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Adolfo Caminha BOM CRIOULO

Adolfo Caminha BOM CRIOULO «Sentia ferroar-lhe a carne como a ponta de um aguilhão, como espinhos de urtiga brava…» Uma Carmen no masculino. Uma audácia de 1895… em português.

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Adolfo Caminha BOM CRIOULO


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Adolfo Caminha BOM CRIOULO

apresentação de

Aníbal Fernandes


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© SISTEMA SOLAR, CRL RUA PASSOS MANUEL, 67B, 1150-258 LISBOA 1.ª EDIÇÃO, SETEMBRO 2014 ISBN 978-989-8566-66-9


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Um inquérito feito à presença da homossexualidade na literatura ocidental dá-nos a conhecer — na que floresceu durante as grandes civilizações grega e romana — uma enorme desenvoltura perante a sua existência na sociedade desses tempos. Há ao longo de toda ela o seu desinibido comentário, e até a sua apologia. Para confirmá-lo poder-se-iam colher exemplos numa grande lista de autores. Mas depois, com a derrocada destes impérios e o Ocidente fervorosamente cristão, começa a encontrar-se a tal respeito um atroador silêncio. Não por culpa do Cristo, que foi tolerante e grande filósofo; mas por uma moralidade que depois dele — e com o mentiroso pretexto de fazer cumprir o seu ensinamento — se construiu e fechou em mentes estreitas, em vocações de crueldade que em seu nome queimaram homossexuais como espectáculo de exemplo na praça pública. Com o trabalho dos séculos houve neste frenesi abrandamentos mas que prolongavam, ainda assim, a sua punição legal, e mostraram nos regimes nazi e soviético uma conhecida e feroz recuperação da antiga intolerância. Sob esta vergasta jurídica e moral, a literatura viveu durante intermináveis tempos amedrontada. Era-lhe oferecida, quanto a sentimentos, um campo largo desde que ignorasse os do amor e do desejo entre pessoas do mesmo sexo. É verdade que surgiram, com maiores e menores coragens, os que enfrentaram esta interdição; e se ignorarmos os da má literatura clandestina e os autores pouco significativos, terá de registar-se que a Inglaterra se incomodou desde 1600 com os sonetos de amor que o seu grande poeta


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Shakespeare dedicou ao jovem W.H.; que houve em 1840 nos Estados Unidos um Richard Dane que lembrou, no livro Two Years Before the Mast, o que podia ocorrer de marinheiro a marinheiro nos navios que se prolongavam sobre os mares; que em 1858 Walt Whitman se atreveu a versos homo-eróticos na secção «Cálamo» de Leaves of Grass; ou que Herman Melville andou mais e menos tímido à volta desta realidade, mais explícito no seu póstumo Billy Budd… A Rússia teve Dostoievski; o que em 1849 contou em Netochka Nezvanova uma história que pouco disfarça um caso de amor lésbico; e que em 1862 foi claro sobre a homossexualidade no campo de trabalhos forçados do seu Recordação da Casa dos Mortos. Mas a França. A França, com as suas tradições de liberdade mostrou, para o que se esperaria das suas desenvolturas, uma contenção. Se teve um marquês de Sade que pôs em cena todas as variedades concebíveis na utilização dos sexos (mas apenas como um sistematizado programa de transgressão contra as normas da moral estabelecida pela sociedade da época), até ao século XX poucas vezes nos fez perceber nos seus escritores um desejo bem marcado de enfrentar a realidade do amor de homem a homem ou de mulher a mulher. Houve em 1835 os casos de La Fille aux yeux d’or de Balzac, e de Mademoiselle de Maupin de Théophile Gautier, que teceram tramas só compreensíveis se andar por entre os seus fios um amor lésbico; e é um facto que o mesmo Balzac inventou nas suas personagens Vautrin, onde poderá ver-se uma suave prefiguração dos futuros heróis de Jean Genet; mas Émile Zola, com romances que percorreram a mais larga escala dos sentimentos, que se deteve nos marginais da sociedade do seu tempo, parou no limiar da homossexualidade. Em 1895 escreveu o prefácio do texto de um médico que assinava com o pseudónimo Laupts (Le Roman d’un inverti-né), hesitante entre a ficção e o olhar científico sobre a homossexualidade como patologia, mas quando lhe perguntaram por que ignorava como romancista os que


