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PRÉ-ENEM

Produção textual VOLUME 1

LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS PALAVRA DO AUTOR


Linguagens, códigos e suas tecnologias: Matriz de Referência C1

C5

Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida. H1

Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.

H3

Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.

Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização e estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção. H15

Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.

H17

Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.


C

1

A PÍ LO TU

COMPETÊNCIAS:

C1, C5

Noções textuais e a dissertação argumentativa HABILIDADES:

H1, H3, H15, H17

APRESENTAÇÃO Muita gente se pergunta sobre o segredo de escrever um bom texto. Mas existe fórmula mágica? Alguns costumam dizer que o diferencial está na leitura; outros dizem que é preciso que se domine a gramática normativa. No fim das contas, não há mágica: para escrever bem, precisa-se, antes de tudo, entender os elementos que envolvem a produção dos textos, dos mais variados tipos. Neste capítulo, serão apresentados e estudados alguns conceitos preliminares de texto, textualidade e tipologia textual. Além disso, discutiremos a dissertação-argumentativa e sua funcionalidade discursiva, com base na análise das cinco competências avaliativas das redações no Enem e na discussão e consequente produção textual de duas propostas temáticas: “O descarte indevido do lixo no Brasil” e “Mobilidade urbana em xeque no Brasil: como seguir em frente num país congestionado?”.


Capítulo 1 | Noções textuais e a dissertação argumentativa

TÓPICO 1 • Revisão dos princípios da textualidade

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A vida em sociedade nos coloca em contato com diversos tipos de linguagem, inseridos em diversos tipos de texto e, consequentemente, em inúmeros gêneros textuais. Por isso, torna-se importante refletirmos sobre como nossa capacidade de produzir textos é construída. Deve ser levada em conta uma série de fatores, dentre eles o que aprendemos nas práticas sociolinguísticas – tudo aquilo que vivemos linguisticamente em sociedade (conversas com amigos, apresentações orais na escola, apreciação de obras de arte etc.), assim como o que aprendemos na escola, nas aulas de produção de textos.

Produção textual é prática social, pois nos mantém conectados uns aos outros, transmitindo e recebendo mensagens, estabelecendo a comunicação necessária para sobrevivermos em sociedade. E saber produzir textos de forma eficaz valida a nossa cidadania, inserindo-nos na vida social, de forma ativa e autônoma. Por isso é tão importante estar bem preparado para pôr em uso a língua e suas diversas formas de expressão. A concepção atual da Linguística Textual defende que os gêneros textuais devem ser prioridade no processo de aquisição das competências linguísticas, pois é impossível pensar em comunicação a não ser por meio de gêneros textuais (orais ou escritos), já que os gêneros nos conectam socialmente. Linguística Textual: é a ciência que estuda o texto, considerando-o como unidade básica de comunicação.

É comum pensar que texto é apenas um conjunto de frases, mas essa ideia não corresponde à realidade. O texto é um objeto socio-histórico que carrega em si sentido e a necessidade de comunicar. Por esse motivo, é considerado um evento comunicativo que envolve ações linguísticas, sociais e cognitivas, caracterizando o que se chama de textualidade, mostrando que o autor e o leitor/ouvinte de um texto não estão isolados, mas envolvidos em um processo, seja de produção ou de recepção desse texto. Shutterstock.com

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LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS

Os gêneros textuais são as interações comunicativas diárias que realizamos em quaisquer áreas da nossa vida. Nesse processo comunicativo, temos duas competências fundamentais: aquela que nos permite reconhecer os gêneros textuais e a de produzir e entender os textos. Todos os textos que produzimos, orais ou escritos, seguem uma forma-padrão de estrutura e finalidade, que é chamada de gênero. Isso nos mostra o quanto é importante nos prepararmos para lidar com a língua em uso, expressa sob diversas formas.

ESCLARECENDO Os gêneros textuais são classificados de acordo com as características comuns que os textos apresentam em relação à linguagem e ao conteúdo. São exemplos: bula de um remédio, publicidade, receita de bolo, menu do restaurante, bilhete ou poema. Na identificação de um gênero, é importante levar em conta seu contexto, sua função e finalidade, pois o gênero textual pode conter mais de um tipo textual. Por exemplo, uma receita de bolo apresenta a lista de ingredientes necessários (texto descritivo) e o modo de preparo (texto injuntivo), ou seja, mescla dois tipos de texto em um mesmo gênero.

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Para ser considerado como tal, um texto deve respeitar um conjunto de critérios de textualização, já que ele não é um conjunto de frases soltas. No entanto, esses critérios não devem ser vistos como princípios da boa formação textual, porque, assim como a frase não é definida por sua formação, o texto também não deve ser limitado à forma. Dentre essas regularidades, também chamadas de propriedades da textualidade, destacam-se: informatividade, intertextualidade, intencionalidade, situacionalidade, aceitabilidade, a coesão e a coerência.

1.1 • Informatividade A informatividade corresponde ao nível de informação contida no texto. Um texto considerado coerente irá fazer referência a conteúdos, de modo que seja possível diferenciar o que tal texto quer dizer, o que se pode apreender dele, e até mesmo aquilo que não é pretendido por ele. Ou seja, a informatividade é a competência responsavel por aparar arestas deixadas por possíveis incertezas encontradas no texto. Vale observar que in-


Capítulo 1 | Noções textuais e a dissertação argumentativa

formatividade não é o mesmo que conteúdo. A informação é um tipo de conteúdo que é apresentado ao leitor/ouvinte, mas que, ao mesmo tempo, não é algo óbvio. Vejamos um exemplo de um texto com alto nível de informatividade:

A relação dos animais com o homem tem início já na pré-história, quando os animais eram utilizados como forma de proteger o território em que o homem vivia, dando auxílio a caças e transporte de cargas e humanos (Caetano, 2010). O homem sempre dependeu de interações com outras espécies para a sua sobrevivência, sendo que esta relação a priori era de predação, passando mais tarde para a domesticação (Hart, 1985). Conforme essa interação foi se desenvolvendo, surgiram ideias a respeito da utilização de animais como recurso terapêutico. No Brasil, em meados da década de 1950, a Doutora Nise da Silveira utilizou animais para tratamento de pessoas em um hospital psiquiátrico no Rio de Janeiro. Por volta de 1960, o Dr. Boris Levinson utilizou animais para tratamento com crianças (Vivaldini, 2011). Nos últimos anos vários profissionais das áreas da saúde estão utilizando animais como recurso de tratamentos físicos e psíquicos (Lima & Souza, 2004). Segundo Costa (2006), os animais de estimação proporcionam melhoria da qualidade de vida para as pessoas, no sentido que eles trazem estados de felicidade, diminuem sentimentos de solidão e auxiliam na melhora de condições físicas e psíquicas. No Brasil utiliza-se a equoterapia, que é o uso de cavalos como recurso terapêutico (Copetti, Mota, Graup, Menezes & Venturi, 2007), a Terapia Assistida por Animais e a Atividade Assistida por Animais (Dotti, 2005). Fonte: Convivência com animais de estimação: um estudo fenomenológico. Raísa Duquia Giumelli; Marciane Cleuri Pereira Santos. Revista da Abordagem Gestáltica. 2016.

Nesse texto, percebe-se um alto grau de informatividade, pois ele aborda um assunto mais específico, podendo ser voltado para um público-alvo especial ou não. Esse nível de informatividade é típico de textos científicos, de forma geral.

A intertextualidade é a relação estabelecida entre um dado texto e outros textos previamente produzidos. Por exemplo:

Bom conselho Ouça um bom conselho Que eu lhe dou de graça Inútil dormir que a dor não passa Espere sentado Ou você se cansa Está provado, quem espera nunca alcança Venha, meu amigo Deixe esse regaço

Chico Buarque

Ao fazer a leitura de um trecho da letra da música composta por Chico Buarque, podemos notar algo familiar. O cantor e compositor fez referência a ditados populares, por meio de paródia, invertendo seus significados e atribuindo-lhes sentidos novos, conferindo à música um efeito de humor. Essa estratégia é bastante comum, principalmente na literatura brasileira, e mostra a bagagem de conhecimento e a capacidade do autor de estabelecer relações entre diferentes textos, observando a semelhança de conteúdo, na maioria das vezes. Na redação do Enem, por exemplo, a intertextualidade é um recurso bastante positivo. Isso porque se relaciona à competência 2 (Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa), que corresponde também ao conhecimento de mundo, ao repertório sociocultural e à capacidade de explorar a interdisciplinaridade na construção do texto.

1.3 • Intencionalidade Sempre que dizemos ou escrevemos algo, temos em mente o propósito de comunicar ou expressar o que estamos sentindo ou pensando sobre nossa vida pessoal ou sobre a sociedade como um todo. Desse modo, todo texto apresenta uma intenção ao ser produzido, e temos o dever de fazê-lo cumprir tal intencionalidade. Por isso, é importante conhecer o gênero e produzi-lo de forma coesa e coerente. No caso do texto dissertativo-argumentativo, temos a intenção de defender uma ideia e convencer o leitor a aceitá-la como um ponto de vista válido e pertinente.

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1.2 • Intertextualidade

Brinque com meu fogo Venha se queimar Faça como eu digo Faça como eu faço Aja duas vezes antes de pensar [...]

1.4 • Situacionalidade Ao produzirmos um texto, o contexto precisa ser considerado, o que significa dizer que alguns fatores podem contribuir ou comprometer a comunicação e/ou compreensão do texto, caso este não esteja coerente com a situação discursiva. A partir do contexto comunicativo, selecionamos a variedade linguística adequada, o nível de conhecimento conveniente ao interlocutor e o gênero condizente com a situação que é apresentada. São diversos fatores que determinam as escolhas linguísticas das quais nos valemos para produzirmos nossos textos diários, e isso é muito importante para que a comunicação ocorra de maneira efetiva. Logo, a situacionalidade é a adequação do texto à situação sociocomunicativa, ou seja, a situação em que a comunicação está acontecendo.

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Capítulo 1 | Noções textuais e a dissertação argumentativa

1.5 • Aceitabilidade Centra-se no receptor e diz respeito a sua atitude de aceitar a atividade linguística do interlocutor. Para ter aceitabilidade, um texto, a princípio, deve respeitar as leis e normas vigentes no país e não ferir os direitos humanos.

1.6 • Coesão Por coesão, entende-se os fatores linguísticos que regem a ordem (conexão sequencial – conectivos) e os aspectos semânticos (conexão referencial). A coesão gera a disposição formal do texto, garantindo o encadeamento das ideias e a progressão textual. Leia, a seguir, um trecho de uma crônica de Fernando Sabino.

Em código

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Fui chamado ao telefone. Era o chefe de escritório de meu irmão: ― Recebi, de Belo Horizonte, um recado dele para o senhor. É uma mensagem meio esquisita, com vários itens, convém tomar nota. O senhor tem um lápis aí? ― Tenho. Pode começar. ― Então lá vai. Primeiro: minha mãe precisa de uma nora. ― Precisa de quê? ― De uma nora. ― Que história é essa? ― Eu estou dizendo ao senhor que é um recado meio esquisito. Posso continuar? ― Continue. ― Segundo: pobre vive de teimoso. Terceiro: não chora, morena, que eu volto. ― Isso é alguma brincadeira? ― Não é não, Estou repetindo o que ele escreveu. Tem mais. Quarto: sou amarelo, mas não opilado. Tomou nota? ― Mas não opilado – repeti, tomando nota. ― Que diabo ele pretende com isso? ― Não sei não, senhor. Mandou transmitir o recado, estou transmitindo. ― Mas você há de concordar comigo que é um recado meio esquisito. ― Foi o que eu preveni ao senhor. E tem mais. Quinto: não sou colgate, mas ando na boca de muita gente. Sexto: poeira é a minha penicilina. Sétimo: carona, só de saia. Oitavo... ― Chega! ― protestei, estupefato. ― Não vou ficar aqui tomando nota disso, feito idiota. ― Deve ser carta em código, ou coisa parecida ― e ele vacilou: Estou dizendo ao senhor que também não entendi, mas enfim... Posso continuar? ― Continua. Falta muito? ― Não, está acabando: são doze. Oitavo: vou, mas volto. Nono: chega à janela, morena. Décimo: quem fala de mim tem mágoa. Décimo primeiro: não sou pipoca, mas dou meus pulinhos. ― Não tem dúvida, ficou maluco.

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― Maluco não digo, mas como o senhor mesmo disse, a gente até fica com ar meio idiota...Está acabando, só falta um. Décimo segundo: Deus, eu e o Rocha. ― Que Rocha? ― Não sei. É capaz de ser a assinatura. ― Meu irmão não se chama Rocha, essa é boa! ― É, mas que foi ele que mandou, isso foi. Desliguei, atônito, fui até refrescar o rosto com água, para poder pensar melhor. Só então me lembrei. Haviam-me encomendado uma crônica sobre essas frases que os motoristas costumam pintar, como lema, à frente dos caminhões. Meu irmão, que é engenheiro e viaja sempre pelo interior fiscalizando obras, prometera ajudar-me, recolhendo em suas andanças farto e variado material. E ele viajou, o tempo passou, acabei esquecendo completamente do trato, na suposição de que o mesmo lhe acontecera. Agora, o material ali estava. [...]

Os interlocutores do texto sentem uma estranheza em relação ao que está sendo transmitido. Percebem que algo está fora dos padrões normais do modelo de fala das pessoas. Não costumamos falar assim, aos pedaços desarticulados. Quando falamos ou escrevemos algo, normalmente as partes vêm encadeadas, ligadas às outras, de modo que nada fique “solto” e o texto mantenha a continuidade e o sentido. Logo, o texto considerado “normal” é aquele que apresenta uma sequência contínua e articulada. A coesão é a propriedade pela qual se cria e sinaliza essa ligação que garante ao texto uma unidade de sentido. A função da coesão é justamente a de promover a fluência do texto. E é uma competência importante saber estabelecer relações, fazer ligações entre diferentes partes do texto para que essa continuidade se mantenha. Esta é, inclusive, uma das competências do Enem (Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação), pela qual o avaliador da redação notará se o candidato sabe estruturar e articular os períodos e parágrafos de forma coesa, por meio do uso de conectivos e operadores argumentativos capazes de estabelecer a coesão textual.

