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09 . 12

NR 26

ano: 2012 . nr 26 . mês: Setembro . director: António Serzedelo . preço: 0,01 €

Mandar o agressor para onde deve ir “Todos temos de fazer sacrifícios”, o slogan dos políticos que nos colocaram neste estado de coisas, repetido até à náusea pelos seus avençados na comunicação social, fez escola; a par de um outro que acusa quem duvida desta narrativa “de empurrar a dívida com a barriga”. Dívida, dívida… não se tem ouvido e lido outra coisa, de “Dívida Pública”, de “nós”. Todos aqueles que se atreveram “Dívida? Muito bem, façamos uma Auditoria para se saber pormenores dessa dívida, saber quem deve o quê…” foram absolutamente cilindrados, desapareceram da comunicação social. Só os Dupont & Dupont têm lugar para falar de “alternativas”. E descaradamente, sem puder, viram-se para as suas câmaras privadas e perguntam: “Alternativas, onde estão?” Tudo para nos convencerem da nossa “culpa”. E convenceram, muitos reproduziram-lhe o discurso, com a mesma convicção daquela mulher que apanha constantemente pancada do cobarde do marido e se convenceu de que as nódoas negras são culpa sua. E temos vindo a pagar, sem sequer exigir que se coloque a nu quem contraiu a dívida, porquê… e quem lucrou no entretanto. E entregámos o dinheiro de um empréstimo inteiro aos bancos, aos mesmos que andaram a “brincar” nos casinos financeiros internacionais, a distribuir dividendos pelos seus accionistas e a pagar principescamente aos seus gestores. Como se fosse normal. A proposta de aumento de 7 pontos percentuais da Taxa Social Única, TSU, para os trabal-

hadores por conta de outrem e a descida de 5,75 por cento da contribuição das empresas não representa somente um cálculo de contas mal feito – também é, conforme o estudo tornado público por investigadores das Universidades do Minho e Coimbra -, não é um acidente de percurso motivado pelo voluntarismo, ou erro de cálculo de quem só está habituado a fazer contas de somar, é a demonstração mais evidente da forma peculiar como os poderosos do dinheiro e os seus peões no xadrez da sociedade olham para quem não teve a oportunidade de crescer à sombra de uma juventude partidária e do emprego proporcionado por cúmplices políticos. Aos outros resta darem sinais de vida, como no passado dia 15 de Setembro. Relembrando a mulher espancada, mandar o agressor para onde deve ir: à merda! José Tavares da Silva Deputado da Assembleia Municipal de Setúbal, eleito pela lista do Bloco de Esquerda

Ilustração Dinis Carrilho

http://jornalosul.hostzi.com


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Passos perdido(s) MARCELO REBELO DE SOUSA, DISSE  QUE O NOSSO PRIMEIRO "NÃO ESTÁ PREPARADO PARA O LUGAR".

