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#Sketches Virtuais Quadrinhos - arte e produto - na Internet

Ana CecĂ­lia de Paula

Andrea Wirkus

AndrĂŠ Sollitto

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#Sketches Virtuais

Quadrinhos - arte e produto na Internet

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Sumário Introdução 8

O começo 8 Uma nova era para as histórias em quadrinhos 10 Sobre a escolha do formato tira para realização deste trabalho 12

Mudança de suporte

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Webcomics: da origem às divergências 18 O suporte digital e os primeiros quadrinhos da Internet As três gerações de “HQtrônicas” 21 Afinal, ainda são histórias em quadrinhos? 24

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A nova safra dos quadrinhos 26

Os blogs 26 A expansão de temas dos quadrinhos 33 Quadrinhos enquanto arte 39 Variações imprevistas: memes, rage comics e um novo jeito de fazer quadrinhos 44

O mercado atual de quadrinhos 54

Internet: distribuição democrática de quadrinhos? As editoras e a Internet 63 4

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Perspectivas para o autor brasileiro 66

Tralhando para o mercado norte-americano: a trajetória dos irmãos Bá e Moon 67 A Internet para os bem-aventurados 77 Professional blogging e publicidade 78 Merchandising, outro aliado 81 Crowdfunding 88

Os quadrinhos na imprensa 94 A Internet e os direitos autorais 98 A Lei no Brasil 102 Creative Commons 102 Alguns casos 106

A experiência do leitor

111

Animações e quadrinhos 112

NAWLZ, uma HQ adaptada ao seu tempo e espaço

Leitor e autor

116

O leitor-autor: “interatividade não-trivial” StripGenerator 125

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122

Conclusão 128 6

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Introdução O começo

Em matéria de arte sequencial, as histórias em quadrinhos, ou bandas desenha-

das, não são propriamente o que se pode chamar de novidade... Desde a pré-história, o homem registra acontecimentos por meio de imagens. As pinturas rupestres, a escrita hieroglífica egípcia, os afrescos greco-romanos, as tapeçarias e vitrais medievais são apenas alguns exemplos de narrativas pictóricas. Contudo, elas não detinham a característica fundamental que, hoje, qualifica a maior parte dos quadrinhos que conhecemos: a simbiose entre texto e imagem.

É consenso entre os pesquisadores que as HQ’s surgiram a partir do momento

em que se conseguiu enumerar uma série de “convenções reconhecíveis no conjunto

Propaganda de The Yellow Kid, retirada de artigo sobre o jornal The NY World, no blog Roteiro Romanceado

das obras” (Mendo, 2008: p. 13). Combinando diagramação, desenhos inseridos em

8

requadros, balões, onomatopeias, sugestão de movimento a partir de imagens fixas

por meio de linhas cinéticas e personagens regulares, pode-se dizer que as primeiras

sos para as possibilidades comerciais do novo produto. Segundo Álvaro de Moya

bandas desenhadas apareceram no final do século XIX e eram publicadas no formato

(1993: p. 17), isso em grande parte se deveu ao fato de que as histórias em quadrin-

tira, em páginas ou suplementos de jornais.

hos conseguiram um feito até então impossível à literatura e à imprensa: alcançar

as classes menos letradas.

The Yellow Kid costuma ser apontada por pesquisadores como a primeira história

O sucesso das primeiras histórias despertou os grandes veículos impres-

em quadrinhos. Apesar de existirem iniciativas predecessoras, que dispunham os tex-

No decorrer do século XX, os quadrinhos adeririam a uma série de tendências

tos nos rodapés das ilustrações sequenciais (como foi o caso de Histoire de M. Vieux

estilísticas e temáticas que consolidariam seu status de produto cultural e expressão

Bois, publicação de 1837 do caricaturista suíço Rodolphe Töpffer, e dos personagens

artística: das influências da art déco na década de 1920, passando pelos quadrinhos de

Nhô-Quin e Zé Caipora do cartunista ítalo-brasileiro Angelo Agostini, publicados en-

super-heróis, que ganharam popularidade à iminência da Segunda Guerra Mundial,

tre 1869 e 1883 em revistas brasileiras), o Garoto Amarelo foi a primeira história com

entre o final da década de 1930 e meados dos anos 40, até o existencialismo de Charlie

personagem publicado regularmente a mesclar texto em balões e imagens, conferindo

Brown e as obras de Pop Art inspiradas pelas HQ’s nos anos 50. A consolidação dos

novo dinamismo à narrativa. Desenhada por Richard Outcault, The Yellow Kid passou

quadrinhos underground, na década seguinte, incentiva o lançamento de grandes ál-

a ser oficialmente publicada como suplemento dominical pelo jornal New York World,

buns de artistas da Europa em meados dos anos 70 e, a partir de então, as HQ’s pas-

de Joseph Pulitzer, em 1895.

sam a ser efetivamente reconhecidas e avaliadas como arte. 9


Uma nova era para as histórias em quadrinhos

que se aproxime do audiovisual? E como a experiência do leitor figura nesse cenário? A Internet de fato o aproxima dos autores que lhe interessam?

Este livro-reportagem pretende mostrar como as ferramentas digitais e a Internet

século XX, no entanto, se restringiram à temática e ao estilo. A mudança de que este

vêm modificando a maneira de criar, ler, pensar e comercializar histórias em quadrin-

projeto se propõe a falar é muito mais profunda: uma mudança estrutural ligada ao de-

hos. Para isso, decidimos explorar o tema a partir de três perspectivas distintas: a pri-

senvolvimento dos meios digitais e, sobretudo, da Internet. Seja no formato da mídia, na

meira, “Mudança de suporte”, estudará as diferenças fundamentais entre os quadrin-

produção, ou na maneira como o objeto final chega ao consumidor, a relação primária

hos tradicionais e aqueles feitos exclusivamente para um suporte digital em termos

entre autor-produto-audiência das histórias em quadrinhos sofreu abalos inéditos.

de estrutura física e de percepção de leitura: a forma como a simples transposição de

O computador, de acordo com o livro HQtrônicas: do suporte papel à rede Internet,

meios já afeta a fruição e a apresentação costumeiras das histórias; de que modo recur-

do professor e pesquisador Edgar Franco, passou a ser utilizado pelo quadrinista já

sos da web promovem um aumento não só da produção, mas também da variedade

na segunda metade dos anos 80, quando apareceram os primeiros softwares próprios

de formatos, estilos e temas levantando questões a respeito do valor estético atribuído

para desenho com interfaces simplificadas, e não demorou até que substituísse per-

a quadrinhos que, apesar de tecnicamente simples, fazem enorme sucesso na rede.

manentemente várias etapas do decurso de produção de quadrinhos – fato que pos-

Ainda nessa primeira parte, nos dedicamos a pautar dois fenômenos recorrentes na

sibilitou ao autor tomar parte em todos os processos de elaboração da obra, desde o

Internet que, à sua maneira, também contam histórias sequenciais num formato que

desenho até a arte final.

se aproxima das características convencionais atribuídas aos quadrinhos: os memes,

A partir dos anos 90, tiveram início alguns experimentos que visavam a ten-

espécie de piadas formulaicas com personagens e tirinhas criadas e reproduzidas pelo

tar substituir o papel como suporte para as HQ’s: a distribuição de histórias em CD-

internauta - geralmente divulgados em sites de humor, nas plataformas blog ou tumblr

ROM e, sobretudo, a publicação de quadrinhos em uma até então incipiente rede de

- e as tiras em formato .GIF., com quadrinhos que capturam determinado movimento

computadores viriam a modificar não apenas os aspectos técnicos e mercadológicos

do personagem ou do cenário e o repetem ininterruptamente.

relativos à produção de histórias em quadrinhos, como também o entendimento que

leitores e entusiastas têm do produto final.

editorial e, especialmente, os quadrinistas têm tido no meio digital. A partir de uma

A segunda parte, “Produção”, pretende abordar a experiência que o mercado

Afinal, como os quadrinistas aproveitam softwares cada vez mais complexos e a

contextualização do mercado nacional de quadrinhos, situamos casos de autores que

existência de uma rede mundial interligando computadores? A Internet e o computa-

usam a Internet para promover seus trabalhos. Uma das perguntas fundamentais a

dor ainda são meras ferramentas ou o suporte digital pode se tornar definitivo para uma

que se pretende responder é como a indústria de quadrinhos atual efetivamente gera

obra? Há lucro para um autor que publica suas histórias em um meio essencialmente

algum lucro para os quadrinistas e qual o papel da Internet nesse processo. Outra

democrático e gratuito? De onde ele vem? Como são afetadas as relações tradicionais

questão pertinente a ser abordada é se existe de fato a possibilidade de um autor se

entre os envolvidos na produção e consumo dos quadrinhos? A disponibilização de

lançar no mercado pela Internet, de maneira independente, dispensando o suporte

elementos de multimídia nos computadores tem dado origem a uma nova linguagem

das editoras. Ou, no caminho inverso, de que modo as editoras aproveitam a web para

dos quadrinhos, ou está descaracterizando a arte tradicional das HQ’s fazendo com

estender o alcance de divulgação e venda de publicações.

10

As mudanças pelas quais as histórias em quadrinhos passaram no decorrer do

11


A última seção do livro é destinada a compreender a experiência do leitor diante

apresenta o desenvolvimento de uma ação por meio de alguns momentos mais expres-

dos novos formatos e dos quadrinhos digitais de maneira geral. A existência de sites em

sivos fixados em poucos quadrinhos. A estruturação dos seus elementos não diverge

que o internauta pode opinar sobre a continuidade da história, ou ainda sites em que ele

muito. O elemento de desvio do signo é, geralmente, um quadrinho. O desenlace ou

mesmo pode dar sequência à narrativa com os próprios desenhos, configura um nível de

disjunção se dá no último.” (Cagnin, 1975: p. 180).

interatividade inédito para as HQ’s, tema que será discutido neste capítulo. A interação

dos fãs, devido à aproximação possibilitada pela Internet, também será abordada, assim

“1. Episódios completos em cada tira.

como a facilidade com que os comentários dos leitores podem alcançar e influenciar o

2. Episódios com certa autonomia temática, de tal modo que cada tira forme uma só

trabalho do autor. Foram realizadas pesquisas em fóruns e fansites visando a obter uma

historinha, mas conserve uma linha comum com as demais tiras da semana. É o caso

amostragem do que o público pensa dos quadrinhos feitos exclusivamente para a Inter-

das histórias de Charlie Brown, de Schulz: por uma semana ou mais, Schulz apresenta

net, de modo a evitar uma abordagem unilateral do assunto.

ações autônomas, porém ligadas por uma idéia comum com as demais.

Ainda segundo o autor, seriam três as modalidades formais de tiras:

3. Capítulos diários ou semanais em fragmentos e uma seqüência em tiras de um a

Sobre a escolha do formato tira para realização deste trabalho

quatro quadrinhos. Raramente, estas tiras englobam uma seqüência inteira. São os seriados, como os criados por Buck Roger em 1928, juntamente com as conhecidas fór-

A proposta de vasculhar o mundo dos quadrinhos na esfera digital já é tecni-

mulas: ‘continua na próxima semana’, ‘não percam o próximo e eletrizante capítulo’.

camente impossível devido ao número massivo de material disponível para análise.

O último quadrinho da tira deve apresentar, via de regra, o suspense como meio de

Com o objetivo de direcionar a pesquisa, demos preferência ao formato dos quadrin-

despertar o interesse e forçar a leitura do capítulo seguinte... e a maior vendagem do

hos em “tira” para ilustrar este o livro.

jornal.” (1975: p. 181).

Ainda que a quantidade de material passível de se encontrar continue imensa,

O que justifica, portanto, a escolha da tira é a sua universalidade, quando com-

existem diferenças fundamentais entre as tiras e as histórias seriadas mais longas en-

parada a outros modelos de histórias quadrinhos. Também a leitura rápida, que grati-

contradas na forma de romances gráficos (as graphic novels).

fica o leitor com um desfecho comumente surpreendente no último quadrinho, con-

stitui um atrativo maior frente a séries longas, que demandam um ritmo de intelecção

As tiras possuem uma autonomia maior, pois encerram uma narrativa completa

dentro de poucos quadrinhos, tornando limitada, ou mesmo nula a necessidade de

bem menos dinâmico.

que o leitor traga para a leitura um conhecimento prévio a respeito daquele person-

agem ou universo. Ainda que certos personagens de tira tenham traços reconhecíveis,

pesquisadores especialistas em histórias em quadrinhos, editores, autores e fãs da vel-

o que contribui para o efeito humorístico da narrativa, esse tipo de bagagem não é

ha e da nova gerações, além de dialogar com a temática da linguagem multimídia dos

imprescindível para a apreciação da história. Em suma, as tirinhas, muito frequent-

computadores utilizando recursos como vídeos e gifs, #Sketches Virtuais - e vale notar

emente, atraem leitores que não estão habituados a consumir HQ’s.

que a palavra sketch tem como significado “esboço”, um desenho rápido que não tem a

intenção de ser um produto final - se propõe a refletir sobre a questão dos quadrinhos

O professor e pesquisador da Escola de Comunicação e Artes da USP, Antônio

Luiz Cagnin, classifica, em seu livro Os Quadrinhos, a estrutura do formato: “a tira 12

Estruturado em cima de matérias jornalísticas, que contarão com a opinião de

digitais, mas de maneira alguma oferecer uma discussão conclusiva e fechada. 13


A proposta deste livro é oferecer uma perspectiva em relação às mudanças que

têm sido observadas no cenário do mercado, sobretudo, nacional de HQ’s, localizando alguns de seus protagonistas. Atualmente, as histórias em quadrinhos estão vivendo o período de transformação que buscamos sinalizar com este trabalho e seria um equívoco tentar definir um futuro para elas, uma vez que o leque de possibilidades é extremamente amplo e o desenvolvimento de novas tecnologias continua a pleno vapor.

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Mudanรงa de suporte

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Crash, esta sim feita inteiramente a partir de recursos do computador.

Webcomics: da origem às divergências

Novas HQ’s apresentam interfaces animadas e sons, provocando questionamentos sobre o conceito tradicional dos quadrinhos

A Internet tem sido um dos grandes catalisadores da convergência digital, fenô-

meno caracterizado pela digitalização e integração de mídias em um único canal emissor. Os produtos originários da televisão (imagens), dos jornais (textos) e do rádio (áudio) já foram incorporados à web, de modo que o usuário não precisa mais migrar de um para outro para obter informações. As possibilidades oferecidas por esse diálogo permanente entre meios e mídias começam a despertar o interesse de pesquisadores para as experiências inovadoras que têm sido realizadas com quadrinhos na Internet.

O termo webcomic designa qualquer quadrinho publicado exclusivamente na Internet.

Portanto, desde que veiculadas em sites na rede, tanto as tirinhas ou graphic novels feitas à mão e posteriormente digitalizadas quanto aquelas desenvolvidas integralmente no computador, com ou sem adição de recursos audiovisuais, figuram na definição de webcomics.

O suporte digital e os primeiros quadrinhos da Internet

No entanto, até o início dos anos 90, o suporte para as histórias em quadrinhos

continuava a ser o papel. Elas podiam ser totalmente concebidas no computador, mas o resultado final ainda era o material impresso. O ilustrador italiano Marco Patrito foi um dos primeiros a encarar o meio digital como plataforma para veiculação de quadrinhos; em 1991, ele desenvolve Sinkha, uma história multimídia elaborada em computador com gráficos 3D,

No fim da década de 1980, a indústria das HQ’s encontrou no computador um sin-

distribuída em CD-ROM para Estados Unidos, Japão e Europa.

tetizador de funções que, até então, ficavam a cargo de profissionais remunerados responsáveis pela diagramação, letramento, colorização e arte final das histórias. A digitalização dessas etapas representou não apenas um avanço tecnológico como também econômico: o computador otimizou o processo de produção de quadrinhos. Nesse sentido, tornou-se economicamente interessante investir na nova ferramenta.

Em 1984, aparece a primeira história gerada por computador. Ainda que a HQ

tenha sido colorizada pelo método tradicional, devido às limitações de armazenamento dos computadores da época, Shatter (imagem na página ao lado), dos norte-americanos Mike Saenz e Peter Gills, foi desenvolvida em preto e branco, num Apple Macintosh de 128 kbytes. Em 1986, Saenz dá continuidade à iniciativa e cria com William Bates a HQ 18

Uma das impressionantes imagens de Sinkha

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Com capacidade para armazenar e transferir grandes quantidades de dados, o

CD representa um barateamento da produção, uma vez que comporta histórias in-

utilizar o serviço World Wide Web, ou www, que configura a Internet comercial que conhecemos hoje.

teiras e não implica gastos com colorização e impressão.

Depois de Patrito, vários outros autores se interessaram pelo potencial dos CD’s

e começaram a criar histórias digitais. O sucesso de Reflux, história desenvolvida em 1995 pela empresa Inverse Ink, que fazia quadrinhos para CD-ROM atraiu a atenção da DC Comics. Superman: The Mysterious Mr. Myst foi uma das adaptações de uma série de desenhos animados de super-heróis da década de 1960 lançada em CD pela DC em parceria com a Inverse Ink no ano de 1996.

Paralelamente às experiências feitas em CD’s, alguns usuários conectados em

rede começaram a explorar o campo virtual como plataforma para quadrinhos. O compartilhamento ágil de informações no meio virtual logo se mostrou uma alternativa mais eficiente diante das dificuldades de distribuição do CD, suporte que, de certa maneira, acabou sendo rejeitado tanto por aqueles leitores acostumados às revistas impressas quanto por aqueles que passaram a ler e veicular quadrinhos na Internet.

É difícil precisar um projeto pioneiro para os primeiros quadrinhos da Internet,

já que várias publicações foram editadas em períodos muito próximos; Witches and Stitches, do artista norte-americano Eric Monster Millikin, foi uma HQ de terror baseada na novela infantil O Mágico de Oz, postada [o termo vem de post, nome dado ao conteúdo carregado em um site, blog ou fórum, seja em forma de texto ou qualquer outra mídia] em 1985 na CompuServe, um dos primeiros serviços a oferecer conexão com a Internet. Em 1991, Hans Bjordahl posta na Usenet, também outra rede precursora da Internet, Where The Buffalo Roam, que se auto-intitula “a primeira tira da Internet com atualizações regulares”.

De acordo com o artigo Webomcis: da gênese aos agregadores, do pesquisador Ro-

drigo Otávio dos Santos, até a invenção do navegador ou browser, os leitores eram obrigados a baixar as histórias; em 1993, com a criação do Mosaic, o primeiro browser, os usuários passaram a ler os quadrinhos online. Doctor Fun, de David Farley, foi publicado pela primeira vez em setembro de 1993 e é tido como o primeiro webcomic, por 20

Um dos primeiros cartuns de Doctor Fun. Sem personagens centrais ou tramas, o webcomic ficou no ar até 2006.

A convergência para o formato digital foi um pequeno passo dado em direção

à distribuição online de histórias em quadrinhos. Não se trata tanto da imaterialidade do produto, quanto da sua virtualidade: a tira, a graphic novel estão lá, a um clique, só não chegam até o leitor por meio de revistas, livros ou dispositivos de armazenamento de dados.

As três gerações de “HQtrônicas”

Em seu livro HQtrônicas: do suporte papel à rede Internet, o professor, pesquisador e

quadrinista Edgar Franco propõe o termo “HQtrônicas”, uma contração de “Histórias em Quadrinhos Eletrônicas”, para identificar o que ele caracteriza como “a nova forma híbrida de arte que une elementos da linguagem tradicional dos quadrinhos aos novos recursos de hipermídia”. Dessa maneira, a definição exclui HQ’s que são simples21


Outra leitura: as “Telas Infinitas” de Scott McCloud O pesquisador e quadrinista estadunidense Scott McCloud afirma que todos os elementos de uma história em quadrinhos mantêm uma relação espacial com os outros elementos, a todo o momento. “Espaço é igual a tempo nos quadrinhos”, de forma que as dimensões da página impressa por si só já quebram a continuidade da apresentação. Com a migração das primeiras histórias para o meio digital, McCloud infere que as limitações impostas pela paginação podem ser superadas; para tanto, ele propõe a criação de quadrinhos em telas infinitas, conceito segundo o qual o monitor do computador serve de janela para o leitor que navega por histórias capazes de aproveitar todas as dimensões e sentidos do plano da tela.

mente digitalizadas e

transportadas para a

a maior parte das “HQtrônicas” está online, ou disponível para download. Franco

tela do computador.

elenca uma série de características que identificam esse formato de HQ: anima-

Franco

ções, diagramação dinâmica, trilha e efeitos sonoros, narrativas multilineares e

três

mapeou gerações

“HQtrônicas”

de

Com a Internet, a necessidade de uma plataforma material diminuiu. Hoje,

interatividade. Observe, clicando no vídeo abaixo:

desde

que iniciou suas pesquisas, em 1995: a primeira, que vai de 1991 a 2001, engloba a difusão de histórias em CD-ROMs e os primeiros

experi-

mentos realizados na Internet, ainda com tecnologias limitadas devido aos problemas

de conexão; a segunda geração é marcada pela popularização do software Flash, fator que abriu novas possibilidades para as “HQtrônicas”, permitindo a utilização de mais recursos de hipermídia, favorecida também pelo aumento da velocidade de transmissão de dados com o surgimento da banda larga. Por fim, a terceira geração registra um refinamento nas histórias, acompanhado do domínio agudo dos recursos audiovisuais.

