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Émile Zola OS OMBROS DA MARQUESA

Émile Zola OS OMBROS DA MARQUESA e outras ironias

encontradas e traduzidas por

Aníbal Fernandes

Um Zola irónico, um Zola-outro, excêntrico à grave dureza do mundo dos seus Rougon-Macquart.

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Émile Zola OS OMBROS DA MARQUESA e outras ironias


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Retrato de Émile Zola. Édouard Manet, 1868.


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Émile Zola

OS OMBROS DA MARQUESA e outras ironias

encontradas e traduzidas por

Aníbal Fernandes


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© SISTEMA SOLAR, CRL RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA, 2015 tradução © ANÍBAL FERNANDES NA CAPA: PETER LELY, CATHERINE SEDLEY (PORMENOR), 1675 1.ª EDIÇÃO, JULHO DE 2015 ISBN 978-989-99307-0-4

REVISÃO: ANTÓNIO D’ANDRADE DEPÓSITO LEGAL 395449/15 ESTE LIVRO FOI IMPRESSO NA EUROPRESS RUA JOÃO SARAIVA, 10 A 1700-249 LISBOA


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Também a França era, no seu mundo literário, um centro de invejas. E também lá surgiam apreciações críticas a cada passo afectadas, para positivo ou negativo, com enormes coeficientes de clã. Havia no entanto um equilíbrio aos poucos construído pelo hábito e pela inevitabilidade. Olhava-se para Victor Hugo como fenómeno de prestígio e aceitação popular. Ninguém como ele sublimava a lição do folhetim até à grande obra, cortando-a por dissertações de prosa vulcânica que o leitor culto saboreava e o vulgar leitor saltava para progredir na acção, emocionado e suspenso até à última página. A celebridade de Loti era deixada em paz: elogiavam-no pela segurança da prosa e das belezas formais, desde que limitado a exotismos sem incómodo para os seus pares mais preocupados com a França. Flaubert e Stendhal, esses, não eram perigo porque a sua reconhecida qualidade literária ficava-se por pequenas tiragens. E havia Anatole France, e havia Alphonse Daudet; com lugares de culto aos quais não podia negar-se um centro, o centro do romance francês. Neste território demarcado, Émile Zola mal existia. Surgira com versos de juventude, tinha escrito uma novela romântica desaparecida na onda editorial de 1865, tinha chegado a Thérèse Raquin, hoje célebre, sem ser largamente notado, e cheio de ambição literária comunicara ao seu editor Charpentier que ia lançar-se num cometimento de grande vulto, a que chamaria Os Rougon-Macquart. Numa série de romances não cronológicos no sentido


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imediato da palavra, e com personagens que se repetiriam nuns e noutros com maior e menor visibilidade, faria um retrato dos homens franceses do seu tempo, com todos os seus vícios, os seus temperamentos, os seus dramas. (Mais tarde, Henry James teria de concordar: «Os Rougon-Macquart são um acto de coragem sem outro exemplo na história da literatura.») Em 1875 e já com cinco livros desta saga, um deles La faute de l’abbé Mouret, ainda podia inspirar a Edmond e Jules de Goncourt uma observação irónica do seu Journal: «Este rapaz gordo, cheio de ingenuidade infantil, de exigências de puta mimada, de vontades com qualquer coisa de socialistas, continua a falar-nos do seu trabalho, da postura quotidiana das cem linhas que arranca todos os dias de si próprio; do seu cenobitismo, da sua vida interior que só tem à noite a distracção de algumas partidas de dominó com a sua mulher ou a visita de compatriotas. Sai-se no meio de tudo isto a confessar que a sua grande satisfação, o seu grande prazer, é sentir a acção e o domínio que exerce sobre Paris no seu humilde buraco e com a sua prosa; e di-lo com mau sotaque, o sotaque da vingança de um pobre diabo que esteve muito tempo na vinha d’alhos da miséria.» Zola tinha vivido grandes dificuldades materiais. Depois da morte do seu pai engenheiro (com um papel preponderante na abertura do canal de Aix) ele, Émile, estudante de reprovações sucessivas e desde os dezoito anos de idade desviado com a sua mãe para Paris, onde ela poderia adoptar com mais desenvoltura a profissão de lavadeira, abandonou os estudos e o liceu de Saint-Louis para ser amanuense na Alfândega de Marselha. Em 1862 voltou para Paris, por ter conseguido um mau emprego como empacotador de livros na editora Hachette. Mas continuava a faltar-lhe paciência para apreciar a vida sofrida nas durezas que alguns poetas da anterior geração tinham sublimado: «Como uma verdadeira mansarda


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é fria!» «Musset e outros trapaceiros […] enfeitam com raios de luz os demónios da sua carne. […] Eles mentem! Eles mentem! Eles mentem!» Os seus embrulhos permitiam-lhe, no entanto, falar com Lamartine, Michelet, Sainte-Beuve… e sentir-se «na proximidade de escritores». Dois anos depois já era, de facto, o autor de Contes à Ninon, e no ano seguinte dos lirismos românticos de La Confession de Claude. E houve mais livros até 1870, o ano em que iniciou a saga dos Rougon-Macquart. Embora Zola não alcançasse tiragens capazes de ser notado como um «perigo», começou aos poucos a inquietar o mundo literário francês. O quê! Um novo Balzac? Depois de os numerosos volumes de La Comédie Humaine, surgia agora um pretensioso romancista a querer construir toda uma história da sociedade francesa daquele tempo com os Rougon-Macquart? Ele respondia: «Não quero, como Balzac, ter uma palavra de decisão sobre os problemas dos homens, ser político, filósofo, moralista. Contentar-me-ia em ser bem informado, em dizer como as coisas são, procurando-lhes as razões íntimas. De resto, sem tirar conclusões. Uma simples expressão dos factos de uma família, mostrando o mecanismo interior que a faz actuar.» E numa outra vez: «Para resumir a minha obra numa frase: no princípio de um século de liberdade e verdade quero pintar uma família que se precipita para os bens que tem perto de si, e se desloca transtornada pelo seu próprio impulso e, precisamente, por causa dos duvidosos clarões do momento, das convulsões fatais de um mundo a nascer.» Émile Zola queria defender-se assim de vaidosas equivalências, deixar Balzac intacto na veneração, evitar a onda metódica que começava a atacá-lo. Barbey d’Aurevilly, nessa altura com falta de inimigo, foi o mais persistente. E em 1876 o enorme êxito de L’Assommoir (que em tiragens ultrapassou o de Victor Hugo


