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Produzido pelos alunos do curso de jornalismo da Universidade Metodista de Piracicaba - Unimep Ano 4 - Edição 22-B

Dezembro/2010

Sentir na carne para

reportar Vivemos a realidade do mendigo, do andarilho, do varredor de rua, do cadeirante, do professor de escola pública, do coletor de latinha... Para escrever com mais propriedade

JORNAL LABORATÓRIO


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Dezembro/2010

editorial

Viver para reportar Lavínia Vasconcelos

S

er repórter requer mais que estudo, requer muita dedicação e empenho no que se dispõe a fazer, requer uma descoberta profunda para se ter um mínimo de propriedade sobre o que se vai reportar. Sair para as ruas atrás de um assunto que chame a atenção pelo interesse público, a ponto de virar pauta, e logo depois matéria apurada é relativamente fácil. O mundo está aí, as pessoas estão por toda volta, fatos acontecem a cada segundo. É só correr atrás, averiguar, entrevistar duas, três ou um grupo de “fontes” e pronto, a matéria está pronta para ser diagramada e virar página de jornal. O difícil é o repórter escrever com a disposição de conhecer cada realidade e sentimento envolvido no fato, de descobrir como é realmente aquilo sobre o que ele está escrevendo, falando, filmando. Assim, a matéria ganha mais verdade. Nesta edição, buscamos ser repórteres no sentido mais amplo da palavra. E com muita humildade. Despidos de todo preconceito que se tem quando se olha para uma pessoa ou situação diferente do mundo a que estamos acostumados a vivenciar (sobre o qual muitas vezes que já se tem uma opinião formada antes mesmo de se conhecer a real situação), saímos a campo livres de julgamentos e abertos para experiências desafiadoras. Nosso desafio foi mais que reportar. Foi vivenciar o dia-a-dia árduo ou prazeroso de uma profissão ou situação, foi experimentar o “lado” do entrevistado, indo além de apenas observá-lo e se achar no direito de falar sobre sua condição apenas com um bloquinho na mão e o poder de mídia a que a profissão nos concede. Cada repórter se entregou literalmente de corpo e alma para que sua matéria que consta nesse jornal saísse com vida. E aqui citamos um trecho do texto de Manuel Bandeira, segundo o qual

Saímos às ruas para algo além que olhar e escrever. Saímos às ruas para viver nossas pautas

“há uma gota de sangue em cada poema”. Pois buscamos colocar uma gota de sangue em cada página deste jornal, não o sangue do sensacionalismo muito visto na mídia, mas o sangue da vida, que vai além de números e estatísticas. Não é fácil jogar todos os preconceitos de lado e sair pelas ruas sujos, mal vestidos, recolhendo lixo, latas ou então empurrando com as próprias mãos a cadeira de rodas que nos sustenta por todo o caminho repleto de obstáculos que um cadeirante precisa vencer diariamente. Foi isso que fizemos, pois entendemos que, assim, pudemos conjugar da forma mais desafiadora o aprender jornalístico, pois vivendo na prática a realidade do nosso personagem, nos incumbimos de olhar todos os próximos personagens de nosso trabalho com menos preconceito e mais atentos à sua condição. E esse é o trabalho do jornalismo: ater-se à verdade, não dando a ela nenhuma cor além das que estão ali, a serem observadas e não julgadas, relatadas e não escondidas ou supervalorizadas em nome de ibope. Vivenciar e escrever traz a sensação de que agora sim podese falar com mais propriedade sobre a condição de um mendigo, de um lixeiro, um catador de latas, de um cadeirante, de uma acompanhante de idosos, de um acompanhante de órfãos, de um professor de escola pública ou de quem se dispõe a levar sorriso a enfermos, entre muitos outros que experimentamos ser. Passamos por situações que jamais pensamos passar e de forma extraordinária, pois enxergamos a grandeza que há em cada profissão e o respeito que toda condição merece ter. Essas realidades estão descritas em cada matéria de cada página desse jornal. Nas próximas páginas convidamos você a rir, indignar-se ou emocionar-se, a conhecer um mundo que está à sua volta e merece sua atenção. Convidamos você à realidade que não apenas estamos descrevendo, mas nela mergulhando de corpo e alma. São histórias reais que merecem atenção e respeito, sem julgamento de nossa parte. Graças a muito trabalho, empenho, dedicação, suor, alegria, tristeza e até mesmo medo desses repórteres que se atreveram a tal tarefa inédita nesta universidade (e que ainda nem são formados), o jornal está pronto e livre de todo preconceito que infelizmente ainda prevalece entre as pessoas. E buscamos, acima de tudo, mostrar que jornalismo só se faz com humildade, no mesmo nível dos fatos, nunca acima deles. Boa leitura!

EXPEDIENTE - Jornal Laboratorial dos alunos do 6º semestre de Jornalismo da Unimep - Reitor: Prof. Dr. Clóvis Pinto de Castro - Diretor da Faculdade de Comunicação - Belarmino Cesar Guimarães da Costa - Coordenador do Curso de Jornalismo: Paulo Roberto Botão - Edição: Marcos Brogna / Mtb 30465 - Editora Assistente: Lavínia Vasconcelos - Editora assistente de fotografia: Lavínia Vasconcelos Repórteres: Anderson Junque, Alexandre Almeida, Bruna Sampaio, Bruno Bianchim, Camila F. Duarte, Cynthia da Rocha, Daniele Zanin, Débora Ferneda, Fernando Henrique, Ivaneide dos Santos, Jackson Rossi, Janaína Moro, Larissa Molina, Letícia Costa, Maria Elvira Evangelista, Mariana Fiocco, Marina Campos, Syndi Siqueira, Suzana Storolli, Thiago Sanchez Gapareto, Vieira Júnior e Vinícius Boer - Arte Gráfica: Sérgio Silveira Campos (Lab. Plan. Gráfico/Unimep) - Correspondência: Faculdade de Comunicação - Campus Taquaral, Rod. do Açúcar, km 156 - Cx. Postal 68 - CEP 13.400.911 - Tel. (19) 3124-1677


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VIVENDO A EDUCAÇÃO ESTADUAL

Lousa, giz, voz

e muita coragem

Quando coloquei os pés para fora da sala, notei que estava completamente rouca Com equipamentos multimídia, eu nunca conheceria a realidade de um professor de escola pública