celer Merkel, a fazer deste país um laboratório de experimentação de arriscadas teorias neo-liberais. Enquanto a Troika anunciava um alargamento dos prazos por mais um ano, dos valores incompridos do Pib, P.Coelho resolvia endurecer a austeridade, e conseguiu numa alocução de 10 minutos, mudar qualitativamente o ambiente politico todo.  Veja- se o dia 15 de Setembro. Disse-o na TV depois da interOs portugueses saíram à rua em venção desastrosa do dia 7, quanmassa, em 40 cidades do país, num do Passos Coelho anunciou novos total próximo de um milhão, a dizer impostos, TSU, e mais austeridade . Basta! Mal acabara surgiu uma consNão querem mais Troika, que lhes telação de críticas, dos mídia à net . trocou as vidas. Percebia -se que quando passassem Não querem mais do virtual para a rua, impostos que não pooriginaria inesperadas (...) dia 15 de dem pagar,onde não há rupturas sociais, UGT, equidade, critério,justiça e rupturas de consen- Setembro. social . Exigem outra sos partidárias, PS , Os portugueses face ao Memoradum. Sobretudo, politica,e que as gorducolocando o ambiente saíram à rua em se quiserem evitar que a situação ras do Estado não sejam politico à beira de uma massa, em 40 escorregue para uma próxima da os trabalhadores,os reexplosão de cidadania . cidades do país, Grega,com o centro a explodir, e os formados ,os jovens, os Manuela Ferreira num total próximo desempregados , a es- extremos a ganhar... Leite ,ex líder do PSD Com este primeiro ministro isso cola publica, e a saúde a foi duríssima dizendo de um milhão, a pode acontecer, sobretudo se não se pagar, em nome da crise que “a receita não está dizer Basta! vislumbra nenhuma alternativa à sique não criaram. a resultar, o País está a tuação em que vivemos, depois da De repente P. Coelho,é um homem ficar destroçado, com esta  falta de Troika que não tinha outra solução, só,isolado, a quem o líder do CDS e “bom senso”. ter até alargado prazos para ajudar. ministro de Estado, Paulo Portas ,deDepois, foi a vez de líderes do CDS, Continuamos num impasse que pois de longo silêncio muito significaaltos representantes da igreja católigera frustração,desmobilização, detivo , se atreveu a dar uma inteligenca, centrais sindicais,responsáveis do silusão e desespero. te e oportunista ensabuedela,numa patronato e dos partidos, da esquerda De facto, uma crise pose de homem de à direita, todos acompanhados de um de poder não é,talvez, Estado,que colocou a imenso clamor de protestos e de inAgora, é agora o que mais concoligação PSD-CDS sultos contra o 1º ministro, acusado na rua que os venha ao país . á beira de um ataque de ser insensível ao sofrimento dos Consciente disso o de nervos,ao prometer Portugueses portugueses, e incompetente. P.R resolveu consultar justamente, que não a começam a Formado e criado nas Jotas,com o Conselho de Estado poria em risco. um curso acabado tarde, fraca expeencontrar-se. Mantêm-se o GoAgora, sabemos riência de gestão, salvo em empresas verno? A sua quebra pode ser um todos e os partidos também, que se do seu mentor ideológico , um barão desastre,mas a sua manutenção acabaram os brandos costumes. Viudo PSD, Ângelo Correia, promovitambém o é. O governo é remose na noite de 15 de Setembro frente do por um desacreditado Relvas a delado? É melhor um mau orçaao Parlamento. quem tudo deve,não é de admirar que mento, ou não haver orçamento A demonstração, de que se perdeu o Povo- país e até o PSD comecem a nenhum? Como reagem os mero medo, e que há gente disposta à pôr em causa a escolha que fizeram cados? Caminha- se para novas violência. há ano e meio. eleições ,assunto demorado,caro,e Os partidos em geral , particularNunca se tinham ouvido criticas pode não ser conclusivo,ou vaimente o PS têm de pensar muito bem tão fortes a Passos e ao seu Ministro se para um Governo de Salvação nas posições que tomam,sobretudo Gaspar, ambos bons alunos da chan-

Foto: José Carrilho | Manifestação de 15 de Setembro

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02 na vigia

Nacional, sem Passos Coelho,com um primeiro ministro tecnocrata apoiado, pelo menos, pelo CDS, PSD e PS? Estamos face a uma conjuntura europeia que não é fácil, em aparente evolução positiva no tocante ao euro, mas o mercados contam a cima de tudo, para os juros que o país tem de pagar. O PR tem uma alta responsabilidade.Tem dito que os sacrifícios devem abranger os que tem escapado à austeridade.Pode mandar o novo orçamento para o Tribunal Constitucional se não for alterado .Pode e deve ver, se há respeito pela equidade,o que não parece líquido. Agora, é na rua que os Portugueses começam a encontrar-se. Devem organizarem se com palavras de ordem apropriadas, sem jogos partidários, solidários com os movimentos de Cidadania ,e os movimentos Alternativos,com os sindicatos, em nome da sobrevivência do País ,que querem ajudar a salvar, para alterar o rumo desta “barca do inferno” sem futuro,nem esperança. António Serzedelo Director do jornal O Sul


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na Vigia 03 Contra o ocidente marchar marchar Em cerca de 30 países do mundo árabe e islâmico, passando até pela Austrália,tem-se levantado uma enorme onda de fundamentalismo islâmico, motivado pela nebulosa Al Queda,dirigida contra o Ocidente. O pretexto foi um vídeo colocado no youtube , propositadamente em período eleitoral nos EUA, a 52 dias das eleições presidenciais, por fundamentalistas coptas,(idênticos aos salafitas islâmicos) e legendado, não por acaso, em árabe. Nele se insulta e troça do profeta Maomé,chamadol h e m u l h e r e n g o , e mentiroso,apresentado em imagem por um actor o que nunca

deve acontecer, segundo a tradição islâmica. No início parecia que os ataques eram só contra os EUA,mas quando se vê que as embaixadas da Alemanha, Inglaterra,e até Holanda são ameaçadas, percebe-se que a revolta é mais ampla.É manipulada por fundamentalistas,explorando ressentimentos anti americanos, grupos que foram esmagados pelos ditadores árabes que o Ocidente ajudou a depôr,e que agora  se aproveita das liberdades conquistadas, para atacar a cultura e a civilização democrática tal como a entendemos os Ocidentais. A primeira consequência foi