1.7 • Coerência A coerência é baseada no sentido. Corresponde aos procedimentos pelos quais os elementos do conhecimento são ativados e mantêm a progressão semântica. Leia o texto a seguir:

Subi a porta e fechei a escada. Tirei minhas orações e recitei meus sapatos. Desliguei a cama e deitei-me na luz. Tudo porque Ele me deu um beijo de boa noite... (Autor anônimo)


Capítulo 1 | Noções textuais e a dissertação argumentativa

Observe que parte das palavras está colocada em uma ordem inversa em se tratando de significados, mas isso não parece comprometer a compreensão do texto. Podemos dizer que esse texto é compreensível? Ele nos apresenta algum sentido ou intenção, mesmo sendo escrito de maneira “ilógica”? Não resta dúvida de que, embora inicialmente cause estranheza, o texto é coerente, pois nos permite compreender a mensagem, não pela disposição das palavras, mas pelo conhecimento extralinguístico que temos de que, quando alguém está apaixonado e em companhia da pessoa amada, sendo beijado por ela, as coisas podem se tornar desconexas. Desse modo, a coerência é uma atividade interpretativa e não uma propriedade textual, ou seja, corresponde a atividades cognitivas e não apenas ao código (língua). Em outras palavras, a coerência é uma relação de sentido estabelecida entre os enunciados e que pode acontecer de várias formas. No processo de construção de sentido do texto, alguns conhecimentos são ativados. Esses conhecimentos podem ser divididos em três categorias: o linguístico, o enciclopédico e o sociointeracional. Observe: • Conhecimento linguístico - compreende a gramática e o léxico (vocabulário), responsáveis pela organização do recurso linguístico no texto (coesão) e pela seleção lexical adequada ao tema e/ou aos modelos cognitivos ativados; • Conhecimento enciclopédico – é aquele que se encontra arquivado na memória de cada indivíduo, quer seja resultado de experiências cotidianas, científicas ou de aspectos socioculturais; • Conhecimento sociointeracional – é aquele responsável pelas formas e ações que possibilitam a interação por meio da linguagem. Convém lembrar que, no processo de construção de sentido, esses conhecimentos, ao serem ativados, funcionam em conjunto, e não isoladamente, geralmente partindo do conhecimento linguístico.

APROFUNDAMENTO Por muito tempo, o conceito de certo ou errado determinava o uso da língua, reflexo da excessiva preocupação e tentativa de obediência à gramática, com a norma-padrão. Atualmente, no lugar de certo ou errado, tem-se o conceito do é adequado ou inadequado no que se refere ao uso da linguagem. Saber como falar ou escrever observando a situação e todos os outros fatores que fazem parte do contexto comunicativo é o que caracteriza um bom usuário da língua. Há vários fatores que funcionam como elementos importantes no processo comunicativo. Alguns são: • Interlocutor: é preciso considerar o nível de conhecimento, por exemplo, entre aqueles que estão envolvidos no processo comunicativo. Os níveis mudam de acordo com o perfil dos participantes da troca de mensagens. • Ambiente: há certos ambientes que requerem uma linguagem mais formal, outros permitem uma linguagem mais informal. É importante saber identificar qual é o uso linguístico que o ambiente exige. • Assunto: nem todo assunto cabe em qualquer situação. É preciso saber observar e selecionar as colocações que serão feitas de acordo com a situação em que se está. O que é dito em um aniversário não é o mesmo que é dito em um funeral, por exemplo. • Variedade linguística: a variedade linguística corresponde, basicamente, aos níveis formais e informais. Um texto dissertativo-argumentativo e um artigo de opinião exigem uma linguagem formal, objetiva, facilmente compreensível. Já uma conversa com amigos nos dá a liberdade de usar uma linguagem informal, com gírias e expressões típicas da oralidade. Essa é uma competência bastante importante para as várias situações comunicativas.

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EXERCITANDO EM AULA 01. (FATECSP) Enquanto um misto de tragédia e pantomima se desenrola aos nossos olhos atônitos, escrevo esta coluna meio ressabiada: como estará o Brasil quando ela for publicada, isto é, em dois dias? Estamos no meio de um vendaval desconcertante: numa mistura entre público e privado como nunca se viu, correntes inimagináveis de dinheiro sem origem ou destino declarados jorram sobre nós levando embora confiança, ética e ilusões. O drama é que não somos arrastados por “forças ocultas” ou ventos inesperados. Devíamos ter sabido. Muitos sabiam e vários participaram – embora apontem o dedo uns para os outros feito meninos de colégio: “Foi ele, foi ele, eu não fiz nada, eu nem sabia de nada, ele fez muito pior”. Espetáculo deprimente, que desaloja de seu acomodamento até os mais crédulos.

Se mais bem informados, poderíamos ter optado diferentemente em várias eleições – mas nos entregamos a miragens sedutoras e ideias sem fundamento. Agimos como cidadãos assim como fazemos na vida: omissos por covardia ou fragilidade, por fugir da realidade que assume tantos disfarces. Deixamos de pegar nas mãos as rédeas da nossa condição de indivíduos ou de brasileiros, e isso pode não ter volta. Fica ali feito um fantasma pérfido: anos depois, salta da fresta, mostra a língua, faz careta, ri da nossa impotência. Não dá para voltar, nem sempre há como corrigir o que se fez de errado, ou que deixou de ser feito e causou graves mazelas. (Lya Luft, É hora de agir. Veja, 27 de julho de 2005.)

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Capítulo 1 | Noções textuais e a dissertação argumentativa

Quanto à organização das ideias no texto, a) obedece à lógica de um texto de natureza jornalística, que tem o dever de informar sem expressar o ponto de vista do autor ou do jornal. b) segue o modelo da crônica de costumes, com foco na percepção irônica da vida em sociedade. c) observa o modelo clássico do texto literário, optando por tratar de temas universais em linguagem filosófica. d) funda-se na relação entre apreciações de cunho pessoal e argumentos baseados em fatos. e) centra-se na discussão da vida nacional, adotando o ponto de vista de observador que se abstém de expor avaliações.

02. (ENEM) Leia o texto a seguir para responder às questões 2 e 3. Quando eu falo com vocês, procuro usar o código de vocês. A figura do índio no Brasil de hoje não pode ser aquela de 500 anos atrás, do passado, que representa aquele primeiro contato. Da mesma forma que o Brasil de hoje não é o Brasil de ontem, tem 160 milhões de pessoas com diferentes sobrenomes. Vieram para cá asiáticos, europeus, africanos, e todo mundo quer ser brasileiro. A importante pergunta que nós fazemos é: qual é o pedaço de índio que vocês têm? O seu cabelo? São seus olhos? Ou é o nome da sua rua? O nome da sua praça? Enfim, vocês devem ter um pedaço de índio dentro de vocês. Para nós, o importante é que vocês olhem para a gente como seres humanos, como pessoas que nem precisam de paternalismos, nem precisam ser tratadas com privilégios. Nós não queremos tomar o Brasil de vocês, nós queremos compartilhar esse Brasil com vocês. TERENA, M. Debate. MORIN, E. Saberes globais e saberes locais. Rio de Janeiro: Garamond, 2000 (adaptado).

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Na situação de comunicação da qual o texto foi retirado, a norma-padrão da língua portuguesa é empregada com a finalidade de a) demonstrar a clareza e a complexidade da nossa língua materna. b) situar os dois lados da interlocução em posições simétricas. c) comprovar a importância da correção gramatical nos diálogos cotidianos. d) mostrar como as línguas indígenas foram incorporadas à língua portuguesa. e) ressaltar a importância do código linguístico que adotamos como língua nacional.

03. Os procedimentos argumentativos utilizados no texto permitem inferir que o ouvinte/leitor, no qual o emissor foca o seu discurso, pertence a) ao mesmo grupo social do falante/autor. b) a um grupo de brasileiros considerados como não índios. c) a um grupo étnico que representa a maioria europeia que vive no país. d) a um grupo formado por estrangeiros que falam português. e) a um grupo sociocultural formado por brasileiros naturalizados e imigrantes.

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04. Leia. Ia indo na manhã. A professora pública estranhou aquele ar tão triste. As bananas na porta da QUITANDA TRIPOLI ITALIANA eram de ouro por causa do sol. O Ford derrapou, maxixou, continuou bamboleando. E as chaminés das fábricas apitavam na Rua Brigadeiro Machado. Não adiantava nada que o céu estivesse azul porque a alma de Nicolino estava negra. Machado, A. A. Amor e sangue. Disponível em: http://www.tribunadonorte.com.br/tmp/downloads/tn_no_enem/fasciculo11.pdf. Acesso em 13/10/19.

Analisando os aspectos sociais e históricos do fragmento anterior, extraído da obra do contista Antônio de Alcântara Machado, pode-se inferir que a) a cidade de São Paulo é apresentada como um espaço rural envolvido com a produção do café. b) a população da cidade encontrava-se completamente deslumbrada com as melhorias no trânsito urbano. c) a industrialização e a imigração italiana já começam a manifestar sinais de sua presença no cotidiano paulistano. d) a presença do automóvel Ford já denota que o Brasil apresentava um setor de produção automobilística bastante desenvolvido. e) a poluição gerada pelos automóveis era a principal responsável pela tristeza profunda dos transeuntes da cidade.

05. Leia.

Evocação do Recife

Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas Com o xale vistoso de pano da Costa E o vendedor de roletes de cana O de amendoim que se chamava midubim e não era torrado era cozido Me lembro de todos os pregões: Ovos frescos e baratos Dez ovos por uma pataca Foi há muito tempo... A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros Vinha da boca do povo na língua errada do povo Língua certa do povo Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil Ao passo que nós O que fazemos É macaquear A sintaxe lusíada A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem Terras que não sabia onde ficavam Recife... Rua da União... A casa de meu avô... Nunca pensei que ela acabasse! Disponível em: http://www.tribunadonorte.com.br/tmp/downloads/tn_no_enem/fasciculo11.pdf. Acesso em 13/10/19.


Capítulo 1 | Noções textuais e a dissertação argumentativa

Através dos percursos da memória e dos afetos, autores brasileiros do Modernismo, como o poeta Manuel Bandeira, conseguiram expressar em sua obra a) concepções poéticas voltadas para a construção de uma atmosfera poética eurocêntrica. b) percepções importantes sobre a atmosfera poética que emana das vivências cotidianas. c) reflexões sobre o péssimo hábito do brasileiro de desobedecer à língua oficial da nação. d) linguagens de teor lírico preocupadas em ratificar a importância do olhar aristocrático. e) a pobreza intelectual daqueles que não tiveram acesso à cultura escolar tradicional.

06. (ENEM) Só há uma saída para a escola se ela quiser ser mais bem-sucedida: aceitar a mudança da língua como um fato. Isso deve significar que a escola deve aceitar qualquer forma da língua em suas atividades escritas? Não deve mais corrigir? Não! Há outra dimensão a ser considerada: de fato, no mundo real da escrita, não existe apenas um português correto, que

TÓPICO 2 • Dissertação: tipos de

valeria para todas as ocasiões: o estilo dos contratos não é o mesmo do dos manuais de instrução; o dos juízes do Supremo não é o mesmo do dos cordelistas; o dos editoriais dos jornais não é o mesmo do dos cadernos de cultura dos mesmos jornais. Ou do de seus colunistas. POSSENTI, S. Gramática na cabeça. Língua Portuguesa, ano 5, n. 67, maio 2011 (adaptado).

Sírio Possenti defende a tese de que não existe um único “português correto”. Assim sendo, o domínio da língua portuguesa implica, entre outras coisas, saber a) descartar as marcas de informalidade do texto. b) reservar o emprego da norma-padrão aos textos de circulação ampla. c) moldar a norma-padrão do português pela linguagem do discurso jornalístico. d) adequar as formas da língua a diferentes tipos de texto e contexto. e) desprezar as formas da língua previstas pelas gramáticas e manuais divulgados pela escola.

introdução •

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LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS

Por muito tempo, o ensino de produção textual nas escolas se resumiu aos tipos de texto: narração, descrição e dissertação. A partir de certo momento, o estudo dos gêneros do discurso passou a fazer parte das aulas de produção de texto, e as propostas de produção passaram a se aproximar da realidade linguística dos estudantes, com práticas textuais que os fizessem capazes de interagir comunicativamente em sociedade, seja por meio de um e-mail, de uma resenha crítica ou de uma palestra, com a produção de texto oral. Porém, mesmo com a grande diversidade de gêneros para se estudar e produzir na escola, a dissertação continua sendo o tipo de texto comumente adotado pela maioria dos vestibulares, sobretudo o Enem, como meio de avaliar as competências linguístico-discursivas dos estudantes. Por isso, é importante nos determos no estudo desse tipo de texto. O Enem tem como critério de avaliação das redações cinco competências, cuja pontuação de cada uma delas pode chegar ao máximo de 200 pontos. São elas: • o domínio da escrita formal, ou seja, a capacidade de escrever segundo a norma-padrão, mostrando possuir também um vocabulário rico, além do conhecimento de todos os aspectos linguísticos que determinam a boa escrita; • a compreensão da proposta feita, evitando assim a fuga do tema; • organização e defesa das ideias, o que significa ter a capacidade de selecionar bem as ideias e os argumentos para sustentá-las;

conhecimentos linguísticos e argumentação, que corresponde à capacidade de conhecer e saber utilizar adequadamente os conectivos responsáveis pelo encadeamento dos períodos e parágrafos, garantindo, assim, a coesão do texto; e, por fim, temos a proposta de intervenção, que deverá propor uma solução para o problema apresentado no tema e ao longo do texto produzido.

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Como já vimos, o Enem e os principais vestibulares adotam a dissertação-argumentativa como objeto de avaliação da produção textual na modalidade escrita. Dissertar é apresentar um assunto com riqueza de detalhes, por meio da escrita ou oralmente. Desse modo, pode-se perceber que, a princípio, a dissertação não tem a finalidade de argumentar sobre algo, mas de transmitir informações. No entanto, quando falamos de dissertação-argumentativa, estamos nos referindo a um tipo de texto cuja finalidade é apresentar, defender e argumentar a favor de um ponto de vista, propondo ou não uma solução para um problema levantado na abordagem do tema.

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Capítulo 1 | Noções textuais e a dissertação argumentativa

Vale ressaltar que a redação do Enem exige uma proposta de intervenção sobre o problema apontado. Isso porque, basicamente, as temáticas abordadas em tais propostas de produção levantam questões sociais e exigem um posicionamento preciso por parte do autor. Uma dissertação segue a seguinte estrutura básica: introdução, desenvolvimento e conclusão. Cada parte colabora, especificamente, para a articulação geral do texto. De modo geral, temos, na introdução, a tese (ou ideia principal sobre a qual todo o texto será desenvolvido), no desenvolvimento temos os argumentos utilizados para defender o ponto de vista explicitado na tese, enquanto que na conclusão podemos retomar o que foi exposto ao longo de todo o texto e/ou sugerir uma solução para o problema apresentado. Introdução

Desenvolvimento

Conclusão

Problema

Argumentos

Solução

Interpretar o problema, buscando informações sobre o tema (tese).

O mais importante de um texto dissertativo-argumentativo é a organização, clareza e exposição dos argumentos. Para tanto, é importante selecionar exemplos, fatos e provas a fim de assegurar a validade de sua opinião, sem deixar de justificá-la.

Para o problema exposto, deve-se propor uma intervenção. Assim, é interessante apresentar a síntese da discussão, a retomada da tese (ideia principal) e, além disso, a proposta de solução do tema com as observações finais.

