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2 A Lavoura NO 690/2012

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Carta da

Sustentabilidade no Agronegócio sta edição de A Lavoura coincide com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, denominada Rio + 20. Por essa razão, resolvemos fazer um número especial abordando alguns dos múltiplos e importantes aspectos da sustentabilidade no agronegócio brasileiro.

EN

Nosso setor tem papel de destaque quando se fala em sustentabilidade e preservação ambiental. Ninguém preza mais os recursos naturais do que os produtores rurais. É cultivando a terra que os agricultores garantem sua sobrevivência. Este é seu patrimônio, de onde tiram seu sustento, onde investem e guardam suas esperanças de progresso econômico e social. As práticas sustentáveis estão sendo cada vez mais adotadas em toda cadeia produtiva de nossa agropecuária. A Embrapa e as demais instituições de pesquisa do país, desenvolvem, com muita eficiência, técnicas inovadoras. Cabe a nós, da SNA, colaborar na disseminação desses novos conceitos e práticas, através de nossos cursos e, principalmente, de nossas revistas A Lavoura e Animal Business Brasil. Educação, divulgação, promoção e defesa da produção e da sustentabilidade constituem o núcleo de nossa missão. Desde 1897.

recursos técnicos e financeiros necessários para a adoção de determinadas práticas sustentáveis, tais como o plantio direto, a integração lavoura-pecuária-floresta e agricultura de precisão. Diversas outras instituições, públicas e privadas, também direcionam esforços no caminho da sustentabilidade, economia verde e segurança alimentar. Precisamos pensar mais no futuro, no equilíbrio ecológico, na responsabilidade social, no bem-estar das pessoas. Precisamos fazer o “dever de casa” de hoje para merecer o amanhã.

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Nesta edição especial, o leitor encontrará excelentes matérias sobre manejo florestal sustentável, controle biológico, integração lavoura-pecuária-floresta, uso racional da água, aproveitamento de resíduos, manejo de pragas, tratamento de dejetos, embalagens biodegradáveis, dentre outras. Com tiragem significativamente ampliada — para atender à distribuição nos inúmeros eventos ligados ao agronegócio que acontecerão durante e depois da Rio + 20 —, temos a certeza que esta edição será um ícone da sustentabilidade no agronegócio brasileiro.

Boa Leitura. O Ministério da Agricultura lançou um programa denominado ABC–Agricultura de Baixo Carbono, através do qual disponibiliza

Antonio Mello Alvarenga Neto

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A Lavoura

Edição especial: SUSTENTABILIDADE

DIRETOR RESPONSÁVEL

Antonio Mello Alvarenga EDITORA

Cristina Baran editoria@sna.agr.br

REPORTAGEM E REDAÇÃO

PESQUISA

Paula Guatimosim redação.alavoura@sna.agr.br

Abelhas são bioindicadoras de poluição

SECRETARIA

Sílvia Marinho de Oliveira

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ENDEREÇO

Av. General Justo, 171 – 7º andar CEP 20021-130 - Rio de Janeiro – RJ Tel.: (21) 3231-6350 Fax: 2240-4189

INTEGRAÇÃO LAVOURAPECUÁRIA-FLORESTA Convivência harmônica

ENDEREÇO ELETRÔNICO

http: //www.sna.agr.br e-mail: alavoura@sna.agr.br redação.alavoura@sna.agr.br EDITORAÇÃO E ARTE

Coordenação: Cristina Baran Paulo Américo Magalhães Tel: (21) 2580-1235 / 8126-5837 pm5propaganda@terra.com.br COLABORADORES DESTA EDIÇÃO:

Adeney de Freitas Bueno Alicia Nascimento Aguiar Caio Rodrigues Albuquerque Enio Fraga da Silva Ibsen de Gusmão Câmara Ingo André Haberle Ivani Cunha João de Cássia do Bomfim Costa José Carlos Polidoro José Leonel C. D. Rocha Lima Juliana Caldas Juliano Corulli Correa June Faria Scherrer Menezes Kadijah Suleiman Lilian Grace Aliprandini Luís Alexandre Louzada Milton Parron Padovan Priscila Viudes Renato Ponzio Scardoelli Sandra Fabíola Bernuzzi Selma Beltrão Síglia Regina Vinicius de Melo Benites Zefa Valdivina Pereira

É proibida a reprodução parcial ou total de qualquer forma, incluindo os meios eletrônicos, sem prévia autorização do editor.

ISSN 0023-9135 Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva de seus autores, não traduzindo necessariamente a opinião da revista A Lavoura e/ou da Sociedade Nacional de Agricultura

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EMBALAGENS BIODEGRADÁVEIS Biopolímeros: “plásticos” de grãos e tubérculos

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APROVEITAMENTO DE RESÍDUOS Coco: qual destino dar à casca?

MANEJO INTEGRADO DE PRAGAS MIP-Soja é sinônimo de sustentabilidade

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USO RACIONAL DA ÁGUA Tecnologia reduz gastos com água

Capa:

AGRICULTURA DE BAIXO CARBONO O ABC da sustentabilidade

RUI PERUQUETTI / EMBRAPA ACRE www.cpafac.embrapa.br

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A Lavoura ANO 115 - N O 690

AGRICULTURA ORGÂNICA Brasil colhe seu primeiro algodão‘verde’

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MANEJO FLORESTAL SUSTENTÁVEL

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Palmeira Real: opção sustentável para o agronegócio

EMBALAGENS BIODEGRADÁVEIS Cana-de-açúcar é matéria-prima de “plástico verde” sustentável

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USO RACIONAL DA ÁGUA Distribuição farta, mas desigual

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SISTEMA DE PRODUÇÃO SUSTENTÁVEL Adubação orgânica beneficia pupunha

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ADUBAÇÃO BIOLÓGICA Probiótico: opção natural e maior produtividade

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AMAZÔNIA

CONTROLE BIOLÓGICO DE PRAGAS

TECNOLOGIA VERDE

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Um xaxim 100% agroecológico

Cultivo sustentável de rosas favorece exportação

TRATAMENTO DE DEJETOS ANIMAIS Dejetos viram fertilizantes

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Manejo sustentável de produtos florestais

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AMAZÔNIA

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Novas Árvores do Conhecimento

72 SEÇÕES

CONTROLE BIOLÓGICO

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Fungos X vassoura-de-bruxa

SNA 115 ANOS PANORAMA SOBRAPA ORGANICSNET EMPRESAS

07 09 43 69 80

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DIRETORIA EXECUTIVA

DIRETORIA TÉCNICA

ANTONIO MELLO ALVARENGA NETO ALMIRANTE IBSEN DE GUSMÃO CÂMARA OSANÁ SÓCRATES DE ARAÚJO ALMEIDA JOEL NAEGELE TITO BRUNO BANDEIRA RYFF FRANCISCO JOSÉ VILELA SANTOS HÉLIO MEIRELLES CARDOSO JOSÉ CARLOS AZEVEDO DE MENEZES LUIZ MARCUS SUPLICY HAFERS RONALDO DE ALBUQUERQUE SÉRGIO GOMES MALTA

PRESIDENTE 1O VICE-PRESIDENTE 2O VICE-PRESIDENTE 3O VICE-PRESIDENTE 4O VICE-PRESIDENTE DIRETOR DIRETOR DIRETOR DIRETOR DIRETOR DIRETOR

F UNDADOR

Academia Nacional de Agricultura

COMISSÃO FISCAL

ALBERTO WERNECK DE FIGUEIREDO ANTONIO FREITAS CLAUDIO CAIADO JOHN RICHARD LEWIS THOMPSON FERNANDO PIMENTEL JAIME ROTSTEIN JOSÉ MILTON DALLARI KATIA AGUIAR

E

MARCIO SETTE FORTES DE ALMEIDA MARIA HELENA FURTADO MAURO REZENDE LOPES PAULO PROTÁSIO ROBERTO FERREIRA S. PINTO RONY RODRIGUES OLIVEIRA RUY BARRETO FILHO

CLAUDINE BICHARA DE OLIVEIRA MARIA CECÍLIA LADEIRA DE ALMEIDA PLÁCIDO MARCHON LEÃO ROBERTO PARAÍSO ROCHA RUI OTAVIO ANDRADE

P ATRONO : O CTAVIO M ELLO A LVARENGA

CADEIRA

PATRONO

TITULAR

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ENNES DE SOUZA MOURA BRASIL C AMPOS DA P AZ B ARÃO DE C APANEMA ANTONINO FIALHO W ENCESLÁO B ELLO S YLVIO R ANGEL P ACHECO L EÃO LAURO MULLER MIGUEL CALMON LYRA CASTRO AUGUSTO RAMOS SIMÕES LOPES EDUARDO COTRIM PEDRO OSÓRIO TRAJANO DE MEDEIROS PAULINO FERNANDES FERNANDO COSTA S ÉRGIO DE C ARVALHO G USTAVO D UTRA JOSÉ AUGUSTO TRINDADE IGNÁCIO TOSTA JOSÉ SATURNINO BRITO JOSÉ BONIFÁCIO L U I Z DE Q UEIROZ CARLOS MOREIRA A LBERTO S AMPAIO E PA M I N O N D A S D E S O U Z A ALBERTO TORRES C ARLOS P EREIRA DE S Á F ORTES THEODORO PECKOLT R ICARDO DE C ARVALHO BARBOSA RODRIGUES G ONZAGA DE C AMPOS A MÉRICO B R A G A N AVARRO DE A NDRADE MELLO LEITÃO ARISTIDES CAIRE VITAL BRASIL GETÚLIO VARGAS E DGARD T EIXEIRA L EITE

R OBERTO F ERREIRA DA S ILVA P INTO JAIME ROTSTEIN E DUARDO E U G Ê N I O G O U V Ê A V I E I R A FRANCELINO PEREIRA L U I Z M ARCUS S UPLICY H AFERS RONALDO DE ALBUQUERQUE T ITO B RUNO B ANDEIRA R YFF F LÁVIO M IRAGAIA P ERRI J OEL N AEGELE M ARCUS V INÍCIUS P R A T I N I DE M O R A E S R OBERTO P AULO C ÉZAR DE A NDRADE R UBENS R ICUPERO PIERRE LANDOLT ANTONIO ERMÍRIO DE MORAES I SRAEL K LABIN

S YLVIA W ACHSNER A NTONIO D ELFIM N ETTO R OBERTO P ARAÍSO R OCHA J OÃO C A R L O S F AV E R E T P O R T O

A N T O N I O C A B R E R A M ANO F ILHO JÓRIO DAUSTER ANTONIO CARREIRA A NTONIO M ELLO A LVARENGA N ETO I BSEN DE G USMÃO C ÂMARA JOHN RICHARD LEWIS THOMPSON J OSÉ C ARLOS A ZEVEDO DE M ENEZES AFONSO ARINOS DE MELLO FRANCO ROBERTO RODRIGUES J OÃO C ARLOS DE S OUZA M EIRELLES F ÁBIO DE S ALLES M EIRELLES L EOPOLDO G ARCIA B RANDÃO A LY S S O N P A O L I N E L L I O SANÁ S ÓCRATES DE A RAÚJO A LMEIDA DENISE FROSSARD E DMUNDO B ARBOSA DA S ILVA E RLING S. L O R E N T Z E N

SOCIEDADE NACIONAL DE AGRICULTURA · Fundada em 16 de janeiro de 1897 · Reconhecida de Utilidade Pública pela Lei nº 3.459 de 16/10/1918 Av. General Justo, 171 - 7º andar · Tel. (21) 3231-6350 · Fax: (21) 2240-4189 · Caixa Postal 1245 · CEP 20021-130 · Rio de Janeiro - Brasil e-mail: sna@sna.agr.br · http://www.sna.agr.br ESCOLA WENCESLÁO BELLO / FAGRAM · Av. Brasil, 9727 - Penha CEP: 21030-000 - Rio de Janeiro / RJ · Tel. (21) 3977-9979

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115 anos Ministro Mendes Ribeiro recebe presidente da SNA O presidente da Sociedade Nacional de Agricultura, Antonio Alvarenga, foi recebido em Brasília, no último dia 12 de abril, pelo ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro. Durante o encontro, Alvarenga apresentou as atividades que a SNA desenvolve há 115 anos e falou sobre os projetos futuros da instituição. O ministro da Agricultura folheia a última edição da revista A Lavoura entregue pelo presidente da SNA Antonio Alvarenga

SNA participa do Agrishow em São Paulo

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presidente da Sociedade Nacional de Agricultura, Antonio Alvarenga, participou da décima nona edição do Agrishow – feira internacional de tecnologia agrícola, realizada entre os dias 30 de abril e 4 de maio, em Ribeirão Preto (SP). Na solenidade de abertura estiveram presentes o ministro da Agricultura, Moreira Mendes, o governador de São Paulo, Geraldo Alckimin, o ex-ministro Roberto Rodrigues, dentre outras autoridades e líderes do agronegócio brasileiro. Durante a feira — que é considerada uma das três maiores do mundo do setor de agribusiness — , os expositores mostraram as últimas novidades em matéria de tecnologia do campo — desde tratores , carros off road elétricos e aviões, a bombas de água, roçadeiras e motosserras. Este ano, o evento prestou homenagem ao ministro Aldo Rebello, por seu trabalho na redação do novo Código Flo-

restal, e à senadora Kátia Abreu, presidente da CNA.

Balanço O volume de negócios gerados na feira superou as expectativas dos organizadores, atingindo a casa dos R$ 2,15 bilhões. Mais de 150 mil visitantes compradores estiveram presentes ao Agrishow, conferindo as ofertas de produtos com as mais modernas tecnologias e soluções para pequenas, médias e grandes propriedades. A maior oferta de volume de crédito, com juros atraentes, contribuíram para o êxito do evento. A vigésima edição do Agrishow vai acontecer de 29 de abril a 3 de maio de 2013. O presidente da OCB nacional, Márcio Lopes de Freitas, recebe no estande da entidade na Agrishow, o presidente da SNA, Antonio Alvarenga e a editora de A Lavoura, Cristina Baran

Maurílio Biagi, presidente da Agrishow e a prefeita de Ribeirão Preto, Darcy Vera, recepcionam o presidente da SNA, Antonio Alvarenga (dir)

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115 anos

Aula magna com o ministro Gilberto Carvalho O presidente da Sociedade Nacional de Agricultura, Antonio Alvarenga, participou, em 16 de abril, da aula magna do ministro Gilberto Carvalho, Secretário-Geral da Presidência da República. A palestra, seguida de almoço, foi promovida pela Universidade Cândido Mendes, no Teatro João Theotonio, no centro do Rio, e contou com a presença dos reitores das principais universidades do estado. Ao abordar o tema “Democracia e Participação Social”, Gilberto Carvalho falou sobre questões relacionadas à política brasileira e ao funcionamento das universidades. O ministro também chamou a atenção para a importância da mobilização e da participação do jovem na transformação da sociedade e na implantação de políticas sociais, e enfatizou o trabalho de inclusão realizado nos governos Lula e Dilma. O presidente da SNA cumprimenta o ministro Gilberto Carvalho

Copa ORGÂNICA e SUSTENTÁVEL: Rio sedia primeiro encontro na SNA

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om o objetivo de incentivar a produção e o consumo consciente de produtos orgânicos e sustentáveis, o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), por meio da Secretaria da Agricultura Familiar (SAF), iniciou reuniões para articular parcerias em torno da campanha Copa Orgânica e Sustentável, prevista para ser lançada no final de 2012. O Rio de Janeiro foi o primeiro estado a sediar o encontro, que foi realizado no dia 24 de abril, no auditório da Sociedade Nacional de Agricultura. Estiveram presentes Arnoldo de Campos, coordenador do Núcleo

Temático e diretor de Geração de Renda e Agregação de Valor da SAF/MDA; Maria Beatriz Martins Costa, diretora do Planeta Orgânico; Sylvia Wachsner, coordenadora dos projetos OrganicsNet e Centro de Inteligência em Orgânicos da SNA, e o presidente da Pesagro, Silvio Galvão. Arnoldo de Campos, do MDA, mostrou as oportunidades que a Copa 2014 vai trazer para os agricultores familiares, e os programas que o ministério coloca à disposição desses produtores. O coordenador também mencionou algumas das parcerias que o MDA tem promovido, entre elas, com a Associação de Hotéis e Restaurantes para incentivar a utilização de alimentos orgâniArnoldo de Campos, coordenador do MDA cos e sustentáveis, assim como o fornecimento, para os hotéis, de sabonetes e perfumes artesanais ou da agricultura familiar. Silvio Galvão, da Pesagro, apresentou os diversos pro-

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gramas que o Estado do Rio de Janeiro está implementando em prol da agricultura, como o das Micro Bacias. Sylvia Wachsner, da SNA, falou sobre o mapeamento de mais de 100 produtores orgânicos do Rio de Janeiro, já realizado pelo Centro de Inteligência em Orgânicos, incluindo dados sobre produção, práticas de manejo orgânico e sustentável, logística e comercialização. Sylvia disse que um mapeamento similar foi iniciado no Paraná, pelo Instituto Tecnológico (Tecpar), e que a SNA está firmando parcerias em outros estados. Em breve, esses mapeamentos estarão disponíveis para todos os interessados.

Silvio Galvão, presidente da Pesagro

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PANORAMA

SEBO BOVINO para fabricação de O sebo bovino pode aumentar sua participação — hoje em torno de 9% a 15% — como matéria-prima para a produção brasileira de biodiesel, apesar do mercado pouco organizado e da falta de informações sobre as transações entre os fornecedores e as plantas produtoras. O economista Gabriel Levy, da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (USP/ESALQ), lembra que o Brasil possui o segundo maior rebanho bovino do mundo e que o sebo bovino tem baixo preço e 93% de aproveitamento na produção de biodiesel. O pesquisador lembra ainda que o sebo não concorre com a produção de alimentos, como é o caso da soja, cujo óleo responde por cerca de 80% da produção de biodiesel. Ele também ressalta que o aproveitamento do sebo para a produção do biocombustível, aliado ao uso pela indústria de sabão, cosméticos e ração animal, evita o descarte desse subproduto no meio ambiente e suas consequências, como a contami-

ROBERTO AMARAL (ESALQ/ACOM)

BIODIESEL

Biodiesel de bovinos: aquisição da matéria-prima ainda é problema

nação do solo e lençóis d´água. Entretanto, a produção de biodiesel com sebo bovino apresenta problemas na aquisição da matéria-prima, pela falta de coordenação na cadeia produtiva entre frigoríficos/graxarias e usinas de biodiesel. “A falta de um mercado organizado traz problemas referentes às oscilações do preço deste produto, bem como sobre a qualidade da matéria-prima, constituindo-se um ponto relevante, visto que um material de má qualidade pode implicar na geração de custos adicionais aos produtores de biodiesel, pela necessidade de tratamento do sebo e purifi-

cação dos resíduos pelas usinas. A maior consequência do problema referido é a geração de um combustível de má qualidade”, explica. Baseado em pesquisa orientada pela professora Marcia Azanha F. Dias de Moraes, o estudo multicaso junto a oito usinas de biodiesel que usam sebo bovino, Gabriel Levy conclui que a integração vertical é a estrutura que melhor se adapta a essa cadeia produtiva, tanto para garantir a criação de normas técnicas que atestem a qualidade da matéria-prima, como para estabilizar seu preço.

análise química é uma ferramenta que produtores, técnicos e pesquisadores dispõem para avaliar a fertilidade do solo e, a partir da necessidade nutricional das culturas, recomendar a correção com calcário ou adubação. O primeiro passo para a análise de solos é a amostragem. Dela depende o sucesso do resultado da análise, pois mais de 90% dos erros nos resultados das análises, decorrem da coleta inadequada. “Erros neste procedimento podem causar prejuízos ao agricultor”, destaca o pesquisador da Embrapa Rondônia, Ângelo Mendes. De acordo com Ângelo, é possível fazer a coleta em qualquer época do ano, mas o ideal é que sejam retiradas, no mínimo, 60 dias antes da adubação. A coleta também pode ser feita no início da estação seca, no caso de culturas anuais, e, logo após a colheita, para culturas perenes.

Coleta da amostra A coleta pode ser realizada com pá, boca de lobo, trado ou enxada. As amostras,

coletadas em vários pontos da área a ser cultivada, devem ser colocadas em um balde plástico limpo e, em seguida, muito bem misturadas. Depois disso, deve-se retirar, aproximadamente, 500 gramas de solo e armazenar em saco plástico limpo e etiquetado, com identificação, e enviar a um laboratório que tenha certificação em programa de qualidade (os da Embrapa, por exemplo) para a realização da análise. “Quanto maior o número de amostras simples de uma área para formar a composta, mais preciso será o resultado da análise do solo”, explica o pesquisador acrescentando que “as amostras compostas devem conter, no mínimo, dez amostras simples de cada área”. A partir do resultado emitido pelo laboratório, o produtor fica sabendo como proceder a aplicação de calcário, para corrigir a acidez do solo; e de adubação, caso necessário. Vale lembrar, por exemplo, que 75% dos solos da região amazônica são ácidos e apresen-

KADIJAH SULEIMAN/EMBRAPA RONDÔNIA

Análise química de solos é fundamental para PRODUÇÃO SUSTENTÁVEL A

A amostra pode ser colhida com pá

tam alumínio tóxico em sua composição, o que reduz a fertilidade do solo e o desenvolvimento do vegetal. KADIJAH SULEIMAN — EMBRAPA RONDÔNIA

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PROGRAMA PANORAMAABC: aumenta demanda de crédito

ABC: projetos de eucalipto se destacam no estado de Minas Gerais

reção intensiva do solo, no valor aproximado de R$ 1,7 milhão.

SEAPA MINAS

ABC financia projetos

Aumenta o contingente de produtores rurais mineiros interessados em desenvolver projetos para o controle da emissão de gases de efeito estufa. De acordo com dados da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), no acumulado de janeiro/fevereiro de 2012, o Programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC) registrou em Minas contratações de crédito no valor de R$ 19,2 milhões, cifra equivale a 65% da registrada no Estado em todo o ano passado.

Florestamento e reflorestamento Os projetos de eucalipto, florestamento e reflorestamento, já se destacam no Estado com uma demanda de crédito no valor de R$ 7 milhões. No grupo de projetos gerais, foram realizados contratos de R$ 4,7 milhões. Para a recuperação de pastagens, os recursos contratados no primeiro bimestre somaram R$ 3,9 milhões, e ainda foram atendidos projetos de cor-

Criado pelo governo federal, o ABC financia os projetos por intermédio do Banco do Brasil, explica o assessor técnico Alceste Fernando Lima, da Subsecretaria do Agronegócio. Ele acrescenta que, na corrida ao crédito, a região do Triângulo/Alto Paranaíba tem destaque com uma participação de 40% do valor total dos contratos de financiamento realizados em Minas no primeiro bimestre. Depois vem a região Norte, responsável por 16,4% das contratações. As regiões Sul, Sudoeste, Centro e Jequitinhonha, também registraram números expressivos, acima de R$ 1 milhão cada uma. “Para todo o país, a linha de crédito disponibilizada pelo ABC, em 2012, é de R$ 3,15 bilhões. Este valor pode ser contratado com condições facilitadas, como taxa de juros de 5,5% ao ano e prazo para pagamento de até 15 anos”, acrescenta Lima. IVANI CUNHA — SECRETARIA DE ESTADO DE AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO – ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

INPEV

Brasil dá DESTINO CORRETO a EMBALAGENS vazias de agrotóxicos A tividade de fundamental importância para a preservação dos recursos naturais em áreas agropecuárias, a logística reversa de embalagens vazias de agrotóxicos, criada pelo Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV), encaminhou para o destino ambientalmente correto, em 2011, 34.202 toneladas de embalagens vazias de agrotóxicos. O Sistema Campo Limpo, como é chamado, envolve agricultores, fabricantes (representados pelos canais de distribuição) e tem apoio do poder público. Operando em 25 Estados e no Distrito Federal através de 421 unidades de recebimento, o Sistema Campo Limpo já destinou mais de 200 mil toneladas de embalagens de agrotóxicos retiradas do campo por meio da integração de todos os elos da cadeia desde o início de suas atividades.

Reciclagem de 95% O inpEV — instituto que representa a indústria fabricante de agrotóxicos para a destinação Odas embalagens va10 N 690/2012 ziasAdeLavoura seus produtos — recebe, arma-

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zena, transporta e dá destino final às embalagens: reciclagem ou incineração. Do total de embalagens vazias de defensivos agrícolas, 95% podem ser recicladas, após um processo de tríplice lavagem no momento da utilização do produto no campo. Os 5% restantes, que representam as embalagens que não foram três vezes lavadas pelos agricultores e as que não podem ser lavadas, são incinerados. A coleta e destinação adequada de embalagens de agrotóxicos são da maior importância para evitar a contaminação do homem do campo, do solo e da água. O descarte na natureza é um perigo para crianças, que podem brincar com a embalagem e se contaminar, e agricultores, que reutilizem os vasilhames para acondicionar produtos de consumo. Podem ainda contaminar o solo e, sob a ação da chuva, carregar resíduos do produto para os rios ou, por infiltração, para o lençol freático.

95% das embalagens de agrotóxicos podem ser recicladas

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PANORAMA Restauração ecológica do CERRADO A LIDIAMAR ALBUQUERQUE

partir de agora, a Embrapa Cerrados conta com os experimentos do projeto Aquaripária, que testa os métodos de restauração ecológica de zonas ripárias (matas ciliares e de galeria) e busca propor alternativas sustentáveis para o desenvolvimento do bioma Cerrado. Esses experimentos foram plantados com espécies nativas usando diversos métodos de restauração ecológica e instalados nas cabeceiras das bacias dos rios São Francisco e Paraná. De acordo com a coordenadora do projeto, Lidiamar Albuquerque, pesquisadora da Embrapa Cerrados, a metodologia aplicada nessas áreas poderá ser replicada e servir de base para outros projetos. Local de mata ciliar onde foram realizados os experimentos da Embrapa Segundo ela, os estudos nesses locais vão desde o processo O projeto de recuperação das matas ripárias, até sua influência na qualidade das águas dos rios. “Nosso objetivo é propor méIniciado em janeiro de 2010, o projeto Aquaripária é detodos mais viáveis economicamente e que permitam melhorar senvolvido pela Embrapa Cerrados em parceira com o Dea saúde dos ecossistemas aquáticos e terrestres e de sua bipartamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB). odiversidade”, explicou. As matas ripárias são importantes tanto para a conservação Segundo a pesquisadora, a expectativa futura da ação é a da qualidade da água, quanto para a preservação da biodicriação de um programa de recuperação continuada nas baciversidade aquática e terrestre. as hidrográficas estudadas, com a meta de usar essas As principais causas de degradação dessas matas são o metodologias em larga escala. “Esse projeto é muito repredesmatamento vinculado às ações de agricultores, pecuaristas, sentativo quando tratado como conhecimento científico para mineradores e madeireiros, assim como a expansão das área estratégia de recomposição, recuperação e restauração de as urbanas, a extração de areias nos rios, instalação dos emnossos ecossistemas. Por meio dele, esperamos subsidiar os preendimentos turísticos mal planejados, dentre outras. comitês gestores sobre estratégias de conservação das maJULIANA CALDAS — EMBRAPA CERRADOS tas ripárias nas bacias hidrográficas brasileiras”, explica.