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catorze anos antes, quando publicou Les Misérables), elevou ao máximo as vozes que o destituíam. Poderia coleccionar-se aqui uma porção desses momentos de animosidade, mas vamos contentar-nos com o mais xenófobo e o mais radicalmente invejoso. Zola era filho de um italiano (no dialecto de Veneza a palavra zola significa «torrão») e de uma mulher de ascendência grega. A legislação em vigor considerava-o estrangeiro, e só em 1862 (dois anos antes de ser autor de Contes à Ninon) foi cidadão francês. Esta naturalidade tardia, solicitada e concedida, a misturar-se com a veleidade de retratar literariamente os mais ocultos escaninhos da sociedade francesa, fizeram o jornalista e historiador Jacques Bainville lembrar que ele só era «um meio italiano, com um dos seus quartos grego, três ou quatro vezes mestiço.» E Anatole France, agastado com aquele que lhe roubava popularidade, ofendido com a ousadia dos seus excessos naturalistas, explodiu: «Nunca houve um homem que tanto esforço fizesse para aviltar a humanidade, insultar todas as imagens da beleza e do amor, negar tudo o que é bom, tudo o que está bem. […] M. Zola é um desses desgraçados de quem pode dizer-se que mais valeria não ter nascido.» Mas o público, esse, lia com admiração as histórias de M. Zola. Em 1876, o êxito de vendas de L’Assommoir permitiram-lhe comprar uma casa e esconder-se em Médan com a sua mulher e um cão fiel sentado ao seu lado para acompanhar com sonolência as horas de escrita, e entregar-se também a uma entusiasmada criação de coelhos. Sem ser muito visto no exterior de um reduzido grupo que ali o visitava, fora da convivência de uns quantos que tinha frequentado em Paris, ia construindo um lugar de «chefe de escola», fazendo de si uma espécie de patrão das letras francesas. A sua audácia de romancista que não hesitava perante cruezas, com um estilo avesso às metáforas decorativas tão queridas dos sim-


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bolistas que então se opunham ao seu naturalismo, com uma deleitosa atenção ao pormenor sórdido, aos maus odores da cidade («tem prazer em cheirar mal», escreveu Nietzsche), parecia inconciliável com a timidez que revelava sempre ao enfrentar desconhecidos. Deixou nos seus contemporâneos a imagem de um homem que gaguejava e sentia as pernas a tremer se o forçassem a falar para uma plateia. Na sua reclusão Zola teve força e persistência para construir até ao fim a saga Rougon-Macquart, e fê-lo em vinte romances publicados entre 1870 e 1893, com pontos de muito alto reconhecimento e êxito públicos quando se mostrou capaz de L’Assommoir (1876), de Nana (1879) ou de Germinal (1885). Mas o seu isolamento acentuava-se. «Fechei-me em casa para ter na minha vida apenas trabalho, e tão bem o fiz que ninguém me visita», escreveu numa carta. Começavam a ficar distantes os tempos em que tinham por Médan passado hóspedes como Cézanne, Manet e Pissaro, como Daudet, Maupassant e Huysmans. Este subúrbio de Paris no Vale do Sena deixava-lhe agora a cidade longe e só visitada em curtos períodos que o trabalho de escritor lhe exigia. Mas deu-lhe, ainda assim, condições para pôr à solta os grandes ventos de uma tempestade. Émile Zola semeou a tempestade que viria a transformar-se num dos maiores espectáculos do Caso Dreyfus. Em 1894 Alfred Dreyfus, judeu, militar, tinha sido formalmente acusado de vender documentos confidenciais aos Alemães. Prenderam-no em Outubro e três meses depois degredaram-no para a Ilha do Diabo na Guiana Francesa. Logo no seu início, este processo mostrara contornos pouco claros, com anti-semitismo e germanofobia a justificarem posições que se esforçavam por encontrar culpas na inocência. A situação de Dreyfus, humilhado porque destituído da sua patente militar em acto público, passado a um cárcere distante e


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numa ilha cujo nome popular bem se ajustava à sua brutalidade climática, dividiu o país. O Caso Dreyfus chegou a excessos emocionais que irreconciliaram amigos, encheu a imprensa de vozes alinhadas por um e outro lados mas sem incomodar excessivamente os poderes judiciais e militares. As suas águas agitaram-se sem consequências visíveis até ao dia 13 de Janeiro de 1898, aquele em que o jornal L’Aurore publicou a carta de Zola a Félix Faure, então presidente da República, com o nome J’Accuse !… Saída do retiro de Médan, a toda a nação chegava uma audácia assinada pela pena de Zola. «O meu dever é falar, não quero ser cúmplice», avisava o seu texto explosivo. «Teria as noites assombradas pelo espectro do inocente que ao longe, na mais horrível das torturas, expia um crime que não cometeu.» Depois vinham os factos; Zola falava em erro judicial, citava pelos nomes quatro generais colaboradores na mentira, acusava de falsidade especialistas em grafologia, o exército, companhias militares. Foi condenado a um ano de prisão e a três mil francos de multa. Uma bem sucedida fuga para a Inglaterra forçou-o a onze meses de exílio e deu-lhe tempo para escrever Fécondité, o primeiro volume da série Les Quatre Evangiles que não chegou a concluir. A revisão do processo judicial, com reconhecimento de um enorme erro de sentença, devolveu-o em Junho de 1899 à França e à tranquilidade de Médan, onde chegou à última forma de Travail, o segundo dos seus «evangelhos». Ainda escreveu páginas de Vérité, o terceiro, antes da noite fatídica de 30 de Setembro de 1902. O casal Zola instalou-se na sua casa parisiense da rua de Bruxelles, com um fogo de lareira que durante a noite o intoxicou. Na manhã seguinte ele estava morto e Mme Zola num estado de saúde grave. Levantaram-se dúvidas difíceis de esclarecer sobre este aci-


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dente. E em 1927, com a prescrição judicial de um possível crime já garantida, um empreiteiro especializado em lareiras e caloríferos citado como M. Y. (nome falso não revelado por questões de segurança), fez uma inesperada e espantosa revelação: «Zola asfixou-se voluntariamente. Fomos nós que calafetámos a chaminé do seu apartamento. E desta forma: numa casa vizinha havia trabalhos de restauração do telhado e das chaminés. Aproveitámos uma altura de grande movimentação de pessoas no telhado para localizarmos a chaminé de M. Zola e a calafetarmos. Na manhã seguinte, muito cedo, desobstruímo-la e passámos despercebidos. O resto já é conhecido.» O sensacionalismo desta confissão não apagou todas as dúvidas que continuam a levantar-se à hipótese do suicídio com cúmplices de Émile Zola. A passagem do tempo confirmou ao romancista Zola uma dimensão que tem seguido a par com a de Victor Hugo e Balzac. A sua lição foi estudada, copiada, espalhada por uma legião de autores que não teriam, sem ele, chegado ao que ficaram como suas maiores obras. São em elevado número, os que lhe devem mais e menos explicitamente a sua maneira de pensar o homem como herói de romance. «Não há autor do século XIX que seja para nós tão actual», disse Jules Romains, acrescentando: «Consegue sê-lo mais do que Tolstoi, mais do que Dostoievski, e até mesmo do que Balzac. Bem mais do que eles representa uma nova posição do mundo, os novos problemas da vida colectiva e da vida do proletariado. Só ele conseguiu sair para fora da era burguesa.» E não esqueçamos Roland Barthes, muito mais tarde em Sur la littérature: «Os romances actuais, mesmo os ligados à tradição, já não possuem essa espécie de energia de testemunho sobre o que chamamos classes dominantes. Sob este ponto de vista, Zola continua muito à frente do que fazemos.» Nesta larga sombra reconhecem-se dívidas directas. Sem ele,


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teria Heinrich Mann escrito o seu Professor Unrat (desde Joseph von Sternberg mais conhecido por O Anjo Azul)?; teria Theodore Dreiser chegado aos seus maiores romances? Este romancista por excelência, que parece ter encontrado na dimensão e na estrutura do romance o veículo mais adequado à expressão do seu talento, sob a disciplina das cem linhas diárias desviou-se muitas vezes para a forma curta do conto. Fê-lo noventa e seis vezes para a publicação em jornais, e reteve quarenta e um desses momentos em cinco livros que chegaram ao público entre 1864 e 1884. É de admirar que um escritor com o seu mais visível talento dirigido às complexas especificidades da construção do romance, saiba comportar-se no conto com todas as economias que esse género exige. O Émile Zola contista — os seus momentos do romancista em férias — mostra-se exímio a garantir, entre as balizas do espaço que os jornais lhe determinavam, e com grande eficácia, todos os efeitos que imaginou para uma história. Fê-lo sob diferentes humores. Encontramo-lo romântico, dramático, cómico, fantástico, afastado do naturalismo das suas obras centrais e muitas vezes a solicitar-nos aquela «voluntária suspensão da incredulidade» que Coleridge citou como essencial à fruição máxima de certas obras literárias. Dentro das facetas múltiplas deste mundo, vai encontrar-se aqui uma selecção tendenciosa: restrita a um bem logrado Zola irónico, um Zola-outro, excêntrico à grave dureza do mundo dos seus Rougon-Macquart. A.F.


