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Gil Duarte

UM ROMANCE

Nada Mais e o Ciúme


GIL DUARTE

NADA MAIS E O CIÚME Um Romance


FICHA TÉCNICA EDIÇÃO: José António Leite Cruz de Matos Pacheco TÍTULO: Nada Mais e o Ciúme AUTOR: GIL DUARTE REVISÃO EDITORIAL: José António Leite Cruz de Matos Pacheco PAGINAÇÃO: Ana Cristina Marques - Sistema Delirante IMAGEM DA CAPA: Ana Cristina Marques CAPA: Ana Cristina Marques - Sistema Delirante

1.ª Edição LISBOA 2010 IMPRESSÃO E ACABAMENTO: Agapex ISBN: 978-989-97122-0-1 DEPÓSITO LEGAL: 320854/10

© GIL DUARTE PUBLICAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO

Sítio do Livro, Lda. Lg. Machado de Assis, Lote 2, Porta C – 1700-116 Lisboa www.sitiodolivro.pt


«They fuck you up, your mum and dad. They may not mean to, but they do. They fill you with the faults they had And add some extra, just for you.» Philip Larkin, “This be the Verse”, High Windows


«Há um segredo que todos os Sábios conhecem desde a Antiguidade: que não existe movimento. É curioso que se trate de uma ideia tão contrária à nossa intuição do dia-a-dia; e é curioso porque, na verdade, enquanto experiência individual, a percepção que temos do movimento é coisa pouca, é uma experiência de vazio: pois, se não, que ar e forma, que cor e cheiro caracterizariam o movimento? O que é que, dele, a nossa memória retém, se o movimento é aquilo que não se retém, o que não se fixa (nos dois sentidos da palavra)? Por outro lado, e como conceito, julgo que é matematicamente insustentável: eis o que irei provar ao longo das seguintes páginas.» E. C. Bernardo, «Prefácio» a Teorema da Impossibilidade do Movimento (obra inacabada)


PRIMEIRA PARTE UMA CÂMARA DE TORTURA OCULTA NA ALMA


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Aos trinta anos, no apogeu do talento viril e mental, a um par de equações de completar a obra absoluta, uma demonstração matemática da inexistência de todo o movimento, foi surpreendido pela morte da criança, de cinco anos, que amava, sua filha Leonor. Ele aguardava-os, à filha, ao filho, no átrio de um cinema. Irritava-se por causa da indisponibilidade das mãos: um pacote de pipocas, uma Pepsi-cola, uma garrafa, plástica, de água e os bilhetes para a sessão reduziam-no a uma insuficiência física e psicológica humilhante: ninguém vinha ajudá-lo; não havia ali uma mesa onde pousar isto ou aquilo, ao todo quatro diferentes tipos de objectos que segurava e abraçava, entalando-os, numa incerta pirâmide, entre o peito e o queixo. Era, talvez, cedo para a sessão. Mas, ao mesmo tempo que se dizia, a si próprio, «É cedo», tudo e todos aqueles com que lidava sofriam de um ligeiro atraso, segundo a medida obsessivamente instituída pelo seu sentido interior do tempo e, portanto, estranhava que não tivessem ainda chegado Leonor, que já mencionei, e Virgílio, seu filho que fazia nesse dia dez anos.

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Então, como se bruscamente se decidisse por um método de eliminar as dificuldades espalmando-as, atravancou o pacote de pipocas e as bebidas entre a barriga e o corrimão de metal, sobre o qual via a escada rolante por onde as crianças deveriam subir, amarfanhou os bilhetes dentro de um bolso e, numa impaciência e numa imperícia cómicas, de que tinha noção e o exasperavam, puxou de outro bolso o telemóvel preto. Marcou o número de Virgílio, com um polegar gordo, rígido, pouco divino. O toque surdo repetiu-se até se transformar numa voz feminina, gravada, que lamentava, que parecia preparada, se a deixassem continuar, para lamentar muitas coisas mais, o estado do mundo, o do universo. «Tente mais tarde», aconselhava a senhora voz. E. C. Bernardo só por mero acaso veio a ter um vago anúncio do que tinha realmente sucedido. Não por que lhe telefonassem ou por que o chamassem. Mas porque uma senhora de carrapito e buço, com certas imagens ainda dolorosamente impressas na mente, ao passar perto de E. C. Bernardo, vinha falando ao marido sobre a tragédia. Como uma canção conhecida que se materializasse: o Professor Bernardo teve, com efeito, um prenúncio de morte numa pronúncia do Norte. A mulher tinha um timbre de histeria na voz. O seu marido, pelo contrário, expressava em tudo a serenidade e a compostura, até no cabelo colado para trás, sem um pêlo em desalinho, até nos óculos de aros sólidos e confiáveis ou na camisola de malha 14


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com gola em forma de bico. Talvez só ela tivesse assistido à cena. Talvez a senhora estivesse lá, descansada, a sós com o seu buço, e visse o que quer que a teria perturbado, e só mais tarde se encontrasse com o homem. Repetia, passando, casualmente, diante de E. C. Bernardo: «Tanto sangue!» Na irracionalidade e na angústia do momento, E. C. Bernardo, apesar do pressentimento que o acometia, não se moveu. Certos tormentos, porventura os mais tenebrosos, certos terríveis «suspenses», talvez os mais insuportáveis, assemelham-se incompreensivelmente à mais pura e vazia tranquilidade. Foi o próprio, porém, quando, muitos anos e muita insensibilidade da minha parte mais tarde, lhe perguntei por que não saíra imediatamente dali em busca de novidades que dessem conteúdo ou negassem o pressentimento, me respondeu com esta outra pergunta, igualmente insensível: «E as pipocas? Onde é que deixava as pipocas?»; não me ofendi: era a amargura a falar pela voz do cinismo. Permaneceu de tal maneira colado às pipocas, à Pepsi e à água, que se diria serem esses, de facto, os motivos mais fortes para não tomar atitude alguma. Não queria questionar a senhora, assustado pela histeria dela, pronta para se libertar e espalhar, impurificando o mundo e, mais do que tudo, por pavor da resposta de que ela seria o veículo. Acabou por chamar um Segurança que acorria a um ponto indeterminado. Era, 15


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claramente, um Segurança que não desejava senão ser um Segurança, muito ruivo, muito alto, muito orgulhoso – não tanto, talvez, da sua Missão, como do ar de mistério e urgência de que parecia revestir-se o cumprimento dessa Missão, que o levava a andar de rádio colado, como um cachimbo, à boca, emitindo as palavras «confirmado», ou «charlie tango chama base». Segundo ele, tudo aquilo ocorrera havia mais de meia hora. No parque de estacionamento. Um menino de uns dez anos, que levava pela mão a irmã pequenina, de quatro ou cinco, não a impedira de correr, não conseguira impedi-la de correr no momento coincidente com o da passagem de um automóvel. Virgílio agarrava, com toda a compenetração da sua responsabilidade de irmão mais velho, a mão da irmãzinha; tinham estado a comer gelados enquanto o pai comprava bilhetes (e, como sabemos também, comprava tudo o resto, pipocas, pepsis), mas os miúdos haviam voltado ao carro precisamente porque o rapaz, a quem o pai confiara a chave, num excesso de zelo e responsabilidade, queria confirmar se a porta teria ficado devidamente trancado. As mãos estavam suadas; Leonor disparara porque, do outro lado, estava uma família – um pai, uma mãe, uma criança e, principalmente, um balão –, de modo que o rapaz não teve sequer tempo para lhe gritar. O Segurança interceptado pelo Professor Bernardo não conhecia estes pormenores; nem foi capaz de acrescentar o que quer que fosse acerca das crianças, 16


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embora estivesse em condições de revelar as menores características do carro, a marca japonesa, a cor, o ano, talvez a matrícula. Leonor – soube o Professor E. C. Bernardo depois –, chegara ao Hospital morta já. Não o deixaram vê-la. Não deixaram que a mãe, a poeta Luz Botelho, visse o corpo desfigurado da menina. Aquela súbita patologia no sentido do universo mudou as suas vidas: como um prédio de janelas iluminadas, à noite, em que vemos apagarem-se de repente todas as luzes, a morte de Leonor foi a falha na vida, no facto de se continuar estando vivo; foi a colisão do mundo com um outro mundo, um mundo intolerável, que absorveu e aprisionou, para sempre, o Professor E. C. Bernardo. Dir-me-ia, nos anos em que veio a ser meu professor e conversámos várias vezes, na casa de Sintra, que a morte de Leonor fora o fim das suas promissoras tentativas para concluir uma demonstração da inexistência – mais: da impossibilidade matemática – de todo o movimento. Resumira assim: «Teria sido uma intolerável e perversa ironia continuar a dedicar-me a provar a impossibilidade do movimento, quando o… movimento de um Toyota (sabia que era um Toyota?) vinha de pôr fim à vida da minha filha».

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A mesma morte significara, porém – digo-o sem sombra de cinismo –, um reavivamento da criação poética de Luz Botelho, cuja experiência artística bebia na tortura dos sentidos, na revolta dos sentimentos, naquela espécie de brilho incendiário e devorador que é próprio de algumas escuridões pessoais. Mas falaremos mais tarde sobre Luz (nome pesado para a poeta da perfeitíssima, a acrobática Queda no Abismo e na Treva interiores). Porque eu gostava de vos expor agora Virgílio. O que fazia dez anos no dia em que sua irmã, fugindo-lhe da mão, desaparecera sob um Toyota em excesso de velocidade nas catacumbas de um centro comercial. Porque se esta história é sobre muitas pessoas e muitos sentimentos e muitas coisas, se é sobre Leonor, ou o que dela restou fixado em fotografias de álbuns ou como dor que nunca os sobreviventes conseguiram resumir, ou simplificar, ou esquematizar, transformando-a numa espécie de monograma periódico e ritual na sua memória; sobre Luz Botelho, a mãe, a mulher, a ex-esposa, a poeta; sobre Dulce, ponte de desunião entre um pai e um filho; sobre o ciúme; 18


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sobre o Professor Bernardo, é claro, o qual viria a ser meu professor e, mais tarde ainda, o tresloucado viajante de quem fui companheiro na mais insensata e sofrida jornada que um homem pode fazer; é também – ou sobretudo, talvez – sobre Virgílio Bernardo – o filho – o irmão trágico – o meu amigo. É dele que quero começar a falar.

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A génese. O meu início com eles, digamos. O princípio daquilo a que, tal qual uma antena ansiosa, fui captando acerca destas pessoas. O advento. E, no advento, exactamente só nós dois. Virgílio e eu. Tínhamos quinze anos; já tanta coisa passara sobre Virgílio e eu não sabia: andávamos no Liceu de S. João do Estoril; seu pai não era ainda o meu professor que seria dali a quatro anos, na universidade. Conhecia o Professor E. C. Bernardo unicamente de alguns almoços, não me lembro quantos mas não mais do que três, que me reuniram àquela família; e eu percebi desde a primeira vez aquela quase aversão que E. C. Bernardo experimentava pelo seu filho, aquele nojo prático, aquela zanga sem nenhuma voz, toda ela feita da recusa do mínimo contacto físico, fosse o de um olhar distraído, fosse o de em encosto distraído com o ombro; assisti a isso, logo no dia em que os conheci: Virgílio, em certo momento, quando se dirigiam para a mesa, raspou, inadvertida ou propositadamente, o cotovelo no braço do pai, e este reagiu como ao choque eléctrico de uma raia. Foi um almoço sem muitas palavras, para além das apresentações e de uma troca de fórmulas de circunstância. Sabia 21


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pouco acerca daquelas figuras: sim, não ignorava que ela era uma poeta – que aliás, na altura, ainda não transpusera o limiar da Glória que a esperava adiante –, mas nunca a lera; (digo «poeta» por respeito pela mulher que, de si mesma, dizia: «poetiza? Eu? Não. Poetiza é quem faz rendilhado de palavras. Florbela é uma poetiza. Sophia, não. José Régio é às vezes um poeta, às vezes um poetiza. Eu sou uma poeta»); sim, sabia que ele era professor de Matemática, músico e crítico de música, mas nunca o ouvira. Daí, precisamente, o pânico reverencial com que me sentia arrastado pelo silêncio sobre o qual os ouvia mastigar, prosaicamente, sem especial poesia ou musicalidade. Perguntou-me, em dado ponto, pelos estudos. Pela filosofia e pela matemática. Luz Botelho, sobrepondo-se à lógica do diálogo que o marido queria dirigir, informava-se sobre o português; Virgílio, extemporâneo, advertia que eu era o melhor aluno de matemática. E. C. Bernardo retomava a direcção, para me explicar que eu não podia ser bom aluno a matemática sem o ser a filosofia, falava-me de incongruência e de erro, no meio das minhas respostas sincopadas, as minhas exclamações, sons guturais em que enfiava, para passar despercebido. A conversa era um rio inavegável, interrupto. Havia estações para uma mastigação longa, lenta, larga, alta. Eu suportava os poucos daqueles almoços em família de que participei, porque sentia uma curiosidade animal e anormal: vivia 22


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num estado de sobreexcitação, um delirante e agradável apego a Virgílio e aos pormenores da sua vida. (Não conhecia senão pormenores; bastavam-me: eram essenciais). Para isso, só para poder manter essa sofreguidão escrupulosa – e igualmente porque as raparigas não me interessavam, devido a alguma obscura razão que na altura eu também desconhecia, mas não irei aqui deixar de lado –, fugia metodicamente às amigas e colegas que se me ofereciam. Virgílio, pelo contrário, namorava com uma colega cujo nome, de facto, só recordo que era «Isabel» porque nunca me esquecerei disto: insistia em que a tratássemos por «Isabeau». Ai! Pauvre Isabeau! Baixota e gorducha (e, por muito que quisesse manter-me num plano de correcção, nunca poderia descrevê-la como «baixinha» e «gordinha», porque ela era «baixota» e «gorducha»: «Isabucha» era, aliás, como nos referíamos a ela, entre nós), com o cabelo longo, escorrido e uma dentição invejável, podia parecer até bonita se não começasse a falar, pois a sua voz aflautada aniquilava o efeito da primeira impressão, sobretudo quando o entusiasmo a levava às notas mais agudas. Sublinhava-se muito com um pormenor bizarro, uma boina verde, uma saia comprida, na busca da sofisticação, nessa idade em que, pelo contrário, a sofisticação consiste em poder usar tudo o que os outros usam.