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praticavam o amor com parceiros do mesmo sexo, respondeu que já havia na sua vida sarilhos bastantes para se meter voluntariamente em mais um. É uma resposta que tem subjacente receios dos eventualmente tentados a abordar sob forma literária este tema. Assim na França e bastante mais, como é de prever, na Inglaterra da moral vitoriana, onde Charles Dickens se limitou a dar em 1838 o nome de Fagin ao judeu do seu Oliver Twist, para muito transversalmente sugerir que a sua relação com os rapazinhos de Londres passava pela pedofilia (em inglês, a sonoridade de fagin não anda longe de fag, um dos nomes que a linguagem popular inglesa dá aos homossexuais masculinos). Em 1859 Algernon Swinburne deixou incompleto Leslia Brandon, reservando-lhe o prudente destino de romance póstumo; e em 1885 houve Marius the Epicurean de Walter Pater, um romance filosófico que à custa da Roma clássica enveredava por «verdades históricas» que o seu país não admitiria num tema actual e regional. Mas depois surgiu Oscar Wilde, aquele que em 1889 publicou The Portrait of Mr. W.H., recuperando para seu tema o amor incómodo dos sonetos de Shakespeare, e no ano seguinte The Portrait of Dorian Gray, envolvendo-o numa complicada filigrana para parecer que não contava a história de um homossexual. Ora, cinco anos depois este mesmo Oscar Wilde estava a enfrentar o processo judicial que causou um largo escândalo e o condenou ao cárcere de Reading. Tinha-se provado em tribunal que ele mantivera relações sexuais com vários rapazes de Londres (para além de Lloyd Douglas, personagem principal do processo). Intelectuais franceses fizeram uma petição para solicitar a sua liberdade, mas não conseguiram as assinaturas de Anatole France, Jules Renard, Alphonse Daudet, Edmond Goncourt, Maurice Barrès, Pierre Louÿs, Zola… nomes com peso intelectual na época e com uma habitual abertura nas suas posições que pareceu em desacordo com esta recusa. A mesma petição teve na Inglaterra um enfatizado repúdio de Henry James; mas, registe-se, o corajoso apoio de Bernard Shaw.


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Ora, neste mesmo ano 1895, e com este nome importante da literatura afectado por um escândalo de costumes que abalava e dividia os intelectuais do mundo ocidental, que tingia as restrições exigidas pela «decência» com tonalidades ainda mais severas e capazes de atemorizar qualquer escritor, um jovem brasileiro com vinte e oito anos de idade cometeu o que pode hoje confirmar-se como suprema audácia: a publicação de Bom Crioulo, uma novela com a homossexualidade explícita e, como se este muito por si não bastasse, inter-racial e pedófila. Era um jovem com aspecto envelhecido, fisicamente debilitado pela tuberculose pulmonar que lhe concederia apenas mais dois anos de vida. Um cearense: e de seu nome Adolfo Caminha. * Aracati, mais conhecido como Praia da Canoa Quebrada, pertence às terras do Ceará. E os seis filhos de Raymundo Ferreira dos Santos Caminha ali ficaram precocemente órfãos de mãe. Um deles, Adolfo, tinha nesse mau momento dez anos de idade, e reagia com preocupantes problemas de saúde à secura e a outras durezas do clima. Ao pai Raymundo pareceu prudente mandá-lo para casa de uns parentes que viviam em Fortaleza. Mais tarde, e ao sabor destas mesmas caridades, foi transferido para o Rio de Janeiro e para a casa de um tio. Em 1883 Adolfo estava com dezasseis anos de idade e em condições mentais e físicas para construir um bem defendido futuro na Marinha de Guerra. Para lá entrou; e dois anos depois era guarda-marinha, mas também poeta que temperava os rigores militares fazendo versos (nessa altura publicou Voos Incertos), e no ano seguinte se propunha como contista (editando Judite e Lágrimas de um Crente).


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Em 1889, com vinte e dois anos de idade e já segundo-tenente integrado na Escola de Aprendizes Marinheiros de Fortaleza, em horas livres cheio de entusiasmos com o trabalho que lhe cabia na organização do Centro Republicano Cearense (o seu fervor político chegou à singularidade de aproveitar uma comemoração de Victor Hugo para fazer um discurso republicano na presença do velho imperador Pedro II), viu-se atirado para o centro de um escândalo de amor com pormenores que davam alimento às conversas dos que naquela cidade viviam. Adolfo Caminha, apaixonado e voluntarioso, desviava para sua casa e para o seu leito Isabel Paula de Barros, mulher legítima de um alferes que passou a lamentável e deplorado exemplo de marido traído. Fortaleza carregou o sobrolho à desfaçatez deste casal fora da lei; a estabilidade da vida profissional de Adolfo foi abalada com pressões, ameaças, e de nada valeu uma tentativa apaziguadora do Ministro da Marinha: viu-se forçado à demissão. Admitido depois como funcionário público, sujeitou-se ao lugar de amanuense numa tesouraria da Fazenda. Anos mais tarde, Adolfo Caminha era um homem acalmado naquela relação conjugal exterior à bênção católica, já duas vezes pai de filhas que registou com imprevisíveis nomes inspirados pela literatura (Belkiss e Aglais), e com lazeres capazes de o fazer abalançar-se a escritas mais exigentes. Nasceu assim o romancista, e com duas primeiras obras «de vingança», como foi mais tarde longamente argumentado por Louise DeSalvo, que o considerou um caso de arte a substituir «uma inadequação». De facto A Normalista (de 1893 mas só com publicação integral em 1898), a propósito da história de uma jovem seduzida pelo seu padrinho, ou seja, de uma situação não admitida pelas boas regras da sociedade, ajustou contas com aqueles que o «expulsaram» de Fortaleza. Diz Alfredo Bosi que «o ressentimento do autor, apoucado pela vida de amanuense no meio hostil de Fortaleza, levou-o a nivelar todas as personagens no sentido das pequenas vilezas que a hipocrisia