Nas primeiras experiências realizadas com CD’s, a simples mudança de su-

porte garantiu interfaces com as quais os usuários podiam interagir de maneira

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mais intuitiva. Sinkha, por exemplo, contava com cenas animadas e trilha sonora

Especialmente as novas noções de diagramação, junto da inserção de sons e,

para ambientar o leitor. Também Superman: The Mysterious Mr. Myst dispunha de

sobretudo, animações têm conferido às histórias em quadrinhos uma perspectiva in-

animações, trilha sonora gravada exclusivamente para a história, além de peque-

teiramente nova. Muitas HQ’s se aproximam da linguagem de videogames e desenhos

nas pastas que, conforme clicadas, abriam informações adicionais sobre a trama.

animados, sem que haja uma barreira bem delimitada entre um produto e outro. 23


Afinal, ainda são histórias em quadrinhos?

da de prestígio do suporte antigo. O diretor da Editora Conrad, Rogério de Campos, acredita que, no momento, “o quadrinho só vai ser interessante [na Internet], só vai

Atualmente, surgem na Internet cada vez mais autores dispostos a introduzir

se transformar em alguma coisa na medida em que ficar como quadrinho de papel”.

efeitos sonoros e animações nos quadrinhos, fato que suscita uma discussão sem prec-

Assim como Vergueiro, ele concorda que, a partir do momento em que o quadrinho

edentes sobre o conceito das HQ’s. Afinal, se as imagens estáticas dão lugar ao movi-

apresenta sons e animações, o que se tem é outro produto que não concorre com as

mento em si e se as falas dos personagens, mesmo as onomatopeias, são facilmente

HQ’s tradicionais.

substituídas por conversas, ruídos e explosões audíveis, que tipo de produto cultural

o leitor tem em mãos? Ainda são histórias em quadrinhos?

quadrinhos. Se um derivado ou um objeto completamente distinto, talvez seja muito

Segundo o professor e coordenador do Observatório de Histórias em Quadrin-

cedo para precisar o resultado. As ferramentas cada vez mais arrojadas de que o autor

hos da Escola de Comunicações e Artes da USP, Waldomiro Vergueiro, “HQ é imagem

dispõe, com o desenvolvimento constante do computador e da Internet, criam uma

fixa e texto. Colocou movimento, som, já é outra coisa”. No entanto, há quem defenda

gama infinita de variáveis e convidam a refletir sobre a necessidade de fronteiras con-

o contrário: Franco, por exemplo, acredita que o que ocorre com as HQ’s na Internet é

ceituais entre as mídias. Talvez fosse mais interessante pensá-las como potenciais do

uma “hibridização de linguagens”, o que não desqualifica o produto, apenas gera um

que propriamente como produtos.

Ainda não é possível situar as “HQtrônicas” na trajetória das histórias em

derivado.

Anselmo Gimenez Mendo, mestre em artes visuais e autor do livro História em

quadrinhos: impresso vs. WEB, corrobora a opinião de Franco quando afirma que “os quadrinhos podem incorporar elementos novos até um limite que não transborde para outra linguagem. A maioria do que vemos hoje na Internet, que se denomina quadrinhos (eletrônicos, digitais, ou seja o nome que for dado), não desvirtua o suficiente da linguagem, mesmo quando incorporam som e animação, para constituir algo novo que mereça outro nome ou que possa ser identificado como nova arte”.

O problema é que, se originalmente alguns dos elementos que caracterizam as

HQ’s são a produção industrializada e a distribuição em larga escala, a mera digitalização e disposição de conteúdo em websites já reconfigura a percepção que, até antes do advento da Internet, tínhamos com relação às histórias em quadrinhos.

Como já vimos, a rede agigantou a produção independente e viabilizou uma

distribuição de quadrinhos global, rápida e barata, inclusive com a prática do scan (a digitalização de revistas inteiras liberadas para leitura ou download gratuito). 24

A utilização de um suporte novo, no entanto, não necessariamente implica a per25


de conteúdos, de modo que qualquer pessoa, mesmo com conhecimentos limitados de

A nova safra dos quadrinhos As tirinhas publicadas na Internet passaram por uma série de mudanças e influências. Falaremos de alguns exemplos práticos

outro, o formato tradicional nunca foi tão reproduzido quanto na Internet. A eficiência da rede pode ser facilmente medida pelo número de ocorrências

registradas numa simples pesquisa feita através do diretório de buscas Google: o termo “comics” respondia, em maio deste ano (2011), por 384 milhões de ocorrências; em outubro, cinco meses depois, esse número subiu para 537 milhões.

A quantidade de recursos e serviços gratuitos disponibilizados na rede, com inter-

faces cada vez mais simples e dinâmicas, permite que os internautas publiquem e compartilhem seus próprios quadrinhos, independentemente de qualidade técnica e bom senso.

Fáceis de produzir e publicar, devido ao tamanho reduzido e à rapidez com que

podem ser feitas, as tiras especificamente constituem o tipo de quadrinho que mais se popularizou entre aspirantes a quadrinistas na web.

Os blogs

Segundo o artigo O Impacto dos Blogs para a Produção de Tiras no Brasil, do pes-

quisador e jornalista Paulo Ramos, no final de 2005 houve uma grande ampliação no volume de quadrinhos em formato tradicional circulando na Internet. “Antes dessa data”, escreve, “o que havia eram poucas experiências feitas por programadores, os únicos que, até então, dominavam os labirintos técnicos necessários para a criação de uma página virtual”.

Foi nesse ano que o modelo do que hoje conhecemos como blog sofreu alterações

capazes de lhe conferir uma interface que simplificava os processos de criação e edição 26

“explodiu”, aponta Ramos, citando uma estatística apresentada no livro Gênero textual, agência e tecnologia, da norte-americana Carolyn Miller, que indica que a quantidade de blogs nos Estados Unidos subiu seis vezes no curso dos dois anos seguintes. Ver figura 1

Se por um lado as “HQtrônicas” ainda geram dúvidas e incômodos em relação

ao lugar que ocupam dentro do universo conceitual das histórias em quadrinhos, por

informática, poderia criar sua própria página na Internet. A partir de então, o modelo

O número dos quadrinhos em tira, no entanto, só aumentaria alguns anos mais

tarde. De acordo com Daniel Werneck, professor, quadrinista e organizador da Feira Internacional de Quadrinhos (FIQ), “houve, na segunda metade da década inicial deste século, um aumento sensível no número de páginas dedicadas a essa forma de produção de história em quadrinhos”.

Para ele, o formato curto, fixo e de leitura rápida das tiras cômicas as torna algo

próprio da Internet. Por conta do ritmo naturalmente acelerado do meio virtual, as tiras se tornaram o gênero mais explorado dentro dele. “Na transição que a Internet impôs ao mercado de quadrinhos brasileiro, o casamento entre tiras e blogs parece ter sido o mais bem-sucedido”, conclui.

Werneck também observa que o maior volume de tiras no Brasil, no fim da primeira

década dos anos 2000, estava na Internet e não mais nas páginas dos jornais. “Isso é algo revolucionário no tocante ao processo de produção e de circulação de tiras no país, que tira do jornal a quase exclusividade sobre o tema”, analisa. “O uso do meio virtual já pauta parte das séries lidas nos jornais e reproduz outras, já circuladas nos cadernos de cultura dos diários jornalísticos. Além disso, os blogs permitem aos quadrinistas a oportunidade de publicar suas séries sem depender dos espaços tradicionais dos jornais, muitas com boa repercussão”.

Entre outras vantagens do blog como veículo para o autor de HQ’s, há a possibili-

dade de comunicação que se estabelece entre leitor e autor por meio do espaço disponibilizado para comentários, a instantaneidade de publicação e a capacidade de armazenamento de trabalhos anteriores. 27


Figura 1

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Rogério de Campos aponta que o leitor de quadrinhos tem uma relação melhor com

A divulgação “boca-a-ouvido” entre usuários é uma parte extremamente importante

a linguagem Internet e que a popularidade dos quadrinhos no meio virtual está também

para tornar conhecido o trabalho de um autor. O quadrinista Mauro A. – que publica sob

vinculada a uma capacidade menor de concentração por parte dos internautas. Isso faz

esse pseudônimo e não revela o sobrenome em entrevistas – diz ter começado seu blog de

com que a linguagem dos quadrinhos, sobretudo das tiras – a associação de imagens cha-

tiras Wagner & Beethoven por ser o jeito mais fácil de publicar e divulgar quadrinhos. “Não

mativas a textos curtos – represente uma leitura mais satisfatória para esse perfil de leitor

houve nenhuma grande estratégia quando fiz essa escolha, porque eu não sabia se iria ter

do que a literatura. Ainda mais se pensarmos no formato objetivo e rápido da tirinha.

fôlego para manter o blog por muito tempo. Minha primeira iniciativa de divulgação foi

cadastrar o blog num site de webcomics, mas ele só começou a receber uma grande visitação

Outro fator que incentiva a postagem de tiras por autores donos de blogs é a facili-

dade com que podem ser compartilhadas no formato original. Por terem o tamanho, ger-

depois que outros quadrinistas linkaram o W&B em seus blogs”.

almente, de uma fotografia comum, usuários de redes sociais, como o Facebook, podem

Ver figura 2

postá-las nos campos de foto de suas páginas pessoais, ou disponibilizá-las em álbuns virtuais de imagens como o Flickr, para citar alguns exemplos. Esse tipo de disseminação é mais difícil de acompanhar no caso de graphic novels completas.

Como é possível observar na figura 2, esse tipo de divulgação funciona. Dos dez links

que aparecem na primeira página de uma pesquisa sobre Wagner & Beethoven no Google, seis são de sites falando a respeito do quadrinho ou do autor.

As páginas virtuais são, por-

tanto, excelentes vitrines gratuitas para o trabalho de um profissional. Sem dinheiro, muitos quadrinistas são estimulados a alimentar e divulgar portfólios online.

Um exemplo impressionante é

o caso de João Montanaro, talentoso quadrinista que, com apenas 13 anos, passou a publicar pelo jornal Folha de São Paulo, que descobriu sua página na Internet. Atualmente, com 15 anos, Montanaro reveza com autores A facilidade de publicação e visualização faz com que o o Flickr e o Tumblr sejam duas opções muito populares para a postagem de imagens. Acima, um flick divulgando as tiras do site Monalisa de Pijamas

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de prestígio, o cobiçado espaço de charges políticas da publicação.

O blog de Montanaro o levou a dividir espaço em um jornal de grande circulação com autores como Adão Iturrusgarai.

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Figura 2

Alguns programadores, observando esse crescente apelo que as bandas desen-

hadas, especificamente as tiras, vêm tendo junto aos internautas, perceberam que seria interessante desenvolver plataformas específicas para publicação de webcomics. O ComicPress é um publicador próprio para quadrinhos elaborado pelo WordPress, suporte para criação de blogs. O ComicPress traz um tipo de diagramação interessante para blogueiros que, além de produzir textos e outros conteúdos, desejam destacar seus quadrinhos: ele exibe a tira acima do cabeçalho da página, enquanto os posts ficam dispostos abaixo. O programa também organiza o histórico de quadrinhos por categoria ou data, algo que facilita a leitura e a navegação.

O quadrinista pré-Internet, analisa Werneck, encontrava bastante dificuldade

em produzir e divulgar uma tirinha. “Hoje, com os blogs de webcomics, qualquer um pode fazer isso, e colorido ainda por cima. Isso estimula a produção, e arrisco dizer que nunca tivemos tantos quadrinistas iniciantes quanto hoje em dia. A divulgação facilitada e o contato direto com os leitores dá muito mais motivação ao quadrinista estreante, e isso ajuda as editoras a sentirem quais artistas estão conseguindo atrair um público leitor”.

O quadrinista na Internet tem, portanto, uma facilidade maior para publicar suas

tiras, uma vez que não depende dos meios de produção de terceiros. Esse fato implica uma maior liberdade para publicar, como veremos a seguir.

A expansão de temas dos quadrinhos

Henrique Magalhães, dono da editora independente Marca de Fantasia, vê semel-

hança entre a criação de quadrinhos no meio virtual e a produção independente de fanzines no Brasil, devido ao controle criativo que o autor detém em ambos, por estarem desvinculados do crivo de editoras. A liberdade temática conquistada pelo autor na Internet não é, portanto, novidade. Mas o alcance dessa produção, feita de maneira independente, sim. O fanzine é uma publicação artesanal feita por fãs (o próprio nome é uma junção das palaAo procurar por Wagner & Beethoven em um site de buscas, é possível encontrar diversas indicações e entrevistas com o autor

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vras em inglês fanatic e magazine) com o objetivo de divulgar um trabalho. 33


De acordo com o texto Quarenta anos de fanzine no Brasil: o pioneirismo de Edson Rontani,

A revista começou com uma tiragem de 3000 exemplares – um número fenomenal

da professora do Curso de Comunicação Social do Centro Universitário Regional de Espírito

para o gênero –, mas, acompanhando as tendências de mercado dos quadrinhos em ban-

Santo do Pinhal, Ana Camilla Negri, o termo “fanzine” começou a ser usado na década de

ca, precisou reduzi-la drasticamente: as edições finais chegaram a pífios 100 exemplares.

1930 nos Estados Unidos para designar publicações caseiras que circulavam via correio, com

Sobre sua trajetória com fanzines, Oscar afirmou ao Universo HQ, em 2007, que “a maior

o intuito de estabelecer uma troca de informações entre fãs a respeito de determinado as-

satisfação foi ver o trabalho ser apreciado; e a maior frustração foi ver que uma tiragem de

sunto. No Brasil, o que foi considerado o primeiro fanzine só apareceria em 1965, fundado

apenas 100 exemplares leva um ano para ser vendida e só assim possibilita outra edição”.

pelo artista piracicabano Edson Rontani.

O editor Rogério de Campos reitera que o grande problema da produção indepen-

Além da publicação de ficção científica, Alex Raymond, Rontani fundou um boletim que visava

dente reside justamente na parte de distribuição e venda, que “oneram demasiadamente o

a suscitar discussões entre os amantes de quadrinhos, o Ficção. O portal online Gibindex – conhecido

preço da publicação”, enquanto os vendedores e distribuidores valorizam as produções de

também como “a enciclopédia brasileira dos gibis” – descreve que o meio de produção mais barato

editoras comerciais. Por isso, ele conclui que não há realmente um mercado para os produ-

à época era o mimeógrafo, um instrumento utilizado para fazer cópias de papel escrito em grandes

tos independentes, mas iniciativas isoladas, para as quais restam limitadas opções. Uma de-

quantidades a partir de álcool e de um tipo de papel chamado estêncil. Rontani usou o instrumento

las, diz ele, é a negociação individual com os livreiros, que nunca investem nessas publica-

para fazer os 300 exemplares de 32 páginas desenhadas à mão da primeira edição da revista.

ções, aceitando apenas o sistema de consignação – no qual o empresário recebe determinada

O processo não era tão difícil, mas a tiragem dos fanzines, por serem artesanais, sem-

quantidade de produtos, com margem de lucro previamente definida com o fornecedor, em

pre foi bastante reduzida. Segundo artigo publicado em janeiro de 2008 no portal Universo

uma data combinada para o acerto entre as partes. Nesse sistema, o risco é do fornecedor e,

HQ, um dos maiores fanzines já publicados por aqui foi o longevo Historieta, cujo primeiro

por esse motivo, o empresário tende a focar menos na venda dos produtos consignados.

número foi lançado pelo quadrinista Oscar Kern, em 1972, e cuja produção se estendeu por

quase três décadas, sendo a última edição publicada em 2003.

pequenas: não há canal de acesso a um público mais amplo. Na editora Marca de Fantasia de

Por essas razões, as tiragens das publicações impressas independentes são sempre

Henrique Magalhães, por exemplo, são feitas 200 capas de cada publicação e o miolo é feito em pequenas tiragens, à medida que há demanda.

O meio digital elimina os problemas de custo de produção, além de, como menciona-

do, ter um alcance bem maior, uma vez que o quadrinista não tem um limite de exemplares disponíveis para distribuição, mas um endereço virtual que lhe fornece ferramentas gratuitas para tentar atrair leitores.

O pesquisador Daniel Werneck diz que é difícil fazer uma comparação: “antigamente

a gente tinha menos acesso à informação, então o fanzine servia muito como veículo de divulgação também”, conta. “Hoje em dia todo mundo tem blogs e coisas do tipo, então o fanzine mesmo, em seu formato tradicional, de papel dobrado, perdeu um pouco a necesAs capas do Ficção e do Historieta

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sidade de existir. Quem ainda faz é porque curte mesmo, mas perdeu-se aquela urgên35


cia de comunicação. Acho que o fanzine contemporâneo é mais pessoal, mais criativo,

bria. Essas características se devem aos abusos sexuais recorrentes que o pai inflige à

menos informativo. Mais artístico e menos utilitário”.

menina, mote de todos os episódios.

Tendo editado vários fanzines, muitos dos quais não superaram os cinco

números, Werneck conta que produzir um fanzine exigia recursos financeiros de que, muitas vezes, os fanzineiros não dispunham – muito menos para os números seguintes. Eram, portanto, lançados entre um e três volumes até que se desistisse da empreitada. “Quantas e quantas vezes para fazer um fanzine tive que fazer acordos com as gráficas? Certa vez cheguei a trabalhar dois meses cortando, refilando e colando livros, sem ganhar um centavo”, relata. “Mas aquilo me deixava em êxtase, pois sabia que dali iria para os barzinhos, faculdades e centros culturais divulgar meu jornal, livreto, folheto, enfim, fanzines com ideias minhas e de outros autores. Era muito gostoso o intercâmbio, as expressões das pessoas, as repercussões. Por isso identifico nos blogs atuais os descendentes diretos dos fanzines dos anos 80-90”.

Ele analisa que o “blogar”, que começou de maneira despretensiosa, sob a forma prin-

cipalmente de diários pessoais na web, foi algo que se profissionalizou e hoje muitos autores e editores mantêm e se preocupam com seus blogs.

O que Werneck destaca como o aspecto mais interessante desse fenômeno é a auto-

nomia do quadrinista, que deixa de precisar do aval de editoras e da grande mídia ou de patrocínios ou verbas públicas.

Essa liberdade, como já estabelecemos, pode muitas vezes se manifestar na escolha do

tema de um quadrinho por parte do autor. No meio editorial existe muita preocupação com a sensibilidade do público e a rentabilidade do material produzido. Como na web o custo de produção praticamente inexiste, é deixada de lado essa preocupação monetária e o autor ganha liberdade para trabalhar com temas, desenhos e enredos que poderiam ser considerados polêmicos, desagradáveis ou mesmo amorais e repulsivos pelo grande público.

Um exemplo prático de sucesso improvável no meio impresso e praticável na web é a

HQ Clarissa, do norte-americano Jason Yungbluth.

As histórias, algumas de apenas uma página, outras se estendendo por até oito,

giram em torno da protagonista do título, uma garotinha carrancuda e um tanto som36

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Um quadrinho como Clarissa seria difícil de “vender“ para um editor, mas, na web, o alcance

“Não esperava que fosse fazer sucesso, porque é só olhar pra tirinha, né?”, diz Madeira. “Fiz

e a repercussão são grandes. A história é citada em fóruns virtuais de discussão, sendo um deles o

só pra mostrar pra uns amigos mais próximos, que eu sabia que entenderiam a piada. Postei

fórum do website do escritor Chuck Palahniuk, e já esteve na primeira página do Reddit (site de pub-

uns 15 logo no primeiro dia, e fui nesse ritmo acelerado por muito tempo. Se eu tivesse pre-

licações sociais no qual os usuários podem postar links para conteúdo na web) ao menos três vezes.

tensão de divulgar a coisa teria ido postando aos poucos. Acho que a coisa espalhou naquele

No Brasil, outro exemplo de liberdade temática e estética são os quadrinhos do blog Cersi-

esquema de pessoas mostrando a ‘bizarrice do dia’ umas para as outras”.

bon, cuja publicação o autor, Rafael Madeira, diz já ter encerrado. A tira, inteiramente desenhada no

programa MS Paint, com traços rústicos e escrita em linguagem típica de Internet, cheia de abrevia-

efetivo do que a venda de revistas em bares e faculdades praticada pelos fanzineiros das déca-

ções e erros de português. Madeira conta que a criação da tirinha malfeita foi proposital: decepcio-

das anteriores – e com a vantagem de que o autor pode conservar a mesma liberdade temática.

nado com a baixa qualidade que via em alguns webcomics, ele decidiu criar a pior tirinha do mundo.

Atualmente, o compartilhamento de simples links é um tipo de divulgação muito mais

Esse desimpedimento temático também pode se manifestar no desenho do autor. Afi-

nal, é possível encontrar muitos quadrinhos mal desenhados e bem sucedidos na Internet.

Basta observar os exemplos abaixo.

Quadrinhos enquanto arte

Para os curiosos, os personagens foram retirados das tiras: Cyanide & Happiness, Dr. Pepper e Euricéfalo

Você sabe diferenciar os personagens acima? As figuras representadas nas tiras Doutor Pepper, Cyanide

and Happiness (ou a versão em português, Cianeto e Felicidade) e Euricéfalo têm em comum os traços, digamos, genéricos dos chamados “bonecos-palito” e o fato de que todos obtiveram, em variados graus, sucesso no meio virtual. O humor quase ininteligível de Cersibon: na primeira tira, um garçom transforma a sopa do cliente em um pássaro; na segunda, o mesmo garçom faz as vezes de médico e, na terceira, uma mãe acaba com a pipoca que fez para o filho

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As técnicas de desenho são simples; mais ainda se comparadas às de grandes desen-

histas como um Eisner ou Moebius. 39


Imagens retiradas da série Arzach, de Moebius, e O Edifício de Eisner. Compare os desenhos aos do GIF da página anterior.

Mesmo com toda a rusticidade, esses quadrinhos que “podem ser feitos por

qualquer um” encontraram seu nicho na Internet e, no caso de Cyanide and Happiness, com tão estrondoso sucesso que o webcomic pôde migrar para o meio impresso.

Tanto Eurico, autor das Tiras do Euricéfalo, quanto um dos co-autores de

Cyanide, o irlandês Dave McElfatrick, admitem que optaram pelo formato palito

A Pop Art utilizava elementos da cultura de massa para discuti-la. Nas obras de Roy Lichtenstein, os quadrinhos compunham cenas desvinculadas do contexto de uma história oferecendo uma reflexão sobre o que pode ou não ser considerado arte. Acima, o quadro de 1975, M-maybe he became ill

por conta, pura e simplesmente, da falta de tempo para produzir um desenho mais detalhado. A ideia de que esse tipo de quadrinho pode se popularizar na Internet levanta a questão: é preciso saber desenhar para ser quadrinista? E o que dizer a respeito desses quadrinhos facilmente copiados por qualquer pessoa? Eles constituem obras de arte?

Historicamente, não foi fácil para que as histórias em quadrinhos fossem

reconhecidas como formas de arte. De acordo com o artigo A produção de histórias em quadrinhos no ensino de arte na contemporaneidade, do mestre em artes visuais João Marcos Parreira Mendonça, a baixa qualidade dos meios de impressão e personagens que atendiam prioritariamente a interesses comerciais em detrimento dos artísticos contribuíam para que as HQ’s ficassem longe do status de arte.

