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A VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA INTRAFAMILIAR CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES E O PSICODRAMA TRIÁDICO1 THE INTRAFAMILIAR PSYCHOLOGICAL VIOLENCE AGAINST CHILDREN AND ADOLESCENTS AND THE TRIADIC PSYCHODRAMA SELVA RIOS CAMPELO2

Resumo: Este trabalho procura conhecer a concepção de Violência Psicológica Intrafamiliar e, também, compreender como a dinâmica familiar influencia na aprendizagem de papéis espontâneos ou cristalizados em padrões repetitivos e inadequados. Além disso, busca discorrer sobre os fundamentos do Psicodrama Triádico, e como essa abordagem psicoterapêutica pode contribuir na superação das dificuldades apresentadas por pessoas que vivenciaram ou vivenciam Violência Psicológica Intrafamiliar. Palavras-chave: Violência Psicológica Intrafamiliar, Grupo Espontaneidade, Psicodrama Triádico.

Familiar,

Papel,

Abstract: This paper aims to explore the concepts behind Intrafamiliar Psychological Violence and to understand how family dynamics influence role learning, which might be either spontaneous or stagnated within repetitive and inadequate patterns. Additionally, we expose the fundamentals of the Triadic Psychodrama and how this psychotherapeutic approach might help people who lived or are living through Intrafamiliar Psychological Violence to overcome arising difficulties. Keywords: Intrafamiliar Psychological Violence, Familiar Groups, Role, Spontaneity, Triadic Psychodrama.

Introdução Este estudo procura inicialmente apreender a concepção de violência desenvolvida por teóricos como: Arendt (2001); Bourdieu (2007); Ferrari (2002), e, também, de Violência Psicológica abordada por Assis; Avanci (2005), Maldonado (2004) e outros. 1

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Este artigo origina-se do trabalho monográfico denominado Violência Psicológica Intrafamiliar Contra Crianças e Adolescentes: Um Estudo de Caso, apresentado ao Instituto Brasileiro de Psicanálise, Dinâmica de Grupo e Psicodrama-SOBRAP, em 2011. Especialista em Psicodrama Triádico pela SOBRAP, graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás - PUC/GO.


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Em segundo, com base em Ferrari (2002), Moreno (1974; 1978), Osório (2002), e outros teóricos, busca entender como a dinâmica familiar influencia na aprendizagem de papéis que podem ser exercidos tanto de forma positiva (livre, espontânea) como negativa (dificuldade à interação social, cristalização de comportamentos inadequados, violentos). Por último, põe em evidência a base teórica do Psicodrama Triádico através de Schutzenberger; Weil (1977), e de que forma esta linha psicoterapêutica pode contribuir na superação das consequências sofridas por pessoas que vivenciaram ou vivenciam essa forma de violência. Entendemos, em primeiro lugar, que tal reflexão torna-se pertinente em virtude de o fenômeno objeto do presente artigo constituir-se num dos graves problemas que vêm permeando as sociedades atuais. Em segundo, por compreendermos que a discussão em torno dessa temática, talvez, contribua para alimentar o debate sobre a violência, trazendo possibilidades de confrontação através do Psicodrama Triádico. 1 A Violência e o Fenômeno da Violência Psicológica Intrafamiliar Contra Crianças e Adolescentes Frente à complexidade do fenômeno da Violência Psicológica Intrafamiliar contra crianças e adolescentes torna-se necessário para seu entendimento que busquemos inicialmente a compreensão do fenômeno da violência de forma mais ampla, aproximando-nos, então, de teóricos que buscaram compreendê-lo no seu campo de conhecimento específico. Em sua obra, intitulada Sobre a Violência (2001), a filósofa Hannah Arendt afirma ser um triste reflexo do atual estado da ciência política não se fazer distinção entre palavras-chave tais como poder e violência. Essas palavras deixam de ser tomadas como sinônimos, expõe essa autora, quando os assuntos políticos deixam de ser reduzidos à questão do domínio. Nessa perspectiva, ela apresenta a seguinte distinção para tais vocábulos: O poder corresponde à habilidade humana não apenas para agir, mas para agir em concerto. O poder nunca é propriedade de um indivíduo; pertence a um grupo e permanece em existência apenas na medida em que o grupo conserva-se unido. [...] a violência,


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distingue-se por seu caráter instrumental. Fenomenologicamente3, ela está próxima do vigor natural (ARENDT, 2001, p. 36-37).

