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Britango Ave do Ano 2016

birdwatching 2.0 PortugalAves/eBird

Vila Real Onde observar aves


Rei D. Carlos © Arquivo Histórico Municipal de Cascais

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CAPTURAR AS MARAVILHAS DA NATUREZA Uma garça-real aparece num recanto calmo e pouco profundo do rio em busca de comida. Consideravelmente mais fina que outras espécies, mostra uma plumagem surpreendente com subtis tonalidades de cinzento. A longa espera mereceu a pena. TLS APO da SWAROVSKI OPTIK torna realidade o seu sonho de poder partilhar momentos inolvidáveis com os outros. Este adaptador para digiscoping liga a sua câmara SLR fácil e rapidamente ao seu telescópio STX. Assim, sempre poderá mudar rapidamente entre o modo de observação e fotografia. Desfrute mais se viver estes momentos com SWAROVSKI OPTIK.

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D. Carlos de Bragança

Britango © Bruno Berthémy - VCF

Concelho de Vila Real

20

Rei e amigo do Conhecimento

Onde observar aves e habitats emblemáticos

Ave do Ano 2016 Conhece o britango?

© Nuno Barros

Tordo Myophonus glaucinus © Tri Susanti

9 Gede-Pangrango

Um paraíso no meio da multidão

16 Portugal Aves/eBird

birdwatching 2.0

29

Editorial

4

Breves

5

Ave do Ano 2016 | Conhece o britango?

9

Concelho de Vila Real Onde observar aves e habitats emblemáticos

12

Gede-Pangrango, Indonésia | Um paraíso no meio da multidão

16

D. Carlos de Bragança | Rei e amigo do Conhecimento

20

Life Ilhéus do Porto Santo | Contributos para a conservação

23

Fisgas do Ermelo © Diogo Carvalho

Rei D. Carlos © Arquivo Histórico Municipal de Cascais

ÍNDICE

12

Exploração de petróleo | Desenvolvimento ou empobrecimento?

27

PortugalAves/eBird birdwatching 2.0

29

Ciência das Aves

33

Pombo-correio

37

Juvenis

38

n.º 52 pardela • 3


EDITORIAL Direção Nacional Uma aposta na colaboração para o bem comum A Direção que integro inicia agora o seu terceiro mandato. Ao longo destes anos, temos acompanhado o trabalho de SPEA mais de perto e temos tentado contribuir da melhor forma para o sucesso das atividades, projetos, iniciativas da associação e para a melhoria de condições para colaboradores, estagiários e voluntários. Recordo com orgulho que os órgãos sociais da SPEA são voluntários na sua função e aqui aproveito para deixar uma palavra muito especial de agradecimento - porque nunca é demais - a todos os que conseguem abdicar do seu tempo, da sua vida, família e amigos, para dar mais de si sem esperar alguma vez receber algo em troca. Hoje vejo no mundo menos voluntarismo, menos cedência, menos capacidade de dar, menos espírito de missão. O ser humano de hoje evoluiu para um nível maior de intolerância, de egoísmo, de tantas coisas más, e é incapaz de aceitar críticas e conversar abertamente sobre algumas das questões que nos afetam a todos, sem se sentir diretamente atingido e visado. Já não sabemos conversar. Pelo contrário, acusamos. E se ouvimos um pedido de desculpas, provavelmente vem com a maior das ironias. Nas equipas de trabalho que tenho tido o privilégio de integrar nos últimos dois mandatos da Direção Nacional, tenho (e temos) insistido num ponto importante que passa por desenvolver a capacidade do ser humano de «estar ao lado de», de colaborar e de trabalhar em conjunto. Fora de qualquer cor partidária, acredito na capacidade que temos de trabalhar em equipa. Acredito que todos conseguimos tornar a «colaboração» uma realidade e não apenas por ser uma moda das mais elevadas tecnologias. A colaboração é possível e a Direção que agora tomou posse vai continuar a traçar o seu caminho nesse sentido, procurando ouvir e ser ouvida, procurando apoiar e gerar apoios, para que juntos consigamos levar os nossos projetos avante e enfrentar novos desafios. E não podia haver melhor oportunidade para trazer esta edição da Pardela, que o Congresso da SPEA. Um palco ideal de trabalhos, muitos deles em equipa, um evento per se prova de grande colaboração, não fosse esta edição ibérica. Termino com duas palavras de apreço muito especiais. Começo por felicitar os sócios da SPEA que integram os novos órgãos sociais neste novo mandato e agradeço a todos os contributos, trabalhos, exposições e outras participações que vão engrandecer o IX Congresso de Ornitologia da SPEA / VI Congresso Ibérico de Ornitologia. Boas observações e boas leituras. Clara Casanova Ferreira Presidente da Direção Nacional Junte a sua voz à nossa e apoie a Torne-se sócio! conservação das aves e dos seus habitats

Esta edição contou com o apoio publicitário de: Esteller/Swarovski Optik; Living Place; Opticron; REN

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FICHA TÉCNICA PARDELA N.º 52 | 1/2016 DIRETORA: Vanessa Oliveira COMISSÃO EDITORIAL: Clara Casanova Ferreira, Joana Domingues, Luís Costa, Manuel Trindade e Mónica Costa FOTOGRAFIA DE CAPA: Britango Neophron percnopterus, Ave do Ano 2016 e uma das espécies-alvo do novo projeto Life Rupis © Bruno Maia FOTOGRAFIAS: Alexandre Leitão, Arquivo Histórico Municipal de Cascais, Beatriz Estanque, Bruno Berthémy - VCF, Bruno Maia, Carlos Ribeiro, Dinis Cortes, Diogo Carvalho, Faísca, Filipe Alves, Hany Alonso, Javier Tomás, Jesus Cobo/WWF, Joana Domingues, João Carrilho, João Paulo Silva, Luís Valadares, Luís Venâncio, Michael Gunther/WWF, Nuno Barros, Paulo Anastácio, Rúben Coelho, SPEA, Tri Susanti, WWF e Yathin/Flickr TEXTOS: Ana Almeida, Artur Vieira de Jesus, Carla Gomes, Cátia Gouveia, Clara Casanova Ferreira, Diogo Carvalho, Hany Alonso, Hélia Gonçalves, Joana Domingues, João Alexandre Cabral, João Paulo Silva, Laura Castelló, Maria Dias, Mário Santos, Paulo Alves, Paulo Barros, Paulo Travassos, Pedro Fernandes, Pedro Cardia, Rita Bastos, Rita Catarina Gomes, Teresa Catry e Sílvia Nunes ILUSTRAÇÕES: LEA, Martí Franch, PALP (cedido por), Paulo Alves, Pedro Alvito, Roque Gameiro, Sandra Macieira, Silva Seca e SPNM PAGINAÇÃO E GRAFISMO: Susana Costa IMPRESSÃO: SIG - Sociedade Industrial Gráfica, Lda. TIRAGEM: 1200 exemplares e digital ISSN: 0873-1124 DEPÓSITO LEGAL: 189 332/02 Os artigos assinados exprimem a opinião dos seus autores e não necessariamente a da SPEA. A fotografia de aves, nomeadamente em locais de reprodução, comporta algum risco de perturbação das mesmas. A grande maioria das fotografias incluídas nesta publicação foi tirada no decorrer de estudos científicos e de conservação sobre as espécies, tendo os seus autores tomado as precauções necessárias para minimizar o grau de perturbação das mesmas. A SPEA agradece a todos os que gentilmente colaboraram com textos, fotografias e ilustrações. Contactos: Vanessa Oliveira | vanessa.oliveira@spea.pt | 213 220 434/0 | www.spea.pt/pt/publicacoes/pardela DIREÇÃO NACIONAL Presidente: Clara Casanova Ferreira Vice-presidente: José Manuel Monteiro Tesoureiro: Michael Armelin Secretário: Vitor Paiva Vogais: Vanda Coutinho, José Paulo Monteiro, Manuel Trindade Avenida João Crisóstomo, n.º 18 4.º Dto. 1000-179 Lisboa Tel. 213 220 430 | Fax 213 220 439 E-mail: spea@spea.pt | Website: www.spea.pt A SPEA é uma organização não governamental de ambiente, que tem como missão o estudo e a conservação das aves e dos seus habitats em Portugal, promovendo um desenvolvimento que garanta a viabilidade do património natural para usufruto das gerações vindouras. Faz parte da BirdLife International, organização internacional que atua em mais de 100 países. Como associação sem fins lucrativos, depende do apoio dos sócios e de diversas entidades para concretizar as suas ações.


Javier Tomás

BREVES

Ganhe prémios com o PortugalAves/eBird

Terras do Priolo recebem Certificado EUROPARC A Federação EUROPARC atribuiu uma menção honrosa ao Life Terras do Priolo, no âmbito do «Prémio Comunicação Natura 2000». Este Highly Commended Certificate é mais um reconhecimento pelo trabalho que tem sido efetuado pela SPEA e parceiros na região. www.europarc.org

Projeto STARS: Juntos por um turismo mais sustentável Iniciado em outubro de 2015, o projeto STARS – Sustainable Tourism Agents in Rural Societies pretende fomentar a mobilidade intercontinental entre os sete países participantes: Espanha, Portugal, Nova Caledónia, Ilhas Salomão, Chile, Sri Lanka e Indonésia. Através da inclusão de jovens voluntários, o STARS pretende criar novas ferramentas de promoção local na área do turismo sustentável, apoiando também a recuperação de trilhos turísticos como uma ferramenta de dinamização e desenvolvimento rural. Neste âmbito, Portugal, representado

Aves marinhas portuguesas online O Atlas das Aves Marinhas de Portugal é a mais completa e detalhada caracterização até hoje realizada da distribuição e da abundância de aves marinhas e costeiras que utilizam as águas portuguesas. Para além da sua recente publicação em livro, a informação poderá também ser consultada online. No website encontrará mapas que resultaram de dados recolhidos a partir de embarques,

pela SPEA, promoverá diversas ações de cooperação, conexão em rede e intercâmbio de práticas na área da observação de aves como recurso turístico. Localmente, contamos já com o apoio dos municípios de Santa Cruz e Porto Santo (na Madeira), e esperamos que outros agentes se juntem a este projeto multicultural e transnacional. As expetativas são muitas e espera-se que juntos se possa contribuir para um turismo mais sustentável. www.facebook.com/IslandShake

censos costeiros e censos de aves invernantes na costa. O site reúne ainda informação acerca de 65 espécies de aves pelágicas e costeiras, referindo ainda outras observadas pontualmente nas nossas águas. www.atlasavesmarinhas.pt