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i A marquesa dorme no seu grande leito, sob as largas cortinas de cetim amarelo. Ao meio-dia, com o timbre claro do relógio de parede decide-se a abrir os olhos. O quarto está morno. Os tapetes, os reposteiros das portas e das janelas fazem dele um ninho suave onde o frio não penetra. Calores, perfumes por ali se arrastam. Reina a eterna primavera. E logo que a marquesa está bem acordada, parece que a domina uma ansiedade súbita. Afasta as cobertas, toca a sineta para chamar Julie. — A senhora tocou? — Diz lá, a neve está a derreter-se? Oh! Boa marquesa! Como fez com voz enternecida a pergunta! O seu primeiro pensamento é para aquele frio terrível, a nortada que ela não sente mas deve soprar tão cruelmente nos casebres das pessoas pobres. E pergunta se o céu se mostra benevolente, se pode sentir calor sem remorsos, sem pensar em todos os que tiritam de frio. — A neve está a derreter-se, Julie? A criada de quarto oferece-lhe o roupão da manhã, acabado de aquecer à frente de um fogo alto. — Oh! Não, senhora, não está a derreter-se. Pelo contrário, gela com mais força… Acabam de encontrar um homem morto de frio num ónibus.


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A marquesa fica cheia de uma alegria de criança; bate as mãos uma na outra, e grita: — Ah! Tanto melhor! Esta tarde vou patinar.

ii Julie corre suavemente as cortinas, para uma claridade brusca não ferir a vista frágil da deliciosa marquesa. O reflexo azulado da neve enche o quarto com uma luz muito alegre. O céu está cinzento, mas de um cinzento tão bonito que à marquesa lembra um vestido de seda cinzento-pérola da véspera, o que ela usou no baile do ministério. Este vestido era guarnecido com guipures brancos, parecidos com esses fios de neve que ela vislumbra na beira dos telhados, na palidez do céu. Na véspera ela encantava com os seus novos diamantes. Tinha-se deitado às cinco horas. Por isso ainda sente a cabeça um tanto pesada. Entretanto foi sentar-se à frente de um espelho, e Julie levantou-lhe a onda loura dos cabelos. O roupão escorrega, os ombros permanecem à mostra até ao meio das costas. Já toda uma geração envelheceu com o espectáculo dos ombros da marquesa. Desde a altura em que as damas naturalmente alegres, graças a um poder político forte podem decotar-se e dançar nas Tulherias, na barafunda dos salões oficiais ela passeou os seus ombros com uma assiduidade que fez dela a tabuleta viva dos encantos do Segundo Império. Teve de seguir a moda, decotar os vestidos, quer até à cintura, quer até ao final do colo; e de tal modo que a querida mulher pôs à mostra, reentrância a reentrância, todos os tesouros do seu cor-


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pete. Nas suas costas e no seu peito nada há que não esteja tão amplamente conhecido como na Madelena em São Tomás de Aquino. Exibidos com generosidade, os ombros da marquesa são o brasão voluptuoso do reino.

iii Não é realmente necessário descrever os ombros da marquesa. São tão populares como a Ponte Nova. Durante dezoito anos fizeram parte dos espectáculos públicos. Basta uma pequena porção deles ser vislumbrada num salão, no teatro ou noutro lado, para exclamarmos: «Olha! A marquesa! Estou a reconhecer o sinal preto do seu ombro esquerdo!» São, de resto, ombros muito belos, brancos, gordos, provocantes. Os olhares de um governo passaram por eles dando-lhes mais finura, como a essas lajes que os pés da multidão deixam com a passagem do tempo polidas. Se eu fosse seu marido ou seu amante, gostaria mais de ir beijar a maçaneta de cristal do gabinete de um ministro, gasto pela mão dos solicitadores, do que roçar com os lábios esses ombros por onde passou o sopro quente de todo o Paris galante. Quando pensamos nos mil desejos que à sua volta estremeceram, perguntamos que argila da natureza os amassou para não estarem roídos e desfeitos em migalhas como a nudez das estátuas expostas ao ar livre dos jardins e com os contornos comidos pelos ventos. A marquesa pôs noutro lado o seu pudor. Fez dos seus ombros uma instituição. E como combateu pelo governo da sua


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escolha! Sempre metida em todos os assuntos, ao mesmo tempo em todos os lados, nas Tulherias com os ministros, nas embaixadas, até com banais milionários, fazendo os indecisos decidir-se à custa de sorrisos, mantendo firme o trono dos seus seios de alabastro, mostrando em dias de perigo pequenos recantos escondidos e deliciosos, mais persuasivos do que argumentos de orador, mais decisivos do que espadas de soldados, para obter um voto ameaçando pôr à mostra camisolas interiores dos mais bravios membros da oposição, até eles se declararem convencidos! Os ombros da marquesa mantiveram-se sempre inteiros e vitoriosos. Carregaram consigo um mundo, sem surgir uma ruga que abrisse uma fenda no seu mármore branco.

iv Nessa tarde, ao sair das mãos de Julie, a marquesa foi patinar vestida com um delicioso trajo polaco. Ela é adorável quando patina. No Bosque fazia um frio de rachar, uma brisa que picava o nariz e os lábios daquelas damas como se o vento lhes soprasse no rosto uma areia fina. A marquesa ria-se, sentir frio divertia-a. De vez em quando ia aquecer os pés nos braseiros acesos nas bordas do pequeno lago. Depois voltava ao ar gelado e rasgava-o como uma andorinha que voa rente ao chão. Ah! Que bom divertimento, e como é uma sorte o degelo não ter começado! A marquesa vai poder patinar toda a semana.


