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ABERDEEN UM POSSÍVEL KURT COBAIN

Sérgio Roveri


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Cenário na penumbra. Trilha musical. Ator deitado no centro do palco, com os cadarços dos tênis desamarrados e usando um casaco de veludo. Som de um tiro. Ator acorda bruscamente, como se saído de um pesadelo. Senta-se e amarra os cadarços. Caminha pelo cenário e para diante de uma janela na lateral do palco.

PRIMEIRO MOVIMENTO Eles falam de mim. Eles ainda falam de mim. Eu nunca esperei que eles fossem falar coisas boas ao meu respeito. Mas é o que eles falam. Não todos eles, é claro, mas uma boa parte. Coisas boas. O que eu esperava, na verdade, é que eles viessem me encontrar. Estou com 27 anos, um mês e 16 dias, e agora o relógio parou aqui nesta estufa. Eu gostaria de saber se parou lá fora também. Talvez não. Os putos, todos os putos do mundo, ficaram atrás de mim durante tanto tempo, e logo agora resolveram me deixar em paz. Eu sei que eles já devem estar vindo, porque eu sempre atraí este tipo de gente, tanto antes como agora. É um tipo de gente que pressente a carniça de longe. Mesmo quando a carniça ainda não virou carniça e as moscas ainda não pousaram, eles já estão ali, à espreita, porque eles sabem que é uma questão de dias. A possibilidade da carniça já os põe loucos. Mas enquanto eles não chegam, eu ainda tenho algum tempo. Um tempo para me dedicar às coisas boas...Quando eu as ouço, as coisas boas, eu gostaria que elas durassem para sempre. Mas sei que não vão durar. Não na porra desta minha cabeça, pelo menos, que se sai bem melhor quando tem de preservar as coisas que não são assim tão boas. Então eu as anotei, eu as anotei em algum lugar por aqui. Eu já vou encontrar. Eu fico assim, meio perdido, porque não é sempre que eu venho até aqui. É tão quieto aqui e tão indevassável que, se alguém quiser ver você aqui dentro, terá de subir em uma árvore que fica do outro lado do muro. Mas hoje ninguém mais sobe em árvores. (Procura por alguma coisa) Um dia, se houvesse tempo, e tempo é uma coisa que já não há mais, porque daqui a pouco os putos vão entar arrombando esta porta, eu poderia escrever uma canção com elas. Uma canção que falasse só de coisas boas. Uma canção que eu, provavelmente, não saberia mais como cantar. Porque as canções – e não fui eu quem disse isso, mas eu gosto de repetir, na esperança de que faça algum sentido – as canções saem daqui (aponta para o estômago), deste maldito lugar que nunca me deu um dia de trégua. E quem me conhece sabe o tanto que eu fiz para tentar apaziguar esta merda. Até comer bem eu comi. E dormi algumas horas de vez em quando, porque me falaram que ajudava. Muitos médicos falaram. E, quando eu falo muitos, podem acreditar que foram muitos mesmo. Pensei até em ficar limpo, mas daí seria levar a sério demais esta dor. Mas no fundo eu gosto muito desta ideia, gosto de pensar que esta dor tão fodida no estômago não passa de um punhado de belas canções lutando para nascer – um berçário de poesias onde todo mundo esperaria encontrar apenas vísceras. Mas as canções sobre as coisas boas não poderiam nascer aqui. Eu não acredito mais nisso. Teve uma época em que eu até acreditei, mas agora desisti. Eu tive muito, muito mesmo, e sou grato por isso, mas desde os sete anos


