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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

SOYMARA DA SILVA SANTOS

Moda, informação e memória: a identidade visual feminina na Europa da década de 1940

RIO DE JANEIRO 2011


SOYMARA DA SILVA SANTOS

Moda, informação e memória: a identidade visual feminina na Europa da década de 1940

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Escola de Biblioteconomia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Biblioteconomia

Orientador(as): Profª. Cristina Araújo Seixas Profª. Dra. Diana Pinto

Rio de Janeiro 2011


M7201s

Santos, Soymara da Silva Moda, informação e memória: a identidade visual feminina na Europa da década de 1940 / Soymara da Silva Santos. – 2011 40 f.; 30 cm. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Biblioteconomia) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011. Bibliografia: f. 39-40 1. Biblioteconomia. 2. Memória Social. 3. Moda. I. Título. CDD 391.00944


SOYMARA DA SILVA SANTOS

MODA, INFORMAÇÃO E MEMÓRIA: a identidade visual feminina na Europa da década de 1940

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Escola de Biblioteconomia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Biblioteconomia

Aprovado em

de

de

BANCA EXAMINADORA

Prof.ª MS Cristina Araújo de Seixas - Orientadora Faculdade SENAI CETIQT

Profª. Dra. Diana Pinto – Orientadora Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

Prof. Dr. Francisco Ramos de Farias Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

_____________________________________________________________ Profª. Dra. Josaida Gondar Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro


Dedico este trabalho a Claudio Santos. Aquele que Deus, no seu jeito infinito de ser Homem, me enviou, com um jeito infinito de ser pai.


AGRADECIMENTOS Aos meus pais que me amam, amaram todos os meus sonhos e desejos durante toda a vida e sustentaram em mim a vontade de vencer. Às minhas tias maternas, pelo orgulho que sempre fomentaram a sobrinha mais nova. Aos primos que me trouxeram tantas alegrias durante estes cinco anos de investimento intelectual e comprometimento. Aos amigos

da

escola,

que

se

alegraram

com

as

conquistas e

compreenderam o caminho que decidi seguir e mantém o carinho que também sinto por eles em seus imensos corações de estudante. Às colegas e amigas de faculdade: Carolina Nunes, Caroline Cardoso, Bruna Machado, Camila Alves, Viviane Gonçalves, Larissa Marinho, Bianca Soares, Ana Sofia Brum, Carolina Nieto, Tatiane Maria, e as demais que não citei, pelo companheirismo. Ao meu namorado que me apoiou em momentos difíceis e acreditou no bom senso e sabedoria de minhas escolhas. Agradeço à professora Diana Pinto que quando precisei se dispôs sem hesitar a também orientar este trabalho e colaborou com seu grande conhecimento para que a biblioteconomia tivesse seu papel importante perante a moda mostrado neste trabalho, que de certo ficará em minha memória. Por último, à orientadora Cristina Seixas, professora da Faculdade SENAI CETIQT, que me acompanhou e orientou para que eu pudesse concluir esta pesquisa com excelência e capricho, sem poupar esforços para que alcançássemos o sucesso neste trabalho de conclusão de curso, que foi fruto de esforço, mas também da inspiração fomentada por ela.


“Afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas e estar entre vírgulas pode ser aposto e eu aposto o oposto que vou cativar a todos sendo apenas um sujeito simples.” (Sintaxe à vontade – O teatro mágico)


RESUMO

O trabalho apresenta os conceitos acerca da identidade visual, explora o processo de formação da memória social, e descreve o papel desta memória no processo de criação da moda, a importância simbólica do vestuário e o potencial comunicativo das roupas. Aborda os fatos que ocorreram durante a década 1940 na Europa que impactaram diretamente o desenvolvimento da moda, investiga de que forma esta se sustentou e foi inovada naquele contexto, e encerra apresentando a influência de criações e conceitos desta década na moda atual. Palavras-chave: Comunicação Visual. Memória Social. Moda.


ABSTRACT

The work presents the concepts about visual identity, and explores the social memory development process. It also describes the role of fashion in the preservation of memory, the main role of clothing on society nowadays and its communicative potential. It discusses the events that occurred in the 1940s in Europe which has directly impacted the fashion development and how it has been sustained and innovated in that context. Finally, it presents the influence of creations and concepts of the 40´s in fashion today. Keywords: Visual Communication. Social Memory. Fashion.


LISTA DE FOTOGRAFIAS

Fotografia 1

Casal de classe operária em 1957.......................................

14

Fotografia 2

Trabalhadores parisienses por volta de 1900.......................

14

Fotografia 3

Mulheres de classe social alta em traje da moda em 1897..

14

Fotografia 4

Cenas do filme O diabo veste Prada....................................

16

Fotografia 5

Cenas do filme Cinderela, de Walt Disney...........................

17

Fotografia 6

Cartaz da campanha “Make Do and Mend”..........................

22

Fotografia 7

Cena do filme A Queda! As últimas horas de Hitler..............

23

Fotografia 8

Etiqueta do traje utilitário CC41............................................

23

Fotografia 9

Cenas do filme A Queda! As últimas horas de Hitler............

24

Fotografia 10 Moça pinta na perna de outra a linha que imita a costura de meia.................................................................................

25

Fotografia 11 Duas bonecas da exposição no Théâtre de La Mode...........

28

Fotografia 12 Modelo posa com o new look Christian................................

29

Fotografia 13 Imagem de divulgação recente da marca Christian Dior......

29

Fotografia 14 A stripper Micheline Bernardini veste o primeiro biquíni.......

30

Fotografia 15 Fotografias tiradas por Irving na década de 1940 e publicadas nas edições da revista Vogue na mesma época....................................................................................

31

Fotografia 16 Capa da revista Vogue em novembro de 1944.....................

32

Fotografia 17 Capa da revista em março de 1948......................................

32

Fotografia 18 Capa da revista Vogue em novembro de 1949.....................

32

Fotografia 19 Capa da revista Vogue de outubro de 1945.........................

32

Fotografia 20 Desfile da coleção outono/inverno 2011 da marca Sacada..

