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esporte

Painel FC

painelfc.folha @ uol.com.br

EDUARDO ARRUDA

Pé de anjo? A contratação de Marcelinho como embaixador do Corinthians no centenário irritou o técnico Mano Menezes, contam pessoas próximas ao presidente Andres Sanchez. Não pelo posto dado ao jogador, mas por acreditar que setores da torcida Gaviões da Fiel farão pressão na diretoria para que ele faça contrato para jogar. Marcelinho deve atuar em amistoso com o Huracán no próximo dia 13. A volta dele foi arquitetada por Luiz Paulo Rosenberg, homem forte do marketing corintiano, e Caio Campos, gerente da área. Goela abaixo. Antes de acertar com Marcelinho, Andres disse a algumas pessoas que não contrataria o jogador. Mas teve de engoli-lo para não se indispor com a torcida organizada que apoiou a iniciativa do marketing. Sombra. No Parque São Jorge, há quem defenda a ideia de que a diretoria deveria ter chamado para embaixador do centenário outro ídolo, que já tivesse encerrado definitivamente a carreira. Do contra. Gente que conversou com Ronaldo assegura que ele torceu o nariz para a chegada de Marcelinho. Teria dito que o jogador pode colocar pressão desnecessária sobre o elenco do clube. Típico. Cruzeirenses enxer-

gam na declaração de Kléber Pereira, que manifestou desejo de ir para o rival AtléticoMG, de Vanderlei Luxemburgo, pressão para a diretoria fechar com o atacante. Zezé Perrella não pode nem ouvir falar em Luxemburgo.

Novo... Advogados especializados em discussões na Fifa avaliam que, se Oscar conseguir ir à entidade máxima do futebol, tem enorme chance de se desvincular do São Paulo. Para isso, é necessário que haja uma disputa entre dois clubes de países diferentes. ...round. A argumentação é a de que a Fifa anularia o contrato do jogador com o São Paulo porque não reconhece acordos assinados por menores de 18 anos com validade de cinco anos, mas somente por no máximo três anos. Irreversível. Já há no São Paulo corrente que defenda acordo financeiro do clube com o empresário de Oscar. A avaliação é a de que o jogador não tem mais clima para seguir no Morumbi, mesmo que os são-paulinos consigam vitória no litígio com o atleta. Salgado. Já está nas mãos

da presidente do Flamengo, Patrícia Amorim, estudo feito pela Fundação Getúlio Vargas sobre a compra do CFZ, clube do ídolo Zico. O preço da aquisição é R$ 25 milhões.

No lugar. O técnico Luiz Felipe Scolari não irá para a Itália comandar a Juventus. Ele segue no Bunyodkor, do Uzbequistão, e sua próxima parada deve ser o Brasil.

Dividida O Andres não vai atrás do Oscar porque ele tem medo da gente

DeMARCOAURÉLIOCUNHA,superintendentedefuteboldoSãoPaulo,sobreopresidentecorintianoterditoquenãotentarácontratar meiaOscar,apesardeorival“merecer”

GOL A GOL O QUE VER NA TV* 11h30 Arsenal x Aston Villa Campeonato Inglês - futebol ESPN- ao vivo

14h

Hull City x Manchester United Campeonato Inglês - futebol ESPNBrasil - ao vivo

15h30 Rio de Janeiro x Metal Galati Top Volley - vôlei Sportv 2 - ao vivo

17h

Jogo das Estrelas Amistoso - futebol Sportv - ao vivo

* Programação fornecida pelas emissoras

FUTEBOL

Campeonato Inglês

Campeonato Espanhol - 16ª rodada 2.jan (sábado): Valencia x Espanyol; Barcelona x Villarreal; Atlético de Madri x Sevilla 3.jan (domingo): Sporting de Gijón x Málaga; Getafe x Valladolid; Racing Santander x Tenerife; Almería x Xerez; Zaragoza x La Coruña; Mallorca x Athletic Bilbao; Osasuna x Real Madrid