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[Os F ilhos da Viúva]

Mme Guérard é viúva. O seu marido, que há oito anos ela perdeu, era magistrado. Pertence à alta burguesia e possui uma fortuna de dois milhões. Tem três filhos, três rapazes que herdaram com a morte do seu pai, cada um deles, quinhentos mil francos. Mas nesta família severa, fria e afectada, estes filhos cresceram como rebentos selvagens, com apetites e falhas chegadas não se sabe de onde. Em poucos anos comeram os seus quinhentos mil francos. Charles, o mais velho, tem uma paixão pela mecânica e desperdiçou uma loucura de dinheiro em invenções extraordinárias. Georges, o segundo, deixou-se devorar pelas mulheres. Maurice, o terceiro, foi roubado por um amigo com quem tinha resolvido construir um teatro. Hoje os três filhos vivem à custa da mãe, que embora queira alimentá-los e alojá-los guarda prudentemente com ela as chaves dos armários. Toda esta gente habita um vasto apartamento da rua de Turenne, no Marais. Mme Guérard tem sessenta e oito anos. Com a idade chegaram-lhe as manias. Exige em sua casa uma tranquilidade e um asseio de claustro. É avarenta, conta os torrões de açúcar, ela própria põe a salvo as garrafas encetadas, dá roupa de casa e louça de mesa de acordo com as necessidades do serviço. Não há dúvida de que os seus filhos gostam muito dela, e apesar de já terem mais de trinta anos e dos disparates que fazem, mantém-nos sob uma autoridade absoluta. Mas quando se vê só no meio destes três grandes diabos, tem surdas


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inquietações, teme sempre pedidos de dinheiro que não saberia como recusar. Também teve o cuidado de aplicar a sua fortuna em bens de raiz: possui em Paris três casas e terrenos para os lados de Vincennes. Estas propriedades causam-lhe a maior das canseiras; mas acontece que está tranquila e encontra desculpas para não dar de uma só vez grandes somas. Aliás, Charles, Georges e Maurice exploram o mais que podem a casa. Assentam lá arraiais, disputam todos os seus pedaços, censuram mutuamente a sua enorme fome. A morte da sua mãe enriquecê-los-á de novo; sabem isto, e um tal pretexto parece-lhes suficiente para aguardarem de braços cruzados. Apesar de nunca falarem no assunto, têm a permanente preocupação de saber como serão feitas as partilhas; não se entendem, vai ser preciso vender, o que é sempre uma operação ruinosa. E pensam nestas coisas sem nenhum mau desejo, só porque é preciso prever tudo. São alegres, bons rapazes, com uma mediana honestidade; desejam como toda a gente que a sua mãe viva o mais possível. Ela não os aborrece. Estão à espera, e mais nada. Uma noite, está Mme Guérard a sair da mesa, e sente-se maldisposta. Os seus filhos forçam-na a ir deitar-se, e deixam-na com a sua criada de quarto quando ela garante que está melhor, apenas tem uma enorme enxaqueca. Mas no dia seguinte o estado da velha senhora piora. Inquieto, o médico da família pede uma junta médica. Mme Guérard corre um grande perigo. E durante oito dias representa-se um drama à volta do leito da agonizante. Quando se viu presa no quarto pela doença, o seu primeiro cuidado foi pedir que lhe entregassem todas as chaves e escondê-las debaixo do travesseiro. Ainda quer governar a partir da cama,


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proteger os seus armários contra desperdícios. Dentro de si travam-se lutas, é despedaçada por dúvidas. Só se decide depois de longas hesitações. Tem ao pé de si os três filhos, estuda-os com os seus olhares vagos, espera por uma boa inspiração. Um dia é Georges quem lhe inspira confiança. Faz-lhe um sinal, para ele se aproximar, e diz em voz baixa: — Olha, aqui tens a chave do aparador, tira de lá o açúcar… Depois deixa-o bem fechado e traz-me a chave. Noutro dia desconfia de Georges, segue-o com o olhar mal ele se mexe, como se temesse vê-lo meter ao bolso as estatuetas da lareira. Chama Charles, confia-lhe por sua vez uma chave, a murmurar: — A criada de quarto vai contigo. Observa-a enquanto tira para fora os lençóis, e tu próprio vais depois deixar aquilo fechado. Na agonia é este o seu suplício: já não poder vigiar as despesas da casa. Lembra-se das loucuras dos filhos, sabe que são preguiçosos, amigos de comer, com má cabeça, mãos largas. Desde há muito lhe não merecem nenhuma estima, não realizaram nenhum dos seus sonhos, ferem-lhe os hábitos de economia e rigidez. Só o afecto sobrenada e perdoa. No fundo dos seus olhos suplicantes lê-se que lhes pede o favor de esperarem pela sua partida, antes de esvaziar as gavetas e partilhar os bens. Porem-na perante esta partilha seria uma tortura para a sua avareza prestes a expirar. Entretanto Charles, Georges e Maurice mostram muita bondade. Entendem-se de modo a que esteja sempre um deles ao pé da sua mãe. Surge um sincero afecto nos seus menores cuidados. Mas é forçoso que transportem com eles os desleixos do exterior, o cheiro do charuto que fumaram, a preocupação das notícias que correm na cidade. E o egoísmo da doente sofre


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por não ocupar completamente os seus filhos na derradeira hora. Depois, quando fica mais fraca, as suas desconfianças introduzem entre ela e aqueles jovens um incómodo. Se não estivessem com a ideia na fortuna que vão herdar, pensariam nesse dinheiro da mesma forma que ela, defendendo-o até ao último fôlego. Olha para eles com um olhar tão agudo, com tão evidentes temores, que eles voltam a cabeça para o lado. Isso fá-la acreditar que espreitam a sua agonia; e é verdade que pensam nela, são continuamente atraídos por essa ideia, como é visível na muda interrogação dos seus olhares. É ela quem faz crescer dentro deles a cupidez. Quando surpreende um deles com a face pálida, a sonhar diz: — Vem cá… Em que estás tu a pensar? — Em nada, minha mãe. Mas há um sobressalto. Abana com lentidão a cabeça, acrescenta: — Dou-vos muitas preocupações, meus filhos. Vá lá, não se atormentem, não tarda que eu aqui não esteja. Eles rodeiam-na, juram que gostam dela e vão salvá-la. Ela responde que não com um gesto teimoso; mergulha ainda mais na sua desconfiança. É uma horrível agonia, envenenada pelo dinheiro. A doença dura três semanas. Já houve cinco juntas médicas, mandam-se vir ali as maiores celebridades da profissão. A criada de quarto ajuda os filhos da senhora a tratar dela; e apesar das cautelas, surge um pouco de desordem nos aposentos. Está perdida toda a esperança, o médico anuncia que a doente pode sucumbir de um momento para o outro. E então uma manhã, julgando os seus filhos que ela está a dormir, conversam uns com os outros ao pé de uma janela sobre


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uma dificuldade que entretanto surge. É o dia 15 de Julho, a sua mãe tem o hábito de guardar ela própria a soma dos alugueres das casas, e estão embaraçados, sem saber como proceder em relação a tal dinheiro. Os porteiros já pediram indicações a esse respeito. No estado de fraqueza em que ela está, não podem falar-lhe de negócios. No entanto, se acontecesse uma catástrofe precisariam dessas rendas para fazer face a determinadas despesas pessoais. — Meu Deus! — diz Charles em voz baixa. — Se concordarem, dirijo-me eu à casa dos inquilinos… Vão compreender a situação, e pagar. Mas parecia que a George e a Maurice a solução não agradava. Também se tinham tornado desconfiados. — Podemos acompanhar-te — disse o primeiro. — Nós três temos despesas a fazer. — Olhem! Vou entregar-vos o dinheiro… Claro está que não vão achar-me capaz de fugir com ele! — Não, mas é bom mantermo-nos juntos. Será mais apropriado. E olham uns para os outros com olhos onde já brilham as cóleras e os rancores da partilha. Está aberta a sucessão, cada qual quer garantir para si a mais vantajosa parte. De repente, Charles prossegue em muito alta voz as reflexões que os seus irmãos fazem em voz muito baixa: — Oiçam, vamos vender, será melhor assim… Se hoje discutirmos, amanhã vamos comer-nos. Mas um ralo fá-los voltar a cabeça com um movimento vivo. A sua mãe soergueu-se, branca, com olhos desvairados, o corpo sacudido por um arrepio. Ouviu, estende os braços magros, repete com uma voz apavorada:


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iv Uma noite, Hector disse ao casal: — Vamos ter amanhã uma maré muito alta… Podíamos ir pescar camarões. Pareceu que a proposta encantava Estelle. Sim, sim, tinham de ir pescar camarões! Desde há muito prometia a si própria este divertimento. M. Chabre levantou objecções. Para começar, nunca se pescava nada. Depois, era mais simples comprá-los com uma moeda de vinte soldos a uma qualquer mulher da terra, sem terem de molhar-se até à cintura e esfolar os pés. Mas teve de ceder perante o entusiasmo da sua mulher. E houve consideráveis preparativos. Hector estava encarregado de fornecer as redes. Apesar do seu medo da água fria, M. Chabre tinha declarado que ia colaborar na pesca; e a partir do momento em que ele consentia em pescar, achava que devia fazê-lo com seriedade. De manhã mandou engraxar um par de botas. Depois vestiu-se de cima a baixo com roupa clara; mas a sua mulher não pôde conseguir que ele se esquecesse de um laço ao pescoço com pontas bem esticadas, como se fosse para um casamento. Este laço era o protesto do homem como deve ser contra o ar desleixado do oceano. Quanto a Estelle, limitou-se a vestir o fato de banho e a enfiar por cima dele uma camisola. Hector também estava com um fato de banho. Os três saíram por volta das duas horas. Cada um deles levava a sua rede ao ombro. Tinham de andar meia légua, no meio de areias e sargaços, para chegar a uma rocha onde havia, segundo Hector, verdadeiros jazigos de camarões. Conduzia o casal, tranquilo, atravessava charcos, seguia a direito sem se preocupar com os entraves do caminho. Estelle ia alegremente


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atrás dele, feliz com a frescura destes terrenos molhados onde os seus pequenos pés patinhavam. M. Chabre, que seguia atrás deles, não via a necessidade de mergulhar as botas na água, antes de chegar ao lugar da pesca. Rodeava com consciência os pântanos, saltava os riachos que as águas a baixar escavavam na areia, escolhia os lugares secos com esse ar prudente e balanceado de um parisiense que num dia de lama dá atenção aos lados do pavimento da rua Vivienne. Já arfava, e queria a todo o instante saber: — Afinal é assim tão longe, M. Hector?… Olhe! Por que não pescamos ali? Estou a ver lá camarões, posso garantir-vos… Aliás, existem em todo o mar, não é verdade? E aposto que bastará puxar a rede. — Puxe, puxe, M. Chabre — respondia Hector. E, para respirar, M. Chabre dava um puxão à rede num charco do tamanho de uma mão. Não apanhava nada, nem sequer uma erva, de tal forma o buraco de água estava vazio e límpido. Voltava então a andar com um ar digno, com os lábios franzidos. Mas como se atrasava, ao querer provar que devia haver camarões em todo o lado, acabava por ficar consideravelmente para trás. O mar continuava a baixar, recuava para mais de um quilómetro das costas. O fundo de seixos e rochas esvaziava-se, espalhando a perder de vista um deserto molhado, áspero, com uma grandeza triste, parecido com uma terra extensa e plana que uma tempestade tivesse devastado. Ao longe apenas se via a linha verde do mar que ainda baixava, como se a terra o tivesse bebido; ao passo que rochas negras, em longas faixas estreitas, surgiam e afastavam-se com lentidão dos promontórios na água morta. De pé, Estelle olhava para esta imensidade despida.


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— Como é grande! — murmurava ela. Hector apontava com o dedo certos rochedos, blocos esverdeados que formavam pavimentos gastos pela ondulação. — Este — explicava ele — só fica à mostra duas vezes por mês. Há quem ali vá procurar mexilhões… Está a ver aquela mancha castanha, acolá? É as Vacas-Ruivas, o melhor lugar para os lavagantes. Vemo-los apenas nas duas marés mais altas do ano… Mas não percamos tempo. Vamos àquelas rochas com uma ponta que começa a mostrar-se. Quando Estelle entrou no mar, foi uma alegria. Levantava muito alto os pés, batia-os com força, a rir-se por fazer a espuma espirrar. Depois, quando ficou com água até aos joelhos teve de lutar com a onda; e regozijava-se com o facto de ter de andar depressa, de sentir esta resistência, este escorregar rude e contínuo que lhe fustigava as pernas. — Não tenha medo — dizia Hector — vai ficar com água até à cintura, mas o fundo volta depois a subir… Estamos a chegar. De facto, a pouco e pouco ficaram com a água menos alta. Tinham atravessado um pequeno braço de mar, e agora encontravam-se numa larga placa de rochedos que a onda descobria. Quando a jovem mulher se voltou, deu um pequeno grito por se ver tão longe de terra. Muito ao longe, a rasar a costa, Piriac alinhava umas quantas manchas de casas brancas e a torre quadrada da igreja guarnecida com guarda-ventos verdes. Nunca tinha visto uma região assim tão extensa, raiada em pleno sol pelo ouro das areias, a verdura sombria das algas, os tons molhados e berrantes das rochas. Era como se fosse o fim da terra, o campo de ruínas onde o nada começava.


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Estelle e Hector preparavam-se para puxar pela primeira vez a rede, quando uma voz lamentosa se fez ouvir. Plantado no meio do pequeno braço de mar, M. Chabre pedia que lhe indicassem o caminho. — Por onde é que se passa? — gritou. — Digam-me se tenho de ir sempre a direito. A água subia-lhe até à cintura, não se atrevia a dar mais um passo, aterrorizado pelo pensamento de que podia cair num buraco e desaparecer. — À esquerda — gritou-lhe Hector. Avançou para o lado esquerdo; mas como continuava a mergulhar ficou de novo parado, surpreendido, sem ter sequer a coragem de voltar para trás. Lamentava-se: — Venham dar-me a mão. Garanto-vos que há aqui buracos. Sinto-os. — À direita, M. Chabre, à direita! — gritou Hector. E no meio da água, com a rede ao ombro e o seu bonito laço, o pobre homem era tão engraçado que Estelle e Hector não conseguiram reprimir um ligeiro riso. Acabou por ultrapassar a situação. Mas chegou ao pé deles muito perturbado, e disse com um ar furioso: — Eu cá não sei nadar! Agora só o inquietava o regresso. Quando o rapaz lhe explicou que não devia deixar que a maré alta o apanhasse no rochedo, ficou ansioso. — Vai avisar-me, não vai? — Não tenha medo, respondo por si. Puseram-se então os três a pescar. Investigavam os buracos com as suas redes estreitas. Estelle punha naquilo uma paixão de mulher. Foi a primeira a apanhar camarões, três grandes ca-