Larissa Molina “Dona, quem cursa faculdade tem que estudar muito?”. Foi esta a pergunta feita por um estudante de ensino médio de escola pública. Além do valor da mensalidade, é essa a preocupação de alunos do colegial que, em geral diferentes de estudantes de escolas privadas, não são pressionados a conquistar uma vaga em universidades públicas. Eram 20h45 de uma quinta-feira quando eu estava, em uma escola estadual, diante de 30 alunos do 2° ano do Ensino Médio. Para eles, a curiosidade pairava no ar. Havia alguém desconhecido com um giz na mão e em frente à lousa. Para mim, pairava a preocupação. Eu conseguiria fluir, durante os 45 minutos de aula, apenas crescimento intelectual? Eu seria capaz de demonstrar credibilidade e silenciar o alvoroço de todos aqueles jovens? A responsabilidade de professor pesou no coração repórter. A partir dali, eu teria de ser suficiente para conquistar a atenção de todos aqueles adolescentes que beiravam os 17 anos. Eles não mostravam cansaço pelo dia de trabalho enquanto se extasiavam em assoviar ou perguntar uns aos outros quem realmente era aquela à frente deles. De qualquer forma, eu teria de exaltar minha voz e fazê-la preencher mais do que todas as 30 vozes, uníssonas. “Boa noite pessoal” - foi a forma que escolhi para acalmá-los. Caso não fosse suficiente, tentaria bater na mesa com um livro, ou espalmar a lousa com força, ou ainda, quem sabe, fechar a porta da sala e encará-los com a expressão fechada, já que em minha lembrança adolescente, havia professores que agiam exatamente dessa forma. No entanto, não houve necessidade. Todos se sentaram e declararam com os olhos que eu havia me tor-

NA CLASSE | Diante de 30 alunos, vivi apenas um pequeno exemplo de tanto tempo dedicado por professores ao desafio de ensinar em escola pública

De repente, eu sou uma professora diante de 30 alunos em escola pública e sinto o desafio diário de quem vive dessa profissão nado o único foco. Anunciei, em seguida, o que trabalharíamos naquela noite: A Ideologia da TV. Seriam todos os minutos de aula com duas ferramentas: voz e lousa. A escola possuía 27 salas e três aparelhos de datashow. A coordenadora ofereceu um

destes para minha exposição. Porém, deixou-me claro que, com equipamentos multimídia, eu nunca conheceria a realidade de um professor de escola pública. “Cada dia que entramos na sala de aula, é uma luta”, disse. A partir de dois autores, eu informei àqueles jovens quais eram, realmente, as engrenagens que movimentavam a televisão - o objeto que fazia parte do cotidiano de cada um deles. Busquei palavras simples, exclui as técnicas. Ao falar sobre mártir, me questionaram o sentido do vocábulo. Entendi que deveria simplificar um pouco mais. Foi quando decidi tirar dois livros de minha bolsa: um de Arbex Junior e outro de Eugênio Bucci, ambos tão conhecidos no universo jornalístico. Incentivei-os, com esse gesto, à

SER PROFESSOR

Crença e descrença na missão de ensinar Camila Duarte Para Vanessa Querido, professora de Português, a maioria das escolas públicas são boas, e a mídia vende uma imagem muito distorcida da instituição. “Eu acredito na escola”, diz. A relação amigável da professora com os alunos reflete essa convicção: “Eu tento mostrar para os meus alunos que há coisas que a gente escuta uma vez na vida”. Um exemplo de quando precisou chamar a atenção dos alunos e “cutucar na

feridinha” foi quando leu para eles o poema ‘O Operário em Construção’, de Vinícius de Moraes. No entanto, essa paixão pela profissão de ensinar não é compartilhada por todos. Danielle Rodrigues de Sousa, 16, comparava sua prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) com as colegas, que haviam realizado como “treineiras” durante o final de semana. Está se preparando para o vestibular, mas não pensa em ser professora: “As pessoas desrespeitam muito o professor”, diz.

leitura. Esclareci que o que eu os falava, descobri lendo. “Dona, quem faz faculdade tem que ler bastante?”, perguntou um deles. Diante de minha resposta afirmativa, a expressão facial do jovem se alterou e ele se pôs a deitar-se na carteira. “Sabe que horas eu acordei hoje? 5h30, eu estou cansado”, continuou ele. “Os estudos podem mudar essa realidade”, eu o rebati. O sinal anunciou o término de minha aula. Agradeci a eles pelo silêncio e pela atenção. O mesmo jovem que a pouco me questionara sobre leitura confessou: “Se vier na última aula, verá a bagunça. Dona, você teve sorte!”. Quando coloquei os pés para fora da sala, notei que me esforçava para conseguir falar. Estava rouca sem nem ter precisado gritar para chamar-lhes ou acalmá-los. Se, realmente, essa fosse a minha profissão, cerca de doze classes esperariam minhas aulas diariamente. E eu teria que usar minha voz para todas elas. No caminho para a sala da coordenação, eu ouvi estudantes dizerem que preferiam ir embora a ficar ali. Vi outros pedindo para serem liberados. Diziam que não teriam aulas, mas uma palestra sobre o Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo). Cheguei até a coordenadora, e antes de nos despedirmos, ela esclareceu que, independente do curso, as portas estavam abertas para todos os estudantes universitários que desejassem dar aulas. O motivo é que o número de profissionais, formados em licenciatura, não atende mais a demanda de alunos.


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Vida de cadeirante

Trocando as

pernas por

rodas

Só quem precisa se locomover em uma cadeira de rodas sente de verdade a falta de preparo das cidades A única sombra disponível é para as pessoas que sentam no banco do ponto O motorista do ônibus mostra total despreparo para ajudar um cadeirante

Eduardo Castelar São 14h30 em Piracicaba e hoje vou passar parte do meu dia exatamente igual ao cotidiano de 15% da população brasileira, ou cerca de 25 milhões de pessoas. Nesta sexta-feira, 19, sou cadeirante. E como tal, utilizo a cadeira de rodas para exercer meus diretos básicos como: ir e vir, usar o transporte público e também tirar dúvidas sobre minha previdência social, entre outros. Subo em minha nova companheira e, de imediato, sinto dificuldades em fazer curvas e meias voltas. Parece fácil. Mas, para se virar é necessário segurar uma das rodas e movimentar a outra, conforme a direção em que se quer ir, e até a coordenação motora aprender isso já gastei alguns minutos. Passada meia hora, já estou mais familiarizado e sigo para o ponto de transporte público localizado na Av. Carlos Martins Sodero, em frente ao cursinho Avante. A força que faço para vencer as eventuais “subidinhas” que surgem é imensa. Ao chegar ao local, vejo que tenho de ficar no sol, pois a única sombra disponível é para as pessoas que sentam no banco

PERNAS DESATIVADAS | Eu vivo o dia de um cadeirante e aprendo o quanto precisamos respeitá-los mais com a estrutura urbana

do ponto, que é coberto. Minha angústia parece que vai durar pouco porque o primeiro circular aparece dez minutos após minha chegada. Mas, para meu azar, ele está quase lotado e, apesar de possuir a adaptação, é mais fácil e rápido embarcar os passageiros não deficientes. Decido esperar. Meia hora depois, surge outro ônibus, mas este não conta com o elevador e o motorista nem sequer parou no ponto, pois, no momento, já não havia mais ninguém ali, além de mim, é claro. O terceiro transporte público enfim possibilita meu embarque. Mas o motorista mostra total despreparo para ajudar um cadeirante. Ele até foi atencioso ao descer do veiculo e me ajudar, mas confessou não saber muito lidar com o aparelho e nem como agir comigo. Isso aliado à minha falta de experiência como portador de necessidades especiais, me deixou muito constrangido e a todos dentro do ônibus também. A experiência me mostrou que talvez a maior dificuldade encontrada pelos portadores de necessidades especiais seja a falta de informação das demais pessoas em como tratar e ajudar os cadeirantes. Afinal, muitos avanços já foram conquistados por esses cidadãos, mas o esclarecimento geral da nação ainda atrapalha muito o cotidiano.