50 publicações sustentáveis mais importantes

Mais importantes O livro traz a essência das ideias dos 50 livros mais importantes sobre o planeta, a relação entre seus habitantes, soluções tecnológicas, novas concepções filosóficas empresariais e econômicas, propostas políticas e um programa de reforma internacional, favorecendo a reflexão sobre os caminhos para planejar um mundo mais equilibrado. Além da sinopse dos aspectos relacionados ao tema, a publicação inclui as biografias dos autores, todos referências mundiais, tais como Aldo Leopold, Rachel Carson, Joseph Stiglitz, Herman Daly, Jeffrey Sachs, Buckminster Fuller e E.F. Schumacher, suas reflexões sobre

o que aconteceu desde a publicação de seu livro, a situação atual e suas expectativas para o futuro. Do total de cópias impressas, 4.000 serão distribuídas gratuitamente para instituições de ensino, bibliotecas, ONGs, conselhos regionais, órgãos públicos federais, estaduais, municipais, imprensa e outros agentes multiplicadores de conhecimento. As outras 2.000 cópias serão vendidas a preço de custo (R$30,00) nas principais livrarias do país e no site Editora Peirópolis (www.editorapeiropolis.com.br ou vendas@editorapeiropolis.com.br). O projeto editorial visa democratizar o acesso, permitindo, ao maior número de pessoas possível, o contato com o conhecimento proporcionado pelo livro. O objetivo do Instituto Jatobás é editar e distribuir a maior quantidade de livros que conseguir, com a intenção de alcançar todos os públicos e despertar interesse pela mudança em cada indivíduo. Por isso, está aberto a novas possibilidades de parcerias para outras edições do livro. INSTITUTO JATOBAS

O Instituto Jatobás e a Editora Peirópolis acabam de lançar a obra “Os 50 mais importantes livros em sustentabilidade”, um resumo das mensagens fundamentais contidas nos 50 livros considerados mais importantes sobre sustentabilidade escritos nos últimos 50 anos, de acordo com uma pesquisa realizada com 3.000 líderes e exalunos do Programa de Sustentabilidade da Universidade de Cambridge.

institutojatobas@institutojatobas.org.br A Lavoura NO 690/2012 11

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PESQUISA

SXC.HU

ABELHAS são BIOINDICADORAS de POLUIÇÃO

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Na busca pelo pólen, micro-organismos aderem ao corpo das operárias e podem revelar importantes informações sobre a poluição local

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SUSTENTABILIDADE - APICULTURA

Os produtos apícolas podem ser usados como bioindicadores para monitoramento de impacto ambiental causado por fatores biológicos, químicos e físicos

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incansável vaivém das abelhas para produzir mel pode trazer importantes informações sobre a poluição ambiental. Na busca pelo néctar e pólen das flores, as operárias também têm contato com microorganismos, produtos químicos e demais partículas suspensas no ar, que aderem em seu corpo, revelando importantes informações sobre as condições das áreas ao redor. O estudo, realizado pela bióloga Talita Antonia da Silveira, foi desenvolvido pelo Programa de Pós-Graduação em Entomologia da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiróz” (ESALQ/USP), com objetivo de verificar se o pólen coletado pelas abelhas Apis Mellifera pode ser utilizado como bioindicador da poluição ambiental. O trabalho foi realizado no apiário da escola, localizada próxima de áreas agrícolas, industriais e urbanas, portanto, com espécies de plantas ornamentais e frutíferas, além de um fragmento de mata nativa. Talita explica que nas viagens exploratórias das operárias para recolher o néctar, a água e o pólen das flores, elas exploram, além da vegetação, também o solo, água e ar, cobrindo quase todos os setores ambientais. “Durante este processo, diversos micro-organismos, produtos químicos e partículas suspensas no ar são interceptados pelas abelhas e podem ficar aderidos ao seu corpo ou serem ingeridos pelas mesmas”, explica a pesquisadora.

Produtos indicam poluição Dessa forma, os produtos apícolas — mel, própolis, cera, geleia real e pólen — podem ser usados como bioindicadores para monitoramento dos impactos ambientais causados por fatores biológicos, químicos ou físicos. “O monitoramento a partir de produtos apícolas pode ser uma das formas de prevenir a contaminação ambiental”, afirma Talita. A bióloga alerta para o fato de o armazenamento de mel e pólen, a postura da rainha e a ocupação dos favos estarem sujeitos a variações sazonais, pois as características produtivas e reprodutivas das colônias de abelhas são influenciadas pelo clima e pela disponibilidade de alimento na região onde são criadas. É importante observar ainda as condições meteorológicas, que também influenciam na coleta e qualidade do pólen. “As abelhas utilizaram diversos tipos de vegetação presentes no ambiente, aproveitaram as plantas ruderais como fonte de coleta de pólen para manutenção de suas colônias e acrescentaram à sua dieta o pólen de outras plantas arbóreas, arbustivas e herbáceas, conforme a disponibilidade da área”, contou a pesquisadora. “Quanto à interferência do clima nos parâmetros físico-químicos, o estudo mostrou que as condições meteorológicas do ambiente influenciam a qualidade e a coleta do pólen”, explicou Talita da Silveira. A Lavoura NO 690/2012 13

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KARINA PULROLNIK/EMBRAPA CERRADOS

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Convivência

HARMÔNICA

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Sistemas agroflorestais diversificados são uma opção para a recuperação de áreas degradadas, produção de alimentos, de serviços ambientais e geração de renda

Os animais também podem se beneficiar da área arborizada

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INTEGRAÇÃO LAVOURA-PECUÁRIA-FLORESTA M ILTON P ARRON P ADOVAN , P H .D. PESQUISADOR DOUTOR DA EMBRAPA AGROPECUÁRIA OESTE (DOURADOS/MS) padovan@cpao.embrapa.br

Z EFA V ALDIVINA P EREIRA PROFESSORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DA GRANDE DOURADOS FACULDADE DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E AMBIENTAIS

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istemas agroflorestais diversificados (SAFs) são formas de uso da terra que envolvem arranjos de plantas, combinando o plantio de diferentes espécies de árvores e arbustos com cultivos agrícolas e/ou criação de animais, ao mesmo tempo, ou ao longo do tempo, seguindo princípios agroecológicos.

Sistemas agroflorestais de base agrícola

Esses sistemas também são importantes na recuperação de áreas degradadas, como “reserva legal”, e podem auxiliar — e até viabilizar — a recuperação de áreas de reserva permanente. Há muitas experiências de agricultores em todas as regiões do Brasil que possuem SAFs e expressiva variedade de serviços ambientais. Apesar desse importante serviço prestado à sociedade, há grande carência de políticas públicas que reconheçam esses serviços ecossistêmicos e beneficiem os agricultores responsáveis por essa revolução agroambiental no campo, e que também incentivem outros agricultores a adotarem esses sistemas.

Base agroecológica Entre os serviços ambientais produzidos por SAFs de base agroecológica podem ser destacados:

MILTON PADOVAN-EMBRAPA AGROPECUÁRIA OESTE

Nesses sistemas podem ser utilizadas diferentes espécies de árvores e arbustos, preferencialmente nativas da região, incluindo frutíferas, madeireiras, oleaginosas, medicinais, entre outras, para atender a diferentes finalidades e necessidades do homem. Quanto às culturas, há diversas opções, como feijão-comum, milho, feijão-caupi (catador), arroz, mandioca, abacaxi, olerícolas, banana, en-

tre muitas outras, dependendo da região, da base cultural da família e seus objetivos. Não há um modelo de SAF considerado ideal que possa ser divulgado de forma generalizada, pois são vários fatores e componentes envolvidos. A composição desses sistemas é baseada nos interesses de cada agricultor e sua família, sua experiência acumulada, seus objetivos, disponibilidade de mão de obra, bem como das características de cada região. Para cada situação deve ser encontrado um arranjo específico e, preferencialmente, baseado em princípios agroecológicos, buscando produzir alimentos de alta qualidade biológica, aliada à melhoria ambiental e socioeconômica das famílias ao longo do tempo. Esses sistemas aumentam as alternativas alimentares das famílias, com maiores chances de garantir a segurança alimentar, bem como as possibilidades de renda, além de favorecer o equilíbrio ambiental, despontando como alternativa altamente promissora aos agricultores.

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Grande aumento da diversidade vegetal (árvores, arbustos e plantas herbáceas) Diminuição da erosão e até extinção de processos erosivos, Oferta contínua de matéria orgânica ao solo, com expressiva melhoria de atributos químicos e físicos do solo, Grande aumento da biota do solo, melhoria da infiltração de água e manutenção da umidade do solo durante maior tempo durante estiagens, Supressão total do uso de adubos químicos e agrotóxicos, Aumento da biodiversidade funcional no agroecossistema (baixa ocorrência de pragas e doenças nos cultivos), Sequestro de carbono na biomassa vegetal e no solo, Segurança alimentar para famílias de agricultores, além da produção de alimentos sem resíduos de produtos químicos.

A união de espécies arbustivas e frutíferas atraem mais polinizadores

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INTEGRAÇÃO LAVOURA-PECUÁRIA-FLORESTA MILTON PADOVAN-EMBRAPA AGROPECUÁRIA OESTE

Sistemas silvipastoris sob bases agroecológicas e a produção animal

É um tipo de sistema agroflorestal diversificado, no qual se implanta a pastagem utilizando-se diferentes espécies de gramíneas nativas ou exóticas, que podem ser consorciadas com leguminosas rasteiras ou arbustivas, juntamente com espécies de árvores, preferencialmente nativas da região. As árvores podem ser plantadas em fileiras, para facilitar o manejo, ou dispostas ao acaso; mas é importante que estejam bem distribuídas nas áreas de pastagens. É uma boa opção para melhorar as condições dos pastos, além de proporcionar maior conforto aos animais, aumentando sua resistência às adversidaSAF-Gloria de Dourados-MS: Sistemas agroflorestais são uma opção para produção de alimentos, de serviços ambientais e geração de renda des climáticas e eventuais enfermidades, possibilitando a obtenção de maiores produtividades de leite ou carne. cada fase do sistema. Esses SAFs, que possibilitem o bom desenvolviDestaca-se que, além de melhorar inicialmente, podem ser compostos mento das pastagens, evitando o exo ambiente para a produção animal, por plantas tipicamente pioneiras, secesso de sombreamento. Assim, é esses sistemas têm grande potencial cundárias e tardias. Os representanimportante priorizar espécies para produzirem boa diversidade de tes de todas as fases crescem juntos, leguminosas (fixam o nitrogênio do ar serviços ambientais. porém, em cada fase da sucessão a partir de associações com microrgaA escolha das espécies de árvores haverá uma comunidade dominando, nismos do solo), espécies que facilié muito importante, pois pode render direcionando a sucessão. Para cada tem a passagem parcial da radiação lucros com a venda de frutas nativas consórcio, os indivíduos das espécies solar por dentro da copa até atingir o ou outros produtos com valor agregamais avançadas na sucessão não se solo, além de possuírem raízes profundo (exemplo: jatobá, jenipapo, pequi, desenvolvem satisfatoriamente endas para promoverem a ciclagem de baru, bocaiúva, entre outras), da maquanto as iniciais não dominam. Asnutrientes com mais eficiência. deira (cedro, cerejeira, canafístola, sim, as plantas de crescimento mais ipê, peroba, angico, guatambu etc), rápido criam condições ambientais Alguns passos importantes para além de outras possibilidades de gemais favoráveis àquelas que se desencomeçar um SAF sucessional de ração de renda. volvem mais lentamente. base agrícola

Planejamento do sistema No planejamento do sistema silvipastoril deve-se escolher árvores

Os SAFs sucessionais caracterizam-se por diferentes consórcios, onde a combinação entre espécies varia para cada formação vegetal ou

Alguns passos a serem seguidos para iniciar um SAF sucessional 1O ano - Plantio de culturas anuais A Lavoura NO 690/2012 17

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como mandioca, milho, feijão-comum, soja, feijão-catador, entre outras, dependendo das condições de solo e clima da localidade — bem como da preferência de cada agricultor — intercaladas com mudas de árvores nativas da região, como sangra d’água, candiúva, embaúba, capixingui, mutambo, amendoim, leiteira, alecrim, tucaneiro, tarumã, guapuruvu, pimenta-de-macaco, açoita-cavalo e ingá, por exemplo. Estudos desenvolvidos pela Embrapa Agropecuária Oeste constataram que essas espécies apresentaram excelente desenvolvimento inicial em ecossistema de Floresta Semidecidual no Mato Grosso do Sul. É importante plantar a maior variedade possível de árvores. 2O e 3O anos - Rotação de culturas agrícolas anuais, colheita e a venda de produtos para gerar renda, enquanto as árvores crescem. Outras culturas de interesse econômico que se desenvolvem bem em condições de semisombreamento podem ser introduzidas, como abacaxizeiro, cafeeiro, maracujazeiro, urucum, bananeira, entre outras. 3O ano em diante – Está formado um bosque jovem, onde o agricultor pode plantar outras espécies de árvores que crescem bem na sombra (árvores de madeira de lei, como ipês, cedro, aroeira, canafístola, peroba, guatambu, entre outras), ou apenas aguardar o crescimento das árvores. Estas árvores (madeiras de lei) também podem ser plantadas junto com as pioneiras, no início do sistema agroflorestal.

Cuidados na composição e condução de sistemas agroflorestais diversificados As mudas a serem plantadas nos SAFs devem ser produzidas, preferencialmente, a partir de sementes coletadas de árvores existentes em fragmentos de vegetação nativa na região, porque são mais adaptadas às condições ambientais locais, cuidando para que a colheita das sementes

INTEGRAÇÃO LAVOURA-PECUÁRIA-FLORESTA

seja feita em diferentes matrizes (árvores e arbustos). O plantio de árvores e arbustos produtores de frutos comestíveis pelos pássaros, morcegos e outros animais, também é uma estratégia recomendada para atraí-los ao sistema, melhorar a diversidade vegetal nos SAFs, e contribuir para a dispersão de sementes de várias espécies trazidas de outras localidades na região. O uso de espécies melíferas nos SAFs, da mesma forma, é importante para atrair abelhas e outros insetos polinizadores. Na composição de SAFs diversificados, recomenda-se o plantio de espécies arbóreas pioneiras, secundárias e clímax, favorecendo a sucessão ecológica. As árvores pioneiras — também conhecidas como primárias — têm crescimento rápido, se desenvolvem bem a céu aberto e possuem tempo de vida curto (em geral, entre 3 a 15 anos). As pioneiras, normalmente são árvores de porte médio a alto, chegando a pouco menos de 20 metros, em média, e sua madeira é considerada leve. Como as pioneiras se desenvolvem rapidamente, elas formam um sombreamento que servirá como proteção (microclima), favorecendo o crescimento das árvores secundárias. São exemplos de espécies pioneiras: sangra-d’água, candiúva, embaúba, capixingui, mutambo, amendoim, leiteira, alecrim, tucaneiro, guapuruvu, pimenta-de-macaco, açoita-cavalo, ingá, entre outras. As espécies arbóreas secundárias iniciais têm crescimento um pouco mais lento que as pioneiras e necessitam de sombreamento parcial para o melhor desenvolvimento inicial, mas seu tempo de vida útil na floresta gira de 15 a 20 anos. Alguns exemplos de árvores com essas características são cedro, ipês, angico, aroeira e jenipapo. Já as árvores caracterizadas como clímax (também conhecidas como secundárias ou tardias) são de crescimento lento, necessitam de sombreamento para seu bom desenvolvimen-

to inicial e possuem ciclo de vida longo. Nos sistemas naturais, são as plantas que se desenvolvem quando a floresta primária já está formada. Peroba, guatambu, erva-mate, jequitibá, jatobá, faveiro e canjerana são alguns bons exemplos. Outro aspecto a considerar é que a implantação de sistemas agroflorestais visando à recuperação de áreas degradadas deve ser orientado para a utilização, preferencialmente, de sistemas de baixo uso de insumos, seguindo princípios agroecológicos.

Acompanhamento é importante Após a implantação de SAFs, é importante acompanhar no dia a dia a evolução do sistema; monitorar a ocorrência de formigas cortadeiras de folhas e controlá-las, se necessário, preferencialmente com produtos não agressivos ao meio ambiente. Deve-se, ainda, manter a área sem concorrência de plantas espontâneas agressivas (ervas daninhas), especialmente as gramíneas, que dificultam, e até impedem, o estabelecimento das mudas e a emergência de sementes de espécies arbustivas e arbóreas trazidas por pássaros e outros agentes de disseminação, que são estratégicas para a aceleração da recuperação da área degradada. Outra prática importante para que o SAF se mantenha produtivo refere-se à necessidade de podas — e até abate — das árvores que estejam promovendo excesso de sombreamento nas culturas agrícolas. As experimentações da Embrapa Agropecuária Oeste visam conhecer o desempenho de espécies arbóreas para identificar as árvores pioneiras, aquelas que possuem crescimento mais rápido, que sejam mais adequadas para diferentes regiões; identificar e mensurar serviços ambientais produzidos pelos SAFs; avaliar as produções obtidas e fazer análise econômica dos SAFs.

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ANA MAIO / EMBRAPA PANTANAL

MATA CILIAR na sustentabilidade do AMBIENTE AGRÍCOLA A eficiência da mata ciliar em interceptar os sedimentos depende da definição adequada de sua largura e do planejamento integrado de práticas conservacionistas na microbacia hidrográfica

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produção agrícola é altamente dependente da qualidade dos recursos naturais. Assim, o sucesso de empreendimentos dessa natureza depende do manejo sustentável do ambiente. O solo dá suporte às plantas e fornece nutrientes; a água é essencial na formação de folhas, frutos e sementes, enquanto a vegetação nativa contribui para o equilíbrio da fauna e no controle de pragas e doenças. Entretanto, a qualidade desses recursos tem sido comprometida devido ao uso inadequado das terras agrícolas, conforme comprovação de estudo realizado na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (USP/ESALQ), que busca uma proposta alternativa para a questão da largura da mata ciliar e verificar como ela interfere na qualidade do solo e da água. O trabalho, realizado por Renata Santos Momoli, doutoranda do programa de pós-graduação (PPG) em Solos e Nutrição de Plantas, sob orientação do professor Miguel Cooper, do Departamento de Ciência do Solo (LSO), relata que solos erodidos perdem sua fertilidade natural e modificam o equilíbrio dos ecossistemas. Sinaliza também que águas contaminadas por agrotóxicos, sedimen-

tos e esgoto se tornam inadequadas para o uso humano e nascentes soterradas reduzem o volume dos rios e comprometem a oferta de água para seres humanos, animais e plantas.

Ambientes inóspitos A pesquisadora explica que florestas degradadas tornamse ambientes inóspitos para diversos animais importantes na cadeia alimentar, além de exporem o solo às intempéries do clima, favorecendo a erosão. Um conjunto de práticas de manejo conservacionistas (PMC), que visam à redução dos impactos causados pela erosão, são sugeridos no estudo. As PMCs englobam a cobertura do solo (por meio da palhada de plantio direto ou adubos verdes), o plantio em nível, a construção de terraços de infiltração e drenagem, o plantio de faixas ou cordões de vegetação para reduzir a velocidade da enxurrada e a preservação e recuperação da mata ciliar — Áreas de Proteção Permanente (APPs) de beira de rios e ao redor de nascentes). A Lavoura NO 690/2012 19

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INTEGRAÇÃO LAVOURA-PECUÁRIA-FLORESTA Esforço conjunto

O estudo da dinâmica da sedimentação numa mata ciliar da região sul do estado de Goiás resultou numa interpretação mais integrada do ambiente para a proposição das dimensões que a mata ciliar deve possuir para promover a interceptação dos sedimentos derivados da erosão das áreas à montante. Registros de 18 meses de observações revelaram que a maior parte da sedimentação ocorreu na borda da mata ciliar, sendo que em alguns pontos houve um aumento de mais de 35 cm no nível do solo, decorrente da deposição de sedimentos potencializada pela presença de grandes sulcos de erosão na área com cultivo agrícola. Além do mais, no interior da mata ciliar, alguns locais também apresentaram níveis acima de 30 cm de sedimentação. Nesse caso, a sedimentação foi favorecida pela presença de árvores com raízes tabulares, as quais “barram” o fluxo de sedimentos, retendo ali, grande quantidade de material sólido transportado na enxurrada.

De acordo com a doutoranda, deve haver um esforço conjunto entre produtores rurais, pesquisadores e políticos no intuito de manter o equilíbrio do ecossistema para promover a perpetuidade da produtividade agrícola. “A proposta de redução da largura das matas ciliares (APPs de beira de rio e ao redor das nascentes) implica no comprometimento da longevidade do sistema agrícola no país. A manutenção da floresta ao redor de rios e nascentes promove o aumento na qualidade de recursos naturais, como água e solo. A proteção dada pela copa das árvores, por exemplo, reduz o impacto da chuva sobre o solo, a erosão. A presença de caules e raízes de árvores favorece a retenção da maior parte dos sedimentos na borda da mata, protegendo as nascentes que se encontram no interior da mata ciliar”.

Impactos no cerrado

Árvores da mata ciliar

MIGUEL COOPER (ESALQ)

Para o desenvolvimento do estudo, a pesquisadora escolheu área do cerrado brasileiro por este ser considerado região de expansão agrícola onde, teoricamente, os níveis de erosão são baixos e os solos são aptos à agricultura. “O cerrado goiano, foco da pesquisa, é considerado uma importante fronteira de expansão agrícola. Porém, por tratarse de uma região que sofre incidências de chuvas muito fortes e solos expostos pelo desmatamento, observou-se a perda da camada superficial e mais fértil do solo, abertura de voçorocas efêmeras e permanentes, deposição de sedimentos nas áreas mais baixas do relevo e assoreamento das nascentes pelo processo erosivo”, destaca Renata.

Utilizando as árvores da mata ciliar como indicador da espessura do depósito de sedimentos ao longo do tempo, foi possível a constatação de que grande parte de deposição de sedimentos (ao redor de 30 cm de altura) ocorreu nos últimos dez anos. O fato confirma a grande proporção do impacto negativo da ocupação agrícola em áreas sensíveis como as zonas ripárias. Já em projetos de restauração de APPs de mata ciliar deve ser considerado o uso de espécies arbóreas com raízes tabulares, pois as mesmas potencializam o efeito de filtro da floresta. O estudo ainda sinaliza que é interessante incluir no reflorestamento espécies que possuam anéis de crescimento bem demarcados pois podem, futuramente, servir como indicadores de alterações ambientais como, por exemplo, a datação de processos de erosão/sedimentação com resolução anual. “Esse estudo comprovou que grande parte do sedimento que se deposita na borda da mata ciliar recobre as diversas nascentes que ali afloram. Esse processo de assoreamento propicia o secamento das nascentes e a redução na produção de água”, explica a pesquisadora. É essencial que seja mantida a legislação sobre largura da mata ciliar até que estudos mais detalhados sobre a interpretação integrada do ambiente possam ser produzidos. A aprovação da redução da largura das APPs provocará o acúmulo de sedimentos sobre as nascentes e permitirá o fluxo livre da enxurrada até o leito dos rios. Em decorrência desse processo, aumenta a carga de sólidos em suspensão e aumenta a sedimentação, que, por sua vez, contribui para o assoreamento dos rios e das nascentes e a ocorrência de inundações severas nas margens dos rios. Ou seja, a redução da largura da mata ciliar resulta em impactos negativos cada vez mais intensos, maiores inundações, maiores níveis de sedimentação soterrando nascentes. Por isso, reduzir a largura das APPs de beira de rios e nascentes resultará no comprometimento da qualidade do solo, da água e dos ecossistemas. ALICIA NASCIMENTO AGUIAR — ESALQ/USP

Árvore com raiz tabular indicando diferentes níveis de solo antes e depois da raiz

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SISTEMA DE PRODUÇÃO SUSTENTÁVEL

ADUBAÇÃO ORGÂNICA beneficia PUPUNHA A utilização do esterco proporciona melhor desenvolvimento da pupunheira, mas a implantação da cultura em regiões secas requer irrigação plena

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ativa da região Amazônica, a palmeira pupunha vem sendo uma das alternativas para deter a extração ilegal do palmito juçara, em risco de extinção. Além de apresentar rusticidade, precocidade de colheita, alta produtividade e boa qualidade de palmito, características também encontradas nas palmeiras tradicionais, a pupunheira se multiplica pelo perfilhamento, ou seja, nascimento de novas mudas a partir da raiz, e rebrota após o corte, duas características que faltam ao palmito juçara. “Devido à devastação das matas, o atual panorama deficitário de extração de palmito foi o que motivou a busca por novas formas de cultivo”, afirma Clovis Bissi Junior, autor da pesquisa que verificou desenvolvimento da pupunheira, em sua fase inicial de crescimento (um ano), sob diferentes formas de adubação, em regime de irrigação por microaspersão.

Desenvolvimento

“Para o pequeno produtor é uma forma de aumentar sua renda, devido à grande demanda nos mercados interno e externo”, afirma Clovis Bissi Junior. Segundo o pesquisador, a pupunheira produz o ano todo e inicia a produção, em média, após dois anos do plantio, enquanto o palmito juçara tem ciclo de 10 a 15 anos. Dependendo do espaçamento, pode ser uma lavoura mecanizada, ampliando assim as chances de se tornar uma cultura rentável e sustentável, já que poupa a extração do palmito juçara.

Diferenças regionais O pesquisador destaca que o cultivo da pupunheira apresenta certo grau de dificuldade pelo fato de a planta não apresentar clone com um crescimento ideal e uniforme para cada região. Além disso, a implantação da cultura em regiões secas requer irrigação plena, como foi conduzida em sua tese. “Ainda são necessários estudos mais aprofundados para o desenvolvimento de clones e melhoramento genético da espécie para que possamos ter uma produção mais uniforme”, comenta o agrônomo. A pesquisa poderá trazer benefícios para o setor, minimizando custos na produção e promovendo o aproveitamento de compostos que seriam despejados no ambiente, em rios e afluentes”, conclui Clovis.

CLOVIS BISSI JR / ESALQ-USP

Orientado por Jarbas Honório de Miranda, professor do Departamen-

to de Engenharia de Biossistemas (LEB) da ESALQ, o experimento conduzido por Clovis verificou os níveis de desenvolvimento vegetativo da pupunheira, durante um ano, sob fontes de adubação orgânica (com esterco bovino e suíno), além da mineral. A adubação com esterco de porco foi a que obteve melhor resposta em relação ao desenvolvimento vegetativo da pupunheira em termos de crescimento da planta, diâmetro do caule, tamanho da folha, espessura da raqui e maior número de folhas. Bissi Junior ressalta que a aplicação da matéria orgânica no momento da implantação da cultura favorece o desenvolvimento radicular da pupunheira e as radículas são as maiores responsáveis pela absorção de nutrientes. Além disso, melhora a estrutura física do solo e otimiza a proliferação de microorganismos benéficos. “Melhorando a estrutura do solo, ocorreu melhor movimentação do ar, água e nutrientes do solo e troca catiônica”, explica.