Na concepção da autora, segundo Duarte (2001), a utilização dos termos como similares conduz as relações de poder a traduzirem-se “[...] na linguagem da ‘dominação’ e da submissão; em suma, na ênfase unilateral depositada no pólo da ‘obediência’ garantida pela sombra da violência” (DUARTE, 2001, p. 84). Para Duarte (2001), ao interpretar Hannah Arendt, o poder ancora-se no apoio e, mais diretamente, na quantidade daqueles que conferem a ele o seu consentimento, e não nos meios de violência de que dispõe. A violência, pelo contrário, é um mero instrumento destinado ao alcance de um fim predeterminado e, por isso, necessita de justificação pelo fim que busca e não pode ser a essência de nada. Na verdade, a violência pode contrapor-se ao poder, destruindo-o. “A violência aparece onde o poder está em risco, mas deixado a seu próprio curso, ela conduz a desaparição do poder” (ARENDT, 2001, p. 44). Apesar desse posicionamento da autora, Duarte (2001) nos adverte que o pensamento Arenditiano não se detém na distinção radical entre poder e violência. Além disso, ele expõe que em toda obra Arenditiana não se encontra presente negação total da violência, ou mesmo a ideia da possibilidade de haver uma sociedade “pacífica e liberta de seus conflitos”. Até mesmo Arendt admite, diz ele, que “[...] em certas circunstâncias, a violência [...] é o único modo de reequilibrar as balanças da justiça. [...] O que se recusa é tomar a violência pelo que ela não seria, isto é, mais do que um instrumento” (DUARTE, 2001, p. 93). Entendemos a partir da reflexão de Arendt (2001), que violência e poder pertencem ao espaço político dos negócios humanos e, segundo a definição de poder proposta por essa filósofa, não basta habilidade humana para ação e para começar algo novo, mas essa ação deve ser realizada em conjunto, em concerto. Entendemos, também, que apesar de a violência ser uma forma de ação, ela normalmente ocorre quando não se está conseguindo um consenso e, mesmo que seja um instrumento efetivo para provocar mudanças, tais mudanças quase sempre geram um mundo mais violento, pois, para a autora, o exercício da “[...] violência, 3

A Fenomenologia é a ciência que consiste no seguinte: “Descrição daquilo que aparece ou ciência que tem como objetivo ou projeto essa descrição. [...] A fenomenologia [...] é uma ciência da essência (portanto éidética’) e não de dados de fato, possibilitada apenas pela redução eidética, cuja tarefa é expurgar os fenômenos psicológicos de suas características reais ou empíricas e leválos para o plano da generalidade essência (ABBAGNANO, 1999, p. 438).


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como toda ação, muda o mundo, mas a mudança mais provável é para um mundo mais violento” (ARENDT, 2001, p. 58). Essa é, então, a visão filosófica da autora sobre a violência. Vejamos agora o olhar lançado a este fenômeno pelo sociólogo Pierre Bourdieu. Este autor é considerado um dos grandes sociólogos da atualidade e abordou, exaustivamente em sua obra, temas relativos à dominação, tais como o poder e a violência em sua forma simbólica. Para Bourdieu (2007), no mundo social, vê-se o poder em toda parte, mas existe uma forma especial pelo qual ele se manifesta, isto é, através do poder simbólico, o qual não deve ser visto e, somente, pode ser exercido se for ignorado. “O Poder simbólico é [...] esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem” (BOURDIEU, 2007, p. 8). Na concepção de Bourdieu (2007), os sistemas simbólicos, tais como: a arte, o mito, a religião, a língua, a ciência são considerados, com base na tradição neoKantiana4, como instrumentos de conhecimento, comunicação e construção da realidade, exercendo, por isso, um poder estruturante sobre essa realidade. Porém, como afirma Bourdieu (2007), os sistemas simbólicos da mesma forma que são construtores da realidade, conforme exposto acima, são também construídos ou estruturados a partir dessa realidade. Esse autor expõe que os símbolos, como instrumento de integração social e, principalmente, pela sua função política privilegiada pela perspectiva Marxista, podem servir aos interesses da classe dominante legitimando a ordem estabelecida. Ou seja, pelo que expõe o autor, a realidade que foi construída pelos sistemas simbólicos pode também influenciar esses sistemas. E essa influência é exercida pela classe dominante para legitimação da ordem estabelecida através de distinções hierárquicas, favorecendo àqueles que pertencem a essa classe, porém de forma dissimulada, pois tal distinção não é percebida. E, aí, nos deparamos com a ideia da violência simbólica. Nessa

perspectiva,

Bourdieu

(2007)

expõe

que,

nas

relações

de

comunicação, o discurso dominante serve como intermediário entre as partes envolvidas e tende a impor a percepção da ordem estabelecida como natural, 4

Para o autor os neo-Kantianos são: “Humboldt-Cassirer ou, na variante americana, Sapir-Whorf para a linguagem” (BOURDIEU, 1989, p. 8).