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do meio se esforçava em vão por encobrir». Mas o romancista por aqui não ficou. No ano seguinte, o seu segundo e mais célebre romance Bom Crioulo utilizaria esta mesma veia para um retrato pouco simpático da disciplina sádica então praticada na Marinha brasileira — as suas punições cruéis e as suas mentes reaccionárias — aquelas que o tinham obrigado a demitir-se por causa da sua coabitação pecaminosa. Literariamente, Adolfo Caminha era um naturalista que idolatrava Émile Zola; que num texto lhe concedeu assento «à mão direita de Shakespeare e Balzac»; que o seguia nas lições de sobrevalorização do instinto sobre os sentimentos, do homem-animal a actuar antes do outro, que dispõe da razão. A história de Bom Crioulo, imaginada como uma Carmen no masculino mas expurgada de exacerbados sentimentos à Mérimée, determinada pela programática dissolução literária de todos os sentimentos românticos, faz do espaço do navio e dos seus chefes um cenário de trabalho duro e vida sem privacidade, e oferece-lhe o contraponto do sótão da portuguesa D. Carolina, refúgio de uma doce e ansiada intimidade. Um marinheiro crioulo (ou seja, um mestiço de sangues negro e índio), com trinta anos de idade, «muito alto e corpulento, figura colossal de cafre», não resiste à atracção física de um grumete de quinze anos, «belo marinheiro de olhos azuis». Pouco depois está construído um pouco habitual triângulo que na casa da portuguesa D. Carolina (mulher fogosa, com desejos de oferecer à experiência do seu corpo maduro um amante jovem) se faz vórtice numa história de fúria sexual e morte, com elementos inter-raciais e pedófilos, servido com uma frieza descritiva que passa ao lado de qualquer julgamento moral das personagens, tudo isto muito mais do que chegava para ser insuportável aos leitores daquele final do século XIX. Adolfo Caminha foi na sua época atacado pela crítica «oficial», e depois dela pelos que ampliaram os seus defeitos, ridicularizam pormenores de estilo isolando-os do contexto com malévola tendência; e se ele conseguiu


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fazer sob esta desagradável chuva uma carreira que já galgou um século, nunca descolou de si o rótulo de autor «maldito». Foi-lhe desde logo imposto pela impertinência que se chama Bom Crioulo, como se depreende dos azedumes injustificados na crítica de contemporâneos seus, e com momento mais agudo num texto de V[alentim] M[agalhães]. Com este semianonimato de duas iniciais, V.M. veio à página de um jornal sugerir que o próprio Caminha, ex-embarcadiço, estaria a falar de experiências por si vividas em anos de marinha. A resposta do autor está no texto «Um Livro Condenado»: «A julgar como certos imbecis que os personagens de um romance devem reflectir o carácter do autor do romance, Flaubert, Zola e Eça de Queirós praticaram incestos e adultérios monstruosos.» A intriga de Bom Crioulo recuperava um caso sangrento, ocorrido no Rio de Janeiro, e que as memórias da época reconheciam por ter interessado a imprensa brasileira. Com assinalável eficácia, Adolfo Caminha fazia sentir a moleza em dias de muito calor e as complacências físicas que ela inspira, o sangue que saltava e escorria sob a pancada dos chicotes do convés. A sua prosa de forte vocação olfativa soltava cheiros humanos e outros, os que acompanhavam Bom Crioulo nos caminhos do desejo sexual, nas imaginações de um ciúme orgânico que só encontraria resposta no gesto mortal. Estava em tudo isto uma violência hostil aos leitores da sua época, uma verdade reconhecida mas que devia manter-se arredada das escolhas da literatura. E de que valia o autor ceder em dois momentos ao que era então bem visto pelas definições da moral e da ciência, chamando à masturbação «acção feia e deprimente do carácter humano» e a um acto homossexual «delito contra a natureza», se ao correr da novela os tratava com naturalidade complacente ou mesmo com a desenvoltura de uma aceitação? Bom Crioulo surgia como uma insolência de perdão difícil. Mais irritante ainda por não disfarçar uma vontade de autor jovem que ostentava a sua ousadia perante as faltas de coragem literária que o rodeavam.


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Caminha morreu pouco depois, no dia de Ano Novo que iniciava 1897, destruído pela tuberculose e a cinco meses de completar trinta anos de idade. Não teve tempo para se mostrar com as seguranças da maturidade literária, e à impertinente surpresa de Bom Crioulo só acrescentou o romance Tentação, já não «de vingança» e até mesmo de bondade para o mundo que ele combatia, para a sociedade que ele desprezava. Este Adolfo Caminha: — o republicano que a pretexto de Victor Hugo incomodou com um discurso o imperador; que roubou a um alferes a sua mulher legítima; que desceu, por amor, desde a prestigiada posição de segundo-tenente da marinha à menoridade administrativa de um funcionário amanuense; que o nome das ruas hoje não esquecem (em Aracati e em Fortaleza, no Andaraí do Rio de Janeiro, no Ipiranga de São Paulo…); e sobretudo o que em 1895, com Oscar Wilde preso por homossexualidade no cárcere de Reading e perante uma literatura que se amedrontava com referências à relação física entre pessoas do mesmo sexo, se atreveu a este homem escuro e a este adolescente louro abraçados no prazer e na morte que sopram as páginas quentes do seu Bom Crioulo. A.F.