Aumento de renda

Adubação orgânica na pupunheira melhora o solo e otimiza a proliferação de microorganismos benéficos

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BIOPOLÍMEROS: EDUARDO PINHO / EMBRAPA

“plásticos” de grãos e tubérculos

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Enquanto o plástico derivado de petróleo leva, em média, 40 anos para se decompor, os BIOPOLÍMEROS demoram no máximo 180 dias 18/5/2012, 03:16


EMBALAGENS BIODEGRADÁVEIS

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s biopolímeros são uma das principais alternativas aos materiais plásticos derivados do petróleo. São produzidos a partir matérias-primas renováveis como cana-de-açúcar, milho, mandioca e batata, e óleos de girassol, soja e mamona. Com esse material, a indústria já produz sacolas, sacos para acondicionar alimentos e/ou lixo — cuja textura se assemelha às luvas cirúrgicas — e até produtos com mais rigidez, como pratos, copos e talheres. Enquanto o plástico derivado de petróleo leva, em média, 40 anos para se decompor, os biopolímeros demoram no máximo 180 dias. Os materiais são biodegradáveis — se decompõem — mas os 100% orgânicos têm a vantagem de serem compostáveis, e se transformam em adubo. Isso porque, assim como outros materiais orgânicos, são ‘reconhecidos’ pelas bactérias que ajudam na decomposição. Atualmente, a indústria brasileira de transformação de plástico tradicional produz 180 milhões de toneladas ao ano. São mais de 11.500 empresas, das quais apenas 6% com mais de 100 funcionários, que faturaram R$ 44 bilhões em 2010. Projeções do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) estimam que, até 2015, a produção de bioplásticos deverá atingir um milhão de toneladas, contra as 270 mil toneladas atuais. O principal entrave ao avanço mais rápido desse mercado ainda é o custo do produto, em torno de US$ 4,00 o quilo. Na opinião do empresário Marco Aurélio Amaral, sócio da Clean Living, “todo empresário quer salvar o planeta, mas são raros os que querem pagar por isso”. Segundo ele, o principal obstáculo ao crescimento desse mer-

cado ainda é o preço, e para que o custo baixe, é preciso ter escala de produção e disponibilidade de matéria-prima. Por isso ele aposta no bioplástico produzido a partir de resina derivada de milho, uma lavoura tradicional no Brasil e com potencial de crescimento.

PRINCIPAIS BIOPOLÍMEROS PRODUZIDOS NO BRASIL POLÍMERO DE AMIDO (PA) Produzido com matérias-primas como o milho, a mandioca, a batata ou o trigo. O amido desses grãos e tubérculos é retirado e passa por um processo químico de desestabilização e rearranjo da cadeia de moléculas, formando um material “plástico”. POLILACTATOS (PLA) Produzido a partir do ácido láctico feito por bactérias. Um caldo “açucarado” de fontes como melaço, açúcar de beterraba ou soro de leite, recebe bactérias que fermentam o líquido e produzem ácido láctico, transformado em plástico por meio de processos químicos. POLIHIDROXIALCANOATO (PHA) Produzido por bactérias que se alimentam de cana-deaçúcar, milho e óleo vegetal. Num biorreator, sob determinadas condições químicas, as bactérias alimentadas fabricam polímeros, que ficam armazenados em suas células. Muito utilizado na área médica.

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EMBALAGENS BIODEGRADÁVEIS

Mandioca em forma de embalagem C

PAK CB

Bandeja feita de amido de mandioca

duzidos pela CBPAK, cuja certificação pela CETAL/ITAL-SP permite seu uso para acondicionar alimentos, inclusive quentes, resfriados e congelados. A nova sede no Rio de Janeiro, inaugurada no início de 2012 em uma área de 1.500 m², tem capacidade instalada para fabricar até 2 milhões de peças por mês, 15 vezes maior que a anterior. A opção pela mandioca como matéria-prima levou em conta o fato de a cultura ser tradicional no Brasil (segundo maior produtor mundial), a grande capacidade instalada das fecularias (que transformam a mandioca em amido) e a estabilidade do preço do produto ao longo dos anos. Além disso, Claudio Rocha Bastos ressalta que a mandioca escapou da pauta internacional de discussões sobre a validade do uso de vegetais e grãos destinados à alimentação humana ou animal como matériaprima renovável.

CLEAN LIVING

riada em meados de 2002, a CBPAK desenvolveu uma tecnologia para o uso do amido de mandioca como matéria-prima renovável na produção de embalagens e copos descartáveis, biodegradáveis e compostáveis. A empresa também instituiu um programa de conscientização de consumo junto a grandes empresas, visando reduzir o uso do plástico derivado de fontes não-renováveis. A ideia é que a CBPAK forneça 30 copos feitos com mandioca, por mês para cada funcionário e, após 30 dias, os recolha para dar o destino correto (compostagem). Segundo Claudio Rocha Bastos, fundador da empresa, a logística reversa foi a fórmula encontrada para tornar competitivo o custo dos copos à base de fécula de mandioca. “Assim também contribuímos para reduzir a geração de passivo ambiental proveniente do descarte de embalagens e copos”, explica Bastos. Empresas de catering — terrestre e aéreo — como a LSG Skychefs, subsidária da Lufthansa e nova sócia da CBPAK –, grandes obras de engenharia, empresas brasileiras exportadoras de alimentos (a Europa já não aceita o isopor), grandes eventos e produtores de alimentos orgânicos e naturais são os potenciais consumidores das embalagens e copos biodegradáveis pro-

Opção pelo MILHO Linha de produtos confeccionados com o milho como matéria-prima

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Clean Living investiu US$ 1,5 milhão em pesquisas de mercado no Brasil e no exterior, na compra de produtos para testes, no desenvolvimento da marca etc. Tudo para garantir o sucesso do projeto de lançamento, em 2009, de produtos à base de biopolímero de milho, importados da China. Ainda este ano, a Clean Living vai inaugurar uma fábrica e dar início à produção no Brasil, primeiro dos sacos de lixo e

sacolas em geral e depois dos demais produtos da linha Ecopack, como talheres, copos e pratos. Também está nos planos da empresa credenciar outras indústrias, que atualmente trabalham com o plástico tradicional, para produzir os produtos de sua marca à base de milho. A opção pelo milho foi devido à sua resistência e facilidade de moldagem. O plano de negócio se baseia em dar visibilidade à marca

em lojas de varejo de consumo segmentado, como as especializadas em produtos naturais e saudáveis, e conquistar escala em grandes empresas e eventos, como a Rio+20, além de redes de fast-food e administradoras de planos de saúde, entre outros. “Precisamos começar a substituição pelos grandes geradores”, alega Marco Aurélio Amaral. Sua meta é conquistar pelo menos 1% do mercado até 2016.

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ADUBAÇÃO BIOLÓGICA

PROBIÓTICO:

A

aplicação de fertilizantes orgânicos associados a bactérias e fungos pode aumentar a produtividade de uma lavoura em até 50%, orienta o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA/ONU). Além disso, estes microorganismos melhoram o aproveitamento da água e dos nutrientes e ajudam a combater doenças e, consequentemente, o uso de defensivos. O Microgeo é um substrato probiótico capaz de alimentar os micro-organismos do rúmen bovino em Compostagem Líquida Contínua (CLC), produzindo, assim, o adubo biológico. Misturado à água e esterco, pode aumentar a produtividade das lavouras, como na de cana-de-açúcar, em até 18%. A fermentação de Microgeo com água e esterco ou conteúdo ruminal bovino, origina um adubo biológico que pode ser utilizado na adubação do solo e foliar em todas as culturas e pastagens, apresentando uma relação custo-benefício atrativa para o produtor rural.

MS&L ANDREOLI

opção NATURAL e maior produtividade

Resgate de tecnologia Segundo Paulo Antonio D’Andrea, engenheiro agrônomo da Microgeo, esse trabalho traz a possibilidade de o agricultor resgatar uma tecnologia Produtividade da cana-de-açúcar pode aumentar até 18% muito utilizada no passado. “Basicamente, o agricultor implanta um tanque dentro da propriedade, a chamada biofábrica. 15% do volume desse tanque são cheios utilização dos elementos químicos pouco móveis no solo, com esterco bovino e 5% com Microgeo. Com isso, ele usa como exemplo o Fósforo. a atividade biológica da própria região, considerando que o rúmen do boi tem uma diversidade de micro-organismos Custo muito grande”, afirma o engenheiro. Aplicado no solo, esse adubo ajuda a reconstituir a floD’Andrea estima que em lavouras de grãos, por exemra biológica “como se fosse de uma mata nativa”, compaplo, o custo dessa tecnologia fica em torno de R$ 68,00 por ra D’Andrea, favorecendo melhor estruturação da terra e hectare. Para ele, é um valor pequeno considerando todas redução do estresse hídrico. O engenheiro agrônomo resas interfaces que serão beneficiadas com esse tipo de adusalta ainda que a aplicação dessa tecnologia consegue rebação. O agrônomo conta que no norte do Paraná, pelo seduzir o custo de produção, ao mesmo tempo em que augundo ano consecutivo, o campeão de produtividade de menta produtividade. Isso pode ser comprovado a partir milho usou a adubação biológica. da análise de solo, que mostrará maior eficiência dos nutrientes com a adubação biológica e a consequente reduInformações:(19) 3404-6581 - tecnico@microgeo.com.br ção do uso de fertilizantes, pois melhora a eficiência de FONTE: PORTAL DIA DE CAMPO A Lavoura NO 690/2012 25

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SXC.HU

APROVEITAMENTO DE RESテ好UOS

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COCO:

qual destino dar à casca?

O crescente consumo de água de coco no país gerou um ‘volumoso’ problema para os grandes centros urbanos, sobrecarregando os aterros sanitários. Cerca de 70% do lixo das praias brasileiras são compostos de cascas de coco verde. Mas o aproveitamento desse resíduo é uma realidade, não só em atividades agrícolas, como pela construção civil e pela indústria, como a automobilística A Lavoura NO 690/2012 27

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O

expressivo crescimento do consumo de água de coco — considerada um isotônico natural — no país gerou um grave problema para as empresas de limpeza urbana. A água de coco representa entre 20% e 25% do peso total do fruto e a casca pode demorar até oito anos para se decompor. Um copo de 250 ml de água de coco gera mais de um quilo de lixo. Devido ao seu grande volume, este lixo transformouse num problema para os serviços municipais de coleta, sobrecarregando os aterros sanitários e vazadouros, favorecendo a presença de vetores transmissores de doenças, mau cheiro, e possibilidade de contaminação do solo e da água. O Nordeste é o principal produtor do coco distribuído em todo o país, especialmente nos grandes centros urbanos como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, e nas praias das capitais da região Sul durante o verão. Apenas na orla do Rio de Janeiro estima-se que o consumo chegue a dois milhões de cocos por mês. Mas as pesquisas e soluções para o aproveitamento da casca de coco estão bastante avançadas e as alternativas são muitas. Entre os projetos de pesquisa realizados pela Embrapa Agroindústria Tropical, o intitulado “Alternativas de aproveitamento da casca de coco verde”, financiado pelo Banco do Nordeste do Brasil, estima que 70% do lixo recolhido nas praias brasileiras são compostos de cascas de coco verde, cascas que representam até 80% do peso final do fruto.

CRISTINA BARAN

APROVEITAMENTO DE RESÍDUOS

Aproveitamento da casca A utilização da fibra de coco é uma boa alternativa não só para ajudar a salvar o xaxim, como também para dar destino a mais de 800 toneladas de casca de coco verde descartadas por ano no Brasil. É do tronco da Dicksonia sellowiana, também conhecida como samambaiaçu, que se extrai o xaxim. Típica da Mata Atlântica, essa planta pode chegar a 20 metros de altura e sua exploração indiscriminada a colocou na lista oficial das espécies brasileiras ameaçadas de extinção. A tecnologia de processamento das cascas de coco verde desenvolvida pela engenheira química Morsyleide de Freitas Rosa, pesquisadora da Embrapa Agroindústria Tropical (Fortaleza/CE), em parceria com a metalúrgica Fortalmag, transforma esse resíduo em uma nova opção de renda para o produtor. O processamento das cascas gera fibras e substrato. As fibras são utilizadas para a confecção de diversos produtos para uso agrícola, pela indústria e construção civil, em substituição a outras fibras naturais e sintéticas. O pó, rico em potássio e nitrogênio, como adubo orgânico. A casca de seis cocos produz um quilo de fibra.

Substrato agrícola e fibra bruta Segundo Morsyleide Rosa, o pó e a fibra gerados pelo processamento são posteriormente transformados, respectivamente, em substrato agrícola e fibra bruta. O substrato é muito utilizado no cultivo de plantas e na horticultura avançada, pois favorece o manejo mais ade-

quado da água, evitando a umidade excessiva e favorecendo a atividade fisiológica das raízes. Utilizada há várias décadas como um produto isolante em diversas situações, a fibra de coco tem hoje uma diversidade de aplicações — pelas características que apresenta — que acompanham o aumento da demanda crescente por produtos ecologicamente corretos. Tecida em forma de manta, é um excelente material para ser usado em superfícies sujeitas à erosão provocada pela ação de chuvas ou ventos, como em taludes nas margens de rodovias e ferrovias, em áreas de reflorestamento, em parques urbanos e em qualquer área de declive acentuado ou de ressecamento rápido.

Alternativa ao sintético A fibra pode ser também uma alternativa viável ao material sintético, como as fibras de vidro, podendo conferir propriedades interessantes em materiais poliméricos, como boa rigidez dielétrica, melhor resistência ao impacto e características de isolamento térmico e acústico. Na indústria de embalagens existem projetos para a utilização da fibra de coco, como carga para o PET, podendo gerar materiais plásticos com propriedades adequadas para aplicações práticas. O resultando será uma bem vinda contribuição para a resolução de problemas ambi-

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EMBRAPA AGROINDÚSTRIA TROPICAL

EMBRAPA AGROINDÚSTRIA TROPICAL

APROVEITAMENTO DE RESÍDUOS

As cascas de coco verde podem ter aproveitamento integral. A fibra do coco (foto acima) é matéria prima para confecção de vários artefatos

Vasos de fibra de coco entais ao reduzir o tempo de decomposição do plástico. A indústria da borracha é receptora também de grande número de projetos envolvendo produtos ecológicos diversos, desde a utilização da fibra do coco maduro e verde na confecção de solados de calçados, até encostos e bancos de carros. Devido às suas excepcionais performances acústicas, a fibra de coco (verde e maduro) contribui para uma redução substancial dos níveis sonoros, sendo a solução ideal para muitos dos problemas na área acústica, superando largamente os resultados obtidos com a utilização de outros materiais.

Coco na construção civil A crise energética mundial tem motivado o desenvolvimento de pesquisas sobre o fibrocimento ou fibroconcreto devido ao fato de a fabricação de cimento exigir menor demanda de energia comparada com a necessária à fabricação do aço ou dos plásticos. Assim, no Brasil, a utilização da fibra de coco verde na construção civil pode criar possibilidades no avanço da questão habitacional, através da redução do uso e do custo de materiais, envolvendo a definição de matrizes que inter-relacionam aspectos políticos e socioeconômicos.

Além dos usos já citados, a fibra da casca de coco verde pode ser utilizada na confecção de vasos, placas e bastões para o cultivo de diversas espécies vegetais. Além de substituírem os vasos e demais utensílios de barro, cimento e plástico, também substituem o principal subproduto extraído da samambaiaçu – o xaxim. A confecção de artesanatos variados também representa uma importante forma de aproveitamento da fibra da casca de coco verde, voltados especialmente aos turistas de outros países, grandes consumidores deste tipo de produto.

Pó de coco no cultivo agrícola Assim como a fibra, o pó da casca de coco verde pode ser utilizado na confecção de artesanato, compondo uma massa moldável que também origina uma grande gama de produtos. Esse material é amplamente utilizado em diferentes partes do mundo como substrato para plantas. O substrato obtido a partir dos frutos maduros do coco tem se mostrado como um dos melhores meios de cultivo para a produção de vegetais, principalmente em função de sua estrutura física vantajosa, que proporciona alta porosidade e alto potencial de retenção de umidade, características adequadas ao cultivo agrícola. O pó de coco é um meio de cultivo 100% natural uti-

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APROVEITAMENTO DE RESÍDUOS

Coxim Resultados de três anos de pesquisas conduzidas pela pesquisadora Maria Esmeralda Demattê, da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) comprovam que os artefatos produzidos com a fibra do coco são uma das mais

importantes alternativas ao xaxim nativo. Conhecido popularmente como ‘coxim’, o xaxim de coco é uma mistura na qual a base é a fibra da casca do coco, misturada a algum aglutinante. Resistente e durável, tem boa aeração e drenagem, dispõe de nutrientes e pH adequados ao cultivo de plantas. A fibra também pode ser usada para a confecção de vasos, placas e bastões para o cultivo de diversas espécies vegetais. O substrato, por sua vez, possui as mesmas propriedades biológicas do xaxim. Outra constatação é que o ‘coxim’ supera o xaxim em teor de fósforo, magnésio e potássio, elementos fundamentais para o desenvolvimento das orquídeas.

Tecnologia de processamento da casca de coco verde TRITURAÇÃO: a máquina de trituração utiliza facas rotativas em disco, fatiando a casca que, em seguida, passa por marteletes fixos, responsáveis pelo esmagamento da parte fibrosa do fruto. PRENSAGEM: o material triturado é transportado para uma prensa rotativa horizontal, composta por um conjunto de cinco rolos emborrachados, que extrai o excesso de líquido do produto triturado. Ao final da prensagem, são obtidas as cascas desintegradas, com a umidade reduzida, e, como efluente, o líquido da casca de coco verde (LCCV). Análises preliminares do LCCV identificaram a presença de açúcares fermentescíveis, compostos fenólicos, cátions (cálcio, magnésio, potássio e sódio) e ânions (cloreto, bicarbonato e sulfato), além de elevados valores de DQO e DBO. Tais características indicam a necessidade de tratamento adequado para esta água residuária gerada no processo de beneficiamento da casca de coco verde. SELEÇÃO: após a prensagem, as fibras, que correspondem a 30% do produto final, são separadas do pó, equivalente a 70%, em uma máquina selecionadora, que utiliza marteletes fixos helicoidais e uma chapa perfurada.

Os vasos de fibra de coco são resistentes e duráveis, com boa aeração e drenagem

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COCO VERDE

lizado para germinação de sementes, propagação de plantas em viveiros e no cultivo de flores e hortaliças. Como o preço da turfa está cada vez mais elevado e as extratoras de turfas foram fechadas, o pó da casca de coco verde surge como uma alternativa que evita a aplicação de substratos que produzem impactos ambientais negativos (turfas, areia, entre outros). As características de absorção de líquidos do pó também possibilita seu uso em derramamentos de óleo e como cama para animais de estimação e laboratório. Comprimido, o pó se transforma em um bricket que substitui a madeira em fornos de pizzarias, padarias, siderúrgicas e outros. O processo para obtenção da fibra e do pó da casca do coco verde é feito mecanicamente, com a utilização de um conjunto de equipamentos desenvolvidos por meio de parceria entre a Embrapa e a metalúrgica Fortalmag. A implantação de uma unidade de beneficiamento de casca de coco verde pode assumir uma grande diversidade de formas, em razão do produto final pretendido. No caso de uma unidade para a produção de substrato agrícola e fibra bruta, é necessário um galpão para processamento de 200 m² e uma área de armazenamento de igual tamanho. Considerando o custo por metro quadrado de área construída de R$ 350,00, tem-se um investimento em obra civil da ordem de R$ 140.000,00. Soma-se a este valor o investimento em equipamentos da ordem de R$ 50.000,00. Uma unidade deste porte tem capacidade para beneficiar mais de 5.500 toneladas de cascas de coco por ano, produzindo 250 toneladas de fibra e 485 toneladas de pó. O tempo de retorno esperado para o investimento é de um ano.


EMBRAPA SOJA

MANEJO INTEGRADO DE PRAGAS

MIP-Soja é sinônimo de SUSTENTABILIDADE O MANEJO INTEGRADO DE PRAGAS-MIP é muito importante para sustentabilidade da sojicultura brasileira ADENEY

DE

FREITAS BUENO

PESQUISADOR DA EMBRAPA SOJA

O

manejo integrado de pragas da soja (MIP-Soja) é a melhor maneira para o agricultor conduzir sua lavoura realizando o controle de pragas de maneira racional, combinando diferentes estratégias de controle (inseticidas, plantas resistentes, entre outras, por exemplo), de forma a preservar o controle bio-

lógico natural (insetos benéficos) e utilizar os inseticidas certos (menos tóxicos), apenas quando necessários. Esse uso racional de inseticidas garante a sustentabilidade do cultivo a longo prazo, ao contrário do promovido por uma visão imediatista de lucratividade, a qualquer custo, através de um uso abusivo e exagerado de

agrotóxicos. Esse conceito de MIP foi instituído no final da década de 50 e vem sendo estudado e aperfeiçoado desde então.

O sucesso do MIP-Soja Antes do MIP-Soja, no início da década de 70, o uso de agrotóxicos A Lavoura NO 690/2012 31

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nesta lavoura era generalizado, com aproximadamente seis aplicações por safra. O agricultor utilizava produtos extremamente tóxicos como o DDT, monocrotofós, entre outros. Em 1975, com a criação da Embrapa Soja e, em parceria com a EMATER-PR, o Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), algumas universidades, além de outras instituições parceiras, foi iniciado um trabalho pioneiro de MIP-Soja no estado do Paraná, visando, principalmente, ao uso racional de inseticidas e a consequente preservação do controle biológico natural na cultura.

Momento correto Nesse período, a pesquisa estabeleceu o momento correto para se

aplicar inseticidas (níveis de ação) para o controle das principais pragas da cultura da soja que eram (e ainda são) as lagartas e os percevejos. É importante ressaltar que, antes desse nível de ação ser atingido, não há qualquer necessidade de controle. Após a adoção dos níveis de ação pelos sojicultores, juntamente com outras táticas de MIPSoja, a utilização de inseticidas na soja no Brasil foi reduzida para apenas uma ou duas aplicações por safra, já na década de 80.

Novas cultivares Nos últimos anos, entretanto, houve grandes mudanças no sistema produtivo da soja. Novas cultivares foram lançadas no mercado com diferentes características como, por exemplo, tipo de crescimento indeterminado, ciclo precoce, além da soja geneticamente modificada, entre outras. Assim, nos últimos 40 anos, prmaticamente dobrou-se a média de produtividade da cultura no país. Essa busca incessante pelo aumento da produtividade, associada

aos bons preços pagos pela soja e o baixo custo de muitos inseticidas, infelizmente, tem levado muitos agricultores a utilizar inseticidas de maneira abusiva, realizando, equivocadamente, o controle de pragas mesmo antes dos níveis de ação serem atingidos. Com essa aplicação errônea de inseticidas, que muitas vezes é realizada junto (“na carona”) dos herbicidas e fungicidas, e não mais no momento apropriado, o MIPSoja tem sido menos adotado nos últimos anos. Como consequência dessa prática nociva, atualmente, como ocorria no início da década de 70, existem produtores que vêm utilizando, sem necessidade, seis, ou até mais, aplicações de inseticidas por safra.

MIP, melhor alternativa de manejo É muito importante frisar que todos os trabalhos de pesquisa confirmam que o MIP-Soja ainda é a melhor alternativa de manejo e que os níveis de ação recomendados ainda continuam válidos e seguros, mesmo utilizando as atuais, modernas e mais produtivas cultivares. Inúmeros experimentos realizados em muitos estados brasileiros, em diversas safras, comparando diferentes manejos, comprovam de forma definitiva que, com o uso do MIP-Soja, é possível, sim, reduzir o número de aplicações de inseticidas, sem qualquer prejuí-

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JOVENIL SILVA

Medidas urgentes

ADENEY DE FREITAS BUENO / EMBRAPA SOJA

zo à produtividade. Em todos os ensaios realizados pelas empresas de pesquisa, o número de aplicações do MIP foi consideravelmente menor que o número de aplicações de inseticidas do tratamento feito na “carona” do herbicida ou fungicida (tratamento preventivo) sem qualquer perda de produtividade.

MANEJO INTEGRADO DE PRAGAS

JOVENIL SILVA

É possível afirmar, sem receio, que o MIP-Soja ainda é a melhor maneira do sojicultor garantir boa produtividade associada à sustentabilidade ambiental, simplesmente porque a sua adoção propicia menor uso de inseticidas. Produzir soja com a tão almejada sustentabilidade é perfeitamente viável. Mas, para que isso se torne uma realidade no país, é preciso que sejam tomadas medidas urgentes que incentivem a reativação do MIP-Soja em todo o Brasil.

Batida de pano para verificar o nível de infestação da lavoura. Nos detalhes, o percevejo marrom (acima) e a lagarta falsa-medideira, pragas comuns na cultura da soja

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O ABC da sustentabilidade

SÍLVIO ÁVILA / MAPA

Integração lavoura-pecuária-floresta: sistema de produção sustentável

Programa Agricultura de Baixo Carbono - ABC estimula sustentabilidade com resultados e disponibiliza linha de crédito para agricultores que adotem sistemas de produção que reduzam a emissão de gases do efeito estufa

O

rápido crescimento populacional mostra que é preciso aumentar a produção de alimentos de forma sustentável e com resultados. Por isso, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) instituiu, em junho de 2010, o programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC). A iniciativa tem o objetivo de estimular o agricultor a implantar sistemas de produção que reduzam as emissões de Gases do Efeito Estufa (GEE). A meta é evitar a emissão de 165 milhões de toneladas de CO² até 2020. O Programa ABC incentiva a adoção de processos tecnológicos que neutralizam ou minimizam os efeitos dos gases de efeito estufa no campo. Para que os sistemas sejam adotados pelos agricultores nos próximos anos, o plano prevê a liberação de recursos na ordem de R$ 3,1 bilhões para atender a safra 2011/2012. A verba está disponível para produtores rurais e cooperativas de todo o país, que podem contar com limite de financiamento de R$ 1 milhão e taxas de juros de 5,5% ao ano. O prazo para pagamento é de 5 a 15 anos.

Agentes multiplicadores O MAPA vai trabalhar com agentes multiplicadores em todo o Brasil e, até o final deste ano, pretende capacitar os produtores. O treinamento fará com que mais técnicos estejam aptos a criar projetos utilizando tecnologias de baixa emissão de carbono e possam ter acesso ao crédito agrícola disponibilizado pelo Plano ABC. Entre julho de 2011 e fevereiro de 2012 os financiamentos chegaram a R$ 501,2 milhões, totalizando 2.144 contratos, a um valor médio de R$ 233,7 mil. No Sul do país, o Paraná é o estado que lidera as contratações, com 437 contratos no valor total de R$ 75,509 milhões. Na sequência, estão Rio Grande do Sul (R$ 69,759,9 milhões) e Santa Catarina (R$ 17,470 milhões). Este ano, com orçamento de R$ 850 milhões para o programa ABC na safra 2011/2012, o Banco do Brasil (BB) atingiu a marca de R$ 507 milhões de

desembolsos entre julho de 2011 e abril de 2012. Já o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), cujo orçamento é de R$ 2 bilhões, liberou financiamentos da ordem de R$ 170 milhões até abril.

