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CARPE DIEM comédia dramática

FLAVIO DE SOUZA


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Personagens ELE – Um homem comum, de exatamente cinqüenta anos. ANJO DA GUARDA MÃE IRMÃ 1 IRMA 2 PAI NOSSA SENHORA AVÓ ESTELA PRIMEIRA ESPOSA PAIS DA PRIMEIRA ESPOSA AMIGO 1 AMIGA 1 AMIGA 2 IRMÃO MENINA IRMÃ DA MENINA MENINA ASSANHADA MENINA BOBA MENINO AMIGO 2


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Útero = Escuro. Som de coração. Som de água. Som de voz feminina abafada, ininteligível, grave. Nosso personagem central, Ele, entra com microfone com fio, ligado. Ele fala diretamente à platéia, como um comediante de stand up comedy e, ao mesmo tempo, um mestre de cerimônias. ELE – (AO MICROFONE) Finalmente chegou a penúltima parte desta cerimônia, o momento turumpch da noite. Turumpch é o barulho que o baterista faz quando o comediante termina a piada, ou diz algo sensacional. (IMITA MELHOR) Turrrrumpch! Que é para o público saber que tem que rir ou aplaudir. Eu queria ter um baterista me acompanhando na vida real, fazendo turumpch nos grandes momentos. Se bem que ele ia passar muito tempo sem ter o que fazer, porque quantos momentos turumpch a gente tem na vida? Um dos grandes momentos turumpch da minha vida foi quando eu estava num bar, já na segunda garrafa de cerveja, e entrou uma prostituta de classe, linda e gostosa que veio direto para mim e disse: “Esta é sua noite de sorte. Eu tenho uma oferta especial para você. Eu vou fazer qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo por 300 reais, desde que você consiga dizer o que você quer em três palavras”. Eu tinha acabado de receber o salário, e nem pisquei, tirei seis notas de cinqüenta da carteira e disse: (PAUSADAMENTE) “Pinte. Minha. Casa”. Rápida pausa. ELE – (AO MICROFONE) Turumpch! Ele mesmo ri. Entra na trilha música do filme “Julieta dos Espíritos”, de Federico Fellini. ELE – (AO MICROFONE) É claro que isso é só uma piada. Deve ter um monte de gente aqui que sabe que meus filmes prediletos são “Oito e meio” e “Julieta dos espíritos”. Se um anjo aparecesse e contasse que iam produzir um filme baseado na minha vida, eu ia pedir para ser uma mistura dos dois. Eu adoro o Fellini. Na trilha, música com cara de filme de Bergman. ELE – (AO MICROFONE) Pena que a minha vida tenha sido um filme do Bergman. Um daqueles em preto e branco. Tristes. Bem parados. E incompreensíveis. Pausa. ELE – (AO MICROFONE) Turumpch! É claro que isso também foi só uma piada. E isso é tudo, pessoal. Chega de discurso. De agora em diante, é só alegria. Chegou o momento tão esperado por alguns, e temido por outros. A maioria de nós já está


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embriagada o suficiente para ouvir uns aos outros cantando desafinado e atravessado. Quem não estiver preparado, agarre um dos garçons e exija bebida, que sei lá o que eu estou dizendo e o que eu queria dizer, mas eu vou dizer que como sou eu mesmo que estou pagando a conta, eu me reservo o direito de inaugurar o karaokê... Ele faz sinal para alguém, fora de cena. Entra orquestração de “Over the rainbow” ELE - (AO MICROFONE) ...com a música que eu mais gostei na minha vida e continuo gostando, numa versão de minha própria autoria para “Over the rainbow”! Ele começa a cantar, completamente feliz e realizado. ELE – Para além do arco-íris Quero ir Ao lugar que é descrito Na canção de ninar No além do arco-íris É feliz Quem voando ou sonhando Consegue lá chegar A orquestração continua, mas ele pára de cantar, parecendo estar perdido em pensamentos. Escuro. Luz. Ele está no telhado do prédio onde fica o salão de festas. Ele vai até a “borda”, olha para baixo. A mesma música prossegue. Um anjo da guarda surge ao lado dele. ANJO – Você vai se jogar? Ele não olha para o anjo, responde e continua conversando sem se dar conta de que há alguém lá com ele. ELE – Não. Eu tenho medo de altura. Eu vim aqui porque dá para ver o céu. ANJO – Por que eu tive a impressão de que você ia se jogar? ELE – É porque eu vou tomar um vidro de comprimidos. Ele tira frasco de comprimidos do bolso, mostra. ANJO – A seco? Ele tira garrafinha de água de outro bolso.


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ANJO – Você veio mesmo decidido. ELE – Parece que sim. ANJO – Só parece? ELE – Não. ANJO – Podemos conversar a respeito? Ele olha para o anjo, e percebe que alguém está lá, e em seguida que se trata de um anjo. ELE – Que coisa. Está sendo exatamente como eu achava que ia ser quando eu era criança. ANJO – Eu não vim te buscar. ELE – O quê, então? ANJO – Guardar. ELE – Eu achei que vocês só guardavam crianças. ANJO – Exato. ELE – Quase cinqüenta anos. ANJO – Exato. ELE – E ainda criança. ANJO – Exato. ELE – Não senhor, eu perdi a vontade de brincar, a capacidade de me surpreender. E o espírito esportivo. ANJO – E adquiriu uma incrível capacidade de se enganar a seu respeito. ELE – Eu cansei de procurar. ANJO – E pensa que não achou. ELE – Se tivesse encontrado, não estaria tendo uma alucinação em que eu converso com um anjo antes de ingerir 49 comprimidos. ANJO – Um para cada ano?


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ELE – Não, nada comemorativo, que foi por causa dos planos e preparativos para uma comemoração que eu cheguei aqui. ANJO – Uma festa? ELE – De despedida, quer dizer, de aniversário. Eu faço cinqüenta daqui a... (OLHA RELÓGIO) oitenta e sete minutos. Eu nasci exatamente à meia-noite. Meus amigos acham que eu devia me chamar Cinderela. Turumpch! Pausa. ANJO – Acho que não entendi. ELE – Esquece. Cinqüenta anos é tempo demais para desperdiçar. ANJO – Eu devia fazer cara triste? Sentir pena? Pausa. ELE – Olha, eu já tentei me explicar para um monte de gente, e não consegui, tudo bem, não vai ser um anjo que mora no paraíso que vai entender. Entendeu? ANJO – Talvez. ELE – Ótimo. Você poderia me dar licença? Eu não costumo me suicidar com alguém olhando. É uma coisa íntima, minha de eu comigo mesmo. ANJO – Por que você resolveu fazer a festa? ELE – Para comemorar. O quê?, não sei. Não, sei. O fato de ter chegado aos cinqüenta. Pausa. ELE – Eu já pensei (SACODE O FRASCO DE COMPRIMIDOS) nisso antes. Mas nunca com tanta certeza. ANJO – Foi a lista de convidados? ELE – Eu me dei conta de que tinha brigado com quase todo mundo de quem tinha sido amigo. Fui deixando para trás. Deixando de ligar. Deixando de lembrar. Teve gente que eu fiquei com medo de procurar. ANJO – E as fotos. ELE – Com pessoas que morreram. Pessoas que eu esqueci. De quem eu me afastei. Gente que mora na mesma cidade e eu nunca mais vi.


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ANJO – Todos? ELE – Não. Tem um monte deles lá embaixo. Um verdadeiro trem fantasma. Só que o principal zumbi se mandou. (SACUDINDO O FRASCO DE COMPRIMIDOS) Chegou a hora de desfazer o vudu! ANJO – Eu posso te salvar. ELE – Por favor não. De te contar me voltou a maior vontade. ANJO – Você vai ter que me convencer. ELE – Olha que é bem fácil, e você vai estar mortalmente entediado antes de eu chegar ao fim do começo. ANJO – Eu posso fazer alguém chegar e você acordar num hospital, sentindo-se bem mal. ELE – Por favor. ANJO – Por favor. Pausa. ELE – Você espera que eu comece tipo nasci aqui, e até os dois anos morei ali, etc.? ANJO – Eu não espero nada. Os anjos não têm esperança. Porque não precisam de nada, e portanto não têm o que esperar. ELE – Deve ser bom. Ser assim, desesperado. ANJO – Por que você não experimenta? ELE – Você acha que se eu ainda tivesse esperança eu estaria aqui? (SACODE FRASCO DE COMPRIMIDOS) Fazendo isso? ANJO – Você tem a esperança de que isso dê certo. ELE – Eu tinha, até alguém aparecer e me ameaçar. O anjo consulta um caderninho. ANJO – Eu posso provar que você foi feliz. Por volta dos dez anos de idade. ELE – Você está louco.