Opinião Elaborar a verdade ou o juízo de valor sobre o assunto abordado para facilitar a argumentação

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Como o próprio nome sugere, a introdução vai introduzir o assunto da dissertação, contextualizar o tema, apresentando informações ao leitor, fornecendo uma prévia do que será tratado no desenvolvimento. É na introdução que, normalmente, vem a tese (ponto de vista a ser defendido ao longo do texto). Por isso é tão importante saber elaborá-la bem. A introdução deve ser desenvolvida em um parágrafo, que pode ser de vários tipos, como a introdução por afirmação, por pergunta, por citação, por alusão histórica e por dados estatísticos. Introdução por afirmação Confira esta introdução para o tema “A persistência da violência contra a mulher”:

Introdução por pergunta

Faz sentido comparar os crimes perpetrados por um regime sanguinário com aqueles cometidos pelas forças que resistiam a ele? Vale a pena reabrir as feridas, falar de tortura, desaparecimentos e execuções sumárias, 40 anos depois? Que destino merecem traidores e delatores que, coagidos, se aliaram aos próprios carrascos? (Álvaro Pereira Jr. Folha de S. Paulo, 23/6/2012)

Nesse tipo de introdução, o autor formula uma ou mais perguntas sobre o tema e ele próprio deve dar as respostas a elas ao longo do texto. Nenhuma pergunta deve ficar sem resposta. •

Introdução por citação Veja um exemplo do tema “Desafios da educação no Brasil do século XXI”:

O educador e filósofo brasileiro Paulo Freire afirmava que “se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Analisando o pensamento e relacionando-o à realidade da educação no Brasil, percebe-se a necessidade de um olhar mais atento para o aprimoramento do sistema de ensino, considerando sua importância para a promoção de uma sociedade mais crítica e reflexiva, que, consequentemente, tende a ser mais justa, igualitária e humanizada.

Nessa introdução, o autor constrói sua tese a partir de uma citação, o que confere mais credibilidade ao seu ponto de vista, pois ele se apoia na palavra de outra pessoa, que pode ser uma autoridade no assunto, como no texto apresentado, ou em documentos e órgãos de imprensa dignos de crédito. •

Introdução por alusão histórica Veja um exemplo sobre o tema: “O movimento imigratório para o Brasil no século XXI”:

O Brasil é uma nação historicamente machista e violenta, o que é perceptível ao analisarmos a persistência das agressões contra as mulheres mesmo depois das recentes medidas legais. (…)

Na introdução por afirmação, tem-se uma declaração de impacto, que chame a atenção do leitor, podendo ser uma afirmação crítica sobre algo relacionado ao tema.

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Durante, principalmente, a década de 1980, o Brasil mostrou-se um país de emigração. Na chamada década perdida, inúmeros brasileiros deixaram o país em busca de melhores condições de vida. No século XXI, um fenômeno inverso é evidente: a chegada ao Brasil de grandes contingentes imigratórios, com indivíduos de países subdesenvolvidos latino-americanos. (Gabriela Araujo Attie, Enem 2012)

Na introdução por alusão histórica, vai-se retomar um acontecimento, um fato, um episódio da História ou até mesmo um contexto socio-histórico que explique, justifique ou até mesmo se assemelhe ao que se passa na atualidade. O paralelo estabele-


Capítulo 1 | Noções textuais e a dissertação argumentativa

cido entre a década de 1980 e o que tem acontecido hoje em relação à emigração/imigração, por exemplo, mostra que a autora do texto possui um conhecimento de mundo aguçado e um bom repertório sociocultural. •

Depois, quando você for retomar alguma ideia ou apresentar novos dados da mesma referência, pode utilizar somente as siglas. Por exemplo: De acordo com o IBGE (...)

Introdução por dados estatísticos

A imigração para o Brasil é uma realidade: dados do IBGE sobre o Censo demográfico de 2010 mostram que o número de imigrantes no Brasil cresceu 86,7% em dez anos.

Nesse tipo de introdução são apresentados dados estatísticos sobre o tema. Os dados estatísticos são um recurso interessante porque trazem provas concretas daquilo que se está afirmando, por isso é fundamental a indicação da fonte de tais dados, pois só assim eles serão realmente válidos.

SAIBA MAIS Em casos de referência a órgãos públicos, é necessário que você indique o nome inteiro do órgão, pelo menos no momento de apresentação. Por exemplo: Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (...)

APROFUNDAMENTO Organização formal do texto dissertativo-argumentativo: 1. A letra deve ser legível, de preferência cursiva, ou seja, deve ter o formato do tipo manuscrito. Caso se dê preferência à letra do tipo bastão, mais conhecida como letra de forma, deve-se ter o cuidado de distinguir as letras maiúsculas, grafando-as em tamanho maior. 2. O espaço inicial do parágrafo em relação à margem esquerda da ficha de redação deve ser respeitado; cada parágrafo deve ter mais de um período (no mínimo dois) e a distribuição destes, quanto à extensão, deve ser equilibrada. 3. Não deve haver linhas em branco entre os parágrafos. 4. As margens esquerda e direita devem estar alinhadas. 5. O texto não deve apresentar rasuras.

EXERCITANDO EM AULA

LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS

07. (FGV) Os períodos abaixo estão apresentados sem ordem e fazem parte de um mesmo parágrafo. Organize-os em uma sequência lógica. 1. Além disso, ainda há muitos lugares onde não há telefones. 2. Nos Estados Unidos e no Canadá, por exemplo, existem disponibilidades de acesso ilimitado à internet por uma tarifa mensal, incluindo o telefone. 3. No Japão, por exemplo, todos têm de pagar 10 ienes por três minutos on-line. 4. A internet pode ter um caráter mundial, mas em cada país há especificidades econômicas e sociais que podem facilitar ou limitar o acesso à rede. 5. Na maioria dos paises, no entanto, seu uso é cobrado por minuto. 6. Por isso, em regiões da Rússia, da África ou da América Central, o acesso à internet está fora de questão.

08. Leia atentamente o parágrafo abaixo, retirado de uma redação do ENEM. “Black Mirror” é uma série americana que retrata a influência da tecnologia no cotidiano de uma sociedade futura. Em um de seus episódios, é apresentado um dispositivo que atua como uma babá eletrônica mais desenvolvida, capaz de selecionar as imagens e sons que os indivíduos poderiam vivenciar. Não distante da ficção, nos dias atuais, existem algorit-

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Capítulo 1 | Noções textuais e a dissertação argumentativa

mos especiais ligados em filtrar informações de acordo com a atividade “on-line” do cidadão. Por isso, torna-se necessário o debate acerca da manipulação comportamental do usuário pelo controle de dados na internet.” (Redação nota 1000 – Enem 2018. Candidata Clara de Jesus)

Qual é a tese dessa introdução?

virtual tem sido utilizado, muitas vezes, para a manipulação do comportamento do usuário, pelo controle de dados, podendo induzir o indivíduo a compartilhar determinados assuntos ou a consumir certos produtos. Isso ocorre devido à falha de políticas públicas efetivas que auxiliem o indivíduo a “navegar”, de forma correta, na internet e à ausência de consciência, da grande parte da população, sobre a importância de saber utilizar adequadamente o meio virtual. Essa realidade constituiu um desafio a ser resolvido não somente pelos poderes públicos, mas também por toda a sociedade. (Lívia Taumaturgo, 18 anos)

09. (ENEM) A discussão sobre “o fim do livro de papel” com a chegada da mídia eletrônica me lembra a discussão idêntica sobre a obsolescência do folheto de cordel. Os folhetos talvez não existam mais daqui a 100 ou 200 anos, mas, mesmo que isso aconteça, os poemas de Leandro Gomes de Barros ou Manuel Camilo dos Santos continuarão sendo publicados e lidos — em CD-ROM, em livro eletrônico, em “chips quânticos”, sei lá o quê. O texto é uma espécie de alma imortal, capaz de reencarnar em corpos variados: página impressa, livro em Braille, folheto, “coffee-table book”, cópia manuscrita, arquivo PDF… Qualquer texto pode se reencarnar nesses (e em outros) formatos, não importa se é Moby Dick ou Viagem a São Saruê, se é Macbeth ou O livro de piadas de Casseta & Planeta.

b) No livro “1984”, de George Orwell, é retratado um futuro distópico em que um Estado totalitário controla e manipula toda forma de registro histórico e contemporâneo, a fim de moldar a opinião pública a favor dos governantes. Nesse sentido, a narrativa foca na trajetória de Winston, um funcionário do contraditório Ministério da Verdade que diariamente analisa e altera notícias e conteúdos midiáticos para favorecer a imagem do Partido e formar a população através de tal ótica. Fora da ficção, é fato que a realidade apresentada por Orwell pode ser relacionada ao mundo cibernético do século XXI: gradativamente, os algoritmos e sistemas de inteligência artificial corroboram para a restrição de informações disponíveis e para a influência comportamental do público, preso em uma grande bolha sociocultural. (Lucas Felpi, 17 anos)

TAVARES, B. Disponível em: http://jornaldaparaiba.globo.com.

LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS

Ao refletir sobre a possível extinção do livro impresso e o surgimento de outros suportes em via eletrônica, o cronista manifesta seu ponto de vista, defendendo que a) o cordel é um dos gêneros textuais, por exemplo, que será extinto com o avanço da tecnologia. b) o livro impresso permanecerá como objeto cultural veiculador de impressões e de valores culturais. c) o surgimento da mídia eletrônica decretou o fim do prazer de se ler textos em livros e suportes impressos. d) os textos continuarão vivos e passíveis de reprodução em novas tecnologias, mesmo que os livros desapareçam. e) os livros impressos desaparecerão e, com eles, a possibilidade de se ler obras literárias dos mais diversos gêneros.

10. Classifique as introduções abaixo, conforme os tipos de introdução estudados. a) Segundo as ideias do sociólogo Habermas, os meios de comunicação são fundamentais para a razão comunicativa. Visto isso, é possível mencionar que a internet é essencial para o desenvolvimento da sociedade. Entretanto, o meio

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c) É fato que a tecnologia revolucionou a vida em sociedade nas mais variadas esferas, a exemplo da saúde, dos transportes e das relações sociais. No que concerne ao uso da internet, a rede potencializou o fenômeno da massificação do consumo, pois permitiu, por meio da construção de um banco de dados, oferecer produtos de acordo com os interesses dos usuários. Tal personalização se observa, também, na divulgação de informações que, dessa forma, se tornam, muitas vezes, tendenciosas. Nesse sentido, é necessário analisar tal quadro, intrinsecamente ligado a aspectos educacionais e econômicos. (Thais Saeger, 28 anos)


Capítulo 1 | Noções textuais e a dissertação argumentativa

d) O mundo conheceu novos equipamentos ao longo do processo de industrialização, com destaque para os descobrimentos da Terceira Revolução Industrial, que possibilitou a expansão dos meios de comunicação e controle de dados em inúmeros países. Entretanto, as ferramentas recém-descobertas foram utilizadas de forma inadequada, como, por exemplo, durante a Era Vargas. Com efeito, a má utilização dessas tecnologias contribui com a manipulação comportamental dos usuários que se desenvolve devido não só à falta de informação popular, como também à negligência governamental.

porânea, uma vez que valores democráticos imperam. No entanto, com o influente papel atribuído à internet, configurou-se uma liberdade paradoxal tangente à regulamentação de dados. Assim, faz-se profícuo observar a parcialidade informacional e o consumo exacerbado como pilares fundamentais da problemática. (Sílvia Fernanda Lima, 18 anos)

(Vanessa Tude, 19 anos)

11. Com o tema “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”, elabore uma introdução por afirmação, por citação, por pergunta, por alusão histórica ou por dados estatísticos.

e) No livro "Admirável Mundo Novo", do escritor inglês Aldous Huxley, é retratada uma realidade distópica na qual o corpo social padroniza-se pelo controle de informações e traços comportamentais. Tal obra fictícia, em primeira análise, diverge substancialmente da realidade contem-

TÓPICO 3 • Estratégias de desenvolvimento

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A estrutura de um texto dissertativo-argumentativo é composta pela introdução, pelo desenvolvimento e pela conclusão, como vimos no tópico anterior. Nessa sequência, os argumentos, que ajudam na defesa da tese (ponto de vista apresentado na introdução e que será defendido mais adiante), se encontram no desenvolvimento. É nessa parte do texto que se apresentam as ideias e são trabalhados os argumentos necessários para conduzir o leitor ao convencimento do que está sendo defendido. A palavra argumento tem origem na palavra latina argentium, que significa “prata”. Ou seja, podemos dizer que argumento é aquilo que dá brilho e valor à tese. Os argumentos devem atribuir valor ao texto, contribuindo para o convencimento do leitor. Por isso, é fundamental selecionar bem os argumentos que irão sustentar o posicionamento sobre o tema. Afinal, eles precisam estar logicamente relacionados ao tema, serem relevantes e, principalmente, verdadeiros. É importante entender que as partes do texto precisam estar conectadas umas às outras, ou seja, é necessário que o texto apresente coerência e coesão textual. Para isso, o primeiro parágrafo (introdução) deve estar ligado ao segundo (início do desen-

volvimento), e assim por diante, até chegar à conclusão, todos estabelecendo uma relação de sentido entre eles. Geralmente, uma boa redação possui um parágrafo para cada argumento apresentado. Logo, se você tiver dois argumentos, serão dois parágrafos (ou no máximo três), e, se forem três argumentos, três parágrafos.

Imagem 1.4.

Cada parágrafo, assim como um texto, também possui uma estrutura interna própria, ou seja, apresenta o tópico frasal (com a apresentação da ideia do parágrafo), o desenvolvimento (argumentos utilizados para desenvolver a ideia principal do parágrafo)

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Capítulo 1 | Noções textuais e a dissertação argumentativa

e o fechamento, que corresponde à finalização do raciocínio desenvolvido. Especialmente no caso do texto dissertativo-argumentativo, os parágrafos exercem papel importante, pois mostram como as ideias sobre determinado assunto foram organizadas. Há um elemento indispensável para a construção do parágrafo: o tópico frasal, que corresponde a uma frase declarativa (afirmativa ou negativa) que funciona como o coração do parágrafo, pois norteia todo o desenvolvimento em função do argumento. Em outras palavras, o tópico frasal é a oração que introduz a ideia central que vai ser desenvolvida no parágrafo. A partir dele se recorre a dados estatísticos, exemplos, comparações, alusões históricas, argumentos de autoridade, entre outras estratégias argumentativas para validar o argumento defendido. Veja um exemplo de início de desenvolvimento de uma redação sobre o tema “O movimento imigratório para o Brasil no século XXI”.

O movimento imigratório em direção ao Brasil cresce pelo fato de a economia brasileira estar em um momento de ascendência. (Tópico frasal) Indivíduos que não encontram opções de trabalho e sobrevivência nos seus países de origem migram em busca de condições favoráveis para melhorar ou manter seu padrão de vida. Esse é o caso dos europeus que fogem da crise socioeconômica em seu continente e pintam um quadro inverso ao de um século atrás quando a evasão partia do Brasil. (Desenvolvimento) In: https://vestibular.brasilescola.uol.com.br/banco-de-redacoes/6931/ Acesso em 21/11/19.

No primeiro período do parágrafo, o candidato apresenta sua ideia central ao afirmar que “o movimento imigratório em direção ao Brasil cresce pelo fato de a economia brasileira estar em um momento de ascendência ”. Em seguida, desenvolve a ideia expondo os motivos decorrentes para o crescimento imigratório.