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de idade que eu passei a odiar os seres humanos em geral. E então, quando você desiste da dor, ela fica tão puta com você, mas tão puta, que sabe o que ela faz? Ela te abandona. Ela te deixa sozinho e vai atrás de outro miserável. A minha acabou de me abandonar, bem na hora em que o relógio também parou. Não está doendo mais nada, e é por isso que eu fico assim, estranho, falando essas coisas todas. (Muda a expressão) Aqui, encontrei. (Apanha algumas folhas com anotações e começa a ler) – “Ele era incrível, um verdadeiro gentleman. Um cara de bom coração”. Quem foi mesmo que disse isso? Até ontem eu ainda me lembrava, mas agora... Isso é uma coisa tão bonita e tão rara de a gente ouvir que eu não me preocupei em anotar o nome do cara que falou isso. Porque é algo que ninguém esquece. Mesmo que alguém viva mais do que 27 anos, muito mais do que 27 anos, jamais irá se esquecer de algo tão belo. Pode se esquecer de outras coisas, mas disso, não. Mas eu me esqueci. Talvez tenha sido nas últimas horas, ou ontem. Ou no dia em que cheguei aqui, nesta estufa que quase ninguém sabe que existe. Todo mundo conhece a casa grande, que tem uma puta vista para o lago e é gelada pra cacete. Eu consigo ver um pedacinho do lago daqui também, se eu for até a janela eu vejo. Mas lago é foda. Lago está sempre igual. Você compra uma casa de frente para o lago e acha que vai ser feliz ali, com sua geladeira que custou quase dez mil dólares e você só usa para guardar cerveja. Na semana seguinte, você já pensa em pagar uma puta grande para um idiota qualquer aterrar aquele lago, porque você não agüenta mais ver sempre a mesma coisa. (Volta a ler) – “Ele era uma daquelas pessoas que todo o mundo quer ter na vida”. Duvido. Só se você for um puta idiota. Mas, enfim, é de mim que eles estão falando. Este cara sou eu. Não é incrível isso? “Ele era alguém que você procura quando as coisas não estão legais”. (Volta a mexer nos papéis) – Esta outra aqui. “Eu acho que nenhum de nós estaria nesta sala esta noite se não fosse por ele”. Foda, hein? Esta não é bonita, nem sei por que eu resolvi guardar. Mas ela é estranha. (Olha para o público) – Se for verdade o que ela diz, então é por minha causa que vocês estão aqui hoje? Todos vocês? Eu acho que vou decepcioná-los, então. Eu sou bom nisso, em decepcionar as pessoas, muito bom mesmo. Mesmo quando eu não quero, eu decepciono. Acho que é uma habilidade, ou uma vocação, sei lá. Havia Kitty. Kitty nem era uma pessoa, ele vivia numa gaiola. Uma noite eu o soltei na sala daquele apartamento imundo e fedorento, eu o soltava um pouco todas as noites. Eu fui até a cozinha e, quando eu voltei, eu não vi, eu passei aquela noite toda chorando e repetindo que eu não vi. Eu pisei na cabeça de Kitty e o matei. Eu matei o rato mais gente fina que Deus já tinha colocado no mundo. E quando você é capaz de pisar na cabeça daquilo que você ama, caralho, é por que você precisa tomar muito cuidado com você mesmo. Desta eu gosto: “Ele não vai fugir de mim assim tão fácil. Eu vou atrás dele até o inferno”. Ah, mas não vai mesmo, baby. O caminho para o inferno eu descobri sozinho, e muito antes de você. E existem coisas que não se deve compartilhar, nem com os seus amigos e nem com a mulher da sua vida que, por sinal, deve ter sido ela quem escreveu isso. Tem todo o jeitão dela. Ela era muito ligada neste lance do inferno. Ela também teria chegado lá, o inferno não é para amadores, não. O caminho para o inferno é algo que se deve trilhar sozinho, desde muito pequeno. E sem revelar a ninguém onde ele começa. E sem


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revelar a ninguém também onde se escondem seus maiores horrores. O foda é que existe algo de muito brochante nesta busca. Por maior que seja o seu empenho – ou a sua obsessão, eu prefiro ficar com esta palavra – em trilhar o caminho do inferno, você nunca vai chegar lá. Nem que você grite com a sua voz mais rouca. Nem que você despedace todas as guitarras que caírem em suas mãos, se entupa até o cu com comprimidinhos brilhantes ou estoure cada uma das suas veias com heroína da branca ou da marrom, tanto faz. Você nunca vai chegar ao inferno. O inferno – e todos nós vamos descobrir isso mais cedo, como no meu caso, ou mais tarde, como no caso de cada um de vocês, pelo menos eu espero isso – o inferno não é a chegada. O inferno é o caminho em si. Sobre isso eu poderia escrever uma canção. E esta, eu garanto, eu saberia muito bem como cantar. Eu gostaria de ler ainda mais uma antes deles chegarem, acho que dá tempo. Esta eu guardo no bolso (retira o papel) não por que ela seja muito melhor que as outras, nada disso. Eu guardo no bolso porque eu tenho medo de me separar dela e então me esquecer do que ela diz. Ela é curta também, mas se você consegue dizer tudo o que tem a dizer em três linhas, por que se estender por mais? “Era difícil imaginá-lo envelhecendo e feliz”. O cara que escreveu isso podia ficar tranqüilo porque até para mim, que me conheço um pouco melhor, é difícil pra cacete imaginar uma baboseira deste tamanho. “Durante anos, eu acreditava que ele acabaria assim. O que eu estranho é ele se sentir tão sozinho e isolado. Foi ele que se afastou de todos os amigos”. Engraçado pensar nisso agora, porque eu nunca acreditei que tivesse ido assim para tão longe. Eu só vim até aqui. E esses putos que não chegam?

SEGUNDO MOVIMENTO Ator aproxima-se da janela e olha para fora. Ninguém ainda. É muito foda esta sensação de que você não está fazendo muita falta. Ou de que as pessoas não se preocuparam o bastante contigo a ponto de te encontrarem. Ator cantarola baixinho o hit Smells Like Teen Spirit Hello, hello, hello, how low Hello, hello, hello, how low Here we are now, entertain us I feel stupid and contagious Hello, hello, hello, how low… Aberdeen é só isso. Ou tudo isso, para os mais conformados, se é que eles existem: seis quilômetros e meio de largura por cinco quilômetros de comprimento. Você começa a andar e em pouco mais de uma hora já deixou a cidade para trás. Pena que não seja assim tão fácil.


