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Good News? Comunicar é complicar Good News? To communicate is to complicate Mário Caeiro, ESAD.cr & José Moura, FCT-UNL

A ideia é apresentar cinco visões da resiliência artística ao fenómeno da comunicação massificada. Uma mancheia. O subtítulo – 'Comunicar é complicar' – é assumido no sentido de que há uma complexidade do artístico que joga com a comunicação, mas perturbando-lhe a transparência aparente sob várias formas: a decepção, o curto-circuito, a ambiguação do dispositivo, mecanismos de distanciação que se articulam como o silêncio, o irónico, o absurdo.

The idea is to present five visions of artistic resilience towards the phenomenon of massified communication. The sub-title – To communicate is to complicate – is taken in the sense that there is a complexity in artistic activity which plays with communication but disturbing its apparent transparency. It does so through various means: deception, shortcircuit, ambiguity of the device, all mechanisms for estrangement which articulate silence, irony, the absurd. Why these Magnificent Five? We know them from diverse contexts. They have been moments in a continuous discovery we’ve been sharing along these last five years. This discovery came along with another, one of acknowledging how arte is important and vital when one wants to apostrophize the everyday of the Caparica Campus. Sometimes withdrawing to a space of recoil and inviting us for introspection; sometimes creating dialogical moments

E porquê estes cinco magníficos? Conhecemo-los de diferentes contextos. Têm feito parte de uma descoberta contínua, ao longo destes últimos cinco anos, que ambos temos partilhado. Tem sido uma descoberta que anda a par de outra, a de como é importante e vital a arte interpelar o quotidiano do Campus da Caparica. Ora retraindo-se para um espaço de recolhimento 5


of contact and confrontation, Contemporary Art has for these last few years managed to open up an assertive space more and more indispensable. These five proposals, in the simplicity of the occasion, aim to reinforce the idea that art as an useful thing in the quotidian of an University.

e convidando-nos à introspecção; ora criando momentos dialógicos de interpelação e confronto, a arte Contemporânea tem tido na Biblioteca um espaço assertivo cada vez mais indispensável. Estas cinco propostas, na simplicidade da ocasião criada, visam reforçar a ideia da arte como coisa útil ao dia-a-dia de uma Universidade.

But the moment has come to complicate the game. It is time to departs from an understanding of art as instance which complicates the obvious, what is expected and minifies us, surrounds us, erodes us. That’s the pint of this exhibition. Five artists – a little handful of ‘communicating vessels’ – were chosen to be as many other ways for rehearsing the possibles of communication. And of course also to communicate – may that be possible… – the complexity of which art is made of, as well as the matter of a total experience of which we aren’t ready to be dispossessed, either by the triviality

Mas chegou a altura de complicar o jogo. É altura de partir de um entendimento da arte como instância que complica o óbvio, o expectável, o que nos menoriza, rodeia e corrói. Assim se posiciona esta exposição. Cinco artistas – uma pequenagrande mancheia de ‘vasos comunicantes’ – foram escolhidos por serem outras tantas vias para ensaiarmos o possível da comunicação. E depois para dizer que a matéria da arte é uma experiência total de que não podemos ser espoliados, seja pela trivialidade dos media ou o rame-rame 6


of the media or the boredom of ideologic messages, some ostensively stultifying, others subliminarily conditioning our autonomy. But enough theory! Eunice, Alexandre, Cláudio, Pedro and Moffat – here as artistscitizens eager to complicate our lives – propose us something far more plain; the pure aesthetic experience of complexity. They appeal to the tradition of action, performance, objectmaking, the pictorial, in order to surprise us through an ephemeral gathering of contemplation objects and contact. Maybe enough to create a true communication environment.

das mensagens ideológicas, sejam ostensivamente brutificantes, sejam subliminarmente condicionadoras da nossa autonomia. Mas chega de teoria! O que Eunice, Alexandre, Cláudio, Pedro e Moffat – aqui antes de tudo o mais cidadãos-artistas que se predispõem a mostrar como nos complicam a vida – o que estes cinco autores nos propõem, é algo de muito mais singelo; a pura experiência estética da complexidade. Recorrem à tradição da acção, da performance, do objecto, do pictórico, para nos surpreender através do que não deixa de ser um acervo efémero de objectos de contemplação e contacto. Talvez o suficiente para que se crie um verdadeiro ambiente de comunicação.

