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ORINHA Por SonÍiIl Leal Freitas IM.lt'". ....... _

o

a mocidade, Dôrinha guarda o branco do sorri-

so e o preto dos cabelos. Aos quase quarenta anos. sua pele enrugou no canto dos olhos, as mãos estao deformadas pela soda cáuslica do sabáo e as ancas, outrora volumosas. estão descarnadas, sem movimentos. Do que faz sofrer, tem tino e experiências vá·

rias. Foi criada em casa de rico Foi enganada (enganada mesmo, que no seu tempo as meninas

não sabiam de nada) nos braços do primeiro homem que fez seu pelo arrepiar e lhe tirou o sono da

mocidade, lão f artol Grávida, foi obrigada a sair da casa do patráo: "Tem lugar pra menino aqui, não". Foi aí, quando

lhe disseram que Amelinda, uma mulher gorda de beiços quase pretos, dava guarida a moças em dificuldades. Foi lá. A dona da casa, esparramada numa cadeira de palhinha, disse-lhe sem delongas em que consistia o serviço da "pensão". Quis recuar. Mas, como? Tinha medo da fome e do filho que ia nascer. Ficou e aprendeu depressa o novo ofício.

Quando a criança natimorta desocupou seu ventre, já linha conhecido dezenas de homens diferentes e suas extravagâncias com o sexo. Nao sonhava com eles, no entanto, nem seus pêlos se arrepiavam mais. Seu corpo estava usado, sua alma parada co-

mo água de chuva que fica empoçada esperando que o sol do estio venha seca-Ia. Ali, viveu anos. Pegou gosto pelo cigarro e pela bebida. Ouvia suas companheiras viciadas, junto com ela, maldizerem a vida. A Igumas morriam de doenças horrorosas. Outras até se matavam. Havia aquelas que brigavam por uma paixão impossível e daí, assistiu algumas vezes, brigas apoiadas no brilho mortal das lâminas que se chocavam e se man· chavam de sangue. Um homem apareceu certa vez e voltou j:xm· tualmente, durante uma semana, todos os dias. Não falava muito. Seu dinheiro era .marrotado no bols.o. E, antes de se jogar na cama, contava e recontava as notas, talvez para estar certo de que podia pagar. Depois, sumiu. Dõrinha, que ja estava se acostumando com seu jeito de ntio exigir muito,

senliu f alla. Sabia, por outro lado, que não devia esperar que ele voltasse. Mas ele voltou. E sempre sem falar muito, disse: - Olhe, tenhou uma terrinha. Se você quizé ir comigo, toma de conta da casa ... - Eu sou uma puta, seu moço. Meu lugar é aqui, purque quem mi quer, sabe quem sou, recrama. Mas ai, pelo mundo, as pessoa tem nojo de mim, vão inté mangar do sinhõ ...

DH CULTURA - fo,t.lfu, Domu.o. O'l de iunho •

1915

n",.

Os argumenlos de poucas palavras, na boca p , quena daquele homem, ler minaram por convencê' la. No dia da viagem, ela s foi numa roupa de algo, dáo eSlampadlnho Na barra ·da sala. um babado franzido fora pregado com zig'zag amarelo Com Clarice, companheira de rosto ainda menl' no, deixou O pó de arroz e o extraIo forte Para TOI' nha a saia de lafelá vermelho e a blusa de renda

br a~ca que usava nas noites de carnaval Zull, ar·

dendo em feire, ganhou uma cruzlnha d lal30 e uma eslampa de Nóssa enhora. láo linda. Menino Jesus nos braços I Rel'lquia da mfSncla longe, es, quecida.