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ANJO – Prove que eu estou errado. Escuro. Luz. Mesa de refeições. Ele, Mãe, Irmã 1 e Irmã 2 falam literalmente ao mesmo tempo. Tema musical principal do filme “Amarcord”. Todos os diálogos desta cena devem acontecer em alta velocidade. ELE – Eu estou morrendo de fome! Por que a gente não está almoçando? Mãe! Dá pra me ouvir? Eu tô com fome. Depois você reclama que eu como na saída da escola, mas todo dia você fica conversando com elas e esquece que as pessoas sentam em volta de uma mesa nesse horário para comer alguma coisa! Arroz, feijão, salada, bife! Socorro! Pelo amor de Deus me dá alguma coisa pra eu comer! MÃE – Vocês deviam usar o uniforme! Não é obrigatório, mas é tão mais fácil acordar e colocar o uniforme sem ter que pensar em combinar uma saia e uma blusa e o que será que as colegas vão usar e o que será que “elas” vão usar e o que será que “eles” vão pensar do que vocês estão usando! Fora que um uniforme dá para ser usado dois ou três dias, nós estamos esperando seu pai, meninos dos infernos! IRMÃ 1 – Eu cheguei atrasada de novo por causa dela, sabia? A professora não acreditou que eu estava chegando atrasada porque a minha mãe teve que refazer a bainha da saia da minha irmã na hora da gente sair para a escola. Dá para acreditar? Eu não acreditaria, se fosse ela. Um dia desses eu vou ser suspensa e eu quero saber quem é que vai contar para o papai, eu é que não sou! IRMÃ 2 – Você queria que eu fosse para a escola como uma mendiga com a barra da saia caindo? E não adianta fazer essa cara de você-podia-ir-com-outra, porque eu não sou louca de repetir a mesma roupa na mesma semana com aquelas bruxas de olho em mim, elas já desconfiam que eu não sou da mesma classe social delas, não sou eu que vou dar uma prova! O Pai chega, fazendo todos se calarem com sua presença. ANJO – Ele está com algum problema sério? ELE – Está. Mas eu não me lembro de um só dia em que ele não estivesse com algum problema sério. Ou vários. MÃE – Vamos almoçar? O Pai é o oposto da Mãe: ele é dramático no conteúdo, mas age de maneira aparentemente normal. A mãe diz coisas banais da maneira mais dramática. PAI – Era melhor vocês não terem me esperado, eu estou completamente sem apetite. Finjam que eu não existo.


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Pausa. O Pai se prepara para dizer algo retumbante. O irmãos se olham, se cutucam. ELE – Aí vem o doutor Texugo! Os três riem. MÃE – É do seu pai que vocês estão rindo? ELE, IRMÃ 1 E IRMÃ 2 – Não! ANJO – Estão! Por quê? ELE – Era uma brincadeira, a gente chamava esses momentos de... Vinheta musical com ruídos de desenho animado. ELE - ...as frases bombásticas do doutor Texugo. ANJO – Por que texugo? ELE – Sei lá, saiu da mente torpe de uma das minhas irmãs. PAI – Eu praticamente não existo mesmo. Eu não passo de uma sombra, um zumbi de trem fantasma, sem alma e sem sangue nas veias. Repete-se a vinheta musical do doutor Texugo. IRMÃ 1 – Onde você estava, pai? IRMÃ 2 – Na casa da vovó. ELE – (SÓ PARA AS IRMÃS) Falando em trem fantasma... MÃE – Você não me falou que ia... PAI – Ela me ligou e pediu para ir lá. Como eu poderia negar? Eu sempre fui e continuo sendo um escravo da vontade materna. Repete-se a vinheta musical do doutor Texugo. IRMÃ 1 - (PARA IRMÃ 2) Como você sabia? MÃE – Mas a gente ia discutir aquele assunto antes. IRMÃ 2 - (PARA IRMÃ 1) Ele está com bafo de café, e a vovó não deixa ele sair de lá sem tomar um balde de café!


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ELE – A gente não vai almoçar? MÃE - (IMITANDO) A gente não vai almoçar? PAI – Olha só quem quer almoçar! MÃE – (PARA ELE) Hoje você vai ficar sem sobremesa! IRMÃ 2 – Posso comer a parte dele? IRMÃ 1 – (PARA IRMÃ 2) Um dia desses você vai explodir. PAI – Não, eu é que vou. E o estrago vai ser maior que o de todas as bombas nazistas sobre a capital inglesa. MÃE – (PARA ELE) Pensando bem, você vai ficar uma semana sem sobremesa! ELE – O que foi que eu fiz? MÃE - (IMITANDO) O que foi que eu fiz? PAI – Pode se despedir do seu trenzinho elétrico. Eu vou dar para seu primo, que não tem, e que merece muito mais que você, e vai dar o devido valor. Que sorriso é esse? Por que você está sorrindo? ELE – Eu não estou sorrindo. ANJO – Você está sorrindo. ELE – (PARA ANJO) Não, eu estava fazendo força para não dar risada. MÃE – (PARA PAI) Posso servir o almoço? Você vai perder o horário. PAI – Eu perdi é o apetite. Eu estou inapetente há dias e este fenômeno só deve piorar! Talvez a minha morte venha por meio da inanição. Repete-se a vinheta musical do doutor Texugo. MÃE – (PARA ELE) Você vai ficar um mês sem sobremesa! IRMÃ 2 – A gente pode saber do que vocês estão falando? IRMÃ 1 – Você sabe. IRMÃ 2 – Ah, é daquilo. ELE – Daquilo o quê?


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PAI – (PARA MÃE) A sua irmã teve um colapso nervoso. MÃE – O que não é nenhuma novidade. Mas eu não quero ouvir pelo resto da vida a mãe da minha irmã dizer: Você praticamente matou a Suzaninha! (PARA ELE) Você vai ficar um ano sem sobremesa! PAI – E três aniversários sem festa, nem presente! MÃE – Não é muito? PAI – Nós perdemos o Natal para sempre! MÃE – (DRAMÁTICA, PARA ELE) Você vai ficar três aniversários sem festa, nem presente! ELE – Acabou o Natal? Por quê? MÃE – (IMITANDO) Acabou o Natal? Por quê? ANJO – Você está fingindo que não sabe do que eles estão falando? ELE – (PARA ANJO) É claro, né? PAI – Ele ainda finge que não sabe de nada! MÃE – Pelo menos a gente não teve que falar com o padre. Silêncio, percebe-se pelo clima que o Pai impõe que ele teve que falar com o padre. MÃE – Você não foi lá! PAI – Ele estava na casa da minha mãe! IRMÃ 2 – Filando uma bóia! Como toda quarta-feira. Pai e Mãe olham feio para irmã 2. ELE – Ela devia ficar sem sobremesa também. PAI – Quieto, seu capeta! IRMÃ 1 – Seria bom pra ela. Todos voltam a falar ao mesmo tempo.


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MÃE – Ainda bem que seu irmão não está aqui, porque ele ia querer te dar uma lição, e seu pai e eu é que íamos ter que segurar! Por que vocês vivem brigando? Para nos dar desgosto? PAI – Eu detesto aquele padre, eu detesto todos os padres, mas a minha mãe não precisa saber disso, quer dizer, ela sabe, mas eu não preciso dar a prova que ela precisa para me atormentar! IRMÃ 1 – Eu acho um absurdo a gente passar mais um almoço sem comer e todo mundo nervoso e desgastado por causa de uma coisa boba que não tem problema nenhum. Beijo não tira pedaço! IRMÃ 2 – Se fosse um soco! Mas não foi! Eu acho lindo dois primos se beijarem. Essa história de que foi “lá”, está com a maior cara de ser mentira, eu aposto o que vocês quiserem de que é mentira! ELE – Eu não sou um criminoso, eu não roubei, não matei, não xinguei a mãe do padre, e vocês estão me matando de fome! Eu estou em fase de crescimento, não posso ficar sem comida! Ele sai da cena e se afasta. A família continua falando sem parar, todos ao mesmo tempo, mas sem som. ANJO – Isso é o que eu chamo de balbúrdia. ELE – Esse foi um caso excepcional. Normalmente era bem pior. Faltaram mais duas vozes aí, dos meus irmãos. ANJO – Onde eles estavam? ELE – Num acampamento. As duas irmãs saem da cena, falando. Pai e Mãe continuam a falar sem parar, em clima de conspiração. ANJO – Eu sou obrigado a confessar que não entendi perfeitamente nada do que vocês todos estavam falando. ELE – Não sei se você está preparado. ANJO – Eu já ouvi coisas que até Deus duvida! Ele volta a ter dez anos de idade. O anjo assiste, afastado. Nossa Senhora surge na frente dele. ANJO – Nossa Senhora?


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ELE – Nossa Senhora! NOSSA SENHORA – Por que o espanto? ELE – Senhora? NOSSA SENHORA – Parece que você está espantado pelo fato de eu realmente existir. Não minta. ELE – É que a mesma pessoa que disse que a senhora não existia disse que o Papai Noel não existia e faz tempo que eu descobri que é meu pai que compra os presentes no Natal. NOSSA SENHORA – Agora sou eu que estou espantada. ELE – Desculpe. (SUBITAMENTE, IMPETUOSO) Eu vou ficar famoso! NOSSA SENHORA – (COMO SE NÃO TIVESSE OUVIDO DIREITO) Como? ELE – Como os portuguesinhos e a santa Bernadete! NOSSA SENHORA – (QUERENDO SABER DE QUE MANEIRA) Como? ELE – A senhora apareceu pra três camponesinhos e contou três coisas tão horríveis e depois apareceu pra santa Bernadete, que mandou construir uma capela dentro de uma gruta numa cidade da França e a água era milagrosa. Lembra? Pausa. NOSSA SENHORA – Não acredite em tudo que contam para você. Mas vamos ao motivo que me trouxe aqui. Você pode salvar uma vida. ELE – Como? NOSSA SENHORA – Avise seu tio que o DKV dele vai pegar fogo. ELE – E? NOSSA SENHORA – Você não quer que seu tio morra queimado! ELE – Não. Mas a senhora sabe quanto tempo leva pra esquentar o motor de um DKV de manhã? NOSSA SENHORA – É claro que não. ELE – Meia hora. No inverno, quarenta minutos.