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Sei de uma porrada de gente que andou muito mais do que isso durante a vida e não conseguiu deixar Aberdeen para trás. Eu mesmo continuo tentando. Ou talvez tenha parado ontem, quando vim até aqui. O que me deixa um pouco fodido é saber que, por maior que seja a distância que você acredite ter percorrido, não conseguiu ir muito longe. Em Aberdeen, aquele buraco nublado para onde me levaram com seis meses de idade, as coisas são assim: se você andar em direção ao sul, ou em direção ao norte também, vai perceber que a cidade inteira está espremida pelas montanhas. É lá, no alto das montanhas, que são até bonitas, isso eu não vou negar, não, que moram os ricos, os donos das serrarias, os homens que, com um punhado de máquinas, vivem deformando a paisagem. Nós, os pobres, um bando de gente que nunca foi dona de nada, vivemos abaixo das montanhas, num vale úmido e gelado. A natureza teve o cuidado de colocar a gente ali, bem nos pés de quem tem a grana – e sempre ficamos quietos no nosso canto, talvez por uma questão de respeito. Os que quiseram gritar contra isso, ou foram calados ou precisaram ir gritar bem longe da cidade. Nunca fui grande coisa em números, mas me parece que quase 17 mil pessoas viviam ali, frias e caladas. E, a maioria delas, também embriagadas. Agora eu acho que tem menos gente por lá. E vem sendo menos a cada dia. Os berçários não dão conta do avanço silencioso do necrotério. Em Aberdeen, as pessoas se matam duas vezes mais do que no resto do país. Quem nasce ali, pelo visto, tenta ser original ao menos na hora de se mandar desta vida, mas nem isso consegue. Não sei se minha família prestou para alguma coisa, além de oferecer uns parentes aí que reforçaram este tipo de estatística que faz de Aberdeen uma cidade macabra. Um dia, um tio-avô, o nome dele era Burle, deu adeusinho a Aberdeen com um tiro no abdome. Cinco anos depois, o Kenneth, um irmão dele e tão desgraçado quanto, resolveu seguir o mesmo caminho, e então estourou os miolos. Vai ver até que foi com uma espingarda parecida com esta aqui que...que... bom, vamos deixar isso para um pouco mais tarde. Antes deles ainda teve o James, o bisavô que eu só conheci pela fama de durão. Pois poucos, como ele, teriam culhão para abrir o abdome com uma faca e depois rasgar a costura que um médico qualquer tinha feito, em vão, para segurar ele mais um pouco por aqui. Alguém escreveu que Aberdeen, com seus bares e escolas onde quem é fraco, tímido ou bicha é perseguido e espancado, está marcada para morrer de maneira lenta e nada bonita. Alguém escreveu também – e agora desconfio que tenha sido a mesma pessoa – que foi ali, em Aberdeen, que eu aprendi, antes de qualquer outra coisa, a odiar a vida. Não duvido que esta pessoa estivesse duplamente certa. Você pega a estrada e foge de Aberdeen, mas o frio que faz ali quase todos os dias do ano vai continuar a doer nas suas juntas para sempre. Eu até que fiz alguns amigos por lá. Amigo é uma coisa que você às vezes consegue encontrar, mesmo nos dias de neblina forte. Entre uma garrafa de cerveja e outra, um desses amigos, um baterista dos bons com quem eu briguei porque ele só vivia de porre, me disse que não havia nada para se odiar em Aberdeen – a não ser os moradores. As pessoas de lá tinham um nome para chamar quem não se encaixava no figurino da cidade, um nome bastante óbvio, até: desajustados. Os desajustados de lá podiam encontrar alguma ajuda na bebida, nas drogas, nas porradas domésticas, ou, como foi o meu caso, num quarto fechado em


