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ENTRE PONTES E PINGUELAS: _ _ _ _ _ _ _ estrada

adentro,

mundo

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Ad e nt ro - A s s o c i a ç ã o d o s A r t i sta s V i s u a i s da Re gi ã o Oeste de Santa Catarina


ENTRE PONTES E PINGUELAS: _ _ _ _ _ _ _ estrada

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ENTRE PONTES E PINGUELAS: ENTRE PONTES E PINGUELAS: __ _ _ _ _ _ __ estrada

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Pro d uz id o p or Ed itora Ca s e ira ( w w w . e d itora ca s e ira . com ) a p e d id o d a Ad e ntro - Asso c ia ç ã o d os Artista s Visu a is d a Re g i ã o Oeste d e S a nta Catarin a Org a niza ç ã o : So nia Lore n Este p roj eto f o i co ntempla d o p elo Pr ê mio Fun arte Artes Visu a is - Perif eria s e Interiores

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A 232 e Ad e ntro - Asso c ia ç ã o d os Artista s Visu a is d a Re g i ã o Oeste d e S a nta Catarin a Entre p o ntes e p in g uela s : estra d a a d e ntro , mun d o a f ora . 1 a e d i ç ã o / Ad e ntro - Asso c ia ç ã o d os Artista s Visu a is d a Re g i ã o Oeste d e S a nta Catarin a : Floria n ó p olis / Ed itora Ca s e ira , 2019 124 p á g in a s . ilustra d o colorid o . 21 x 24 cm

ISBN 978 - 85 - 6 8923 - 6 3 - 4

CDD 779 CDU 77 . 04 ( 81 )

1 . Artes Visu a is 2 . Foto g ra f ia 3 . Interior Catalo g a ç ã o n a Fo nte : Bibliote c á ria Elle n M . Zorzetto CRB 14 / 1611 T ip o g ra f ia d o t í tulo M A D E R R E G U L A R T ip o g ra f ia d o Miolo ALCUBIER RE Este livro foi impresso em jato de tinta pigmentada sobre papel pólen bold 90g, Capa impressa em jato de tinta pigmentada sobre papel Opalina Diamond 240g costura d o artes a n alme nte . Co ord e n a ç ã o e d itorial e p roj eto g r á f ico : Gusta vo Re g in ato Rev is ã o : Fern a n d a Ap are c id a R ó h d e n


Ad e ntro - Asso c ia ç ã o d os Artista s Visu a is d a Re g i ã o Oeste d e S a nta Catarin a

ENTRE PONTES E PINGUELAS: estrada

adentro,

mundo

1a edição

Floria n ó p olis / SC Ed itora Ca s e ira 2019

afora

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S UM Á RIO Ag ra d e c ime ntos

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A Ad e ntro

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Entre Po ntes e Pin g uela s : p ro d u ç õ es em artes v isu a is no o este d o esta d o d e S a nta Catarin a

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Ad e ntro : d a s p o ntes a o estre itame nto d a s p in g uela s e d a s rela ç õ es

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Ap res e nta ç ã o

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Linh a Ta f o n a

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Fa xin al d os Ros a s

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Rodeio Bonito

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Linh a Ca c ho e ira

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Of ic in a s e Exp os i ç ã o Itinera nte

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Viv ê n c ia s

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Re g istro d e v iv ê n c ia s Entre p o ntes e p in g uela s : estra d a a d e ntro mun d o a f ora

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AGRADECIMEN T O S FU NAR TE S abi á Gest ã o Criativa Se c retario d e Cultura d e Ch ap e c ó – Nem é s io Carlos d a Silva Fa xin al d os Ros a s Linh a Ta f o n a Ro d e io Bo nito Linh a Ca c ho e ira

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A ADEN T R O

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A Adentro - Associação de Artistas Visuais do Oeste de SC nasceu em 28 de agosto de 2010, idealizada pela artista visual e atual presidente Sonia Loren. A associação tem por objetivos qualificar e profissionalizar não apenas os artistas associados, mas toda a comunidade de Chapecó e região, na medida em que promove e incentiva a reflexão no campo das artes, além de difundir e fomentar novas propostas, pesquisas, exposições e movimentar o cenário em nível estadual e nacional. Com a intenção de fazer um intercâmbio cultural pelo estado, a Associação convidou em 2011, o artista e curador de Florianópolis, Fernando Lindote para fazer uma curadoria. Os dois encontros realizados em Chapecó, resultaram na exposição Uma Cor Atravessada. Seguindo a proposta de trocas e experimentações, a Associação convidou em 2013 o curador e historiador, também da capital Catarinense, Fernando Boppré, para diálogos e futuros desdobra-

mentos como resultado dos encontros que aconteceram no mês de julho e novembro de 2103/2104. Em 2015 o curador e artista visual Franzoi, de Joinville, orientou os artistas e jovens adolescentes em mais um projeto. Atualmente, a Adentro é composta por sete membros: Cristina Luviza Battiston, Cezar Zanin, Leonice Araldi, Luisela Cansian, Nathalia Vieira, Tania Stempkowski e Sonia Loren. A Adentro apresentou exposições em nível local e estadual, destacam-se espaços como: Museu de Arte de Blumenau (2012); Museu de Arte de Joinville (2014); Galeria Municipal Dalme Marie Grando Rauen (2011/2012/2017); Galeria Centro de Eventos Plinio Arlindo de Nês (2013/2015); Galeria Agostinho Duarte UnoChapecó ( 2011/2012); e participação no projeto Rede Sesc de Galerias(Jaraguá do Sul e São Bento do Sul) – 2015). Além de ter os projetos “Tramas Curatoriais Adentro em Dobro”, premiado no edital das Linguagens Artísticas de Chapecó edição 2014 e executado em 2015, onde os artistas da Adentro orientaram jovens artistas adolescentes com curadoria de Franzoi (Joinville) e “Entre Pontes e Pinguelas – micro residências em comunidades do interior de Chapecó”, premiado em 2016 e executado em 2017.


Entre pontes e pinguelas:

produções em artes visuais no oeste do estado de Santa Catarina

Nos processos de identificação, fruição e fomento de projetos artísticos e culturais, provoca-se a reflexão do deslocamento dos circuitos de circulação da produção simbólica - promovidos por artistas, de forma individual e, por coletivos organizados em Associações constituídas juridicamente ou, autônomos – dos espaços comumente associados à legitimação, como os centros urbanos e capitais dos estados, para comunidades periféricas e zonas rurais no interior do estado de Santa Catarina, colocando, além da discussão do circuito, a produção como espaço de percepção, identificação e questionamento do lugar/espaço e sua representatividade no cenário das Artes Visuais. O projeto proposto pela ADENTRO – Associação dos Artistas Visuais da

Região Oeste de Santa Catarina é um exercício de aproximação das reflexões e produções artísticas de sete artistas no interior do meio oeste do estado, propondo vivências comunitárias em localidades rurais do município de Chapecó/ SC, utilizando diferentes suportes – respeitando a estilística individual – para compor uma narrativa de identificação do ser/estar num lugar tido como distante de outros ou, sob outro ponto de vista, sendo o centro/epicentro do seu próprio circuito, ressignificando os espaços expositivos, a mediação arte/público, a produção coletiva de símbolos e a formação de um pensamento regional sobre Artes Visuais e suas singularidades. Percebe-se, com essas narrativas, a acessibilidade que a linguagem artística alcança ao aproximar artistas da comunidade, expressando o desejo de produzir como coletivo e colocando o interior, as zonas periféricas, os lugares mais “distantes” como catalizadores de um pensar/fazer arte a partir de suas próprias realidades. Artêmio Valter de Souza Filho & Lariessa Soligo da Campo Gestores Culturais na Sabiá – Gestão Criativa

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Ad e ntro : d a s p o ntes a o estre itame nto d a s p in g uela s e d a s rela ç õ es

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Qu a n d o a arte como p r á tica inte n c io n alme nte s e co nf un d e com a multiplic id a d e d e o utra s id e ntid a d es e ativ id a d es q ue costum amos c h am ar d e v id a , ela s e tor n a suj e ita a to d os os p roblem a s , co n d i ç õ es e limita ç õ es d ess a s o utra s ativ id a d es , b em como d e su a s lib erd a d es ú nica s ( como , p or exemplo , a lib erd a d e d e f a zer um s ite s p e c if ic e nq u a nto s e d iri g e n a a uto estra d a p ara ir a o tra b alho , em vez d e f icar restrito à s p are d es d e um a g aleria ; o u a lib erd a d e d e s e e n g aj ar no e ns ino o u no trab alho comunit á rio como arte ) .

Alla n Kap row , 1996

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1 KAPROW, Allan. Sucessos e fracassos quando a arte muda. Tradução: Inês de Araujo. Revista Temáticas, p. 148 - 155. Disponível em: < http://www.ppgav. eba.ufrj.br/wp-content/ uplOads/2012/01/ae18_allan_ kaprow.pdf. > Acesso em 05/05/2019


A Adentro - Associação de Artistas Visuais do Oeste de SC - é um coletivo de artistas autogestionado, criado em 2010 em Chapecó, cidade localizada no extremo-oeste de Santa Catarina. A iniciativa de trabalhar com arte contemporânea coletivamente, levada adiante e formalizada pela artista fundadora Sonia Loren, partiu da inquietação inicial que muitos artistas locais partilhavam, de que suas práticas haviam se tornado individualistas e competitivas entre si, o que enfraquecia a classe porque causava uma disputa pelos escassos espaços de arte existentes, ao invés de reunir uma luta pela ampliação e democratização deles. O desejo de que as artes visuais em Chapecó não ficassem restritas à meras apresentações de obras nas exposições em galerias, locais de acesso quase exclusivo de públicos especializados da área, com baixa interação do restante da população, foram outras motivações responsivas ao contexto e que advinham de uma autocrítica feita pelos artistas ao seu papel social, às pontes ou cerceamentos que estavam criando entre sua arte e o público. Era premente a necessidade de inventar seus próprios espaços, de estarem juntos como estratégia de ação e de compartilhamento.

Desde a adesões de artistas que vem caminhando juntos nos quase dez anos da fundação da Adentro, até outros que participaram apenas por algum período, entre desistências e muita insistência, o grupo foi se modificando ao longo desse tempo, sempre em atividade. Atualmente resiste como coletivo do qual participam Sonia Loren, Cristina Luviza Battiston, Cezar Zanin, Leonice Araldi, Luisela Cansian Pelizza, Nathalia Vieira, Tania Stempkowski. Artistas estes com formações multidisciplinares e em diferentes estágios de suas produções, uns com carreiras mais extensas, outros “novatos na arte de fazer arte” como diz sobre si mesma a artista Luisela, que ingressou recentemente. Esse diálogo entre diferenças existe também nas linguagens que cada um explora e se estende aos intercâmbios feitos com colaboradores externos como instituições, professores, curadores, pesquisadores, outros artistas e pessoas dos círculos afetivos dos participantes que ao acompanhar os esforços do grupo, foram se tornando parceiros. Depois de exposições coletivas nos principais espaços de arte de Chapecó, a Adentro passou alguns anos focada em expor seus trabalhos “fora” de sua cidade, para mostrar e submeter a produção local ao crivo dos nichos considerados “dentro”

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do grande circuito do estado (como Museu de Arte de Blumenau/MAB (2012), Museu de Arte de Joinville/MAJ (2014), Galerias do SESC em São Bento do Sul/SC e Jaraguá do Sul/SC (2015) e até em intercâmbios internacionais) além de participações individuais dos integrantes com incentivo e auxílio do grupo. Aos poucos, os artistas da Adentro foram percebendo que o espaço conquistado no sistema formal de exposições e editais os tornara expoentes da arte “conhecidos”, os legitimaria “artistas”. No entanto, ao invés de seguirem a mesma lógica de exibir suas produções cada vez mais ao olhar externo, o grupo sentiu necessidade de voltar-se para o micro, mirar seu próprio sítio. Desterritorializar as “divisas” borrando fronteiras territoriais centro-interior que tantas vezes se colocavam como limites para sua arte. Foi este um deslocamento inicial quanto ao fluxo normal de servir às hierarquias de um sistema das artes hegemônico, ao qual a maioria dos artistas direciona seu foco, ou de se conformarem em serem incluídos sob um rótulo de exoticidade. Através da Adentro, a arte de Chapecó situada “fora” do circuito, havia feito participações que a incluíram nele e era hora de fazer uma inversão, voltar-se para aquilo que, em si mesma, podia estar sendo deixado de fora.