Um dos divisores de águas que alteraram a percepção que se tinha das

histórias em quadrinhos foi o movimento da Pop Art, na década de 1950, que aproximou arte e cultura de massa. 40

No contexto do debate da oposição entre as noções de alta e baixa cultura, houve uma

quebra de valores: elementos ordinários do cotidiano, como o eram as HQ’s, passaram a ocupar espaço em exposições nas principais galerias de arte dos Estados Unidos e da Europa.

No que diz respeito à arte contemporânea, Gil Vieira Costa, em seu artigo

HQtrônicas enquanto manifestação de arte contemporânea, afirma que ela funciona dentro de um sistema que a legitima; existem sinais e processos sociais para que se possa identificar que tipo de objeto pode ser reconhecido como arte. A questão é que esse processo de sinalização sofreu um impacto significativo com a informatização em escala global. As novas possibilidades de produção artística fazem com que boa parte destes sinais estejam ultrapassados.

O ciberespaço – que compreende mais do que apenas a Internet – oferece um

espaço não-físico em que se pode constituir uma inteligência coletiva e processos de 41


criação comunitários e interativos que, muitas vezes, superam a necessidade de mediação financeira ou simbólica, como o reconhecimento de valor artístico por parte de curadores ou críticos.

Vieira ressalta, no entanto, que não se pode pensar que o ciberespaço irá re-

configurar a noção de arte. Ele cita a autora Anne Cauquelin, dizendo que estética é “um emaranhado temático de vozes que discursam acerca da arte e estipulam os seus limites”, ou seja: um produto precisa corresponder a uma série de critérios para que assuma o status de obra de arte, mesmo em um meio como a Internet, que visa a democratizar a produção e a disseminação de conteúdos.

O pesquisador de quadrinhos Edgar Franco ressalta um ponto importante na dis-

cussão a respeito dos quadrinhos de desenhos simples, tomando como exemplo as tiras de humor extremamente ácido dos Malvados, de autoria do carioca André Dahmer, cuCharge de Henfil, abaixo: o desenho é simples, mas expressivo e as piadas são certeiras

jos traços simples não impediram que fossem publicadas no meio impresso. “As editoras talvez nunca publicassem esses trabalhos se eles não tivessem público. O desenho do Dahmer é muito simples, mas quando as editoras veem que, mesmo com toda essa simplicidade, ele tem um público e elas podem vender aquele trabalho, elas aceitam. É bem provável que esses caras só conseguiram uma demanda de editoras para o trabalho deles, mesmo com um traço tão inexpressivo, porque eles provaram, através da Internet, que o trabalho deles tem uma qualidade intrínseca”. E qual seria essa qualidade intrínseca? O que efetivamente torna um quadrinista um bom quadrinista?

Rogério de Campos diz que os desenhos mais simples podem ser extremamente

expressivos e, para provar essa afirmação, invoca o exemplo do cartunista Henfil. Mesmo assim, ele considera válido questionar se muitos novos autores, de fato, estariam deixando de saber desenhar.

“Existia mais treinamento para as pessoas desenharem antigamente. Talvez o

virtuosismo esteja sofrendo mesmo”, diz ele. “Eu acho que existe uma crise do figurativismo já quando surge a fotografia. Com todo o impacto da fotografia no início do século XX, o figurativismo, não só dos quadrinhos, sofreu muito. E o surgimento do abstracionismo também influi no resultado”. 42

Mauro A., do Wagner & Beethoven, que conta com tiras feitas a partir de imagens

de outros quadrinhos – ou encontradas em sites de busca – coladas e editadas em um programa de computador, assumidamente não é um grande desenhista, mas diz que o desenho não é a habilidade principal de um quadrinista: “não é preciso saber desenhar. É possível fazer bons quadrinhos usando fotomontagens ou atuando somente como roteirista – ou mesmo sendo um mau desenhista, como nas várias HQ’s de homens-palito que existem por aí. Mas é claro que o ideal é dominar o texto e o desenho, como o Laerte”, conclui.

Uma das razões para que os quadrinhos na Internet sejam extremamente sim-

ples é o fato de serem um projeto paralelo mantido nas horas vagas pelos autores e não algo a que eles se dedicam completamente. Autores como Eurico e o quarteto de Cyanide & Happiness certamente corroboram essa teoria, ao dizer que, de fato, adotaram a forma mais prática de desenho por falta de tempo – ainda que no caso de Cyanide, os quadrinhos tenham se tornado a principal ocupação dos autores, depois que o formato personagens-palito se popularizou e se tornou a fórmula estética do quadrinho. 43


Daniel Werneck também é da opinião de que nunca foi preciso saber desenhar para

na forma de texto, vídeo, som, desenho ou mesmo quadrinho. Os canais de divulgação

ser quadrinista. “Já li vários quadrinhos com desenhos maravilhosos, mas que eram

podem ser redes sociais, e-mail ou mesmo websites próprios para a reprodução deste

simplesmente um saco. Histórias em quadrinhos são, antes de mais nada, histórias, e

tipo de conteúdo como os sites e blogs de humor citados acima.

os quadrinhos movimentam a narrativa. Os desenhos são importantes, obviamente,

mas se a história em si for cativante o suficiente, é isso que importa. Não acho que

replicam rapidamente, ganhando autenticidade e status mítico, conforme a famil-

o Cersibon seria melhor com imagens do Alex Ross, e espero que o Pintinho continue

iaridade [com eles] cresce”.

com seu estilo Paintbrush de ser. Em time que está ganhando não se mexe”. Desenhos

simples podem, portanto, ter valor artístico. Basta o autor ter um roteiro bom e saber

permanecer os mesmos ou evoluir à medida que os internautas mudam, recontex-

usar os traços rústicos como um recurso expressivo.

tualizam e divulgam aquele conteúdo. A título de exemplo, pegamos uma piada

Variações imprevistas: memes, rage comics e um novo jeito de fazer quadrinhos

Ainda segundo o artigo do The Guardian, “os melhores memes da Internet se

Outra curiosidade a respeito dos memes de humor da Internet é que podem

bastante popular em outubro de 2011 nos sites dedicados a memes e que gerou uma série de piadas derivadas, o Scumbag Steve (“Steve Canalha”, em tradução livre).

Um fenômeno em quadrinhos de enorme sucesso na web que é, literalmente, feito

No meme, frases a respeito de comportamentos hedonistas sobre drogas, álcool,

por qualquer internauta e abraça a rusticidade do desenho como um fator de comicid-

festas ou outros contextos são inseridas sobre a imagem de um rapaz parado em frente

ade são as tiras rage, que constituem um meme de Internet.

a um corredor, usando um boné de lado.

Explicaremos as tiras rage em alguns parágrafos, mas antes falaremos um pouco sobre o que são memes.

Quem perde horas em sites como 9gag, memebase ou em blogs como Capinaremos e

Nãointendo sabe exatamente o que são essas piadas virtuais que são divulgadas de maneira

Nas piadas derivadas, o conhecido boné de Steve é colocado sobre outras ima-

gens com frases similares sobre comportamentos “canalhas” e o adjetivo “scumbag” atribuído ao objeto da foto. É possível ver essa evolução ilustrada abaixo:

geralmente viral – quando um usuário divulga para outros, que, por sua vez, divulgam para mais pessoas e assim por diante, em um processo análogo a o de uma epidemia.

Para os que não conhecem, comecemos do início: o termo meme foi cunhado em 1976,

no livro O gene egoísta, de autoria do cientista britânico Richard Dawkins. Simplificando a teoria, o meme desempenharia, em relação à memória, um papel semelhante ao gene na genética: o de unidade mínima de informação. O meme circularia entre cérebros ou entre outras unidades de armazenamento de informação como livros ou a própria Internet.

Dawkins considerava os memes uma forma de evolução cultural que seria capaz de se

auto-propagar. Em um artigo de 10 de agosto de 2000, intitulado It´s all in the memes (“Está tudo nos memes”), o jornal inglês The Guardian mostra que essa definição poderia ser aplicada a qualquer produto cultural que se replica – de ritos religiosos a modas passageiras.

Pra quem entende a piada: o Scumbag Steve original - em piada que critica o movimento Occupy Wall Street -, o Scumbag Brain - uma variação do meme, que culpa o cérebro humano por certos atos e atitudes involuntários - e o Scumbag Steve Jobs - que critica algumas gafes da Apple.

Um meme de Internet é, portanto, uma ideia que pode ser reproduzida pela rede 44

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É importante ressaltar que esse tipo de meme curto e imagético não é o único a ser

palavrão. O subreddit permitia que os usuários publicassem seus próprios quadrinhos

produzido e reproduzido pelos internautas, no entanto, como o artigo The Internet and

rage, o que levou à criação de outros personagens.

memetics, de Garry Marshall, apropriadamente ressalta, já foi debatido que a alta ve-

locidade de transmissão de dados, que ocasiona uma enxurrada de memes circulando

geradores de tiras, como se pode observar no vídeo abaixo:

Outros sites, como o Quickmeme e o Memebase posteriormente adotaram seus

pela Internet, dificulta a distinção entre memes simples e mais complexos.

Geralmente, os memes mais curtos e de maior impacto instantâneo têm maior

popularidade em relação a textos longos. O fator da virabilidade assume importância maior que outros atributos e torna esse tipo de meme mais duradouro e conhecido - o que explica porque as tiras e charges fazem bons memes. As chamadas tiras rage são um bom exemplo de tirinha-meme e são bastante populares, pelo menos até o momento em que este texto foi escrito – é preciso lembrar que este fenômeno é extremamente fluido e memes podem desaparecer tão rapidamente quanto começam.

A palavra rage significa “ira” em inglês e o website Know Your Meme, dedicado a

explicar a origem destas piadas de Internet, estabelece a relação entre o nome e o tipo de tirinha. Em tradução livre: “os Rage Comics são uma série de webcomics [...] que são geralmente criados por meio de softwares de desenho simples, como o MS Paint. Os quadrinhos são geralmente usados para contar histórias de experiências cotidianas, que teminam em uma piada”.

Os personagens desse tipo de quadrinho geralmente retratam estados de espírito como

conformidade, incredulidade ou raiva através de expressões faciais comicamente exageradas, e as histórias são geralmente contadas em uma média de quatro quadrinhos. Know Your Meme traça a origem desses quadrinhos até o fórum virtual /b/, no site 4chan, num post de 2008. Como o nome sugere, a primeira história mostrava um personagem passando por uma situação que provocava raiva – daí o nome rage. A gama de personagens aumentou, assim como os sentimentos retratados, mas são todos agrupados sob o nome rage face.

Em janeiro de 2009, o site Reddit lançou um subreddit, um sub-fórum do site feito

sob medida para conteúdos específicos, intitulado FFFFFFFUUUUUUUU, interjeição usada para expressar raiva pelo rage face original – trata-se da primeira sílaba de um 46

Com geradores e diversos sites dedicados à divulgação desse modelo de memes em

quadrinhos, criou-se uma autoria coletiva em grande escala, em que o mesmo tipo de quadrinho é lido e criado por pessoas de diferentes nacionalidades. Tanto é que passaram a existir sites e blogs brasileiros de humor – como os anteriormente citados Capinaremos e Nãointendo – que também dedicam parte de sua postagem a memes e rage comics.

Retomando o artigo de Garry Marshall, o fenômeno é interessante porque mostra

certo grau de homogeneização cultural pela Internet, uma vez que (novamente, em tradução livre) “um grupo diverso de pessoas, talvez de várias partes do mundo e uni47


Anteriormente, explicamos que os memes podem ser modificados aos poucos e

das por nada além de um interesse comum, tem necessidade de construir sua própria

cultura. A rede facilita a comunicação e a propagação de memes. Mas, em comparação

contamos com mais um exemplo: o quadrinho que acabou conhecido como X, grab

com o mundo real, os memes [virtuais] são espalhados rápida e certeiramente. Isso faz

my Y (“X, agarre meu Y”), em que “X” e “Y” funcionam como espaços em branco no

com que comunidades virtuais desenvolvam culturas que são estreitas, muitas vezes

título, para serem preenchidos com objetos cambiáveis de história para história.

extremistas e, por consequência, bastante precárias”.

Explicando melhor, o meme começou, de acordo com o verbete em Know your Meme,

Além dos rage comics, outras manifestações de quadrinhos meme são os panels em

que fotos com cenas de filme são tiradas do contexto original e organizadas em forma

com o quadrinho abaixo, postado pelas norte-americanas Angela Dunn e Caroline Sharpe na comunidade virtual artística DeviantART em 23 de janeiro de 2009.

de tiras verticais – às vezes intercaladas com outras imagens – às quais são acrescentadas falas que dão à cena um sentido humorístico. O Cheezburger, uma rede especializada em piadas meméticas, possui um site dedicado a esse tipo de quadrinho, o Comixed. Como exemplo deste tipo de piada, pegamos uma das cenas de filme mais populares: o momento em que é passado um bilhete para Mark Zuckerberg, em A Rede Social. A graça das tiras com essa cena específica é mudar o remetente e a mensagem contida no bilhete, de forma humorística:

As derivações do quadrinho trazem personagens diferentes, mas mantêm a mes-

ma fórmula: um pede ao outro que agarre uma parte de seu corpo e os dois decolam em direção ao céu deixando, geralmente, um arco-íris como rastro e uma palavra aparecendo no fundo.

Cinco dias depois de postado a tira original, a primeira derivação foi publicada,

ainda no DeviantArt, por outro usuário do site, com o nickname Shadren4ever.

Outras versões do quadrinho começaram então a surgir na plataforma de blog-

ging Tumblr e no Reddit, se espalhando, assim, pela Internet e adquirindo status de meme. Muitos dos quadrinhos derivados adaptavam a piada de modo a fazer referência a filmes, jogos etc., como é possível observar a seguir: 48

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não ter problemas com o fato de as pessoas modificarem seu trabalho sem autorização: “foi daquelas coisas que nós fizemos em cinco minutos, por diversão. Me surpreendeu mais que qualquer outra coisa! Mas [as variações] são muito benfeitas!”.

Quanto à ideia dos memes como um tipo de quadrinho, Caroline diz ter senti-

mentos conflitantes a respeito: “acho que são uma forma nova de se fazer quadrinhos, mas não têm muito valor artístico. Os rage comics, por exemplo, são bonecos palito que qualquer um pode fazer”, diz. “Se você adicionar ao quadrinho alguma coisa sua e redesenhar, eu aplaudo”.

Já Angela vê esse tipo de quadrinho como “algo feito para dar às pessoas uma

risada rápida. A maior parte de quadrinhos como os rage são coisas que todos já sentimos, vimos ou fizemos, mas nunca nos demos conta de que outras pessoas fazem também. Por isso, quando eles são feitos de uma maneira que nós imediatamente nos sentimos conectados aos personagens, os quadrinhos fizeram um bom trabalho!”.

Por serem objetos de autoria coletiva, os memes podem não ser os quadrinhos

mais originais e artísticos que existem, mas são “brincadeiras” que unem uma cultura independentemente de nacionalidade ou geografia e constituem, definitivamente, um novo jeito de fazer quadrinhos.

Os quadrinhos acima fazem referência aos filmes Star Wars e O Rei Leão, à série de livros Harry Potter e à falta de originalidade do próprio meme.

Quando questionadas a respeito de seu quadrinho ter se tornado um hit de

uma hora para outra, Caroline diz que as duas “viam ocasionalmente [variações do quadrinho], mas só quando amigos começaram a mandar links ao longo de 2010, perceberam a dimensão da coisa”. 50

Angela acrescenta que ambas ficaram bastante animadas com o sucesso e diz 51


Produção

52

53


O mercado atual de quadrinhos

A migração das HQ’s das bancas para as livrarias e a segmentação do mercado valorizaram as histórias em quadrinhos

Nas décadas de 1930 e 40 – a chamada Era de Ouro dos quadrinhos –, os gibis ven-

diam muito. As tiragens eram enormes e revistas como Action Comics e Detective Comics, nas quais eram publicadas as aventuras do Superman e do Batman, chegavam aos milhões de exemplares. Em mais de uma ocasião, a venda de gibis superou a procura por revistas como a Time. Entretanto, esse tempo áureo das bandas desenhadas passou.

Hoje, o mercado vive um momento peculiar: nas bancas brasileiras, apenas as

revistas da Turma da Mônica e os mangás continuam gerando um retorno financeiro positivo. Os gibis de super-heróis são cada vez menos procurados. Os principais lançamentos, as graphic novels mais interessantes e comentadas, têm chegado agora às livrarias, tendência observada no mundo inteiro, inclusive no Brasil.

Sidney Gusman, editor-chefe do site Universo HQ e chefe do Departamento de

Planejamento Editorial da Mauricio de Sousa Produções, tem uma explicação simples para essa mudança: “os quadrinhos voltaram a ser cult”. Esta não é a primeira vez que os quadrinhos passam por um momento de valorização. No começo dos anos 90, afirma Gusman, isso aconteceu com as revistas vendidas em banca; agora, está acontecendo nas livrarias.

Essa mudança no local de comercialização dos quadrinhos não é um fenômeno

completamente novo, no entanto: a França e a Bélgica, dois dos maiores mercados consumidores de quadrinhos do mundo, lançam HQ’s em livrarias há algum tempo. No Brasil, a pioneira dessas edições mais luxuosas é a Editora Conrad, responsável por lançar a série Sandman, de Neil Gaiman, e importantes mangás, como Gen Pés Descalços, de Keiji Nakazawa, para colecionadores mais exigentes. O editor Rogério de Campos compara a situação atual com o mercado de décadas anteriores: “na década de 1940, gibis vendiam cerca de 50 milhões de exemplares. A venda da editora Shonen Jump, no Japão, até os anos 80, girava em torno dos 180 milhões de exemplares por semana. Agora, o que está acontecendo? As HQ’s deixaram de ser um segmento que tinha características muito industriais e se tornaram algo mais próximo da literatura”.

A valorização das bandas desenhadas se deve, principalmente, à quantidade de

boas HQ’s autorais sendo lançadas. “O quadrinho de autor está uma euforia. A coisa não está mais centrada em personagens, mas em autores” - diz Campos. Antes, as revistas eram compradas de acordo com o personagem na capa: o Wolverine, o HomemAranha ou o Batman. Agora, não importa tanto quem protagoniza a história, mas quem assina o roteiro. É uma mudança que começou na segunda metade da década de 1980, com o lançamento de Cavaleiro das trevas, de Frank Miller. Desde então, os autores passaram a ser cada vez mais valorizados dentro do mercado de quadrinhos; estão no mesmo patamar dos romancistas. Um exemplo claro é a FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty. Desde 2008, autores como Gilbert Shelton, Robert Crumb (ambos famosos por seus quadrinhos underground publicados nas décadas de 1960 e 70), Neil Tira de Raphael Salimena publicada no Portal UOL

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Gaiman e até os brasileiros Gabriel Bá, Fábio Moon, Rafael Coutinho e Rafael Grampá já 55


fizeram palestras sobre HQ’s na histórica cidade lado

carioca, de

ao

escritores

como Ferreira Gullar, Gay Talese e Antonio Lobo Antunes.

As

histórias

em quadrinhos também

passaram

a

ser vistas como um poderoso aliado do ensino escolar. Para além do texto, os desenhos despertam o interesse dos estudantes, que recorrem às adaptações em quadrinhos de clássicos da literatura. Recentemente, o governo brasileiro entendeu que esse era um recurso válido para incentivar os jovens a ler e passou a adotar adaptações e outras HQ’s como parte do Pro56

As versões em quadrinhos de clássicos da literatura ganham as bibliotecas escolares Impor a leitura de obras clássicas da literatura para alunos do Ensino Fundamental e Ensino Médio sempre foi uma decisão do governo que causou controvérsias. Embora a intenção seja formar jovens com uma boa bagagem cultural, o simples ato de tornar a apreciação do livro apenas uma obrigação para se sair bem em uma prova afasta os estudantes da leitura de maneira irreversível. Uma solução que o governo brasileiro encontrou para contornar essa dificuldade foi a adoção de adaptações em quadrinhos de obras como O guarani, de José de Alencar, ou Os sertões, de Euclides da Cunha, nos currículos das escolas públicas, como parte de um projeto chamado PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola). “Eles são um jeito fácil, legal e divertido de envolver os alunos e apresentar clássicos”, diz André Conti, editor do selo de quadrinhos da editora Companhia das Letras. Quando o governo decide adotar uma obra, os pedidos chegam a quase 60 mil exemplares – um valor muito superior às próprias tiragens médias da maioria dessas obras, que costumam ficar entre 2 e 4 mil exemplares. Portanto, é um negócio extremamente lucrativo para as editoras, que garantem a venda de seus livros. Apenas em 2011, foram escolhidas 36 HQ’s para o PNBE. Dessas, 11 eram adaptações. Com esses programas, o gênero de quadrinhos que mais cresceu no Brasil nos últimos tempos foi justamente o das adaptações literárias. Os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá, que adaptaram O Alienista, de Machado de Assis, contam que o apelo visual atrai o interesse dos jovens de hoje. Mas não só os jovens. A possibilidade de garantir a venda de algumas dezenas de milhares de unidades para o governo motivou muitas editoras a apostar nas adaptações. Os resultados são variados: algumas são muito boas (como as versões de Frankenstein e A ilha do tesouro, lançadas pela Salamandra, e A divina comédia, de Dante Aligheri, feita por Seymour Chwast, e publicada no Brasil pela Quadrinhos na Cia.), outras de caráter duvidoso.

grama Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), desenvolvido pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. “Isso mostra um reconhecimento por parte de algumas áreas influentes da sociedade, como professores e universidades, que passam a ver os quadrinhos de outra forma”, diz Waldomiro Vergueiro, pesquisador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA-USP.

A oferta de boas histórias em quadrinhos de gêneros variados também

aumentou. É um processo que Gusman chama de “horizontalização”: “lá para 2007, começo de 2008, o mercado passou a ter títulos de vários gêneros, só que ele estava crescendo para o lado. Não existiam grandes campeões de vendas, o que significa que existia público para todos esses gêneros, mas faltava formar novos leitores. De lá para cá, o pessoal começou a consumir mais quadrinhos”. Hoje é possível encontrar as famosas HQ’s de super-heróis, mas também existem relatos autobiográficos, histórias de amor, de terror, de suspense, retratos da vida em favelas ou diários de viagem. Nenhum deles chega a ser considerado best-seller, mas todos são consumidos por públicos específicos.