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Essa sua namorada, como se vê, nunca me incomodou: a própria impaciência de Virgílio para com ela era tão notória, e ríamos tanto os dois, ele e eu, a sós, da sua impertinência insegura e cómica, que se percebia que Isabel se tornara uma exigência de atenções a que ele já não tinha atenção para dedicar. As raparigas eram facilmente tomadas e tragadas no campo gravitacional de Virgílio, feito de um misto de ideias muito inquietas, olhos verdes, caracóis muito negros e um nariz certíssimo,

sem

reentrâncias

nem

proeminências.

E,

curiosamente, ninguém se interrogava sobre a sua sexualidade. Mesmo eu – que, durante tanto tempo, infelizmente, me não interroguei sobre a minha – achava que nada havia de estranho no seu mover-se feminino ou no seu mover de mãos: no fundo, era porque intuía, sob a sua teatral cultura da delicadeza, qualquer coisa de indiscutível, de inquestionável, sem dúvidas. Qualquer coisa de uma autoconfiança heterossexual. Nunca me interroguei sobre ele, a não ser, talvez, uma vez, durante cinco minutos. No Liceu de S. João, Virgílio e eu ainda não praticávamos nem conhecíamos a «gazeta». Mas quando um professor faltava – e era rara uma semana inteira em que algum não faltasse –, saíamos da escola, às vezes acolitados por mais dois ou três, frequentemente só os dois. O percurso não

variava:

entrávamos na

padaria

e

comprávamos croissants. Depois, ruminando-os, com a boca 24


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polvilhada de açúcar em pó, atravessávamos a praceta, aquele círculo rodeado de prédios, cafés, livrarias, passávamos a estação dos caminhos-de-ferro, cruzávamos a marginal e descíamos uma escada tortuosa que nos abria, de repente, um outro mundo, entre as rochas e a água de uma praia minúscula. Estávamos sozinhos, precisamente – e tínhamos a custo escapado a «Isabeau» – no dia, no momento da «revelação». Sentados num degrau, gastáramos os croissants e a conversa. Virgílio aproximou o seu rosto. Muito ao pé. Sentia-lhe a respiração confundida com a brisa; via, num estrabismo da proximidade, os olhos verdes fixados em mim. Não sei dizer se havia alguma ansiedade. Ele não sorria. E eu devia estar tão longe do que poderia acontecer (mas iria acontecer, e aconteceu), que me sobressaltei quando ele segurou a minha nuca com a mão, num gesto que simultaneamente me prendia e amparava, e selou os meus lábios com os seus. Mais do que qualquer prazer, sentia pavor de que nos observassem. Daquela espécie de balcão de pedra, no alto das escadas, onde havia sempre miúdos que se reclinavam, se sentavam. Ou de uma espécie de jardim suspenso sobre a praia, de uma vivenda visível, como incrustada no azul. Os meus olhos permaneciam aterradamente abertos. Os dele também.

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Eu não estava ali, não completamente no seu rosto, não todo nos seus lábios: divagava um pouco, escutava o redor, os passos possíveis, as sombras perifericamente intrusas. Percebi as pernas de alguém que passava sobre nós, como transpondo, em bicos de pé, para não nos incomodar, o degrau em que nos encontrávamos sentados. Separámo-nos ligeiramente. Ao longe, afastando-se já, a rapariga que nos transpusera continuava o seu caminho, sem se voltar. «Viste?», perguntei. «Vi». «Quer dizer, viste-a? Viste quem era?» «Isabucha». Calámo-nos. «Já viste bem? Que coisa! Porra!» «Eu sei. Desculpa. Desculpa isto… esta… isto…». Regressámos à escola, sem uma palavra mais. O episódio teve inúmeras consequências. Como já disse, por cinco minutos devo ter pensado que Virgílio pudesse amar-me, ou seja, desejar e amar os do seu próprio sexo. Mas não se encontrava aí a revelação. Esse clarão só poderia ser um equívoco, nunca uma revelação. 26


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O seu plano para afugentar Isabel, para assustar ou enojar Isabeau, que estava exausto de namorar mas com quem não fora capaz de acabar o namoro – penso que por uma estranha cobardia da delicadeza, própria de certas almas sensíveis que, para evitar ferir uma pessoa de olhos nos olhos, preferem cortar-lhe o pescoço por trás –, aquela perversa encenação para a forçar a deixá-lo, nada tinha evidentemente que ver com as suas tendências no sexo. [Estarei a simplificar, por estratégia da minha memória incumbida de passar tudo a limpo, como um romance? Talvez nunca na vida coisa alguma exista sob esta forma de «um plano»; será que, na inesperada conspiração de coincidências que a situação lhe apresentava, havia também alguma curiosidade antiga, por resolver, a impulsioná-lo? Alguma ternura? Um desejo de provar o beijo de um rapaz? Haveria, em suma, alguma autenticidade no gesto, para além do plano que percebi, ou considerei, que primeiramente era? Que sei eu disso agora?] No essencial, julgo, Virgílio usara-me. Inconsequentemente, do ponto de vista sexual. Mas não: nem isso é verdade. A revelação a que me venho referindo a propósito desse beijo falso foi a revelação do meu próprio desejo, da minha inclinação, da minha natureza. 27


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Deixei – simplificando novamente – de estar apaixonado por Virgílio nesse momento, quer dizer, no momento em que descobria que estivera desde sempre apaixonado por ele. Ou por outras palavras ainda: a paixão desfazia-se assim que lhe encontrava um nome. Como continuávamos na mesma turma do décimo ano, seria demasiada economia da memória pretender que Virgílio e eu deixámos imediatamente de nos ver e de nos falar. Durante esse ano, saímos muitas vezes juntos, sem mencionar o tabu. Mas para mim, e para ele sem dúvida, o tabu existia – como o desacerto de certos amigos do passado que se revêem anos depois: um não sei bem que impressão desconfortável; uma não sei bem que melancolia, mais incómoda do que propriamente triste, típica do reconhecimento de que nada há já, em face de uma pessoa com quem se partilhou tanto, tanto, tanto; e não sei que pressa em despachar todos os encontros, como se fosse sempre já um pouco tarde de mais e tivéssemos outros compromissos. Perdêramos uns quantos amigos comuns – mas não amigas – porque Isabeau se encarregara de propalar que éramos os «dois paneleiros da turma». Nem isso verdadeiramente nos reaproximou. No décimo primeiro ano, Virgílio foi para um colégio interno, de onde, aliás, eu soube que fugia regularmente, em aventurosas evasões que o seu pai não lhe perdoava. 28


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Já não dirijo a força do meu próprio olhar, sou incapaz de desfitar, agora, o corpo do Professor E. C. Bernardo, esvaziado de respiração, cessado de viver, como se fosse a única indiscutível ilustração do seu tentado teorema contra o movimento; estendido, todo ele de negro, num fúnebre contraste com o branco daquela espécie de tabuleiro em que jaz na capela; imune ao murmúrio, à lamúria, ao odor docemente pestilento das flores. Como está magro! Como se retraíra fisicamente nos últimos meses. Observo fixa e atordoadamente o complexo de rugas que os gatos-pingados não disfarçaram, as entradas pronunciadas, a tez olivácia, as pálpebras concluindo pesadamente os seus olhos. Quase nenhum dos amigos mais próximos do Professor E. C. Bernardo tinha conhecimento do cancro. Poucos prestavam atenção ao blogue onde ainda se insurgia contra o verdadeiro cancro que o incomodava, «o modo», escreveu ele aí, «como a música é destratada em Portugal». Muito poucos saberiam que, nas últimas semanas, tentara, numa esperança um tanto ridícula para um homem tão perto do fim (como Sócrates aprendendo a tocar flauta nos últimos dias

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antes que o matassem…), retornar ao que lhe faltava cumprir: o teorema da impossibilidade de todo o movimento. O seu fim fora mais do que discreto: fora sorrateiro. Mesmo no jornal em que tomei conhecimento da sua morte, a notícia aguardava-me, em silêncio, após o folhear de onze páginas, com uma fotografia desactualizada onde aparecia irreconhecível. Virgílio está em ruínas. Os caracóis despenteados, os olhos vermelhos de choro. Caspa sobre os ombros enlutados. Toda a sua roupa é um currículo de gordura e desalinho que nos faz a apresentação dos dissabores e desleixos d’Alma que viveu ultimamente. Chega a parecer-me estranho – embora, perante a morte de qualquer homem, nenhum sofrimento seja de facto estranho – se nos lembrarmos de como se davam tão mal. Mais tarde, num café não muito longe da capela, diante de uma imperial que ele hesitou em aceitar, como se, no acto de beber uma cerveja houvesse qualquer coisa de festivo que lhe parecia sacrílega na ocasião, Virgílio deixa escapar um fluxo de histórias pouco credíveis acerca do seu pai: efervesce-lhe, na memória, um tal desejo de regresso ao paraíso perdido, que tende a fazer desse passado perdido um mito. As suas histórias são uma sucessão de improbabilidades, sobretudo as que escavam um tempo ainda mais longínquo, quando a mãe era viva, quando a irmã era viva, quando eles eram um «quarteto» vivo e perfeito. 30


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Virgílio ergue-se para cumprimentar um grupo de colegas do pai. Tenta infantilmente que o seu corpo lhes obstrua a visão da imperial, já quase toda bebida, mas ainda com tentáculos de espuma e de restos dourados de cerveja agarrados ao vidro do copo. Eu sei que nunca houve esse tempo feliz que Virgílio quer dramaticamente refazer, como uma monomania da sua memória. Por que razão, diante da morte e como por oposição à tragédia, o que se evoca mais facilmente é o sentido de humor do falecido? As situações mais cómicas? E, pior ainda, como podemos enganar-nos tanto na avaliação do que teve piada? Por exemplo: as cenas disparatadas que Virgílio evocou, chamando-lhes bernardices, foram realmente, na perspectiva do pai, momentos terríveis, destituídos da menor comicidade. O episódio da bengala – tão risível, segundo Virgílio –, tinha-me sido narrado pelo pai, anos atrás, como a esquina em que primeiro vacilara a sua fé, ainda Leonor era viva: uma cena carregada de profecias negativas e sinais de derrota. E. C. Bernardo comprara uma bengala, como ele insistia, «inquebrável, absolutamente inquebrável». Virgílio lembra-se do dia em que o pai depôs a bengala na mão de um amigo, desafiando-o: «Inquebrável, meu caro, absolutamente inquebrável. Vê. Faz-lhe o que queiras, pá, toma. Absolutamente inquebrável…».

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E de como o amigo, aliás não especialmente possante, pegara nela, a apoiara sobre o joelho e, com um solitário «crac», a dividiu em duas. O facto constituiu para o Professor – que era obsessivo, mas, habitualmente, não supersticioso – um primeiro angustiante e aziago sinal da «quebrabilidade» do seu teorema, numa altura em que ainda cria nele e julgava poder completá-lo. Virgílio, no minuto em que fomos interrompidos pelo grupo condolente, falava-me acerca das viagens que a família tinha feito. Ora bem: também aí, sob a piada tipicamente bernardiana que me narrou como ponto alto de uma dessas viagens (seu pai ter uma vez decidido que levariam com eles, num tupperware, o peixinho vermelho de que se haviam esquecido e não tinham com quem deixar), consigo reconhecer um certo passeio da família, ao Norte, que o Professor, anos antes, me resumira numa palavra: «Terrível!» Torna-se até surrealista fazer essa comparação de versões: o exercício estrambólico de pô-las lado a lado e crer que se referiam a um único e mesmo acontecimento, por exemplo, a viagem ao Norte! Luz Botelho conduzira todo o tempo. Não porque E. C. Bernardo não tivesse carta de condução, mas porque, muitas vezes, se comportava como se a não tivesse, com as suas curvas sem elasticidade, as suas perpétuas distracções ao volante, os seus 32


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terrores por automóveis que se aproximavam demasiado. O seu pavor irritadiço de conduzir à noite, quer pela ausência de luz, quer

pelo

excesso

de

luz

eléctrica

reflectindo-se-lhe

perigosamente nas lentes redondas e míopes. Ou seu quase artístico talento para falhar na precisão de um ponto de embraiagem. Pelo contrário, Luz Botelho, de personalidade dúplice ou tríplice, quando não estava tocada da sua inspiração frágil e tenebrosa, passava a ser uma mulher muito prática. Fora ele próprio que me dissera, durante a mais demorada conversa que tivemos, na situação que tanta importância virá ainda a ganhar neste escrito: «Eu sei, eu sei que têm todos da Luz a imagem da poetiza – ele insistia em dizer: poetiza – da poetiza serena e seráfica, a dama da palavra, hum, concisa e do gesto contido. Sei isso. Nas fotografias dela, que são tão poucas, aliás, ou nas entrevistas à televisão – na sua única entrevista, pensando bem – vemo-la como uma figura ideal, resplandecente.» Pausa. «Mas acredite, Pedro, com a família, em viagem, ela não era assim.» E eu perguntei-lhe: «Não? Como era?» «Muito prática. Muito, muito prática.» «Mas prática, como?» 33