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NOSSA SENHORA – E? ELE – Meu tio é meu vizinho. E a janela do quarto onde eu durmo dá pra rua, onde todo santo dia ele acelera sem parar pra esquentar o motor do DKV dele. Bem cedinho. NOSSA SENHORA – Você é surdo? (BEM ALTO) O motor do DKV dele vai pegar fogo. ELE – Mesmo se eu avisar? Isso É um milagre! NOSSA SENHORA – Mais fácil de realizar que convencer um menino a ser herói. ELE – Posso pedir outro milagre? NOSSA SENHORA – Veremos. ELE – A senhora pode transformar um trenzinho elétrico num autorama? Pausa. NOSSA SENHORA – De tudo o que me pediram em mais de dois mil anos! ELE – É que foi o “Papai Noel” que comprou, e ele queria ter um trenzinho elétrico quando tinha dez anos, e sabe quem é que vai brincar com o trenzinho elétrico, né? NOSSA SENHORA – E qual é o mal de compartilhar sua alegria com seu pai? ELE – Que alegria? Eu não quero um trenzinho elétrico! É um brinquedo estúpido! Que graça tem um treco que fica dando voltas e voltas e voltas? NOSSA SENHORA – E o autorama? ELE – Tem duas pistas e dois carrinhos! Serve pra apostar corrida! Dá pra brincar com outros meninos! Você controla a velocidade do carrinho, desenvolvendo aptidão motora, raciocínio e habilidade! NOSSA SENHORA – Realmente, não há nem comparação. Mas seu pai vai ficar sem realizar o desejo de criança? ELE – Está na minha vez de ser criança! NOSSA SENHORA – E você não sente culpa? Ele fica paralisado. Música sacra em volume bem alto, que tem o efeito de uma enorme pedra caindo sobre ele.


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Nossa Senhora recomeça a falar, mas sem som, como se ela voltasse a dialogar com o menino. Mas ele fala com o Anjo. ELE – Nessa mesma época eu fiz a primeira comunhão. ANJO – Um pouco atrasado, não? ELE – Se dependesse de mim e dos meus pais eu nem faria, foi uma avó que protestou, insistiu, esperneou e conseguiu. Eu nem achei nata muito chato, mas eu não contava com a confissão. Aquilo de você chegar para um perfeito estranho e contar um acontecimento vergonhoso da sua vida. ANJO – Era preciso ser vergonhoso? ELE – Eu achava que sim, e lá na fila do confessionário estava chegando a minha vez, e eu não me lembrava de nada com cara de pecado. ANJO – E você inventou um? Inventou! ELE - Um bem cabeludo. Foi a primeira grande cagada da minha vida. Eu inventei que tinha levantado a saia de uma prima e beijado a bunda dela. ANJO – Mas que mal... Ele é interrompido pela entrada da Avó, furiosa, enquanto volta a ter dez anos. AVÓ – Sabe o que você fez? ELE – Não fui eu, vó! AVÓ – Como não foi? Você confessou! ELE – Mentira! AVÓ – Um padre não mente. ELE – Mas como que o padre ficou sabendo que alguém pegou a torta e levou pro bailinho? AVÓ – Que torta, menino? Que bailinho? Nós estamos falando do beijo em sua prima! Pausa. ELE – Não fui eu, vó. AVÓ – Vamos parar de andar em círculos? Sabe o que você fez?


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ELE – Mas eu já disse. AVÓ – Você arruinou o Natal desta família! ELE – Que não fui eu, NATAL? AVÓ – Como é que sua mãe vai encarar sua tia, as duas sabendo o que o senhor fez? ELE – Mas é que é uma mentira. AVÓ – Como é que sua prima vai encarar os primos? ELE – Que eu contei pro padre. AVÓ – Como é que todos poderemos encarar todos os outros? ELE – Porque eu queria ser. AVÓ – E com um beijo! Como aquele infame. ELE – Absolvido com louvor. AVÓ – Que entregou o amigo aos romanos. ELE – A culpa não é minha! AVÓ – Você transformou nosso Natal. ELE – O padre é que é um fofoqueiro! AVÓ – Numa sexta-feira da paixão! ELE – Ele não podia contar o que eu contei. AVÓ – Transformou a celebração de um nascimento. ELE – Nem se fosse assassinato! AVÓ – Na lamentação de uma morte. ELE – Eu vou escrever pro Vaticano! A Avó sai chorando aos soluços. AVÓ – Muito obrigada, muito obrigada mesmo.


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Pausa. Ele volta a conversar com Nossa Senhora. NOSSA SENHORA – Eu concordo que o padre errou, mas o que você está me pedindo é um castigo demasiadamente severo. ELE – Mas ele transformou o Natal da minha família numa sexta-feira da paixão. A senhora sabe o que isso significa, né? Nossa Senhora olha para o chão, suspira. ANJO – Nossa! Você não disse isso! ELE – (PARA ANJO) Disse, com dez anos a gente ainda diz quase tudo. NOSSA SENHORA – Sim, eu sei o que isso significa, talvez mais que ninguém. ELE – Mas então o que a senhora pode fazer? NOSSA SENHORA – Talvez seja melhor eu contar para você. A vida daquele senhor não é nada feliz. ELE – E isso é motivo pra arruinar a dos outros? NOSSA SENHORA – Não. Mas imagine que toda a vida daquele senhor tem a ver com a religião. É a profissão dele. Ele pensa nisso o dia todo, é procurado por causa disso, tudo o que ele faz tem a ver com isso. Pausa. ELE – E? NOSSA SENHORA – E ele não acredita em nada disso. ELE – Bom! Gostei. Mas a senhora não vai reparar a injustiça? Se ele não merece um castigo, eu mereço algum tipo de presente. NOSSA SENHORA – Eu nunca apareci para conversar com ele. ELE – Bom! Eu levei vantagem. Mas por que não? NOSSA SENHORA – Eu já disse, menino! Pausa. ELE – (DESCOBRINDO ENQUANTO FALA) Porque ele não acredita!


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Música natalina. Ele ri. Nossa Senhora some. ANJO – Eu disse! Como você pode ter esquecido? ELE – Mas eu não acreditei para sempre. Aliás, foi logo depois disso que eu parei de acreditar em praticamente tudo. ANJO – Mas enquanto isso? ELE – Se eu fizer uma lista de tudo que me fez infeliz! ANJO – Por que não? ELE – Você tem duzentas e setenta e nove horas pra gastar? ANJO – Então me diz. Quando foi a última vez que em você foi absolutamente feliz. Escuro. Luz. Entra lentamente, tomando quase todo o espaço cênico um gigantesco peito de mulher. Música de ninar de Brahms em arranjo espetacular. Escuro. Luz. Volta a segunda parte daquela mesma cena em família, com as insinuações fazendo sentido. Mas a Mãe está falando também com um dos irmãos por telefone com fio. MÃE – (PARA ELE) Hoje você vai ficar sem sobremesa! IRMÃ 2 – Posso comer a parte dele? MÃE – (AO TELEFONE) Você também não merece, seu bandido, que ficou três dias sem dar sinal de vida! IRMÃ 1 – (PARA IRMÃ 2) Um dia desses você vai explodir. PAI – Não, eu é que vou. E o estrago vai ser maior que o de todas as bombas nazistas sobre a capital inglesa. MÃE – (PARA ELE) Pensando bem, você vai ficar uma semana sem sobremesa! ELE – O que foi que eu fiz? MÃE - (AO TELEFONE) Você acredita que seu irmão acabou de perguntar: (IMITANDO) O que foi que eu fiz?


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PAI – Pode se despedir do seu trenzinho elétrico. Eu vou dar para seu primo, que não tem, e que merece muito mais que você, e vai dar o devido valor. Que sorriso é esse? Por que você está sorrindo? ELE – Eu não estou sorrindo. MÃE – (PARA PAI) Posso servir o almoço? Você vai perder o horário. PAI – Eu perdi é o apetite. Eu estou inapetente há dias e este fenômeno só deve piorar! Talvez a minha morte venha por meio da inanição. Repete-se a vinheta musical do Doutor Texugo. MÃE – (PARA ELE) Você vai ficar um mês sem sobremesa! IRMÃ 2 – A gente pode saber do que vocês estão falando? IRMÃ 1 – Você sabe. IRMÃ 2 – Ah, é daquilo. ELE – Daquilo o quê? PAI – (PARA MÃE) A sua irmã teve um colapso nervoso. MÃE – O que não é nenhuma novidade. Mas eu não quero ouvir pelo resto da vida a mãe da minha irmã dizer: Você praticamente matou a Suzaninha! (PARA ELE) Você vai ficar um ano sem sobremesa! PAI – E três aniversários sem festa, nem presente! MÃE – (AO TELEFONE) Não é muito? PAI – Nós perdemos o Natal para sempre! MÃE – (DRAMÁTICA, PARA ELE) Você vai ficar três aniversários sem festa, nem presente! ELE – Acabou o Natal? Por quê? MÃE – (AO TELEFONE) Agora ele disse: (IMITANDO) Acabou o Natal? Por quê? PAI – Ele ainda finge que não sabe de nada! MÃE – (AO TELEFONE) É isso mesmo! (PARA ELE) Você nunca mais vai comer sobremesa!


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ELE – Nem na festa do meu casamento? PAI – Não seja cínico! IRMÃ 2 – Toda essa confusão é por causa daquele beijo? MÃE – (AO TELEFONE) Ai, não, as meninas já sabem! IRMÃ 1 – (PARA IRMÃ 2) Cala a boca! MÃE – (PARA PAI) Eu falei que era melhor não falar na frente das meninas! (AO TELEFONE) Como que você sabe que as meninas já sabem de tudo? PAI – A sua sobrinha já deve ter espalhado para toda a família. MÃE – Minha sobrinha? (AO TELEFONE) A última é que a sua prima não é mais sobrinha do seu pai! Pausa, o pai se prepara para soltar uma bomba. PAI – Quem com ferro, em casa de ferreiro fere, o espeto é de pau, e com ferro será ferido! Repete-se a vinheta musical do doutor Texugo. FILHA 1 – Mas o que é isso? PAI – É a lição que seu irmão está prestes a aprender! Pai explica, mas já sem som. ANJO – O que quer dizer? ELE – Isso quer dizer que não bastava, para o doutor Texugo, anunciar um provérbio psicodélico. Era preciso explicar. Explicar. Explicar. Explicar. Mãe e irmãs passam a falar também, sem som e sem parar. ANJO – Essa conversa teve outra continuação da outra vez. ELE – É outra conversa sobre o mesmo assunto. Teve centenas de variações dessa. ANJO – O que você está pensando enquanto eles falam?