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marões vermelhos que saltavam com violência no fundo da rede. Com grandes gritos chamou Hector, para ele a ajudar, porque animais tão vivos a inquietavam; mas quando viu que deixavam de se mexer, desde que os agarrassem pela cabeça, afoitou-se e ela própria meteu-os no cesto que trazia a tiracolo. Por vezes recolhia todo um monte de ervas, e era preciso procurar dentro delas se um ruído seco, um leve ruído de asas, a avisasse de que havia lá camarões. Afastava delicadamente as ervas, retirando-as em pequenas porções, pouco segura perante aquela confusão de estranhas folhas viscosas e moles como peixes mortos. De tempos a tempos olhava para o cesto com a impaciência de quem queria vê-lo cheio. — Ela é um caso especial — repetia M. Chabre — eu cá nem um consigo pescar. Como não ousava aventurar-se entre as fendas dos rochedos, aliás muito incomodado com as grandes botas que se enchiam de água, puxava a rede sobre a areia e só apanhava caranguejos, cinco, oito, dez de cada vez. Sentia um medo horrível, lutava com eles para os expulsar da rede. Por momentos voltava-se, a olhar com ansiedade para ver se o mar continuava a descer. — Tem a certeza de que está a descer? — perguntava a Hector. Este contentava-se em abanar a cabeça. Pescava como um espertalhão que conhecia os bons lugares. Cada vez que puxava, trazia ao de cima punhados de camarões. Quando levantava a rede ao lado de Estelle, metia a pesca no seu cesto. Ela ria-se, piscava os olhos para o lado do seu marido, com um dedo pousado nos lábios. Estava encantadora, curvada sobre o longo cabo de madeira, ou então com a cabeça loura baixa, cheia de curiosidade


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a olhar para a rede, para saber o que tinha apanhado. Soprava uma brisa, a água que pingava das malhas fugia como uma chuva envolvendo-a num orvalho, enquanto a sua roupa voava e se achatava contra ela evidenciando-lhe a elegância do perfil. Durante quase duas horas pescaram assim, e depois ela parou um instante para respirar com a respiração acelerada, os cabelos pequenos, de cor viva, encharcados em suor. À sua volta o deserto continuava imenso, com uma paz soberana; só o mar se arrepiava, com uma voz murmurante que aumentava de volume. Esbraseado pelo sol das quatro horas, o céu estava de um azul claro, quase cinzento; e apesar deste descolorido tom de fornalha não se sentia o calor, uma frescura subia da água, varria e esbranquiçava a claridade crua. Mas o que divertia Estelle era ver no horizonte, sobre os rochedos, uma multidão de pontos que se destacavam a negro com muita nitidez. Eram pescadores como eles, pescadores de camarões com silhuetas de uma incrível finura, não maiores do que formigas naquela imensidade, ridículos com o seu nada mas com todos os seus pequenos gestos identificáveis, a linha arredondada das costas quando puxavam as redes ou os braços estendidos e gesticulantes, parecidos com febris patas de mosca, quando arrastavam a pesca, a lutar com as ervas e os caranguejos. — Garanto-vos que está a subir! — gritou M. Chabre, angustiado. — Olhem! Ainda agora este rochedo estava à mostra. — Não há dúvida de que sobe — acabou por responder Hector com impaciência. — E é precisamente quando sobe que se apanham mais camarões. Mas M. Chabre perdia a cabeça. No seu último lançamento da rede tinha apanhado um peixe estranho, um xarroco com cabeça de monstro que o aterrorizou. Estava farto.


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— Vamo-nos embora! Vamo-nos embora! — repetia. — É um disparate cometermos imprudências. — Mas se estão a dizer-te que a pesca melhora quando o mar sobe! — respondia-lhe a sua mulher. — E sobe com força! — acrescentava a meia voz Hector, com os olhos acesos por um clarão de maldade. Com efeito as ondas alongavam-se, comiam os rochedos com um mais alto clamor. Vagas bruscas invadiam de repente toda uma língua de terra. Era o mar conquistador, que recuperava metro a metro o domínio varrido desde há séculos pela sua ondulação. Estelle tinha descoberto um charco plantado com ervas altas, flexíveis como cabelos, e pescava camarões enormes abrindo um sulco, deixando atrás de si o rasto esburacado de um ceifador. Debatia-se, não queria que a arrancassem dali. — Pois se é assim, vou-me eu embora! — exclamou M. Chabre com lágrimas na voz. — Isto não é sensato, vamos ficar todos aqui. Foi o primeiro a partir, sondando a profundidade dos buracos com desespero e ajuda do cabo da rede. Quando já estava duzentos ou trezentos passos afastado, Hector acabou por convencer Estelle a segui-lo. — Vamos ficar com água pelos ombros — disse a sorrir. — M. Chabre vai tomar um verdadeiro banho… Veja como já está a ficar mergulhado! Desde que se tinham posto a caminho, o rapaz estava com o ar matreiro e inquieto do apaixonado que prometeu libertar de si uma declaração, e não arranja coragem para a fazer. Quando metera os camarões no cesto de Estelle, bem procurara que os seus dedos se encontrassem. Mas estava furioso, de facto, com uma


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tão grande falta de audácia. Se M. Chabre se afogasse acharia o facto encantador porque ele, pela primeira vez, o incomodava. — Não está a ver? — disse de repente. — É melhor subir para as minhas costas, e ser eu a levá-la… De outra forma vai ficar encharcada… Hein? Vá lá, suba! Punha a sua espinha à disposição. Ela recusava-se, envergonhada e a corar. Mas ele deu-lhe um encontrão, gritando que era responsável pela sua saúde. E ela subiu, com as duas mãos postas nos seus ombros. Sólido como um rochedo, empinando a espinha, parecia que tinha um pássaro pousado no pescoço. Dizia-lhe para se agarrar bem, e avançava a grandes passadas na água. — M. Hector, é a direito, não é? — dizia a voz lamentosa de M. Chabre, já com a onda a bater-lhe nos rins. — Sim, a direito, sempre a direito. E como o marido voltava para eles as costas, a tiritar de medo por sentir o mar a subir-lhe até às axilas, Hector arriscou-se a beijar uma das pequenas mãos que tinha nos ombros. Estelle quis retirá-las, mas ele disse que não se mexesse, ou de outra forma não respondia por nada. Desatou a cobrir-lhe as mãos com beijos. Estavam frescas, salgadas, e bebia nelas as amargas volúpias do oceano. — Peço-lhe que me deixe — repetia Estelle afectando um ar irritado. — É estranho que abuse assim… Se não desistir de fazê-lo, salto para a água. Mas ele continuava, e ela não saltava. Apertava-lhe muito os tornozelos, continuava a devorar-lhe as mãos sem dizer uma palavra, limitando-se a espreitar o que ainda era visível das costas de M. Chabre, um resto de costas trágico que ameaçava a cada passo mergulhar.


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— Diz que é a direito? — implorava o marido. — À esquerda, se me faz o favor! M. Chabre deu um passo à esquerda e gritou. Acabava de se enfiar na água até ao pescoço, o seu laço afogava-se. Muito à vontade, Hector largou a sua confissão: — Eu amo-a, senhora… — Senhor, cale-se, ordeno-lho. — Eu amo-a, eu adoro-a… Até agora o respeito tem-me fechado a boca… Não olhava para ela; com água até ao peito continuava a dar grandes passadas. Estelle achou tanta graça à situação, que não conseguiu reter um grande riso. — Vamos, cale-se — continuou ela a dizer num tom maternal, dando-lhe uma palmada no ombro. — Tenha juízo e, sobretudo, não me faça cair! Esta palmada encheu Hector de encantamento; o pacto estava assinado. E como o marido continuasse cheio de angústia: — Agora sempre a direito! — gritou-lhe alegremente o rapaz. Quando chegaram à praia, M. Chabre quis começar a dar uma explicação. — Palavra de honra, estive quase a ficar lá! — gaguejou. — São estas botas… Mas Estelle abriu o cesto e mostrou-o cheio de camarões. — O quê! Pescaste tudo isso? — exclamou ele, estupefacto. — És perita a pescar! — Oh! — disse ela a sorrir e a olhar para Hector. — Este senhor mostrou-me como se faz.


