Page 10

AR T IG O

Legítimo protesto

ANTONIO DELFIN NETTO Professor emérito da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, ex-ministro da Fazenda, exministro do Planejamento, ex-deputado federal e consultor de economia.

sistemamega.com

O Brasil tem resistido melhor do que a maioria dos países à crise de 2008/2009, desde o seu início, mas é ilusão supor que estamos suficientemente protegidos de nossas próprias intempéries ou dos efeitos das tragédias alheias. Não devemos, portanto, baixar-a-guarda acreditando que o sucesso do modelo agro-mineral-exportador induzido pelo crescimento das importações chinesas continuará o mesmo nos próximos anos e que nosso passivo externo nunca mais será problema devido à magnitude de nossas reservas (elas mesmas voláteis e dependentes da situação internacional). Não há mais dúvida que o resultado do crescimento do PIB no ano passado se explica pelo afundamento da indústria de transformação. Ele confirma a necessidade de insistirmos no estabelecimento de uma política industrial que tenha o objetivo claro de impedir o avanço do processo de desmonte de toda uma cadeia produtiva altamente sofisticada que se estabeleceu no país nas últimas quatro décadas. Com a continuidade dessa desaceleração do crescimento em janeiro, justifica-se plenamente a reação que levou às ruas da capital gaúcha na última segunda-feira (26.04) empresários e trabalhadores unidos no movimento apropriadamente chamado de “Alerta Brasil”. A mobilização organizada pelas centrais sindicais, sindicatos de trabalhadores na indústria e pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas – ABIMAQ prevê manifestações nas próximas semanas em Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Amazonas e Brasília. Eles estão unidos num pro-

testo contra os juros altos, a excessiva carga tributária, o câmbio supervalorizado e em defesa dos empregos ameaçados pelas importações subsidiadas que competem deslealmente com a produção da indústria nacional. Quando a indústria de transformação cresce normalmente 3%, só pelo efeito multiplicador já aumenta o PIB em torno de 1%. De forma que o crescimento de 0.1% no setor cortou no mínimo 1% do PIB. Basicamente isso se deve ao problema da supervalorização do câmbio brasileiro. Estamos enfrentando momentos difíceis: o governo está tomando medidas em legítima defesa para corrigi-los e eu espero que isso aconteça num futuro próximo, mas não há a menor dúvida que a competição, da forma como está sendo feita, destrói de um lado a sofisticação da indústria brasileira quebrando as cadeias produtivas e de outro impede as nossas exportações de produtos manufaturados. Quando se compara o comércio do Brasil com a China, tem-se um duplo movimento: de um lado a invasão do nosso mercado interno com preços políticos de todas as formas devido à desvalorização gigantesca de sua moeda e de outro um movimento em que compete em todos os mercados com os nossos produtos exportáveis no setor de manufaturados. Compete conosco na Argentina, no Uruguai, na Colômbia, nos Estados Unidos, na Europa, de forma que não há a menor dúvida quanto ao fato que a relação cambio-salário brasileira ficou muito cara e está prejudicando a produção nacional no fornecimento ao mercado interno e destruindo a capacidade de exportação da indústria.

Revista MEGA  

Edição 134 Janeiro 2012

Revista MEGA  

Edição 134 Janeiro 2012

Advertisement