Nota: Além de adoptar a ortografia do português de Portugal, esta edição eliminou a pontuação do texto original onde perturbava, por excesso, a sua natural respiração.


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1. A velha e gloriosa corveta — que pena! — já nem sequer lembrava o mesmo navio d’outrora, sugestivamente pitoresco, idealmente festivo como uma galera de lenda branca e leve no mar alto, grimpando serena o corcovo das ondas!… Estava outra, muito outra com o seu casco negro, com as suas velas encardidas de mofo, sem aquele esplêndido aspecto guerreiro que entusiasmava a gente nos bons tempos de «patescaria»1. Vista ao longe, na infinita extensão azul, dir-se-ia agora a sombra fantástica de um barco aventureiro. Toda ela mudada, a velha carcaça flutuante, desde a brancura límpida e triunfal das velas té à primitiva pintura do bojo. No entanto ela aí vinha — esquife agourento — singrando águas da pátria, quase lúgubre na sua marcha vagarosa; ela aí vinha, não já como uma enorme garça branca flechando a líquida planície mas lenta, pesada, como se fora um grande morcego apocalíptico de asas abertas sobre o mar… Havia pouco entrara na região das calmarias: o pano começava a bater frouxo, mole, inchando a cada solavanco para recair depois com uma pancada surda e igual no mesmo abandono sonolento; a viagem tornava-se monótona; a larga superfície do oceano estendia-se muito polida e imóvel sob a irradiação meridional do sol, e a corveta deslizava apenas tão de leve, tão de leve que mal se lhe percebia o movimento. 1

Diz-se dos marinheiros que preferem a vida de bordo, a vir a terra firme. (N.E.)


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Nem sinal de vela na linha azul do horizonte, indício algum de criatura humana fora daquele estreito convés: água, somente água em derredor, como se o mundo houvesse desaparecido num dilúvio medonho… e no alto, lá cima, o silêncio infinito das esferas obumbradas pela chuva de ouro do dia. Triste e nostálgica a paisagem, onde as cores desmaiavam à força de luz e a voz humana perdia-se numa desolação imensa! Marinheiros conversavam à proa, sentados uns no castelo, outros em pé, colhendo cabos ou estendendo roupa ao sol, tranquilamente, esquecidos da faina. As chapas dos mastros, a culatra das peças, varais de escotilha, tudo quanto é aço e metal amarelado reluz fortemente encandeando a vista. De vez em quando há um grande rebuliço: a mastreação geme como se fora desprender-se toda, o pano bate com força de encontro às vergas, chocam-se cabos com um ruidozinho seco, e ouve-se o cachoeirar da água no bojo da velha nau. — Aguenta! — diz uma voz. E volta o sossego e continua a pasmaceira, o tédio, a calmaria sem fim… Já os primeiros sintomas de indolência reflectiam-se no semblante da gente, convertendo-se em bocejos e espreguiçamentos de sesta, e ainda ficavam tão longe as montanhas da costa e os carinhos da família!… Escasseavam os géneros, e o regímen da carne seca e das conservas em lata aproximava-se ameaçadoramente, causando apreensões à marinhagem. Tinham dado onze horas na sineta de proa. O tenente que estava de quarto no passadiço conferiu o relógio d’algibeira, um belo cronómetro de ouro comprado em Toulon, torceu o bigode, passou uma vista d’olhos no aparelho; e dirigindo-se


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para a espada que descansava junto ao mastro, numa voz clara um pouco metálica: — Cometa1! Era um oficial distinto, moço, moreno, os olhos vivos e inteligentes, grande calculista, jogador da sueca e autor de um Tratado Elementar de Navegação Prática. Ninguém a bordo o excedia na procura dos logaritmos. Calculava d’olhos fechados, e senos e cosenos acudiam-lhe à ponta do lápis de um modo admirável. Era, invariavelmente, o primeiro que achava a hora meridiana. Tornara-se conhecido logo ao sair da escola pelo seu entranhado amor às matemáticas e à vida naval. Como guarda-marinha deixava-se ficar a bordo nos dias de folga, somente «para não perder o hábito». Inimigo de terra, preferia o far-niente de seu camarote, ali ao pé dos livros e das fotografias marítimas, ao movimento esterilizador e absorvente dos cafés e dos teatros. — Cometa! — repetiu, carregando o semblante numa sombria expressão de constrangimento. Outras bocas foram transmitindo a ordem té que surgiu, correndo, a figura exótica de um marinheiro negro, d’olhos muito brancos, lábios enormemente grossos, abrindo-se num vago sorriso idiota, e em cuja fisionomia acentuavam-se linhas características de estupidez e subserviência. — Pronto! — disse levando a mão ao boné com um jeito marcial. — Toca mostra — ordenou o tenente. Às primeiras notas da cometa, límpidas e sem eco no silêncio do mar alto, houve logo um estranho bulício em todos os recantos da corveta. — Agora os marinheiros, que descansavam à proa, olhavam-se 1

Deturpação verbal de «corneta». (N.E.)


