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TEMPUS FUGIT AMOR MANET


edição: Edições

Parténon® Fugit Amor Manet – Na pressa dos dias triunfa a paixão autor: André Pinto Bessa título: Tempus

capa:

Patrícia Andrade Paulo S. Resende revisão: Patrícia Espinha paginação:

1.ª edição Lisboa, outubro 2016 isbn:

978­‑989-8845-04-7 413441/16

depósito legal:

© André Pinto Bessa O autor escreve de acordo com a antiga ortografia. publicação

www.sitiodolivro.pt


André Pinto Bessa

TEMPUS FUGIT AMOR MANET Na pressa dos dias triunfa a paixão


ร€ memรณria de Antรณnio Marta


AGRADECIMENTOS Quero exprimir a minha gratidão a todos os que tiveram a paciência de ler o manuscrito, o comentar ou criticar. Devo um especial agradecimento a René Souto, João Pais, Ana Pedro Nunes, Nucha Martinha, Isabel Lopes da Silva, João Cília, Vasco Branco, João Filipe Paço d’Arcos, José Honorato Ferreira e João Pinto Bessa pelas inúmeras sugestões e muitas críticas que contribuíram para melhorar o texto. Aos Doutores José Dinis Saraiva, Vítor Sá Vieira e Luís Moura de Oliveira, estou reconhecido pelos conselhos técnicos e de nomenclatura médica para além dos muitos comentários pertinentes que tiveram a amabilidade de fazer. A todos estou imensamente grato. Incorrecções que possam ser encontradas neste livro são da minha exclusiva responsabilidade. António Marta leu este manuscrito e como era seu hábito enviou-me um texto com um sem número de comentários. Reli agora esse texto. Terminava como sempre com um generoso elogio, que sempre levei à conta da nossa amizade de quase quarenta anos. Aqui fica a minha sentida homenagem a essa amizade e a uma das pessoas mais íntegras, solidárias e divertidas que conheci.


NOTA DO AUTOR Caro Leitor, Neste livro proponho-lhe uma viagem através das crises, das dificuldades de relacionamento, dos sucessos, das angústias, das alegrias e das tristezas que fazem parte da vida. Álvaro Soares Lima, um cardiologista de renome, e sua mulher, Gabriela, uma cientista, personagens centrais deste romance, enfrentam na sua vida profissional e afectiva os desafios, os dilemas, as tentações e as inseguranças que todos experimentamos ao longo da vida. Cada um sofre com as desgraças e se alegra com os sucessos à sua maneira. Cada um vê a vida por um prisma diferente. Com eles atravessamos as tribulações na relação do casal entre si e com os seus três filhos. Acompanhamos também algumas épocas marcantes da nossa vida colectiva: as eleições presidenciais de 1958, as reformas políticas dos anos 30, o 25 de Abril de 1974 e os anos que se seguiram, o início dos anos 60 e a presidência de John F. Kennedy nos Estados Unidos. E os anos, menos interessantes mas não menos marcantes, da recente crise financeira. O leitor é convidado a equacionar e tentar descobrir um mistério que cedo se percebe existir no seio desta família. Não se trata de um mistério policial, de espionagem ou outro de tipo clássico. Não. Aqui estamos perante um mistério 11


diferente. Daqueles que frequentemente afectam os casais e as famílias – muitas vezes com raízes inconsequentes e por razões absurdas – e que condicionam o ambiente da casa, a educação e o desenvolvimento dos filhos, ameaçando a felicidade de todos. Álvaro fez toda a sua carreira médica nos hospitais do Estado e gosta de reflectir sobre a evolução do exercício da sua profissão. Colaborou na criação do Serviço Nacional de Saúde, de que é um defensor acérrimo, sempre muito preocupado com a equidade e a justiça social. Oferece-nos várias pistas para uma reflexão sobre a reforma do SNS e a manutenção da sua qualidade e sustentabilidade a longo prazo. A importância do perdão, as nossas fraquezas, hesitações e incoerências, a necessidade de permanentemente nos reinventarmos e de avaliarmos as nossas acções em função do impacto nos outros são os temas centrais do romance. No fim, só fica o bem que fazemos à nossa volta. Resta-me desejar-lhe uma boa leitura, esperando que se divirta nesta viagem no tempo que atravessa épocas de ouro e também tempos mais difíceis das últimas décadas, tanto em Portugal como nos Estados Unidos. Lisboa, Julho de 2016 o autor

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Buscar, querer, amar…

Perder, sofrer, chorar, vez após vez… fernando pessoa


PRÓLOGO Tempo de angústia

Lisboa, Dezembro de 2015 Lá fora a chuva, que caíra em abundância durante todo o dia e noite, parara finalmente. Marina remexia nervosamente o conteúdo da carteira, olhando de vez em quando para a porta da sala, na expectativa de ver alguém entrar. Tinha a certeza de que o colocara dentro da carteira logo que desligou, mas com o ruído ensurdecedor da ambulância não sabia ao certo. Mal conseguira explicar a situação. Não se lembrava de ter voltado a pegar no telemóvel, mas agora precisava desesperadamente de o encontrar e não conseguia. Será que o tinha deixado na ambulância? Pela quarta vez, voltou a despejar o conteúdo da carteira no velho sofá de napa da sala de espera. Abriu os fechos das duas bolsas interiores onde geralmente guardava as chaves. Ambos vazios. Claro. As chaves já estavam no sofá. Ouviu mais uma vez vozes e passos no corredor e virou-se para a porta, mas ninguém entrou e os passos tornaram-se cada vez mais longínquos. Em desespero, voltou a meter tudo na carteira. Lá fora, a luz do luar iluminava o pequeno relvado que separava o edifício do arruamento. Não se via nem ouvia vivalma. Deu 15


alguns passos na sala vazia na esperança de ter uma inspiração quanto ao paradeiro do telemóvel. O vidro escuro da máquina automática de venda de sumos reflectia a sua imagem. Olhou com indiferença o espelho improvisado. O seu aspecto era terrível. Automaticamente ajeitou o cabelo curto com as mãos. Meia hora antes dormia profundamente. A campainha estridente do telemóvel tocou na mesa-de-cabeceira. Há já muito tempo que dormia com ele ligado durante a noite e o volume da campainha muitos decibéis acima do normal. Alzira, a enfermeira da mãe, tinha instruções para ligar ao mais pequeno problema, por mais insignificante que lhe parecesse. Precisamente por isso Marina insistira tanto com os pais para se mudarem para um andar no seu prédio. – Desculpe acordá-la, Doutora. – disse Alzira nessa madrugada por volta das duas horas. – Sim, sim, o que se passa? – perguntou Marina imediatamente desperta pela adrenalina do susto. – É o Senhor Doutor. Chamou-me há uma hora e pediu-me água. Disse que se sentia enjoado. Alguma coisa que comera de tarde. Não me disse o quê. Levei-lhe uma água com gás. Depois de tomá-la disse que se sentia melhor. Mas agora voltou a chamar-me e diz que se sente tonto e com um peso no peito que lhe custa respirar. A Doutora venha depressa, eu já chamei o INEM. Marina enfiou uma saia e uma camisa, calçou os sapatos, sem meias, já no patamar. Três minutos depois entrava em casa dos pais. Deu com Alzira apavorada. – Acho que perdeu os sentidos. Voltei lá depois de falar consigo e não me respondeu. – disse, enquanto seguia atrás de Marina pelo corredor a caminho do quarto do pai. Álvaro Soares Lima parecia dormir mas respirava com dificuldade. 16