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v Os Chabre não iam passar mais de dois dias em Piriac. Hector parecia consternado, furioso, mas no entanto humilde. Quanto a M. Chabre, interrogava todas as manhãs a sua saúde e mostrava-se perplexo. — Não podem abandonar a costa sem ter visto os rochedos do Castelli — disse à noite Hector. — Temos de organizar para amanhã um passeio. Deu explicações. Os rochedos ficavam apenas a um quilómetro. Iriam ao longo do mar, numa extensão de meia légua escavada com grutas afundadas pelas águas. Ao que ele dizia, nada era mais selvagem. — Pois bem! Vamos lá amanhã — acabou por dizer Estelle. — É um caminho difícil? — Não, há duas ou três passagens onde molhamos os pés, e nada mais. Mas M. Chabre já nem os pés queria molhar. Depois do banho da pesca aos camarões, alimentava um rancor contra o mar. E também se mostrou muito hostil a este projecto de passeio. Era ridículo arriscar-se assim; para começar, não ia descer no meio daqueles rochedos porque não tinha vontade de partir as pernas se saltasse como uma cabra; a ser absolutamente necessário, acompanhá-los-ia pela falésia; e já isto era uma grande concessão! Para o acalmar, Hector teve uma inspiração súbita. — Oiça — disse ele — vai passar à frente do semáforo do Castelli. E olhe! Pode entrar lá e comprar mariscos aos homens do telégrafo… Têm-nos sempre excelentes, e dão-nos por quase nada.


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— Isso é uma ideia — disse o antigo comerciante de sementes, que regressava ao bom humor. — Levo um pequeno cesto, e mais uma vez vou encher-me com eles… E voltando-se com uma prazenteira intenção para a sua mulher: — Diz lá se não vai ser, talvez, o melhor!… No dia seguinte foi preciso esperar pela maré baixa para se porem a caminho. Além disto, como Estelle ainda não estava pronta atrasaram-se, só partiram às cinco horas da tarde. Hector afirmava, no entanto, que não seriam apanhados pela maré alta. A jovem tinha os pés sem meias metidos em botinas de cotim. Levava com galhardia um vestido de pano cinzento muito curto, que levantava e punha à mostra os seus finos tornozelos. Quanto a M. Chabre, estava correctamente vestido com calças brancas e casaco de alpaca. Tinha agarrado no guarda-sol e num pequeno cesto, mostrando o ar convencido de um burguês parisiense que saísse de casa para ir ele próprio ao mercado. Foi penoso, o caminho para chegar às primeiras rochas. Andavam numa praia de areia solta, onde os pés se enterravam. O antigo comerciante de sementes soprava como um boi. — Pois bem! Vou deixar-vos e subir até lá acima — acabou por dizer. — Isso mesmo, tome este carreiro — respondeu Hector. — Mais adiante ficaria bloqueado… Não quer uma ajuda? E ficaram a olhar para ele, até atingir o alto da falésia. Logo que lá chegou abriu o guarda-sol e balançou o cesto, gritando: — Já cá estou, está-se melhor aqui!… E nada de imprudências, não é verdade? Aliás, fico a observar-vos. Hector e Estelle meteram-se no meio das rochas. Calçado com botas altas, o rapaz ia à frente, a saltar de pedra em pedra


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com a graça forte e a perícia de um caçador da montanha. Muito afoita, Estelle escolhia as pedras que Hector tinha utilizado; e quando ele se voltava para trás, para perguntar: — Quer que eu lhe dê a mão? — Não é preciso — respondia ela. — Julga que sou uma avó? Já estavam numa vasta extensão plana de granito que o mar tinha gasto, sulcando-o com profundos vincos. Dir-se-iam espinhas de um qualquer monstro que tinham atravessado a areia, pondo ao rés do solo a carcaça das suas vértebras deslocadas. Nas reentrâncias os fios de água corriam, algas negras penduravam-se como cabeleiras. Continuavam ambos a saltar, permanecendo em equilíbrio por instantes, a rebentar de riso quando um calhau rolava. — Estamos aqui como em casa — repetia alegremente Estelle. — Podíamos pôr num salão, estes seus rochedos! — Espere, espere! — dizia Hector. — Já vai ver. Chegavam a uma passagem estreita, a uma espécie de fenda que bocejava entre dois enormes blocos. Havia ali um charco numa bacia, um buraco de água que vedava o caminho. — Não vou conseguir passar! — exclamou a jovem. Ele ofereceu-se para a levar. Mas ela recusou com um demorado sinal de cabeça; não queria voltar a ser carregada. Ele pôs-se então a procurar por todos os lados grandes pedras, tentou estabelecer uma ponte. As pedras escorregavam, caíam no fundo da água. — Dê-me a mão, vou saltar! — acabou Estelle por dizer, cheia de impaciência. E deu um salto demasiado curto, que deixou um dos seus pés dentro do charco. Isto fê-los rir-se. Depois, quando saíram da passagem estreita ela deixou escapar um grito de admiração.


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Escavava-se ali uma angra preenchida por um gigantesco desabamento de rochas. Blocos enormes mantinham-se de pé como sentinelas da linha da frente, levadas até ao meio das ondas. O mau tempo tinha comido a terra ao longo das falésias, deixando apenas as massas despidas do granito; e havia baías metidas entre promontórios, voltas bruscas que punham à mostra salas interiores, bancos de mármore enegrecido que se estendiam na areia, parecidos com grandes peixes naufragados. Dir-se-ia uma cidade ciclópica tomada de assalto e devastada pelo mar, com as suas muralhas deitadas abaixo, as suas torres meio demolidas, os seus edifícios caídos uns sobre os outros. Hector fez a jovem visitar os menores recantos desta ruína das tempestades. Ela andava em cima de areias finas e amarelas como um pó de ouro, em cima dos seixos que palhetas de mica acendiam ao sol, em cima de esboroamentos de rocha onde tinha por momentos de servir-se das duas mãos para não cair nos buracos. Passava debaixo de pórticos naturais, debaixo de arcos de triunfo que imitavam o pleno arco de abóbada da arte romana e a ogiva esguia da arte gótica. Descia a cavidades cheias de frescura, ao fundo de desertos com dez metros quadrados, divertida com os cardos azulados e as plantas gordas, de um verde sombrio, que manchavam as muralhas pardas das falésias, mostrava interesse pelas aves marinhas familiares, pequenos pássaros castanhos que voavam ao alcance da sua mão, com um leve grito ritmado e contínuo. E o que mais a maravilhava era voltar-se no meio das rochas e reencontrar sempre o mar com a linha azul que reaparecia no meio de todos os blocos e se alargava com a sua grandeza tranquila. — Ah! Afinal estão aí! — gritou M. Chabre do alto da falésia. — Eu estava inquieto, tinha-vos perdido de vista… Digam lá se estes abismos não assustam!


