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Sumário I - Introdução II - Capítulo 1 - FAÇA 1 - Aceite a vida por inteiro 2 - Perdoe 3 - Seja feliz agora 4 - Mantenha-se conectado 5 - Deseje o bem de outras pessoas 6 - Deixe-se contagiar 7 - Amor, o nutriente essencial 8 - O sorriso que vem do coração 9 - Ajude os outros a terem sucesso 10 - A emoção da gratidão

III - Capítulo 2 - NÃO FAÇA

1 - Não faça tempestade em copo d’água 2 - Não faça nada contra você 3 - Imitação barata dos outros 4 - A mochila cheia de problemas 5 - Muita comparação – muita insatisfação 6 - A nuvem não é o céu 7 - Desça do pedestal 8 - Um bom estoque de raiva 9 - A porta que se fechou 10 - Pare de parar

IV - Capítulo 3 - TRANSFORME

1 - Pessoas fazem coisas que não gosto 2 - Uma família muito pequena 3 - A riqueza do cotidiano 4 - O elevador da felicidade está desligado 5 - Acredite em si mesma

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INTRODUÇÃO

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maginei um manual prático para ajudar as pessoas a aumentar a sua felicidade, e optei por um modelo consagrado em várias práticas, que é o FAÇA-NÃO FAÇA. O primeiro capítulo dedico às coisas que devemos fazer mais; e, se você não faz nada, já é hora de encontrar mecanismos para iniciar. São atitudes e iniciativas que funcionam como andar de bicicleta: basta dar as primeiras pedaladas para se entusiasmar e sair fazendo mais. Incluo aqui o amor, a generosidade, a aceitação e o perdão, dentre outros. O capítulo seguinte foi reservado às coisas que devemos eliminar ou mesmo reduzir drasticamente do nosso elenco de atitudes e ações, tais como a inveja e as comparações. As atitudes elencadas neste livro não são exaustivas e você deve usar a sua experiência pessoal para elencar outros tantos e fazer do seu crescimento pessoal uma escolha, uma determinação. No último capítulo, que escolhi chamar de TRANSFORME, selecionei alguns pontos que não queremos incluir ou mesmo eliminar, mas sim modificar, transformar para melhor, pois não vamos viver sem eles. Porém, temos o péssimo costume de errar a mão. Entre esses temas estão o medo, a ansiedade, o individualismo, o arrependimento e as expectativas. A felicidade pode nos encontrar com mais frequência se nos distanciarmos de alguns hábitos tóxicos e nos aproximarmos de hábitos virtuosos. O caminho da felicidade é uma escolha de cada um, e algumas pessoas simplesmente escolhem percorrer o trajeto do exuberante materialismo, e acabam por chegar ao final da jornada em algum destino indesejável. Quero deixar então, esta pequena contribuição para que você possa percorrer o trajeto da vida com mais desenvoltura, feliz e pleno de sentido, evitando incorrer nas duas decepções do ser humano: descobrir que a velhice chegou muito cedo e a sabedoria tarde demais.

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CAPÍTULO 1 - FAÇA

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ecomendo que você faça, insistentemente, o que escrevo neste capítulo, dedicando tempo e energia a tudo que ele se refere, amando mais as pessoas, todas elas, e cada um ao seu modo: o amor romântico, o amor companheiro, a amizade calorosa e a afeição do fundo do coração, mesmo quando dirigida a pessoas que você mal conhece. Seja uma pessoa generosa, querida e desejada em todos os meios, cerque-se de amigos e familiares em todas as ocasiões, ajudando sempre que possível, oferecendo ajuda mesmo quando não solicitado. Aprenda que a ajuda pode ser oferecida sem qualquer valor material, quem sabe um ombro amigo, ouvidos generosos, um abraço para quem se encontra em sofrimento. Perdoe mais, julgue menos, e encha-se de coragem mesmo que o medo não o abandone. Coragem não é ausência de medo e sim a capacidade de agir a despeito do medo, que é, na verdade, um presente genético que recebemos dos antepassados. Precisamos do medo para sobreviver. Seja grato por tudo o que a vida tem-lhe oferecido, e não dispense nunca a alegria de conviver calorosamente com todos. Exercite a capacidade de se regozijar no sucesso dos outros e no sentimento de compaixão daqueles que experimentam a dor. Compreenda os outros, coloque-se no lugar do outro ao invés de sair criticando a torto e a direito, exercite a empatia. Sobretudo, goste de si mesmo e não descuide da saúde. Aja com honestidade e generosidade consigo mesmo, saboreie a vida e esteja satisfeito com a pessoa que você está se tornando. Seja determinado e nunca deixe de agir para tornar o mundo melhor, tornar-se uma pessoa melhor, um dia de cada vez.

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1 - Aceite a vida por inteiro

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vida é um pacote completo. Temos coisas boas e coisas ruins, e temos que aceitar a vida com tudo isso. Há tanta coisa em nossa vida que desejaríamos não ter, mas muita coisa é inevitável, e ficar reclamando não vai adiantar nada. Não fique lutando contra aquilo que você não consegue mudar. Desista de dividir a vida em momentos bons e ruins. A vida não é como um biscoito que você pode comer só o recheio e jogar o resto fora. Não dá para ficar só com a cereja do bolo. Cada momento ruim ensina-lhe uma lição para enfrentar a vida melhor. Cada momento ruim ensina-lhe a valorizar os momentos bons. Muitas coisas acontecem em nossa vida como uma moeda de cara e coroa. Os chineses explicam que tudo tem os dois lados – yin e yang – que fazem parte inalienável do mesmo ser. Negar aquilo que não gostamos ou lutar contra aquilo que não podemos mudar é sempre um desconforto adicional. Se você concentrar a sua energia emocional para lutar contra as lembranças ruins e refugar os maus momentos, vai faltar energia para aproveitar tudo o que tem de bom na sua vida. As dificuldades aparecem e, às vezes, parecem querer nos derrotar; temos que aprender a pedir a ajuda adequada e pedir iluminação para os passos inseguros que estamos por empreender. Aceitar a vida por completo ajuda você a lidar melhor com as frustrações inevitáveis e experimentar a alegria nas realizações vitoriosas. Viva a vida com alegria, e aprenda a reconhecer as coisas boas. Se você gosta de fazer um balanço da vida, com pontos positivos e negativos, faça-o de coração aberto, e se dará conta de tanta graça recebida. O nosso trajeto não é feito só de acertos, e mesmo os erros carecem de aceitação. Sem errar, não vamos aprender muita coisa. Não devemos pedir uma vida sem erros, pois isso pode significar uma vida medíocre. Mas errar não é tudo, é preciso aprender. Há um ditado popular que 5


diz: “Sempre que cair, ao se levantar apanhe alguma coisa do chão”. Isso quer dizer que devemos sempre tirar alguma lição de nossas quedas, dos nossos erros. Não devemos olhar onde caímos, mas sim onde tropeçamos. A mente fixa no evento negativo nos tira o olhar das lições que vêm embutidas. Saber lidar com as bolas quadradas que recebemos de vez em quando é muito importante, e se elas vierem em grande quantidade, temos que lutar, aceitar e não desistir jamais. A vida é cheia de altos e baixos, mas vamos sobreviver e, no final, tudo vai ficar bem. Quando estamos em queda, a única coisa que enxergamos é o chão, mas temos que ter em mente que num outro momento vamos nos levantar, e o nosso olhar merece ser desviado para o futuro. Se caminharmos com o olhar baixo, desanimados, vamos enxergar apenas os buracos da estrada. Precisamos levantar a mirada, focar o horizonte mais largo para enxergarmos aquilo que a vida nos oferece, o amanhã que nos está reservado. Alguns eventos nos impulsionam para frente, outros incidentes nos puxam para trás, mas se atentarmos para o quanto já evoluímos, não há razão para sermos tomados por tanto pessimismo. A vida é cheia de oportunidades, mas precisamos estar animados para perceber. Alivie o seu senso crítico e pare de ser tão duro quando analisa a própria vida. A vida é boa, a despeito de tantas adversidades, conflitos e dificuldades. O resultado é sempre positivo, e os reveses sempre nos deixam lições valiosas. Às vezes fica difícil avaliar o certo quando estamos no meio dos conflitos, mas deixe a coisa distanciar-se um pouco. Não devemos parar para lamentar algum plano mal sucedido. Temos que aprender a lição sim, mas ficar indefinidamente lamentando vai comprometer o nosso futuro. Temos sempre uma tendência a prestar atenção ao que acontece de errado com a gente. A nossa mente é assim, funciona como teflon para as coisas boas e como velcro para as coisas ruins. Sabendo disso, preste atenção em tudo o que está certo, em tudo o que está no lugar correto; a saúde, os relacionamentos, o emprego, os projetos 6


de vida, aquilo que você planejou e realizou hoje. Peça apenas pelo discernimento para saber o que é certo e o que é errado. Peça pela coragem para seguir adiante, a despeito das dificuldades. Quando aceitamos aquilo que não temos controle, aliviamos o nosso sofrimento. A vida é boa, verifique você mesmo, acredite e seja feliz.

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2 - Perdoe

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ratique o perdão; ele é um ato de amor consigo mesmo. Podemos até achar que estamos fazendo um favor à pessoa a quem estamos perdoando, mas é justamente o contrário. Quando perdoamos, nos livramos dessa carga negativa e desnecessária. É impossível evitar que algumas pessoas nos causem dor, mas podemos trabalhar firmemente para minimizar este sofrimento autoimposto, e o perdão serve como antídoto. Disse Bob Marley que todas as pessoas vão impor-lhe algum sofrimento. Você precisa encontrar as pessoas que fazem valer a pena o sofrimento. Temos que nos livrar do sofrimento desnecessário, e aí vale aquela máxima de que a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional. Temos que descartar o sofrimento desnecessário e transformar o sofrimento inevitável. Você não precisa ser amigo da pessoa, reatar o relacionamento, nem gostar da pessoa a ser perdoada, nem contar para ninguém que lhe perdoou. O perdão não quer dizer fazer-se de capacho e aceitar maus tratos ou atos condenáveis. Perdoe de coração, de cabeça erguida, e, se for necessário, afaste-se dos ofensores. Não queira mudar os outros. Ninguém é perfeito, e devemos aceitar as pessoas como são, mesmo que não voltemos a nos relacionar com elas. Assim como o outro não é perfeito, lembre-se que você também comete erros e vai querer ser perdoado. Não podemos evitar a dor de ser traído ou maltratado, mas podemos, sim, evitar que essa dor faça morada no nosso coração, perpetuando o sofrimento. Estabeleça um retardo entre a suposta ofensa e a sua indignação. Não se deixe impactar sem que um espaço de tempo sirva de colchão, amortecendo o estrago emocional. Com um pouco de retardo, o perdão pode entrar em cena e tornar esse evento insignificante. Até que ponto isso tem importância? Qual a importância que isso vai ter daqui a uma semana, um mês? Evite que as ofensas lhe afetem rapidamente. Não deixe a temperatura da água elevar-se de repente.

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Mas é bom saber que o verdadeiro perdão pode restaurar relacionamentos, e isso é um bônus valioso, pois além de praticar um ato de amor consigo mesmo você tem a chance de ser generoso com outra pessoa. Não somos perfeitos e não devemos cobrar isso de outras pessoas. Quando aprendemos a perdoar, nos damos conta de que nos ofendemos e nos decepcionamos com os outros por coisas sem a menor importância. Não devemos perder a oportunidade de ajudar o outro a perdoar. Quem já fez o percurso e aprendeu algumas técnicas boas para perdoar deve ensinar o outro, sempre que a situação permitir. A pessoa ofendida deve percorrer esse processo devagarinho, sentindo, dia após dia, um pouco do processo de cura, um distanciamento gradativo da ofensa, e não necessariamente do ofensor. Ao conseguirmos separar a ofensa do ofensor e focar a nossa atenção na ofensa, reduzimos o efeito negativo na nossa autoestima, que nos faz sentir diminuídos por perdoar. Temos que assumir o perdão como um ato individual, praticamente sem desdobramento para a pessoa perdoada, a não ser que você escolha expressar o ato de perdoar. Podemos perdoar uma pessoa e nunca falar com ela, nem dar a ela o conhecimento do perdão e, por mais estranho que possa parecer, isso é suficiente. O perdão transforma a nossa relação com a ofensa, sem que seja necessária uma mudança no relacionamento com a pessoa que nos tenha ofendido. Quanta coisa do passado aparece na hora errada para nos assombrar, trazendo a culpa, a raiva e o ressentimento! Temos que nos livrar dessa sensação, praticar o perdão, não só para os outros, mas também para si mesmo. Inevitável revisar o passado e o valor benéfico é indiscutível quando rememoramos fatos alegres e realizações. Mas o passado tem o péssimo costume de vir travestido de pensamentos negativos sobre os outros e sobre si mesmo. As lembranças positivas e negativas devem receber tratamentos distintos. As positivas saboreadas, e as negativas sublimadas. As correntes negativas que nos atam ao passado devem ser quebradas com a culpa, o arrependimento e o ressentimento, pois eles fortalecem 9


as amarras que nos atam às tristezas do passado e azedam o nosso presente. Temos que nos colocar como senhores do nosso perdão e evitar, definitivamente, a tentação de colocar condições – só vou perdoar se ele se arrepender – só vou perdoar se ele pedir perdão. Quando colocamos condições externas, colocamo-nos também como escravos, e vamos ficar indefinidamente acorrentados. Mas, o que dizer de tratamentos injustos que sofremos seguidamente, companheiras autoritárias, chefes e supervisores que nos impõem um estresse desproporcional? Tolerar é uma coisa distinta, e pode não ter nada a ver com o perdão. Temos que levantar a cabeça, colocar limites e aprender alguns mecanismos para não prolongar, indefinidamente, o sofrimento imposto por outras pessoas. Há casos em que o algoz nos faz sofrer deliberadamente, e isso não podemos aceitar. Há pessoas difíceis, e podemos até pensar, impossíveis de se perdoar. Como perdoar alguém que nos causou mal e deseja que o nosso mal se agrave? Como perdoar alguém que não dá a mínima se o perdoamos ou não? Como perdoar alguém que nutre por nós um profundo desprezo, mesmo depois de nos causar algum mal? Dizem os especialistas que, a despeito de tudo isso, seremos favorecidos se conseguirmos perdoar. Não há a menor dúvida de que o perdão, quando acompanhado de reconciliação, é facilitado, mas nem sempre isso é possível. O perdão quase impossível assemelha-se a um ato de heroísmo. Temos que nos mirar nos exemplos de Nelson Mandela e do Papa João Paulo II. Em ambos os casos, perdoar não significou aprovar os atos cometidos, mas uma grandeza da alma, uma libertação para si mesmo e para o povo que representam. Mandela foi confinado por 27 anos na prisão e, ao sair, perdoou quem infligiu a ele tanto sofrimento e colocou a paz do seu povo acima do seu próprio orgulho. O Papa, por sua vez, foi alvejado e quase morto por Ali Agca, a quem ele visitou na prisão e o perdoou. O perdão pode parecer impossível, mas temos que pensar na nossa 10


própria libertação. Seja gentil consigo mesmo e aceite a dor para minimizar o sofrimento. Não resista, não culpe, não se revolte e deixe passar. Não se faça de vítima, não tenha pena de si mesmo. Você vai sobreviver. Quando você perdoa, diz “não” para as lembranças tristes de tudo o que aconteceu, evitando que isso continue machucando-o.