– Pai! Pai! Sou eu. Mas a resposta não se fez ouvir. Nem correspondeu com um abrir de olhos. Marina chamou-o mais uma vez, fez-lhe uma festa e deu-lhe um beijo na testa que achou muito fria. Os paramédicos do INEM entraram nesse momento. Com precisão e segurança começaram a retirar das maletas o seu equipamento enquanto pediam a Marina e Alzira que saíssem por momentos. – Só por uns instantes. Nós já chamamos. Com presença de espírito, Marina dirigiu-se à sala e imediatamente ligou a João enquanto mandava Alzira ao quarto de Gabriela, sua mãe, ver se estava bem. Durante o telefonema para o João, ouviu rebuliço no quarto do pai. Pouco depois, o médico do INEM veio ao seu encontro – Temos que levá-lo já para o hospital. O seu estado é grave. Marina passou-lhe o auscultador dizendo: – É o médico dele, explique-lhe por favor. O médico do INEM pegou no aparelho e disse: – O doente teve uma paragem cardíaca mas conseguimos reanimá-lo e vamos levá-lo para a Urgência do hospital… Pouco depois, Marina estava na ambulância sentada ao lado do pai ainda inconsciente. A ansiedade, o ruído da sirene, os solavancos da correria desenfreada da ambulância, debaixo de forte chuvada, pelas ruas de Lisboa, desertas àquela hora, e o cheiro a medicamentos provocaram-lhe uma sensação de mal-estar físico. Lá arranjou forças para ligar de novo a João para lhe dar a sua localização e previsão de chegada. Já no hospital, a equipa médica previamente alertada pelo Doutor João Vale, conduziu de imediato o doente para a sala de observação e Marina para a pequena sala de espera. Uma 17


médica de trinta e poucos anos que Marina recordava vagamente veio dizer-lhe: – O Doutor João ligou-me. Já vem a caminho e depois vem falar consigo. Marina agradeceu enquanto procurava na carteira o telemóvel para ligar a Ana. Felizmente, conseguira apanhar João. Não sabe o que faria sem ele. Não que outros médicos da equipa não fossem competentes, mas tinham muito menos experiência. Depois de esvaziar pela terceira vez o conteúdo da carteira, está prestes a desistir. Vai dirigir-se ao corredor para procurar um telefone fixo. Ao meter as mãos nos bolsos da gabardina que enfiara à pressa, encontra finalmente o aparelho tão procurado. É evidente, colocara-o no bolso ao desligar o telefonema para o João porque a carteira não estava ao seu alcance. Rapidamente faz a ligação e logo que uma voz ensonada atende do outro lado, Marina diz: – Ana, sou eu. O pai teve um ataque de coração. Estou no hospital com ele e o João deve estar a chegar. Levaram o pai mas ainda não vieram dizer-me nada. Foi a Alzira que me ligou há uma meia hora, talvez. Disse que ele se queixava de enjoo e dores no peito. Chamou logo a ambulância e eu desci a correr, mas quando lá cheguei já o encontrei inconsciente. Felizmente o INEM chegou logo e conseguiram reanimá-lo. Pelo que me disse o médico, parece-me grave. – E ele continuava inconsciente durante o trajecto? – Sim, sim, não recuperou a consciência. Chamei-o várias vezes, segurei-lhe a mão, falei-lhe ao ouvido e nada. Respirava como se estivesse a dormir mas não dava qualquer sinal de resposta. Podes vir cá? Estou na sala de espera do primeiro andar ao lado do Recobro. – Sim, eu vou para aí. Ligo-te quando chegar. 18


Depois de desligar a chamada para a irmã mais nova, Marina marcou novo número e aguardou segundos que lhe pareceram horas. – Alzira. Sou eu. A mãe deu por alguma coisa? – Não. Continua a dormir profundamente. E como está o Senhor Doutor? – Ainda não sei nada. Continuava inconsciente quando chegámos. Agora estou à espera que o Doutor João chegue. Depois ligo-lhe a dizer o que se passa. Desliga e começa a preparar-se para o telefonema seguinte. Apetece-lhe esperar por Ana e deixar que seja ela a ligar ao irmão em Londres. Ouve entretanto passos no corredor e volta a colocar o telemóvel no bolso da gabardina. Os passos aproximam-se da porta e Marina olha insistentemente na esperança de ver João entrar. Porém os passos continuam e tornam-se longínquos até desaparecerem. Volta a pegar no telefone mas não marca o número de imediato. Tenta ensaiar mentalmente o que vai dizer. Sabe que estará a dormir e em qualquer caso tanto faz ligar já como daí a meia hora. Pedro é tão crítico que logo lhe apontará um qualquer erro. Marina não consegue lembrar-se de algo que tenha feito mal ou de que se tenha esquecido, mas certamente Pedro irá descobrir. Não se vêem há mais de seis meses e pouco têm falado por telefone. Tornou-se uma pessoa diferente desde que foi viver para Londres e sobretudo depois de casar. Mais frio e distante, sempre muito crítico de tudo o que não seja, aos seus olhos, perfeito. Ouve novamente passos no corredor. João não pode ser, pois são passos de mulher. Dirige-se para a porta e vê a médica que a recebera uns minutos antes. É uma rapariga nova mas que inspira segurança. Marina tenta em vão lembrar-se do nome dela. 19


– O seu pai está agora estabilizado. Teve um enfarte do miocárdio provocado por um bloqueio coronário. Não foi muito severo mas há uma complicação. O Doutor João está a chegar com o resto da equipa cirúrgica. Ele, depois de fazer a avaliação, vem falar consigo. A médica retirou-se e Marina concentrou-se de novo no telefonema para o irmão. Para Pedro todos fazem tudo mal feito, a não ser a mãe, que é o seu ídolo. Marina foi sempre o alvo das suas críticas mais severas. Ela sempre sentiu isso, até nas coisas mais pequenas. Pedro tem menos oito anos do que ela mas nunca a tratou com o “respeito” de uma irmã mais velha. Com ela nunca desenvolveu uma relação verdadeiramente afectiva. Era mais uma relação logística e de vizinhança. Já com Ana, Pedro tem uma maior proximidade afectiva. É um dos seus protectores e confidente. Mas a inversa não é verdadeira. Raramente Pedro tem confidências com alguém. Quando a doença de Gabriela se declarou e ela deixou de poder atender aos problemas de Ana, esta transferiu para Pedro e Marina essa relação de protecção. Talvez fosse melhor esperar por Ana e deixar que fosse ela a dar a notícia ao Pedro, pensou Marina. Mas logo afastou a ideia, devia ser ela a dar-lhe a notícia. Decidida, Marina marca o número do irmão. Segue-se a espera, o toque ritmado, diferente do nosso, até que a voz ensonada de June atende do outro lado. Marina desculpa-se pela hora imprópria e, sem dar muitos pormenores sobre a emergência, espera que a cunhada acorde o irmão. Quando, finalmente, Pedro vem ao telefone, Marina diz-lhe: – Pedro, estou com o pai na Urgência do hospital. Teve um ataque há meia hora. Felizmente a Alzira ligou-me logo, desci de imediato e ela já tinha chamado a ambulância quando cheguei. Foi tudo rápido. Ele teve uma paragem cardíaca mas os médicos do INEM chegaram logo e conseguiram 20