A procura por quadrinhos cresceu tanto que motivou grandes editoras

brasileiras (e também estrangeiras) a investir em arte sequencial. Em 2008, a Companhia das Letras, uma das maiores editoras do país, lançou seu selo de quadrinhos. “Já publicávamos HQ’s, mas queríamos aproveitar a variedade das histórias atuais. Criamos, então, um selo para ter livros juvenis, adultos, de tudo”, afirma André Conti, editor da Quadrinhos na Cia, responsável pela publicação de graphic novels nacionais, como Cachalote, de Rafael Coutinho e do escritor Daniel Galera, e estrangeiras, como a americana Retalhos, de Craig Thompson. A criação do selo fez com que outras editoras, até então afastadas do mercado de HQ’s, passassem a lançar bandas desenhadas. Um exemplo é a Barba Negra, selo da Leya, que já lançou histórias importantes, como Cicatrizes, de David Small. Outras editoras, como a Record, mesmo sem uma linha específica voltada para HQ’s, se preocupam em lançar graphic novels e adaptações literárias com alguma regularidade. 57


O público feminino passou a consumir mais HQ’s graças aos mangás e à Turma da Mônica Jovem, que oferecem uma opção às revistas de heróis

As editoras têm investido em graphic novels cujos roteiros se aproximam da literatura. Feitas para leitores que não têm tanta intimidade com HQ’s, atraem um público que frequenta livrarias

Embora a venda em livrarias tenha trazido vantagens para os quadrinhos, como um

acabamento mais caprichado das edições e o ingresso de editoras menores no mercado, que não teriam condições de bancar as grandes tiragens exigidas pelas bancas de jornal, ela tem seus pontos negativos. O principal é justamente a redução das tiragens, fator que eleva o preço das HQ’s. Enquanto em outros países a tiragem média de um livro é de 10 mil exemplares, grande parte das tiragens brasileiras médias são de 2, 3 mil exemplares. Campos ainda diz que a velocidade das vendas acaba sendo muito reduzida. Quando um gibi vai para a banca, ele é vendido rapidamente, pois o leitor acompanha uma série e se acostuma a comprar a revista todos os meses; no caso das livrarias, não existe essa rotatividade: as graphic novels são vendidas como livros, geralmente com narrativas que se encerram numa única edição. Os álbuns ficam expostos até que alguém compre.

Outro problema é a elitização dos quadrinhos. As bancas conseguem ser democráti-

cas de uma maneira que as livrarias não conseguem ser. “A classe C não vai à livraria”, diz Gusman. “É preciso incentivar de alguma forma a ida desse público às livrarias, ou fazer com que os trabalhos cheguem a eles de outro modo”. 58

Até o começo dos anos 90, meninos e meninas brasileiras de até 14 anos liam gibis da Turma da Mônica. Quando deixavam a infância para trás, os meninos passavam a ler histórias de super-heróis, mas as meninas não tinham opção. “Foi aí que os mangás começaram a ganhar mais espaço”, diz Sidney Gusman. “Elas encontraram nos mangás um quadrinho que falava diretamente com elas. Mas nem só meninas passaram a comprar as HQ’s japonesas. Todos aqueles que não queriam estudar 50 anos de cronologia dos personagens para poder entender o que se passava em um gibi do Superman comprado em uma banca aderiram à febre dos mangás. Contadas como novelas, ou seja, com um início, meio e fim bem definidos, e com um apelo emocional maior, as histórias japonesas conquistaram com facilidade o jovem recém-saído da infância. Mauricio de Sousa, em uma ousada tentativa de recuperar leitores que cresciam e abandonavam os gibis da Mônica, lançou, em julho de 2008, a série Turma da Mônica Jovem. Apresentando os personagens clássicos em versões adolescentes, desenhados com traços de mangá, a revista é uma das mais bem-sucedidas da Mauricio de Sousa Produções e o quadrinho mais vendido no mundo em 2011. A DC anunciou que Justice League #1, que havia vendido 200 mil exemplares, era o gibi mais vendido do ano. Mas a edição #34 da Turma da Mônica Jovem, em que Cebolinha e Mônica se beijam, vendeu 500 mil exemplares. A diferença entre a venda das duas revistas foi debatida pelo jornalista americano Rich Johnston em seu blog, Bleeding Cool. “Eu acho que a gente vai enxergar, daqui alguns anos, que, além de ter recuperado o leitor para suas revistas, o Mauricio manteve o jovem lendo quadrinhos, porque é muito mais fácil você migrar para outro gênero de HQ quando você lê até os 14, 15 anos do que quando você para aos 10”, diz Gusman. Waldomiro Vergueiro reforça a relevância de Mauricio de Sousa no mercado nacional, afirmando que, apesar de o leitor brasileiro estar muito voltado para os quadrinhos importados, o público infantil tem uma grande ligação com a produção brasileira por meio da Turma da Mônica. De acordo com ele, “85% da produção é Mauricio de Sousa”. Os gibis da Turma da Mônica continuam sendo os grandes vendedores em bancas de revistas. É um ponto fora da curva em um mercado de bancas que está em franco declínio. Em volume de revistas vendidas, Vergueiro compara a produção da Mauricio de Sousa Produções à das gigantes Marvel e DC Comics, nos Estados Unidos. “O Brasil nunca teve uma crise nos quadrinhos se você considerar que Mauricio de Sousa é quadrinhos. O país sempre vendeu muito quadrinhos” – acrescenta Conti, da Quadrinhos na Cia. 59


Internet: distribuição democrática de quadrinhos?

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto de Economia da Universi-

dade Federal do Rio de Janeiro, em 2005, “a distribuição dos livros no Brasil é feita de duas maneiras: vendas diretas das editoras ao governo e vendas diretas às livrarias em

mento. Além disso, é geralmente mais fácil encontrar histórias clássicas em sites ilegais do que em lojas, especialmente no Brasil. Se a língua inglesa não for um impedimento, a oferta de histórias aumenta consideravelmente: com alguns cliques é possível baixar conteúdo da Espanha, França, Itália, Bélgica ou Argentina, apenas para ficar nos exemplos mais comuns.

geral com a intermediação de empresas distribuidoras”. Ainda segundo o estudo, “os distribuidores operam com uma margem de lucro de 10 a 15% do preço de capa, o que torna inviável remeter pequenas quantias para pontos distantes dos centros editoriais”.

Waldomiro Vergueiro, da ECA-USP, diz que a produção de quadrinhos destina-

dos às bancas está embasada em poucas editoras e ainda menos distribuidoras – apenas a Dinap e a Fernando Chinaglia (que, juntas, integram o grupo Treelog de logística e distribuição) com a adição de algumas distribuidoras menores, de atuação limitada. “Então, ou você faz uma produção muito grande para todo o país, que vai gerar um encalhe depois significativo, por volta de 70%, ou você faz um número menor e distribui em algumas pequenas praças selecionadas, de modo que você acaba concentrando a distribuição de quadrinhos no Rio de Janeiro, em São Paulo... muito mais na região Sudeste do país, onde você tem uma boa distribuição. No restante do país, a distribuição vai ficando muito capenga”.

Nesse contexto, a Internet veio ocupar a posição de uma grande distribuidora de

“Página com link para download no website Avax Home, onde o internauta pode baixar números antiquíssimos de clássicos dos quadrinhos”

histórias em quadrinhos, que independe de fronteiras e distâncias. Seja por vias legais ou ilegais, a rede já é o principal meio pelo qual os quadrinhos estão chegando às pessoas. A via legal são os sites e blogs de editoras e autores, que disponibilizam tiras e histórias para leitura online ou download. A gigante DC Comics, que lança as histórias de Batman e Superman, entre outros, zerou a contagem de suas revistas em setembro. Agora, todas as edições são lançadas no mesmo dia, em bancas, no iPad e na Internet. A Marvel desenvolveu um aplicativo para o navegador Chrome, do Google, em que é possível comprar e ler revistas digitais.

Já a via ilegal são os populares scans, o equivalente ao download ilegal de filmes

e músicas. As histórias da DC, vendidas oficialmente na Internet, podem ser encontradas em sites de pirataria, traduzidas para o português, poucas horas após o lança60

Gusman, em uma palestra ministrada no último Festival Internacional de

Quadrinhos (FIQ), evento gratuito que acontece em Belo Horizonte, disse que o fato de muitos fãs de quadrinhos terem aderido à prática é uma “realidade irreversível”, que só pode ser minimizada por ações das editoras. As revistas de heróis, por exemplo, chegam ao Brasil com atraso de alguns meses. Se o leitor já conhece a história, talvez não sinta necessidade de comprar a edição em papel, que invariavelmente vem acompanhada de outras aventuras que ele não tem vontade de ler. Gusman sugere uma redução considerável nos preços (algo mais complicado de ser feito, especialmente no Brasil, por causa das tiragens pequenas dos livros em geral) ou a criação de 61


histórias para smartphones e tablets (o que já vem sendo feito: o aplicativo Comixology oferece HQ’s de grandes editoras, como DC, Marvel, Image e Dynamite, e de editoras menores, para serem lidas em tablets e celulares). “Está começando a aparecer um mercado novo. Isso vai acabar sendo uma renda alternativa para as editoras que continuarem publicando em papel”, afirma Gusman. No Brasil, algumas histórias já foram lançadas para iPad. A pioneira foi a Conrad, que digitalizou Sábado dos meus amores, de Marcello Quintanilha. A Mauricio de Sousa Produções já está desenvolvendo projetos de jogos e aplicativos que se adaptam à linguagem dos tablets.

Ainda pouco explorados, sobretudo pelo mercado nacional, os tablets como o

iPad possuem vários recursos que possibilitam construir e contar histórias de maneiras inovadoras. O aparelho é sensível ao movimento, possui gravador de voz, bússola, câmeras, sensor de posicionamento global, entre outros. Contudo, são poucas as HQ’s feitas para o iPad e menos ainda aquelas que exploram o potencial do aparelho. Em geral, a interação máxima permitida é dar um zoom na página ou em uma cena específica, com a leitura feita quadro a quadro.

Além dos recursos de interface, os tablets oferecem vantagens de ordem

prática em relação às coleções tradicionais de quadrinhos: séries completas podem ser compostas por dezenas, às vezes centenas de exemplares. Reuni-las exige um grande espaço físico; nos tablets, é possível carregar todas essas coleções facilmente: cada edição avulsa ocupa, em média, de 20 a 40 megabytes. Álbuns especiais e edições encadernadas, que reúnem arcos completos de histórias, chegam a 120 mega-

As editoras e a Internet

No Brasil, o meio digital ainda é encarado com certo distanciamento, de maneira que

a publicação de quadrinhos continua a se orientar pelo papel. O objeto físico livro, que os leitores podem pegar na mão e folhear, legitima o trabalho tanto do artista quanto da editora. “Na web, a coisa está no éter; todo mundo vê, todo mundo gosta, mas é legal ver no papel”, diz Gusman. Campos concorda, afirmando que as pessoas só dão valor para algum quadrinho depois que ele ganha uma versão impressa.

Entretanto, a entrada das grandes editoras no mercado digital mostra que elas estão

descobrindo, aos poucos, como a Internet e as novas tecnologias de maneira geral podem ser um espaço lucrativo de publicação. Até o momento, tem sido um diálogo tímido: alguns editores começam a ver a rede como fonte de trabalhos de qualidade.

Gusman cita o exemplo de Caeto. O cartunista paulistano publicava suas ilust-

rações e trabalhos independentes em um blog na Internet até ser convidado a lançar um álbum, o Memória de Elefante, pela Quadrinhos na Cia. O mineiro Orlandeli lançou a série de tiras (SIC), publicada originalmente em seu blog, pela Conrad.

Também Will Leite, do blog Will Tirando (em que publica tiras, cartuns e peque-

nas HQ’s), Eduardo Medeiros do Sopa de Salsicha, Estevão Ribeiro de Os Passarinhos foram alguns dos quadrinistas convidados por Gusman a participar do MSP 50, publicação da Mauricio de Sousa Produções que já conta três edições e apresenta coletâneas de histórias da Turma da Mônica no traço de 50 autores diferentes.

bytes. Em um iPad de 64 gigabytes, é possível guardar milhares de edições.

O maior desafio das HQ’s em tablet é ter que competir diretamente com as edições em

papel. Elas ainda atraem muitos colecionadores, em especial os mais antigos, que gostam de passar horas em sebos procurando por edições raras. A transição dos colecionadores de revistas em papel para os colecionadores de revistas digitais ainda está no começo, mas está acontecendo. “As editoras precisam provar para os aficionados que existem vantagens em guardar muitos megabytes de histórias em tablets” – afirma Youssef Mourad, presidente da Digital Pages, empresa especializada em transpor conteúdo impresso para tablets. 62

Tirinha do Mr. Kubo, publicada no blog do quadrinista Biratan, que também participou de uma das edições do MSP 50

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Gusman ressalta a importância da Internet para o mercado editorial contando

usando o exemplo específico do livro de Sica, é sempre um risco para a editora: “em

uma história que ilustra bem o momento pelo qual passa a produção de webcomics:

uma editora como a nossa, o Sica seria poesia, no sentido de que a gente publica menos

“me fizeram uma pergunta muito interessante: ‘você conseguiria fazer três MSP 50

poesia, porque poesia vende menos. A gente sabe que o Ordinário ia vender menos que

há dez anos?’. Não, eu não conseguiria, porque eu não conheceria tanta gente do

uma graphic novel, mas é algo controlado. E é importante para o selo abrigar toda essa

mercado nacional, porque eu li tudo na Internet!”.

variedade de produção”.

Há algum tempo, era muito complicado fazer o trabalho de um autor chegar

às mãos de um editor. O artista precisava visitar redações no país inteiro, gastar com passagens, hospedagem, ficar esperando pela boa vontade do editor em agendar um horário e realmente olhar seus desenhos. Era muito difícil conseguir ser publicado por uma editora. Hoje, a situação mudou muito: o portfólio dele fica disponível para o mundo inteiro e os próprios editores passam um tempo analisando novos autores. “Acho que todas as editoras de quadrinhos estão atentas à Internet. Eu tenho uma hora no meu dia para ficar rodando blogs de quadrinistas, ver o que os quadrinistas estão lendo – porque quadrinista lê muito quadrinista. É preciso ficar ligado”, diz André Conti.

A publicação dos quadrinhos de um blog popular, com público já estabelecido, é

uma aposta que compensa para as editoras. E, como já foi visto, a rede é especialmente favorável para quem trabalha com tirinhas. Rogério de Campos afirma que a Internet é o espaço por excelência da HQ cômica: “a maior parte do quadrinho da Internet é de humor, são tiras. E esse não é um formato que funciona muito bem em livro”. André Conti concorda e explica: “é muito mais fácil vender graphic novels do que coletâneas de tiras. Como você transforma um negócio que está tão disperso, em um blog que a pessoa entra de graça, em um objeto que tem sequência e vale a pena ser lido?”, diz. O editor da Quadrinhos na Cia. afirma que é preciso oferecer algo ao leitor para que ele sinta vontade de comprar um material que já está disponível em um blog ou na seção de tirinhas de um jornal. Não adianta apenas reunir toda a produção em ordem cronológica de publicação. O editor cita dois exemplos de coletâneas de tiras que deram certo: Rê Bordosa do Começo ao Fim, de Angeli, e Ordinário, de Rafael Sica, que reúne 110 tiras das 850 publicadas em seu blog. Conti ainda diz que a publicação de tiras, 64

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Perspectivas para o autor brasileiro

Dos mercados estrangeiros aos sites de crowdfunding, nossos cartunistas têm encontrado cada vez mais maneiras de driblar dificuldades e se profissionalizar

Em entrevista cedida há alguns anos ao site Pop Balões, os gêmeos quadrinistas

Gabriel Bá e Fábio Moon disseram que “todo mundo é independente no Brasil, até quem publica em editora”.

Para editoras que publicam quadrinhos em banca, o dinheiro vem, na verdade,

da força da marca: “o gibi de super-herói em si não tem grande importância econômica; ele vale como potencial de licenciamento. Para a Warner, a DC Comics vale porque tem a marca Batman, a marca Super-Homem”, diz Campos. Em relação à Mauricio de Sousa Produções, a editora que mais vende quadrinhos no Brasil, apenas 40% dos lucros são obtidos com a venda de gibis. Segundo Gusman, o resto vem do merchandising – produtos como bonecos de pelúcia, álbuns de figurinhas, jogos etc.; recentemente, começaram a ser vendidos também pequenos bonecos, os Gogo’s, que os leitores da

Em alguns casos, ele recebe da editora um adiantamento, quando, por exemplo,

é chamado para trabalhar em um projeto novo. Esse adiantamento chega à metade do valor total que ele obteria com a venda da primeira tiragem, de forma que, se são impressas 4 mil cópias, ele só passa a ganhar por exemplar a partir do 2001º livro.

Um cenário desses valoriza os quadrinhos, mas significa um revés para os

quadrinistas, especialmente para aqueles interessados em trabalhar com gêneros que difiram de mangás, super-heróis e infantis.

As tiragens são pequenas, a infra-estrutura de distribuição, salvo exceções,

é problemática e o retorno da venda dos álbuns é mínimo, de modo que a vontade de produzir e de alcançar o maior número de leitores ainda se sustenta, basicamente, sozinha.

Nesse contexto, os quadrinistas brasileiros têm feito o que podem, contornando

as adversidades impostas pelo mercado, seja produzindo para o exterior, seja usando a Internet para divulgar e publicar material.

Tralhando para o mercado norte-americano: a trajetória dos irmãos Bá e Moon

Turma podem colecionar e trocar. Nesse caso, roteiristas, desenhistas e arte-finalistas recebem, geralmente, um salário fixo acordado com os estúdios.

Já para os álbuns de livrarias, que, em princípio, não estão relacionados a ne-

a fazer os primeiros quadrinhos na adolescência, copiando os estilos de desenho de revistas como a

nhuma marca, o autor recebe por cada exemplar vendido: um valor que varia de 8 a

MAD e a Chiclete com Banana, publicação de quadrinhos independente dos anos 80/90 que ajudou

12% do preço de capa.

a projetar nomes como os de Laerte, Glauco e Angeli. Distantes das sagas de super-heróis e influen-

Os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá nasceram em São Paulo, no ano de 1976, e começaram

ciados por séries de roteiros mais elaborados, a exemplo de Watchmen, e pela perspectiva de que as bandas desenhadas podem adotar tramas densas, os irmãos decidiram investir profissionalmente nos quadrinhos. Formados em Artes Plásticas, hoje, Bá e Moon são reconhecidos internacionalmente e têm histórias publicadas no Brasil, Estados Unidos, França, Espanha e Itália, além de uma coleção admirável de prêmios, dentre eles quatro Eisner Awards nos Estados Unidos (algo como o Oscar das HQ’s) e doze HQ Mix, troféu que premia publicações e trabalhos gráficos no Brasil. A tabela acima traz o percentual do valor de preço de capa que compete a cada envolvido na produção e distribuição de um livro no Brasil. Fonte: A Economia do Livro: A Crise Atual e uma Proposta de Política (UFRJ, 2005)

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Como eles conseguiram? O sucesso da dupla foi resultado de uma longa jornada de tra-

balho, que teve início com a produção de fanzines, ainda nos tempos de colégio. Moon conta que era difícil encontrar no mercado nacional quadrinistas que fizessem um trabalho diferente: “nos 67


Daytripper, HQ dos irmãos Bá e Moon lançada nos EUA pela Vertigo e pela editora Panini Comics no Brasil, foi o primeiro título brasileiro a ganhar um Eisner Award de “Melhor Série Limitada”

anos 90, fora a Mônica, fora super-heróis, não tinha

quadrinhos, de forma que a tiragem do fan-

nada sendo publicado em termos de quadrinho

zine aumentou para 200 exemplares, porque

brasileiro. Não tinha nenhuma editora publicando,

100 eram deixados na atual editora. A ideia

não havia espaço para artistas brasileiros; a gente

era dividir em partes o enredo de O Girassol

não conseguia mostrar para as pessoas o que a gente

e a Lua, trama que os dois vinham bolando

queria fazer, então fomos fazer fanzine porque era

para o fanzine: “a gente foi lá e disse ‘olha,

fácil: era só tirar xerox, grampear, dobrar”.

a gente vai fazer essa história em 7 partes,

O mais bem sucedido fanzine dos irmãos

vocês não querem distribuir?’ Então a gente

foi o 10 Pãezinhos, que eles vendiam aos amigos e

deixava consignado lá e eles distribuíam”.

colegas de faculdade e de trabalho. “A gente fazia

Não demorou muito até que eles começas-

uma tiragem de uns 100 exemplares por semana,

sem a receber cartas de todo o Brasil... Os do-

com umas quatro páginas de miolo cada. A ideia

nos de lojas especializadas em quadrinhos

era produzir toda semana para que as pessoas se

iam pegar as revistas importadas na Devir

acostumassem a ler toda semana uma história

e acabavam dando uma olhada no fanzine.

nova. Cada exemplar custava 40 centavos para

Um deles foi o Jotapê Martins, fundador da

fazer e a gente vendia por 50, para ser barato. Se

editora paulista Via Lettera, uma das pri-

não vendesse os 100, vendia 80 que era o que pre-

meiras a introduzir no Brasil quadrinhos de

cisava vender para pagar o custo” - explica Moon.

enredos mais sérios, voltados para um pú-

Fanzines: uma prática necessária Bá e Moon admitem não ser grandes fãs de webcomics. O negócio deles é quadrinho impresso e eles acham que os novos quadrinistas não deveriam, de maneira alguma, se restringir ao espaço de suas páginas virtuais. A produção de fanzines, nesse sentido, é uma prática muito recomendada pelos irmãos: essas revistas são ótimas ferramentas de aperfeiçoamento de estilo e roteiro. Além do lado técnico, o processo contribui para criar uma visão comercial em relação à obra e à prática de publicação, pois leva o quadrinista a adquirir experiência com paginação, design, impressão, divulgação e venda.

Acima, edição comemorativa de O Girassol e a Lua, lançada em 2007 pela Via Lettera. O 10 Pãezinhos teve 40 números e valeu aos irmãos a publicação de mais alguns livros.

blico que frequenta livrarias. Corria o ano de 1997 quando Jotapê convidou Bá e Moon a

juntar os capítulos de O Girassol e a Lua e publicar. O livro em si, de 96 páginas, só saiu em 2000, mas os irmãos souberam administrar o espaço que conquistaram dentro do mercado nacional de quadrinhos: continuaram a publicar o 10 Pãezinhos, que lhes rendeu o prêmio HQ Mix de “Melhor Fanzine” em 1999 – junto com o de “Desenhista Revelação”, ou, no caso, DesenhistaS – enquanto investiam em projetos paralelos.