discurso onde anunciava uma na Líbia, onde se crê que um viragem no relacionamento dos grupo de ex apoiantes de GadaEUA com o mundo islâmico, e fi ,á mistura com salafitas,num lhes prometia apoio no muito ataque preparado em Benghasi difícil percurso da construção no dia 11 de Setembro, ás instada Democracia. lações diplomáticas Obama tem gedos EUA mataram o No início rido a crise com saembaixador, e outros bedoria, aí marcando funcionários do con- parecia que os pontos em política sulado, onde se en- ataques eram só externa, relativamencontravam. contra os EUA,(...) te ao seu contendeDepois foi o Cairo, percebe-se que dor republicano Mitt Tunis,Cartum,Líbano, a revolta é mais Romney. e por aí fora, em todo ampla. O Presidente por o lado com mortes e um lado, tem tentado nas suas feridos registados. intervenções não ofender de forÉ uma ironia que tudo isto ma nenhuma o Islão,ao mesmo rebente, com o Presidente Obatempo que não põe em causa os ma, o homem que pronunciou valores americanos. no Cairo, em 2009 ,um célebre

Por outro, mostrando firmeza na defesa das embaixadas americanas sediadas nestes países,despachando para lá marines,recordando aos Governos os seus deveres para com as embaixadas, e dizendo que os culpados serão apanhados e consequentemente julgados. Enfim a crise ajudou a apertar laços entre Europeus e Americanos, ao mesmo tempo que Obama tenta evitar, a todo o custo,que possa ser entendida como um “choque de civilizações” como interessa ao fundamentalistas de todas as religiões. António Serzedelo Director do jornal O Sul

Saúde Natural & Crianças não será esta a altura certa de Parar O nosso progresso depende de uma e Refletir sobre o futuro que estamos nova geração de crianças Saudáveis, a criar? Com uma população idosa a Ativas e Motivadas. | S. Loureiro tomar cerca de 10 medicamentos (no Vivemos atualmente numa somínimo!) por dia, é esta a perspetiva ciedade acostumada a que a saúde que queremos oferecer às gerações não está nas suas mãos mas é sim da vindouras? Qual a real Qualidade de responsabilidade de outrem, ou de alVida desta população sénior? gum agente externo; numa população Como foi possível perdermos a sujeita a uma excessiva medicalização noção de que o nosso corpo possui um em que ninguém pretende dar tempo poder natural de cura – a tão aclamada ao tempo para uma recuperação do Vis medicatrix naturae - após poucas equilíbrio funcional do organismo; décadas da implementação massiva da numa época em que perdemos o conindústria farmacêutica? Qual o papel tacto e a Consciência de nossa própria que jogámos neste jogo e como perdenatureza e do nosso ritmo biológico. A mos as Memórias não tao longínquas análise crítica em relação ao que nos é dos tratamentos naturais prescrito é praticamente tradicionalmente usanula, sendo que diversas (...) o nosso dos? E se o paradigma pessoas chegam a tomar começasse a mudarAqui o mesmo medicamen- corpo possui um & Agora, para uma soto simultaneamente, em poder natural de ciedade mais Responformatos diferentes, sem cura sável e Consciente de sequer o notar. A usual si própria tanto a nível físico, mental indignação do “fui ao médico e ele nem como emocional? E se o paradigma me receitou nada!”, comprova a noção mudasse de modo a que, em vez de de que a “saúde”parece medir-se pela se recorrer logo a medicamentos de quantidade de drogas medicamentosíntese mais agressivos para o orgasas que se tomam. nismo, explorássemos em primeiro O paradigma está tao vinculado lugar modos mais naturais de manter que certos pais sentem-se culpabilie recuperar o equilíbrio do nosso orzados ao procurarem alternativas à ganismo, recorrendo a remédios mais farmacoterapia sem se aperceberem invasivos apenas quando o organismo que diversos desses medicamentos já perdeu a sua capacidade natural possuem efeitos secundários que pode reação? dem colocar em risco o equilíbrio funEstamos em tempo de Mudar e cional do - ainda imaturo - organismo proporcionarmos aos mais pequenos da criança (veja-se a grande polémica um estilo de vida saudável, um modo à volta da Ritalina – droga medicamennatural de Ser e Estar, e procurar catosa psicoestimulante abusivamente minhos positivos salutares em Harreceitada por certos profissionais de monia connosco e o que nos rodeia. saúde a crianças catalogadas de hiDesse modo estaremos a contribuir perativas). Neste âmbito, a estimacertamente, mas muito certamente tiva do número de crianças sujeitas (!), para uma Nova Geração Saudável, a excessiva medicalização no outro Ativa e Motivada. lado do oceano (E.U.A). é assustador! Caminhemos Gentilmente neste Mas, ainda pior, na Europa parece que mundo que nos acolhe. estamos a importar este modelo americano. Tomando a premissa de que Sofia Loureiro o nosso Futuro é determinado pelo Terapeuta Natural modo como vivemos o nosso Presente,