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por cima dos ombros com ar desconfiado. Na tolda e pelas cobertas o movimento foi-se acelerando à proporção que o toque finalizava, sobressaindo no atropelo a voz das guardiães: — Sobe, sobe — tudo pra cima! — de envolta com um barulho de ferros que vinha dos porões. O «mestre d’armas», cabrocha1 pedante, muito cheio de si e de seus galões reluzentes, ia enfileirando a marinhagem por alturas, num exagero metódico de instrutor de colégio, arredando uns para colocar outros, advertindo estes porque não traziam a camisa abotoada e aqueles porque não tinham «fita» no boné, ameaçando estoutro de levá-lo à presença de «seu» tenente porque recusava-se a perfilar… Oficiais começavam a aparecer em segundo uniforme — boné e dragonas — arrastando as espadas, mirando-se d’alto a baixo, apertados no talim de pano azul, por cima da farda. Com pouco estava tudo pronto, marinheiros e oficiais — aqueles alinhados a dois de fundo num e noutro bordo, estes à ré, perto do mastro grande em atitude respeitosa de quem vai assistir um acto solene. Tinha-se feito silêncio. Uma ou outra voz segredava baixinho, timidamente. E agora, no silêncio da mostra, é que se ouvia bem o cachoeirar da água no bojo da corveta caturrando… — Aguenta! Por fim apareceu o comandante abotoando a luva branca de camurça, teso na sua farda nova, o ar autoritário, solta a espada num abandono elegante, as dragonas tremulando sobre os ombros em cachos de ouro, todo ele comunicando respeito. Era homem robusto de feições e presença nobre, olhar enérgico, muito moreno, desse moreno carregado, cor de bronze, que o sol im1

Tipo de mulato. (N.E.)


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prime nos homens do mar, bigode largo e compacto, levemente grisalho, com uma ponta de arrogância convencional. Silêncio absoluto nas fileiras da marinhagem. Cada olhar tinha um brilho especial de indiscreta curiosidade. Um frémito de instintiva covardia, como uma corrente eléctrica, vinha à face de toda aquela gente abespinhada ali assim, perante um só homem cuja palavra trazia sempre o cunho áspero da disciplina. Era um respeito profundo chegando às raias da subserviência animal que se agacha para receber o castigo, justo ou injusto, seja ele qual for. — Os presos… — fez o comandante sem se alterar, dando um puxão na manga da farda. Todos os olhares voltaram-se para o fiel d’artilheria vivamente curiosos enquanto este, obedecendo à ordem, precipitou-se pela escada que ia ter à coberta, mudo e taciturno. O tenente continuava no passadiço a passear, como se tudo corresse às mil maravilhas naquele pequeno mundo flutuante de que ele era agora uma espécie de rei provisório. Ouvia-se-lhe o passo vagaroso e igual como o de uma sentinela nocturna. A luz intensa do sol caía do alto pondo brilhos de malacacheta no cristal imenso do mar calmo. Um calor forte e asfixiante penetrava a carne acelerando a circulação, congestionando, irritando o sistema nervoso atrozmente, implacavelmente. Toda a atmosfera parecia vibrar num incêndio universal. E o pano largo e frouxo a bater, a bater como uma coisa desesperada… «Calmaria estúpida!», pensava o tenente consultando os horizontes. «Ele, o grande patesca, a olhar o tempo, sem fazer nada por causa de um diabo de calma interminável! Raríssimas vezes lhe acontecia aquilo: era mesmo para danar uma pessoa…»


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Chegam os presos: um rapazinho magro, muito amarelo, rosto liso, completamente imberbe; outro regulando a mesma idade mas um pouco moreno, também grumete; e um primeira classe negro, alto, espadaúdo, cara lisa. Vinham em ferros, um a um, arrastando os pés num passo curto e demorado, e encaminharam-se para o meio do convés fazendo alto a um aceno do comandante. Este imediatamente segredou a outro oficial, que estava a seu lado com um livro na mão, e dirigindo-se ao primeiro sentenciado, o da frente, o rapazinho amarelo, cor de terra: — Sabe por que vai ser castigado? O grumete, sem levantar a cabeça, murmurou afirmativamente: que sim, senhor… Chamava-se Herculano e no seu rosto imberbe de adolescente havia uns longes de melancolia serena, assim como uma precoce morbidez sintomática… um secreto arrependimento. Na gola quadrangular de flanela azul destacava a divisa branca da sua classe. As unhas metiam náusea, muito quilotadas de alcatrão, desleixadas mesmo. Triste figura essa, cujo aspecto deixava uma impressão desagradável e persistente. O comandante, depois de um breve discurso em que as palavras «disciplina e ordem» repetiam-se, fez um sinalzinho com a cabeça e logo o oficial imediato, um louro de bigode, começou a leitura do Código na parte relativa a castigos corporais. A marinhagem analfabeta e rude ouvia silenciosa, com um vago respeito no olhar, aquele repisado capítulo do livro disciplinar, em pé, à luz dura e mordente do meio-dia, enquanto o oficial do quarto, gozando a sombra reparadora de um largo toldo estendido sobre sua cabeça, ia e vinha de um bordo a outro bordo sem se preocupar com o resto da humanidade.