reanimá-lo. Da ambulância liguei ao João que deve estar agora a observá-lo. – E quanto tempo esteve em paragem? – Não sei, esteve sempre inconsciente. Mas em paragem não sei porque eu não estava no quarto, estava lá o médico do INEM. Mas não pode ter sido mais do que poucos minutos. Talvez uns dois minutos, mas ao certo, não sei dizer-te. – Sim, mas isso é muito importante, pois pode ter deixado sequelas sérias. – Claro, mas nessa altura já lá estava a equipa do INEM a controlar a situação. – Então pergunta-lhes. É importante sabermos. E é importante que o João tenha essa informação. E, Marina, tem calma que tudo vai correr bem. Ele não podia estar em melhores mãos e tu fizeste o melhor que podias. Telefona-me logo que tenhas mais informação. Vou tentar desmarcar as reuniões de amanhã e apanhar um voo de manhã. Mas entretanto vamos falando. A Ana está contigo? – Já a chamei. Deve estar a chegar. – Tenta desdramatizar para não a assustar. Quando falares com os médicos fá-lo longe dela. Sabes como ela é. Diz-me logo que saibas qualquer coisa. Vou ficar com o telemóvel ligado. Marina passeava na pequena sala enquanto falava com o irmão. Quando desligou, encostou-se à janela, indiferente à vista da cidade e do rio, àquela hora quase sem movimento. Recordava a primeira vez que o pai a trouxera ao hospital. Não teria mais de cinco ou seis anos. Tudo tinha mudado desde então. Mas o ambiente, o cheiro, o ar atarefado dos médicos e das enfermeiras, esse mantinha-se inalterado. Tomou nesse dia a decisão de ser enfermeira. Decisão que nunca viria a concretizar. Talvez tivesse sido melhor 21


para si. Teria sido mais feliz e sentir-se-ia agora mais realizada? Ajudar os outros no sofrimento, como forma de vida. Que melhor profissão para si? Afinal não era isso que acabava a fazer? A mãe, o pai, a Ana. As filhas. Até o João! Todos dependiam de si. Se tivesse feito o curso, pelo menos teria preparação adequada. Entregue a estes pensamentos, Marina olhava distraidamente a cidade adormecida sem reparar que alguém entrara na sala. Só quando ouviu a voz de João, Marina “regressou à Terra”. João Vale não era uma figura imponente. Pouco mais alto do que Marina, franzino, com o cabelo arruivado e encaracolado, a pele ligeiramente sardenta, parecia mais uma criança do que um adulto. Se não fossem os cabelos brancos que começavam a despontar, ninguém diria tratar-se de um dos mais prestigiados cirurgiões cardiotorácicos do país. Trabalhou com Álvaro Lima no Serviço de Cardiologia daquele hospital durante mais de quinze anos, deixando um rasto de simpatia e reconhecimento profissional. A sua voz grave, a dicção clara e pausada, os gestos determinados transmitem aos doentes e aos outros médicos e enfermeiros a segurança que a aparência de adolescente irrequieto não inspiraria. Abraçaram-se por momentos. Depois, João colocando paternalmente as mãos nos ombros dela, quebrou o silêncio: – Marina, não te escondo que é grave. Tens de ter força e coragem. Não sei se vamos conseguir ganhar mais esta batalha, mas vamos fazer tudo o que for humanamente possível. Ele vai já para o bloco. Já mandei para lá o anestesista e o resto da equipa. E tenho de ir juntar-me a eles dentro de momentos. Teve um enfarte devido uma obstrução coronária, complicado por ruptura do septo e comunicação interventricular. Se não fosse isso resolvia-se com um procedimento simples, assim necessita de uma intervenção cirúrgica. Estou a ser 22


completamente franco contigo, não te escondo nada. Não é um caso desesperado, há muitos casos destes que se resolvem bem, no entanto, é uma cirurgia de risco. Já o estabilizámos e vamos operar imediatamente. Se quiseres podes vê-lo agora. – Quero, claro. A paragem cardíaca que ele teve em casa pode ter deixado lesões? Marina caminhava apressadamente ao lado de João pelo corredor que tantas vezes percorrera ao lado do pai. – Segundo o relatório do INEM, foi pouco tempo. É pouco provável, mas alguma coisa deixa sempre. Neste momento essa é última das nossas preocupações. Até porque já nada se pode fazer. O problema principal é outro. We’ll cross that bridge when we get there. Álvaro Lima, deitado na maca, na antecâmara da sala de operações, com um aspecto terrível, palidez extrema, lábios descoloridos e olheiras fundas, respirava irregularmente e com visível esforço. O anestesista acabara de entubá-lo e começava a administrar a anestesia. Abriu mecanicamente os olhos ao ouvir a voz de Marina. Ela beijou-o na testa: – Não se preocupe pai, vai tudo correr bem. Daqui a pouco estará como novo. Para logo voltar a fechá-los sem dar qualquer sinal de reconhecimento. Com os olhos rasos de lágrimas, Marina regressou à sala de espera. Apesar das más notícias, sentia-se agora menos ansiosa. A confiança de João era contagiosa. O olhar profundo e a precisão dos seus diagnósticos tinham um efeito tranquilizador. Era daquelas pessoas que se percebe que são absolutamente senhores da situação qualquer que seja a sua gravidade e que, se ele não resolver o problema, ninguém o resolverá. Isso sempre fora para Marina o que mais a seduzia nele. Só podia ser médico. Em qualquer outra profissão esse dom, essa capacidade de mostrar-se absolutamente seguro 23


de como agir seria desperdiçada. Fora também isso e a inteligência de João que levou Álvaro Lima a escolhê-lo, uns vinte anos antes, para a sua equipa de Cardiologia. Agora, entre a vida e a morte, estava nas mãos do seu delfim. Marina ainda se lembrava da primeira vez que vira João. Estava prestes a acabar o curso e fora com o pai ao hospital, numa tarde de Sábado, para ele ver um doente que operara na véspera. João era então muito menos maduro, mas já irradiava esta sedutora segurança que Marina nunca tinha encontrado em qualquer rapaz da sua idade. Ana entrou de rompante na sala, interrompendo a viagem de Marina ao passado. O seu cabelo curto, em desalinho, a cara ainda marcada pela almofada e os olhos injectados de choro davam-lhe um aspecto demasiado carregado para a sua idade. Mas a verdade é que Ana perdera há muito a frescura da juventude. As noitadas, o tabaco, o álcool, os calmantes e ansiolíticos, além de outras substâncias não menos nocivas, tinham roubado a maciez e brancura da sua pele. Apesar disso era uma mulher bonita, mais alta e mais bem-feita do que Marina. Adoptava um estilo de mulher fatal, vestia-se de forma provocante e exagerava na pintura. Ninguém diria que tinha menos doze anos do que a irmã. – Onde é que ele está? – inquiriu sem rodeios. – Neste momento está na sala de operações. Devem estar agora a começar. O João esteve aqui há uns vinte minutos. Fui com ele ver o pai. Abriu os olhos mas não me reconheceu. Já estava a começar o efeito da anestesia. Estava estabilizado mas com uma aparência de enorme cansaço. O João diz que a obstrução das coronárias se resolve, o problema é que houve uma complicação com o septo. Diz que vai repará-lo para repor o coração a bombear razoavelmente. Fica melhor 24