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através da imposição dissimulada de sistemas de classificação que se reproduzem de forma irreconhecível na estrutura social e, especialmente, na divisão do trabalho. Percebemos, então, que a força dos sistemas simbólicos se deve ao fato de serem irreconhecíveis as relações de força que se exprimem nesses sistemas, sendo a crença na legitimidade das palavras e daqueles que as pronunciam o que possibilita a imposição de uma ordem. E Bourdieu (2007) nos fala, por fim, que o poder simbólico é esse “[...] poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), [...], só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário” (BOURDIEU, 2007, p. 14). Esta conclusão nos esclarece como o poder simbólico realmente só pode ser exercido se ignorado, pois é esta ignorância que possibilita a violência simbólica, ou seja, o indivíduo ver como se fosse “natural” as representações ou as ideias sociais dominantes. Daí, a relevância do pensamento bourdieusiano para compreendermos os efeitos simbólicos da violência nas relações sociais. Tanto pelos estudos de Hannah Arendt quanto de Pierre Bourdieu constatamos que o fenômeno da violência está sempre associado à questão do poder e nesse sentido, como vimos anteriormente, Arendt (2001) nos adverte acerca da importância de se considerar a violência como um instrumento de dominação usado quando o poder está em risco e não como um fenômeno natural. Contudo, para a psicóloga psicodramatista Rodrigues (2002), não se deve expulsar todo o mal, como a agressão, bem como todas as formas de destruição somente para o social, pois isso isentaria o homem de sua parte de responsabilidade. “O mais sábio é, como psicoterapeutas e estudiosos, permanecer no ‘entre’, na fronteira, mantendo duplo olhar em relação ao fenômeno da violência: no social e no individual” (RODRIGUES, 2002, p. 12). De acordo com Azevedo (2002), o fenômeno da violência consiste numa “[...] relação assimétrica (hierárquica) de poder com fim de dominação, exploração e opressão [...] causado por múltiplos e diferentes fatores sócio-econômico-culturais, psicológicos e situacionais” (AZEVEDO apud FERRARI, 2002, p. 81). Ferrari (2002) expõe que essa definição implica num modelo explicativo “multicausal” e numa abordagem “sociopsicointeracionista”, por meio da qual as condutas humanas são concebidas através da interação indivíduo-sociedade, o que significa que o âmbito psicológico será condicionado pelo social e esse condicionamento será produzido historicamente.


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Após estas explanações sobre a violência de forma geral focaremos agora a Violência Psicológica Intrafamiliar Contra Crianças e Adolescentes, objeto de nossa preocupação investigativa. O Ministério da Saúde, segundo Jorge; Souza (2005), adota uma terminologia oficializada nos seus documentos a qual classifica as violências como negligência, abuso físico, abuso sexual e abuso psicológico. A partir desta classificação, o abuso psicológico (ou violência psicológica) define-se como “[...] toda forma de rejeição, depreciação,

discriminação,

desrespeito,

cobranças

exageradas,

punições

humilhantes e utilização da criança ou do adolescente para atender às necessidades psíquicas do adulto” (JORGE; SOUZA, 2005, p. 25). Como já expusemos anteriormente, uma forma de violência entre classes sociais é a Violência Simbólica apresentada por Bourdieu (2007). Ela é uma forma de dominação que usa a força simbólica ao invés da força física. Assim é também a Violência Psicológica. A Violência Psicológica Intrafamiliar, assim como a “Violência Simbólica”, ocorre no sentido de favorecer posições hierarquizadas dentro da família, usando a força simbólica ao invés da força física. Nessa perspectiva, inferimos que, assim como a Violência Simbólica, a Violência Psicológica possui sua força na crença pela criança e adolescente da legitimidade das palavras pronunciadas pelos adultos responsáveis pela sua criação. Garbarino (2005) define a Violência Psicológica como: “[...] agressão de um adulto sobre o desenvolvimento do eu e da competência social de uma criança ou de um adolescente, configurando um comportamento psicologicamente destrutivo” (GARBARINO apud ASSIS; AVANCI, 2005, p. 59). Esse autor apresenta cinco formas de abuso psicológico (violência psicológica) praticado às crianças e adolescentes, quais sejam: rejeitar, isolar, aterrorizar, ignorar e corromper. Em relação ao ato de rejeitar, trata-se de situações em que o adulto se recusa reconhecer, valorizar e legitimar as necessidades infantis. No que se refere ao ato de isolar, o adulto leva a criança a acreditar que está só no mundo, impedindo-a de estabelecer amizades e outros relacionamentos. Concernente ao ato de aterrorizar, o adulto cria um clima de medo, fazendo a criança acreditar que o mundo é hostil e imprevisível. No tocante ao ato de ignorar, o adulto nega estímulo e responsabilidade para com a criança, dificultando tanto seu crescimento emocional quanto seu desenvolvimento intelectual. Por último, o ato de


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corromper, o adulto socializa a criança de forma errada, levando-a a se envolver em comportamentos impróprios para a vida social. Maldonado (2004) expõe que a violência psicológica ou abuso psicológico é uma forma de violência que ocorre nos lares onde há falta de amor e carinho e alta frequência de condutas abusivas, como: xingar, humilhar e agredir com palavras. Para Maldonado (2004), apesar de a violência psicológica ser o tipo menos reconhecido entre as violências que ocorrem na família, ela pode deixar marcas profundas no psiquismo da criança. O abuso psicológico referentes às formas de comunicação ‘demolidoras’ é o tipo menos reconhecido de violência, porque ‘o corpo não fica marcado e nenhum osso é fraturado’. No entanto, em conseqüência (sic) de ter sido xingada, humilhada, depreciada e rejeitada, a criança cresce com marcas profundas em seu psiquismo e com sua auto-estima gravemente fraturada (MALDONADO, 2004, p. 25).

Para Assis; Avanci (2005), a Violência Psicológica impede significativamente o

desenvolvimento

psicossocial

da

criança

e

do

adolescente.