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Junto aos presos equilibrava-se um homem de grande estatura, largo e reforçado, tipo de caboclo nascido no Amazonas, trajando fardeta e boné e segurando com ambas as mãos, sobre o joelho em descanso, o instrumento de castigo: era o guardião Agostinho, o célebre guardião Agostinho especialista consumado no ofício de aplicar a chibata, o mais robusto e valente de todos os guardiães, e cujo zelo em coisas de «patescaria» tornara-se proverbial. Nos momentos de manobra difícil era ele quem auxiliava o mestre na faina, invariavelmente munido de um apito de prata, não se afastando nunca de suas obrigações. — Caboclo macho! — diziam os companheiros. Se acontecia desprender-se um moitão, um cabo qualquer lá cima nos mastros, em lugar arriscado, ele mais que depressa galgava os enfrechates, com aquele corpo muito pesado transpunha o cesto de gávea, sem olhar pra trás, e ei-lo agarradinho aos vaus, atando e desatando ligeiro, alvo de todos os olhares, oscilando com o navio, em termos de precipitar-se no mar. Homem de poucas palavras, muito metido consigo, tolerante e enérgico ao mesmo tempo em matéria de serviço, não compreendia disciplina sem chibata, «único meio de se fazer marinheiro». E tinha sempre esta frase na ponta da língua: — Navio de guerra sem chibata é pior que escuna mercante… Por isso os marinheiros não o estimavam muito; pelo contrário, evitavam a sua presença procurando intrigá-lo com o mestre e com os outros inferiores. — O guardião Agostinho, sim, que era homem valente, capaz de comandar um quarto… E riam às escondidas, praguejando contra «o burro do Agostinho, que nem ao menos tinha jeito para capitão de proa.» Ele ali se achava também, no seu posto, à espera de um sinal para descarregar a chibata implacavelmente sobre a vítima. Sentia um prazer especial naquilo, que diabo! Cada qual tem a sua mania…


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— Vinte e cinco… — ordenou o comandante. — Tira a camisa? — quis logo saber Agostinho radiante, cheio de satisfação, vergando o junco para experimentar-lhe a flexibilidade. — Não, não: com a camisa… E solto agora dos machos, triste e resignado, Herculano sentiu sobre o dorso a força brutal do primeiro golpe, enquanto uma voz cantava sonolenta e arrastada: — Uma!… — E sucessivamente: duas!…três… vinte e cinco! Herculano já não suportava. Torcia-se todo no bico dos pés, erguendo os braços e encolhendo as pernas, cortado de dores agudíssimas que se espalhavam por todo o corpo, té pelo rosto, como se lhe rasgassem as carnes. A cada golpe escapava-lhe um gemido surdo e trémulo que ninguém ouvia senão ele próprio no desespero de sua dor. Toda a gente assistia aquilo sem pesar, com a fria indiferença de múmias. — Corja! — regougou o comandante brandindo a luva. — Não se compenetram de seus deveres, não respeitam a autoridade! Hei-de ensiná-los: ou aprendem ou racho-os! O caso era simples: Herculano tinha uns modos esquisitos de viver sempre retraído pelos cantos, evitando a companhia dos outros, fazendo seu serviço calado, não se envolvendo em sambas, à noite na proa. Tímido e esquivo, cada vez mais pálido, o olhar morto com uma pronunciada auréola de bistre, a voz cansada, caindo de fraqueza — tinham-lhe dado o apelido ridículo de Pinga. O grumete não podia se conformar com esse tratamento, por mais inofensivo que ele fosse, e vingava-se dos companheiros atirando-lhes palavrões de regateira aprendidos ali mesmo a bordo. — Ó Pinga!… Bastava isto para que ele desenrolasse o vocabulário do insulto numa cólera ameaçadora que às vezes chegava ao delírio.


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Os outros, porém, caíam na gargalhada: — Olha o Pinga! Segura ele! — Pinga é…. E lá ia uma obscenidade, um calão grosseiro. Palavra puxa palavra, quase sempre o gracejo acabava em questões de outra ordem, e daí prisões, castigos… Ora, aconteceu que na véspera desse dia Herculano foi surpreendido por outro marinheiro a praticar uma acção feia e deprimente do carácter humano. Tinham-no encontrado sozinho, junto à amurada, em pé, a mexer com o braço numa posição torpe, cometendo contra si próprio o mais vergonhoso dos atentados. O outro, um mulatinho esperto que tinha o hábito de andar espiando à noite o que faziam os companheiros, precipitou-se a chamar o Santana e, riscando um fósforo, aproximaram-se ambos «para examinar»… No convés brilhava a nódoa de um escarro ainda fresco: Herculano acabava de cometer um verdadeiro crime não previsto nos códigos, um crime de lesa-natureza, derramando inutilmente no convés seco e estéril a seiva geradora do homem. Grande foi o seu desapontamento ao ver-se apanhado em flagrante naquela grotesca situação. Investiu para o Santana, fulo de raiva, extremamente pálido, e com pouco estavam os dois agarrados numa luta corpo a corpo, aos trambolhões, acordando os que dormiam por ali o bom sono da madrugadinha… Terminou o alvoroço com a prisão de ambos. — Ah! seu Pinga, seu Pinga!… — repetia o guardião do quarto. — Não pense que, por ser branco, há-de fazer das suas… Tal fora o delito de Herculano e do seu camarada Santana que também ia ser castigado. O Santana, porém, não era lá rapaz que sofresse calado: tinha sempre o que dizer na ocasião do castigo, desculpando-se como podia