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ELE – Como eu vou ser feliz quando eu tiver a minha casa! Quando eu tiver a minha sala! Quando eu tiver a minha mesa! Como eu vou ser feliz quando eu tiver o meu almoço, que eu mesmo vou esquentar e comer a hora que quiser sem ter que ouvir antes uma ópera italiana sem a música! Escuro. Ainda no escuro, cochichos e sussurros do Pai e da Mãe, ininteligíveis. Luz: Ele almoça sozinho. Trecho de ópera de Verdi, bem conhecida, só orquestrada. Ele parece feliz. Mas suspira, empurra prato, a música cessa subitamente. ANJO – Não era o que você queria? ELE – Era. ANJO – E por que você parece uma múmia num sarcófago? ELE – O cardápio é arroz com solidão, carne com molho de culpa, suco de abacaxi com ansiedade e pudim de depressão. ANJO – Não entendi. ELE – Porque eu sentia falta! ANJO – Do que? Ele pega telefone sem fio, fala com sua mãe, da mesma maneira que seu irmão falava na cena anterior. Ao mesmo tempo, mas sem fazer parte desta cena, entra Estela, a esposa. ELE – Por que ela não larga esse cachorro de uma vez? (PAUSA) O que ela disse? (PAUSA) Arrependido? Mas quantas vezes ela vai ter que ir parar no pronto socorro para entender que isso não vai ter fim? (PAUSA) Eu vou desligar porque a minha comida está esfriando. Separação de bens? Que bens? O cara não tinha onde cair morto, e agora ele quer dividir o que ela se matou para pagar? ANJO – E não era bom? ELE – Essa neurose? O que você acha? (AO TELEFONE) É melhor vocês conversarem depois, falar desse cara e comer rabada ao mesmo tempo é a receita infalível para uma indigestão! Ele desliga o telefone. ELE – Turumpch!


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ANJO – Acho que eu estou começando a entender o que você quer dizer com isso. ESTELA – Sabe qual é o seu problema? Pausa. ANJO – Ela não vai dizer qual é o seu problema? ELE – Só se eu perguntar. Pausa. ANJO – Você pode fazer o favor? ELE – Tudo bem. (PARA ESTELA) Qual é o meu problema, Estela? ESTELA – Você é um navio que afundou no mar do passado. Pausa. ANJO – Quem é ela? ELE – A abominável discípula do doutor Texugo. Escuro. Luz. Ele, com microfone, na festa. Sorri amarelo e canta a continuação da versão de “Over the rainbow”: ELE - Bem além do arco-íris Chegarei E meus sonhos mais loucos Eu realizarei Passarinhos lá voam A cantar Passarinhos me esperem Eu também vou... voar! Ele agradece aplausos. ELE – E agora, aquela música dos Beatles.


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Entram Amiga 1, Amiga 2 e Amigo 1 no “palco”. Eles já entram meio rindo, e fazem cena da parte final (em Oz) do filme “O mágico de Oz”. Ele faz o papel de Dorothy, o Amigo 1 faz o papel do Homem de lata e do Espantalho, a Amiga 1 do Leão, e Amiga 2, da Fada. Música incidental do filme. OBS. - A atriz que faz a Estela não deve estar nesta cena. É interessante que o Amigo 1 seja confundido, pelo público, com o Irmão. ELE – (COMO DOROTHY) Vai ser difícil dizer adeus. Eu amo todos vocês. Adeus, Homem de lata! Não chore, você vai ficar todo enferrujado! AMIGO 1 - (COMO HOMEM DE LATA) Agora eu sei o que é ter um coração, porque ele está se partindo! ELE - (COMO DOROTHY) Adeus, Leão. Eu vou sentir falta de quando você pedia socorro, antes de achar a sua coragem. AMIGA 1 - (COMO LEÃO) Eu nunca teria achado se não fosse por você. ELE - (COMO DOROTHY) Espantalho, acho que é de você que eu vou sentir mais falta! O Amigo 1, como o espantalho, só concorda, emocionado. A Amiga 2 vai falar, não consegue, porque tem acesso de riso, todos acabam rindo muito, mas Amiga 2 respira fundo e consegue dizer: AMIGA 2 - (COMO FADA) Você está pronta? ELE - (COMO DOROTHY) Sim! AMIGA 2 - (COMO FADA) Então feche os olhos, bata três vezes seus calcanhares e diga... Ela trem novo acesso de riso, não consegue falar. ELE – (RINDO) Você está rindo ou chorando? AMIGA 2 – Não sei! Os dois! AMIGO 1 – Pra que chorar? AMIGA 1 – Porque sim! (ENXUGANDO LÁGRIMAS) Porque é e triste ao mesmo tempo. ELE - Vai! AMIGA 2 - (COMO FADA) Não há lugar como o nosso lar!

engraçado


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Ele bate os calcanhares e fecha os olhos. Os amigos fazem pantomima ridícula. ELE - (COMO DOROTHY) Não há lugar como o nosso lar! Não há lugar como o nosso lar! Não há lugar como o nosso lar! Aplausos e risos. O anjo surge ao seu lado. ANJO – Você não está triste. Não ouse dizer que você está triste. ELE – Não estou. É nostalgia, saudade, melancolia, tédio, aborrecimento... ANJO – (INTERROMPENDO) Eu já entendi. ELE – Desculpe. Mas a verdade é que eu não estou sentindo nada. ANJO – Como nada? ELE – O de sempre. Depois de tantos preparativos, é como se esta noite de sábado fosse uma manhã de terça-feira ou uma tarde. De quinta. ANJO – (IMPACIENTE) Caramba! O Anjo se afasta. Estela entra, ele olha para ela, mas ela não está nesta cena, e sim em uma do passado. ESTELA – Talvez, se você mandar um cheque para o Papa... Pausa, como se ele falasse algo, antes que ela responda: ESTELA – Isso dava certo na Idade Média, ficava tudo pago, zerado, a alma limpa como as asinhas de um querubim. Pausa, como se ele falasse algo, antes que ela responda: ESTELA – Se você fosse um, eu não me importaria de passar a eternidade queimando nas labaredas do inferno. Ela sai, enquanto fala: ESTELA – Por mim, tudo bem. Não esquece que a gente tem um monte de pedra suja para lavar. Às oito e meia. Ele fala ao microfone o que falou antes de ir para o terraço:


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ELE – (AO MICROFONE) Muito obrigado. Agora eu vou emprestar o microfone para todos vocês karaokarem. Tem uma lista andando por aí, é só se inscrever. Eu vou. Precisar ir um pouquinho até ali. (PAUSA) Aonde? Para o além. Do arco-íris. (PAUSA) Isso, voando. Como os passarinhos. Até! Beijos! Ele sai, cruza com Pai e Mãe, que passam na outra direção, em outra cena, do passado. O Pai a ampara e eles cochicham. Escuro. Luz. Ele, no terraço do prédio. Ele tenta abrir o frasco de comprimidos, não consegue. ELE – Malditos remédios importados! O Anjo surge. ANJO – Não é possível. ELE – Eu digo o mesmo pra você! ANJO - Que não tenha ninguém. ELE – Será possível que você. ANJO – Com tanta gente naquela festa. ELE – Possa deixar eu me matar em paz? ANJO - Que faça você desistir! ELE – Ela não está lá. ANJO – Que alívio. Eu achei que você nunca fosse falar. Dela. ELE – Você quer mesmo que eu fale da Estela? ANJO – Quero. ELE – Você tem duzentos e setenta e nove dias pra gastar? Entra menina, que é Estela criança. ESTELA MENINA – Eu não contei. Ele volta a ter dez anos. ELE – Nem eu.


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ESTELA MENINA – Mas tem gente que viu. E contou. ELE – Ai, não! Já tem uma família inteira querendo me mandar pro inferno! ANJO – Ela é a prima? ELE – Não. Ela é a prima da vizinha. ANJO – Então aconteceu mesmo. ELE – Debaixo de um pé de carambola. ESTELA MENINA – Eu gostei, tá? ELE – Eu também. ESTELA MENINA – Mas se alguém perguntar, eu não vou dizer que eu gostei. ELE – Por quê? Entra a Irmã 1. IRMÃ 1 – É verdade que você beijou a bunda da prima da vizinha também? ELE – É, mas a outra é mentira. IRMÃ 1 – Mentira! ELE – Então é. IRMÃ 1 – A irmã mais velha dela está vindo pra cá pra tirar satisfações. Entra a irmã mais velha da menina. IRMÃ DA MENINA – Quem disse que você podia beijar a bunda da minha irmã? ELE – Ninguém. Ela fala com outras crianças, que estão lá também. IRMÃ DA MENINA – Vocês ouviram? Vocês são testemunhas que ele, ainda por cima, foi boçal. (PARA ELE) Eu vou quebrar todos os seus dentes! Quero ver você conseguir beijar outra menina com a boca murcha e torta! ELE – Eu só não quebro a sua antes, porque não se bate em mulher nem com uma flor!