19ª rodada Ontem: Birmingham 0x0 Chelsea; Fulham 0x0 Tottenham; West Ham 2x0 Portsmouth; Burnley 1x1 Bolton; Manchester City 2x0 Stoke; Sunderland 1x1 Everton; Wigan 1x1 Blackburn; Liverpool 2x0 Wolverhampton Hoje: Arsenal x Aston Villa; Hull City x Manchester United 20ª rodada Amanhã: Tottenham x West Ham; Blackburn x Sunderland; Chelsea x Fulham; Everton x Burnley; Stoke City x Birmingham; Wolverhampton x Manchester City Terça-feira: Aston Villa x Liverpool; Bolton x Hull City Quarta-feira: Portsmouth x Arsenal; Manchester United x Wigan Classificação 1º Chelsea 2º Man. United 3º Arsenal 4º Aston Villa 5º Tottenham 6º Manchester City 7º Liverpool 8º Birmingham 9º Fulham 10º Sunderland 11º Stoke City 12º Blackburn 13º Burnley 14º Everton 15º Wolverhampton 16º Wigan 17º West Ham 18º Bolton 19º Hull City 20º Portsmouth

Com estrutura precária, cidade concentra três dos principais times do país e integrantes da seleção que ganham bolsas do governo ................................................................................................

MARTÍN FERNANDEZ

ENVIADO ESPECIAL A CAMPO GRANDE

Em Campo Grande, futebol é muito mais uma atividade para deficientes físicos do que um esporte para profissionais. Na capital do Mato Grosso do Sul estão as bases das seleções principal e sub-20 de futebol para paralisados cerebrais. Rede de saúde falha, erros médicos, falta de informação e difícil condição financeira das famílias. A situação de Campo Grande não é muito diferente da do resto do Brasil. A diferença é que existe uma certa estrutura para a prática de futebol para quem tem paralisia. Pobre, precária, mas ainda assim uma estrutura. No último Brasileiro da modalidade, disputado há 15 dias em São José dos Pinhais (PR), três dos oito times eram de Campo Grande. No futebol profissional não há nem sequer um clube de Mato Grosso do Sul nas séries A, B e C. A última equipe do Estado a disputar a primeira divisão foi o Operário, em 1986, quando o torneio teve 80 participantes. Nenhum dos times paraolímpicos paga salários para jogadores e comissão técnica, mas há dezenas de praticantes incluídos no programa bolsa-atleta, do governo federal. No Campeonato Brasileiro, o título ficou com o IBDD, do Rio. Mas o Caira e o Pantanal, de Campo Grande, ficaram em segundo e terceiro lugares, respectivamente. O outro time da cidade (ADD) terminou em sexto e teve a revelação do torneio, Rafael Franciscatto, 16. Um lugar no pódio vai valer R$ 750 mensais para cada jogador ao longo de 2010 —a não ser que o atleta já receba outro auxílio, como o pago a quem disputou a última Paraolimpíada (no caso, R$ 2,5 mil mensais). O futebol paraolímpico virou

P 42 37 35 35 34 32 30 29 27 21 21 20 20 19 19 19 18 17 17 14

J 19 18 17 18 19 18 19 19 18 18 17 19 19 18 19 18 19 17 18 19

V E D 13 3 3 12 1 5 11 2 4 10 5 3 10 4 5 8 8 2 9 3 7 8 5 6 7 6 5 6 3 9 5 6 6 5 5 9 5 5 9 4 7 7 5 4 10 5 4 9 4 6 9 4 5 8 4 5 9 4 2 13

VÔLEI Superliga masculina - 8ª rodada Terça-feira: Vôlei Futuro x Cruzeiro; Sesi x Blumenau; Pinheiros x Florianópolis; Montes Claros x Brasília

Classificação 1º Barcelona 2º Real Madrid 3º Sevilla 4º Valencia 5º Mallorca 6º La Coruña 7º Athletic Bilbao 8º Getafe 9º Villarreal 10º Sporting de Gijón 11º Osasuna 12º Espanyol 13º Valladolid 14º Tenerife 15º Atlético de Madri 16º Racing Santander 17º Almería 18º Zaragoza 19º Málaga 20º Xerez