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perante a autoridade a fim de escapar manhosamente à acção criminal, o que nunca lhe sucedera, porque toda a gente o conhecia bastante. Era um pobre diabo de terceira classe, moreno cor de jenipapo, cabelo rente à escovinha, olhos negros, nariz acaçapado, cara magra, e cujo nome lá estava no livro de castigos um ror de vezes. Gago de nascença, fazia rir aos companheiros quando abria a boca para dizer qualquer coisa, principalmente se estava num de seus momentos de sobreexcitação colérica, porque então ninguém o compreendia. Tinha a facilidade ingénita das lágrimas: a mais leve comoção fazia-o chorar, transformando-lhe os olhos em duas fontes de húmida ternura. Pôs-se logo a gaguejar uma história de «implicações»: que estava bem sossegadinho no seu canto e o Herculano fora provocá-lo, «implicar com ele»… — Vamos, guardião, vamos, que é tarde. Não estou para ouvir histórias. Vá! Agostinho vergou o junco e, resolutamente, sem inquirir coisa alguma, com um risinho de instintiva malvadez no canto da boca desfechou o primeiro golpe: — Uma! — contou a mesma voz de há pouco. O rapaz empinou-se na ponta dos pés, arregalando muito os olhos, esfregando as mãos. — Ah — gemeu com um grito de dor. — Pe…pe …. pelo amor de… de… de Deus seu… seu…. seu comandante! — Vamos, vamos!… Seguiram-se as outras chibatadas implacáveis, brutais como cáusticos de fogo, caindo uma a uma dolorosamente no corpo franzino do marinheiro. Ele não teve jeito senão suportá-las todas, uma a uma, porque de nada lhe serviam os gritos, as súplicas e as lágrimas…


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— Hei-de corrigi-los — bradava o comandante aceso em súbita cólera, mal-humorado sob a luz ardentíssima do meio-dia tropical. — Hei-de corrigi-los: corja! Nenhum frémito de comoção na marinhagem, testemunha habitual daquelas cenas que já não logravam produzir efeitos sentimentais, como se fora a reprodução banal de um quadro muito visto. Começava a cair uma aragenzinha leve, tão leve que apenas atenuava a força cáustica do sol, inflando as velas quase imperceptivelmente. O tenente, um pouco animado agora com a viração que precede os ventos largos, tomava notas num pequeno caderno, ansioso por chamar a gente aos «braços». Meio-dia quase e ainda não estava acabado o castigo. Seguia-se o terceiro preso, um latagão de negro muito alto e corpulento, figura colossal de cafre, desafiando com um formidável sistema de músculos a morbidez patológica de toda uma geração decadente e enervada, e cuja presença ali, naquela ocasião, despertava grande interesse e viva curiosidade: era o Amaro, gajeiro da proa — o Bom Crioulo na gíria de bordo. — Aproxime-se — disse o comandante imperiosamente, carregando na voz e no semblante. Houve um sussurro longínquo, um leve, um tímido murmúrio nas fileiras da marinhagem, assim como o vago estremecimento que assalta os espectadores de um teatro nas mutações de cenário. Agora a coisa era outra, na verdade. O Herculano e o Santana, de resto, não passavam de uns pulhas, de uns miseráveis marinheiros que dificilmente aguentavam no lombo vinte e cinco chibatadas: uns criançolas!… Queria-se ver o Amaro, o célebre, o terrível Bom Crioulo. Fez-se nova leitura do Código em voz lenta e cadenciada de ofício religioso, e o comandante, formalizando-se dentro de sua farda muito justa e luzida:


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— Sabe por que vai ser castigado? — Sim senhor. Estas palavras Bom Crioulo proferiu-as num tom resoluto, sem o mais ligeiro constrangimento, firmando o olhar atrevidamente nos galões de ouro daquele oficial. Em pé, junto ao mastro, unidos os calcanhares, os braços caindo ao longo do corpo militarmente perfilado, havia contudo na linha dos ombros, no jeito da cabeça, onde quer que fosse, um recolhido e traiçoeiro cunho de flexibilidade e destreza felinas. Com efeito, Bom Crioulo não era somente um homem robusto, uma dessas organizações privilegiadas que trazem no corpo a sobranceira resistência do bronze e que esmagam com o peso dos músculos. A força nervosa era nele uma qualidade intrínseca sobrepujando todas as outras qualidades fisiológicas, emprestando-lhe movimentos extraordinários, invencíveis mesmo, de um acrobatismo imprevisto e raro. Esse dom precioso e natural desenvolvera-se-lhe à força de um exercício continuado que o tornara conhecido em terra, nos conflitos com soldados e catraieiros, e a bordo quando entrava embriagado. Porque Bom Crioulo de longe em longe sorvia o seu gole de aguardente, chegando mesmo a se chafurdar em bebedeiras que o obrigavam a toda sorte de loucuras. Armava-se de navalha, ia para os cais todo transfigurado, os olhos dardejando fogo, o boné de um lado, a camisa aberta num desleixo de louco, e então era um risco, uma temeridade alguém aproximar-se dele. O negro parecia uma fera desencarcerada: fazia todo mundo fugir, marinheiros e homens da praia, porque ninguém estava para sofrer uma agressão… Quando havia conflito no cais Pharoux, já toda a gente sabia que era o Bom Crioulo às voltas com a polícia. Reunia povo, toda a população do litoral corria enchendo a praça, como se tivesse acontecido


