FLORBELA -

De mim ninguém gosta... De mim, ninguém nunca gostou... Sou uma céptica que crê em tudo, uma desiludida cheia de ilusões, uma revoltada que aceita, sorridente, todo o mal da vida, uma indiferente a transbordar de ternura. Grave e metódica até a mania, atenta a todas as sutilezas de um raciocínio claro e lúcido, não deixo de ser, no entanto, uma espécie de D. Quixote fêmea a combater moinhos de vento, quimérica e fantástica, sempre enganada e sempre a pedir novas mentiras à vida, num dom de mim própria que não acaba, que não desfalece, que não cansa!

MARIANA -

Abrace-me, Florbela!

FLORBELA RECUA, COM MEDO.

FLORBELA -

Não! Não! Os mortos não podem me abraçar... Eu lhes daria a vida novamente e isso é o pior de tudo! O pior!

AS LUZES SE APAGAM SOBRE TODOS OS PONTOS. SÓ A SILHUETA DE FLORBELA, QUE FALA BAIXINHO.

FLORBELA -

Nada me chega... Nada me convence... Nada me enche... A morte, talvez... Esse total e profundo repouso...


67 FLORBELA .................................................................

OUVE-SE O BERRO ALEGRE DE APELES.

APELES -

Florbela!

O PALCO É INUNDADO POR UMA LUZ AZUL MUITO FORTE. SÓ ESTÃO FLORBELA E APELES. CADA UM NUM CANTO.

APELES -

Aqui, Florbela! Aqui!

FLORBELA -

(DESESPERADA) Onde, Apeles?... Eu não o vejo!

APELES -

Aqui! Junto ao avião! Este idiota tinha de explodir?!

FLORBELA -

Onde, Apeles? Eu não o vejo! Não sei onde você está!

APELES -

Aqui! Aqui!

LUZ SOBE MAIS AINDA. APELES CONTINUA SORRINDO. FLORBELA SE APROXIMA DO PONTO ONDE ELE ESTÁ MAS NÃO O VÊ. FLORBELA VAI ATÉ O AVIÃO.

FLORBELA -

Apeles, por Deus! Estou aqui, junto ao avião... Mas você não está, meu querido... Apareça... Pelo nosso amor, apareça...

APELES -

Você ainda não consegue me ver!

FLORBELA SENTA-SE DESANIMADA POR ALI.

FLORBELA -

Apeles! Apeles!


68 FLORBELA .................................................................

A LUZ VAI SE TORNANDO NORMAL. APELES SOME DA CENA. (T) VEM BUJA E FICA PERTO DE FLORBELA.

BUJA -

Florbela, sou eu... Buja!

FLORBELA LEVANTA OS OLHOS.

FLORBELA -

Onde ele está?

BUJA -

Venha comigo... Para casa... Você vai conseguir sarar, Bela...Vai conseguir viver bem de novo...

FLORBELA -

Vou! Vou sim! Quero que aqueles que convivem comigo continuem me achando alegre e irônica... Buja, eu nunca vou contar a ninguém que tenho uma tristíssima inferioridade de me sentir uma exilada de toda a alegria sã, franca; não vou mostrar a ninguém a miséria da minha miséria de inadaptável, de insaciada. Incompreendida! Que isso quer dizer? Quase nada...Quem não compreende sou eu... Eu é que não compreendo os outors, os seus prazeres, os seus gostos, as suas fontes de água clara onde se lavam e onde se contemplam. Não sou de maneira nenhuma uma pessimista! Não! Sou uma emotiva vibrante, exaltada, cheia de élans de vôos que ultrapassam a vida e os vivos, isso sim!

OUVE-SE O BARULHO DO AVIÃO NOVAMENTE. MUITO FORTE. FLORBELA LEVANTA OS OLHOS PARA O CÉU.

FLORBELA -

Apeles está chegando! (RI) Não, Buja, não enlouqueci! Sei do que falo...

BUJA -

Vamos... Temos muito o que fazer. Amanhã é o dia dos seus anos...

AS DUAS VÃO SEGUINDO. FLORBELA ESTANCA. SEGURA BUJA.


69 FLORBELA .................................................................

FLORBELA -

Falou com Guido Batelli? Disse a ele da minha pressa?

BUJA -

Ainda não...

FLORBELA -

Buja, pelo amor de Deus... Eu preciso que meu livro seja publicado... Preciso, entende? (SONHADORA) "Charneca em Flor"... (T) Alguém terá de ler esse livro, Buja!

BUJA -

Muitos lerão!

FLORBELA -

Quando? (MUDANDO) Bem, vamos aos preparativos do meu aniversário...

AS DUAS SAEM DA CENA, RAPIDAMENTE. LUZ SE ACENDE SOBRE APELES, QUE TECE UMA COROA COM FLORES DO CAMPO.

APELES -

Uma coroa de flores para uma pagã e anarquista! Como convém a uma pantera que se preza...

APELES VAI COM A COROA ATÉ A CHAISE-LONGUE. OUVE PASSOS. APANHA RAPIDAMENTE A COROA E FICA ESPIANDO, COM ATENÇÃO. ENTRAM JOÃO ESPANCA, ANTONIA/HENRIQUETA, MARIDO, MARIANA. TODOS EMPURRANDO O PEDESTAL. NA MESMA SEQUÊNCIA DA ABERTURA DA PEÇA. COLOCAM O PEDESTAL NO CENTRO DO PALCO. SAEM. APELES VAI ATÉ PERTO DO PEDESTAL. ESPIA. FUÇA. VOLTA, APANHA A COROA E VAI EMBORA PARA JUNTO DOS DESTROÇOS DO AVIÃO. LUZ SE ACENDE SOBRE UM PADRE, NO FUNDO DO PALCO.


