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SORAYA FELIX

A Sombra Da Meia Noite

CLUBE DE AU T O RES


Título: A SOMBRA DA MEIA NOITE Copyright © Soraya Felix, 2012 Diagramação Soraya Felix Capa Fábio Ladeira Crédito Imagens Internas: © Can Stock Photo Inc. / createfirst © Can Stock Photo Inc. / Pervach

Todos os direitos reservados, incluindo o de reprodução no todo ou em parte sob qualquer forma. Printed in Brazil/Impresso no Brasil

MATERIAL PROMOCIONAL O LIVRO ESTARÁ DISPONIVEL NO SITE DO CLUBE DE AUTORES ATÉ A PRIMEIRA QUINZENA DE 2013. http://www.clubedeautores.com.br/ Curta a página da Trilogia no Facebook https://www.facebook.com/#!/trilogia.literaturaechampan he Proibido a reprodução e distribuição sob quaisquer meios.


A minha m達e


“Há mais coisas entre o céu e a terra, do que sonha nossa filosofia.” William Shakespeare


Prólogo Um Beco em Manhattan Meia noite

A

noite estava bonita e muito quente. Uma lua cheia bem no meio do céu iluminava as ruas de Manhattan. Richardson, um escritor recémlançado e já na lista do New York Times há sete semanas, caminhava ao longo da principal Avenida de Manhattan com seu amigo George. Era uma segunda-feira à noite e haviam saído de um longo jantar em um restaurante de comida contemporânea. Ele não entendia o porquê do amigo estar tão vago, tão distante. Logo ele que sempre fora muito extrovertido e falador. Tudo bem, pensava, George deve estar com algum problema e qualquer hora ele contaria. Na verdade, o escritor não tinha muito espaço em sua cabeça para outras coisas a não ser a belíssima notícia que havia recebido de seu agente. Ter seu livro traduzido para o espanhol e francês era algo que ele não havia sonhado, não tão rapidamente, um bônus para uma carreira que começava com glórias. Além disso, na semana que vem, seria entrevistado por uma jornalista e blogueira brasileira. Richardson achava estranho ela se chamar Jane em homenagem a escritora inglesa, mas verdade seja dita, ele não sabia absolutamente nada sobre o Brasil e aproveitaria cada segundo da entrevista para tirar o máximo de informações.


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- George – Richardson parou de caminhar. – você sabe alguma coisa sobre o Brasil? O amigo ficou branco e perdeu a fala, como se tivesse sido pego em uma armadilha. Foi com muito esforço que conseguiu balbuciar um porque meio sem jeito. - Serei entrevistado por uma blogueira brasileira que tem o nome da escritora inglesa Jane Austin. – Falou com o acento característico de quem morou na Inglaterra por anos a fio. – Gostaria de saber como é o país... como são as pessoas que vivem lá. – Um breve silêncio se fez entre os dois. Foi George quem retomou a conversa. - Rá! – Despejou. – parece estranho alguém naquela terrinha ter este nome... mas, o Brasil é um país de muitos contrastes. - Jane chegará em Nova York em breve e não vejo a hora de conhecê-la. - Quando ela chega? – George parecia curioso. - Daqui a quatro dias... - Você – Interrompeu. – sabe em que hotel ela ficará? - Pelo jeito você ficou interessado. – Deu uma gargalhada. – Ela ficará no prédio da Universidade... é convidada para o curso de Literatura Inglesa. - Uma brasileira? – Ele pareceu duvidar. - O blog dela tem milhares de acessos e um amigo meu que conhece a língua portuguesa muito bem, disse que o texto da Jane é incrível. – Falou com entusiasmo. - Ela virá direto para cá? - Pelo que soube chega no voo matutino de São PauloNova York... – Mudou de assunto rindo. - Você não vai me contar para onde estamos indo? 6


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- Acalme-se que logo saberá, mas antes me deixe dar um telefonema. George se afastou enquanto Richardson o olhava com estranheza que logo foi substituído pela surpresa de encontrar Rebecca Rinney outra escritora de sucesso vindo em sua direção. - Olá! George também está fazendo mistério para você? O que viemos fazer aqui a meia noite? - Rebecca – George acenou após desligar o celular. –, bem no horário. - Para quê? – Ela estava com ar de cansada. – Tenho que levantar cedo amanhã. Vou para uma noite de autógrafos no Arizona e depois pego outro voo para cumprir agenda em um book club. - Não se preocupe com isso, é logo ali, virando naquele beco. - Jurei na minha vida que nunca entraria em um lugar desses. – Rebecca parou de andar e parecia transtornada. - Fique calma – Richardson parecia preocupado, mas tentava acalmar a amiga. –, George deve ter um bom motivo para nos trazer aqui. - Pode ter certeza que sim. – A voz dele resvalava mistério. O Beco estava iluminado pela luz da lua. Dezenas de latas de lixo estavam depositadas à direita e aparentemente não havia ninguém. O lugar não tinha saída e Rebecca e Richardson começaram a ficar assustados. Ao fundo do beco havia uma lata grande tampada e um estranho livro por sobre a tampa. Rebecca foi a primeira a sair correndo para ver do que se tratava e pegou o livro em suas mãos. Ele parecia ser muito antigo, velho demais para ter sido simplesmente esquecido ali, um mistério. A capa de couro macio com uma pequena gravação em números romanos amarrava as 7