“Afeta

o

desenvolvimento da auto-estima, do auto-conceito, da competência social e da capacidade da criança e do adolescente estabelecer relações interpessoais” (ASSIS; AVANCI, 2005, p. 59). Estas autoras afirmam que sofrer Violência Psicológica na família está associado com ser vítima de violência na comunidade e na escola. Após essas pontuações sobre a Violência Psicológica Intrafamiliar Contra Crianças e Adolescentes, passaremos então a buscar uma compreensão a respeito do grupo familiar e do desenvolvimento de papéis que podem ser exercidos de forma espontânea ou cristalizados em padrões repetitivos e inadequados. 2 Grupo Familiar e o Desenvolvimento de Papéis Espontâneos Grupos são unidades de duas ou mais pessoas empenhadas em recíproca interação psicológica, através das quais as ações numa sociedade são levadas a cabo. Há muitos tipos de grupos humanos. O grupo familiar, onde normalmente a vida começa para cada um de nós, é um grupo primário, ou seja, caracteriza-se pela associação e cooperação íntimas, interpessoais (ANDERSON; PARKER, s/d.). Para Osório (2002), a família é uma unidade grupal na qual se desenvolvem três

tipos

de

relações

pessoais:

aliança

(casal),

filiação

(pais/filhos)

e


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consanguinidade (irmãos). Para o autor, embora possamos enunciar a família como sendo a unidade básica da interação social, para uma visão amplificada, devemos situá-la em um contexto histórico-evolutivo no processo civilizatório, uma vez que através dos tempos a família desenvolveu funções diversificadas de transmissão de valores. Sobre esta perspectiva, expõe este autor que a família assegura a sobrevivência biológica da espécie, o desenvolvimento psíquico e a aprendizagem da interação social, não sendo possível dissociar a função biológica da função psicossocial da família. Continuando, este autor diz que a família é um “[...] grupo especializado na produção de pessoas com vínculos peculiares e que se constitui na célula primordial de toda e qualquer cultura” (OSÓRIO, 2002, p. 15). Moreno (1978) afirma que a matriz de identidade vivenciada na família, lócus de onde surgem os papéis e o eu, é a placenta social da criança, por isso, os primeiros vínculos dentro da matriz de identidade são muito importantes. Entendemos, a partir do autor, que há sempre uma expectativa de que esse primeiro grupo socializante, a família, permita o desenvolvimento da espontaneidade e da criatividade de seus membros. Para Ferrari (2002), além da procriação, da formação da personalidade e socialização primária, a família tem função de transmissão de hábitos, costumes, ideias, valores, padrões de comportamentos. A autora define a família como uma [...] instituição constituída por vários indivíduos que compartilham circunstâncias históricas, culturais, sociais, religiosas, econômicas e afetivas [...] como uma unidade social emissora e receptora de influências culturais, religiosas e de acontecimentos históricos (FERRARI, 2002, p. 89).

Assim, para esta autora o sistema comunicacional da família é próprio e sua dinâmica é determinada, pois, como afirma: “[...] a família constitui um espaço social distinto, na medida em que gera e consubstancia hierarquias de idade e sexo” (FERRARI, 2002, p. 88). Zimerman (2000) expõe que o grupo familiar tem uma importância profunda e decisiva na estruturação do psiquismo da criança, consequentemente, no desenvolvimento da personalidade do adulto e na formação de seus grupos


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internos5. Para este autor, os grupos internos do sujeito vão determinar a forma de interação e configuração das relações grupais e sociais com os outros grupos com os quais o sujeito irá conviver ao longo da vida. Segundo Osório (2002), a primeira e fundamental função psíquica da família é prover ao recém-nascido o alimento afetivo indispensável à sua sobrevivência emocional. Outra função psíquica da família é ser continente para as ansiedades existenciais durante o processo evolutivo do ser humano, assim também, como servir de modelo de identificação à descendência, das experiências de vivências individuais e coletivas. Mas como adverte Osório (2002), não são só os pais que influenciam ou determinam o comportamento dos filhos, pois a conduta destes também vai modificar e condicionar a atitude dos pais. Concluindo, Osório (2002) afirma que o objetivo maior da família, como célula mater, [...] é permitir o crescimento individual e facilitar os processos de

individuação e diferenciação em seu seio, ensejando, com isso a adequação de seus membros às exigências da realidade vivencial e o preenchimento das condições satisfatórias de convívio social (OSÓRIO, 2002, p. 22).

Considerando todas as argumentações sobre a estrutura e a função familiar, então, questionamos quais são as consequências em uma família que, ao invés de proporcionar aos seus descendentes um ambiente seguro e protegido, interage com dinâmica de violência? Na concepção de Ferrari (2002), isso torna a família disfuncional, ou seja, incapaz de favorecer um bom desenvolvimento biopsicossocial aos seus descendentes. Nessas famílias, a criança e o adolescente têm que se submeter ao abusador, o que desencadeia o medo e o desempenho inadequado de papéis sociais. Segundo Calvante (2002), a exposição constante à violência impede a criança de aprender o uso criativo da agressão, tendo como consequência respostas sempre submissas ou também violentas, o que a incapacita de defender-se e auto afirmar-se, o que pode levá-la a ser vítima desprotegida para o resto de sua vida. 5

“Grupo” irá designar também a forma e a estrutura de uma organização intrapsíquica caracterizada por ligações mútuas entre seus elementos constitutivos e pelas funções que desempenha no aparelho psíquico. De acordo com essa perspectiva, (o grupo se especifica como grupo interno), competindo à pesquisa descrever suas estruturas, funções e transformações. Esses grupos internos não são a simples projeção antropomórfica dos grupos intersubjetivos. Na concepção de Kaes, a grupalidade psíquica é uma organização da matéria psíquica.” (KAËS, 1997, p. 18).