PROPOSTAS DO PROGRAMA ABC Para difundir uma nova agricultura sustentável, que reduza o aquecimento global e a liberação de carbono na atmosfera, o Programa ABC incentiva seis iniciativas básicas com metas e resultados previstos até 2020.

Plantio direto A tecnologia dispensa o revolvimento do solo e evita a erosão com a semeadura direta na palha da cultura anterior. A técnica protege o solo, reduz o uso de água, aumenta a produtividade da lavoura e diminui despesas com maquinário e combustível. O objetivo é ampliar os atuais 25 milhões de hectares para 33 milhões de hectares. Esse acréscimo permitira a redução da emissão de 16 a 20 milhões de toneladas de CO² equivalentes.

Recuperação de áreas degradadas O objetivo é transformar as terras degradadas em áreas para a produção de alimentos, fibras, carne e florestas. A previsão é recuperar 15 milhões de hectares e reduzir entre 83 e 104 milhões de toneladas de CO² equivalentes.

Integração lavoura-pecuária-floresta O método busca integrar pastagem, agricultura e floresta em uma mesma área. O sistema agroflorestal ajuda a recuperar o solo, incrementa a renda e gera empregos. A meta é aumentar sua utilização em 4 milhões de hectares e evitar que entre 18 e 22 milhões de toneladas de CO² equivalentes sejam liberadas.

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HUSQVARNA

AGRICULTURA DE BAIXO CARBONO pretende incrementar o método na produção de 5,5 milhões de hectares e reduzir a emissão de 10 milhões de toneladas de CO² equivalentes.

Tratamento de resíduos animais A iniciativa aproveita os dejetos de suínos e de outros animais para a produção de energia (gás) e de composto orgânico. Outro benefício é a possibilidade de certificados de redução de emissão de gases, emitidos por mercados compradores. O objetivo é tratar 4,4 milhões de metros cúbicos de resíduos da suinocultura e outras atividades, deixando de lançar 6,9 milhões de toneladas de CO² equivalentes na atmosfera.

Como e onde obter financiamento

Eucalipto reduz o carbono do ar através do oxigênio liberado pelas árvores

Plantio de florestas comerciais O plantio de eucalipto e de pinus proporciona uma renda futura para o produtor e reduz o carbono do ar através do oxigênio liberado pelas árvores. O foco é aumentar a área de seis milhões de hectares para nove milhões de hectares de florestas plantadas.

Fixação biológica de nitrogênio A técnica visa desenvolver microorganismos/bactérias para captar o nitrogênio existente no ar e transformá-lo em matéria orgânica para as culturas, o que permite a redução do custo de produção e melhora a fertilidade do solo. O ABC

DIVULGAÇÃO

O plantio direto protege o solo, reduz o uso de água e aumenta a produtividade da lavoura

Procure a sua agência bancária para obter informações quanto à aptidão ao crédito, documentação necessária para o encaminhamento da proposta e garantias. Consulte um profissional habilitado para elaboração de projeto técnico. A proposta deve ter, obrigatoriamente, a identificação do imóvel e da área total. Também precisa constar no projeto o croqui descritivo e histórico de utilização da área a ser beneficiada. O produtor precisa apresentar comprovantes de análise de solo e da respectiva recomendação agronômica. Outro item importante é o ponto georreferenciado por GPS ou outro instrumento de aferição na parte central da propriedade rural. Por último, não deixe de incluir no projeto o plano de manejo agropecuário, agroflorestal ou florestal, conforme o caso, da área. Apresente a proposta de financiamento, com os documentos informados pela agência bancária e o projeto técnico. O produtor precisa comprovar a disponibilidade de renda para quitar as parcelas do financiamento ao projeto que contemple recomposição e manutenção de áreas de preservação permanente e reserva legal. Ao final de cada quatro anos, contados da data de liberação da primeira parcela até a liquidação do financiamento, é preciso apresentar relatório técnico com informações sobre a implementação do projeto e a caracterização da área.

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CAFÉ:

tecnologia reduz GASTOS com ÁGUA

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ANTONIO GUERRA / EMBRAPA CERRADOS

USO RACIONAL DE ÁGUA Além de ser ambientalmente correto, o Sistema de Limpeza de Água Residuária-SLAR possibilita uma economia de até 90% no volume de água necessário ao processamento de frutos do café. É também simples, de fácil adoção e pode trazer uma diminuição significativa nos custos de produção, devido ao seu baixo preço de instalação e manutenção. Promove também melhoria na qualidade do produto, agregando 20% ao valor recebido pelos cafeicultores

A

colheita do café é feita de uma só vez, englobando frutos verdes, maduros (cerejas) e secos, com teores de umidade e características de bebida diferentes. A separação desses frutos pode ser feita através do processamento, logo após a colheita. No processamento por via úmida, o café colhido na roça passa pelo lavador, onde os frutos secos flutuam e saem por uma bica - café boia - enquanto os verdes e cerejas saem por outra e são conduzidos para o descascador, no qual os frutos cerejas são descascados e separados dos verdes.

Consumo de água

SAMMY FERNANDES SOARES Pesquisador Embrapa Café

O consumo de água no descascamento é alto, variando de 3 a 5 litros por litro de frutos, mas pode ser diminuído com o reúso da água residuária (ARC) no descascador. Antes de bombeá-la para reutilização no processamento, é necessário remover parte dos resíduos nela contidos. Essa é exatamente a função do Sistema de Limpeza da Água Residuária–SLAR. Ele remove os resíduos sólidos da água proveniente do processamento de frutos, viabilizando sua reutilização. A nova tecnologia está sendo disponibilizada pela Embrapa Café para o programa de incubação de empresas de base tecnológica. O SLAR foi desenvolvido pela Embrapa Café em parceria com a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais-EPAMIG e o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural-INCAPER, empresas fundadoras e participantes do Consórcio Pesquisa Café. Foi testado na Fazenda Experimental do Incaper, no município de Venda Nova do Imigrante-ES.

ALDEMAR POLONINI MORELI Pesquisador Incaper

SÉRGIO MAURÍCIO LOPES DONZELES Pesquisador Epamig

Café irrigado em floração

A Lavoura NO 690/2012 37

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SAMMY FERNANDES

USO RACIONAL DE ÁGUA

A Água Residuária do Café-ARC, gerada na unidade de processamento, entra pela parte superior da primeira caixa e flui para as seguintes através dos segmentos de PVC, que captam a água a 0,30 m do fundo da caixa antecedente. Na sequência, a ARC passa pelas peneiras, cai em um reservatório, e é bombeada para uma caixa de reúso, situada a montante da unidade de processamento, sendo então reutilizada.

Economia de água

Aproveitamento da água residuária para irrigação do café

Composição e funcionamento do SLAR O sistema é constituído de três caixas de decantação, de 1000 l, interligadas por segmentos de PVC, de 100 mm, e duas peneiras cilíndricas. A primeira com abertura das malhas de 1,51 mm e a segunda de 1,00 mm, ambas com 1 m de comprimento e 0,22 m de diâmetro, dispostas inclinadamente, após a saída da água da terceira caixa. As caixas retêm os resíduos mais densos que a água, enquanto as peneiras retêm aqueles maiores que suas malhas — e que poderiam entupir orifícios pelos quais a água esguicha — dentro do descascador.

O intervalo de tempo entre o início e o final do processamento, a quantidade de frutos processada e o consumo de água nos quatro testes realizados estão na Tabela 1. O consumo no início do processamento, antes de reutilizar a ARC, foi de 2,2 litros de água por litro de frutos. O processamento durou entre 142 e 155 minutos, tempo suficiente para que a água fosse reutilizada quatro vezes na unidade, sem causar entupimento, comprovando a funcionalidade do SLAR. Foram consumidos, em média, 0,52 l de água por litro de frutos processados, muito abaixo dos 4 a 5 l usuais e 76% menos que o consumo inicial.

Tabela 1 Duração do processamento (DP), volume de água consumida (AC) e de frutos processados (FP) Teste

DP min

AC L

FP L

AC/FP L/L

1

144

5053

9250

0,53

2

151

5213

10240

0,51

3

155

5136

10460

0,49

4

142

5179

9200

0,56

Média

148

5145

9855

0,52

Fonte: Moreli (2010) Processamento do café por via úmida: separação do café boia, no lavador

SAMMY FERNANDES

SAMMY FERNANDES

Separação do café verde e cereja, no descascador

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JACTO

USO RACIONAL DE ÁGUA

Uma boa notícia é que a avaliação sensorial não detectou qualquer diferença na bebida originada do café cereja descascado com água limpa ou reusada.

Indústria

EPAMIG

EPAMIG

A indústria de equipamentos vem disponibilizando no mercado descascadores de café que consomem pouca água; já que nos antigos, o consumo é alto. Neste caso, pode-se reusar a ARC para diminuir o consumo, sendo necessário remover parte dos resíduos nela contidos. Essa remoção pode ser feita no SLAR. Esta tecnologia pode proporcionar uma economia de até 90% no volume de água necessário ao processamento dos frutos de café. Sendo constituída de A colheita do café é feita de uma só vez e engloba frutos verdes, maduros e secos caixas de decantação interligadas e peneiras estáticas, após a remoção dos resíduos sólidos, a água é novacado está em expansão, uma vez que não há produtos mente conduzida para a caixa de abastecimento para reusimilares. tilização no processamento, ou pode ser direcionada à Os contatos para negócios devem ser feitos pelo telefone fertirrigação da cultura. Os resíduos sólidos retirados po(61) 3448-4566 ou pelo e-mail negocios.cafe@embrapa.br. derão também ser utilizados na produção de adubos orProeta gânicos. Assim, além de contribuir com a redução da poluição dos recursos hídricos e, consequentemente, para a Programa da Embrapa que fortalece as parcerias púpreservação do meio ambiente, o SLAR reduz considerablico-privadas, estimula a criação de novas empresas velmente os custos com o gasto de água. no ramo do agronegócio e a união de esforços e conhecimentos para introdução de tecnologias inovadoras no Oportunidades de negócio sistema produtivo. A tecnologia da Embrapa Café pode ser utilizada por Mais informações: www.embrapa.br/proeta ou proeta@embrapa.br produtores de pequeno, médio e grande porte. O mer-

Caixas de decantação e peneiras

Sistema de remoção dos resíduos da água residuária do café

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AGRICULTURA ORGÂNICA

Brasil colhe seu primeiro

CARLOS RUDINEY - ABRAPA

ALGODÃO “VERDE”

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AGRÍCULTURA ORGÂNICA

O

algodão colhido na safra 2012/13 já deverá conter a certificação ResponsibleBrazilianCotton (RBC), para exportação. O Algodão Responsável Brasileiro (ABR) segue 229 recomendações, subdivididas em 194 itens, dos quais, 151 obrigatórios para a certificação. O produtor responde ainda a dois questionários: sobre Sustentabilidade Ambiental e Boas Práticas Agropecuárias, que serão a base de uma pesquisa orientativa. Segundo Lucy França Frota, coordenadora dos Projetos de Sustentabilidade da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), a iniciativa, que considerou as discussões no âmbito do Grupo Técnico de Sustentabilidade da associação, cria uma nova nomenclatura e agrega dois

projetos com princípios, conceitos e métodos convergentes: o Instituto Algodão Social (IAS) e o Programa Socioambiental de Produção de Algodão (PSOAL). Cadeia produtiva O movimento pela sustentabilidade na cadeia produtiva do algodão teve início em 2006, quando a BetterCottonInitiative (BCI) procurou a Abrapa para propor a produção de BC (BetterCotton), ou ‘algodão melhor’, no Brasil. A criação de um modelo de trabalho para que a BetterCottonInitiative funcionasse foi discutida, desde então, pelos setores varejistas, marcas, ONGs, instituições internacionais e produtores. O processo consultivo envolveu atores de dentro e de fora da cadeia de fornecimento do algodão. O objetivo é melhorar a produção mundial de algodão para aqueles que o produzem, para o meio em que é cultivado, e para o futuro do setor. A BCI é uma associação sem fins lucrativos, global e inclusiva, que visa propiciar a sustentabilidade da cadeia do algodão por meio da melhoria contínua de práticas de produção, relações justas de trabalho, transparência e rastreabilidade. De parceira, em 2008, a Abrapa tornou-se membro do Conselho de Representantes da BetterCottonInitiative no ano seguinte e já na safra 2010/2011, o Brasil colhia seu primeiro BetterCotton em propriedades-piloto de pequenos e grandes produtores. Rastreamento do algodão A fim de valorizar ainda mais a iniciativa, a Abrapa agregou o seu Sistema Abrapa de Identificação (SAI), que permite o rastreamento do algodão — da propriedade rural até a algodoeira — onde recebe o código comprovando a rastreabilidade. Ao ser inserido no site da BCI, o código SAI passa a ter outro registro, denominado UBIC, que permite a todos os associados da BetterCottonInitiative saber da disponibilidade dos fardos ao redor do mundo. O programa não se restringe às práticas dentro propriedade, mas abrange a toda a cadeia de fornecimento, conectando o abastecimento à demanda, através de um fardo identificado por uma etiqueta com um código. E define padrões internacionais de sustentabilidade da produção do algodão e fortalecimento da cadeia produtiva. Orientação

Certificação inclui recomendações e itens obrigatórios que atestam a “responsabilidade” do produtor na condução da lavoura de forma sustentável visando a produção de “algodão melhor”

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Desde 2005, o Instituto Algodão Social (IAS) — criado pela regional Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (2005), orienta os associados do Estado do Mato Grosso sobre temas relacionados à legislação trabalhista (a NR 31), às normas de segurança, saúde ocupacional e meio ambiente do trabalho. Inicialmente criado para responder às solicitações dos órgãos de fiscalização, estes princípios passaram a fazer parte dos valores da Ampa, em decorrência da percepção dos associados de que a adequação das propriedades às normas regulamentadoras gera um valor agregado, não só por minimizar o risco de autuação, A adequação das propriedades às normas reguladoras gera valor agregado ao algodão

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CARLOS RUDINEY - ABRAPA

AGRICULTURA ORGÂNICA

O PSOAL quer intensificar orientação quanto à conscientização dos produtores de algodão sobre as vantagens na preservação do meio ambiente e trabalho legalizado

mas, também, pelo ganho na qualidade do produto final e na imagem do produtor rural frente à sociedade. Alinhada a estas tendências, em 2008, a Abrapa elaborou o plano diretor para o biênio, incluindo a responsabilidade de implementar no país um programa integrado à BCI, além da constituição do Programa Socioambiental de Produção de Algodão (PSOAL). O PSOAL tem como propósito intensificar a orientação e conscientização dos produtores de algodão sobre as necessidades e as vantagens de adotar, no campo, práticas de cultivo socialmente corretas, com observância da legislação socioambiental, visando a preservação do meio ambiente e, em especial, a proibição do trabalho infantil e do trabalho forçado, degradante ou indigno, bem como ao cor-

reto armazenamento e manuseio de pesticidas, descarte de embalagens e uso de equipamento de proteção individual. Abrapa A Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), criada em 1999, conta hoje com mais de 1.600 associados, que representam 96% de toda a área plantada com algodão no país e 100% da exportação do produto brasileiro. Possui nove associações estaduais, que dão voz às necessidades regionais dos produtores, nos estados do Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Bahia, Paraná, Piauí, Maranhão e São Paulo. As associações estaduais desenvolvem, entre outros, projetos voltados para a área socioambiental.

Objetivos da BCI no longo prazo: Demonstrar os benefícios inerentes à produção de BetterCotton, especialmente a lucratividade para os agricultores; Reduzir o impacto do uso da água e de defensivos na saúde humana e no meio ambiente; Melhorar a saúde do solo e a biodiversidade; Promover as relações justas de trabalho para comunidades agrícolas e trabalhadores de culturas de algodão; Facilitar a troca de conhecimento global em produções algodoeiras mais sustentáveis; Aumentar a rastreabilidade ao longo da cadeia de fornecimento de algodão. Para alcançar estes objetivos, a BCI estabelece seis “Princípios de Produção”, subdivididos em 44 critérios, dos quais 14 são denominados “Critérios Mínimos” e obrigatórios, já a partir da primeira safra. Com base em mecanismos de monitoramento, avaliação e aprendizagem, são avaliados o progresso e a melhoria contínua, medindo resultados e promovendo ciclos de aprendizagem, de forma a garantir que o Sistema BetterCotton tenha os impactos propostos nos objetivos de longo prazo. É importante ressaltar que a BCI não certifica o algodão; provê licenciamento para venda do algodão BC, pelo fato de não haver auditoria e sim, verificação de 3ª parte.

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Carta da S O B R A P A

S O C I E D A D E B R A S I L E I R A D E P R O T E Ç Ã O A M B I E N TAL

Os destinos incertos da civilização H

á décadas a comunidade internacional vem mantendo a crença em um mito, o de que é possível um desenvolvimento econômico contínuo e irrestrito em um planeta com recursos limitados e que, para mensurá-lo, basta computar periodicamente o valor de todos os bens e serviços produzidos, num indicador denominado Produto Interno Bruto (PIB), sem atentar para os respectivos impactos sobre os recursos naturais utilizados. Assim, a título de exemplo, o valor de uma floresta só é avaliado quando derrubada, ignorando-se quanto valeriam o ecossistema íntegro e os serviços ambientais por ele prestados, tais como produção de oxigênio, regulação do fluxo dos rios, captura de dióxido de carbono, e tantos outros. Igualmente, o pescado só é considerado com valor quando retirado do oceano, sem considerar os danos causados à biota da massa d’água onde ele se encontra; os combustíveis fósseis, somente quando extraídos, e assim por diante, sem levarem-se na devida conta o empobrecimento dos estoques ou a redução das jazidas. No que pesem as óbvias impropriedades, o aumento do PIB, segundo seu conceito vigente, é meta prioritária de todas as nações, no que pese a imprescindibilidade de criar-se um sistema de medição mais racional e significativo. Esse sistema esdrúxulo de avariar-se o desenvolvimento atendeu razoavelmente aos seus propósitos enquanto a população humana foi relativamente pequena e quando muitos ingenuamente acreditavam na inesgotabilidade dos recursos terrestres. Mas, com as explosões tecnológica e demográfica, e consequentemente a do consumo, o sistema demonstrou evidências óbvias de inadequação. Um trabalho extremamente interessante publicado pela revista científica Nature, sinteticamente informado nesta seção na edição do mês de outubro de 2010, indicou que pelo menos em três áreas das atividades humanas já se encontram ultrapassados os limites aceitáveis no que se refere à qualidade de vida humana e sustentabilidade do ambiente: impacto sobre a biodiversidade, mudanças climáticas e ciclo do nitrogênio, este último devido essencialmente à agricultura. E que em outras seis áreas já nos aproximamos perigosamente do inaceitável: uso do solo e da água, poluição, ciclo do fósforo, emissão de aerossóis e acidificação dos mares. O reconhecimento gradativo de que nossa civilização embrenhou-se claramente num rumo errado levou a ONU, em 1987, através da sua Comissão Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, a divulgar o conceito de desenvolvimento sustentável como sendo aquele que “atende às necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as gerações futuras alcançarem suas próprias necessidades”. O conceito é perfeito, mas, desde então, resta saber como amplamente concretizá-lo na prática. Dos inúmeros recursos naturais utilizados na vida quotidiana, alguns, se bem geridos, podem ser tidos como renováveis. A água é um exemplo típico, ainda que hoje seja escassa em

muitas regiões. Mas, devidamente cuidada, pode ser reutilizada para sempre. Outros podem ser ou não renováveis, tal como a madeira; se seu uso for compatível com o limite de regeneração das florestas nativas ou plantadas, ela o é, mas não o será quando utilizada abusivamente. E lembre-se nesta oportunidade que boa parte das florestas mundiais já desapareceram. Muitos outros recursos, porém, só admitem ser usados em uma única vez, a exemplo dos combustíveis fósseis, e a única solução para aproximar seu emprego da sustentabilidade é empregá-los com parcimônia, coisa que jamais aprendemos a fazer. Em todos esses casos, a reciclagem, a grande lição da natureza, precisa ser amplamente utilizada dentro do conceito de desenvolvimento sustentável O conceito de desenvolvimento sustentável vem sendo gradativamente assimilado e a percepção de que é indispensável usarmos os recursos naturais da forma mais sustentável possível está se divulgando. Alguns resultados obtidos são altamente significativos, ainda que nem assim longinquamente atinjam o nível de completa sustentabilidade. Um interessante documento divulgado pela consultoria KPMG indicou que, tomando como referência os números de 1990, e considerando o PIB global de 2011, cada dólar nele computado foi alcançado com 23% menos de matéria prima e 21% menos de emissão de gases do efeito estufa. Mas, em contrapartida a esse êxito realmente excepcional, o consumo e a produção de bens em escala global aumentaram tanto que, nos últimos 20 anos, a extração de recursos da Terra cresceu 41% e o uso dos fertilizantes nitrogenados aumentou 135%. Portanto, o esforço de racionalização do uso dos recursos não está impedindo um aumento total exagerado. Nos últimos tempos, tem surgido uma ampla discussão sobre o que constituiria uma possível nova forma de economia – a Economia Verde. Segundo a ONU, ela é aquela que resulta na melhoria do bem-estar humano, devido a uma preocupação maior com a equidade social, os riscos ambientais e a escassez de recursos naturais. Significaria fugir do sistema que gerou as crises mundiais dos tempos recentes, envolvendo clima, fome, crises econômicas e agressões ao ambiente. As intenções são magníficas, mas de que forma concretizá-las é uma profunda incógnita. Face às condições do mundo atual, uma afirmação é possível: o futuro TERÁ que ser diferente, ou a nossa atual civilização, cedo ou tarde, entrará em colapso. É inconcebível extrapolarmos suas tendências de esbanjamento de recursos naturais e de consumo descontrolado. Os limites físicos do planeta Terra não o permitirão por muito tempo. A grande conferência internacional Rio+20 poderá trazer, talvez, um esboço do início de uma solução. Esperemos que o faça, para o bem da humanidade.

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Citações O economista Antônio Delfim Netto, professor, político e ministro de estado em diferentes ocasiões, fez à imprensa, em julho de 2011, a sugestiva declaração que se segue: Nunca tive a ilusão de que esta astronave independente rodando em torno do Sol tivesse recursos infinitos. Também nunca imaginei que fôssemos viver um período em que a evidência da finitude dos recursos fosse visível. (O Globo, 1407-2011) Essa mudança de visão dos fatos é sugestiva. Em poucos anos, passou-se a reconhecer que o homem está se aproximando dos limites de certos aspectos do crescimento econômico, em face da limitação dos recursos da Terra, e que jamais será possível estender a todos os seus habitantes a forma perdulária de viver hoje corrente nos países mais desenvolvidos.

Natureza em perigo O segundo maior animal da Terra é a baleia-fin (Balaenoptera physalus), que perde em tamanho apenas para a gigantesca baleia-azul. O animal se apresenta com duas subespécies, uma no Hemisfério Norte e outra no Sul. A espécie, como um todo, ocorre em todos os mares e oceanos do mundo, incluindo nossas águas. Os indivíduos do H. Sul mostram-se algo maiores, com as fêmeas atingindo 26 metros de comprimento e os machos ligeiramente menores. São animais com corpo fusiforme, muito esguio e diferente do que se imagina normalmente como sendo uma baleia. Curiosamente, fato raro na natureza, a baleia-fin apresenta um padrão de coloração assimétrico, com o lado direito da cabeça, da mandíbula e da cavidade bucal de cor esbranquiçada, enquanto as partes correspondentes do lado esquerdo mostram-se cinzento-escuro. As baleias–fin iniciam a reprodução em torno dos sete anos, quando já atingiram cerca de 19 metros. Normalmente, nasce apenas um filhote, com perto de sete metros e pesando entre uma tonelada e tonelada e meia. Apesar de seu enorme tamanho, essas baleias alimentamse de pequenos crustáceos, predominando o krill, no Hemisfério Sul. A espécie tem hábitos oceânicos, dificilmente se aproximando das costas. No Brasil, tem sido registrada do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte, mas não é comum em qualquer local ao longo das nossas costas, embora sejam relativamente abundantes nas regiões subantárticas e antárticas. Devido ao seu colossal tamanho e a quantidade de óleo, carne e ossos que englobam, as baleias-fin, juntamente com as azuis, foram intensamente caçadas nas décadas de 30 a 70 do século passado, quando dezenas de milhares de exemplares sucumbiram, levando a espécie ao colapso populacional em diferentes áreas do planeta. Ainda hoje certas populações tradicionais e alguns países as capturam, em caráter excepcional e em pequenas quantidades. Contudo, mesmo com os massacres do passado, as baleias-fin resistiram melhor do que

as azuis e hoje se avalia existirem no mundo aproximadamente 24.000 indivíduos. O nível de capturas no Brasil, enquanto a caça foi permitida, nunca atingiu níveis elevados. Em meio século de atividade baleeira na nossa costa, existem registros da captura de apenas 87 baleias-fin, principalmente em Cabo Frio (RJ) e umas poucas no Nordeste. Essas baleias estão incluídas na categoria de “Em Perigo”, pela União Internacional para Conservação da Natureza, e na de “Ameaçada” (Em Perigo), na Lista das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, de 2003.

As aves marinhas estão em decréscimo populacional no mundo Publicação recente da Bird Conservation International indica que 28% das aves marinhas de todo o mundo se encontram ameaçadas, em comparação com o percentual médio de 12% relativo aos demais grupos. As pesquisas vasculharam as listas de espécies ameaçadas da União Internacional para Conservação da Natureza e tabularam as ameaças e os locais de reprodução, concluindo que, de 346 espécies de aves marinhas examinadas, aproximadamente metade delas apresenta populações que se sabe ou se avalia estarem em decréscimo. Dentre as principais ameaças enfrentadas por essas aves incluem-se os ratos e outras espécies predadoras introduzidas pelo homem, que depredam as colônias de reprodução. Outra razão para o decréscimo são as atividades de pesca, que as matam incidentalmente em grande número ou as privam de alimentos. Os pesquisadores afirmam que possíveis soluções para o problema existem e são conhecidas, mas o que falta são mais ações efetivas de proteção. Science, 16-03-2012

Domesticando a vida A revista Science, em seu número de 07-09-2011, fez um resumo dos diferentes impactos do homem sobre a Terra e, dentre eles, apresentou números significativos relativos aos resultados da ação humana nos últimos 10.000 anos sobre as demais formas de vida. Nesse período de tempo, mediante caça, sobrepesca, alteração e ocupação de habitats, e competição, as espécies “úteis”, tais como as que constituem o gado doméstico, aumentaram brutalmente em número de indivíduos. Avalia-se que 90% de toda a biomassa de mamíferos hoje existentes no mundo seja composta por homens e animais domésticos; como comparação, há 10.000 anos esse número equivaleria a não mais do que 0,1%. A abundância média de 3.000 populações de diferentes espécies selvagens declinou 40% entre os anos de 1970 e 2000. Vários cientistas acreditam que nós estamos causando a sexta onda de extinções em massa da história da Terra, à semelhança das anteriores havidas ao longo dos últimos 600 milhões de anos, desencadeadas em decorrência de profundas

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mudanças climáticas ou choques de gigantescos meteoritos. Com uma diferença: a onda atual vem se processando com muito maior rapidez.