Acha estranho ler uma cas. sua CailnhOl no terreiro pondo ovos vermelhos. os pintinhos nas·

cendo, o xerém posado no pilão, debaIXO da laqu Ira Um canteiro de cebolmha e coentro aguado de manhãzinha Tirar massa de arrOl e mIlho para o cuscuz. Braças de tripa sopradas para encher com carne de porco e toucinho temp~rados com mUita pimenta·do-reino. Quando o dia começa a entornar em noite, é bom ficar sentada no tronco grosso da porteira, empurrando a cancela prum lado, pro ou-

tro, prum lado, pro outro Seu homem chega tarde, quando lá inundam o céu lodas Ol ",trelas, desarrumadas e brtlhant"'. Gosta de apontar para elas. Dá verruga, dizem Mas aponta Quer ver se dá mesmo... Apenas o sereno lento e frio, muda-lhe o mOreno das máos. Olha em volta a nOite densa em seu negro<. brinca de te, medo do "'curo e volta ao terreiro da casa, correndo com os olhos fechados, e vai acender as biblanas nas chamas da fogueira. As noites acontecem lentas e boas Comida

quente na mesa. Ferro de brOla desdobrando as rugas da roupa do seu homem As má05 hábeis d",torcendo os punhos da rede. Quando ele a quer, ela vai com muito agradecimento, relembrar lições an-

ligas que agradam a qualquer homem.

t

como sabe

repor a oportunidade de ser limpa outra vez, de não ter vergonha de estar no mundo Com tempo, o seu homem tornou-se quertdo para ela, num querer manso, sem qualquer arfar no peito, COisa que sentira hã muito tempo, nas primeiras ânSias de ser

mulher Ainda acha eslranho que ele fale láo pouco,

O amigo do .eu homem chegou com o Inv rno daquele ano Era mais moço e mais forte Falava com la sobre as terras por ond tInha andado Moslrava, A luz das Iam pari nas, un. r ralm coloro· dos d lare,as. de ,ardlns águas ",pumando sobr areia branca. qu I chamava de mar COSlava d se perd r d ntro dos olhos dei Eram alegrei e n30 auardavam como m do .eu h0mem. lembrança dos t mpos em que. dItava d oficio nas cama. de O, Amei nha Naquel", olho•• ela náo linha passado Podia, ali, começar a ",ver FOI lalvez por Isso que seu pilo voltou a arrepiar O arfar do pello. sufocando. levantando a blusa, por dentro, na altura do pello ",querdo O amlao do seu homem nOlou Respond u com sentimento Igual

a primeira v~z que um provou

do corpo do outro, Ollronha voltou. numa emoçáo prof unda, aos lempos da casa do palr30, ao seu prl' meoro gemIdo de fêmea Quando ludo veIo a descoberto, .eu homem chamou-a e ao amIgo áo tInha nada conlra Ela era uma boa mulher para CUidar da COla e para se dellar com ele Sem lUla, sem amoudei "mexeroquenlOl" Ma. era bom combonarem bem as COIJM Cada um trtla o seu dia com ela E os doIS, de comum ocordo, d,VIdiram o tempo e a mulher OOronha vive a'Slm CheIa de aratld30 por seu homem, redescobre o amor com o amlto forOlt"'ro. No enlanto, embora o amlao trabalhe com o seu homem na me1ma roça e venha comer e dormir sob

a palha do meimo teta. ,amais se deu • ele entre aquelas p",ecl", Sua alcova de amor ~ debaIXO dOl estrelas. diVIdindo o lello com o mato da chapada Um dia d",sei. seu homem Petl0u um. febre de mau leito. Ela focou. o dia todo. fazendo caldos e c hás. E.queceu de alinhar os cabelos e de abOlo", a blusa O amiao. quando chellOU, vlu-a ardente. noquele deiallnho, arfando de cansaço Mas ao lomá-Ia conslao. elo reaa'u - AqUI. 11.10 ' Também num é seu d,a' t d,a do

meu

hom~ ...

- Mais ele lã duente. - SIm, ma" o dia é dele O senhor fa" favõ de

não puxe conversa. Mas não reclama Que direito

esperar sua veis, que num s6 muié de ensaná aque"les Que me estima Mermo, ficou combinado assim

tem? Basla-Ihe a casa limpa, O cabelo lavado, reluzindo com banha de galinha derretida e ganhar, lo-

Cada um linha o seu dia Meu bem querer pelo senhõ é grande. inté Mais é na casa dele que VIVO

do fim de ano, uma peça de morim para fazer rou-

pa de dentro.

ÓIS

num vamo, por onde

bonado .

ISSO,

dlscomblná o com-


Dorinha