do que estava. No entanto, é uma operação delicada e com risco. Só nos resta esperar, Ana. – Já ligaste ao Pedro? – Sim, falei há pouco. Ficou preocupado, claro. Ainda bem que me lembras, pois tenho de telefonar-lhe a relatar o diagnóstico do João. Depois de relatar ao irmão o diagnóstico de João, Marina preparava-se para desligar quando Ana lhe fez sinal para que lhe passasse o telefone. Marina obedeceu e saiu. – Pedro isto é muito mau. Quando vens? – Daqui a um bocado já ligo a um colega do escritório para me substituir e depois para a TAP. Penso apanhar um voo a meio da manhã. Já vi na net que há um às oito e outro às onze. Não vou conseguir apanhar o das oito mas o outro, sim. Tenho só que assegurar alguém para fazer as reuniões com clientes que estavam marcadas para hoje. Não te preocupes. Pela hora do almoço já aí estou e vais ver que o pai antes disso já está fora de perigo. E tu, como estás? Não te deixes abater que ele é forte e vai vencer mais esta. Daqui a nada já está aí a ralhar-te ou a dar-te o sermão sobre os malefícios do tabaco. Não te preocupes muito. Será o que Deus quiser e de nada nos serve a preocupação. Nada podemos fazer. – Isso é fácil de dizer… – Claro, mas pensa só por quantas crises já passou ele. E não conseguiu ultrapassar todas? Então vai também ultrapassar esta. E a mãe percebeu alguma coisa? É fundamental que não se aperceba sequer da agitação. Diz isso à Alzira. Fazes-me isso, Ana? E podes ir vê-la a meio da manhã? A tua presença acalma-a sempre. Mas tens de aparentar a maior calma e serenidade. Caso contrário, é preferível não ires. Promete-me que fazes isso. 25


– Sim prometo, Pedro. Mas vem depressa. Não consegues um voo mais cedo? – Não. Tenho que esperar pela manhã para falar com as pessoas e assegurar o funcionamento do escritório. Não posso desaparecer pura e simplesmente. Mas são mais umas horas e já aí estou. Se tudo correr bem, à tarde vamos os dois visitar a mãe. Mas não lhe digas nada. Quando Ana desligou o telefone estava mais tranquila. Pedro tinha desde pequeno esse efeito sobre ela. Era das poucas pessoas que tinha o condão de a acalmar de lhe retirar a ansiedade e os medos. Ana dependia progressivamente mais do irmão. O pai era muito austero e severo. Ana sentia que ele nunca a tinha aceitado como ela é. O mesmo acontecia com Marina que era dos três a mais ligada ao pai. Pedro desde muito novo se revelou muito mais forte e maduro do que Ana, e se tornou um pilar de sustentação da sua frágil personalidade. Ana saiu da sala e foi à rua fumar um cigarro. No regresso esperava encontrar Marina mas a sala continuava deserta. Procurou-a nos corredores, percorreu gabinetes, salas de enfermagem, casas de banho. Em vão. Finalmente foi encontrá-la no piso de cima, na capela. Ajoelhou-se a seu lado e ficaram as duas a rezar.

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PARTE I

Tempo dos filhos


Pedro

Álvaro viera depois do jantar para o escritório e pegou logo no seu violoncelo e começou a tocar o quarteto de Beethoven que ensaiava havia várias semanas. Pedro apareceu pouco depois. Sentou-se na cadeira em frente à secretária e em poucas palavras expôs o assunto. Concluído o curso de Direito dois anos antes e, prestes a concluir, nesse ano de 1993, também o estágio da Ordem, queria equacionar o seu futuro. – Pai queria falar consigo. Tenho vindo a pensar que antes de começar a trabalhar devia completar a minha formação com uma pós-graduação no estrangeiro. Consultei várias pessoas, entre as quais o meu patrono e o que todos dizem e o que melhor se ajusta ao que pretendo é um mestrado em Direito dos Negócios, o LLM, de preferência na London School of Economics. O que acha disso? – Acho muito bem. Tu é que sabes. Se me perguntasses sobre Cardiologia ou Medicina em geral dar-te-ia uma opinião mais fundamentada, mas sobre Direito deves confiar mais na opinião do teu patrono ou dos professores. Por mim, acho que fazes bem em ir estudar para fora. Dou-te todo o apoio. De que precisas Pedro? – Em rigor julgo que apenas da sua opinião. Fui aceite na LSE para o próximo ano lectivo e concorri a uma bolsa do British Council que já foi aprovada. Cobre as propinas e as despesas de alojamento. Por isso, acho que materialmente 29


estou bem. Ficarei apenas com as despesas de alimentação e transportes, se o Pai quiser financiá-las, agradeço. Mas nem sei se será necessário. Só depois de lá estar verei se a bolsa é suficiente. – Como sempre, pensaste em tudo, tens as opções bem equacionadas e até já tens as decisões da universidade e da bolsa. Parabéns. É só o que posso dizer-te. E sabes que podes contar comigo para te apoiar. Gabriela reagiu mal à ideia desde o primeiro dia. Porém nunca pensou que o seu filho viesse a concretizar o projecto. Tentou dissuadi-lo demonstrando que podia fazer a pós-graduação numa universidade portuguesa. Mas Pedro estava já firmemente decidido a ir para fora e não se deixou influenciar. Uns anos antes a simples pressão da mãe teria sido suficiente para ele reconsiderar, mas essa fase passara. Gabriela mantivera uma relação muito próxima com o filho até aos dezoito anos. Em criança, Pedro foi o centro exclusivo das atenções da mãe. Nessa época a sua vontade de agradar-lhe levava-o a acatar todas as suas orientações. Bastava perceber que uma coisa desagradava a Gabriela para imediatamente desistir. Se fosse um amigo de quem Gabriela não gostava, bastava um comentário dela para o amigo deixar de ser visto. Se estivesse a ler um livro que a mãe criticasse, o livro voltava para a estante. Quando começaram a aparecer as amigas foi o mesmo, Gabriela aniquilava as candidatas de que não gostasse apenas com uma frase. Álvaro assistia a tudo mas abstinha-se de intervir. Gostava que o filho tivesse mais espaço. Era óptimo aluno, gostava de desporto e era popular entre os amigos e amigas. A tutela asfixiante da mãe arriscava condicionar o seu desenvolvimento intelectual e afectivo. De início, várias vezes Álvaro tentou que Gabriela tivesse consciência das consequências de uma relação 30