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Estava, com prudência, a seis passos da borda, abrigado pelo guarda-sol, com o cesto enfiado no braço. Acrescentou: — Ela sobe a grande velocidade, tomem cuidado! — Temos tempo, não tenha medo — respondeu Hector. Estelle, que se tinha sentado, continuava sem palavras à frente do horizonte imenso. À sua frente erguiam-se três pilares de granito arredondados pela onda, parecidos com colunas gigantescas de um templo destruído. E atrás o mar alto estendia-se sob a luz dourada das seis horas, de um azul de rei com palhetas de ouro. Entre dois pilares, muito ao longe, uma pequena vela punha uma mancha de branco resplandecente como a asa de uma gaivota que rasasse a água. A próxima serenidade do crepúsculo já caía do céu pálido. Estelle nunca se sentira penetrada por uma volúpia tão vasta e tão terna. — Venha — disse Hector com uma voz suave e a tocar-lhe com a mão. Ela estremeceu e levantou-se, cheia de languidez e abandono. — Este casebre com um mastro é o semáforo, não é? — gritou M. Chabre. — Vou lá procurar mariscos, e já vou ter convosco. E então Estelle, para sacudir a preguiça mole que a tinha invadido começou a correr como uma criança. Saltava por cima dos charcos, aproximava-se do mar tomada pelo capricho de subir até ao alto de um monte de rochas que devia, com a maré alta, formar uma ilha. E quando atingiu o cimo, depois de uma ascensão laboriosa no meio de gretas, subiu a uma pedra mais alta e sentiu-se feliz por dominar a devastação trágica da costa. O seu perfil esguio destacava-se no ar puro, a sua saia batia ao vento como uma bandeira.


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E quando desceu debruçou-se sobre todos os buracos que encontrou. Em todas as cavidades, por mais pequenas que fossem, havia pequenos lagos tranquilos e adormecidos, águas de uma limpidez perfeita com espelhos claros que reflectiam o céu. No fundo, ervas de um verde-esmeralda plantavam florestas românticas. Só lá havia grandes caranguejos negros a saltar como rãs, e que desapareciam sem perturbar sequer a água. A jovem continuava o seu devaneio, como se tivesse esquadrinhado com o olhar países misteriosos, vastas e felizes regiões desconhecidas. Quando voltaram para a base das falésias, reparou que o companheiro tinha enchido o seu lenço com lapas. — São para M. Chabre — disse ele. — Vou fazê-las subir… E aconteceu que M. Chabre acabava nesse momento de aparecer, desolado. — Nem um mexilhão há no semáforo — gritou. — Razão tinha eu, por não querer vir. Mas quando o rapaz lhe mostrou de longe as lapas, acalmou-se. Ficou estupefacto com a sua agilidade a trepar por um caminho que só ele conhecia, ao longo de uma rocha que parecia lisa como uma muralha. A descida ainda foi mais audaciosa. — Não custa nada — dizia Hector — é uma autêntica escada; basta sabermos onde estão os degraus. M. Chabre queria que voltassem todos para trás, porque o mar tornava-se inquietante. E suplicava à sua mulher que subisse e procurasse um caminho pelo menos mais cómodo. O rapaz ria-se, respondendo que não havia ali caminhos para senhoras, que agora era preciso ir até ao fim. Aliás, não tinham visitado as grutas. M. Chabre teve de resignar-se e continuar


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pela crista das falésias. Como o sol já estava a declinar, fechou o guarda-sol e serviu-se dele como de uma bengala. Com a outra mão agarrava no cesto de lapas. — Está cansada? — perguntou Hector com uma voz suave. — Sim, um pouco — respondeu Estelle. Aceitou o seu braço. Não estava cansada mas era invadida, cada vez mais, por um delicioso abandono. A emoção que acabava de experimentar, ao ver o rapaz pendurado no flanco das rochas, deixara-a com uma tremura interior. Avançaram com lentidão num areal; o cascalho, feito com pedaços de conchas rangia debaixo dos pés como nas áleas de um jardim; já não falavam. Ele mostrou-lhe duas largas fendas, o Buraco do Monge Louco e a Gruta do Gato. Ela entrou, ergueu os olhos e não sentiu mais do que um leve arrepio. Quando voltaram a andar ao longo de uma bonita areia fina olharam um para o outro, e continuaram calados e sorridentes. O mar subia com curtas ondas ruidosas, mas não o ouviam. Por cima deles M. Chabre começou a gritar, mas também não o ouviram. — Isto é uma loucura! — repetia o antigo comerciante de sementes, a agitar o guarda-sol e o cesto das lapas. — Estelle!… M. Hector!… Estão a ouvir-me? Vão ser apanhados! Já têm os pés dentro de água! Mas eles não sentiam a frescura daquelas pequenas ondas. — Hein? O que é que lhe aconteceu? — acabou a jovem por murmurar. — Ah! É o senhor, M. Chabre? — disse o rapaz. — Não tem importância, não tenha medo… Só nos falta ver a Gruta da Senhora. M. Chabre fez um gesto de desespero, acrescentando:


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Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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Os ombros da marquesa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15 Os lamentos da marquesa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20 Uma jaula de animais ferozes. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26 Os contrastes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34 A morte do rico. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45 O meu vizinho Jacques . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55 O dia do cão errante . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60 A morte de Olivier Becaille . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 68 [Os filhos da viúva] . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 104 Os mariscos de M. Chabre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113


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Os génios, seguido de Exemplos, Victor Hugo O senhor de Bougrelon, Jean Lorrain No sentido da noite, Jean Genet Com os loucos, Albert Londres Os manuscritos de Aspern (versão de 1888), Henry James O romance de Tristão e Isolda, Joseph Bédier A freira no subterrâneo, com o português de Camilo Castelo Branco Paul Cézanne, Élie Faure, seguido de O que ele me disse…, Joachim Gasquet David Golder, Irene Nemirowsky As lágrimas de Eros, Georges Bataille As lojas de canela, Bruno Schulz O mentiroso, Henry James As mamas de Tirésias — drama surrealista em dois actos e um prólogo, Guillaume Apollinaire Amor de perdição, Camilo Castelo Branco Judeus errantes, Joseph Roth A mulher que fugiu a cavalo, D.H. Lawrence Porgy e Bess, DuBose Heyward O aperto do parafuso, Henry James Bruges-a-Morta — romance, Georges Rodenbach Billy Budd, marinheiro (uma narrativa no interior), Herman Melville Histórias da areia, Isabelle Eberhardt O Lazarilho de Tormes, anónimo do século XVI e H. de Luna Autobiografia, Thomas Bernhard Bubu de Montparnasse, Charles-Louis Philippe Greco ou O segredo de Toledo, Maurice Barrès Cinco histórias de luz e sombra, Edith Wharton Dicionário filosófico, Voltaire A papisa Joana — segundo o texto de Alfred Jarry, Emmanuel Rhoides O raposo, D.H. Lawrence Bom Crioulo, Adolfo Caminha O meu corpo e eu, René Crevel Manon Lescaut, Padre Prévost O duelo, Joseph Conrad A felicidade dos tristes, Luc Dietrich Inferno, August Strindberg Um milhão conta redonda ou Lemuel Pitkin a desmantelar-se, Nathanael West Freya das sete ilhas, Joseph Conrad O nascimento da arte, Georges Bataille


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Émile Zola OS OMBROS DA MARQUESA

Émile Zola OS OMBROS DA MARQUESA e outras ironias

encontradas e traduzidas por

Aníbal Fernandes

Um Zola irónico, um Zola-outro, excêntrico à grave dureza do mundo dos seus Rougon-Macquart.

www.sistemasolar.pt

Émile Zola OS OMBROS DA MARQUESA e outras ironias

Émile Zola, Os Ombros da Marquesa  

«Desde há quinze meses a marquesa está desolada, desesperada, aniquilada. Tem pavorosas enxaquecas, maus humores terríveis. Bate com impaciê...

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