Be it in the micro-performance of Eunice, appropriating a metallic structure outside the Library; be it in the installation by Alexandre A. R. Costa of a workstation impossible to be used – at least without a critical inflexion about what is work and collaboration; be it in an invitation to contemplate

Seja na micro-performance que se estabiliza e engrandece até tomar conta de uma estrutura metálica no exterior da Biblioteca (Eunice Artur); seja na proposta 7


de uma mesa de trabalho impossível de utilizar – pelo menos sem uma inflexão crítica acerca do que é o próprio trabalho e a colaboração (Alexandre A. R. Costa); seja ainda através do convite à contemplação de esculturas que são assemblagens imagéticas (Pedro Cabral Santo), de frágeis pinturas em cartão que são resgatadas ao everyday dos jornais (Cláudio Lima) e finalmente de objectoslixo reunidos e suspensos na parede por forma a refrescar a nossa apetência para o sensível (Moffat Takadiwa), eis como uma pequena exposição mostra como há sempre um momento para nos deixarmos emocionar por aquela arte que, nos termos propostos por Jean-Claude Pinson em L’art après le grand art, é dotada de uma grandeza tão difícil de reconhecer quanto necessária para, também na metafísica, e como disse um dia Ortega y Gasset, ganharmos a vida.

sculptures which are imagetic assemblages (Pedro Cabral Santo); fragile paintings which are rescued from the everyday of the newspapers (Cláudio Lima); and finally cast-off materials suspended at the walls in order to refresh our appetite for the sensitive (Moffat Takadiwa), this exhibition is an opportunity for the public to feel an art which may be defined by the words of Jean-Claude Pinson in L’art après le grand art: an art endowed with a new kind of grandeur, even if such is difficult to be recognized. But then again, and as once said Ortega y Gasset, it is also in Metaphysics that one must earn a living.

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In Eunice Artur’s interventions, where does (the sensing of) nature end and the sense of the work begin? In her performative and engaged interaction with nature, the artist takes local organic material to make a silent statement using a previously existing tubular metal scaffold shape as its structural basis. Art communicates with its intimacy and the spectacle is such silence, naturally.

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Eunice Artur Cada instante de tempo em que se move mas todos se encontram 2013 Instalação site-specific; materiais: fibra orgânica; dimensões variáveis

Silêncio. No princípio era o silêncio. Observo as coisas que nos rodeiam, estamos todos aqui? Consigo tocar esta matéria como um erro de desassossego, deixo essa acção tornar-se parte de mim, sinto a comunicação de proximidade e distância, de início e fim, e de repente à minha volta precede uma sensibilidade imperceptível entre o interior e o exterior. Como é a luz? Sinto-a deslizar por entre as minhas mãos, paro. Fico aqui? Respiro no silêncio e encontro-me. EA Nas intervenções de Eunice Artur, onde termina (o sentido d)a natureza e começa o senso da obra? Na interacção com o natural, a artista propõe o fazer de um lugar que possa ser interpretado pelo transeunte. Para a presente exposição, Eunice Artur propõe uma performance íntima que se desdobra em intervenção escultórica, no exterior e no interior do espaço de exposição. A peça-acção apropria-se de uma estrutura tubular de grandes dimensões, usualmente utilizada para a difusão das actividades da Biblioteca, e resulta como momento de comunicação da própria exposição com o Campus. No gesto-processo dá-se o não-dito por dito. Em contraste com os habituais materiais sintéticos utilizados pela publicidade, materiais orgânicos desvelam um campo crítico: a arte comunica com o seu íntimo e o espectáculo é esse silêncio, naturalmente. Depois, também no interior, onde o acto é reflexo, a comunicação continua. MC

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Counter-visual and instable device for encounter, dialogue, collaboration. A table which radicalizes the issue of the utility of art from the point of view of entropy. Rules exist in order to be challenged, and also ridicularised. There’s no social communication if not and openness for its ongoing refondation. Let’s get to work?

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Alexandre A. R. Costa UNIVERSO EM MARCHA (dispositivo para acontecimentos) 2013 Mesa (contraplacado, parafusos, fita-cola, máquina de vibração, energia eléctrica, acessórios variáveis) Resma/documentação (memória visual, gráfica, escrita dos acontecimentos) Utilizadores (palestrantes como: políticos, diretores e decisores institucionais, reitores universitáros, programadores, artistas e curadores, desenhadores, músicos, djs, utentes de um projeto de saúde mental, etc.) Dimensões complexas

Dispositivo contravisual e instável de encontro, diálogo e colaboração. Uma mesa ‘de redação’ que radicaliza a questão da utilidade da arte do ponto de vista da entropia. Na prática, o móvel de centro para uma exposição que aspira a complicar a vida ao espectador. As regras são para se quebrar, mas também para se ridicularizar, não existindo condições para a comunicação social quando não houver abertura para a sua continua refundação. Ao trabalho? MC

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Figurative painting on cardboard. The work departs from war images taken from the media, which silently convey not only several levels of subtle violences but also a discrete irony where tendresse may suddenly appear. The truth of these images is beyond the moral of the quote. As spectators, we are held between involvement and delight. Good news, no doubt, since we’re reminded of the irreducibility of the Human even after the degradation of its meaning.

