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Alimentação

A nutrição nas afecções osteoarticulares do cão Texto: Dr.ª Eva Ramalho

INTRODUÇÃO As perturbações articulares são bastante frequentes em cães. A forma mais comum é a osteoartrite: uma afecção que se caracteriza pela degenerescência da cartilagem articular e pela formação de pequenas porções de osso que conduzem à irregularidade da superfície articular e que pode

conduzir a dor, embora as lesões causadas pela osteoartrite na estrutura da articulação possam existir antes do aparecimento dos sintomas. Aproxima-damente 20% dos cães com mais de 1 ano apresentam esta afecção em maior ou menor grau. A cartilagem articular é um amortecedor e funciona como uma almofada de água.

Quando a articulação se move, o coeficiente de fricção é o equivalente à fricção de gelo com gelo, ou seja, o mesmo que dizer que «desliza» sem esforço. Com o envelhecimento, traumatismos ou no caso de alguma afecção, as cartilagens desgastam-se resultando num deslizamento articular que implica esforço e origina sintomatologia. COMO SURGEM AS AFECÇÕES OSTEOARTICULARES? Podem manifestar-se numa ou mais articulações, mas ocorrem mais frequentemente a nível dos joelhos, das ancas, dos ombros e dos cotovelos. No caso da osteoartrite, os problemas resultam de um

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Afecções osteoarticulares

desgaste excessivo ou de lesões a nível da cartilagem. A cartilagem funciona como um amortecedor que protege o osso subjacente e envolve a articulação. Quando a cartilagem se encontra lesionada, a camada protectora desaparece, afectando o osso e provocando inúmeras alterações na estrutura e mobilidade da articulação. De facto, a articulação aumenta de volume, perde mobilidade e os músculos que a rodeiam enfraquecem muito devido à diminuição da actividade. FACTORES DE RISCO PARA AS AFECÇÕES OSTEOARTICULARES - Idade: Os cães com idades compreendidas entre os 8 e os 13 anos representam mais de metade da população canina com osteoartrite. - Tamanho: 45% dos cães com osteoartrose são animais de tamanho grande, sendo que os cães de raça gigante ocupam uma posição preponderante. - Obesidade: Os cães obesos sofrem com maior frequência de problemas articulares. O excesso de peso pode agravar os sintomas pois causa uma sobrecarga adicional na articulação, logo é fundamental preservar o peso ideal do cão. - Traumatismos osteoarticulares A cirurgia a nível das articulações (p.e. ligamentos do joelho) favorece a formação de osteoartrite. - Actividade intensa O exercício prolongado ou intenso provoca um défice no índice de anti-oxidantes, originando um desequilíbrio que se denomina normalmente por stress oxidativo, em que prevalecem os radicais livres e assim se assiste ao aumento das lesões articulares. Isto é particularmente importante durante a fase do crescimento, em que as articulações ainda não estão totalmente consolidadas e qualquer esforço numa articulação imatura resulta

numa articulação menos funcional na idade adulta. - Predisposição genética: Determinadas raças têm predisposição para este tipo de afecção, nomeadamente o Labrador Retriever e o Pastor Alemão (entre outras) devido à conjugação de vários factores o que resulta na incongruência da articulação. COMO TRATAR/MANTER A ARTICULAÇÃO Nem sempre é possível tratar os problemas osteoarticulares, no entanto, diversas medidas podem ser adoptadas para aliviar os sintomas e retardar a evolução da afecção. ● Prevenir/corrigir a obesidade A manutenção do peso é o primeiro meio para aliviar o esforço articular. ● Exercício moderado A prática de exercício regular e moderado é fundamental em qualquer cão com problemas articulares. O tipo de actividade recomendado varia em função da afecção articular existente. Pode

recorrer-se à fisioterapia para exercitar os músculos, atenuar a dor e aumentar a mobilidade. De igual modo, a natação constitui uma excelente modalidade de exercício porque aumenta a tonicidade muscular sem sobrecarregar as articulações. ● Medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios Muitas vezes estes medicamentos são prescritos como forma de atenuar a dor e a sintomatologia, no entanto, a utilização prolongada destes fármacos pode originar efeitos secundários, nomeadamente problemas gástricos pelo que, regra geral, se prescrevem face a um eventual agravamento dos sintomas. ● Cirurgia Outros problemas articulares como as afecções dos joelhos devidas a ruptura de ligamentos, requerem uma abordagem cirúrgica. A cirurgia também se pode revelar eficaz se os outros tratamentos não conseguirem proporcionar uma melhoria evidente. ● Alimentação Existem alguns suplementos alimentares que se caracterizam pelo seu efeito benéfico a nível articular: - Ácidos gordos da série ómega 3 (os mais conhecidos: EPA e DHA): Habitualmente as perturbações articulares caracterizam-se por dor e inflamação a nível das articulações. Muito utilizados em Medicina Humana as propriedades antiinflamatórias e analgésicas dos EPA/DHA ajudam a aliviar a sintomatologia. - Antioxidantes: Em todas as situações de doença ou de stress são produzidas grandes quantidades de radicais livres (compostos instáveis que são produzidas no organismo e que são nocivos para as

membranas das células), sucedendo o mesmo nas afecções osteoarticulares. Os antioxidantes, sobejamente conhecidos e utilizados na Medicina Humana, conseguem >

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Alimentação

Conclusão:

neutralizar estes compostos nocivos evitando que degradem as células e tecidos (incluindo a cartilagem). A associação de antioxidantes (como a vitamina E e C, betacarotenos (luteína), taurina) revelou-se benéfica na prevenção da degenerescência articular, retardando a progressão da doença. - Condroprotectores: Nutrientes como o sulfato de condroitina e a glucosamina protegem as cartilagens contra eventuais lesões e aumentam as hipóteses de recuperação. A glucosamina estimula a síntese de substâncias que fazem parte integrante da cartilagem: os glicosaminoglicanos ou GAGs e estimula a renovação da cartilagem (favorecendo, nomeadamente a síntese de colagénio –constituinte das fibras da cartilagem). Enquanto que o sulfato de condroitina, sendo ele próprio um GAG, inibe a acção das enzimas que dão origem à destruição da cartilagem e, por outro lado, a sua capacidade de retenção de água permite uma boa hidratação da cartilagem. Este compostos estão disponíveis também em comprimidos para administração diária, no entanto, a extensão do tratamento e o seu custo dificultam uma utilização a longo prazo por parte do proprietário. - Manganésio: Contribui para a síntese de pró-colagénio, o precursor do colagénio que constitui as fibras da cartilagem. - Mexilhão Verde da Nova Zelândia Esta variedade de mexilhão é capturada há séculos pelas tribos indígenas da costa da Nova Zelândia. Constatou-se nas pessoas que consumiam regularmente este molusco bivalve uma reduzida incidência de perturbações osteoarticulares degenerativas ou inflamatórias (Anderson, 1999, Vaughan_Scott, 1997). Tradicionalmente a população Maori consome estes moluscos há vários séculos, sofrendo de menos osteoartrose do que as populações que vivem no interior da ilha e não têm por hábito o consumo deste mexilhão. Tal justifica-se pela composição deste mexilhão, composto por sulfato de condroitina, elevados níveis de ácidos gordos Ómega 3, manganésio, vitamina E e C (Whitehouse, 1997). b

Os factores alimentares podem modular determinados processos inflamatórios implicados na osteoartrite, favorecer a reparação da cartilagem e protecção contra a degenerescência articular.

Artigo gentilmente cedido por Royal Canin (Portugal), S. A.

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