Martí Franch

A SPEA também quer motivar os observadores de aves que somarem mais listas submetidas no PortugalAves/ eBird até ao final de 2016. À semelhança do que aconteceu em 2015, estes observadores serão premiados com uma saída pelágica para observação de aves marinhas, a decorrer em meados de 2017, na Zona de Proteção Especial das Berlengas. Aproveite esta oportunidade para ser um dos vencedores! A SPEA e o eBird lançam outro desafio aos observadores portugueses: quem usar a versão mobile (gratuita para dispositivos iOS e Android) pode inserir os dados onde quer que esteja e habilitar-se ao sorteio mensal de binóculos Zeiss. Quem inserir pelo menos 15 listas por mês em sítios novos através do eBird mobile está automaticamente inscrito, sendo os vencedores notificados até ao dia 10 do mês seguinte. O eBird Mobile é usado por milhares de eBirders em todo o mundo, permitindo a entrada de dados em tempo real. Saiba mais e insira já os seus dados em ebird.org/content/ portugal/

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BREVES

Agenda em destaque

- 15 março a 15 julho (todo o país): Voluntariado | III Atlas das Aves Nidificantes de Portugal - 14 de maio: Global Big Day do PortugalAves/eBird - 27 a 29 de maio (Montalegre): Aves do Barroso - 24 a 26 de Junho (Mogadouro): ArribAves 2016 - 27 junho a 2 julho (S. Miguel): Voluntariado | III Atlas do Priolo - 15 julho a 15 de setembro (todo o país): Ciência Viva no Verão - 19 a 21 agosto, Reino Unido (Rutland Water): British Birdwatching Fair - 1 e 2 outubro (todo o país): Fim de semana Europeu de Observação de Aves (EuroBirdwatch) - 30 setembro a 5 outubro (Sagres): Festival de Observação de Aves e Atividades de Natureza - 17 e 18 outubro (Setúbal, Herdade da Mourisca): Feira ObservaNatura

Por ocasião das comemorações do Dia Mundial das Zonas Húmidas (2 de fevereiro), foi celebrado um protocolo de colaboração entre a Câmara Municipal de Sesimbra e a SPEA para a dinamização do Espaço Interpretativo da Lagoa Pequena (EILP), uma importante zona húmida. A SPEA ficará responsável por assegurar o atendimento dos visitantes, implementar um programa de atividades variado, dinamizar iniciativas de voluntariado ambiental, monitorizar as populações de aves e estabelecer parcerias com entidades ligadas aos setores da educação ambiental e animação turística. O EILP estará aberto de quarta a domingo, estando as

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Joana Domingues

Lagoa Pequena dinamizada pela SPEA

quintas-feiras reservadas para a escolas. Contamos com a sua visita a este espaço, agora ainda mais dinâmico!

www.cm-sesimbra.pt/lagoapequena


BREVES

SOS Natureza: Parlamento europeu votou pela defesa da Natureza

Contar todos os priolos do mundo numa semana O Atlas do Priolo regressa em 2016. O objetivo é contar todos os priolos do mundo e para isso toda a ajuda é preciosa. A iniciativa vai decorrer de 27 de junho a 2 de julho nos concelhos do Nordeste e Povoação, mais propriamente na Zona de Proteção Especial Pico da Vara/Ribeira do Guilherme e área envolvente (S. Miguel, Açores). O Atlas do Priolo é organizado de 4 em 4 anos pela SPEA e é um projeto pioneiro que foi realizado pela primeira vez em 2008. Este Atlas assenta na participação de cerca de 50 voluntários, que obtêm registos em toda a área de distribuição desta espécie em apenas uma manhã, depois de uma semana de formação e preparação. A SPEA ficará responsável pelo alojamento, transporte e alimentação em São Miguel durante

pescas, e espécies exóticas invasoras, e também iniciativas para recuperar áreas naturais fora da UE. Esta votação fez parte do processo de Fitness Check, liderado pela Comissão Europeia, que pretendia flexibilizar estas leis, e vem na sequência de um processo de auscultação aos cidadãos europeus, que foi alvo de uma grande campanha de sensibilização por parte de mais de 100 organizações não-governamentais de âmbito nacional e internacional, que consideraram ser provável o seu enfraquecimento e, por isso, apelaram massivamente ao voto pela Natureza. No entanto, só em junho se saberá a decisão final a UE sobre o futuro das diretivas.

o período do Atlas e os participantes apenas precisam de assegurar a sua deslocação até à ilha. Inscrições até 27 de maio. centropriolo.spea.pt

Noticiário Ornitológico chega ao fim 642 Edições e 15 anos depois, o Noticiário Ornitológico (NO) chega ao fim. Cumpriu a sua função junto de mais de 3000 utilizadores, informando sobre as observações mais interessantes da semana. O sucesso do NO deve-se à dedicação de vários sócios, colaboradores e funcionários da SPEA, nomeadamente ao Gonçalo Elias, Helder Costa, Alexandre Leitão, Nuno Vieira e Hugo Sampaio, que diligentemente compilaram, arquivaram e selecionaram as observações mais interessantes da

Esq.-dir.: Rúben Coelho; WWF; Michael Gunther/WWF; WWF; Jesús Cobo/WWF; Yathin/Flickr

As leis que protegem a Natureza na União Europeia (UE) foram a votos no início do ano no Parlamento Europeu. Por uma esmagadora maioria, os deputados aprovaram um relatório sobre a revisão intercalar da Estratégia de Biodiversidade da UE, que apela à proteção das Diretivas Aves e Habitats. O relatório salienta que a plena implementação dessas leis são necessárias para alcançar os objetivos da Estratégia de Biodiversidade da UE. A estratégia vai até 2020, altura em que a UE tem de travar a perda de biodiversidade e atingir as metas. Estes objetivos abrangem a legislação da UE sobre a natureza, a agricultura, as

semana. O Stuart Mackay foi quem criou e geriu a base de dados do NO. A estes e aos subscritores que enviaram muitas centenas de observações por ano, o nosso grande obrigada! A informação acumulada com o NO fica à guarda da SPEA e poderá ser solicitada para estudos ornitológicos. Daqui para a frente, a SPEA sugere a utilização do serviço de alertas do eBird. Para tal basta registar-se no PortugalAves/eBird e em poucos minutos fica habilitado a carregar as suas listas e observações e a usufruir dos alertas mais interessantes do dia anterior. Boas observações e bons alertas! ebird.org/content/portugal

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BREVES

Por Joana Domingues PUB

Mais uma época de campo do III Atlas das Aves Nidificantes | até 15 de julho

Bruno Berthémy - VCF

Participe e não se esqueça de registar as suas observações no PortugalAves/ eBird. Todos os registos contam! www.spea.pt/pt/estudo-econservacao/censos/atlas-nidificantes

Carlos Ribeiro

Já teve início a segunda época de campo do III Atlas das Aves Nidificantes de Portugal em todo o território nacional. A tarefa é árdua, mas os ornitólogos portugueses têm demonstrado que o difícil nem sempre é impossível. A metodologia das visitas sistemáticas é a mesma, focada na contabilização de indivíduos de cada espécie, no registo do maior número de espécies possível e nos códigos de nidificação mais elevados. No entanto, existem dois ajustes opcionais que poderão ser aplicados em determinadas condições, a possibilidade de se realizar apenas uma visita em determinadas quadrículas remotas e a opção de não contar as aves observadas nas visitas de 30 min. Estão a ser preparados vários incentivos, com prémios e aproveitando de eventos, como o Congresso de Ornitologia e o Global Big Day, que acreditamos vão incentivar a participação.

Órgãos sociais da SPEA com nova equipa Março 2016 marca o início de um novo mandato dos órgãos sociais da SPEA. Com algumas caras novas, esta nova equipa vai dar continuidade à missão plurianual definida até 2017 apostando, já este ano, no reforço de iniciativas que pretendem sustentar os quatro pilares dessa mesma estratégia: salvar espécies, conservar sítios e habitats, promover a sustentabilidade ecológica e envolver as pessoas para mudanças ambientais positivas. De entre os documentos disponibilizados para a última Assembleia Geral Ordinária da SPEA, sublinha-se a relevância do Plano de Atividades aprovado para 2016. Durante a apresentação Clara Ferreira,

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presidente da Direção, sublinhou a importância de algumas atividades como a continuidade da cooperação na Coligação de ONGA «C6», dando particular enfoque às questões relacionadas com o plano nacional de barragens e com a eliminação do chumbo nos cartuchos de caça. Foi igualmente destacado o trabalho que a SPEA vai continuar a desenvolver, quer em Portugal quer além-fronteiras, na conservação de espécies e habitats. Da mesma forma, a promoção do turismo ornitológico sustentado e sustentável, apoiado em documentos que denotem o compromisso de entidades públicas e privadas e das populações em geral para esta temática será uma questão

presente nos próximos meses de atividade da SPEA, culminando, no último trimestre, na realização de mais uma edição do já denominado «Festival de Sagres». Clara Ferreira transmitiu ainda o seu «agradecimento pela confiança demonstrada por parte de todos os membros da Direção Nacional, do Conselho Fiscal e da Mesa da Assembleia Geral. Dou as boas vindas aos novos elementos que tenho a certeza serão um trunfo ainda maior para esta equipa no apoio aos colaboradores, às entidades parceiras, mas acima de tudo aos Sócios da SPEA.» www.spea.pt/pt/quem-somos/ documentos


Bruno Berthémy - VCF

Conhece o britango? É a Ave do Ano 2016

Da família dos abutres, o britango é um dos heróis mais indesejados e mal-amados no mundo animal, mas a campanha Ave do Ano 2016 pretende contribuir para alterar a situação.