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3 - Seja feliz agora

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tempo de ser feliz é agora, mas o que nos parece tão evidente acaba se perdendo num comportamento repleto de desculpas e adiamentos, o que temos de evitar. É muito comum as pessoas adiarem a felicidade para quando se casar, tiver filhos, aposentar-se, conseguir a casa própria, e assim por diante. Por outro lado, muitos se encontram atados ao passado, especialmente aos eventos negativos, perdas, arrependimentos e mágoas, que acabam se transformando em desculpas para a infelicidade. Temos que fazer as pazes com o passado e seguir em frente. A vida pode ser explicada olhando o passado, mas deve ser vivida olhando para frente. Uma figura muito interessante para entender o foco que temos que dar ao momento presente é a da ampulheta, que mede o tempo pelos grãos de areia que passam pelo gargalo: os grãos de areia que estão na parte de baixo não retornarão para a parte de cima, e representam o seu passado. Os grãos na parte superior representam as oportunidades e as possibilidades com que a vida pode agraciá-lo, e a sua vida acontece e se realiza exatamente quando o futuro vira passado, nesse exato momento em que o grão passa pelo gargalo da ampulheta, onde deveria estar o seu foco. Quando estamos com a mente totalmente tomada pelas assombrações do passado e as preocupações do futuro, perdemos a chance de saborear a vida enquanto ela transcorre neste exato momento. Ser feliz hoje passa por libertar-se das amarras do passado e amenizar a ansiedade em relação ao futuro, criando, assim, condições para focar naquilo que acontece no momento presente. Ficamos muito preocupados com coisas que não irão acontecer no futuro. Desejamos o nosso melhor, mas a incerteza traz-nos a insegurança e o medo de tragédias, fracassos e contratempos, mas o futuro é melhor que qualquer passado, como escreveu Pier Paolo Pasolini, e temos que acreditar nisso. A ansiedade e o medo do futuro podem levar à estagnação, procras-

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tinação e insatisfação com a própria vida, e é um círculo vicioso: quanto mais estacionamos, mais nos afundamos. Não raro, deixamos a nossa mente vagar indefinidamente por coisas improváveis e remotas e, ainda que isso possa servir para uma descontração, não nos ajuda a focar naquilo que estamos realizando no momento, ações que podem efetivamente mudar a nossa vida. O cotidiano pode também, com muita facilidade, colocar-nos em piloto automático, correndo atrás da agenda apertada, problemas intermináveis e fontes de estresse de toda sorte. O resultado disso é que passamos tão correndo pela vida que perdemos a paisagem, deixamos de apreciar o melhor da vida, aquilo que transcorre entre um objetivo e outro. A recomendação segura é reduzir a velocidade, simplificar a vida, livrar-se de compromissos inúteis e improdutivos, permitindo-se saborear a vida em todos os aspectos. A falta de concentração naquilo que estamos fazendo também nos impede de apreciar a vida, e uma ilustração que nos serve agora é quando estamos no restaurante, e nem bem terminamos a entrada já pensamos no prato principal, e quando este chega, já pensamos na sobremesa. Temos que saborear cada etapa da vida, dar o melhor de si, cultivar e apreciar a amizade e o amor dos amigos e familiares. Na correria, perdemos os detalhes do nosso trajeto, perdemos o sabor, perdemos a própria vida. Sabemos que o planejamento que fazemos da vida projeta-nos para o futuro, mas a realização de tudo isso só é possível neste exato momento em que a vida se concretiza em cada ação empreendida. As metas são importantes, o objetivo final conta muito, mas a vida transcorre enquanto perseguimos uma meta ou outra. Deixe o passado no passado, e não fique tão obcecado com o futuro. Saboreie a vida neste exato momento, dê graças por tudo de bom que tem acontecido e evite que coisas sem importância contaminem o seu cotidiano.

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4 - Mantenha-se conectado

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antenha-se conectado com as pessoas, e não me refiro aos milhares de seguidores nas redes sociais, mas às amizades verdadeiras, à rede de amigos e familiares que se alegra com suas realizações e o apoia de verdade nas suas adversidades. As empresas de saúde não se cansam de enfatizar a importância dos bons relacionamentos na saúde das pessoas. As pessoas que se mantêm perto de amigos e familiares estão mais protegidas de doenças crônicas e serão ajudadas rapidamente numa eventualidade. Nos tempos de redes sociais, as pessoas compartilham uma ilusão de conexão quando, na verdade, estão isoladas em meio a uma floresta imensa de plantas sem nome, frutos questionáveis e flores virtuais. Pessoas que não se encontram pessoalmente e mal se conhecem, um codinome, uma sigla, e nunca uma alma de que se possa aproximar, um coração que possa acolher. Estudos têm indicado que noventa e cinco por cento da comunicação social são compostos por elementos não verbais, gestos e, especialmente, expressão facial, o que reforça a necessidade de estarmos na presença das pessoas. Com a idade, as pessoas acabam isolando-se, e exatamente a falta de conexões exerce uma influência negativa na saúde, abrindo a guarda para as doenças crônicas. Os amigos nos ajudam a abandonar o cigarro, fazer dieta, lutar contra as adversidades, mas para isso precisamos de amigos reais, aqueles que podemos chamar para um café, para trocar ideias um na presença do outro. Pessoas conectadas fazem menos besteiras porque os amigos estão aí para alertar sobre riscos e consequências, e, mesmo quando queremos abandonar hábitos tóxicos e atacar questões críticas como a depressão e a obesidade, as conexões reais fazem uma diferença positiva. Sabemos que a alegria é contagiante, e o mais interessante que a ciência nos mostra é que o contágio da felicidade entre amigos se-

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gue a lógica hiperdiádica (hyperdyadic), aquela que está além do relacionamento direto. Se você é feliz, você vai contagiar o amigo do amigo do amigo, exatamente como ocorre com o vírus da gripe. Pessoas influenciam pessoas: e basta colocar cinco pessoas paradas numa esquina, olhando para o topo de um prédio, para conseguir que quarenta por cento dos transeuntes também parem para olhar na mesma direção, como comprovou um experimento científico realizado. Não é necessário mais do que isso, pois mesmo com o aumento para quinze pessoas paradas chegou-se ao mesmo resultado. Bastam cinco pessoas para mudar o comportamento de um grande grupo. Experimentos mostram, também, que é mais fácil convencer uma pessoa a abandonar o fumo trabalhando os seus amigos do que o próprio indivíduo; e essa complexidade do comportamento de indivíduos e grupos deveria estimular as pessoas a procurar companhia, pois uma pessoa solitária acaba expulsando os amigos, ou seja, aquela que se isola acaba mais isolada. Dizem os cientistas sociais que o tecido social, a exemplo do tecido das nossas roupas, acaba puindo e desgastando-se pelas extremidades; ou seja, as pessoas que estão isoladas na beirada dos grupos sociais são as mais prejudicadas. Por esse motivo, temos que trazê-las mais para o centro e, quando acontece com nós mesmos, temos que sair da extremidade e procurar um lugar mais central, mais acolhido pelo calor humano, e assim estaremos mais protegidos. Recomendo, sempre, que as pessoas se dediquem de coração aos relacionamentos, amigos, familiares e parceiros amados, cuidem para que os laços se fortaleçam e se perenizem e, assim, estarão protegendo a sua saúde mental, física e emocional. Quando nos estressamos, temos um instinto natural de procurar a interação humana, pois isso aumenta o nível da ocitocina, o hormônio da felicidade. Portanto, temos que permitir que essa busca por conexões em meio às adversidades concretize-se, porque assim estaremos mais protegidos também fisiologicamente. É certo que nos completamos nos outros e com os outros, e temos 15


que cultivar o hĂĄbito de festejar na alegria dos amigos e compadecer-se no seu sofrimento. NĂŁo se isole, privilegie as conexĂľes reais, e fique bem.

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5 - Deseje o bem de outras pessoas

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eseje sempre o bem de outras pessoas, pois isso se reflete em você mesmo, assim como num espelho. Quando você se vê como parte dessa bela paisagem, que é o mundo, começa a perceber as coisas boas encaixando-se perfeitamente na sua vida. É o processo virtuoso de desejar o bem e receber o bem. Pratique isso no dia a dia, e sinta o frescor e a leveza dos relacionamentos, mesmo que seja num contato ocasional com o caixa do supermercado. Você pode fazer isso silenciosamente, sempre que for o caso. Ao encontrar alguém em dificuldade ou padecendo de algum mal, sinta compaixão e, silenciosamente, deseje-lhe o bem e sinta a paz dominar. Alguns chamam de poder da mente, poder divino, e outros ainda a chamam de força cósmica, mas podemos escolher nenhuma denominação, simplesmente o desejo de fazer parte de algo bom. Se puder ajudar, ajude, e faça de coração. Quando desejamos o bem de outra pessoa mudamos o nosso próprio referencial e os pensamentos sobre nós mesmos. É como se nos posicionássemos em outro ponto da estrada, e dali vislumbrássemos uma nova perspectiva. Se você for religioso, coloque o nome das pessoas em suas orações. Descubra uma maneira própria de desejar o bem das pessoas. Não se esqueça de desejar o bem a si próprio. Experimente a compaixão, que é sentir a dor de outro e querer que ela cesse. Compaixão não é sentir pena de alguém. É em parte o exercício da empatia, colocarse no lugar do outro e ter a capacidade de sentir o que o outro está sentindo. É inspirar a dor do outro e expirar o sentimento que possa aliviar tal sofrimento. Como diz o famoso autor Daniel Goleman, não conseguimos exercitar a compaixão porque estamos excessivamente focados em nós mesmos. Os outros estão todos no ponto cego do nosso campo de visão. Para ele, nós todos temos internamente o ímpeto para sentir a empatia e ajudar, mas precisamos ampliar a nossa mirada. Um exemplo dessa visão distorcida é o caso do exercício da caridade. 17


Mesmo quando doamos dinheiro para os necessitados, estamos mais focados no egoísmo e no reconhecimento do que no altruísmo genuíno. Precisamos tirar as imagens da periferia do nosso campo de visão e trazê-las para a nossa percepção, quais sejam as do sofrimento e da dor alheia. O exercício da compaixão dissolve a sólida armadura que recobre o nosso coração, a armadura que é a fixação e apego ao ego. Quando nos deparamos com uma pessoa em sofrimento, o sentimento mais adequado é a compaixão. Não é sentir pena, indignação ou impotência. Entenda o que está acontecendo. Filtre suas reações para não fazer nada grosseiro e inadequado. Não julgue, não critique, e procure ajudar no que puder. Deseje o bem a si mesmo e livre-se desse velho hábito de negar o próprio sofrimento. Esteja disposto a sentir o que está sentindo. Pratique isso com a respiração compassada, inspirando a dor e o sofrimento e expirando o alívio e o prazer. Faça isso de maneira generosa e amorosa, de coração aberto, e sinta a purificação aliviá-lo. Um cuidado especial para ajudar quem está em dificuldades, e as pessoas podem ofender-se facilmente, podem magoar-se e romper relações. Procure não dar palpites, não botar o dedo na ferida. Quando estamos por baixo, queremos mais nos enfiar debaixo das cobertas e deixar a tempestade passar. Críticas desnecessárias colocam-nos mais para baixo. Alguns conselhos que habitualmente damos às pessoas deprimidas – tais como saia dessa depressão, levante a cabeça, saia dessa inércia – não ajudam em quase nada, pois as pessoas não têm energia suficiente para sair sozinhas dessa situação. Você tem de estender a mão e ajudá-la a levantar-se. Quando há um motivo concreto para o sofrimento, como é o caso da perda de um ente querido, você pode prestar solidariedade até que a situação amenize. Quando estamos no olho do furacão perdemos a capacidade de enxergar o problema de maneira adequada, e uma pessoa amiga pode ajudar a buscar uma solução. Não fique empurrando a pessoa para lutar contra algo que ela não tem condições de fazer. Aponte para a pessoa a rede de ajuda que ela pode recorrer, pois a baixa autoestima 18


impede que a pessoa enxergue a ajuda que pode obter, até porque não se julga merecedora de ajuda. Seja específico na ajuda, quando for possível. Uma recomendação para quem quer ajudar o outro é manter-se fortalecido. É muito difícil um doente ajudar outro doente. Ninguém vai encher a vida do outro com um balde vazio.