34

Fotografia 21 O modelo de sapatos criados por Jorge Bischoff para a grife Filhas de Gaia para a coleção de inverno de 2011.......

34

Fotografia 22 Releituras dos trajes utilitários femininos e clogs em referência aos sapatos fechados com solado de madeira usados durante a década......................................................

35

Fotografia23

35

Desfile da grife Louis Vuitton, coleção outono/inverno 2011


SUMÁRIO 1

INTRODUÇÃO.........................................................................................

10

2

MODA É COMUNICAÇÃO: A LINGUAGEM VISUAL...........................

11

3

MEMÓRIA SOCIAL: A IMPORTÂNCIA DO COLETIVO.......................

13

4

A MODA E SEU PAPEL SOCIAL: A IMPORTÂNCIA SIMBÓLICA.......

18

5

IDENTIDADE VISUAL E EUROPA EM CRISE: A MODA EM TEMPOS DE GUERRA...........................................................................

20

6

CINCO ANOS DEPOIS: A MODA APÓS A GRANDE GUERRA....

27

7

MEMÓRIA RECENTE............................................................................

31

8

CONCLUSÃO..........................................................................................

37

REFERÊNCIAS.......................................................................................

39


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1 INTRODUÇÃO A preservação da história do homem e do que ocorre no ambiente em que este vive é interesse da sociedade desde que o conhecimento foi reconhecido como valor importante para o desenvolvimento humano. O que se guarda de cada tempo é de valia muitas vezes para épocas posteriores. A escolha do tema do trabalho deve-se ao interesse em apresentar um contexto diferenciado onde a informação e a memória social são fundamentais, na produção de moda, e de que forma o panorama social da década de 1940 inspirou a criação de novas peças em diferentes estilos na Europa nesta época, e como estes novos estilos inspiraram os conceitos visuais para criação de novas coleções recentemente. O trabalho foi desenvolvido com base em informações coletadas através de consulta a materiais bibliográficos, vídeos, web sites e profissionais de moda, que descreve os conceitos relacionados à comunicação visual, identidade e memória social, e o desenvolvimento da moda durante os anos da década de 1940. Em MODA E COMUNICAÇÃO é abordado o potencial comunicativo da indumentária que permite que informações sejam passadas aos que vislumbram as peças de roupas. Em A MODA E SEU PAPEL SOCIAL e MEMÓRIA SOCIAL é explicado papel da memória social na sociedade e de que forma a linguagem atua neste processo de criação, qual o papel social da moda nas sociedades moderna e contemporânea, e as razões pelas quais o vestuário teve valor econômico reduzido e aumentado seu valor simbólico. Nas partes seguintes são abordados os aspectos históricos da década de 1940 tendo a moda e a indumentária como referências, e de que forma o registro formal e informal das imagens compõe a memória social. Por último é apresentada a influência da moda da década estudada, nas tendências de vestimenta atuais, e como os registros colaboram em novas criações e pesquisas com diferentes fins sobre estes anos.

2 MODA É COMUNICAÇÃO: A LINGUAGEM VISUAL


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Apesar da denotação de futilidade geralmente atrelada à moda, a vista de seu real significante comprova o equívoco na interpretação do fenômeno. A etimologia de moda, ou fashion, “indica algo que é produzido, a confecção” (The Oxford Dictionary, [s.d.] colocar data). No entanto, a definição não aborda com completude o que esta arte representa. É válido destacar o potencial comunicativo das roupas. A particularidade do efeito visual de uma forma é interessante pela capacidade da imagem, ou objeto, de representação, seja de uma idéia, de um momento ou de uma pessoa. Cria-se assim uma identidade visual. Ao avistar um símbolo, informações atreladas ao aspecto, já armazenadas na memória individual do ser humano, que se relacionem ao que é visto, direciona o raciocínio para encontrar a correspondência dos valores dedicados ao(s) símbolo(s) visualizado(s), para aliar imagem e informação. Pode-se então dizer que a identidade visual é a transmissão de uma ou mais idéias através da relação direta de informação à imagem. Segundo Dondis (2007) qualquer acontecimento visual é uma forma com conteúdo, mas o conteúdo é extremamente influenciado pela importância das partes constitutivas, como a cor, tom, a textura, a dimensão, a proporção e suas relações compositivas com o significado. As partes constitutivas deste acontecimento operam formando um código capaz de enviar uma mensagem ao espectador, e tem-se então uma linguagem no processo de comunicação, que se completa com a interpretação do espectador. É fundamental para que o processo de comunicação seja concluído que a linguagem utilizada tenha significado para o receptor e este possa interpretá-la como informação. No contexto da moda, sob o olhar semiótico e a compreensão da linguagem visual, pode-se entender que há, na indumentária, conteúdo e uma linguagem por meio da qual é possível se obter informação. Trata-se de ”um meio não-verbal de transmitir mensagens, conceitos acerca da sociedade e suas relações” (BARNARD, 2003, p. 49). Segundo Santaella ([200-?], p. 2) Quando dizemos linguagem, queremos nos referir a uma gama incrivelmente intrincada de formas sociais de comunicação e de significação que inclui a linguagem verbal articulada, mas absorve também [...] o sistema codificado da moda [...].


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Neste cenário, o vestuário cumpre papel importante na expressão individual da personalidade e identidade de um indivíduo. No entanto, trata-se de uma expressão mutável: quando se veste, o usuário assume o conteúdo das peças, que varia de acordo com o alcance da experiência prática e conhecimento daquele que cria as peças, aquele que a usa e aquele que a vê. Segundo Alison Lurie (1997), a aparência pode transmitir qualquer informação, inclusive as falsas. Os fatores constitutivos dispostos de maneiras diferentes também influenciam o significado do fenômeno visual, neste caso, a aparência tem o vestuário como composto central. Este olhar interpretativo sobre o conteúdo das criações da moda seria de fato uma compreensão do papel iconográfico das roupas. A necessidade do ser humano de se comunicar gerou meios diferenciados de transmitir e preservar informações em diferentes momentos de sua existência. As roupas e suas características são novos recursos para transparecer o que transita na mente humana, no que tange a criação. Novos conceitos sociais são apresentados ao mundo através da moda. Na próxima parte, será apresentado o conceito de memória e de que forma é desenvolvida a memória social, seu papel na construção da história da sociedade, representada pela indumentária.