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Outra consequência é a repetição provável do ciclo da violência com a geração futura e a elevação da Violência Social. Essa disfuncionalidade na família poderia ser confrontada se cada um dentro de um grupo familiar representasse o seu papel de forma adequada, pensando no bem do grupo e não somente em seus interesses particulares. Ou por outra, arenditianamente expressando, trata-se de lidar com o poder de forma a manter a orquestração (concerto) em favor do bem comum. Mas, o que vêm a ser o papel, como ele se desenvolve e qual a melhor forma de desempenhá-lo dentro e fora da família, são questões que abordaremos agora. Para Rubini (1995), os diversos autores e enfoques sobre o papel social convergem para a identificação do papel como: [...] padrão determinado de comportamento que reflete e caracteriza uma posição especial do indivíduo dentro do grupo social a que pertence. A organização articulada de papéis confere unidade ao grupo, faculta ao indivíduo atingir seus objetivos como pessoa e como integrante de uma coletividade (RUBINI, 1995, p. 2).

Ao interpretar Rocheblave-Spenlé, Rubini (1995) expõe que, para a autora, enquanto a maioria dos teóricos enfocou os papéis como “facilitadores das relações sociais” pela sua “previsibilidade” e por representarem “padrões de conduta aceitos”, Moreno preocupou-se mais com a possibilidade “espontânea e criativa” dos papéis que leva o homem a assemelhar-se a Deus, cujas ações são criadoras e espontâneas. A origem do conceito de papel, segundo Moreno (1978), não foi sociológica ou psiquiátrica, mas, sim, através da linguagem do teatro. Sendo assim, ele parte do teatro para o desenvolvimento de toda a sua teoria, que se firma no conceito de papel e de espontaneidade. Para Moreno (1978), o papel é sempre uma experiência interpessoal, que necessita de dois ou mais indivíduos para ser realizado, sendo os próprios papéis e suas relações entre si os fenômenos mais importantes de qualquer cultura específica. Moreno (1974) afirma que os pontos de cristalização que podemos perceber e que chamamos de eu são os papéis nos quais esse eu se manifesta, sendo mais simples falar dos “papéis” de uma pessoa que de seu eu ou “ego”. O “[...] ego tem


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significações secundárias misteriosas e metapsicológicas. O papel, no entanto, pode ser definido como a menor unidade de uma cultura” (MORENO, 1974, p. 57). Segundo Moreno (1978), o papel é anterior à linguagem e ao próprio ego. É o ego que emerge dos papéis e também é modificado por estes. “Os papéis são os embriões, os precursores do eu, e esforçam-se por unificar e agrupar” (MORENO, 1978, p. 25). Os primeiros papéis a aparecerem são os fisiológicos ou psicossomáticos. Estes papéis fisiológicos como comer, dormir, sonhar, etc., integram-se formando uma unidade, ajudando “[...] a criança pequena a experimentar aquilo a que chamamos ‘corpo’” (MORENO, 1978, p. 26). Continuando o desenvolvimento infantil, os papéis psicológicos ou psicodramáticos vão se agrupando e formam uma espécie de eu psicodramático. Os papéis psicodramáticos emergem quando a criança tem condições de compreender o que é produção imaginária e o que é realidade, ajudando a criança “[...] a experimentar o que designamos por ‘psique’” (MORENO, 1978, p. 26). Finalmente, o mesmo acontece com os papéis sociais, formando uma espécie de eu social, que operam predominantemente a função de realidade. Apoiam-se nos papéis psicossomáticos e psicodramáticos como formas anteriores de experiência, ajudando a criança a experimentar “[...] o que denominamos ‘sociedade’” (MORENO, 1978, p. 26). Corpo, psique e sociedade são, portanto, para Moreno, as partes intermediárias do eu total. Na concepção do autor, ao nascer o bebê vivencia um universo indiferenciado, sendo a matriz da identidade o lócus de onde surgem os papéis e o eu. A matriz da identidade é a “placenta social” da criança e dissolve-se gradualmente à medida que a criança vai ganhando autonomia. Moreno (1978) divide o desenvolvimento infantil em dois universos. O primeiro universo que se estende por até por volta dos três anos de idade possui duas fases: a primeira é a fase da matriz indiferenciada ou “período de identidade” em que ocorre uma identidade indiferenciada entre o eu e o tu; a segunda é a fase da identidade total diferenciada na qual ocorre o reconhecimento do eu, de sua singularidade como pessoa. Nesse período, objetos, animais, pessoas e a própria criança passam a diferenciar-se, porém, não existe ainda uma diferença efetiva entre real e imaginado, animado e inanimado, aparência e coisas reais. O primeiro universo termina, começando o segundo universo, quando a experiência infantil de um mundo em que tudo é considerado real se decompõe em fantasia e realidade, aparecendo os “papéis psicodramáticos” (fantasia) e os “papéis