E

ste ano, a SPEA escolheu o britango para Ave do Ano 2016 e pretende desmistificar alguns mitos e preconceitos existentes sobre os abutres. Também conhecido por abutre-do-egito, é o mais pequeno dos abutres ibéricos e enfrenta um grave declínio a nível mundial. Em Portugal, já desapareceu do sul do país, sendo raro no centro. Atualmente, é uma das espécies-alvo do projeto Life Rupis, a decorrer nas áreas protegidas nacionais do Douro Internacional e Vale do Rio

Águeda e Arribes del Duero, no lado espanhol. Infelizmente, apesar da sua importância para o ecossistema, os abutres são associados à morte e maus prenúncios, tornando-se num dos heróis mais mal-amados no mundo animal. A SPEA pretende com esta campanha contribuir para alterar atitudes e dar a conhecer esta espécie de abutre tão importante para o equilíbrio ambiental. Eles são autênticas «aves limpa lixo», uma vez que se alimentam de carcaças

de animais mortos, muitos deles doentes, controlando assim a proliferação de pragas e doenças, como a febre bubónica, a tuberculose, o botulismo e a brucelose. Nos últimos 30 anos, a população de britango diminuiu 30% em Portugal e, por isso, está em perigo de extinção. Esta diminuição deveu-se a diversos fatores associados à qualidade do habitat, perturbação e perseguição. Esta pequena ave de rapina de plumagem essencialmente branca

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Ilustrações de Sandra Macieira

e preta, face amarela e cauda longa, pode ser vista em Portugal a partir de finais de fevereiro, permanecendo nas zonas de nidificação de março a setembro. Durante o outono migra para sul, passando o inverno na África sub-saariana. Prefere zonas acidentadas, normalmente em vales fluviais e montanhas, nidificando em buracos e plataformas rochosas. O britango alimenta-se de carcaças de outras aves e mamíferos, bem como de fruta e vegetais já em estado de decomposição. Por vezes, pode também caçar animais debilitados.

Coordenação

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Uma das curiosidades mais interessantes da espécie, que a torna numa das aves mais «inteligentes», é a sua capacidade de usar pedras para partir ovos de avestruz para se alimentar, quando está em África. Em Portugal, o Douro Internacional é um dos locais onde é mais fácil observá-lo, mas ocasionalmente ele surge noutros pontos do país. No Douro de Portugal e Espanha, encontra-se uma das mais importantes populações da Península Ibérica, com 116 casais registados no último censo.

Coordenação Cofinanciamento

Cofinanciamento Coordenação Coordenação Parceiros

A campanha da Ave do Ano envolverá ações de divulgação, nomeadamente presença em eventos e feiras, irá disponibilizar wallpapers bimestrais com calendário e irá estar em sintonia com as ações do projeto Life Rupis. Conheça algumas curiosidades e faça download dos wallpapers em www.spea. pt/pt/participar/campanhas/ave-do-ano2016-britango. Autora: Joana Domingues (SPEA) www.rupis.pt

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Distribuição em Portugal

Algumas curiosidades • •

• •

Utilização de pedra para quebrar a casca de um ovo Parceiros Parceiros

Ilustrações de Sandra Macieira

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O britango é o mais pequeno dos abutres europeus; O britango era adorado pelos faraós no antigo Egito por causa da sua capacidade de remover lixo e animais mortos. Por esta razão, é também conhecido como «Galinha do Faraó»; Alimenta-se também de ovos, usando pedras para quebrar a casca. É uma das raras espécies de aves que utiliza uma «ferramenta» para obter o seu alimento; É uma ave diurna, que pode viajar até 120 km para encontrar alimento; É uma espécie solitária fora da época do acasalamento e quando tem as crias; É uma espécie monogâmica e acasala para a vida; Os ninhos podem ter 1,5 m de largura e são feitos de paus, lã, trapos e restos de alimentos; A fêmea coloca dois ovos e ambos os progenitores chocam os ovos durante o período de incubação que dura cerca de 42 dias; Os pais alimentam as crias com regurgitações da comida que ingerem até aos 3 meses; Tornam-se sexualmente maduros aos seis anos de idade; A sua esperança média de vida em estado selvagem é de 30 anos.

Parceiros

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Concelho de Vila Real Onde observar aves e habitats emblemáticos O IX Congresso de Ornitologia da SPEA vai realizar-se em abril na cidade de Vila Real. Conheça este concelho, localizado na interface entre as regiões mais densamente povoadas do litoral e o interior mais rural e selvagem do norte de Portugal, e as suas aves. A região é caracterizada por uma enorme heterogeneidade geomorfológica e de habitats, o que permite a ocorrência de mais de 130 espécies de aves.

Floresta e agricultura

Nesta região podem encontrar-se carvalhais formando manchas irregulares mais ou menos extensas, entrecortadas por terras de cultivo,

pastagens e pinhais. O mosaico resultante atrai uma variedade de espécies de aves florestais, tais como a coruja-do-mato, o açor, o gavião, o chapim-azul, o chapim-rabilongo, o pica-pau-malhado, o pica-pau-galego, a trepadeira, a trepadeira-azul, a estrelinha-de-poupa e a estrelinha-real. O Vale da Campeã (ver local 1 no mapa da página 13), ladeado pelas serras do Alvão (2) e Marão (3) destaca-se como a paisagem onde este mosaico com carvalhais está mais bem preservado na região.

Vale da Campeã

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Diogo Carvalho

ecológicos muito relevantes, no que diz respeito à biodiversidade em geral e à avifauna em particular. A importância e diversidade do seu património natural foram reconhecidas ao abrigo da criação do Parque Natural do Alvão, incluído na Rede Natura 2000 e com relevância como Área Importante para as Aves e Biodiversidade (IBA).

Diogo Carvalho

A

dornado pelas serras do Marão e do Alvão, nas confluências dos rios Corgo e Cabril, o concelho de Vila Real apresenta um rico património de vestígios arqueológicos que atesta a ocupação humana ancestral que deixou ao longo dos tempos um legado paisagístico, de costumes, artesanato e gastronomia ímpares. Neste contexto, ao estar posicionado na encruzilhada de influências marcadamente atlânticas e mediterrânicas, alberga uma diversidade de habitats naturais, seminaturais e agroflorestais, moldando uma paisagem em mosaico que suporta valores


Diogo Carvalho

Diogo Carvalho

A coexistência de habitats, proporcionada pelo que se convencionou designar paisagem de «bocage», muito marcada pela delimitação das propriedades agropastoris com sebes arbóreas, torna o Vale da Campeã um local especial para observações ornitológicas, das quais se destaca o emblemático picanço-de-dorso-ruivo, no limite meridional da sua distribuição na Península Ibérica. A nordeste da serra do Alvão, no Vale de Vila Pouca de Aguiar, apesar de poder passar despercebida, a felosa-bilistada tem recompensado os observadores mais persistentes com algumas aparições esporádicas. Os pinhais, como povoamentos florestais dominantes na região, proporcionam abrigo e alimento para várias espécies da avifauna comum, e não deixam de ser interessantes para quem se esteja a iniciar na observação ornitológica. De facto, nas orlas destes povoamentos de coníferas da serra do Alvão (2) é possível observar com bastante frequência, entre outras, a águia-d’asa-redonda, o pombo-torcaz, o peto-verde, o chapim-de-crista, o tentilhão-comum e o tentilhão-montês. Nestes povoamentos pode ainda surgir uma espécie menos comum e, por isso, mais difícil de detetar e observar nesta região, o cruza-bico.

Matos e pastagens de altitude

As áreas dominadas por espécies arbustivas, de pequeno e/ou de médio porte, conferem à paisagem

características de importância ecológica fundamental para inúmeras espécies da avifauna, que decorrem da sua variabilidade, composição florística, densidade e estrutura. Os matos de altitude, que normalmente ocupam as

Serra do Alvão

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cumeadas e os vales encaixados da serra do Marão (3), dão abrigo a espécies que merecem um sublinhado, não só pelas suas cores e/ou cantos, mas também pelos seus comportamentos peculiares. Nestas paragens recônditas e tranquilas, o observador atento pode facilmente surpreender aves como a perdiz, a ferreirinha, o cartaxo, o cartaxo-nortenho, a toutinegra-do-mato, o papa-amoras, a cia e a sombria. Adicionalmente, estas paragens também proporcionam pontos de observação excelentes para as aves mais conspícuas, como aquelas que se exibem pela especificidade do seu tipo de voo, como é o caso da águia-caçadeira, da águia-cobreira e do peneireiro-vulgar, mas também pelo comportamento mais previsível do mocho-galego ou do picanço-real. Estas áreas, quando entrecortadas por afloramentos rochosos e culturas florestais, atraem ainda espécies como o chasco-ruivo, a toutinegra-de-cabeça-preta, a toutinegra-de-bigodes, o pintassilgo, o verdilhão ou a escrevedeira.

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Diogo Carvalho

Águia-caçadeira

Nas cotas mais elevadas, os rios e ribeiras exibem margens desprovidas de vegetação de porte arbóreo, sendo bons habitats para a ocorrência do melro-d’água, sobretudo nos troços de maior corrente, designados por «rápidos». Apesar da preferência pelos rios de montanha, que correm nas serras do Alvão (2) e Marão (3), esta espécie pode também ser observada nos rios e ribeiras de menor altitude, como é o caso do rio Corgo e afluentes que atravessam a cidade de Vila Real, em especial no seu parque urbano, conhecido por Parque Corgo (4). Neste parque podem também ser observadas outras espécies que tiram partido dos habitats ripícolas, como o guarda-rios, a carriça e a alvéola-cinzenta, observada frequentemente por entre as pedras e vegetação do leito em voo ondulante. Os bosques junto a rios e ribeiras são por natureza zonas densas, com elevada humidade, onde ocorrem espécies como o rouxinol-comum e o rouxinol-bravo, ambas de difícil observação, mas denunciando a sua presença através dos seus inconfundíveis e poderosos cantos.

Diogo Carvalho

Ripícolas e matas urbanas


Outras espécies surgem neste contexto, umas mais facilmente detetáveis como o pisco-de-peito-ruivo, as felosas, o tordo-comum e o chamariz, outras mais esquivas ou esporádicas como o lugre, o bico-grossudo e o dom-fafe. No âmbito dos ecossistemas aquáticos, destacam-se a barragem Cimeira no Parque Natural do Alvão (2), a barragem de Falperra (5), a barragem do Pinhão (6) e as margens do rio Douro (7) que, pela sua geografia, atraem com frequência aves aquáticas, limícolas e, ocasionalmente, algumas aves marinhas no outono e no inverno. É possível observar nestas massas de água o mergulhão-de-crista, o mergulhão-pequeno, o pato-real, o galeirão e o corvo-marinho. Nas suas margens surgem a garça-real, a galinha-d’água, o maçarico-das-rochas e, ocasionalmente, aves limícolas e marinhas de ocorrência menos comum na região como o guincho ou o maçarico-bique-bique.