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companhia de uma guitarra barata que eu ganhei de um tio quando fiz quatorze anos. No início, você até acredita que isso vai livrar você da sina de ser apontado para sempre como um caipira alcoólatra e maníaco depressivo. Mas o tempo se encarrega de mostrar que, um dia, o seu destino vai bater ali, na sua porta, mesmo que você tenha passado os últimos anos se escondendo, com o maior cagaço, atrás de acordes barulhentos, riffs possantes e cortinas de fumaça. Eu sei que depois que eles chegarem e me encontrarem aqui – e uma hora dessas eles vão chegar, ainda que, como eu já disse, quase ninguém conheça esta parte aqui atrás – um curioso qualquer, um desses xeretas desocupados, vai voltar a Aberdeen para tentar chafurdar nos meus passos. As pessoas, no fundo, gostam deste joguinho nojento, elas gostam de encontrar as pegadas que você se esforçou durante 27 anos para esconder. Eu poderia, se estivesse com saco, mas já adianto que não estou, ajudar este provável curioso. Poderia dizer para ele, por exemplo, que não é preciso se esforçar tanto para encontrar, lá em Aberdeen, um local que, muito mais que os outros, preservou as minhas marcas. Fica só a duas quadras da casa pequena e pintada de verde onde minha mãe ainda deve morar. Uma casa que tem as cortinas sempre fechadas e que tem também o jardim mais maneiro de todo quarteirão. O lugar que eu estou falando é um buraco, mas talvez seja mais bacana chamar de depressão, que fica embaixo de uma ponte que atravessa até a parte norte da cidade. A ponte é a North Aberdeen Bridge, qualquer um sabe onde fica. Ali, dentro daquele buraco a alguns metros abaixo da calçada, eu passei muitas noites no inverno de 1985, quando as coisas que fariam de mim aquilo que eu me tornei e que, de alguma forma, colaboraram para que eu viesse parar aqui hoje, ainda não tinham começado. As tardes daquele inverno eu passava na biblioteca, tentando descobrir se Rimbaud e Beckett tinham alguma coisa a me dizer, e à noite, na falta de algo mais confortável para fazer, eu me encolhia no buraco para olhar as águas escuras e sem correnteza do rio Wishkah, sem saber se o ruído que vivia ouvindo era o vento ou os ratos se aproximando. Naquela época, tudo que eu tinha, tudo que eu tinha conseguido em 17 anos de vida, cabia dentro de quatro sacos de lixo. Não é muito diferente hoje, com este meu único par de tênis e este meu único jeans, que eu lavava nas viagens para poder usar na noite seguinte. Então, antes que a escuridão engolisse de vez aquela cidade que já era uma tristeza no claro, me sobrava um tempinho para pichar as colunas e cilindros da ponte. Deixei ali dezenas de frases, slogans e desenhos que talvez o futuro, ou algum engraçadinho, se encarregue de apagar. Eu confesso agora que ia ficar bem feliz se ao menos uma daquelas frases fosse preservada. Não me lembro da noite exata em que a escrevi, mas sei que meus traços, como nunca, escaparam raivosos da lata de spray para escrever o seguinte: BEM. TENHO DE CAIR FORA. ESTÁ NA HORA DE O BABACA AQUI SE MANDAR. Foi isso o que eu escrevi. Foi isso o que eu fiz. (Pausa) – A vida toda eu sempre gostei muito de contar esta história da ponte. As pessoas que me conhecem bem, minha mãe, minha irmã, apostam que eu nunca precisei dormir uma noite sequer debaixo da ponte, que isso faz parte da minha fantasia. Dormi no banco de trás de carros, dormi em corredores de prédio abandonados e em bancos de hospitais, nisso tudo elas acreditam. Mas nunca debaixo


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de uma ponte. Elas dizem que de tanto repetir esta história, eu passei a acreditar nela. É um direito meu. Acreditar nas minhas histórias e repeti-las quantas vezes eu tiver vontade.

TERCEIRO MOVIMENTO Aqui! Hei, aqui! (acena com os braços). Bando de cuzões. Não que isso faça alguma diferença agora, mas eu acho que eu ficaria melhor se eles parassem com as buscas. Não por desistência, mas por terem me encontrado. Ninguém precisa me dizer o quanto é tarde para este tipo de encanação agora, mas acho que todo mundo ia se sentir melhor se eles me achassem logo. Ser encontrado não ia resolver porra nenhuma, não ia me trazer nenhum conforto, mas não foi mesmo atrás de conforto que eu cheguei até aqui. É que eu desconfio que, só depois que eles me acharem, é que vão poder dizer tudo aquilo que eles pensam de mim e até agora não falaram. Às vezes, eu me pergunto se eu não poderia ser, ou ter sido, o cara mais feliz do mundo. Nos últimos meses, muita gente andou dizendo que eu tinha me transformado num esquisitão, num cara fissurado em bonecas quebradas, em fezes, nas minhas e nas de qualquer outra pessoa, num cara que só lavava os cabelos uma vez por semana e quase nunca escovava os dentes, a tal ponto que as gengivas viviam inflamadas e sangrando. Um cara que às vezes também gritava: por favor, Jesus Cristo, ame a mim. Mas, em vez disso, eu me sinto como se Deus tivesse me fodido e então eu passei a odiar todos vocês, mas a odiar mais ainda a mim mesmo. O esquisitão. Esquisitão é uma palavra nova, que substitui legal o desajustado da minha juventude. De esquisitão eu gosto porque me parece que ela fala de alguém que já foi bem melhor antes – e de repente desandou. Mas eu sei que não serei esquisitão por muito tempo também. Assim que aqueles homens pararem de procurar na casa grande e vierem até aqui, uau, então o esquisitão aqui vai ser chamado de traidor. Não me importo. Não me lembro de ter pedido para que alguém alguma vez confiasse em mim. Ou que enxergasse em mim um cara melhor, ou ao menos mais duradouro, do que eu realmente fui. Eu sei que quando aquele curioso for tentar saber mais de mim em Aberdeen, os que ficaram por lá vão dizer que eu não precisaria ter ido tão longe se era para terminar deste jeito. Teria sido bem mais fácil, e mais coerente com eles e com a cidade, se eu tivesse feito isso lá atrás. Assim, eu não teria iludido ninguém com a promessa de que longe daquelas montanhas geladas a vida podia ser melhor. Mas, vejamos pelo lado bom da coisa: se eu tivesse feito isso lá atrás, eu não podia mostrar para eles que a vida é uma merda em qualquer lugar. É bom que hoje eles tenham alguém para chamar de traidor, isso dá um certo alívio, dá um certo sentido a uma série de coisas que eu mesmo não pude compreender. Daqui a alguns anos, quando esta poeira toda baixar e outra pessoa representar para eles o que eu representei por algum tempo, ainda que contra a minha vontade, eles verão que eu fui só mais um babaca como todos eles. Talvez um pouco mais corajoso, talvez um pouco mais imitado, talvez um pouco mais bonito até, se é que ainda existe espaço para algum orgulho nesta altura em que até a minha beleza eu fui capaz de detonar. Mas, no