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Pausa. «Dava traques.» Sinto-me quase envergonhado por poder atentar, deste modo, contra um ícone da poesia portuguesa. Mas, uma vez que iniciei, prossigamos. Não se tratava unicamente dos «traques». Dando crédito às palavras do Professor E. C. Bernardo, estavam, em família, num permanente convívio com a face oculta de Luz Botelho: a mulher prática, que conduzia durante uma viagem inteira, atestava, sozinha, o veículo, enquanto o marido dormitava ao lado, e que tinha caspa, e problemas de pele, e que tirava ranho do nariz com dois dedos (polegar e indicador). Mas tenho de o fazer. Tenho de o fazer porque está tudo errado na invocação de Virgílio! Deus meu, nunca houve a felicidade do «quarteto»! Basta dizer – e, sim, custa-me escrevê-lo – que essa viagem que, do ângulo tardio de Virgílio, foi o cume da vida a quatro, coincidiu com o instante em que o Professor pela primeira vez abandonou a família. Que diabo! Virgílio não se lembra disto? O Professor deixara-os a meio da viagem. Depois de Braga, já não seguiram juntos até ao Gerês, porque E. C. Bernardo tinha decidido que não suportava a brusquidão frenética de Luz Botelho, conduzindo enquanto coçava o coro cabeludo ou caçava peles no rosto, nem 34


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a desobediência sistemática dos filhos em pleno restaurante, nem os contínuos desacordos familiares. Virgílio recalcou este lado de tudo? O Professor E. C. Bernardo deixou a família com um peixinho vermelho num tupperware, regressou à boleia, meses mais tarde tornou a casa, arrependido e, no décimo ano do filho, quando o presenteava com a primeira ida da sua irmã ao cinema, Leonor foi atropelada e morreu. O regime de vida familiar, desde então, ou não imediatamente «desde então», mas a partir desse tempo, foi sendo construído em torno de um desencontro sem falhas entre o pai e o filho. E Virgílio sabia, embora nada lhe tivesse sido explicitamente dito, que o pai o culpava. Porque se zangava. Batia-lhe – o Professor, que no entanto era, como eu viria a descobrir como seu aluno, um homem cheio de bonomia e compreensão. O pai detestava, no filho, a) que brincasse à mesa, com os talheres, como um garoto, b) o seu modo efeminado, c) a voz em paulatina mudança, que enervava o crítico musical que E. C. Bernardo era, d) o pendor para o contestar em tudo, com modos desabridos, e) ou até uma certa maneira de se vestir,

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f) a exuberância de pormenores com que estudava as mentiras, sob objectivos tão importantes e tão irrelevantes – e tão errados – como escapar ao banho, enfim, dir-se-ia que, por não querer culpar de frente o filho pelo rasgão na sua vida de que, efectivamente, o culpava, acabava culpando-o de quase tudo o mais: era toda a existência de Virgílio que, nos mínimos pormenores, lhe parecia intolerável. Acontecia estar, num encadeamento nervoso, um acto contínuo, a acusá-lo de todos os tópicos, fluindo sem interrupções de uma crítica para outra, como numa música em que só os mais atentos se aperceberiam, no entanto, das mudanças de tema. Serei mesmo o único que se lembra de que esta relação entre o Professor E. C. Bernardo e seu filho Virgílio foi uma espécie de uma perpétua doença agravada por três tragédias que o pai nunca perdoou ao filho? A primeira, conhecemo-la já. Inaugurou este romance. A última, que diz respeito a Dulce, será o eixo de tudo o que tenho aqui para vos contar: desta história que me não pertence mas, despudoradamente, deposito nas vossas mãos. Essa, a última, a seu tempo virá. Quanto à tragédia intermédia, já aqui a mencionei: a fuga, ou melhor, a série de fugas – três, ao todo – que Virgílio empreendeu do colégio de Santo António, jesuíta, para onde os 36


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seus pais o haviam enviado numa Ăşltima, desesperada tentativa de o disciplinar.

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Por muitas razões, a experiência de Virgílio Bernardo entre os jesuítas foi aquilo para que só me ocorre a inaceitável designação de: sucesso traumatizante. O Professor explicar-me-ia, alguns anos mais tarde, durante a dramática viagem que fizemos – e que, nesta minha narrativa viremos ainda a fazer – só nós dois: «Era quase como pô-lo num colégio militar. Mas com diferenças: os jesuítas eram mais severos, mais violentos e mais cultos.». Ou apresentava-me esta outra sugestiva síntese, essa sim, tão bernardiana: «Os jesuítas funcionavam como um colégio militar, mas com mais regras militares e menos crenças religiosas do que um colégio militar.». O período jesuíta de Virgílio (como há, para certos pintores, um «período azul» ou um «período rosa», por exemplo) correspondeu ao tempo em que esta família existiu mais longe de mim: Virgílio já não era meu colega, eu continuava não tendo lido Luz Botelho, E. C. Bernardo ainda se não tornara meu professor. 39


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O sucesso desse período adveio-lhe do estudo do Latim, e até do Grego – em que Padre Arnaldo tanto insistia, muito alto de estatura e ríspido, com um rosto anguloso, sem desperdício de rugas nem de sorrisos, nem também de olhos, proveitosamente substituídos por duas frinchas sob as sobrancelhas, e um nariz estrito, nortenho, condicente com a sua pronúncia silvada. O lado traumático deste sucesso prende-se, por outro lado, com o mesmo Padre Arnaldo, a sua exigência, a sua dureza, o seu catarro; e com os colegas de Virgílio. Este não criou laços entre aqueles meninos típicos de uma Manhã Submersa. Pouco cultos, pouco dados ao estudo, desconfiados, trocistas. Batiam-lhe nos corredores obscuros. Desprezavam-no com o mais adverso dos desprezos, que é aquele causado não por um sentimento de superioridade, mas pela inveja. Gazua, sobretudo, atormentava-o. Aguardava-o em zonas esconsas, sempre inesperado e assustador. Tratava-o de panasca. No refeitório, uma divisão muito fria, de paredes altas, pontuadas por crucifixos, e uma janela larga, que raramente dava para o sol, Gazua e a malta sentavam-se-lhe à frente. Riam-se dele, na elevação de voz exacta para não provocar a atenção dos padres-vigilantes. 40


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A malta de Gazua era um grupo de quatro ou cinco broncos que haviam sido sucessivamente perseguidos pelo próprio Gazua, até acabarem por ser aceites, provavelmente quando se viravam para novo alvo. Virgílio comia laranja, à sobremesa, com garfo e faca. «Ai, vejam lá», imitava Gazua: «Comes a laranja à panasca, é?». Virgílio não respondia: mantinha um silêncio ruborizado e feroz, de lágrimas e raivas intimidadas. A malta ria, sem piedade. «Come à panasca, come à panasca!», cantarolava um buldogue do grupo. «Eu não te estou a chatear. Não me chateies», soprou Virgílio. Mais risos. Gazua: «Se não o quê?» (Se não o quê?! Fazia queixa? Atirava-lhe a mão à cara?) «Se não o quê?!», acentuava Gazua. E Virgílio Bernardo agiu. Mais rapidamente do que a velocidade do pensamento (com todas as suas dúvidas, indecisões, com o fogo do «faço? não faço?»), Virgílio já erguera a mão num gesto curto e seco, e lançara, sobre o nariz de Gazua, parte da água do seu copo. Gazua levantou-se, o nariz escorrendo, o rosto molhado, sob os olhos muito abertos, como se tivesse estado a chorar. 41


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«Tu… tu… eu…» O grupo levantara-se, como emergindo à superfície, de braços abertos, espanto, susto, incredulidade. Padre Arnaldo – porque, embora isto não fosse naturalmente assim, as narrativas que Virgílio me viria a fazer acerca da vida no colégio tomavam por único adulto este protagonista, como se não houvesse outros padres, gordos, baixos, diferentes – acorria imediatamente. «Que se passa, rapazes?» «Foi ele, senhor Padre Arnaldo. Atirou-me a água à cara». «Foi ele, foi ele, senhor Padre Arnaldo», secundavam-no. Padre Arnaldo enfrentou Virgílio. «É verdade?», perguntou, ainda que a resposta fosse óbvia, perante o espectáculo de Gazua de rosto pingando, os amigos numa mímica de incredulidade, o copo meio vazio na mão direita de Virgílio. «É, sim. O Gazua estava a insultar-me». «Senhor Padre Arnaldo», ensinava Padre Arnaldo como dirigir-se-lhe. «Senhor Padre Arnaldo. E eu não gosto que me insultem.» A face angulosa fechou-se numa tempestade muda. Sobrancelhas unindo-se como nuvens obscuras num céu punidor. «Mesmo assim. Chamava-me. Isto não se faz…» 42


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«O senhor também me está a chatear, senhor Padre Arnaldo. Está a ver isto? Ficou ainda aqui esta água no copo. Esta é para si.». Que era aquilo?! Não se tratava já de um gesto mais veloz do que a velocidade do pensamento: era, agora, uma outra coisa: um avolumar de ódios (como nuvens num céu saturado de deuses: uns mais jovens na sua eternidade, e ousados, mas temerosos, preparando-se para enfrentar, num combate mítico, outros deuses, de uma eternidade mais antiga e poderosa); de revoltas ruminadas durante semanas; de indignações; era a bravata, o desafio, a provocação ao mais forte, sob que se escondem muitas vezes, irreconhecíveis, coisas como o medo ou a humilhação. Toda a rapaziada calara, na atónita expectativa. Padre Arnaldo testou-o, «Como se atreve? Pois vá, experimente!», como um miúdo teria feito se posto assim perante tamanha ofensa. Erro. Táctica de efeitos imprevisíveis. A água saltou e espalhou-se fora do copo que a mão de Virgílio detivera a escassos centímetros do rosto jesuítico. Padre Arnaldo estava furibundo. E molhado. Não bateu, porque os seus castigos raramente eram de cariz físico, mas o seu olhar pelas frestas, a reacção dos demais, foram suficientes para que Virgílio compreendesse que estava suspenso sobre um abismo infernal. 43


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Ficar em isolamento, aliás, foi, para ele, até um bem: esse preliminar de castigo tocava-lhe como um alívio: não ver os outros, não ser apanhado pela malta do Gazua! E à hora de ir para a cama, dormindo sozinho, às escuras – apesar de Virgílio nunca ter convivido de bem com o escuro da noite –, sentia-se quase tranquilo, de uma tranquilidade falsa e ameaçadora, é certo, mas, mesmo assim, boa como um interregno, porque, durante aquele tempo não estava com os outros, no dormitório. «Vai fazer o seu Exame de Consciência!», tinham-lhe dito. O mais próximo de um exame de consciência foi convencer-se de que a única solução seria fugir. Escapou, de manhã muito cedo, praticamente sem dinheiro e levando, por agasalho, um sobretudo com gola de pele que um dos padres deixava dependurado num bengaleiro. Virgílio não praticou nenhum assalto violento: furtou a mala a uma idosa, que a pousara sobre um banco de jardim, para melhor se dedicar a atazanar o cão de uma família: era um daqueles animais eléctricos e estridentes, de pequena envergadura, que pulava e latia, sistematicamente provocado pelo guarda-chuva da velha, uma vez e outra vez; a família, visivelmente enervada mas polida, limitava-se a não intervir, como se nada houvesse, enquanto a mulher berrava: 44


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«Ó estafermo! Estás-me a ladrar? Hein? Estás-me a ladrar, monstro? Ora morde aqui! Ora morde aqui, a ver se eu deixo. Olha para ele. Songamonga! Olha para isto! Vai lá ladrar à tua mãe!» A mala estava ali, levá-la parecia mais uma exigência dos deuses do que um pecado, Virgílio pegou nela e, com os quinhentos escudos do porta-moedas, alguma fruta e enlatados que não pagou numa mercearia, e, uma porção de percurso em camioneta e várias boleias depois, estava em casa em menos de uma semana. O colégio aceitou-lhe o regresso. (Como voltariam a ser capazes de olhar uns para os outros, perguntava-me a mim próprio, este que insultou e lançou água e fugiu, aqueles que foram insultados, e molhados, e o não guardaram?) E. C. Bernardo – quem diria?, o homem cujo preciso corpo está, neste momento, colocado no interior de uma carruagem que deslizará até o lançar às chamas que o consumirão – recebera Virgílio com tão demoníaca fúria que, durante todo o dia, os vizinhos o ouviram vociferar. «Mas o menino julga que estamos aqui todos a brincar? O menino pensa que lhe vamos aturar uma vida inteira de disparates?» Luz Botelho chorou. E fez poesia. 45