Os desvios que o coletivo fez quanto às estradas já delimitadas dos espaços físicos tradicionais de visibilidade, mostram o que a artista e pesquisadora Claudia Paim identifica, em sua pesquisa sobre iniciativas artísticas em grupos na América Latina2, como “desobediência e resistência em relação a apropriações fáceis e sem reflexão”. Para ela, é característico dos coletivos que eles “provoquem e levem a pensar sobre as paisagens conhecidas ou então a tomar delas uma consciência renovada e alterada”. Operando “desterritorializações”, promovem questionamentos do lugar comum através da “saída de um lugar demarcado pela transposição de suas fronteiras” para então interessar-se em investigar “o que está dentro e o que é mantido fora” (PAIM, p. 57, 2012). Desse pensamento voltado para o “micro”, surgiu a proposição de trabalhar com as comunidades que os grandes “centros” costumam chamar de “lá fora”, mas que, da perspectiva urbana de Chapecó é demarcada como pertencente ao “interior” do município. Um olhar para a própria região através de “micro residências” foi prio2 PAIM, Cláudia. Táticas de artistas na América Latina: coletivos, iniciativas coletivas e espaços autogestionados. Porto Alegre: Panorama Crítico Ed., 2012.


rizado nas ações poéticas do grupo e são os resultados da mais recente delas que mostramos aqui.

Micro residências para deslocar o centro A primeira experiência nesse sentido foi através do Edital de Fomento e Circulação das Linguagens Artísticas do município de Chapecó, em 2015, com o projeto “Entre pontes e pinguelas – Micro residências em comunidades do interior de Chapecó”, executado de julho de 2016 a abril de 2017. Nela o grupo promoveu interações fora do núcleo urbano, com as comunidades de Sede Figueira, Linha Caravággio e Distrito Bormann, produzindo obras e registros poéticos em imersões a critério de cada artista, documentando experiências, promovendo oficinas e palestras sobre os resultados, com intuito de resgatar fazeres e saberes locais, incentivar a formação de público, a produção e a difusão das artes em Chapecó. No ano de 2018, com as sementes em mãos, o grupo preparou novos terrenos e foi contemplado pelo Prêmio Funarte de Artes Visuais – Periferias e Interiores com o projeto que aqui se apresenta: “Entre

pontes e pinguelas: estrada adentro, mundo afora”. O resultado das micro residências artísticas inter-rurais em busca de saberes, fazeres, personagens, curiosidades, paisagens e arquitetura das comunidades periféricas de Chapecó, foi reunido nesta publicação. Trata-se de obras visuais, registros das ações e escritos de artistas como relatos de experiências advindas de uma imersão conjunta realizada de dezembro de 2018 a junho de 2019 nas comunidades de Rodeio Bonito, Linha Tafona, Faxinal dos Rosas e Linha Cachoeira. Um trabalho de campo que contou com visitas, conversas com os moradores, passeios entre as paisagens, participação em eventos locais, oficinas com os grupos e a devolução dos resultados sob forma de uma exposição realmente coletiva itinerante nas quatro localidades, de expografia não convencional adaptada aos espaços da comunidade (salões comunitários e ao ar livre) da maneira que pudesse ser mais convidativa ao público local. Uma visível transformação na prática artística desses sete artistas a partir dessa experiência se apresenta como processo formativo desse projeto. Também, de grande impacto tanto para as comunidades do interior de Chapecó, quanto para o núcleo urbano dessa cidade. O material

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que aqui se apresenta, mais do que um registro e um recorte curatorial dessas vivências, se propõe como um instrumento poético e político de afirmação da importância da atuação coletiva em arte, ainda repleta de desafios no porvir, e uma pequena mostra da riqueza cultural do ambiente rural. Uma exposição “mundo afora” de infinitos mundos do interior.

Com olhos de cidade e um eito de saudade 16

Se o “bolo é do mercado” e se isso importa pouco, é porque quem mora no interior não quer isolamento. Essa vontade é mais nossa, de quem pensa em voltar. Saudosismo de uma utópica essência e pureza, de quem se sentiu capturado por sensações raras na cotidianidade urbana. Cheirinho de mato e prosas bem de pertinho que reativaram sentidos e memórias pessoais adormecidas. Sim “aqui temos Wi-Fi”. Quem vive ali todos seus dias, quer ter vias de conexão, quer que sua comunidade cresça, quer o progresso que faça não depender tanto da cidade, deseja o asfalto mesmo que as estradas de terra, para nós, pareçam tão mais caminháveis, possíveis de um trânsito humano e travessia animal. Se

nas cidades falta ar, nas comunidades sobra a poeira no verão e o barro complica tudo quando chove. Foi preciso ir pros interiores para notar que por mais que todos tenhamos andado algum tempo por essas bandas, já pegamos olhos de cidade e acumulamos um eito de saudade. A experiência da micro residência da Adentro foi de contato, de contágio de modos de vida, de hábitos castiçados, de relacionamento, de diferentes formas de conhecimentos, de entender melhor a interdependência campo-cidade-campo. De perceber que a autonomia dessas comunidades exige sim decolonizar nosso pensamento de que a intervenção da cidade sobre o interior é via de mão única. Essa precisou ser uma residência de muita escuta, de sensibilidade para entender que as modificações e misturas de hábitos e a vontade local de conservar alguns, e não as imposições, fazem parte dos movimentos das culturas.

TEM ARTE AQUI NO INTERIOR Tiveram que campear mais pra adentro, viram que não tem lugar muito exato se a gente se move. Foram perguntando, se perguntando, parando de casa


em casa, demorando de pessoa em pessoa. E ao procurar alguém que conheça, talvez a gente se conheça. Será que estamos muito longe dela, longe de encontrá-la, longe uns dos outros? Tem vezes que é difícil o acesso. Mas é que nem copo d´água, não se nega a ninguém. A gente tem que propor uns desvios, cortar caminho, pegar uns atalhos, abrir umas porteiras. Qualquer coisa, se cair na valeta, a gente chama todo mundo pra ajudar a empurrar, estamos nuns quantos! Sempre-reto, pede informação, o caminho: segue todavida, como essa toda vida aqui vivida... até encontrar, e se for preciso, inventar, uma arte que seja toda, e de todos, repleta de vidas. Escrevo profundamente tocada por essa experiência artística da Adentro, por ser uma imersão coletiva motivada pelo interesse nos modos de vida em comunidade. “Me criei no interior”, é o que dizemos quando “saímos”. Essa saída é muito relativa, vamos arrastando conosco uns pega-pegas, uns picão nas calças, e na boca um sotaque com gosto de bergamotas ao sol. Por muito tempo eu não via meu

município no Google Maps, localizava-o no passado, pensava que ali jamais poderia haver arte. Para conseguir trabalhar como artista precisaria me deslocar geograficamente, e foi o que fiz rumo à uma capital. Depois é que vi nisso um processo para descobrir como voltar. Quando somos artistas iniciantes vislumbramos que “a” arte, uma única ideia de arte, está onde não estamos e que, por isso, só podemos estar do lado de fora. Almejamos ir pra dentro, “chegar lá”. Um lá que é tão, tão longe, que jamais poderia ser rural. Um lá que, no projeto Entre Pontes e Pinguelas, se tornou um “aqui”. Propomos aqui, no interior, uma dobra na linha que separa fora e dentro. Dessa dobra, somos residentes da curva, hora somos os do centro, hora somos margem. A percepção do próprio espaço é um caminho difícil, de tropicadas nos pedregulhos das certezas, de terra dura das trilhas já muito pisoteadas. Quando a artista Nathalia pergunta “O que te cerca?” pode estar se referindo aos limites subjetivos que nos confinam. O que nos cerca, entretanto, se ativado como ação-resposta pode ser sugestão para que

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sejamos mais generosos nos olhares ao que está ao nosso redor. Afrouxar os alambrados que decidem que a arte fica para lá adiante da cerca, abrir piquetes nos matos fechados das nossas pálpebras, olhar a grama do vizinho sim, do mais próximo, e então plantar e cultivar a nossa.

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Nos famosos exercícios de observação de paisagens com quadrados vazados, isola-se o fragmento que se quer ver para transpor em algo artístico somente uma parte. As obras produzidas pelos artistas da Adentro são recortes para junção obramundo-experiência. Menos um olhar externo, mais vivências de dentro. Os artistas trabalharam para unir, coexistir urbano-rural, fazer vingar a poesia que há nos saberes e práticas que observaram. Sonia, que passara parte da infância em visitas aos tios no Faxinal dos Rosas respira o que lhe inspira lembranças de uma vida ao pé de guavirova. Pelas estradas de chão, insere o ar como palavra que racha a estabilidade do asfalto. Assaltam-lhe em palavra-imagem, composições com ditos daqueles tempos: Cai cai pinhão, de ‘Jorginho’ ainda, Avista fia. Em outra proposição, com olhares colaborativos de Nathalia e Cezinha, através de uma semeadura de

espelhos, a artista abre pequenas janelas móveis que florescem no pasto e que em performance transportam a paisagem, desalinham o horizonte findando as tardes em por-de-nuvem. Os campos expostos dentro do campo através de cortes poéticos que incluem, convidam para dentro enquanto duplicam mundos para supor que poderiam ser vistos de mais de um ângulo. Os espelhos plantados por Sonia nesse bucólico ambiente, convocam os moradores e os próprios artistas a uma “Imersão de si” para “refletirem” suas paisagens de vida. A imensidão do entorno é, paradoxalmente, interior. A imagem do lugar, é apresentada ao próprio lugar com novidade, como se pudesse advertir: “vejam como isso se parece com arte, vejam que isso é arte”. A Adentro passa a fazer parte da paisagem. Com operações parecidas, Cezinha emoldura dentro de seu próprio espaço um senhor da comunidade de Faxinal dos Rosas, o qual parece se misturar a uma pintura, produzida na parede pelo efeito de uma janela aberta fotografada desde dentro. Essa realidade com cores de pintura, recorta a estética do lugar, deixa entrar o dia. O trabalho de Cezinha com os homens da comunidade continua por uma espécie de fotoetnografia de instantes do masculino, quando ele mostra, no cotidiano dos