tão absorvente mas nunca teve sucesso. Ela acabava acusando Álvaro de desinteresse pelo filho, de apenas gostar de Marina e de ter ciúmes do próprio filho, o que apelidava de uma “atitude doentia”. Essas conversas corriam sempre mal, convertendo-se em enormes discussões. Até que Álvaro, apesar de contrariado, desistiu por completo de abordar o assunto. Com Marina era diferente, ela desde criança acompanhava Álvaro para todo o lado, sobretudo aos fins-de-semana. Fosse para ir simplesmente comprar os jornais, ir ao barbeiro, ao cinema ou ver uma exposição. Nem era preciso Álvaro perguntar, era ela a primeira a oferecer-se. E nunca se aborrecia, mesmo que passasse longas horas no hospital brincando ou fazendo desenhos no gabinete de Álvaro enquanto ele via doentes ou operava no bloco. Pelo contrário, Pedro em criança preferia geralmente ficar em casa com a mãe, evitando a companhia do pai. Cavou-se assim um fosso entre ambos. Até que Ana nasceu e as coisas começaram gradualmente a mudar. De início, dividia com a recém-chegada irmã a atenção e o tempo da mãe e continuava muito chegado a Gabriela. Mas, pouco a pouco, foi-se afastando. Depois de entrar para a faculdade Pedro passava a maior parte do seu tempo fora de casa, estudando em casa de amigos ou em casa de namoradas. Estas sucediam-se a ritmo acelerado. Era alto e tinha bom ar e o seu sucesso no sector feminino era enorme. Gabriela, apesar de muito mais concentrada em Ana, tentava sempre que podia, interferir. Considerava-o muito ingénuo e dizia que se rodeava de raparigas muito sabidas. Também no plano intelectual, Gabriela deixou de ter sobre o filho a influência quase absoluta de outros tempos. Continuava a debater ideias com ela, a ouvir as suas opiniões 31


mas passou a fazê-lo com sentido crítico e as ideias mais radicais de Gabriela já não o seduziam. Falavam de cinema, de literatura, de pintura e até de política, mas em todos os domínios Pedro era bem mais conservador do que a mãe. Gabriela era incapaz de aceitar que a partir de certa idade os filhos fazem as suas próprias opções e formam o seu pensamento numa plataforma que não é necessariamente a mesma dos pais. Os valores, esses ficam, mas as ideias não. Como achava que Pedro tinha uma estrutura mental mais próxima de Álvaro, convenceu-se de que ele tinha condicionado o desenvolvimento intelectual do filho para o retirar da sua órbita de influência. Porém passara-se exactamente o contrário. Álvaro, por falta de tempo e por Gabriela ter monopolizado o filho, perdera muito do natural convívio e até alguma intimidade com ele e fora a excessiva doutrinação de Gabriela e a sistemática ingerência na sua vida que levaram Pedro a ter um olhar mais crítico em relação às ideias dela. Também o convívio com os pais dos amigos lhe mostrou outras formas de pensar, de encarar a vida e outro tipo de relacionamento entre pais e filhos. Por essa altura já o afastamento do pai era considerável, impedindo-o de ter uma relação semelhante à que via entre muitos dos seus amigos e os pais. Foi pouco tempo antes de Pedro acabar o curso que a tensão emocional entre Gabriela e Álvaro atingiu o seu apogeu. Entretanto Marina casara, a casa ficou mais vazia e o ambiente mais triste, levando Pedro a procurar outros ares mais distendidos. Não porque os pais discutissem mas porque praticamente não se falavam, e quando o faziam era por meio de monossílabos sem sequer se olharem. O ambiente era tão tenso e o mal-estar entre os dois tão evidente que afectou a vida social de Álvaro e Gabriela. Um a um os amigos afastaram-se, invocando outros compromissos, 32


e os convites eram recusados cada vez mais, até que deixaram de os fazer. Ficaram apenas Jorge e Maria do Carmo Soares. Álvaro e Gabriela passaram a dormir em quartos separados, passando Ana a dormir no que fora antes o quarto de Marina. Gabriela inicialmente opôs-se, mais por a ideia ser dele do que por outra razão, mas acabou por reconhecer para si que fora uma medida acertada. Não era possível, continuar a partilhar o mesmo espaço e, muito menos, a mesma cama. Ela percebeu também que, dispondo do quarto só para si, era mais fácil ficar conversando à noite com Ana que vinha ver televisão para o quarto da mãe até altas horas. Ana sempre fora muito próxima de Gabriela e não era capaz de dar um passo sem a sua aprovação. Desde muito cedo se revelou uma criança insegura, sobretudo a partir da adolescência, e a dependência de Gabriela foi-se acentuando. Ana trazia com frequência amigas para casa. Almoçavam, passavam a tarde e, por vezes, ficavam para jantar ou para dormir. No entanto, raramente se cruzavam com Álvaro e não se apercebiam do clima de tensão existente. Praticamente só viam Gabriela que as enchia de atenções e lhes dedicava toda a atenção. Elas achavam-na deslumbrante e um modelo de mãe e mulher, simultaneamente inteligente e bonita.

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Poucas semanas depois de Pedro ter comunicado a sua decisão de ir estudar para Londres, procurou de novo o pai. Foi ao fim da manhã ao hospital e esperou que Álvaro terminasse a ronda dos doentes. 33


– Podemos falar agora ou o pai prefere que vá ao consultório logo à tarde? – Como quiseres. Agora tenho tempo. Se me deres um quarto de hora para terminar aqui o trabalho podemos ir almoçar. É só o tempo de ver a papelada. Depois só tenho consultas às quatro o que nos dá muito tempo. Meia hora mais tarde, o Alfa Romeo rumava ao restaurante favorito de Álvaro junto ao Tejo. Álvaro conduzia devagar enquanto falava do hospital e dos cuidados com o coração que a maioria dos portugueses negligenciava e causavam grande parte das mortes. Chegados ao restaurante, foram encaminhados para a mesa preferida do médico que logo escolheu o almoço sem consultar a lista. Foi Pedro o primeiro a falar: – Queria dizer-lhe que já recebi a confirmação da bolsa e da aceitação da universidade. Julgo que essa já tinha quando falámos da última vez. A novidade é a bolsa. Apesar de não ser das mais baixas, dificilmente cobrirá todas as despesas. Como o pai se ofereceu para me ajudar, venho dizer-lhe que aceito. O que penso que me fica a faltar é para as despesas do dia-a-dia. Se o pai concordar, dava-me um adiantamento para dois meses quando eu partir. Ao fim desse tempo já terei uma ideia de quanto vou precisar e então acertaremos um valor mensal. – Diz-me quanto queres que te transfira como adiantamento e quando precisas dele. Já sabes que te ajudo em tudo o que precisares. Só tens de dizer e, desde que eu possa, é com muito gosto que o faço. – Obrigado, pai. Eu sei, mas não quero pesar. Já tenho o curso e queria a partir de agora tornar-me totalmente independente. Só não consigo devido ao facto de a bolsa ser apertada. Dizem que isto é política do British Council que não gosta que os estudantes estrangeiros vivam muito folgados. 34