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páginas amarelecidas pelo tempo. Tudo cheirava a passado, papel, pergaminho envelhecido, madeira antiga e algo indefinido que ela não conseguia identificar. George parecia extremamente contrariado, mas nada conseguiria demover Rebecca de abrir o estranho volume. - Veja Richardson! – Apontava alegre para o objeto. – Este livro é da época em que ler era um privilégio dos nobres. - Quem é o autor? Do que se trata? Abra logo... – Ele parecia ansioso. - Vamos deixar isso para depois. – George parecia incomodado. - Não seja tolo George – Rebecca estava com os olhos brilhantes –, ninguém vai me tirar este prazer. Ela abriu o volume e soltou um suspiro de espanto. O livro estava escrito em três línguas diferentes. Uma delas chinês antigo, outra em hebraico e a última, bem mais moderna e a lápis, em Inglês. As páginas estavam ricamente ilustradas e em cada uma delas continha a pintura de um dragão. Rebecca ficava mais e mais hipnotizada à medida que avançava pelas páginas do estranho livro. Foi quando se deparou com o dragão azul de asas com profundos olhos vermelhos. Em um gesto impensado ela passou suavemente as mãos por sobre a ilustração e os olhos do dragão se iluminaram emitindo um facho de luz que assustou a tal ponto que o livro voou longe de suas mãos. - O que foi amiga? – Richardson estava assustado. - A imagem se iluminou... – Balançou a cabeça de um lado para outro. – Estou zonza, estranha... mal posso acreditar naqueles olhos. - O que tinha no livro? - Dragões... 8


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George não deixou que ela acabasse de contar o que havia visto, chamou a atenção dos dois para algo que estava do outro lado do beco, em uma porta minúscula e imperceptível. Enquanto eles se viravam naquela direção um braço muito sujo saiu da penumbra e puxou o livro rapidamente escondendo-se outra vez, atrás das latas de lixo. - Que barulho foi esse? – Rebecca olhou para traz. – Cadê o livro? - Isto agora não tem importância? – George vociferou. - Como assim? – Richardson parecia assustado. – O livro estava aqui agora mes... – Não pode acabar a frase. - Existem algumas coisas nesta vida que não são para sempre, você, por exemplo – Apontou desdenhosamente para Richardson. – e ela... com estes romances nojentos e sem sentido. - Não estamos compreendendo. – Rebecca e Richardson falaram ao mesmo tempo. - Olhe só – Gargalhou estridentemente. –, John chegou. Ambos olharam assustados e disseram ao mesmo tempo. - O que você está fazendo aqui? De onde veio? - Noite. – Olhou para George com alegria. – Posso continuar o serviço? - É claro que sim, já não aguento mais. John sacou uma arma e Rebecca imediatamente percebeu a forma de um dragão gravada nela e sua cabeça começou a rodar mais ainda. Ele apontou o revólver diretamente para eles. - O que significa isso? George, o que John vai fazer? - Vocês acreditavam que iriam muito longe com este sucesso feito a base de banalidades? O que vocês escrevem é lixo altamente contaminante e precisamos fazer uma limpeza no planeta. – Enquanto apontava a arma para os dois que se mantinham imóveis virou-se agradecido para George. – Obrigada 9


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por avisar, ela já sabe que Jane virá para cá e que será sem Robert. Desta vez conseguiremos colocar nossas mãos naquela infeliz. - Se você permitir – Olhou para John. –, quero matá-la pessoalmente, é uma questão de honra. - Ela é toda sua. Rebecca e Richardson estavam prontos para correr. Uma mescla de pavor e finitude perpassavam naqueles rostos vincados de desespero. Uma gota brilhante de suor escorria pelo rosto do escritor e as mãos tremiam ao mesmo tempo em que estavam imobilizadas pela total surpresa da situação. Cada um deles pensava, em turbilhão, na morte que se aproximava, no beco escuro e infecto, no auge de suas vidas que ambos viviam com o sucesso de seus livros e a impossibilidade de continuar a existir. Rich chegou a pensar em trote, e com muito esforço conseguiu falar. - Vocês só podem estar brincando! Estou assustado, olhem para mim. Se era isso que vocês queriam, conseguiram. John não pensou duas vezes, deu uma sonora gargalhada que penetrou noite adentro e puxou o gatilho na cabeça de Richardson que caiu inerte no chão úmido. Depois, virou-se para Rebecca e com um beijo dado a distância atirou no peito dela que caiu imediatamente. - Vamos George, vamos logo antes que alguém nos veja. - Havia um livro aqui, um livro antigo. - Esqueça isso e vamos sair daqui antes que a polícia chegue. George olhou para os cadáveres no chão e virou-se para John com admiração. - Você está ficando bom nisso. - A prática leva a perfeição. 10


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Eles saíram do beco pela estreita porta e sumiram. Enquanto isso um mendigo bêbado e apavorado estava completamente imóvel atrás das latas de lixo. Na mão direita, o livro velho estava seguro por entre os dedos. Uma sombra surgiu disforme e silenciosa. Retirou delicadamente o livro das mãos do mendigo e foi até os escritores. Richardson estava morto, mas Rebecca ainda respirava com esforço. A sombra a retirou do chão e carregou o corpo que lutava entre a vida e a morte. O mendigo ainda pode ver a sombra que carregava a mulher sair do beco a passos apressados na direção oeste e sumir no horizonte de prédios.

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Capítulo 1

O

s sinos da Saint Patrick soavam ao longe. A Catedral era alguma coisa surreal plantada no coração de Manhattan. Confesso que fiquei abismada quando a conheci. Cercada por prédios ameaçadores, Saint Patrick se erguia como uma fortaleza gótica suplicando aos céus que a proteja. É claro que foi Robert que me apresentou ao lugar. Ele dizia que Nova York não era apenas um templo de livrarias e que a minha educação cultural sobre a cidade deveria começar pelas igrejas. Não era o passeio dos meus sonhos, mas não me zanguei. Estar com ele em qualquer lugar era o suprassumo da felicidade. Conhecer a Catedral de Saint Patrick foi um presente. Primeiro por que me senti voltando ao passado, às grandes guerras e complôs que formaram a história e a literatura britânica. Outro motivo muito forte foi o mergulho nos romances que já li e uma forte lembrança do livro “Pilares da Terra” me acompanhou nesta descoberta. Quinze dias na cidade e já me sentia em casa. As aulas na Universidade começaram sob o tom de “não compreendo”, “pode falar mais devagar”, “desculpe, mas meu inglês está enferrujado”. Assim, Robert acabou me matriculando em uma escola de inglês na parte da tarde, o que me deixou comovida e irritada. Eu queria tempo para visitar a cidade, as livrarias, as bibliotecas e não as cadeiras dos prédios de ensino. De qualquer forma acabei me conformando, eu precisaria mesmo destas aulas