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Houve, contudo, uma segunda evasão. Virgílio Bernardo unia-se, dessa vez, a Julião, um jovem já de dezoito anos: uma espécie de delinquente descoordenado e mau. Tinha uma cara larga, como se de sovas repetidas, um queixo grande, fendido, já muito picado de bexigas e ameaçado pelo arame de uma primeira barba a romper. O seu peito e as axilas estavam obscurecidas de pêlos, que exibia, como exibia o pénis de consideráveis dimensões. Dizia, repetidamente: «Ou saio desta merda, ou, um destes dias, mato o Padre Arnaldo, mato o Padre Matos, mato aqui todos!» Arrombaram, a golpes de machado, a porta que, aquando da sua anterior fuga, Virgílio encontrara inocentemente aberta, e puseram-se a caminho. Virgílio, num primeiro esboço do plano, ainda considerara que convenceria os pais a adoptar o novo companheiro. Mas, uma hora, três horas ou quatro mais tarde, ou um dia depois, à medida que se aproximavam de casa, ia-se temendo a ideia. Despediram-se. Não parecia haver dureza alguma naquela separação: Julião ter-se-ia até surpreendido por alguém querer conservá-lo por muito mais tempo. Mas Virgílio, com um 47


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arrependimento vão, já ineficaz, saberia mais tarde que Julião veio a ser preso, depois de ter matado um homem baixo e calvo, por causa de um mentiroso aspecto abastado. O demónio a que Virgílio se viu exposto em casa foi diferente. Luz Botelho. E não, senão indirectamente, o pai, que tivera uma apoplexia, ao receber o telefonema com a notícia da segunda fuga. Porém, o espectáculo do sofrimento da poeta foi mais tremendo que a irascibilidade paterna: e como no mais sublime e malévolo dos seus poemas negros, ela convidou-o a penetrar no âmago da sua dor. «A mãe não quer que eu viva convosco? A mãe não me quer ao pé de si?», quisera ele saber, desesperado. «Virgílio, serei sempre o seu abrigo! Estarei sempre aqui!» Pela segunda vez, quando parecia impossível, depois de duras e demoradas conversações, os jesuítas franquearam-lhe as portas: seu pai era E. C. Bernardo; sua mãe era Luz Botelho; ele próprio era Virgílio Bernardo, tão perdido mas tão, tão, tão promissor! Um ano mais tarde, deu-se a terceira fuga. E. C. Bernardo já não vivia com Luz. Virgílio tinha dezassete anos. Penso que tudo quanto queria era reencontrar o pai e pedir-lhe que voltassem a ser, todos, uma família. Pedir-lhe perdão por tudo: pela morte de Leonor, ou 48


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pelo

sucessivo

desagregar

do

casulo

jesuíta,

o

que,

paradoxalmente, fazia por meio dessa derradeira fuga ao casulo. Esperamos, agora, no interior de um átrio luminosamente branco, algures num cemitério de Lisboa, que o mecanismo conduza o cadáver ao fogo. Há bancos em pedra, onde ninguém se senta; há uma inscrição em Latim, no pórtico, e há gravações representando a toda a volta, nas paredes, estranhas e doloridas imagens, figuras medievais, angélicas ou diabólicas, e que só me resta desejar que não sejam evocações do Inferno, de Dante: dadas as circunstâncias, seria um mau gosto insuportável. Mas há um atraso: uma funcionária aproxima a boca da orelha de um dos gatos-pingados. Este, por sua vez, segreda, a seguir, demoradamente com Virgílio. Estamos todos curiosos. Eu observo a distracção do meu amigo, enquanto o homem lhe fala ao ouvido. «Hã?», pergunta repentina e audivelmente, como se viesse de dar pela presença do fulano. O gato-pingado repete o seu longo e secreto bzzz-bzzz. «Ah, claro, claro, claro», concorda Virgílio, pronto a aceitar tudo. O carrinho move-se, ruidoso, tétrico e deslocado comboio-fantasma de feira, em direcção ao fogo redentor.

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Então e Dulce, pergunto a Virgílio, como se me tivesse lembrado de súbito, já depois de nos abraçarmos, já ele sendo arrastado pelo grupo que lhe dará boleia: «que é feito dela?» «Oh», encolhe ele os ombros, «evaporou-se! Ainda tentei entrar em contacto com ela por causa da morte do pai, mas…». Pára. Olha-me. «É de uma ironia soberba». Baixa a voz, como se sentisse que o silêncio dos outros, muito próximos ainda, pudesse ser um amplificador para as palavras secretas que vai pronunciar. Dulce desapareceu com um tipo, disse-me. Vais-te rir, disse-me ele. «Um Detective que andava no meu encalço. Não é tão engraçado…?» «O Detective! Ah!» «Conheceste-o?», estranhou. «Não propriamente. Mas, na altura, Dulce falou-me dele. Parece que era um gajo impressionante, de facto.» Sorrimos ambos, amargurados.

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É tempo de vos falar de Dulce. Recordo-me de ver Dulce, que o ia esperar muitas vezes, quando E. C. Bernardo foi meu professor, numa cadeira pessoal, quer dizer, talhada à medida da sua personalidade, que ninguém tinha leccionado antes de si e ninguém leccionaria depois, como acontece com a governação de certos ditadores, cuja morte significa o fim do sentido integral de modo de vida daquele povo. Se eu fosse capaz, ainda que só retoricamente e só por uns minutos, de assumir uma perspectiva heterossexual, julgo que me deleitaria a descrever Dulce: bastante jovem então – não mais do que vinte e quatro anos, teria o Professor E. C. Bernardo quarenta e… dois ou três –, pequenina, com um cabelo muito loiro e muito curto – mais tarde, vê-la-ia com ele comprido, pelos ombros –, agarrava imediatamente as pessoas pelos olhos esverdeados e pelo sorriso que parecia não levar a sério a nossa armadura. Um outro género de apreciador falaria das suas mamas redondas ou das pernas, que ela não escondia. O Professor namorava-a com aquela delicadeza pública com que se trata algo muito precioso e um pouco frágil: abria-lhe a porta, depunha-lhe o seu próprio casaco pelas costas, para a 51


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abrigar, prestava-lhe uma solicitude sem hiatos, tudo coisas que me não recordo de o ver fazer em relação a Luz Botelho. A forma como o Professor se vestia era, ao tempo, um misto incongruente do seu gosto clássico e do gosto, menos sóbrio, de Dulce: o resultado que se obtinha eram aqueles conjuntos de fatos de bom corte, conservadores, que ele usava sobre camisas de folhos, tufos ou cores garridas. Não posso dizer que E. C. Bernardo fosse um professor inesquecível. Poucos lhe prestavam atenção: dava-nos umas aulas sem vivacidade, completamente voltado para si próprio, ou seja, para o quadro, de costas para nós, escrevendo, com método, equações que não lhe compreendíamos – e nem tentávamos fazê-lo, emaranhados no jornal, trocando bilhetes e seduzindo colegas, preparando para os testes de disciplinas mais entendíveis. Ele perdera-se no seu mundo platónico, murmurando uma lengalenga que nos não fazia o menor sentido. A única coisa que, acerca dele, nos interessava, era o persistente mistério de um «teorema sobre a impossibilidade de todo o movimento», que publicara inacabado e, parece, só duas ou três sumidades em Portugal conseguiriam compreender. Sobre tudo isto viéramos a falar, Virgílio e eu, que nessa época nos tínhamos desencontrado um do outro, mas reencontrei um dia, por mero acaso, numa livraria de Entrecampos: a livraria em causa deveria chamar-se Éden, de tal 52


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modo tudo aí se dispõe de maneira a preencher a alma do primeiro homem e da primeira mulher (e cada visitante é, ali, o primeiro homem ou a primeira mulher), que percorrem variadas secções de livros, uns em estantes, outros sobre mesas, até chegarem a um café, num canto abscôndito, mas para onde se sobe pelo esforço de um único degrau; pode-se almoçar, também; prateleiras de metal exibem revistas e jornais, que eu costumava – sem ter a certeza de que seria o seu objectivo – levar para folhear numa das mesas. Virgílio tinha, então, a mesma vintena e pouco de anos que eu: mas, ao contrário de mim, ele publicara um romance, já notado e premiado, e concluía uma tradução do seu homónimo, o poeta Virgílio. Nunca vira o meu amigo nem tornarei, certamente, a vê-lo tão belo, com um brinco minúsculo numa orelha e um vago piercing numa asa do nariz. Não me teria importado que ele, dessa vez, me beijasse. Sentámo-nos em frente de duas taças de chocolate fumegante. Mostrou-me os livros que tencionava comprar – dois ou três romances: penso, mas não juraria, que um de Marguerite Yourcenar; levantou-se para me ir buscar, a uma das mesas, o último livro de poemas de sua mãe, que fez questão de me oferecer. (E, sim, lá estava, na contracapa, uma das fotografias seráficas a que o Professor se viria a referir mais tarde); e, para 53


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além disto tudo, falámos de seu pai, fi-lo rir com episódios das suas aulas, e falou-me de Dulce. «O pai mantém uma figura impecável. Mais do que nunca. Penso que é a Dulce que o favorece. Ele não abdica de fazer uma caminhada todos os dias. De uma hora, ida e volta. Tu tinhas tempo? Eu não teria. Uma hora. Como é que ele consegue? Uma hora, todos os dias, todos os dias. Não sei. Anda, anda, anda. Junta a isso o facto de ter cortado definitivamente com as batatas fritas, e percebe-se…» «E Dulce», sondei eu, que só a conhecia de a ver chegar à faculdade para de lá extrair o Professor, ao fim do dia, «é interessante? Gostas dela? Vive com o teu pai, quer dizer, vivem juntos?» «Vivem juntos todos os fins-de-semana», respondeu, bem-humorado. «Durante a semana, visitam-se assiduamente, mas conservando os respectivos apartamentos. Aos fins-de-semana instalam-se em Sintra. Na casa de uma tia do pai. Não sei se emprestada, se lhe pagam… Não simpatizo muito com esta Dulce, sabes? É uma deslumbrada. Não se tem em si pela atenção que merece do grande Professor. Detesto a forma como me trata, como se eu fosse um puto mimado, como se precisasse de proteger o meu pai de mim. Enfim, evito entrar em choque. E reconheço que ela faz bem ao velho. E visito-os muito. Mas olha…» – E encarou-me com profundidade. Muito fixo, muito 54


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verde de olhos. «Por que não vais ter connosco este fim-de-semana? Eu vou estar lá. O pai havia de gostar. E, para mim, como imaginas, era muito bom sentir-te o apoio…» Eu

não

sabia,

ou não

queria.

E

ele

decidiu.

E

cumprimentou-me pela rapidez da minha decisão Ainda lhe lembrei (e me lembrei) que tirara a carta havia pouco, que não era de me aventurar, que Sintra não era propriamente ao virar da esquina. Mas para quê? Estava irredutível. Que fosse de comboio, nada mais relaxante. «Esperamos-te na estação…» Eu não previa – e se previsse, talvez tivesse tomado, no entanto, a mesma decisão – mas estava entrando no limiar de alguma coisa terrivelmente diferente, bela e medonha, na minha vida. Como testemunha, não mais. Um pouco como alguém que tem o sofrimento privilegiado de se encontrar como turista no inferno. O inferno era mais, aliás, uma obra em progressão do que um lugar, era, ou viria a ser, um processo a fabricar-se, aos poucos, nas suas engrenagens de fogo e de gelo, diante dos meus olhos. E eu, um passageiro nessa trama, um visitante desse teatro, sabendo que não vinha para habitá-lo eternamente.

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O Professor E. C. Bernardo e Dulce eram as duas figuras incomuns e, aparentemente, sem nada de comum também entre si, que se preparavam para a minha chegada, sobre a plataforma concorrida da estação de Sintra, nesse sábado, às dez horas: esperavam-me como se me não esperassem, ela por não saber quem haveria eu de ser (embora, pelo meu lado, me lembrasse perfeitamente de a ver na faculdade, quando ia ter com ele), ele, desatento, olhando em redor sem ver, com um longínquo e fingido ar de atenção, mas, na verdade, imerso na sua música interior. O Professor estava com um simples colete negro por cima de uma camisa creme, de linho indiano, e umas calças azuis, listadas. Usava, contra a malevolência secretamente contida no saboroso do sol, umas lentes escuríssimas, ajustadas sobre as suas lentes graduadas. Quanto a Dulce, como dizer? Respiremos um instante: imagine-se um organismo, um sistema vital tão saturado e irradiante de energia que a cada breve deslocação, a cada mínima sugestão de um gesto seu, correspondessem subtis mutações de luz e cor. De algum modo, como diante de uma pintura impressionista, não conseguíamos sintetizar numa figura 57


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imediata aquele fluir de pequenos contrastes; tínhamos de a compor sucessivamente: o loiro do cabelo, vibrando sobre nós, como um espelho, partículas de sol reflectido, o rosado do seu rosto, o branco da camisola, o quase branco dos braços finos e das pernas, o vermelho imperioso dos calções muito curtos, ou os laranja, amarelo, azul de pulseiras indianas e brincos sul-americanos: era uma percepção infinita e contínua, que em cada momento desdizia

e

recomeçava

o momento anterior,

expulsando para longe de si as inocentes tentações de se lhe apor um ponto final. Fui eu que, empurrando e afastando passantes que, por um momento, nada mais me eram do que obstáculos de permeio, me aproximei do casal, sobressaltando-os, talvez. Não muito. «Pedro. Que alegria», readquiria subitamente, o Professor, uma existência formal e social no mundo. «Como está o meu amigo? Olhe… o Virgílio pediu-me que o desculpasse…» «Não veio?», afligi-me, numa súbita e nervosa ausência de solo, «ele não está em Sintra?» «Está, sim, hum, ele veio, ele veio, Mas está em casa. Em casa, onde ficou, hum, na cama. Já o vai ver, Pedro. Entretanto, não se importa que nos… que nos… enfim, que vamos andando…? Precisava ainda de tratar de umas compras pelo caminho…» Dulce caiu bruscamente do céu: «Como, Edmundo? Não nos vai apresentar…?» 58