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fundo, mais um babaca como todos eles. E quando eles se derem conta disso, foda-se, porque eu não estarei mesmo por aqui para sacar o quanto vai ser dolorido. Que o grande traidor possa então, agora, brincar um pouco de cordeirinho do mundo. Mas talvez...talvez eu esteja sendo um pouco injusto. Talvez eles entendam melhor esta merda toda quando ouvirem uma ou outra coisa que eu andei escrevendo. Eu não sabia, só estava um pouco desconfiado, mas não sabia, que eram as últimas coisas que eu ia escrever. Eu pensei que eu fosse bom só para escrever canções, porque de tanto ouvir as canções na boca dos outros, cheguei a acreditar por algum tempo que elas pudessem ser realmente boas. Algumas até são, são mesmo. Mesmo agora eu acredito nisso. (Procura) – Mas não são as canções que eu quero encontrar, o que eu quero encontrar está num bilhete inacabado que eu deixei em algum lugar por aqui. Eu o escrevi para o Boddah. Vocês já ouviram falar dele, não? Eu posso falar sobre ele daqui a pouco, mas antes eu preciso encontrar. O bilhete. Eu sempre fui aquele tipo de cara que não sossega enquanto não encontra o que procura. Talvez por isso eu tenha vindo até aqui. Eu não queria misturar o bilhete com as outras coisas que escreveram sobre mim, mas acho que acabei misturando. Era um papel branco, ou amarelo, e eu escrevi, com caneta vermelha, eu escrevi que é melhor queimar logo do que ir acabando aos poucos. Mas eu tenho quase certeza de que isso estava no fim, eu escrevi algumas coisas mais bacanas antes. (Encontra o papel) – “Já faz muitos anos que eu não sinto prazer em ouvir ou em fazer música, nem mesmo em escrever. Não há palavras para descrever como eu me sinto culpado por isso”. Para quem não sente mais prazer em escrever, eu tenho de reconhecer que é um bilhete bem foda, hein! “Quando eu estou nos bastidores, por exemplo, e as luzes se acendem, e o rugido da multidão começa – talvez rugido não seja uma boa palavra, se eu pensar em algo melhor, eu troco daqui a pouco – e o rugido da multidão começa, isso não me afeta mais como afetava o Freddie Mercury”. Freddie Mercury, que porra é esta, agora? Eu escrevi mesmo Freddie Mercury? Depois eu substituo isso também. “Ele parecia adorar e saborear a admiração do público”. (Vira a página e deixa de ler algumas passagens) – Isso não interessa a ninguém, nem isso... ah, aqui outra parte do caralho. “Às vezes, antes de entrar no palco, eu me sinto como se fosse bater o cartão de ponto. Eu tentei com todas as forças gostar disso, e gosto. Por Deus, eu juro que gosto, mas não é suficiente. Devo ser um desses narcisistas que só gostam das coisas depois que elas acabam”. Se eu estiver certo quanto a isso, talvez agora eu esteja pronto para gostar de mim.