Aves rupícolas

Os ecossistemas rupícolas desta região proporcionam habitats de eleição para várias espécies de aves de rapina, como o falcão-peregrino e a águia-calçada, e passeriformes com requisitos ecológicos mais especializados. No caso das serras do Alvão (2) e do Marão (3), os afloramentos rochosos, escarpas e cumeadas são os habitats preferenciais de espécies como a laverca, a gralha-de-bico-vermelho, o corvo, o melro-azul, o melro-das-rochas, o chasco-preto, o rabirruivo, a ferreirinha-serrana, a andorinha-das-rochas e o bufo-real. Ocasionalmente, nos invernos mais frios no hemisfério norte, é ainda possível encontrar em locais como as Fisgas de Ermelo (8) e na Serra do Marão (3), a trepa-fragas e a escrevedeira-das-neves.

Guarda-rios

Autores: Diogo Carvalho; Mário Santos; Paulo Travassos; Paulo Barros; Rita Bastos; Carla Gomes; Hélia Gonçalves; João Alexandre Cabral, (Laboratório de Ecologia Aplicada, CITAB, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro)

Diogo Carvalho

Diogo Carvalho

Saiba mais LEA (2012). Répteis, Aves e Quirópteros. Relatório final do projeto “Proteger é Conhecer” e projeto “SEIVACORGO” (Setembro 2012). 68 Pp.

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Pangrango, visto do pântano

Java é considerado o centro cultural, económico e populacional do arquipélago indonésio, possuindo uma área de 132 000 km². Esta ilha é a mais populosa do mundo, com cerca de 145 milhões de habitantes (2015). É nesta ilha super-povoada que visitaremos o Parque Nacional Gede-Pangrango.

O

Parque Nacional Gede-Pangrango é talvez o local mais procurado pelos birdwatchers que visitam Java, pois aqui se encontra a maioria dos endemismos da ilha. Este parque está incluído na Rede Mundial de Reservas da Biosfera reconhecidas pela UNESCO. Possui uma área de 150 km² e é centrado em dois vulcões – Gede (2958 m) e Pangrango (3019 m). O coberto arbustivo é constituído maioritariamente por florestas submontanhosas persistentes, havendo, no entanto, «florestas anãs» cobertas de

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musgo e prados alpinos no topo dos dois vulcões. A lista de espécies de aves observadas neste parque ronda as 250 e, entre elas está o gavião-javanês Nisaetus bartelsi, símbolo nacional da Indonésia. Além das aves, há também a destacar a diversidade de mamíferos, incluindo primatas endémicos como o gibão-de-java Hylobates moloch ou o lutung-de-java Trachypithecus auratus, o elusivo leopardo-de-java Panthera pardus melas ou o curioso texugo-de-java Mydaus javanensis.

Desfile alado no Lago Azul

Os dias amanhecem cedo neste canto do mundo, por isso iniciamos o percurso de madrugada. Apesar de estarmos rodeados de floresta tropical, a manhã começa fria. Não nos podemos esquecer que estamos a 1500 m de altitude. O coro matinal envolve-nos assim que chegamos ao início do trilho que nos leva ao topo do Gede. Somos recebidos por um zaragateiro-de-horsfield Turdinus sepiarius, que

Tri Susanti

Tri Susanti

Gede-Pangrango um paraíso no meio da multidão


Kalimantan Sulawesi

Sumatra

Maluku Nusa Tenggara

Tri Susanti

Tri Susanti

Java

Papua

Cascatas Cibereum

pia melancolicamente no meio da vegetação. Os chamamentos dos cucos Cacomantis sp. multiplicam-se e inúmeras espécies de papa-moscas pululam aqui e ali. Um papa-moscas-malhado-pequeno Ficedula westermanni procura incessantemente alimento. Haverá com certeza uma prole a alimentar. Uma família de perdiz-montesa-de-barriga-castanha Arborophila javanica atravessa o trilho apressadamente. Esta espécie difícil de observar faz-se ouvir com frequência ao longo do trilho. Por esta altura, estamos a chegar ao Telaga Biru (Lago Azul), cujo nome deriva da presença de algas que dão cor à água. Há momentos em que a floresta

parece vazia… De rompante, uma onda de seres surge de todos os lados. Trilhamos o percurso, lutando para ver as aves na densa vegetação. Não é fácil. De repente somos bombardeados por um bando misto de espécies. A adrenalina que sentimos é indiscritível, à medida que diferentes espécies se movem em uníssono: fulvetas Alcippe pyrrhoptera, olhos-brancos Zosterops sp., felosas Phylloscopus sp. e Seicercus sp., drongos ruidosos e de cauda aparatosa Dicrurus sp., minúsculos chapins Psaltria exilis desfilam por entre a folhagem. No chão, os atores são outros. Diversas espécies de zaragateiros Pomatorhinus montanus, Stachyris sp., Napothera epilepidota e o desconcertante

Pnoepyga pusilla que mais parece um rato, passando facilmente despercebido por entre o manto de folhas mortas, a não ser que solte o seu canto poderoso e que em nada se compara ao seu pequeno tamanho. Estes bandos mistos são característicos de floresta tropicais, estando as razões da sua existência ainda mal compreendidas. Será por motivos de segurança? Tantos pares de olhos evitarão mais facilmente os predadores. Ou será uma estratégia de caça? Um bando destas dimensões terá mais sucesso na procura de insetos camuflados… seja como for, é um deleite para a vista do observador.

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Tri Susanti Tri Susanti

Tri Susanti

Telaga Biru

Tuta Pycnonotus bimaculatus

Barbudo Megalaima armillaris

O pântano

Continuamos o percurso até chegarmos a uma área aberta e pantanosa, coberta de erva alta. Estamos agora a meio da manhã e o ar tornase quente e pesado. É altura de parar e recuperar forças. Em dias em que as nuvens o permitem, podemos ver daqui o topo do Pangrango, e é aqui também o melhor local para observarmos as rapinas que povoam o parque. Não tarda um casal de gavião-javanês exibe voos de parada sobre as nossas cabeças. Uma Spilornis cheela, mais distante, solta o seu assobio eloquente. Outras

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especialidades deste local são os pequenos papagaios Loriculus pusillus que nos sobrevoam com voos rápidos e vibrantes chamamentos. Um guarda-rios-de-java Halcyon cyanoventris é detetado logo de seguida - este é o limite altitudinal em que o encontraremos, não sendo nada frequente por aqui. Um pequeno grupo de tutas Pycnonotus bimaculatus regateia por entre os ramos das árvores que rodeiam o pântano. É altura de retomarmos o trilho, com um sorriso de orelha a orelha, a fim de alcançarmos as cascatas Cibereum.

Cascatas e nascentes de água quente

As cascatas Cibereum são formadas pelos rios Cikundul, Cidendeng e Cibereum. Um musgo vermelho Sphagnum gedeanum, endémico das montanhas ocidentais de Java, cobre as paredes rochosas. Passamos algum tempo a explorar a área envolvente. Com paciência, vislumbramos a peculiar tesia-de-java Tesia superciliaris - o seu canto musical traiu a sua presença. Esta espécie endémica de Java ocorre estritamente


Paulo Alves

Tri Susanti Tri Susanti

“Outras especialidades deste local são os pequenos papagaios Loriculus pusillus que nos sobrevoam com voos rápidos e vibrantes chamamentos. “

Conservação na Indonésia

A missão da Burung Indonesia, parceira da Birdlife International no país, é promover a conservação de espécies e habitats, trabalhando com as comunidades locais. Procura gerir os recursos naturais para atingir um desenvolvimento sustentável. Trabalhei em conjunto com esta organização ilustrando as espécies endémicas deste país único e realizando ações de divulgação nas escolas, porque as futuras gerações são a chave para atingir estes objetivos. Conheça melhor a Burung Indonesia em www.burung.org.

Papagaio Loriculus pusillus (ilustração)

em montanhas entre os 1000 m e os 3000 m de altitude. Os rápidos de água cristalina que têm origem nas cascatas são os domínios de duas tímidas espécies: Enicurus velatus e Enicurus leschenaulti, sendo a última mais comum. Somos ainda observados pelo olhar curioso de um tordo Myophonus glaucinus, de deslumbrante coloração azul indigo. Antes de reiniciarmos o percurso, procuramos a origem dos sons secos e penetrantes que provêm do topo das árvores. São os barbudos Megalaima sp. que se fazem ouvir alto e bom som. Deixamos para trás as cascatas e continuamos montanha acima, alcançando Air Panas, nascentes de água quente situadas a 2150 m de altitude (Air = Água/Panas = Quente). A temperatura da água chega a atingir 75ºC e obriga-nos a percorrer o trilho

de pedras escorregadias com especial cuidado. Como se não bastasse o facto de estarmos num local mágico e de aparência pré-histórica, a possibilidade de observarmos a cochoa Cochoa azurea e o trogon Apalharpactes reinwardtii tornam a experiência ainda mais alucinante!

O topo do vulcão

Podemos classificar esta subida ao topo do Gede de agonizante. Após os 9,7 km de trilho íngreme percorridos, as pernas começam a perder as forças. Apenas a vontade de continuar e o reboliço de seres alados nos trouxe até aqui. Valeu a pena! Estamos agora a 2958 m de altitude e a vista é de cortar a respiração. Três crateras semi-ativas soltam gases ricos em enxofre. A paisagem que as rodeia é árida e completamente diferente da

floresta luxuriante que deixamos para trás. Ainda assim, a vida encontrou também aqui o seu lugar. Manchas verdes de fetos e rododendros são algumas das espécies florísticas que compõem a vegetação. Neste fascinante lugar, pequenos grupos de tordos Turdus poliocephalus procuram alimento destemidamente e, amiúde, ouve-se um galo-vermelho Gallus gallus. Entretanto, os meus olhos são atraídos por uma bala que cai do céu: um falcão-peregrino Falco peregrinus ernesti por pouco falha um andorinhão Aerodramus vulcanorum, outra espécie endémica cuja distribuição se restringe aos picos montanhosos ocidentais de Java. O dia não podia acabar melhor. E agora, é a sua vez de fazer as malas e vir conhecer a ilha em que as aves sobrevivem por entre a multidão. Autor: Paulo Alves

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D. Carlos de Bragança Rei e amigo do Conhecimento A imagem que, muitas vezes, é exibida de D. Carlos I é restrita ao espetro político do seu tempo. Porém, a ação do penúltimo rei da monarquia portuguesa destacou-se noutras áreas. A Ornitologia foi uma delas.

profunda agitação, D. Carlos I esforçou-se, de forma empenhada, consciente e atenta, por dar uma resposta a todas as situações, procurando defender a monarquia e uma linha de ação constitucionalmente enquadrada. Porém, o papel deste rei na vida portuguesa não se resumiu a estas realidades. É o que recordaremos neste artigo, sobre a sua ação no campo da ornitologia.