homens do campo, relações de trabalho em comparação com momentos de lazer do final de semana. Lavoro & Prosa são apresentados em uma narrativa de instantes de jogo de bocha e de baralho, colheita do milho, moenda da cana-de-açúcar. Diante da idealização com que vemos a vida no campo, somos chamados também a um respeito pelas dificuldades das subsistências dessas pessoas nas costas das quais arde o sol forte, pesam aos alimentos carregados, atingem intempéries do clima, a falta de recursos, as devoluções imprevistas da terra. Cliques subsequentes dos momentos de trabalho e da diversão, são sobrepostos digitalmente por Cezinha para uma narrativa de movimentos mínimos, que, em segundo momento, parecem cenas com delay, muito lentas. Elas parecem tornar imagem a sensação de anacronismo do tempo. Sentimos que ali o tempo é mais lento, ou será que virou o vento? “Entra, puxa uma cadeira, vamos conversar...” “Espera um pouquinho, vou buscar um banquinho...” “Mas vamos ao que interessa... - Senta” Em dias de visita, quando o carro chega nas casas, rapidamente a chaleira

vai pro fogo e vem um convite a sentarse. Não adianta nem dizer que está com pressa. Que desfeita seria não aceitar ao menos um mate! “Mas já vai? tá cedo!” é aquele jeito de te perguntar o que é que na sua vida pode ser tão urgente que não pode esperar mais uns dedinhos de prosa e se estender a mais uma cuia? Não é qualquer convite que nos faz desistir da pressa, às vezes precisa de uma cadeira, uma história, talvez um bastidor de bordado, vai estar junto, vai ficar mais um pouco. E para continuar, carece duma tarefa minuciosa que convença as mãos de que se desacelerar, aí sim o tempo pode se tornar suficiente. Entre processos digitais e manuais, as colagens de Luisela feitas com fotografias de lugares para sentar e figuras que parecem ser apropriadas de ilustrações de histórias infantis, recortadas e inseridas sobre tecido cru e interferidas por bordados, hibridizam processos como aquele de buscar um pouco em cada lugar, fragmentos imagéticos de lembranças para contar uma história. De lidas no campo, de idas à cidade, se fazem essas vidas. Contar suas histórias é fazer que existam e quanto a isso, os moradores são sedentos perpetuadores orais de seus modos de existência e resistência. Luisela é tocada por essas his-

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tórias orais a partir do momento que se encontra com a iniciativa da contadora de histórias Josiane Geroldi, que construiu na Linha Tafona a Nossa Maloca, um espaço rodeado de cuidados de arte. Os cuidados estéticos também nas casas, observadas por Cristina, são representados em meio a narrativas do cotidiano. Uma bota deixada ao lado de um canteiro de flores depois do serviço indica a volta do trabalho, a hora de descanso, a força física que se rende depositada ali, entregue ao fim do dia e à suavidade do jardim. Com o foco atento para as escadas, numa pesquisa em torno desse elemento arquitetônico há mais de dez anos, nas comunidades do interior, Cristina começou a perceber como eram familiares para si os detalhes de natureza como vasos de plantas na beira dos degraus das escadas das casas. Ela passa então a transpor essas escadas de uma comunidade para outra, em deslocamentos e montagens, ligações entre as comunidades e comparações entre os estilos de cada uma. Estendendo as escadas ao infinito, Cristina amplia percursos de continuidade, confunde o real e o representando. Junto à nostalgia que arrebata por emoções essas ações poéticas, se pode

ver também uma pesquisa histórica de saberes. Por uma investigação visual de como se organizam os momentos coletivos, quase sempre em aglomerações circulares, trabalhando com o tema da ancestralidade, Tania pinta acontecimentos que reúnem as pessoas: a colheita das ervas medicinais pelas mulheres, a colheita coletiva da cana de açúcar, o trabalho do filó, os ajuntamentos ao redor de fogueiras, a roda de baralho. Lhe interessa nessas tradições que perpassam as gerações, como e porque continuam sendo realizadas. Trata-se de trabalho, de diversão ou se tornaram rituais? Quando expõe na comunidade essas imagens penduradas à maneira de um lençol no varal, as cenas que se mesclam à vegetação do entorno são atravessadas pela iluminação natural, dando uma aura transcendente às camadas de cor, atravessamentos no tecido e nas subjetividades perpetuadas. Importa ressaltar que ela escolhe práticas e imagina cenas coletivas e que isso interessa muito nas poéticas de todos os artistas da Adentro. Nas oficinas realizadas nas comunidades, ao trazer os fios e bordados para um único objeto, uma talagaça de quinze metros advinda dos fazeres de Leonice, todos os participantes interagem e são autores. Nesse mesmo


território, deixam marcas de sua história, sua espiritualidade e fé, demostram seus conhecimentos. Perde-se a noção de autoria e ganha importância o ensino e o compartilhamento da arte. A disponibilização de um bordado coletivo no qual interagem senhoras e crianças, cria também uma abertura de conversa, quebra as barreiras de interação entre “estrangeiros” porque naquela imensa trama, todos falam a mesma língua. Em seus trabalhos que ligam fios e pessoas, Leonice faz também intervenções em árvores centenárias de Linha Cachoeira e Rodeio Bonito e na Nossa Maloca. Pano e planta tramam coloridos artificiais à raízes e cipós orgânicos, entrelaçamentos entre natureza e mão humana, arte e experiência, artesanato e arte contemporânea. Rizomas que crescem em muitas direções, desenhos provisórios que se adaptam aos espaços e deixam pontas soltas para continuarem incluindo participações em um processo sempre aberto. Seu olhar para o fato de que pessoas ali, como líderes natos, promovem ações, faz Leonice perceber que a arte em suas práticas significa fazer aberturas, convites à participação e convivência, dependendo da relação afetiva entre as pessoas para vingar, brotar, crescer.

Se para conhecer um território, foi preciso entender e distender suas linhas de fronteiras, passar por suas estradas, pontes, divisas, Nathalia presta atenção nessas marcas de espaços não como limites instransponíveis, mas como demarcações de conquistas e de feituras de lugares. A afeição das pessoas da comunidade ao lugar em que moram, investimento sentimental nele, através da proteção e cuidados, faz dos espaços autorretratos dos moradores. Nathalia observa o caráter paradoxal da noção de propriedade. O cerceado por uma demarcação geográfica ali só se torna realmente pertencente através de apropriações afetivas. A delimitação do que é particular é feita pela personalização, pelo plantio de uma árvore ou flor ali, arranjo de pedras, palanques fincados, divisões dos espaços de vida dos animais, das pessoas, das hortaliças, das ferramentas, dos produtos agrícolas. Há espaços construídos como “bem comum” e sobre eles apego e medo de mudar. Sobre cenas escolhidas Nathália se detém em processos pictóricos de observação detalhista desse ponto sinalizador. A cerca apodrecida em uma propriedade em Faxinal dos Rosas é estética de um limite abandonado, que já não delimita, não protege, deixa o tempo encarregado de

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destruí-la vagarosamente como parece ser também o processo de sua pintura. Em uma intervenção posterior, ela leva as pinturas para a cerca de sua própria casa, na cidade, e expõe os quadros sobre a paisagem urbana ao fundo, abrindo pinturas-portais e fazendo deslocamentos de espaços para ela “tão diferentes e tão iguais”. Uma dessas pinturas intencionalmente destoa o sentido de liberdade através do detalhe da mão de dona Senhorinha com os dedos enrugados dos seus 99 anos deslizando suavemente entre as camomilas em uma “farmácia” a céu aberto, totalmente livre a todos que quiserem roubar um chazinho.

Da aproximação à proximidade A experiência desses sete artistas nas micro residências em comunidades do interior de Chapecó é de inclusão e identificação com o espaço em que “residiram”. Ver e mostrar o mesmo ao mesmo para que se possa enxergar diferente, e enxergar as diferenças, abriu muitas frestas na complexidade que é olhar para aquilo está

muito perto, enredar-se no que significa ser “o outro” e em todas as problemáticas e aprendizados dessas trocas. Modos de vida e sensorialidades de suas infâncias reconhecidos, o susto de sentir a distância dos hábitos citadinos, as múltiplas concepções de arte e do que é ser um artista, a necessidade do trabalho coletivo em muitas instâncias foram alguns dos encontros e colisões dessa micro residência. Sem dúvida, os artistas ampliaram seus campos ao “sair a campo” esparramando definições de artístico, sendo afetados, coletando novos modos de fazer e perceber a arte - as artes - os quais os acompanharão daqui para frente ou para o lado que forem. Aprendendo com as comunidades interioranas a ser coletivo, a cultivar relações, essas obras que nasceram juntas, por caminhos convividos, certamente ainda pegarão muita estrada.

Diane Sbardelotto 3 3 Artista visual, Mestre em Educação (UFRGS, 2018), licenciada e bacharel em Artes visuais (UFRGS, 2016, UNOCHAPECÓ 2019). Foi membro da Adentro de 2010 a 2012. Desenvolve atividades de ensino de arte em escolas e museus. Realizou diversas exposições individuais e coletivas e escreveu alguns textos para curadorias.


Apresentação O p roj eto c h am a d o “ Entre p o ntes e p in g uela s ” f o i s ele c io n a d o p elo Ed ital Munic ip al d e Fome nto e Circ ula ç ã o d a s Lin g u a g e ns Art í sti ca s d e Ch ap e c ó 2015 . Este p roj eto teve como p rop osta c riar mic ro - re s id ê n c ia s e re g istros p o é ticos em comunid a d es d o interior d e Ch ap e c ó / SC , utiliza n d o a intera ç ã o com esta s comunid a d es como f erra me nta p ara a d if us ã o d a s artes v i su a is , f orm a ç ã o d e p ú blico , res g ate d e f a zeres e s ab eres , e , in ce ntivo à p ro d u ç ã o art í stica , c ulmin a n d o n a p ublica ç ã o d e um livro - re g istro e um a reflex ã o sobre o tr â ns ito d a s artes v isu a is e ntre o ce ntro urb a no e a zo n a rural d a s c id a d es . Esta s v iv ê n c ia s e imers õ es a co nte ceram em tr ê s comunid a d es interiora n a s , d e ntro d o p r ó p rio munic í p io . A mem ó ria oral , os re g istros em f oto g ra f ia s , a s hist ó ria s e os es p a ç os s er v iram como um in ce n tivo e , p rin c ip alme nte , como p es q uis a p ara a p ro d u ç ã o d os artista s . Neste p ro cesso d e res id ê n c ia , ca d a