P 39 37 30 29 27 27 26 24 21 20 16 16 16 15 14 13 13 12 12 7

J V E D 15 12 3 0 15 12 1 2 15 9 3 3 15 8 5 2 15 8 3 4 15 8 3 4 15 8 2 5 15 8 0 7 15 6 3 6 15 5 5 5 15 4 4 7 15 4 4 7 15 3 7 5 15 4 3 8 15 3 5 7 15 3 4 8 15 3 4 8 15 3 3 9 15 2 6 7 15 1 4 10

Campeonato Italiano - 18ª rodada 6.jan (quarta-feira): Chievo x Inter de Milão; Atalanta x Napoli; Bari x Udinese; Cagliari x Roma; Catania x Bologna; Lazio x Livorno; Parma x Juventus; Sampdoria x Palermo; Siena x Fiorentina; Milan x Genoa Campeonato Alemão - 18ª rodada 15.jan (sexta-feira): Bayern de Munique x Hoffenheim 16.jan (sábado): Hannover x Hertha; Eintracht Frankfurt x Werder Bremen; Borussia Mönchengladbach x Bochum; Hamburgo x Freiburg; Bayer Leverkusen x Mainz; Stuttgart x Wolfsburg 17.jan (domingo): Schalke 04 x Nuremberg; Colônia x Borussia Dortmund

um meio de vida na capital sulmato-grossense. Em Atlanta96, 3 dos 12 integrantes da seleção eram de Campo Grande. Em Pequim-08, 6 dos 12 convocados defendiam times de Mato Grosso do Sul. Hoje, o Estado já produz uma nova geração de jogadores, quase todos concentrados na capital. Em outubro, a seleção brasileira sub-20 ganhou os Jogos Parapanamericanos em Medellín, com seis sul-matogrossenses no time —quatro deles entre os sete titulares. Rael Medeiros Coelho, 15, era um dos mais novos da equipe. Começou a jogar por influência do vizinho Joelson da Rocha Cabral, 20, também paralisado cerebral, de quem acabou companheiro de seleção. “Agora que ele vai ganhar a bolsa, vou poder pagar o que devo”, diz Adriana, 40, mãe de Rael e empregada doméstica. “Faço tudo para ele jogar. Pego passe de ônibus emprestado, faço prestação para comprar chuteira, meia, tudo.” Rivalidade O Pantanal é o mais antigo dos clubes de paralisados cerebrais de Campo Grande. Ligado à ONG Cemdef, foi fundado em 1996 e sobrevive da ajuda eventual de empresas e políticos. Sob o comando de Dolvair Castelli, acumulou títulos nos dez anos seguintes, até que um

ATLETA [+] SEGURO: INVESTIU VERBA DO BOLSA-ATLETA

Marcos dos Santos Ferreira, 31, goleiro do Brasil nas últimas quatro Paraolimpíadas, é o caso mais bem sucedido do futebol de paralisados de Campo Grande. Com o dinheiro do bolsa-atleta, que recebe do governo desde 2003, conseguiu comprar uma pizzaria na periferia da capital sul-matogrossense. Mas ele é claramente uma exceção no esporte e na cidade. “A maioria é muito, muito pobre”, afirma o técnico Dolvair Castelli.

racha resultou na criação de outro time, ligado a outra ONG da cidade, o Caira, que se sustenta da mesma maneira. Para lá foram o técnico José Renato Ferreira e vários jogadores, como Marcos dos Santos Ferreira e Luciano Rocha, atacante da seleção brasileira nas últimas três paraolimpíadas. O outro time da cidade é o ADD (Associação Driblando Diferenças), que concentra jogadores mais jovens e treina junto com o Pantanal num campo improvisado, ao lado do ginásio Guanandizão. “Ainda é longe do ideal, mas é o que temos”, diz o técnico Castelli, resignado. O campo de grama alta e fofa tem dimensões menores que as oficiais, as traves não têm redes e não há linhas marcadas. A reforma por que passa o local não tem nada a ver com futebol. Torres de iluminação estão sendo instaladas para aumentar a segurança do campo à noite, quando o gramado se transforma em estacionamento para os cultos evangélicos realizados no Guanandizão. A “sede” do Pantanal são duas salas contíguas, de teto inclinado, localizadas embaixo das arquibancadas do ginásio. Numa delas fica o único aparelho de ginástica —que é dividido entre os 20 jogadores—, os armários de ferro para os uniformes e os colchonetes para sessões de alongamento. Na outra ficam os troféus e a mesa do presidente do Pantanal, Antonio Carlos Barbosa, que também atua como auxiliar-técnico, motorista e o que mais for necessário. Há dois meses, o local foi assaltado. “Roubaram o computador e os uniformes”, relata Barbosa. O Caira usa duas vezes por semana as instalações de um clube de elite. “Nos outros dias a gente corre no parque e faz treinos táticos em quadras públicas de futsal”, conta o treinador José Renato Ferreira. A rivalidade entre Caira e Pantanal é tamanha que os times nunca se enfrentaram em amistosos. Situação que pretendem mudar em 2010.