Lição de vida na luta pela conquista dos cadeirantes Sindy Siqueira É com um ar de vencedor que Renato Bueno de Camargo Laurente, 48, relata como foi enfrentar as barreiras que a vida lhe propôs. Há 25 anos, enquanto graduava na faculdade de Educação Física, aconteceu o acidente que mudou sua vida completamente. Na estrada indo para Ubatuba, sofreu um acidente com consequências trágicas. Ficou internado quatro meses e não esquece quando entrou uma psicóloga no quarto e disse que ele estava tetraplégico, sem movimentos dos membros superiores e inferiores. “Depois do dia em que a psicóloga falou isso para mim, eu achava que enquanto não voltasse a andar minha vida não teria sentido”, conta Laurente. A aceitação de que ficaria assim para sempre foi acontecendo naturalmente. Conversa com psicólogo

desde que sofreu o acidente e viu que é capaz de fazer muito, sempre se desafiando a adaptações. Uma das coisas que mais incomoda a maioria dos deficientes é a dependência que eles têm de outros para certas atividades que não conseguem realizar sozinhos. Após o acidente, Laurente se dedicou muito ao conhecimento de vida dos cadeirantes e começou a participar de ONGs para deficientes durante muitos anos, dava aulas, palestras, contava sua história e ajudava outras pessoas que passam pela mesma situação que ele. Hoje, tem uma empresa, chamada “Como ir!”. É uma empresa de importação e exportação de produtos para quem tem deficiência ou mobilidade reduzida, como preferem que falem. Do sentimento de inutilidade que o tomou quando soube de sua sina até hoje, muito mudou e Laurente se tornou um empreendedor.


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NAS RUAS

Varrendo o chão

que todos pisam Letícia da Costa Coelho Suzana Storolli

Imagine aquele sol de duas horas da tarde. É quente! Isso porque o Verão ainda não chegou. Mas, enfim, estávamos nesse horário percorrendo o Centro de Santa Bárbara d’ Oeste com vestimentas tão diferentes do que estamos acostumadas e diante de um trabalho ainda mais inusitado. Preparávamo-nos para algumas horas experimentando a profissão de varredoras de rua (Letícia, vestida e equipada para varrer; Suzana, para registrar tudo). Um trabalho que desde antes de começar a executá-lo já merece nossa valorização, pois além de essencial para deixar a nossa cidade limpa, conta com profissionais que precisam aturar a ignorância de certas pessoas que jogam o lixo no chão. O lixo que mais se notava no chão eram embalagens de sorvete na calçada e na grama, e isso não é falta de lixeira, pois no local havia várias, era preguiça mesmo. Os funcionários do local relatam que as pessoas jogam muito lixo no chão, e que a maior quantidade é no período da manhã. Tudo começou quando saímos do carro parado em um estacionamento razoavelmente distante da praça de Santa Bárbara d’Oeste. A roupa e estilo (de Letícia) estavam de acordo com a situação. Com boné cobrindo quase tudo, zero de maquiagem, uniforme oficial da limpeza da cidade, tênis para conseguir percorrer longos caminhos, uma vassoura e muita simpatia. Chegamos à praça, nos afastamos para perto da polícia e buscamos o carrinho para coletar a sujeira. Começou oficialmente a prática da profissão. Andamos, observamos o chão e é hora de varrer, varrer, varrer. Além de arrumar os bancos, cumprimentar a população, que responde com certa pena de uma menina jovem estar limpando as ruas da cidade. Descemos para a Rua XV de Novembro, uma das mais movimentadas e tradicionais. Olhares de verdadeira piedade dos pedestres e motoristas. Algumas pessoas de dentro de seus carros davam preferência àquelas mulheres “guerreiras”, lutando pelo seu ganha-pão, embaixo

O sol está quente e há muito o que coletar pelas calçadas e praças, uma profissão tão invisível quanto essencial

MUITO LIXO | As pessoas ainda consideram o chão de uma cidade um espaço onde se pode jogar lixo, como se não fosse público

TIRANDO A SUJEIRA | Sob o sol quente, empurrando o carrinho e com a vassoura na mão, é possível valorizar muito mais essa profissão essencial

de um sol de 35 graus. Subimos a Rua General Câmara (no meio do caminho, o carrinho passa sobre o pé de uma senhora, que sorriu como se dissesse: “Não tem problema, minha filha. Acontece!”). E chegamos à Duque de Caxias, onde pedimos numa loja de roupas refinadas um copo de água. Com muita simpatia, as funcionárias atendem ao pedido e até cumprimentam. E nosso longo caminho pelas ruas barbarenses continua.

Estamos cansadas e com muito calor. Discretamente, resolvemos ver a reação de mais duas lojas do mesmo estilo pedindo água. No caminho, percebemos o quanto as ruas são mal planejadas para deficientes, ou qualquer outro objeto grande que tenha que passar por uma rampa (o nosso caso era o carrinho de lixo). Levar o carrinho gerava dificuldade toda vez que se precisava atravessar a rua. Após tanto varrer, chega um jovem

e diz “Moça, não se preocupa não porque mais limpo que está você não consegue mais”. E saiu. Voltamos para guardar o carrinho na área reservada para isso, e chegamos até o estacionamento voltando à rotina de vida de estudantes de Jornalismo. Mas, nos sentindo mais capazes de escrever sobre quem varre ruas, quando tivermos de fazer isso. (Agradecimento Prefeitura de Santa Bárbara d’Oeste)


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VIVENDO A MENDICÂNCIA

Sem sentido,

sem esperança Dignidade está longe de ser real para moradores de rua e eu senti isso na pele por algumas horas Saí pelas ruas sem saber exatamente como seria, como eu iria agir e como reagiriam a mim O fato de estar suja e maltrapilha faz com que as pessoas olhem para você como ser de outro mundo Muitas dessas pessoas que vivem na rua só querem um pouco de atenção, de dignidade

PEDINDO PARA COMER | Na casa em que pedi comida, o garoto, que estava sozinho, me serve um prato de arroz