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6 - Deixe-se contagiar

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eixe-se contagiar pela felicidade, nos ensina o professor da Escola de Medicina de Harvard Dr. Nicholas Christakis, que explica que esse virtuoso contágio acontece na família, entre vizinhos, amigos e colegas de trabalho e é fenômeno similar ao que ocorre com a gripe ou outras doenças contagiosas. Somos seres sociais, e uma das maneiras mais marcantes de expressão é a felicidade que experimentamos no caminho da vida, nas coisas grandes e pequenas, nas interações e situações. E a felicidade não é um ponto de chegada que nos apressamos em chegar, mas sim pequenos passos incrementais que ajudam a construir esse estado mental e, na visão de Christakis, temos que nos perguntar como aumentar a felicidade em torno de nós, pois ela é contagiosa e vamos ser fatalmente contaminados. A mesma escola de Harvard, nos estudos do Dr. Ichiro Kawachi, mostra forte correlação entre a felicidade e a saúde. Essa correlação parece elementar, mas não nos damos conta das vantagens em esforçar-se para mudar o nosso estado mental e, com isso, experimentar mais felicidade e uma vida mais saudável. Quando olhamos o mundo de forma mais serena, honesta e generosa não só contagiamos as pessoas a nossa volta, mas permitimos que a nossa saúde melhore. Os estudos mostram que o contágio acontece até com pessoas que sequer conhecemos. Ficamos felizes de saber que amigos de nossos amigos foram abençoados com alguma graça e estão mais felizes. Temos que atentar para guardar distância dos amigos negativos e infelizes permanentes, pois a infelicidade também contagia, e uma pessoa infeliz tem 7% de chance de passar a infelicidade adiante, ao passo que a pessoa feliz tem 9% de chance de contagiar com a sua felicidade. Ter muitos amigos é bom, mas ter muitos amigos infelizes é ruim. Como regra geral, esteja perto das pessoas felizes, contagie e deixe-se contagiar. A felicidade é difícil de ser medida, mas muito fácil de ser percebida,

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e não precisamos ser um grande especialista para garimpar uma pessoa feliz em qualquer meio social. Uma dica muito fácil é procurá-la no centro da rede de relacionamentos. As pessoas felizes rapidamente ocupam um lugar central, pois se conectam com mais pessoas e conseguem influenciar muitas pessoas. Dizem os especialistas que assim como o tecido das nossas vestimentas, que começa a puir pelas pontas, o tecido social também começa a puir pelas beiradas, e se você quer saber quem está em sofrimento no grupo social, procure as pessoas que estão nas beiradas, aquelas que se relacionam com poucas pessoas e procuram o isolamento. Por outro lado, naturalmente as pessoas felizes posicionam-se no centro, pois são pessoas queridas e desejadas em qualquer interação. As pessoas querem trabalhar com elas, querem conviver e divertirse. São também pessoas que outros procuram para conselhos e apoio quando estão indecisos ou em sofrimento. Pessoas felizes são mais generosas, mais confiáveis e estão mais propensas a ajudar em qualquer circunstância, e porque interagem mais com todos, acabam influenciando e contagiando mais pessoas. Mais valioso que um aumento de salário é um novo amigo feliz, pois o benefício para a sua vida será, sem dúvida, maior. Ter amigos felizes na sua roda de amizades e familiares é de valor inestimável.

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7 – Amor, o nutriente essencial

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amor é um nutriente essencial e, assim como a água, temos que buscar dele se alimentar. Temos que usar o amor de maneira ampla e deliberada, pois ele está gravado no nosso DNA, e faz parte do nosso pacote de sobrevivência. Não me refiro apenas ao amor romântico, à paixão pela companheira, mas à conexão positiva com as pessoas, à afeição por todos, sejam conhecidos ou não. Quando nos relacionamos seguidamente com as outras pessoas de maneira cartorial, burocrática, sentimos que algo está faltando, o nutriente essencial do amor. Podemos tentar enganar com um sorvete, meia hora de programação pastelão na televisão, uma cerveja gelada, mas o nosso organismo chama a nossa atenção para essa carência essencial. A ciência já comprovou o efeito bioquímico que faz a falta de amor na nossa vida. O amor faz-nos sentir bem, impulsiona o crescimento físico nas crianças e abre a nossa percepção sobre nós mesmos. Ao expressarmos o amor nos relacionamentos, sentimos que a nossa visão do mundo se transforma, pois permitimos que a abundância da vida chegue a nós. Como nos alerta a Dra. Barbara Fredrickson, professora da University of North Carolina – EUA, o amor é a suprema emoção, assim como a água é o nosso supremo alimento. Um sorriso sincero entre duas pessoas deflagra uma poderosa reverberação e ressonância entre as suas emoções. Deixe-se conectar, por mais ligeira que seja a interação com a outra pessoa. Dê tempo, aja e reaja com calma para que esse processo fantástico se processe. O contato olho no olho, o interesse completo pelo que ocorre entre duas pessoas, é algo mágico, e nem precisa ser amor entre amantes nem atração sexual repentina. Às vezes um toque delicado e respeitoso, outras vezes um olhar carinhoso e atencioso. Afinal, o amor é o máximo, e não podemos desperdiçar as oportunidades de demonstrar a afeição pelos outros, e com isso construir uma rede de relacionamentos baseada em interações verdadeiras, não apenas um numerador de contatos nas redes

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sociais. Conecte-se de verdade, e esqueça um pouco os vastos recursos da websfera. Passar ou postar uma mensagem é bom, mas falar com o outro pessoalmente é uma experiência tão valiosa que dinheiro nenhum pode comprar. Os traços genéticos que carregamos relacionados com o amor são características vencedoras que a raça humana trouxe até aqui. Não deixe que isso se perca pela falta de tempo ou mesmo pelo materialismo exacerbado. Aproveite cada oportunidade para passar isso para filhos e netos. Quando o amor é a paixão, torna-se o tempero da vida, e devemos nos entregar de verdade. Quando o amor é a afeição, a amizade, devemos cuidar com carinho e manter tantos quantos aparecerem em nossa vida. Faça sempre os seus olhos brilharem ao ganhar um novo laço afetivo, como se fosse a primeira experiência. Ame de paixão, e olhe o mundo com os olhos do coração. Não se esqueça de amar a si próprio, e sinta também que você é amado na mesma proporção que ama os outros. Saiba ainda que você nunca está só e que pode sentir a presença de uma Força Superior que o ama incondicionalmente. Aprenda a amar sem cobranças, sem imposições, sem prepotência. Diz o Dr. Greg Baer, um médico que escreve sobre o tema “amor”, que o amor real, o amor genuíno, é aquele que quer a felicidade do outro sem esperar qualquer coisa em troca. Aprenda a amar sem exigir tanta coisa em troca, e deixe a energia do amor fluir, tomá-lo, nutri-lo, curá-lo. Diz Greg que isso é algo difícil de experimentar e de se acostumar, pois fomos, desde os tempos de bebê, acostumados e educados ao amor condicional. Aprendemos que quando não nos comportamos bem temos uma expressão de desamor; portanto, o amor é condicional, e assim seguimos praticando o que aprendemos. O amor é sutil, é uma profunda satisfação quase sem explicação, e não vale a pena tentar explicar, pois a racionalidade não alcança essa sutileza. 23


O nosso dia a dia é uma correria, em que a expressão dos sentimentos é quase uma coleção de pequenos fragmentos. Mas sei que experimentar alguns momentos de amor profundo permite a você ir e vir na profundeza do seu eu – é como ir lá no fundo beber um pouco da energia para subir e seguir conduzindo a vida de forma mais leve e revigorada. Não negligencie o amor e seja feliz.

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8 - O sorriso que vem do coração

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orrir faz bem ao espírito e ao corpo. Sorria, e seu organismo vai agradecer. O sorriso alivia o estresse, contagia as pessoas, melhora a pressão sanguínea e fortalece o sistema imunológico. Mas é fundamental que seja um sorriso sincero e que venha do coração. Experimentos científicos demonstraram que existe uma grande diferença entre o sorriso verdadeiro e o falso, e que é possível identificar o sorrido forçado, que camufla uma inverdade. Essas experiências também mostraram que há uma combinação de movimentos musculares que resulta no sorriso que expressa genuína felicidade, chamado no meio científico como “sorriso Duchenne”, nome dado em homenagem ao cientista francês Guillaume Duchenne. Muitas empresas treinam os seus empregados a sorrirem para os clientes; um sorriso burocrático que tem como objetivo lubrificar o relacionamento comercial, o que a ciência já comprovou que é totalmente improdutivo, pois o ser humano é capaz de identificar, em milissegundos, um sorriso falso. Estudos recentes, conduzidos pela Universidade de Frankfurt, comprovaram que aquele que é obrigado a sorrir por incumbência do trabalho, e o faz sem sentir, provoca dano à sua saúde, acumulando estresse e adoecendo de várias maneiras. Por todos esses motivos, temos que nos acostumar a sorrir com o coração, trazer lá de dentro aquela expressão sincera e transparente que Paul Ekman nos ensina e – é claro – que todos já sabemos. O verdadeiro sorriso feliz trabalha magistralmente mais de 100 músculos da face, mudando a expressão do indivíduo. Por isso, a imitação barata e mentirosa é logo desnudada. Quando o sorriso vem do coração, as bochechas movem-se levemente para os lados e para cima, os músculos do entorno dos olhos apertam-se, formando os pés de galinha, e se o sorriso for escancarado, a pele do entorno das sobrancelhas debruça-se um pouco na direção dos olhos. No sorriso falso, um leve encolhimento dos músculos entre as sobrancelhas entrega imediatamente 25


o mentiroso, e hoje até mesmo o computador consegue detectar. Na verdade, é muito difícil dissimular um sorriso verdadeiro, e todos nós temos gravado no nosso DNA essa capacidade para distinguir o falso do verdadeiro. Por esse motivo, temos que evitar falsear o sorriso; todo mundo percebe. Quando vamos tirar uma fotografia, temos o hábito de pedir para todos dizerem “X”, que nos obriga a cerrar os dentes e puxar os cantos da boca para os lados. O objetivo é forçar um sorriso fotográfico, mas devemos na verdade recomendar um “sorriso Duchenne”. A ciência mostrou que o sorriso genuíno e o sorriso burocrático são comandados por partes diferentes do cérebro. O primeiro é comandado pelo cérebro das emoções, o límbico, ao passo que o segundo é comandado pelo córtex motor, aquele que comanda os movimentos. O sorriso é um sinal verdadeiro de apreciação, de sedução, de alegria e contentamento, e há uma forte ligação entre o sorriso genuíno e a emoção positiva. No nosso cotidiano, experimentamos vários tipos de sorrisos: o azedo, o forçado, o entristecido, o constrangido, e conseguimos rapidamente detectar qual é qual. Essa capacidade de executar e mesmo de detectar é algo nato no ser humano. Um bebê de 10 meses é capaz de dar um sorriso falso para um estranho, ao passo que guarda o “sorriso Duchenne” para sua mamãe. Temos uma capacidade natural para isso, e já que isso é uma faculdade, temos que apreciar quando o sorriso vem do coração e, mais do que isso, temos que exercitar o sorriso autêntico toda vez que experimentarmos uma emoção positiva.

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9 - Ajude os outros a terem sucesso

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legre-se pelos outros, pelo sucesso que têm em suas vidas, e traga, dessa maneira, alegria para si próprio. Afaste a inveja e as comparações, sinta a sensação agradável de apreciar o sucesso dos outros e torne isso um hábito saudável. Não vivemos isolados no mundo, e sempre vamos precisar de alguma ajuda. Quem ajuda é também ajudado de alguma maneira. Muitas vezes, o sucesso na nossa vida vem no contentamento de ver tanta gente ser bem-sucedida; e se podemos ajudar os outros de alguma maneira, temos que aproveitar a oportunidade. Quando digo ajudar, nem sempre é com contribuição financeira, que nem sempre é possível, mas com uma palavra de apoio, um conselho, um ouvido amigo. Sempre precisamos de ajuda para fazer uma conexão no mundo profissional, e sempre há alguém que conhece alguém. O mundo não é feito de um número limitado de vencedores e de uns tantos perdedores. O jogo pode muito bem ser do ganha-ganha, no qual podemos compreender a vantagem de ajudar os outros nos seus projetos, mesmo que isso não redunde em ganho particular. Podemos achar que as oportunidades disponíveis são limitadas para algumas pessoas, aquelas agressivas competidoras, e que um pouco de egoísmo coloca-nos em vantagem na maratona da vida, mas isso não é verdade, e nós temos muitos exemplos que confirmam a vantagem da ajuda desinteressada. As relações ficam fortificadas num ambiente de mútua ajuda, e o mundo fica melhor, pois a nossa contribuição, mesmo pequena, não é inócua. Sentimos prazer em ajudar e, no fundo, uma vida egoísta e ambiciosa não nos conduz à felicidade. A ajuda deve ser objetiva, sem deixar-se explorar, pois há aqueles que se aproveitam das pessoas generosas, procurando sempre tirar alguma vantagem. Devemos manter certo afastamento dessas pessoas, pois elas são toxinas para as pessoas generosas. A revista Forbes publicou, numa certa feita, um artigo que dá 10 27


dicas de como ajudar os outros a serem bem-sucedidos, e comento aqui os mais importantes: - Compartilhe o seu conhecimento, esteja sempre à frente e passe adiante o que aprendeu, afinal, você não perde nada com isso, e pode ajudar quem está precisando. - Compartilhe os seus recursos, e não falamos de dinheiro, mas doar um pouco daquilo que você tem que pode ser o seu tempo precioso ou mesmo algum objeto que você não usa mais. Você pode achar que é pouco, mas quem recebe sabe o valor. - Deixe o outro saber de alguma oportunidade, e podemos muito bem saber de algo importante que o outro não sabe, um emprego disponível, um negócio, e quem vive em comunidade sabe o quanto isso é importante. - Dê um retorno transparente e honesto sobre alguma ideia ou comportamento do outro, com o firme propósito de ajudar. - Dê o seu tempo voluntariamente, ajudando especialmente quem está perto de você. - Reconheça o esforço do outro, elogie e encoraje bons comportamentos, bons resultados e determinação. Ajudar os outros nem sempre é fácil, pois estamos muito focados em nós mesmos e imaginamos que estamos numa competição. Mas a prática melhora muito a nossa habilidade em fazer isso naturalmente. Quando vencemos algumas dessas barreiras, compreendemos o benefício que isso traz para nós mesmos e passamos a fazer como um bem que fazemos a nós mesmos.