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um estab ele ce u um a rela ç ã o d e tro ca com a comunid a d e es colhid a : a imers ã o no camp o d a atu a ç ã o e a d evolutiva a os a nf itri õ es em d i me ns ã o p o é tica . O trab alho re uniu 7 ( s ete ) artista s d a Ad e ntro , q ue em d if ere ntes p o é tica s e sup ortes , ap res e ntaram su a s p ercep ç õ es , su a s v iv ê n c ia s e su a s rela ç õ es com os es p a ç os . Al é m d e alg uns exem plares imp ressos , a Asso c ia ç ã o d e i xo u d is p o n í vel em d om í nio p ú blico a p ublica ç ã o em f orm ato d i g ital , p ara livre a cesso e utiliza ç ã o . Ap ó s esta p rime ira exp eri ê n c ia com o p roj eto , surg iram q ues tio n ame ntos q u a nto a rela ç ã o d o es p a ç o com a p ro d u ç ã o art í stica e sobre o tr â ns ito e ntre zo n a s ur b a n a s e rura is d e ntro d a s c id a d es q u a n d o rela c io n a d os à arte . As p in g uela s , q ue rep res e ntam d e f orm a arq u é tip a o interior , a zo n a rural , a s re g i õ es me nos to ca d a s , me nos urb a niza d a s , m a is hum a niza d a s , suste ntam a li g a ç ã o d o ce ntro com a s extremid a d es d este n ú cle o . As p o ntes , m a is robusta s , f ortes , r í g i d a s , s e g ura s , rep res e ntam d e f or m a arq uet í p ica a s li g a ç õ es d o ce n tro p ara o ce ntro . Amb a s co nex õ es

p ermitem tr â ns itos e fluxos co nt í nuos d e inf orm a ç õ es , d e s ab eres e d e f a zeres , q u a n d o utiliza d os p or p esso a s , comunid a d es , c id a d es , es ta d os o u re g i õ es . Qu a n d o su g erimos a co ne x ã o d estes fluxos , p e ns a n d o n a s artes v isu a is , estab ele cemos q ue os mic ro - c irc uitos interurb a nos e interesta d u a is , co ns id era n d o a s re la ç õ es d e id e ntid a d e , p o ntos m í ni mos d e mem ó ria e p erte n c ime nto a o es p a ç o como p o é tica n a p ro d u ç ã o art í stica , s ã o q uest õ es q ue influe n c iam em novos tr â ns itos d e inf orm a ç õ es e d e p o é tica s v isu a is . A s e ns a ç ã o d e p erte n c ime nto d a s p esso a s q ue moram n a s comunid a d es e d os artista s q ue v ivem , neste ca so , no ce ntro urb a no , s ã o p er p a ss a d os p elo d es ej o d o d es cobri me nto d o q ue s e f a z a q ui o u l á , at é e nt ã o d es co nh e c id o p or um o u p or o utro , mesmo h abita n d o o mesmo es p a ç o d em arca d o o u re ceb e n d o a mesm a d e nomin a ç ã o d e n aturalid a d e . Prop o n d o d ar co ntinuid a d e à s d is c uss õ es q ue p erme iam este p ro j eto , p rete n d e - s e re alizar nesta s e g un d a etap a o res g ate hist ó rico d o


p atrim ô nio m aterial e / o u im ate rial ( s ab eres , f a zeres , p erso n a g e ns , c urios id a d es , p a is a g em , arq uitetu ra ) d e 04 ( q u atro ) comunid a d es d o interior o u p erif eria s d e Ch ap e c ó / SC , p or me io d e mic ro res id ê n c ia s art í stica s e d e c irc uitos inter - rura is d a s p ro d u ç õ es a p artir d a v iv ê n c ia d os artista s me d ia d ores e d os mo ra d ores . Isso p ermite a amplia ç ã o d o rep ert ó rio d a p esq uis a e d a s a n á lis es inter - re g io n a is p ara o utros d es d obrame ntos . As n arrativa s d a s v iv ê n c ia s comp õ em esta p ublica ç ã o - s e g un d o volume d a p esq uis a - com o re g istro e a s a n á lis es d e li g a ç õ es com a s á re a s re co nh e c id a s a nteriorme n te e d os d i á lo g os com o utros me ios , imp resso p ara d istribui ç ã o g ratuita em es cola s , p ara arte e d u ca d ores , bibliote ca s munic ip a is id e ntif ica d a s n a re g i ã o o u p or d em a n d a s es p o nt â ne a s , al é m d e vers ã o d i g ital . S ã o s ete artista s res id e ntes n a c i d a d e d e Ch ap e c ó / SC q ue p artic i p ar ã o como me d ia d ores d o p roj e to , to d os inte g ra ntes d a ADEN T R O - Asso c ia ç ã o d os Artista s Visu a is d a Re g i ã o Oeste d e S a nta Catarin a . Este comp artilh ame nto d e id e ia s

e exp eri ê n c ia s bus ca novos olh ares sobre a rela ç ã o d a s c id a d es como ce ntro e interior o u zo n a s p erif é ri ca s , a rela ç ã o d o munic í p io com o s e u e ntorno e sobre a s zo n a s rura is , b em como p rop õ e o d i á lo g o e ntre o utra s p ro d u ç õ es em artes v isu a is n a re g i ã o o este d o Esta d o d e S a n ta Catarin a , bus ca n d o re interp retar os c irc uitos p rop ostos , g eralme nte , p or ce ntros e su a s cap ita is , como é o ca so d o e ixo litoral d e S a nta Catarin a , q ue co n ce ntra p ro d u ç õ es , c irc uitos e p esq uis a s n a s á re a s d a s artes e d a me d ia ç ã o c ultural . Esta s v iv ê n c ia s p rovo cam a d emo c ra c ia c ultural e a d emo c ratiza ç ã o art í sti ca com a c irc ula ç ã o d a s p ro d u ç õ es em artes v isu a is no interior / zo n a s rura is e / o u comunid a d es p erif é ri ca s d os munic í p ios .

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L i n h a

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Fun d a d a em 14 d e novembro d e 1982 leva este nome p elo f ato d e existir um a Ta f o n a ( f á brica d e f arinh a d e m a n d io ca ) . A ca valo e carro ç a c h e g aram os p rime iros p io ne iros d o munic í p io d e Xa xim e d o Rio Gra n d e d o Sul . Tu d o era pla nta d o m a nu alme nte e v iv iam d o trab alho rural . Da c id a d e s ó s e comp ra va o ne cess á rio . A co munid a d e come ç o u com a s f am í lia s p erte n ce ntes a s es cola s Linh a Ta f o n a Guilh erme d os S a ntos e f a m í lia s q ue p erte n c iam à comunid a d e d e Ro d e io Bo nito .

T a f o n a

A comunid a d e é comp osta p or mora d ores q ue v ivem em c h á cara s b em es p alh a d a s . As c ria n ç a s estu d am n a co munid a d e d e Ro d e io Bo nito , p o is n ã o h á es cola s a q ui , e como nos co nta a mora d ora Jos ia ne , um a vez p or a no é re aliza d a um a f esta d a comunid a d e e a ca d a s e is me s es um a miss a com um p a dre q ue vem d a c id a d e . En co ntramos nos d omin g os f am í lia s re unid a s no s al ã o comuni t á rio em mome ntos d e d ivers ã o . Ness a s id a s e v in d a s p ela Li nh a Ta f o n a , co nh e cemos um lu g ar c h e io d e m a g ia e e n ca ntame ntos d a j ovem mora d ora q ue s a iu d a s p o ntes p ara a s p in g uela s . 02 d e f evere iro d e 2019 ( Tre c ho d e v í d e o g ra va d o em v is ita a Noss a m alo ca com Jos ia ne Gerold i ) ( s ic ) “ Eu q ueria comp rar um s i tio , p orq ue e u q ueria , s emp re tra b alh e i com p roj etos so c ia is e com p roj etos d e e d u ca ç ã o com c ria n ç a s


e com co nta ç ã o d e hist ó ria s [ . . . ] . Ess a ca s a e u f iz e o resto j á tinh a l á , e ali eles us a vam como g alp ã o , p a iol , p ra g u ard ar co is a s . Isso a q ui j á tinh a a q ui tamb é m , q ue a in d a e u to te nta n d o e nte n d e o q ue q ue e u f a ç o com este bura co . Tem g e nte q ue me d iz , colo ca terra e f e c h a o bura co , a i tem g e nte q ue d iz , n ã o , n ã o f e c h a , a g alera q uer f a zer um p ic ini ( um c inem a d e ntro d a p is c in a ) , a i d á p ra p roj etar no lu g ar um a s ess ã o d e c inem a [ . . . ] . O s e u Ge ntil é um f i g ura , to d o mun d o co nh e ce ele , q u a n d o e u q uero p a ss ar ref er ê n c ia d e o n d e e u moro , tip o , e u moro n a f re nte d o s e u Vela sq ues [ . . . ] . Ma s o q ue e u co nvers e i d e p o is q ue v ieram , a d oraram p orq ue o Pa ulo Fre ire tamb é m é o cara . Ele to ca a q uela v iola ca ip ira e co nta ca uso . S ã o ca usos q ue f a zem p ar te d ess e lu g ar tamb é m n é , ess a s historia s d e Lobisomem [ . . . ] . A g e nte v ia , isso me p erte n ce , isso q ue esta a co nte ce n d o n ã o é d ista nte d e mim [ . . . ] . Eu a c ho q ue isso tamb é m é um a id e ia q ue e u te nho d e trab a lh ar muito com a c ultura p op ular

n é , d e f a zer co is a s q ue ap roximem mesmo [ . . . ] . E n ó s n é , e nq u a nto artista s e e nq u a nto p ro d utores , como q ue a g e nte co nstr ó i a id e ia d e q ue o p ublico p re c is a d isso n é . Porq ue e u q u a n d o t ô d o e nte e u vo u atr á s d o m é d ico n é , o m é d ico ele n ã o m a n d a p ra mim , olh a t á com d or d e cab e ç a vem a q ui [ . . . ] . Ent ã o e u vej o e u como artis ta , p or isso q ue e u f ale i “ me u cara ” , co ns e g uimos . Porq ue como q ue e u f a ç o , q ue o me u v iz inho s inta vo n ta d e d e v ir a q ui o u v ir um a mo d a d e v iola . Porq ue ele p o d e d ize a s s im , é isso a i é p erd a d e temp o . Pra q ue q ue e u vo u l á ver um a ex p os i ç ã o . É isso n é [ . . . . ] . Eu um d ia p are i n a cerca p ra co nvers ar com os v iz inhos . Vo c ê s p re c is a vam ver , a ss im ó , e u nun ca tinh a co nvers a d o com eles , tip o , s ab e d e tu f ica um temp o co nver s a n d o . Era um a co is a a ss im tip o , op a bom d ia , bom d ia , q ue calor n é ? Va i c hov ê ? N ã o va i c hov ê ? En t ã o t á bom n é , a ss im [ . . . ] . Dep o is q ue eles v ieram a q ui , a c ho q ue e u f iq ue i um a s d u a s ho ra s n a cerca . E d a í eles d iz iam , m a s

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f o i muito le g al , p orq ue d a í n ã o s e i o q ue . Noss a m a is isso a í tinh a q ue t ê , p orq ue olh a . Me u De us e a q ue le cara ali e u j á v i ele n a telev is ã o , p orq ue n ã o s e i o q ue . Pa ulo Fre ire . Porq ue q ue a g e nte t á f a ze n d o a g e nte n ã o s ab e n é , m a is tamo f a ze n d o [ . . . ] . E o me u p r ó p rio trab alho ar t í stico a ss im n é e ap res e nte i a id e ia d o p roj eto e ele f alo u a ss im : me ni n a p or q u ê ? Porq ue tu d o o q ue e u g a nho co nta n d o historia , trab alh a n d o e c irc ula n d o e u g a sto tu d o a q ui n é . E ele f alo u : t á erra d o ! Vo c ê n ã o p o d e f a zer isso ! Ma s i d a í como é q ue e u vo u f a zer ? “ [ . . . ] S a í mos d ess a v iv ê n c ia d es e j a n d o q ue a mora d ora d a Noss a Malo ca co ntinue a c re d ita n d o q ue é p oss í vel , s im . Que tra nsmita ess a exp eri ê n c ia q ue os olhos e o cora ç ã o alca n ç am a to d a a comunid a d e d a Ta f o n a e a q uem m a is c h e g ar um bo ca d inho p or l á .


