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Menu cultural no Festival Tempero No Forte

ANO 4 . Nº24 . 2012 . R$ 14,90

Armandinho


Capa Armandinho por. SĂ­lvia araĂşjo FOTOS. Solange rossini


Foi no fim de tarde, abençoada pelo pôr-do-sol, no Forte São Diogo, no Porto da Barra, que a equipe da Let’s Go entrevistou o guitarrista e compositor Armando Macedo, conhecido como Armandinho. Ele apareceu afobado. No dia anterior tinha chegado de uma viagem em Telaviv, Israel, e no dia seguinte embarcaria para Brasília, para tocar chorinho. No ensaio fotográfico, Armandinho segurava a guitarra baiana como se fosse um filho. Carregava com todo o cuidado, como se tivesse receio dela escapar de seus braços. Mas tudo tem uma explicação. A trajetória musical do guitarrista está intimamente ligada ao instrumento do qual ele ”usa e abusa”. E que fez dele uma referência na música instrumental. O baiano está entre os 20 melhores guitarristas do país, segundo a revista Rolling Stones Brasil, ao lado de gente como João Gilberto, Pepeu Gomes e Ricardo Primata. Ele já tocou com os músicos Stanley Jordan (Aracaju/2009), Hermeto Pascoal, Rafael Rabelo, Artur Moreira Lima e Egberto Gismonti. “Esses encontros me realizaram profissionalmente”, declara.

O instrumentista Armandinho será destaque no Carnaval 2013, que tem como tema Guitarra Baiana. Músico segue a tradição do pai Osmar, que ao lado de Dodô inventou o trio elétrico

O artista tem quase 50 anos de Carnaval, tendo subido no primeiro trio elétrico com a bênção do pai e depois assumido, com a família o trio Armandinho, Dodô e Osmar. No palco andante ele se joga com a multidão. De cima, com chapéu e roupas coloridas, Armandinho se contorce e comanda o delírio do folião na destreza do dedilhar da guitarra, uma intimidade que vem desde a época em que era criança. A predisposição musical é de responsabilidade de seu pai, Osmar Macedo, o inventor da guitarra baiana maciça e posteriormente do trio elétrico, em parceria com o amigo Dodô. O nome guitarra baiana foi batismo de Armandinho. Antes era chamada de cavaquinho elétrico e apelidada de pau elétrico. O instrumento foi escolhido o tema do Carnaval 2013 de Salvador.

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Desde pequeno Armandinho era um apaixonado pela música. Hoje é consagrado internacionalmente e considerado um dos 20 melhores guitarristas do Brasil, segundo a revista Rolling Stones Brasil

Teimosia de

infância Baiano, natural de Salvador, segundo dos sete irmãos, desde pequeno, a contragosto da mãe, Armandinho adorava pegar e tocar os instrumentos do pai, então um músico amador, que junto com Dodô tocava nas horas vagas para os amigos. “Quando ele tinha um ensaio, eu ficava doido. Uma vez lembro que minha mãe brigou com meu pai porque ele deixou o violão no sofá. Ela queria que colocasse em cima do armário”, conta Armandinho. A mãe morreu quando ele tinha apenas 8 anos e aos 10, Osmar montou um trio mirim, no qual Armandinho destacou-se como solista da guitarra. O músico resolveu levar a vocação adiante. Não tinha a menor inclinação para os estudos. Chegou a prestar vestibular para arquitetura, para satisfazer um sonho da mãe de possuir um diploma, mas não teve sucesso. Armandinho participou do Programa de Flávio Cavalcanti, depois passou a gravar discos e 24

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começou a ser contratado para tocar nos trios durante o Carnaval. Entre 1975 e 1977, tocou com Morais Moreira. Com os músicos Dadi, Mú Carvalho e Ary Dias criou a banda A Cor do Som, um sucesso da época, que se projetou com estilo musical pop e MPB em alto padrão. O grupo tocou produções próprias no Festival de Mountreux, como Zanzibar, Beleza Pura e Abri a Porta; gravou sete discos, de 1977 a 2005, com interrupções. Com os irmãos Macedo, ele conseguiu montar o próprio trio, o Armandinho, Dodô e Osmar. “No início, meu pai ficou reticente, mas depois me deu muita força e insistiu em colocar meu nome bem grande no trio. Disse que ele e Dodô inventaram o trio elétrico e pronto, mas naquele momento era a minha vez. Nesta época, não tínhamos o pensamento, nem organização que temos hoje, mas sinto saudade. As coisas iam acontecendo muito depressa”, lembra ele.


Memorável

Desafilho Cenas históricas entre Armandinho e o pai marcaram a história do Carnaval baiano, no final dos anos 70. No chamado Desafilho da Guitarra Baiana, Osmar desafiava Armandinho no trio. Era o espetáculo da noite pois, de um lado, Armandinho tocava com rapidez, era como se a guitarra falasse, e do outro, o pai fazia performances com o instrumento. “Meu pai era um ator perfeito, ele representava ali. Pegava os elementos pelo fato de que eu tocava mais rápido do que ele. Então, teve que buscar outras façanhas, como tocar nas costas, tirar a camisa, fazer uma palhaçada, para suprir o meu lado, que era só tocar. Ele chegou com chinelo pra me bater e eu fazia o som do chinelo na guitarra. Na primeira vez cheguei a apanhar, ele bateu forte”, lembra aos risos.

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Cidadão do

mundo Armandinho viveu alguns anos no Rio de Janeiro e retornou definitivamente para Salvador, em 2005. Torcedor do Bahia, sente-se tranquilo com a posição do time na primeira divisão e o resultado semelhante para o Vitória também o deixa feliz, pois pensa que os dois representam o estado. O guitarrista adora o Rio Vermelho, local onde mora e frequenta a noite. Hoje, com 59 anos, tem três filhos (uma filha biológica e dois enteados) e está no terceiro casamento. O músico é consagrado internacionalmente e enquanto o Carnaval não chega, ele vai realizando shows em vários cantos do mundo, deslanchando sua carreira solo (guitarra, violão e bandolim). Em países como Espanha e França, ele tem um público fiel. Para Armandinho, a guitarra baiana está formando um público novo, integrado por uma juventude ávida em aprendizado instrumental. Com relação à música baiana, não deixa de lançar uma observação com uma pitada de crítica: “O músico baiano é criativo e o grande pecado da Bahia, da comunicação baiana, é ficar insistindo num popular muito fácil. Tudo bem que existam novos estilos, mas não pode é desprezar grandes trabalhos musicais”, alfineta ele, pontuando a necessidade de “democratizar os trabalhos. Tem muita gente que ficou de escanteio na mídia”. Entretanto, Armandinho sente-se reconhecido, tendo o apoio dos poderes públicos e da mídia nos últimos tempos. “Essa homenagem da guitarra baiana como tema do Carnaval baiano em 2013, a família recebeu com emoção”, finaliza.

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