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Cláudio Lima 2011-2012 Acrílicos sobre cartão, aglomerado de madeira ou tela

No meu trabalho procuro explorar uma simplicidade do pictórico e economia de meios: quer pelo claro-escuro da figuração, quer pela aparência de inacabado, ou ainda pela forma como assumo o material do suporte. Interessa-me um tipo de imagens provenientes do fotojornalismo – enquanto dispositivo que lhes define uma determinada significação. São imagens das quais me aproprio e que reconfiguro pictoricamente, apresentando-as num novo dispositivo. Com este processo de recontextualização pretendo desestabilizar uma leitura fechada da imagem. Nos trabalhos em que utilizo o texto, procuro questionar o estatuto de autonomia do texto e da imagem relativamente ao seu conteúdo, através de uma estratégia de (des)articulação da relação entre ambos. Pretendo estabelecer uma relação de sentido indeterminado e inconclusivo e, com isso, libertar a leitura da obra das minhas intenções sobre ela. Pudera tal ser possível! CL Pintura figurativa sobre cartão. Os trabalhos partem da pesquisa de fotografias de jornalismo de guerra. Mas também de imagens que silenciosamente registam outras formas de violência, mais subtis. O dispositivo de apresentação, na sua fragilidade, evidencia a discreta ironia de uma coerência entre a necessidade de promover um sentido de denúncia política e uma dimensão estética que assenta antes de tudo o mais no gesto artístico pobre e depurado, que a intencionalidade da escala depois transfigura, no sentido de uma certa teatralidade. A verdade destas imagens está nessa moral de citação. Oscilamos, enquanto espectadores, entre envolvimento e deleite. Boas notícias, sem dúvida, tanto quanto dizem da irredutibilidade do humano mesmo após sucessivas degradações do sentido. MC

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Págs. 30/31 S/ Título (# 2) Acrílico s/ Cartão Medidas Máximas 190 x 230 cm 2011 Págs. 32/33 S/ Título (# 3) Acrílico s/ Cartão Medidas Máximas 178 x 225,5 cm 2011 Págs 34/35 S/ Título (pintura sedutora / O valor desta...) Acrílico s/ Aglomerado de Madeira 136 X 186cm 2012 Págs. 36/37 S/ Título (por um lado...)

Acrílico s/ Aglomerado de Madeira 136 X 186cm 2012 Pág. 27 S/ Título (competência da minha...) Acrílico s/ Tela 155 X 205cm 2012 Págs. 39 AUTO-RETRATO [após citação falhada] Acrílico s/ Tela 160 X 190cm 2012 Págs. 28/29 S/ Título (é só isto) Acrílico s/ Tela 150 X 210cm 2012 38


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In Pedro Cabral Santo’s works the becoming of language (David Santos) is a transversal and continuous issue. The artist proposes intermedia fictions, sculptural devices which are visually and operatively deceptive. In their uncanny presence, these pieces work as technological aphorisms with great philosophical deepness.

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Pedro Cabral Light Draw 2012 Televisor, sensor de luz; dimensões variáveis Cortesia VPF NO TIME, NO MONEY 2012 4 relógios, ca. Ø 30 cm; 4 calotes semiesféricas de acrílico Cortesia VPF LIght, color and no sound 2004-06 Vídeo 11 ́27 ́ ́ loop

O meu trabalho aborda temas relacionados com a sociedade de consumo, onde toma lugar o propósito experimental, bem como a combinação de meios técnicos e de referências culturais que permitam desencadear a reflexão em torno dos diferentes temas convocados. Desse processo decorre, por exemplo, o papel conferido ao emprego de materiais não convencionais, escolhidos mediante a análise e a compreensão das suas qualidades e dos efeitos que servem à resolução e à coerência plástica de cada peça. PCS Na obra de Pedro Cabral Santo, a questão do devir da linguagem (David Santos) é transversal e contínua. O artista propõe muitas vezes ficções intermedia em forma de dispositivos de imagem, isto é, dispositivos visual e operativamente deceptivos que, na sua estranheza que convive com a familieridade, funcionam como aforismos tecnologicos de enorme profundidade filosófica. MC