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Faxinal

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dos

Rosas

A comunidade na fala dos seus moradores. (sic.)“Então aqui eu quis colocar um pouco aquilo que a simbologia que a gente representa. Eu tenho as raízes aqui que são as raízes dos meus primeiros habitantes que vieram pra cá, da família Rosa. Aqui é meu tronco aqui, eu faço parte ai, e ai nesse tronco ai foi surgindo os galhos que são as nossas lideranças, aqui tá as nossas mulheres que trabalham com nós, aqui são o símbolo das nossas plantas. As folha pra mim representa as plantas medicinais, as árvore, as plantas, aqui mais um galho, mais uma mulherzinha, mais uma folha dos nossos chá, e depois desse tronco aqui o grande grupo que é a associação pitanga rosa, essa associação aqui esse tronco... no meio são todas as pitanguinhas que fazem parte desse coletivo da associação.” (Rosalina Nogueira da Silva sobre o bordado que fez na oficina). “Sempre gostei dessa comunidade. Aí o que acontece? Eu tenho uma experiência igual no interior, né? Então pra mim, eu misturo cidade e interior numa facilidade que tá louco, viu?” Edinei Felippe – artesão/artista.


“Eu vou fazer simbolizando a união da comunidade no grupo de mulher. Ai vou fazer duas menininhas de mão dada. “ Maria da Luz Kilian “A Maria tá louco!! A dona Maria é especial - O dela é muito chic. É bem certinho!! Bem certinho os quadradinho”. “Eu mudei pra cá e gostaria de bordar plantação de flor e o coração! eu planto bastante flor em roda de minha casa” Dona Romilda. “Vamos fazer os galhos de ervas medicinais”. “Eu bordava quando eu era nova, depois nunca mais”. “Ai ele chegou aqui (vovô Alípio) e enxergou um faxinal – na ideia dele era uma fachada onde não tinha mata muita escura – aí nesse faxinal ele encontrou que é aqui no campo de futebol, ele fez a morada dele ali tem uma fonte de água. Ai ele foi trazendo seus filhos que já tinham todos nascidos. Minha mãe é a filha mais nova Elza e ela chegou aqui com 4 anos de idade.[...] então a comunidade foi formada por Alípio, por Trajano que era seu primo e Jerônimo da Rosa. Quando os italianos chegaram houve muita desavença porque assim ó muitos caboclos não aceitavam aqueles outro costumes dos italianos [...] mas só no principio houve essas desavenças entre as etnias, logo depois foram casando

os caboclos com os italianos né e daí foram se entrosando mais que hoje a comunidade tem morando polonês, alemães, italianos, tem de tudo e nóis vivemos muito bem em união com todos assim. Mas tem alguns costumes aqui da nossa comunidade que vale a pena ressaltar, que a gente nunca deixou de fazer as coisas pra festa aqui na comunidade ...leitão assado, galinha recheada, pudim, bolo recheado, cuca. [...] Nós somos uma comunidade que é o contrário de outras comunidades rurais. Por ser bem perto da cidade em vez de tá diminuído ela tá aumentando. Tem muitos moradores que compraram uma chacrinha e tão morando aqui e continuam participando da comunidade. Nossa comunidade hoje já passa de 100 sócios (Carmem da Rosa Kilian Munarini em parte de um depoimento em vídeo). O grupo de mulheres unidas tem grande força em projetos que trazem maior visibilidade e empoderamento as moradoras e perpassam gerações. Símbolo de luta, liberdade e autonomia. Uma comunidade que tem muita história pra contar e que já se avista a cidade de pontos mais altos diminuindo cada vez mais a distância entre as pontes e as pinguelas. Link sobre os 100 anos da comunidade <https://www.youtube. com/watch?v=a2NgUWVVtKg>

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L i n h a

C a c h o e i ra

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Encontramos caminhos de exuberante natureza, cachoeiras, trilhas e a visão de vales e do Rio Uruguai. Hist órias contadas e re gis tradas em um acervo pelas mã os de Dona Isabel , primeira professora da comunidade e que nos recebeu em sua casa com um belo sorriso e bom humor contagiante . Sau dosa dos tempos em que nas salas de aula havia muitos alunos e hoje poucos ainda restam .

Nos sá bados e domingos , fam ílias reunidas no salã o da comunidade em momentos de divers ão , jo go de bocha , baralho , conversas , m ú sica e amizade. Adentrando a mata de árvores altíssimas entre nativas e eucaliptos de reflorestamento e descendo a ladeira che gamos ao sitio de uma encantadora Senhorinha , sim , seu nome de batismo , com 99 anos de pura sa bedoria com suas ervas medicinais e uma vida saudá vel em meio à natureza , herdada de seus ancestrais de descendê ncia indígena . Linha cachoeira vive hoje da a gricultura e a gropecu á ria. A maioria é formada por pequenos produtores de á reas de plantio , leite , eucalipto , laranjas.

Ima gens do acervo organizado por Dona Isabel F.M.da Rosa .


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R o d e i o

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Em v is ita a ca s a d e um d os mora d ores m a is a nti g os d a comu nid a d e , co nh e cemos s e u Jos e Luz z i , q ue relato u como f o i es colhid o o nome Ro d e io Bo nito . A re g i ã o es ta va n a rota d os trop e iros e mui tos p ara vam no lo cal p ara d es ca n s ar emb a ixo d a á r vore ce nte n á ria o n d e a su a volta hoj e est á à i g re j a , o s al ã o comunit á rio , g in á s io d e es p ortes , camp o d e f utebol e a s so c ia ç ã o d e es p ortes . E org ulh a - s e a o d izer q ue a comunid a d e “ é um a d a s m a is org a niza d a s d e Ch ap e c ó . ” Um livreto q ue co nta a hist ó ria

B o n i t o

d os c inq ue nta a nos d a comunid a d e ( 1946 – 1996 ) e a f ala emo c io n a d a d e Se u Luzz i n a s mem ó ria s e d o valor a f etivo a o lu g ar q ue aj u d o u a co nstruir . Teve at é hino ca nta d o . Os mora d ores s ã o b em com p rometid os com a comunid a d e e os g rup os d e mulh eres , id osos , j o ve ns e a Asso c ia ç ã o Es p ortiva Ro d e io Bo nito f o i c ria d a com o p a ss ar d o temp o e m a ntid a at é hoj e com e n co ntros s em a n a is e a colabora ç ã o d e to d os . A es colh a d e Noss a Se nhora d a s Dores como p a dro e ira f o i p or q ue um a d a s f am í lia s f un d a d ora s era d evota à s a nta e alca n ç o u um a g ra ç a . A a g ric ultura org â nica o c up a um es p a ç o p ro d utivo e g ratif ica nte p or a q ui como nos co nta d o n a Te res inh a Luzz i q ue ve n d e s e us p ro d utos em f e ira s d a c id a d e , merca d os e tamb é m p or e n come n d a .


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O f i c i n a s e exposição itinerante _ _ _ _ _ _ _

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VIVÃ&#x160;NCIAS ENTRE PONTES E PINGUELAS: estrada adentro, mundo afora

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Cezar Za nin Natural d e Ch ap e c ó – SC ( 1964 ) o n d e v ive e trab alh a como e d u ca d or d e artes . B a c h arel em Artes Vi su a is , Pela U N OCHAPEC Ö . Membro d o g rup o Ad e ntro . Partic ip o u d e d i vers a s exp os i ç õ es coletiva s e In d iv id u al em Ch ap e c ó .

Minh a s a n d a n ç a s p elo e ntor no d e Ch ap e c ó ( n a s comunid a d es ) inic iaram n a minh a inf â n c ia j un to d e me us p a is em e n co ntros d e comp a dres ( p a drinhos ) nos f in a is d e s em a n a s , eve ntos f estivos d e c unho reli g ioso ( f esta d a p a dro e ira ) , re u ni ã o comemorativa q ue unia to d a comunid a d e e , co ns e q ue nteme nte , f amiliares q ue mora vam n a c id a d e . Nesta s a n d a n ç a s , p or m ara v ilhos a s p a is a g e ns d e noss a re g i ã o o n d e p re d omin am á re a s de dep ress ã o , ( vales ) . . . im a g e ns ines q ue c í ve is , f ui e n co ntra n d o ami g os e , j unto d eles , co ntinu amos com a vo nta d e d e d es bra var p or ca minhos , estra d a s , care iros , trilh a s , p in g uela s e p o ntes . . . . Acomp a nh a va - nos , s emp re , um a p e q ue n a c â mera f oto g r á f ica a n al ó g ica . Isso , nos levo u a d es cobrir es p a ç os ca d a vez m a is insti g a ntes ( a ve ntura ple n a ) , m ara v ilh a d os p ela s b eleza s d os lu g ares p or o n d e p a ss á vamos . Dia nte d esta etern a vo nta d e d e co nh e cer novos lu g ares , vem um d os f atores d e extrem a imp ort â n c ia n a co nstitui ç ã o d e minh a v id a . . .


o d es e nvolv ime nto d o res p e ito m ú tuo , ( re c í p ro co ) p o is s emp re a dmire i a q ueles in d iv í d uos s imples d a ro ç a ( interior , comunid a d es , linh a s ) , p es so a s d e f ala ( p ros a ) m a ns a . Pesso a s q ue s ã o p arte d e minh a s lembra n ç a s mesmo q ue f u g id ia s . Im a g e ns q ue ins inu am p o es ia , atra v é s d e su a s m ã os e p é s calej a d os e s e us sorrisos s in ceros . Foram e s emp re s er ã o , estes e n co ntros , um a tro ca d e co ntato d ireto e in d ireto com costumes , p e ns ame ntos , le n d a s , hist ó ria s , co ntos , etc . Em to d os os lu g ares ( comunid a d es ) v is ita d a s , o q ue m a is me e n ca nta ( f a s c in a ) s ã o os mo d os d e v id a ( costumes ) , ta nto em d ia s d e la voro ( trab alho ) o u nos s e us d ia s d e la zer e d iver s ã o ( j o g os ) m a nte n d o s emp re a s tra d i ç õ es d e s e us a ntep a ss a d os e tamb é m s e u mo d o g e ntil , ale g re e s imples d e v iver . As v iv ê n c ia s a f etaram , a f e tam e a f etar ã o , certame nte , a minh a v id a e o me u trab alho com arte . Este a n d ar p or e ntre “ p o n tes e p in g uela s ” me levo u a colo car in d iv í d uos , ( d if ere ntes etnia s ) , p e ns ame ntos mesti ç os como p er so n a g e ns no me u trab alho art í s -

tico . Co nstituem - s e , p orta nto , n a rep res e nta ç ã o me ntal d e um obj e to co n c reto o u v irtu al , ( s em ef e ito re al ) , um a rela ç ã o intr í ns e ca e ntre novos e velhos h á bitos d e v id a e q ue s e f a zem p res e ntes em me u f a zer art í stico . Ouso d izer q ue es ta s v iv ê n c ia s p oss ibilitam um inte ress a nte d i á lo g o e ntre o tra d ic io n al e o co ntemp or â ne o . Re alizar este trab alho d e p es q uis a art í stica ( p roj eto ) s i g nif ica um re d es cobrime nto d estes interiores ( re a is o u f ict í c ios ) q ue co nstituem minh a v id a . O p roj eto “ Entre Po ntes e Pin g uela s , estra d a a d e ntro , mun d o a f ora ” co ntribui n a co nstru ç ã o d e minh a s hum a nid a d es . Ag ra d e ç o a to d os .