Santuário gigantesco para os tubarões

ticas se tornariam desastrosas. Assumindo-se que nenhuma nova política seja adotada, a infraestrutura necessária para atender às necessidades de energia do mundo fará com que a citada meta seja ultrapassada a partir de 2017. Fonte: Nature, 17-11-2011

A República das Ilhas Marshall, pequeno país do Oceano Pacífico, em 2011 declarou suas águas jurisdicionais, numa extensão de 1,9 milhão de quilômetros quadrados, uma área de exclusão de pesca de tubarões, e proibiu a importação e exportação de produtos deles derivados. E, no que pese a enorme extensão, é ainda possível que ela seja ampliada para quatro milhões. A nação insular se junta assim a outros cinco países que já estabeleceram santuários para os tubarões. Cerca de 30% de todas as espécies de tubarões acham-se ameaçadas e não se conhecem suficientemente as demais para que se possa verificar a sua verdadeira situação. Apesar da fama negativa desses animais, poucas espécies representam efetivo perigo para o homem e, como predadores de topo nos oceanos, eles mantêm em equilíbrio as cadeias alimentares dos mares e conservam a higidez dos ecossistemas.

Os riscos dos terremotos não aumentaram É notória a quantidade de grandes terremotos que têm sacudido o mundo nos últimos anos, causando centenas de milhares de mortos e imensa destruição. Somente desde 2004, cinco deles ultrapassaram a escala 8,5, causando incalculáveis danos materiais e pessoais. Esses fatos levaram alguns a imaginar que tais eventos geológicos terríveis poderiam concentrar-se no tempo e que, talvez, estivéssemos vivendo um período de riscos acima do normal. Geólogos do Geological Survey, dos Estados Unidos, examinaram estatisticamente a ocorrência de todos os terremotos acima da escala 7 ocorridos desde 1900 e chegaram à conclusão de que os abalos havidos conjuntamente em curtos espaços de tempo são compatíveis com a hipótese de que eles sejam totalmente independentes entre si. Os eventos de concentração seriam assim puramente casuais. Desta forma, o risco de futuros terremotos em futuro próximo não aumentou, exceto aqueles que ocorrem como tremores secundários após fortes abalos.

Urge tomar medidas efetivas contra o aquecimento global De acordo com a publicação World Energy Outlook 2011, divulgada em novembro do ano passado pela Agência Internacional de Energia, caso uma política de ação realmente significativa não seja tomada com presteza pelo conjunto de nações, será impossível manter as concentrações de dióxido de carbono na atmosfera abaixo de 450 partes por milhão, o limite calculado para permitir que o aquecimento global não ultrapasse o limite de 2º C, além do qual as mudanças climá-

Um ano terrível para os rinocerontes Sobrevivem hoje no mundo cinco espécies de rinocerontes, duas na África e três no sul da Ásia, totalizando, todas juntas, perto de apenas duas dezenas de milhares de indivíduos, com populações pequenas e fragmentadas. O mais raro deles é o rinoceronte-de-java (Rhinoceros sondaicus), com somente cerca de 50 animais divididos, pelo menos até recentemente, em duas subspécies; uma terceira já se encontrava extinta havia algum tempo. Uma dessas duas subspécies remanescentes (R. s. annamiticus), que sobrevivia precariamente no Vietnã até o ano passado, foi agora também considerada extinta, quando achou-se morto o último indivíduo conhecido, abatido em um parque nacional por ação de caçadores ilegais que visavam, aparentemente, apenas a retirada de seu pequeno chifre, erradamente considerado na medicina oriental como possuidor de propriedades medicinais. É profundamente lamentável que uma subspécie de um animal notável criticamente ameaçado seja exterminada devido à cupidez de pessoas ignorantes agindo criminosamente. Da África vêm, também, notícias trágicas. Uma subspécie do raro rinoceronte negro (Diceros bicornis), o rinocerontenegro-do-oeste (D. b. longipes), depois de demoradas buscas na sua área de distribuição, também foi declarada extinta pela União Mundial para a Conservação da Natureza, em novembro último. E nada menos do que 341 outros diferentes rinocerontes foram sacrificados, igualmente por seus chifres, em apenas dez meses de 2011, de acordo com as estatísticas do serviço de Parques Nacionais da África do Sul. Os rinocerontes atuais podem ser considerados relíquias biológicas, verdadeiros fósseis vivos, uma vez que em passado distante possuíram numerosas espécies espalhadas na África, Ásia, Europa e América do Norte. O maior mamífero terrestre de todos os tempos foi um monstruoso rinoceronte sem chifres, com cerca de 4,5 metros de altura, que habitou a Ásia há cerca de 25 milhões de anos. Fonte: Oryx 01-2012; Nature: 17-11-2011

Soluções para um planeta cultivado Com esse título, um artigo substancioso foi publicado no número de 20-10-2011 da revista científica Nature. Reconhecendo que a agricultura contemporânea enfrenta enormes desafios, nele foram abordadas as condições da agricultura atual, a necessidade de alimentos para a população mundial em rápido crescimento, e o que fazer para garantir a segurança alimentar no futuro sem sobrecarregar ainda mais o meio

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S O C I E D A D E B R A S I L E I R A D E P R O T E Ç Ã O A M B I E N TAL

ambiente. Uma síntese de seus principais pontos é feita neste comentário Mesmo com os recentes ganhos de produtividade, no mundo, uma em cada sete pessoas continua sem acesso à comida ou cronicamente mal nutrida e, infelizmente, a situação poderá ainda piorar devido a mudanças de clima, especulações de mercado e expansão de cultivos para fins bioenergéticos. Estudos indicam que a produção agrícola necessitaria dobrar até 2050, e conciliar esta necessidade com as exigências ambientais constitui um tremendo desafio. De acordo com a FAO, os cultivos hoje cobrem aproximadamente 12% da superfície livre dos continentes, enquanto que pastos abarcam outros 26%, perfazendo juntos 38% da área terrestre, estendendo-se por 4,91 bilhões de hectares, a maior proporção de uso do solo no planeta. Esta área gigantesca abrange as terras mais adequadas para cultivo e pastagem; a maior parte do restante é coberta por desertos, montanhas, tundra, florestas, cidades e áreas de proteção ambiental. Entre 1985 e 2005, a agricultura se expandiu em 154 milhões de hectares, cerca de 3%, principalmente nos trópicos. A produção global aumentou substancialmente nas últimas décadas, alcançando 28%, incluindo todos os tipos de cultivo. Globalmente, 62% da produção agrícola (em peso) se destinaram à alimentação humana, e 35% à de animais, cabendo 3% ao uso energético. A redução do consumo de carne, e consequentemente da pecuária, permitiria aumentar substancialmente a produção global dos alimentos destinados ao homem. No seu lado negativo, a agricultura representa um colossal impacto sobre os habitats, a biodiversiddade, os estoques de carbono e os solos. Em escala mundial, a agricultura já converteu ou destruiu 70% dos campos naturais, 50% das savanas, 45% das florestas temperadas e 27% dos biomas tropicais. Atualmente, o desmatamento das florestas tropicais constitui a maior fonte isolada de gases do efeito estufa, algo como 12% das emissões provocadas pelo homem. O uso de fertilizantes, nos últimos 50 anos, aumentou 500%, causando degradação das águas, aumento das necessidades de energia e ampla poluição. Tanto a expansão quanto a intensificação da agricultura contribuem grandemente para o aquecimento global. As medidas preconizadas no trabalho citado para garantir a segurança alimentar até o ano 2050, juntamente com a sustentabilidade ambiental, focam no aumento da produção agrícola total, priorizando a de alimentos; na melhoria da distribuição e do acesso à produção; e no vigor dos diferentes sistemas envolvidos na alimentação. No que se refere aos objetivos ambientais concomitantes, as medidas sugeridas ressaltam a redução dos gases do efeito estufa (em pelo menos 80%); redução da perda de biodiversidade e da poluição aquática; e aumento do uso sustentável da água. O estudo sugere também que se pare a expansão da agricultura sobre os ecossistemas sensíveis, pelo seu efeito danoso sobre a biodiversidade, o aquecimento global e os serviços ambientais. Aumentar a produção sem expansão da área agrícola significa concentrar esforços na produtividade, e recentes trabalhos indicam que isto é possível em vastas regiões do globo. O estudo finaliza enfatizando que os desafios hoje enfren-

tados pela agricultura excedem tudo o que se experimentou antes. Em síntese, os novos sistemas agrícolas devem atentar mais para os valores humanos e para aqueles mais necessitados, causando o menor dano possível ao meio ambiente.

O Banco Mundial se associa a ONGs para a saúde dos oceanos O Banco Mundial está se associando a grandes ONGs e grupos internacionais com o propósito de levantar 1,5 bilhão de dólares para melhorar a higidez dos oceanos. A iniciativa, sob o nome de “Parceria Global pelos Oceanos” (Global Partnership for Oceans), anunciada em fevereiro, destina-se a acelerar medidas no combate à sobrepesca, à poluição marinha e à destruição de habitats, notadamente nos recifes de coral, que abarcam a maior diversidade de vida marinha. As metas principais para a próxima década incluem a recomposição de mais de metade dos estoques de pescado que se acham quase exauridos e a ampliação das áreas marinhas sob proteção, de apenas 1% da superfície dos oceanos na atualidade, para 5%. Em adição, visar-se-á a aumentar a produção da aquicultura, de modo que possa ampliar sua participação na produção global de peixes, de metade para dois terços, simultaneamente tornando-a mais sustentável e menos dependente dos tipos de ração hoje empregados. Fonte: Science 02-03-2012

SOBRAPA Sociedade Brasileira de Proteção Ambiental CONSELHO DIRETOR PRESIDENTE Ibsen de Gusmão Câmara DIRETORES Maria Colares Felipe da Conceição Olympio Faissol Pinto Cecília Beatriz Veiga Soares Malena Barreto Flávio Miragaia Perri Elton Leme Filho CONSELHO FISCAL Luiz Carlos dos Santos Ricardo Cravo Albin SUPLENTES Jonathas do Rego Monteiro Luiz Felipe Carvalho Pedro Augusto Graña Drummond

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PALMEIRA REAL: opção sustentável para o agronegócio

MANEJO FLORESTAL SUSTENTÁVEL

Conjunto de matrizes de Palmeira Real, de 40 anos, de onde são retiradas as sementes para propagação

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MANEJO FLORESTAL SUSTENTÁVEL

A agrissilvicultura com Palmeira Real é uma alternativa tecnicamente viável e economicamente rentável, que auxilia na recuperação de áreas degradadas e possibilita o desenvolvimento sustentável da cadeia produtiva do palmito de qualidade INGO ANDRÉ HABERLE , J OSÉ L EONEL C. D. ROCHA L IMA , E NIO F RAGA E LILIAN GRACE ALIPRANDINI

DA

S ILVA

ENGENHEIROS AGRÔNOMOS E MEMBROS DA ASSOCIAÇÃO DOS ENGENHEIROS AGRÔNOMOS DO RIO DE JANEIRO (AEARJ)

A

Agrissilvicultura é uma ciência que envolve técnicas para a prática de cultivo conjunto entre árvores e culturas agrícolas, em um mesmo ambiente, também denominada Sistemas Agroflorestais (SAFs). Quando utilizada em áreas desmatadas, possibilita a inclusão de plantas de interesse econômico e ambiental, favorecendo, ao mesmo tempo, ao meio ambiente e ao agronegócio. O palmito é uma alternativa de renda muito interessante para o agronegócio brasileiro. É um produto muito apreciado pela gastronomia mundial e tem elevado valor agregado, principalmente quando apresenta características sensoriais desejáveis, como textura macia, gosto delicado e cor branca. Geralmente é comercializado sob forma de conserva, e, recentemente, in natura, em churrascarias e restaurantes especializados.

Opção ao palmito do Açaí O produto foi inserido no mercado de alimentos a partir de1930. Inicialmente, a oferta comercial do palmito brasileiro tinha origem no extrativismo florestal, que levou à devastação das palmeiras Juçara — atualmente protegidas — da Mata Atlântica, seu bioma natural. Hoje, 90% da oferta de palmito são provenientes da palmeira do Açaí,

originária da Amazônia, que, além de causar impacto nos palmitais nativos, apresenta características sensoriais inferiores. Outro importante aspecto negativo é seu balanço energético, considerando a distância — de seis mil quilômetros — entre a extração e beneficiamento até o centro consumidor, percorridos em caminhões a óleo diesel. Além disso, as conservas trazem água da região Amazônica, desprezada quando o palmito é consumido.

Palmeira Real: alternativa viável Como uma alternativa, a região Sul do Brasil, que já produzia a Palmeira Real como planta ornamental, deu início a um projeto objetivando, também, o aproveitamento do palmito. Diante da potencialidade e adaptação da cultura, há 10 anos os estados de Santa Catarina e do Paraná produzem e comercializam o produto de Palmeira Real, inclusive com incentivos, provenientes de recursos públicos, para o plantio. Os bons resultados das explorações sulinas despertaram o interesse na região Sudeste, onde já existem plantios em São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro, o despertar para essa inovação no agronegócio, ocorreu ainda em 1999, quando um grupo originado de ONGs e da Associação de Moradores do Morgado

Maquete do Sistema Agroflorestal de produção de palmito dentro de bananal degradado

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MANEJO FLORESTAL SUSTENTÁVEL

(Guaratiba) deu início ao “Projeto Portal Sul do Parque Estadual da Pedra Branca” — um dos maiores parques urbanos do mundo — de forma a demonstrar essa alternativa ambiental e econômica para dezenas de milhares de famílias, remanescentes da antiga área rural do entorno do Parque. Até então, essa comunidade sobreviveu da subsistência com a bananicultura, que apresenta baixo retorno econômico, grande potencial de erosão do solo, perda de água e risco de incêndio para a Mata Atlântica, protegida pelo Parque Estadual Pedra Branca (PEPB). A Palmeira Real é uma cultura que se desenvolve bem em áreas sombreadas, proporcionadas, inicialmente, pela bananicultura ou capões, e substituída, continuamente, pelo plantio de espécies florestais naturais da Mata Atlantica, proporcionando a formação de uma floresta rala e a recuperação de áreas degradadas.

Características conservacionistas No projeto-piloto, a inserção da Palmeira Real, plantada em 10 hectares no Portal Sul do Parque Estadual da Pedra Branca, demonstrou sua grande potencialidade para preservação e proteção, por meio da criação de um cinturão verde agroflorestal. Ele funcionará como um cordão de isolamento, impedindo a proliferação dos focos de incêndio. Promoverá ainda o aumento da produção de água e a recuperação das nascentes, resultado da maior infiltração e armazenamento de água — que não se perdeu pelas enxurradas — no subsolo. Atualmente, o plantio da Palmeira Real tem sido utilizado em vários locais para a recuperaração de áreas degradadas e de nascentes — cujo volume hídrico diminuiu, devido há décadas de desmatamento. O projeto que, a princípio, tratava a Palmeira Real como uma alternativa local para os bananicultores da região de Guaratiba, no Rio de Janeiro, cuja renda vinha sendo cada vez mais reduzida em virtude do empobrecimento e da erosão dos solos, doenças da bananicultura e escassez da mão de obra familiar, foi além disso. Envolveu profissionais da Embrapa, Emater-Rio, MDA, MAPA, Associação dos Engenheiros Agrônomos do Estado do Rio de Janeiro, Ong Work, Ong Orgânica Brasil e Tropiflora, que estão trabalhando nessa inovação para diversos municípios fluminenses. Os

principais estão localizados na região serrana (Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo), onde a retenção hídrica é crucial nos vales, que abrangem vários quilômetros quadrados de áreas desmatadas, com riscos anuais de novos desastres, como os ocorridos nas chuvas de verão em 2011. Estima-se que, atualmente, o Brasil tenha cerca de 60.000 hectares de Palmeira Real, plantada exclusivamente para a produção de palmito. No do Estado do Rio de Janeiro, os municípios que já produzem Palmeira Real no sistema de agrissilvicultura são Angra dos Reis, Conceição de Macabu, Silva Jardim, Bom Jardim, Cachoeiras de Macacu, Nova Iguaçu, Silva Jardim e Petrópolis.

Dados Econômicos Em Santa Catarina, na região Sul, a densidade de plantio chega a 16.000 plantas por hectare. Nos plantios em áreas montanhosas do Rio de Janeiro, como em bananais degradados, a densidade varia de 8.000 a 10.000 plantas/hectare. O custo de implantação da Palmeira Real, associada a plantas nativas (mudas mão de obra, insumos e manutenção), para o plantio de 10.000 plantas/ha, no sistema convencional, fica em torno de R$ 15 mil, em três anos. Já o mesmo custo, considerando a agricultura familiar e a produção das mudas no local, cai para R$ 5 mil. Por ser uma cultura rústica, na implantação da produção, a Palmeira Real recebeu somente calcário e adubação orgânica no berço. Pesquisas realizadas pela Epagri (empresa de pesquisadores de Santa Catarina) e pela Embrapa, mostram que adubações químicas aumentam o desenvolvimento e o peso do palmito. A receita estimada para a cultura, considerando a densidade de 10.000 plantas/ha, a partir do terceiro ano de cultivo, com corte de 1/3 das plantas por ano, é de R$ 10.000,00/ano (venda para envasadoras de palmito particulares). No caso de venda direta para restaurantes, a receita é de R$ 20.000,00/ano. Com o cultivo da banana, a agricultura familiar tem uma receita anual que não passa de R$ 1.000,00/ha. Consorciando com a Palmeira Real, a renda é 10 vezes maior.

Alguns atrativos da agrissilvicultura com Palmeira Real: Custo de implantação da lavoura relativamente baixo; Baixo custo de manutenção; Superiores características organolépticas e de textura do palmito; Maior precocidade de produção - em média, 36 meses após o plantio efetua-se o corte; Boa produtividade de palmito por área e com bom rendimento no processamento; Boa resposta de plantio dentro da mata ou capoeira. Renda dez vezes maior se comparada à bananicultura; Aumento da área de sombra, o que permite o aparecimento de espécies nativas; Estímulo ao agricultor para preservação da mata nativa; Melhora no nível de mananciais, por reter água no subsolo e evitar as enchentes nas baixadas; Futura produção de biomassa, já que o caule pode ser utilizado como carvão; Aproveitamento das folhas para ração animal (gado) ou recuperação do húmus e matéria orgânica no solo; Geração de créditos de carbono (pois não há corte completo da área plantada e a floresta rala se perpetuará).

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EMBALAGENS BIODEGRADÁVEIS

Cana-de-açúcar é matéria-prima

“PLÁSTICO VERDE” SUSTENTÁVEL

de

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BRASKEM

A substância, fabricada em larga escala, substitui o polietileno e alavanca a produção de empresas de embalagens no Brasil, que optam pelo uso de produtos que contribuem para a preservação do meio ambiente

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EMBALAGENS BIODEGRADÁVEIS

ma nova alternativa sustentável surge para substituir o polietileno derivado de fontes não-renováveis na produção plásticos e embalagens. É o “eteno verde” - ou “plástico verde” - obtido a partir do etanol da cana-de-açúcar e produzido em larga escala comercial desde o final de 2010 pela Braskem, uma empresa 100% brasileira, em sua fábrica de Triunfo, Rio Grande do Sul. Ao contrário do polietileno, em cuja produção é usado petróleo — um recurso esgotável e com grande potencial poluidor, com emissões de gases do efeito estufa — o processo de fabricação do plástico verde captura até 2,5 toneladas de CO² da atmosfera em cada tonelada produzida.

U

matéria-prima não renovável. Assim, a indústria de manufaturados plásticos não precisa fazer investimentos em novos equipamentos nem alterar o design dos produtos. Por ser um polímero de baixa densidade, diminui o peso final dos produtos, reduzindo o custo de transporte e as consequentes emissões de CO². A primeira empresa a aplicar o polietileno verde em um produto foi a Brinquedos Estrela, no jogo Banco Imobiliário Sustentável. Coca-Cola, Danone, Johnson & Johnson, Tetra Pack, Natura, a gigante Procter & Gamble, e até a conceituada marca de cosméticos japonesa Shiseido, já estão utilizando o plástico verde em suas embalagens.

Versátil e renovável

Selo Verde

Desenvolvido pela Braskem em 2007, o polietileno verde, de fonte 100% renovável, representou uma nova fase na cadeia produtiva do plástico. Versátil, este biopolímero possui as mesmas propriedades e possibilidades de uso da resina produzida com

“I’m green” é o selo que permite ao consumidor identificar os produtos manufaturados com o plástico verde da Braskem. Ele foi desenvolvido para ser simples e direto na comunicação e falar ao crescente público que valoriza os produtos com componentes

renováveis, aumentando o valor agregado dos produtos e promovendo um futuro mais sustentável. A balança sustentável do plástico verde mostra que para cada tonelada de polietileno verde produzido são capturados e fixados até 2,5 toneladas de CO² da atmosfera. Outra vantagem é que o plástico verde é 100% reciclável, uma característica importante para um material de alto valor agregado, pois viabiliza sua reutilização inúmeras vezes. O fato de o plástico verde não ser biodegradável faz com que o CO² capturado durante o cultivo da cana-de-açúcar permaneça fixado por todo o período de vida do plástico.

MATHIAS CRAMER - EMBALIXO

Compromisso Com o apoio da ProForest, consultoria especializada na gestão responsável de recursos naturais, a Braskem criou um “Código de Conduta para Fornecedores de Etanol”. O objetivo é orientar os produtores quanto aos requisitos socioambientais mínimos necessários para se tornar um fornecedor de etanol da empresa. Entre as exigências estão a não utilização de queimadas e a adoção de outras práticas ambientais, a garantia dos direitos humanos e trabalhistas para os empregados, além do fornecimento de informações para realização de estudos do ciclo de vida do produto.

O “plástico verde” obtido da cana-de-açúcar (acima) é matéria-prima para embalagens e sacolas plásticas

MATHIAS CRAMER - EMBALIXO

Abaixo, fábrica da Braskem e o selo “I’m Green”

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EMBRAPA AGROINDÚSTRIA DE ALIMENTOS

Bucha vegetal, bananeira e mamoeiro tornam-se EMBALAGENS BIODEGRADÁVEIS e ANATÔMICAS E

mbalagens biodegradáveis e anatômicas para frutas estão sendo desenvolvidas em conjunto pela Embrapa Agroindústria de Alimentos, pelo Instituto Nacional de Tecnologia (INT) e pelo Instituto de Macromoléculas (IMA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na composição das novas embalagens, até 50% do material plástico poderá ser substituído por fibras da bucha vegetal e do pseudocaule de bananeiras e mamoeiros. A ideia é reduzir o passivo ambiental gerado pelo consumo de plásticos nas embalagens, volume que cresce a cada dia, em função da oferta de produtos frescos de qualidade ou minimamente processados e prontos para consumo. Os primeiros protótipos serão testados em parceria com a Braskem — Unidade Polímeros, de São Paulo — para verificar a resistência, o percentual máximo de fibra no compósito plástico, e o custo-benefício da proposta.

Frutas delicadas

Validação Os testes feitos na Braskem seguirão para um polo frutífero para nova validação e ajuste dos processos de fabricação. A expectativa dos pesquisadores é chegar até o final do ano com embalagens validadas e estimativas de custo-benefício para poder oferecer o projeto de novas embalagens biodegradáveis e anatômicas às empresas do Brasil e do exterior. A iniciativa da Embrapa, do INT e do IMA conta com o apoio financeiro do BNDES.

EM BRA PA

AG RO IND ÚS TRIA

DE ALIM EN TO S

As embalagens que serão testadas foram desenvolvidas para frutas como morango, mamão, caqui e manga. São alimentos suscetíveis a impactos e que têm grande perda durante o processo de pós-colheita, embalagem, transporte e oferta ao consumidor. De acordo com o pesquisador Antônio Gomes Soares, da Embrapa, só as perdas no setor de frutas podem chegar a 35% devido às injúrias que inviabilizam a comercialização. “Daí

nossa preocupação de não só desenvolver embalagens menos agressivas ao meio ambiente, mas também mais adequadas para a acomodação das frutas”. Em recente visita às feiras Fruit Logistics e Freshconex, em Berlim (Alemanha), o pesquisador Murillo Freire, também da Embrapa, atestou o grande volume de plásticos usados em embalagens para alimentos frescos e minimamente processados no mercado europeu. Essas feiras atraem 2.400 expositores e mais de 55 mil visitantes interessados em negócios e oriundos de 130 países em cada nova edição. “As empresas no exterior demandam alternativas para embalagens, mas querem soluções já validadas no mercado”, explicou.

Tomate, pimentão e pepino em embalagens ecológicas

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DIVULGAÇÃO

EMBALAGENS SUSTENTÁVEIS ajudam a reduzir ÍNDICES DE CO²

Estimativas da PricewaterhouseCoopers Ecobilan indicam que se 26 milhões de domicílios usarem sacos de lixo sustentáveis, à base de cana-de-açúcar, é possível economizar mais de 112 mil toneladas de CO², um volume equivalente ao dióxido de carbono emitido pelos veículos da cidade de São Paulo s embalagens produzidas tendo como matéria-prima o etanol da cana-deaçúcar revolucionaram o mercado em 2011, já que são uma alternativa sustentável às sacolas plásticas distribuídas nos supermercados e no comércio em geral. O uso intensivo dessas sacolas plásticas, para acondicionar e descartar o lixo doméstico, provoca prejuízos em várias áreas. Quando utilizadas como sacos de lixo, provocam desde entupimento de bueiros até o assoreamento de córregos, rios e oceanos, onde podem ser ingeridas por peixes e outros animais marinhos, ao serem confundidas com algas, por exemplo.

Saco de lixo sustentável A entrada de produtos sustentáveis no mercado trouxe aos consumidores outras alternativas. “Desmitificamos a história de que produto sustentável é muito mais caro, principalmente em relação aos sacos para lixo. Conseguimos fazer com que as embalagens sustentáveis tivessem preço acessível e ainda criamos estratégias em grandes redes de supermercados do país para alertar a população quanto à necessidade de optar por artigos que não agridam a natureza”, comenta Rafael Costa, diretor da Embalixo.

Em 2011, a empresa canalizou seus investimentos nesses produtos, fabricando cerca de 90 milhões de embalagens à base de cana-de-açúcar e comercializando mais de 1.800 toneladas dessas embalagens em todo o Brasil. O resultado foi 40% maior que o obtido pela empresa em 2010, segundo afirma seu diretor Rafael Costa. Para 2012, ele espera dobrar esses números, apostando no começo de uma conscientização da população para a utilização de materiais sustentáveis. “Hoje o consumidor tem opções muito acessíveis e com preço competitivo. Esperamos que no Brasil o hábito de utilizar sacos específicos para o descarte de lixo, como ocorre na Europa, se torne um hábito. Isso irá esquentar o mercado, tornando produtos e preços cada vez mais atraentes, dentro da linha sustentável, além de contribuir com a preservação do meio ambiente”, comenta o diretor. A partir do eteno verde, a Embalixo, uma empresa de Campinas (SP), fabrica, com exclusividade, o primeiro saco de lixo sustentável à base de cana-deaçúcar. O saco se decompõe mais rapidamente na natureza, tem custo pouco maior que o dos sacos de lixo convencionais e pode ser reciclado. A empresa diversificou sua linha e os produtos sus-

tentáveis incrementaram em 40% o faturamento em 2011.