Admirador da natureza

Na esteira do seu avô, D. Fernando II, do seu tio, D. Pedro V e do seu pai, D. Luís I – todos eles admiradores intensos

da natureza, dos animais, das plantas, dos sons, dos aromas, das cores e dos movimentos que animam o mundo natural – D. Carlos I revelou-se um homem multifacetado. Entre os seus interesses e paixões destacaram-se, entre outras, as paisagens campestres, a caça, a arqueologia, a pintura, a fotografia, o desporto, o mar, as aves e, sobretudo, uma sede de conhecimento, que procurou alimentar tenazmente, revelando sempre uma notável humildade. A sua sensibilidade em relação à paisagem ficou bem patente, por exemplo, nas pinturas em que registou vagas e rochedos marítimos, ou no

Pescadores de Cascais agradecendo a D. Carlos (ao centro) a doação de salva-vidas, 1906

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Arquivo Histórico Municipal de Cascais

O

reinado de D. Carlos I constituiu um dos períodos mais intensos e conturbados da vida portuguesa na viragem do século XIX para o XX. Entre 1889 e 1908, Portugal atravessou crises financeiras, sofreu a ameaça de grandes potências europeias sobre os territórios ultramarinos, viu períodos de agitação e instabilidade social, levou a cabo campanhas militares em África e conheceu períodos de ditadura e de forte contestação política contra a monarquia constitucional, culminando no assassinato do próprio monarca e do herdeiro do Trono, D. Luís Filipe, em Lisboa, no dia 1 de fevereiro de 1908. No meio de toda essa ambiência de


Roque Gameiro, 1902 Arquivo Histórico Municipal de Cascais

Pintura do Rei D. Carlos I

seu intenso e conhecido Sobreiro, cheio da força, emotividade e beleza características da ruralidade alentejana. O seu amor pelo mar, levou-o a percorrer, por diversas vezes, a costa portuguesa, entre Cascais, Sesimbra, Sagres, Lagos e outros trechos da costa algarvia, notabilizando-se pelos estudos nos domínios da oceanografia e da atividade piscatória. Facto que o próprio nome do Museu do Mar Rei D. Carlos, em Cascais, não deixa esquecer, e onde se pode visitar uma exposição dedicada ao tema D. Carlos e a Ciência Oceanográfica.

Primeiro fascículo do Catálogo Ilustrado das Aves de Portugal e capa de uma das edições

Um estudioso das aves de Portugal

D. Carlos I merece ser aqui recordado pelo elevado interesse que demonstrou no estudo das várias espécies de aves existentes no nosso país. Sabemos que durante as suas atividades de caça, Carlos de Bragança, demonstrou elevado entusiasmo no colecionismo e no registo das aves com que foi tomando contacto, revelando uma agudeza científica assinalável. A sua grande curiosidade e motivação fizeram com que fosse aliando os seus conhecimentos

ornitológicos a observações práticas, gerando cuidadosos registos das espécies, recorrendo a vários idiomas e destacando os locais em que as mesmas podiam ser observadas. Neste seu gosto específico e na sua perseguição pelo seu conhecimento, D. Carlos foi encorajado e elogiado por importantes nomes da Ciência do seu tempo (como José Vicente Barbosa du Bocage, Manuel Paulino de Oliveira, ou o belga Albert Girard) e, também, das Artes (como aconteceu no caso do seu grande colaborador, o pintor espanhol Enrique Casanova). Um dos estudiosos mais apurados da

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podemos deixar de ficar surpreendidos pela rigorosa beleza de aves retratadas, como várias tipologias de chapins, alvéolas, andorinhas, petinhas, e pardais, entre outras. O pintor, seguramente com o apoio do rei, retratou, também, as aves no seu enquadramento. Assim, todas as espécies surgem, em primeiro plano, num cenário próprio que vai da frescura dos campos verdejantes, aos ramos das árvores, às casas rurais, aos trechos da costa marítima, às serenas lagoas e margens de rios tranquilos, às torres de igrejas, às muralhas de fortificações ou aos telhados de casas. O rigor das representações é perfeitamente visível na elegância do seu desenho, na riqueza cromática das plumagens ou num olhar brilhante e expressivo que nos convida a ter vontade de conhecer as espécies pessoalmente, como aconteceu com o caso do autor deste texto. Aqui fica uma singela homenagem a um homem que ultrapassou a sua condição de monarca e que soube, como poucos, conhecer e apreciar a natureza e a sua extraordinária diversidade, recordando o seu papel no domínio do estudo das aves. Autor: Artur Vieira de Jesus (Licenciado em História e Técnico Superior na Câmara Municipal de Vila do Bispo)

Estátua do Rei D. Carlos I, em Cascais

Dinis Cortes

Dinis Cortes

Algumas das espécies catalogadas pelo Rei D. Carlos

Trepa-fragas

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Papa-figos

Paulo Anastácio

Luís Valadares

vida do rei, Rocha Martins (autor do livro D. Carlos – História do seu Reinado, 1926) não deixou de registar Mafra, Vila Viçosa, ou Queluz, como locais de recolha de espécies de aves e de informações a elas referentes, tais como os meses do ano em que chegavam e partiam e outros aspetos das suas atitudes comportamentais. No caso, por exemplo, do tordo-comum, o rei registou, com grande sensibilidade, que durante os meses de dezembro e de janeiro, estas aves formavam grandes bandos nos olivais alentejanos. A dedicação de D. Carlos I pelas espécies ornitológicas portuguesas e o rigor da execução artística do seu colaborador Enrique Casanova, a quem confiou o seu registo visual, deram origem ao famoso Catálogo Ilustrado das Aves de Portugal (publicado entre 1903 e 1907) que materializou todo o trabalho que desenvolveu, com mais de duas centenas de textos informativos e cerca de trezentas aguarelas. D. Carlos I tornou-se, por isso, um nome incontornável nesta matéria até aos nossos dias. Enrique Casanova executou trabalhos verdadeiramente primorosos, sempre apoiado pelos conhecimentos e pela experiência de campo do próprio rei. Quando desfolhamos, por exemplo, o suplemento do Catálogo, publicado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, não


Luís Valadares

Paulo Anastácio

Life Ilhéus do Porto Santo Contributos para a conservação

Vista do Porto Santo desde o ilhéu de Cima

O Life Ilhéus do Porto Santo decorreu entre setembro de 2010 e dezembro de 2015, na Rede de Áreas Marinhas Protegidas do Porto Santo. Este projeto marcou um ponto de viragem na conservação de seis magníficos ilhéus circundantes a esta ilha do arquipélago da Madeira.

R

esultado da parceria entre a SPEA e o Serviço do Parque Natural da Madeira, o projeto Life Ilhéus do Porto Santo (LIPS) procurou travar a perda de biodiversidade através de diversas ações de conservação e recuperação do habitat em seis ilhéus – ilhéu de Cima ou do Farol, ilhéu de Baixo ou da Cal, ilhéu de Ferro, ilhéu da Fonte de Areia, ilhéu de Fora e ilhéu das Cenouras. A falta de informação e o desconhecimento a nível ecológico sobre estes ilhéus fizeram com que este projeto tenha constituído um

grande marco na conservação destes pequenos redutos de biodiversidade. Ao longo da história do Porto Santo, a utilização destes ilhéus pelo ser humano fez com que estas áreas se tivessem tornado sucessivamente degradadas e vulneráveis. O aumento dos fatores de ameaça (diretos e indiretos) implicou uma acentuada e rápida degradação, prevendo-se a eminente perda da biodiversidade, como resultado da introdução de roedores e plantas com caráter invasor, o uso humano desregrado, a falta de conhecimento e de consciência ecológica, e o impacto de

infraestruturas urbanas. Assim sendo, em 2010, criaram-se as primeiras bases para a recuperação destes habitats através de um projeto transversal, que pretendia gerar as condições favoráveis para a futura sustentabilidade dos ilhéus e a respetiva área marinha circundante. Para o projeto, e tendo em conta os seus estatutos de conservação menos favoráveis, foram selecionadas 14 espécies pertencentes aos grupos dos moluscos, plantas e aves marinhas. A cagarra, o pintainho, o roque-de-castro, a alma-negra e o garajau-rosado, espécies nidificantes nestes ilhéus, foram alvo de

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Filipe Alves

SPEA

ENTREVISTA Filipe Alves, gestor geral do projeto Resumidamente, consegues dizer-nos em duas frases em que consistiu este projeto? O projeto consistiu em travar a perda da Biodiversidade Europeia através da recuperação de habitats e espécies dos Ilhéus do Porto Santo (incluídos na Rede Natura 2000 como Sítio de Importância Comunitária) e área marinha envolvente. Decorreu entre setembro de 2010 e dezembro de 2015, e foi desenvolvido pelo Serviço do Parque Natural da Madeira (SPNM) – Secretaria Regional do Ambiente e dos Recursos Naturais, em parceria com a SPEA, e foi cofinanciado pelo programa Life+ Natureza da União Europeia. Qual o grande marco do projeto? Terei de mencionar três: 1º) a erradicação de espécies com caráter invasor dos Ilhéus do Porto Santo, i2º) a divulgação dos ilhéus junto da população, e 3º) o aumento do conhecimento da biologia/ecologia de espécies prioritárias que habitam os ilhéus. Como é trabalhar nos ilhéus do Porto Santo? É mágico! Duro por um lado, devido à exposição aos elementos naturais, mas inesquecível por outro; o que torna o regresso ao escritório bastante difícil!