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sociais” (realidade) e ocorrendo, também, a possibilidade do reconhecimento do tu, do outro. Moreno (1974) ressalta que a inversão de papéis entre os filhos e seus pais é método de socialização e de auto-integração, levando as frequentes inversões de papéis à precocidade de habilidade nos relacionamentos interpessoais e diminuição da dependência da criança dos pais. Também Moreno (1974) afirma que as crianças que se sentem isoladas e rejeitadas não têm condições de realizar inversões de papéis. Tomando conhecimento destas afirmações de Moreno (1974) sobre a importância da capacidade de realizar inversões de papéis, como possibilidade de socialização, de integração em grupos sociais, voltamos agora a nossa atenção para as crianças e adolescentes que sofrem Violência Psicológica Intrafamiliar, que são humilhadas e ridicularizadas. Inicialmente, essas crianças não vão ter dentro da própria família (normalmente o primeiro grupo) a possibilidade de inversões de papéis, pois as vivências de violência psicológica os impedem de relacionarem-se com os pais (que violentam) de forma aberta e positiva, levando-as a se retraírem e se isolarem, vivenciando sentimentos de medo, vergonha e inadequação. Ou seja, a criança se vê impossibilitada de aprender a desempenhar papéis adequadamente. Outra consequência para a criança e adolescente que vivenciam dinâmica familiar de violência, é que os papéis desempenhados na família vão estar limitados, normalmente, a papéis de vítimas e agressores e a criança e o adolescente vão, provavelmente, repetir este padrão de comportamento aprendido nos outros grupos aos quais vierem participar. Por não conseguirem sair deste ciclo de repetição, a criança e o adolescente não vão aprender comportamentos mais sociáveis e humanos como a capacidade de sentirem-se iguais e solidarizarem-se com o outro de forma flexível, conseguindo o equilíbrio satisfatório entre dar e receber, acreditando-se amados e aceitos mesmo não estando no pólo somente da obediência e submissão determinado por uma relação assimétrica de dominação. Para Moreno (1978), a única possibilidade de libertação deste ciclo de repetição que ele explica como a tendência natural de cristalização dos papéis sociais, está no desenvolvimento da espontaneidade e no desempenho de papéis espontâneos e criativos. Buscando

conhecimento

sobre

a

dinâmica

ou

a

forma

de

inter-

relacionamentos dentro dos grupos, Moreno (1974) desenvolveu a sociometria, uma


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ciência terapêutica do grupo que se transformou mais tarde em ciência geral dos grupos. Através da sociometria, Moreno (1974) concluiu que, para a saúde do indivíduo e da comunidade, o mundo precisa de uma nova ordem a qual ele concebeu como a ordem terapêutica, em que a ênfase não seria dada à saúde do indivíduo ou da coletividade, mas sim na relação que se estabelece entre um indivíduo e o outro, entre o indivíduo e o grupo e mesmo entre o grupo e o indivíduo “[...] o indivíduo sadio em um grupo sadio, o grupo sadio, no indivíduo sadio” (MORENO, 1974, p. 25). Para o estudo sociométrico proposto por Moreno (1974), essa interação divide-se em forças de atração, de rejeição e de indiferença. Através deste estudo sociométrico dos grupos, Moreno chegou à conclusão que o mundo está repleto de indivíduos e grupos isolados, rejeitados, rejeitantes e negligenciados. No entanto, para este autor, o mundo não deveria ser assim, uma vez que as forças de cooperação são biologicamente mais importantes que as forças de destruição e, também, pelo fato de que a criatividade e a produtividade podem crescer com mais intensidade em grupos baseados em auxílio mútuo do que em grupos reunidos por acaso, ou em grupos cujos membros são mutuamente hostis. Moreno (1974) relaciona estes fatores positivos de produtividade e criatividade com a espontaneidade, considerando esta como uma força primária no comportamento humano e como a mais elevada forma de inteligência que temos conhecimento. Para Moreno (1974), o homem nasce espontâneo, livre, aberto a transformações, mas devido a diversos fatores, vai perdendo a capacidade de sê-lo. Expõe este autor que apesar de a espontaneidade ser uma força universal e, provavelmente, mais antiga dentro da evolução humana, é a força menos desenvolvida nas pessoas e, frequentemente, inibida e desencorajada pelas instituições culturais, levando isto ao desenvolvimento de patologias do indivíduo e da sociedade. “[...] grande parte da psico e sociopatologia humanas pode ser atribuída ao desenvolvimento insuficiente da espontaneidade” (MORENO, 1974, p. 58). Na perspectiva de Moreno (1978), a espontaneidade é uma disposição do sujeito para responder como requerido de forma livre. Este autor define operacionalmente a espontaneidade da seguinte forma:


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O protagonista é desafiado a responder, com certo grau de adequação, a uma nova situação ou, com uma certa medida de novidade, a uma antiga situação. Quando o ator no palco encontra sem uma conserva de papel, o ator religioso sem uma conserva ritual, eles têm que improvisar, de recorrer a experiências que não estão preparadas de antemão para a sua representação mas que, pelo contrário, ainda se encontram enterradas dentro deles, numa fase informe. A fim de mobilizá-las e dar-lhes forma, necessitam de um transformador e catalisador, uma espécie de inteligência que opera aqui e agora, hic et nunc, a ‘espontaneidade’ (MORENO, 1978, p. 36-37).