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extras se quisesse continuar no curso de literatura, e confesso que as poucas que já fiz, me ajudaram muito, pelo menos não interrompo toda hora o professor. Na verdade, hoje é o primeiro sábado que ficava sozinha. Robert viajou para fotografar e não pôde me levar junto. Então acordei bem cedo e vim para cá tomar o café da manhã ao som dos sinos da Saint Patrick. Sorte ou não, chovia bastante nesta manhã e o tempo estava mais fresco que o habitual. Nunca pensei que Nova York pudesse ser tão quente! Talvez por que sempre a imaginei com folhas amareladas e marrons caindo lentamente das árvores no Central Parque, ou seja, esta cidade sempre foi para mim um eterno outono. O tempo me lembrou que precisaria sair para comprar botas de chuva, um luxo para uma brasileira acostumada a molhar os pés nos temporais de São Paulo. - O que a senhora deseja? – A atendente perguntou muito solicita. - Um café médio e um brownie de chocolate, por favor. - É só aguardar no balcão ao lado. Não levou nem um minuto e uma bandeja com café fumegante e um generoso pedaço de brownie me foi apresentado. Sentei-me em uma das poucas mesas que estavam vazias, e que para minha sorte davam para a rua. Foi em uma cafeteria parecida com essa que conheci Robert. Acredito que foi lá que me apaixonei perdidamente por ele, por um homem maravilhoso que ensopou a minha melhor camiseta com café. A chuva contínua de verão começou a me trazer lembranças, cenas do passado, quase todas elas em cafeterias pela cidade. Eu criança com mamãe e papai no Centro Velho de São Paulo e meu irmão Cadú chegando todo alegre. Não me lembro

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bem, mas ele devia ter uns 16 anos e tinha prestado vestibular para línguas e havia passado em primeiro lugar. Do auge dos meus 9 anos não tinha a mínima noção do significado daquele momento. - Jane – Cadú dizia na minha lembrança. – Um dia serei escritor e vou criar um livro só para você. - Com ursinhos, fadas e princesas? – Eu perguntava sorrindo já que minha vida era cercada de magia e personagens fictícios. - É, com ursos cor-de-rosa e fadas de açúcar. – Ele respondia rindo e passando delicadamente a palma da mão em meu rosto. Meus pais, como sempre, sorriam e mantinham um clima de muita harmonia. Cadú se formou muito cedo. Aos 17 começou o curso de línguas, aos 19 anos, dava aulas de literatura como professor assistente, mas ele sempre era o centro das atenções. Não tenho ideia por que meu irmão surgiu nas minhas lembranças, mas senti meus olhos se encherem de lágrimas e minha garganta se fechar me protegendo de um choro convulsivo. Mesmo assim minhas memórias insistiam em se fazer presente. Primeiro foi meu pai que nos deixou, quando eu tinha 16 anos. A morte dele foi horrível, um tiro na cabeça. Segundo a polícia houve um assalto na empresa em que ele trabalhava e os bandidos atiraram nele. Não houve nem tempo para socorrê-lo. Foi morte instantânea. Sobrevivemos a esta tragédia com muita dor. Na verdade, pensando bem, só conseguimos seguir adiante por que tínhamos um ao outro. Foi quando me apeguei mais e mais a meu irmão. Boa parte da literatura inglesa que li foi ele quem indicou.

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Muitas vezes fazíamos isso em voz alta e passávamos noites em claro mergulhados nestes sonhos. É claro que mamãe ficava brava. Depois que me formei em jornalismo Cadú passou a me carregar de um lado para outro em suas aventuras, até o dia em que ele começou a ficar estranho. Já não sorria com tanta frequência, não me levava mais a lugar algum e me telefonava raramente. Lembro-me de perguntar sobre o que estava acontecendo, mas ele nunca respondia. Minha cabeça girou de repente e senti uma tontura muito forte. Precisei me segurar na cadeira para não cair. Um gole de café me fez voltar à realidade, talvez uma realidade que não quisesse aceitar. Algumas frases que Cadú disse nos últimos tempos de vida começaram a pipocar em minha cabeça. “- O radicalismo é o pior dos conselheiros.” “- Aqueles vermes. Se pensam...” “- Minha irmã, não, nunca.” – Ouvi ele dizer isso em uma ligação em seu celular poucas horas antes de morrer em um trágico acidente na rodovia Anhanguera. Uma morte não explicada até hoje. Alguma coisa se quebrou dentro de mim, uma tranca que me protegia do mundo, e de repente uma cachoeira de informações me inundou. Cadú estaria envolvido com a Sociedade Secreta do Dragão? O que ele ficou sabendo que o levou até a morte? Será que meu irmão foi morto por minha causa? Esta ideia ficou martelando em minha cabeça com tal intensidade que não consegui fazer mais nada. Deixei o pedaço de brownie na mesa e levantei correndo em direção a porta. Não percebi que ainda chovia e minhas roupas ficaram encharcadas poucos passos depois que sai da cafeteria. Eu só ouvia sinos ao fundo e a frase “Cadú morreu por sua causa”

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martelando minha cabeça. Quando dei por mim estava ensopada em frente a Catedral. Olhei para cima e vi a ponta superior de Saint Patrick apontando para o céu cinzento que molhava meus olhos, mas não atenuavam a dor que corroia a minha alma. Entrei correndo na Catedral como se chamada por uma voz invisível. Entrei deixando poças de água pelo caminho. Não havia ninguém lá dentro, nada, nem os sinos que pensei ter ouvido estavam soando. Passei pelo corredor principal completamente oprimida por uma dor que não tinha tamanho e parecia querer arrebentar as frágeis paredes do meu ser. Lá dentro meu coração se aquietou. Não por que fosse religiosa, longe disso, mas a grandiosidade daqueles arcos me fazia flutuar. Além disso, o medalhão já havia disparado aqueles choques calmantes. Sentei-me na lateral do banco para que não fosse descoberta por ninguém. Estava ensopada da cabeça aos pés e um choro convulsivo estava prestes a romper, e foi o que aconteceu assim que me senti em segurança. O tempo parou. Lá, só eu e minha dor estavam presentes. Minhas lágrimas pareciam ser maiores que a chuva fora da Catedral e sentia-me tragada por um buraco negro profundo do qual talvez nunca mais conseguisse sair. Se meu irmão havia morrido por minha causa, isso significava que há anos eles estavam atrás de mim. O que eu havia feito para eles me perseguirem dessa forma? Peguei o celular sem ao menos me dar conta que estava em um lugar sagrado. A única coisa que queria era ligar para minha mãe. - Alô, mãe. – Foi só o que consegui dizer com a voz embargada. - Filha, o que houve? – Como toda boa mãe ela percebeu que eu estava arrasada.