Janaína Moro Como é bom poder voltar para casa, ou melhor, saber que tenho um teto para me abrigar e descansar após um longo dia de trabalho e estudos. Ter acesso a saúde, estudos, moradia é direito de todo cidadão. Isso é o que diz a lei, no papel, mas na prática esses conceitos básicos estão longe de serem reais. Em minha experiência no dia 17 de

novembro de 2010, foram poucas horas, mas o suficiente para sentir na pele o que é viver sem tudo isso e, o pior, não ter esperanças de mudanças. Pelo que percebi, é esse o sentimento de quem anda sem destino, come o que encontra no lixo e dorme em qualquer canto da cidade. Estar na pele de um mendigo é sentir o preconceito, a discriminação e o desprezo do ser humano. Olhares indiferentes marcaram esta vivência. O fato de estar suja e maltrapilha faz com que as pessoas olhem para você como um ser de outro mundo. Mas o consolo é saber que ainda existem pessoas solidárias, ou que pelo menos tentam agir sem indiferenças com o próximo. Fui surpreendida em algumas circunstâncias, mas não deixo de frisar que a indiferença esteve presente em quase todos os momentos. A sensação que tive é que as pessoas tentam disfarçar o que veem, mas não conseguem. Minha experiência começa com a caracterização. Escolhi uma calça de moletom, camiseta e tênis velhos. Deixei o cabelo sem lavar por três dias e depois com um pente o embaracei, deixando unhas e sobrancelhas por fazer. Saí pelas ruas sem saber exatamente como seria, como eu iria agir e como reagiriam a mim. Minha primeira parada foi em uma residência, aparentemente de classe média, e quem me atendeu foi um garoto que parecia ter em torno de 14 anos. Recebeu-me normalmente, abriu o portão, não teve medo, mas disse que estava sozinho e que não poderia me ajudar. Mas assim que pedi um prato de comida, não hesitou, entrou na casa e logo voltou com um prato cheio de arroz puro. Ele teve um gesto de boa vontade, mas foi difícil engolir a seco. Dali, parti sem rumo, e qualquer pessoa que passava não deixava de me olhar, como se eu fosse uma criminosa. Minha próxima parada foi uma padaria, já estava noite, quase oito horas, a atendente estava sozinha, não deixou de me atender, e nem perguntou se eu tinha dinheiro para pagar, mas vi em seus olhos o medo. Logo mais à frente, em um salão de cabeleireiro, pedi água, o profissional até perguntou se queria natural ou gelada, desta vez eu estranhei a recepção, mas quando o homem veio até o portão, esticou o braço e me entregou o copo com certa distância. Resolvi parar em uma lanchonete,

não fui expulsa, mas novamente os olhares foram constrangedores. Acompanhei de longe, algumas pessoas de uma igreja que toda quarta-feira levam comidas em pontos da cidade de Rio Claro para esses moradores de rua. O que dói é saber que muitos deles não têm esperança nenhuma de vida e aceitam a situação, acreditam que este é o destino, que isso foi preparado para eles, que devem se conformar. Antes desta experiência, conheci um senhor que estava na rua, tinha vindo de outra cidade, mal conseguia parar em pé devido a um problema de saúde. Ele confessou que o destino dele era a rua e que znem queria mais uma moradia, estava velho demais e sem condições de cuidar de uma casa. Não casou, não teve filhos, a única irmã é casada e diz não ter como ficar com ele. Assim, resolveu pegar estrada e cair no mundo. Ele sofre e diz que agora só está esperando para morrer. A situação que vivi, que antes só via de longe, me acrescentou muito como pessoa, a valorizar o que tenho, mas acima de tudo ter a consciência de que precisamos do material, mas que isso não é tudo. Muitas dessas pessoas que vivem na rua só querem um pouco de atenção. Viver com dignidade. Já vi de perto várias situações constrangedoras envolvendo pessoas que moram na rua, mas se despir de qualquer preconceito e encarar essa missão foi emocionante. Me toma um misto de felicidade pelo desafio cumprido, mas de tristeza de viver a realidade de muitos seres humanos.


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SEM RUMO | A rua é pública, mas parece uma imensidão que não é nossa quando só temos ela para nos aconchegar

VIDA DE SEM-TETO

O desafio de tentar

dormir na rua Preciso encontrar um lugar para dormir. Penso em passar a noite ali mesmo A movimentação cessa. Novamente, mudo minha direção. Sinto estar meio louco, sem rumo As noites de verão só são quentes dentro de casa. Na rua, o sereno faz questão de castigar

Vieira Junior Onde dormir? Esse foi o maior desafio do dia, ou melhor, da noite em que tentei dormir na rua. Os desafios foram muitos e poucas foram as opções. Na verdade, péssimas opções. Não há números exatos para expressar quantos moradores de rua existem no estado de São Paulo. Segundo dados da Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social, o estado conta, hoje, com 101 albergues que atendem a 42.999

pessoas. No entanto, estima-se que 44% dos moradores de rua não dormem em albergues, ou seja, passam a noite na rua. Minha jornada teve início às 23 horas, no centro de uma cidade com pouco menos de 30 mil habitantes e que não possui albergues ou outro tipo de apoio a moradores de rua. Estou sem comer desde as 17 horas, o único alimento que carrego é um pão francês não muito novo. Chinelo de dedo, a calça azul marinho quase imunda, uma camiseta de time de futebol toda desbotada e um boné que, um dia, já fora branco. Assim, eu estava preparado não só para passar a noite no relento, mas para o desprezo também. Assento-me em uma das calçadas da principal rua da cidade. Há um certo movimento de carros e de jovens que aproveitam a noite de sexta-feira para comemorar a chegada do fim de semana. Minha primeira sensação é de estar cometendo um crime. Parece que estou invadindo um espaço que não é meu, apesar de público. Talvez seja coisa da minha cabeça, mas quem pode garantir que não é o

mesmo que os moradores de rua sentem todos os dias? Não há tempo para me preocupar com dúvidas e paranóias. Preciso encontrar um lugar para dormir. Penso em passar a noite ali mesmo, na calçada da principal rua da cidade. Parece seguro, afinal há movimento e, se alguém tentar fazer algo comigo, certamente todos irão me defender. É o mínimo esperado de um ser humano. De repente, não sei de onde, muitos carros começam a surgir. Todos me olham, me sinto envergonhado, arrependido de viver aquilo e até com raiva do meu editor. As buzinas são inevitáveis. Parece ser a única forma com que os motoristas conseguem se comunicar comigo. Não entendo, me levanto, abaixo a cabeça, escondo o rosto com o boné e ando na direção contrária dos carros. Não dá para dormir ali. A movimentação cessa. Novamente, mudo minha direção. Sinto estar meio louco, sem rumo. Desço a rua em direção à praça central da cidade. No trajeto, observo algumas lojas. Muitas roupas caras, sapatos lustrados. No chão, um anúncio de uma loja de camas e colchões. Eu paro, pego aquele folheto, e fico observando aquele contraste. Eu, todo sujo, mal vestido, com fome e sem lugar para dormir e bem de frente para uma foto que demonstrava tudo aquilo que eu mais queria naquele momento. Meu maior objetivo não era comprar algo novo, mudar de trabalho ou melhorar meu salário. O grande desafio era encontrar um lugar para dormir e, sem exagero, garantir que iria acordar no outro dia. Continuo meu trajeto até a praça. No caminho, alguns jovens bebem cerveja em umas mesas dispostas na calçada do outro lado. Atravesso a rua em direção à calçada. Eu nem pensava em me aproximar deles, até mesmo por vergonha, mas eles estavam no caminho da praça. Quando me aproximo, cochichos. As moças parecem assustadas e apreensivas. Os rapazes me passam uma sensação de incógnita. Mas tenho certeza: se eu me aproximar não serei bem recebido. Então, eu paro. Avisto a praça, vejo a igreja central da cidade. Há um número razoável de pessoas sentadas nos bancos, minha esperança de aconchego. A maioria é formada por jovens. Moças, rapazes, todos muito bem vestidos. Não sei o porquê, mas isso me chamava muita atenção e, ao mesmo tempo, me deixava com um sentimento ruim. Eu era alguém privado de se divertir porque tinha de, antes, me preocupar em encontrar um lugar para dormir. Desisto de encontrar abrigo no centro. O movimento me assustou um pouco. Caminho então pela avenida que dá aces-