capa do livro | guia de remédios naturais para crianças


Tarefas infinitas esses valores preciosos, mas o comisÉ uma exposição estonteante, sário da exposição quis fazer deste estas “Tarefas Infinitas” que estão acontecimento um grande ensaio e no Museu Gulbenkian até 21 de Oudaí esta reflexão sobre os limites que tubro. Os livros de artista dialogam transvasam a beleza e a criatividade com objetos, obras de arte, o visitante artística. entra e sai perplexo. Se vai à espera A organização das obras e livros de ser confrontado com as técnicas e de artista permitem estar com Amaestéticas das obras de arte, desiludadeo de Sousa-Cardozo, Vieira da Silse. Há para ali um conjunto de caixas va, Lurdes Castro, Filippo Marinetti, de ferro onde Rui Chafes guarda as Stéphane Mallarmé, Jean-Luc Gocinzas dos textos que escreve lado a dard, José Escada, Christian Boltanski, lado com um Apocalipse iluminado entre muitos outros. A documentação do século XIII, que mostra numa midistribuída faz fé de como a exposição niatura a fogueira onde padecerão os convoca interpelações inquietantes: condenados Juízo Final, o que pode de que modo a arte põe sugerir que há várias à prova o livro, e como leituras para o fogo e Haverá o livro põe à prova a as cinzas. Embrenhaarte? E quando o cose o visitante exposição momentos missário observa que adentro e as surpresas em que o estamos perante um repetem-se, há para ali confuso visitante ensaio, ele estabelece, filmes, fotografias, es- questionará se são culturas e instalações as ousadias da arte na perfeição, as regras de jogo que condicioa conversar com livros que põe à prova o nam a perplexidade e iluminados medievais e o deslumbramento do livros de artistas con- livro (...) ou se são visitante. Assim: temporâneos, que nem os livros que Somos prevenidos, lhe passa pela cabeça. estão no limiar da exposição, Haverá momentos em predestinados a que abrir um livro é corque o confuso visitante pôr à prova rer o risco de encontrar o questionará se são as a arte(...) infinito. O livro é infinito, ousadias da arte que o que temos nas mãos, põe à prova o livro depois de lido ou contemplado, procomo bem intemporal ou se são voca mudanças, um outro estado de os livros que estão predestinados a espírito, e então o livro descentra-se, pôr à prova a arte e os seus títulos espraia a liberdade. É o começo do absolutos. começo. É uma exposição ousada, porEntra-se no espaço do livro e cortanto, ao estabelecer pontes insusre-se inúmeros riscos, não podemos peitadas, ao provocar a concepção prever a explosão das palavras, ideias, tradicional que temos do livro. Ao que imaginação. Entrar e sair do livro pode parece, o Museu e a Biblioteca de Arte ser um abismo entre a ordem e o caos. da Fundação Gulbenkian queriam Na secção seguinte somos avisauma exposição sobre livros de artisdos que a escrita e a leitura têm isso tas existentes nos respetivos espólios de comum, são tarefas inacabáveis. (e que arte magnífica não há nesses E há um outro problema: os autolivros!), um esclarecimento sobre as res contaminam-se, as personagens, intenções dos artistas quando criam

Cent mille milliards de poèmes, de Raymond Queneau, Foto: Carlos Azevedo

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04 à bolina

citações e ideias migram de uns livros para outros. O livro exige de nós tempo. Aqui começa uma história interminável. E depois partimos para um estranho labirinto onde tudo se dirige para um livro. É essa a ordem natural das coisas: o trabalho e o descanso, a dor e o prazer, a ficção e a realidade. O visitante pode estar confuso mas sente que já está em melhores condições para perceber com é vão o desejo enciclopédico da apreender todo o conhecimento do mundo. Noutra secção lança-se uma mensagem urgente, gritam-se avisos, do género: os livros são perigosos, são temíveis, acresce que o ser humano é um mapa aberto à viagem, traz aos ombros o monte de palavras, assistelhe a possibilidade de ler e reler, tem sempre pela frente a biblioteca interminável de Babel. Agora já se perceba que estas tarefas são infinitas não se