Censos de mar

diversas ações ao longo do projeto. As aves marinhas, um dos grupos animais mais ameaçados em todo o mundo, acabam por ser duplamente afetadas. Como resultado da sua estratégia de vida no meio marinho, enfrentam perigos relacionados com a captura acidental na pesca (bycatch), a poluição ou a falta de alimento. Mas, quando regressam a terra para a reprodução, deparam-se com outros

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fatores que contribuem para o declínio das suas populações. Neste campo, o controlo e erradicação de algumas espécies invasoras foram o ponto chave para o início da recuperação da biodiversidade destes ilhéus (sendo também parte da solução para a conservação das aves marinhas), e procurou-se também minimizar o impacto da luz artificial sobre as populações de aves marinhas.

Menos iluminação, mais aves

A poluição luminosa constitui uma ameaça para as aves marinhas, especialmente no caso dos juvenis que, durante os seus primeiros voos dos locais em terra onde nascem até ao mar, são atraídos pela luz artificial, acabando desorientados e enfrentando grandes dificuldades em chegar ao


Paulo Anastácio

Quais foram as principais dificuldades enfrentadas num projeto desta dimensão? A imprevisibilidade das condições meteorológicas que dificultam o acesso aos ilhéus, e a logística de gerir as muitas equipas que colaboraram no projeto. Que impacto teve este projeto para a população local? Esse foi sempre um dos grandes objetivos. E, sem dúvida, foi atingido com sucesso: os ilhéus passaram a fazer parte do roteiro dos residentes e visitantes. O que acabou por ser mais desafiante neste projeto? Do ponto de vista da coordenação do projeto, foi tentar garantir a boa execução de todas as ações dentro do período previsto! Quantas pessoas estiveram envolvidas nas ações? Perto de 50 pessoas diretamente ligadas ao projeto, mais quase duas dezenas de colaboradores.

E o que continua, já a partir de 2016? Todo o trabalho de controlo de espécies com caráter invasor, as visitas interpretativas ao ilhéu de Cima, a introdução de vegetação indígena, a Comissão Consultiva do projeto e todas as medidas propostas nos Planos de Ação para as espécies alvo do projeto.

mar. Através da criação de um grupo de trabalho para a elaboração de um plano de minimização dos efeitos negativos da iluminação urbana sobre as aves marinhas, da realização de campanhas de sensibilização e de dois fóruns sobre o tema (que resultaram, efetivamente, numa redução da poluição luminosa no Porto Santo), foram dados importantes passos para a minimização de uma mais graves ameaças enfrentadas por estas aves.

SPEA

E quanto aos resultados pretendidos, sentes que foram alcançados? O projeto terminou em dezembro de 2015, e sim, os resultados foram atingidos.

Farol do Ilhéu de Cima

Colocação de GPS em cagarra

Durante estes cinco anos, a população do Porto Santo tem sido incansável na implementação de um programa de recolha de aves marinhas encandeadas, com o envolvimento da comunidade local. A parceria com a Câmara Municipal do Porto Santo e a Empresa de Eletricidade da Madeira já permitiu a implementação de medidas corretivas na iluminação pública estimando-se a poupança de cerca de 40 000 euros anuais na fatura elétrica do município.

Menos invasoras, mais aves

A erradicação de roedores introduzidos, em particular de coelhos do ilhéu de Cima e de murganhos do Ilhéu de Baixo, aliada à remoção de plantas introduzidas com caráter invasor e controlo dos efetivos populacionais da gaivota-de-patas-amarelas melhoraram as condições naturais dos diversos ilhéus. Mas o trabalho não ficou por

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SNPM SPEA

Censos de garajau-rosado desde terra

aqui – muitas horas foram passadas no mar, em embarcações, na tentativa de identificar áreas importantes para as aves marinhas e outras tantas noites foram passadas nos ilhéus, a monitorizar o êxito reprodutor das diferentes espécies de aves marinhas nidificantes. Os resultados são animadores, e embora existam flutuações normais à produtividade das colónias, o sucesso reprodutor das espécies aparenta estar a aumentar, constituindo um importante indicador do sucesso das medidas implementadas numa perspetiva mais integrada e global. Mapas com informação detalhada sobre a distribuição das cinco espécies, com registo dos seus movimentos e fenologia foram elaborados, e o seguimento feito através de Global Location Sensing loggers em pintainhos, e GPS-loggers em cagarras, permitiu tecer importantes comparações com outras colónias conhecidas destas espécies. Coordenação Projeto

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Mais informação, um melhor futuro

O primeiro passo foi dado, estamos confiantes e orgulhosos do trabalho realizado neste projeto. Mas não ficaremos por aqui… teremos de continuar a assumir o compromisso de conservar estes ilhéus – habitats de um sem fim de espécies endémicas, permitindo o usufruto desta riqueza pelas gerações futuras. Para finalizar, agradecemos a todos os que colaboraram neste projeto e apoiaram a realização de trabalhos importantíssimos para a conservação da natureza. Autoras: Cátia Gouveia & Laura Castelló (SPEA) www.lifeportosanto.com

Cofinanciamento Cofinanciamento

Parceiros Parceiros

Coordenação

Cofinanciamen


SNPM

Cedido por PALP

Exploração de petróleo Desenvolvimento ou empobrecimento?

Trrimmmmmm...e toca o despertador, acordámos! Tentaram ensurdecê-lo, é um facto, mas com a ponta do véu levantada destapa-se a voz da discórdia. Será que a aclamada aposta no crescimento azul é, afinal, uma aposta no azul petróleo? limpas e renováveis - Portugal teima em investir numa indústria verdadeiramente «insustentável». A informação não é transparente mas sabe-se que as operações de prospeção e pesquisa já tiveram início. Parte da área concessionada inclui áreas protegidas - com estatuto de conservação a nível nacional e europeu – mas não são conhecidos quaisquer estudos de impacto ambiental para a fase de prospeção, uma vez que a fraca legislação nacional a tal não o obriga.

Ouro negro ou ouro azul?

Recordemos o artigo pulicado na Pardela n.º 50 sobre a economia do mar e serviços dos ecossistemas marinhos. Pensando na região do Algarve, rapidamente identificamos uma série

Cedido por PALP

O

interesse em explorar recursos petrolíferos em Portugal tem já várias décadas, mas tem sido ao longo dos últimos anos que se tem intensificado. Desde 2011, foram celebrados vários contratos de concessão de direitos de prospeção, pesquisa, desenvolvimento e produção de hidrocarbonetos entre o Governo Português e diferentes empresas do setor. Estes incluem a prospeção de petróleo e gás em áreas terrestres nas regiões da Estremadura, Beira Litoral e Algarve, e em áreas marinhas offshore ao longo de toda a costa continental portuguesa (ver mapa). Num momento em que, por todo o globo, nos tentamos libertar de um passado de dependência dos combustíveis fósseis - que nos permita dar resposta às políticas climáticas e dar prioridade ao investimento em energias

Áreas e empresas com licença/concessão

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de bens e serviços fornecidos pelo meio marinho, nos quais assenta o principal pilar da economia da região: o turismo. Além da representatividade do setor ao nível do emprego na região, tem ainda um peso bastante significativo ao nível do PIB nacional. Além dos benefícios diretos e indiretos das atividades económicas relacionadas com este segmento conta-se ainda a sua relevância enquanto identidade da região e das suas gentes. A sustentação das várias atividades económicas é a boa qualidade ambiental e a manutenção dos valores ambientais e de biodiversidade presentes a longo prazo. Neste contexto, e com impactes ambientais que apresentam um enorme risco, tanto para o setor do turismo como das pescas, não é de todo compatível a exploração de hidrocarbonetos e a manutenção de um turismo de natureza de qualidade. Uma aposta nessa atividade representa uma alteração na quantidade e diversidade de bens e serviços prestados pelo ecossistema marinho, que tem benefícios para um conjunto alargado de agentes económicos, para um futuro num mar morto que fornece um recurso não vivo, beneficiando um agente económico singular (i.e. a empresa concessionária) (ver diagrama). Os impactes socioeconómicos serão dessa forma desastrosos. Não nos deveríamos especializar e valorizar aquilo que temos de melhor e que tem alicerçado a nossa economia e subsistido as nossas populações? Entre o conjunto de recursos disponibilizados pela PALP, encontramos uma síntese dos contratos de concessão já celebrados. A análise destes documentos mostra-nos o quão redutor são para a economia regional, com os dividendos da produção a serem na totalidade da concessionária, havendo apenas um pequena fração de obrigações para com o governo central (Direção Geral de Energia e Geologia e/ ou Entidade Nacional para o Mercado de Combustíveis).

partes interessadas. Para isso, a PALP entregou na Assembleia da República, no passado mês de novembro, uma petição assinada por mais de 7000 pessoas que pretende promover a discussão sobre os contratos celebrados entre o Estado Português e as empresas exploradoras. Mas o caminho a percorrer é ainda longo. Neste momento, a PALP procura debater o tema com os vários grupos parlamentares e órgãos de poder local. Mas o objetivo fundamental será promover e assegurar o esclarecimento dos cidadãos em relação a estas matérias e garantir que, tanto no presente como no futuro, a concessão de contratos de exploração de recursos fósseis seja um processo transparente e onde todos possam ter uma palavra a dizer. Autoras: Rita Catarina Gomes & Ana Almeida (SPEA)

Plataforma Algarve Livre de Petróleo A mediatização deste tema iniciou-se em março de 2015, quando um conjunto de cidadãos, entidades locais e associações não-governamentais – das quais faz parte a SPEA - se juntaram para expressar a sua preocupação formando a Plataforma Algarve Livre de Petróleo – PALP.

www.palp.pt

O Não ao petróleo no Algarve

Do ponto de vista ambiental, tanto a prospeção como a exploração de hidrocarbonetos acarretam inúmeros riscos, de extensão desconhecida, entre os quais: • Perturbação causada à fauna marinha pelas ondas sonoras de alta intensidade utilizadas nas campanhas sísmicas (durante a fase de prospeção); • Contaminação de aquíferos; • Contaminação dos solos e de águas superficiais causada pelo derrame de águas residuais contendo substâncias tóxicas e nocivas para o ambiente; • Poluição sonora durante as atividades de perfuração; • Poluição atmosférica (emissão de compostos orgânicos voláteis); • Impacte paisagístico; • Potenciais impactos para as espécies autóctones, principalmente ao nível da fragmentação de habitat, perturbação e da introdução de espécies não-nativas. • E, obviamente, existe SEMPRE o risco de ocorrência de acidentes graves, cujas repercussões ambientais poderão ser muito significativas e irreparáveis. PRESENTE

FUTURO?