so à saída da cidade. Ali, depois de ter andado um bom pedaço de chão, começo a me sentir mais seguro, mas não sei se confundo segurança com a ausência de pessoas. Pelo menos não tenho mais ninguém me olhando e, consequentemente, não sinto mais vergonha. De longe, avisto uma cobertura. Olho no relógio, já passa da meia noite. Continuo caminhando. Alguns carros começam a passar e quebrar o silêncio daquela avenida deserta. Começo a sentir medo, muito medo. Alguns cães começam a latir dentro do quintal das casas ao me ver passar, mas é melhor do que as buzinas dos carros. Chego à cobertura. Na verdade, é um quiosque. Parece ser um bom lugar para passar a noite. Olho à minha direita e vejo uma viatura da guarda da cidade. Eu simplesmente congelei. Travei mesmo. Não sabia se me escondia, corria ou simplesmente esperava que eles se achegassem até mim. Por sorte, não me viram ou não se importaram. Sentei-me no chão. Usei meu saco de recicláveis como travesseiro. Já passava da uma da manhã. Eu estava com sono. Coloquei o boné na frente dos olhos e comecei a tentar dormir. O primeiro incômodo, naturalmente, era a temperatura do chão, muito fria. Aos poucos, meu corpo começava a esquentar o piso e o ambiente ficava mais aceitável, não confortável. Ao longe, os cães continuavam a latir. Os carros também passavam pela avenida, parecia que os motores iam explodir de tanto que aceleravam. Neste momento, me sentia seguro. O medo somente se mostrava quando o silêncio tomava conta do ambiente. Eu não resistia. Abria os olhos e, assustado, olhava para todos os lados. Era como se eu estivesse jogado à própria sorte, talvez eu realmente estivesse. A noite começava a fazer frio, mas eu pensava “estamos no verão, não vai esfriar mais do que isso”. Engano. As noites de verão só são quentes dentro de casa. Na rua, por mais quente que esteja o clima, o sereno faz questão de castigar e qualquer vento parece uma tempestade. Eu brigava com o sono. O cansaço me fazia tirar alguns cochilos. As dores nas costas, o frio, o barulho dos carros e o medo me faziam acordar a todo o momento. Olho no relógio, são 3 da manhã. Seriam mais três horas até o sol nascer. De cochilos em cochilos, de sustos em sustos, eu via o tempo que teimava em não passar. Então, antes que o sol ameaçasse nascer, eu me levantei. Todo dolorido, parecia que acabava de vir de uma guerra. Peguei o celular e pedi para que fossem me buscar. A minha missão acabou. Mas quando acaba a dos milhares que a cumprem todos os dias?


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Dezembro/2010

IDOSOS

Fazendo a idade ter algum sentido Acompanhamos profissionais que cuidam de idosos em asilos e nos deparamos com um trabalho pelo valor da vida em sua fase mais madura Bruna Sampaio A voz baixa e com dificuldade pergunta à assistente social Cássia Moraes, da Casa de Longa Permanência Anjo da Guarda, localizada em Piracicaba: “Você está ocupada?”, indaga. “Eu não, a senhora quer alguma coisa?”, pergunta a assistente social com certa preocupação. A voz baixa volta a perguntar se a moça loira estava ocupada. “Não, não estou querida, a senhora quer alguma coisa?”, insiste Cássia. A resposta vem depois de um olhar profundo e demorado: “Eu quero você”. Helena Calçavari, 81, é a dona da voz baixa e trêmula. Ela é um dos 12 idosos que residem na Casa de Longa Permanência Anjo da Guarda. Sentados em confortáveis poltronas, os olhos permanecem perdidos na tela, mas os pensamentos são diversos. Dos 12, apenas dois não tem alzheimer. A pele enrugada mostra marcas de uma vida experiente, os fios de cabelos brancos já não estão mais escondidos e o desgaste parece tomar conta de todos. Em cadeiras de rodas ou com grande dificuldade de locomoção, eles necessitam da ajuda de quatro cuidadores, sete técnicos de enfermagem, uma enfermeira, uma fisioterapeuta, um médico, além de pessoas de apoio, como cozinheira, nutricionista, lavandeira, faxineira, um professor de música e um padre, que reza missa, todos os domingos. A velhice é algo de que não há escapatória. Não existe remédio para ela, nem fuga. Os sintomas aparecem e são sentidos naquela caminhada onde a falta de flexibilidade te limita, na pele que antes vistosa, carrega marcas profundas. Os cabelos perdem o comprimento, o branco impera e o brilho fica nas fotografias. O olhar é longo, demorado e nos estuda como fôssemos um tesouro único e que nunca mais irá voltar. A vontade de contar, de falar, de expressar é imensa e histórias reais, na imaginação deles, são

VIDAS VIVIDAS | Idosos em asilo que visitamos, sempre dispostos a interagir alguém que lhes dedique atenção

contadas de forma a crer, que um dia, eles realmente viveram aquele momento. A casa parece um hotel fazenda e torna-se o atrativo principal de passeios. “A maior vontade deles é a de voltar para casa. Eles sentem saudades da mobília, do quarto, do jeitinho que era a casa deles”, conta Valdirene Aparecida Souza, cuidadora do Anjo da Guarda. “Sem contar quando falam que o marido ou esposa, já falecido, chegou e espera por eles”, completa. Em um trabalho nada simples, essas pessoas dedicam suas horas para cuidar de idosos que precisam de atenção e o máximo de cuidado. “São 150 fraldas por mês, além de fechamentos diários do período que o profissional estava presente na Casa”, conta Gisele Caputo, enfermeira que coordena toda área de saúde. Para Leandro Francisco Mendes, técnico de enfermagem, é difícil separar a vida profissional da particular. “Temos que saber lidar e separar o profissional do pessoal, o que às vezes é difícil, já que convivemos grande parte do dia com eles. Difícil, mas não impossível”. Tentando viver um pouco a realidade desses profissionais, vemos que a vida tem mais sentido, graças a eles.

Um ponto final antes da hora Vinícius Boer “Sou instável, venho aqui várias vezes por vontade própria, mas quando bate a melancolia volto para a casa”. Esse fala é de Dalila Rodini Moraes, 76, e refere-se ao dia-a-dia vivido em local que dificilmente alguém queira morar: o asilo. A idosa conta que a mãe faleceu durante a infância e o marido há 14 anos. “O tempo me fez conviver com a perda de maneira natural, mas ainda sinto saudades do meu querido”. O Asilo João Kühl Filho serve como refugio, mas quando ela quer, volta para residência, localizada em Limeira. Diferentemente de Dalila, outros idosos estão alojados no asilo limeirense e não possuem o livre arbítrio para retornarem às residências. Segundo a assistente social da entidade, Marilene Aparecida Bastos de Toledo,

os idosos são encaminhados para o abrigo pelo poder público, indicações de vizinhos ou dos próprios filhos. As verbas municipais, estaduais e federais representam 7% das despesas gerais. “O nosso forte mesmo são as ações solidários como bazar, bingos e jantares beneficentes”, afirma a assistente. Orlando Vicente, 80, está há 5 anos no asilo. O motivo, segundo ele, foram as complicações que teve após fraturar o fêmur. “Me machuquei e as complicações não pararam. Meus filhos moram em outra cidade e precisei vir pra cá”, diz. Sem receber visitas dos filhos afirma que o maior hobby é jogar dominó e cuidar do jardim. Ao conversar com outros moradores do lugar é comum receber como resposta à pergunta “Posso conhecer a sua história? algo como: “Mas eu não tenho história”. Nota-se um sentimento de ponto final colocado antes da hora.