SAIBA MAIS O que é o parágrafo? O parágrafo é uma unidade de composição do texto constituída por um ou mais de um período, em que se desenvolve determinada ideia central, ou nuclear, à qual se agregam outras, secundárias, intimamente relacionadas pelo sentido e logicamente decorrentes dela. “(...) esse conceito se aplica a um tipo de parágrafo considerado como padrão, e padrão não apenas no sentido de modelo, de protótipo, que se deva ou que convenha imitar, dada a sua eficácia, mas também no sentido de ser frequente, ou predominante, na obra de escritores — sobretudo modernos — de reconhecido mérito.”

(Othon Garcia. Comunicação em prosa moderna. RJ: FGV, 1988, p.203)

EXERCITANDO EM AULA

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12. Sobre a organização de parágrafo em um texto, é INCORRETO: a) Cada parágrafo deve apresentar uma ideia central, e esta deve ser colocada no parágrafo introdutório. b) Os parágrafos devem ter, obrigatoriamente, até cinco linhas. c) Os parágrafos podem possuir uma introdução, desenvolvimento e conclusão. Se possuírem, são chamados de parágrafo-padrão. d) A mudança de parágrafo deve ocorrer quando não há mais desenvolvimento da ideia-núcleo, ou seja, quando houver um novo aspecto do texto a ser desenvolvido. e) NDA 13. Leia o parágrafo a seguir e responda: “Política e politicalha não se confundem, não se parecem, não se relacionam uma com a outra. Antes se negam, se excluem, se repulsam mutualmente. A política é a arte de gerir o Estado segundo princípios definidos, regras morais, leis escritas ou tradições respeitáveis. A politicalha é a indústria de explorar o benefício de interesses pessoais. Constitui a políti-

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pré-enem - Produção textual | VOLUME 1

ca uma função, ou o conjunto das funções do organismo nacional: é o exercício normal das forças de uma nação consciente e senhora de si mesma. A politicalha, pelo contrário, é o envenenamento crônico dos povos negligentes e viciosos pela contaminação de parasitas inexoráveis. A política é a higiene dos países moralmente sadios. A politicalha, a malária dos povos de moralidade estragada.” Rui Barbosa.

O tópico frasal desse parágrafo é: a) A política é a higiene dos países moralmente sadios. b) Constitui a política uma função. c) Política e politicalha não se confundem. d) A politicalha, pelo contrário, é o envenenamento crônico dos povos negligentes e viciosos pela conaminação de parasitas inexoráveis. e) Antes se negam, se excluem, se repulsam mutualmente.


Capítulo 1 | Noções textuais e a dissertação argumentativa

14. Leia atentamente o exemplo a seguir. Tópico frasal: A Constituição é um todo orgânico A Constituição brasileira, a lei maior de nosso país, é um todo orgânico, cabendo aos seus intérpretes desfazer possíveis contradições existentes em seu texto.

ao outro que lhe desse uma recompensa por essa habilidade excepcional, atendeu o solicitado, de maneira prazenteira e justa a meu ver, mandando entregar-lhe três medidas de alpiste a fim de que pudesse continuar a exercer tão nobre arte. É prova irrefutável da fraqueza de nosso julgamento apaixonarmo-nos pelas coisas só porque são raras e inéditas, ou ainda porque apresentam alguma dificuldade, muito embora não sejam nem boas nem úteis em si. Montaigne, Ensaios.

Agora, escolha um dos itens a seguir para servir de tópico frasal a um parágrafo. Depois, acrescente a ele informações complementares. a) O Estado laico não se define pela exclusão da religião da vida pública.

O texto revela, em seu desenvolvimento, a seguinte estrutura: a) formulação de uma tese; ilustração dessa tese por meio de uma narrativa; reiteração e expansão da tese inicial. b) formulação de uma tese; refutação dessa tese por meio de uma narrativa; formulação de uma nova tese, inspirada pela narrativa. c) desenvolvimento de uma narrativa; formulação de tese inspirada nos fatos dessa narrativa; demonstração dessa tese. d) segmento narrativo introdutório; desenvolvimento da narrativa; formulação de uma hipótese inspirada nos fatos narrados. e) segmento dissertativo introdutório; desenvolvimento de uma descrição; rejeição da tese introdutória.

16. (ENEM)

b) Escola pública não pode se tornar espaço para ceticismo.

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Nós, brasileiros, estamos acostumados a ver juras de amor, feitas diante de Deus, serem quebradas por traição, interesses financeiros e sexuais. Casais se separam como inimigos, quando poderiam ser bons amigos, sem traumas. Bastante interessante a reportagem sobre separação. Mas acho que os advogados consultados, por sua competência, estão acostumados a tratar de grandes separações. Será que a maioria dos leitores da revista tem obras de arte que precisam ser fotografadas antes da separação? Não seria mais útil dar conselhos mais básicos? Não seria interessante mostrar que a separação amigável não interfere no modo de partilha dos bens? Que, seja qual for o tipo de separação, ela não vai prejudicar o direito à pensão dos filhos? Que acordo amigável deve ser assinado com atenção, pois é bastante complicado mudar suas cláusulas? Acho que essas são dicas que podem interessar ao leitor médio. Disponível em: http://revistaepoca.globo.com . Acesso em: 26 fev. 2012 (adaptado).

15. (FUVESSP)

Das vãs sutilezas

Os homens recorrem por vezes a sutilezas fúteis e vãs para atrair nossa atenção. (...) Aprovo a atitude daquele personagem a quem apresentaram um homem que com tamanha habilidade atirava um grão de alpiste que o fazia passar pelo buraco de uma agulha sem jamais errar o golpe. Tendo pedido

O texto foi publicado em uma revista de grande circulação na seção de carta do leitor. Nele, um dos leitores manifesta-se acerca de uma reportagem publicada na edição anterior. Ao fazer sua argumentação, o autor do texto: a) faz uma síntese do que foi abordado na reportagem. b) discute problemas conjugais que conduzem à separação. c) aborda a importância dos advogados em processos de separação. d) oferece dicas para orientar as pessoas em processos de separação. e) rebate o enfoque dado ao tema pela reportagem, lançando novas ideias.

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Capítulo 1 | Noções textuais e a dissertação argumentativa

TÓPICO 4 • Estratégias de desenvolvimento

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Como vimos no tópico anterior, o tópico frasal é um elemento indispensável para a construção do parágrafo, pois determina o desenvolvimento do argumento para a defesa da ideia central. Além disso, ele é um elemento importante porque ajuda o parágrafo de argumentação a ser mais organizado e interessante e também permite ao autor do texto desenvolver o assunto mais facilmente, auxiliando na construção da redação. O tópico frasal pode ser chamado também de ideia central, ou ideia nuclear do parágrafo de desenvolvimento, ou seja, resume o ponto de vista que será abordado no período. Normalmente, ele é expresso em uma única frase, podendo, eventualmente, ser constituído de até duas frases curtas. Cada parágrafo deve ter uma ideia central, fazendo uma ligação com as informações secundárias do texto, que servem para fundamentar e sustentar o que foi dito anteriormente.

que o processo de produção seja satisfatório. Por isso, deve-se fazer um esboço com as ideias que serão abordadas nos parágrafos. Ele servirá como roteiro e permitirá que não haja fuga temática e que o texto seja desenvolvido de forma clara e interligada. Antes de qualquer habilidade, no entanto, é preciso conhecer os assuntos a serem abordados nos parágrafos. Afinal, falar sobre o que não se sabe torna qualquer processo de produção textual mais trabalhoso. Logo, manter-se informado é requisito básico para que um bom texto seja escrito e o objetivo seja alcançado. Serão mostradas, a seguir, seis formas diferentes de se construir um tópico frasal.

4.2 • Tipos de tópicos frasais 4.2.1 • Declaração inicial A declaração inicial consiste em uma declaração de impacto, logo no início do parágrafo. Assim, o autor pode argumentar e surpreender o leitor, pois apresenta a ideia inicial e, nas etapas seguintes, desenvolve os argumentos a favor dela. O tópico frasal pode trazer a ideia de afirmação ou negação, que vai ser justificada com exemplos, comparações, confrontos, razões ou restrições. Veja a construção de um tópico frasal utilizando a declaração inicial sobre o tema “Violência urbana”.

“Não há ligação direta entre a violência urbana e a pobreza ou o racismo. Suas raízes estão lançadas, na verdade, sobre uma sociedade desigual, que privilegia uma minoria, deixando todos os demais à margem da sociedade, distantes de oportunidades iguais.” Imagem 1.5.

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4.1 • Como elaborar um tópico frasal Saber elaborar um bom tópico frasal é muito importante e, com certeza, torna-se um diferencial. É necessário que o tópico frasal seja claro, apresentando o tema do parágrafo de forma compreensível, em frases curtas e objetivas. É imprescindível que haja coerência entre o tópico frasal e o tema da dissertação e que haja essa retomada a cada parágrafo, de modo que o tópico não traga uma ideia muito ampla, tampouco limitada, mas equilibrada entre o que foi proposto para o texto e para o parágrafo. Além disso, o tópico frasal precisa despertar o interesse do leitor, prendendo a atenção dele para a apresentação das ideias secundárias (argumentos). Nesse sentido, é importante pensar em estratégias que corroborem esse vínculo com o leitor. Como um bom texto deve apresentar coesão e coerência, o tópico frasal funciona como uma transição entre parágrafos, por meio do uso de operadores argumentativos, que se encarregam de manter a continuidade do texto, tanto semanticamente como sintaticamente. É recomendável que seja feito um planejamento textual para

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Identificou a declaração negativa? “Não há ligação direta entre a violência urbana e a pobreza ou o racismo.” O período que vem depois desse tópico frasal levanta a hipótese sobre os motivos da violência, respondendo à curiosidade que foi despertada a partir da negação inicial.

4.2.2 • Definição Ao iniciar um parágrafo, o autor também pode apresentar a definição de uma palavra que esteja dentro do contexto do assunto que será discutido. Na sequência, virá a explicação lógica do significado dessa palavra e a relação dela com o tema. Veja como é a construção de um tópico frasal utilizando a definição sobre o tema “Pena de morte”.

“A pena de morte é o grito lancinante de uma sociedade sem fé e esperança. Ela determina que todos os limites foram extrapolados e que a única possibilidade de manter a convivência social é eliminando o criminoso para evitar a reincidência do crime.”


Capítulo 1 | Noções textuais e a dissertação argumentativa

A “pena de morte”, nesse tópico frasal, é definida como “o grito lancinante de uma sociedade sem fé e esperança”. Em seguida, há uma explicação dessa definição.

portas para a globalização em definitivo, com uma economia em acelerada rota de competição.”

4.2.3 • Contraste ou comparação Nesse tipo de tópico frasal, o autor aproxima ideias opostas ou faz a comparação entre elementos considerados relevantes para o texto. Se essa comparação for bem estabelecida, o contraste pode demonstrar criatividade, informação e poder crítico. Observe um tópico frasal utilizando o contraste, a respeito do tema “Educação no Brasil”.

“De um lado estão os professores: mal remunerados, sem estímulo e abandonados pelo poder público. Do outro, gastos exacerbados com computadores e inovação. Esse é o paradoxo da educação brasileira.”

O contraste fica claro no primeiro período, quando temos a expressão “de um lado”, enquanto o segundo período inicia com a expressão “de outro”, apresentando ideias opostas sobre o mesmo assunto.

4.2.4 • Divisão

4.2.6 • Interrogação O parágrafo pode ser iniciado com uma pergunta, que vai despertar a curiosidade e a reflexão do leitor em relação à ideia central do parágrafo. Seu desenvolvimento é a resposta a essa pergunta. Veja o exemplo a seguir, sobre o tema “Saúde”.

“Aumentar a carga de impostos vai, de fato, melhorar a saúde no Brasil? O contribuinte desacreditou do sistema, pois tira cada vez mais dinheiro do bolso e não vê retorno nas áreas administradas pelo Estado. Por isso, o povo se sente lesado.”

Veja que o autor inicia o tópico frasal com a pergunta “Aumentar a carga de impostos vai, de fato, melhorar a saúde no Brasil? ”. Logo em seguida, apresenta uma resposta que nos leva a não acreditar que aumentar a carga de impostos vá melhorar a saúde no Brasil. Shutterstock.com

A divisão em um tópico frasal acontece quando existe o objetivo de separar as ideias e os elementos em um parágrafo. É um jeito fácil e didático para elencar as ideias usadas para a discussão de um tema. Observe a construção de um tópico frasal utilizando a divisão tratando do tema “Educação”.

Veja que o autor traz no seu tópico frasal um fato histórico sobre a queda do muro de Berlim e as consequências desse fato na globalização.

O autor do texto optou por dividir o processo de educação em três etapas. Esse é um tópico frasal de divisão.

LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS

“A educação é minuciosa, complexa e demora. Ela se divide em três etapas: educação básica, ensino médio e ensino superior. Apenas a qualidade constante nessas diferentes fases constroem um ser humano maduro, capaz de tomar decisões equilibradas e definir com sabedoria seu destino.”

Imagem 1.6.

4.2.5 • Alusão histórica Quando realiza uma alusão histórica, o autor procura fazer referência a fatos históricos, lendas, tradições, crendices ou experiências do passado e relacionar com o tema de que vai falar. É uma estratégia bem eficaz para agregar valor ao texto. Confira a construção de um modelo de tópico frasal utilizando alusão histórica tratando do tema “Globalização”. “Depois da derrubada do muro de Berlim, teve fim o antagonismo leste-oeste. O mundo, então, parece ter aberto as

APROFUNDAMENTO Etapas para se elaborar um bom texto dissertativo-argumentativo •

Identificar o tema e se certificar de que compreendeu a proposta de redação.

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Capítulo 1 | Noções textuais e a dissertação argumentativa

• • •

• • •

Resgatar na memória e refletir sobre o que se sabe sobre o assunto. Elaborar a tese para o tema. Refletir sobre os argumentos que poderão ser utilizados para defender a tese e convencer o leitor sobre o ponto de vista apresentado. Definir a estratégia que será utilizada para a apresentação dos argumentos e quais serão os argumentos. Refletir sobre a proposta de intervenção: como o problema levantado no texto poderia ser solucionado? Retomar a tese e os argumentos ao produzir a proposta de intervenção, observando se há coerência entre eles e o tema que foi proposto.