Como

mencionamos,

o

grupo

familiar

é

fundamental

para

o

desenvolvimento saudável do indivíduo, devido ser um grupo formador da personalidade humana, no qual são treinados os primeiros papéis do homem e estimulado ou inibido o desenvolvimento da espontaneidade e da criatividade de seus membros em formação. Provavelmente pela ausência de aceitação e acolhimento e pela presença da rejeição e da indiferença, as pessoas e as famílias que vivenciam a Violência Psicológica Intrafamiliar se tornarão vítimas de grande dor e sofrimento e alimentarão sempre o surgimento de emoções negativas em qualquer convívio social que vierem participar, reforçando dentro e fora do grupo familiar este padrão de relacionamento. Mas, perguntamos como a própria família, reprodutora ideológica e cultural que também recebeu de sua geração anterior formas de relacionamentos que incluía a Violência Psicológica, poderá agir diferentemente com seus membros? Como poderá o indivíduo libertar-se desse padrão de relacionamento que usa a Violência Psicológica como instrumento de dominação e agir de forma diferente tanto com a geração anterior (os próprios pais) quanto com a geração posterior (seus próprios filhos)? 3 O Psicodrama Triádico como Possibilidade de Embate à Violência Psicológica Intrafamiliar Contra Crianças e Adolescentes Diante do questionamento acima, os psicoterapeutas triádicos, especialistas em psicodrama triádico, propõem que para buscarem a cura psicoterápica de pessoas que vivenciaram ou vivenciam dinâmica de Violência Psicológica Intrafamiliar, devem procurar ajudar essas pessoas, além de se autoconhecerem, a


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desbloquearem

sua

capacidade

de

serem

espontâneas

e

criativas,

consequentemente, quebrando este ciclo repetitivo de papéis cristalizados. O Psicodrama Triádico foi criado e desenvolvido na França, na década de cinquenta, por Anne A. Schutzenberger e Pierre Weil. Situa-se dentro de uma teoria geral de sistema aberto em um campo iluminado pela filosofia existencial e complementado pela compreensão relacional e transpessoal da comunicação nãoverbal e da linguagem do corpo. É uma abordagem multirreferencial que integra e combina diversas teorias e que utiliza pelo menos três referenciais, tendo como principais as teorias da psicanálise, da dinâmica de grupo (ou sua sociometria) e do psicodrama. Contudo, a abordagem triádica não se limita a essas três referências e, por isso, o psicoterapeuta pode usar qualquer técnica necessária, dentro dos referenciais do triádico6, dependendo de seu domínio e do momento presente do indivíduo ou do grupo, os quais trabalham temas livres em suas sessões. Schutzenberger (1977) expõe que a lei do grupo triádico é o questionamento permanente sobre o que se passa no momento presente e sobre a escolha do melhor referencial. Dependendo do momento, do grupo ou do indivíduo, o psicoterapeuta triádico pode ficar no lugar do suposto saber, usando técnicas psicanalíticas como a interpretação da transferência e da resistência. Em outros momentos, o psicoterapeuta triádico pode preferir usar técnicas psicodramáticas, principalmente, em situações em que se quer trabalhar o papel e o desempenho de papéis espontâneos e criativos. Também, o psicoterapeuta triádico pode escolher em algum momento buscar a compreensão do indivíduo ou do grupo, fazendo a leitura do processo relacionado à sua dinâmica. Para esta autora nada impede que seja feito no grupo triádico muito Psicodrama, utilizando-se “[...] técnicas de representação, a palavra, a interação, o 6

Os referenciais do triádico são abordagens que se fundamentam em correntes existencialistas e humanistas que trabalham no aqui e agora como por exemplo a de Carl Roger (de tendência nãodiretiva, existencalismo-humanismo), a de Rollo May (existencialismo-humanismo), a vivência de espaço e tempo, a abordagem ecológica-biológica (território e proximidade: Hall, Lorenz, Tinbegen), o corpo e o grito (Roy Hart, Fritz Peerls, Lowen, Koleman, Charlotte Silver, Laura Sheleen, Mosche, Feldendrais...), os novos grupos do Instituto Esalen (Bill Schutz, grupos de encontro), os jogos transacionais (Eric Berne) e sobretudo a comunicação não-verbal, por meios cinésicos, paralinguísticos e de proximidade (Jurgen Ruesch, Roy Birdwhistell, Ervin Goffman, Gregory Bateson). (SCHUTZENBERGER; WEIL, 1977, p. 11-12). Atualmente também juntam-se os trabalhos em arte-terapia como recursos possíveis no tratamento psicoterapêutico triádico. (Nota da pesquisadora).