Desde o início, os gêmeos se preocuparam em fazer com que as suas histórias tives-

sem o maior alcance possível, por isso não se restringiram ao mercado nacional. A primeira oportunidade de trabalhar em um projeto estrangeiro foi fruto de um contato

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O 10 Pãezinhos contava já umas 15 edições quando os gêmeos começaram a deixar

feito numa viagem de férias aos Estados Unidos, ainda em 1996. Shane Amaya era estudante

cópias na Devir, que, àquela época, funcionava apenas como uma loja e distribuidora de

de Letras e havia desenvolvido um roteiro como trabalho de graduação: tratava-se de uma 69


adaptação de The Song of Roland ou A Canção de Rolando, poema épico medieval sobre uma

batalha entre Carlos Magno e os mouros. “Um gostou do trabalho do outro e a gente decidiu

irmãos passaram 10 anos, entre 1997 e 2007, mantendo segundos empregos e pegando

fazer o que acabou virando o Roland. Foi nosso primeiro trabalho publicado nos EUA, que

freelas: faziam ilustrações, storyboards, davam aulas de arte e trabalhavam como moni-

foi auto-publicado, porque nós ganhamos um incentivo de uma fundação que patrocina

tores em exposições. Enquanto saíam novos números do 10 Pãezinhos no Brasil, o que

quadrinhos independentes, mas a gente teve que pagar, digamos, três terços. Mas o prêmio

culminou na publicação do livro Meu Coração, Não Sei Por Que pela Via Lettera, em 2001,

da fundação é bom, porque ele colocou duas propagandas na Wizard [revista mensal norte-

Bá e Moon começavam a fazer os primeiros grandes contatos no exterior: “e aí surge um

americana sobre o mercado de quadrinhos] e em outros lugares, o que deu uma divulgada

convite para a gente fazer uma historinha, colocar numa antologia, o que foi abrindo

boa no trabalho” - lembra Bá.

espaço para fazer histórias com outros autores, algo que podia também ampliar o nosso

No esforço de investir nos próprios projetos e publicar tanto aqui quanto lá fora, os

público”. A antologia Autobiographix apresenta histórias de grandes nomes das HQ’s, como Frank Miller e Will Eisner, e foi publicada em 2003 pela Dark Horse Comics, uma das editoras que mais publicam quadrinhos independentes nos Estados Unidos.

Roland – Days of Wrath, uma HQ de 4 partes publicada pela Terra Major com incentivo da Xeric Foundation, que premia projetos independentes. A saga ganhou tradução e foi lançada no Brasil, em forma de livro, pela Via Lettera, em 2006

2003: Bá e Moon conhecem Frank Miller e outros quadrinistas de peso; o lançamento de Autobiographix abre portas para novas parcerias. A foto foi retirada do blog dos irmãos

A partir de 1997, os gêmeos começaram a viajar para os Estados Unidos anual-

mente, com intuito de participar da feira internacional de histórias em quadrinhos, a

tos e outros trabalhos independentes para apresentar ao público, a editores e outros

sobre isso no blog 10 Pãezinhos: “em 2003, fizemos contato. Conhecemos o Frank Miller,

quadrinistas durante os dias de convenção. Bá conta que essas idas frequentes a San

Neil Gaiman, sentamos na mesa da Dark Horse no Eisner Awards e fomos à festa de

Diego fizeram com que eles percebessem quão maior e mais amplo é o mercado norte-

encerramento da Convenção pela primeira vez. Em 2004, tínhamos nossa história no

americano independente perto do brasileiro: “a gente viu que tem bem mais tipos de

Autobiographix, o ROCK’N’ROLL [nova história do 10 Pãezinhos, publicada no Brasil

quadrinhos e bem mais autores do que o que chegava aqui e que não era só super-

pela Via Lettera], e publicamos o Ursula [adaptação de Meu Coração, Não Sei Por Que]

herói, o que abriu nosso olho para possibilidades diferentes nos quadrinhos”.

pela AiT/Planet Lar, onde começamos a conhecer uma nova geração de quadrinhis-

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Comic Con, realizada em San Diego, Califórnia. Além dos fanzines, levavam proje-

Depois da antologia, a carreira dos irmãos decolou nos EUA. Gabriel Bá escreve

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tas, incluindo Matt Fraction, Brian Woods e Becky Cloonan. Em 2005, conhecemos o

pessoal do Flight [antologia que procurava destacar o trabalho de novos autores, com

Unidos. O Casanova eu nem recebia para desenhar... Mas, assim, era publicado pela

a qual os irmãos colaboraram], Ursula foi publicada em italiano, o ROCK’N’ROLL pela

Image, então ia ser o primeiro gibi com mais atenção, pois era um gibi mensal e foi o

Image Comics [EUA], o Fábio publicou o Smoke and Guns [história feita com a rotei-

que deu mais trabalho. Foi a primeira vez que a gente fez um gibi com esse ritmo de

rista Kirsten Baldock] e lançamos o Gunned Down numa nova parceria com o Shane e

produção: fazer tantas páginas por mês, e aí no mês seguinte, no mês seguinte... Foi

a Terra Major”. Já em 2006, enquanto produziam a adaptação de O Alienista no Brasil,

um dos anos em que a gente mais trabalhou, 2006. A gente ainda estava fazendo ilus-

os irmãos assinaram um contrato com a Dark Horse para publicar uma coletânea de

tração. Mas, depois disso, veio o Umbrella Academy, o Sugarshock. E aí a gente começou

pequenas histórias, De: Tales, e Bá se juntou ao roteirista Matt Fraction para fazer Casa-

a receber pelos trabalhos, deu uma aliviada; a gente parou de pegar ilustração para

nova, série originalmente publicada pela Image Comics e relançada em 2010 pela Icon

poder focar nos quadrinhos” – conta Bá.

Comics, selo da Marvel.

“A coisa foi mudar em 2007, quando a gente passou a trabalhar para os Estados

Em 2008, enfim, vieram os primeiros prêmios internacionais: Gabriel Bá e Gerard

Way, vocalista da banda My Chemical Romance, ganharam um Eisner Award pela série The Umbrella Academy: Apocalypse Suite; Fábio Moon e Joss Whedon por Sugarshock, na categoria “Melhor HQ Digital” e, juntos, os irmãos ganharam um terceiro Eisner: o de “Melhor Antologia”, com o 5, feito em parceria com Becky Cloonan, Vasilis Lolos e o também brasileiro Rafael Grampá. O reconhecimento veio com o aumento gradativo das vendas: se De: Tales vendeu cerca de 5 mil exemplares ao todo, as histórias do primeiro arco de Casanova registraram uma saída de, em média, 5 mil exemplares por mês, e só a primeira revista de Umbrella Academy vendeu mais de 66 mil cópias.

Trabalhando, normalmente, com séries mensais, as grandes editoras norte-

americanas acabam exigindo que o quadrinista se dedique quase que exclusivamente à produção das sequências. Enquanto De: Tales, Ursula e as antologias eram histórias À esquerda, Ba segura a edição italiana de Ursula (foto do blog 10 Pãezinhos). À direita, capa do 1° número de Casanova

que seguiam prontas para as editoras, Casanova e os trabalhos seguintes – The Umbrella Academy, a HQ digital Sugarshock e Daytripper, a primeira narrativa longa a contar com roteiro e arte dos irmãos –, além de terem sido publicadas por editoras maiores, foram

Até então, Bá e Moon recebiam pouco, ou mesmo nada pelos trabalhos publica-

histórias seriadas, cujos números saíam mensalmente, algo que não acontece no Brasil, onde o mercado menor acaba dando preferência ao formato livro/coletânea.

10 Pãezinhos e outras publicações independentes, ou firmar parcerias com roteiristas

eram mais maneiras de continuar no mercado e de chamar atenção para trabalhos do

que crescem e se sustentam, no Brasil há leitores para tipos de mercado e segmentos

que propriamente fontes fixas de renda.

diferentes, mas não em grande quantidade. O brasileiro que lê, lê diversas coisas, den-

72

dos. Tomar parte em antologias, relançar nos Estados Unidos e na Europa revistas do

Bá e Moon explicam que, enquanto nos Estados Unidos há nichos de mercado

73


tre elas histórias em quadrinhos. Seguindo esse raciocínio, Bá infere que a novidade

HQ, uma figura que só agora começa a aparecer no cenário nacional e que, segundo

no Brasil não é o quadrinista em si ou o estilo dele, mas o próprio quadrinho: “tem muita

Bá, “ainda não tem o mesmo envolvimento que os editores americanos têm (...) Quanto

gente que conhece nosso trabalho aqui por causa da tira, não leu nossos livros. Tem

mais trabalho editorial tiver, na parte gráfica, na história, no envolvimento do autor na

muita gente que lê a tira na Internet, nem sabe que sai na Folha, então isso é a única

produção da história antes de ela ficar pronta, melhor. Se o autor não tem auto-crítica

coisa que tem aqui: tem público de tira, tem público de quadrinho de banca e tem o

o suficiente, o editor tem que ter”.

público mais... aleatório, que é o que acaba comprando na livraria”.

André Conti, editor de quadrinhos da Companhia das Letras, discorda da opin-

ião dos irmãos em um depoimento que vale a pena ler na íntegra: O Bá e o Moon estão nessa há mais de dez anos... Eles não estão acostumados com a editora a favor... Eles estão acostumados a, primeiro, pagar para publicar; depois, publicar por editoras sem receber adiantamento; depois não ter controle do processo editorial: não participar, não ver o livro pronto, não ver o papel, não participar da impressão, não estão acostumados com isso, porque, de fato, o mercado brasileiro começou a absorver o quadrinho independente nos últimos quinze anos, então no começo era mesmo complicado. Os caras foram meio heróis mesmo; [fazer quadrinho independente] era um investimento de risco, porque era uma coisa que não tinha público, então eu entendo a posição deles, esse negócio de ter as editoras jogando contra os quadrinistas... Ao mesmo tempo, e o que eles não falam, é que, por exemQuase Nada é o título da tira que os gêmeos publicam no blog e no jornal Folha de S. Paulo

O investimento contínuo que editoras como a DC Comics, a Marvel, a Dark

Horse fazem no quadrinista contribui para sua profissionalização e é uma das diferenças mais sensíveis que os irmãos apontam entre os mercados nacional e o norteamericano. Para fazer Daytripper, por exemplo, Moon conta que foram dois anos de produção remunerada, fora o tempo que os irmãos passaram trocando e-mails com Bob Schreck, editor da Vertigo, antes de fechar contrato: “a gente teve o tempo que precisava para ter material suficiente pronto para não atrasar e acho que isso só aconteceu porque a gente estava na Vertigo. Eles davam essa base: ‘vai trabalhando, a gente está investindo, uma hora começa a produzir’.”. 74

Também o editor é muito importante para o processo de produção de uma boa

plo, houve uma vez em que estávamos os três e eu discutindo com o Rafa Coutinho a capa do Cachalote. O Rafa estava enchendo o saco, porque eu tinha recusado pela quinta vez a capa e ai o Bá olhou para mim e falou ‘cara, você recusou uma capa?! Eu nunca tive uma capa recusada’, e disse isso como se fosse uma coisa negativa. Ele nunca teve um editor que dissesse para ele ‘isso aqui está ruim, faça outra’. O editor recebia a capa, falava ‘vai, está ótimo, toca’. Então... As editoras estão mudando. Não dá para falar que o Lobo [da editora Barba Negra] não é um bom editor; o Lobo é um baita editor: tem a maior noção do livro, do objeto, de como vender, de como chegar na imprensa, ele é um puta editor de quadrinhos. Talvez não existisse uma figura como ele há 10 anos. Tinha o Toninho Mendes, que era um visionário, vendia 100 mil quadrinhos e fazia revistas e sabia se meter com a Dinap, com distribuido75


ra... Não acho que todo quadrinista seja independente. Eu leio todos os roteiros dos

A Internet para os bem-aventurados

meus quadrinistas 200 vezes se precisar; a Cachalote eu lia no estúdio; o Memória de Elefante, eu ficava tardes lendo com o Caeto o roteiro em voz alta, acertando,

mudando coisa de ordem... Assim, o que o quadrinista brasileiro tem que fazer e faz

tribuir quadrinhos. Se mesmo quem já tem nome consolidado no mercado a utiliza para

muito bem é isso: o Bá e o Moon viveram dez anos, vamos dizer, independentes, cri-

divulgar novos projetos e aumentar o contato de internautas com trabalhos já publicados,

ando público; eles cultivaram esse público e falam diretamente com esse público pelo

a exemplo do que fazem Laerte, Angeli e outros cartunistas, os autores que começam a

Twitter e pelo blog, então o que eles fazem é continuar isso: é não depender de editora

produzir atualmente não o fazem sem manter, pelo menos, um “depositário” virtual.

para vender os próprios livros. Eu admiro, acho do caralho que eles façam isso, mas

eles têm muito preconceito com editor e editora... Agora é que tá passando um pouco.

download pago; não é a maneira mais profícua de ganhar algum dinheiro a partir de

A custo zero, a web se mostrou uma ferramenta economicamente eficaz para dis-

Existem autores independentes que disponibilizam HQ’s no formato pdf. para

histórias com as quais o público ainda não tem muita intimidade. Além disso, a quanti

Da mesma forma que os gêmeos, outros quadrinistas ganham a vida trab-

dade de scans e de quadrinhos publicados gratuitamente em sites tem mais apelo junto

alhando para mercados estrangeiros. Marcello Quintanilha, que, recentemente,

aos leitores do que as páginas pagas do que a versão digitalizada de um gibi desconhe-

lançou pela editora Conrad os álbuns Sábado dos meus amores e Almas públicas,

cido... A realidade é essa: a Internet é o reduto do conteúdo gratuito.

mora na Espanha desde o começo dos anos 2000 e faz desenhos e tiras para vários

jornais europeus, além de publicar pela editora belga Le Lombard. Outro exem-

publicar textos e quadrinhos em 2001. Com o tempo, ele registrou o domínio malvados.

plo é o desenhista freelancer Ibraim Robersom, que mora no Paraná e trabalha

com.br e passou a utilizá-lo para postar as tiras Os Malvados. As tiras atraíram uma legião

com arte e ilustração para a DC Comics e a Marvel.

de fãs que deram visibilidade ao trabalho de Dahmer. Para surpresa do autor, que não

Nesse sentido, a Internet veio facilitar a comunicação entre editores, artistas

acreditava que elas pudessem agradar ao público fora da rede, logo surgiram convites

e mesmo leitores de diferentes nacionalidades. O primeiro trabalho de Quintanil-

para publicar em importantes jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo, além de revistas

ha para a Lombard, o álbum La Promesse (A Promessa) que integra os sete álbuns

e grandes portais de acesso na Internet. Em 2005, foi lançada pela Editora Gênese a pri-

da série Sept Balles Pour Oxford (Sete Balas Para Oxford), foi feito inteiramente no

meira antologia, Malvados, sendo que a iniciativa partiu da editora.

Brasil entre 2002 e 2003. Com a Internet, ele trocava e-mails e sketches com a edi-

tora e os dois outros co-autores da história, os roteiristas argentino Jorge Zentner

o sucesso para investir em algumas carreiras paralelas: se arriscou como escritor, fotó-

e o espanhol Montecarlo. Robersom faz a mesma coisa, assim como os irmãos Bá

grafo, pintor e foi dar aulas de desenho. Além disso, ele também administra a Malva-

e Moon, que não abdicam da ideia de continuar vivendo em São Paulo.

dosCorp, loja virtual onde o leitor encontra à venda desde camisetas, fotografias, desen-

Além de uma facilitadora, a rede também tem sido ela própria um espaço de

hos originais até cinzeiros dos Malvados.

publicação. Muitos webcomics começam a atrair e formar verdadeiras multidões

de leitores, algo que torna as páginas virtuais um investimento cada vez mais

os quadrinhos como uma atividade que daria vazão a algumas reflexões - bem amargas,

interessante para os quadrinistas.

por sinal. Formado em Desenho Industrial, ele aplicou a fórmula a tiras de, geralmente,

76

O carioca André Dahmer, já mencionado aqui, começou a usar a Internet para

Dono de uma das maiores audiências da Internet no Brasil, Dahmer aproveitou

Dahmer, no entanto, nunca pretendeu virar um quadrinista; ele sempre entendeu

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três quadros e personagens que pudessem ser desenhados com rapidez. Os Malvados

viraram propriamente um trabalho quando começaram a dar algum retorno: publicar

três os principais tipos de anúncios online que podem gerar receita para os blogueiros

as tiras, as antologias, o livro de poemas, vender produtos relacionados às tiras, ceder

profissionais, ou “probloggers”:

espaço para anúncios no site, expor em galerias, abrir cursos de desenho foram todas

1) pay-per-click, também conhecido como “custo por clique” (CPC): o anunciante paga ao

alternativas naturais, frutos de um negócio que inesperadamente cresceu e que, como

blogueiro toda vez que alguém clica no anúncio;

em boa parte dos casos que tivemos a oportunidade acompanhar, ainda representa uma

2) pay-per-impression, conhecido no Brasil como “custo por mil impressões” ou “custo por mil”

grande incerteza para produtores de conteúdo online no geral.

(CPM): o anunciante paga ao blogueiro pelo número de vezes que o anúncio aparece no blog,

A maior parte do lucro gerado por essas páginas vem da publicidade. No geral, são

seja ele clicado ou não. Geralmente, é estipulado um valor a ser pago por mil visualizações. 3) pay-per-action, ou “custo por ação” (CPA): o anunciante paga ao blogueiro toda vez que alguém clica no anúncio e executa alguma tarefa, por exemplo uma busca.

Para atrair leitores e, consequentemente, mais visualizações e cliques, esses blogueiros

não só atualizam uma ou mais páginas regularmente, como também efetuam amplas pesquisas de mercado atrás de nichos de conteúdo relevantes e preferencialmente originais. Eles se especializam no monitoramento de acessos e incrementação de blogs: estudam técnicas de otimização de mecanismos de buscas (conhecidas como “SEO” - Search Engine Optimiza

Abrir um blog e ganhar dinheiro com o conteúdo veiculado nele são pontos diam-

etralmente opostos numa mesma escala. Se há profissionais que de fato conseguem viver

tion) e sistemas de patrocínio; fazem um trabalho de divulgação com ajuda de redes sociais e procuram ser linkados por sites grandes.

de posts, a exemplo do que acontece com brasileiros como Carlos Cardoso do Contraditorium, Andersson Quegi do Anderssauro e Edney Souza do Interney, também alguns quadrinistas têm começado a investir nas suas páginas virtuais com intuito de realmente faturar alguma grana em cima delas e não apenas alimentar um hobbie, um portfólio – e, se for o caso de alguma editora se interessar, tanto melhor.

Professional blogging e publicidade

O “professional blogging” ou “problogging”, nome dado à prática de trabalhar

profissionalmente com a atualização de blogs, é uma atividade cada vez mais recorrente na Internet e, apesar de não implicar necessariamente uma renda, é comum o termo vir associado a quem ganha dinheiro por meio da gestão de um ou mais sites. 78

79


O PVP é um webcomic voltado para um público que curte videogames. Criada em 1998 pelo estadunidense Scott R. Kurtz, a tira fez sucesso e Kurtz aproveitou para ir incrementando o site: se, inicialmente, ele postava apenas quadrinhos, hoje em dia o PVP é um portal com tiras, textos, vídeos e, claro, anúncios publicitários direcionados. Quando alguém acessa o site de um computador do Brasil, por exemplo, além de pelo menos metade dos banners e links aparecer em português, os anúncios trazem ofertas de eletro-eletrônicos, celulares e consoles de videogame.

Merchandising, outro aliado

Em geral, os quadrinistas levam mais tempo para produzir quadrinhos do que os

blogueiros usuais levam para subir conteúdo em texto ou vídeo em seus sites, por isso, Na página anterior, a tabela de valores para anunciantes do site Anderssauro; acima, os valores cobrados por Dahmer para veicular banners à página dos Malvados

Publicidade contextual Numa era em que a Internet constitui um portal para infinitos assuntos e interesses, as agências de publicidade e marketing de web têm investido no desenvolvimento de ferramentas capazes de direcionar os internautas para propagandas que se aproximem dos interesses deles, de forma que os blogs passam a contar com anúncios relacionados aos posts da página. Um dos programas mais populares é o Google AdSense; gratuito, ele permite que o blogueiro inscreva seu site e comece a vincular links patrocinados por anunciantes cadastrados no Google. Esses links são selecionados, geralmente, por meio de análises de conteúdo e palavras-chaves e o pagamento é feito com base em cliques ou no número de visualizações. Outro programa bastante indicado por blogueiros brasileiros é o HotWords. A dinâmica de funcionamento é basicamente a mesma do AdSense, só que com uma pequena diferença de display: as palavras-chaves do site são destacadas e, quando o usuário passa o mouse sobre elas, aparecem anúncios. Cadu Simões, quadrinista criador da página do Homem Grilo e usuário do AdSense, chama atenção, em seu blog, para um pequeno inconveniente: “o sistema dele [do AdSense] é muito bom em analisar textos, mas não imagens, como é o caso de uma hq. Uma forma de contornar esse problema é colocando palavras-chaves na tag “alt” da sua imagem [um código HTML utilizado para inserir um texto que identifica a imagem e faz com que seja encontrada pelos buscadores] para que o AdSense possa entender sobre o que ela é, mas a eficiência disso não é tão grande quanto num texto puro”. 80

a não ser que o autor se entusiasme a ponto de trabalhar outros assuntos e formatos na página, a exemplo de Kurtz, continua sensivelmente menor o número de autores de quadrinhos com blogs otimizados. Além do mais, não só alguns autores ainda alimentam certos preconceitos com relação à veiculação de publicidade, como também a procura por entretenimento e informação na forma de textos e vídeos ainda é mais visada pelo público do que HQ’s, de modo que os quadrinistas de web que desejam prosperar acabam investindo em merchandising – a divulgação e venda de produtos licenciados pelas “marcas” criadas a partir de suas sagas e personagens digitais.

Os estadunidenses Matt Melvin, Rob DenBleyker, Kris Wilson e o irlandês Dave

McElfatrick criaram o site explosm.net em 2004 e começaram a postar as tiras do Cyanide and Happiness em 2005. Com personagens-palito e um humor nonsense, a série virou febre mundial na Internet (só em 2006, a página registrava mais de um milhão de acessos diários). O sucesso foi tanto que começaram a aparecer na rede sites dedicados a traduzir as tiras - tal como o já citado Cianeto e Felicidade.