Jogador treina no Pantanal, time de Campo Grande formado por deficientes

Fotos Lalo de Almeida/Folha Imagem

FUTEBOL PARA PARALISADOS CEREBRAIS É praticado apenas por homens pouco afetados pela deficiência, sem uso de muletas ou cadeira de rodas Largura

Comprimento

55 m

75 m

Luciano Gonçalves Rocha nasceu num Fusca, há 30 anos, quando o pai e a mãe tentavam vencer a tempo os cem quilômetros que separam Ribas do Rio Pardo de Campo Grande. O parto complicado resultou em paralisia parcial do lado direito de seu organismo. Desde então, ele tenta se superar. Aos dois anos, foi abandonado pelo pai, mas mantém bom relacionamento com ele até hoje. Cresceu vendo a mãe brigar para receber pensão alimentícia. “Até ameaçada de morte pelo meu pai ela foi.” A deficiência, que foi uma grande dificuldade durante a infância, Luciano tratou de transformar em vantagem. Aos 30 anos, ele acumula um currículo raro entre atletas brasileiros. Disputou três Paraolimpíadas, ganhou medalha em duas, foi figura certa na seleção brasileira da modalidade nos últimos 12 anos. Só ficou fora de convocações duas vezes. Tanto sucesso, porém, não resistiu a uma série de reveses e decisões equivocadas. Luciano hoje vive de favores. Depende basicamente dos bicos de motorista que a irmã consegue para ele na agência de viagens em que trabalha. Não recebe os R$ 2,5 mil mensais a que teria direito do

Nummomentode desespero, chegueia pensar em venderas medalhasqueganhei emAtenas ePequim. Desistiporquepercebi que iriaganharmuito poucodinheiro. Tudoo que eu quero évoltara ganhar obolsa-atletado governopara poder ajudar meu filho LUCIANOGONÇALVESROCHA atacante da seleção brasileira

tiu) e dezenas de outros prêmios e recortes de jornal. No chão da sala, uma foto emoldurada de Luciano abraçado ao presidente Lula aguarda para ser pendurada. “São meus dois grandes orgulhos”, diz, sobre a foto com Lula e a bola vermelha que trouxe de Pequim, onde terminou em quarto lugar com a seleção brasileira paraolímpica. Em 2002, “quando estava no auge”, Luciano aceitou um convite para trocar Campo Grande pelo Rio de Janeiro. Jogou dois anos no time da Andef, que lhe pagava R$ 1.000 por mês. “Foi a melhor época da minha vida.” Recebeu uma proposta “para ganhar mais” e voltou a morar em Campo Grande. A proposta, feita pelo técnico Dolvair Castelli, nunca se concretizou. “Mas não ponho culpa nele”, resigna-se. “Ele não conseguiu o patrocínio que esperava.” O fato de jogar sem receber virou um problema ainda maior a partir de 2005, quando nasceu Kauã, com o mesmo problema do pai: paralisia cerebral. O menino passou por duas cirurgias no tornozelo esquerdo e já recuperou a maior parte dos movimentos. Foi por causa dele que Luciano não vendeu as medalhas olímpicas e guarda os recortes de jornal. “Quero que ele saiba quem foi o pai dele.” (MF)

COMPARAÇÃO (padrão FIFA) 105 m comprimento

11 m

Campo oficial

12,4 m 27 m

7m

7m

9,2 m

Modificado

3,5 m

Casteli (técnico) e Barbosa (presidente), na sede do clube

Gol

Reservas:

5m largura x 2m altura

DURAÇÃO

Dois tempos de 30 minutos, com 15 minutos de intervalo

REGRAS

CLASSIFICAÇÃO FUNCIONAL

Iguais às da Fifa, com duas exceções: não há impedimento e o lateral é cobrado com apenas uma mão

Os jogadores são distribuídos em classes de 5 a 8. Quando maior a classe, menor o comprometimento físico e motor do atleta. Durante

um jogo, cada time só pode ter em campo dois atletas com grau 8 e no mínimo um jogador com grau 5 ou 6

Fonte: Comite Parolímpico Internacional

Mesa de troféus da equipe, 3ª colocada no último Brasileiro

Depois de Sydney, Atenas e Pequim, astro da seleção sobrevive de bicos bolsa-atleta porque ele não enviou a documentação a tempo. Espera voltar a ganhar o benefício no ano que vem. A casa que havia construído deixou para a ex-mulher no divórcio, há dois anos. Sobrou uma moto modelo CG125, que ele usa para ir treinar. Hoje, mora num puxadinho de três cômodos com telhado de zinco, nos fundos de uma casa no bairro Jardim Tiradentes, periferia de Campo Grande. Lá estão guardadas a medalha de bronze conquistada em Sidney-2000, a prata de Atenas-2004 (que ele pensou em derreter e vender, mas desis-

esporte

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saibamais

Na capital sul-matogrossense, esporte se transforma em meio de vida e já produz até uma nova geração de jogadores

DO ENVIADO A CAMPO GRANDE

FUTEBOL

DOMINGO, 27 DE DEZEMBRO DE 2009

Futebol dribla paralisia e miséria em Campo Grande

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PLACAR

ef

68 m largura

Espelho. Comentário de um importante cartola após conhecer o novo presidente santista, Luis Alvaro de Oliveira Ribeiro: “Ele é igual ao Belluzzo [presidente do Palmeiras], vaidoso, inteligente, mas está perdidinho”.

ef

DOMINGO, 27 DE DEZEMBRO DE 2009

Limitação de jogadores é apenas física .................................................................................

DO ENVIADO A CAMPO GRANDE

O futebol de paralisados cerebrais é similar ao dos profissionais. A maioria dos jogadores não tem limitação mental, só física. Para participar de competições, os praticantes são classificados de acordo com o grau de comprometimento da força e da coordenação motora. Os mais afetados geralmente atuam como goleiros. E por isso as traves são muito menores que as de um campo oficial. “O que muda é que os choques são muito mais frequentes, porque alguns têm dificuldade de parar quando estão correndo”, diz o técnico José Renato Ferreira. “E, por isso, as quedas são muitas”, diz. Segundo a fisiatra Elizabete Saito Guiotoku, do Hospital das Clínicas de São Paulo, a paralisia cerebral é causada geralmente por falta de oxigenação na hora do parto ou logo após. “Crianças prematuras também podem sofrer de paralisia, por falta de desenvolvimento dos pulmões”, completa. A paralisia cerebral pode comprometer todos os movimentos do corpo. Mas só pratica futebol quem consegue andar e correr sem ajuda. Segundo o neurologista Pedro Rippel, do Hospital da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, o risco de ter um filho com paralisia cerebral pode ser detectado e reduzido com exames pré-natal. “A melhor maneira de prevenir, ou reduzir as chances, é fazendo o acompanhamento de toda a gravidez”, explica. De acordo com Rippel, o hábito de fazer pré-natal é recente em Campo Grande, o que ajuda a explicar a grande quantidade de casos de paralisados cerebrais na cidade. “Até pouco tempo atrás, havia muitos partos domiciliares, feitos em condições precárias, que geravam vários casos de deficiência.” Para Elizabete, a prática de esportes “além de melhorar reflexos e coordenação, ajuda na interação com as pessoas e melhora a autoestima.” (MF)

‘Deixa ele aí; se morrer, o médico avisa, se ficar bom, a gente busca’ ................................................................................................