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Eu não sabia que o «E» de E. C. Bernardo iniciasse um tal «Edmundo»: pareceu-me uma revelação frustrante, como o espoeirar-se de um dos enigmas do universo. Estendi uma mão canhestra, que Dulce rejeitou para me dar um beijo numa face e um beijo noutra face, enquanto o Professor, estudando novamente a sua formalidade, como um general, enunciava os nossos nomes. A seguir, dirigimo-nos a uma mercearia tristonha onde E. C. Bernardo, como um grande actor que não exige menos de si pela modéstia provinciana do palco e do público, procurava comprar os produtos que, pelo jeito, só ele saberia escolher, detendo-se em minúcias – interrogando o velho de avental que já não era branco, óculos a escorregar-lhe pelo suor da cana do nariz e um lápis curto, mais roído do que afiado, encaixado entre a orelha e a nuca, como os dois extremos de um suporte de livros, e que lhe respondia com interjeições. Tratava-se, pois, de fazer umas últimas aquisições para o almoço: eu desconhecia esta oculta configuração culinária do Professor, que, aliás, não se ajustava menormente ao seu proverbial desajeitamento físico. E portanto, devo dizê-lo, era uma curiosidade tocada de angústia o que me guiava, como a do viajante que, adentrando um território desconhecido, começa a compreender que nenhuma previsão que trazia consigo, nenhum dos mapas que o deveriam orientar, se adequam, em nada, à realidade que se lhe depara. 59


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Ouvia, apreensivo, as explicações sobre a refeição. «O meu amigo», dizia E. C. Bernardo, voltando-se para mim lá atrás no carro, enquanto Dulce conduzia despachadamente o mini, «vai provar um peitinho de frango do campo, hum, que parece uma coisa muito simples, muito, diria, sucinta, como, aliás, acontece com tudo o que vale a pena, mas que, na verdade, comporta inúmeras complexidades de, hum, confeccionação. E segredos, mon cher, muitos segredos… Pergunte-me assim: que segredos?» «Que segredos, Professor?», fazia-lhe eu a vontade. «Bom. Tenho o bicho lá em casa a marinar. Durante um tempo certo. Mais um segundo, e seria a morte do artista. O molho é um segredo maior. Se lho dissesse, teria de o matar depois. E acompanha com um cuscuz de vegetais… Tudo importado de Lisboa! Aqui, na merceariazinha do senhor Costa, foi o que viu: um vinho, uma fruta…»

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A casa era antiga, com infiltrações visíveis da humidade sintrense, mas uma vista para a serra que provocava em mim um repentino cataclismo cardíaco de espanto e temor. Virgílio encontrava-se sobre a varanda, entre buganvílias, perdoem-me o piroso clássico da minha memória, em tronco nu, coçando os caracóis da cabeça com as fúrias matinais de quem vem de sair da cama. O Professor E. C. Bernardo desapareceu por uns segundos e, como se abrisse lá para dentro um dique por onde inundava rapidamente a casa de som (as estridências de uma ópera predilecta), chamou-nos para a sala, onde nos sentámos sobre almofadas no chão, com bebidas rosadas nas mãos. Após o almoço, de facto agradável, mas menos sublime do que dera por mim a esperar, Dulce mostrou-me, com uma qualidade de ironia entre o divertido e o impaciente, a cozinha utilizada pelo Professor: e, como num cartoon de Quino, o que estava diante dos meus olhos era uma rebentação de panelas esquecidas pela mesa, uma colher de pau sujíssima, tampas perdidas, manchas no chão, não sei mesmo se não algumas pelas paredes, como se algo houvesse explodido ali, um fogão com 61


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nuvens de sujidade incrustadas, ou um frigorífico entreaberto, com alarmes alertando para o perigo do descongelamento… Nesse primeiro sábado, não me apercebi da anunciada tensão entre Virgílio e Dulce. Nem, talvez, houvera um minuto disponível para isso, porque a perpétua zanga entre o filho e o pai ocupava a maioria, não só do tempo, mas do espaço inteiro, do total de Sintra, comprimindo-a sob uma electricidade malsã que pressentíamos onde quer que fôssemos: ah, não se tratara, pois, de alguns episódios dependurados de uma adolescência rebelde e conflituosa. Era um não-contacto expressivo, uma aversão íntima, que se respirava sempre que eles ocupavam o mesmo círculo de espaço vital. Era um terceiro ser entre os dois, que nascia da longínqua proximidade deles. Às vezes, tornava-se um fantasma tão denso e abafante, que acabava por eclodir em discussões infamantes a propósito de minudências: um verso de Byron – estávamos, afinal, em Sintra… –; uma toalha abandonada, por Virgílio, no chão da casa de banho; uma escolha de vinho; um atraso para o almoço – atraso pelo qual, aliás, fora eu mesmo o único responsável –; uma incompatibilidade de gostos acerca da qualidade da voz de certa soprano norte-americana; ou, e este tema é, porventura, o meu preferido: que diabo seria precisamente o «caril», se uma especiaria, se um modo específico de preparação dos pratos. 62


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A sós comigo, Virgílio revelava o carácter da sua humilhação, dedicando-se a tentar circunscrever a culpa precisa, o momento fatal em que um dos dois, ele ou o pai, fora o causador da viragem que atirara uma simples conversa para um jogo assassino. «E reparaste bem no silêncio dela?», perguntou-me, de lágrimas nos olhos. «Não foi capaz de intervir…» «Ah, mas era difícil, Virgílio. Tu e o teu pai faziam medo. Se reparaste, eu também não me meti…» «Mas tu és visita, Pedro. A ti, compreendo. Mas a ela…! Porra! Ela, vendo perfeitamente que o meu pai não tinha razão.» «Ah, isso aí, espera, mais devagar…» Posso dizer, para me justificar, que nem tudo é infernal no começo do inferno. Posso acrescentar que, no início do verdadeiro inferno, há qualquer coisa de irresistível, que nos atrai, ou deveria escrever: que nos trai?, qualquer coisa de celestial que nos cativa e cega para a verdade. Posso dizer, em meu abono, que o prazer de ter reencontrado um amigo, ou de ouvir o Professor, seu pai, tocando-nos, à noite, árias ao piano ou em violino, enquanto cabeceávamos segundo o compasso, de bebida rosada na mão, ou as demoradas conversas em que nos falava da inexistência do movimento, ou a voragem de Dulce, que parecia saber, inesgotavelmente, alguma coisa mais 63


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– às vezes, dir-se-ia que inventada – acerca da face esotérica da Quinta da Regaleira, fizeram com que eu não visse, ou não desse importância, ao mal germinando ali. E com que não fosse capaz de lhe fugir quando e enquanto teria tido tempo. Portanto, aceitei os convites que se repetiam. E imergi no inferno sintrense. Numa queda vertical, fim-de-semana após fim-de-semana, ia ter com eles, mesmo quando Virgílio não estava. Ou seja: ele e eu descruzávamo-nos frequentemente. Mas, ainda assim, ora na presença, ora na ausência de Virgílio, precipitava-me cada vez mais fundo; assistia – já o disse – à elaboração do inferno!

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Dulce era o princípio activo daquela casa bela e húmida: fui-me dependendo, emocionalmente, cada vez mais na sua presença, à medida que a revia em Sintra, para onde me deslocava, então, já no meu próprio automóvel em segunda mão, de posse de uma recente e pouco audaz carta de condução. Queria-lhe bem, como a uma amiga única, íntima, ou tão íntima quão íntima pode ser uma pessoa que, realmente, não conhecemos. Queria bem ao seu riso, como as cores irradiantes e o som fragmentado de um foguete rebentando na noite festiva; queria bem a Dulce porque ela me divertia com as suas – espontâneas, imprevisíveis, labirínticas – aproximações e associações entre os mais afastados, díspares e opostos aspectos de tudo: a sua fala era uma magnífica e bizarra flutuação, misto de enganos, símbolos, metáforas,

sinédoques,

metonímias,

transferências

e

interferências de um pensar impaciente, mais veloz do que as palavras, com as quais não lhe apetecia demorar; a sua fala era uma trama maravilhosamente imbricada, uma contínua altercação consigo mesma, que tínhamos de ir adivinhando, mais do que compreendendo… 65


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Intuindo, muito depressa, que eu a desejava de todas os modos menos sob o modo do sexo – desejava-lhe a cumplicidade, a conversa, o riso…–, Dulce tratava-me da mesma maneira. Devo ter sido o único ser vivo que ela nunca se deu ao trabalho de seduzir. Coqueteava irresistivelmente com todos, através do seu olhar, do seu sorriso, de uma sua disposição ligeiramente inclinada dos ombros: com todos, menos comigo. Lembro-me particularmente bem dos seguintes episódios: Num deles, encontrávamo-nos num local tão anti-romântico como um talho, e pressenti que o toca-e-foge de olhares entre Dulce e o jovem atrevido que a atendia, se desenrolava numa tão sublime e implícita corrente erótica, que preferi sair para fumar um cigarro à porta. No outro, guiava o seu mini. Eu seguia a seu lado. Virgílio ia atrás, fechado na música solitária, pessoal, impartilhada, dos seus auscultadores. O carrito parou diante de um semáforo vermelho: e nem os primeiros segundos haviam transcorrido, quando se lhe pôs ao lado – do meu lado –, um automóvel; e ao volante do automóvel, um homem ruivo, não certamente bonito, mas de uma fealdade confiante, viril, não repulsiva; e, como se eu não existisse entre os dois, os seus olhares faiscaram como duas lâminas, num mútuo encantamento, um mútuo reconhecimento 66


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de dois seres livres e generosos, ambos simultaneamente presa e caçador. Os seus olhos prendiam-se inevitavelmente a um olhar pressentido numa rede próxima, do mesmo modo que não há maneira de um casaco de malha não se prender a uma farpa. Emanava dela uma espécie de liberdade no gesto, que era um chamamento ao passo a seguir, talvez até o tourear a dignidade do outro, como no caso do miúdo que testa um amigo, «Não és homem não és nada»; e só contra mim esse poder de falsa presa não foi usado: Dulce e eu éramos, sei lá, duas amigas. O Professor E. C. Bernardo mantinha em relação a mim, pelo contrário, uma certa ambiguidade: e, aliás, na sua distracção genial, não parecia reconhecer-me nas aulas, ou sobrepor-me à mesma pessoa que o visitava, assiduamente, em Sintra. Até o leve trejeito de espanto com que recuou, correspondendo, com alguma cerimónia e incerteza, ao cumprimento mais efusivo que eu lhe atirei, no corredor da faculdade, a caminho de uma de suas aulas, levou a que eu nunca mais repetisse: na universidade, continuava, portanto, a ser o aluno comummente desatento de um professor incomummente desatento – de um génio que não descarrilava das linhas, a giz, das suas contínuas equações, e que não ouvia, já não digo o mundo, mas sequer aquela parte do

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mundo que era o ruído que nós praticávamos à sua volta, enquanto ele rabiscava no quadro. Sei que Virgílio terá de regressar ainda hoje ao cemitério, uma vez que, por alguma razão que me escapa, só às quinze horas lhe será feita a entrega das cinzas do pai. Ou melhor – das cinzas: o pai. Poderia ter-me prontificado para estar junto dele. E, se o não fizer, meu Deus, quem sabe quando o tornarei a ver, ou se tornarei a vê-lo? Mas custa-me. Desfaço-me todo contra esta ideia de que não sei que género de cinzeiro guardará as cinzas que eram Edmundo C. Bernardo. Ora aí está um cinzeiro que a mulher-a-dias não poderá limpar, ora aí estão umas cinzas que nunca deverão ser removidas

nem

espanadas…

É,

digamos,

o

pormenor

indissolúvel! Porque, no pior sofrimento, tudo acaba sendo dissolvido no esquecimento, salvo um caroço ou dois caroços. O meu caroço é a imagem de um eminente Professor e músico reduzido a pó. Por exemplo, para uma senhora idosa, tia de E. C. Bernardo, o caroço será para sempre a entrada, na capela em que velávamos o corpo, de um anão de casaco vermelho. (De facto, e tenho de pedir uma vez mais desculpa pela incorrecção do meu sentimento e da minha franqueza, de facto como se não bastasse a sua 68


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estatura para dar nas vistas). Mas o anão de vermelho, de resto, descontando o nanismo e o casaco, manteve-se de uma discrição e de uma tristeza perfeitas e adequadas; por outro lado, para o padre, aquele padre muito velho e curvado, o pormenor excessivo teria sido uma criança a brincar, indiferente à tragédia, durante a sua homilia… – E chegou a dizer, com uma dignidade severa: «Não tragam crianças!» – Mas as crianças não estão sempre a mais, em sociedade com os adultos? Uma vez, em Sintra, num daqueles fins-de-semana em que Virgílio e eu, afastando-nos dos outros, passeávamos, como jovens vampiros ou lobisomens, mas vampiros ou lobisomens muito conversadores, entre as árvores de matas frondosas, semienterrados numa neblina espessa, espectral, perguntei-lhe: «Como era a Leonor? Era uma menina bem-comportada?» Demos vários passos sem falar, com o seco das folhas a estalar-nos sob as solas. Arrependia-me da pergunta. Mas riu-se: «Leonor era terrível. Em locais públicos, tornava-se simplesmente insuportável». [Hoje, ansioso por compor o passado como se retocam certas fotografias oficiais, talvez Virgílio já não fosse capaz de o dizer]. «Sabes como é, estás farto de ver em restaurantes. Aquelas famílias com miúdos esgotantes… percebes… em que apetece levantares-te da tua 69