QUARTO MOVIMENTO Ator senta-se em um banco e encara o público com seriedade: Desceu à mansão dos mortos/Ressuscitou ao terceiro dia/Subiu aos céus/Está sentado à direita de Deus Pai, todo poderoso, de onde há de vir julgar os vivos e os mortos... Hoje é o terceiro dia e a prece falhou. Ninguém virá nos julgar. Ninguém virá para me achar. E eu tinha a certeza de que seria achado, pelo menos até poucas horas atrás. Eles estão tão perto,


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eu sei. O que estes putos tanto procuram do lado de fora? E eu ainda dei uma mão para eles, de alguma forma. A gente deixa alguns rastros por aí. Do seu jeito, mas deixa. Se alguém for realmente a fundo, vai descobrir que você, por exemplo, andou procurando por psiquiatras até nas páginas amarelas. Vai descobrir, ainda, que você tentou, por duas vezes, usar o cartão de crédito nos dias em que ninguém sabia onde você estava. Você tentou sacar alguma grana. Da primeira vez, querem que eu conte? Da primeira vez foram 1.100 dólares, da segunda, 5 mil dólares. Mas seu cartão de crédito já estava bloqueado. Alguém bloqueou, sem você saber. Sem você saber e sem você autorizar, alguém ainda estava metendo o nariz nas suas coisas. Nem quando você tentou sacar a merreca de 86 dólares você conseguiu. Alguém devia ter visto isso e pensado assim: puxa, o cara está precisando de dinheiro. Ele está por aí, vagando sozinho, e precisando de dinheiro. Talvez ele esteja com fome. Ou talvez só esteja querendo comprar mais um pouco de droga. Mas quem pode dizer que isso também não é um tipo de fome? Eu não queria que ninguém confundisse este meu jeito de falar com piedade, porque realmente não se trata disso. De piedade, não. A piedade, se vocês quiserem, vocês podem até enfiar no cu, parece que cabe. Quando eu falo em deixar rastros, eu estou pensando apenas em ser encontrado, em ser encontrado agora, quando tudo já acabou, e não em ser ajudado. É só uma forma de acabar logo com isso. Porque é muito foda, depois de ter feito o que eu fiz, perceber que nem assim as coisas ainda acabaram, que falta esta parte aqui que eu não consigo resolver sozinho. Ajuda, se eu quisesse, teria pedido um pouco antes, nas doze vezes em que eu tive overdose de heroína e tiveram de bater no meu peito para ele voltar a funcionar como se bate num cavalo que empacou. Ou ainda naquela madrugada em que eu tirei, um a um, 60 comprimidos de Rohypnol daquela ridícula embalagem de papel laminado, para depois jogá-los goela abaixo com a água da torneira do banheiro. Eu nunca gostei de bebida alcoólica. Como eu também nunca gostei de correr ao volante. Eu sempre dirigi 15 quilômetros abaixo do limite de velocidade, dizem que isso reduz o desgaste do motor. Eles diziam: olhem, ele parece uma velhinha ao volante. Quando eu acordei no hospital, depois dos 60 comprimidos, quem estava por perto pode confirmar que eu não pedi por merda nenhuma de ajuda. Eu disse só assim: tirem a porra desses tubos do meu nariz e depois me tragam um milkshake de morango. Se é verdade mesmo que a gente aprende alguma coisa com as grandes merdas que faz na vida, daquela vez eu aprendi o seguinte: 50 comprimidos de Rohypnol garantem cinco horas de tratamento de emergência e mais 20 horas de coma – do qual, se você tiver um pouco de sorte, é possível sair sem danos permanentes. (RESPIRO) A espingarda é uma Remington M-11, calibre 20, que eu escondia atrás de uma tábua da parede do closet, embrulhada numa capa de náilon bege, ao lado de uma caixa de ótimos charutos. Quando você a vê pela primeira vez, você é capaz de jurar que ela é mais pesada. Mas pesa menos de três quilos. Ela custou 308 dólares. Hoje é capaz de valer um pouquinho mais. Foi com ela. Uma espingarda não é tão diferente assim de uma guitarra. A não ser no resultado que elas produzem – embora, em mãos erradas, as guitarras também podem fazer um estrago e tanto. Mas, na maioria dos casos, se você usar bem uma guitarra, é capaz de ouvir que você ficou bonito, ainda que não saiba tocar muito bem. Com a