DO ENVIADO A CAMPO GRANDE

Ismael Teixeira, campeão do Pan-Americano com a seleção brasileira sub-20, e sua mãe, Vilma

Luciano Rocha, da seleção principal, com seu filho Kauã, que tambem tem paralisia cerebral

Assim que pariu Ismael, há 19 anos, Vilma Evangelista ouviu do então marido, cujo nome faz questão de não citar: “Deixa ele aí no hospital. Se morrer, o médico avisa. Se ele ficar bom, a gente vem buscar”. Vilma escolheu o filho e perdeu o marido. Demorou, mas Ismael ficou bom. Passou os seis primeiros meses de vida na UTI. Só foi andar e falar com três anos. “Por causa da bendita da bola”, conta a mãe. “Ele ficou em pé a primeira vez para correr atrás de uma bola. E só aprendeu a falar para pedir uma bola de presente.” Antes dos dez anos, Ismael passou por dez cirurgias, incluindo um transplante de intestino. Livrou-se da colostomia (bolsa externa para drenagem intestinal) e lançou-se a jogar futebol na rua, como todas as crianças da idade. “Diziam que meu filho seria um vegetal”, relembra Vilma. Ele, no entanto, contrariou previsões médicas, ignorou as proibições da mãe e, sobretudo, nunca se importou com o fato de ter o lado esquerdo do corpo parcialmente paralisado. “Jogava com os normais, na rua, na escola, em todo lugar”, conta Ismael. “Tomava porrada. Ninguém pegava leve, caía, me machucava bastante.”

Aos 12 anos, foi levado por um professor para o time de atletismo da escola. Ganhou medalhas correndo distâncias curtas, mas nunca se empolgou de verdade. O que ele queria mesmo era jogar futebol. “Ele vivia me dizendo: ‘Quando o médico consertar minha perna, vou chegar à seleção. Você vai ver, mãe’.” Há três anos, juntou-se ao Pantanal, um dos três clubes de futebol de paralisados cerebrais de Campo Grande. Desde então, sai de casa todos os dias às 6h30, pega três ônibus para chegar às 8h30 ao campo onde seu time treina.

Játivepropostaspara jogarfutebolemoutras cidades,comoRiode Janeiro,Brasília,Belo Horizonte,algumas até paraganhardinheiro. Masjáfaleiquede CampoGrandeeunão saiodejeitonenhum. Minhafamíliaestáaqui, oqueeuvoufazerem outrolugar? ISMAELEVANGELISTATEIXEIRA jogador da seleção brasileira sub-20

Usa a boca para calçar as meias e tem a ajuda dos colegas para amarrar as chuteiras. Neste ano, cumpriu o que prometera à mãe e finalmente chegou à seleção brasileira sub-20, com a qual conquistou a medalha de ouro nos Jogos Parapanamericanos disputados em Medellín, em outubro. “Fiz dois gols na final contra a Argentina”, diz, orgulhoso. “E depois os caras nem quiseram trocar de camisa com a gente.” Com os R$ 750 que ganha por mês do bolsa-atleta, tem o maior salário da casa de quatro cômodos que divide com a mãe, o padrasto e a irmã mais nova, no Jardim Columbia, um terreno invadido na periferia de Campo Grande. Ismael, que ganhou o apelido de “Obina” dos companheiros por causa dos dentes salientes, é tido como um dos jogadores mais promissores da nova geração. É a estrela do campinho de barro que fica exatamente em frente à casa onde mora. Não descuida do penteado moicano e faz questão de jogar com chuteiras coloridas. Mesmo assim, diz que prefere estudar —está no primeiro ano do ensino médio — e que não vê futuro algum no esporte que tanto gosta de praticar. “Sei que isso daqui a pouco acaba”, diz, conformado. “Eu vou ter que estudar.” (MF)

Vestiário do Pantanal, no ginásio do Guanandizão

SELEÇÃO: [+] TÉCNICO QUER

MAIS EQUIPES

Depois de Campo Grande, o principal polo do futebol de paralisados no Brasil é o Rio. IBDD e Andef, clubes cariocas, conquistaram o primeiro e o quarto lugares no último Campeonato Brasileiro. “Sabemos que há grandes jogadores escondidos por aí. Se não for possível formar equipes, queremos descobrir atletas em outros Estados para que venham treinar no Rio ou em Campo Grande”, diz Paulo Cruz, técnico do IBDD e da seleção principal.

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