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corpo, o grito, o gesto, o movimento, sem excluir o comentário, o silêncio, a análise da dinâmica do grupo e dos relacionamentos com o monitor” (SCHUTZENBERGER, 1977, p. 21-22). Segundo Schutzenberger; Weil (1977), na perspectiva da psicanálise, o manejo da transferência, da resistência e da regressão é o elemento principal que permite ao psicoterapeuta ajudar o seu cliente a evoluir ou sair de sua neurose. Para Weil (1977), o psicodrama triádico julga ser conveniente não começar um psicodrama sem análise preliminar da resistência e da transferência. Porém, existem situações em que a análise clássica da resistência não dá resultados e, então, lança-se mão dos novos métodos de abordagem do problema da resistência. Estes são métodos não-ortodoxos que trazem a vantagem de ganhar tempo. Weil (1977) expõe que, para Moreno, são as técnicas de “aquecimento” que ajudam a vencer a resistência do grupo e do protagonista. Entre as várias técnicas de aquecimento, exemplificadas por Weil (1977), elegemos a título de ilustração, duas especificamente. A primeira técnica é a insistência do terapeuta no “sentir”, em vez do “Eu penso que” ou “Eu creio que”. Essa técnica desbloqueia um dos grandes mecanismos de resistência, a fuga na descrição, no intelectual e no racional. A segunda é a técnica de improvisação, por meio da qual se propõe ao protagonista que represente diversas situações de sua vida em que tem dificuldades. A banalidade das cenas ajuda o sujeito a projetar-se com facilidade e a desbloquear a resistência. Na perspectiva de Weil (1977), um dos objetivos do psicodrama triádico é a vivência do “Encontro Existencial”. “O encontro existencial é o encontro das essências, do potencial das pessoas, daquilo que é eterno e que transcende as três dimensões do tempo” (WEIL, 1977, p. 117). Para muitos terapeutas existenciais, afirma este autor, a vivência do “encontro” é o próprio processo de cura e, através dele, desenvolve-se criatividade e espontaneidade. Acreditamos que a Psicoterapia Psicodramática Triádica tem muito a contribuir na cura de pessoas que vivenciaram dinâmica de violência psicológica intrafamiliar,

pois,

através

de

vivências

propostas

conforme

o

processo

individual/grupal, o psicoterapeuta ajuda essas pessoas a se autoconhecerem e a quebrarem seu padrão repetitivo de relacionamento baseado na submissãoagressão, principalmente, através de técnicas psicodramáticas que trabalham o papel e o desempenho espontâneo de papéis.


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A representação de cenas improvisadas das diversas situações de vida da pessoa, nas quais tem dificuldade, pode ajudar a quebra da resistência e, consequentemente, possibilitar a elaboração da sua forma de atuação (atuação no sentido de ação e não no sentido psicanalítico de acting-out). No momento da cena, o sujeito está livre do contexto de realidade e disposto a produzir mais a fantasia, o “como se”, criando novas improvisações e papéis diferentes, geralmente, exercidos com muito mais espontaneidade. Normalmente, após cada vivência acontecida de forma individual ou grupal, há entre todos, tanto o terapeuta como o indivíduo/grupo, um compartilhamento em que cada um expõe o que sentiu, como se sentiu, que mudanças podem ser feitas, que fatores disfuncionais estavam presentes bloqueando a capacidade de ver e modificar situações vividas. A elaboração pelo indivíduo da sua forma de atuação o levará a mudanças na percepção e atuação de papéis, ou seja, a rematrização de novos papéis e reorganização de seu eu. Após isso, o indivíduo levará essa aprendizagem também para fora do contexto psicoterápico, possibilitando-o agir de forma mais livre e criativa, transformando-se e, consequentemente, transformando o grupo familiar em que vive, além do seu meio social mais amplo, em um mundo melhor, menos violento, mais positivo e muito mais prazeroso. Considerações Finais Percebemos, por meio deste estudo, que o fenômeno da Violência Psicológica vivenciado pelo indivíduo em seu grupo familiar, ao longo de sua infância e adolescência, pode levar a graves consequências, afetando a sua autoestima, seu autoconceito e sua capacidade de inter-relacionamentos saudáveis e espontâneos. Contudo, estas dificuldades podem ser superadas desde que a pessoa passe por um processo psicoterápico que a leve a buscar o seu autoconhecimento e a libertação de papéis limitados a um padrão estereotipado de vítima ou de agressor, aprendendo a desempenhar papéis de forma mais espontânea e criativa. Desta forma, o Psicodrama Triádico pode contribuir muito no tratamento psicoterapêutico das pessoas que vivenciaram a Violência Psicológica Intrafamiliar, ajudando-as a superarem as dificuldades causadas por esta violência através de vivências que as conduzam a um autoconhecimento e que as ajudem a desbloquear


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a sua espontaneidade e criatividade. Essa superação vai refletir positivamente em todos os seus relacionamentos interpessoais, possibilitando-as a adquirirem comportamentos mais sociáveis. Nesse sentido, o Psicodrama Triádico vai contribuir também para a construção de uma sociedade mais humana e menos violenta.

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