Dizem que têm vários estudos que demonstram que os alunos mais folgados obtêm os piores resultados e que orçamentos “curtos” obrigam a mais concentração nos estudos. Citaram vários casos, desde os estudantes oriundos da Argentina nos anos cinquenta até aos árabes na actualidade. Seja como for, eu consigo viver com pouco dinheiro cá e também conseguirei lá. – Isso eu sei sobejamente. Mas não exageres. E quando pensas partir? – Em Agosto. Duas semanas antes do começo do curso para ter tempo para tratar da instalação e conhecer um pouco Londres e o campus. O empregado chegara entretanto com os pratos interrompendo a conversa. Quando se retirou, Pedro retomou: – Mas queria também falar-lhe de outro assunto. A mãe já conhece esta minha decisão e não concorda. Inicialmente tentou demover-me mas percebeu que era inútil e julgo que agora já se habituou à ideia e conseguiu aceitá-la. Mas tem ainda momentos de fraqueza. Sabe como ela é, não quer reconhecer que é por ela, diz-me que é por julgar que não é o melhor para mim. Nessas ocasiões, tem os olhos encovados e encarnados de quem passou a noite sem dormir, provavelmente a chorar. Custa-me muito vê-la assim mas nada posso fazer, pois esta oportunidade é única. A Ana pouco vê para além dos seus próprios problemas e a Marina tem a vida dela, que lhe deixa pouco tempo. Mas consigo é diferente. O pai vive lá em casa, mesmo com as exigências do seu trabalho, vêem-se todos os dias, pode dar-lhe uma ajuda. Basta uma palavra ou uma atenção, por vezes, para a pessoa se sentir melhor. Eu não sei o que se passa convosco e não é da minha conta. Por isso nunca lhe falei, nem à mãe, neste assunto. Mas ainda me lembro, ainda nos lembramos, 35


sobretudo a Marina e eu, como era a vida e o ambiente lá em casa. A alegria e o entendimento, a cumplicidade que existia entre os pais. Agora só se sente gelo, hostilidade e uma tensão quase física… Não percebo como tudo se estragou de repente. Não quero explicações que não me devem. É um assunto só vosso. Queria apenas pedir-lhe que prestasse um pouco mais de atenção à mãe, pois fica muito só. Ela tem o seu trabalho mas já não a preenche como antigamente e a Ana passa agora a maior parte do tempo fora de casa. Já não é a sua companhia permanente… – Desculpa interromper-te, Pedro. Tudo o que dizes é verdade e sensato. Não te escondo que a situação é tão confrangedora para vocês como é para mim. Aliás é pior para mim, pois vocês têm cada vez mais as vossas vidas. O que se passa entre os pais pouco vos afectará no futuro. Fiz tudo o que pude para evitar a deterioração do ambiente afectivo. Para que houvesse um mínimo de estabilidade e quando, um dia mais tarde se recordassem da vossa adolescência e juventude, tivessem recordações agradáveis. Aparentemente não foi suficiente. – Não é meu propósito julgar ninguém. Mesmo que tenha uma noção de alguns erros, não tenho o quadro completo. O que queria era apenas chamar a atenção do pai para estar mais atento à mãe após a minha partida. Terminado o almoço, Álvaro deixou o filho na Baixa e seguiu para o consultório. Enquanto esperava que o semáforo abrisse, ficou a vê-lo afastar-se, alto e musculado, com o cabelo castanho encaracolado que agora usava mais curto. Andava com a segurança e determinação que punha em tudo o que fazia. Esta fora, até então, a conversa mais íntima que tivera com ele e ficava satisfeito por verificar que a distância entre os dois não era feita de ressentimento ou de azedume. 36


Pedro deteve-se por momentos junto à montra da ourivesaria. Beijou a rapariga que o esperava e partiram abraçados. Ela, mais baixa do que ele, agarrou-se à cintura de Pedro enquanto ele lhe colocava paternalmente o braço sobre os ombros. Álvaro sentiu um misto de satisfação e inveja do filho, vendo-os assim misturarem-se na multidão que àquela hora enchia a Rua do Ouro. Foi a buzinadela do automóvel atrás de si que o fez despertar desta contemplação. Com a mão pediu desculpa ao motorista apressado e arrancou a toda a velocidade. Conhecia bem a rapariga que acompanhava o filho; tinham sido colegas no secundário e Patrícia fora já em tempos namorada de Pedro, ainda antes do assalto, numa época em que os amigos de Pedro ficavam frequentemente para jantar. Não era muito bonita mas tinha vivacidade e um olhar muito expressivo. Gabriela não engraçava com ela, considerava-a muito sabida e não lhe inspirava confiança. Os pais dela eram ambos advogados conhecidos, envolvidos em vários casos mediáticos. Gabriela dizia que ela era fútil e tinha pouco enquadramento familiar pois os pais eram yuppies que estavam sempre a trabalhar. Gabriela não deve sonhar que ele anda outra vez com a Patrícia, pensou Álvaro.

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Uma família inglesa

Em meados de Agosto, numa tarde de muito calor, Álvaro e Marina despedem-se de Pedro no aeroporto. Com eles apenas Patrícia, a namorada de Pedro. Ana partira na véspera para Moledo e Gabriela optara por despedir-se do filho em casa. A história da animosidade entre Patrícia e Gabriela era antiga, vinha do tempo em que Pedro a começara a namorar quando ainda estavam no ensino secundário. Logo que Pedro entra para a sala de embarque, Marina e Álvaro retiram-se. No carro, Marina é a primeira a falar: – Estou preocupada com a mãe. Anda muito tensa e desatenta. Mais de uma vez faltou a encontros que tínhamos combinado. Foi ela a pedir, eu alterei a minha vida e depois ela não aparece. – Nos últimos meses, tem andado nervosa com a partida do Pedro e também com problemas no Instituto. Este projecto é um grande desafio para ela. Anda tensa e, como não é o género de partilhar, mete tudo para dentro… Duas semanas mais tarde, Gabriela partia para Londres “para ajudar o Pedro a instalar-se” e por lá ficou uma semana. No Harrod’s comprou-lhe tudo o que ele precisava para o pequeno apartamento que partilhava com dois colegas, roupas de casa, loiças, candeeiros, máquina de café, etc. Antes de regressar, deixou o frigorífico recheado e no ar inúmeras insinuações sobre Patrícia, algumas pouco subtis. Pedro fingia 39


não perceber, o que fez Gabriela regressar a Lisboa mais nervosa do que partira e também mais determinada a afastar Patrícia de uma vez por todas. A ideia foi-lhe dada involuntariamente por Ana quando relatava uma festa onde encontrara Patrícia com um grupo de amigos. Gabriela conseguiu o nome do fotógrafo que fizera a reportagem da festa e escolheu algumas que lhe pareceram comprometedoras. Depois mandou Ana enviar essas fotografias ao irmão e exagerar o que vira. Nos meses seguintes Gabriela visitou com frequência o filho, sem que ele verdadeiramente o necessitasse. Numa dessas visitas, ele contou-lhe que tinha uma nova namorada, uma inglesa que conhecera na universidade. Pedro terminou o mestrado e Gabriela, Álvaro, Ana e Marina deslocaram-se a Londres para a cerimónia de entrega dos diplomas. Foi então que conheceram a nova namorada, June Milford, mas só “de raspão”. Invocando afazeres profissionais, a rapariga apenas compareceu na cerimónia de entrega dos diplomas e no almoço. Fez conversa de circunstância e no final desapareceu. Escusou-se ao jantar e ao baile que se seguiu. Era uma rapariga tipicamente inglesa, alta, loira, de pele muito clara e olhos azuis. Gabriela tentou, o mais que pôde, indagar factos da vida e da família de June mas esta esquivou-se habilmente ao inquérito. Alguns meses mais tarde Pedro veio a Lisboa anunciar o casamento que deveria ter lugar no ano seguinte na propriedade dos pais de June, junto à fronteira com o País de Gales. Os futuros sogros convidariam em breve Gabriela e Álvaro para passar uns dias em Aberdeen Court, para se conhecerem, uma espécie de “pedido” durante um fim-de-semana alargado. Pedro regressou a Londres deixando Gabriela em estado de profundo abatimento, pois não simpatizara com 40


