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u tinha 11 ou 12 anos de idade quando a TV a cabo chegava a meu bairro, em Perdizes, Sao Paulo, por volta do ana de 1 995. 0 primeiro canal que sintonizei foi a ESPN americana, que era a unica versao transmitida na epoca. Mal podia esperar pelas cinco da manha do sabado, quando comes;ava a passar a bateria de program as de pesca que integravam a serie "ESPN Outdoor'. Entao, reunia meu material de pesca e vibrava sentado no chao da sala. Desde aquela epoca, me apaixonei por esse esporte que aqui no Brasil praticamente nao era difundido: a pesca esportiva. Os anos se passaram. Muitas pescarias, novas amizades, desenvol-

E

vimento de tecnicas e equipamentos, amadurecimento pessoal- tudo veio se aprimorando. Desenvolvi uma paixao toda especial pelo black bass, peixe que pesquei incansavelmente durante muito tempo nas represas paulistas, com especial destaque para os reservat6rios da Cachoeira do Franca e da Fumaca. Mas sempre "viajando" nos incriveis programas de pesca americanos. Eis que, neste ano, a oportunidade com que sonhei por 17 anos comes;ou a se materializar, e quase por acaso. Uma pescaria no Texas! Mais tarde, perguntaria para mim mesmo: mas por que demorou tanto tempo? Como disse minha amada e grande companheira, Anne Eidelchtein, "porque tudo tem sua hora!".


DALLAS!

o plano

de viagem inicial previa uma viagem em casal a Nova York, com escala em Miami no retorno. Porem, devido a alta estacao do verao americano, estavamos com problemas para fazer uma das reservas. Ate que, assistindo a alguns videos de bass na internet, veio a inspiracao: por que nao alterar 0 roteiro e fazer a escala em Dallas? "Mas 0 que e que tern 1a?", minha namorada perguntou. E eu, com 0 coracao pu1sando forte e os olhos cheios de 1agrimas: "Dallas, amor, Dallas, no Texas! Voce tern ideia do que isso significa? E a capital do bassjishing!". E continuei: ''A cidade tern duas Bass Pro Shops e uma infinidade de outras lojas, alern de fabric as de iscas, outlets ... E urn paraiso! Podemos passar urn dia la, vai ser demais!". Nao teve como ela nao se render ao meu pedido ... Depois de muito trabalho para entrar em contato com a companhia aerea, uma simpatica atendente sugeriu fazermos urn "stop" urn

pouco mais longo para conhecermos Dallas melhor. Sugestao aceita de imediato, combinamos uma escala de quatro dias na cidade. Feita a reserva, comec;:ou a corrida de pesquisas e preparativos para a viagem. o roteiro previa, ap6s a passagem por Nova York, visitas a Iocais como Walmart, Allen Outlet, Bass Pro Shops, Cabela's (outra grande loja outdoor americana) e 0 programa mais esperado: uma pescaria em Lake Fork, urn dos mais celebres 1agos dos Estados Unidos, venerado por qualquer pescador do largemouth bass, de amado res a supercampeoes, como Kevin VanDam. RUMO

AO TEXAS

Ap6s uma semana andando por Nova York, nao via a hora de chegar a Dallas para conquistar meu primeiro big bass. Enquanto arrumava as malas no hotel, sentimos urn 1eve tremor de terra, que nos deixou ate urn pouco tontos. Era urn abalo sismico que colocou a cidade em estado de alerta e ameac;:avafechar

os aeroportos. De fato tivemos de esperar duas horas ate 0 voo seguinte, mas 0 irnportante e que conseguimos embarcar. Ap6s quatro horas, desernbarcavamo no aeroporto de Fort Worth, as dez e meia da noite. A visao do alto era surpreendente: duas represas enormes dentro da cidade, uma infinidade de lagos, aquela imen idao de pontes e os predios rnulticolorido nos dando as boas-vindas ao Velho Oeste amencano. De carro alugado - uma Grand Cherokee cuja diana no sairia por US$ 16 -, com janela abertas e a country music de George Strait no Ultimo volume, botarnos os pes na estrada rumo ao municipio de Garland, a 55 quilornetro do aeroporto, onde teriamos uma curta e ansiosa noite de sono. 0 dia eguinte cedo, percorremos os 140 quilornetros finais ate a cidade de Sulphur Spring. Ao cruzar a ponte obre 0 1ago Ray Hubbard, pudemos avistar a Bass Pro Shops na beira do 1ago. Uma visao de deixar qualquer urn com os


olhos brilhando. o sol mal raiava quando nos encontravamos com nosso anfitriao, 0 guia profissional Marc Mitchell, um apaixonado pelo bassfishing que nos ultimos 29 anos se dedicou inteiramente a pesca esportiva na regiao. Sua primeira recomendacao foi passarmos em um posto credenciado para emitir a licenca de pesca. Optei pela licenca diana, ao custo de