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3 MEMÓRIA SOCIAL: A IMPORTÂNCIA DO COLETIVO Ao se tratar de memória social, é indissolúvel o conceito do coletivo. O conceito de sociedade, intrínseco ao termo social, implica um grupo que mantém algum tipo de relação comum, ou seja, se identifica. A memória é um desses fatores que possibilitam a identificação. Todo conteúdo adquirido e desenvolvido por um ser humano sofre influência direta do contexto social em que esteve e está envolvido. A memória não é algo que se encerra no conteúdo preservado e no significado intrínseco deste produto da sociedade, mas de sua permanência no tempo, sendo relevante às sociedades vindouras, ainda que sua compreensão sofra influência de novos valores. Vide a citação de Gondar (2005, p. 17): Uma lembrança ou um documento jamais é inócuo: eles resultam de uma montagem não só da sociedade que os produziu, como também das sociedades onde continuaram a viver, chegando até a nossa.

É necessário entender que a instituição da memória se dá a partir daquelas “que nos afetam em um campo de relações. Todavia o que nos afeta é o que rompe com a mesmidade em que vivemos [...]” (GONDAR, 2004, p. 25). O julgamento daquelas memórias que serão institucionalizadas depende da situação social vivida pelo indivíduo e pelo grupo considerado. A moda, neste contexto, interage com a memória no sentido em que a criação atual é resultante da pesquisa que avalia conceitos visuais e sociais que inspiram as novas coleções. Trata-se de um trabalho em que a memória social figura com importância. As roupas são, neste cenário de tradução do conhecimento, um meio de criação de novo(s) conteúdo(s), obtido(s) do(s) conhecimento(s) armazenado(s) na memória individual e coletiva da sociedade, aplicados ao produto no processo de confecção. No que tange ao registro, a moda tem papel importante no processo de desenvolvimento da memória visual, aquela que associa tempo e imagem, pois costureiros, ao criarem novas peças de roupa, investem conhecimento de confecção e conceitos intrínsecos sobre um tema selecionado relacionando-o às cores características, molde, tecido e demais dentre outros.


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Na parte a seguir, é descrito o papel social da moda nas sociedades moderna e contemporânea, e a importância simbólica do vestuário.


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4 A MODA E SEU PAPEL SOCIAL: A IMPORTÂNCIA SIMBÓLICA Ao se tratar de indumentária, relaciona-se diretamente a idéia de roupa à moda. Lipovetsky (1994, p.16) descreveu o que é moda: A moda é uma forma específica de mudança social, independente de qualquer objeto particular; antes de tudo, é um mecanismo social caracterizado por um intervalo de tempo particularmente breve e por mudanças mais ou menos ditadas pelo capricho, que lhe permitem afetar esferas muito diversas da vida coletiva.

Em diferentes momentos históricos, a finalidade social do vestuário sofreu mudanças. A qualidade, comprimento, volume e demais atributos da roupa são uma forma de expressar a condição do usuário perante o contexto social em que este se insere: as roupas de corte simples e material de baixa qualidade expõem a classe econômica de origem do usuário, provavelmente baixa, da mesma forma que aqueles que usam peças de modelagem elaborada e tecidos de alta qualidade procedem de classe econômica alta. O valor atribuído às vestimentas variou com os anos. “Até a revolução industrial e o surgimento do vestuário confeccionado por máquinas, as roupas geralmente se incluíam entre os mais valiosos pertences de uma pessoa” (CRANE, 2006, p. 78). Ao se vestir, o indivíduo que pertencia à sociedade pré-industrial expressava sua posição nesta. Cada indivíduo em sua classe e tempo se encaixa no estilo que cabe a sua condição de vida. Acessórios como chapéus, bolsas, jóias, roupas elaboradas, com saias longas, blusas com detalhes, eram típicos de mulheres de classes sociais altas no século XIX. A razão provável da adoção de estilos com numerosos acessórios e roupas com detalhes que davam volume e peso ao visual seria o fato destas mulheres não cumprirem com deveres de trabalho, o que lhes dava a liberdade de adornar o visual como mais agradava. Ao mesmo tempo, mulheres de classe operária, cuja renda familiar se destinava minimamente ao vestuário e não dispunham de posses a serem exibidas ou insinuadas, vestiam roupas práticas, de custo baixo em vista do uso para o trabalho em fábricas, ao trabalho caseiro e cuidado da prole. Os homens mais ricos vestiam camisas de tecidos finos como seda e cetim, cartolas compridas, sapatos de couro. Aos homens de classe operária, cabiam as camisas de algodão, ternos e casacos de tecidos de baixa qualidade bem


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como o material com que eram feitos os sapatos, ainda assim com modelagem similar àquela da vestimenta de homens pertencentes ás classes econômicas altas.

Ilustração 1: Casal de classe operária em 1957 Fonte: Crane (2006, p. 83)

Ilustração 2: Trabalhadores parisienses por volta de 1900 Fonte: Crane (2006, p.98)

Ilustração 3: Mulheres de classe social alta em traje da moda em 1897 Fonte: Crane (2006, p. 214)

O tipo de vestuário utilizado por um indivíduo também poderia – e ainda pode - ser razão de segregação em espaços coletivos. Qualidade, modelagem e preço de roupas são diferentes nos círculos sociais. Cada grupo busca na vestimenta mais um viés para firmar sua identidade na sociedade, com base no poder de compra e criatividade. Neste caso, os locais frequentados por diferentes grupos exigem adequação de postura e aparência para assim tomar parte de atividades comuns aos que já interagem neste espaço.