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A difícil missão de

salvar

Três situações em que o que vale é lutar pela vida No Corpo de Bombeiros Cynthia da Rocha Daniele Zanin Débora Ferneda Graziela Prezotto De repente, o alarme toca e em 30 segundos você tem de vestir capacete com viseiras, calças, botas, jaqueta resistente a 400º C e estar dentro da viatura preparado para encarar as mais diversas situações extremas que vão desde a um simples resgate de um gatinho na árvore a grandes perigos como afogamentos, incêndios, e tantos outros limites as vezes inimagináveis. Uma tarefa complicada, mas não para bombeiros, nossos heróis do dia-a-dia que dedicam a vida para servir e proteger. Manhã de sábado ensolarado, e lá estávamos em frente ao 16º Grupamento de Bombeiros de Piracicaba, quatro mulheres, estudantes de jornalismo que decidiram encarar o desafio de acompanhar a rotina do batalhão. O batalhão se divide em duas tropas, os turnos são de 24 horas começando às oito da manhã e terminando apenas no dia seguinte. Durante o período em que lá estivemos, infelizmente não houve nenhuma ocorrência, no entanto, a equipe simulou conosco um acidente e quais os procedimentos que devem ser prestados. Foi realizada com a Cynthia, uma das estudantes, uma simulação de atendimento, em que tivemos uma verdadeira aula de prestação de socorros. Aprendemos que a primeira coisa que os bombeiros fazem é verificação da respiração e depois a da circulação. E mesmo em acidentes leves, em que a vítima está consciente, é obrigatório o uso do colar e da prancha rígida (maca). A utilização do cinto multiuso (aranha) é necessária em casos de transporte do acidentado, ele assegura a proteção das regiões toráxica, pélvica e membros superiores e inferiores.

No caso das principais dificuldades do ofício, podemos afirmar que aprender a lidar com o desconhecido, enfrentar locais inacessíveis, os trotes e especialmente com o inesperado, são uma das constantes batalhas que os bombeiros enfrentam. REPÓRTER BOMBEIRO | Só vestir a roupa já é um desafio para quem não conhece essa profissão de perto

Em ONG que cuida de animais Maria Cristina Fiocco O Gada (Grupo de Apoio e Defesa de Animais) é uma ONG fundada em 1998 por Raquel Pícelli com a presidente Roberta Escrivão de Campos. Existem dois Gadas em Rio Claro, somando quase 500 cães. Mas sempre aparece mais. A maioria dos animais são abandonados pelos próprios donos, em geral por já estarem mais velhos, dando algum trabalho ou gastos. Outros são enviados por maus-tratos, por denúncias de vizinhos e outros são achados na rua. A experiência que tive foi a de amar mais ainda os animais, conversei com alguns veterinários e tive mais informações sobre os cuidados dos animais e só não faço Veteriná-

ria por aflição quando há cirurgias. Não é fácil trabalhar como ajudante geral do Gada, por, em algumas consequências, ser preciso muito sangue frio, pois aparecem cachorros morrendo precisando de muito cuidado e principalmente amor. Assim que entrei no canil, que é um pátio enorme, a maioria dos cães vieram em minha direção querendo brincar e esperando apenas por uma atenção e carinho. Lá me deparei com cachorros doentes, idosos, cegos, mancos e todos muito amorosos mesmo passando por uma vida carente e brigas entre os outros cães. Ficou o ensinamento de que o ser humano precisa enxergar a vida de maneira mais ampla, além das necessidades e caprichos apenas da própria espécie.

Na saúde pública Fernando Henrique José Alexandre Maria Elvira Ivaneide O contato do dia-a-dia com a população que procura serviço municipal da saúde de Piracicaba é bastante tenso. Algumas horas que passamos junto ao centro de atendimento público, notamos o quanto é desgastante para ambas as partes. O atendente tem de ter paciência e psicologia para poder trabalhar, assim como o paciente tem de amargar longa espera para ser atendido. Deparamos com um caso entre as dezenas que ali encontrava no momento. Silva (nome fictício) conta que seu filho ainda bebê não estava passando bem, necessitando de cuidados médicos. “Levei ele até o PS (Pronto-Socorro), local mais próximo de minha residência, isso por volta das 16h, para ser atendido e medicado”, relata.

Encontramos Silva no final da tarde ainda aguardando o atendimento para seu filho. Começamos a conversar e percebemos que ele estava um pouco alterado. Procuramos nos informar do ocorrido e, como uma forma de desabafo, ele nos relatou: “Estou aqui há algum tempo esperando atendimento para meu filho, a demora é tanta que precisei entrar nos fundos do PS para que meu filho fosse atendido, pois o médico aqui presente não tem a mínima consideração com o doente”. A história de Silva não é diferente da de muitos outros que passam pela saúde pública no Brasil. Voltamos a pronto socorro outro dia e uma funcionária nos deu uma entrevista, contando um pouco do que é estar do outro lado do “balcão”, mas não concordou em tirar foto e pediu para seu nome ser preservado. Ela disse que “Apesar de ser uma rotina muito cansativa e de algumas vezes as pessoas ficarem zangadas, é gratificante poder ajudar”.


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NUM ORFANATO KarlaGigo Terça à tarde. Enquanto boa parte das pessoas estão trabalhando e as crianças estão na escola, me preparo para uma visita muito especial, com direito a ônus e bônus. Acabo de separar os objetos em sacolas plásticas e entro no carro. Chego a uma casa térrea de fachada amarela e portões brancos na altura da cintura. Um sofá marrom pouco convidativo fazia conjunto a dois vasos grandes de plantas. Toco a campainha e gentilmente uma senhora atende a porta. É dona Clarisse Lins, a mais velha das quatro mulheres que cuidam das meninas. “O orfanato, na realidade, é uma casa transitória, as meninas ficam aqui até completarem 15 anos. Depois disso, vão para outros orfanatos, se não forem adotadas”, explica Clarisse. Ela me ajudou a retirar as sacolas do carro. Antes de entrarmos contou como o orfanato funcionava. “São trinta órfãs. Uma tem oito meses, chegou aqui com quatro. As outras têm de 3 a 14 anos, a maior parte delas foi acolhida nas ruas com dez anos, outras deixadas aqui por parentes.” Para manter o orfanato, elas recebem pessoas que vêm do bairro ou de empresas e mulheres que se dispõem de uma tarde na semana para passar o dia com as meninas. “As meninas estudam e moram aqui, portanto temos regras e horários. Para as visitas temos um horário que vai das 14h às 16h”, conta Clara Rios, a mais nova das pedagogas. Antes de chegarmos onde as meninas brincavam, passei em frente a um quartinho onde tinha um berço, lá dormia uma anjinha de bochechas redondinhas. Uma das internas, que parecia ter uns dez anos, me viu observar a bebê e disse: “ela é a caçula, depois dela a mais nova é a Bruninha, de três anos”. E completou com ar de orgulho: “Eu sou a nona na escala, faço parte das irmãs do meio”. E sorriu. Chegamos a um grande quintal de concreto. Em questão de segundos, todas estavam na minha frente me analisando como se eu fosse algo a ser desvendado. Com sorrisos estampados e com os olhinhos brilhando mais que arvore de Natal em início de ceia, pareciam sentir que eu trazia novidades. Clarisse me apresentou as meninas que, em coro, retribuíram calorosamente o meu “oi”. Quando Clarisse ia começar a dizer o que eu fazia ali (já que não era a moça que geralmente visitava as meninas, naquele dia da semana), uma menininha que me pareceu ser Bruninha, muito desconfiada, falou: “Mas, cadê a tia Dede?”. Dede era