limitam ao tempo de vida de um indivíduo e são criação comunitária. Há exposições que não vêm sós, arrastam filmes, conferências, catálogos ou folhetos auxiliares para o visitante. Pede-se a atenção para as importantes conferências ao longo de Setembro e Outubro e até para as visitas orientadas. O catálogo está mesmo à altura do fulgor destas tarefas infinitas, atrevo-me a dizer que é um catálogo soberbo, irá ser disputado pelos bibliófilos. Porque um catálogo seve para conservar e rever tudo aquilo que já nos encheu as medidas e até os limites da compreensão: é verdade que o livro é uma casa estranha para onde somos convidados, lê-lo pode ter o mérito de abrir janelas, abrir portas, estabelecer espaços de fronteira. O livro pode ser um laboratório artístico, um acontecimento. Há momentos em que percebemos claramente que o

livro é transbordante. É o caso dos livros bordados de Lurdes Castro, onde o direito e o avesso, e o avesso do avesso, podem induzir um livro infinito, uma tarefa infinita, a existência de linhas que não se tocam ou que criam malhas. Tanta coisa para chegar a um livro! Como se escreve no catálogo: “Num livro podemos encontrar o comum e o extraordinário, o quotidiano mais simples e a experiência mais estranha, a banalidade e o espetacular. O livro transporta ambas com a mesma dignidade e destrona mesmo a pretensa superioridade daquilo que se considera habitualmente importante”. Mas atenção o livro é também uma fronteira instável entre a sabedoria e a loucura, por isso se vê na exposição uma pintura flamenga com uma paisagem à primeira vista bucólica onde Santo Antão, junto a uma floresta tem um livro aberto nas mãos, absorto, parece não dar conta de uma procissão grotesca e cómica, talvez as figuras da tentação. Afinal, ler é mais do que ler as palavras de um livro, adverte o comissário, ler é experimentar o mundo de outro modo e quem não sai consolado, apaziguado, esclarecido desta exposição, não se preocupe, uma exposição que é um ensaio é obra inacabada, abre terreno para a luz de um outro princípio, se a arte e o livro se ilimitam estamos comprovadamente sujeitos a tarefas infinitas. Recomenda-se que não se perca semelhante provocação, há que vencer todos os obstáculos que, qual arame farpado, tornam difícil o acesso às artes do livro. Não se esqueçam: na Gulbenkian, até 21 de Outubro. Beja Santos Docente Universitário

Apoios:

A VIAGEM Teatro Interactivo para toda a Família

23 e 30 de Setembro às 11 h Teatro Estúdio Fonte Nova Rua Doutor Sousa Gomes nº 11 Setúbal Preço único:

3,50 €

Propriedade e editor: Prima Folia • Cooperativa Cultural, CRL / Morada: Rua Fran Paxeco nº 178, 2900 Setúbal

/ Telefone: 963 683 791 • 969 791 335 / NIF: 508254418 / Director: António Serzedelo / Subdirector: José Luís Neto • Leonardo da Silva / Consultores Especiais: Fernando Dacosta •

Raul Tavares / Conselho Editorial: Catarina Marcelino • Carlos Tavares da Silva • Daniela Silva • Hugo Silva • José Manuel Palma • Maria Madalena Fialho • Paulo Cardoso / Director Artístico:

Dinis Carrilho / Consultor Artístico: Leonardo Silva / Morada da Redacção: Rua Fran Pacheco nº 176 1ª 2900-374 Setúbal / Email: Jornalosul@gmail.com / Registo ERC: 125830 / Deposito Legal:

305788/10 /Periocidade: Mensal / Tiragem: 45.000 exemplares / Impressão: Empresa Gráfica Funchalense, SA - Rua Capela Nossa Senhora Conceição, 50 Moralena 2715-029 - Pêro Pinheiro


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à bolina 05 Pintura de Onofre Manata ou a Cidade e os seus habitantes gens escondidas, nas esquinas, na rua, simples e cruas. Não são pessoas especiais. Facilmente se adivinha as suas profissões, reivindicações, vícios, vidas. São pessoas verdadeiras. E toda a nossa ignorância sobre os habitantes destas cidades labirínticas se desfaz. Já não somos turistas, estas personagens são reais, habitam os nossos espaços e imaginários, podem ser o Sr. Lopes ou o Joaquim, a “Santinha”, a Miquelina, o “Belga” ou o “Nazaré”. Intimidade Só então compreendemos e somos aceites na intimidade destas casas e personagens. Podemos partilhar a mesa, a vista de uma janela aberta, ou um rosto, como que numa visita a casa de um amigo. Os momentos de intimidade que partilhamos na casa dos amigos, não são coisas que se comentem, apenas desfrutamos a generosidade.