70 FLORBELA .................................................................

PADRE -

Seu livro será execrado, Florbela Espanca. Você detestou a vida. Com desdém. Você não viveu em paz, como toda a gente!

LUZ SE APAGA SOBRE O PADRE. ACENDE-SE SOBRE FLORBELA E BUJA, QUE TOMAM CHÁ JUNTO À CHAISE.

FLORBELA -

Tenho uma vontade louca de ver meu livro pronto. Mas parece que morrerei antes...

BUJA -

Que pensamento idiota para o dia de aniversário!

FLORBELA -

É verdade, Buja... (ANIMADA) Já reparou que, daqui a alguns dias, será Natal?

BUJA -

Você prometeu passar comigo...

FLORBELA -

E irei... Pode arrumar tudo... Comeremos nozes e castanhas... Beberemos um bom vinho... Cantaremos e diremos poemas ao pé do fogo...

BUJA -

Seremos felizes...

FLORBELA -

Sim... Seremos felizes... (T)Como sou agora...

BUJA ERGUE A CHÁVENA DE CHÁ.

BUJA -

À sua saúde, Florbela Espanca!

FLORBELA SORRI. LUZ SE APAGA SOBRE ELAS.


71 FLORBELA .................................................................

ACENDE-SE SOBRE APELES, QUE TENTA FAZER GIRAR A HÉLICE DE SEU AVIÃO TODO QUEBRADO. TENTA, TENTA, TENTA... INUTILMENTE. LUZ CONTINUA NELE. ACENDE-SE SOBRE A CHAISE. FLORBELA ESTÁ SOZINHA. DEITADA. TOMA UM COMPRIMIDO. PENSA. TOMA OUTRO COMPRIMIDO. DEPOIS OUTRO.

FLORBELA -

(SORRINDO) E não haver gestos novos nem palavras novas!

TOMA MAIS COMPRIMIDOS. APELES BERRA, QUANDO A HÉLICE COMEÇA A GIRAR.

APELES -

Pegou, Florbela!!!! Agora pegou de verdade!!!

FLORBELA PULA DA CHAISE. FINALMENTE VÊ APELES. BARULHO CONTÍNUO DE MOTOR DE AVIÃO.

FLORBELA -

Onde você estava?

APELES -

Brincando com você!

FLORBELA -

Disseram que havia morrido... Caído no Tejo...

APELES -

E disseram que você havia tomado muitos comprimidos de veronal, bem no dia do seu aniversário. Que tinha se suicidado! Está pronta?

FLORBELA -

Sim...Voaremos para onde?

APELES -

Importa?


72 FLORBELA .................................................................

FLORBELA -

Não, não importa. Mas eu quero ver Portugal de cima...Vila Viçosa lá de junto às nuvens...

OS DOIS SE ENCAMINHAM DE MÃOS DADAS PARA OS DESTROÇOS DO AVIÃO. APELES PÕE A COROA DE FLORES NA CABEÇA DE FLORBELA. APARECEM JOÃO ESPANCA, MARIANA, ANTONIA/HENRIQUETA, MARIDO. FICAM OLHANDO PARA OS DOIS, MAS SEM VÊ-LOS NA VERDADE.

FLORBELA -

Essa geringonça funciona mesmo?

APELES -

Não duvide das proezas de um filho dos deuses...

FLORBELA -

Até parece... (T) Apeles, eu tenho medo!

APELES -

Perderá!... Assim que, finalmente, sentir que está libertada! Iluminada!

UMA LUZ AZULADA COMEÇA A INUNDAR O PALCO, CADA VEZ MAIS FORTEMENTE. APELES JÁ VAI ENTRAR NO AVIÃO. FLORBELA GRITA PARA ELE.

FLORBELA -

E a homenagem? O busto que fizeram para mim?

APELES -

Você precisa disso?

FLORBELA -

Não!

FLORBELA SOBE NO APARELHO COM APELES. SURGEM OS PADRES E COMEÇAM A EMPURRAR O PEDESTAL PARA OS FUNDOS. BUJA VEM CORRENDO E BRECA OS PADRES.


73 FLORBELA .................................................................

FLORBELA -

(VIBRANDO) É Buja!!! É Buja!!!

BUJA, NUM ACESSO DE FORÇA, ARRANCA O PANO SOBRE O PEDESTAL, REVELANDO UM IMPONENTE BUSTO DE FLORBELA. OUVE-SE UM GRANDE BARULHO DE AVIÃO. UM VENTO INVADE TODO O PALCO. A LUZ AZULADA TOMA CONTA DE TUDO. TODOS FICAM CONGELADOS. SÓ BUJA, COM UM ENORME LENÇO AZUL, ACENA PARA ELES. LUZ VAI CAINDO EM RESISTÊNCIA. BLACK-OUT. ENTRAM VOZES EM OFF DE APELES E FLORBELA CANTANDO, EM MEIO AO BARULHO DO VÔO RASANTE DE UM AVIÃO.

FLORBELA/APELES

(CANTANDO) Eu quero amar, amar perdidamente! Amar só por amar: aqui... além... Mais este e aquele, o outro e toda a gente Amar! Amar! E não amar ninguém! Recordar? Esquecer? Indiferente! Prender ou desprender? É mal? É bem? Quem disser que se pode amar alguém Durante a vida inteira é porque mente! Há uma primavera em cada vida: É preciso cantá-la assim florida, Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar! E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada Que seja a minha noite uma alvorada, Que me saiba perder... pra me encontrar!

BLACK-OUT.

FIM


Florbela