Um dia entre

anjos

A pureza das crianças é algo que comove e nos convida a enxergar a vida de outra forma

uma senhora, que fazia a visita às terças-feiras e por algum motivo não pudera ir. Então, Clara já foi logo explicando a pequena o que acontecera com Dinda e que especialmente naquela terça eu passaria à tarde com elas. A princípio, achei que as garotas ficariam decepcionadas, mas a reação foi surpreendente. Elas gritavam “Eeee!” e as menorzinhas até batiam palmas. Clara contou que elas simplesmente adoram quando alguém novo aparece por lá. Então estava tudo explicado. Com toda aquela alegria, não pude me conter e falei: “Trouxe alguns brinquedos pra vocês”. As meninas faziam rodas em voltas dos sacolões e se divertiam com o que encontravam. Perto de mim, as pequeninas desvendavam a sacola de bonecas e seus pertences como sapatinhos, roupinhas e etc. Fiquei brincando com as pequeninas, que se espalharam junto aos brinquedos no chão, mesmo porque eu não conseguiria correr com as maiores com a pequenina em meu colo, mas elas estavam se divertindo muito revezado as voltas com bicicleta rosa choque que ainda estava com rodinhas de apoio (minha primeira bicicleta e, pelo jeito, delas também). Quatro da tarde. Clarisse veio me avisar do horário, “Querida, tenho que fazer as meninas entrarem no banho. Até todas estarem prontas já é quase o horário do jantar”. Clara avisou as meninas do horário e mais uma vez em coro elas reagiram: “Ahh...”, mas desta vez com tristeza nos olhos. Todas se despediram com beijos e abraços, uns mais apertados que os outros. E Bruninha continuava em meu colo, até que Clarisse a pegou. No momento que a tirou do meu colo, que estava com a marca do corpinho dela por causa do calor daquela tarde, ela abriu um berreiro só. Soluçava. Chorava tanto que a cada “grito” que ela dava eu sentia como se uma faca varasse meu coração. Dei um beijinho em seu rostinho salgado pelas lágrimas, acenei e fui embora. Clarisse me convidou para voltar, mas pediu que da próxima vez ligasse com antecedência para marcar, para que não atrapalhasse os horários das meninas, já que desta vez tinha dado a “sorte” de uma das visitantes faltar. Agradeci, entrei no carro e parti. Esta foi a tarde mais especial da minha vida e podem passar anos, que jamais vou esquecer. Bruninha que tão pequenininha me deu uma lição: Não importa o quanto os brinquedos são novos, amanhã também serão novos, mas as pessoas não (principalmente na vida delas). Por isso pareceu ser fundamental a ela aproveitar ao máximo o amor e a atenção que me dispus a dar. O amor chamado incondicional.


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BATE-LATA

No catar de latinhas, um mundo sustentável Eles vão de sol a sol coletando sementes de um mundo que aprende a se reciclar e os acompanhamos nessa labuta Thiago Sanches Inesquecível o som das latas tilintando dentro do saco de lixo enquanto caminhava pelas ruas da cidade. A sujeira toma conta do ambiente urbano e torna-se motivo para uma nova empreitada para os menos favorecidos de benesses capitalistas. Homens ou mulheres, e até crianças, simplesmente juntando latas vazias em carriolas improvisadas ou grandes sacolas. Revirando as lixeiras da praça e pedindo recicláveis de casa em casa. Quem contribui? Uma classe média com ar soberbo, a maioria; outros conscientes tornam-se notáveis, pois parecem possuir aquele conceito de separar o lixo orgânico do reciclável. Muitas pessoas fazem esse trabalho para dar uma força ao salário que ganham com outro emprego. Um quilo de latinhas custa em média R$ 2, dependendo da cidade. Para ganhar R$ 100, é necessário juntar 50 quilos de latas, o que dá 3.150 unidades. Passar uma tarde como catador de latinhas rendeu boas caminhadas, mas a experiência de olhar o mundo de uma perspectiva totalmente diferente do conforto que estamos acostumados realmente faz mudar os conceitos sociais de qualquer um. Vimos moradores de rua com seus cães e bêbados perambulando por aí. A pior parte foi revirar o lixo para coletar as latinhas, principalmente porque em algumas lixeiras juntam abelhas ou vespas. Nessas horas temos que deixar a “frescura” de lado. Além de fazer a coleta nas lixeiras públicas, arriscamos pedir latas em algumas residências. A maioria das pessoas contribuiu e chegou a juntar dois sacos de lixo, daqueles grandes de 60 litros, com latas até o limite. Sentimos certa liberdade ao fazer esse serviço, pois os transeuntes não se preocupavam com a nossa presença, talvez por certo desprezo ou por indiferença, fator que facilitou a encenação toda.

LIXO VALIOSO | Por um mundo melhor, muitas pessoas labutam coletando latinhas de alumínio

O caminho do alumínio Bruno Bianchim Martim Se visto aos olhos da contemporaneidade e do mundo no qual o sustentável alça, cada vez mais seu espaço em meio a termos e teorias, o catador de latinhas é uma das mais dignas e incorruptíveis profissões do Brasil - e quase que exclusivamente só dele, já que em outras nações mais educadas as latas são arremessadas, diretamente, ao lixo. Afinal de contas, a reciclagem de centenas, milhares de latas de alumínios ganham um destino correto por suas mãos. No entanto, passar o cotidiano dos catadores, vivenciar suas experiências e conviver com olhares preconceituosos de quem passa ou cruza as ruas das cidades, anula essa posição de destaque da profissão informal, mas que ajuda pais e mães de família aos montes. Comecei as duas horas que passei ao lado de outros dois catadores, Wellington Silva, 24, e Rodney Silvestre, 36, ambos