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espingarda é um pouco diferente. Se você souber usar bem, mesmo sendo canhoto como eu, você só vai poder usar uma única vez. Depois que você dobra com força seu indicador, empurrando o gatilho para trás, num gesto que não comporta mais nenhum tipo de indecisão, o cartucho libera centenas de bolinhas de chumbo que vão expandir tanto a sua cabeça que você nunca mais vai conseguir ser como era antes. Mas é tão desagradável falar sobre isso. Ainda assim, eu repito. Foi com ela. Mas poderia ter sido com uma pistola Baretta.380, uma pistola Taurus calibre 38 ou ainda um rifle semiautomático Colt, que eu guardava ao lado de 25 caixas de munição. Tudo isso eu já tive. E posso dizer, agora com uma puta de uma certeza, que ninguém precisa de tanto. Porque, quando chegar a hora, você resolve tudo com bem menos. Nas últimas horas, eu ando pensando no significado da palavra façanha. Ser um cara de sucesso talvez seja uma façanha. Conseguir com que milhares de jovens que você nunca viu, e agora jamais verá, cortem o cabelo como o seu, usem camisas de flanela como as suas, cubram suas cabeças com gorros de lenhador como você sempre gostou de cobrir a sua quando não queria que as pessoas soubessem quem você é, tentem cantar como você, ainda que muita gente por aí diga que você não canta assim tão bem e por isso perde a voz com tanta freqüência, e que, ao final, por acreditarem tanto no que você diz e escreve, decidam fazer de suas vidas algo muito parecido com aquilo que você fez da sua. E, depois de tudo isso, o desejo de ser esquecido. Uma façanha e tanto, eu concordo. Só que finalmente hoje eu descobri qual é a maior façanha que uma pessoa pode realizar. A maior façanha que uma pessoa pode realizar é conseguir se matar duas vezes no mesmo dia. Porque a espingarda de 308 dólares e três quilos nada mais fez que antecipar em alguns minutos, meia hora no máximo, o epílogo que começou a ser escrito um pouco antes, por uma quantidade tão grande de heroína e tranqüilizantes que, quando o tiro saiu, o alvo já era um homem previamente morto. É como se eu tivesse outra pessoa na minha cabeça, que vivesse me dizendo que tudo vai ficar bem se eu tomasse mais um pouco de heroína. Como Hamlet, eu tive de escolher entre a vida e a morte. E eu estou escolhendo a... Deixemos de ser óbvios.

QUINTO MOVIMENTO Eu tenho olhos azuis. E uso camisas de mangas compridas para que vocês não vejam as crostas e abscessos nos meus braços. Nem sempre foi assim. Assim triste. Houve um tempo, nem tão lá atrás, em que eu sabia dizer outro tipo de coisa. Não sei se, a esta altura, alguém ainda consegue acreditar que eu já fui capaz de falar sobre a felicidade. Não sobre a felicidade das músicas, mas sobre a felicidade da vida. Eu sou um cara muito mais feliz do que muita gente pensa. Ninguém colocou isso na minha boca, eu disse isso, exatamente assim. E por algum tempo acreditei nisso que eu disse. Acreditei tanto que eu cheguei a ter medo de que tamanha felicidade fizesse de mim um chato. Embora eu sempre soubesse que eu era neurótico o suficiente para continuar fazendo coisas estranhas, como, como criar coelhos, ratos e tartarugas dentro de casa ou mesmo pintar um quadro e depois passar minha


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porra em cima da pintura, na crença de que ela adquirisse um brilho mais humano. Eu nunca disse que fui feliz na esperança de agradar as pessoas. Se eu disse, é porque havia motivos. Em alguns momentos eu fui feliz porque, depois de cinco anos, minha dor de estômago me deixou em paz e eu descobri que podia comer uma pizza inteira numa noite sem ter de passar a madrugada vomitando sangue. Eu acho que fui um pouco feliz também porque alguns shows eram ótimos, embora eu nunca fosse a fim de cantar, o que eu sempre quis foi tocar guitarra e me esconder lá atrás de todo mundo. Dinheiro? Sim, uma porrada de dinheiro. Tanta grana que eu achava que nunca mais precisaria fazer nada na vida. Mas daí veio o ano passado e eu torrei um milhão de dólares e não me perguntem como e nem com quê. E teve minha família. Não aquela da mãe secretária e do pai mecânico, que eu pude ver um ao lado do outro até os oito anos e então nunca mais. E depois uma vida dedicada a ser diferente deles, principalmente dele, sem nunca ter a certeza de que eu consegui. Uma vida dedicada, ao menos, a tentar dar mais amor do que meu pai foi capaz de dar. A última vez que falei com ele foi por telefone, mais de uma hora. Quando a gente desligou, ele chorou. E eu quase cheguei a acreditar que estava tudo bem. Eu pedi para que ele viesse me visitar. Ele veio, eu não. Agora é outra família. Uma mulher que tem um jeito estranho de falar de amor, e que um dia disse que o fato de eu ter amado um lixo como ela era uma puta prova de que eu fui um cara legal. E uma filha que me deixa tão preocupado porque ela parece gostar de quase todo mundo. Ela ama todo mundo. E vai me conhecer tão pouco. E segurar o meu bebê foi a melhor coisa que eu já tive no mundo. Só que as coisas mudam muito depressa. Quase de uma hora para outra o caipira alcoólatra e maníaco depressivo se transformou, pelo menos é o que todo mundo diz, num esquizofrênico, irritadiço, reclamão e angustiado que só pensa em se matar a todo momento. Mas eu penso em outras coisas também, porra. Eu penso que não serei capaz de cantar as mesmas músicas daqui a dez anos. Eu penso que não consigo me ver gravando mais dois discos. Se estes pensamentos são, no fundo, um outro jeito de falar da morte, paciência. Mas nada é tão ruim quanto parece. Eu não sei para onde estou indo, simplesmente não posso mais ficar aqui. E não quero que ninguém venha atrás de mim. Ninguém, nem estas moscas. (Olha pela janela) – Eu achava que, quando chegasse a hora, eles viriam em grupo. Talvez armados, com uniformes iguais, uma ambulância atrás, com a sirene ligada. Um distintivo no peito de um deles. O chefe. Uma maca, talvez. Todos falando alto naqueles rádios que eles trariam presos à cintura, uma conversa nervosa, rápida e cheia de chiados, que novamente eu não iria entender. Eles cercariam tudo como num bom filme policial, mas de final previsível, cercariam tudo com fitas amarelas e eu estaria de novo sozinho no palco. Para um grande concerto silencioso. E todos eles olhariam para mim, surpresos e chapados diante da magnitude da minha última performance. E perguntariam, quase em coro, como eu posso fazer uma coisa dessas. A mesma pergunta que eu ouvia da boca de milhares de jovens aos meus pés, igualmente surpresos e chapados diante daquela outra performance, a barulhenta, a do palco – e não mais essa, da estufa vazia. Eu achava que seria assim. Eu até esperava que fosse assim. Mas nunca a visita de um homem sozinho, um homem tão sem...tão sem autoridade. Um homem cuja chegada não é o prenúncio de nada