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10 - A emoção da gratidão

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ão se sinta desencorajado quando o ambiente é de pessoas duronas que não elogiam, não agradecem e insistem em considerar que as pessoas não fazem mais do que a obrigação. Agradeça, dê exemplo e tente contagiar com um pouco dessa emoção maravilhosa que é se sentir grato e expressar a gratidão. Diz a autora Melody Beattie que a gratidão dá sentido ao nosso passado, traz paz ao nosso presente e cria uma visão para o amanhã. Não seria a gratidão uma ponte para essa jornada, que por vezes nos deixa de joelhos, mas, na maioria das ocasiões, faz-nos sentir gratos simplesmente por estarmos vivos, saboreando desse exato momento. Eu não tenho que esperar ou perseguir momentos bombásticos para me sentir grato. A alegria de viver e as graças que recebemos nos atingem em pequenas doses, em porções quase imperceptíveis. É preciso estar atento, com a mente aberta e o coração receptivo para perceber. Temos tendência a nos desapontarmos com muitas situações e, quando isso acontece, devemos atentar para particularidades que ativam a nossa gratidão. Nem tudo dá errado, há sempre algo que deu muito certo. Reconheça, sinta-se grato, expresse a gratidão. Quando tratamos da educação dos filhos, o exemplo fala muito forte. Expresse a gratidão também como forma de exemplo, e estimule que façam o mesmo. Lembre-se que não é uma atitude natural, e os pequenos precisam aprender. Temos o ímpeto de achar que conseguimos tudo com o nosso próprio esforço, e que não precisamos agradecer a nada e a ninguém. Até parece que conseguimos tudo em profundo isolamento. Somos seres gregários, nos apoiamos uns nos outros e precisamos desse calor humano. Ajudamos e somos ajudados, e nos sentimos bem assim. Agradecer e ser feliz são atos conjugados. Tenha sempre essa emoção em grande alta, busque, saboreie e estimule. 29


Um péssimo costume é ficar reclamando da vida, de tudo que poderia ter e ainda não tem. Oprah Winfrey disse mais ou menos assim: se você olhar honestamente para o que tem, vai parecer-lhe que tem mais, mas se você ficar olhando só para o que não tem, vai parecer-lhe que lhe falta muito. As pessoas que olham o seu copo meio vazio perdem a chance de aproveitar aquilo que já têm; ao passo que a pessoa que olha o copo meio cheio, aproveita e saboreia a vida com tudo que lhe é agraciado. Temos que olhar a vida com olhos agradecidos e mãos sempre estendidas em gratidão, e isso é uma condição para se receber mais. Merecemos tudo que temos, e podemos ter mais, mas enquanto isso não acontece, temos que aproveitar o que já temos. Quantas vezes você foi surpreendido com alguma graça que não estava esperando? Isso é sinal que o seu olhar estava para a abundância da vida. E se em outros momentos você recebeu alguma coisa e achou que era pouco, é sinal de que o seu olhar estava para o que ainda falta, e isso sempre vai trazer insatisfação e infelicidade. Você já ouviu aquele velho adágio: “rico não é quem tem muito, mas sim aquele que precisa de pouco”? Podemos nos tornar ricos de uma hora para outra, simplesmente satisfeitos com o que temos. Isso não quer dizer de maneira alguma que devemos nos acomodar. A resignação e o piloto automático nos afastam da felicidade. As realizações e a consecução dos nossos projetos completam a nossa vida, independentemente do resultado financeiro. Por isso, temos que nos manter em movimento, realizando o nosso potencial e ajudando o mundo a melhorar, a começar pelo pequeno pedaço que nos cerca. Olhe com bons olhos e mãos erguidas em gratidão, e terá muito mais – afinal, você merece. É fácil sentir-se grato pelas coisas boas, e as coisas ruins? Gostamos de agradecer quando as graças são estrondosas e inesperadas, e o que dizer das pequenas coisas que damos como certas? Agradeça cada pequena coisa na sua vida, tudo que você dá como certo, a roupa que tem para vestir, o café da manhã que tem para 30


tomar. Agradeça as coisas fenomenais que você também dá como certas, o ar fresco que você respira, o sol que o acorda toda manhã. É certo que até as coisas ruins trazem algo de bom para você, e devemos estar sempre atentos para perceber esses pequenos detalhes. Agradecer é diferente de sentir-se grato, pois agradeço muitas vezes por educação, de maneira protocolar. Sinto-me grato por minha saúde e, embora tenha muito a agradecer aos meus médicos, sei que há muito mais que isso. Faço a minha parte e esforço-me para cuidar de mim mesmo e de outros que me cercam, mas sei que há Alguém lá em cima que não descuida de nada, da minha saúde, do ar que respiro, do sol que vai me acordar todos os dias, logo pela manhã. Agradecer envolve comunicar-se com alguém, e a gratidão quase sempre é um ato próprio, do seu coração. Podemos expressar a gratidão em público, contar o que se passa no nosso coração, e isso reforça o nosso sentimento, pois sempre enseja a aprovação das pessoas que ouvem. A gratidão pode ser um lampejo na sua mente, que registra o quanto você tem sido abençoado, e pode ser um pequeno gesto, as mãos ajustadas, a mão no coração, um aceno positivo com a cabeça. Faça de maneira autêntica, do fundo do coração.

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NÃO FAÇA

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ibere-se dos comportamentos que descrevo neste capítulo. Não faça, reduza e afaste-se de tanta negatividade que insiste em ocupar o seu cotidiano. Temos por hábito carregar muitas coisas negativas; e é como se carregássemos pedras na nossa mochila, pensamentos negativos que temos de descartar um a um para caminharmos com mais leveza e desenvoltura na estrada da vida. Libere-se da culpa que dirige aos outros e a si mesmo. Saiba que a culpa é um sinal de prepotência, pois quando nos culpamos, passa em nossa mente o seguinte questionamento: “como nós, perfeitos que somos, fomos cometer tal asneira?”. Quando culpamos os outros, fazemos a seguinte reflexão: “se fôssemos nós na mesma circunstância, perfeitos que somos, não teríamos errado como eles erraram”. Ao nos libertarmos da prepotência, colocamo-nos aptos a experimentar as maravilhas da empatia e da compaixão, e também em condições de aprender com cada situação, cada nova experiência. Não se deixe amedrontar pelo futuro, e saiba que o futuro é melhor do que qualquer passado. Pense, por um momento, que muitas coisas ruins que povoam a sua mente relacionadas com o futuro não irão acontecer, e quando você se liberta das sombras do passado e das ameaças do futuro, melhoram as suas condições de saborear o presente nos mínimos detalhes. Evite esse hábito tão pernicioso de se comparar com os outros, e saiba que você nunca vai ter o suficiente e nem vai ser poderoso o bastante para repousar no trono do hedonismo, da busca materialista. O foco excessivo no mundo material e naquilo que é externo a você não traz felicidade autêntica e durável. Aprenda de uma vez por todas a afastar os pensamentos negativos sobre si mesmo. Valorize-se e mantenha-se diligentemente no caminho do crescimento pessoal e assim você vai estar sempre feliz com a pessoa que está se tornando.

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1 - Não faça tempestade em copo d’água

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uando nos irritamos facilmente, acabamos entendendo os eventos às avessas, e as pessoas queridas acabam andando em ovos para lidar conosco. Se você é do tipo que se inflama e reclama a todo o momento, saiba que isso acaba afastando as pessoas do seu convívio. Pergunte-se sobre o que realmente está irritando-o, e tente tirar a fervura da água dos seus pensamentos. Fale consigo mesmo quando a irritação chegar, e entenda objetivamente o que lhe faz ficar tão ofendido. Analise honestamente e veja se isso faz sentido, se tem realmente importância. Veja se a ofensa vem daquela pessoa, e se vinda de outra pessoa qualquer poderia causar-lhe o mesmo efeito ofensivo na mesma situação. Muitas vezes nos ofendemos com uma determinada pessoa, e não por conta da circunstância. Ao reconhecer isso, você pode desenvolver a capacidade de reduzir essa carga negativa que insiste em despejar por cima do outro. Entenda a raiz da irritação e da ofensa. Coloque-se no lugar do outro e veja se você agiria da mesma maneira. Pratique um pouco do desligamento, distancie-se da circunstância para ter uma visão mais ampla da sua irritação. Economize no julgamento, pois, especialmente quando nos irritamos, a ofensa acaba amplificando-se, e as mínimas diferenças nos parecem inaceitáveis. Aceite-se a si mesmo, e saiba que muito do que não aceitamos nos outros também não aceitamos em nós mesmos. Pare com o julgamento excessivo que faz quando entra em sofrimento, seja julgando os outros ou a si mesmo. Reconhecer e aceitar o sofrimento representa uma etapa essencial para livrar-se dele. Parece paradoxal, mas é assim que funciona, e quando aceitamos, livramo-nos daquilo que tanto nos incomoda. Enquanto lutamos e resistimos, convivemos com ele indefinidamente, pois o que resiste persiste. Aceite os outros como são e pare de querer consertar os outros 33


como se fossem aparelhos defeituosos. Aceite o que você não tem controle, e isso inclui principalmente as outras pessoas. Procure entender melhor as pessoas como forma de reduzir o julgamento e a crítica que faz delas. Não fique remoendo alguma coisa errada que tenha feito e que tenha provocado essa situação, pois agora é hora de tirar uma lição e seguir adiante. Muita ruminação é também muito sofrimento. Pense no seu bem-estar, acalme a mente, busque a serenidade e tudo vai ficar bem. Cuide daquilo que é da sua conta e procure resolver o que está ao seu alcance. Recebemos a cota justa de problemas e temos que resistir a tentação de bisbilhotar a vida dos outros com aquela prepotência de quem vai resolver também os problemas alheios. Não pegue carona nos problemas dos outros, como se eles fossem seus. Querer ajudar o outro que está em dificuldades é uma coisa, mas se intrometer na vida dos outros é outra história, e isso acaba tomando o seu tempo, a sua energia, aumentando o estresse por conta de coisas desnecessárias. Entenda bem o que acontece com você, focando a atenção em si mesmo. Compreenda a sua insatisfação e as coisas que tanto te o incomodam, e tente isolar, nessa primeira análise, os fatores externos e as outras pessoas. Seja honesto e generoso no seu entendimento de si mesmo, sem se cobrar em excesso ou mesmo se culpar por tudo que acontece no mundo. Muita agitação não é sinônimo de eficiência nem de competência, tampouco você vai angariar o rótulo de pessoa trabalhadora e ocupada. Procure reduzir o ritmo da sua vida, e assim vai ter condições de saborear a vida plenamente, pois quem faz o trajeto na correria não percebe a beleza da paisagem. Dê aos problemas a importância adequada, pois a vida não é uma central de emergência do Corpo de Bombeiros. Não temos de ficar gerenciando as situações como incêndios de grandes proporções, e quando isso acontece é sinal de que temos providências a tomar para neutralizar a tempestade mental que provocamos em nós mesmos. 34


Desenvolva os seus próprios mecanismos para evitar a tempestade em copo d’água. Há de existir algumas dicas que funcionem muito bem para você. Faça isso um passo de cada vez, anime-se com os resultados e torne isso um novo modo de vida, uma atitude renovada diante das circunstâncias. Pratique exercícios físicos, yoga, dança ou outra atividade que o ajude a apaziguar a mente; incorpore isso no cotidiano e verá o benefício físico, emocional e mental. A mente clara e calma vai parar de ruminar os problemas e vai comportar-se de maneira mais objetiva e eficiente no endereçamento das decisões e soluções. Quando o estresse o incomodar enormemente, respire fundo várias vezes, deixe a mente acalmar-se e aproveite algumas das recomendações comentadas, como forma de reduzir essa tempestade e a fervura da água na sua mente.