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Lavoro & Prosa - fotografia e intervenção digital- impressa em papel couche. 2019


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Cristin a Lu v iza B attisto n ( 1964 )

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Vive e trab alh a em Ch ap e c ó ( SC ) . Lice n c iatura Ple n a em Ed u ca ç ã o Art í stica – Habilita ç ã o em De s e nho , p elo Ce ntro Univers it á rio Fe evale ( FEEVALE ) d e Novo Hamburg o ( R S ) , em 1985 . P ó s - g ra d u a d a em Criativ id a d e , Artes e Te c nolo g ia s p ela Univers id a d e Re g io n al d e Ch a p e c ó ( U N OCHAPEC Ó ) em 200 9 . Ar tista Visu al e a sso c ia d a à Ad e ntro d es d e 2010 . Desta ca - s e a p artic ip a ç ã o no p roj eto Tram a s Curatoria is : & q uot ; Ad e ntro em Dobro ” . Proj eto p remia d o p elo Ed ital d e Fome nto e Circ ula ç ã o d a s Lin g u a g e ns d o Mu nic í p io d e Ch ap e c ó .

Al é m d o q ue os me us olhos p o d em ver . O s il ê n c io . Gra n d ioso s il ê n c io , o n d e o ve nto sop ra , os p á ss a ros ca ntam e os olhos f e c h am p ara s e ntir o cora ç ã o p uls a n d o d e rev i ver a s m a is lin d a s re cord a ç õ es d a inf â n c ia . O trab alho n a s comunid a d es f oto g ra f a n d o es ca d a s , p erceb e n d o um f ra gme nto d a s ca s a s q ue p a s s a d es p ercebid o p elos s e us mora d ores , um lo cal d e p a ss a g em q ue como m a ntra s , co n d uzem os p a s s a ntes s em p e ns ar . Foto g ra f ar a es ca d a d e um lu g ar e lev á - la a o utro g era um a co ntinuid a d e d e es p a ç o - temp o , um a p rof un d id a d e e um a s e ns a ç ã o d e inf inito . Levar a s p esso a s à intera g ir com a s es ca d a s um a s d a s o utra s , estimula n d o um a interf er ê n c ia e f a ze n d o - a s ver al é m d o re al , um a p oss ibilid a d e d e s er p arte d e o utro lu g ar , mesmo esta n d o no s e u h abi tat . A s implic id a d e d o v iver . Cami nhos q ue levam à nova s emo ç õ es e p ercep ç õ es . Ver em insta ntes alg o al é m ,


como re a g e a o olh ar e s e d e f ato existe , a es ca d a q ue d á co ntinuid a d e à es ca d a re al . As es ca d a s unid a s insti g am a im a g in a ç ã o num univer so d e p oss ibilid a d es q ue co nf un d em o olh ar . Um s imples j o g o d e linh a s p aralela s , ca d a um a com su a b e leza , d etalh es d e cores e flores . O subir e d es cer p or es ca d a s d o inte rior s e torn a f amiliar e rev iver esta exp eri ê n c ia tr á s o temp o d e volta à mem ó ria . Es ca d a s colorid a s , c h e ia s d e flor e amor , c ria n ç a s brin ca n d o e muito verd e , n é vo a s p erd id a s no p a ss a d o q ue a g ora voltam com muita ale g ria d e re cord ar a ess ê n c ia d o q ue f ora um a inf â n c ia s em p re ro d e a d a d e muita n atureza . Num mome nto , ver al é m d o q ue os olhos p o d em ver . Dura nte os p erc ursos n a s co munid a d es e n co ntre i ami g os d e minh a f am í lia , come ce i a ver os d etalh es d a n atureza , olh ar a s nu ve ns , flores , pla nta ç õ es , caminhos , ria c hos , ca s a s a nti g a s , a s er va s q ue me us a v ó s us a vam p ara c ura e p rin c ip alme nte p erceb er a d elica d eza e a co n c h e g o com q ue f omos

re cebid os em to d os os lares p or o n d e p a ss amos .

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E a í vej o um a ce n a q ue me c h amo u ate n ç ã o : “ O q ue rep res e n ta um a bota v in d a d o trab alho e d e ixa d a ali ? Pro nta p ara s er f oto g ra f a d a a o la d o d a s flores ? ” A f or ç a e a d elica d eza s e e n co ntram . E s imples a ss im , abro os olhos p ara o utra s d ire ç õ es .


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Registro fotográfico feito na Linha Cachoeira com intervenção da escada da da Linha Faxinal | Fotografia digital | 2019.

Registro fotográfico feito na Linha Cachoeira com intervenção da escada da da Linha Tafona | Fotografia digital | 2019.

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Registro fotográfico feito na Linha Faxinal com intervenção da própria escada | Fotografia digital | 2019.

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Registro fotográfico feito na Linha Faxinal com intervenção da escada da Linha Tafona | Fotografia digital | 2019.

Registro fotográfico feito na Linha Rodeio Bonito com intervenção da escada da Linha Faxinal | Fotografia digital | 2019.

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Registro fotográfico feito na Linha Tafona com intervenção da própria escada | Fotografia digital | 2019.

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Le o nice Arald i ( 1962 ) Natural d e Ch ap e c ó - SC

Vive e trabalha em Chapecó . Especialista em Arteterapia pela Uni versidade de Passo Fundo UPF – Li cenciada em Educação Artística , habilita ção em Artes Pl ásticas pela U NOESC Campus Xanxerê/ SC. Artista visual e membro da Adentro desde 2010 . Destaca-se a seleção no SCAP ( Sal ã o de artes de Chapecó) e Circui to de Arte Contemporânea de Curiti ba ( MuMA).

Adentrando as estradas das comunidades do interior de Chapecó observando a paisagem, cores, flores, árvores e pessoas, num deleite de imagens e sensações em cada encontro, mais relacionava as pessoas que eu conheci às raízes fortes e frondosas árvores da natureza exuberante. Mundo afora foi a minha imaginação como se no primeiro momento já fosse encontrar uma razão para essa ligação da Mãe terra com a vida das pessoas que encontrei na Linha Cachoeira, onde as histórias de D. Isabel me fizeram viajar no tempo, relacionando cada detalhe de sua vivência neste lugar com outras histórias que ouvi. Estrada adentro fomos conhecer o espaço conquistado para dias de descanso e lazer de quem adotou a beleza do lugar como refúgio depois dos dias de trabalho na cidade. Estradas um pouco mais adentro de uma natureza privilegiada fomos conhecer uma senhorinha que questiona por sobreviver ao longo de seus 99 anos, lúcida e saudável com raízes muito fortes ligadas aos seus pés descalços. Mulheres fortes vivendo em suas histórias cheias de vida. Relacionar estas raízes com a arte, os fios que me conectam a es-


sas vidas cheias de significados, garra, aconchego e amor. Em Rodeio Bonito minha inspiração foram pessoas, líderes, homens e mulheres com profundas raízes, histórias e planos de continuar conquistando os moradores para manter a comunidade unida. Como a exuberante Figueira enxertada na Guajuvira ao lado do campo de futebol. Entrar na comunidade de Faxinal dos Rosas para mim foi vivenciar uma travessia onde as raízes são tão fortes que todas as gerações se empenham em fortalecer a história desta comunidade. De um modo muito especial de ver pelo olhar da arte foi como se estivesse nutrindo minhas raízes em cada encontro. No empenho de fazer parte do grupo de mulheres, atuantes e orgulhosas das suas lutas e conquistas, suas raízes se confundem com os galhos da história e dos saberes, ganham força para resistir aos apelos da modernidade, que faz ponte com o centro da cidade. Conhecer a garra de Josiane, que ao fincar suas raízes na linha Tafona, gerou brotos da arte com seu teatro rural, contação de histórias e causos, fez esta ponte entre a cidade e o interior ser mais sólida. Inspira-

ção para ligar os fios da minha história com a natureza, na contemplação da grandeza que é proporcionar aos outros membros da comunidade um lugar para renovar o estado da alma, nas coisas mais simples da vida. Senti pelas histórias e causos que as raízes fincadas aí hão de tecer com os fios coloridos da arte, histórias para a vida. Me senti pertencida, a este lugar. Pela ponte da arte e relacionamentos construídos, as vivências nas quatro comunidades foram de aprendizado, contemplação e um estado particular de devaneio.

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Registros Fotográficos de Intervenção Artística na natureza - RAÍZES

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Registros fotográficos de intervenção na natureza – Linha Cachoeira - 2019.


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Registros fotográficos de intervenção na natureza – Rodeio Bonito - 2019


Registros fotográficos de intervenção na natureza – Linha Tafona - 2019

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Luisela Cansian Luisela Cantele Cansian Pelizza é natural de Chapecó (SC), graduada em Arquitetura e Urbanismo (1991), pela Faculdade Ritter dos Reis em Porto Alegre (RS). Pós-Graduada

em

Design

Industrial

(1998) pela ULBRA de Canoas (RS). Integrante da ADENTRO desde 2018.


Q

uantas histórias!

Q

- “Eu moro aqui ” Em 1917 meu avô já morava aqui! uantas histórias! Pertenço a esse lugar. Vivo aqui há muitos anos... - “Eu moro aqui ” - “Nasci aqui! ” meu avô já morava aqui! Em 1917 Pertenço a esse lugar. Claro, que te conto a história. Vivo aqui há - “Abençoada...!!! ” muitos anos... - “Nasci aqui! ” - “Tenho guardada fotografias. ” Claro, que teasconto a história. Repasso tradições. - “Abençoada...!!! ” - “Tenho guardada Me orgulho de viver aqui. as fotografias. ” 85 Repasso tradições. (...por vezes sinto saudades dos que partiram em busca de uma vida Me orgulho de viver aqui. (...por vezes sinto saudades dos que partiram em busca de melhor.) uma vida - “É o êxodo rural.melhor.) ” “É o êxodo rural. ” (...muitas vezes sinto tristeza pois o poder público não nos enxerga.) (...muitas vezes sinto tristeza pois o poder público não nos - “Nos reunimos no salão da Igreja toda primeira quinta do mês.” enxerga.) - Aquele ginásio de esportes? Nósda construímos mutirão. - “Nos reunimos no salão Igreja todaem primeira quinta do ... foi na década de 70. mês.” - “... trouxe uns ginásio biscoitosde pra vocês!! ” Nós construímos em mutirão. - Aquele esportes? ... foiéna década” de 70. - “ Interior interior! - “... trouxe uns biscoitos pra vocês!! ” - “ Interior é interior! ” Lembranças de uma vida.