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IRMÃ DA MENINA – Quebra, quero ver! IRMÃ 1 – (PARA ELE) Você vai apanhar de uma menina na frente de toda a rua? IRMÃ DA MENINA – Eu vou usar a sua cara de pano de chão para limpar o banheiro da minha casa! ELE – Você vai se arrepender! IRMÃ DA MENINA – (MUITO AGRESSIVA) Vou, é? Por quê? ELE – Você não vai conseguir limpar direito os cantinhos. IRMÃ DA MENINA – Eu vou fazer você engolir todos os seus dentes, engraçadinho! ELE – Pelo amor de Deus! Não faz isso não! IRMÃ 1 – (PARA ELE) E você, ainda por cima, suplicou? ELE – (INDICANDO ESTELA MENINA) Mas ela disse que gostou! ESTELA MENINA – Não é verdade. IRMÃ 1 – (PARA ELE) Você não é meu irmão! Eu nunca tive um irmão! (PARA OS OUTROS) Ele não é meu irmão! Irmã 1 sai. A irmã da menina o pega pelo colarinho. IRMÃ DA MENINA – Eu vou arrancar a sua língua também, para aprender a não mentir. Música do filme “Super-Homem”. Entra o Irmão, vestido de super-herói. IRMÃO – Largue o meu irmão imediatamente! IRMÃ DA MENINA – Por que eu faria isso? IRMÃO – Você não vai querer conhecer as cataratas do Iguaçú, a capital do Piauí e a nascente do rio Amazonas, vai? IRMÃ DA MENINA – Não entendi! ELE – Ele está querendo dizer que para pegar os pedaços da sua cara depois dele ter dado uma surra, você vai ter que ir para três cantos extremos do Brasil.


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IRMÃ DA MENINA – Ainda não entendi! IRMÃO – Se você não largar o meu irmão, eu vou arrancar o seu intestino pela boca e vou usar como corda pra te enforcar! A irmã da menina o solta. IRMÃ DA MENINA – Você sabe o que ele fez? IRMÃO – Sei, e eu tenho muito orgulho dele. IRMÃ DA MENINA – Ah é, é? IRMÃO – É! Ela muda totalmente de atitude, fica simpática e lânguida. IRMÃ DA MENINA – E você faria isso em mim? Assim, bem impetuoso? IRMÃO – Eu vou pensar no seu caso. Por enquanto, você vai pegar a camisa do meu irmão e vai passar até ela ficar lisinha! IRMÃ DA MENINA – (APAIXONADA) É claro que eu vou! Mas você vai precisar esquentar o ferro de passar pra mim. Ela ri da própria graça. Irmão abraça Ele, e os dois gargalham. Escuro. Luz. A mesma cena, antes da Irmã da menina o pegar pelo colarinho. IRMÃ DA MENINA – E você ri, ainda por cima? (PEGANDO PELO COLARINHO) Eu vou arrancar a sua língua também, para aprender a não rir. ESTELA MENINA – Eu não disse que eu não gostei. IRMÃ DA MENINA – Como é que é? ESTELA MENINA – Eu disse que era mentira que eu disse que tinha gostado. Mas eu não disse que não gostei. E pode até ser que eu fique com vontade de querer um bis. IRMÃ DA MENINA – Você quer apanhar? Eu vou contar tudo pro papai e pra mamãe. ESTELA MENINA – Eu posso contar que você estava brigando com os meninos na rua de novo. Feito um moleque.


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IRMÃ DA MENINA – (SOLTANDO DELE) Isso não é verdade. ESTELA MENINA – Interessa o que é verdade? E o que não é? A Irmã da menina bufa e se vai. IRMÃ DA MENINA – Vambora, turma. ELE – Por que você mentiu e depois contou a verdade mentindo? ESTELA MENINA – Como você é bobo! ELE – Eu não sou bobo! ESTELA MENINA – Você é bobo de se importar de eu chamar você de bobo. Pausa. Ele não sabe o que responder, repete. ELE – Eu não sou bobo! Pausa. Ela sai, rindo e falando: ESTELA MENINA – Como você é bobo! ANJO – Esse seu irmão não salvava você de apuros? ELE – Não. Desta vez ela me salvou, mas nas outras seiscentas mil e novecentos milhões de vezes eu apanhei mesmo. Entram Menino, Menina assanhada e Menina boba. ANJO – Esse é aquele irmão? ELE – Não, esse menino não é meu irmão. ANJO – E o outro? ELE – Que outro? ANJO – Eu entendi que você disse que tinha dois irmãos. ELE – Entendeu errado. ANJO – Mas aquela menina é a Estela. ELE – (A CONTRAGOSTO) Não foi o que nós combinamos? De falar sobre ela?


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Ele volta a ter dez anos, se junta à turma. MENINA BOBA – Vamos brincar de passa anel? TODOS – Não! MENINA ASSANHADA – Vamos brincar de beijo, abraço, aperto de mão? TODOS – Não. ESTELA MENINA – Vamos brincar de Eu vou ser feliz? TODOS – De novo? ESTELA MENINA – É! TODOS – Tá bom. ELE – Primeiro! Eu vou ser feliz quando... eu nunca mais tiver que ir na escola. MENINA BOBA – Eu vou ser feliz quando... eu ganhar a boneca Amiguinha! MENINO – Eu vou ser feliz quando... eu tiver um trem elétrico. ELE – Você que pensa. ESTELA MENINA – Quieto! MENINA ASSANHADA - Eu vou ser feliz quando... a minha mãe deixar eu usar maquiagem e salto alto. ESTELA MENINA – Eu vou ser feliz quando... não existirem mais guerras no mundo, e o homem não escravizar a mulher, nem outros homens, e não existirem mais ricos e pobres! Todos ficam olhando para ela de boca aberta. ANJO – Tem certeza de que ela não era anã? Mudança de luz. Saem as outras crianças, Estela cresce um ano a cada frase. ESTELA (COM 11 ANOS) – Eu vou ser feliz quando... casar e tiver seis filhos e cinqüenta cavalos, noventa cachorros e três gatos. ANJO – O que está acontecendo?


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ESTELA (COM 12 ANOS) – Eu vou ser feliz quando... me casar com o Paul ou o George e for amiga do John e do Ringo. ELE – Ela está crescendo. ESTELA (COM 13 ANOS) – Eu vou ser feliz quando... for linda e rica e famosa e sexy como a Jane Fonda. ANJO – Obstinada. ESTELA (COM 14 ANOS)– Eu vou ser feliz quando... eu me formar enfermeira e trabalhar na Cruz Vermelha, no Vietnã e na Nigéria. ELE – Obcecada pelo tema. ESTELA (COM 15 ANOS) – Eu vou ser feliz quando... for tão inteligente, corajosa e politizada quanto a Jane Fonda. Mas francesa. ELE – Da felicidade. ESTELA (COM 16 ANOS) – Eu vou ser feliz quando... eu perder a virgindade me entregando a um rapaz inteligente, de bom caráter, higiênico e bem parecido com o Alain Delon. ANJO – Ela realizou algum desses sonhos? ESTELA (COM 17 ANOS) – Eu vou ser feliz quando... tiver meu próprio jipe e a carta de motorista para viajar sem lenço nem documento para conhecer de perto o povo sofrido deste país de Norte a Sul. ELE – Aos dezoito anos ela quase morreu achando que uns gatos pingados iam conquistar, explodir e reconstruir o Brasil. ESTELA (COM 18 ANOS) – Eu vou ser feliz no dia em que os malditos militares forem derrubados pela revolução socialista! Hay que endurecer pero sin perder la ternura jamas! (CADA VEZ MAIS FURIOSA) O povo unido, jamais será vencido! Vem, vamos embora que esperar não é saber! Upa neguinho na estrada, upa pra lá e pra cá! Carcará, pega, mata e come! Sons de caminhões, gritos, tiros, explosões, ela sai correndo. ANJO – E você, esse tempo todo? Ele faz cena de crescer, mas meio de paródia. Na trilha, versão só orquestrada de “Samba de uma nota só”. ELE - Eu vou ser feliz quando... deixar de ser virgem.


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ELE - Eu vou ser feliz quando... trepar pela primeira vez. ELE - Eu vou ser feliz quando... comer uma mulher. ELE - Eu vou ser feliz quando... não for mais virgem. ELE - Eu vou ser feliz quando... tirar a roupa de uma garota e fizer tudo o que eu tenho vontade e ela fizer tudo o que quiser e eu deixar de ser aquilo. ELE - Eu vou ser feliz quando... (VOLTANDO AO “NORMAL”) etc., etc., etc. ANJO – Acabou acontecendo. ELE – Eventualmente. ANJO – E você se casou? ELE – Casei. Mas coisas acontecem. Duas vezes. ANJO – Coisas acontecem duas vezes? Que coisas? ELE – Não, eu me casei duas vezes. Porque... Entra a primeira mulher, vestida de noiva. Engata nele, eles fazem cena de sair-da-igrejaapós-a-cerimônia-de-casamento. Entra também um casal, os pais da noiva. ELE - ...quando eu e a... minha primeira mulher estávamos naquele momento saindo-da-igreja-após-a-cerimônia-de-casamento, eu vi, ali, na calçada do outro lado da rua! ANJO – O quê? ELE – Quem! ANJO – Quem? ELE – A minha segunda mulher! ANJO – Você fumou alguma coisa especial esta noite? ELE – A Estela! A prima da vizinha! Entra Estela, andando de maneira semelhante à amante de Guido, o personagem central do filme “Oito e meio”. Na trilha, a música correspondente. ANJO – E esse casal? São seus pais?