Apesar de desenvolverem constantemente propagandas para a televisão e de

terem esgotado o estoque dos dois livros já publicados pela Editora HarperCollins, Dave McElfatrick diz que o lucro em si vem do website: “imprimir está ficando cada vez menos importante hoje em dia, com a influência da Internet – merchan é definitiva81


mente o caminho a seguir. A maior parte do nosso dinheiro vem disso e dos anúncios

vazão a um hobbie do cartunista: “nunca levei elas [as tiras] profissionalmente a

publicitários do site. É uma bênção”. A loja virtual do Cyanide and Happiness conta com

sério, colocava no ar por esporte; acabou que, semana após semana, a visitação

camisetas, pôsteres, bichinhos de pelúcia e aplicativos para iPhone e iPad.

começou a aumentar e não parou mais”.

Quando algumas tiras foram publicadas no blog de entretenimento Jacaré Banguela,

as visitas ao Sábado Qualquer subiram de 50 para 700 diárias. Ruas, então, percebeu que poderia levar o blog mais a sério: “após ter colocado anúncios e ter uma média de 30 mil visitas diárias, os leitores começaram a pedir o Deus de pelúcia. Fiz uma enquete para ver quem realmente compraria, mais de 2 mil disseram que sim. Então resolvi arriscar, peguei dinheiro emprestado e apostei tudo! Deu certo! É claro que eu não ia parar por aí, “Bulimia”: estampa de camiseta do Cyanide and Happiness, vendida a U$ 17,95

Boa parte da prática do merchandising envolve parcerias. A Content House,

empresa especializada em criar conteúdos de entretenimento com objetivo de fazer propaganda de marcas e serviços, desenvolve os aplicativos do Cyanide and Happiness e os disponibiliza a U$ 0,99 no iTunes. Geralmente, 30% da receita gerada pelos downloads pagos fica com a Apple e o resto vai para o desenvolvedor; no caso, os autores e a Content House acordam os valores que cada um irá receber.

Aqui no Brasil, além do Dahmer, que, em entrevista ao site especializado

em quadrinhos Bigorna, alegou ficar com 65% do custo dos produtos que vende, outro quadrinista de web que se destaca na tentativa de sobreviver às custas da própria página e de produtos licenciados é o designer Carlos Ruas, criador das tiras simpáticas do Um Sábado Qualquer. Inicialmente, o blog simplesmente dava 82

fui fazendo os outros produtos com o lucro do anterior, uma coisa foi levando a outra”. Para fazer o Deus de pelúcia, Ruas fez parcerias com empresas e fornecedores, um investimento de mais de 10 mil reais: “por ser fábrica [ele não especificou qual], tem que ser em grande quantidade; na primeira leva de Deus de pelúcia, foram feitas 1200 unidades. Consegui um custo de 18 reais por unidade. Mas é preciso ter dinheiro: ou vai guardando com o tempo, ou convence alguém com grana a investir em você, como foi o meu caso”.

Apesar de ainda pegar “uns trabalhos por fora”, Ruas garante que o negócio Um

Sábado Qualquer tem crescido e que o objetivo dele é viver exclusivamente da renda do blog: “acredito que mais um ano e eu alcanço essa meta (...) os quadrinhos pegam a maior parte do tempo; passo quase toda a manhã tendo ideiais, à tarde passo a desenhálas. A loja tem sido um grande problema pois também está pegando metade do meu dia. Como não quero perder tempo de criação, estou para contratar um estagiário”. 83


84

Recentemente, Ruas publicou sua primeira coletânea. Com 200 tiras mais um especial

trabalho, entrei para o concurso porque eles bancariam a impressão” – conta Clara.

de 20 páginas, o livro foi lançado pela editora Devir na última Bienal do Rio de Janeiro.

O concurso, que já está na segunda edição, premia o vencedor de cada

Para quem não tem editora e quer publicar: concursos online e outros “facilitadores”

categoria com o Registro Oficial do Livro na Biblioteca Nacional (ISBN); distri-

Publicar livro ainda é um fetiche

eventos de lançamento e royalties nas vendas. A antologia Bichinhos de Jardim

entre quadrinistas. “O livro é a materi-

conta com mais de 200 tiras em 124 páginas: são 20 páginas em cor, o resto em

alização do trabalho, um sonho de in-

preto e branco, fator que barateia a impressão.

fância, uma peça para colecionar” – ex-

plica a também designer Clara Gomes,

emente encontra dificuldades para divulgar o seu gibi e distribui-lo. É nesse con-

autora das tiras Bichinhos de Jardim.

texto que entram em cena alguns “facilitadores”, termo que o Sidney Gusman

Ela já publicava os Bichinhos

usa para definir, no caso, grupos de autores independentes que buscam ajudar

no jornal Tribuna de Petrópolis

uns aos outros com a divulgação, distribuição e impressão de revistas.

desde 2001, quando, em 2006, de-

O Coletivo Quarto Mundo tomou forma em 2007, quando alguns quadrini-

cidiu expandir o trabalho e criar

stas independentes se reuniram para discutir maneiras de ganhar visibilidade

um portfólio na rede; começou

no mercado nacional. Munido da vontade de participar dos principais eventos

passando para algumas pessoas

de quadrinhos do país e de fazer com que seus gibis chegassem a mais pontos

e fazendo contato com outros

de venda, o grupo foi se articulando, sobretudo pela Internet, e ganhando cada

buição do livro nas principais livrarias online do país; divulgação na imprensa;

Além dos custos para imprimir, o quadrinista que se auto-publica frequent-

blogueiros, mas tudo de maneira bem amadora, confessa.

vez mais integrantes. Atualmente, o Quarto Mundo é considerado uma das ini-

O site foi crescendo, ela abriu uma loja virtual, começou a comercializar

ciativas de maior destaque no que diz respeito a diretrizes que de fato tornam

pelúcias e colaborar em outras publicações, no entanto a oportunidade de ver

os quadrinhos independentes mais acessíveis; o grupo agrega cinquenta e dois

uma coletânea das tiras impressa só apareceu em 2009, quando ela cadastrou o

cartunistas e outros tantos colaboradores em todo o Brasil, que se organizam

Bichinhos no BlogBooks, um concurso virtual que premia os melhores blogs do

em núcleos de atuação específicos, de forma a gerir da maneira mais eficiente

país em 12 categorias, dentre elas “quadrinhos”.

possível as etapas de publicação e venda das revistas: desde a divulgação – em-

O BlogBooks é um selo criado pela Singular Digital, segmento de tecnologia

basada na manutenção do blog, produção de informativos e releases que apresen-

do Grupo Ediouro Publicações. De acordo com o site da iniciativa, eles assumem

tem o trabalho do grupo para a mídia e para os internautas – até a distribuição

o compromisso de “conectar o mercado editorial à rica blogosfera nacional”. A

efetiva dos quadrinhos. “O Quarto Mundo tem o seu próprio esquema de distri-

Singular realiza impressões sob demanda a baixos custos e parte do conceito de

buição, fugindo do cartel formado pelas poucas distribuidoras que existem. A

self-publishing, uma prática em que o autor é responsável pelo lançamento do

ideia é que cada cidade tenha o seu membro-distribuidor. Ele receberá material

próprio livro. “Não procurei editora alguma. Sou péssima gerenciadora do meu

do grupo e deixará em consignação diretamente nas bancas e comic shops de sua 85


cidade” – é o que explicam os quadrinistas Edu Mendes e Leonardo Melo, num

dos primeiros posts a esquematizar o sistema de ação do coletivo.

ção, como Ângelo Agostini, DB Artes, Bigorna e HQ Mix, Gusman afirma que o

Apesar de já ter recebido alguns prêmios importantes desde a sua funda-

coletivo deu uma retraída no último ano, por conta da saída de alguns membros. Daniel Esteves, integrante ativo do Quarto Mundo, explica em entrevista cedida ao site da Feira Internacional de Quadrinhos (FIQ) de 2011: “o grupo sempre foi uma entidade viva e sujeita a mudanças. O modelo criado no início, de troca de revistas entre participantes do coletivo, foi abandonado pouco tempo depois pela tentativa de montagem de uma distribuição nacional dos títulos entre artistas que participam do grupo. E esse é um momento em que o Quarto Mundo passa por certo marasmo, vindo principalmente de grande parcela dos seus membros que não enxergam a necessidade de pró-atividade para fazer o grupo andar. Se as pessoas simplesmente esperarem que os outros façam por elas o grupo está destinado à extinção, como até muitos quadrinistas chegam a vaticinar, sem entender que o Quarto Mundo é uma iniciativa que pode se manter paralela a outras atividades de cada um. O que se discute muito no momento é uma tentativa de simplificar o grupo, visto que não conseguimos alcançar certos objetivos por conta da dedicação de apenas pequena parcela dos membros”.

Em um projeto da magnitude do Quarto Mundo, é difícil administrar as

ideias e o compromisso de todos os integrantes, algo que, inevitavelmente, provoca rupturas. Algumas revistas recebem maior destaque no grupo, porque reuniram colaboradores de fora e se transformaram em investidas São mais de 60 publicações sob o selo Quarto Mundo, sendo que o preço da

totalmente paralelas. É o caso, por exemplo, da publicação Café Espacial, que

maior parte das revistas varia de R$ 1,00 a R$ 7,00. Devido ao caráter diletante

está na 10ª edição e já conta com site e estratégias de produção, divulgação e

das produções, que não seguem qualquer tipo de critério editorial, a periodici-

distribuição próprias.

dade e até mesmo a qualidade dos lançamentos ficam meio comprometidas. O

grupo se esforça para reunir e publicar o maior número possível de materiais

jetória natural dentro de um grupo cujo envolvimento dos participantes difere

novos antes de grandes convenções de quadrinhos, mas não está lá para julgar

em vários graus. Para os quadrinistas que têm um trabalho mais bem elab-

se são bons ou ruins: o objetivo é garantir e preencher estandes com toda a sorte

orado, no entanto, ainda pode ser mais interessante tentar usar a Internet para

de quadrinhos independentes.

divulgá-lo e encontrar alternativas para financiá-lo.

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A prioridade de algumas iniciativas em detrimento de outras é uma tra-

87


Crowdfunding

O projeto chegou a ser enviado para editoras e concursos, no exterior e no Bra-

sil, mas não houve retorno, de modo que os dois passaram a pensar em alternativas de publicação que não interferissem na qualidade do material. Foi quando eles decidiram

Os mineiros Luís Felipe Garrocho, professor de história, e Eduardo Dama-

cadastrar o Achados e Perdidos no Catarse, uma plataforma de financiamento colaborativo:

sceno, ilustrador, sempre gostaram de HQ’s. Em setembro de 2010, decidiram

“feitos os orçamentos, a soma impressão do livro + CD’s deu 25 mil reais [23 mil destina-

arriscar e abriram o blog Quadrinhos Rasos, cujo mote é fazer quadrinhos a partir

dos aos livros e 2 mil, à gravação dos CD’s] para mil edições. 25 reais por edição, que é o

de letras de músicas. Com menos de 4 meses de existência e um trabalho de di-

preço que cobramos por ela no Catarse (...) Qualquer um pode ir lá, colocar um projeto e

vulgação que se restringia a links compartilhados entre amigos no Twitter e no

pedir investimentos de amigos e desconhecidos para que seu sonho tome forma. Caso o

Facebook, o site alcançou um total de mais de 10 mil visitas. Os dois, no entanto,

projeto não atinja a quantia necessária, o dinheiro é devolvido para aqueles que deram”.

ainda não têm planos concretos para otimizar a página: “anúncios não são muito

o nosso estilo, pois estragaria a leitura do site com muita informação visual.

30.834,00 em caixa. Para tanto, os dois investiram muito na divulgação do blog e do proje-

Produtos como pôsteres e camisas estão sempre sendo pensados, mas acabam

to via mídias sociais: além de possuírem eles próprios Twitter e Facebook, abriram perfis

não saindo muito do papel. Eu acredito que ainda existirá uma loja do Quadrin-

com o selo Quadrinhos Rasos e se empenharam em conseguir links de músicos, quadrini-

hos Rasos que venderá algumas coisas que acharmos interessantes, mas isso deve

stas, editores, professores e sites especializados em quadrinhos com grande número de

demorar um bocado ainda” – explica Garrocho.

leitores/seguidores.

Felizmente, 573 pessoas colaboraram e a história foi financiada com um total de R$

Ver Figuras 2, 3 e 4

Além do blog, os dois amigos vêm trabalhando num projeto intitulado Acha-

dos e Perdidos, a história de um garoto que, um dia, acorda com um buraco negro na barriga. Norteados pelo sucesso da combinação de quadrinhos e música, eles decidiram que a narrativa contaria com uma trilha sonora própria e, por isso, convidaram o músico Bruno Ito a gravar um CD especialmente para ela.

Garrocho diz que o plano sempre foi fazer um álbum em cores. “A ideia de

fazer o Achados e Perdidos em papel vem da lógica de tentar atingir o maior número de pessoas que pudermos. Nós queremos que não só os leitores, mas seus filhos, pais, avós e vizinhos possam pegar o livro emprestado e ler, e o CD e ouvirem, se quiserem. Claro que, para que esse acesso seja completo, nós vamos sim lançar uma versão digital, porém ela deve demorar um pouco”. 88

89


Figuras 2, 3 e 4 (ler na vertical)

Figura 2 90

Figura 3

Figura 4 91


Apesar de estar mudando gradualmente, o Brasil ainda apresenta um merca-

do incipiente de histórias em quadrinhos: pequeno, segmentado, com poucas editoras e poucos lançamentos. As soluções encontradas por estes e outros quadrinistas são dignas de notabilidade: é preciso muita vontade e trabalho árduo. Gabriel Bá insiste que o mais importante é a dedicação pessoal do artista: “tem que ter um esforço pessoal. Não é só ‘ah, eu quero desenhar quadrinhos, quero ganhar dinheiro fazendo quadrinho’. É ‘eu quero fazer quadrinho de qualquer jeito, tenho que fazer funcionar, só depende de mim. O que eu faço para funcionar?’”.

Nesse sentido, a mídia tem um papel fundamental na divulgação de novas

publicações e quadrinistas. A questão não é simplesmente pautar lançamentos de prestígio e diversificar o conteúdo das páginas dos cadernos culturais; é, sobretudo, inserir definitivamente as HQ’s no cotidiano dos leitores, ampliando o contato deles, se possível, com a produção nacional.

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uma nota que eu coloquei no Universo HQ. 40 exemplares não é quase nada, mas para

Os quadrinhos na imprensa

Com a valorização dos quadrinhos e uma quantidade maior de lançamentos, a imprensa passou a acompanhar mais de perto o mercado de HQ’s

Há apenas alguns anos, o único espaço destinado aos quadrinhos em um grande jor-

nal era a página das tiras. Não havia nenhuma tradição de resenhar lançamentos, analisar obras ou acompanhar o que acontecia no mercado. Agora, uma grande mudança começou a se instalar na imprensa cultural: com a quantidade de títulos lançados pelas editoras, o capricho nas edições, o espaço cada vez maior que as HQ’s ocupam em livrarias e a onda de produções cinematográficas baseadas em quadrinhos, as resenhas de graphic novels passaram a dividir o espaço destinado às resenhas literárias nas páginas dos jornais.

“Hoje qualquer quadrinho que sai tem resenha no jornal. Antes não era tão assim”, diz

André Conti, editor do selo Quadrinhos na Cia. “O quadrinho está se tornando uma coisa mais natural para o leitor, para o livreiro, para o editor e para o jornalista”, afirma Conti.

É possível notar que a cobertura de notícias relacionadas à banda desenhada

ainda está em um momento de transição. A cobertura feita na Internet é muito melhor do que aquela feita pelas mídias impressas tradicionais. Novos jornalistas e críticos passaram a assinar reportagens, enquanto jornalistas mais velhos estão se adaptando à linguagem e arriscando algumas análises, mas a abordagem ainda é feita de maneira semelhante à de obras literárias.

Essa diferença na qualidade da cobertura acontece porque já há sites e blogs

ele são 40 exemplares sem sair de casa!“, afirma Gusman.

Outras referências importantes são o Blog dos Quadrinhos, mantido pelo jornalista

Paulo Ramos, e o site de entretenimento Omelete, que, apesar de especializado em cinema e séries de TV, reserva um espaço considerável para notícias sobre quadrinhos.O jornalista André Forastieri também costumava postar informações sobre HQ’s em sua coluna no portal R7, mas a frequência dos textos diminuiu bastante em 2011.

Enquanto isso, outros blogs menores, como o HQM, o Pipoca e Nanquim, o Mel-

hores do Mundo, falam de quadrinhos com uma voz mais divertida e descontraída, sem o peso da cobertura jornalística séria. São espaços produzidos por fãs para fãs.

Toda essa cobertura jamais teria sido possível sem a Internet. De um lado, ela

facilitou a criação de espaços dedicados especificamente ao tema; o Universo HQ não teria existido se fosse um jornal ou uma revista, pois os custos de gráfica, diagramação e distribuição, além da obrigação de vender bem nas bancas para continuar existindo inibiriam o projeto de Naliato e Gusman. De outro, fez com que os grandes jornais notassem uma demanda por informações relacionadas às HQ’s.

Para além da cobertura jornalística, alguns portais de grande audiência na In-

ternet já começam a reservar espaços para a publicação de quadrinhos - tiras de humor, na maioria das vezes, tal como nos jornais impressos. O G1, portal de notícias da Globo, por exemplo, atualiza semanalmente a editoria de Pop & Arte com tiras dos cariocas André Dahmer e Arnaldo Branco.

voltados especificamente para HQ’s, acompanhando o que acontece no mercado há um bom tempo. Antes, eram vistos como publicações de nicho, voltadas para um público bastante específico. É o caso do Universo HQ, site criado no ano 2000 por Samir Naliato e Sidney Gusman e que, hoje, onze anos depois, conta com uma equipe de colaboradores e é a principal referência sobre quadrinhos, tanto para leitores quanto para a própria imprensa. Eles publicam notícias diárias, resenhas semanais e colunas sem periodicidade definida sobre novidades e assuntos relevantes relacionados às HQ’s. “Às vezes, vem quadrinista me dizer que vendeu 40 exemplares por causa de 94

Tirinha do Mundinho Animal, série de autoria do quadrinista Arnaldo Branco, publicada no G1

95


O IG Jovem, por sua vez, apresenta uma das iniciativas mais interessantes relacio-

nadas ao tema. Em uma das subhomes da editoria, é possível acompanhar séries criadas

jornais não deixou de existir. Pelo contrário: está mais prestigiado. Os grandes jornais

por Eduardo Medeiros, Rafael Albuquerque, Rafael Coutinho, Rafael Sica e Raphael

bancam trabalhos de autores consagrados, como Angeli, e de novos, como Dahmer,

Salimena feitas exclusivamente para o IG.

os irmãos Bá e Moon e o argentino Ricardo Liniers. A Folha de S. Paulo, que publica

Mesmo com a efervescência dos webcomics, o espaço destinado às tirinhas nos

o Laerte desde os anos 80, manteve o espaço do cartunista mesmo quando ele abandonou o humor que lhe era característico para enveredar por uma linha mais experimental. “A Folha é de uma paciência a toda prova comigo e com outros autores, o que é bom para a gente e para o jornal também”, afirma o autor.

Jornais menores e revistas de entretenimento, além de manter tirinhas, também

têm absorvido o trabalho de novos autores. As tiras da Amely, por exemplo, uma boneca inflável que brinca com a visão que os homens têm sobre as mulheres, começaram a ser publicadas em 2005 no blog priscila-freeakomics antes de migrarem para as páginas do jornal gratuito Metro. Hoje, as tiras saem no caderno Equilíbrio, da Folha. A Piauí dedica seções da revista - e também do site - a cartuns de artistas nacionais e estrangeiros; a Playboy publica as tiras politicamente incorretas do porto-alegrense Allan Sieber, além dos textos do jornalista Edson Aran, responsável pela coluna O Estado da Nação, cujos cartuns e tiras ilustrativos ele mesmo faz, a exemplo do que o cronista Luís Fernando Veríssimo faz no jornal O Estado de São Paulo. Cartum do Rafael Sica publicado no portal IG Jovem

Essas tentativas de dar maior cobertura para os lançamentos de quadrinhos e di-

vulgar autores e histórias, algumas de maior sucesso, outras de pouco impacto, mostram

“A Internet não pode ser reduzida a espaço de experimentação, como se fosse

que a arte sequencial está cada vez mais presente na pauta cultural da imprensa.

um quintal de edificação da mídia impressa. Ela é também um espaço que possibilita e pede trabalhos com personalidade própria”, diz Laerte, que publica suas tiras tanto no Manual do Minotauro quanto no jornal Folha de S. Paulo. A iniciativa do IG Jovem mostra justamente uma tentativa de criar um cenário de produção e divulgação de trabalhos inéditos. O portal inclusive chamou o quadrinista Rafael Grampá para atuar como colunista da página. Toda semana ele escreve a respeito de algum assunto relacionado ao universo das HQ’s: mercado; eventos; premiações; experiências pessoais trabalhando para as editoras estadunidenses DC e Marvel. 96

97


A Internet e os direitos autorais

Como quadrinistas protegem suas criações – e se apropriam das dos outros – na Internet

Já há alguns anos a indústria fonográfica tenta encontrar alternativas para a

venda de álbuns de música, que apresentou uma queda vertiginosa com a popularização dos downloads na Internet.

De acordo com o jornal inglês The Times of London, a indústria da música nos Es-

tados Unidos já moveu dezenas de milhares de processos pessoais contra indivíduos que baixam músicas ilegalmente. Mesmo assim, a prática não cessou.