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No século XX, com a produção de peças em larga escala e processo de fabricação barateado, a importância econômica das roupas reduziu, mas o valor simbólico se manteve. Frente ao fato da ascensão das indústrias e a produção de peças em grande quantidade, é válido comentar o papel dos uniformes nos grupos sociais. Trata-se de um meio de sinalizar a condição do indivíduo em determinado grupo, o que pode render tanto prestígio quanto rejeição pela sociedade. Não há intenção de diferenciação no grupo quando há um padrão consolidado e permanente de vestuário. Destaca-se aqui o conceito de antimoda. Segundo Simmel (1971, apud BARNARD, 2003 COLOCAR PG): “sociedades nas quais o ‘impulso socializante’ é mais fortemente desenvolvido do que o ‘impulso de diferenciação’ (...), terão pouca ou nenhuma moda.” Quanto a isso, pode-se dizer que o vestuário nesta forma não socializa, mas coloca os indivíduos sob o mesmo patamar de aparência e incorpora o ideal coletivo a identidade individual. O desenvolvimento da produção prêt-à-porter, o surgimento de tecidos inovadores, tecnológicos e diminuição dos custos na produção do vestuário, impactaram (e impactam) diretamente nos valores de venda, tornam as peças acessíveis às classes sociais mais baixas, e facilitam a composição de visuais diversificados para diferentes situações sociais. As mudanças da moda acompanharam os passos de mudanças sociais significativas: as revoluções culturais, a industrialização e crises mundiais. Estes fatos atingiram esta indústria forçando alterações no trabalho de criação, adequando seus produtos a cada momento. Na década estudada, anos 40 do século XX, a alta costura era consolidada e a produção de variedade de peças em grandes quantidades era comum, o impacto social permaneceu e a estratificação foi mais evidente, pois em um momento de crise, poucos eram aqueles que podiam consumir alta costura na Europa enquanto outros vestiam trajes utilitários. Este assunto será tratado com mais profundidade em IDENTIDADE VISUAL E EUROPA EM CRISE. O impacto social da imagem foi apresentado em produções cinematográficas ao longo dos anos em diferentes épocas e abordado de diferentes formas: no filme O diabo veste Prada (2009), a atriz Anne Hathaway interpreta a jovem Andrea Sachs, estudante de jornalismo que pleiteia uma vaga de assistente da editora-chefe do famoso periódico de moda americano “RunWay”, interpretada pela atriz Meryl Streep e é aceita para o cargo. Atuando na função, o visual de Andrea é condenado


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pelos companheiros de trabalho, pois não se adéqua à proposta da imagem da revista, e a estudante se vê obrigada a mudar seu estilo de vestir para obedecer aos padrões do ambiente de trabalho.

Ilustração 4: Cenas do filme O Diabo veste Prada Fonte: O Diabo... (2009) À esquerda, Andy Sachs (Anne Hathaway) veste roupas de seu costume e gosto pessoal, já à direita, após receber a ajuda de um colega de trabalho e profissional de moda, a mudança no visual da estudante

Além desta produção, na animação da Disney Entertainment que apresenta o conto de fadas Cinderela, a jovem que dá nome ao filme, é rejeitada pela família com a qual convive após a morte do pai e se veste a caráter como serviçal da casa. Ao ter a oportunidade de participar do baile real, esta necessita da ajuda de sua fada madrinha que lhe dá a vestimenta e para investir nela a imagem adequada a um ambiente de nobreza.

Ilustração 5: Cenas do filme Cinderela, de Walt Disney Fonte: Cinderela (1950) À esquerda, Cinderela usa roupas e sapatos de serviçal, e à direita, com traje de gala para o baile.

A articulação da propriedade simbólica e fatores sociais resultam na diferenciação dos indivíduos, e também, na definição dos grupos, que assumem o simbolismo das roupas que terminam por compor a história e a identidade da sociedade.


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Na próxima sessão, será descrito o panorama social dos primeiros anos da década de 1940 na Europa e como a moda foi afetada pela crise cultural, social e econômica do continente.


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5 IDENTIDADE VISUAL E EUROPA EM CRISE: A MODA EM TEMPOS DE GUERRA Os símbolos que representaram e surgiram nos primeiros anos da década de 1940 (jazz, o traje utilitário, os chapéus enfeitados da época) compõem a memória social dos países europeus. A memória oficial de 1940 a 1949 é comumente atrelada à atuação nazista e ao conflito mundial que durou até o ano de 1945 no continente europeu. A visão apresentada desta versão rejeita outras visões particulares dos que também vivenciaram estes anos em territórios atingidos pela guerra. Assim sendo, a memória coletiva institucionalizada deste tempo é construída pelo registro daqueles que mantinham o poder político sobre a sociedade e não relativiza as condições pessoais para tornar a história captada pluralizada. Em razão da divulgação dos fatos destes anos nestas circunstâncias, durante os cinco anos que duraram a Segunda Guerra Mundial, a identidade dos países europeus esteve ligada ao terror e à severidade do confronto. O partido nazista, comandado por Adolph Hitler, que tinha a suástica como símbolo, foi fundado na Alemanha em 1919. O partido obteve sucesso nas invasões logo no começo da década de 1940 e conquistaram territórios importantes na Europa como Áustria, Suíça e França. Nos países conquistados, a cultura já era consolidada. No entanto, através de intervenção política este valor também foi afetado. A sociedade européia ameaçada encontrou opções para manter seus hábitos e não permitir que sua identidade definhasse perante a constante censura. O mercado da moda se insere neste contexto como meio de resistência à tentativa de supressão dos valores culturais dos países atacados em prol da ideologia antropofágica nazista. Entre 1941 e 1945 não houve mudanças fundamentais em relação à moda. Em Paris, após a invasão dos alemães em junho de 1940, somente alguns ateliês tinham permissão para funcionar na cidade. A alta-costura coexistiu com a guerra, após um cenário de nobreza vindo dos anos 1920, extinto nos anos 1930 após a crise econômica causada pela quebra da bolsa de Nova York. A indústria da moda se sustentou através da produção de roupas de moldes econômicos, mas de