Uma batalha de todos

É urgente trazer a questão da exploração de petróleo no Algarve para o domínio público, envolvendo todas as

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Principais atividades económicas atualmente suportadas pelo ecossistema marinho algarvio – com a representação dos agentes económicos beneficiados - versus um futuro no qual ocorre exploração de hidrocarbonetos.


Nuno Barros

PortugalAves/eBird birdwatching 2.0

Visita pelágica ao Arquipélago das Berlengas (prémio para observadores no Top 15)

Já pensou que destino dar aos registos do seu caderno de campo? Ou onde poderá encontrar melros-d’água em Portugal ou saber onde estão os andorinhões em dezembro? Nada mais simples! Agora, tudo isto (e muito mais!) está à distância de um clique. Bem-vindo ao PortugalAves/eBird, a plataforma que tem vindo a revolucionar a forma como registamos e partilhamos as nossas observações de aves!

C

riado em 2002 pelo Cornell Lab of Ornithology e a National Audubon Society (parceiro BirdLife nos EUA), o eBird é uma gigantesca base de dados online que recolhe observações de aves de todo o mundo de um modo extremamente simples, divertido e gratuito. Em Portugal, o eBird toma forma de PortugalAves/eBird, fruto de uma parceria estabelecida entre a SPEA e o eBird desde o ano passado.

Registar e pesquisar

O princípio subjacente ao eBird é que qualquer pessoa pode contribuir e todas as observações contam. Então, como podemos contribuir? Nada mais simples: após uma observação de aves, basta aceder ao portal do PortugalAves/ eBird (www.ebird.org/content/portugal) e submeter uma nova lista onde se indica a data e o local onde foram feitas

as observações e qual ou quais a(s) espécie(s) observada(s). A plataforma atualiza automaticamente as suas listas, sejam elas globais ou regionais, do concelho de Mora ou de todo um continente. Com base nas suas listas o eBird pode ainda informá-lo sobre espécies que ainda não observou numa região e alertá-lo para a ocorrência de raridades. Desde o final de 2015, é também possível adicionar registos

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Prémios para os observadores no Top 15

Faísca

A SPEA vai premiar os 15 observadores que submeteram mais listas no PortugalAves/eBird em 2015 com uma saída pelágica nas Berlengas, que se realizará em setembro de 2016. O Top 15 será contactado diretamente. Insira as suas observações no PortugalAves/eBird e seja um dos contemplados no próximo ano! Saiba tudo na página 5.

Charneco Cyanopica cooki

fotográficos, de vídeo e áudio às suas listas, enriquecendo a informação disponível para toda a comunidade de utilizadores. No seu conjunto, estes dados dão-nos um melhor conhecimento da distribuição geográfica, do calendário de ocorrência, e dos efetivos populacionais das diferentes espécies de aves, tanto em Portugal como em qualquer outra parte do mundo. Por exemplo, experimente procurar a distribuição do charneco nos

30 • pardela n.º 52

mapas de distribuição global ou ver nos gráficos de barras qual a altura do ano em que a sombria é mais frequente numa dada região. Ou ainda perceber que locais acolhem o maior número de espécies em cada região através do explorador de hotspots do eBird. O potencial do eBird é inesgotável e tem sido posto a bom uso - desde a criação de mapas de distribuição dinâmicos para diferentes espécies, à utilização dos seus dados para a

elaboração de relatórios como o State of the Birds dos Estados Unidos da América e à aplicação direta da informação em projetos como o BirdReturns no vale central da Califórnia onde, através do mapeamento das diferentes espécies de aves limícolas, foi possível desenvolver um projeto de colaboração com produtores de arroz para alugar terrenos e mantê-los com o nível de água adequado nos períodos críticos de passagem e invernada.

eBird

eBird

Mapa de distribuição do charneco


eBird

eBird

Mapa de hotspots do concelho de Sesimbra

Entrevista ao eBirder português do ano: Alexandre Leitão Alexandre Leitão

Qual a sensação de ser o observador que inseriu mais listas de espécies de aves no PortugalAves/eBird em 2015? É interessante ver que a lista construída durante o ano foi a mais vasta, para quem tem gosto nisso como eu tenho. Mas tudo depende do conjunto de observadores que se interessa por desenvolver a sua lista. Quanto melhores eles forem, mais interessante é a competição. Qual a ave que o surpreendeu mais observar e porquê? A felosa-calçada Iduna caligata, observada perto de Sagres. Por ter sido a primeira vez que foi observada em Portugal, e por tê-la visto com um conjunto de camaradas e amigos de altíssimo gabarito.

Há algum objetivo para 2016? Ui, tantos. Desde ultrapassar o meu máximo pessoal de espécies observadas num ano, a registar mais de 150 espécies num dia, a estrear-me em mais 10 espécies, e há um conjunto enorme de espécies para ver… Costuma usar o PortugalAves/eBird para inserir os seus dados? Acha que é uma mais-valia? Usar o PortugalAves/eBird sempre. Colocar os registos no eBird é uma incrível mais-valia para qualquer observador. Tanto do ponto de vista de quem tem gosto em desenvolver as suas listas de espécies observadas (do quintal para o mundo), mas também para quem gosta de contribuir para o estudo das aves: o manancial de informação existente no PortugalAves/ eBird, para Portugal, é já incrível, e com tendência para aumentar.

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O eBird em números • Data de nascimento: 2002 • Número de espécies com, pelo menos, uma observação no eBird: 10 219 espécies de um total mundial de 10 473 (Clements et al. 2015) • Número total de listas: 21 320 804 • Data da lista mais antiga: 1810 (http://ebird.org/ ebird/view/checklist?subID=S8541739) • Número de espécies e listas no eBird por continente: África - 2209 especies / 206 435 listas; Antárctida: 66 especies / 3433 listas; Austrália - 891 espécies / 458 614 listas; América do Norte - 2083 espécies / 19 250 070 listas; América Central - 1191 espécies / 234 042 listas; América do Sul - 3304 espécies / 328 399 listas; Ásia - 3009 espécies / 365 688 listas; Europa - 766 espécies / 508 146 listas.

Número total de listas no PortugalAves/eBird

PortugalAves/eBird • Total: 480 espécies / 70 711 listas; ano de 2016 - 252 espécies / 3227 listas • Número de utilizadores: 199 • Data da lista mais antiga: 1957 (http://ebird.org/ ebird/view/checklist?subID=S18818672)

33518

35 000

19280

8199 3930

3437

1207 0

2011

2012

2013

2014

Todas as observações contam

Quer a finalidade seja lúdica ou conservacionista, o eBird é uma ferramenta de enorme potencial, movido pelo entusiasmo dos seus participantes que inserem lista após lista - um verdadeiro projeto de ciência cidadã (citizen science) que já deu origem a mais 150 artigos em revistas científicas e/ ou de divulgação. Conta também com equipas de dedicados editores regionais voluntários para assegurar a qualidade

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2015

Jan 2016

Fonte: Clements J.F., Schulenberg T.S., Iliff M.J., Roberson D., Fredericks T.A., Sullivan B.L., Wood C.L. 2015. The eBird/Clements checklist of birds of the world: v2015. Descarregado de http://www.birds.cornell.edu/ clementschecklist/download/

dos dados disponíveis para todos, revendo registos e mantendo a rede online de locais públicos Só em 2015, cerca de 200 observadores contribuíram com mais de 33 000 listas de Portugal referentes a 401 espécies no eBird, números impressionantes e que esperamos que continuem a crescer, tornando a informação disponível ainda mais robusta, útil e interessante para todos! Se já utilizou o PortugalAves/eBird (ou outro portal do eBird), um grande obrigado! Se ainda não experimentou - experimente, e contribua com as suas

observações, sejam elas pessoais ou parte de projectos da SPEA como o atlas das Aves nidificantes ou o censo de Aves comuns. Registo a registo se constrói o PortugalAves/eBird - e todos os registos contam! Autores: Pedro Fernandes (pedrofernandesillustration.com) & Pedro Cardia (Escola Superior de Educação, Instituto Politécnico do Porto, ESE.IPP)

www.ebird.org/content/portugal


Luís Venâncio

A ciência das aves O que sabemos sobre as populações de sisão em Portugal? Coordenado por Teresa Catry e Maria Dias Sisão macho exibindo comportamento reprodutor

O

Beatriz Estanque

sisão Tetrax tetrax é uma ave de médio porte adaptada aos meios abertos dominados por vegetação herbácea. Ao nível global, é uma espécie classificada como quase ameaçada, sendo considerada Vulnerável na Europa e na Península Ibérica. A Península Ibérica destaca-se por albergar as populações de sisão mais importantes da Europa Ocidental. Em Portugal, ocorre quase exclusivamente no Alentejo, dependendo dos sistemas cerealíferos e de pastagens extensivas. No âmbito de um projeto Life coordenado pela SPEA, em parceria com o Instituto da Conservação da Natureza e a Associação de Agricultores do concelho de Mourão, entre 2003 e 2006 (ver life-sisao.spea.pt), a população reprodutora foi estimada em cerca de 17 500 machos reprodutores. Foram também registadas as maiores densidades reprodutoras conhecidas para a espécie, sendo estas um bom indicador da qualidade do habitat. Por ser considerada uma espécie prioritária em termos de conservação, numerosas áreas relevantes para a espécie receberam estatuto de proteção. Visando reunir informação para a sua conservação, vários estudos têm sido desenvolvidos, sendo apresentados os principais na página web dedicada a esta rubrica da Pardela: sites.google.com/site/acienciadasaves

O curioso sistema reprodutor do sisão

Os machos de sisão formam áreas de exibição denominados «leques» ou «arenas» onde executam vistosas paradas nupciais com o intuito de atrair as fêmeas e de afastar os restantes machos. As fêmeas visitam estas áreas para se reproduzirem, ficando com a responsabilidade exclusiva dos cuidados parentais. Neste momento, através do seguimento de sisões com dispositivos GPS, debruçamo-nos sobre as interações entre machos neste sistema de “leque”. De acordo com resultados preliminares, os machos territoriais defendem áreas de pequenas dimensões, enquanto os machos satélite

Habitat estepário

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Luís Venâncio

João Paulo Silva

Ameaças: linhas elétricas

sobrepõem a sua atividade aos territórios de vários machos territoriais. Tudo indica que estes machos territoriais são «hotshots», que atraem tanto fêmeas como machos satélites, sendo que estes últimos procuram tirar partido da capacidade dos primeiros de atrair fêmeas.