jovens, com ambições futuras, como família e emprego fixo, mas que trabalham debaixo de sol, próximos à sujeira, lixões a céu aberto e desrespeito, em um sábado pela manhã, às 10 horas. Não me travesti como eles, com roupas largadas e pouco limpas -até porque não sou do tipo muito comportado, preferi usar um shorts velho e uma camisa rasgada, que uso para dormir no verão ou jogar futebol. O trabalho começou – para mim, pois eles já não haviam nem dormido, já que trabalharam recolhendo latas em festas da noite de sexta-feira – no Centro de Piracicaba, em frente ao Mercado Municipal, onde não havia quase latas, mas muito lixo por qualquer local que passássemos. Wellington, mais jovem que Rodney, era mais amigável e fácil para se levar uma conversa, talvez pela própria idade, e pelas frustrações pelas quais já tenha vivido, Rodney era mais fechado, quieto. Com o desenrolar dos 20 minutos que

ficamos em frente ao Mercadão, começamos uma ‘peregrinação’ pela rua Governador Pedro de Toledo, conhecida como principal corredor comercial da cidade e por seus pontos de travestis à noite. A andança foi maior que a busca, porque, pelo horário matutino, e a passagem dos caminhões de lixo de manhã, o que sobra é pouco, mas mesmo assim, para eles, isso equivale ao almoço e a janta do final de semana. Após percorrer a rua, os acompanhei até o depósito de latinhas, que fica na região da Paulista, há uns 40 minutos do Centro. Lá, eles revenderam os dois sacos que haviam colhido durante à noite, mais o trabalho da manhã e faturaram, R$ 18,74 (Wellington) e R$15,30 (Rodney), o que daria para mais um dia. De maneira sucinta, o que passei foi para não esquecer: a importância em trabalhar, da maneira que for, com as dificuldades que existem e com os empecilhos da vida que aparecem todos os dias.


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MESMO NA DOENÇA

MAQUIAGEM DO RISO | Mais que repórter, sou um palhaço hoje, então preciso ganhar cores e adereços

Pintando a cara

pela alegria

De repórter a palhaço, a missão de aprender que o sorriso pode transformar vidas, em quaisquer momentos Anderson Junque A vida do médico americano Patch Adams, revelada num clássico filme de 1998, “O amor é contagioso”, estrelado por Robin Willians, sustenta a tese que o alto astral e o atendimento humanizado reduz o sofrimento dos enfermados. Inspirados nesse exemplo, inúmeros grupos de doutores da alegria surgiram por todo o mundo, como os mais diversos nomes, a exemplo dos “Hospitalhaços”. Trupe que me abriu as portas, permitindo que eu vivenciasse in louco os ensinamentos de Adams. Para incorporar o personagem sou obrigado, de alguma forma, a me despir da armadura de repórter e adentrar num “médico da alegria”. A experiência foi realizada no Hospital Municipal Waldemar Tebaldi, na cidade de Americana, e me permitiu compreender a rotina de quem já investe um pouco de tempo (e às vezes até de dinheiro) na causa. A história começa às 14H15, quando chego à porta do hospital. Não conhecia, em absoluto, nenhum integrante do grupo. Era, literalmente, um estranho no ninho. Dou a volta até as portas dos fundos do hospital. Percebo que uma senhora me aguarda mesmo sem me conhecer. Seu olhar acompanha fixamente cada passo meu. “Você é o Anderson?”, pergunta. Respondo que sim. Gentilmente, me pede para que eu a acompanhe até uma sala já dentro do hospital. Lá sou muito bem recebido pelos demais integrantes da equipe. Por alguns instantes tenho a impressão que já sou um velho integrante do projeto. Recebo de Nida (senhora que me recepcionou) as primeiras orientações sobre o trabalho, entre elas a de não fotografar o atendimento nos quartos. “Essa é uma exigência do hospital”, alerta. Na sequência recebo um crachá em branco para preencher com os meus dados. “Esse é pra você circular aqui dentro”, orienta.

“Você não vai se maquiar?”, pergunta outro integrante do grupo. Respondo que gostaria, se possível. Esse era o meu passaporte para a atividade que realizaria minutos depois. O processo de maquiagem começa. O ato da partilha acontece de forma tão natural que os adereços, pincéis, e tintas vão se multiplicando das maletas dos colegas. Em poucos minutos, estou pronto. Reconheço-me um integrante, sem antes nunca ter sido. A todo o momento o trabalho é envolvido num clima amistoso e muito descontraído. Antes de começar, rezamos juntos a oração do Pai-Nosso. “Uma mão recebe e a outra dá”, orienta a Nida - reforçando o sentido da oração. Todos de mãos dadas agradecem a oportunidade. Pedem força e inspiração para realizar a missão daquele domingo. Com número variável de integrantes (que alcançou 18), éramos naquela tarde apenas oito, contando comigo. Dividimo-nos em dois grupos de quatro. Sigo com um grupo rumo à maternidade.

Entro com eles no primeiro quarto. São quatro bebês, dois meninos e duas meninas e, já de cara, é nítida a experiência deles. As brincadeiras com os pacientes e visitantes são leves e precisas. Acompanho tudo meio à distância. Observo a habilidade que todos, sem exceção, têm na manipulação das bexigas. Pouco mais de trinta segundos são necessários para dar-lhes formas de cachorros, patos, pássaros, entre outros. O repertório parece se multiplicar a cada quarto visitado. Discretamente tento algumas manobras, mas logo desisto. É atividade difícil demais para um mero coadjuvante. Observo que existe entre eles uma preocupação em contabilizar o número de pacientes visitados. “Até agora, foram 16”, conta um integrante. A sina continua e o grupo encontra uma gestante no corredor, descansando por um momento. Percebo um olhar desconfiado em minha direção. Sinal visível de um questionamento à vista que justificasse minha presença “es-

É PRECISO SORRIR | O grupo se prepara, unido, para a batalha da alegria, levando a enfermos esperança

tranha” ali. “Porque ele não fala nada?”, indaga. Esse era o meu medo. Como explicar que minha função naquele momento não era exatamente a mesma dos colegas. Rapidamente sou salvo por um colega em tom de brincadeira. “Ele é estagiário!”, responde me livrando de uma sabatina. A peregrinação continua. Encontramos duas senhoras que também estão nos bancos do corredor. Uma delas manifesta a alegria e a saudade em rever o grupo uma semana depois. Exatamente como a gestante, também percebe minha presença no grupo. “Esse é novo! Ele não estava semana passada.”, dispara na certeza que esse “novo” era realmente um desconhecido. Mais uma vez sou salvo por um outro colega. “Ele está começando”, me inserindo ao grupo e assim justificando minha presença. A última visita é realizada nos quartos e, na sequência, nos dirigimos para a sala de reunião de onde partimos. Lá, participo com todos do lanchinho da tarde: bolo de chocolate e suco de laranja doados pelo hospital. Recebo um lenço umedecido e começo a retirar a maquiagem. Aos poucos, em frente ao espelho, o personagem da tarde vai se desfazendo e paulatinamente o velho repórter de carne e osso vai voltando ao seu normal. O período de uma tarde valeu por uma vida. A intenção, antes de tudo, foi a de contribuir com o grupo levando na bagagem um pouco da experiência que adquiri nos meus 33 anos de vida. Aos pacientes, um pouco daquilo que entendo como alegria e motivação de viver, apesar de toda inibição e falta de traquejo para o trabalho. E a você, leitor, o relato de constatar que a alegria faz toda a diferença à vida.


Na Prática Ed. 22B