Algumas gravadoras já perceberam que o fenômeno pode ser explorado em vez

de combatido. A NMPA (Nacional Music Publishers Association), por exemplo, um grupo que representa um grande número de artistas e produtores musicais, entrou em acordo com o site de vídeos YouTube e, a partir de agora, os músicos receberão

Muitos internautas fãs de quadrinhos têm o costume de ler páginas escaneadas online, evitando os preços elevados dos impressos. Abaixo, uma página de The Walking Dead, disponibilizada no fansite da HQ.

royalties de direitos autorais para cada vídeo postado no site – o que vale tanto para clipes oficiais quanto para vídeos feitos com trilha sonora não autorizada. O dinheiro

vem da publicidade veiculada antes da exibição dos vídeos.

de 2010 no website Observatório da Imprensa, a evolução das técnicas de captação, re-

Idealmente, a existência de direitos sobre a propriedade intelectual envolve

produção e disseminação de imagens e sons incidiu diretamente sobre as noções de

tanto bom senso quanto economia: o retorno financeiro é um incentivo para o

autor e propriedade. “Autores como Walter Benjamin, Gilles Lipovetsky e Néstor Gar-

trabalho do artista.

cía Canclini apontam para uma perda gradativa da importância da ideia de autoria e

Novas maneiras de explorar esses direitos têm, no entanto, surgido para sat-

de ‘autenticidade’ a partir do uso de novas tecnologias de reprodução”, analisa. “A era

isfazer as necessidades da geração da Web 2.0. Um exemplo é o site Sellaband, que

digital amplifica os potenciais de uso, apropriação e modificações de obras autorais,

oferece downloads gratuitos de música e encoraja os usuários a apoiar artistas aspiran-

de forma a gerar imensas dificuldades para o controle dessas obras por parte dos au-

tes comprando uma porcentagem de seus empreendimentos. Tanto músicos quanto

tores e dos titulares de direitos de propriedade intelectual”.

usuários ganham a partir dos anúncios do site, um modelo de negócios tão estrutu-

rado – e que se apóia tanto nos direitos autorais – quanto qualquer editora.

em fevereiro de 2008 na revista digital DataGramaZero, os pesquisadores Mariângela Pisoni

Da mesma forma que a música e outras formatos de mídia, as HQ’s estão pas-

Zanaga e Hans Kurt Liesenberg afirmam que a história dos direitos nasceu vinculada a essas

sando por um problema semelhante no tocante aos direitos do autor: a questão das

tecnologias de reprodução, citadas por Belas, que permitiam a feitura de cópias a partir de um

páginas de quadrinhos impressos digitalizadas e colocadas à disposição do inter-

original para venda. Em outras palavras, tudo começou com o desenvolvimento da imprensa.

nauta para download ou leitura online já foi brevemente mencionada aqui.

98

Segundo a socióloga Carla Belas, em entrevista publicada no mês de fevereiro

No artigo Autoria e compartilhamento social: a criação de conteúdos na internet, publicado

Quando a imprensa era uma tecnologia recente, autor e editor debatiam quem 99


teria maior direito sobre os lucros e a obra: se o criador em si ou se o dono dos meios de

alheio, como é o caso da Internet.

produção. Os direitos autorais passaram a garantir ao autor o controle sobre o uso de sua

propriedade criativa.

sor da cultura livre, para enumerar razões pelas quais vale a pena adotar o modelo

O primeiro país a reconhecer a propriedade intelectual foi a Inglaterra, por meio

de conteúdo aberto: a existência de autores emergentes e de pessoas comuns que

do Copyright Act, que restringia a publicação, reimpressão ou comércio de trabalhos

desejam divulgar seus trabalhos; a redução do custo de reprodução e disseminação

sem o consentimento expresso do autor. Esse direito era, no entanto, limitado a alguns

pelo sistema de compartilhamento de arquivos em rede; a existência de monopólios

anos, depois dos quais a obra passava a integrar domínio público.

muito seletivos para a disseminação de criações culturais reforçariam a ideia de que a

Internet não deveria sustentar políticas de direitos autorais.

“Autor” passou a ser um ofício restrito a poucos indivíduos, que detinham total

O artigo de Pisoni e Liesenberg ainda cita o autor Lawrence Liang, grande defen-

autoridade sobre o que produziam, sendo estritamente proibido ao leitor o acréscimo

de qualquer informação às produções.

flexibilidade às licenças de uso concedidas pelo próprio autor. Elas foram criadas

Os conteúdos abertos, por sua vez, continuam Pisoni e Liesenberg, devem sua

Já os franceses tinham uma visão mais voltada para a perspectiva da obra de

como uma alternativa viável à lei vigente de propriedade intelectual com objetivo de

um autor como algo de interesse público e, segundo o artigo de Pisoni e Leisenberg,

atender às necessidades dos usuários sem bater de frente com os direitos do autor.

pensavam que “as idéias [sic] pertenciam a todos e os direitos autorais instituíam

Como dito, esse foi também o motivo principal pelo qual se orientou a criação dos

o monopólio de um indivíduo sobre o saber que deveria ser um bem comum. Para

direitos autorais que, com o passar do tempo, “passaram a pertencer a grandes com-

não se tornar algo injusto, deveria então haver limite de tempo para os direitos de

panhias em detrimento de autores/criadores, a abranger outros tipos de conteúdos e

um autor sobre sua criação e este limite deveria atender ao interesse público”.

tiveram seu prazo de vigência aumentado”.

A Internet pode ser encarada como a exponenciação desse ponto de vista que

Enquanto o copyright se baseia na ideia de que todos os direitos de propriedade

prima pela qualidade pública da informação. Em princípio, a intenção ao se disponibi-

são reservados e é preciso solicitar a autorização de seus detentores para reprodução

lizar uma obra em rede não é tirar do autor os direitos sobre ela, mas tornar um conteúdo

total ou parcial de um conteúdo, o autor pode optar por diferentes licenças para flexi-

acessível – ainda que continue a existir uma barreira socieconômica que priva boa parte

bilizar essa regulamentação de uso.

da população do acesso à web.

Ainda de acordo com o artigo: “pode-se permitir: a reprodução da obra; a criação

O professor da Universidade norte-americana de Stanford – e idealizador do Cre-

e reprodução de obras derivadas, entendendo-se por obra derivada a transformação e

ative Commons, que discutiremos mais adiante –, Lawrence Lessig, enxerga na estru-

a adequação da obra original a um novo contexto de uso; a distribuição de cópias ou

tura livre proporcionada pela Internet um caminho que permite o exercício de algum

gravações da obra; a distribuição de cópias ou gravações de obras derivadas, sempre

controle sobre a propriedade intelectual sem, no entanto, bloquear o aproveitamento

sendo obrigatória a menção ao seu autor/criador original. Pode-se, inclusive, abrir

do meio digital: uma análise caso a caso deve ser feita de maneira a deixar determi-

mão de todos os direitos, o que significa dar à criação a condição de domínio público,

nados conteúdos mais restritos e outros, mais liberados. Para o pesquisador, é preciso

que, no entanto, não é aplicável no Brasil, pois a legislação brasileira não permite que

incentivar a “cultura livre”, termo empregado para descrever um ambiente de con-

autores abdiquem dos direitos morais sobre sua criação”.

teúdos abertos, em que é possível não apenas divulgar, mas criar em cima do trabalho 100

101


A Lei no Brasil

e a expansão de obras.

Diversos sites funcionam como depositários para autores que trabalham com es-

O advogado e especialista em Direito Internacional Privado e Implicações dos meios

sas licenças. Um deles, o Wikimedia Commons, funciona como uma rede em que os

eletrônicos no Direito, Marcelo Bulgueroni explica que, no Brasil, existe uma diferença

autores podem escolher as licenças que desejam e fazer o upload da obra licenciada

entre os direitos comerciais e morais do autor: “os direitos comerciais”, explica ele, “se

no site. Para quem quiser colocar um trabalho online, o Wikimedia ensina de maneira

referem apenas à reprodução da obra, enquanto os direitos morais são intransferíveis e

bastante didática no que implicam as licenças e quais as suas especificidades.

estão ligados ao direito do autor de ser reconhecido como criador da obra”.

Ver Figura 3

Também as questões do domínio público - que determina que os trabalhos de um

autor só podem ser utilizados 70 anos após a morte do autor - e a do registro de autoria

- que estabelece que, se alguém puder comprovar a autoria de uma obra, ela não precisa

teúdo voltado para tecnologia e Internet About.com, o jornalista Daniel Nations faz uma

ser registrada para que o autor seja reconhecido como tal -, são importantes dentro da

ressalva ao dizer que “ainda que seja uma ótima solução, o Creative Commons não resolve

lei vigente de direitos autorais no Brasil. Neste segundo caso, uma vez que a autoria é

todas as questões de copyright na Web 2.0. Muitas pessoas ainda não usam ou entendem

reconhecida, tecnicamente o público não pode fazer nada com o trabalho, sem o con-

o Creative Commons”.

sentimento explícito do criador; “nem mesmo reproduzi-lo sem fins lucrativos”, afirma

Bulgueroni.

na lei dos direitos autorais, é colocar um link que redireciona o internauta para o local de

origem daquele conteúdo. Afinal, quando se publica algo na Internet, o número de visu-

É necessário que o autor autorize expressamente qualquer pessoa que deseje fazer

uso da obra tendo em vista quaisquer fins.

O sistema de Creative Commons, exemplifica Bulgueroni, foi uma maneira encon-

No texto Copyright Infringement: the Dark Side of Web 2.0, escrito para o site de con-

Uma opção que se tem de reafirmar os direitos do autor, que não consta exatamente

alizações é extremamente importante e ter um trabalho divulgado e linkado em outros lugares é uma excelente maneira de atrair novos e potenciais consumidores para uma

trada de facilitar a vida para o autor que deseja liberar o uso da obra sem ter que autorizar

página. Dessa forma, a reprodução do trabalho pode se tornar do interesse do autor.

cada interessado.

“O Creative Commons funciona como um conjunto de pacotes de licenças em que o

hecer os Creative Commons, muitas pessoas colocam seus trabalhos na Internet contando

autor pode escolher o quanto quer permitir que os outros utilizem seu trabalho”, explica o

com a repostagem e a relinkagem de outros internautas. O problema é que isso não

advogado. “O autor pode permitir desde apenas a reprodução até a alteração do trabalho,

garante que o usuário vá creditar o criador sempre que disponibilizar uma obra em seu

dependendo da licença escolhida”.

próprio site ou redes sociais, de forma que as pessoas que virem aquele conteúdo não

O advogado Marcelo Bulgueroni concorda que, apesar da legislação e sem con-

serão redirecionadas para a página do verdadeiro autor.

Creative Commons

Por conta disso, continua Bulgueroni, alguns quadrinistas estão se tornando cria-

tivos. André Dahmer dos Malvados, por exemplo, passou a inserir o endereço de sua O sistema, desenvolvido pelo já citado professor Lawrence Lessig, se articula como uma

página no próprio quadrinho.

organização não governamental sem fins lucrativos voltada para a divulgação 102

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Figura 3

Uma das tirinhas do malvados, com o link do site de Dahmer

Carla Belas, em sua entrevista ao Observatório da Imprensa, reforça essa ideia

de que, por mais que a evolução tecnológica da computação e a rede tenham gerado conflitos entre os direitos do autor e o acesso a obras, foram criadas também novas oportunidades para negociar e divulgar materiais.

“Os autores não dependem mais exclusivamente de um contrato com uma

grande gravadora ou editora para difundir as suas produções. Com alguns equipamentos simples – um computador, um gravador e uma câmera digital – é possível gravar músicas e fazer vídeos para em seguida difundi-los para milhares de consumidores na Internet”, afirma. “Os contratos de Creative Commons atestam essa maior autonomia do autor no que diz respeito ao exercício de seus direitos autorais sem a necessidade da mediação de uma gravadora ou editora”.

Eduardo Damasceno, um dos autores do blog Quadrinhos Rasos e da HQ Acha-

dos e Perdidos, é partidário dessa ideia: “todo material que produzimos é Creative Commons, então se alguém quiser escanear o livro inteiro e colocar na Internet tudo bem, mas não vemos sentido nisso se podemos disponibilizar uma versão digital em alta qualidade também”.

Ele também afirma, contrariando expectativas, que, mesmo deixando todo o

seu conteúdo à disposição na web, a produção da versão impressa de um projeto vale a pena, pois “atinge também um público que se tivéssemos só a versão digital, As instruções do Wikimedia: são permitidas apenas imagens de autoria própria, que passam a poder ser utilizadas por outros usuários ou trabalhos de outros autores que façam parte de domínio público ou estejam autorizados

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não atingiríamos”. 105


Alguns casos

O Puny Parker foi uma maneira excelente que o artista encontrou de mostrar seu trabalho, algo que lhe rendeu bons frutos: em 2009, por exemplo, ele foi convidado por

As histórias que Damasceno publica em parceria com Luís Felipe Garrocho trazem

Sidney Gusman a integrar o grupo de 50 quadrinistas que contribuíram com a primeira

adaptações desenhadas de trechos de músicas conhecidas, outra questão que pode ser

edição do MSP 50.

pensada sob a ótica dos direitos autorais.

Se antes o autor dependia de editor para publicar um trabalho, e este podia barrar apropria-

impresso, a negativa de Cafaggi é veemente: “não, não penso em lançar uma coletânea

ções indevidas de obras alheias, na Internet o quadrinista dispõe de plena liberdade para pegar

do Puny Parker. Até porque é um personagem da Marvel e eu teria problema com direitos

conteúdo alheio e adaptá-lo de maneiras diferentes.

autorais”. Por outro lado, ele mesmo pretende entregar um encadernado de tirinhas do

Sobre o mote do Quadrinhos Rasos, Damasceno diz não estar infringindo lei alguma: “estamos nos

personagem, em inglês, para o editor da Marvel durante a FIQ deste ano. “Vamos ver o

apropriando de um trecho da letra de uma forma que, acredito, seria caracterizada na lei como

que acontece”, diz.

uma paródia e não estaríamos sujeitos a qualquer processo por conta disso”, afirma, categórico.

Outros quadrinistas, que também fizeram sucesso na rede, já não podem dizer o

com razão, se lembrarmos do que o advogado Marcelo Bulgueroni disse a respeito das

mesmo. O autor Vitor Cafaggi, por exemplo, começou a chamar atenção com o blog Puny

leis de direitos autorais no Brasil - com a questão do copyright do personagem. Ele fala

Parker (traduzido como “Pequeno Parker”), em que publicava tiras estreladas pela versão

que tentou contatar a Marvel por carta e por e-mail, sem obter resposta. Depois disso,

criança de Peter Parker, o Homem-Aranha da Marvel Comics.

afirma ter desistido: “pelo menos, eles foram avisados”, comenta o quadrinista.

Quando perguntado sobre a possibilidade de publicar algo do Puny Parker no meio

Mesmo publicando quadrinhos sem fins lucrativos, Cafaggi se preocupava – e

Outro autor que também revolve esse limbo dos direitos autorais é Mauro A.,

do Wagner & Beethoven, que publica, para além das tirinhas estreladas pelos músicos clássicos do título, a história Conan, o repórter investigativo, em que quadrinhos das antigas páginas da HQ Conan, o Bárbaro são recontextualizados e as falas dos personagens, modificadas.

Ao contrário de Cafaggi, Mauro não se restringiu às fronteiras da web: suas tiras

chegaram a ser publicadas na revista Playboy e ele recebeu uma remuneração por isso.

“Não tenho autorização e nunca tive nenhum problema por conta disso. O

único caso em que acho possível algum questionamento é mesmo o do Conan, já que do Wagner e do Beethoven eu só uso imagens de domínio público ou de divulgação”, diz ele quando perguntado sobre possíveis problemas com relação aos direitos autorais. “E, ainda assim, acho que eu só receberia algum tipo de reclamação se os detentores dos direitos de imagem do Conan fossem extremamente imOs personagens Peter Parker e Mary Jane Watson em Puny Parker (esq.) e na capa do gibi The Amazing Spider Man #638

106

plicantes, já que as imagens são usadas apenas como pano de fundo para minhas 107


histórias, e não como a inspiração original delas, e o dinheiro que eu já ganhei com

A questão da propriedade intelectual continua bastante delicada em todos os as-

isso foi quase simbólico”, afirma.

pectos: tanto no âmbito do controle que um quadrinista pode ter sobre o uso da obra, quanto em relação a como ele próprio pode modificar o material de outros artistas.

Marcelo Bulgueroni pesa os prós e contras da questão com dois exemplos: “a Ap-

ple queria ser a proprietária única e exclusiva daquele comandos [que se vê em tablets e smartphones] de dar zoom na tela com um toque”, começa com um exemplo que parece um tanto derivativo. “A tecnologia viraria, então, monopólio de uma única empresa e outras pessoas seriam impedidas de inovar e até aprimorar isso”.

Se, por um lado, Marcelo dá a entender que os direitos autorais podem brecar a

criatividade das pessoas e mesmo alguns avanços tecnológicos, ele também diz que “não dá para dizer que direitos autorais são ‘ruins’. Imagine que um autor cria um personagem X e vem alguém que desenha super bem, faz uma versão desse personagem e fecha contrato com a Folha de S. Paulo. É preciso proteger essas pessoas também”.

Um dos maiores problemas da questão, ele conclui, ainda é o fato de que o siste-

ma legal trabalha lentamente: se demorou anos para que as leis nacionais se adaptassem à igualdade entre os sexos, é difícil prever em quanto tempo elas começarão a caminhar de acordo com as mudanças que estão acontecendo na Internet.

“Um dos maiores problemas”, Bulgueroni avalia, “é que boa parte dos juízes

e advogados trabalhando hoje entendem e estudam muito pouco sobre tecnologia e cibercultura”.

A situação, portanto, ainda é imprevisível e transitória.

Série Conan, repórter investigativo, tira do Mauro A. publicada na revista Playboy

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A experiĂŞncia do leitor

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você acrescenta truques de câmera e trilha sonora a uma HQ, ela continua sendo

Animações e quadrinhos No tocante às inovações possíveis no meio digital, os leitores ainda encaram as “HQtrônicas” com certa resistência, em especial histórias que aplicam recursos de animação

A rede afeta as histórias em quadrinhos de diferentes maneiras: do processo de cria-

ção ao consumo enquanto produto cultural. Até aqui, falamos bastante do autor e de todas as mudanças que ele vivencia, mas muito pouco foi dito a respeito da experiência do leitor no meio virtual.

Seguindo ainda, em grande parte, o padrão impresso, os webcomics sem animação,

sons ou possibilidade de interação ainda são muito mais populares do que as versões cheias de recursos que se apropriam efetivamente do meio digital.

Isso acontece por dois motivos: o primeiro se refere ao caráter ainda bastante experi-

mental de boa parte das “HQtrônicas”. Em geral, o roteiro serve apenas como base para

considerada quadrinhos? Ou é apenas um jeito barato de fazer animações?”.

O desenhista John Cassaday participou da adaptação da série Astonishing X-

Men para o formato e, a princípio, se mostrou reticente: “eu tinha visto alguns motion comics antes e os resultados eram variados. Quando eles vieram até mim, hesitei”. No fim, Cassaday topou participar e ficou satisfeito com o resultado, mas sua hesitação mostra como existe descrença em relação ao formato.

Os próprios leitores manifestam seu descontentamento no site Digital Motion

Comics. Cada animação lançada é postada na página com um trailer e um espaço para avaliação dos usuários. É possível dar uma nota de 0 a 10 em quesitos como roteiro, arte, som, animações e relação custo-benefício e fazer uma resenha dos lançamentos. Em geral, o quesito com as menores notas é justamente animação. A série Astonishing X-Men, de Cassaday, recebeu uma nota 5 em animação. O usuário identificado como Starman escreveu, em sua resenha, que “a pior parte é justamente a animação, algo que a Marvel tem errado em suas motion comics”.

justificar o uso dos recursos, o que invariavelmente deixa a narrativa em segundo plano. Essa situação vem mudando aos poucos. O professor Edgar Franco toma a “HQtrônica” Nalwz como um exemplo categórico de “HQtrônica” de 3ª geração, a primeira a apresentar uma história realmente sólida: “antes dela, as ‘HQtrônicas’ eram muito experimentais. Agora, já têm alguns códigos que estão se cristalizando”.

O segundo motivo é que formatos de arte sequencial que incluem sons e ima-

gens acabam ficando aquém da expectativa dos leitores. É o caso de histórias que combinam requadros fixos e requadros com animações, mistura que quebra o ritmo de leitura da página. Outro exemplo são as motion comics, uma espécie de híbrido de animação e quadrinhos que surgiu na década de 1970 e se popularizou nos anos 2000 com a série Broken Saints. Em geral, os lançamentos são adaptações simples das versões em papel. Por isso, ainda são vistos com desconfiança tanto por fãs quanto pelos próprios quadrinistas. Em 2009, o site americano Comics Worth Reading publi-

Trailer da mistura de animação e quadrinhos, Broken Saints

cou um artigo questionando a existência desse novo formato de animação: “quando 112

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NAWLZ, uma HQ adaptada ao seu tempo e espaço

Criada em 2008 pelo ilustrador e designer australiano Stuart Campbell, conhecido

como Sutu, Nawlz é uma trama de ficção científica que aproveita de maneira inédita as possibilidades digitais. Nesse mundo futurista, a tecnologia é tão avançada que a realidade é aumentada por meio de experiências interativas multi-sensoriais. O protagonista da narrativa é Harley Chambers, um cyber-grafiteiro que pretende criar um “real” (uma alucinação tecnológica que se sobrepõe à realidade e permite que qualquer pessoa possa experimentá-la) capaz de cobrir a cidade inteira.

A grande novidade da série é a maneira como ela deve ser lida. O leitor decide

quando seguir clicando em pontos específicos da tela. A ação se desenrola da esquerda

Acima, uma imagem da HQtrônica Nawlz

para a direita e é possível avançar ou retroceder na história. Todos os episódios contam com trilha sonora e várias animações que respondem ao clique do mouse.

Desde o lançamento, Nalwz tem acumulado elogios e participações em festivais. Scott

McCloud, em seu site, classificou-a como o webcomic experimental por excelência: “estranha, dissonante e incansavelmente inventiva”. Em 2010, a HQ venceu o Webby Awards, conhecido como Oscar da Internet, na categoria “Net art”.

Franco considera a história o primeiro clássico das “HQtrônicas”: “a Nawlz tem um

conteúdo muito bom. E não venha me dizer que isso é animação. Não é. É ‘HQtrônica’ mesmo. É uma forma nova de narrativa”. Atualmente, a série está na segunda temporada.