Lembranças de uma vida. As vivências neste projeto se tornaram histórias. Histórias antigas rememoradas em fotografias e documentos amarelados. Histórias

recentes, valores e sentimentos bordados em talagarça. Histórias de fé e tradição que são ensinamentos de vida.


H

istórias vividas...

No Rodeio Bonito tem história antiga e hino em comemoração aos 50 anos da comunidade. Tem um banco de madeira que coube todo mundo para uma foto. E cuca sovada, quentinha... uma delícia! Tem moradora que fez questão de bordar na talagarça o dia em que o nosso grupo a ajudou com um problema no carro. Histórias ensinadas... Na comunidade de Faxinal dos Rosas tem muita conversa e biscoito amanteigado caseiro colocado sobre duas cadeiras de palha. Lá tem mulheres unidas. Também tem um senhor que conhece todo mundo da comunidade ... e da cidade. Conversa, história e risada lá tem de

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monte. Histórias antigas... Na comunidade da Cachoeira tem muita foto antiga e história na varanda de casa ... lá tem também uma cadeira amarela de plástico. Tem oficinas de bordado e pintura. Tem a menininha de 6 anos e muita admiração por uma senhorinha no alto dos seus 99 anos. Muitas histórias...

E na Tafona.... ahhh, na Tafona! Nossa primeira visita!! Tem pessoas da

comunidade reunidas no salão comunitário, conversando depois do churrasco de sábado. E tem uma cadeira de palha azul. Tem sítio colorido com cachoeira e

balanço, biblioteca e muita cultura. E tem um banco... azul também, mas de

madeira. Lá tem “Serão na roça”, causos, fogueira, conversa “fiada”, exposições, música e dança (por vezes, muita chuva!!!). Tem sítio com alma!! Quantos causos!!!

Mas com certeza, mais Histórias virão...


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O (Coleção Solitários/ Bordado e Collage - analógica e digital/ 2019).

que te inspira?

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Objetos inspiram; Músicas inspiram; Poemas inspiram; Vidas nos inspiram!!! - Entra. Puxa uma cadeira... Vamos conversar. Deixa eu te contar. Lugares também inspiram!! E nesses lugares, se tiver alguém especial Tudo vira história. E lembre-se: histórias inspiram!!


N

a Tafona tem um sítio, Nesse sítio é assim: Tem uma porteira branca. Um banco grande ao lado...

(Coleção Solitários/ Bordado e Collage - analógica e digital/ 2019).

Tem também um celeiro, que diziam ser mal assombrado, e agora é espaço cultural e biblioteca. Tem um varal com fotografias... (De uma artista que por ali passou.) - Essa história vai longe!!! Espera um pouquinho, vou buscar um banquinho. Tem Sarau e fogueira, Tem grupo recitando poesias Em um dia de música, dança e alegria. Tem rede também, Tem café e bolo quentinho.... (O bolo é do mercado, mas quem sem importa!!)

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S

im, esse sítio que te falo, Tem cachoeira, Tem balanço: “Use sem moderação” Tem muitas flores, Tem plaquinhas com nomes de poetas, Tem gruta do Monge São João Maria, Tem uma cabana de madeira. 90

Lá no sítio tem galinha e o galo Diadorim que (fiquei sabendo à pouco), foi morar no galinheiro do vizinho. Tem o Django e tem a Frida... ‘- Djaaaaaangoooo!!!’ E lá vem o companheiro abanando o rabo, faceiro. Mas no sítio tem muito mais. - Puxa aquela cadeira!!

L

á mora a dona, senhora, menina, moça! Inspiradora e idealizadora... Que passa a vida à contar histórias. E se você pensa que é só no sítio Está enganado. Ela viaja de montão. Fazendo crianças e adultos rirem Mas também prestarem muita atenção. Pessoa inspiradora... (Sonhadora?) Vale sim a visita... a alegria do lugar e a história do encontro...


(Coleção solitários / Bordado e Collage - analógica e digital / 2019).

“Il collage si possono leggere come l’interpretazione di un sogno, un racconto fantastico, um modo di raccontare una storia plausible com frammenti incoerenti. É come dar vita nuova mescolando vite diverse, una metafora del nostro tempo fato di immagini che si sovrappongono e si intrecciano in modo casuale ma che trovano una loro collocazione nel finito.” (Domenico Goi) A partir do trabalho de collage, a artista convida o observador a imaginar, criar, viver e contar novas histórias. Com um trabalho de intervenção de bordado em colagem digital, o processo se inicia com fotografias de cadeiras e bancos das comunidades por onde a artista passou. Sobre essas fotos são adicionadas, de forma digital, figuras. O fundo impresso em separado é bordado. Por último as personagens e suas cadeiras são inseridos na forma de colagem.

Todos nós somos histórias, contamos histórias e fazemos história. - Mas vamos ao que interessa... Senta. Vamos imaginar, contar e ouvir histórias!!!

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Nathalia R. Vieira (1970) Natural de Criciúma – SC,Mora em Chapecó. É Licenciada em Educação Artística, Habilitação em Artes Plásticas pela UNOCHAPECO Campus Chapeco - SC, em 2005. Especialista em Arte e Educação, Faculdades Integradas FCVEST – Chapecó – SC, em 2006. Membro da ADENTRO- Associação dos Artistas Visuais regiões oeste de Santa Catarina, desde 2018.

Tive a oportunidade de conhecer e vivenciar quatro comunidades do interior de Chapecó, neste ano de 2019. Oportunidade sim, pois nasci e fui criada na “cidade grande” – Joinville, Lages- ou seja, não vivenciei o interior enquanto pequena. Com dez anos vim morar em Chapecó com meus pais, aí comecei a experimentar um pouco do interior que tanto ouvira falar quando morava no litoral. Conheci pessoas nascidas em cidades muito menores do que imaginava, falavam de potreiro, criação de porcos, vacas leiteiras, plantavam o que comiam, todos se conheciam - para uma criança, quase adolescente, década de 70 e 80, era difícil compreender até de onde vinha o leite de todas as manhãs; “como assim não iam no mercado comprar a comida?”. Desde então tive muitas surpresas, muitas delas peculiares e inimagináveis para mim. E neste ano tive a oportunidade conhecer a fundo comunidades pequenas, pessoas nascidas, criadas e com a vida toda dedicadas a este estilo quase autossustentável, sem os confortos provindos das tecnologias, dos mercados, das padarias tão confortantes para mim.


Tive a oportunidade de conhecer e vivenciar quatro comunidades do interior de Chapecó, neste ano de 2019. Oportunidade sim, pois nasci e fui criada na “cidade grande” – Joinville, Lages- ou seja, não vivenciei As comunidades quedez conhecejovenscom não querem no ino interior enquanto pequena. Com anos vim morar mais em Chapecó meus pais, aíficar comecei a experimos; Linha do Cachoeira, terior, foram morar,Conheci estudar e busmentar um pouco interior queLinha tanto Faxinal ouvira falar quando morava no litoral. pessoas nascidas em cidades muitoLinha menores do que imaginava, de uma potreiro, de porcos, vacas De leiteiras, dos Rosas, Rodeio Bonito e Li- falavamcar vidacriação “melhor” na cidade. plantavam o que comiam, todos se conheciam a- para uma criança, quaseou adolescente, década 70 e 80, nha Tafona, que ficam localizadas uma maneira de outra, em de amera difícil compreender até da onde vinha o leite de todas as manhãs; “como assim não iam no mercado quilômetros de Chapecó. Sendo eu bas as situações as paisagens eram comprar comida?”. Desde tive muitas muitas delas peculiares e inimagináveis umaa apaixonada porentão paisagens na- surpresas, lindas: mesmo uma cerca velha, de para mim.turais, E nestefiquei ano tive a oportunidade de conhecer a fundo comunidades pequenas, pessoas nascidas, encantada com todas, madeira podre, ao relento e a mercê criadas e com a vida toda dedicadas a esteuma estilo quase autossustentável, semsua os confortos e não consegui escolher apenas da natureza tem beleza, eprovindos num das tecnologias, dos mercados, das padarias tão confortantes para mim. para meu trabalho de arte. Todas passado não tão distante teve sua

com paisagens incrivelmente missão, por Linha alguém queBonito talveze Linha As comunidades que conhecemos; Linha lindas, Cachoeira, Linha Faxinal dada dos Rosas, Rodeio com parte de florestas naturais, quavivenciou histórias de igual solidão e Tafona ficam localizadas a quilômetros de Chapecó. Sendo eu uma apaixonada por paisagens naturais, seencantada intocadas, propriedades bem sofrimento. fiquei comsuas todas, e não consegui escolher apenas uma para meu trabalho de arte. Todas com cuidadas, com suas plantações, A quase receptividade de propriedades algumas bem paisagens incrivelmente lindas, com parte seus de florestas naturais, intocadas, suas jardins, suas verduras e frutas, ervas, pessoas do interior me surpreencuidadas, com suas plantações, seus jardins, suas verduras e frutas, ervas, e principalmente com um elo e principalmente com um elo famiimpressionou, abriam os por- pelos familiar muito forte. Havia também as propriedades emdeu mal eestado, quase beirando ao abandono; relatos pessoas, isso Havia acontecia porque os querem ficarofereciam no interior,cadeiras foram morar, liar das muito forte. também as mais jovens tões,não portas e nos 93 estudar e buscar uma vida “melhor” na quase cidade. De umapara maneira ou de outra, ambas situações as propriedades em mal estado, sentar, além deem uma boaasprosa, paisagens eramao lindas: mesmo uma cerca velha, de madeira podre, ao relento e a mercê dacuca natureza beirando abandono; pelos relatos acompanhada por chimarrão, e tem sua beleza, e num passado não tão distante teve sua missão, dada por alguém que talvez vivenciou das pessoas, isso acontecia porque os muitas histórias pessoais e da comu- histórias de igual solidão e sofrimento.


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nidade desde sua fundação, a consma como faziam para sobreviver A receptividade de a algumas pessoas do interior me surpreendeu e impressionou, abriam oseportões, trução igreja, do centropara esportivo, ajudar as pessoas da comunidade. portas e nosda ofereciam cadeiras sentar, além de uma boa prosa, acompanhada por chimarrão, quadrahistórias de futebol, da eescola, da eu,fundação, sou e sempre fui dada“cicucada e muitas pessoais da comunidade desde aEsua a construção igreja, do estrada que leva sua produção para a dade grande”, ter a oportunidade de centro esportivo, da quadra de futebol, da escola, da estrada que leva sua produção para a cidade... cidade... marcoso que o lugar viver outras culturas, outros trejeitos, marcos que definem lugardefinem e mudaram a vida dessas pessoas. e mudaram a vida dessas pessoas. outros pensamentos, outros julga A história muitas vezes era mentos, outros olhares, outras paisaA história muitas vezes era contada comconmuita emoção e entusiasmo. Conheci pessoas com afazeres, tada come muita emoção diferentes, e entusias-cada umagens, meu repertório ar-com um pensamentos conhecimentos com enriqueceu suas especificidades, cada uma Conheci pessoas com afazeres, tístico, minha almadedicaram foi tocadaa vida por toda à amormo. incrível pelo lugar onde moram, por menos luxo que ehaja. Algumas pensamentos e conhecimentos difehistórias de simplicidade e amor: pela melhoria da comunidade, em busca de um bem comum, um viver em comunidade. Outras à dedicarentes, cada uma com suas especifamília, pela comunidade, pela históram para continuar o legado de seus antepassados, da forma como faziam para sobreviver e ajudar ficidades, cada uma com um amor ria de seus antepassados, por uma as pessoas da comunidade. incrível pelo lugar onde moram, por carga de solidão e abandono. Essa E eu,menos sou e sempre fui da “cidade grande”, ter a oportunidade de viver outras culturas, luxo que haja. Algumas demistura, comum a qualquer almaoutros hu- trejeitos, dicaram outros pensamentos, julgamentos, outros olhares, outras encontrada paisagens, enriqueceu meu a vida todaoutros à melhoria da mana, facilmente quando repertório artístico,em e minha simplicidade pela família, pela comunidade, buscaalma de foi umtocada bem por histórias se tiradetodos os luxose amor: e confortos da comunidade, de seus antepassados, porvida umamoderna, carga de solidão abandono. Essa comum, pela um história viver em comunidade. me faze questionar es- mistuOutras aàqualquer dedicaram continuar o colhas cotidianas, confrontar medos ra, comum almapara humana, facilmente encontrada quando se tira todos os luxos e conforlegado de seus antepassados, da fore expor naconfrontar minha arte os dilúvios tos da vida moderna, me faz questionar escolhas cotidianas, medos e expor da na minha vida. arte os dilúvios da vida.