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- Nada, saudades. – Respondi evasivamente – Tudo bem ai? - Tudo tranquilo, até mais que tranquilo. Nestes quinze dias seu amigo Ted veio aqui umas cinco vezes. – Riu – Vou acabar adotando esse menino. - Ele é um bom menino. – Falei ainda contendo as lágrimas. - O que foi? – Mamãe parecia preocupada. - Lembrei-me do Cadú. – Despejei sem pensar. – Tenho saudades. Ouvi um fungar do outro lado do telefone que indicava que mamãe estava chorando, foi quando uma voz conhecida entrou na linha. - Oi Jane. Aconteceu alguma coisa? – Ted parecia preocupado. - Não...Ted? - Eu sei o que você está pensando, mas fique tranquila. Sua mãe está bem e vou protegê-la... - Cadú... – Interrompi. - Estou investigando. Já estava de olho nesta história. Assim que tiver alguma coisa ligo para você. - Tudo bem. – Falei secando os olhos com as costas das mãos. - Dê um abraço em Robert, e sua mãe está mandando um beijo. - De um beijo nela por mim. Por favor, cuide de minha mãe. Até mais Ted. Onde é que eu estava com a cabeça de ligar para minha mãe e falar do Cadú? Foi quando percebi que havia algo no banco, algo que não estava lá antes.

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Um saco plástico embalava um pedaço de pergaminho velho, uma toalha branca e uma capa de chuva complementavam o presente. Olhei para todos os lados para ver quem havia deixado aquilo ali, mas não vi ninguém. Tive a impressão de ver uma sombra, mas foi apenas impressão. Virei novamente para os pacotes e peguei a toalha para secar mãos e braços antes de abrir o saco plástico. Dentro dele havia um pergaminho muito antigo que dava a impressão que se desmancharia a qualquer olhar. Desenrolei com cuidado e pude observar com total surpresa, uma ilustração vibrante, repleta de detalhes, de um belíssimo dragão azul de olhos vermelhos, com asas. Suas patas seguravam uma ampulheta grande e dourada, a areia resvalava de seu compartimento superior. Na página havia três inscrições, uma em chinês, outra em hebraico e outra em inglês, a lápis. Apertei os olhos para ler aquelas letras rebuscadas. Um dia eles se unirão e o céu, a terra e o infinito serão apenas um. O Tempo não é o senhor absoluto da vida. O Dragão vermelho sabe que o amor é a força que movimenta o Universo, Não resisti, a imagem do dragão me evocava Robert e naquele exato instante eu precisava deste apoio. Passei minhas mãos já secas por sobre a imagem e os olhos do dragão se iluminaram me inundando com sua luz. Por mais estranho que possa parecer, uma paz invadiu meu coração e senti-me protegida. Fui levada para uma viagem ao passado recente. Eu estava novamente no avião, no voo para Nova York. Robert estava alegre, falante. Faltava apenas meia hora para o

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pouso no aeroporto de La Guardia. Uma aeromoça gentil nos interrompeu. - Os senhores gostariam de mais uma taça de vinho antes do desembarque? Robert não tinha jeito mesmo. Não tinha ideia de como ele havia conseguido isso, mas o preço que paguei pela minha passagem me daria direito apenas a refrigerantes e olhe lá. Como foi que ele conseguiu o vinho? - Sim, com certeza. – Ele sorriu para a aeromoça que serviu em uma taça grande um líquido quase bordô que exalava um aroma de madeira envelhecida, caramelos e limões recémcortados. - Jane, vamos brindar um novo começo e a todas as surpresas que aguardam por você em Nova York. – Disse isso levantando a taça. - Saúde. – Levantei a minha taça e toquei levemente o cristal que estava nas mãos dele. Um som de sinos pareceu soar dentro de minha cabeça, depois um festival de sabores invadiu minha boca assim que sorvi o líquido. - Robert. – Indaguei. – Por quê? - Você sabe. – Ele olhou sorrindo e seus olhos pareciam emitir uma luz apaziguadora. – Minha vida agora se mescla a sua e nunca mais, veja, nunca mais ouse se separar de mim. Não havia nada neste mundo que me colocasse longe dele, nada. Eu tinha, depois de longos anos, encontrado o amor e nunca, em toda a minha vida, estive tão certa de alguma coisa. Teria que relevar, esquecer o passado dele, repleto de mistérios, erros, culpas, mas tudo isso valeria a pena pelo que Robert havia se transformado. O tempo passou rapidamente enquanto estava bebericando o vinho e encostada nos ombros dele. Nem percebi

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que o alto-falante avisava que o avião pousaria em 15 minutos no La Guardia. Entreguei a taça à aeromoça, levantei o encosto do meu banco e afivelei o cinto. Robert fez o mesmo sem delongas. - Enfim... – Sussurrei. Foi quando a voz do piloto soou novamente. “- Fomos informados que o Aeroporto de La Guardia está com problemas e teremos que ficar no ar até que uma autorização de pouso seja concedida.” - O que está acontecendo? – Falei quase gritando. Meu pânico por aviões estava aflorando. A aeromoça que passava ao nosso lado e viu o estado em que me encontrava informou sobre um suposto problema na pista e tentou me acalmar. Robert parecia tenso e meu medalhão que estava dando sinais de vida depois de tanto tempo começou a me dar choques e choques contínuos. - Robert. – Falei bem baixo. – O medalhão... está me dando choques. - O quê? – Ele pareceu assustar-se. - Choques, iguais ao que senti quando estava presa e alguém da Sociedade Secreta se aproximava. - Então minha intuição está certa. – Ele olhou para mim desesperado. – Jane, com certeza tem alguém nos esperando no aeroporto. - Vic? - Não daria tempo. Ela ficou na sala de embarque ou foi embora. Mas a SSD tem muitos agentes aqui nos Estados Unidos. Foram as duas horas mais longas de minha vida. O avião foi e voltou para a cidade de Nova York e nunca tinha a