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ELE – Não, dela. ANJO – São os pais da prima da vizinha? ELE – Você fumou alguma coisa especial esta noite? É claro que não! Os pais da... minha primeira mulher. O que acontece a seguir poderia ficar muito bom se fosse em “câmera lenta”: Ele sorri amarelo para a primeira mulher. Cochicha com ela, que fica completamente abismada, ele tenta segurar a mão dela, ela joga o buquê longe e dá tapa na cara dele, ele sorri amarelo, cochicha mais algumas coisas e sai correndo em direção à Estela. Música mais conhecida do filme “A primeira noite de um homem” Ele e Estela se encontram, se abraçam e saem correndo, com a primeira mulher e os pais dela atrás dele. Eles conseguem fugir, a primeira mulher e os pais saem de cena. Ele e Estela ficam se olhando, e falam de três maneiras diferentes: ELE – Elaine! ESTELA – Benjamim! ELE – Elaine! ESTELA – Benjamim! ELE – Elaine! ESTELA – Benjamim! ANJO – Você FUMOU alguma coisa especial esta noite! E esta alguma coisa era MUITO especial! ELE – (PARA ANJO) Qual é o problema? ANJO – Isso é o final daquele filme! ELE – É claro que é. ANJO – A primeira noite de um homem. ELE – É claro que é. ANJO – Não foi assim que isso aconteceu.


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ELE – É claro que não. A vida real é mais esquisita. Menos de um mês depois da lua de mel... Ele e Estela numa mesa de bar. ELE – Eu pensei que nunca mais ia te ver. ESTELA – Eu nunca pensei nisso. ELE – Ah. O que você fez esse tempo todo? ESTELA – Tentei ser feliz. ELE – E conseguiu? ESTELA – Você estudou? ELE – Eu tenho o curso superior incompleto. ESTELA – E o que você faz? ELE – Eu estou no ramo de vendas. Sabe como é, eu compro coisas e vendo ganhando o triplo do que gastei. ESTELA – É honesto. ELE – Quase sempre. ESTELA – Eu acho que gostaria de me casar com um trabalhador. ELE – Isso foi um pedido de casamento? ESTELA – Foi? ELE – Eu voltei de uma lua de mel faz cinco dias. ESTELA – Por que será que eu não me sinto culpada? ELE – Talvez porque você não preste. ESTELA – Não, você tem a obrigação. ELE – Tenho? ESTELA – Você beijou a minha bunda. Vai ter que casar. ELE – E eu vou poder beijar a sua bunda todo dia?


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ESTELA – Vocês não pensam em outra coisa? ELE – (CAFAJESTE) Pensamos! ESTELA – Eu vou ser feliz quando... eu me casar com você! Eles se beijam. Estela se levanta, beija mão e assopra beijo para ele. ELE – Onde você vai? Ela sai, falando: ESTELA – Eu tenho um milhão de providências para tomar! Ele e Anjo ficam olhando para a direção onde ela saiu. Anjo se dá conta: ANJO – Ai, não! Aquela menina bruta virou sua cunhada! ELE – É, né? Mas Deus foi bom pra mim. Ela se formou em antropologia e foi morar no cu da Amazônia. Uma tribo arisca se invocou e fez pajelança e churrasco com partes do corpo dela. Mudança de luz. Música espetacular. Estela entra correndo, Ele se junta a ela e os dois dançam. As duas outras atrizes entram vestidas de rosas, trazendo grande pano com estampa de rosas, e com pétalas, e com algum efeito o pano se transforma num mar de rosas, sobre o qual Estela e Ele dançam, nadam, se abraçam. Entra o Pai, constrangido. PAI – Eu não sei como explicar. É como uma chuva depois de uma manhã tórrida de sol ardente. É o velho blusão de lã que num fim de tarde de outono o vento passar através e gela o esqueleto. É a fome saciada, a sede matada, você não está entendendo nada. Pausa. PAI – Lembra aquilo que o leão estava fazendo com a leoa no zoológico? Pausa. PAI – Não tem nada de nojento, é uma coisa linda! (SAINDO) Vem aqui, eu preciso de papel e lápis, com palavras eu não sei explicar, eu vou ter que fazer uns desenhos! Enquanto Pai sai, Ele entra.


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ELE – É tudo por causa dela. Ele e Estela assistem TV. Eles conversam sem deixar de olhar a TV. ESTELA – Você é feliz? ELE – Como é que é? ESTELA – Você se considera feliz? ELE – Acho que sim. ESTELA – Acha, ou é? ELE – Sou. Pausa. ESTELA – Tem certeza? Ele olha para ela. ELE – Por quê? ESTELA – Porque eu tenho certeza de que eu não sou. Que bom que você é. ELE – Por que eu não seria feliz? ESTELA – Não sei. ELE – Eu nunca pensei nisso. ESTELA – Deve ser muito bom ser você. Ela sai. Ele fica pensativo. Mudança de luz. Ele fica de olhos esbugalhados. ANJO – Que isso? ELE – Eu, no dia seguinte. Sem dormir um segundo. Ela acorda totalmente descansada. Ela entra sorrindo, estranha ao vê-lo. ESTELA – Que isso? ELE – Eu descobri que eu não sou mesmo feliz.


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ESTELA – Como você é bobo! Esquece. ELE – Esquece? ESTELA – Você está cansado e com sono. ELE – Eu me dei conta de que eu tenho pouquíssimos motivos para ser feliz. E muitos para ser infeliz. ESTELA – Você conseguiu lembrar de mais de um para ser feliz. Está ótimo! Estela continua “ao lado dele”, falando de vez em quando. Mas ele está no palco, com o microfone. ELE – (AO MICROFONE) A pedidos, eu vou dar mais uma cancha. É outra versão, mas essa eu fiz com um infeliz que ainda não apareceu. O quê? ESTELA – De vez em quando é melhor que nunca. Entra introdução da canção “My way”, último sucesso de Frank Sinatra. ELE – (AO MICROFONE) Não, ele vai aparecer sim, que ele sabe que senão ele é um homem morto. ESTELA – Um pouquinho é melhor que nada. ELE – (AO MICROFONE) É uma canção muito própria para esta noite. Ele começa a cantar versão de “My way”, ao microfone. ELE – Chegou A última vez De se fechar Minha cortina ESTELA – Pára com isso, senão você vai acabar ficando com vontade de se matar! ELE – Eu vou Te explicar Porque amigo É pra essas coisas Segui o coração Que me falou aqui no peito E mais, mais que fazer Fiz do meu jeito!


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A orquestração continua, ele pára e fica olhando para o nada, com o pensamento longe. ESTELA – Eu tenho um ódio especial pela meia-noite do dia 31 de dezembro, aquele momento em que todo mundo no mundo todo é obrigado a ser feliz. Tem coisa pior? Tem. A infeliz da noite feliz! Música “Noite Feliz”, cantada. Mãe, Irmã 1 e Ele. Anjo assiste. Clima pesado. Estela entra na cena, mas para ela Ele está no futuro, com ela. ESTELA – Você precisa reagir. Não pensar. Fingir que sabe o que nós estamos fazendo aqui. Eu acho que é essa a brincadeira. Procurar uma coisa e não achar. Se acha logo, faz o que depois? Boceja! Eu não vou deixar você se afogar. Nós vamos dar um jeito nisso. Eu vou ser feliz quando... você for feliz! Estela sai decidida. Ela entra a seguir várias vezes durante a cena, em cenas futuras. Em todas essas entradas, ela sai depois de dizer uma frase. ANJO – Onde está o irmão e a outra irmã? ELE – Numa praia. Eles não passavam de dois desertores. ANJO – Esse é o Natal do ano do beijo? ELE – (IMITANDO ANJO) Exato. Pai chega, os outros continuam em silêncio. PAI – A sua avó mandou lembranças. ELE – Obrigado. PAI – Os seus tios mandaram beijos para todos, menos você. ELE – Eu já disse mais de mil vezes. ESTELA – Eu marquei uma hora num terapeuta psiquiatra acupunturista espírita. Ele recebe o Freud com o lado esquerdo da mente e um mestre chinês de cinco mil anos com o lado direito. Me disseram que é um barato. Vê-se que Mãe está com fone na mão, que não estava à vista do público. MÃE – (AO TELEFONE) Ele veio com aquela mesma lenga lenga de (IMITANDO) Eu já disse mais de mil vezes. ELE – Mas é verdade! Por que vocês não podem acreditar em mim?


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PAI – Mas de onde que o senhor tirou aquela idéia digna de um romance picante e rocambolesco do período rococó? ELE – Eu dei mesmo um beijo, mas foi em outra prima. MÃE – De que lado da família? ELE – Prima da vizinha! PAI – Eu acredito! MÃE – Você acredita que seu pai disse: (AO TELEFONE, IMITANDO) Eu acredito! FILHA 1 – É verdade. ESTELA – Eu matriculei a gente em tai chi, ikebana e sexo tântrico. Eu não sei o que acontece lá, então eu comprei uma calcinha e uma cueca novas, com o seu cartão, tudo bem? MÃE – (AO TELEFONE) É isso mesmo. (PARA OS OUTROS) E o Papai Noel, a que horas chega? PAI – Nós não estamos aqui, em redor desta mesa, para simplesmente alimentarmos o corpo. Hoje é o dia especial em que nossas almas também se renovam. ELE – E lá vem a mensagem natalina... IRMÃ 1 E ELE - ...do doutor Texugo! ESTELA – A minha mestra de cerâmica telúrica disse que é super normal dormir durante uma meditação. Mesmo se acordar só no dia seguinte. PAI – Carpe Diem. Pausa. MÃE – (AO TELEFONE) Carpe Diem. Ele disse Carpe Diem. (PARA PAI) Essa você precisa explicar! PAI – É em latim. ELE E IRMÃ 1 – E?... PAI – Quer dizer: aproveite o dia. MÃE – (AO TELEFONE, IMITANDO) Aproveite o dia.