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O que te cerca? Pintura AcrĂ­lica sobre tela. 50x60 cm. 2019.


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Liberdade. Pintura AcrĂ­lica sobre tela. 50x60 cm. 2019.


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Entre, Por Favor!!! Pintura AcrĂ­lica sobre tela. 50x60 cm. 2019.


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Um olhar além da cerca. Pintura Acrílica sobre tela. 50x60 cm. 2019.


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Tão diferentes e tão iguais - Instalação das pinturas acrílica em tela sobre cerca. Fotografia. 2019.


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Sonia Loren (1963) Vive e trabalha em Chapecó (SC). Graduada em Artes Visuais Bacharelado. Pós-graduada em Cinema e Realização Áudio Visual (UNOCHAPECÓ). Fundadora presidente da ADENTRO desde 2010. Destaca-se o 10 Salão de Arte Contemporânea Elke Hering de Blumenau; Exposições e obras no acervo do MACRS (POA); exposições em Montevidéu/UR; MuMA/Curitiba; Bienal de Curitiba/Badesc; Instituto Internacional Juarez Machado/Joinville (SC).

De quantos pé s se faz um caminho de “ guavirova ”? Décadas ap ó s , a vista ‘fia ’ j á alcanç a o potreiro que gela melancia onde ainda é o mes mo - o sol. De ‘Jorginho’ ainda o aR sfalto de terra batida assopra poeira aqui na minha mã o onde já n ão cai , cai mais pinhã o . De quantos ‘z óio” se faz leitura todo dia , minha santa ? De ensinar criança , anotar memórias pra melhor desap arecer . Mulher de olho grande que abre frestas em meio a lida de folhas brancas questiona “ Você tem sede de qu ê ?” Causo di qu ê ? Causo de gruta cachoeira balanç o de corda em árvore farmá cia semeada aqui pe ga wi fi mas se bobiar pe ga a viola e vai ca çar saci em p é de bergamota. E la ´vai ela desprender as palavras p ara torná -la mais forte . Sigo junto “ Era uma vez , e nã o era uma vez ...” “ De quantos pares de sap ato precisa um artista em trânsito ? De quanta disposiçã o para o novo , de quanto desespero , de quanto conforto , de quanta capacidade de dar e receber , de quanta desgraça, de quanta comoçã o, de quanta bruma? ”


Os Esquilos de Pavlov repousam enquanto apenos respiro de p é s descal ç os entre camomilas e uma terna e s á bia senhorinha que me alcanç a na sa ída e. . . “Deixa eu te dar mais um beijo fia”. De quantas pinguelas se faz uma ponte? De mãos que tramam juntas em fios de afetos. De a gulha com buraco grande pra vista que j á n ã o d á mais. Leva no bolso da cami sa a que g anhou de presente vai cos turar como quando pequeno ajudava a m ã e . E a vista molha as lá grimas. De acrobacia entre cadeira e banco que os noventa do tempo pesam as costas , mas a Fé quer bordar . De 100 anos em mãos de menina. E de menino . Seguimos entre caminhos, sil ê ncios e poesia. Pra que lado a gora ? Entre . . .

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Apenas respire - a R sfalto de terra batida. Fotografia impressa em papel couchĂŠ. 30x42cm. 2019.


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Apenas respire - ImersĂŁo em si. Fotografia impressa em papel couchĂŠ. 30x42cm. 2019.


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De quantos pĂŠs se faz um caminho de Guavirova? Fotografia impressa em papel couchĂŠ. 42x30cm. 2019.


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Causo di quê? ´Zoiada`de Sonia, Nath, Cesar - É nossa Maloca Fotografia impressa em papel couché. Tamanhos variados. 2019.


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Tania Stempkowski Natural de Carlos Gomes – RS. Artista Visual, autodidata. Mantém atelier no centro de Chapecó-SC. Membro da Adentro desde 2010. Destaca-se exposições em Portugal, MAB (Blumenau,SC), Galeria Dalme Rauen, Chapecó/SC.

Família é raízes, trazemos nas memórias inconscientes o que recebemos das gerações anteriores. Nessas vivências percebi que se repetem saberes e fazeres. Todos sentem necessidade de compartilhar e auxiliar sendo fraternos para o bem de todos na comunidade. Essa inclusão é importante para tornar uma egrégora de energia emocionalmente saudável e equilibrada. Isso faz a organização forte, comunidade forte todos tem seu lugar de pertencimento. Percebi que pessoas saem das comunidades, de mudança para a cidade e voltam em alguns anos. Viver em seu lugar, sua terra que vem de seus ancestrais. Os seres aprendem a gostar das coisas, dos lugares e das pessoas porque as raízes são fortes. Alguns vem participar das reuniões de idosos porque ali tem raízes e todos nós temos necessidade de preencher essa energia. Para preencher o vazio há a necessidade de encontros e afetos tomando a força para seguir equilibrado. As rodas de chimarrão nos encontros para reuniões, filós ou serões sempre tem ervas curativas. Verifiquei que as ervas são cultivadas ao redor de suas casas, nos quintais, nas matas nativas e renovadas. Até hortos


são feitos para honrar os ancestrais. Procurando cultivar, preparar e colher com cuidado e certa magia para que todas essas ervas sejam curativas. Quando fazem trocas de chás entre as pessoas da comunidade é feito passando uma energia de amor ao próximo. Essa troca eles fazem com sementes, alimentos, saberes e fazeres. É a escola da vida. Unidos na tristeza e na alegria eles são fortes. São comunidade organizada com atividades saudáveis que agregam valores e força ao local. Cada um com suas características dando continuidade ao legado dos ancestrais, valorizando e honrando o local e a história de quem veio antes e que desbravaram e escolheram para viver. A grandiosidade das tradições dando continuidade ao legado passado de geração em geração: O chimarrão; Jogo de cartas e futebol; O filó ou serão; Cultivo de videiras e vinhos artesanais; Plantação de cana de açúcar para a produção de açúcar, rapadura e cachaça artesanal; Ervas Medicinais.

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Colheita de Cana. Acrilico sobre tela. 160 x 150 cm. 2019.


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Colheita de Ervas. Acrilico sobre tela. 160 x 150 cm 2019.


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Filรณ. Acrilico sobre tela.. 150 x 140 cm. 2019.


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Jogo de Cartas. Acrilico sobre tela. 160 x 150 cm. 2019.


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Registro de VIVÃ&#x160;NCIAS ENTRE PONTES E PINGUELAS: estrada adentro, mundo afora

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Agradecemos

LINHA TAFONA

LINHA CACHOEIRA:

Analdo Menegath Ivete Geroldi Natalia Geroldi Dauria M. Menegatti Sandra M. Menegatti Cleonice Jurkoski Gabriela de Souza Fernanda de Souza Josiane A. Geroldi Nossa Maloca Fabiane Biazus Tatiana Zawadzki Ilma Leal Pricila Leal Velasqui

Eroni Fatima de Ramos Ribeiro Raquel Camilly Débora Zeli Martins de Ramos Padilha Marta Gélssica Davina de Oliveira Q. Rosa De Oliveira Sirlene Gonzaga Vitoria C. Gonzaga Gislainy N. Gonzaga Lureni Dequadro Salete Dematos Sirlei V. da Rocha Senhorinha Lopes Portela Juventina Maciel Renata Ziger Solange da Silva Letícia Isabel Isabel da Rosa Elizandra Müller da Rosa Evania Müller da Rosa Edson A.da Rosa

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RODEIO BONITO: Maura G. Menegatti Maria Rovani Diva M. Luzzi Terezinha Zani da Luz Terezinha Luzzi Maria Menegatti Salete Vasata Maria Terezinha Coser Ines K. Zanchet Santina Maria Luzzi Lourdes Maria Bordin Isidoro Boroni Valdir Vasata Ana Vassoler Lenira Luzzi Juraci Cleuder A. Acosta Jung João Jung Yarlen Menegatti Jose Luzzi

FAXINAL DOS ROSAS: Joscemara C. Capitanio Lucia Capitanio Ires M. A. Munarini Carmem K. Munarini Maria da Luz Kilian Romilda Santa Ana F. Felippi Maria Eloisa M. de Carli Rosane Bueno Andréia Fossá Sabrina dos Santos

Leticia J.M. dos Santos Vitória Sofia Olga Anita Rosa de Carli Yanni Munarini Pinheiro Ana Elsa Munarini Tania Baggio Juceli F. B. Cararo Valeria S. Girotto Claudete Pedroso Claudizangela Pedroso Neiva Rosina Cleusa A. Z. Lavall Lourdes Girotto G. Carmes Masan Catiana Munarini da Silva Thais A. da Silva Ivone Durlo Isabela de Ramos Zanchet Lonara de Ramos Karine da Silva Wueslin Cardinal Speht Renan da Rosa Leticia Iaroseski Machado dos Santos Sabrina dos Santos Emily Cristina Giovanoni Maritana A. Alves Pereira Anita Rosa de Carli Gabriel Lucas Felippi Dionatan Cardozo Tauan E. da Silva Mauricio Ferreira Juliano Duarte Silmara Pedroso Duarte Loriva P. Medeiro Edir Maria Mendes de Medeiros Vitor Augusto de M. Machado Rosalina Nogueira da Silva Alfeu Machado

Laudecir Machado Marcos Airton Campos Terezinha Salete Piccoli Brizolla Leonildo Brizolla Janaina Piccoli Brizolla Antonio Wiamowiski Jorge José T. Durlo José Guarogni E a todos que participaram de forma direta ou indireta deste projeto.


Realização

Este projeto foi contemplado pelo Prêmio Funarte Artes Visuais - Periferias e Interiores

DISTRIBUIÇÃO

GRATUITA -

PROIBIDA A VENDA

Profile for Sonia Loren

ENTRE PONTES E PINGUELAS: ESTRADA ADENTRO, MUNDO AFORA  

Um resgate histórico do patrimônio material e/ou imaterial (saberes, fazeres, personagens, curiosidades, paisagem, arquitetura) de 04 (quatr...

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