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autorização de pouso. Segundo nos informaram, o piloto tentaria Washington e foi aí que meu medalhão quase me enlouqueceu. Eu sabia que corria riscos, não lá dentro do avião, mas se pousasse. Precisava de uma solução urgente. Desafivelei o cinto e levantei da poltrona. A aeromoça imediatamente veio em minha direção. - A senhora precisa se sentar. - Preciso ir ao banheiro. – Falei resoluta. Ela foi obrigada a concordar e me levou até lá. Assim que tranquei a porta puxei a minha blusa e olhei para o medalhão. Os olhos do dragão estavam acesos e uma súbita imagem veio em minha mente. Eu enxerguei uma sala de desembarque do aeroporto e lá havia dois homens me esperando, com uma foto nas mãos e uma tatuagem nos braços. Depois, vi outra sala de desembarque. Eu e Robert estávamos saindo e nos víamos cara a cara com Victória. A visão sumiu como veio, em um instante. Uma turbulência no avião me fez escorregar e desmaiar dentro do banheiro. Fui acordada por uma aeromoça preocupada e Robert pálido. Ambos me ajudaram a chegar à poltrona. “– Que estranho! No dia em que isto aconteceu, eu não me lembrei das visões.” O piloto informou que pousaríamos na cidade de Rochester a seis horas de Nova York. Respirei aliviada. A Jane da minha visão não entendia o porquê de tanta desopressão, mas pressentia os perigos. O avião pousou tranquilo em Rochester. Foi uma mistura de alívio e frustração. Alívio por que finalmente me vi no chão, sã e salva; frustração por que queria ver Nova York do alto, mas as condições meteorológicas ou algo que não foi explicado impediu o nosso avião de pousar lá.

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A minha imagem outonal de Nova York não estava preparada para o calor daquele dia. Apesar da chuva recém-caída, que deixou um aroma de terra, poeira, água quente e saudades, um mormaço absurdo me fez correr para a primeira sorveteria que encontrei, e olhe que não gosto muito de sorvetes. A decisão do que fazer foi dificílima. Não havia voos programados para Nova York e precisaríamos aguardar horas no aeroporto. Alugar um carro significava rodar mais seis horas até chegar ao nosso destino. Algo desanimador para minha ansiedade e cansaço. - Jane – Robert parecia indeciso. – Você ficaria muito zangada se viajasse comigo por seis horas até Nova York? – Cravou seus olhos nos meus. – Eu prometo muitas paisagens e boa conversa. Comecei a rir da proposta. É claro que não haveria problemas e poderia segurar a ansiedade por mais algum tempo. Por mais que eu me sentisse frustrada algo me dizia que tudo aquilo estava certo, que nada acontecia por acaso e tinha a sensação que Robert pensava o mesmo. O que era para ser feito em seis horas se transformou em oito, graças ao meu desejo em conhecer um pouco melhor a cidade quando descobri que veria o lago Ontário. - Rob – Falei olhando para o outro lado do lago, sonhadora. – Quer dizer que se eu atravessar a nado, isso se eu soubesse nadar direito, chegaria ao Canadá sem escalas? - Se isso fosse possível, sim. - Que delícia imaginar que do outro lado.... além do horizonte está o país no qual viveu a escritora L.L. Montgomery, do livro Anne of the Green Gables. - Você leu?

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- Sim, aos 18 anos de idade. É um livro que foge do tradicional quando se trata de retratar crianças no inicio do século XX. A personagem é uma criança de verdade, não um adulto miniaturizado. - Vejo que esta conversa nos levará longe. – Pegou delicadamente em minhas mãos. – Vamos, Nova York nos espera. A viagem de volta nos conduziu por trajetos que passaram bem longe de nossos inimigos. Chegamos à Nova York tarde da noite e Robert fez questão que pernoitássemos em um hotel. Por alguma estranha razão e muito mal intencionada eu adorei a sugestão. Mas, a noite percorreu os céus sem que meus desejos fossem realizados. Isso já estava virando hábito. - Senhora. – Uma voz forte e bem empostada chamava por alguém que não respondia. – Senhora? – Senti uma mão forte tocar em meus ombros, dei um pulo assustada. – Está tudo bem? - Sim. – Respondi em português e percebi que ele não compreendeu. Lembrei-me de onde estava. - A Senhora não é americana. – Foi muito mais uma afirmação que uma pergunta. - Sim, sou brasileira, e acho que dormi aqui neste local de paz. – Olhei envergonhada para o padre. – Desculpe-me. A corrida na chuva me deixou cansada. - Não tem problema, filha. Mas parece que há muito mais preocupações em sua cabeça? - Saudades do meu irmão que se foi. - Ah! Entendo. – O padre olhava para mim com compaixão.