US$ 16. Nao via a hora de entrar na agua a bordo do bass boat com motor de 250 hp engatado na traseira da caminhonete do guia. LAKE FORK, 6:30

A.M.

Descemos no lago por uma ramp a publica. Perto de 20 outros reboques ja estavam ali estacionados. Lake Fork conta com mais duas ramp as e aproximadamente 20 marinas de

grande porte em seu entorno. Bastaram dez minutos para pararmos no primeiro ponto de pesca. Marc decidiu come<;:arcom uma grande e "barbeluda" crankbait, apta a descer ate cinco metros com recolhimento continuo. Alguns arremessos proximos as arvores que enchem a paisagem do lago, e ele engatava 0 primeiro bass. "Urn baby", disse ele sorrindo, ao se referir ao peixe de


TEXAS STYLE

Do inicio ao fim, a pescaria aconteceu no "estilo texano", com varas pesadas e iscas de tamanho inimaginavel para os basses brasileiros (abaixo)

cerca de 45 centimetros, que nem deixou que fotografassemos. As duas horas seguintes foram de pouca acao. Mudamos de ponto duas vezes, intercalando a pesca entre as cranks e minhocas no legitimo estilo Texas Rig. Na verdade,

urn "Texao", com "chumbao" de 10 gramas, anzol510 e minhoca entre 10 e 12 polegadas! De olho no sonar o tempo todo, Marc avisou: ''Ai vern alguns basses cacando urn pequeno cardume". Urn born sinal; os peixes come<;:avam a abrir a boca. Ele mudou de isca para urn grande rubber jig com chocalho duplo e trailer, dizendo-me para insistir no Texao. Tres arremessos depois, na caida da minhoca, urn peixe a agarrou com vontade, mal foi preciso fisgar. Esse sim era urn jovem exemplar, com 35 centimetros. Marc come<;:oua se preocupar. Partimos em busca de locais mais fundos, onde teriamos melhores chances de conseguir peixes maiores. calor intenso, com media de 40 graus centigrados (e agua na faixa

o

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meio, pr6ximo a ~ dada. Apostei ':---- que Marc â&#x20AC;˘..:: na cor "baby . do voce sentir curtos e entao pa.:<:.E:= - centre. Eles estao af e estao _-'. 'oce vai sentir". Foram oito acoes e quatro peixes subindo para a foto nesse local, dois para cada urn. Todo "pequenos", beirando - centimetros. Perdi varias fi gadas po- falra de "brace"; era preciso dar porrada mesmo para acertar 0 peixe! Pescivamos com equipamento pesado, ao "Lake Fork


style", com vara de sete pes de acao rapida, classe 25 libras, e linha de 0,35 milimetro de fiuorcarbono. Apanhei, e verdade, mas a experiencia de tirar os peixes a quase dez metros de profundidade era deliciosa. E que saltos espetaculares. Eles subiam em grande velocidade e logo buscavam 0 ceu. Eram verdadeiros acrobatas. RUSH

TIME

Ao meio-dia, nosso anfitriao decidiu almocarrnos logo para aproveitarmos bem 0 periodo da tarde, pois tinha visto na previsao do tempo que teriamos uma forte queda de pressao perto das tres da tarde "Vamos ter rush a tarde", disse ele, e eu, ainda sem entender. Paramos em um charmoso restaurante na beira da represa, como aqueles de filme. Para nossa surpresa, a esposa de Marc nos aguardava com duas sacolas cheias de lembrancinhas de Dallas. Ficamos encantados com tamanha educacao e carinho. Os texanos definitivamente sabem receber bem seus visitantes. Restaurante bom e papo melhor ainda, mas tinhamos um objetivo. Voltamos para a represa, e, no meio do caminho, Marc apontou para baixo da ponte. Um fenorneno relativamente comum em Lake Fork antes das grandes variacoes de pressao acontecia: um grande frenesi . alimentar de basses cacando fazia a agua fervilhar com os ataques! Era esse 0 tal rush ao qual ele havia se referido. Ele disse que poderiamos pegar muitos peixes ali, mas todos pequenos. "Nso tem problema. Vamos Ia!", respondi. vento havia sumido e a pressao estava la em cima. 0 guia me deu um pequeno shad para colocar na vara de oito libras. "Vai ser diversao pura", disse. De fato, era so jogar proximo ao cardume para ÂŁlsgar um bass. Em uma hora e meia, foram mais de 20 pe<;:ascapturadas. Peixes diferentes como um surifish e um white bass tambem apareceram