O funcionamento da maior parte dos recursos audiovisuais inseridos nos

novos webcomics depende da interação do leitor com a narrativa: animações e efeitos sonoros são geralmente acionados à medida que o usuário navega pela história e utiliza o mouse para clicar em “sinalizadores” de ação. Essa predisposição que o internauta apresenta para interagir com diferentes interfaces na Internet levanta questões a respeito do papel que ele exerce dentro do processo tradicional emissor -> mensagem -> receptor e da proximidade que leitor e autor adquiriram no meio virtual. 114

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mações inesgotável, de forma que é necessário que o leitor interaja com o conteúdo e

Leitor e autor

Na Internet, as fronteiras entre as funções de produtor e consumidor de conteúdo são frequentemente superadas, e a proximidade entre leitor e autor aumenta

Historicamente, aponta o francês Roger Chartier, especialista em história da lei-

tura, na obra A aventura do livro, a expressão material do texto sempre exerceu influência sobre a relação entre quem o escreve e quem o lê. Um exemplo concreto desse fenômeno, fornecido pelo autor, é o texto escrito em papiro: uma folha era colada a outra, de modo a formar fitas de até 12 metros, que eram então enroladas em bastonetes. O manuseio de um texto neste formato exigia as duas mãos – uma para desenrolar as folhas seguintes, outra para enrolar as anteriores – e a leitura era contínua, o que exigia que o leitor tivesse memória, ainda mais com a inexistência do recurso da paginação, que atualmente facilita a localização do ponto em que a leitura foi interrompida. No meio virtual, essa relação entre leitor, texto e autor passa, logicamente, por uma série de mudanças.

Em seu livro Sociedade da informação: globalização, identidade cultural e conteúdos, o

selecione as páginas virtuais que lhe forem mais interessantes.

Como apontado no artigo O autor e o leitor no hipertexto, da jornalista Fabiana

Komesu, uma ferramenta exclusiva da Internet que permite ao leitor selecionar o que gostaria de ler – e que contribuiu para incitar certa resistência à supremacia da figura do autor – é o hipertexto. Para reforçar seu argumento, Komesu cita dois pesquisadores do texto no suporte eletrônico – George Landow e Jay D. Bolter – que colocam o público leitor na posição de co-autor no universo hipertextual. De acordo com ambos, caberia aos leitores a decisão sobre os hiperlinks que organizam a leitura: a partir dos links, afirma Komesu, o internauta pode seguir por caminhos diferentes dos originalmente concebidos pelo autor e estabelecer diferentes ligações entre o texto original e conteúdos externos.

Em seu livro O que é o virtual?, Pierre Lévy atenta para o caráter ativo da leitura

hipertextual, analisando que “o leitor em tela é mais ‘ativo’ que o leitor em papel: ler em tela é, antes mesmo de interpretar, enviar um comando a um computador para que projete esta ou aquela realização parcial do texto sobre uma pequena superfície

pesquisador Antonio Miranda discorre sobre uma delas: as diferentes possibilidades

luminosa” e que, em rede, “o leitor é livre de estabelecer sozinho a ordem do discurso

que o leitor tem de interagir não apenas com o autor, mas também com o conteúdo.

ou de se perder na desordem dos fragmentos”.

O hipertexto não é a única via pela qual o leitor sobreleva a condição de mero

“Uma das contribuições mais extraordinárias da internet é permitir que qualquer usuário,

receptor. A velocidade da comunicação na Internet permite também que se estabeleça

em caráter individual ou institucional, possa vir a ser produtor, intermediário e usuário de

uma colaboração autor-leitor e leitor-leitor, o que resulta em textos multi-autorais.

conteúdos. E o alcance dos conteúdos é universal, resguardadas as barreiras lingüísticas e

tecnológicas do processo de difusão. É por meio da operação de redes de conteúdos de forma

teúdos na internet, Mariângela Pisoni e Hans Kurt Edmund Liesenberg, argumentam

generalizada que a sociedade atual vai mover-se para a Sociedade da Informação”. (Mi-

que a tela do computador é um espaço “animado, visualmente complexo e maleável

randa, 2000: p. 81)

para o escritor e o leitor”, ou seja, fluido e em constante estado de mudança, de acordo

Os autores do já citado artigo Autoria e compartilhamento social: a criação de con-

com sugestões do leitor e assentimento do autor. Enquanto isso, no meio impresso, o Ou seja, o internauta não é um receptor passivo de informação: ele se torna um

texto é estável, fixo e as cópias produzidas são idênticas e imutáveis. Dessa forma, o

usuário ativo, que escolhe e interage com diferentes informações e produtos culturais.

controle sobre o texto impresso pertence exclusivamente ao autor, de modo que sua

Ele é capaz de selecionar o conteúdo virtual. A Internet possui um acervo de infor-

figura tem muito mais força nesse meio do que no virtual.

116

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Nesse contexto, é bastante pertinente a ideia de Chartier de que o ambiente virtual

permitiria a criação de “publicações controladas”, tal como o livro eletrônico, que es-

tirinhas Adventure de Angela Dunn e Caroline Sharpe, que abordamos no capítulo so-

treita as relações entre autor e leitor: os leitores são ‘[...] transformados em co-autores

bre memes. Os leitores da tira estabelecem uma espécie de diálogo com as autoras: ao

de um livro nunca acabado mas sim continuado por meio de seus comentários e suas

modificar o quadrinho original e alterar seus personagens, viram co-autores.

intervenções [...]’ (Chartier, 2002: p. 112). Eles são, portanto, capazes de influenciar e,

dependendo do caso, até mesmo modificar o produto final.

voz na produção de conteúdos online é apontado pelo professor da ECA-USP, Wal-

domiro Vergueiro: “as editoras podem usar a Internet como meio de comunicação

Um exemplo de como isso se manifesta nos quadrinhos: basta observar o atual-

Outro exemplo desse tipo de aproximação no mundo dos quadrinhos são as

Outro fenômeno que ilustra o quanto a Internet permite que o leitor tenha mais

mente parado, mas não encerrado, blog Irmãos Brain, cujas histórias giravam em torno

com os leitores e receber feedback. Muito autores estão fazendo isso”, diz.

das desventuras dos irmãos Ego, Superego e Id.

Em Folhetim: uma história, a crítica literária Marlyse Meyer faz uma recapitulação

Geraldo Neto, dono da página, ocasionalmente colocava no site tiras em que cabia ao leitor, por

meio de votação em pesquisa, escolher o final da história, postado algumas horas ou dias depois.

Essa influência do leitor em uma obra, é claro, não é completamente novidade.

histórica da interferência do leitor em textos literários: “Em 1836, Émile de Girardin lança o romance folhetim, que consistia na publicação de romances em capítulos diários no rodapé do jornal, espaço que já tinha a designação de folhetim. Aprimora-se, então, a questão da profissionalização do escritor, que trabalha sob encomenda e é pago pela quantidade escrita. Para manter-se no mercado, deve conquistar seu público; portanto, é necessário atender seus gostos e suas preferências, desenvolvendo-se assim o diálogo entre o autor e o leitor. Acompanhando diariamente as peripécias das personagens, o público deseja interferir no seu destino e, para isso, envia cartas aos autores fazendo-lhes sugestões ou exigências: coloca-se para o autor uma certa necessidade na elaboração do romance que vai tecendo, impelido por várias e imprevistas determinações. Agradar ao público continua, evidentemente, sendo uma delas. Mas agradar aceitando sua colaboração, seguindo suas sugestões, que lhe chegam por via de cartas”. (Meyer, 2005: p. 76)

Os quadrinistas do meio digital passam hoje por uma situação semelhante. En-

quanto diversos autores veem esse constante e ágil contato com os fãs com bons olhos, Mauro A., do Wagner & Beethoven, o faz com algumas ressalvas: “é claro que [o feedback Geraldo Neto não apenas interagia com os leitores consultando-os quanto ao final que daria à tira por meio de uma pesquisa, como também dava a oportunidade para que o leitor desse sua opinião a respeito do resultado nos comentários

118

imediato] só interessa para quem liga para a opinião dos leitores e eu ligo. A desvantagem é que esse feedback invariavelmente contamina sua impressão inicial do que você 119


acabou de ver, seja uma HQ, texto ou vídeo”, analisa. “Se eu acho algo engraçado, vejo

fundamentalistas que acham que irei arder no inferno, mas são minoria”.

nos comentários alguém fazendo uma crítica idiota ou pedindo uma explicação sobre a

piada e pronto – a graça daquilo desapareceu pra mim. Isso acontece até com elogios”.

do desde sugestões (boas e ruins) de tirinhas até pedidos para aparecer nas histórias;

ele também recebe muitas solicitações de parcerias de donos de blogs, que dizem ter

A opinião de Mauro descreve um movimento recorrente nas páginas virtuais em

Eurico, das Tiras do Euricéfalo, diz receber diariamente e-mails de leitores fazen-

que leitores podem interagir entre si e influenciar com imediatismo a leitura e a opin-

baseado suas páginas virtuais na do Euricéfalo.

ião de outros leitores a respeito do produto final.

Outros autores concordam que o leitor está mais próximo na Internet e que este fato agrega

sou obrigado a ouvi-las, obrigado a aceitar o que eles dizem”, diz Eurico, que ilustra o

mais vantagens do que desvantagens. Foi a seção de comentários do site de Laerte, por exemplo,

fato com uma história tragicômica: “teve um cara que estava desejando minha morte

que permitiu aos autores deste livro estabelecer um primeiro contato com o cartunista.

nos comentários, eu simplesmente deletava, e ele ficava bravo com isso, pois ele se

“O problema de ter um feedback tão aberto é que algumas pessoas acham que eu

achava no direito de desejar minha morte nos comentários”.

De acordo com o artigo Hipertexto: o desempenho do leitor, contribuição da pes-

quisadora Valéria Cristina Bezerra para a revista digital Hipertextus, com o desenvolvimento da web, o leitor passou a ter um espaço em que os cerceamentos e as restrições com relação à sua interferência nos textos foram drasticamente reduzidos. Sob a perspectiva da comunicação, tecnologias como programas de troca de mensagem instantânea (como o MSN, ou chats do Google Mail e do Facebook), e-mails, fóruns, listas de discussão e as salas de bate-papo facilitaram o livre debate e a cooperação, apesar da distância geográfica que separa os interlocutores.

A Internet engendrou modificações profundas no processo de comunicação: baseada

em redes interativas e cooperativas em lugar da fórmula centralizada e unidirecional da comunicação de massa, ela relativiza as funções tradicionais de emissor e receptor. Em oposição A seção de comentários do blog de Laerte – o quadrinista sempre procura responder aos fãs

Para Laerte, não há dúvida quanto ao fato de que “a rede aumentou muito o

contato com leitores. Eles estão de fato mais próximos, nisso de manter uma correspondência, de ter uma possibilidade de intercâmbio com o autor”. Já o criador de Um Sábado Qualquer, Carlos Ruas, diz que o retorno que consegue dos fãs “é muito gratificante. É o reconhecimento de um trabalho bem feito, isso acaba sendo meu combustível de criação”. Em referência à temática religiosa de suas histórias, que sempre pode ser estopim de polêmica, acrescenta: “o ruim é que sempre tem uns 120

à informação que parte de um emissor para muitos receptores, como comumente se dá com os meios de comunicação de massa, na rede ela migra de usuários para usuários.

O organizador da Feira Internacional de Quadrinhos, Daniel Werneck, afirma que essa troca con-

stante de informação entre autor e público tem também outro lado: “a Internet está ajudando os leitores a entenderem melhor os quadrinhos e a valorizar mais os artistas”. Ele continua: “é comum ver quadrinistas postando layouts, rascunhos, estudos. O público gosta de ver as engrenagens funcionando nos bastidores, e isso valoriza o trabalho do artista perante os olhos do mercado como um todo. O contato direto entre artista e público também cria um novo respeito entre as duas partes, que antes era bem mais estrito e demorado”. 121


nar, repetindo o padrão do suporte papel, passando pelo nível intermediário (reativo) que envolve sites e CD-ROMs onde o receptor pode optar entre caminhos diversos já pré-establecidos, ou ainda pode acionar animações, efeitos sonoros e links que o levam a caminhos paralelos à narrativa; chegando finalmente ao nível mais avançado de interatividade, que seria classificado como ‘interatividade não-trivial’ onde o leitor não é apenas convidado a navegar pela história que apresenta múltiplos caminhos, como também tem a possibilidade de contribuir com a narrativa criando uma das páginas e participando efetivamente como co-criador de uma obra coletiva”. Esboços retirados do blog de Pablo Mayer – leitores na Internet gostam de conhecer o processo de produção das histórias

A “interatividade não-trivial”, conceito desenvolvido pelo teórico britânico Roy As-

cott, está relacionada a sistemas abertos a um número ilimitado de ações por parte do receptor: ele pode alterar uma cadeia de eventos ou adicionar informações novas, transformando

Ao contrário do que acontecia no início do desenvolvimento da crítica literária,

completamente as possibilidades de um conteúdo.

o leitor na Internet não pode mais ser ignorado. Agora, a opinião que ele tem acerca

A seguir, ilustramos em um vídeo o mecanismo de uma página da Internet que permite que

de produtos culturais pode ser amplamente divulgada e adquire um peso maior: “se

os leitores participem ativamente da construção de infinitas narrativas.

antes esse tipo de história e crítica era plenamente intelectualizada e acadêmica, agora tem a possibilidade de ser construída pelo público comum, que, como foi comprovado, participa ativamente de todas as categorias pertinentes ao texto literário: elaboração, circulação e análise”. (Liesenberg & Pisoni; 2008)

O leitor na Internet é mais que um espectador no processo da produção de uma HQ. Os

recursos disponíveis lhe fornecem a possibilidade de ser uma engrenagem ativa em muitas frentes.

O leitor-autor: “interatividade não-trivial”

No que diz respeito aos webcomics, o termo interatividade está ligado, sobremaneira, à

interação criativa passível de existir entre usuários dentro de um mesmo ambiente virtual.

Em seu artigo NAWLZ: uma HQtrônica de terceira geração, o pesquisador Edgar

A questão não é saber desenhar, nem ter uma ideia original: é abrir caminhos.

Franco descreve três variantes possíveis de interatividade para as trocas de informação

A rede oferece, como nenhum outro meio, recursos para conectar pessoas de todos os

estabelecidas no meio digital e, sobretudo, na web: “esses níveis podem ir desde o mais

lugares e tornar possível a criação compartilhada de universos ficcionais, enciclopé-

básico (passivo), onde o receptor tem como única opção os comandos avançar e retor-

dias, bancos de dados e – por que não? – histórias em quadrinhos.

122

123


O consumo cada vez maior de HQ’s na Internet engendrou o desenvolvimento

técnicas de desenho, ou têm preguiça de desenhar. Semelhantes aos geradores de memes,

de programas voltados para a leitura de scans. É o caso do ComicRack, um visualizador

essas plataformas disponibilizam determinado número de personagens, requadros e

elaborado especificamente para quem lê quadrinhos no computador: o internauta baixa

balões de fala que o autor preenche da maneira que quiser sem, no entanto, partir de

uma HQ em um formato compatível com o do programa e escolhe dentre vários mo-

figuras com conotações pré-estabelecidas, tal como acontece com os memes.

dos de exibição de página e leitura. O programa, além de trazer algumas ferramentas como lupa e ajuste de cores para os gibis, também serve como um organizador de HQ’s digitais: possui recursos de agrupamento, classificação e busca para que o leitor possa percorrer e encontrar o que procura dentro da sua coleção virtual.

StripGenerator O Stripgenerator é um dos geradores de tiras mais moderninhos que o quadrinista em potencial encontrará na web. Criado pela dupla de eslovenos Žiga Aljaž e Martin Glavač, o site funciona como uma comunidade virtual e é mantido pelo ThirdFrameStudios (3fs), uma agência eslovena que desenvolve aplicativos multimídia para toda a Europa. O internauta cria uma conta no gerador, monta tiras e publica na página do seu perfil, sendo que qualquer membro do grupo pode visitá-la e deixar comentários.

Exemplo de interface do ComicRack, com biblioteca organizada por títulos, séries e gêneros. Imagem retirada do blog Info

Seguindo ainda essa linha de dispositivos criados para internautas, surgem

na web cada vez mais geradores de tiras, sites direcionados especialmente para aqueles usuários que curtem bolar os próprios quadrinhos, mas ou não dominam 124

A interface extremamente simples e ampla variedade de personagens e configurações de páginas fazem do Stripgenerator um dos generadores mais simpáticos da net.

125


Andraz Logar, diretor executivo do 3fs, explica que o StripGenerator é um tipo

Apesar de inteiramente gratuito, o StripGenerator requer que o usuário tenha instalado o Flash

de projeto hobbie em que eles investem, porque, além de contar com ótimo feedback

Player, plug-in especial para a criação de animações interativas, de modo que, dependendo da con-

dos usuários – já são mais de 100 mil perfis e quase 600 mil tiras publicadas –, o

exão e da capacidade do computador, o serviço pode demorar para carregar ou mesmo travar.

gerador serve de plataforma de testes para os aplicativos desenvolvidos no estúdio.

“O StripGenerator não gera lucro, apesar de nós já termos vendido algumas licenças

com uma versão em português. Assim como o ThirdFrameStudios vende licenças para em-

de uso a várias companhias, sendo a mais famosa a Ericsson da Suécia. Nós também

presas, o Pixton também desenvolve pacotes especiais para escolas, com ferramentas que

vendemos algumas licenças para a CME [Central European Media Enterprise, com-

permitem que os quadrinhos feitos pelos alunos sejam impressos e o conteúdo dos projetos

panhia de mídia e entretenimento, dona de várias estações de televisão no Centro

monitorado pelos professores. Tanto no Pixton quanto no StripGenerator, alguns serviços só

e no Leste Europeus] como uma ferramenta multimídia de marketing político para

são liberados mediante pagamento; enquanto no primeiro o usuário paga, por exemplo, para

eleições - o que significa que os usuários poderiam fazer quadrinhos com figuras

poder diagramar livremente os seus quadrinhos, no segundo, ele paga para liberar novos pa-

políticas. Mas é claro que o StripGenerator gera bastante publicidade para o 3fs”.

cotes de personagens.

O gerador também suporta um fórum, em que, além de trocar ideias e tiras, os usuári-

A Máquina de Quadrinhos da Turma da Mônica é outro gerador de tiras, só que compro-

os podem discutir problemas relativos à interface e ao funcionamento do site e dar sugestões

metido com a divulgação do trabalho dos Estúdios Mauricio de Sousa. Destinado a um públi-

que variam desde concursos e novos serviços até pacotes temáticos de personagens.

co mais infantil, os usuários são convidados a montar tiras ou páginas utilizando os persona-

Há geradores de tiras mais simples como o Pixton, que não necessita do plug-in e conta

gens da Turma da Mônica, desde que concordem em obedecer a algumas restrições temáticas: “histórias e comentários que envolvam diferenças raciais, álcool e drogas, sexo, religião, política ou outros temas do gênero não são adequados para o Portal. A Máquina de Quadrinhos se reserva no direito de retirar do Portal histórias e comentários que envolvam esses assuntos”.

Os recursos digitais têm reconfigurado certos aspectos das histórias em quadrinhos, ao

menos na Internet. Se, antes, bons desenhos e protagonistas eram elementos essenciais para sustentar boas histórias, hoje, além da ampla variedade de temáticas, que não necessariamente se prendem a personagens centrais e constantes, a Internet também revela “estilos” que prescindem do talento técnico dos autores. Logar entende que isso não altera o propósito das histórias em quadrinhos: “no final das contas, um conteúdo de qualidade (comercial ou não) irá prevalecer independentemente da mídia ou da ‘classificação’ artística. O formato quadrinho é apenas outro formato de veiculação de conteúdo, nada mais. Ele sempre serviu ao seu propósito de expressar histórias, talento artístico e ainda hoje é assim. E vai continuar a ser no No tópico Future ideas and tips (em tradução livre, “Ideias para o futuro e sugestões”), o usuário mark mahem sugere que o gerador adote uma seção de gêneros, para que os leitores possam acessar facilmente as tiras com as temáticas que mais lhes interessam

126

futuro, mas o formato pode vir a mudar; as ferramentas vão evoluir e nós veremos cada vez mais híbridos de formas de arte”. 127


Conclusão

gramas e serviços gratuitos capazes de dar suporte à comunicação entre usuários e à criação simultânea de conteúdo, que hoje os webcomics constituem uma produção extremamente prolífica, interessante tanto para os quadrinistas quanto para fãs e pes-

A melhor maneira de concluir este trabalho é resgatar um aspecto dele bastante

quisadores dos quadrinhos.

peculiar: o #Sketches Virtuais se baseou quase que inteiramente em dados, artigos,

notícias e resenhas da Internet; o texto é resultado direto de pouco mais de um ano

to, que a Internet é um caminho sem volta em se tratando da criação e da troca de

de intenso acompanhamento de blogs, sites, redes sociais, fóruns e, claro, webcomics.

produtos culturais e que, enquanto ela se mantiver como uma ferramenta em con-

Por se tratar de um tema cuja bibliografia, que já não é extensa, toma comumente

stante desenvolvimento capaz de agregar proficiência técnica e criativa, muitos pro-

por foco os quadrinhos impressos, não houve a quem recorrer, senão à própria web.

tocolos e conceitos serão superados.

Este trabalho pretendeu mostrar, partindo inclusive da maneira como foi fei-

Sites como o Universo HQ e o Bigorna (que, recentemente, declarou ter encerrado suas atividades) talvez tenham sido as fontes de informação mais completas de que dispusemos ao longo do processo de desenvolvimento do trabalho, fato, no mínimo, curioso em relação a dois pontos. O primeiro deles se refere ao número surpreendente de pessoas que parece estar consumindo (e publicando) quadrinhos online, sejam eles tiras, scans, “HQtrônicas” ou memes. O segundo volve a questão da Internet como um meio perfeitamente capaz de, ao mesmo tempo, revelar uma demanda e abastecê-la de informações em um nível bastante satisfatório.

O perfil do leitor de histórias em quadrinhos - quiçá do leitor em geral - mu-

dou. Essa mudança fica, sobremaneira, visível na segmentação do mercado, mas tem raízes mais complexas, que implicam dizer que os quadrinhos têm atraído novos leitores, boa parte dos quais não tinha, até bem pouco tempo atrás, qualquer familiaridade com a arte sequencial. A Internet favoreceu esse processo na medida em que não só aumentou o contato dos internautas com os quadrinhos, como também criou um tipo único de protagonismo em relação aos quadrinhos – e a produtos culturais de modo geral –, permitindo, através de interfaces interativas, que a fruição das histórias se desse não apenas na leitura, mas na autoria, afrouxando os nós que amarravam as bandas desenhadas às antigas fórmulas “imagem fixa + texto” e “autor → conteúdo → receptor”. 128

É graças a essa propriedade democratizante da Internet, que disponibiliza pro129


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