Veja um exemplo de uma redação bem elaborada e estruturalmente articulada:

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Em sua canção “Pela Internet”, o cantor brasileiro Gilberto Gil louva a quantidade de informações disponibilizadas pelas plataformas digitais para seus usuários. No entanto, com o avanço de algoritmos e mecanismos de controle de dados desenvolvidos por empresas de aplicativos e redes sociais, essa abundância vem sendo restringida, e as notícias e produtos culturais vêm sendo cada vez mais direcionados – uma conjuntura atual apta a moldar os hábitos e a informatividade dos usuários. Desse modo, tal manipulação do comportamento de usuários pela seleção prévia de dados é inconcebível e merece um olhar mais crítico de enfrentamento. Em primeiro lugar, é válido reconhecer como esse panorama supracitado é capaz de limitar a própria cidadania do indivíduo. Acerca disso, é pertinente trazer o discurso do filósofo Jürgen Habermas, no qual ele conceitua a ação comunicativa: esta consiste na capacidade de uma pessoa em defender seus interesses e demonstrar o que acha melhor para a comunidade, demandando ampla informatividade prévia. Assim, sabendo que a cidadania consiste na luta pelo bem-estar social, caso os sujeitos não possuam um pleno conhecimento da realidade na qual estão inseridos e de como seu próximo pode desfrutar do bem comum – já que suas fontes de informação estão direcionadas –, eles serão incapazes de assumir plena defesa pelo coletivo. Logo, a manipulação do comportamento não pode ser aceita em nome do combate, também, ao individualismo e do zelo pelo bem grupal. Em segundo lugar, vale salientar como o controle de dados pela internet vai de encontro à concepção do indivíduo pós-moderno. Isso porque, de acordo com o filósofo pós-estruturalista Stuart-Hall, o sujeito inserido na pós-modernidade é dotado de múltiplas

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identidades. Sendo assim, as preferências e ideias das pessoas estão em constante interação, o que pode ser limitado pela prévia seleção de informações, comerciais, produtos, entre outros. Por fim, seria negligente não notar como a tentativa de tais algoritmos de criar universos culturais adequados a um gosto de seu usuário criam uma falsa sensação de livre-arbítrio e tolhe os múltiplos interesses e identidades que um sujeito poderia assumir. Portanto, são necessárias medidas capazes de mitigar essa problemática. Para tanto, as instituições escolares são responsáveis pela educação digital e emancipação de seus alunos, com o intuito de deixá-los cientes dos mecanismos utilizados pelas novas tecnologias de comunicação e informação e torná-los mais críticos. Isso pode ser feito pela abordagem da temática, desde o ensino fundamental – uma vez que as gerações estão, cada vez mais cedo, imersas na realidade das novas tecnologias –, de maneira lúdica e adaptada à faixa etária, contando com a capacitação prévia dos professores acerca dos novos meios comunicativos. Por meio, também, de palestras com profissionais das áreas da informática que expliquem como os alunos poderão ampliar seu meio de informações e demonstrem como lidar com tais seletividades, haverá um caminho traçado para uma sociedade emancipada. Carolina Mendes Pereira

No 1º parágrafo, temos a tese “[...]tal manipulação do comportamento de usuários pela seleção prévia de dados é inconcebível e merece um olhar mais crítico de enfrentamento.” Nos 2º e 3º parágrafos, observamos argumentos articulados para analisar e explicar a tese proposta, recorrendo a citações indiretas de filósofos reconhecidos, relacionando-os ao tema e ao ponto de vista apresentado na introdução. Ainda nesses dois parágrafos, temos a estratégia argumentativa de sustentação, que pretende servir de recurso para convencer o leitor, apresentando informações que sustentam a proposta da tese (essa estratégia será mais detalhada adiante): “Em primeiro lugar, é válido reconhecer como esse panorama supracitado é capaz de limitar a própria cidadania do indivíduo.”, que é reforçado pela informação “Em segundo lugar, vale salientar como o controle de dados pela internet vai de encontro à concepção do indivíduo pós-moderno.”. No 4º parágrafo, a conclusão “Portanto, são necessárias medidas capazes de mitigar essa problemática. Para tanto, as instituições escolares (...)” se mantém coerente com o que foi defendido ao longo do texto: tema, tese e argumentos. Percebe-se a fluência e a qualidade do texto porque ao lê-lo não há a sensação de que algo não se encaixa ou de que o texto está confuso. É isso o que se espera para uma produção de texto: planejamento, articulação e clareza.


Capítulo 1 | Noções textuais e a dissertação argumentativa

EXERCITANDO EM AULA 17. Copie o tópico frasal de cada parágrafo a seguir: Tema: O mundo virtual é, de fato, um benefício para o ser humano?

18. Escreva três tópicos frasais (declaração inicial, alusão histórica e interrogação) a respeito de um dos seguintes temas: a) A mulher no mercado de trabalho.

a) Parágrafo 1 É notável que a descrença nos sentimentos tidos verdadeiros vem de cedo. De fato, na infância a criança é bombardeada por computadores, videogames e afins, que, além de a retirarem do convívio familiar, trazem a insensibilidade. Dessa forma, a vida virtual “mecaniza” o coração e afasta da realidade demonstrações humanas e reais de afeto, como se certas sensações perdessem a transparência. Evidencia-se a fragilidade do ser, e tal “vácuo sentimental” será aberto pelo avanço tecnológico.

b) A inflação no Brasil.

LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS

b) Parágrafo 2 Além disso, o individualismo crescente, em muito incentivado pela mídia, deturpa e perverte uma série de valores. Nesse contexto, uma onda de pessimismo muito grande é espalhada sobre a sociedade. Com isso, os meios de comunicação recriam um mundo de ilusão – a sociedade do sonho – na tela da TV, no cinema e nos “sites”, tentando encobrir, com uma noção de modernidade, a mediocridade que não condiz com sua situação.

c) A educação brasileira no século XXI.

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Linguagens, códigos e suas tecnologias: Matriz de Referência C1

Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida. H1

C7

Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.

Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas. H21

Reconhecer, em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.


C

2 A

PÍ LO TU

COMPETÊNCIAS:

C1, C7

Estratégias e recursos argumentativos HABILIDADES:

H1, H21

APRESENTAÇÃO Alguns textos são produzidos com o objetivo de interagir diretamente com o interlocutor, principalmente os de predominância argumentativa, que têm como base os princípios retóricos. Assim, hoje, temos vários gêneros textuais os quais têm a intenção de convencer, isto é, persuadir o leitor. Como exemplo tem-se a dissertação escolar, bastante requisitada como instrumento avaliativo. Diante de tamanha importância, é necessário observar quem é o receptor da dissertação, uma vez que existe uma expectativa textual deste em relação ao que é produzido pelo aluno. Dessa maneira, para corresponder ao que é esperado pelo seu avaliador do Enem e dos demais vestibulares do país, vamos estudar estratégias e recursos argumentativos, argumento de autoridade e os gêneros textuais carta argumentativa e artigo de opinião com suas respectivas superestruturas e função social. Além disso, a argumentação será o nosso foco, porque uma parte substancial (talvez mais importante) de nossas vidas tem a ver com textos que lidam com a emissão da opinião. Por isso, vamos estudá-la com afinco para que você possa ter êxito no Enem e nas atividades do dia a dia.


Capítulo 2 | Estratégias e recursos argumentativos

TÓPICO 1 • Dissertação: estratégias argumentativas

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Como vimos no tópico 3 do capítulo anterior, o desenvolvimento é a parte do texto na qual são apresentados os argumentos que vão sustentar a tese e os tópicos frasais defendidos por parágrafo. Por isso, o desenvolvimento requer planejamento e uma seleção de argumentos suficientemente válidos para fortalecer o ponto de vista defendido.

Imagem 2.1.

LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS

Segundo Steve Jobs, um dos fundadores da empresa “Apple”, a tecnologia move o mundo. Contudo, os avanços tecnológicos não trouxeram apenas avanços à sociedade, uma vez que bilhões de pessoas sofrem a manipulação oriunda do acesso aos seus dados no uso da internet. Nesse sentido, esse processo é executado por empresas que buscam potencializar a notoriedade dos seus produtos e conteúdos no meio virtual. Sob tal ótica, esse cenário desrespeita princípios importantes da vida social, a saber, a liberdade e a privacidade. De acordo com Jean Paul Sartre, o homem é condenado a ser livre. Nessa lógica, o uso de informações do acesso pessoal para influenciar o usuário confronta o pensamento de Sartre,

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André Bahia

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Desse modo, a organização das ideias ao longo dos parágrafos não deve ser aleatória, mas articulada, estabelecendo a coerência necessária entre a tese e os argumentos que vão sustentá-la. A tese e os argumentos precisam ser regidos por uma estratégia que demonstre a relação entre o argumento principal e aqueles que são secundários, em função do fortalecimento e da validação da temática abordada. Há algumas estratégias argumentativas que podem contribuir para garantir a articulação entre a tese e os argumentos: • Refutação: também chamada de contra-argumentação, consiste em um posicionamento inicial contrário ao que o autor defenderá, ou seja, trata-se de o desenvolvimento ser elaborado para refutar ou rejeitar/deslegitimar o argumento inicial. A seguir, veja a análise de uma redação nota mil sobre o tema “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”.

visto que o indivíduo tem sua liberdade de escolher impedida pela imposição de conteúdos a serem acessados. Dessa forma, a internet passa a ser um ambiente pouco democrático e torna-se um reflexo da sociedade contemporânea, na qual as relações de lucro e interesse predominam. Faz-se imprescindível, portanto, a dissolução dessa conjuntura. Outrossim, é válido ressaltar que, conforme Immanuel Kant, o princípio da ética é agir de forma que essa ação possa ser uma prática universal. De maneira análoga, a violação da privacidade pelo acesso aos dados virtuais sem a permissão das pessoas vai de encontro à ética kantiana, dado que, se todos os cidadãos desrespeitassem a privacidade alheia, a sociedade entraria em profundo desequilíbrio. Com base nisso, o uso de informações virtuais é prejudicial à ordem social e, por conseguinte, torna-se contestável quando executado sem consentimento. Em suma, são necessárias medidas que atenuem a manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet. Logo, a fim de dar liberdade de escolha ao indivíduo, cabe às empresas de tecnologia solicitar a autorização para o uso dessas informações, por meio de advertências com linguagem clara, tendo em vista a linguagem técnica utilizada, atualmente, por avisos do tipo. Ademais, compete ao cidadão ficar atento a essa questão, de modo a cobrar e pressionar essas empresas. Enfim, a partir dessas ações, as tecnologias, como disse Steve Jobs, moverão o mundo para frente.

Imagem 2.2.

O autor apresenta o pensamento do Steve Jobs sobre o papel da tecnologia na sociedade, que possui um tom positivo. Em seguida, questiona os avanços tecnológicos e apresenta argumentos, citando Sartre e Kant, que contrapõem o tom positivo de Jobs. O texto defende que só a partir de certas ações as tecnologias moverão o mundo para frente, ou seja, o autor refuta a declaração de Steve Jobs. • Sustentação: na sustentação, o foco é o posicionamento que está sendo defendido. Com essa estratégia, o autor coleta e


Capítulo 2 | Estratégias e recursos argumentativos

coordena dados, informações e análises que sustentem a tese proposta sobre o tema. Vejamos a análise de uma segunda redação nota mil sobre o tema “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”:

Thais Saeger

Braços abertos sobre a Guanabara É indiscutível o aumento dos números imigratórios para o Brasil neste século. A busca por esse país é entendida por fatos políticos, históricos e principalmente econômicos. Assim, a chegada de pessoas nesse território pode ocasionar tensões sociais, porém contribui para elevar a diversidade étnica e a riqueza cultural. Vê-se, então, que há duas faces nesse contexto que devem encontrar equilíbrio. O movimento migratório em direção ao Brasil cresce pelo fato de a economia brasileira estar em um momento de ascendência. Indivíduos que não encontram opções de trabalho e sobrevivência nos seus países de origem migram em busca de condições favoráveis para melhorar ou manter seu padrão de vida. Esse é o caso dos europeus que fogem da crise socioeconômica em seu continente e pintam um quadro inverso ao de um século atrás, quando a evasão partia do Brasil. Além disso, o Brasil é conhecido pelo seu excelente recepcionamento, já que seus costumes são constituídos da incorporação de outros, como feito pelo movimento antropofágico da semana de arte moderna, de 1922, há 90 anos. Essa característica possibilita uma maior identificação entre os brasileiros e outros povos, pois há proximidade entre eles, como, por exemplo, os pratos típicos do sul que têm raízes alemãs, suíças, entre outros, ou até mesmo as comemorações, como a Oktoberfest, que também é alemã e atrai pessoas de todo o país. Por outro lado, há uma preocupação com a postura governamental, pois o Brasil tem um histórico de submissão e alinhamento com alguns países cuja política é forte no mundo. Isso poderia gerar um favorecimento dos imigrantes entre os cidadãos brasileiros, como pela contratação dos primeiros como engenheiros, médicos e empresários para ocupar cargos altos e de confiança. Essa problemática seria potencial para gerar casos de xenofobia no território, sendo necessário o apoio público e a preferência meritocrática por trabalhadores brasileiros. Dessa forma, observa-se que a imigração tem pontos positivos e negativos. Apesar de incrementar social e culturalmente o Estado Brasileiro, esse movimento pode fomentar distorções da visão de mundo e disputas entre a população.

LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS

É fato que a tecnologia revolucionou a vida em sociedade nas mais variadas esferas, a exemplo da saúde, dos transportes e das relações sociais. No que concerne ao uso da internet, a rede potencializou o fenômeno da massificação do consumo, pois permitiu, por meio da construção de um banco de dados, oferecer produtos de acordo com os interesses dos usuários. Tal personalização se observa, também, na divulgação de informações que, dessa forma, se tornam, muitas vezes, tendenciosas. Nesse sentido, é necessário analisar tal quadro, intrinsecamente ligado a aspectos educacionais e econômicos. É importante ressaltar, em primeiro plano, de que forma o controle de dados na internet permite a manipulação do comportamento dos usuários. Isso ocorre, em grande parte, devido ao baixo senso crítico da população, fruto de uma educação tecnicista, na qual não há estímulo ao questionamento. Sob esse âmbito, a internet usufrui dessa vulnerabilidade e, por intermédio de uma análise dos sites mais visitados por determinado indivíduo, consegue rastrear seus gostos e propor notícias ligadas aos seus interesses, limitando, assim, o modo de pensar dos cidadãos. Em meio a isso, uma analogia com a educação libertadora proposta por Paulo Freire mostra-se possível, uma vez que o pedagogo defendia um ensino capaz de estimular a reflexão e, dessa forma, libertar o indivíduo da situação a qual encontra-se sujeitado – neste caso, a manipulação. Cabe mencionar, em segundo plano, quais os interesses atendidos por tal controle de dados. Essa questão ocorre devido ao capitalismo, modelo econômico vigente desde o fim da Guerra Fria, em 1991, o qual estimula o consumo em massa. Nesse âmbito, a tecnologia, aliada aos interesses do capital, também propõe aos usuários da rede produtos que eles acreditam ser personalizados. Partindo desse pressuposto, esse cenário corrobora o termo “ilusão da contemporaneidade” defendido pelo filósofo Sartre, já que os cidadãos acreditam estar escolhendo uma mercadoria diferenciada, mas, na verdade, trata-se de uma manipulação que visa ampliar o consumo. Infere-se, portanto, que o controle do comportamento dos usuários possui íntima relação com aspectos educacionais e econômicos. Desse modo, é imperiosa uma ação do MEC, que deve, por meio da oferta de debates e seminários nas escolas, orientar os alunos a buscarem informações de fontes confiáveis como artigos científicos ou por intermédio da checagem de dados, com o fito de estimular o senso crítico dos estudantes e, dessa forma, evitar que sejam manipulados.

interfere na vida das pessoas. Em seguida, lança a proposta de analisar como isso se desencadeia, apresentando argumentos que comprovem a relação entre o uso indevido da tecnologia e a educação e a economia. Desse modo, ela se dedica a defender, por meio da sustentação de argumentos, o que apresenta como ideia principal. • Negociação: neste caso, há a consideração de diferentes pontos de vista e posicionamentos sobre o tema. O foco é enfraquecer os argumentos que sejam contrários ao que está sendo defendido na tese. Observe essa estratégia em uma redação sobre o tema “Movimento imigratório para o Brasil no século XXI”.