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2 - Não faça nada contra você

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oste de si mesmo e não faça nada contra você. Parece um contrassenso, mas podemos facilmente enveredar deliberadamente por caminhos que nos prejudicam profundamente: uso de substâncias, álcool, fumo, obesidade descontrolada, conflitos com pessoas queridas, corpo mole no trabalho, sexo descuidado. Hábitos são difíceis de quebrar, e aqueles que envolvem alguma dependência química são ainda mais difíceis, mas temos de colocar a nossa saúde e o amor próprio em primeiro lugar. Quando nos amamos de verdade, abrimo-nos também para a ajuda que pode ser necessária. As companhias e as amizades tóxicas também representam um mal enorme que fazemos a nós mesmos, iludidos que estamos pelos maus hábitos. Podemos ainda alimentar a raiva, a culpa e os ressentimentos. Ao contrário, deveríamos alimentar as coisas boas, aquilo que nos fortalece e nos ajuda a crescer. Procure exercitar-se, fazer uma dieta adequada para perder um pouco de peso; desenvolva essa atitude amorosa consigo mesmo, fazendo apenas aquilo que significa o seu bem, sem descuidar-se das pessoas que o cercam. Dê importância à generosidade, faça algo por alguém, sem fazer propaganda, sem alardear pelos quatro cantos. Há sempre alguém precisando de ajuda, e essa pessoa pode estar muito perto de você. Não temos que sair procurando pela periferia por pessoas que poderiam beneficiar-se com a nossa ação, pois muitas delas estão no alcance da nossa mirada. Quando ajudamos, sentimo-nos ajudados, e quando valorizamos a vida dos outros, aprendemos também a valorizar a própria vida. Não alimente as agressões verbais, faça isso por você. Não se deixe abalar, minimize aquilo que recebe de negativo e não procure rebater nem procure a vingança, mesmo que em pensamento, pois isso implanta uma semente de maldade que irá produzir mais pensamentos negativos. Pense por um momento nos ressentimentos e na raiva

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que guarda de outras pessoas. Dirija esse ato de amor a si próprio, perdoe, releve, deixe ir tantos pensamentos negativos. Abrande esse sofrimento agora mesmo e não comece o dia carregando tanta coisa negativa. Não faça nada contra a sua reputação, tão difícil de construir e tão fácil de estragar. Pense antes de agir e evite aquele ímpeto de dar o troco imediatamente. Como dizia Gandhi, o princípio do olho por olho vai deixar uma nação cheia de cegos. A agressão que dirigimos ao outro, volta imediatamente para nós mesmos de maneira amplificada, e ninguém lucra qualquer coisa agredindo os outros. Não se meta em encrencas e pare de se meter na vida dos outros. Não queira controlar os outros, pois é um desperdício do seu tempo precioso, e o desconforto pode ser enorme para você mesmo. Do mesmo modo que evita as agressões a si próprio, substitua toda essa coisa negativa por generosidade, pensamentos positivos e ações concretas para o seu próprio bem. Pratique exercício físico, cuide da nutrição, preserve as boas amizades, realize os seus sonhos e dedique-se de coração aos seus projetos. Afaste-se da autossabotagem que impede que o seu planejamento de vida alce voo. Acredite na sua capacidade e coloque isso à prova; faça um teste de si mesmo em ação, e não se deixe derrotar sem mesmo tentar. Afaste os pensamentos depreciativos que porventura apareçam na sua mente – não sou capaz – vou falhar – não vai dar certo – sou um azarado. Não se diminua quando fala com os outros, e nunca se refira a si mesmo como uma pessoa azarada, derrotada e desprovida de habilidades ou talento. Procure sempre se colocar em uma posição de valor, não necessariamente acima dos outros, mas nunca abaixo. Cerque-se dos amigos de verdade, aqueles que estão com você ou em sua companhia na alegria e na dor, oferecendo ajuda sempre que preciso, e prontos a comemorar um novo feito. Enfim, aqueles que contribuem com o seu crescimento pessoal e que se favorecem do bem que é sua própria amizade.Torne-se a pessoa que gostaria de ser, um dia de cada vez, mesmo que isso signifique pequenos passos. Faça por você, e não contra você. 37


3 - Imitação barata dos outros

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vite a tentação de se tornar uma imitação barata do outro. Livre-se da inveja, das comparações e não tente imitar o que os outros pensam, fazem, usam e falam. Gaste a sua energia concretizando o seu próprio sonho, e não olhe tanto para aquilo que os outros estão realizando. Crie algo novo e procure melhorar a pessoa que você é, e perceba que a mesma energia valiosa que você gasta imitando os outros, você pode dispender realizando você mesmo. Ficar comparando-se é algo natural no ser humano. É uma peça que a nossa mente prega em nós mesmos, e temos de aprender a manejar, para o nosso próprio bem. Quanto mais comparamos, maior é a nossa propensão para imitar ou ultrapassar. Enquanto isso, deixamos de lado a própria vida para viver a vida do outro. Os nossos sonhos e desejos são negligenciados, os nossos projetos interrompidos e, fatalmente, acabamos insatisfeitos, inacabados e infelizes. A vida é muito curta para ser desperdiçada com tanta bobagem. Olhe para dentro de si, e procure vasculhar a sua mente atrás dos próprios projetos esquecidos. Assuma a responsabilidade sobre a própria vida, pois ninguém vai realizar os seus projetos, ninguém vai aprender as suas próprias lições. E você não vai se glorificar tendo sido uma imitação de outra pessoa, mimetizando os hábitos de consumo, as vestes, os carros e tudo o que nos impõe esse ímpeto consumista. Vejo hoje que a maior preocupação que as pessoas têm é que não estão vivendo a própria vida e passam muito tempo preocupados com os outros, vivendo a vida dos outros e negligenciando a sua própria vida. Se pilotarmos o nosso barco olhando para a direção que o outro barco está tomando, vamos encontrar as rochas ou vamos atracar em algum destino indesejável. Pense por um momento e relacione quantos projetos seus foram guardados na gaveta para dar lugar a prioridades ditadas por outras pessoas. Quantas prioridades foram esquecidas e relegadas ao último lugar, e com tanta frequência, que você nem se recorda da última vez que dedicou tempo e energia para aquilo que realmente

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tem a ver com sua vida, suas realizações. Realizamo-nos quando caminhamos o nosso caminho, empenhados no destino de cada etapa da nossa vida. Queremos olhar para o nosso passado, as realizações e experiências, sentindo que valeu a pena cumprir mais uma etapa, realizando o que nos é caro, o que dá sentido à nossa jornada. Especialmente em se tratando de filhos, não é produtivo estimular que eles o imitem nas suas empreitadas. Deixe que cresçam e assumam as próprias escolhas, tomem as próprias decisões, mas esteja atento para as suas atitudes e seus valores, pois eles se educam olhando-o pelas costas, pelo exemplo que você representa. Toda vez que sentir aquela pontinha de inveja, não se recrimine, apenas reconheça e observe a inveja com aquele olhar pacífico: estou vendo você aí, e vou deixar que se vá. Procure contentar-se com a realização dos outros, festeje junto, compartilhe, e essa propensão natural de comparar e invejar vai dissipar-se. Ninguém é perfeito e você pode melhorar nesse quesito tornandose uma pessoa mais generosa, amiga e companheira. Preocupe-se com os outros sim, mas para ajudar e compartilhar bons momentos, e não para imitar, competir e vangloriar-se. A vida cotidiana é impiedosa com os nossos sentimentos mais genuínos, as nossas virtudes. O mundo do consumo, o ambiente competitivo do trabalho e as demandas da família impõe-nos um estresse para ter mais, ser mais e subir a escada social a passos largos, mas isso tem um limite que você tem de aprender a se impor, afinal, caixão não tem gavetas e a vida deve ser vivida plenamente com tudo o que nos é presenteada.

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4 - A mochila cheia de problemas

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odos nós temos um mundo de problemas, e ninguém saiu ileso dessa loteria; todos nós ganhamos problemas suficientes para encher a nossa vida e entreter os nossos pensamentos e nossas decisões. Carregamos uma mochila cheia de problemas e sei que isso costuma pesar um bocado, mas podemos resolver um de cada vez e assim fazer com que o peso da mochila diminua. Seja persistente, resolva um problema por vez, e não desanime com o peso da mochila. A sua capacidade será colocada à prova constantemente, mas você dará conta do recado. Há momentos em que a nossa energia parece esgotar-se, e a determinação desaparece, evapora. Dê a você um tempo para repousar, aceite o cansaço, o desgaste, a fraqueza e a eventual tristeza. Você é humano, e as emoções podem ficar sobrecarregadas com tanto peso nas costas. Respire fundo, e quando a energia remanescente for suficiente para unicamente respirar, dê a si mesmo o direito de ser humano, caminhar devagar, parar para descansar. Pense em um dia de cada vez, e reflita sobre um pequeno problema; mesmo que a solução não venha de pronto, já é alguma coisa. Olhe sempre pelo lado positivo, e enfrente tudo de cabeça erguida, ainda que a estrada tenha-se estreitado e a névoa tome conta de tudo pela frente. Acredite num futuro melhor, e tudo vai lhe parecer mais claro amanhã, com a mente mais arejada e serena. Quando olhamos a vida de maneira positiva, a mochila pesa menos e os problemas adquirem a verdadeira proporção. Ao contrário, com a mente perturbada, só enxergamos a tempestade, as ondas e as águas revoltas. Olhe por um momento o quanto você já caminhou, quantas coisas foram resolvidas e etapas inteiras foram concluídas. Lembra-se daquele problema que o atormentou no ano passado? O que foi que aconteceu? Às vezes, quando encaramos o problema com mais serenidade, passamos a enxergá-lo na sua verdadeira proporção, e ele deixa de nos

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amedrontar e, mesmo sem solução, ele acaba saindo do nosso radar. Não temos de consertar tudo na nossa vida, assim como num passo de mágica. Temos de ter paciência consigo mesmo e aceitar pequenos passos, um de cada vez. Na jornada da vida, carregamos desnecessariamente um número enorme de pedras na mochila. São os ressentimentos, o ódio, o medo, a inveja e outros tantos. Livre-se dessas pedras e faça o seu caminhar mais leve, podendo, assim, apreciar a vida plenamente, em cada momento. Muitas pedras que carregamos sequer têm a ver conosco, pois são problemas dos outros, que assumimos desnecessariamente. São coisas que estão além do nosso controle, mas insistimos em querer controlar. Não podemos tudo, não somos o dono do poder, e a percepção de que podemos muito mais do que realmente podemos é que faz com que carreguemos tanto peso nas nossas costas. A prepotência faz com que sigamos, colocando na nossa mochila coisas que não nos dizem respeito, tornando a vida difícil e sobrecarregada. Cada vez que o julgamento prepotente toma conta do nosso comportamento, estamos trazendo para dentro da nossa mochila o carro sujo do vizinho, o nariz torto da senhora na fila do caixa e a calça desbotada do garoto correndo no parque. A baixa autoestima também faz com que nos preocupemos mais com os outros do que com si próprio; leva-nos a ocupar-se com problemas alheios, enquanto os nossos próprios são negligenciados. Carregamos, também, sem se dar conta, crenças e convicções que não são nossas, e que atrapalham a nossa jornada. Temos que refletir constantemente se carregamos os nossos pertences ou os de outra pessoa. Veja se você está carregando: sou forte e capaz; posso pedir ajuda se precisar; as pessoas são confiáveis; eu sou confiável; não é errado assumir riscos; eu mereço respeito; eu mereço ser feliz; o mundo é bom e tem muito a oferecer. Ou será que você está carregando: não posso confiar nas pessoas; 41


boas coisas só acontecem aos outros; não espero muito de mim; sou vão tirar vantagem de mim; ninguém vai me ouvir; o mundo é amedrontador; não é bom cometer erros; algo de mal vai acontecer; ineficiente, inadequado e não faço nada certo; preciso de alguém para cuidar de mim; se mostrar às pessoas quem sou eles não gostarão de mim; o mundo me deve, sou um credor. Temos que equipar a nossa mochila com coisas valiosas que nos ajudarão na caminhada: habilidade para pedir o que precisa; habilidade para ouvir; habilidade para resolver problemas; habilidade para ver as escolhas que estão disponíveis; habilidade para negociar; expressão saudável dos sentimentos; habilidade para estabelecer limites; clareza para ver o que é importante; habilidade para tomar decisões; habilidade para cuidar de si, alimentação, higiene, vestimentas, repouso e exercício físico. Faça uma revisão permanente na sua mochila, refletindo sobre o que quer manter, descartar e agregar, e a sua mochila ficará mais leve, mais útil, e a sua caminhada será mais produtiva.

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5 - Muita comparação - muita insatisfação

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ão há como evitar as comparações. Tudo o que percebemos nos outros acaba por desaguar em alguma comparação com aquilo que nós próprios possuímos e isso é uma fonte permanente de insatisfação e infelicidade. Cobiçamos o que os outros têm e acabamos por menosprezar aquilo que já temos. Deveríamos usufruir daquilo que já temos enquanto buscamos o que ainda não possuímos. A nossa satisfação com nós mesmos não deveria ser tão dependente daquilo que os outros pensam ou possuem. Assuma você mesmo a responsabilidade sobre a sua felicidade, e corte esse cordão umbilical com os outros. Foque mais naquilo que você é e possui. Usufrua a própria vida, sabendo que não há como ser feliz nas comparações, pois sempre vamos encontrar alguém com mais, melhor e adiante em tudo aquilo que empreendemos. Sei que é uma tarefa difícil deixar de se comparar, mas devo dizer que é um alívio muito grande quando você se libera desse péssimo hábito. Ao compararmos as forças e virtudes dos outros com as nossas fraquezas e defeitos, vamos perder sempre, e é isso que fazemos usualmente. Quanto mais nos comparamos com os outros, mais nos depreciamos e reduzimos a nossa autoestima. Enquanto focamos as realizações dos outros, os nossos projetos ficam à deriva. Temos de colocar a atenção nos nossos objetivos e metas. Mesmo quando nos sentimos em ambiente de competição, o olhar excessivo no outro nos faz perder a batalha. A nossa autoestima vai lá para baixo, ficamos deprimidos e acabamos imobilizados com tantas comparações. Preste atenção nos maratonistas e perceba o quanto estão focados em si mesmo. De vez em quando, o olhar, muito rapidamente, passa pela posição do competidor, mas volta imediatamente no seu trajeto. É muito mais produtivo olhar para frente ao invés de olhar para os lados, afinal é para frente que nos dirigimos. 43


Quando nos comparamos com os outros, sempre vamos experimentar a sensação de depauperação relativa: sou pobre porque você é rico, minha casa é pequena porque a sua é grande, meu carro é velho porque o seu é novo, sou feio porque você é bonito, e isso não acaba nunca, e o resultado você sabe muito bem: uma sensação de inadequação. Na sua vida, se tiver uma vontade enorme de comparar, escolha olhar para o que tem feito e compare consigo mesmo, você hoje e você no passado. Veja o quanto já evoluiu e amadureceu. Alegre-se com tantas realizações, tantos problemas resolvidos e tantos hábitos nocivos abandonados. Quando observamos a vida dos outros, temos de fazer com generosidade, sem julgamento, com o olhar compassivo e alegre ao mesmo tempo. Alegrar-se com as realizações dos outros é algo difícil de exercitar, mas temos de insistir, pois nos tira o hábito feio de se comparar. Ao olhar para as maravilhas que os outros fazem, simplesmente admire, sem trazer para a sua mente qualquer estímulo a comparações com nada que você é capaz de fazer. Toda vez que perceber que a sua mente começa a comparar, simplesmente se dê conta e diga para si mesmo: “pare com isso agora mesmo”. Mesmo quando a comparação coloca-o em vantagem, saiba que isso é uma chama do ego que vai se apagar logo mais quando você encontrar outra pessoa que se dê melhor nessa régua que você acaba de utilizar. Quem se compara muito com os outros, gosta também de falar muito sobre feitos exuberantes, e isso afasta as pessoas, pois ninguém gosta de pessoas que gostam de contar vantagens. Aprenda a gostar mais dos outros e vai parar de se comparar com tanta frequência. Aprenda a gostar de si mesmo e aceite-se com todas as supostas imperfeições que você detesta perceber. Esteja bem com a pessoa que você é e a pessoa que está se tornando. Mantenha-se firme no caminho do crescimento pessoal. Seja grato por tudo que tem recebido. Não julgue tanto, não se compare e seja feliz. 44