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cores primárias e vivas, estampas florais e geométricas principalmente. Sob este panorama econômico, os vestidos foram menos usados por serem mais caros, e peças únicas que exigiam mais tecido para serem confeccionados, dando lugar ao uso dos conjuntos que davam à usuária a opção de vestir peças diferentes montando um novo visual a cada nova combinação. O plano alemão era tornar Berlim a capital mundial da cultura. Parte do plano era levar a indústria da moda de Paris para a capital alemã, no entanto o ideal não foi à frente. O costureiro Lucien Lelong, presidente do Syndicate de La Haute Couture (Sindicato da Alta Costura), lutou para assegurar a continuidade dos padrões da Alta Costura, no caso, mantendo a moda onde era feita melhor. Também como forma de resistência a esta mudança, havia nas ruas o esforço por parte das mulheres para manter a criatividade no vestuário, valorizando o corpo magro e elegante típico das francesas evidenciando a desvalorização da moda com a transferência da indústria para um local onde o enunciado de beleza já não era fundamental. Os civis de classe baixa e média que viviam nos países envolvidos no conflito diretamente, tiveram que se adaptar às fortes mudanças nos moldes e cores do vestuário, e à nova condição de consumo de roupa. Os governos exigiam da população economia. O couro, a seda, a lã, o nylon, o metal, eram destinados a confecção de botas, armas e uniformes de soldados. Para a população de média e baixa renda, nos territórios sob domínio nazista, restaram os tecidos como o rayon, a malha de algodão ou o tweed. Foi ainda nesta época que passou a valorizar tecidos resistentes, de qualidade. Ainda pelo governo, foi realizada uma campanha com o slogan “Make Do and Mend” (Faça servir e conserte) que tinha como objetivo o reaproveitamento de peças de roupas para torná-las novos artigos ou dar a estas novas funções. Eram válidos desde os remendos em meias ao uso do tecido da roupa inutilizada para adornar novas peças. Apesar do empenho do Estado para manter em vigor a economia de recursos, os costureiros famosos confeccionavam seus vestidos, que eram comprados por mulheres de generais das forças armadas ou por aqueles que de alguma forma ainda sustentavam a condição para o consumo (MENDES; LA HAYE, 2007, p. 103).


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Ilustração 6: Cartaz da campanha “Make Do and Mend” Fonte: Mendes, La Haye (2009 p. 115)

O governo de Hitler, a fim de não atrelar a idéia de totalitarismo e restrição ao molde proposto, convidou os principais costureiros londrinos para elaborar uma coleção-protótipo que compreendesse variações de estações e desse às mulheres algum enunciado de moda em trajes de tom severo que refletiam os tempos de crise que se vivia. Ainda no princípio da guerra, o Fashion Group of Great Britain elaborou 32 moldes de roupas para serem reproduzidos em larga escala. Adotados pelas nações européias. “Os trajes existiam sob a etiqueta CC41” (Civilian Clothing 1941, em português, Traje Civil 1941) (MENDES; HAYES, 2009, p.109). O grupo que desenvolveu os modelos era formado pelos costureiros ingleses Norman Hartnell, Hardy Amies, e jovens turcos atuantes na indústria da moda na época, que testemunharam o impacto do sucesso da moda americana na Europa, e queriam mostrar aos americanos que a Grã-Bretanha tinha uma identidade diferenciada da francesa na moda (DAOUST, 2010, [s.p.], tradução nossa).


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Ilustração 7: Cena do filme A Queda! As últimas horas de Hitler Fonte: A Queda (2004) Jovens são condecorados por Adolph Hitler, e ainda, os uniformes em cores escuras e neutras, modelagem reta e a postura rígida de oficiais e jovens refletem a severidade do momento.

Ilustração 8: Mulher vestindo traje de modelo utilitário Fonte: Veillon (2004, capa)

Estes trajes, que eram utilizados por mulheres de classe operária e média. Eram de cores frias e neutras, corte reto, ombros salientados, saias até a altura do joelho, comprimento de mangas até o cotovelo e sobretudos ou parkas eram usados como agasalho. Os calçados eram fechados e com solado de madeira. Mesmo destinado ao público feminino, desde as cores ás costuras, o traje utilitário tinha modelagem inspirada nos uniformes militares, o que fazia com que a composição do visual remetesse à forte presença militar no cotidiano europeu naquele momento.


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Ilustração 9: Cena do filme A Queda! As últimas horas de Hitler. Fonte: A QUEDA (2004) As candidatas alemãs para o cargo secretária do general Hitler se apresentam com trajes similares: parkas de cores frias e neutras, e lenço colorido no pescoço.

O Estado Nazista regulamentou desde o desenho das roupas até a quantidade de tecido, bolso, botões, costura, e não era permitido nenhum tipo de adorno supérfluo. Como recurso, as mulheres acrescentavam lenços ao se vestir e também os chapéus, que apesar de não serem racionados, eram ainda modelos pouco dispendiosos como boinas e toucas. Devido à indisponibilidade de nylon, a meia se tornou artigo raro e as mulheres encontraram um meio de insinuar o uso desta peça com saias e vestidos curtos: escureciam o tom da pele com molho de cacau, uma opção mais em conta, e cosméticos para este objetivo. A Max factor produziu um composto colorido para que as usuárias da peça pudessem riscar a linha escura na parte de trás das pernas, que imitava a costura típica das meias naquela época. Algumas mulheres evitaram o transtorno da pintura e optaram por usar meias soquete.