In: https://vestibular.brasilescola.uol.com.br/banco-de-redacoes/6931/ Acesso em 21/11/19.

A autora aborda o papel geral das tecnologias na sociedade, porém faz levantamentos a respeito de como a tecnologia

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Capítulo 2 | Estratégias e recursos argumentativos

Já no terceiro texto, a expressão “além disso” sugere um acréscimo de ideia no mesmo sentido do que fora apresentado antes, embora o uso de “por outro lado” deixe claro que há a apresentação de ideias de posicionamentos diferentes, a fim de estabelecer uma negociação de pontos de vista visando a uma determinada conclusão. Shutterstock.com

A estratégia de negociação pode ser percebida no texto a partir dos diferentes posicionamentos elaborados pelo autor para legitimar a tese defendida. Além disso, pode-se observar, no início do quarto parágrafo, a recorrência do operador argumentativo “por outro lado”, que indica que será apresentado um posicionamento contrário à ideia que está sendo defendida. Vale ressaltar que os operadores argumentativos são palavras ou expressões que contribuem para a construção das estratégias argumentativas, indicando a intenção daquilo que está sendo dito: somar ideias, contrapor ideias, alternar posicionamentos, concluir um pensamento etc. São recursos coesivos para estabelecer uma conexão entre as ideias apresentadas no texto e, assim, garantir a continuidade textual. No primeiro texto utilizado como exemplo, o termo “outrossim” reforça a ideia apresentada anteriormente, mantendo a progressão textual para o mesmo sentido: de somar argumentos que possam refutar o que afirma Jobs sobre o papel da tecnologia. No segundo texto, o uso das expressões “primeiro plano” e “segundo plano” estabelece uma enumeração de razões para que a tese defendida seja fortalecida, com a adição de argumentos

Imagem 2.3.

EXERCITANDO EM AULA 01. Leia duas redações que abordam o tema “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”, sendo a primeira baseada na estratégia de sustentação e a segunda norteada pela estratégia de negociação.

LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS

Texto I A utilização dos meios de comunicação para manipular comportamentos não é recente no Brasil: ainda em 1937, Getúlio Vargas apropriou-se da divulgação de uma falsa ameaça comunista para legitimar a implantação de um governo ditatorial. Entretanto, os atuais mecanismos de controle de dados, proporcionados pela internet, revolucionaram de maneira negativa essa prática, uma vez que conferiram aos usuários uma sensação ilusória de acesso à informação, prejudicando a construção da autonomia intelectual e, por isso, demandam intervenções. Ademais, é imperioso ressaltar os principais impactos da manipulação, com destaque à influência nos hábitos de consumo e nas convicções pessoais dos usuários. Nesse contexto, as plataformas digitais, associadas aos algoritmos de filtragem de dados, proporcionaram um terreno fértil para a evolução dos anúncios publicitários. Isso ocorre porque, ao selecionar os interesses de consumo do internauta, baseado em publicações feitas por este, o sistema reorganiza as informações que chegam até ele, de modo a priorizar os anúncios complacentes ao gosto do usuário. Nesse viés, há uma pretensa sensação de liberdade de escolha, teorizada pela Escola de Frankfurt, já que todos os dados adquiridos estão sujeitos à coerção econômica. Dessa forma, há um bombardeio de propagandas que influenciam os hábitos de consumo de quem é atingido, visto que, na maioria das vezes, resultam na aquisição do produto anunciado.

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Somado a isso, tendo em vista a capacidade dos algoritmos de selecionar o que vai ou não ser lido, estes podem ser usados para moldar interesses pessoais dos leitores, a fim de alcançar objetivos políticos e/ou econômicos. Nesse cenário, a divulgação de notícias falsas é utilizada como artifício para dispersar ideologias, contaminando o espaço de autonomia previsto pelo sociólogo Manuel Castells, o qual caracteriza a internet como ambiente importante para a amplitude da democracia, devido ao seu caráter informativo e deliberativo. Desse modo, o controle de dados torna-se nocivo ao desenvolvimento da consciência crítica dos usuários, bem como à possibilidade de uso da internet como instrumento de politização. Evidencia-se, portanto, que a manipulação advinda do controle de dados na internet é um obstáculo para a consolidação de uma educação libertadora. Por conseguinte, cabe ao Ministério da Educação investir em educação digital nas escolas, por meio da inclusão de disciplinas facultativas, as quais orientarão aos alunos sobre as informações pessoais publicadas na internet, a fim de mitigar a influência exercida pelos algoritmos e, consequentemente, fomentar o uso mais consciente das plataformas digitais. Além disso, é necessário que o Ministério da Justiça, em parceria com empresas de tecnologia, crie canais de denúncia de “fake news”, mediante a implementação de indicadores de confiabilidade nas notícias veiculadas – como o projeto “The Trust Project” nos Estados Unidos – com o intuito de minimizar o compartilhamento de informações falsas e o impacto destas na sociedade. Feito isso, a sociedade brasileira poderá se proteger contra a manipulação e a desinformação. Natália Cristina da Silva


Capítulo 2 | Estratégias e recursos argumentativos

a) Parágrafos e ideias conectados entre si, reforçando os argumentos uns dos outros.

b) Parágrafos que mostram dois lados de uma mesma questão, sem perder a coesão do conjunto do texto.

LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS

Texto II A série britânica “Black Mirror” é caracterizada por satirizar a forma como a tecnologia pode afetar a humanidade. Dentre outros temas, o seriado aborda a influência dos algoritmos na opinião e no comportamento das personagens. Fora da ficção, os efeitos do controle de dados não são diferentes dos da trama e podem comprometer o senso crítico da população brasileira. Assim, faz-se pertinente debater acerca das consequências da manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet. Por um lado, a utilização de algoritmos possui seu lado positivo. A internet surgiu no período da Guerra Fria, com o intuito de auxiliar na comunicação entre as bases militares. Todavia, com o passar do tempo, tal ferramenta militar popularizou-se e abandonou, parcialmente, a característica puramente utilitária, adquirindo função de entretenimento. Hoje, a internet pode ser utilizada para ouvir músicas, assistir a filmes, ler notícias e, também, se comunicar. No Brasil, por exemplo, mais da metade da população está “conectada” – de acordo com pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) -, o que significa a consolidação da internet no país e, nesse contexto, surge a relevância do uso de dados para facilitar tais ações. Por outro lado, o controle de dados ressalta-se em seu lado negativo. Segundo o sociólogo Pierre Levy, as sociedades modernas vivem um fenômeno por ele denominado “Novo Dilúvio” – termo usado para caracterizar a dificuldade de “escapar” do uso da internet. Percebe-se que o conceito abordado materializa-se em apontamentos do IBGE, os quais expõem que cerca de 85% dos jovens entre 18 e 24 anos de idade utilizaram a ferramenta em 2016. Tal quadro é preocupante quando atrelado aos algoritmos, pois estes causam, principalmente, nos jovens a redução de sua capacidade crítica – em detrimento de estarem sempre em contato com informações unilaterais, no tocante ao ponto de vista, e pouco distoantes de suas próprias vivências e opiniões -, situação conhecida na Sociologia como “cognição preguiçosa” – a qual culmina na manipulação do ser. Entende-se, portanto, que é necessário que a população entenda os riscos do controle de dados. Desse modo, cabe às escolas desenvolverem a percepção dos perigos da “cognição preguiçosa” para a formação da visão de mundo dos seus alunos, mediante aulas de informática unidas à disciplina de Sociologia – voltadas para uma educação não só técnica, mas social das novas tecnologias -, a fim de ampliar nos jovens o interesse por diferentes opiniões e, consequentemente, reduzir os efeitos adversos da problemática. Posto isso, será superado o controle do comportamento do usuário e não mais viveremos em um Brasil análogo à trama de “Black Mirror”. Jamille Borges

Assim como nos exemplos apresentados anteriormente, elabore dois textos sobre o tema “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”. No primeiro, utilize argumentos que sustentem a sua tese; no segundo, contraponha argumentos conforme o que propõe a estratégia argumentativa de negociação.

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Capítulo 2 | Estratégias e recursos argumentativos

TÓPICO 2 • Dissertação: recursos argumentativos No texto dissertativo-argumentativo, para defendermos um ponto de vista devemos recorrer a argumentos para sustentar nossa tese e/ou nosso tópico frasal. Esses argumentos são desenvolvidos a partir de recursos argumentativos, dos quais fazemos uso para validar as ideias que defendemos.

missão Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente) emitiu resolução condenando a publicidade direcionada ao público infantil, provocando o repúdio de empresários e propagandistas – que não reconhecem autoridade dessa instituição para atuar sobre o mercado. Diante desses posicionamentos antagônicos, o debate persiste. Juan Costa da Costa

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Nota-se que o autor do texto cita um fato concreto, o que confere credibilidade ao texto e reforça a ideia defendida. A informação mencionada pode ser facilmente comprovada ao se recorrer, por exemplo, ao banco de dados da própria Comissão Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente. •

Argumentação lógica A argumentação lógica corresponde aos processos relacionados ao raciocínio lógico, como acontece no caso das relações de causa e consequência, analogia (comparação) ou condição (hipótese). Veja o exemplo:

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Veja, a seguir, recursos argumentativos que podem contribuir para a defesa do ponto de vista. Argumento de consenso O argumento de consenso é aquele que não é acompanhado por fatos, exemplos ou provas concretas, pois são compartilhados e aceitos por um mesmo grupo social sem contestação alguma. Por exemplo, ao se referir à saúde como uma área que carece de investimentos, essa afirmação por ser compartilhada por toda a sociedade, uma vez que não apresenta a necessidade de comprovação. Supõe-se que todos pensam da mesma forma.

LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS

Argumento de provas concretas Consiste na comprovação do que está sendo afirmado, seja pela experiência, seja pela observação, a partir de dados que validem a ideia defendida. É um argumento facilmente encontrado em textos jornalísticos e que deve ser devidamente relacionado a sua fonte, que, por sua vez, deve ser confiável e de relevância social. Observe o exemplo a seguir:

O problema surge quando tal discurso é direcionado ao público infantil. Comerciais para essa faixa etária seguem um certo padrão: enfeitados por músicas temáticas, as cenas mostram crianças, em grupo, utilizando o produto em questão. Tal manobra de “marketing” acaba transmitindo a mensagem de que a aceitação em seu grupo de amigos está condicionada ao fato dela possuir ou não os mesmos brinquedos que seus colegas. Uma estratégia como essa gera um ciclo interminável de consumo que abusa da pouca capacidade de discernimento infantil. Carlos Eduardo Lopes Marciano

Pode-se perceber que a autora do texto estabelece uma relação lógica entre a publicidade e o efeito dela nas crianças que atribuem aos produtos a chave de acesso à aceitabilidade no seu grupo de amigos, ou seja, estabelece uma relação de causa e consequência.

Somado a isso, o impasse entre organizações protetoras dos direitos das crianças e os grandes núcleos empresariais fomenta ainda mais essa pertinente discussão. No Brasil, vigoram os acordos isolados com o Poder Público – sem a existência de leis específicas. Recentemente, a Conanda (Co-

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Argumentação de competência linguística Nesse caso, a modalidade empregada no texto é aquela adequada ao público-alvo leitor, de modo que a mensagem seja transmitida e compreendida facilmente. No caso do Enem, a modalidade deve ser a norma-padrão.

Além disso, o nível de criticidade em relação à propaganda é extremamente baixo. Isso se deve ao fato de estarem em fase de composição da personalidade, que é pautada nas experiências vividas e, geralmente, espelhada em um grupo de adultos-exemplo. Dessa forma, o jovem fica suscetível a aceitar como positivo quase tudo


Capítulo 2 | Estratégias e recursos argumentativos

ESCLARECENDO

o que lhe é oferecido, sem necessariamente avaliar se é algo realmente imprescindível. João Pedro Maciel Schlaepfer

O parágrafo e os trechos em destaque demonstram bem o que é estar de acordo com a norma-padrão da língua: texto bem redigido, respeitando regência e concordância (nominal e verbal) e com emprego de palavras e recursos coesivos que atestam o domínio que o estudante tem da língua e de seus mecanismos.

A argumentação por competência linguística está diretamente ligada à competência 1 do Enem: "Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da Língua Portuguesa". É muito importante saber aplicar a modalidade da língua correspondente ao contexto e, sobretudo, saber que no texto dissertativo-argumentativo a linguagem deve ser formal.

EXERCITANDO EM AULA

(SHENKMAN, R. As mais famosas lendas, mitos e mentiras da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005. Adaptado.)

02. A tese apresentada no texto é defendida por meio de a) b) c) d) e)

dados estatísticos exemplos argumento de autoridade argumento religioso raciocínio lógico

03. (ENEM)

LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS

Leia o texto abaixo e responda à questão a seguir. Acontece que os cientistas são humanos. Os livros de História normais se esquecem de mencionar esse fato, mas eles são. Leibniz, Newton, Kepler, Mendel, Pasteur – todos foram acusados de fraude, e podem muito bem tê-la cometido. A acusação contra Leibniz, feita enquanto ele ainda era vivo, foi de plágio. Não sei se realmente ele era culpado, mas a Sociedade Real de Londres decidiu que sim e o condenou. O estudioso R. Westfall, em 1973, acusou Newton de “fraude deliberada”, pois descobriu que o cientista falseou os números para atingir os dados desejados. Kepler sempre afirmou que sua teoria sobre a órbita elíptica dos planetas se apoiava em cálculos matemáticos, mas, em 1990, descobriram que os números haviam sido inventados, e seu crime foi expresso em manchete de jornal. Mendel relatou proporções genéticas que não poderia ter visto em suas plantas e que não poderiam ter resultado de “acidentes de mostragem”. Ninguém sabe, contudo, se foi Mendel ou um de seus assistentes quem cometeu o erro. Pasteur, o cientista francês que descobriu como o calor mata os germes, mentiu a respeito de seus métodos, manipulou os dados e roubou uma ideia de um concorrente. As falcatruas foram descobertas no começo da década de 1990.

Foto: Reprodução Enem

Não somos tão especiais

Todas as características tidas como exclusivas dos humanos são compartilhadas por outros animais, ainda que em menor grau. INTELIGÊNCIA A ideia de que somos os únicos animais racionais tem sido destruída desde os anos 40. A maioria das aves e dos mamíferos tem algum tipo de raciocínio. AMOR O amor, tido como o mais elevado dos sentimentos, é parecido em várias espécies, como os corvos, que também criam laços duradouros, se preocupam com o ente querido e ficam de luto depois de sua morte. CONSCIÊNCIA Chimpanzés se reconhecem no espelho. Orangotangos observam e enganam humanos distraídos. Sinais de que sabem quem são e se distinguem dos outros. Ou seja, são conscientes.