6 - A nuvem não é o céu

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lhe além da tempestade. Levante os olhos para um horizonte mais largo, mais longe, pois a nuvem não é o céu e mesmo que uma tempestade se forme e nuvens sombrias dominem o seu campo de visão, saiba que o céu claro e brilhante não desapareceu, está sempre lá, acima de qualquer coisa. O olhar muito distante pode tirar-nos da realidade, tirar os nossos pés do chão, mas o olhar constantemente voltado para o chão não nos permite desenvoltura, e a vida vai parecer uma estrada esburacada, cheia de dificuldades. A vida é mais do que isso, a vida é repleta de adversidades, mas o propósito da vida está na parte boa que tiramos de tudo, inclusive das lições que aprendemos com cada adversidade. Quando estamos enfiados no meio dos problemas, a mente roda em círculos e as soluções acabam nos escapando. É preciso encontrar a serenidade, deixar a poeira assentar, e decidir sem atropelos, livres do estresse e da correria. Tudo vai passar, e as nuvens sombrias também se dissiparão com o tempo, e o céu claro e o sol brilhante inundarão o seu horizonte. Temos de ter fé, acreditar que isso está por acontecer. Assim como o céu não é visível quando nuvens escuras bloqueiam o horizonte, não enxergamos a paz e a solução dos problemas no meio da tempestade, mas temos de lembrar que tudo isso está lá. O céu azul e sereno está lá, mesmo que só enxerguemos nuvens espessas. Temos de nos lembrar, temos de acreditar. Nuvens escuras nem sempre prenunciam uma tempestade. Um vento, mesmo despretensioso, pode afastar a preocupação. Nem tudo na vida é tempestade, e nem tudo que parece ruim, acaba de verdade sendo ruim. Muitas vezes a imprevisibilidade trabalha a nosso favor, e é bom acreditar nessa possibilidade. Não somos pessoas azaradas, e nos damos conta disso quando olhamos com outros olhos as circunstâncias da vida. Afaste o mau humor, pois ele pode chamar um dia ruim. Deseje um dia melhor, e 45


faça de tudo para que isso de fato aconteça. Não deixe também que o mau humor dos outros contagie você. Evite as pessoas negativas enquanto estão negativas, e se puder, ajude-as a superar esse estado de espírito. Não reaja imediatamente à falta de educação dos outros, conte até dez, respire fundo e deixe passar. Não se deixe afetar por pequenas coisas – não faça tempestade em copo d’água. Conduza um diálogo honesto consigo mesmo, e de cabeça fria supere a situação. A vida não é fácil para ninguém, e estamos todos nós sujeitos a viver momentos de crise, de profunda tristeza, mas temos de acreditar que tudo vai passar e que o futuro vai dar conta de resolver as questões que atormentam o nosso pensamento. No meio da poeira e do turbilhão, não vamos encontrar a saída. Precisamos ter bastante calma e acreditar que a ajuda vai chegar. Há Alguém que não descansa nenhum minuto e está olhando por nós lá de cima. Muito foco nos problemas também significa pouco olhar nas soluções, e, para se conseguir mudar o foco, é preciso muita serenidade. Quando olhamos muito onde caímos não prestamos atenção onde tropeçamos, e estamos sempre sujeitos a cometer os mesmos erros e padecer com os mesmos efeitos adversos. Acreditar em nós mesmos passa por olhar com honestidade a nossa própria história, olhar todo o trajeto, o progresso que já fizemos, e os problemas do passado que fomos capazes de resolver. Podemos praticar esse diálogo objetivo com nós mesmos ainda que os tempos sejam de calmaria, embora tenhamos, todos, a inclinação para fazê-lo apenas quando estamos em extrema dificuldade. Não devemos nunca desanimar, mas acreditar num futuro melhor, mesmo que as evidências apontem o contrário, e nisso está a capacidade de olhar acima das nuvens, ou mesmo acreditar em tudo que está acima delas.

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7 - Desça do pedestal

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ão encare a vida como uma escada onde você encontra pessoas abaixo e sente pena, outras acima, e as inveja. Coloquese no mesmo plano das pessoas. Exercite a empatia e coloque-se no lugar do outro para melhor entender o comportamento de cada um. Exercite a compaixão, sinta você mesmo a dor do outro e queira que a dor cesse. A empatia e a compaixão são sentimentos fundamentais para o exercício de relacionamentos maduros, e quando percebemos que conseguimos experimentar esses dois sentimentos, é sinal de que já demos um grande passo no nosso crescimento pessoal. O contrário também é verdadeiro: se continuamos a levar a vida nos comparando com os outros como se estivéssemos numa escada, é sinal de que nos esquecemos de crescer e, paradoxalmente, quanto mais subimos, mais nos reduzimos. A prepotência é a raiz de muitos dos nossos problemas, e é a barreira maior para a nossa felicidade. Acreditar que somos perfeitos e os outros não tão perfeitos, ou mesmo burros, feios e incompetentes, faz da nossa vida uma fieira sem fim de comparações desastrosas, inúteis e frustrantes tais como: Se sou mais inteligente, por que ele tem um salário melhor? Se sou mais bonito, por que ele faz mais sucesso com as mulheres? Se sou mais competente, por que ele consegue e eu não? As comparações inevitáveis para quem tem o olhar apenas para o outro acontecem cem número de vezes na sua vida, e o resultado vai ser sempre a infelicidade. Por outro lado, se você entender e aceitar que as pessoas são diferentes e encontram caminhos diferentes para suas vidas, vai deixar de fazer comparações inúteis, fonte certa de frustrações. A prepotência é também o que nos move no julgamento constante de outras pessoas. Os meus erros são explicáveis e os dos outros 47


são imperdoáveis. Essa atitude faz com que não apreciemos o lado bom de cada pessoa e, consequentemente, o que temos de bom em nós mesmos. Não se sinta ridículo fazendo coisas miúdas, e não se julgue muito importante para tratar de coisas pequenas. Até nas coisas pequenas há uma fonte de alegria, de felicidade. As pessoas que se colocam num pedestal, ficam tão afastadas das coisas comuns que tenho dúvida se aproveitam a vida. Estão tão distantes das pessoas, que não conseguem exercitar a empatia, pois sequer conseguem enxergar o outro, quanto mais se colocar no seu lugar. Tudo isso é fruto da prepotência. As pessoas precisam ouvir umas às outras, e se estamos num pedestal não conseguimos ouvi-las. Não deixe que o coloquem num pedestal; sinta quando a situação configura-se e, sutilmente, desça de lá. Quando uma pessoa coloca outra num pedestal, a miopia permite a ela perceber apenas algumas das qualidades da outra, encobrindo totalmente as demais características, não deixando espaço para que a pessoa seja simplesmente humana. O mesmo acontece conosco quando nos colocamos num pedestal; não enxergamos os nossos defeitos e, assim, não nos preocupamos em eliminá-los, o que faz com que o nosso crescimento pessoal seja totalmente prejudicado, pois perdemos contato com nós mesmos. Assim, toda vez que você se perceber colocando os outros num pedestal, dê uma revisada na sua autoestima, pois fazemos isso quando não estamos olhando para nós mesmos e valorizamos os outros em detrimento do nosso próprio valor. Estamos nos valorizando? Estamos nos sentindo diminuídos? Diferentemente, quando admiramos uma pessoa, ou nos sentimos orgulhosos de nós mesmos, é porque nos colocamos no mesmo nível, uma posição adequada para apreciar os outros, olhando com generosidade e também valorizando a si mesmo, pois nos olhamos com honestidade. Temos de agir dessa maneira; afinal, estamos todos pisando no mesmo chão e respirando o mesmo ar. O pedestal só deixa aparecer algumas qualidades. O pedestal só 48


deixa ver aquilo que queremos ver, e é um fenômeno totalmente ilusório, pois focamos naquilo que tem menos importância: os bens materiais, o status e o prestígio social. Cedo ou tarde nos damos conta de que tudo isso pouco importa, e a decepção é inevitável.

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8 - Um bom estoque de raiva

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raiva pode manifestar-se na forma de agressão explícita, palavreado característico, cara feia e tudo aquilo que conseguimos facilmente perceber, mas a raiva pode ficar estocada, escondida, e, um pouco mais adiante na vida, ela vai mostrar os seus efeitos, especialmente para o portador desse estoque de raiva. Aprenda a ler pequenas manifestações de raiva, busque a raiz desse sentimento e procure isolá-lo, minimizando, com isso, os efeitos sobre si mesmo. Quantas palavras raivosas trafegam na nossa boca e povoam a nossa mente: “você não perde por esperar” – “você vai ter o troco” – “não vou mover mais uma palha por você”, e tantos outros pensamentos que alimentam e só fazem aumentar a raiva que acumulamos, com prejuízo certo para a nossa saúde física e mental. Responder ou reagir. Pode parecer a mesma coisa, mas, definitivamente, não é. Responder é fazer com consciência, dizendo aquilo que realmente queremos dizer, algo de que não vamos nos arrepender, e também, não vai alimentar a ruminação interminável sobre o incidente negativo. Reagir, por outro lado, é entrar no jogo das ofensas e agressões, dizendo o que está na ponta da língua, e que foi comandado pelo nosso cérebro antigo e primitivo. Os desdobramentos são sempre desastrosos: uma mágoa desnecessária contra o agressor, alimentando a nossa memória negativa, que traz sempre à lembrança a dor do ocorrido. Acabamos bebendo do próprio veneno, mais do que isso, acabamos bebendo do veneno inúmeras vezes sempre que nos lembramos. Em meio à raiva, o natural é revidar, reagir, mas podemos responder ao invés de reagir, pensando um pouco, contando até dez, recuando um pouco, deixando passar e fazendo sempre a seguinte pergunta: “até que ponto isso é importante”? Não temos de reagir a tudo de negativo que nos acontece: uma fechada no trânsito, uma resposta malcriada, uma indiferença, um descaso. Quando deixamos passar, simplesmente evitamos criar

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uma marca negativa profunda na nossa mente, o estoque de raiva. Poupe-se, dê a você esse carinho e pare de reagir de maneira desproporcional às coisas que o incomodam. Pense no seu bemestar, pense na sua felicidade duradoura, pense na sua saúde física e mental. O mal-estar provocado pela raiva e pela reação agressiva alimenta o seu estresse. Não se deixe manipular pelas provocações. Quando pensamos nos outros – os agressores, reagimos, agredimos e conflitamos – mal para nós. Quando pensamos em nós mesmos, ponderamos, refletimos e respondemos de acordo com as nossas reais necessidades – bom para nós. Faça um bem a si próprio, e pare de reagir exageradamente às coisas negativas, o que acaba alimentando a raiva. Relacionamentos são fenômenos um tanto complexos, e podemonos perder facilmente em invejas, ressentimentos e culpa. Por vezes, as agressões verbais em meio ao estresse afastam e nos afastam das pessoas mais queridas, e temos de fazer alguma coisa, tomar alguma providência inteligente, afastar a raiva e os ressentimentos, fazer as pazes e reaprender a amar. A raiva estocada pode provocar o fim de um relacionamento conjugal, ocasionar a perda do emprego e danos enormes nos relacionamentos entre pais e filhos. Se você se sente amargurado com tanto estoque de raiva, está na hora de revirar o estoque e analisar a causa de cada um deles. Faça isso com determinação e coragem, desafiando um a um na sua essência, na razão de existir, procurando, assim, maneiras de livrar-se de boa parte, reduzindo o seu estoque. Guardamos raiva e ressentimento por coisas que nem bem lembramos mais. É como uma roupa que compramos por impulso e fica ocupando espaço no nosso armário. Dê fim no estoque de raiva antes que os efeitos na sua saúde se façam sentir. Isso pode tornar-se uma bola de neve, um círculo vicioso, e quanto mais raiva eu estoco, mais infeliz me sinto. Não alimente a raiva, ao contrário, focalize a pessoa que o feriu, rememore a ocasião, e jogue sobre ela a compreensão, a empatia, buscando explicações razoáveis para tal comportamento. Caso não 51


encontre nenhuma explicação plausível, simplesmente deixe passar. Agora que o tempo passou e o evento se distanciou um pouco, olhe o acontecimento com mais distanciamento e mais serenidade. Já faz tanto tempo, e está na hora de livrar-se desse ressentimento. Você não precisa esquecer os eventos desagradáveis, apenas livrar-se da raiva e da carga negativa e desnecessária que vem com eles. Deixe a leveza e o perdão dominarem suas lembranças. Ao tirar a significância das lembranças negativas, você vai potencializar o efeito benéfico das lembranças positivas. Fuja da prisão que você mesmo se impõe quando escolhe manter a raiva. Exercite esse direito que você tem de viver em paz. Especialmente nos relacionamentos amorosos, o perdão tem de tomar lugar, logo no princípio – não dá para amar se o palco dos seus sentimentos só tem lugar para raiva, ressentimentos e culpa. Comece perdoando os pequenos incidentes, as coisas realmente sem importância. Pratique consigo mesmo, perdoe-se e se libere-se de tanta carga inútil que vive carregando. Não desanime quando suas investidas repletas de amor e perdão encontram uma parede espinhosa. O final da história é sempre feliz. Deixe ir a raiva, por si só, e você vai aproveitar mais a vida e vai ser mais feliz.