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Ilustração 10: Moça pinta na perna de outra a linha que imita a costura de meia Fonte: Mendes, La Haye (2009, p. 106)

Paralelo ao traje utilitário havia as peças com influências românticas: saias retas e blusas de tecido fluído, motivos florais, listras discretas ou lisas, ombros valorizados, colares e brincos, acompanhados do penteado referencial da época: cabelos curtos enrolados. O motivo da popularidade do penteado era o custo elevado dos cuidados com os cabelos no momento da crise, o que tornou inacessível para muitas o serviço especializado. Então, como opções de embelezamento eram usadas boinas, chapéus pequenos, e até se usava “papel de jornal enrolado à cabeça, adornado com veludo, flores, penas, todos estes recursos para disfarçar os cabelos mal cuidados.” (SEELING, 2000, p. [s.p.]) Aquelas mulheres que serviam ao exército tinham sua aparência diferenciada pela farda feminina, chapéus apropriados, componentes do traje, e os sapatos fechados e com solado de madeira, em modelo Oxford. Havia também crise na fabricação de cosméticos. Enquanto as mulheres americanas usufruíam do avanço desta indústria, as européias sofriam com a falta de matéria-prima para a fabricaç��o dos produtos de beleza. Segundo Seeling (2000), a falta do metal, usado na embalagem dos cosméticos, da glicerina e da gordura, resultou na textura ressecada, dos batons e o resultado era maquiagem espessa e/ou irregular. Havia também recursos inapropriados para a maquiagem: a graxa de bota e a pomada de sapato eram usadas como rímel e sombra, respectivamente.


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A alta-costura parisiense se valeu da crise para investir na exportação dos produtos. Apesar do alerta sobre economia, os itens destinados ao exterior eram cada vez mais extravagantes e, devido às restrições, os valores de venda para outros países dispararam. A produção pret-à-porter, que ganhou força na década de 1950, ajudou a sustentar o mercado. Apesar dos esforços para manter Paris como centro mundial de produção da moda, a cidade perdeu parte da importância no cenário pela deficiência nas criações e os Estados Unidos ganharam espaço. Na Itália, adotou-se no vestuário a silhueta similar àquela usada na GrãBretanha, no entanto o estilo do país era mais refinado que o molde do traje utilitário. Costureiros italianos como Jole Veneziani continuavam atendendo à aristocracia italiana com alta-costura. As restrições impostas pelo Estado Nazista sacrificaram a qualidade de vida de boa parte da população européia, mas o fim da Segunda Guerra era a esperança de reaver os tempos prosperidade do mercado da moda, perdidos em uma década de crise e em cinco anos de conflito. As tropas alemãs desocuparam a França em agosto de 1944. Em abril de 1945 acontece a queda do 3º Reich, último foco de resistência do governo nazista. Após o fim da guerra, a Europa inicia um grande plano de reconstrução.


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6 CINCO ANOS DEPOIS: A MODA APÓS A GRANDE GUERRA Nos últimos anos da década de 1940, as mudanças provocadas na sociedade européia com o fim da guerra foram consideráveis, por se tratar não só de uma reconstrução, mas de renovação social. Após o fim do confronto bélico, o momento histórico ganhou a possibilidade de ser interpretado na memória coletiva como apoteótico e não trágico. A imagem diferenciada da sociedade antes e depois da guerra mostra o potencial de renovação dos valores sociais e da situação cultural e política de um continente. As cidades estavam sendo reconstruídas e a economia aos poucos sendo restabelecida na Europa. “A cultura retomava aos poucos o lugar de prioridade na vida social dos países” (MENDES; LA HAYE, 2007, p. 125). Ao retomar este espaço, surgiram então outros ícones na moda que representariam este momento de prosperidade que. O registro da década não estaria atrelado ao terror da Segunda Guerra Mundial, mas também à mudança e ao desenvolvimento. A esperança de retomar tempos áureos das nações mais atingidas pelo conflito impulsionou o mercado da moda, reflexo da prosperidade econômica que se alcançava graças à ajuda recebida dos Estados Unidos através do Plano Marshall: “um investimento de cerca de US$13 bi em 1947, que consolidou uma ajuda financeira para reconstrução dos países europeus.” (SCHWEITZER, 2010, p. [s.p.]) Havia um interesse em especial em relação à recuperação econômica destes países: neste caso, o interesse pela recuperação da capacidade de consumo da população, pois a Europa era destino dos excedentes de produção americanos, e também evitar o avanço do comunismo na Europa. Semelhante ao plano Marshall, a França implementou o próprio plano de recuperação econômica: o Plano Monet (1946). “No plano, era proposto que a França obtivesse controle sobre o carvão e aço das zonas alemãs do Vale do Ruhr e Sarre para poder usar esses recursos e levar a França ao índice 150%, quando comparado com a produção industrial do pré-guerra. O plano foi adotado por Charles de Gaulle no início de 1946.” (SCHWEITZER, 2010, p. [s.d.]) Com a cidade de Paris libertada das forças nazistas, as ruas tornaram a ser movimentadas e a vivacidade da rotina da capital mundial da moda foi retomada. Em 1945 costureiros parisienses organizaram uma exposição em miniatura conhecida como o “Théâtre de La Mode”, com a finalidade de arrecadar fundos. Com bonecas


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feitas de armação em arame, expuseram vestuários completos, desde as roupas íntimas aos sapatos. A exposição em estilo romântico também demonstrou o anseio da mulher de reaver suas características femininas, à espera pela volta da Alta Costura no cenário da cidade, perdidas com a necessidade de economia e restrições frente aos riscos eminentes da guerra do início da década.

Ilustração 11: Duas bonecas da exposição no Théâtre de La Mode Fonte: Mendes e La Haye (2009, p. 127)

Neste contexto, um costureiro em Paris se lança como grande força no cenário da moda: Christian Dior. “[...] Dior recebeu ajuda financeira do fabricante têxtil Marcel Boussac, abriu sua casa de costura em 1946, e em 12 de fevereiro de 1947, lançou sua primeira e lendária coleção, que se dividiu em duas linhas: ‘Corolle’ e ‘8’.” (MENDES; LA HAYE, 2009, p.126). A nova coleção valorizava o contorno feminino com cintura marcada, saias amplas e ombros naturais e, diferente da moda dos anos de guerra, o chapéu que compunha o visual era amplo e sem enfeites, acompanhado por luvas curtas e sapatos de salto alto. Foi Carmel Snow, editora da revista Harper’s Bazaar quem apelidou a coleção de “New Look”.