Pintura de Onofre Manata | “Labirintos da noite” | Óleo sobre tela, 92 cm x 73 cm

A pintura de Onofre Manata desperta emoções. Num itinerário possível, proponho a seguinte leitura, sem seguir qualquer cronologia: Labirintos Fico particularmente fascinado com as cidades labirínticas, tão familiares e tão distantes, onde tudo acontece entre paredes e apenas se adivinha a vida das pessoas, onde, num quase voyeurismo, procuramos os detalhes, quase envergonhados, testemunhos de personagens escondidos mesmo quando estão à nossa frente. São assim as cidades labirínticas de Onofre Manata, sejam traçadas a tinta-da-china ou pintadas a cores fortes. Cidades oníricas de ângulos impossíveis, que saturam o espaço, nos tiram o fôlego, e nos dizem que naqueles territórios somos apenas turistas, que podemos visitar, ver e cheirar mas que nunca poderemos verdadeiramente habitar. Pessoas E a seguir pinta estas persona-

Fernando Teixeira www.galeria.apriltrade.pt

O Ar e o Cinema Livre ao Ar Livre A Prima Folia Cooperativa Cultural e o Made in Café efectuaram uma parceria no sentido de oferecer à cidade de Setúbal uma tela pintada com imagens em movimento junto ao Sado. Mestres do Cinema ao Ar livre, assim se chama o resultado desta combinação de vontades, que através de filmes mudos e a preto e branco pretende arriscar as mais variadas cores em quem vier para se juntar a assistir. E assim foi, no passado dia

14 o ciclo cinematográfico arrancou com “Os Tempos Modernos” de Chaplin, a noite era soalheira e dada a pouco movimento porque o próprio respirar era pesado, suspirava-se pelos gelados, a bebida fresca, ou com os pés de molho no rio quando o filme começou... o que de inicio poderia ter causado alguma indiferença às amenas cavaqueiras de sexta à noite, Chaplin e sua muito querida personagem Charlot começam a despertar curiosidade. Primeiro nos mais

novos, a empatia pela honestidade e coração da personagem, o seu andar, a capacidade de rir e fazer rir apesar das circunstâncias e do seu ser atrapalhado e ainda assim descomplexado. Depois os graúdos, contagiados pelas crianças, deixaram-se ir com o “rolar da fita”. Ainda Charlot começava com as suas peripécias a desafiar os males nos seus tempos que corriam mais depressa que a vida das pessoas, tal como hoje em abono da verdade, com o sorriso e e

infindável esperança mesmo em adversidade, a comunhão concretiza-se entre todos os que se juntaram em família, sozinhos e acompanhados. Como achamos que o cinema de autor não é só coisa de elites, fizemos uma programação para toda a família, clássicos para ver e rever, para levar a família, amigos, filhos, avós e netos, mas, ao Ar Livre num local privilegiado como este onde o Made In Café assenta arraiais. Haverá Chaplin, Buster Keaton, Fritz

Lang, Méliès, Bucha e Estica, os Três Estarolas entre outros... Desta forma convidamos todos os que quiserem a vir ao Cinema nestas Sextas de Setembro e Outubro, sempre às 22 horas no Parque Urbano de Albarquel. (Sempre que as condições climatéricas o permitirem).

Mestres do Cinema ao Ar Livre No Parque Urbano de Albarquel em Setúbal todas as Sextas feiras de Setembro e Outubro às 22h Cinema para toda a família na melhor esplanada do Sado Chaplin, Buster Keaton, Laurel an Hardy, Dziga Vertov, Fritz Lang, Murnau entre outros...

Uma parceria: made in café e prima folia

Leonardo Silva Presidente Prima folia Cooperativa Cultural


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06 CULTURA

A Obsessão e o seu Dia vistas internacionalmente, acabaria por viver um tempo áureo em Hollywood entre os meados dos anos 80 e os finais dos anos 90 (e retornado à sua terra naVivemos numa época de retal viria a realizar, em 2006, makes – de cansativos e incomo aclamado thriller de guerra preensíveis remakes. Um sinal “Black Book”). Será suficiente dos tempos, sem dúvida. Mas dizer que, na sua passagem pelos um que se explica. Primeiro, Estados Unidos, Verhoeven acacom a falta de originalidade arbaria por assinar aquilo que são, gumentativa que, salvo algumas ainda hoje, algumas das mais raras excepções, não parece, inteligentes obras actualmente, parcinematográficas ticularmente gras(...) de ficção-científica. sar por Hollywood. Falo naturalmente S e g u n d o , c o m a a falta de de “RoboCop” (1987), a u s ê n c i a d e u m originalidade com um sempre real conhecimento argumentativa muito injustamente cinematográfico dos que, subvalorizado Peter últimos, digamos, Weller, e de “Total vinte a trinta anos salvo algumas Recall” (1990), com (e nem se procure raras excepções, um sempre divertido r e c u a r m a i s ) d a s não parece,(...) Arnold Schwarzenenovas gerações de grassar por gger e uma sempre possíveis especta- Hollywood. fatal Sharon Stone. dores que por aí se Mas falo também de passeiam, e que tudo um transgressivo “Basic Instinct” tomam por novo e maravilhoso. (1992) com um Michael Douglas Neste triste estado de coisas, e, daí em diante (com o seu desPaul Verhoeven parece uma víticruzar e cruzar de pernas), uma ma óbvia do momento, destinado lendária Sharon Stone, e de um como parece estar a ver nascer algo controverso “Starship Tronovas versões de algumas das opers” (1997), livremente basesuas mais icónicas obras. É claro ado na obra homónima de 1959 que relembrar Paul Verhoeven do escritor Robert A. Heinlein é relembrar o realizador de ori(também ela particularmente gem holandesa que, após dar nas