June e detestava a ideia de Pedro ficar a viver permanentemente em Londres, mas era isso o que a esperava. Logo que terminou o mestrado, Pedro recebeu vários convites de escritórios de advogados londrinos, e contra a vontade da mãe, aceitou um deles, dizendo então que não significava que não voltasse para Portugal. Mas Gabriela sabia que era exactamente isso que aconteceria. Em vão, as filhas e Maria do Carmo tentaram animá-la, fazendo-lhe ver que era o melhor para Pedro. Porém Gabriela refutava todos os argumentos: “isso dizes tu porque não é teu filho”, ou “não sei se consigo viver sem ele por perto”… Chegou entretanto o convite dos Milford para Aberdeen Court. Gabriela usou todos os expedientes para adiar a viagem: doenças, reuniões, congressos, publicação de artigos, tudo serviu; sabendo que a mãe de June não trabalhava e o pai era um político reformado que se dedicava à caça, ao bridge e pouco mais, achou também que a sua faceta de cientista os impressionaria. Álvaro ia aceitando todos os adiamentos com paciência, preocupado, no entanto, com a possibilidade de envenenarem a futura relação com a nora e os compadres. Até que foi Pedro a fazer um ultimato, pois considerava a situação insustentável. Com a aproximação da data do casamento, Gabriela muito contrafeita, lá rumou a Londres com Álvaro. Apesar de convidadas, Marina e Ana foram instadas por Gabriela a declinar. Não queria outras interferências, queria “enfrentar sozinha o inimigo!” Em Londres, Álvaro, Gabriela e Pedro dirigiram-se para norte num carro alugado. A casa ficava numa planície verdejante junto ao País de Gales mas ainda em território inglês e a cerca de 300 km de Londres. Chegaram a Aberdeen pelas quatro horas da tarde. Transpuseram o portão aberto 41


e seguiram pela larga alameda de gravilha ladeada por arvoredo até ao largo fronteiriço à casa. O centro do largo era ocupado por canteiro bem cuidado com um pequeno lago e uma estátua. Meia dúzia de degraus de pedra davam acesso à entrada principal. Junto a esta o mordomo e dois criados esperavam perfilados. No momento em que o carro se imobilizou, Lorde e Lady Milford surgiram na porta e desceram as escadas para vir ao encontro dos convidados. Dez anos mais novos que Gabriela e Álvaro, formavam um casal improvável. Ela alta e magra, tinha o cabelo loiro liso apanhado com uma bandelete, vestia um vestido de malha cinzento-escuro e usava um discreto colar de pérolas. Ele, mais baixo uns cinco centímetros, tinha o cabelo ruivo encaracolado, comprido e muito ralo, uma indisfarçável barriga e pele encarniçada. Vestia um casaco de tweed muito coçado e esbambeado, um colete encarnado e uma gravata de lã. Dir-se-ia ser ela e, não ele, a herdeira do título de Earl de Ellesmere. Com a mão papuda ostentando o anel de brasão dos Milford, convidou-os a entrar em Aberdeen Court. Os criados encarregaram-se da bagagem. No hall da casa havia apenas alguns cadeirões, um grandfather clock e dois enormes quadros a óleo, retratando antepassados de Arthur Milford. O bisavô, Terceiro Earl of Ellesmere, fora secretário do Rei e mandara reconstruir a mansão de Aberdeen. Uma escadaria dupla de madeira polida conduzia aos pisos superiores. Lorde Milford levou os visitantes para a biblioteca no rés-do-chão, enquanto os criados transportavam as malas para os quartos no primeiro andar. As poucas paredes que não estavam ocupadas com estantes, ostentavam quadros e gravuras com temas equestres. Na chaminé da lareira estava colocada uma cabeça de alce 42


embalsamada. Junto à lareira estava posta a mesa com o chá. Milford convidou-os a sentar-se no momento em que June e as irmãs se juntavam ao grupo. Lady Elsbeth serviu o chá e June o bolo, enquanto tentava entabular conversa com Gabriela. Tarefa difícil, pois a convidada não dava seguimento a nenhum tema. Lorde Milford teve mais sucesso junto de Álvaro mas, apercebendo-se da dificuldade da filha em captar a atenção de Gabriela, monopolizou a conversa contando a história da sua família e de Aberdeen. Apresentou-lhes depois o programa para a estadia, que disse ser uma mera sugestão, pois, se preferissem, podiam fazer qualquer outra coisa. Nessa noite jantariam em família e no dia seguinte de manhã partiriam cedo para um passeio a cavalo a uma outra propriedade sua no País de Gales. Aí tinha o pavilhão de caça, onde almoçariam. Regressavam a Aberdeen para o chá e haveria um jantar para família e amigos íntimos das redondezas. No dia seguinte, haveria uma caçada à raposa a partir de Aberdeen e no último dia propunha um passeio de carro a Birmingham. Gabriela engolia com dificuldade o seu chá, enfastiada com o programa. Não teve coragem para rejeitar aquela sucessão de actividades que abominava, mas sempre adiantou que não montava. Um problema de costas desde a infância impedia-a de se pôr em cima de um cavalo. Mas não queria que alterassem nada por sua causa. Não teria certamente dificuldade em se entreter naquela biblioteca ou passeando a pé. Mas logo Elsbeth se encarregou de lhe estragar os planos, dizendo em tom de confidência: – Nada disso. Eu ficarei consigo. Não sabe como abomino aqueles passeios… Amanhã vamos de carro ao almoço e no dia seguinte enquanto eles andarem a perseguir uma indefesa raposa nós vamos às compras. 43