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- Vou embora para casa. Estou ensopada e tremendo de frio. – Foi quando olhei para o banco e não vi mais o pergaminho, apenas a toalha branca, a capa de chuva e uma folha de caderno muito bem dobrada. O padre olhou para mim e depois para a capa de chuva. Seu olhar se encheu de compreensão pelo meu disparate em sair na chuva sem proteção. Pelos olhos dele passou toda a loucura que havia se instalado em mim desde o instante que tive a certeza que meu irmão havia sido morto por minha causa. Encostou suas mãos em minha testa e seu rosto demonstrou preocupação. - Você está febril. Vou pegar um antitérmico e pedir que alguém a leve de volta para casa. Volto logo. Espere-me aqui. - Obrigada. – O padre saiu enquanto eu olhava para aquela folha de caderno com curiosidade. Abri a página devagar e vislumbrei uma caligrafia bonita, rebuscada, escrita com tinta preta de uma caneta tinteiro. Meus olhos estavam embaçados e confusos pela sucessão de emoções e a pequena febre que começava a tomar conta de meu corpo. Apertei bem os olhos tentando focar o texto. Querida Jane, Não sei o que viu durante suas visões, mas tenho a certeza absoluta que foi o necessário para lembrá-la que sua vida tem um único objetivo: - Destruir a Sociedade Secreta do Dragão para sempre. Tudo isso que você pensa que sabe é só uma pontinha do grande iceberg dos acontecimentos. Jane, isso não é apenas literatura; isso não é apenas um bando de críticos que odeiam literatura fantástica, infanto-juvenil. Eu sei que você pensa isso, mas não é. A SSD é algo bem maior, mais cruel e mortífera.

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Você está vendo apenas o lado da literatura, posso até entender isso, mas não são apenas escritores e jornalistas que estão sendo assassinados Há um plano maior e você tem que se mexer o quanto antes. Faça o seu curso de literatura, ele é uma ótima fachada para sua missão, mas pesquise. Vá até a New York Public Library e procure. Lá você encontrará respostas. Confie na sua intuição e na força do seu dragão. Guardião sombra Dobrei a folha e coloquei rapidamente na minha bolsa. Estava confusa e precisava conversar com Robert. Teclei o número, mas atendeu apenas a caixa postal. - Robert, sou eu. Por favor, me ligue assim que puder. – Desliguei o telefone e fui levada para casa por uma mulher gentil que trabalhava na igreja.

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Capítulo 2

A

cordei no domingo sentindo uma sonolência fora do comum, o corpo estava exausto. A noite havia sido de pesadelos confusos. A imagem de Cadú morto e dragões me assombrando, agitaram-me ao extremo. Quando consegui abrir os olhos percebi que havia dormido na sala, aguardando por um telefonema que não veio. Tentei me mexer debaixo daquele edredom pesado e senti os efeitos de não ter dormido na cama. Precisava esticar as pernas e foi o que fiz, mas ao invés de alcançar o chão pisei em algo. Dobrei meu corpo para olhar e ele reclamou. - Antologia da Poesia Inglesa? – Foi então que um fluxo de emoções e lembranças do dia anterior retornou a minha mente. O café, a chuva, St. Patrick, a febre... Lydia, a gentil mulher que me trouxe para casa... Percebi que a febre tinha ido embora, deixando apenas uma moleza no corpo. Miss Lydia havia sido muito generosa. Além de me trazer para casa, fez um chá quente de especiarias e uma sopa com os vegetais que estavam na geladeira. Ela me fez tomar um banho quente, colocar um pijama e ajeitou-me no sofá com o edredom. Quando percebeu que eu estava bem acomodada me fez tomar a sopa bem quente, que por sinal estava uma delícia, beber outra xícara de chá e prometer que não sairia de casa. Lydia se foi deixando o número de seu celular caso precisasse. Apesar da promessa, eu estava agitada. Minha cabeça estava a mil por hora e precisava falar com Robert. Peguei o 26


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celular e liguei diversas vezes enquanto lia a Antologia de Poemas, assunto que estávamos discutindo em meu curso de Literatura. A febre e o cansaço venceram minha agitação e adormeci do jeito que estava. Não foi uma boa noite, mas consegui me recuperar. Precisava de um banho, uma xícara de café e pão. Foi o que fiz, me demorando um pouco mais que deveria no chuveiro. Vesti um roupão, me servi de café e abri a janela da sala para dar uma observada no dia. Raios solares refletiam-se nos vidros dos prédios vizinhos. Que lindo! Pareciam diamantes incrustados nos edifícios. Era poética a vista. Confesso que fiquei perplexa quando soube que ficaria instalada aqui, neste prédio. Acreditava que ficaria nos alojamentos da Universidade, como outros alunos, mas não foi o que aconteceu. Eles me informaram o caráter especial da bolsa, aliado ao trabalho que estava desenvolvendo aqui e me trouxeram para este lugar, a dez minutos a pé da Universidade. O apartamento é muito antigo, deve ser um prédio do século XIX. Ele não tem as tradicionais escadas de incêndio que passam pela janela, igual a que estamos acostumados a ver em filmes, mas como todo edifício em Nova York, havia as escadas externas. Não sou historiadora, mas gostaria de ter uma ideia da data em que este edifício foi construído, mera curiosidade. Foi quando lembrei que tudo em Nova York tem registro e assim que pudesse iria até a Biblioteca pesquisar. Por hora bastava saber que tinha sido privilegiada em estar aqui. O apartamento era pequeno. Uma sala de estar aconchegante já mobiliada com um sofá do inicio do século XX, mesa de madeira para estudos, TV, aquecimento. A cozinha era pequena também, mas bem equipada com eletrodomésticos. O 27


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quarto, esse sim, era espartano, apesar do colchão confortável. O lugar todo induzia ao trabalho excessivo e ao descanso mínimo. É claro que eu fiz perguntas, e acabei descobrindo que este lugar é usado exclusivamente para convidados temporários da Universidade, escritores residentes, professores e fiquei lisonjeada pela deferência recebida. Havia algo mais que me deixava confortada. Aqui eu não seria encontrada pelo bando da SSD. Quem informou que eu viria para cá, com certeza usou a palavra bolsista, o que tecnicamente me daria apenas o direito a um alojamento nos dormitórios da Universidade, junto a outros alunos. Eles levariam muito tempo para descobrir, já que a organização e sigilo eram características americanas extremamente apreciadas em momentos como esse. Olhei mais uma vez para o celular que não tocava e tomei uma decisão. Não aguentaria a tortura da espera aqui dentro, eu precisava sair de casa. Vesti uma bermuda clara e uma camiseta azul, coloquei um tênis e saí para uma caminhada até o Central Park. É claro que deixei um bilhete para Robert. Desci pelo elevador e quando pisei na calçada senti o calor do sol penetrar na minha pele, branca demais para uma brasileira. Eu precisava caminhar, tinha que resolver alguns enigmas que atormentavam minha cabeça. O primeiro e mais doloroso era o Cadú, meu irmão. Por mais que eu tentasse descobrir alguma coisa, nada parecia real. Talvez Robert me ajudasse nessa questão. O segundo assunto, bem, este seria mais difícil. Quem deixou o pergaminho no banco? Quem o tirou de lá? Que tipo de poder misterioso é aquele que me fez flutuar no passado? Por que alguém, em meio a Nova York me deixaria um pergaminho com poderes mágicos? Foi quando a história de Isaac retornou a 28