Gil Duarte

mesa, dirigires-te à criança, que não conheces de nenhuma parte, e dares-lhe um par de bofetadas. Leonor era dessas! Caraças! As crises de fúria que o pai tinha! As cenas! Lembro-me de uma vez. Numa viagem ao Norte que fizemos», e posso estar errado, mas juraria que foi a primeira vez que ouvi uma referência a essa célebre viagem, «estávamos a jantar num restaurante. Em Braga. E a Leonor cheia de sono. Com birras de faca e alguidar. E o pai com birras de faca e alguidar também. Depois, repentinamente, ela acalmou. Seria já o sono? Não. Fixava a sua atenção num miúdo de outra mesa: um garoto horroroso. Pais desesperados. Muito jovens. E, então, a Leonor pôs-se a imitar o puto. A perguntar, estás a ver, de maneira que todos a ouvíamos, até os pais do outro, envergonhadíssimos, nós envergonhadíssimos, e ela: Ó pai, ó mãe, aquele menino está a portar-se muito mal, não está? Está a fazer assim e assim. E punha-se a mostrar como é que o miúdo fazia. A Leonor só sossegava quando ficava curiosa com miúdos, se possível, ainda mais desassossegados e malcriados do que ela. Só sossegava perante executantes melhores, quer dizer, piores do que ela!» Tínhamos o meu carro perto, à porta, se assim me posso exprimir, da floresta. Regressávamos. Algumas vezes – não muitas: algumas vezes –, entre sucessivos desencontros e descruzamentos, Virgílio e eu 70


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combinávamos fazer juntos a viagem de Lisboa a Sintra. Raramente, porque ele preferia ir na sexta-feira à noite, eu só podia no sábado de manhã. Mas aconteceu. Seguíamos no meu automóvel, ouvindo música (mas nunca a música que o seu pai apreciava, como se adiássemos até ao limite essas óperas que, em Sintra, nos perseguiriam, e se nos antecipariam, guiando-nos, colando-se-nos, ocupando-nos sem guerra, como a territórios sem importância nem defesa). E foi numa dessas viagens que Virgílio me contou por que já não ia, por que não ia tanto. «É que eu até me sinto constrangido», dizia-lhe eu. «É chato estar sempre a aparecer sem ti.» «Deixa-te disso. Tu já não vais como convidado meu, pá. És um convidado do casal. O pai abre-se imenso contigo» – surpreendia eu algum ciúme? –, «a Dulce acha-te fantástico!» Entrávamos na cidade, o parque surgindo-nos à direita, impondo a sua presença ao longo do caminho. «Mesmo assim», repetia eu, à falta de poder desdizer-lhe a observação indiscutível, «mesmo assim…». «Eu vou, ou não vou. Tenho muito mais que fazer. Frequentemente. Tenho frequentemente bem mais que fazer… Não posso empenhar nisto todos meus fins-de-semana. Tenho mais que fazer, pá».

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«Por causa da tradução? Ou estás a escrever um novo romance? Porque isso não impediria…» «Eu apaixonei-me». «O quê?» «Não ouviste?» «Temi não ter ouvido bem. A Isabeau voltou?» «A Isabeau?! Ah! Ah! Lembras-te da Isabeau?» Isabeau. E Isabeau foi o desvio na conversa – estávamos, até, a chegar –, de modo que preferimos recordar o passado risível, «Parece mentira! A Isabeau! Que namorada que arranjei! Ou melhor, que namorada que me arranjou!», preferimos isso a dissecar isto: que Virgílio estava apaixonado.

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Da mesma maneira que não conheci Leonor senão sob a forma incerta e difusa das memórias alheias, mas isso não evita que ela se fosse tornando uma personagem cuja sombra assombra cada uma de todas as páginas desta história, também ainda pouco foi dito acerca do ciúme: e, contudo, isto que vos narro não me parece que seja mais do que uma face, uma das possíveis faces do ciúme. Detenho-me agora, pensando sob que ângulo agarrar o ciúme, não, agarrar não, tocar-lhe ao de leve, como a um bicho que não quero acordar todo. Havia, na casa de Sintra, alguns livros de Luz Botelho. Um, antigo já, de poesia, outro de contos, com um conto, em particular, que me recordei, relendo-o, de ter estudado no liceu. Será esta uma boa forma de me aproximar do monstro? Ao de leve, repito? Dulce nunca teria sentido aqueles livros como objectos ameaçadores? Esses livros impregnados de uma cultura que, para o Professor, que os lera e os amara – e estavam ali, ao pé da sua mão, numa estante, carregados de passado, de notas e de 73


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sublinhados seus, ainda que ele nunca mais voltasse a lê-los –, nunca evocariam a presença da ex-mulher? Dulce não olharia para as lombadas, não os folhearia, nunca os teria folheado, parando num verso tão vivo como se fosse a própria voz de Luz Botelho a murmurá-lo? Não veria estes livros como intrusos? Nunca o ciúme, transpirando deles, lhe murmurara teorias hostis? Talvez não. Mas deixem que procure ainda sintomas do ciúme. E. C. Bernardo era ciumento. Um ciumento contido, por certo, um sofredor discreto: até porque, penso eu, não experimentava o ciúme exclusivamente como mágoa, mas, às vezes, como a percepção, com seu fascínio próprio e luminoso, da liberdade de Dulce. Como a ambígua consciência de que não é possível prendermos a nós, em todos os momentos, o olhar ou o sentimento de alguém por quem estamos apaixonados, porque ela vê e sente variadamente; porque ela não está retirada do resto do mundo por força do amor que nos tem; porque ela nunca está vacinada contra a tentação, contra a distracção, contra a sedução e o desejo, que se dividem, espalham e dispersam como esporos… Esse sentimento dúbio mede-se no interior de um espectro amplo: pode situar-se entre um sobressalto prolongado, quase feliz (de uma felicidade inquieta, turvada de angústia, mas que nos mantém vivos porque conscientes de que a pessoa que 74


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amamos está viva) e, no extremo oposto, uma tortura excruciante, já humanamente impossível. Este sentimento dúbio era o sentimento com que o Professor Bernardo reagia à mobilidade erótica e aventureira de Dulce. Aos seus amores: no passado (em que houve, entre outros, um perturbador namorado cego, sendo que, para a nossa imaginação, a cegueira, nos jogos eróticos, parece uma vantagem) e, se não no presente – que soubéssemos –, então com certeza no futuro. No futuro, é quase tudo possível. O Professor Bernardo, nesse tempo, não me via como um confidente. O seu ciúme era um segredo bem disfarçado, só, quando muito sugerido por breves e contidos movimentos de sobre-atenção, em algumas situações de suspeita. (Consagrar-me-ia como um confidente absoluto mais tarde – mas, aí, nesse tempo a que ainda aqui não chegámos, eu nem sequer serei já seu aluno, e o inferno ter-se-á revelado em todo o seu catastrófico esplendor…) Mas é verdade que, mesmo não sendo capaz de toupeirar a totalidade dos submundos da sua resposta, estranhei que, ao perguntar-lhe, com alguma ingenuidade, «Professor, realmente o movimento não existe? Por que se lembrou de…?», ele me tenha dito: «Que pergunta tão bonita, Pedro, meu caro! Vê-se que já suspeitou, hum, de como nascem as melhores teorias. Claro. Se, 75


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no fundo, me interroga sobre o que terá levado este chanfrado a tentar, hum, provar a inexistência do movimento, é porque percebe que o meu esforço tem uma génese histórica e psicológica…» Estava de calções, de havaianas. Os óculos embaciados, por causa do café muito quente numa chávena bojuda que segurava com todos os dedos. «Sabe, posso dizer-lhe Pedro, que demonstrar que não há movimento, me serviu para negar a possibilidade de que as pessoas que eu amo me pudessem alguma vez fugir…» E encerro aqui este capítulo. Percebo que os incomodei de mais. Os fatiguei. Deixemo-lo chegar ao fim. E afastemo-nos, por mais um pouco, do ciúme: como de um minúsculo organismo adormecido, que não precisamos ainda acordar, não vá ele crescer, crescer, crescer, até já nada mais haver em redor.

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Maria da Luz, a poeta Luz Botelho, suicidava-se com uma certa regularidade. Perdão! Não resisti à perfídia da frase, mas se o parágrafo não corresponde matematicamente aos factos, corresponde-lhes emocionalmente: no fundo, os mais eficazes suicídios da mãe de Virgílio foram os poemas que ela escreveu: estes escorriam-lhe, como sangue, de um corte que se não estancava na alma. Fora tais suicídios, Luz Botelho experimentou uma única vez o acto de acabar-se, e sem sucesso. Bem sei que parece maldoso dizê-lo. E frívolo. Porque, ainda por cima, ela negou sempre que se tratasse de querer matar-se; falou em esgotamento, em excesso de medicação, mas um excesso nervoso, não intencional, e à procura quando muito de pequenas mortes, isto é: dormir. Virgílio, durante esse transe, ocupou a casa da mãe, ocupou-se da mãe. Aí, em Carcavelos, o procurei ainda uma vez. Luz Botelho abriu-me a porta e fez-me entrar num apartamento obscurecido, muito fechado, sem ar. Estava pálida, combalida, em roupão. (Vê-la-ia sempre, nessa casa, sob o mesmo conjunto de indícios de insalubridade). 77


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Lembrava-se de mim. Não havia fotografias e, nesse buraco negro fotográfico, parecia-me quase ostensivo e ofensivo que não existisse uma única fotografia de Leonor; mas havia gatos gordos e moles, aparados

de

qualquer

vocação

felina,

ronronando

preguiçosamente pela casa, ou repousados sobre o seu colo de mulher doente. Na composição da casa de Luz Botelho, eu descobria de súbito, surpreendido, a razão da sua dupla personalidade: ela era Maria da Luz, mulher do Norte, com gostos e práticas formados por uma infância e uma adolescência rurais, nunca renegadas – e ali estava a sucessiva exibição do artesanato da sua aldeia, sobre mesas e armários; ali estavam santas, entre as quais uma bizarra Rainha Santa Isabel em barro, com focinho de porco e o milagre das rosas operado sobre o manto entreaberto; ali estava até, e sem a menor ironia, um azulejo convidando a entrar quem viesse por bem –, mas tornara-se Luz Botelho: e ali estavam também, por outro lado, prateleiras de poetas Gregos e Romanos, o quadro que Paula Rego lhe oferecera, numa parede, pistas de Beethoven, como um amante que, à entrada de um intruso, tratara de se esconder, esquecendo vestígios bem notórios, o cheiro, a temperatura, algumas notas de música flutuando. Luz serviu-me um chá na varanda: o lado oculto e bom da casa, soalheiro, onde uma mesa com cadernos, folhas, uma 78


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caneta de aparo e um pequeno computador constituíam os instrumentos da cerimónia poética. Os gatos tinham-nos seguido até ali. O silêncio era o fundo que quase tocávamos, mesmo sob o vozear estrídulo de uma creche, em frente. Virgílio tinha orgulho naquela mulher magra, de cabelo já quase branco, despenteado, e em chinelos. Queriam que eu jantasse, queriam que eu dormisse. Não jantei, não dormi. Tinha decorrido já quase um ano desde o prazer de me haver convertido num satélite da casa de Sintra. A euforia inicial esmorecera. As interrupções sucediam-se, eu afastara-me. Deixara, entretanto, de ser aluno de E. C. Bernardo. Via-o praticamente todos os dias na universidade: familiarizara-me com a sua nova figura que, naqueles dias de chuva, se completara com um panamá, sempre a escorrer água. O Professor torcia-o, à entrada, como quem esgana metódica e diligentemente alguém, antes de tornar a colocá-lo na sua cabeça, ainda muito molhado. Eu acenava a Dulce, que o ia ainda buscar. Quando falávamos, Dulce e eu, ela perguntava muito, convidava muito. Marcámos uma ida ao cinema, à tarde, só os dois, mas provavelmente esqueceu-se: como não aparecia e eu recusava o ar solitário, melancólico e abandonado a que cheiram as pessoas que estão sozinhas a ver um filme, fui-me simplesmente embora. 79


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Tudo aquilo parecia ser o ocaso da juventude, o desprendimento em relação a um passado irrepetível. Não supunha que, durante as férias, Virgílio tornaria dos seus dias em casa da mãe, completamente destroçado pelo convívio com a veia trágica de Luz, ansioso por um renascimento do nosso tempo de Sintra. (Já pouco me lembrava desse tempo). E convidou-me para irmos juntos de férias! O pretexto, pelo menos o pretexto inicial, porque havia um pretexto inicial, era a presença do Dr. Nóbrega, o anão que revi, tantos anos depois, a velar, em inesperado casaco vermelho: este convidara-se a si mesmo para uma sessão na casa de Sintra. Levava, ao Professor, o filme de que eram ambos hiperbólicos admiradores: Nosferatu, de Murnau. «Que queres mais?», perguntava, cínico, Virgílio: «um filme a preto e branco, mudo, de vampiros, passado por um anão!» E prometia-me que eu iria conhecer, finalmente, a rapariga por quem se tinha apaixonado. À última hora, que mudara de ideias. Não levava ninguém, mas que aceitava a minha boleia. Como refazendo, à imagem do passado, alguns dos nossos melhores dias em comum, passei a buscá-lo numa manhã de sábado, muito cedo, com um desequilíbrio de bem-estar na alma: tudo aquilo, levar malas lá atrás, na bagageira do carro, que passara a noite a arrumar, ajudar Virgílio com a bagagem dele, o seu sorriso, a argola que usava na orelha, as jeans justas, ser 80


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sábado, ser tão cedo, tomarmos juntos o pequeno-almoço num café que quase abrimos à força, a expectativa da viagem, de reencontrar o Professor, a sua música, o seu anão, o seu Nosferatu e, sobretudo, rever Dulce, não uma Dulce descontextualizada, entrevista em corredores da faculdade, mas sim a Dulce completa e autêntica, minha amiga de há tanto tempo, tudo isto me fazia gostar muito de ser eu próprio. Coitado! Cuidado! O último fulgor de felicidade é a derradeira ilusão que o inferno proporciona, antes de se abrirem as cortinas para o seu grande espectáculo.