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NO TIME, NO MONEY foto 4 relogios

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NO TIME, NO MONEY é uma escultura de parede construída a partir de quatro relógios de parede que apontam para quatro fusos horários e simultaneamente para quatro espaços geográficos diversos. Assim, a ‘marca’ dos relógios, embora iguais ou semelhantes, remete-nos para quatro ambientes económicos ‘complexos’. Light Draw é um desenho construído no ecrã de um televisor que só se dá a ver quando em presença de um espectador. O trabalho Light, color and no sound é uma homenagem aos poetas americanos Adrienne Rich, Bob Kaufman, T. S. Eliot e Amiri Baraka. O trabalhos destes artistas, embora muito diversos entre si, têm como característica comum a capacidade de transmitirem atmosferas polisensoriais, sons e imagens ora claras ora difusas… . Outro aspecto muito importante e presente na obra destes autores, para mim, foi a atenção que sempre dispensaram ao lado social, do quotidiano, dos excluídos, dos mais pobres, ou mesmo denunciando as injustiças da vida. Assim, este trabalho foi pensado, inicialmente, para uma exposição em Vila do Conde, mais propriamente no Vale do Ave, e tinha, justamente, a ver com uma zona fabril que pouco a pouco se foi descaracterizando por via da falência de inúmeras pequenas fábricas, na sua maioria artesanais. O trabalho foi desenvolvido para ser retroprojectado numa montra de uma ruela pequena dessa mesma vila. Infelizmente esse acontecimento acabou por não acontecer. Com o convite para participar na Bienal Luzboa (2006) surgiu de novo a oportunidade de reactivar o projecto que, na sua essência, se destinava a devolver à rua luz e cor através da poesia. As suas cores berrantes têm a função de atrair, ‘capturar’ a atenção de quem por lá passa. As poesias que passam em bandas scroll dão a ideia de que se trata de outdoors referentes a publicidade. Não há som, apenas cor, luz e poesia.PCS

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light draw

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The broad appeal of Moffat Takadiwas’s work is easily understandable. Takadiwa takes every day, discarded objects, easily recognizable parts of our daily life and utility and breathes into them magic and spirituality, which transport the viewers into the realm of imagination, meditation and wonder. This captivation also enables us to question our environment and our habits, for it is truly we, who are indeed responsible for delivering to Takadiwa the basic materials, which make up his work.

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Moffat Takadiwa Peças da série Africa not rechargeable 2012-2013 Dimensões variáveis

O interesse crescente pela obra de Moffat é compreensível. Takadiwa utiliza objectos do dia-a-dia abandonados, facilmente reconhecíveis como parte da nossa vida quotidiana, e insufla-lhes uma magia e uma espiritualidade que transportam o espectador para o reino da imaginação, da meditação e do maravilhamento. Esta afectação permite ao mesmo tempo que nos questionemos acerca do ambiente que nos rodeia e dos nossos hábitos, ou não fôssemos nós mesmos responsáveis por fazer chegar a Takadiwa os materais básicos com que o artista realiza a sua obra. Para GoodNews, Takadiwa apresenta um conjunto recente da série Africa Not Reachable, que encara os objectos como mensageiros e guias de uma viagem que nos traz uma reflexão sobre o Zimbábue de hoje. Lanternas improvisadas a partir de materiais de produtos de origem chinesa tornam-se um testemunho da criatividade que luta por moldar a sua identidade face a pressões internacionais, tanto culturais cmo económicas. Valerie Kabov

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BIBLIOTECA FCT-UNL CAMPUS DE CAPARICA FCT-UNL CAMPUS DE CAPARICA LIBRARY 30.5 – 31.7 2013 Inauguração Opening 29.5 Artistas Artists Eunice Artur Alexandre A. R. Costa Cláudio Lima Pedro Cabral Santo Moffat Takadiwa Curadoria Curated by Mário Caeiro, ESAD.cr José Moura, FCT-UNL Direcção Direction José Moura Ana Alves Pereira Produção Production Sílvia Reis Isabel Carvalho Design Gráfico Graphic Design Solange dos Santos Armindo Tânia  Ribeiro Alexandra Matos Créditos fotográficos Photo Credits Alexandre A. R. Costa (Ana Serra) Moffat Takadiwa (Marcus Gora) Agradecimento Acknowledgement Valerie Kabov First Floor Gallery Harare Pedro Cabral Santo



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