– Óptimo, Elsbeth! Assim não nos atrasas com o passo arrastado da pileca do teu cavalo – acrescentou o marido. Pouco depois, recolhiam aos quartos para se arranjar para jantar. Pedro fizera saber que os pais dormiam em quartos separados. Alegou que a mãe tinha o sono muito leve e o pai, além de ressonar muito, gostava de ler até altas horas. Gabriela, depois de descansar uma hora e tomar um banho prolongado, apresentou-se na sala do primeiro andar. Passavam poucos minutos das sete e já todos lá estavam. June jogava damas com as irmãs, os homens, de smoking bebiam sherry e Elsbeth conversava com sua mãe junto à lareira. Contrastando com os corredores gélidos, a temperatura da sala era agradável. Álvaro debruçava-se sobre um mapa no qual Arthur Milford lhe mostrava a localização da zona onde se tinha perdido no deserto. À distância, Álvaro mais alto, elegante com o cabelo grisalho liso penteado para trás e Milford, meio despenteado, gordo e encarniçado, dir-se-ia que o primeiro era o Lorde e o segundo, um moço de estrebaria. Milford trabalhara no Foreign Office. Não foi muito explícito quanto às funções que desempenhara, nem quanto às datas. Apenas disse que andara por África e Médio Oriente trabalhando para o Governo. Falou em missões no Eqipto no Irão e no Iraque. Uma vez perdera-se no deserto e ficara seis dias sem saber como regressar. Ele e o motorista, um soldado que nunca saíra de Newcastle, foram surpreendidos por uma tempestade de areia que lhes avariou o jipe. A conversa de Lorde Milford continuou pelo jantar, contando histórias fantásticas ocorridas nas suas viagens por África e Médio Oriente nos anos sessenta. Episódios pitorescos de verosimilhança mais que duvidosa. As filhas e a sogra ouviam em silêncio, enquanto Elsbeth fazia aqui ou ali um 44


comentário para realçar algum aspecto mais anedótico. Dirse-ia que todas conheciam de cor a narrativa. Esta era muito viva e cheia de nomes de outros intervenientes, recheada de expressões classistas como “um dos nossos”, “um sujeito de outra classe”, “um pobre diabo que se julgava da mesma classe” ou “a classe que manda”. A mulher imitava o marido como podia, mas enquanto ele era um snobe genuíno, ela não conseguia passar do pretensiosismo serôdio que o deslumbramento da sua origem plebeia lhe legara. Ao fim de algum tempo de convívio percebia-se bem que o casamento lhe trouxera uma muito desejada ascensão social. Fora e era ainda uma mulher muito atraente, elegante e com categoria. Mesmo após vinte e cinco anos de casados, percebia-se que Arthur tinha um enorme orgulho nela. Gabriela tentava introduzir outros temas. Sem êxito. Impressionou porém os Milford pela perfeição do seu inglês. Quiseram saber como adquirira um inglês tão fluente, se teria feito o doutoramento nalguma universidade inglesa. Gabriela confirmou mas explicou também que o adquirira muitos anos antes quando vivera durante vários anos nos EUA. Neste ponto, Arthur interessou-se verdadeiramente pela conversa e afirmou-se um admirador de alguns aspectos da organização americana. Não todos. Quis saber em que zona dos EUA tinha Gabriela vivido e em que época. Ele próprio estivera em Virginia durante quase um ano para tirar um curso nos anos sessenta. Mas chegaram rapidamente à conclusão de que as respectivas estadias americanas não tinham coincidido nem no tempo nem nos lugares. Apesar do entusiasmo de Gabriela sempre que relatava o seu tempo nos EUA, Arthur desinteressou-se da conversa. A sua recordação da América era bem diferente e menos romântica. Elsbeth, essa, não chegara a interessar-se pelo 45


relato. Acabou ali, em poucos minutos, a sensação de integração e de empatia de Gabriela com os futuros sogros de Pedro. Para Álvaro, porém, essa sensação seria mais duradoura. No dia seguinte, enquanto Gabriela seguia de Land Rover com Lady Elsbeth ao volante, ambas praticamente em silêncio, Álvaro e Arthur conversavam animadamente durante quase todo o passeio a cavalo. O mesmo se passou durante o almoço e o regresso a Aberdeen. O desenquadramento de Gabriela agravou-se no jantar dessa noite. Sentada entre Arthur e o Major Osborne, um vizinho de setenta anos, ouviu toda a noite falar de cavalos, de cães e de jardinagem. Álvaro conversava e ria com Elsbeth e a senhora Osborne. Depois do jantar, as irmãs de June davam um recital de violino e violeta. Ao saberem que Álvaro tocava violoncelo, fizeram questão de integrá-lo num trio. Na sala de música encontraram, entre dezenas de instrumentos, um violoncelo e partituras de um trio de Beethoven que lhes pareceu adequado. Ensaiaram rapidamente e deslumbraram a assistência que se reuniu para os ouvir depois de servido o Porto. No final da estadia, Pedro estava radiante. Todos tinham apreciado aqueles dias, os Milford tinham sido incansáveis no seu esforço de hospitalidade e pareciam muito satisfeitos. Só Gabriela partia entediada, mas disfarçando o melhor que podia diante dos anfitriões e do filho. Mal se sentou no avião desancou abertamente nos Milford, no seu estilo de vida oco e sem sentido, no seu snobismo, no deslumbramento com a tradição, na casa que achava de mau gosto e em Álvaro por não concordar com ela. Conhecendo bem o feitio de Gabriela, ele não respondeu pois sabia que o que a incomodava verdadeiramente era o facto de não se ter integrado. Avisou logo que para o casamento não ficariam em casa dos Milford. Arranjariam 46


alojamento ali perto mas não se sujeitaria nem mais uma vez “às conversas sobre cavalos, ao chauvinismo aristocrático dele nem ao novo-riquismo dela”. E assim foi. Quando nesse verão voltaram a Ellsmere para o casamento de Pedro e June, recusaram o convite para ficar em Aberdeen Court, alegando que iam com várias pessoas de família e amigos que não podiam deixar. Alojaram-se num bed and breakfast ali perto e ficaram apenas quarenta e oito horas. Os Milford não perceberam ou não se importaram. June, porém, percebeu bem o gesto ostensivo de distanciamento e de animosidade para com ela e os seus pais. Pedro tentava pôr água na fervura mas aquele relacionamento começara mal e não mais se endireitaria. A desconfiança entre sogra e nora foi crescendo com o tempo, dando lugar a uma relação cordialmente fria. A opção de Pedro por ficar a trabalhar em Londres tornou-se definitiva e as viagens a Lisboa foram-se espaçando até que se reduziram à expressão mais simples, uma semana no Natal e outra no Verão. Entretanto, Pedro falava com a mãe várias vezes por semana mas por entendimento tácito falavam de tudo menos de June. Apenas, no fim do telefonema, um formal envio de saudades. Logo nos primeiros contactos, June percebeu que a relação de Gabriela com qualquer mulher que se aproximasse de Pedro seria muito tumultuosa. Durante o fim-de-semana em Aberdeen, a atitude de superioridade intelectual que Gabriela adoptara caiu muito mal junto dos Milford. June ficou então a conhecer um pouco melhor a sogra, a sua insegurança, os complexos, a afectividade reprimida, a ligação a Pedro, a tensão com o marido. Podia não conhecer as causas mas June tinha inteligência e sentido prático suficientes para 47


perceber que a futura sogra acabaria por provocar tensão no seu casamento, se não fosse logo de início mantida à distância. Gabriela, inicialmente, tentou pressionar Pedro para regressar a Portugal, para vir mais vezes, para ficar mais tempo. De nada lhe serviu. A nora tinha fixado as regras. Encostara-a à parede. Percebeu então que nada mais lhe restava senão acomodar-se. Concentrou-se mais em Ana e no projecto de investigação que dirigia no Instituto de Investigação Científica que tanto custara a pôr de pé.

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Tempus Fugit Amor Manet  

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