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uma desgraça enorme, formavam-se partidos a favor da polícia e da marinha… uma coisa indescritível! O motivo, porém, de sua prisão agora no alto-mar, a bordo da corveta, era outro, muito outro: Bom Crioulo esmurrara desapiedadamente um segunda classe porque este ousara, «sem o seu consentimento», maltratar o grumete Aleixo, um belo marinheirito de olhos azuis, muito querido por todos e de quem diziam-se «coisas». Metido em ferros no porão, Bom Crioulo não deu palavra. Admiravelmente manso quando se achava em seu estado normal, longe de qualquer influência alcoólica, submeteu-se à vontade superior esperando resignado o castigo. — Reconhecia que fizera mal, que devia ser punido, que era tão bom quanto os outros, mas, que diabo!, estava satisfeito, mostrara ainda uma vez que era homem… Depois, estimava o grumete e tinha certeza de o conquistar inteiramente, como se conquista uma mulher formosa, uma terra virgem, um país de ouro… Estava satisfeitíssimo! A chibata não lhe fazia mossa; tinha costas de ferro para resistir como um hércules ao pulso do guardião Agostinho. Já nem se lembrava do número das vezes que apanhara de chibata… — Uma! — cantou a mesma voz. — Duas!… Três!… Bom Crioulo tinha despido a camisa de algodão, e nu da cintura pra cima numa riquíssima exibição de músculos, os seios muito salientes, as espáduas negras reluzentes, um sulco profundo e liso d’alto a baixo no dorso, nem sequer gemia, como se estivesse a receber o mais leve dos castigos. Entretanto, já iam cinquenta chibatadas! Ninguém lhe ouvira um gemido, nem percebera uma contorção, um gesto qualquer de dor. Viam-se unicamente naquele costão negro as marcas do junco, umas sobre outras, entrecruzando-se como uma grande teia de aranha, roxas e latejantes, cortando a pele em todos os sentidos.


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De repente, porém, Bom Crioulo teve um estremecimento e soergueu um braço: a chibata vibrava em cheio sobre os rins, empolgando o baixo-ventre. Fora um golpe medonho, arremessado com uma força extraordinária. Por sua vez Agostinho estremeceu, mas estremeceu de gozo ao ver afinal triunfar a rijeza do seu pulso. Marinheiros e oficiais, num silêncio concentrado alongavam o olhar, cheios de interesse a cada golpe. — Cento e cinquenta! Só então houve quem visse um ponto vermelho, uma gota rubra deslizar no espinhaço negro do marinheiro e logo este ponto vermelho se transformar numa fita de sangue. Nesse momento o oficial, ponteirando o óculo de alcance, procurava reconhecer uma sombra quase invisível que parecia flutuar muito longe, nos confins do horizonte: era talvez a fumaça dalgum transatlântico… — Basta! — impôs o comandante. Estava terminado o castigo. Ia recomeçar a faina.


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livros publicados

Os génios, seguido de Exemplos, Victor Hugo O senhor de Bougrelon, Jean Lorrain No sentido da noite, Jean Genet Com os loucos, Albert Londres Os manuscritos de Aspern (versão de 1888), Henry James O romance de Tristão e Isolda, Joseph Bédier A freira no subterrâneo, com o português de Camilo Castelo Branco Paul Cézanne, Élie Faure, seguido de O que ele me disse…, Joachim Gasquet David Golder, Irene Nemirowsky As lágrimas de Eros, George Bataille As lojas de canela, Bruno Schulz O mentiroso, Henry James As mamas de Tirésias — drama surrealista em dois actos e um prólogo, Guillaume Apollinaire Amor de perdição, Camilo Castelo Branco Judeus errantes, Joseph Roth A mulher que fugiu a cavalo, D.H. Lawrence Porgy e Bess, DuBose Heyward O aperto do parafuso, Henry James Bruges-a-Morta — romance, Georges Rodenbach Billy Budd, marinheiro (uma narrativa no interior), Herman Melville Histórias da areia, Isabelle Eberhardt O Lazarilho de Tormes, anónimo do século XVI e H. de Luna Autobiografia, Thomas Bernhard Bubu de Montparnasse, Charles-Louis Philippe Greco ou O segredo de Toledo, Maurice Barrès Cinco histórias de luz e sombra, Edith Wharton Dicionário filosófico, Voltaire A Papisa Joana – segundo o texto de Alfred Jarry, Emmanuel Rhoides O raposo, D.H. Lawrence


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Adolfo Caminha BOM CRIOULO «Sentia ferroar-lhe a carne como a ponta de um aguilhão, como espinhos de urtiga brava…» Uma Carmen no masculino. Uma audácia de 1895… em português.

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