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Em todas as noites desses quase vinte dias que vivemos colectivamente, esse concentrado de férias puras – e eu fui embora de súbito, mais cedo do que prevíramos, incapaz de suportar a direcção em que os acontecimentos se precipitavam –, nos deitávamos para além das quatro horas da manhã. Dulce era, depois, a única que acordava cedo, enquanto nós ressonávamos ainda pela manhã dentro, com aquele cansaço que mostram os corpos nus ou em cuecas na cama, mal cobertos por lençóis muito enrodilhados, as mãos desesperadamente agarradas às almofadas, ou contorcidas em posições impossíveis. Cheirava sempre a suor, a bebedeira; emanava no ar uma aversão à manhã, ao ruído, ao menor esforço. Pelas onze e muito, às vezes ao meio-dia, quando principiávamos a juntar-nos sob o guarda-sol inclinado, no terraço da casa, cafezando, chávena após chávena, e começando a conversar com vozes ainda roucas e remelosas, à medida que um ser vivo, todo de cafeína feito, ganhava forma dentro de nós, Sintra ia-se tornando presente aos poucos, em minúsculos nadas. E tudo tomava uma consistência, ou nem tanto, apenas uma suave e descontínua temperatura de felicidade, como se nos 83


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lembrássemos: «Estás de férias! E não querias estar noutro lado! E não querias estar com outras pessoas!» E. C. Bernardo afastara-se praticamente de nós, ou nós tendíamos a dele nos afastar, e ressentia-se, é evidente, da separação: como se um grupo de jovens o tivesse excluído e partisse em busca de aventura. A culpa não era nossa. Mesmo deitando-se tarde, o Professor nunca se deitava depois das duas da manhã – hora em que, para Virgílio, Dulce e mim, a noite começava a sair do seu esconderijo. E convém não esquecer que durante dois dias se dedicou carinhosamente ao Dr. Nóbrega, com o qual fazia demorados passeios higiénicos a que Dulce, Virgílio e eu fugíamos polidamente. No entanto, era principalmente por causa de Dulce, e desta sua escolha de campo, que o Professor se ofendia, ainda que, por dignidade, não querendo parecer ofendido, e reduzindo o mal-estar, por isso, a pouco mais do que uma azia do espírito. Podia estar, por detrás desta susceptibilidade, uma certa história: e eu soube da «história» por essa altura, numa conversa nocturna com Virgílio, de quem partilhava o quarto mas não o leito. Virgílio, de resto, parecia zangado, como se o golpe na honra do pai o atingisse também, por interposta pessoa. 84


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Mas, a mim, a história tocava-me, imbuída de uma beleza frágil, ajustada ao que eu conhecia de Dulce. Uma noite, em Lisboa, Dulce tinha ido actualizar (palavra sua) a amizade com um grupo de amigos que não via há muito tempo: que não via precisamente desde que iniciara o seu namoro com E. C. Bernardo. Eram todos amigos de um tempo medido (ou desmedido) em noitadas estudantis; no reencontro, colando-se uns aos outros, acabaram por caber todos num único automóvel, o do principal agitador daquele grupo. Começaram por assistir ao espectáculo de um duo de comediantes espanhóis e, a seguir, foram comer camarões e beber imperiais para uma cervejaria. Virgílio falava-me, delirante, até de uma boina que Dulce teria levado nessa noite. Não sei se ele sabia tais pormenores, se era numa espécie de febre criativa que os ia inventando. Muito tarde, já com os empregados da cervejaria praticando jogos de luzes, para prevenir o resto de clientes que, muito obrigado, mas se fossem embora por favor, saíram para o fresco do passeio, rindo ainda, sem força para se separarem. Sentados no chão, à luz de candeeiros, conversaram certamente durante horas. Depois, procuraram o carro, ensardinharam-se e seguiram. No quarto onde ambos dormíamos, Virgílio e eu, de janela aberta, ouvia as voltas que ele dava na cama, enquanto a sua voz, rouca de raiva, me ia descrevendo a noite de Dulce entre os seus 85


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amigos. Eu não movia a mínima porção do meu corpo, não respondia, não comentava. Todo eu era silêncio. Não o apressava. O amigo condutor levou-os a casa, um por um, num circuito complexo, em que Dulce ficava para o fim. E no fim, diante do prédio onde ela morava, deixaram-se estar muito tempo em silêncio, um silêncio que não era mais do que a gestação do momento certo da tensão. No momento certo da tensão, tocaram-se, beijaram-se. Mas como Dulce não o podia convidar, porque os veriam decerto, ele perguntou-lhe «Queres vir a minha casa?», ela respondeu «Quero», o automóvel arrancou. «Mas como sabes essa história toda? Estás a inventar? É o teu último romance? Foi Dulce que te contou?» «Foi.» «Não acredito. Não acredito. E o teu pai, sabe?» «Sabe. Não se vê? É tremendo, não achas? Repara. Com um amigo que revê volvidos anos. Nem sequer com um namorado. Nem sequer num acto de paixão. Como é que uma mulher faz amor assim, com alguém que…? E um gajo comprometido, com namorada, aliança, pronto para o casamento…» Se me fazia impressão? Nenhuma. Havia, pelo contrário, nessa ideia de um acto erótico de pura amizade mais do que «terem feito amor», algo de encantador, muito «Dulce». 86


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Se me fazia impressão o que E. C. Bernardo poderia ter sentido? O Professor retraíra-se. Não exibia o ressentimento. Estava alheado. Quando o Dr. Nóbrega se nos reuniu, o Professor Bernardo tentou primeiramente juntar-nos todos. Mas não o conseguiu senão em duas situações memoráveis. Uma, foi a noite cinematográfica. Nosferatu, o Vampiro. No meio do silêncio próprio de um filme mudo, e a preto e branco, situávamos as silhuetas do Professor e do seu amigo, completamente presos ao ecrã. Dulce riu-se no momento em que o vampiro, muito magro e calvo, se preparava para ocupar a sua nova casa, transportando, sob o braço, o caixão compridíssimo – mas, embora não víssemos mais do que vultos na escuridão da sala, podíamos quase percepcionar a energia fantasmagórica de duas cabeças que se voltavam para ela, vergastadas pelo seu riso. Procuraram, a seguir, animar uma conversa acerca do poder do filme, de Murnau, do expressionismo alemão mas, a partir de certa altura, já não havia senão os dois argumentando, discordando aqui, acordando noutro ponto. Havia fumo de charuto – o Dr. Nóbrega fumava –, as bebidas rosadas, o seu prazer cinéfilo, o nosso cansaço.

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A outra situação em que nos reunimos todos foi a «sessão musical»: nunca antes tinha visto, que me recorde, o pai e o filho, como nessa noite, improvisando um dueto que não deixava de ser, ao mesmo tempo, um duelo. E. C. Bernardo ao piano, Virgílio dedilhando uma viola de caixa, harmonizavam-se vagamente numa escaramuça entre duas melodias que nunca superavam uma certa tensão, mesmo nos momentos em que se não repeliam. Mas, fora essa, o tempo ia passando sem outras discussões entre os dois! Ao contrário de um passado recentíssimo, de fins-de-semana em Sintra, de que me lembrava perfeitamente, não se davam, nestas férias, praticamente guerras entre o pai e o filho. Por uma única razão: passavam muito pouco tempo juntos. Contudo, como se uma transferência se tivesse operado, Virgílio e Dulce amuavam com frequência. Era uma série de amuos, mais dele do que dela, muito pueris, sempre a propósito de irrelevâncias, como uma deslocação, como se a verdadeira razão estivesse sempre noutro lugar. Como se a verdadeira razão, a causa certa, fosse proteger a honra do Professor, dizia-me eu. Mas o ponto é que, durante o princípio das férias, e durante uma longa extensão desse princípio, a proliferação regular de minúsculas dissensões entre Virgílio e Dulce, ou de silêncios entre eles, ou mesmo de momentos em que se gritavam, não conseguiam fazer-nos esquecer a felicidade. Em Sintra, a 88


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felicidade era mais ter tempo do que dinheiro para gastar: comíamos em pequenas tascas de ruas esconsas, voltávamos à Quinta da Regaleira, já sem outro guia que não fosse a própria Dulce, indicando, eufórica, escadas em caracol, sinais maçónicos, arranjos secretos ocultos nos jardins, e, ao lado da Quinta, Seteais. Mas o nosso prazer maior residia na repetição daqueles passeios que Virgílio e eu tínhamos inaugurado há muito, por entre árvores e rochas, neblina e folhas. Às vezes deitávamo-nos no chão, falando ou calando. Outras vezes calcorreávamos, subíamos ou descíamos inclinações íngremes do terreno, sempre um pouco temerosos, como se fosse possível perdermo-nos. Mas era à noite que Sintra acordava, com espectáculos – dança, teatro, música – e, quando não preferíamos ficar em casa, onde nos divertíamos também, tudo o que nos acontecia trazia em si o rasto da inesquecibilidade: qualquer coisa que vivíamos rodeados pela consciência difusa, como um microclima, de que nunca esqueceríamos aquele tempo, aqueles momentos.

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A tarde em que fiquei em casa deveu-se a uma decisão para a qual concorreram inúmeros factores, e em que nenhum deles pesava, isoladamente, mais do que os outros, mais do que a configuração singular de todos: o meu cansaço, uma ligeira dolência que se confundia com saciedade – estava cheio de Sintra –, uma irritação crescente contra as zangas deles, um enjoo da presença quase desintervalda de pessoas, como uma vaga ânsia de solidão. Mantive-me no quarto durante muito tempo, dormitando, fumando, lendo livros que trouxera comigo: e foi a leitura que me levou à sala, em busca de qualquer coisa de Luz Botelho. (Virgílio oferecera-me um livro dela, talvez se lembrem, mas nunca o tinha lido). Em vez de Luz Botelho, deparei-me com E. C. Bernardo. Vestia uma camisa púrpura, negligentemente desabotoada, umas calças de ganga e umas improváveis socas negras. Fumava de um cachimbo, coisa que nunca o vira fazer antes. Cumprimentei-o. Levantou os olhos, por detrás dos óculos, sobre mim, com a surpreendida fixação de quem vê entrar alguém que se desconhecia ou não soubesse que estava em casa. 91


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«Vinha à procura de poesia de Luz Botelho. Tinha curiosidade, reparei em dois livros que há…ali... mas se incomodo…» «Não, não, não, Pedro. Deixe-se estar. Está sozinho? A Dulce não…?» «Foram à cidade.» «Ah! Faça-me companhia, Pedro. Quer um uísque?» Aceitei. Enquanto mo preparava, sondou o meu interesse por Luz. E começou a falar acerca da sua dupla personalidade: a imagem leitosa, hierática – e socorreu-se de um livro que retirou da estante para mo entregar, mostrando-me o retrato dela na contracapa, ao mesmo tempo que o copo de uísque –, que em nada se ajustava ao seu lado oculto e prático. Prático, como? Dava traques, respondeu-me. Depois monologou, longamente, acerca da viagem mais estranha que empreendera – e, com efeito, segundo a sua versão, fora uma empresa, um empreendimento – pelo Norte acima: eram quatro mais um peixinho vermelho fechado num tupperware. Falava numa voz sempre igual, com um humor cáustico mas aparentemente involuntário, fazendo-me rir sem, porém, se rir das suas próprias palavras. Falou de Luz e de Virgílio. Falou de Leonor.

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Mas a sua voz ia-se rompendo em interrupções cada vez mais vastas, até que se apagou num silêncio de esquecimento, como se a minha presença se tivesse decomposto em átomos. Incomodado, mas sem me atrever a reatar a conversa, folheava as páginas do livro, que não me captavam a atenção: não as lia, ou lia-as sem as ler, dando, a espaços, alguns golos na bebida. E mesmo se, num breve lapso da minha vagueação mental, segurava um verso qualquer, desatentava logo nele, soltava-o de imediato e deixava-o escapar, sem lhe ter percebido nenhuma beleza, nenhuma grandeza, nada de único, ou de excepcional: só palavras aquém do lembrável. Aliás, o único poema de Luz que eu alguma vez soube na íntegra é aquele, dedicado a Virgílio, que ouvira frequente e fragmentariamente citado por Dulce, sempre com a mesma garra de ironia: Quando destroçado, Volta ao princípio. Poderás voltar sempre ao princípio, Isto é, Sempre enquanto o princípio for vivo, Porque o princípio não é um sítio, Mas uma pessoa, A que te amou desde o ventre: E mais nenhuma te amará tão bem e tão mal, Mais nenhuma realmente te amará.