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lembrança. No entanto não fazia sentido. Os pergaminhos do poder haviam sido destruídos. - Será? – Falei comigo mesma enquanto me embrenhava na mata verde do central Park. Eu teria que fazer uma ligação para o Brasil assim que voltasse para o apartamento. Eu tinha uma outra questão, um terceiro enigma, este sim mais fácil. Havia alguém em Nova York preparado para me matar e se falhasse, com certeza Victória não falharia. Eu deveria tomar muito cuidado. O que eu precisava saber era de que forma ela soube que eu viria para cá? Estava ficando cansada e decidi parar. Estava na Bow Bridge e olhava o lago. Uma mulher estava em um estreito barco de competição remando vigorosamente. Seus cabelos soltos voavam ao sabor do vento. Aquela cena me trouxe um pouco de paz. Ali estava uma experiência que eu ainda não havia provado. Nunca havia remado, mas aquela mulher me trouxe paz naquele instante e isso me entusiasmou. Um coelho me distraiu por uns instantes e perdi a remadora de vista. Dei uma última olhada para o lago e já me preparava para voltar para casa quando meu celular tocou e eu dei um pulo assustada. - Alô – Falei sem ao menos olhar no visor, o que era hábito. - Jane, minha querida. – A voz de Robert tinha o poder de mil calmantes. Meu coração se aquietou enquanto me debruçava na mureta da ponte. - Você chegou? – Perguntei quase em um sussurro. Verdade seja dita, eu não estava mais aguentando ficar longe dele. - Não Jane – Meu coração parou enquanto ele falava. –, ainda estou aqui. Choveu demais e não consegui terminar o 29


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trabalho. Meu celular pifou e passei o dia todo esperando por uma luz para fotografar e nada. Acreditei que hoje conseguiria, mas o dia está fechado e terei que ficar pelo menos até amanhã. - Ah! – Foi só o que consegui dizer já com os olhos cheios de lágrimas. - Jane – A voz de Robert parecia preocupada. –, aconteceu alguma coisa? Têm pelo menos umas vinte chamadas suas no meu celular. – Ele parecia cauteloso. – Você está machucada? - Não. – Respondi com o resto de firmeza que minha voz conseguia manter. Sentei-me no chão recostada na mureta por que percebi que não aguentaria muito tempo em pé. - Eu conheço você. Pode me dizer o que está acontecendo? Foi a deixa para que eu desabasse a falar, entrecortada pelas lágrimas que estava retendo dentro de mim. Contei sobre o Cadú, o Ted, a chuva, a febre, os sonhos. Só o que ouvia do outro lado da linha era um sussurrar de concordância. Eu precisava falar, e já não estava me importando com as pessoas que passavam e olhavam para mim como se eu estivesse doente. Não sei quanto tempo passou, quando parei tive a sensação que ele havia desligado. - Robert? - Eu ainda estou aqui, minha querida. – A voz dele estava diferente, triste, alguma coisa que não sabia identificar, mas que me alertava para mais um segredo que seria revelado. Eu teria que suportar. Prometi a mim mesma que relevaria o passado dele, mas com certeza, desta vez era algo que envolvia meu irmão. – Ouvi tudo. - Você sabe alguma coisa sobre isso? - Jane, há tempos venho pesquisando sobre a morte de seu irmão. Antes de romper com a Sociedade fiz algumas 30


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perguntas para os meus contatos, e a única coisa que descobri é que seu irmão sabia demais e foi morto para que não revelasse segredos. - Segredos? – Gritei no telefone. – Você quer dizer que Cadú morreu por minha causa? - Acalme-se Jane, não adianta se desesperar. Eu não tenho certeza disso, pode estar certa, mas não consegui descobrir nada que ligasse você, o Cadú e a Sociedade Secreta. - Robert. – Minha voz estava seca demais. – Eu sei que ele morreu por minha causa. Lembro-me de cada palavra que disse antes de sair para a estrada... - Você – Interrompeu-me. –, não pode ter certeza. Nem eu tenho... - Tudo bem, mas vamos descobrir. - Agora me diga, você está melhor mesmo? Acabou totalmente a febre? - Claro. Se fosse diferente não estaria no Central Park... - Onde você está? – Robert parecia horrorizado. - No Central Park, mais especificamente na Bow Brigde. - Jane, por favor, volte agora mesmo para o apartamento, ou vá para um restaurante, café, sei lá, mas saia daí. - Por quê? – Eu era muito teimosa. - Um dos pontos de encontro dos membros da Sociedade Secreta do Dragão de Nova York é exatamente aí, no meio do Central Park. Se estiverem procurando por você, este é o último lugar que você deveria estar, entende? Um tremor perpassou no meu corpo e pedras de gelo percorreram minhas costas, só de imaginar o risco. - Jane, pensando bem, não vá direto para o apartamento. Vou te dar o endereço de um restaurante que tem uma saída pelos fundos. Vá até lá, almoce, pague a conta e siga até o 31