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Capítulo 2 | Estratégias e recursos argumentativos

CULTURA O primatologista Frans de Waal juntou vários exemplos de cetáceos e primatas que são capazes de aprender novos hábitos e de transmiti-los para as gerações seguintes. O que é cultura se não isso? BURGIERMAN, D. Superinteressante, n. 190, jul. 2003.

O título do texto traz o ponto de vista do autor sobre a suposta supremacia dos humanos em relação aos outros animais. As estratégias argumentativas utilizadas para sustentar esse ponto de vista são a) definição e hierarquia. b) exemplificação e comparação. c) causa e consequência. d) finalidade e meios. e) autoridade e modelo.

04. (ENEM)

O Brasil é sertanejo

LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS

Que tipo de música simboliza o Brasil? Eis uma questão discutida há muito tempo, que desperta opiniões extremadas. Há fundamentalistas que desejam impor ao público um tipo de som nascido das raízes socioculturais do país. O samba. Outros, igualmente nacionalistas, desprezam tudo aquilo que não tem estilo. Sonham com o império da MPB de Chico Buarque e Caetano Veloso. Um terceiro grupo, formado por gente mais jovem, escuta e cultiva apenas a música internacional, em todas as vertentes. E mais ou menos ignora o resto. A realidade dos hábitos musicais do brasileiro agora está clara, nada tem a ver com esses estereótipos. O gênero que encanta mais da metade do país é o sertanejo, seguido de longe pela MPB e pelo pagode. Outros gêneros em ascensão, sobretudo entre as classes C, D e E, são o funk e o religioso, em especial o gospel. Rock e música eletrônica são músicas de minoria. É o que demonstra uma pesquisa pioneira feita entre agosto de 2012 e agosto de 2013 pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope). A pesquisa Tribos musicais – o comportamento dos ouvintes de rádio sob uma nova ótica faz um retrato do ouvinte brasileiro e traz algumas novidades. Para quem pensava que a MPB e o samba ainda resistiam como baluartes da nacionalidade, uma má notícia: os dois gêneros foram superados em popularidade. O Brasil moderno não tem mais o perfil sonoro dos anos 1970, que muitos gostariam que se eternizasse. A cara musical do país agora é outra. GIRON, L. A. Época, n. 805, out. 2013 (fragmento).

O texto objetiva convencer o leitor de que a configuração da preferência musical dos brasileiros não é mais a mesma da dos anos 1970. A estratégia de argumentação para comprovar essa posição baseia-se no(a) a) apresentação dos resultados de uma pesquisa que retrata o quadro atual da preferência popular relativa à música brasileira. b) caracterização das opiniões relativas a determinados gê-

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neros, considerados os mais representativos da brasilidade, como meros estereótipos. c) uso de estrangeirismos, como rock, funk e gospel, para compor um estilo próximo ao leitor, em sintonia com o ataque aos nacionalistas. d) ironia com relação ao apego a opiniões superadas, tomadas como expressão de conservadorismo e anacronismo, com o uso das designações “império” e “baluarte”. e) contraposição a impressões fundadas em elitismo e preconceito, com a alusão a artistas de renome para melhor demonstrar a consolidação da mudança do gosto musical popular.

05. (ENEM) Enquanto isso, nos bastidores do universo Você planeja passar um longo tempo em outro país, trabalhando e estudando, mas o universo está preparando a chegada de um amor daqueles de tirar o chão, um amor que fará você jogar fora seu atlas e criar raízes no quintal como se fosse uma figueira. Você treina para a maratona mais desafiadora de todas, mas não chegará com as duas pernas intactas na hora da largada, e a primeira perplexidade será esta: a experiência da frustração. O universo nunca entrega o que promete. Aliás, ele nunca prometeu nada, você é que escuta vozes. No dia em que você pensa que não tem nada a dizer para o analista, faz a revelação mais bombástica dos seus dois anos de terapia. O resultado de um exame de rotina coloca sua rotina de cabeça para baixo. Você não imaginava que iriam tantos amigos à sua festa, e tampouco imaginou que justo sua grande paixão não iria. Quando achou que estava bela, não arrasou corações. Quando saiu sem maquiagem e com uma camiseta puída, chamou a atenção. E assim seguem os dias à prova de planejamento e contrariando nossas vontades, pois, por mais que tenhamos ensaiado nossa fala e estejamos preparados para a melhor cena, nos bastidores do universo alguém troca nosso papel de última hora, tornando surpreendente a nossa vida. MEDEIROS, M. O Globo, 21 jun. 2015.

Entre as estratégias argumentativas utilizadas para sustentar a tese apresentada nesse fragmento, destaca-se a recorrência de a) estruturas sintáticas semelhantes, para reforçar a velocidade das mudanças da vida. b) marcas de interlocução, para aproximar o leitor das experiências vividas pela autora. c) formas verbais no presente, para exprimir reais possibilidades de concretização das ações. d) construções de oposição, para enfatizar que as expectativas são afetadas pelo inesperado. e) sequências descritivas, para promover a identificação do leitor com as situações apresentadas.


Capítulo 2 | Estratégias e recursos argumentativos

06. (UERJ) Juventude e participação Inicialmente, gostaria de destacar que toda avaliação é feita a partir de uma comparação. Neste caso, essa comparação poderia ser feita em duas direções. Uma delas em relação a outras faixas etárias e a outra em relação à juventude de épocas passadas. Em relação à primeira dimensão, me parece que o comportamento político da juventude não seja diferente do de outras faixas etárias. Os que avaliam como baixa a participação política da juventude atual não podem afirmar que seja diferente da participação política das outras faixas. Existem parcelas da população passivas (e entre elas há jovens e também adultos), assim como existem parcelas da população com alta taxa de participação política, e entre elas podemos igualmente identificar jovens e adultos. Logo, uma comparação entre faixas etárias não nos leva a concluir que seja baixa a participação política da juventude. (...) A grande diferença está nos meios de que dispõem os jovens para desenvolver sua consciência crítica ou para manifestar sua postura política. Aí, sim, registramos mudanças radicais em relação a outras épocas. Atualmente, os jovens têm acesso aos meios de comunicação que permitem ampliar a velocidade e a abrangência da transmissão de ideias, o que favorece facilidades nunca antes disponíveis para a pressão política da juventude. A minha resposta pode parecer otimista e tenho plena consciência de que ela é. Os jovens da atualidade não são diferentes dos jovens de outras épocas, aceitam ou rechaçam valores, assumem ou não atitudes políticas com a mesma postura

dos jovens do passado, a diferença não está no grau, e sim na forma. Não muda o caminho, muda a forma de caminhar. (LUÍS DE MOURA – Adaptado de www.cipo.org.br)

A argumentação do autor se pauta pela cautela, combatendo principalmente os discursos que fazem generalizações apressadas. A frase do texto que melhor comprova essa afirmativa está indicada em: a) “Os que avaliam como baixa a participação política da juventude atual não podem afirmar que seja diferente da participação política das outras faixas.” b) “O comportamento juvenil expressa as tendências gerais da sociedade como um todo.” c) “A grande diferença está nos meios de que dispõem os jovens para desenvolver sua consciência crítica ou para manifestar sua postura política.” d) “Atualmente, os jovens têm acesso aos meios de comunicação que permitem ampliar a velocidade e a abrangência da transmissão de ideias, o que oferece facilidades nunca antes disponíveis para a expressão política da juventude.”

07. Os textos que defendem uma opinião possuem diversos mecanismos para garantir sua eficácia ou poder de convencimento. Pode-se dizer que a estrutura geral do texto contribui para sua eficácia argumentativa porque a) Detalha e comenta certos aspectos encontrados em outros textos. b) Analisa e critica a opinião apresentada ao final pelo próprio autor. c) Descreve e exemplifica um fenômeno definido como objeto de análise. d) Desconstrói algumas opiniões cristalizadas pela sociedade.

argumento de autoridade Os recursos argumentativos são utilizados para compor o desenvolvimento e validar as ideias defendidas. Como já vimos, podemos recorrer a várias estratégias para desenvolver a argumentação do texto. Essas estratégias contribuem para a organização e articulação do texto. Agora, vamos ver como podemos nos valer de alguns recursos para fortalecer nosso ponto de vista. Argumento de autoridade Corresponde ao posicionamento de uma autoridade sobre o tema que está sendo defendido. Essa autoridade pode ser um especialista ou qualquer pessoa cujo conhecimento sobre o assunto seja reconhecido. Utilizar, por exemplo, a opinião de um médico, advogado, economista, por exemplo, agregará valor à ideia defendida e validará o ponto de vista.

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TÓPICO 3 • Dissertação: citação –

Imagem 2.5.

O argumento de autoridade pode ser desenvolvido por meio de citações, quando mencionamos uma informação retirada de outra fonte (jornais, revistas, entrevistas, livros etc.). A citação pode ser direta, quando o texto é transcrito conforme o original, ou seja, é igual ao texto de origem. Nesse caso, além da citação (que deverá estar entre aspas duplas), deve-se citar o nome do autor e o texto deverá estar fiel ao original quanto à redação, pontuação e ortografia.

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Capítulo 2 | Estratégias e recursos argumentativos

A citação também pode ser indireta (também chamada de paráfrase), sendo o texto selecionado reescrito com outras palavras, mas com seu sentido mantido. Nesse caso, não são usadas aspas, mas o nome do autor deve ser mencionado. Veja o exemplo: Outrossim, é válido salientar que a violência de gênero está presente em todas as camadas sociais, camuflada em pequenos hábitos cotidianos. Ela se revela não apenas na brutalidade dos assassinatos, mas também nos atos de misoginia e ridicularização da figura feminina em ditos populares, piadas ou músicas. Essa é a opressão simbólica da qual trata o sociólogo Pierre Bordieu: a violação aos Direitos Humanos não consiste somente no embate físico, o desrespeito está –sobretudo- na perpetuação de preconceitos que atentam contra a dignidade da pessoa humana ou de um grupo social. Cecília Maria Lima Leite

Observa-se, no trecho em destaque, a citação indireta a que recorreu a autora do texto sobre a violência contra a mulher. O pensamento de Pierre Bordieu foi recuperado pelas palavras da autora

do texto, que manteve o sentido do que o sociólogo defende. Artigo 1º: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. É o que diz as primeiras linhas da declaração Universal de Direitos Humanos. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, no entanto, em 2016, 63,8% das crianças negras brasileiras de 5 a 7 anos trabalhavam. Para as brancas, o número caía para 35,8%. “Todos são dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”, continua o primeiro artigo, enquanto que 72 países ainda criminalizam relações homossexuais e expressões de gênero, de acordo com a ONU. In: https://www.ufrgs.br/humanista/2018/12/10/declaracao-universal-dos-direitos-humanos/. Acesso em 21/11/19.

Nesse outro caso, há uma citação direta, entre aspas, fazendo referência ao artigo 1º da Declaração Universal de Direitos Humanos, proclamada pela ONU em 10 de dezembro de 1948 e citada no primeiro parágrafo do editorial Declaração Universal dos Direitos Humanos: realidade ou utopia?, do site humanista: jornalismo e direitos humanos.

EXERCITANDO EM AULA 08. Leia os textos a seguir. Texto I

No meio do caminho tinha uma pedra

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No limiar do século XXI, a intolerância religiosa é um dos principais problemas que o Brasil foi convidado a administrar, combater e resolver. Por um lado, o país é laico e defende a liberdade ao culto e à crença religiosa. Por outros, as minorias que se distanciam do convencional se afundam em abismos cada vez mais profundos, cavados diariamente por opressores intolerantes. O Brasil é um país de diversas faces, etnias e crenças e defende em sua Constituição Federal o direito irrestrito à liberdade religiosa. Nesse cenário, tomando como base a legislação e acreditando na laicidade do Estado, as manifestações religiosas e a disseminação de ideologias fora do padrão não são bem aceitas por fundamentalistas. Assim, o que deveria caracterizar os diversos “Brasis” dentro da mesma nação é motivo de preocupação. Paradoxalmente ao Estado laico, muitos ainda confundem liberdade de expressão com crimes inafiançáveis. Segundo dados do Instituto de Pesquisa da USP, a cada mês são registrados pelo menos 10 denúncias de intolerância religiosa e destas 15% envolvem violência física, sendo as principais vítimas fiéis afro-brasileiros. Partindo dessa verdade, o então direito assegurado pela Constituição e reafirmado pela Secretaria dos Direitos Humanos é amputado e o abismo entre oprimidos e opressores torna-se, portanto, maior. Parafraseando o sociólogo Zygmunt Bauman, enquanto houver quem alimente a intolerância religiosa, haverá quem

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defenda a discriminação. Tomando como norte a máxima do autor, para combater a intolerância religiosa no Brasil são necessárias alternativas concretas que tenham como protagonistas a tríade Estado, escola e mídia. O Estado, por seu caráter socializante e abarcativo, deverá promover políticas públicas que visem garantir uma maior autonomia religiosa e, através dos 3 poderes, deverá garantir, efetivamente, a liberdade de culto e proteção; a escola, formadora de caráter, deverá incluir matérias como religião em todos os anos da vida escolar; a mídia, quarto poder, deverá veicular campanhas de diversidade religiosa e respeito às diferenças. Somente assim, tirando as pedras do meio do caminho, construir-se-á um Brasil mais tolerante. Marcela Sousa Araújo

Texto II

Superando antigos estigmas O Darwinismo social, ideal surgido no século XIX, calcava-se na ideia de que existem culturas superiores às outras. O preconceito, então, passou a ter um viés científico, numa tentativa de justificar a dominação de indivíduos menos favorecidos. No entanto, mesmo sendo uma ideia antiga, ainda encontra respaldo em diversas ações humanas, como os constantes casos de intolerância religiosa no Brasil, cujos efeitos contribuem para a dissolução da coletividade e prejudicam o desenvolvimento do ser. Em primeiro plano, vale ressaltar que a população brasileira apresenta muitos resquícios da época da escravatura, a qual teve como sustentáculo o eurocentrismo, que recusava os valo-


Capítulo 2 | Estratégias e recursos argumentativos

res de povos considerados primitivos. À parte disso, a identidade nacional formou-se ignorando expressões culturais de índios e negros, por exemplo, fator responsável por marginalizar determinados indivíduos e perpetuar o ódio ao desconhecido. Desse modo, atos de repressão e discriminação a religiões ferem a liberdade de repressão e podem gerar um “círculo vicioso” de segregação social, nocivo à sociedade democrática. Outro fator importante reside no fato de que as pessoas estão vivendo tempos de “modernidade líquida”, conceito proposto pelo sociólogo Zygmunt Bauman, o qual evidencia o imediatismo das relações sociais. Atualmente, pode-se notar que o fluxo de informações ocorre em grande velocidade, fenômeno que muitas vezes dificulta uma maior reflexão acerca dos dados recebidos, acostumando o ser a apenas utilizar o conhecimento prévio. O indivíduo, então, quando apresentado a outras ideologias, tem dificuldade em respeitá-las, uma vez que sua formação pessoal baseou-se somente em uma esfera de vivência, o que pode comprometer o convívio social e o pensamento crítico. Fica evidente, portanto, que a intolerância religiosa precisa ser combatida. Como forma de garantir isso, cabe ao Ministério da Cultura, em parceria com grandes canais de comunicação de concessão estatal, desenvolver campanhas publicitárias que estimulem o respeito às diferentes vertentes religiosas, como forma de garantir a coletividade do corpo social. Ademais, cabe ao Ministério da Educação, em conjunto com prefeituras, para um amplo alcance, o estabelecimento de aulas de sociologia, dentre outras, que permitam a apresentação de diferentes religiões, a fim de contribuir para o desenvolvimento pessoal e o pensamento crítico. Assim, a sociedade brasileira poderá garantir o exercício da cidadania para todos os setores sociais e, finalmente, ultrapassar antigos paradigmas.