Reciclagem Apesar da polêmica em torno do uso de sacolas plásticas que também acabam sendo aproveitadas para descartar lixo, a Embalixo ousou e lançou um produto a partir do plástico reciclado, envolvendo, para isso, cooperativas de catadores. “Foi mais uma ação visando a um produto que contribua para a preDIVULGAÇÃO

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alerta à população para os prejuízos do uso das sacolinhas comuns. O fato chamou atenção para outros assuntos importantes a serem discutidos, tais como: reciclagem do lixo (a separação dos materiais: vidro, papel, metal, garrafas pet, plástico e outros — que podem ser reciclados); o problema do uso do plástico (que demora cerca de 200 anos para se decompor na natureza); economia doméstica (pois a dona de casa passará a ter de comprar embalagens específicas para descartar o lixo); e sustentabilidade (adotar ações que con-

DIVULGAÇÃO

Saco para lixo de “plástico verde”: preço acessível

tribuam coma preservação do meio ambiente e, consequentemente, do planeta). “Na busca de soluções e/ou alternativas, o consumidor começa a se deparar com produtos sustentáveis, disponíveis no mercado, mais adequados ao descarte de lixo, produzidos à base de matéria-prima renovável ou reciclada, e com preços acessíveis. É o começo de uma mudança na cultura e nos hábitos de muitas pessoas, que contribuirá, e muito, para a saúde do planeta Terra”, explica Rafael Costa. A empresa possui também um saco de lixo que utiliza em sua fabricação o produto antibacteriano Microban, que impede a proliferação de microorganismos e a emissão de gases orgânicos voláteis que causam o mau cheiro. Dessa forma, o consumidor pode otimizar o uso do saco de lixo, com a garantia de higiene até o dia da substituição, que pode ser feita em intervalo maior de tempo.

DIVULGAÇÃO

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Apesar da proibição da distribuição das sacolas plásticas pelos estabelecimentos comerciais — que estava prevista para acontecer até o final deste ano, por meio de lei — ter sido derrubada por ação judicial, a discussão trouxe à tona a importância da opção por produtos sustentáveis e serviu como

EMBALAGENS BIODEGRADÁVEIS

DIVULGAÇÃO

Uso das sacolinhas plásticas de mercado para descartar lixo

EMBRALIXO

servação do meio ambiente, pois a reutilização do plástico é uma forma de retirá-lo da natureza, já que ele demora mais de 200 anos para se decompor. Além disso, achamos interessante apoiar a iniciativas de cooperativas, incentivando que reciclem sacos e sacolas plásticas”, informa Rafael. A empresa instalou em sua fábrica até mesmo uma máquina de reciclagem de plástico. “Utilizamos as sobras do que nós mesmos produzimos”, afirma. Milhares de pessoas vivem no país como catadores de produtos para a reciclagem, porém, a reciclagem de plástico ainda é muito pequena. O “Embalixo Reciclado” é produzido a partir de sobras de plásticos durante a sua fabricação, conhecidos como préconsumo, e também de plásticos pósconsumo, como sacolas plásticas, sacos de hortifrutis, filme stretch (muitos utilizados por indústrias para proteger cargas durante transportes) comprados de cooperativas que fazem a coleta seletiva da população e de empresas. O lançamento do produto reforça a importância de reciclagem e do papel da sociedade na separação de materiais para coleta seletiva, geradora de renda e inclusão social dos catadores.

Exemplos de danos aos animais marinhos causados pelos sacos plásticos não biodegradáveis

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USO RACIONAL DE ÁGUA

DISTRIBUIÇÃO farta, mas DESIGUAL

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BERACA

Pesquisa diagnostica uso dos recursos hídricos no meio rural brasileiro !ALAV690-56-60-UsoRacÁgua-DistrDesigual.pmd 57

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Brasil possui uma das maiores reservas de água doce do mundo, em torno de 12% de todo o montante disponível. Mas, isto não é suficiente para afirmar que não há escassez hídrica no país. A distribuição dos recursos hídricos é bem desigual nas diferentes regiões brasileiras. Grande parte dos mananciais, aproximadamente 80%, se encontra na região Amazônica, onde residem somente 5% da população. Por isso, mesmo com grande potencial hídrico, o recurso é objeto de conflito em várias regiões do País. O uso da água no meio rural representa 57% da retirada dos cursos d’água. Em termos de consumo, este percentual passa para 83% (uso rural, irrigação e animal). Diante desse cenário, a engenheira agrícola da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (USP/ ESALQ), Janaina Paulino, buscou entender a percepção dos usuários da água no meio rural e como ocorre o seu uso. “Delimitar como o meio rural se relaciona com a água torna-se de extrema valia para se tomar qualquer iniciativa de gestão ou implementação de projetos de capacitação”, esclarece a pesquisadora.

ESALQ/USP

USO RACIONAL DE ÁGUA

Pesquisa diagnostica uso da água no meio rural brasileiro

Grandes projetos Com o título “Diagnóstico do uso da água e necessidade de formação de capacidades no meio rural nas regiões administrativas do Brasil”, a tese de Janaina está inserida no objetivo de dois grandes projetos, ambos desenvolvidos por mais de dois anos. Envolveram mais de 15 pesquisadores de diferentes áreas ligadas à gestão de recursos hídricos e tiveram a coordenação do professor Marcos Vinícius Folegatti, do Departamento de Engenharia de Biossistemas, e coordenação técnica do pesquisador Rodrigo Máximo Sánchez-Román, também da USP/ESALQ. Os projetos se completam e, em um âmbito geral, levantaram informações sobre os usos da água no meio rural. Além disso, diagnosticaram a demanda e a oferta de capacitação e extensão tecnológica para a gestão dos recursos hídricos nos níveis técnico e superior, e determinaram o formato para o funcionamento de uma rede de capacitação e extensão tecnológica: a ‘Rede Yara’. Além de propor um

Irrigação por aspersão em cultura agrícola

série de materiais didáticos para capacitadores e para usuários da água”, explica a engenheira agrícola.

Trabalho de campo Sobre a sua pesquisa, Janaina contou com uma equipe técnica de profissionais de diversas áreas de atuação, com mais de 13 colaboradores, que trabalharam por mais de dois anos no planejamento, obtenção e sistematização de dados e elaboração de relatório. De início, foi realizado o levantamento dos potenciais locais e instituições que seriam aptos a responder de maneira expressiva as questões sobre a utilização do recurso hídrico na região. A partir de dados do IBGE, foram levantados os municípios que mais utilizavam água no setor rural, contemplando informações de uso da água na produção vegetal e na produção animal. Recorreram-se, então, às tabelas

que apresentavam informações sobre estabelecimentos agropecuários com uso de diferentes métodos de irrigação e diferentes explorações animais. Na irrigação, a análise foi feita incluindo todos os métodos apresentados pelo IBGE, ou seja, inundação, sulcos, aspersão (pivô central e outros métodos) e localizada além de outros sistemas de irrigação e/ou molhação. Quanto à produção animal, cinco explorações diferentes foram consideradas: gado de corte em pasto, gado de corte confinado, gado de leite, aves e suínos. Para que a distribuição fosse de forma equitativa nas regiões, foram selecionados os quatro municípios mais expressivos em cada método de irrigação (área irrigada) e em cada exploração animal (cabeças) de cada região, totalizando 180 municípios em todo o país. Em termos de região administrativa, foram selecionadas 31 na região Norte, 35 na região Sudeste, 37 na

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USO RACIONAL DE ÁGUA tor e/ou extensionista quanto ao entendimento do recurso água, sua importância e seus usos”. Um evento nacional, denominado “Uso sustentável da água no meio rural – uma proposta pedagógica” foi organizado no LEB/ESALQ para apresentar e discutir os resultados que, posteriormente, foram apresentados de maneira presencial, em algumas das instituições que participaram do workshop, nas cinco regiões administrativas.

Disponibilidade hídrica

região Centro-Oeste, 38 na região Nordeste e 39 na região Sul.

Mapeamento da água Após a seleção dos municípios, foram mapeadas as instituições ligadas ao uso da água. “Focamos nos representantes de instituições governamentais e não governamentais. Por parte de instituições governamentais, foram levantados os contatos das prefeituras municipais (secretarias), órgãos de assistência técnica e extensão rural. Das não governamentais, foram contatadas cooperativas, associações, sindicatos e outras que lidam diretamente com o produtor rural, totalizando 357 instituições”, explica Janaina. Ao mesmo tempo, foi elaborado um questionário de pesquisa, dividido em cinco partes, delimitando dados pessoais do colaborador e da entidade, dados da região de atuação da entida-

de, onde foram levantadas informações referentes a comitês de bacias, política públicas de conservação, legislação, crédito rural, cobrança pelo uso da água, entre outros. Na terceira parte, foram apresentadas questões referentes à qualidade, uso, fontes de água, disputa pela água e situação atual e passada dos recursos hídricos. A quarta parte do questionário tratou da produção vegetal e abordou culturas produzidas, métodos de irrigação e manejo de água e solo. Por fim, a quinta parte trouxe questões sobre o uso e reuso da água e relação agrotóxicos/ uso da água/produção animal.

Análise dos dados “Com o retorno dos questionários, os dados foram analisados e interpretados de maneira integrada, e também por região administrativa, tentando ao máximo buscar a percepção do produ-

“Na prática, a pesquisa mostrou que os usuários da água no setor rural já estão percebendo alteração na disponibilidade hídrica das fontes e que as disputas pelo uso da água vêm aumentando ao longo do tempo, ocorrendo, principalmente, entre o próprio setor agrícola”, afirma Janaina. O estudo revelou que essa percepção tem gerado uma demanda por materiais no sentido de formar capacidades nos usuários e nos trabalhadores das instituições de extensão rural. “Os serviços de extensão e transferência de tecnologia rural no Brasil não estão funcionando da maneira que deveriam ou, em alguns casos, são até mesmo inexistentes”, alerta. Entre as regiões pesquisadas, a Norte foi a que apresentou maior carência de ações voltadas à gestão dos recursos hídricos. A maior atividade usuária da água é a irrigação e muitos avanços devem ocorrer neste setor. Os usuários precisam de suporte técnico e poucos são os profissionais atuantes e preparados para atender tais demandas, alerta a pesquisadora. Mesmo existindo relatos de iniciativas sobre o reuso da água em algumas regiões, como a Sul, por exemplo, verifica-se que há carência de ações visando este assunto. “O País precisa destes serviços para conseguir ter uma política de desenvolvimento no meio rural que coloque ou mantenha-o nos níveis adequados para enfrentar o mundo globalizado; e o papel da educação ambiental no processo de formação de capacidades na gestão dos recursos hídricos é primordial, pois só através dela é possível, no longo prazo, romper a herança cultural de que a água é um recurso abundante, renovável e ilimitado”, conclui a engenheira agrícola. CAIO RODRIGO ALBUQUERQUE

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USO RACIONAL DE ÁGUA

CERRADO: berço das águas brasileiras N

pagados por grandes extensões do país. Em alguns casos, a participação do Cerrado corresponde a mais de 100% do volume total de água gerado nas bacias para as quais contribui. Na bacia do Paraguai, que engloba o Pantanal, a participação é de 136%. Outras bacias que possuem grande parte de sua vazão gerada no Cerrado são Parnaíba (106%), São Francisco (94%), Tocantins/Araguaia (70%) e Paraná (50%).

Uso racional As pesquisas desenvolvidas pela Embrapa Cerrados têm o objetivo de aumentar o conhecimento sobre como funcionam os processos hidrológicos (infiltração, escoamento, vazão, qualidade da água) e suas relações com as atividades desenvolvidas pelo homem, tais como agricultura e pecuária. Ou seja, os pesquisadores buscam avaliar de que forma essas atividades podem impactar “positiva ou negativamente” na quantidade e na qualidade do recursos hídricos do bioma Cerrado.

Tecnologias Algumas tecnologias geradas pela Embrapa Cerrados podem subsidiar o uso racional da água em atividades agrícolas. Como, por exemplo, a aplicação de modelos hidrológicos/ambientais, que são importantes ferramentas de suporte à decisão para ações de gestão territorial e de recursos hídricos, e o zoneamento econômico ecológico para definição de áreas de aptidão agrícola ou destinadas à conservação. Outras orientações fundamentais são a manutenção da cobertura do solo com adoção do sistema de plantio direto, boa construção de terraços e implantação do sistema integração-lavoura-pecuária-floresta. LILIANE CASTELÕES - EMBRAPA CERRADO

JORGE WERNECK LIMA - EMBRAPA CERRADOS

ão há mais dúvidas da crescente necessidade de água, da limitação dos recursos hídricos, dos conflitos entre alguns usos e da importância do consumo consciente. No Brasil, a região do Cerrado se destaca do ponto de vista hidrológico e ambiental. Afinal, oito das 12 grandes regiões hidrográficas brasileiras recebem contribuição hídrica deste bioma. Para a manutenção dos processos de produção e distribuição de água pelos rios do Brasil é fundamental a adequada gestão dos solos e dos recursos hídricos do Cerrado e a preservação de suas nascentes. A avaliação é do pesquisador Jorge Werneck Lima, da Embrapa Cerrados. “A sua posição estratégica (Planalto Central) e as características dos seus solos e clima fazem com que o Cerrado funcione como um reservatório que guarda as águas das chuvas e as distribui por grande parte do país e pela América do Sul. Vários rios importantes recebem água do Cerrado”, explica Lima. Justamente por isso, ressalta o pesquisador, danos nessas regiões de nascentes podem ser pro-

Muitas das pesquisas visam estimular o uso racional dos recursos hídricos na agricultura. Entre elas, é possível destacar os trabalhos sobre manejo de irrigação, os que compatibilizam a demanda hídrica para atividades agrícolas com a oferta de água das bacias hidrográficas, os que incentivam o uso racional de insumos agrícolas para evitar a contaminação dos recursos hídricos e a adoção de boas práticas agrícolas que minimizem os processos erosivos e o assoreamento dos rios.

O Cerrado se destaca NO 690/2012 60 A Lavoura em relação aos recursos hídricos e ambientais

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INFORME OCB/SESCOOP-RJ

A POLÍTICA NACIONAL DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS (PNC), O MECANISMO DESENVOLVIMENTO LIMPO (MDL) E A RIO+20

N

o encontro de 2009, em Copenhague, denominado de COP15, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil, apesar de isento, segundo o Protocolo de Kyoto, iria trabalhar com metas ambiciosas de países de primeiro mundo, através de políticas públicas, para a redução dos Gases de Efeito Estufa (GEEs). Dois instrumentos foram imediatamente criados para esse fim: a Política Nacional de Resíduos Sólidos ( PNRS), através da Lei 12.305, sancionada no dia 02 de agosto de 2010, e a Política Nacional de Mudanças Climáticas (PNMC), através da Lei 12.187, de 20 de dezembro de 2009. Com o advento dessas leis e outras ações, o país ganha importância para a construção de propostas e projetos com foco no Programa de

Mercado de Carbono ou Mecanismo de Desenvolvimento Limpo ( MDL), o qual objetiva trabalhar as metas apresentadas na COP15, através de ações a serem realizadas pelos governos, sociedade civil organizada e, sobretudo, pelas empresas brasileiras. Agora, com a RIO+20, essa proposta será revestida de valor agregado no bojo da economia verde (Green economy) e no balanço que será feito da ECO/92. O Projeto de Crédito de Carbono ou Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, certamente ganhará o apoio e a força necessários para decolar, a fim de se transformar em mais uma importante ferramenta contra o aquecimento global e a degradação ambiental.

OCB DESENVOLVE PROGRAMA PARA INSERIR PEQUENO PRODUTOR NO MERCADO DE CARBONO

U

ma das ações da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) na busca por soluções para reduzir a emissão de gases na atmosfera, e o consequente aumento do efeito estufa sobre as mudanças climáticas, é o Programa Mercado de Carbono. Baseado no desenvolvimento sustentável, o novo paradigma de produção também criou oportunidades estratégicas de crescimento em diversas áreas de atividade e campos do conhecimento. Assim, em parceria com as cooperativas do sistema, a OCB recomenda e estimula práticas apoiadas no tripé ambiental, econômico e social. Na área ambiental, o principal objetivo é reduzir as emissões de Gases Efeito Estufa (GEE) e de resíduos da produção agropecuária e agroindustrial, a fim de diminuir o passivo ambiental e promover a sustentabilidade dos recursos renováveis. Os benefícios sociais gerados pela adoção de novas práticas pelos produtores favorecem, não só as cooperativas, como também as comunidades onde estão inseridas.

Créditos de carbono A venda de créditos de carbono está entre as novas oportunidades econômicas para as cooperativas. A OCB e o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop) capacitaram seus técnicos para a identificação de cooperativas aptas à implantação de projetos de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) e de oportunidades de negócios nesse setor. Com essa iniciativa, o sistema espera reduzir e tornar os passivos ambientais das cooperativas em ativos econômicos, gerar diferenciais competitivos aos produtos e serviços das cooperativas, desenvolver um modelo que possa ser replicado e ampliar a participação do Brasil no mercado de carbono. O desenvolvimento de metodologias e capacitações para a implementação de projetos de MDL Florestal na Mata Atlântica apoia o compromisso do Governo Federal com o Protocolo de Kioto. Para tanto, considera metodologias já exis-

tentes e as diretrizes das legislações, técnica e ambiental, para reflorestamento e administração sustentável de florestas nativas. Uma campanha promoverá a disseminação de informações sobre “Mercado de carbono para cooperativas rurais” reunidas em um centro de intercâmbio.

Exemplo Um dos exemplos a serem seguidos é o da Verdecoop, cooperativa de reciclagem e compostagem da Costa dos Coqueiros, na Bahia. Ela recicla, mensalmente, 95 toneladas de resíduos, oriundos de resorts e condomínios da Costa do Sauípe (litoral baiano) e está para conseguir o aval das Nações Unidas para comercializar créditos de carbono. O documento de concepção do projeto está publicado no site da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Isso significa que a próxima etapa é a de validação, na qual é verificada a conformidade com o Protocolo de Kyoto.

A Lavoura NO 690/2012 61

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CRISTINA BARAN

CONTROLE ECOLÓGICO DE PRAGAS

Redução de agrotóxicos e controle alternativo de pragas aumenta chances de produtores no mercado internacional

CULTIVO SUSTENTÁVEL de

ROSAS favorece exportação 62 A Lavoura NO 690/2012

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N

EPAMIG

o mercado de flores é fundamental que os produtores tenham atenção quanto à folhagem e à flor, que não podem apresentar danos pelo ataque de pragas ou doenças. Por isso, o uso de agrotóxicos é comum. Mas começa a contar pontos, principalmente para a exportação, a produção sustentável das flores. Atenta a essas mudanças, a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), de São João del-Rei, no Campo das Vertentes, já desenvolve, por meio do Núcleo Tecnológico Epamig Floricultura (Nutef), desde 2009, experimentos para o cultivo de rosas sem agroquímicos.

Sem agroquímicos “O mercado internacional tem mostrado a existência de um movimento de consumidores à procura de alimentos e flores ausentes de resíduos de agroquímicos. A tendência é de que os consumidores se tornem mais exigentes a cada ano e que induzam o setor produtivo a se adequar para se tornar mais competitivo”, afirma a engenheira agrônoma e pesquisadora da Epamig, Elka Fabiana Aparecida Almeida. Ela desenvolve projetos de Produção Integrada de Rosas. Em 2009, tiveram início dois experimentos, visando ao manejo sustentável do solo e ao controle alternativo de pragas. O terceiro projeto, implantado em 2011, teve por objetivo o uso sustentável da água e a redução da adubação nitrogenada. Segundo a pesquisadora, os três experimentos encontram-se em desenvolvimento e os primeiros resultados já comprovam que é possível cultivar rosas de uma forma sustentável. Elka explica que as tecnologias estão sendo desenvolvidas para reduzir a aplicação de agrotóxicos e adubos com o manejo integrado e controle biológico de pragas e doenças, e pela utilização de adubação verde e adubos orgânicos produzidos pelo próprio produtor.

Projeto Para este ano de 2012, foi aprovado junto à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), mais um projeto no âmbito da produção sustentável de rosas, que disponibilizará recursos de R$ 26.800. Com o valor, serão realizados experimentos para verificar o comportamento de outras variedades de rosas e de adubos verdes para o controle biológico de pragas, além da implantação de duas unidades de testes de validação dos resulta-

Produção integrada de rosas para o mercado internacional

dos em propriedades familiares. “Com este novo projeto vamos levar a tecnologia para o produtor”, explica a pesquisadora.

Menos agrotóxicos Com as tecnologias geradas pelas pesquisas realizadas pela Epamig, o produtor poderá diminuir a aplicação de adubos e agrotóxicos na produção de rosas, utilizando boas SUBSECOM práticas agrícolas. “Desta forma, ele poderá reduzir os custos com a produção, preservar o meio ambiente e obter a certificação de sua propriedade, o que favorecerá a comercialização das rosas”, destaca a engenheira agrônoma. Segundo ela, as cadeias de distribuidores e grandes pontos de vendas, principalmente da Comunidade Europeia, têm exigido dos exportadores que seja levado em consideração o nível de resíduos de agrotóxicos, o respeito ao meio ambiente, a rastreabilidade e as condições de trabalho, higiene e saúde dos trabalhadores na agricultura. “Os consumidores de diversos países têm exigido informações a respeito da origem e do processo de produção de hortaliças, frutas e flores, dando preferência a produtos rastreados e/ou certificados”, completa. Os projetos de sustentabilidade na produção de rosas contam com o apoio, além da Fapemig, do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e Finep (Financiadora de Estudos e Projetos). A Lavoura NO 690/2012 63

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TRATAMENTO DE DEJETOS ANIMAIS

Dejetos viram FERTILIZANTES VINICIUS

DE

MELO BENITES

PESQUISADOR DA EMBRAPA SOLOS (RIO DE JANEIRO)

JULIANO CORULLI CORREA

EMBRAPA SOLOS

PESQUISADOR DA EMBRAPA SUÍNOS E AVES (CONCÓRDIA/SC)

JUNE FARIA SCHERRER MENEZES PROFESSORA DA UNIVERSIDADE DE RIO VERDE - FESURV (RIO VERDE/ GO)

JOSÉ CARLOS POLIDORO PESQUISADOR DA EMBRAPA SOLOS (RIO DE JANEIRO)

O uso dos resíduos produzidos direta e indiretamente pela avicultura, suinocultura e bovinocultura para a produção de fertilizantes organominerais pode eliminar imediatamente 50% do passivo ambiental gerado por estas atividades

E

spera-se, que até 2020, com a ampliação da capacidade instalada para produção desse tipo de fertilizantes, o passivo ambiental da avicultura e da suinocultura possa ser minimizado em até 80%. Para tanto, é necessário o aumento da produção nacional de fertilizantes de base orgânica, principalmente devido ao maior consumo de fertilizantes organominerais, de 6,3 milhões de toneladas/ano para 12 milhões de t/ano até 2015, e para 20 milhões de t/ano até 2020. Esse acréscimo na produção de fertilizantes organominerais deve impactar diretamente a demanda externa por

NPK no Brasil, podendo representar cerca de 15% do consumo total de nutrientes até 2015, e chegar a até 25% em 2020. As atividades de suinocultura e de avicultura estão crescendo muito rapidamente no Brasil. Estes sistemas de produção geram grandes quantidades de resíduos orgânicos. Atualmente, no Brasil, são produzidos cerca de 7,8 milhões de toneladas de cama de aviário e 105 milhões de metros cúbicos de dejetos líquidos de suínos. A utilização destes resíduos como fonte de nutrientes para o cultivo de grãos e de pastagens é uma prática comum em várias regiões brasileiras. No entanto, o uso de resíduos animais in natura resulta em baixa eficiência de utilização

A aplicação de dejetos de suínos in natura é mais usual, porém pouco eficiente para adubação das culturas e não elimina o risco ambiental

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TRATAMENTO DE DEJETOS ANIMAIS

dos nutrientes, perdas por lixiviação e volatilização, além de aumentar o risco de contaminação ambiental. Após a transformação biológica dos resíduos animais e sua associação com fontes minerais, é possível produzir fertilizantes organominerais granulados com alto teor de fósforo solúvel, para uso em sistemas de produção extensiva de grãos como soja, milho etc. As características físicas e químicas do fertilizante organomineral granulado estão de acordo com a lei brasileira de fertilizantes. Resultados de campo indicam que a eficiência do uso do fósforo, proveniente dos fertilizantes organominerais, é semelhante à eficiência dos fertilizantes solúveis. Dependendo da região analisada, devido a alguns aspectos relacionados com a logística e distribuição, os fertilizantes organominerais granulados podem significar uma alternativa de baixo custo comparada com os fertilizantes minerais tradicionais.

Geração de resíduos nos sistemas de produção de suínos e aves no Brasil

brasileiro gera, anualmente, 105 milhões de m³ de dejetos líquidos de suínos e 8 milhões de toneladas de cama de aviário. Esses resíduos, somados, contêm cerca de 630.000 toneladas de N, 604.000 t de P2O5 e 553.000 t de K2O, o que representam, aproximadamente, 22,5%, 16,3% e 13,2% do consumo anual de N, P e K, respectivamente, pela agricultura brasileira. Considerando a manutenção da taxa histórica de aumento de rebanho entre 2004 a 2009, de acordo com dados do IBGE, estima-se que o rebanho de suínos e aves praticamente deverá duplicar até 2020, ou seja, chegará a 10 bilhões de cabeças de aves e 59 milhões de cabeças de suínos. Desta forma, a geração de dejetos de suínos e cama de aviário deverá crescer na mesma proporção, aumentando o passivo ambiental resultante da destinação desses resíduos na agricultura. Por isso, aumentará bastante a importância estratégica do desenvolvimento de tecnologias que permitam o reaproveitamento desses resíduos como insumo.