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Ilustração 12: Modelo posa com o new look de Christian Dior Fonte: Mendes e La Haye (2009, p. 124)

A novidade de Dior teve grande repercussão, mas não era acessível às consumidoras de moda de classe econômica menos privilegiada devido ao alto custo. Mulheres cuja renda não comportava o visual sofisticado e caro, criaram releituras das peças com tecidos de qualidade inferior e modelagem ainda próxima do traje utilitário. O que aconteceu foi o “uso de dois estilos para articular um novo conjunto de identidades de classe e gênero numa nova versão do new look” (BARNARD, 2003, p. 212). Apesar do lançamento da coleção em 1947, o visual não era inédito. Dior revisitou o visual clássico de cinturas minúsculas, quando se usava espartilhos e saias amplas, típico do século XIX. O new look foi hit na década de seguinte. Considerado mestre da alta costura pelo próprio Dior, Cristóbal Balenciaga, costureiro espanhol, figura importante no cenário da moda nesta época, mantinha atelier em Paris, Madrid e em Barcelona. Suas criações eram confeccionadas a mão, os tecidos se ajustavam a silhueta feminina, com cores sóbrias, e apesar disso, o romantismo estava presente em parte das peças criadas por ele. (SEELING, 2000, [s.p.]) Na década de 1940 também surgiu um novo conjunto no vestuário que foi eternizado nas praias de todo o mundo: o biquíni. O modelo foi criado em junho de 1946 por Louis Réard, costureiro francês. O traje recebeu este nome, pois a inspiração veio do recurso utilizado por militares americanos quando resgatavam vítimas dos efeitos da radioatividade que se dissipava oriunda dos testes com bombas nucleares feitos no Atol do Bikini, nas Ilhas Marshall, na Micronésia: a


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radiação destruía as roupas das vítimas que ao serem levadas para avaliação médica, “os soldados cobriam suas partes íntimas com folhas de jornal. Nesta época, corria na França a notícia dos testes e também do jornal-lingeries, que inspirariam a criação do inovador traje de banho” (SAYURI, 2010, [s.p.]). Apesar de roupas de banho de duas peças já existirem no mercado, o tamanho reduzido das peças foi o diferencial. Em alguns países como Portugal, Espanha e Itália, não foi permitido o uso do traje em público, que também foi condenado pela Igreja católica. O público feminino não se identificou com o novo traje no final da década de 1940. O reconhecimento como veste que valoriza o os contornos feminino ao invés de vulgarizar aconteceu na década de 1950, quando novos modelos surgiram com novas cores.

Ilustração 14: A stripper Micheline Bernardini veste o primeiro biquíni Fonte: Mendes e La Haye (2009, p. 143)

As mudanças que aconteceram na moda na Europa após a guerra refletiam a mudança do panorama social e político. A liberdade, a criatividade e a disponibilidade de recursos fizeram com que os trajes transmitissem menos severidade e mais alegria e feminilidade. Estes valores transmitidos estão intrínsecos nas peças. No próximo e último capítulo deste trabalho, são apresentadas as produções atuais que foram inspiradas naquelas criadas na década de 1940 e evidenciam traços da memória social destes dez anos, em seus dois momentos, e que mudanças do conteúdo da(s) mensagem(s) pelo(s) traje(s) em molde(s) da época sofreram com a mudança nos valores sociais e novos conhecimentos e conceitos da sociedade.


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7 MEMÓRIA RECENTE Mesmo setenta anos após o fim da década de 1940, a moda feminina da época serve de inspiração no mercado fashion atualmente e coleções de grandes estilistas, como passaram a ser chamados os costureiros após a década de 1960. O conteúdo passado pelo estilo durante a guerra, naquele tempo, era de restrição e crise, sob os aspectos sociais, políticos e humanos. A mulher de classe baixa e média não poderia optar por seu estilo pessoal de vestir, mas deveria ser prática e econômica, encontrando recursos alternativos para valorizar seu gênero e identidade. As revistas de moda e as fotografias foram meios pelos quais ficou registrada a década de 1940. O fotógrafo Irving Penn, americano de Nova York, registrou a moda que era publicada na revista Vogue durante décadas. Esta revista, destaque no ramo desde aquela época até os dias hoje, é uma das publicações de moda que mostrou tendências de moda feminina e como se vestia a mulher, antes e após a guerra.

Ilustração 15: Fotografias tiradas por Irving na década de 1940 e publicadas nas edições da revista Vogue na mesma época Fonte: VOGUE

Em seu conteúdo as edições trouxeram desde conselhos sobre como mulheres deveriam receber seus homens quando retornassem da guerra à moda jovem e como manter-se jovem. Em revistas, fotografias originais da época, desenhos de costureiros e outros materiais preservados expõem o que a mulher usou em tempos de crise e de prosperidade, que informação acerca da identidade individual e da sociedade era transmitida através do vestuário e que novas propostas de informação uma releitura ou reprodução de peças podem ser criadas.


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Ilustração 16: Capa da revista Vogue em novembro de 1944 Fonte: VOGUE

Ilustração 17: Capa da revista Vogue em março de 1948. Fonte: VOGUE

Ilustração 18: Capa da revista Vogue em novembro de 1949 Fonte: VOGUE

Uma das edições desta revista que refletiu por inteiro a relação do quadro social com a moda foi aquela publicada em outubro de 1945 na Inglaterra, na qual a capa foi uma pintura de céu azul e algumas nuvens, fazendo alusão ao fim da guerra, cujo um dos fatos característicos era os aviões de bombardeios que sobrevoavam os céus na Europa.