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ESTELA – Não é macumba, nem umbanda, nem nada dessas coisas. Desta vez Estela não sai, ela fica parada, pensando. PAI - O passado não existe mais, o futuro não existirá jamais. Viva o hoje! Amanhã é outro dia mesmo, e ontem... FILHA 1 – (INTERROMPENDO) Já deu para entender! PAI – É mesmo? O Pai sai, ofendido. ESTELA – É como se fosse folclore bem primitivo. Não é nada hippie, e se fosse, é tão do bem que não pode fazer mal. Só de ouvir aquelas músicas, já dá uma sensação boa de estar se ligando em coisas muito antigas, de antes da História. E pode ser ilusão ou sugestão, mas o astral fica leve como se tivessem mesmo limpado a sua áurea. Os outros passam a falar ao mesmo tempo. MÃE –(AO TELEFONE) Você escutou a sua irmã? (IMITANDO) Já deu para entender! (PARA IRMÃ 1) Você ofendeu o seu pai! (PARA ELE) E você não fez nada. Você nunca faz nada. Você deixa as suas irmãs falarem absurdos para o seu pai! FILHA 1 – Ele sempre diz uma coisa muito legal, mas depois explica, explica, explica, explica, explica, explica, explica, explica, explica, explica... (repete até acabar o texto dos outros dois) ELE – O que vocês querem que eu faça? Eu faço o melhor que eu posso. Eu não faço por querer. Às vezes eu tenho muita vontade de voltar no tempo para desfazer coisas e fazer tudo diferente. Eu vou ser feliz quando... tiver uma máquina do tempo! Mãe e Irmã 1 saem. ESTELA – Por que você não esquece? ELE – Eu não tenho a capacidade de apagar lembranças como se a minha memória fosse uma lousa. Você tem? ESTELA – É claro que não. ELE – E a culpa? Você também lava com água e sabão?


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ESTELA – Talvez se você mandar um cheque para o Papa... ELE – Ele manda de volta um certificado de perdão? ESTELA – Isso dava certo na Idade Média, ficava tudo pago, zerado, a alma limpa como as asinhas de um querubim. ELE – E se eu for um capeta disfarçado de gente? ESTELA – Se você fosse um, eu não me importaria de passar a eternidade queimando nas labaredas do inferno. ELE – Se você tiver compromisso, sai logo daqui senão você só vai sair daqui a pelo menos meia hora. Entra Irmão, vestido de super-herói. Estela sai, enquanto fala: ESTELA – Tchauzinho, que eu marquei faz cinco meses uma hora com aquela manicure reichiniana. Não esquece que a gente tem um monte de pedra suja para lavar. Às oito e meia. Ele se junta ao Irmão, amarrando um pano para fingir de capa, os dois fazem cena de superheróis. IRMÃO – Aí tinha uma cidade em chamas fedorentas feito peido de rato préhistórico! ELE – Que um gorila do espaço jupiteriano tinha soltado gazes fetais! IRMÃO – Estaria tudo perdido, se não fosse a intervenção... ELE – ... dos irmãos super-iores! IRMÃO – Super-iônicos! ELE – Super-bólicos! IRMÃO – Super-néticos! ELE – Eles não só apagam as chamas com seu super mijo! IRMÃO – Eles desvendam todos os segredos das coisas da vida! ELE – Eles descobrem a cura para todas as doenças e as maldades! IRMÃO E ELE – E eles vencem a morte!


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Entra a Irmã 1, sem conseguir esconder a animação por ter uma novidade para contar: IRMÃ 1 – A vovó morreu e ela disse antes de dar o último suspiro que vem puxar o pé do neto pecador... (INDICA ELE) hoje à meia-noite com as mãos geladas. Ele fica lívido de medo. Pausa. IRMÃ 1 – É mentira. ELE – Que a vovó morreu? IRMÃ 1 – Não, a outra parte. IRMÃO – Vocês acham que ela vai pro céu? ELE – E se não existir céu? IRMÃ 1 – Ela reclama tanto que Deus manda construir um rapidinho. Eles têm ataque de riso. ELE – (PARA IRMÃ) Agora ela vem puxar o SEU pé! IRMÃO – O meu é que não vai ser, porque eu esqueci de pôr meia e tô com o maior chulé! Eles se matam de rir. ELE – Se ela vier puxar o seu pé, ela vai morrer de novo e vai virar uma múmia morta viva! MÃE - (AO TELEFONE) Você está escutando? A avó deles morre, e eles se matam de rir! Eles tentam fingir que estão chorando. IRMÃ 1 – (RINDO) A gente não está rindo. ELE - (RINDO) A gente está chorando. ANJO – Sabe o que é? Meu tempo está acabando. ELE – O meu também. Tchau, tudo de bom. Até já! ANJO – Eu vou precisar radicalizar!


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Enquanto saem Mãe, Irmão e Irmã 1, entra Estela com baldes com água e com pedras, dá um para Ele, eles lavam uma pedra cada um, enquanto conversam. ELE – Eu estou super feliz, Estela, juro. ESTELA – Seria tão bom se isso fosse verdade. ELE – Tá bom, eu não sou super feliz, mas eu estou feliz. ESTELA – Você quer que eu finja que eu estou acreditando? Não, né? ELE – Eu acho que eu quero sim. ESTELA – Como você é bobo! Me disseram que no sul do Chile tem uns remanescentes de um povo mais antigo que os incas que tomam um chá muito mais poderoso que aquele que a gente tomou no pico do Jaraguá! ELE – Eu quase fui para a UTI por causa daquele chá e você quer me dar um mais forte? ESTELA – Se resolver, eu levo você de balão para Marte! Entram Amigo 1, Amiga 1 e Amiga 2. Eles fazem uma cena semelhante à que Estela criança e Ele fizeram com aquelas outras crianças, mas com atitudes adultas. AMIGO 1 – Eu vou ser feliz quando... receber o prêmio Nobel, o Oscar e o troféu Imprensa. (PARA ESTELA ) É sério! Os dois primeiros, é sério! AMIGA 2 – Eu vou ser feliz quando... emagrecer 14 quilos para usar roupas de marca italiana. AMIGA 1 – Eu vou ser feliz quando... puder entrar num shopping e comprar qualquer coisa sem perguntar o preço! ESTELA – Eu vou ser feliz quando... todos os dias tiverem a mesma animação, a expectativa, a satisfação e a alegria, mesmo que breve, das manhãs de Páscoa da minha infância. AMIGA 2 – Eu seria feliz se todos os dias fossem domingos de Páscoa. AMIGO 1 – Em menos de uma semana você ia odiar ovos de chocolate e ia pensar que ia ser feliz se nunca mais existisse esse dia. AMIGA 1 – Eu acho que eu seria feliz se eu fosse um pouco mais burra para não pensar e talvez parar de querer o que eu não tenho, e não querer mais o que eu queria, não tinha, mas já tenho. Deu para entender?


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TODOS – Deu! ESTELA – (PARA ELE) E você? ELE – Eu vou ser feliz quando... eu nunca mais pensar se eu vou ser feliz e quando e como! Estela pega microfone com fio. Deve parecer que ela está naquela festa de cinqüenta anos. ESTELA – (AO MICROFONE) Como liberaram o microfone, eu vou aproveitar. Risos e aplausos. ESTELA – (AO MICROFONE) Dois amigos, o Zeca e o Juca, combinaram que o primeiro que morresse voltaria para contar como era a vida após a morte. O Juca morreu, e depois de um ano ligou para o Zeca, que disse: mas então existe mesmo vida após a morte! Como que é?, o Juca respondeu: Bom, eu durmo bem tarde. Acordo, tomo um café caprichado. Aí eu transo bastante. Volto a dormir. Acordo para um baita de um almoço. Transo mais um pouco. Dou uma cochilada. O jantar é um banquete. Transo mais uma vez e vou dormir. O Zeca disse, maravilhado: Meu Deus! Mas então é assim que é o céu? O Juca falou: Que céu que nada. Eu agora sou um urso do parque Yellowstone! Risos e aplausos. ELE – Por que você me fez lembrar disso? ANJO – Eu? ELE – Para ser feliz eu tenho que me transformar no Zé Colméia? Ou isso é uma dica de que eu posso morrer e não ir para o céu? ANJO – Ela está na festa? ELE – Aquilo foi uma intervenção expontânea no clube do riso compartilhado. Ele faz sozinho exatamente a mesma cena de super-heróis que fez com o irmão. Enquanto isso, forma-se mais uma festa de Natal, de quando Ele já é adulto. Pai, Mãe e Irmã 1 com pacotes de presente abertos. OBS. A Mãe agora usa um telefone sem fio. ELE – Que um gorila do espaço jupiteriano tinha soltado gazes fetais dos irmãos super-iores! Super-bólicos! Eles não só apagam as chamas com seu super mijo! Eles descobrem a cura para todas as doenças e as maldades! E eles vencem a morte! Música natalina. Ele se junta à festa de Natal.


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ELE – Se você quiser trocar é só levar e mostrar esse papelzinho. PAI – Não fale comigo. Eu não sou mais humano. MÃE – Essa é a novidade. (AO TELEFONE) Você ouviu, Su? Eu perdi o marido, mas ganhei um bicho de estimação. Pausa. O pai se prepara para soltar bomba. IRMÃ 1 – E lá vem... IRMÃ 2 E ELE - ...o doutor Texugo! Vinheta musical e ruído. MÃE – Vocês estão rindo do seu pai? IRMÃ 2 E ELE – Não! PAI – Creio que poderia me transformar e viver com os animais. Eles são tão calmos e donos de si. Fico a examiná-los sem parar. Não se atormentam nem reclamam da própria sorte, Não passam a noite em claro, remoendo suas culpas Nem me aborrecem falando de suas obrigações para com Deus. Nenhum deles se mostra insatisfeito, nenhum deles é dominado pela mania de possuir coisas. Nenhum deles se ajoelha diante de outro, nem diante da recordação de outros da mesma espécie que viveram há milhares de anos. Nenhum deles é respeitável ou miserável em todo o vasto mundo. Pausa. Todos aplaudem. PAI – Walt. Whitman. ELE – Que alívio! Eu achei que você ia dizer Walt. Disney. MÃE – (AO TELEFONE) Seu cunhado acaba de deixar todos boquiabertos. Acho que eu também vou ser um bicho! FILHA 1 – Eu estou tomada pela nostalgia. Para onde foi o doutor Texugo? ELE – (PARA ANJO) É um truque! ANJO – Não entendi.