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Gil Duarte

Contudo, esse poema não estava ali, em nenhuma daquelas páginas nervosas que se me dobravam ligeiramente entre os dedos. Ao cabo de muito tempo, o Professor levantou-se, inquieto. Acercou-se da janela aberta. Persegui-o com os olhos, mas, de novo, rapidamente me distraí: aquela marca, horror, teria sido feita na página do livro pela porcaria do meu uísque? Quando procurei perceber se ele se teria apercebido do acidente, vi que me olhava, ainda de ao pé da janela. «Como se tem dado aqui em Sintra, Pedro?». «Muito bem, Professor. E queria precisamente aproveitar para agradecer-lhe o convite…» «Divertem-se

muito?

Sintra

pode

ser

um

lugar

verdadeiramente encantador para um jovem, não é?» «Sem dúvida. Sem dúvida. Sem dúvida». Repetindo esta litania, pusera-me de pé e colocara o livro no seu lugar. «É pena que o Professor esteja tão caseiro, por estes dias. Tenho a certeza de que se divertiria muito. Ontem mesmo…» «Ah, não, hum. Eu não sou já muito dado ao vosso tipo de divertimento. Bem viu, no sábado à noite, por exemplo: um filme que tem um enorme significado para mim, bom, para vós, pelo contrário, soa, hum… ridículo?!» Mal tivera tempo para gozar o alívio de me haver desembaraçado do livro, e já esta pergunta me fazia engolir outra 94


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vez em seco. Na falta de palavras, limitei--me a um gesto desprovido de qualquer sentido específico. «Posso fazer-lhe uma pergunta, Pedro?» «Oh, Professor, pelo amor de Deus! Faça o favor!» «Mas não sei se…» Nervoso, agarrei-me a um novo gesto. E. C. Bernardo apoiou em dois dedos o queixo pensativo e, envergando o ar metódico das aulas, impôs-me os critérios: «Peço-lhe então duas coisas. Sinceridade absoluta. E total discrição.» Novo gesto: abri ligeiramente os braços, como para o acolher ou como para me deixar crucificar. «Acha… que sou muito velho para Dulce? Ou muito pesado para acompanhar a sua natureza tão leve, tão ligeira, tão veloz?» «Claro que não, Professor. Claro que não. Pelo contrário.» Dulce, dissertou, era uma mulher excepcional. Interessava-se pelo mundo, pela vida, pelas pessoas. Era quase inevitável que se encantassem com ela, e ela se encantasse passageiramente com outras pessoas. Não lhe via leviandade nenhuma; quem a considerasse leviana estaria a deixar escapar o essencial: ela tinha um interesse muito sôfrego e genuíno pelos outros, havia uma importância que ela atribuía, havia um talento para ver o que as pessoas tinham de melhor, e amá-las por isso… Tartamudeei. 95


Gil Duarte

Mal me ouvia. Falava, talvez, para si. Palestrava: poderia, continuava, por exemplo, ignorar os seus casos. Fazer de conta que não sabia de nada. Pareceu despertar, como arrependido por estar a massacrar-me com idiotices. Que vergonha!, exclamou. Mas só dizia tudo isto porque imaginava não estar a dar-me novidade. Ele poderia mostrar suficiente confiança em si, no que tinha para oferecer, no seu saber, a sua cultura, a sua música… poderia confiar em todos os seus dons, ou talentos, em tudo isto que, no fundo, era; para acreditar, para se dizer a si mesmo: «Não te preocupes. Aconteça o que acontecer, demore o tempo que demorar, ela voltará sempre para ti. És o homem da vida dela!» O meu silêncio era a resposta que podia dar. Entardecera. Anoitecia. Virgílio e Dulce não regressavam para me salvar daquela confissão. «Mas não é possível, não é verdade? Outros homens, de outros pares românticos célebres, o terão conseguido. Mas eu não posso. Mesmo quando tudo já sucedeu, quero dizer, um certo caso de Dulce, e quando, hum, já passou, e não foi até nada de especial, mesmo assim, Pedro, o Pedro não é capaz de imaginar o que se sente. O que eu sinto. O que eu sinto cá dentro. Parece que a vejo, que os vejo aos dois. Constantemente! Obsessivamente! Beijos, corpos… e nem é só isso, e nem sequer é isso o mais importante!» 96


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E nem sequer era isso o mais importante! Saber, simplesmente, que havia quem quisesse seduzi-la, como a própria reconhecia, com uma espécie de candura, «até o Nóbrega, coitado!», o Nóbrega cheio de sorrisos ubíquos, em insistências de que Dulce depois lhe falava, tudo o perturbava, porque tudo era possível, tudo era sempre possível: o que viria a acontecer; e mesmo o que nunca aconteceria, o que não acontecerá, podia, poderia acontecer. E era verdade que às vezes esse ciúme o percorria como uma energia benéfica, uma angústia eufórica; mas, outras vezes, agora, por exemplo, que agonia, que pavor, que tortura, «Pedro, outras vezes, que cancro!»

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Virgílio falava: resmungava coisas ameaçadoras durante o sono, rilhando os dentes. Nessa mesma noite, eu não tinha chegado a adormecer ou, se não foi isso, e adormecera, acordei a meio por causa dos seus grunhidos, aquela oração babada e macabra acerca de «facas», «espetar», «matar todos»! Em noites anteriores, surpreendera-me aquele sonambulismo hostil, mas desta vez, estando eu com os nervos numa rede hipersensível, agitados, tive medo: identifiquei imediatamente o meu antigo medo dos escuros, reaparecendo-me em face daquela voz saturnina, nocturna e satânica, sublinhando, em orações ininteligíveis, a sua ânsia de facas assassinas. Virgílio dava voltas no leito. Levantei-me, tremendo, e escapuli-me do quarto num compasso lento de passos que eu procurava silenciar, mas provocavam minúsculos estalidos de juntas e o ruído de plantas de pé, nuas e suadas. Dirigi-me, um pouco desorientado, até à sala. Sob uma luz muito ténue, o Professor encontrava-se lá, escrevendo em pautas.

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Parei no limiar, indeciso. Procurava algum sinal seu que me permitisse perceber se dera pela minha presença. Não me pareceu que tivesse dado. E, se sim, poderia desculpar a minha fuga dizendo que não quisera perturbá-lo no seu trabalho: retornei, pois, ao quarto, com o mesmo silêncio ineficaz. Virgílio esperava-me, soerguido, com a luz do candeeiro da mesinha de cabeceira acesa. «Que foi isso? Estás com insónias?» Mencionei, subitamente aliviado, as cavas ameaças que proferira do fundo de um sono febril. Riu-se; ri-me. A conversa, já com outras luzes ligadas, foi-se dirigindo espontaneamente para os últimos dias, para tudo quanto seu pai me tinha dito – e eu prometera a seu pai que não contaria a ninguém –, termo-lo visto tão raramente durante aquele tempo. E combinámos que o arrastaríamos mais vezes connosco: que lhe podíamos pedir que tratasse ele do almoço já no dia seguinte. A ideia agradou ao Professor. Conduziu sozinho até à mercearia do senhor Costa, planificando mentalmente um prato muito complicado de que, depois, na cozinha, acabou por desistir, num espectáculo de panelas e tachos empurrando-se. Fomos nós, Virgílio e eu, sob as ordens de Dulce e uma 100


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assistência

descoordenada

de

E.

C.

Bernardo,

que

confeccionámos diversas naturezas de saladas e de ovos. Comemos no terraço. Mas de repente, à mesa, ao sol, deu-se o que ainda não tivera tempo de se dar naquelas férias: uma discussão absurda, confusa na matéria e nos pormenores, vagamente a propósito de doenças, ou de uma pretensa hipocondria de Virgílio. Dulce e eu mal retirámos os olhos de cima das nossas omeletas. O Professor estava com o rosto congestionado. As mãos, febris, tremiam-lhe. E Virgílio saiu da mesa: não o vimos durante o resto do dia. E, portanto, E. C. Bernardo tornou a retrair-se para o interior da sua solidão: mostrava-se cansado, voltado para a sua música, escrevinhando notas, em pautas, sobre o tampo do piano, formulando-as a seguir nas teclas, como breves fragmentos do que seria uma composição que nunca o abandonava, insistente. Entretanto, Virgílio e Dulce, sobretudo Dulce, tinham reunido a si um grupo de jovens actores de teatro e professores do liceu: e, uma vez em casa de uns, depois na de outros – que viviam todos em trios ou quartetos, arrendando em conjunto –, entre jantares, palavras, canções e copos, penetrávamos numa esfera de experiências irrepetíveis.

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Numa sexta-feira, à noite, fomos à discoteca mais popular de Sintra: chamava-se Freira’s e nascera da adaptação sacrílega de um antigo convento de freiras. O nosso grupo era numeroso. Virgílio seguia no carro de um dos professores, Dulce e eu – mais duas outras pessoas –, no meu. Ela teimara, de caminho, que fizéssemos um desvio por causa de certo velho amigo que nunca mais vira. Queria convidá-lo para se nos juntar. O amigo veio, protestando que não lhe tinham dado tempo para se arranjar, que a mulher não gostara de rever Dulce – e riram muito neste ponto, perguntando-lhe Dulce por que a não trouxera então, retorquindo-lhe ele: «Estás maluca?! Estás maluca?!» – e que não podia demorar-se: era um sujeito para o baixo, muito pouco atraente, se bem me lembro, encarequecendo no cocuruto, e que envergava um casaco, talvez azul, de bombazina, com cotoveleiras ovais de cabedal. No Freira’s, ocupámos duas mesas. Estávamos, quase todos pela primeira vez, num espaço grande, abobadado, com colunas brancas a suportar uma estrutura longinquamente religiosa, a que as luzes que desciam sobre a multidão comprimida, azulando as pessoas, transformando-as numa espécie de halo luminoso, acrescentavam um elemento perverso, demoníaco. Iniciava-se um vaivém do nosso grupo, aos pares, que formava um triângulo entre as mesas, o balcão, a pista de dança. 102


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Mais tarde, introduziu-se um quarto vértice – a casa de banho – e o triângulo desapareceu. A música ganhava todos os corpos e, sobre as mesas, os copos mantinham uma constante vibração. O amigo de Dulce era uma daquelas pessoas que crêem ser possível conversar no meio daquele ruído contínuo: via-o inclinando-se muito sobre a orelha de Dulce, gritando-lhe palavras a que ela acenava, a que ela ria. Uma hora passada, decidi sair. O ar fresco principiou a sua purificação. Os rapazes que tinham vindo comigo reentraram pouco depois, mas eu fui-me deixando ficar, bebendo e fumando mais um pouco da noite fria. Entrei. Procurei Dulce, tomado de uma certa curiosidade, como se apostasse comigo mesmo se iria encontrá-la com o seu novo velho amigo. Não os via. Deambulava, cansado, de copo na mão, por entre encontrões quando, junto a uma coluna, detectei o seu loiríssimo cabelo, a que a luz dava uma espantosa tonalidade branca. Estava de costas para mim, sobre outro corpo, e beijavam-se. Em menos de um minuto se deu a sucessão de minúsculos factos que foi eu tornar à mesa, deparar com o amigo de Dulce, sentado, aos gritos para a orelha de uma outra pessoa, sentir-me surpreendido, quase defraudado, voltar sobre os meus dois ou 103


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três últimos passos, fixar melhor a atenção, mesmo a tempo de perceber, numa breve deslocação de corpos, que, junto à coluna, eram Dulce e Virgílio que se beijavam, morosamente, amorosamente, irreversivelmente. Às quatro da manhã, o grupo começou a sair para os carros. Falava-se ainda à porta, em vozes sonantes. Dulce e Virgílio já não estavam connosco. Tive de levar a casa o seu amigo, já muito bêbedo, e a seguir, a um apartamento que partilhavam, três actrizes de teatro. Já só, no meu carro, ouvindo uma música estranhamente serena, identifiquei aquele sentimento cheio de cambiantes que vinha comigo, uma frágil depressão, um melancólico recuo em face de uma imagem esteticamente desacertada. Não era tanto o meu invólucro moral que tinha sido rompido: mas antes um limite físico que fora ultrapassado, como o de um corpo sobrecarregado, que vira de mais, ouvira de mais, sentira de mais, exposto a uma poluição de decibéis, dores, contradições, males e, bruscamente, já não suportava mais nada, e se enojava de tudo. Aquela superabundância de sinais – porque, evidentemente, os sinais foram sendo sempre perceptíveis, embora não o tivessem sido para mim – combinavam-se numa música que me 104


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espantava, e repelia. Caraças! Sempre houvera uma música onde eu não captara senão ruídos e notas desligadas. Sobretudo, percebi que não queria perguntar, julgar, argumentar, convencer. Que não queria enfrentá-los. Nem a eles, nem a E. C. Bernardo. Tinha sido a testemunha de uma história que não me pertencia e a que não tinha vontade de pertencer. (Claro, não sabia que certas histórias nos procuram por todo o lado só para poderem prosseguir e, seja como for, concluir: e que não abrem mão da sua melhor testemunha!) Virgílio e Dulce não dormiram em casa. Nessa manhã, fiz as malas e desandei.

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“A relação de Virgílio e Dulce continha, desde a génese, um projecto de tristeza. De outra maneira: o seu amor possuía em si um pigmento des...

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