Paul Verhoeven revisitado

com Marte. A viagem é cara e controversa). o dinheiro não abunda, razão E este é o ponto. Ao que parece, lá para 2013, “RoboCop” pela qual recorre a uma empresa, REKAL, Inc., de modo a que será alvo de remake, com o lhe sejam implantarealizador José Padas memórias duma dilha (Tropa de Elite hipotética viagem (2007)) a liderar um É preciso como um agente seelenco que, segundo dizer que a creto em missão no os últimos rumores, premissa de “Total planeta. No entanto, promete (ao contráRecall” é uma a meio do procedirio do argumento mento, algo corre que, diz quem já leu, inspirada num mal. Aparentemente, não impressiona). pequeno conto as memórias a serem “Total Recall”, esse, de Philip K. Dick já sofreu essa mes- intitulado “We Can implantadas já existem, escondidas, na míssima sina (este Remember It for mente de Quail e ano), com realização You Wholesale” começam nesse moa cargo de Len Wimento a despertar: seman, e com Colin (1966) na realidade, Quail Farrell e Kate Beé de facto um agente secreto ckinsale nos papéis principais. a quem haviam apagado todas Vi a nova produção (curiosias memórias de uma missão em dade, curiosidade). Digo: vi e, no Marte. momento, relembrei Verhoeven. Detenho-me. Não quero Tinha boas razões para isso. desvendar o desenlace surpreÉ preciso dizer que a preendente. Especialmente porque missa de “Total Recall” é uma é neste momento que o filme inspirada num pequeno conto de Verhoeven se desprende do de Philip K. Dick intitulado “We conto. O filme mantém-se no Can Remember It for You Whoentanto fiel à problemática que o lesale” (1966). Resumo a ideia. inspira: a natureza da realidade, Um homem, Douglas Quail, preo papel do desejo inconscienso a um trabalho sofrível e a te e o lugar das memórias na uma vida sem emoção, procura fundamentação da identidade aventura e, mais do que isso, pessoal, não só lhe oferecendo um sinal da sua importância. um outro nível de profundidade Por razões desconhecidas sonha

como, para mais, acrescentandolhe uma verdadeira história de espionagem e duplicidade, numa parábola revolucionária que opõe os muitos aos poderosos. É claro que o remake de “Total Recall” acaba por não fugir grandemente a nada disto. É certo que lhe muda o universo (trocando Marte por um planeta Terra devastado por um holocausto químico) e é certo que troca uma Sharon Stone por uma igualmente sensual Kate Beckinsale. No entanto, e no fim, tudo acaba por saber a pouco (lamento Kate). Numa palavra, falta-lhe inteligência, falta-lhe sofisticação. Uma coisa, apesar de tudo, deve ser louvada: as pequenas alusões que naturalmente nos remetem para o filme de Verhoeven. A um remake exigese isso: um subtil mas essencial piscar de olho à obra que lhe forneceu o material de base. É uma questão de respeito, mas também de reconhecimento. E é também, claro, regra geral, algo que pontualmente nos recorda o que estamos a perder: o tempo que poderia ser melhor gasto a ver o filme original. Este é, aliás, um caso que nisso não engana. Tiago Apolinário Baltazar t.apolinariobaltazar@gmail.com