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ELE – Você está me fazendo lembrar dos melhores. Teve Natais abomináveis, mais gelados que o pólo Norte! ANJO – Ainda não entendi! ELE – Mas você se deu mal. ANJO – Não gostei desse tom. ELE – É, foi esse mesmo. MÃE – (AO TELEFONE) Tá bom, eu falo. (PARA ELE) A sua tia está mandando um beijo pra você e para a Estela. Pausa. A Mãe se dá conta do fora que deu. MÃE – Acho que eu já sei que bicho eu vou ser. Um avestruz, daqueles que colocam a cabeça dentro de um buraco em momentos como esse. (AO TELEFONE) A culpa é sua, Su! FILHA 1 – Dá um tempo, mãe! ELE – (SORRINDO AMARELO) Tudo bem, mãe. MÃE – Eu ainda não me acostumei com a idéia dela simplesmente não existir mais. PAI – Eu ainda não me acostumei com a idéia da minha mãe não existir mais. E isso foi em 1987. (REFERINDO-SE A ELE) Mas considerando-se que ele estragou os nossos Natais de 1965 até 1987, inclusive, nós ainda temos crédito para estragar Natais dele pelos próximos vinte e um anos. ELE – Para um bicho, você se expressa muito bem. Mas sinto informar, vocês não estragaram o meu Natal. Pausa. MÃE – (AO TELEFONE) Bingo! Ele vai dizer que o Natal dele já estava estragado! ANJO – Era isso que você ia dizer. ELE – Claro. ANJO – Onde está sua irmã? ELE – Na Amazônia.


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ANJO – Essa da Amazônia não é a cunhada? ELE – Eu nunca tive cunhada. Pausa. ANJO – E o irmão? MÃE – (AO TELEFONE) Ele está com as sobrancelhas daquele jeito. Ele vai se vingar de mim dentro de instantes! ELE – Eu queria saber por que vocês fizeram aquilo. FILHA 1 – Aquilo o quê? ELE – Por que vocês não puderam deixar o meu irmão nascer? Pausa. O fone cai da mão da Mãe. O Pai cai desmaiado. Escuro. Luz. Pai e Mãe atravessam o palco, exatamente como em cena anterior, falando, desta vez de maneira audível. PAI – E daí que é pecado? MÃE – Deus nunca vai me perdoar. PAI – Eu fui junto com você. MÃE – Deus nunca vai nos perdoar. PAI – O que está feito, está feito. MÃE – Sua mãe nunca vai me perdoar. PAI – Ela nunca vai me perdoar também. Entra Irmã 1 e anuncia, em tom dramático, para Ele: IRMÃ 1 – A vovó morreu. (PAUSA) Sem te perdoar. MÃE – E você? PAI – Eu o quê? MÃE – Você vai me perdoar? PAI – Eu não tenho nada para perdoar.


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MÃE – (IMITANDO) Eu não tenho nada para perdoar. PAI – Você acha que eu preciso te perdoar? MÃE – Você pode fazer isso? IRMÃ 1 – Quer dizer, não sei se era de você que ela estava falando. Pouco depois dos pais começarem esse caminho, Ele entra correndo, e faz ação simultânea: tenta abrir o vidro de comprimidos, se irrita, joga longe. Se acalma, vai buscar, pega, lê instruções, consegue abrir. Anjo entra, Ele se apressa para tomar os comprimidos, cantando alucinado: ELE – Chegou a última vez De se fechar minha cortina! A Irmã 1 sai. Anjo segura braço dele, eles meio que lutam. ELE – Eu não agüento mais a solidão. ANJO – Ela morreu? ELE – É claro que ela morreu. Você sabe que ela morreu. Enquanto Anjo continua falando, Ele canta: ELE - No além do arco-íris É feliz Quem voando ou sonhando Consegue lá chegar Enquanto isso: ANJO – Como foi que ela morreu? Foi de repente? Não é melhor você falar sobre isso? Pôr pra fora? Tá bom, desculpe. Ele pára de cantar. ANJO – Existem outras mulheres no mundo. Alguns bilhões delas. ELE – Como que eu posso explicar o que é gostar de uma pessoa de um jeito que faz ela ser insubstituível? ANJO – Tente. ELE – Você tem duzentos e setenta e nove anos pra gastar?


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ANJO – Tenho. ELE – Me larga! ANJO – Você não entendeu. ELE – Do que você está falando? ANJO – Você sabe. ELE – Eu não tenho o direito de julgar ninguém. Eles fizeram o que acharam que devia ser feito. Mas eu não posso não sentir a falta, a ausência, o sozinho. Entra Irmã 1, meio alucinada. IRMÃ 1 – Posso te contar um sonho? A vovó saiu do túmulo e disse que não podia descansar em paz porque não tinha te perdoado. E ela só vai descansar em paz quando você perdoar ela! Entram Pai e Mãe, fazendo o mesmo caminho, mas com texto ligeiramente diferente: PAI – E daí que é pecado? MÃE – Deus nunca vai me perdoar. PAI – Eu estava lá junto com você. MÃE – Deus nunca vai nos perdoar. PAI – Está na moda! MÃE – Minha mãe nunca iria me perdoar, se soubesse. PAI – Ela nunca me perdoaria também. MÃE – E você? PAI – Eu o quê? MÃE – Você vai me perdoar? PAI – Eu não tenho nada para perdoar. MÃE – (IMITANDO) Eu não tenho nada para perdoar. PAI – Você acha que eu preciso te perdoar?


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MÃE – Você pode fazer isso? PAI – Eu também me senti estranho naquele lugar. MÃE – Eu tive que me segurar para não gritar quando me vi naquele espelho no teto. PAI – Pra dizer bem a verdade, eu fiquei com nojo daqueles lençóis. MÃE – Eu praticamente podia ver as bactérias e os vírus e os vermes, prontos para nos atacar. PAI – Germes. MÃE – Não foi isso que eu disse? PAI – Você não está louca de vontade de deitar na nossa caminha? MÃE – Mais um pouco e eu teria que ser internada! Os dois riem. PAI – Você vai acordar as crianças! MÃE – (IMITANDO) Você vai acordar as crianças! (SEM IMITAR) E não me faça chus! Eles saem rindo e fazendo chus para o outro fazer silêncio. Ele fica parado, atordoado. ELE – Não foi isso o que eu ouvi. ANJO – É claro que não. Mas foi o que eles disseram. ELE – Ela teria achado isso tão divertido. ANJO – Ela adorava ver você fazer papel de bobo. ELE – Dá pra entender? Não tem graça sem ela. E eu não quero mais brincar de Eu vou ser feliz quando... morrer. ANJO – Ela quer que você continue vivo. E seja feliz. ELE – Ela sempre quis que eu fosse feliz. Mas você não tem como me provar que ela queira que eu fique vivo.


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ANJO – Ela não quer que você se mate para ir ao encontro dela. ELE – (IRÔNICO) É mesmo? ANJO – E eu posso provar. Pausa. ELE - Paguei pra ver! Escuro. Luz. No lugar do anjo, está Estela, com roupa igual ao do anjo. ELE – Não era você esse tempo todo. Não é você. É? ESTELA – Como você é bobo! Pausa. ESTELA – Turumpch! ELE – Como eu sou bobo! ESTELA – Você já pode parar de brincar de “Eu vou ser feliz quando”. ELE – Você me fez de bobo. E como sempre, eu gostei. ESTELA – Meu tempo já se esgotou. ELE – Fica comigo. ESTELA – Eu fiquei. Esta noite. ELE – Estela! ESTELA – Não mais. Agora eu sou uma estrela. Começam a soar doze badaladas. Ele está de novo no palco. Ator que fez o papel de Anjo antes vem com o microfone, como Amigo 2. Ele fica parado, com o olhar perdido. É “acordado” pelo Amigo 2. AMIGO 2 – Acorda, ô Cinderela, que ninguém vai te dar beijo na boca, não! ELE – Não enche o saco! Onde você estava, desgraçado? AMIGO 2 – Eu falei que eu tinha um troço pra terminar e ia chegar bem tarde. ELE – Você quase não me encontrou.


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AMIGO 2 – Mas você ainda não cantou. ELE – Nem vou. ESTELA – Deixa de ser bobo. AMIGO 2 – Vai sim, nem que! Amigo 1, Amiga 1 e Amiga 2 sobem ao “palco”. Estela beija mão e assopra o beijo para ele. Ele começa a cantar sozinho a versão para a música “My Way”. ELE - Chegou A última vez De se fechar Minha cortina Estela diz, sem som: “Carpe Diem”. O Amigo 2 e Ele cantam em dueto: ELE E AMIGO 2 – Eu vou Te explicar Porque amigo É pra essas coisas Segui o coração Que me falou aqui no peito E mais, mais que fazer Fiz do meu jeito! Os outros amigos entram, formando coro. Vários outros temas musicais se misturam à orquestração de karaokê, inclusive a música final do filme “Oito e meio”. “My way” vai direto para a parte final, em que sobe o tom:


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TODOS – O que é viver É ter ou não Coisas demais Pra levar no caixão? Ou é fazer O que sentir Feliz ou não Não desisti. E se eu errei Tentando acertar Foi do meu jeito! Ele, durante a música, vai ficando cada vez mais feliz e nem percebe que Estela sai antes do final. Terminada “My Way”, Ele e os amigos continuam dançando feito loucos. Escuro.

Carpe Diem  

Flávio de Souza

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