Produção concentrada A produção de suínos e aves no Brasil está concentrada no eixo Sul-Sudeste, principalmente devido à presença de um complexo agroindustrial para o beneficiamento do produto e pela oferta de grãos e demais componentes da ração. Na última década, entretanto, houve deslocamento dos sistemas de produção de suínos e aves para o Centro Oeste. Esse deslocamento ocorreu em virtude da menor pressão ambiental nessas áreas, menores preços dos componentes da ração e maior

ITC DO BRASIL

O Brasil tem um rebanho atual de 5,8 bilhões de cabeças de frangos de corte e postura e 38,4 milhões de suínos, além de 190 milhões de cabeças de bovinos de corte, segundo dados do IBGE-SIDRA, ANUALPEC e da FAO. Esse rebanho gera, anualmente, cerca de 1,2 bilhão de toneladas de resíduos orgânicos primários na forma de fezes, urina e camas, além de outros resíduos de origem agroindustrial, como os resíduos de curtumes, farinha de ossos e sangue, e resíduos de abatedouro. Somente o rebanho industrial de suínos e aves

A geração de dejetos de suínos deverá duplicar até 2020, aumentando o passivo ambiental

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Bagaço de cana-de-açúcar, uma das matérias-primas de alta qualidade para produção de fertilizantes de organominerais

VINÍCIUS BENITES

TRATAMENTO DE DEJETOS ANIMAIS

facilidade na disposição dos resíduos. Atualmente, o principal destino dos resíduos de suínos e aves no Brasil é o uso agrícola na forma original in natura, sem transformações. Em geral, o que se observa é o uso sem critérios técnicos que permitam o aproveitamento eficiente dos nutrientes, resultando em grandes perdas, sobretudo do nitrogênio. Além da perda de nutrientes, o uso agrícola de resíduos, sem critérios técnicos, pode resultar em emissão significativa de gases de efeito estufa, principalmente o óxido nitroso. O uso de resíduos de aves na alimentação animal foi proibido pela Bagaço de cana: uma das matérias-primas de alta qualidade para produção de legislação brasileira desde 2001, o que fertilizantes organominerais aumentou a necessidade de se buscar com fertilizantes granulados convencionais, representa o prinalternativas para a disposição segura desses resíduos no solo. cipal desafio tecnológico para ampliação do uso desses fertiEstudos ambientais mostram que em alguns estados, como lizantes no Brasil. Vale ressaltar que culturas com soja e miSanta Catarina, o aumento do rebanho poderá ser inviabilizado lho, nas quais os fertilizantes são quase que totalmente aplipor limitações no tratamento desses resíduos em atendimento cados na forma granulada, representam mais da metade de a legislação vigente, sobretudo após a publicação da Resolutodo o consumo de fertilizantes minerais no Brasil, represenção CONAMA 357 de 17 de março de 2005. Esse cenário inditando um mercado de cerca de 12 milhões de toneladas de ca que alternativas para a destinação dos resíduos que não fertilizantes, segundo dados da Associação Nacional para a impactem negativamente o ambiente são primordiais. Difusão de Adubos (ANDA).

Mercado de fertilizantes organominerais no Brasil

Compostagem de resíduos de suínos e aves

O mercado de fertilizantes organominerais cresceu a uma taxa média de 10% ao ano na última década no Brasil, mas, de 2010 para 2011, a expansão desse mercado chegou a 20%. Estimase que em 2011 foram produzidas e comercializadas cerca de 5 milhões de toneladas de fertilizantes organominerais, a partir de matérias-primas como estercos, turfa, resíduos da indústria sucroalcooleira, farinhas de ossos e sangue, tortas diversas, e resíduos agroindustriais. O equivalente a 10% do consumo de NPK mineral no Brasil. A maior parte desta produção é comercializada na forma de farelo ou em pó, e o consumo é concentrado praticamente nos setores da olericultura, fruticultura, culturas perenes e floricultura. Adicionalmente, estima-se que, no mesmo período, houve um consumo não comercial de 2,8 milhões de toneladas de fertilizantes organominerais, por meio da produção para o próprio consumo do setor sucroalcooleiro, utilizando-se torta de filtro, cinzas, vinhaça e outros resíduos das usinas associados a fontes minerais de nutrientes. De todo o volume de fertilizante de base orgânica (orgânico e organomineral) produzido no país, apenas uma pequena parte é destinada a grãos e fibras. A pouca utilização por esse segmento pode ser atribuída à baixa concentração de nutrientes e às características físicas do produto, uma vez que a maior parte de fertilizantes organominerais é comercializada na forma de farelo ou pó. A produção de fertilizantes organominerais na forma granulada, apropriados para misturas

Diversos processos podem ser utilizados para a transformação dos resíduos de suínos e aves e sua adequação para uso como fertilizante. Basicamente o que se propõe é o tratamento biológico desse material e seu enriquecimento com fontes minerais para posterior granulação. O tratamento biológico mais comum, de fácil operacionalização e mais amplamente utilizado, é a compostagem. Para que se obtenha um material adequado para a compostagem, é necessário que se adicione aos resíduos de suínos e aves — que são ricos em nitrogênio — algum material lignocelulósico de elevada relação Carbono/Nitrigênio. Na região do Cerrado brasileiro, local de expansão da produção de suínos e aves, estão disponíveis alguns materiais lignocelulósicos, tais como bagaço de cana e palhada de gramíneas, resíduos da indústria sucroalcooleira e da produção de sementes, respectivamente, garantindo o suprimento desses materiais para a compostagem. Existe ainda a possibilidade de utilização dos resíduos de suínos e aves sem transformação biológica, apenas por meio de processos físicos, para secagem e redução do tamanho de partícula. A expansão desse tipo de processo é favorecida pelo desenvolvimento de novos equipamentos, que secam e trituram o resíduo, a um custo energético economicamente viável. A vantagem desse processo é o curto tempo entre a chegada do resíduo e a obtenção do fertilizante, dispensando a necessidade de grandes áreas para processamento.

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TRATAMENTO DE DEJETOS ANIMAIS Tanto no processo de compostagem quanto no processo de tratamento físico dos resíduos, é necessária a adição de fontes concentradas de nutrientes para se obter um fertilizante organomineral compatível com a legislação brasileira. Os fertilizantes fosfatados dominam o setor de fertilizantes organominerais no Brasil, em parte devido a grande demanda por fósforo nos solos tropicais, e em parte devido a aspectos econômicos. A principal fonte de fósforo utilizada para a formulação de adubos NPK no Brasil é o superfosfato simples. O preço do fósforo nesse fertilizante é normalmente superior ao preço do fósforo em produtos de maior concentração, como no monoamônio fosfato (MAP) e no ácido fosfórico. Logo, a utilização de fontes concentradas na produção de fertilizantes organominerais fosfatados pode resultar em produtos em que o preço do fósforo é compatível com o preço desse elemento via superfosfato simples.

Biossolubilização de rochas fosfáticas

Organominerais x Minerais A primeira grande vantagem relativa dos fertilizantes organominerais, em relação aos fertilizantes minerais, é o fato de utilizarem, como matéria-prima, resíduos que são passivos ambientais de outros sistemas de produção. A atual política nacional de resíduos sólidos, enfatiza a importância do reaproveitamento e agregação de valor aos resíduos sólidos. Outro ponto favorável ao setor de fertilizantes organominerais é a proximidade entre o ponto de produção de resíduos de suínos e aves e as propriedades de produção de grãos. A proximidade favorece o estabelecimento de empresas regionais de produção de fertilizantes organominerais, resultando em ganho na logística. Diferentemente do sistema de produção de fertilizantes minerais, que exige grandes investimentos e instalações de grande porte, o setor de fertilizantes organominerais se enquadra a arranjos produtivos locais, associados a outros sistemas de produção, podendo ser uma alternativa para empresas de pequeno e médio porte. Esse modelo industrial, normalmente, gera mais empregos diretos que as grandes indústrias de fertilizantes. Nesse sentido, o Ministério da Agricultura está preparando o Plano Nacional de Fertilizantes, no qual são sugeridas medidas de incentivo às pequenas e médias empresas regionais para a produção de fertilizantes organominerais.

Ganhos ambientais Em relação às vantagens comparativas do fertilizante organomineral, em relação ao uso de resíduos in natura, observa-se uma redução significativa das perdas de nitrogênio pelo uso de fertilizante organomineral em relação à aplicação

VINÍCIUS BENITES / EMBRAPA SOLOS

Outra rota de produção de fertilizantes organominerais fosfatados, que se mostra estrategicamente interessante para as condições brasileiras, é a da biossolubilização de rochas fosfáticas pela ação microbiana. Nesse processo, grandes quantidades de matéria orgânica são misturadas a rochas fosfáticas finamente moídas. A mistura é inoculada com microrganismos selecionados. Esses microrganismos utilizam a matéria orgânica como fonte de energia e produzem ácidos orgânicos que solubilizam parcialmente a rocha fosfática em processos industriais. Após um período de solubilização, o material é homogeneizado e granulado. Essa rota abre a perspectiva de uso de fontes de fosfato, normalmente negligenciadas pela indústria tradicional de fertilizantes. Como produto final, é obtido o fertilizante organomineral fosfatado, no qual o fósforo encontra-se parcialmente solubilizado. Esse fertilizante apresenta alto efeito residual e pode apresentar eficiência agronômica compatível com as fontes fosfatadas solúveis em sistemas tropicais de produção de grãos, em especial em áreas de plantio direto com rotação de culturas. Independentemente da rota tecnológica utilizada para a formulação dos fertilizantes organominerais, após os tratamentos descritos, os fertilizantes devem ser submetidos ao processo de granulação, secagem e padronização. Os procedimentos utilizados pela indústria brasileira são os mesmos utilizados para fertilizantes minerais, mas, normalmente, em menor escala. As indústrias de fertilizantes organominerais em operação no Brasil têm capacidade de produção entre 10.000 e 50.000 tone-

ladas anuais, podendo ser consideradas médias empresas. Existem também pequenas empresas com produção anual inferior a 10.000 toneladas, direcionadas a alguns nichos específicos de mercado como olerícolas e fruticultura.

Processamento de compostagem em escala industrial para produção de matéria-prima dos fertilizantes organominerais granulados

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TRATAMENTO DE DEJETOS ANIMAIS

Comparação Comparativamente aos fertilizantes minerais, ainda faltam experimentos de campo de longa duração que permitam avaliar, com maior precisão, a eficiência relativa desse tipo de fertilizante. Os principais benefícios esperados são em relação à eficiência no fornecimento de fósforo (P). Teoricamente espera-se maior eficiência em relação ao fornecimento de fósforo em função da presença de grande quantidade de ânions orgânicos nos grânulos de fertilizantes organominerais. Estes ânions orgânicos competem pelos sítios de adsorção de P, abundantes em solos tropicais, reduzindo momentaneamente a fixação desse nutriente, favorecendo a absorção pelas plantas. Espera-se, ainda, aumento da atividade microbiana no entorno da área de aplicação do fertilizante organomineral, devido ao fornecimento de energia pela matéria orgânica contida no fertilizante para os microrganismos. Efeitos adicionais sobre o crescimento de raízes, promovidos por compostos orgânicos presentes no fertilizante organomineral, podem ocorrer. Essa linha de pesquisa merece especial atenção por parte dos órgãos de pesquisa.

sificação e a desconcentração econômica da produção de fertilizantes no país, incentivando as pequenas e médias empresas. Devido às limitações de escala de produção, o mercado de fertilizantes organominerais explora nichos de mercado diversificados, não competindo diretamente com a indústria tradicional de fertilizantes minerais. Com o fortalecimento desses segmentos, surgirão novos empregos, de forma direta, nas plantas de produção; e indireta, na coleta da matéria-prima e na distribuição dos produtos. A produção regionalizada de fertilizantes pode promover ganhos de logística e permitir o desenvolvimento de fertilizantes específicos para os sistemas produtivos locais, respeitando diferenças de solo, clima e cultivos, o que proporcionará o aumento na eficiência do uso desses fertilizantes. Embora o fortalecimento do setor de fertilizantes organominerais não seja uma ação que reverta a dependência externa brasileira por fertilizantes e nem impacte diretamente na formação de preços de fertilizantes, os fatores ambientais, sociais e econômicos relacionados a essa atividade, justificam plenamente a adoção de medidas estratégicas que estimulem esse setor. EMBRAPA SOLOS

superficial de resíduos de suínos e aves. Basicamente, porque o enterrio, ou a injeção do resíduo no sulco de plantio, reduz a volatilização de amônia. Nessa mesma lógica, o uso de fertilizantes organominerais, reduz as emissões de gases de efeito estufa, representando ganhos ambientais em relação ao uso dos resíduos in natura.

Perspectivas futuras e impactos com a expansão do uso dessa tecnologia Quanto aos impactos socioeconômicos, espera-se que a produção de fertilizantes organominerais promova a diver-

COODETEC

Fertilizante organomineral NPK para plantio de milho produzido a partir de dejetos de suínos e/ou cama de aviário (detalhe)

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NIM: árvore indiana ganha espaço como opção sustentável Produtos derivados da árvore de origem indiana ganham mercado como eficientes, seguras e econômicas alternativas ao uso de defensivos e adubos químicos nas lavouras e criações Defensivos e fertilizantes Produzidos a partir do princípio ativo extraído das folhas, frutos, cascas, sementes e madeira da árvore indiana, defensivos, antiparasitários e repelentes à base de Nim combatem, sem dano ambiental, os mais variados insetos e parasitas, como, por exemplo, nematoides, carrapatos, lagartas, besouros, percevejos e outros. Instituições como Embrapa, Unicamp e UFPR já atestaram a confiabilidade do Nim, realçando que ele pode combater mais de 400 tipos de pragas agrícolas. Atualmente, segundo a Embrapa, o Brasil tem aproximada-

VANESSA MOUTINHO

O aumento das exigências na agricultura e pecuária por processos e produtos inofensivos ao meio ambiente impulsiona o mercado de soluções de controle biológico de pragas e fertilização orgânica. Neste cenário, produtos derivados da árvore de origem indiana Nim — nome científico “neem (Azadirachta indica)” — ganham destaque como alternativas eficientes, seguras e econômicas ao uso de defensivos e adubos químicos nas lavouras e criações. Na Índia, as propriedades do Nim são utilizadas na medicina, cosmética, agricultura, entre outras áreas, há mais de quatro mil anos.

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Frutos do nim de onde são extraídos os princípios ativos para defensivos e adubos naturais

PRESERVA MUNDI

mente seis milhões de árvores de Nim, com potencial para ultrapassar a Índia — o maior produtor — em poucos anos. A Preserva Mundi (www.preservamundi.com.br), empresa participante da Organicsnet, um projeto da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), é especializada no cultivo e fabricação de produtos derivados da planta. Romina Lindemann, sua diretora-geral, explica que o defensivo feito a partir do Nim age somente no organismo que pretende destruir, incluindo ovos e larvas, sem incidir sobre outros seres benéficos à manutenção correta dos ecossistemas. Como fertilizante, o Nim é recomendado como fonte de nitrogênio, fósforo, cálcio, magnésio e potássio para diversas culturas, desde hortaliças, passando por grãos, até cana-de-açúcar. “Pelo seu ‘DNA’, livre de moléculas químicas, os produtos derivados do Nim são atóxicos ao homem e animais, bem como biodegradáveis”, explica Lindemann. Preserva Mundi Localizada na cidade de São João de Pirabas

(PA), a cerca de 200 km de Belém, a Preserva Mundi cultiva, há cinco anos, uma plantação orgânica, certificada pela empresa suíça IMO Control, com mais de 160 mil árvores de Nim. Dentro de um modelo de negócio vertical, a empresa também industrializa os produtos derivados da planta. Segundo Lindemann, a região Norte foi a escolhida porque tem temperatura e umidade — similares à Índia — que favorecem ao plantio e ao desenvolvimento do Nim. Atualmente, a Preserva Mundi fornece produtos para mais de 75 produtores rurais, entre pequenos, médios e grandes, espalhados pelo País. “Nossas vendas têm crescido 45% ao ano”, conta Lindemann. “A verdade é que o Nim pode ser um grande aliado do produtor rural brasileiro no tocante à redução de custos e para tornar mais ‘limpa’ a produção”, ensina Lindemann. “O que falta é massificar a informação sobre seus benefícios, com foco numa agropecuária orgânica”. Soma-se às vantagens econômicas e ambientais do Nim, o fato da produção da Preserva Mundi ser feita em parceria com comunidades ribeirinhas locais, colaborando para geração de emprego e renda na região. “Desta maneira, incorporamos a sustentabilidade na estratégia de negócios, já que abarcamos de modo equilibrado na nossa atividade as questões financeiras, ambientais e sociais”, conclui Lindemann. Exemplos • O produtor Dauro Schettini cria 600 cabeças de gado leiteiro na cidade de Santo Antônio do Aventureiro (MG). Ao incorporar o pó de Nim na dieta do rebanho, ele reduziu custos, tempo de manejo e abandonou o controle químico no combate à mosca-do-chifre. Isso aconteceu porque o Nim presente nas fezes do gado, após ser ingerido misturado à alimentação tradicional, interrompeu o desenvolvimento dos ovos da mosca. Schettini gastava, em média, R$ 200 por mês na compra de produtos químicos. Com o uso do Nim, as despesas caíram para cerca de R$ 60 mensais. • Pesquisa da Universidade Federal Rural de Pernambuco comprovou a eficiência do Nim no combate ao ácaro vermelho em lavouras, como, por exemplo, da mandioca. Segundo os pesquisadores da UFRPE, a aplicação do óleo de Nim reduziu significativamente o desenvolvimento dos ovos da larva do organismo.

Linha de produtos à base de Nim da Preserva Mundi

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TEXTO: RENATO PONZIO SCARDOELLI


CRISTINA BARAN

Proteção para a PIMENTA-DO-REINO

MUNDI

As folhas do Nim (detalhe) são incorporadas ao solo, onde as mudas da pimenta-do-reino crescem, controlando a fusariose

VANESSA MOUTINHO

PRESERVA

aplicação e baixo custo. Como o controle é feito na fase de mudas, permite a implantação de novos pimentais com material propagativo sadio, retarda o aparecimento natural da doença no campo e diminui sua disseminação para novas áreas de plantio. Presente em quase todos os cultivos, há 50 anos a doença atormenta os pipericultores, especialmente os paraenses, maiores produtores brasileiros da especiaria, responsáveis por aproximadamente 80% da produção nacional de pimenta-do-reino, item que lidera a lista das exportações do Estado. São também produtores os estados do Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.

U

ma das mais antigas e graves doenças da pimenteira-do-reino (Piper nigrum L.), a fusariose, também conhecida por podridão de raízes, pode ser controlada alternativamente com folhas de nim (Azadirachta indica A. Juss.). A tecnologia, desenvolvida pela Embrapa Amazônia Oriental (BelémPA), consiste na incorporação de folhas de nim indiano ao solo onde as mudas crescem, permitindo que elas sejam transplantadas para o local definitivo totalmente livres da fusariose.

Fusariose Causada pelo fungo Fusarium solani f. sp. Piperis, presente no solo, a fusariose dizima pimentais e causa prejuízos que não ocorrem no exterior, pois, em outros países produtores, a doença está sob controle. Não há cultivares comerciais resistentes nem tratamento químico eficaz contra o fusarium. Isso potencializa ainda mais os benefícios da nova tecnologia, especialmente entre agricultores familiares e pequenos produtores, pois é de fácil

Uso do nim “O uso de folhas de nim indiano é 100% eficaz no controle da fusariose quando aplicadas na formação das mudas”, afirma a responsável pela pesquisa, a fitopatologista Celia Regina Tremacoldi, baseada nos resultados dos experimentos. A pesquisadora revela que a vida útil de um pimental pode ser superior a 12 anos, mas em áreas de fusariose não tem passado de cinco ou seis anos. “Se as mudas forem transplantadas doentes, esse tempo diminui mais ainda: já no primeiro, ou no máximo segundo ano, o produtor perde metade do plantio”, alerta a pesquisadora, lembrando que,

além disso, as folhas de nim fazem com que as mudas se desenvolvam melhor e mais fortes. “O controle total da doença nas mudas já ocorre com 10g/l de folhas de nim, frescas ou secas, trituradas incorporadas no solo. Mas recomenda-se a incorporação de 50g/l, para promover, além da proteção à doença, um melhor desenvolvimento das mudas”, garante Célia Tremacoldi. O nim foi introduzido na Embrapa Amazônia Oriental pelo pesquisador Armando Kouzo Kato, já falecido, que trouxe a espécie florestal da República Dominicana para realizar pesquisas de tutor vivo da pimenta-do-reino. Com esse fim, ele introduziu o nim na Transamazônica em 1999, começando com apenas oito agricultores. “Hoje temos nim à vontade na região e, agora, devido a essa nova tecnologia, podemos alavancar novamente o plantio da pimenta-do-reino na Transamazônica”, avalia, entusiasmado, o pesquisador Pedro Celestino Filho, supervisor do Núcleo de Apoio à Pesquisa e Transferência de Tecnologia (Napt) da Embrapa Amazônia Oriental sediado em Altamira (PA). #XôFusariose A Embrapa Amazônia Oriental tem divulgado o lançamento da “Tecnologia para o controle da podridão de raízes em mudas de pimenteira-do-reino” em seu endereço no Twitter: http:// twitter.com/#!/AmazonOriental. As mensagens sobre o assunto estão identificadas com a palavra-chave (hashtag) #XôFusariose, slogan da campanha de divulgação da nova tecnologia no Twitter. TEXTO: IZABEL DRULLA BRANDÃO

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TECNOLOGIA VERDE

Um XAXIM 100% agroecológico

EMBRAPA AGROBIOLOGIA

Tecnologia sustentável produz vasos muito parecidos com o xaxim original, utilizando uma planta que tem boa capacidade de reter água e fornecer nutrientes e não usa a espécie tradicional, cuja extração é proibida por lei por se uma das espécies ameaçadas de extinção

U

SXC.HU

ma nova alternativa ecológica já está disponível para substituir o xaxim, planta ameaçada de extinção devido ao seu uso indiscriminado em jardinagem e paisagismo. A tecnologia sustentável desenvolvida pela Embrapa Agrobiologia utiliza o milheto, uma espécie vegetal com rápido desenvolvimento de raízes que, agregadas ao substrato, transformam-se em um emaranhado em formato de vaso. A estrutura ganha rigidez após a imperme-

abilização com aplicação de cera nas paredes externas, o que também colabora para que sua capacidade de retenção de água e fornecimento de nutrientes sejam similares ao xaxim tradicional. A alternativa contribuirá para a preservação da Dicksonia sellowiana, conhecida como samambaiaçu, planta da qual é retirado o xaxim tradicional e cuja extração está proibida por lei. Apesar de já existirem algumas opções de produtos para substituir o xaxim no mercado, como os produzidos a partir da fibra de coco, o xaxim agroecológico é mais fácil de ser obtido, já que o processo é basicamente agrícola, com pouca dependência de equipamentos industriais.

Descoberto por acaso O pesquisador Marco Antonio de Almeida Leal, responsável pela inovação, conta que a ideia surgiu por acaso, durante um experimento com o milheto: “Percebi que as raízes da planta eram fartas e o crescimento muito acelerado”. Protegido por patente junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), o xaxim agroecológico foi apresentado em feiras e exposições e atraiu diversos interessados em seu processo de produção. Para fazer a transferência dessa tec-

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Samambaiaçu, quase extinta, tem sua extração proibida por Lei federal

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XAXIM DE MILHETO: passo a passo do cultivo

nologia, a Embrapa lançou edital a fim de selecionar empresas que possam produzir e comercializar o novo produto. Estudos ainda estão sendo feitos para determinar a vida útil do xaxim agroecológico, mas, para o pesquisador, os resultados são promissores, inclusive como opção de renda para pequenos produtores. Desde que no cultivo seja utilizada matéria-prima certificada como orgânica no substrato, o xaxim também poderá ser certificado como produto orgânico. Outras iniciativas vêm sendo desenvolvidas para substituir o xaxim natural. A maioria delas, entretanto, lança mão de processos industriais como, por exemplo, o processamento da fibra de coco misturada ao látex natural (seiva da seringueira) e prensada. Mas o pesquisador lembra que tais produtos têm baixa capacidade de retenção de água e não possuem os mesmos nutrientes do xaxim. Em sua opinião, na jardinagem esses produtos funcionam mais como recipientes do que como substrato.

Abrigo de extinção O IBAMA chegou a criar no ano 2000 o Grupo Técnico de Conservação de Pteridófilas, com a participação de especialistas do governo e das universidades para estabelecer formas sustentáveis de exploração da espécie. Não houve tempo hábil para a implantação do programa e já em 2001 foi necessário proibir a extração dessa espécie da mata, por meio de resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). O xaxim tradicional corre perigo de extinção porque, assim como outras tantas espécies nativas da Mata Atlântica, sua exploração nunca contou com manejo adequado, ou seja, jamais foi replantando na mesma proporção da sua extração. Além disso, seu crescimento é muito lento, o que dificulta uma reposição em curto prazo. Como agravante, apesar de seu corte ser proibido, sua venda no comércio é liberada em todo o país, o queainda estimula a extração clandestina.

NATIA ELEN AURAS / EMBRAPA AGROINDÚSTRIA

2

Plantar sementes de milheto nas bordas do vaso a uma profundidade de 1 cm e com espaçamento de 2 cm entre elas. Regar a cada 2 dias no início do desenvolvimento (até a planta atingir cerca de 30 cm) e depois 2 a 3 vezes por semana, dependendo da evaporação. O ciclo até que a planta atinja cerca de um metro é de 45 dias no verão e 60 dias no inverno. Ao final deste prazo, puxar a planta pelo caule para que ela saia inteira (com o emaranhado de raízes) do vasilhame. Deixar a planta fora do vaso durante dois dias para secar.

3

Cortar os caules das plantas rente à terra e retirar o cilindro (ou garrafa PET) do centro. Derreter a cera de carnaúba ou parafina e passar apenas nas laterais externas do xaxim. Facilita derramar a cera derretida num recipiente (tipo tabuleiro) e rolar o xaxim deitado.

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NATIA ELEN AURAS / EMBRAPA AGROINDÚSTRIA

Espécie nativa da Mata Atlântica, o xaxim, também conhecido como samambaiaçu, faz parte do mesmo grupo das avencas. Utilizado principalmente para o cultivo de plantas ornamentais e na jardinagem, é confeccionado a partir do caule da Dicksonia sellowiana, que pode alcançar até 20 metros de altura. Sua extração indiscriminada e sua utilização em todo o país para a confecção de vasos, suportes ou substrato, praticamente levaram a sua quase extinção. A espécie consta da lista oficial das espécies brasileiras ameaçadas de extinção (IBAMA) e sua extração é proibida por Lei federal. Consta que os orquidófilos foram os primeiros a usar o xaxim para o cultivo de orquídeas. Posteriormente, o xaxim também foi o vaso preferido para o plantio da samambaia, planta ornamental que necessita de muita umidade. Por ser mais barato do que os vasos de barro, passou a ser consumido em larga escala, dentro e fora das residências.

Escolher um vaso ou qualquer outro vasilhame de plástico do tamanho que desejar o produto final. O tamanho médio de um xaxim é de 15 cm de diâmetro e 12 cm de altura. Colocar um material cilíndrico no centro do vaso (uma garrafa PET pequena ou tubo de PVC) e preencher ao redor com substrato. Pode ser húmus de minhoca ou húmus vegetal. O pesquisador lembra que é preciso cuidado na utilização de substrato à base de húmus de minhoca ou qualquer outro de origem animal para que o produto final não carregue patógenos para dentro das residências. Por isso a Embrapa usa substrato de origem vegetal.

NATIA ELEN AURAS / EMBRAPA AGROINDÚSTRIA

O que é o xaxim?

1

Resultado final após o plantio de violetas (foto maior na abertura do artigo).