- Quando uso uma palavra – disse Humpty Dumpty em tom escarninho – ela significa exactamente aquilo que eu quero que ela signifique… nem mais nem menos. - A questão - ponderou Alice – é saber se o senhor pode fazer as palavras dizerem coisas diferentes. - A questão – replicou Humpty Dumpty – é saber quem manda aqui. É só isso. Lewis Carrol Em 2009 foi implantada no morro de Santa Marta, no Rio de Janeiro, a primeira Unidade Policial Pacificadora (UPP) brasileira. Este é um «novo» modelo de Segurança Pública que policia e «recupera» as favelas ocupadas por redes organizadas de tráfico. Desde aí, cerca de 25 favelas receberam UPP’s, estando hoje libertas do crime organizado, pelo menos, daquele representado pelas mais poderosas facções de tráfico ou milícias. Estudos apontam para uma queda de 75% nos crimes contra a vida, embora tenham tri-

centros de emprego? Como se resolplicado as lesões, ameaças e outros verão os problemas infra-estruturais crimes relacionados com drogas. ao nível da habitação e da recolha de O critério linguístico aplicado pelo lixos? Como é que estes territórios Estado para designar a vitória das conquistarão o poder da inclusão UPP’s sobre o tráfico dita que esterritorial perante o resto da cidade? tes 25 territórios deixaram de ser A Avenida Brasil foi favelas para ser agora feita para ligar a cidacomunidades. Agora de do Rio de Janeiro ao Saltando por cima habitantes de resto do país. Abandodas estratégias polítina a cidade rumo ao cas e económicas asso- territórios mais norte e inicia um traciadas a este processo seguros e livres do jecto pouco apetecível (desde o aumento da crime organizado, a turistas. As avenidas especulação imobiliá- continuam no largas são substituídas ria até à realização dos entanto com os por vielas sufocadas, Jogos Olímpicos em mesmos problemas onde a construção é 2016), as UPP’s trouabarracada e toda a xeram a estas favelas sócio-económicos. paisagem é trancada brasileiras mais segu- Continuam a viver à chave pelas fachadas rança física e maior in- num gueto. cinzentas e vermelhas dependência popular do latão e do tijolo. Dezenas de favedas redes de tráfico. No entanto, estas las surgem ao longo desta avenida, vitórias não respondem a todas as indistinguíveis umas das outras a questões: as favelas continuarão a olho nu. Todos os dias, milhares de ser bairros de lata? Irão lá construir homens e mulheres percorrem a escolas, bibliotecas e cine-teatros? Avenida Brasil de autocarro para Passarão a existir nas favelas hospiconstruir ou limpar os edifícios cintais, representações das finanças ou

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tilantes de Copacabana e Ipanema. São favelados, alvo de estudo de diversos fenómenos de exclusão social, pobreza e marginalização. Agora habitantes de territórios mais seguros e livres do crime organizado, continuam no entanto com os mesmos problemas sócio-económicos. Continuam a viver num gueto. A mítica linha física que desenha um cerco em torno deste território – e que sustenta a ideia de que não se pode entrar numa favela – acompanha uma linha simbólica que retira aos seus habitantes oportunidades de comunicar, de se relacionar e de participar na cidade. No entanto, a favela é indispensável à cidade do ponto de vista relacional, tal como realça o geógrafo Jailson de Souza e Silva, ao afirmar que não existe cidade sem favela, uma vez que ela é fundamental para garantir a própria identidade do Rio. Ainda assim, ela é silenciosa. O seu discurso é o discurso dos outros – dos media, do Estado, da polícia militar e agora das UPP’s. Quando Eduardo Granja Coutinho cita Humpty Dumpty, ele fá-lo porque não importa (...) a verdade contida na fala histórica de um grupo social subalterno, mas sim quem tem o «monopólio da fala» ou, em termos gramscianos, quem dispõe dos aparelhos de hegemonia. Em todas as pólis deste mundo existem territórios à margem dos discursos correntes, sem voz para fazer parte da construção da história e sem voz para lutar contra a forma como nela são incluídos. Essa voz, que pode ser materializada através de diversos instrumentos comunicacionais, dá a uma parte da sociedade a possibilidade de construir e dar a conhecer a sua própria estética: o olhar dirigido a si próprio que escapa ao gueto social ao qual foi confinado e que se opõe ao olhar exterior que tem marcado a documentação social desde as suas origens. O combate ao crime organizado

é uma pequena parte da problemática em torno das favelas. Silenciar os restantes desafios que se impõem à cidade do Rio de Janeiro e às suas instituições é perpetuar o silêncio dos seus habitantes, cujo poder de expressão e de reivindicação se mantêm muito aquém daquilo que se defende no palavrão da Cidadania. Esses poderes precisam de ser conquistados, e às vezes roubados, aos detentores do monopólio da fala – só aí se assiste a um verdadeiro processo de desenvolvimento urbano. Sandra Coelho Jornalista

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EM 2016 NÃO EXISTIRÃO FAVELAS, APENAS GUETOS

2012 SET

NR 26

Na vazante 07



Jornal o sul nº26 Setembro