o

no meio da Festa. Entao, algumas nuvens mais espessas comecaram a surgir. A sugestao foi aproveitarmos o bom momenta para corrermos para um ponto melhor. Poucos minutos depois, enquanto navegavamos a 60 milhas horarias, a imprevisibilidade do clima do Texas come<;:oua se mostrar. A intensidade do vento aumentava numa velocidade incrivel; uma tempestade galopava em nossa direcao. "0 bicho vai pegar", pensei. Em um minuto, guardamos tudo e nos mandamos. Em pouquissimo tempo erarnos acoitados por rajadas de 100 km/h. Era um refiexo do furacao Irene, que passava a 2 000 quilometros dali, na Florida. Nao tivemos outra alternativa que nao Fosse antecipar 0 fim da pescaria. Com a represa toda marolada, enquanto saltavamos sobre as ondas nos agarrando ao banco, gritei para Anne: "Welcome to Texas!". Em terra, Marc nos convidou para um papo em sua casa, a cinco minutos de Lake Fork. Um lugar lindo, 0 verdadeiro "sonho americano". La, me chamou para conhecer sua "cas a de pesca". Sim, ele possui uma casinha anexa so para guardar sua tralha. Trofeus, equipamentos, fotos, replicas de seus maiores peixes, tudo reunido em seu pequeno

"FEEDING FRENZY" de uma grande mudanca de tempo provocou um frenesi alimentar nos peixes. Resultado: mais de 20 basses em pouco mais de uma hora

o premlncio

refugio particular. Durante nossa conversa, a tempestade passou. Ainda eram cinco da tarde. Ate podiamos vol tar para 0 lago, mas preferimos adiantar a visita a cidade e ao outlet. U ma nova pescaria foi marcada para 0 dia seguinte.

pesca esportiva

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BIG BASS

DAY

De manha, antes da pescaria, fomos conhecer a Bass Pro Shops da cidade. Fiquei hipnotizado com o que vi. Depois de tantos anos, era urn sonho caminhar pelos corredores dessa gigante americana. Alern da infinidade de produtos, 0 atendimento e impecavel, digno de fazer inveja a maioria das lojas que temos aqui. Resultado: ficamos uma hora batendo pernas antes de nos dirigirmos ao lago. A temperatura agora estava mais amena, gras:as a uma gostosa brisa que soprava. Nosso unico objetivo era a big bass. Voltamos aos mesmos pontos do dia anterior e la estavam os peixes, com fome e atacando tudo 0 que passasse por perto. Desta vez, nao s6 em quantidade, mas tambem em tamanhos maiores. Em poucas horas, bati meu recorde pessoal cinco vezes. Cheguei a

trocar de iscas propositadamente para sentir 0 que realmente fazia a diferenca. Mas ainda nada do gigante de Lake Fork. Apenas peixes que Marc insistia em chamar de "babies", mesmo chegando perto dos 55 centimetros e do is quilos e meio. Intuitivamente, arremessei ao lado de uma more no lado oposto a diFINALMENTE ... Felipe pee as rnaos no sonhado big bass: encerramento perfeito de sua primeira e marcante pescaria texana