Ilustração 19: Capa da revista Vogue de outubro de 1945 Fonte: VOGUE

A mulher do século XXI assume diferentes papéis no cotidiano: mãe, donade-casa, amante, esposa funcionária, líder, dentre outros. Em todos, há adequação de postura, linguagem e vestimenta. As facetas que exigem rigidez e liderança se


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identificam com releituras do modelo utilitário que trazia conceitos semelhantes a estas exigências na primeira metade da década de 1940: postura controlada. Os conceitos transmitidos através dos modelos confeccionados após a Segunda Guerra conotam ideais de versatilidade e valorização do contorno do corpo da mulher. Nos tecidos havia mais cores e variedade dos mesmos, e podia se acrescentar detalhes e acessórios. A faceta da mulher atual que comporta estes conceitos se identifica com releituras e/ou reproduções dos modelos exibidos na mostra do Théâtre de La Mode em 1945 e ao new look lançado por Dior em 1947, traziam feminilidade e valorização do visual com detalhes e acessórios idiossincráticos. Para o desenvolvimento destas coleções, é necessário conhecer o contexto social, econômico e político no qual o estilo foi criado, e de que forma a interação social permitiu a instituição destes conceitos que inspiraram a criação de novas peças direcionadas à sociedade naquele momento. A pesquisa de moda é de grande importância nesta tarefa. A pesquisa que define as tendências a serem lançadas nas passarelas e vitrines considera o comportamento da sociedade atual, para compreender a demanda nas próximas estações. Uma vez definida esta demanda, escolhe-se um tema que é pesquisado cuidadosamente para que detalhes não tornem falhas as composições da nova coleção, desde as razões que tornaram moda determinado estilo, para que fins estas eram utilizadas, qual público as usava e para que clima estavam adequadas. O resultado da elaboração destas pesquisas é uma forma de reconhecer a memória social institucionalizada, aquela disponível em materiais bibliográficos publicados, e aquela não institucionalizada, que pode ser encontrada através da consulta àqueles que compuseram o grupo social que fez uso do produto da moda naquela época e tornou evidente a identidade da sociedade em que estavam inseridos. A seguir, fotos de desfiles com peças lançadas atualmente, todas baseadas na década de 1940.


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Ilustração 20: Desfile da coleção outono/inverno 2011 da marca Sacada Fonte: MODALOGIA (2010) Nesta coleção, apareceram parkas, capas, cintos marcando a cintura, e cores como marrom, verde militar, fazendo referência à simplicidade sofisticada e ao militarismo, presentes na moda década de 1940.

Ilustração 21: O modelo de sapatos criados por Jorge Bischoff para a grife Filhas de Gaia para a coleção de inverno de 2011 Fonte: Modalogia (2010) Traz solado e salto espessos em modelos fechados. O modelo e cores dos sapatos impactam na leveza do visual e a desenvoltura de quem calça, deixando-o pesado e indo de encontro ao ideal de feminilidade.


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Ilustração 22: Releituras dos trajes utilitários femininos e clogs em referência aos sapatos fechados com solado de madeira usados durante a década Fonte: MARIE CLAIRE

Ilustração 23: Desfile da grife Louis Vuitton, coleção outono/inverno 2011 Fonte: MARIE CLAIRE Apresenta modelos inspirados no new look com cinturas marcadas e decotes valorizados. Sapatos com saltos e mais abertos que aqueles dos anos de guerra deixando o visual mais feminino e valorizando o andar da modelo, o contorno e a fluidez das demais peças.

Os modelos inspirados nesta década, em sua maioria, trazem a seriedade dos trajes utilitários em cores frias e neutras, poucos detalhes, tecidos pesados de pouco ajuste ao contorno do corpo feminino, meias-calça, luvas, chapéus e sapatos fechados. Estas características fazem com que a roupa armazene calor, e as propostas de tendência ligadas a este estilo aparecerem na maioria das vezes nas coleções de outono/inverno. O charme, o romantismo, o sofisticado simples, bem como a presença militar e a limitação estão expressos nas imagens e roupas da década de 1940. Sob novo


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contexto social, estas peças do vestuário destes dez anos ressurgem trazendo novos conteúdos em suas mesmas cores, molde, tecido, quantidade de botões e outras características semelhantes que confirmam o caminho cíclico que a moda faz enquanto busca suprir nova(s) demanda(s) da sociedade com relação à própria aparência. Este caminho somente é possível devido à preservação de material histórico que registra os parâmetros sociais, políticos, econômicos, enfim, humanos. Por meio do vestuário é possível expressar mensagens que tragam em seu conteúdo estas informações a cerca da sociedade, mas é necessário que a moda atue neste processo de construção do visual para que as aparências não enganem.


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8 CONCLUSÃO Neste trabalho a moda foi apresentada sob o aspecto da comunicação visual e o seu potencial comunicativo que dá às roupas o valor simbólico. Esta propriedade, que ajuda no entendimento da mudança no estilo de criações de novas peças em diferentes panoramas sociais, foi o foco principal, o que direcionou a pesquisa para as consideráveis mudanças que aconteceram na produção de moda durante a década de 1940 e de que forma as tendências que se estabeleceram naquela época ainda colaboram para a criação do vestuário nos dias atuais, em que se vive uma realidade diferente. Foi possível compreender o potencial de comunicação da indumentária. A aparência tem potencial comunicativo para o ser humano e as roupas e acessórios de moda complementam a mensagem enviada a outras pessoas que compõe uma sociedade e tem conhecimento e conceitos pré-determinados sobre cores, molde de roupas, qualidade de tecidos e outras características das peças. Pode-se concluir que a criação da moda necessita da informação proveniente de imagens e conceitos atrelados a um determinado estilo para que a releitura possa ser feita e que a diferente realidade que se vive traz à tona conceitos através das roupas que, muitas vezes, foram criadas em décadas passadas, como a de 1940. E mesmo os costureiros precisam recorrer a pesquisas aprofundadas e gerir este conhecimento para aplicarem ao produto criado os conceitos adequados para o momento. Foi reafirmado o papel colaborativo da moda na apresentação de novas idéias através da memória social desta década e como a própria moda e outros ramos na sociedade se beneficiam com o resgate de informações: para desenvolvimento de novas coleções inspiradas nesta época, dentre outros produtos a que se atribuam os conceitos de outrora e novos conceitos corretamente à imagem do vestuário. Da mesma forma, estar em contato com a moda permite que se reconheça a importância da indumentária na história do Homem e conclui-se que com o passar dos anos a sociedade sofre mudanças, a história não se repete, porém a moda, sim, pode voltar.


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