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9 - A porta que se fechou

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icamos tão obcecados pelas portas que se fecham que não enxergamos as portas que estão prestes a se abrir. É importante saber que as oportunidades aparecem na nossa vida a todo o momento, mas precisamos estar presentes e atentos para aproveitar. Aqueles que acreditam que a vida é uma desgraça sem fim, com portas se fechando uma atrás da outra, acabam perdendo as chances que aparecem, pois não estão com os olhos abertos e o coração desperto, acreditando que pode ser abençoado agora mesmo. A vida é difícil, mas vale a pena ser vivida. Com todas as experiências acumuladas, precisamos ter a capacidade de enxergar as coisas boas que têm nos acontecido, simplesmente examinando a nossa história. Nossa mente é pródiga em guardar os eventos negativos e muito relapsa em guardar os eventos positivos. Temos de driblar essa característica inata no ser humano, desviando o olhar para coisas positivas, atentando mais para as oportunidades e menos para as tempestades. Ficamos tão magoados e decepcionados com oportunidades perdidas e desapontados com as pessoas que nos negam ajuda quando mais precisamos. Apesar de tudo isso, temos de levantar a cabeça e ficar com a nossa atenção redobrada para qualquer fresta que se abra. Precisamos ter fé e acreditar que nunca estamos sós, e essa pequena luz que mostra o caminho pode ser a nossa saída. Ao sentir-se desamparado, como se todas as oportunidades lhe fossem tolhidas, olhe para cima e sinta a segurança de ter a ajuda incondicional do Deus da sua crença. A vida é cheia de altos e baixos, e vamos sobreviver; mais do que isso, vamos conseguir ser felizes enquanto tudo isso acontece. Cada dia vivido é uma aprendizagem, como um rosário de momentos alegres e abençoados. Aceite ver a porta se fechar, mas não se feche para a própria vida. Na vida que segue, muitas outras portas se abrirão – fique atento e aproveite. 53


Enquanto lutamos com as dificuldades do cotidiano, podemos experimentar a felicidade à medida que encontramos as coisas que dão significado à vida, o exercício das nossas virtudes, o calor do convívio e a realização do nosso potencial. Não devemos maldizer as oportunidades perdidas, pois estar vivo já é um milagre, e nada na nossa vida é totalmente ruim. Mesmo as crises nos ensinam valiosas lições, e o desapontamento, a tristeza, a frustração e a perda podem vir acompanhados de oportunidades para outras realizações. Não chore o leite derramado, levante a cabeça e siga em frente, e acredite que coisas boas acontecerão, e que oportunidades aparecerão. Os filósofos referem-se a uma lei da compensação, e o equilíbrio de coisas boas e ruins realmente acontece na nossa vida. Assim como a transformação é o fim para a lagarta, o mesmo processo representa o início para a borboleta. Aguce a sua percepção, pois a oportunidade pode estar escondida. Às vezes isso não acontece logo em seguida, é preciso ter paciência e a mente aberta para enxergar e aproveitar as novas oportunidades. Imagine-se num quarto escuro onde a porta acabou de se fechar. Fique sereno e atento para a pequena fresta que vai se abrir deixando passar a luz que no princípio mostra-se quase imperceptível, mas, de repente, o seu ambiente ilumina-se o suficiente para você enxergar a saída. Em muitas crenças o coração é a janela espiritual, e quando estamos em dificuldades o coração pode apontar um caminho seguro, pois ele pode perceber a janela de oportunidade se abrir antes do alcance da própria mente. Você pode chamar de intuição ou ajuda Divina, mas reconheça e aceite que isso acontece também contigo. Não devemos nos apegar às experiências ruins do passado, evitando a ruminação e a imobilização. O futuro abre-se para você a todo momento, em oportunidades que você precisa aproveitar. Faça a sua parte, realize e seja feliz.

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10 - Pare de parar

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ão coloque obstáculos às suas realizações, e não seja você mesmo o pior crítico de suas empreitadas. Não se sabote, não coloque cascas de banana no próprio caminho. Seja honesto consigo mesmo e acredite na sua capacidade de resolver os problemas e realizar os seus projetos. Não duvide de si mesmo, simplesmente coloque-se à prova, desafie as próprias convicções negativas que eventualmente venha carregando. Dê duro e prove que é capaz, que aprendeu as lições, que se aprimorou e adquiriu novas habilidades. Não pare só por que tem algumas dúvidas de si mesmo. Vá em frente, conte com a ajuda de outros e corra atrás dos seus sonhos. Estude bastante, capacite-se e esteja preparado para desafios maiores, dificuldades inesperadas. A vida é assim mesmo, e quando olhamos para trás, para as barreiras que julgávamos intransponíveis, nos damos conta de como o tempo nos capacitou e nos deu mais sabedoria. Acredite, e você vai conseguir. Não desista à menor dificuldade, persista, persevere e levante-se rapidamente quando levar uma queda. A vida é uma grande maratona, com obstáculos por todo lado. Temos que aceitar a jornada tal qual ela vem, e preparar-se, pois as dificuldades tornam-se maiores com o passar do tempo, mas o nosso consolo é que nós também nos tornamos mais fortes e preparados. A calma e a serenidade também vêm com o tempo, mas precisamos fazer o que tem de ser feito. Ficar parados não vai nos ensinar nada. Quanto mais inertes ficamos, mais tendemos a continuar nesse marasmo, pois nada cai do céu, e a falta de resultados acaba nos desanimando com as coisas e consigo mesmo. Não devemos nos desesperar e nem nos amedrontar com o que vem pela frente, pois se fizemos as lições de casa, vamos dar conta do recado, vamos resolver, decidir e realizar os nossos projetos, mesmo com crises e dificuldades. Aproveitamos a brisa reconfortante enquanto ela sopra, pois sabe 55


mos que o calor pode nos afligir um pouco mais adiante. Poupamosa água e os recursos, e já aprendemos que momentos de carestia são inevitáveis. Ajudamos os outros, pois somos ajudados nas adversidades, e aprendemos o bem-viver em comunidade. Com todas essas lições da escola da vida, não temos porque duvidar da nossa aprendizagem e da nossa capacidade. Não procrastine, não empurre com a barriga e não deixe para amanhã o que pode ser feito hoje e tampouco deixe para depois o que pode e deve ser feito agora mesmo. Nada de desistir quando falta mais uma volta. Não jogue a toalha, peça ajuda, encontre aquele sopro de energia lá no fundo. Pare de se desvalorizar, seja seu melhor amigo e melhor conselheiro. Levante-se, siga em frente, continue de cabeça erguida, pois essa é a sua vida. Inventamos mil desculpas para parar, interromper e adiar, e devemos resistir a essa tentação. Temos de sentir a satisfação de estar em movimento, mesmo que lentamente. Temos de sentir o incômodo da estagnação, e isso deve nos motivar a movimentar-se, fazer alguma coisa, tentar de outra maneira, criar, inovar e fazer a diferença. Não reclame da sua cruz, pois todos foram premiados com a dose exata de problemas, e sabemos que não temos de resolver tudo sozinhos, nem tudo tem de ser feito ou resolvido exatamente hoje. Podemos contar com a ajuda de amigos e familiares e não tem nada demais pedir ajuda. Não cobre tanto de si mesmo, seja generoso na autoavaliação, dê duro hoje e um pouco amanhã.

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TRANSFORME

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ude e transforme tudo o que vem neste capítulo, a começar pelo medo, que é um presente que recebemos dos nossos ancestrais por conta de milhões de anos de evolução da raça humana; mas ele é desproporcional diante da realidade do homem moderno. Temos de calibrar o medo para não impormos um dano ao nosso organismo, pois o estresse que dele advém provoca alterações prejudiciais e cumulativas à saúde. No entanto, devemos transformar o medo, pois ele nos mantém vivos, e também o individualismo, o perfeccionismo, a autocrítica e a ansiedade. Mantenha expectativas realistas na sua vida. Desapontamo-nos com tudo, com todos e consigo mesmo quando esperamos o irreal e a expectativa saudável coloca-nos na direção de um futuro possível e melhor. O arrependimento pode imobilizar-nos, pois nos impede de tomar qualquer iniciativa, com receio de que vamos nos arrepender. Mas um nível calibrado de arrependimento afasta-nos da possibilidade de cometer as mesmas asneiras que co-metemos no passado. Temos de transformar a pena em compaixão, que é o sentimento mais saudável. Quando sentimos pena dos outros é porque os olhamos de uma situação superior e privilegiada, e isso é negativo, pois quando o sofrimento acontece consigo mesmo, a pessoa faz-se de vítima e acaba deprimindo-se. Temos de desenvolver o amor próprio, tratar a si mesmo com generosidade, evitando ainda o outro extremo do ego inflado e do individualismo exacerbado. Dar de si é importante, fortalece o nosso caráter e permite-nos construir relacionamentos sólidos. Contudo, é preciso evitar o outro extremo da caridade, pois no mundo real acabamos presas fáceis para os aproveitadores. Tudo o que aqui descrevemos pede o equilíbrio, o caminho do meio, nem tanto o mar e nem tanto a terra, e assim tornamo-nos pessoas completas, dedicados aprendizes nessa farta e abundante escola da vida. 57


1 - Pessoas fazem coisas que não gosto

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ão há como evitar: algumas pessoas fazem coisas que não gosto, e sei que isso azeda o meu dia, tenho que deixar ir. Quando isso acontece, minha mente passeia logo pelas críticas, pelos julgamentos, pelos rótulos, e fica numa ruminação interminável que sei faz um mal enorme ao meu organismo. Não devo aceitar maus tratos, provocações e agressões, mas a grande maioria dos incidentes desse tipo enquadra-se em coisas ditas, comentários maldosos e atitudes sem importância que devemos relevar e dar a importância que lhe é devida, ou seja, nada. Nem todo mundo me agrada, e já aprendi que tenho de aceitar as pessoas como elas são. Sei julgar e comparar, mas tenho de saber, também, que não sou o senhor da verdade, e o meu julgamento está muito longe de ser o correto, especialmente quando o faço direcionado a outras pessoas. Devo resistir à tentação de enquadrar todos no meu modelo ideal de comportamento, como se eu fosse encarregado pelo controle de qualidade da fábrica de pessoas. Tenho de entender, ainda, que não sou perfeito e cometo também as minhas asneiras, e mesmo quando ajo corretamente, posso não agradar a todo mundo. As pessoas irão aceitar-me como sou, é o que espero. Se eu ficar incomodando-me com cada coisinha que as pessoas fazem, vou arrumar um caminhão de aborrecimentos, e isso é uma barreira estrondosa à minha felicidade. Mas se não me aceitarem, criticarem e julgarem, também devo deixar ir tais incidentes e afastar-me, quando for o mais adequado. Não vou consertar as pessoas e tenho de me concentrar naquilo que é de minha responsabilidade; não sou responsável por definir o comportamento, o caminho e as escolhas de outras pessoas. Gosto muito de algumas pessoas e não gosto de outras, mas aceito todas como são, e aceito também o fato de eu não gostar de algumas. O convívio saudável passa pela capacidade de se dar bem com um elenco variado de pessoas. Algumas nos chateiam de vez em quando, 58


outras nos contentam quase sempre, e isso é que dá o colorido nos relacionamentos. Afinal, sei que não há relacionamento sem algum aborrecimento e, mesmo entre amigos do peito, algumas rusguinhas podem surgir de vez em quando. Os mal-entendidos devem ser tratados imediatamente para não se tornarem um cavalo-de-batalha, um muro intransponível. Muitas pessoas fazem tempestade em copo d’água e levam a perder relacionamentos preciosos. Especialmente quando tratamos dos amigos de verdade, que são poucos e raros, devemos cuidar para que os desentendimentos sejam resolvidos com honestidade e boa vontade, pois não queremos perdê-los. No seio familiar as encrencas acontecem a todo o momento. Tomamos as dores uns dos outros, desentendemo-nos a torto e a direito, e os encontros familiares tornam-se palco de muitas discussões sem fim. No final, muitos se aborrecem, alguns se afastam e ficamos sem falar com pessoas que nos são caras. Temos de aceitar que isso é a realidade dos relacionamentos, mas podemos amenizar, minimizar e tratar com pouca relevância aquilo que é apenas ponto de vista, fruto da experiência de cada um. Ninguém é perfeito e não sou eu a dizer quem é e quem não é. Demorei um pouco a entender isso tudo, e por conta disso me afastei de pessoas que – hoje sei – são pessoas boas ao seu modo. Posso não gostar de muitas coisas que as pessoas fazem, mas hoje estou bem com isso, compreendo muito bem os meus sentimentos, e sou um pouco mais feliz com essa valiosa aprendizagem.