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recao em que pescavamos. Senti urn leve toque na linha - era 0 esperado sinal do big bass. Abaixei a ponta da vara e recolhi 0 maximo que pude sem assustar 0 peixe. Entao, com conviccao, dei a maior ferrada da minha vida. 0 peixe respondeu com uma energica corrida, tomando linha da carretilha. Ap6s 30 segundos de briga, que pareceram durar varies minutos, 0 gigante surgiu de repente num salto espetacular, cuspindo longe meujig. Nao havia nada pior e ao mesmo tempo tao maravilhoso que aquilo. Com certeza absoluta, 0 peixe tinha mais de cinco quilos. Marc havia quase se jogado na agua arras do bass. Entao, me olhou de urn jeito meio estranho, deu uma boa gargalhada e em seguida urn forte abraco, daqueles de parceiro nas horas mais dificeis. Mas a frustracao da perda durou pouco. Outros dois grandoes logo apareceram, e pude bater todos os recordes anteriores, ao embarcar (e soltar, claro) urn senhor peixe. Daf pra frente, mesmo com outras 6timas acoes, ja me dava por realizado. 0 exemplar que veio para fechar com chave de ouro nao foi nenhum gigante, mas .sim, urn pequenino exemplar de tao somente 25 centimetros. Segundo Marc, urn peixe de urn ano, fruto das continuas reposicoes de estoque no lago. Foi ai que ele me derrubou com urn golpe certeiro no meio do estomago,


EQUIPAMENTO UTILIZADO

Para crankbaits: varas de 6'6" e pes, dasse 25 e 30 libras, com acao media-rapida: carretilhas com razao de recolhimento de 6: 1; linha de nailon de 25 libras; iscas grandes, de ate 1,5 onca (42,5 gramas). Para jigs e Texas Rig: varas de 7 pes, dasse 25 e 30 libras, com a~ao rapida: carretilhas com razao de recolhimento de 7:1; linha de multifilamento de 25 libras; minhocas de 10 a 12 polegadas, tipo curly tail, em cores variadas. 7

NUMEROS

DO

LAKE FORK

Area: 27 000 acres (apro e camprimenta par do is de largura) bass. 35 Guias especiaJizados Peixe-recorde: 18,3libJas Pescadores e visitantes ano~ 36000 Faturamento anual do USS 28 rnilhoes Bosses juvenis soltos; 500 par ana


I

/

PESCA

DICAS DE VIAGEM

e

• A American Airlines a companhia com maior regularidade de voos entre 0 Brasil e Dallas. Por enquanto, ainda nao ha empresas brasileiras que viajam para esse destino. • Dallas e considerada a cidade que mais cresce nos EUA. Conta com uma rede de mais de 600 hotels e recebe cerca de dois rnilhoes de turistas por ano. • Se no inverno a neve chega a acumular 40 centimetros de altura, no verao, as temperaturas medias oscilam entre 40 e 45 graus centigrados no Texas. Ingerir muito liquido e obrigatorio, e trocar de roupa mais de uma vez por dia, algo comum. • Os outlets de Dallas tern variedade e precos comparaveis aos de Nova York e Miami, alern de mais de 20 unidades das redes Walmart e Target. • 0 bass po de ser pescado 0 ana todo em lake Fork, mas as melhores epocas para os grandes basses sao 0 inicio do inverno e toda a primavera. (Dados de 2 009 do Texas Parks and Wildlife / Toyota Texas Lunker Program - www.tpwd.state.tx.us/)

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LEVADA

A SERIO

Nao, nao foi nenhum soco de verdade, mas suas palavras foram verdadeiros golpes para mim. Par ana, sao soltos em Lake Fork cerca de 500 000 juvenis de bass com 15 a 18 centimetros, quantidade ainda considerada baixa para urn local com tantos predadores. Mas Marc garantiu que 45% sobrevivem. "E quem paga a conta?", perguntei. "Os pescadores", respondeu de imediato. "Sao varies as tipos de licenca, variando de acordo com a tipo de pescador e a peixe objetivado". Explicou que para a bass, par exemplo, sac US$ 16 par dia e US$ 25 para dais dias. Hi tambem licencas quinzenais, mensais e anuais, com diferenciacao para residentes e guias, que pagam uma alta taxa par ana. A maior parte da arrecadacao proveniente dos guias (80%) vai para a fund a do Toyota Lunker Program, urn programa ambiental local que recebe outros fundos, como donativos especiais vindos de mais de 40 lojas de pesca locais e de gigantes como Bass Pro Shops, Cabela's e Walmart, alern de marinas, fabricantes de equipamentos, estaleiros, prefeitura, patrocinadores do programa (no caso, a Toyota) e

f«rildecm!!lto: Marc Mitchell WII'IKJ.JdJellsguideservice.com. 001-800-657-1969

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Materia Dallas Bass Fishing - Revista Pesca Esportiva