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banheiro. Deixe alguma coisa na mesa, um jornal por exemplo. Entre no banheiro para disfarçar, mas saia imediatamente pela porta lateral que há nele. – Seguiu explicando uma sucessão de disfarces que me colocava mais uma vez em uma trama de ação. Despedimo-nos com beijos e com a promessa que eu ligaria assim que chegasse em casa. Foi o que fiz, rindo da aventura. Na manhã seguinte acordei cedo e fui para a Universidade. Assisti a aula um pouco aérea, estava pensando única e exclusivamente no que faria a tarde, logo após o curso. Ouvi muita poesia, senti emoção, mas fiquei devendo um pouco na compreensão dos textos. O inglês ainda não estava perfeito, mas não era para estar mesmo, dezessete dias aqui não me davam o direito de reclamar da minha fluência. Mas eu sou impaciente, e esta mania de ser perfeita é totalmente corrosiva. Saí pouco antes das três da tarde e segui direto para o meu destino - New York Public Library. Nem percebi o tempo passar, até que cheguei diante daquele edifício histórico, com suas escadarias e um leão que parecia me desafiar a descobrir qualquer coisa que devesse manter-se escondida. - Eu vou descobrir. – Falei alto em português bem em frente ao leão como a desfiá-lo. Ele pareceu não gostar muito e lá no fundo, eu tinha dúvidas quanto a minha capacidade de achar o que estava buscando, mesmo assim entrei. Achei a bibliotecária muito rapidamente. Fui orientada a fazer uma busca pelo catálogo eletrônico, e foi o que fiz. Assim que me assentei em uma das mesas do salão principal de leitura, liguei meu notebook e comecei a busca. Não tinha a mínima ideia por onde começar e fui digitando palavras: dragão, magia, 32


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alquimia, lendas chinesas e a quantidade de volumes, manuscritos era muito grande. Fiz anotações de alguns que talvez pudessem interessar e solicitei a bibliotecária. Minha surpresa foi a rapidez com que eles chegaram a minha mesa e a minha decepção, quase na hora de fechar a biblioteca, era que não tinha evoluído nada em minha busca. Não tinha encontrado uma palavra sequer que me ajudasse a entender o que estava acontecendo comigo. Desolada, desliguei o computador, devolvi os volumes e saí da biblioteca. Já era noite e passei de cabeça baixa pelos leões, que a esta altura deveriam estar rindo da minha derrota. – Mas, o que é que estou pensando? Enlouqueci? Corri para casa por que a esta altura, Robert já teria chegado e começaria a entrar em pânico imaginando qual membro da ordem havia me capturado. Parei para comprar queijos, macarrão e uma garrafa de vinho. Quando cheguei Robert estava pálido me esperando com o celular nas mãos. - Posso saber onde você estava e por que seu celular está desligado? – A voz dele era de quem estava muito zangado, irritado, prestes a explodir. Só que meu lado independente falou mais alto e piorei a situação. - Desde quando você controla a minha vida? - Desde o dia em que – Ele respirou fundo para não ter um treco – uma Sociedade Secreta se interessou por você, ou a senhorita esqueceu-se que fui escalado para te matar? Um frio percorreu minha espinha e não respondi nada. - Jane – Ele me olhou dos pés a cabeça como se avaliasse os estragos. Quando viu que não havia nenhum arranhão, suspirou fundo e baixou o tom de voz. – Meu Deus! Eu procurei por você em todos os lugares, fui até o curso de inglês e você não havia aparecido por lá vim até aqui e o porteiro disse que você 33


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tinha saído pela manhã e não havia voltado. Fui a sua livraria predileta, ao Starbucks, ao Central Park. – Colocou as mãos nos olhos como em desespero. – Eu estava ligando para o Brasil para pedir ajuda do Ted. Jane – Cravou os olhos desesperados em mim. –, eu fui a todos os lugares e você não estava em nenhum deles, pode imaginar o que senti? Levantei as duas sacolas de papel em um gesto de rendição. Não estava acostumada a ser controlada, a ter que dar satisfação de tudo o que fazia, mas não podia negar que estava orgulhosa do sentimento que havia causado em Robert, não o desespero, é claro que não, mas o significado disso, o amor que ele demonstrava com este sentimento. Eu precisava me explicar, não sabia por onde começar, então tirei o vinho da sacola e mostrei para ele como se nada tivesse acontecido. - Comprei este vinho para nosso jantar e nesta sacola aqui tem macarrão e queijo. Você acha que isto basta para nós dois? Robert começou a me olhar de uma maneira estranha, uma mistura de raiva e amor. Ele não queria ser vencido assim, sem nenhuma explicação. E, para dizer a verdade eu não o deixaria sem explicação, apenas queria que ele se tranquilizasse. Afinal, eu estava lá, sã e salva. - Jane... Interrompi o que ele ia falar com um beijo. Para meu espanto ele me afastou tão logo conseguiu segurar seu desejo. Eu precisava usar de todo o meu carinho para acalmá-lo. - Robert, você não me procurou no lugar mais óbvio, no único lugar que eu poderia ter ido hoje. – Olhei bem nos olhos dele. – Na New York Public Library. O rosto dele se desmanchou no mesmo instante. Eu vi um esboço de sorriso e fui sufocada com um beijo acalorado, 34


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repleto de desejos, cercado de sensações, mas que para variar só um pouquinho não foram realizados. - Eu quase morri só de imaginar.... - Que alguma coisa tinha acontecido? - É. - Ele balançou a cabeça enquanto pegava as duas sacolas da minha mão para ver o que tinha dentro. - Por mais incrível que possa parecer – Era incrível para mim aquela constatação. –, ainda não chegou a minha hora. Sinto isso. Eu sei que preciso resolver um mistério e enquanto não fizer isso, estarei a salvo. Depois... bem, depois fica para depois. - Por que a constatação era triste demais para que me expressasse sem uma crise. - Cada vez eu te compreendo menos. – Ele disse com tristeza nos olhos. - E eu – Esbocei um sorriso. – Cada vez te amo mais. Foi a senha para que ele me puxasse para perto e depositasse, um a um, beijos deslizantes em meu pescoço. Uma corrente elétrica percorreu nossos corpos de ponta a ponta e, se não fosse as duas mãos ocupadas de Robert, tenho certeza que minha noite teria sido hoje. Mas, não foi. Fizemos o jantar, conversamos muito, ele me ajudou nas poesias e a meia noite foi embora, não sem antes me deixar maluca de desejos. Dormi sonhando com eles.

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A SOMBRA DA MEIA NOITE  

Primeiros Capítulos do segundo livro da trilogia Literatura & Champanhe.

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