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2 - Uma família muito pequena

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uitas pessoas notáveis no campo da espiritualidade, incluindo Madre Tereza de Calcutá, diziam que usualmente, fazemos o nosso círculo familiar muito restrito e, por isso, acabamos excluindo muita gente da influência da nossa amizade, confiança e generosidade. Quando construímos os nossos relacionamentos de confiança no núcleo estritamente familiar, empobrecemos a nossa influência social e tornamo-nos pobres, nós mesmos. O mundo ultraconectado das redes sociais poderia melhorar isso, mas acaba criando um emaranhado de relacionamentos frágeis, supérfluos e desvestidos de qualquer compromisso sério. Temos muitas conexões, mas poucas pessoas com quem possamos contar quando estivermos em séria dificuldade, ou mesmo quisermos encontrar para comemorar algum fato maravilhoso na nossa vida. Temos de cuidar dos nossos relacionamentos como se cuidássemos de nós mesmos, ampliando o nosso círculo com mais pessoas com quem possamos encontrar, ajudar, pedir ajuda e trocar experiências concretas de vida. Lealdade e amizade incondicional constroem laços que são para a vida toda. Não descuide dos amigos e familiares, e traga mais pessoas para esse círculo; confie, seja fraterno e generoso, esteja disponível para ouvir e aconselhar, quando for o caso, sem se intrometer desnecessariamente na vida do outro. Quando as pessoas são pesquisadas sobre qual a atividade que mais lhes traz satisfação e bem-estar, sempre colocam o convívio com os amigos em primeiro lugar, e é indiscutível o quanto os amigos nos fazem bem emocionalmente e também fisicamente. As pessoas que estão cercadas pelos amigos têm o seu sistema imunológico fortalecido. Dizem que devemos gostar de si mesmo em primeiro lugar e, com essa habilidade desenvolvida, estamos prontos para gostar também dos outros, ser uma pessoa generosa, autêntica, sem falsidades, agregando e aproximando as pessoas. Pessoas felizes estão sempre

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no centro das conexões, influenciando positivamente a vida dos outros. Temos de desejar esse papel para nós mesmos e valorizar as pessoas que assim representam. Não podemos nunca desprezar o amor próprio, cuidar de si em primeiro lugar; mas, nesse projeto de vida, necessariamente tem de caber muitas pessoas, muitos corações e mentes, uma infinidade de experiências conjuntas, comemorações e compartilhamentos. Ajude as pessoas a crescerem, ajude-as quando estiverem em dificuldades, ofereça o seu ombro e seus ouvidos compassivos. Tenha o coração grande e aberto, mas uma atitude misericordiosa que consegue abrigar o sofrimento alheio e aceitar as pessoas como são. Afaste a soberba, a arrogância e a prepotência e deixe o seu coração encher-se da compreensão bondosa das outras pessoas. Aceite os outros como são, sem julgamento e críticas infundadas. Diga não com carinho e honestidade, e critique para construir. Não seja tão exigente e não crie expectativas irrealistas acerca das outras pessoas; isso é sempre uma fonte de decepções. Não jogue qualquer perfeccionismo por cima das pessoas e não critique desnecessariamente. Perceba quando está sendo inconveniente e indesejável. Aprenda a ler os sinais sutis dos relacionamentos. Cuide de si, mas tenha sempre em mente passar muito tempo no convívio dos amigos e familiares. Examine sempre se o seu círculo de amizades não está se estreitando, se as pessoas não estão se afastando de você, evitando a sua companhia. Esteja mais disponível e não olhe apenas para o seu umbigo; compreenda os outros, pratique a empatia e tenha a segura impressão de que seus amigos podem contar com você quando precisarem.

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3 - A riqueza do cotidiano

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uitas vezes sentimo-nos entediados e aborrecidos com a rotina cotidiana. Muita coisa para fazer, e que já fizemos ontem e todos os dias que o antecederam. Inevitável sentir certo desânimo como se tivéssemos que empurrar uma grande pedra que mal sai do lugar. Como encontrar beleza e riqueza no cotidiano, ao escovar os dentes pela manhã, o banho apressado, o trajeto para o trabalho? A vida pode e deve ser enriquecida em tudo que fazemos, inclusive na repetitiva atividade cotidiana. Temos de aprender os mecanismos que torna a vida interessante, rica e abundante, mesmo nas coisas repetitivas e desprovidas de qualquer carga intelectual. Procure interessar-se por tudo que faz e, mesmo que já tenha feito antes por incontáveis vezes, coloque interesse como se fosse a primeira vez. Você sempre vai encontrar algo diferente, algo que não havia atraído a sua atenção nas vezes anteriores. Certa ocasião, quando eu estava indo para o trabalho, ao passar por um ponto próximo de uma pequena mata notei um tucano solitário atravessando os céus por cima da pista. Admirei-me pelo fato de ele estar sozinho, de estar naquele lugar tão urbano e metropolitano. Agradeci a oportunidade de apreciar, logo de manhã, uma cena tão bonita. Por vezes, quando trafego pela autopista, especialmente na primavera, vejo ipês amarelos totalmente tomados pelas flores. Aprecio, saboreio e digo em voz alta: – lindo – lindo – lindo; um elogio à natureza que me deu o privilégio de presenciar tal evento. A vida e o cotidiano podem mostrar maravilhas nos seus mínimos detalhes. Cada experiência, cada circunstância pode esconder um conhecimento precioso que você deve aproveitar. Ame o que você vê. Ame a natureza. Você está aqui, agora, imerso nessa riqueza que é a vida. Procure saborear, e se dê conta que, mesmo na repetição do cotidiano, sempre ocorre algo diferente e, principalmente, as interações com as mesmas pessoas não acontecem

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da.mesma maneira As palavras fluem de maneira diferente e as emoções que envolvem cada interação são também diferentes. As pessoas que atendem clientes no balcão sabem que cada pessoa é diferente e, mesmo que as demandas sejam aparentemente idênticas, é possível aprender alguma coisa, ajudar as pessoas de maneira especial. Procure fazer um pouco diferente, dê um pouco de colorido ao seu cotidiano. Traga uma flor para o ambiente de trabalho, provoque alguma interação entre as pessoas, faça os outros se interessarem também pela rotina. Saia você e ajude os outros a saírem do piloto automático, pois, mesmo para as tarefas puramente mecânicas, devemos sair da inclinação para atuar como um robô. Você é uma pessoa abençoada, e tudo o que acontece no seu dia tem algum motivo. Não despreze qualquer momento. Veja a beleza em si mesmo. Você é uma pessoa diferente daquele que fez o mesmo trajeto ontem. Aprecie o seu crescimento, o amadurecimento que experimenta ao olhar a mesma coisa com uma lente diferente. O longo caminho da vida é percorrido um passo de cada vez, e os nossos projetos não são executados de uma única tacada. Muitas etapas, por vezes entediantes, fazem parte de tudo o que fazemos, e mesmo para aqueles que amam as suas tarefas, as suas profissões, encontram algo que detestam fazer e sentem-se subutilizados. A vida deve ser vivida com alegria, com imensa gratidão por tudo o que nos é oferecido, saboreando cada colherada, cada olhar trocado e cada revelação. A beleza está abaixo das aparências, abaixo do verniz do cotidiano. Aprecie, saboreie e seja feliz. Como escreveu Richard Bach: “a melhor forma de pagar pelo momento maravilhoso é aproveitá-lo”.

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4 - O elevador da felicidade está desligado

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ensamos sempre em tomar um atalho, um elevador expresso que nos conduza à felicidade, mas hoje sei que esse recurso não existe. Aliás, o elevador da felicidade está desligado, e você vai ter de utilizar as escadas, um passo de cada vez. Não há um atalho para a felicidade; é necessário tomar o percurso longo, e isso exige paciência e determinação. Não estamos felizes o tempo todo, e há ocasiões de profundo desânimo; porém, precisamos levar em conta que isso também vai passar, e o caminho longo ensina-nos a comemorar pequenos progressos, avanços quase imperceptíveis. Um passo de cada vez, mesmo que pequeno, dá-nos a fina percepção da nossa capacidade, e aprendemos que damos conta das adversidades, e que podemos aprender com cada dificuldade a nós oferecida. A diligência, a perseverança e a força de vontade são aprimoradas à medida que nos obrigamos a seguir caminhando, todos os dias, um passo de cada vez. Não vamos desistir só por que o trajeto é longo. Não vamos nos deixar intimidar com tantas dificuldades, e desanimar com as recompensas miúdas e minguadas. Com o tempo, sentimo-nos serenos, fortalecidos e confiantes de que o resultado final pode ser animador. O estresse e a ansiedade para ver os resultados de curto prazo dão lugar à paciência com tudo, com todos e, especialmente, consigo mesmo. Não somos o Todo Poderoso que pode tudo, mas tampouco somos impotentes diante das adversidades, e temos de assumir a responsabilidade pela nossa vida, sem negligenciar nas ações nem titubear nas decisões. A escada do crescimento pessoal e da felicidade é panorâmica. Damo-nos conta disso logo nos primeiros degraus vencidos. À medida que galgamos, a visão torna-se mais clara, o horizonte mais largo, e o futuro menos amedrontador. Não há formula mágica, e nem é preciso ser talentoso para engajar-

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se na transformação que vai ocorrer de dentro para fora. Tomar o caminho da escada é uma escolha, e a alternativa não é animadora. Podemos ficar sentados, acreditando que o elevador vai operar algum dia, e com isso ver a vida passar sem que um único passo concreto tenha sido executado na direção do crescimento pessoal. Contudo, podemos escolher o caminho longo e seguro, onde cada ação é recompensada de uma maneira ou de outra, e a alegria é sempre presente. Não olhe tanto para os lados enquanto caminha, e esteja satisfeito especialmente com o seu progresso, mas lembre-se que deve ajudar quem precisa e pode pedir ajuda quando as coisas estiverem muito difíceis. Esteja próximo das outras pessoas e escolha fazer o seu trajeto na companhia de outras pessoas. Cresça junto com os outros e ajude as pessoas a realizarem seus projetos. Encontre sempre a alegria do convívio saudável com outras pessoas. Não se descuide da saúde física e mental, pratique exercícios físicos, alimente-se adequadamente, descanse e privilegie um sono tranquilo. Procure melhorar suas habilidades e conhecimentos, e mantenha a mente em constante exercício. Você não perde nada em acumular mais um conhecimento. Não se deixe abater por pequenas derrotas, e levante-se da queda rapidamente. Aprenda a lição e siga de cabeça erguida. Assuma uma atitude positiva, olhe para o futuro e aprenda a se recuperar-se rapidamente dos reveses da vida. Tenha sempre um projeto grande na sua vida, algo que realmente traga sentido ao seu caminhar. Tenha sempre o olhar para um horizonte largo. Faça o bem, seja generoso e procure ser uma pessoa melhor um passo de cada vez. Assim, a vida vai retribuir-lhe em abundância, e a felicidade vai estar em todos os trajetos que você escolher.

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5 - Acredite em si mesmo

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á momentos em que a vida nos deixa de joelhos. Sentimo-nos muito por baixo, e é preciso juntar coragem para levantar-se. Quando estamos por baixo, aprendemos uma grande lição: o quanto somos impotentes perante a grandeza deste mundo. Quando estamos por baixo, as mínimas coisas atingem-nos, como um verdadeiro tsunami, e perdemos a noção de proporção. Fazemos tempestade em copo d’água, olhamos o copo sempre vazio e encontramos dificuldades em tudo. Não é à toa que nos sentimos tão diminuídos. A vida é maior que nós, mas somos capazes de viver plenamente, acreditando que é possível aprender, aproveitar as lições, fortalecer-se e prosperar. Somos dignos e merecedores de tudo o que recebemos e temos de aceitar as adversidades de cabeça erguida e aproveitar, com a mente aberta, as lições nelas embutidas. Temos de ser honestos e otimistas quando olhamos para as dificuldades, desvestindo-nos da prepotência para enxergar sua real dimensão. Quando nos julgamos muito poderosos, colocamo-nos num pedestal, e quando a queda é inevitável, o estrago emocional é maior. Temos de aceitar as coisas que estão fora do nosso alcance, e assumir a responsabilidade para mudar aquilo que está ao nosso alcance. Não devemos nos colocar como vítima de ninguém, tampouco devemos nos culpar por coisas que acontecem de errado todo dia. Não há como acertar em tudo. Sempre há coisas que saem diferente do esperado, e fora do nosso controle. A vida é uma luta e, por vezes, pode querer derrotar-nos. Podemos até achar que é uma luta desleal, mas se fazer de vítima não vai ajudar em nada. Quem não tem problemas, certamente não é desse mundo, e quem tem problemas deve saber que isso é próprio da condição humana, ingrediente essencial para tornarmo-nos pessoas melhores. Toda vez que nos sentirmos prejudicados ou deliberadamente passados para trás devemos analisar com cuidado, pois podemos 66


estar incorrendo no processo destrutivo do “se fazer de vítima”. Queira sempre o seu bem, goste de si, incondicionalmente, não se faça de vítima e não se diminua. Não alimente a ruminação sobre um evento negativo e não deixe que isso imobilize você. É hora de tirar uma lição, fortalecer-se e seguir adiante. Tudo tem jeito. Tudo tem reparo, e temos de fazer alguma coisa antes que isso assuma uma dimensão catastrófica na nossa mente. Coragem para mudar, para se desafiar e confiar que, no começo, os resultados podem ser miúdos e especialmente difíceis, em meio a tanta incerteza, ansiedade e insegurança, mas, no final, tudo termina bem. Nós todos temos uma tendência de ser duro consigo mesmo. Especialmente quando falhamos, as cobranças podem ser insuportáveis. Mas a crítica exagerada coloca-nos para baixo, afeta a nossa autoestima e limita-nos a enxergar o grande quadro, o caminho da aprendizagem. Aceite-se, e aceite os seus erros como elementos fundamentais para o crescimento pessoal. Sei que você não gosta quando o criticam severamente e, por isso, você não deve fazer isso consigo mesmo. Quando nos colocamos de maneira honesta consigo mesmo, passamos quase que automaticamente a adotar a mesma atitude com relação aos outros, o que é um bálsamo para os relacionamentos. Alguns autores afirmam que gostar de si é um ato de coragem, além de ser um ato de amor e generosidade. Dar o passo rumo a si próprio é, sim, um ato de coragem, e sabemos que muitos relutam nessa relação verdadeira consigo próprio. Se há uma ocasião em que pensar positivo é precioso, é quando refletimos sobre nós mesmos. Acredite em si mesmo antes que outra pessoa o faça, e mesmo que ninguém venha a acreditar. Liberte-se da dúvida simplesmente mostrando a si mesmo que é capaz. Reconheça as suas forças e virtudes e coloque tudo isso a serviço do seu crescimento pessoal.

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Artwork

RUBENS SAKAY é consultor internacional, graduado em engenharia mecânica e pós-graduado no país e no exterior, em diversas áreas, especialmente em Recursos Humanos. Tem dedicado os últimos dez anos ao estudo da felicidade e bemestar, prestando serviços a empresas grandes e pequenas bem como instituições públicas no tema. Escreve para revistas especializadas, grava programas de rádio e dedica tempo também ao trabalho social em hospitais e escolas públicas. É autor do livro “Hoje pode ser um dia melhor” e escreve diariamente no blog http://projetosejafeliz.com Nasceu em São Paulo, tem dois filhos e mora com a esposa em Brasília.

Brasília, dezembro de 2014. 68

Faca nao faca por rubens sakay  
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