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para quem o vê. Um homem, vamos ser sinceros, que ninguém nem está a fim de ver. Mas eu já o vi por aqui algumas vezes. Ele conserta algumas coisas, me disseram. Encanamentos, lâmpadas, esgotos. Um homem que só aparece quando alguma coisa não está dando certo. Não está funcionando direito. Quando já deu merda. Talvez seja ele mesmo o homem mais indicado para aparecer numa hora dessas. É agora ou então nunca mais, Boddah. Se você não der as caras logo, antes deste sujeito com uniforme de eletricista bater ou mesmo arrombar esta porta e me encontrar, então é melhor que você nunca mais apareça. Se ele chegar aqui antes de você, eu sei que daí é que você não virá mesmo. Você continua tendo vergonha de todo mundo, não continua? Mesmo depois de tantos anos. Eu sei que eles nunca conseguiram te ver, nem mesmo quando eu arrumava o seu lugar na mesa de jantar. Mas hoje eu já não sei se a culpa era só deles, Boddah. É você que nunca quis aparecer quando tinha gente do meu lado. Eu sei que eu sempre coloquei a culpa de tudo em você. Minha mãe vivia repetindo isso. Qualquer merda que eu fizesse, eu ia logo dizendo que o culpado era você. Que tinha sido você. Ela não entendia como é que um amigo que ninguém via, só eu, podia ser o culpado por tantas cagadas. É por isso que você não quer aparecer agora, não é? Para não levar a culpa desta merda também, não é isso? Se for isso, eu entendo. Você deve achar que desta vez a cagada foi grande demais para você ser o culpado, não é? Quer jogar tudo nas minhas costas. Você esperou muito tempo por essa vingança, hein? Você está ouvindo, Boddah? É o homem forçando a porta. Fim da linha, meu amigo. Você sente saudades da minha mãe, Boddah? Sente? Mesmo sabendo que ela gostava de trepar com uns caras só um pouco mais velhos que eu e que um deles, que ela chamava de namorado e botou para dentro de casa, até quebrou o braço dela numa surra? Sabe qual foi a última coisa que ela disse? Eu vou contar para você, mas não me pergunte mais nada porque não vai dar tempo de explicar. Ela disse que agora eu fui embora para me juntar àquele clube de idiotas. Sabe quem são os idiotas? Chega mais perto que eu conto. Eu não quero que aquele sujeito ali fora escute. Os idiotas, foi minha mãe que disse, não eu, são o Jimmi Hendrix, a Janis Joplin e o Jim Morrison. Acredita nisso? Juro, foi deste jeito que ela falou. Pode rir, Boddah. Eu também ri muito na hora. Ela falou que vivia me pedindo para que eu nunca entrasse nesse clube idiota. Você se lembra de ela ter me pedido isso alguma vez? Eu também não. Vai nessa, Boddah. Me espera do lado de fora que eu não vou demorar. É só este homem entrar, chamar um ou outro para resolver esta encrenca toda, que eu já te encontro do lado de fora. Eu também estou voltando para casa. E acho que ainda tenho algumas coisas para te contar. Eu cresci muito, não cresci, Boddah? Hein! Eu já estou com 27 anos, peso 57 quilos e tenho um metro e setenta de altura. E sou o cantor, guitarrista e compositor da banda de maior sucesso do mundo. Você imaginou que eu chegaria tão longe, Boddah? Nem eu. E sabe qual é a minha maior vontade neste momento? Jogar a guitarra no chão e ir embora.

Maio de 2010


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Aberdeen - Um Possível Kurt Cobain