Áreas de alta densidade reprodutora

Em Portugal têm sido registadas densidades reprodutoras excecionais (até 9 machos por km2, à escala regional). Descobriu-se que estas estão associadas a vastas extensões de pousios ou pastagens que apresentam uma estrutura de vegetação intermédia e heterogénea. Estas características de habitat são encontradas principalmente no Alentejo e na Extremadura espanhola. Estes pousios ou pastagens com estrutura de vegetação heterogénea favorecem não só os machos, que requerem uma vegetação mais baixa para fazer as suas paradas, como também as fêmeas, que necessitam de uma vegetação mais alta para nidificarem. Estes habitats, quando são de longa duração favorecem também a manutenção de «leques», pois os sisões tendem a ser fiéis aos locais de parada.

De sedentários a migradores

Em contraste com as populações mais setentrionais, na Península Ibérica o sisão é tradicionalmente considerado

34 • pardela n.º 52

Sisão macho

uma espécie predominantemente sedentária. Com os avanços recentes na tecnologia de seguimento de fauna, agora sabemos que chegam a percorrer centenas de quilómetros durante movimentos pós-reprodutores. A maioria dos machos afasta-se das suas áreas reprodutoras no pico do verão (entre julho e setembro) retornando aos locais de reprodução no outono ou inverno seguinte. Este comportamento migratório explica-se, parcialmente, pela deterioração do habitat nas principais zonas de reprodução (como Castro Verde). Em Portugal, as lezírias do estuário do Tejo, as planícies alentejanas nas áreas envolventes de Beja e Évora e a Costa Vicentina serão as principais áreas de pós-reprodução, proporcionando extensas áreas com disponibilidade de alimento (plantas verdes), onde as aves se podem alimentar e recuperar a sua condição. Apesar de representar um período curtíssimo do ciclo anual dos sisões, a migração é uma fase crucial para estas aves e poderá representar um período de maior vulnerabilidade.

Problemática de conservação

Perda ou degradação do habitat – O habitat de reprodução do sisão depende essencialmente de práticas agrícolas ou pastorícias extensivas que têm deixado de ser rentáveis. Como consequência, nos solos agrícolas mais produtivos verifica-se uma clara tendência para a intensificação, com o consequente abandono do uso de pousios. Para a intensificação tem


“Surpreendentemente, cerca de 16% da mortalidade registada anualmente deveu-se à colisão com linhas aéreas de distribuição e transporte de energia (cerca de 4,3%) e à caça furtiva (11,7%).” João Paulo Silva é investigador da Cátedra da REN para a Biodiversidade, do Centro de Ecologia Aplicada “Prof Baeta Neves”/InBIO e do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais. Tem centrado parte significativa da sua investigação na ecologia e conservação de aves estepárias, usando o sisão como espécie modelo. Hany Alonso é bolseiro de pós-doutoramento do CIBIO/InBIO, Universidade de Évora e Cátedra da REN para a Biodiversidade, tendo trabalhado sobretudo na ecologia e comportamento de aves marinhas e, mais recentemente, na ecologia do movimento de aves estepárias.

contribuído o aumento da área de regadio, principalmente com a instalação dos perímetros de rega associados à barragem do Alqueva, e à plantação de vastas áreas com culturas permanentes, como o olival e a vinha, que representam uma perda total de habitat para as aves estepárias. Em solos menos produtivos, temos constatado uma conversão muito expressiva de áreas agrícolas em pastagens permanentes intensivas, principalmente no centro e norte alentejano, com um aumento significativo do efetivo bovino e de culturas forrageiras. Também nos solos mais pobres se regista algum abandono agrícola. As medidas agroambientais representam uma oportunidade para promover o habitat do sisão e de outras espécies estepárias. Deverá ser dada prioridade à promoção de uma gestão cuidada dos pousios/pastagens e à prevenção dos impactos decorrentes do corte de fenos. Mortalidade não natural – A partir de um trabalho conjunto de todas as equipas de investigação que estudam o sisão na Península Ibérica, foi possível analisar com rigor a sua sobrevivência, usando 139 indivíduos que foram seguidos por telemetria por um longo período de tempo. Surpreendentemente, cerca de 16% da mortalidade registada anualmente deveu-se à colisão com linhas aéreas de distribuição e transporte de energia (cerca de 4,3%) e à caça furtiva (11,7%). Este nível de mortalidade não será

sustentável, principalmente em áreas com baixa produtividade. Foi elaborada uma cartografia de risco de colisão com linhas de distribuição de energia tendo em vista a identificação das linhas mais problemáticas e a adoção de medidas preventivas nas áreas de maior suscetibilidade de colisão. Como irão os sisões responder às alterações climáticas? – As alterações climáticas na região do Alentejo vão refletir-se no aumento da temperatura e diminuição da precipitação, assim como na maior ocorrência de eventos de seca. Prevê-se que a janela temporal em que o habitat adequado à reprodução está disponível possa sofrer uma redução, principalmente em locais onde o solo é menos produtivo. A nível comportamental, sabemos agora que os sisões tendem a inibir a sua atividade em resposta ao stress causado pelo calor e suspeitamos que estas alterações possam reduzir a sua condição física e, consequentemente, afetar a sua sobrevivência. Há claramente áreas mais resilientes à seca que outras, pelo que é fundamental manter o estado de conservação favorável da rede de áreas que contêm as populações mais importantes para a espécie, visando uma estratégia de conservação de longo prazo. Autores: João Paulo Silva & Hany Alonso

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Pombo-correio

Silva Seca

Pombo-correio, o espaço do leitor Relatos de encontros com a Natureza, experiências de vida associativa e/ou voluntariado, sugestões ou as suas perguntas (e as nossas respostas) - partilhe-os com a Pardela! Escreva-nos para vanessa.oliveira@spea.pt

Dancing Birds

Por Silva Seca Nesta edição, o testemunho é desenhado e da autoria do nosso leitor Silva Seca, avô da «veterana» Amélia de 5 anos, que já nos enviou dois contributos para a secção Juvenis. Partilhamos aqui os seus inspirados Dancing Birds e desafiamo-lo também a dar asas à sua imaginação!

Ser sócio da SPEA é dar voz à natureza! Junte-se a nós e receba o kit novo sócio www.spea.pt

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1 Por Sílvia Nunes

E a diversão continua na página do Facebook do Clube dos Juvenis SPEA. Participa e diverte-te em família em www.facebook.com/ ClubeJuvenisSPEA.

S A T U R G M R M Ç M R Ç I Ç

I R L O I P T B O C A A L L E

I R L O I P T B O C A A L L E

U T R M B R O O I O A O R A L

O P M A V L N I N L C Ç M T C

P N B N B T D O U R O A O R O

M A A L Ç N A O A I P C I A L

T S T N T E N G S L R U R L S

S A T U R G M R M Ç M R Ç I Ç

L D R B R A N C A A R E N M A

G R A P R T L N O I B T Ç E E

O P M A V L N I N L C Ç M T C

U T R M B R O O I O A O R A L

R G B P R E T A C N T R A R D

T S T N T E N G S L R U R L S

E T A R B A A T E B N D C A M

P N B N B T D O U R O A O R O

G R A P R T L N O I B T Ç E E

L A E C O S S I S T E M A M L

R G B P R E T A C N T R A R D

J Ç R E N O I R I R I A P A O

M A A L Ç N A O A I P C I A L

E T A R B A A T E B N D C A M

SOLUÇÕES: 1. britango; 2. branca; 3. preta; 4. amarela; 5. ecossistema ; 6. carcaças; 7. Douro; 8. grutas.

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M A N T L P R B O O M E O S P

L A E C O S S I S T E M A M L

Esta ave é o mais pequeno dos abutres portugueses e é caracterizada por uma plumagem predominantemente de cores (2) _______________e (3)_______________, assim como pela sua tão conhecida face de cor (4) _____________________que parece uma máscara. Muitas pessoas têm medo desta ave por ser um abutre, no entanto estes animais são muito importantes para o (5)___________________ pois são autênticos “limpa-lixos” ao alimentarem-se de (6)___________________ de animais mortos. Este ameaçado necrófago é também o símbolo do Parque Natural do (7)__________________Internacional. Este parque foi criado a 11 de maio de 1998 e apresenta um relevo muito favorável para esta ave nidificar: fendas ou pequenas (8)________________. Sendo por isso este o local ideal para observar esta bonita ave. Para o desenhares, tal e qual segundo o símbolo do parque, basta utilizares a tua mão como modelo e seguires os passos em cima. Diverte-te a fazê-lo e envia-nos os teus desenhos! E para saberes mais sobre o que estamos a fazer para proteger esta espécie, podes ler o artigo das páginas 9 a 11.

A S M A O N A Ç D A L C O A Ç

L D R B R A N C A A R E N M A

J Ç R E N O I R I R I A P A O

Sabias que a Ave do Ano de 2016 é o (1) ___________?

M A N T L P R B O O M E O S P

Esta edição é totalmente dedicada à Ave do Ano 2016 e, como sempre, temos um desafio em que podes aprender a brincar! Já descobriste as palavras escondidas na sopa de letras? Podem ser uma preciosa ajuda para completar o texto. Boa sorte!


CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS

BRUNO BERTHEMY-VCF Britango (Neophron percnopterus)

30>05

SET/OUT ’16 SAGRES

7ªEDIÇÃO

F E S T I VA L

OBSERVAÇÃO de

AVES

& ATIVIDADES DE NATUREZA > SAÍDAS

DE CAMPO DE BARCO > ANILHAGEM DE AVES > ATIVIDADES PARA CRIANÇAS > MINI-CURSOS > EXPOSIÇÕES > MONITORIZAÇÃO DE AVES PLANADORAS > PASSEIOS A CAVALO > SAÍDAS

Inscrições abertas a partir de julho de 2016 Informações e inscrições: WWW.BIRDWATCHINGSAGRES.COM Câmara Municipal de Vila do Bispo > +351 910 547 861 Almargem > +351 925 482 138 SPEA > +351 918 468 233

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Pardela nº 52  

A Pardela é a revista de divulgação da SPEA. Aborda temas relacionados com o mundo das aves, os projetos da SPEA, sugestões de percursos par...

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