Esta tecnologia de produção do xaxim agroecológico por enraizamento foi desenvolvida e está sendo aperfeiçoada pela Embrapa Agrobiologia. Para mais informações sobre o método de produção do xaxim agroecológico, basta entrar no site da Embrapa Agrobiologia: www.cnpab.embrapa.br A Lavoura NO 690/2012 73

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Fungo X Vassoura-de-bruxa

CACAU

Pulverização do Tricovab® sobre as vassouras-de-bruxa removidas e deixadas na serrapilheira dos cacaueiros

Liberado primeiro BIOFUNGICIDA contra a vassoura-de-bruxa do cacaueiro JOÃO

DE

C ÁSSIA

DO

BOMFIM C OSTA

ENGENHEIRO AGRÔNOMO, DOUTOR EM FITOPATOLOGIA, PESQUISADOR DO CENTRO DE PESQUISAS DO CACAU (CEPEC/CEPLAC/MAPA)

O

Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) acaba de conceder o registro definitivo do primeiro fungicida microbiológico para combater o fungo Moniliophthora perniciosa, agente causal da vassoura-de-bruxa do cacaueiro. Desenvolvido pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC/MAPA), o Tricovab®, nome dado ao biofungicida, é fruto de pesquisas iniciadas na década de 1970 no Pará e consolidadas na Bahia, a partir dos anos 90.

A vassoura-de-bruxa é considerada uma das mais devastadoras enfermidades do cacaueiro. Quando não é controlada corretamente, pode causar perdas de até 90% na produção de frutos em plantios comerciais na Amazônia. Na Bahia, principal região produtora do Brasil, esta enfermidade foi registrada, pela primeira vez, em 1989, e se disseminou por toda a lavoura cacaueira, com impactos econômicos, ambientais e sociais. De importante exportador, o país passou a importar ca-

cau para manter abastecido o parque moageiro.

Estágios O fungo Moniliophthora perniciosa desenvolve o seu ciclo de vida em dois estágios distintos: o primeiro, na forma parasítica, nos tecidos novos e vivos do cacaueiro, causando inchamentos, superbrotações e anomalias nos frutos e almofadas florais; e o segundo, na forma saprofítica, presente nos tecidos mortos, em

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CONTROLE BIOLÓGICO consequência do parasitismo desenvolvido pelo fungo no seu estágio anterior. É nesta fase de vida saprofítica do fungo que aparecem os basidiomas (cogumelos) e a produção de esporos, que são corpos microscópicos disseminadores da doença e, portanto, devem ser controlados.

Mercado Hoje, com uma produção de 235.389 toneladas, o Brasil é o sexto produtor mundial, responsável por 4,7% do mercado total. O Estado da Bahia responde por 63% da produção, seguido pelo Pará (25,3%), Rondônia (7,4%), Espírito Santo (2,6%), Amazonas (1,4%) e Mato Grosso (0,3%), segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A África — livre da doença — responde por cerca de 70% da produção mundial, dos quais 37% provêm da Costa do Marfim.

Biofungicida Composto pelo fungo Trichoderma stromaticum, o Tricovab® é uma importante opção para diminuir, ou até substituir, o uso de produtos químicos — pouco eficazes — no controle da doença, e preservar o meio ambiente. Ele impede a reprodução do agente causal da vassoura-de-bruxa porque hiperparasita o fungo que causa a doença, impedindo sua disseminação. A cada ano a incidência do fungo da vassoura-de-bruxa pode ser reduzida devido à competição natural com o Trichoderma stromaticum. Em experimento realizado no sul

da Bahia, pela Ceplac (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira), foi verificado que a aplicação do Trichoderma stromaticum reduziu em 87% a emissão de novos basidiomas (cogumelos) do fungo Moniliophthora perniciosa, nas vassouras secas removidas durante a poda fitossanitária e deixadas na serrapilheira.

Fruto maduro e sadio de cacaueiro

O fungo biocontrolador — Trichoderma stromaticum — é produzido em grãos de arroz inoculados e fermentados para promover sua multiplicação na superfície dos grãos. O Tricovab® será comercializado em pacotes de dois quilos e deve ser misturado à água até o volume de 320litros/ha. A calda resultante deve ser aplicada nas vassouras-de-bruxa presentes na serrapilheira dos cacaueiros durante o período chuvoso (de maio a agosto na região cacaueira do sul da Bahia), após a remoção das vassouras e dos frutos doentes na poda fitossanitária, em dias de umidade relativa alta (acima de 80%).

Manejo integrado A eficácia do biofungicida no controle da doença depende do manejo integrado de práticas, que incluem,

principalmente, a utilização de material genético resistente à vassoura-de-bruxa, e a poda fitossanitária. Para promover o controle da doença, o programa de melhoramento genético do Cepec (Centro de Pesquisa do Cacau), unidade do Ceplac, vem distribuindo novos clones resistentes à doença, que podem ser plantados diretamente nas lavouras ou enxertados em cacaueiros adultos, que ocupam 150 mil hectares na Bahia. O material genético, melhorado ao longo de anos, é resistente, mas não imune à doença. A vantagem é que a cultura passa a conviver com a vassoura-de-bruxa. Já a poda fitossanitária é importante para conter a disseminação da doença, por meio da eliminação de ramos e frutos infectados pelo patógeno.

Basidioma (cogumelo) do fungo Moniliophthora perniciosa, agente causal da vassoura-de-bruxa do cacaueiro

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CONTROLE BIOLÓGICO

O Tricovab® vem complementar o manejo integrado, permitindo ao cacauicultor conviver com a doença com menor impacto ambiental, e de forma economicamente viável.

Cabruca O sistema de produção característico do sul da Bahia — conhecido como Cabruca — é sustentável, pois integra o cultivo do cacaueiro ao sub-bosque da floresta tropical úmida da Mata

Atlântica. Implantada de forma descontínua, a lavoura fica protegida pela vegetação natural, sem prejudicar o equilíbrio entre a flora e a fauna no bioma. Esse sistema de cultivo é um dos responsáveis pela manutenção dos remanescentes de Mata Atlântica na região.

Recorde mundial

Poda fitossanitária (remoção dos ramos, frutos e almofadas florais atacadas pelo fungo Moniliophthora perniciosa)

O equilíbrio no sistema de produção Cabruca traz resultados que podem ser considerados um recorde mundial. Em um hectare, foram identificadas 458 espécies de lenhosas, 270 espécies de mamíferos (dos quais 90 endêmicos), 372 espécies de anfíbios, 197 espécies de répteis, 849 de aves (sendo 188 endêmicas) e 2.120 espécies de borboletas (948 endêmicas).

A Ceplac e o Ministério da Agricultura esperam que o biofungicida, uma das mais importantes conquistas do ponto de vista agroambiental, venha agregar valor ao cacau produzido na Bahia. A valorização desse produto — diferenciado e sustentável — que converge com a exigência do novo mercado consumidor de produtos livres de agrotóxicos, pode favorecer a conquista de um importante selo ecológico. FOTOS:JOÃO DE CÁSSIA DO BOMFIM COSTA

Fruto de cacau sadio (esq.) e atacado pela vassoura-de-bruxa (sequência)

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invadem as lavouras E leita pela revista americana especializada em inovação e tecnologia “FastCompany” uma das 50 empresas mais inovadoras do mundo em 2012, a BUG/PROMIP, de Piracicaba (SP), vem se destacando no desenvolvimento do controle biológico de pragas em larga escala. Nascida nas incubadoras da ESALQ/USP, a empresa produz predadores naturais e parasitas, como ácaros e vespas. Para combater as principais pragas das lavouras de soja e cana, por exemplo, é usada a vespa do gênero Trichogramma spp., que parasita ovos de mariposas e borboletas, impedindo o surgimento das lagartas que atacam as lavouras. A empresa também multiplica ácaros que se alimentam dos ovos e larvas das pragas que atacam, principalmente, hortas, pomares e flores. O controle biológico desenvolvido pela BUG/PROMIP utiliza insetos predadores e/ou parasitas para combater outros insetos nocivos às plantações (pragas). Ao substituir os defensivos químicos, além de preservar a saúde do produtor — que deixa de lidar com produtos tóxicos — e o meio ambiente, evita a contaminação das lavouras, dos recursos hídricos e do consumidor final, que poderia ingerir um produto com algum resíduo de defensivo. Ideal, portanto, para os produtores de orgânicos. E é exatamente para essas lavouras que a empresa registrou o Neomip — ácaro predador Neoseiuluscalifornicus, recomendado para o controle natural do ácaro rajado em diversas culturas orgânicas. O engenheiro agrônomo e doutor em entomologia Marcelo Poletti, um dos diretores da BUG/PROMIP, ressalta outra importante vantagem do controle biológico: a praga não fica resistente ao predador, como ocorre no caso dos inseticidas. Quanto à eficiência, ele ressalta que é exatamente a mesma do controle químico. Já o custo do controle biológico é igual ao da aplicação de agrotóxicos na primeira utilização, mas, considerando todo o ciclo da cultura, a economia pode ser de 30 a 40%.

RONAN AQUINO MILHOMEM

INIMIGOS NATURAIS

Liberação das vespas do gênero Trichogramma spp. na lavoura de cana-de-açúcar

Multiplicação Os organismos produzidos nas biofábricas da BUG/ PROMIP são obtidos a partir de processo de multiplicação natural e possuem registro no Ministério da Agricultura, na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e no Ibama. Já estão sendo utilizados por pequenos, médios e grandes produtores em 500 mil hectares de plantações de cana-de-açúcar nos estados de São Paulo, Mato Grosso e Goiás, segundo estimativas da empresa. O produto Tricobug (Trichogrammagalloi) é transportado em pequenas cartelas de papelão, que devem ser colocadas diretamente na lavoura, contendo de 50 mil a 100 mil ovos de vespas. Quando as vespas nascem, o controle das pragas ocorre naturalmente. Já o ácaro Neomip é levado em frasco plástico misturado a um material inerte para condicionamento, feito com casca de arroz e vermiculita, contendo de 500 a 2.000 predadores. Marcelo Poletti também é diretor da Associação Brasileira de Controle Biológico (ABCBIO), entidade que já possui mais de 19 empresas associadas. A maioria delas, no entanto, trabalha com a produção de fungos e bactérias. Apesar de o controle biológico ainda representar apenas 1% do mercado de defensivos químicos, o método, que já está atraindo o interesse e investimento de grandes multinacionais, deverá ter um crescimento cada vez maior, proporcional ao conhecimento e conscientização de sua importância pelo produtor. “Muitos agricultores nunca imaginaram que os insetos poderiam ter essa função. Estão descobrindo isto agora”, explica o agrônomo.

Tricho helicoverpa, Trissolcus basalis e adulto de Cotesia flavipes parasitando a broca-de-cana. Três diferentes inimigos naturais de pragas comuns na lavoura

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EMBRAPA ACRE

AMAZÔNIA

Extração do óleo de copaíba

Manejo sustentável de PRODUTOS FLORESTAIS O objetivo da Rede Kamukaia é o fortalecimento de pesquisas regionais sobre estudos ecológicos de espécies florestais da região amazônica

A

valorização de produtos florestais não-madeireiros com manejo sustentável é uma alternativa para que as populações tradicionais possam obter rendimentos a partir de produtos da floresta, sem derrubá-la, e assim permanecer em suas áreas de origem, tendo geração de renda e contribuindo com a conservação da floresta amazônica e com o desenvolvimento regional. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) realiza o projeto Kamukaia para estudo e manejo sustentável de produtos florestais não-madeireiros, com enfoque em estudos ecológicos e experimentos de manejo com a castanha-do-brasil, andiroba, copaíba, cipó-titica e babaçu. O objetivo do projeto Kamukaia é consolidar informações sobre ecologia e manejo de espécies florestais de uso não-madeireiro na Amazônia, que auxiliem na recomendação de práticas de manejo sustentável. O projeto é executado em uma rede de pesquisa criada pela Embrapa, coordenada pela Embrapa Acre, com participação das unidades da Embrapa Amazônia Ocidental (Amazonas), Embrapa Amapá, Embrapa Rondônia, Embrapa Roraima, Embrapa Amazônia Oriental (Belém/PA) e Embrapa Agrosilvipastoril

(Sinop/MT), além de cooperativas de extrativistas, universidades e instituições de assistência técnica.

Kamukaia O nome do projeto — Kamukaia — é inspirado nas palavras Kamuk e Aka, cujo significado para a etnia indígena Wapixana, que vive no estado de Roraima, significa ‘produtos da floresta’. “Entre os objetivos da Rede Kamukaia estão o fortalecimento de pesquisas regionais sobre estudos ecológicos de espécies florestais. Por isso, montamos uma estrutura em rede, para podermos comparar resultados e trocar experiências das diferentes regiões da Amazônia”, afirma a pesquisadora da Embrapa Acre, Lúcia Helena Wadt. Para recomendar técnicas de manejo sustentável, há necessidade de conhecimentos básicos sobre ecologia das espécies florestais. Os primeiros resultados do projeto mostraram que uma mesma espécie pode ter características e comportamentos ecológicos diferenciados, em função da região de ocorrência e que as regras de manejo ou as previsões de produção podem ser diferentes.

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O manejo sustentável dos frutos da andiroba (detalhe) é um dos focos do Projeto Kamukaia

Pesquisadores da Rede Kamukaia também estão colaborando para a definição das diretrizes de manejo no Plano Nacional de Promoção das Cadeias de Produtos da Sociobiodiversidade, que define os produtos prioritários para a Amazônia e formaliza a política de comercialização, centrada na produção e extrativismo sustentáveis, aperfeiçoamento de processos industriais e no mercado diferenciado. O pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental, Nestor Lourenço, destaca que uma característica do projeto é valorizar o intercâmbio de saberes e, em toda a região norte, as atividades são realizadas em áreas extrativistas, em contato direto com as populações que convivem com a floresta. “É preciso reconhecer o papel importante dos extrativistas que, durante séculos, tiram produtos da floresta, mantendo-a em pé para a conservação da Amazônia”, afirma o pesquisador. “Porém, para atender a uma demanda crescente por esses produtos em mercados diferenciados, e fazer com que o uso sustentável da biodiversidade amazônica possa viabilizar a inserção socioeconômica dessas populações tradicionais, é preciso associar o conhecimento científico ao conhecimento tradicional para promover o manejo e uso sustentável desses produtos”, complementa.

LUCIA WADT / EMBRAPA ACRE

EMBRAPA ACRE

Produtos prioritários

AMAZÔNIA

SÍGLIA REGINA - EMBRAPA AMAZÔNIA OCIDENTAL E PRISCILA VIUDES – EMBRAPA ACRE

SIGLIA SOUZA / EMBRAPA ACRE

EMBRAPA ACRE

Manejo sustentável da castanha-do-brasil (detalhe), natural da floresta amazônica (abaixo)

A Lavoura NO 690/2012 79

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EMPRESAS COCA-COLA BRASIL

TORÇA APÓS O USO A Coca-Cola Brasil lançou a Crystal eco, uma nova embalagem para sua água mineral, que utiliza até 30% de matéria-prima originária do etanol da cana-de-açúcar e reduz em 20% o PET das versões anteriores. A tecnologia, conhecida como PlantBottle, reduz em 25% as emissões de CO2. Devido ao seu peso reduzido (12g), a garrafa é mais flexível e pode ser facilmente torcida, o que diminui o seu tamanho original em até 37% e, consequentemente, o volume de lixo produzido, facilitando a coleta e o processo de reciclagem.

100% reciclávéis Também chamada de crushable, a Crystal eco é fabricada através do processo de sopro convencional, mas com pré-formas com base diferenciada, de modo que a distribuição e estrutura da garrafa garantam performance mecânica. A campanha publicitária do novo lançamento convida os consumidores a torcerem as garrafas após o consumo para facilitar transporte e armazenagem das embalagens 100% recicláveis.

ATTA-KILL

Crystal eco: embalagem com 30% do etanol da cana-de-açucar

CONTROLE DE FORMIGA É UMA DAS GRANDES DEMANDAS DO SETOR FLORESTAL A formiga é uma das principais pragas das reflorestadoras, consumindo grande parte do custo de produção. A Atta-Kill – fabricante da isca formicida MirexS Max –, tem novas tecnologias e inovações para o manejo de formigas cortadeiras no setor florestal. “Hoje, o controle das formigas cortadeiras com eficiência, baixo impacto ambiental, que otimize as operações de aplicação com custos operacionais reduzidos, são as grandes demandas do mercado florestal. A metodologia de controle através de Iscas Granuladas, vem ao encontro dessas necessidades do setor, sendo a metodologia em uso em todas as áreas de florestas plantadas”, explica Augusto Tarozzo, gerente técnico da Atta-Kil.

Formigueiro Segundo Marina Viotto, assistente técnica de produto da Atta-Kill, em sua fase adulta, um formigueiro de saúvas abriga até 5.000.000 de formigas, que consomem 1 tonelada de folhas por ano, o equivalente a 86 árvores adultas de Eucalipto. “Estes números retratam bem a demanda das reflorestadoras. O uso das iscas Mirex-S avança em crescimento neste setor, em função de sua qualidade e eficiência comprovadas”, afirma Marina.

NOVOZYMES

Iscas Mirex-S Max para controle de formigas cortadeiras no setor florestal

FERTILIZANTE BIOLÓGICO As empresas Novozymes e Syngenta anunciaram um acordo global, segundo o qual, a Syngenta JumpStart: culturas mais saudáveis trabalhará com a Novozymes na comercialização da tecnologia JumpStart, um produto biológico aplicado às sementes que aumenta a solubilização dos fosfatos no solo. Juntas, as duas empresas desenvolverão o mer80 A Lavoura NO 690/2012

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cado para o JumpStart, em associação ao portfólio de tratamento de sementes da Syngenta em cultivos aráveis, incluindo cereais e milho. JumpStart, Penicillium bilaii, é um inoculante fosfatado que cresce juntamente com as raízes, disponibilizando mais solo e fertilizante fosfatado para a planta, proporcionando culturas mais saudáveis e maiores rendimentos líquidos. JumpStart está disponível para milho, canola, trigo, leguminosas e outras culturas. O Fósforo é um macronutriente essencial para o crescimento saudável de plantas jovens. JumpStart contém Penicillium bilaii, um fungo único que aumenta a solubilização dos fosfatos para absorção pela planta através das raízes. Estima-se que o potencial de mercado para as tecnologias aplicadas às sementes, que aumentam a eficiência de uso dos fosfatos, seja superior a 100 milhões de dólares.

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MANEJO DE RESERVAS NATURAIS

NATURALMENTE SUSTENTÁVEL

JOSE PAIVA

A Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza está disponibilizando ao público em geral os planos de manejo das suas duas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs): Reserva Natural Salto Morato, no bioma da Mata Atlântica; e Reserva Natural Serra do Tombador, no Cerrado. O diferencial dos planos de manejo das duas RPPNs é o manejo adaptativo, ferramenta ainda pouco conhecida no Brasil que vem sendo utilizada por ONGs conservacionistas e pesquisadores para focar alvos de conservação de biodiversidade. “A incorporação do manejo adaptativo, como ferramenta de planejamento, permite a agilidade necessária para rapidamente adequarmos posturas frente às adversidades ou oportunidades que surjam ao longo do caminho”, explica o coordenador de Áreas Protegidas da Fundação Grupo Boticário, Gustavo Gatti. Segundo definição da organização internacional Foundation of Success (FOS), o manejo adaptativo integra planejamento, administração e monitoramento, de forma a testar suposições, adaptar-se aos resultados e aprender com eles. O plano de manejo é uma exigência do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) para toda unidade de conservação. “É um documento técnico que indica como a unidade de conservação será manejada, ou seja, que interferências podem e devem ser feitas na área para que ela cumpra os seus objetivos”, esclarece a diretora executiva da Fundação Grupo Boticário, Malu Nunes. Para as RPPNs da fundação, os planos definem t a m -

EMPRESAS

Cachoeira na Reserva Natural Salto Morato

bém seus principais objetivos, sua visão de futuro, relacionando seus zoneamentos e planejamentos de médio e longo prazos.

Patrimônio Natural da Humanidade Criada em 1994, a Reserva Natural Salto Morato está localizada em Guaraqueçaba, litoral do Paraná, e é considerada Patrimônio Natural da Humanidade pela Unesco. Seu plano de manejo foi atualizado em 2011 e o documento final aprovado pelo ICMBio, em março de 2012. A Reserva Natural Serra do Tombador, localizada em Cavalcante, interior de em Goiás, contribui para a proteção do entorno do Parque Nacional Chapada dos Veadeiros. Foi criada em 2007, reconhecida como RPPN em 2009, e teve seu primeiro plano de

to da venda de refis para a reposição de produtos cosméticos, em 1983. Um conceito que tanto poupa a indústria de produzir outra embalagem como a original cada vez que o consumidor adquire novamente o mesmo produto, quanto é uma forma de o consumidor economizar, pagando menos pela reposição.

NATURA ERVA DOCE

Com sua imagem vinculada à sustentabilidade desde sua fundação, há 42 anos, a Natura vem, aos poucos, substituindo suas embalagens tradicionais pelas feitas com material sustentável ou reciclado. Para isso, Plástico verde a empresa vem promovendo a substituição de matérias-primas A novidade da utilização do pláspara poupar recursos não reno- Embalagem em tico verde tem o objetivo de reduzir em váveis, como o petróleo. Em “plástico verde” 33% as emissões relativas de CO² até 2010, em parceria com a o fim de 2013, conforme compromisso Braskem, a Natura lançou o prifirmado em 2010 entre a empresa e o promeiro refil feito a partir do polietileno vergrama Defensores do Clima, do WWF-Brade para o sabonete cremoso de Erva sil. Outra medida importante adotada para Doce. reduzir emissões, foi passar a utilizar gás naSegundo Victor Fernandes, diretor de tural veicular (GNV) nos veículos da frota de Ciência & Tecnologia, Ideias e Conceitos distribuição da indústria na Grande São Pauda Natura, a escolha da linha Erva Doce lo, desde 1997. para o início da utilização do plástico verA linha Natura Ekos, lançada em de deveu-se a um importante anteceden2000, baseou-se no conhecimento das te: a linha foi a primeira a adotar o conceitradições populares relacionadas aos ati-

manejo aprovado em dezembro de 2011. Para se elaborar um plano de manejo consistente, são necessários diversos estudos técnicos, visando ao diagnóstico multidisciplinar do meio físico e da biodiversidade local. Tais estudos podem encarecer e dificultar sua elaboração, compromisso do proprietário para cumprir o uso e manejo adequados de suas reservas. Sabendo dessas dificuldades, a Fundação Grupo Boticário financia a elaboração e/ ou implementação de planos de manejo para RPPNs, em todo território nacional, por meio dos seus editais semestrais de apoio a projetos de conservação da natureza. Os planos de manejo estão disponíveis na internet no endereço www.fundacao grupoboticario.org.br/pt-br/paginas/novidades/detalhe/default.aspx?idNovi dade=327

vos da biodiversidade brasileira. Os produtos – para os cabelos e corpo – passaram a agregar maior percentual de óleos 100% vegetais, extraídos de matérias-primas como castanha, cacau, andiroba, cupuaçu, pitanga, entre outras. A linha passou a tratar cada ingrediente a partir dos usos e as práticas há gerações. As embalagens e os rótulos destacam as propriedades naturais e características de cada ativo, informações sobre tecnologia verde e histórias e tradições que envolvem os ativos e as comunidades parceiras. Uma das mais importantes decisões de cunho ambiental tomada pela Natura, no entanto, foi a substituição dos os insumos tradicionais de origem mineral (como derivados de petróleo) e animal na formulação dos produtos por matérias-primas vegetais, em 2005. Desde 2007 a empresa também neutraliza suas emissões e agrega dados técnicos sobre a composição nas embalagens dos produtos, desde a escolha e obtenção da matéria-prima até a origem e o descarte da embalagem no meio ambiente. A Lavoura NO 690/2012 81

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PRISCILA VIUDES

AMAZÔNIA

Embrapa Informática Agropecuária (Campinas/SP) — oferece informações validadas da pesquisa agropecuária desenvolvida pela Embrapa e parceiros sobre manejo florestal empresarial, manejo florestal comunitário e manejo florestal não madeireiro. Para o pesquisador da Embrapa Acre, Luís Cláudio de Oliveira, um dos autores da AC Manejo Florestal, a publicação é uma oportunidade de divulgação dos modelos de manejo florestal para um público amplo e em ambiente web. “Normalmente, as florestas são reconhecidas pelo seu papel ambiental e social. A Árvore do Conhecimento do Manejo Florestal é uma forma de destacar o valor econômico da floresta e, como a pesquisa científica, tem contribuído para o uso sustentável desse recurso natural e abundante no país”, afirma.

Sistema Plantio Direto

Novas Árvores do Conhecimento Manejo florestal: redução das taxas de emissão de CO²

E

m sintonia com a agenda mundial para o desenvolvimento sustentável da Rio+20, a Embrapa lançou duas novas ‘Árvores do Conhecimento’ (AC) temáticas na Agência de Informação Embrapa: a AC Sistema Plantio Direto e a AC Manejo Florestal. O objetivo é intensificar os esforços para a mitigação dos riscos ambientais e reduzir as emissões de gases de efeito estufa — principalmente do gás carbônico (CO²) — bem como do uso de combustíveis fósseis. Florestas manejadas resultam na diminuição das taxas de emissão de gás carbônico (CO²), na redução do desmatamento e, consequentemente, em aumento do florestamento em função da maior produção por área e tempo de residência dos estoques de carbono. Nos últimos anos, o manejo florestal tem também representado uma oportunidade de negócios.

Manejo Florestal A nova Árvore do Conhecimento Manejo Florestal — resultado da parceria entre a Embrapa Acre (Rio Branco/AC), a Embrapa Informação Tecnológica (Brasília/DF) e a

O Plantio Direto começou a ser desenvolvido no Brasil na década de 1970, evoluindo nos anos 1990 para o chamado Sistema Plantio Direto — a forma de gestão mais conservacionista da propriedade agrícola. Esse método é baseado no uso permanente da cobertura do solo com espécies diversificadas, mediante o uso simultâneo de todas as técnicas de conservação de solo e água, com ênfase para a consorciação e a rotação de culturas. Protegido da erosão, o solo responde com incrementos de teores de matéria orgânica e nutrientes, bem como com aumento da infiltração e do armazenamento de água. Com isso, a produtividade agrícola aumenta enquanto a natureza é preservada. A Árvore do Conhecimento Sistema Plantio Direto oferece aos usuários — produtores, extensionistas, técnicos, agentes de pesquisa, estudantes e outros interessados nas atividades agropecuárias — técnicas de exploração conservacionista para seu empreendimento rural. O editor técnico da árvore, Luís Carlos Hernani, destaca as principais vantagens do plantio direto: aumento da estabilidade econômica do empreendimento rural, com a melhoria da fertilidade do solo; uso mais adequado de insumos; redução do custo de manutenção de máquinas; proteção contra erosão e perda de água.

Agência de Informação Embrapa A Agência de Informação Embrapa é um banco de informações tecnológicas com foco em agropecuária, disponível na internet para um público diversificado. São organizadas de forma hierárquica numa estrutura ramificada denominada Árvore do Conhecimento. Compostas de nós e subnós, abrangem as fases de pré-produção, de produção e de pós-produção, além de recursos de informação na íntegra — texto, áudio, vídeo e ilustrações — possibilitando o aprofundamento nos temas conforme a necessidade de cada leitor. Para conhecer as 30 árvores do conhecimento temáticas sobre diversos cultivos e criações basta acessar: www.embrapa.br/agencia SELMA BELTRÃO - EMBRAPA INFORMAÇÃO TECNOLÓGIC

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A Lavoura

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A Lavoura 690  

Edição Especial: Sustentabilidade

A Lavoura 690  

Edição Especial: Sustentabilidade

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