09. Para os temas a seguir, construa um parágrafo. Pode ser de introdução ou de desenvolvimento. Pesquise e utilize uma citação que tenha relação direta com o tema. a) Pessoas públicas têm direito à privacidade?

b) Escravidão contemporânea no Brasil

c) O drama dos refugiados

Shopia Martinelli Rodrigues

a) Qual é a ideologia defendida por Zygmunt Bauman? Ela foi a mesma para os dois textos? Comente o uso do argumento de autoridade.

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d) As deficiências no transporte público brasileiro

b) Qual foi o tipo de citação empregada nos dois textos: direta ou indireta? Reescreva o trecho com um tipo de citação diferente do identificado.

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Capítulo 2 | Estratégias e recursos argumentativos

TÓPICO 4 • Carta argumentativa e artigo de opinião

4.1.2 • Estrutura da carta argumentativa Cabeçalho: Indica o local e a data da escrita da carta.

4.1 • Carta Argumentativa

Exemplo: São José dos Campos, 18 de julho de 2018.

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Saudação inicial e vocativo: Introduz o destinatário da carta por meio da forma de tratamento adequada a ele. Pronomes de tratamento devem ser utilizados de acordo com o grau de formalidade da carta e de proximidade entre o remetente e o destinatário. Exemplos: Prezados senhores; Vossa Excelência; Caro Deputado Alexandre Rodrigues.

Imagem 2.6.

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Despedida: A despedida da carta argumentativa deve seguir o mesmo grau de formalidade e proximidade que foi apresentado ao longo do texto. Algumas expressões que podem ser utilizadas para a despedida são: atenciosamente; cordialmente; sem mais, despeço-me, entre outras. Vejamos um exemplo de carta argumentativa: Shutterstock.com

A carta enquanto gênero textual marcou uma geração que se utilizava dela para estabelecer comunicação, seja para superar distâncias ou para garantir sigilo. Hoje em dia, não é um gênero muito produzido com finalidade pessoal, mas ainda podemos ter acesso a ele em jornais, revistas e na forma de e-mail, por exemplo, um gênero digital originado do gênero carta. As características da carta se distinguem de acordo com a finalidade dela. A carta pessoal, embora apresente uma estrutura formal padrão, permite maior flexibilidade de conteúdo e linguagem, visto que pode ser escrita na variedade informal. Já a carta argumentativa tem uma finalidade bem específica, apresentando maior rigor em relação aos elementos que a constituem. Baseada na exposição de um problema (ou de uma solicitação) e na busca pela solução dele, a carta argumentativa possui um remetente e um destinatário bem definidos e apresenta recursos argumentativos para que o leitor (e provável solucionador do problema) aceite a reclamação e possa resolver o impasse. Esse caráter persuasivo faz com que o autor da carta precise de argumentos consistentes e convincentes para sustentar a sua reclamação.

Corpo textual: O corpo textual corresponde ao conteúdo da carta, que deve apontar os motivos pelos quais a carta foi escrita, para fazer uma reclamação ou solicitação, por exemplo. Independentemente do motivo da carta, os argumentos são fundamentais, pois reforçam o posicionamento do autor a respeito do assunto. Por isso, devem ser bem selecionados para garantir o sucesso do texto. Deve-se optar por uma linguagem clara, objetiva e coesa, para que o ponto de vista do autor da carta possa ser compreendido com facilidade, aumentando as chances de aceitação por parte do destinatário. E a finalização do texto pode indicar sugestões para a melhoria dos problemas apresentados.

4.1.1 • Características da carta argumentativa •

• • •

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Como se trata de um texto de caráter pessoal, uma vez que apresenta um ponto de vista sobre determinado assunto, a carta argumentativa é escrita na primeira pessoa do singular. Apresenta um interlocutor definido, podendo ser alguém ou uma empresa/órgão público. É persuasiva, pois sua finalidade é convencer o interlocutor do posicionamento defendido. É argumentativa, porque apresenta argumentos que fundamentam e/ou comprovam o ponto de vista defendido pelo remetente da carta. Em geral, apresenta uma reclamação e/ou solicitação.

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Imagem 2.7.

Campinas, 28 de fevereiro de 2000. Exmo. Sr. Deputado, Nas últimas semanas, tenho acompanhado atentamente o debate que tem se desenrolado no país em relação à criação da Agência Nacional da Água (ANA) e, ciente de sua posição contrária ao surgimento de tal órgão, lanço mão de minha condição de cidadão e dirijo-me ao senhor não somente com a


Capítulo 2 | Estratégias e recursos argumentativos

indústrias – principalmente químicas e petroquímicas – no que diz respeito ao controle da poluição de rios e mananciais. Além disso, acredito que seria indispensável a inclusão de uma política de pressão sobre prefeituras de todo o território nacional, no sentido de obrigá-las a impedir a ocupação urbana de áreas de mananciais. Certo de sua atenção e da criteriosa análise de minhas sugestões, despeço-me cordialmente. A.M.R.

Observe os elementos destacados no texto, que correspondem ao que confere a ele o caráter de carta argumentativa.

4.2 • Artigo de opinião Shuttersotk.com

Imagem 2.8.

O artigo de opinião é um dos gêneros mais comuns nas práticas sociais. Normalmente é publicado em jornais, revistas e blogs. A finalidade desse tipo de texto é apresentar e defender um ponto de vista sobre algum assunto que seja socialmente relevante. É um gênero que tem sido bastante solicitado no processo de ingresso de muitas faculdades e universidades. Se a finalidade do artigo de opinião é defender um ponto de vista, estamos lidando com um texto argumentativo, por isso é importante que sejam apresentados argumentos sólidos o suficiente para sustentar o posicionamento defendido e cumprir a tarefa de convencer o leitor a aceitá-lo. Por ser um texto que aborda questões sociais, geralmente polêmicas, a linguagem empregada no artigo de opinião deve estar de acordo com a norma-padrão da língua portuguesa, já que o texto deve ser lido e compreendido por diversos tipos de pessoas, até mesmo de regiões completamente diferentes — como é o caso dos artigos publicados em jornais de alcance nacional. Como já mencionado, o assunto abordado nesse tipo de texto costuma ser de relevância social, resgatando fatos importantes, ocorridos nos dias ou nas semanas anteriores. Nesse sentido, o gênero tem uma função social clara: promover o debate público sobre as demandas da sociedade.

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intenção de persuadi-lo do contrário, como também de convencê-lo a participar ativamente na criação do mesmo. Provavelmente sua resistência à criação de um órgão dessa natureza venha da crença, profundamente arraigada no subconsciente de todo brasileiro, de que ao nosso país nada falta ou faltará. Todavia, constatações feitas nas últimas décadas têm derrubado sistematicamente todas as nossas convicções de que a Natureza neste lado da América é inesgotável: mesmo a Amazônia, infinito e majestoso verde pairante sobre nosso território, mostrou ser extremamente frágil às nossas investidas, além de contar com um solo contraditoriamente infértil. Com relação à questão dos recursos hídricos, a situação não é diferente: nos últimos anos, temos presenciado, atônitos, o surgimento de um fenômeno que jamais acreditaríamos ser possível no Brasil: a desertificação, ocorrendo não só no Nordeste, como também em áreas que há muito tempo abrigavam exuberantes florestas tropicais. Entretanto, o maior risco imediato para nosso meio ambiente, sr. Deputado, não é sequer o aterrorizante avanço da desertificação. Como o senhor deve saber muito bem, nesta década, um fato notável no cenário industrial do país é o crescimento acelerado da presença de indústrias no chamado “interior” – conjunto de cidades de médio porte não conturbadas como grandes metrópoles: grandes centros urbanos não atraem polos industriais como antigamente, fazendo com que estes se dispersem por diversas cidades. Isso implica um aumento vertiginoso de focos de poluição, que inclui também fortes agressões às fontes de recursos hídricos – tais como rios e mananciais -, complicando o trabalho já ineficiente de fiscalização executado pelo Estado. Tal dispersão industrial acarretará, ainda, a necessidade de criação, por parte das cidades atingidas por essa industrialização, de novas zonas de ocupação urbana para suprir as necessidades de moradia da força de trabalho que irá chegar com as indústrias. Não sei se o senhor tem ciência do seguinte fato, mas eu certamente não deixarei de mencioná-lo: frequentemente as prefeituras de diversas cidades têm permitido ou ignorado a ocupação de áreas de mananciais, o que significa ainda mais um risco para nossa reserva de recursos hídricos. Nesse cenário, a criação da ANA é indispensável, visto que a atuação dos atuais órgãos responsáveis pelo gerenciamento da água no país mostra-se ineficiente e lenta ante tantas mudanças. A capacidade que a ANA teria para resolver tais situações, senhor Deputado, é inegável. Esperando tê-lo convencido da importância da ANA, tomo a liberdade, ainda, de oferecer algumas sugestões que o senhor poderia, oportunamente, adotar como parte do programa a ser executado pela agência, caso o senhor venha a participar ativamente de sua criação. Inicialmente, senhor Deputado, seria necessária a regulamentação da Lei do Uso das Águas (9.433), incluindo taxas a serem cobradas de usuários tais como indústrias, hidrelétricas e outros – afinal, a cobrança de tais taxas seria um recurso valioso para estimular o uso criterioso e otimizado da água por parte das

Estrutura Por ser um texto argumentativo, o artigo de opinião apresenta três partes fundamentais:

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Capítulo 2 | Estratégias e recursos argumentativos

vem o ponto de vista defendido pela tese. Primeiro, o autor irá fundamentar o seu ponto de vista (se valendo de dados, fatos, informações, referências etc.) e, em seguida, analisar tal argumento, relacionando-o ao tema e à tese defendida.

Veja, a seguir, um trexo da introdução de um artigo de opinião produzido por Débora Diniz e Giselle Carino, publicado no jornal El País Brasil:

Mulheres negras, indígenas e com deficiência estão entre as mais vulneráveis à violência obstétrica. Um estudo da Universidade de Harvard, realizado em quatro países latino-americanos, mostrou que uma em cada quatro mulheres vivendo com HIV/aids foi pressionada à esterilização após receber o diagnóstico. Evidências igualmente assustadoras foram identificadas no México, onde a Organização das Nações Unidas condenou o país pela esterilização forçada de quatorze indígenas pelo sistema de saúde público. No Brasil, um estudo no Mato Grosso descreveu a correlação entre etnia e morte materna — mulheres indígenas têm quase seis vezes mais chances de morrer no parto que mulheres brancas. Pouco sabemos da realidade de mulheres com deficiência, em particular daquelas com deficiência intelectual. O senso comum diz que devem viver sem sexualidade e que são incapazes de decidir suas vivências reprodutivas.

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Introdução: Assim como nas redações escolares e propostas de vestibulares, o artigo de opinião apresenta uma introdução que contextualiza o assunto a ser abordado ao longo do texto. Além disso, evidencia o ponto de vista que será defendido, chamado de tese. No entanto, diferentemente das redações escolares e propostas de vestibulares, a introdução no artigo de opinião pode corresponder aos primeiros parágrafos, e não necessariamente apenas ao primeiro, como é comum nas redações. Além disso, esse gênero textual não delimita o número de linhas que o texto deve ter.

Ainda seguindo o exemplo dado anteriormente, observe um dos argumentos usados pelas articulistas Débora Diniz e Giselle Carino:

Jornal El País Brasil, 20 de março de 2019. Imagem 2.9.

Violência obstétrica, uma forma de desumanização das mulheres

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A expressão "violência obstétrica" ofende médicos. Dizem não existir o fenômeno, mas casos isolados de imperícia ou negligência médicas. [...] A violência obstétrica manifesta-se de várias formas no ciclo de vida reprodutiva das mulheres. Em cada mulher insultada verbalmente porque sente dor no momento do parto ou quando não lhe oferecem analgesia. Na violência sexual sofrida em atendimento pré-natal ou em clínicas de reprodução assistida. No uso de fórceps, na proibição de doulas ou pessoas de confiança na sala de parto. Na cesárea como indicação médica para o parto seguro. A verdade é que a violência obstétrica é uma forma de desumanização das mulheres.

Nesse caso, são usados como fundamentos um estudo da Universidade de Harvard, outro da Organização das Nações Unidas e mais um feito no Mato Grosso. Com base nessas pesquisas, as autoras relacionam as informações citadas com a tese, ao afirmarem que “Pouco sabemos da realidade de mulheres com deficiência, em particular daquelas com deficiência intelectual. O senso comum diz que devem viver sem sexualidade e que são incapazes de decidir suas vivências reprodutivas”. Conclusão: A conclusão de um artigo de opinião costuma apresentar uma síntese do desenvolvimento do texto e, em seguida, reiterar a tese, agora comprovada pelos argumentos. Observe que não há a necessidade de proposta de intervenção para o problema apresentado, como nas redações escolares e propostas de vestibulares. No artigo de opinião, basta a reiteração do tema e a síntese do que foi exposto.

Jornal El País Brasil, 20 de março de 2019.

Veja como é a conclusão do texto de Débora Diniz e Giselle Carino:

Podemos perceber, nesse parágrafo inicial do texto, a apresentação do tema — “violência obstetrícia” — e da tese — “A verdade é que a violência obstétrica é uma forma de desumanização das mulheres”. Desenvolvimento com argumentação: Nos parágrafos de desenvolvimento, são apresentados os argumentos que compro-

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Argentina e Bolívia também avançaram em legislações para proibir a violência obstétrica — estar livre de violência baseada em gênero deve incluir a violência obstétrica. É preciso avançar rapidamente neste campo, seja pela via legal ou pela transformação dos costumes e práticas. A legislação boliviana menciona "vio-


Capítulo 2 | Estratégias e recursos argumentativos

lência contra os direitos reprodutivos": se devidamente interpretada, a criminalização do aborto ou os maus-tratos sofridos pelas mulheres em processo de abortamento nos hospitais são formas de violência obstétrica. Meninas e mulheres forçadas, involuntariamente, ao parto e à maternidade são casos de violência obstétrica. Por isso, às histórias de dor física ou abusos verbais de nossas mães e avós, devemos somar as histórias da clandestinidade do aborto — as leis restritivas de aborto atingem 97% das mulheres em idade reprodutiva na América Latina e Caribe. Todas essas são expressões da violência obstétrica, uma forma silenciosa e perene de violência baseada em gênero. Jornal El País Brasil, 20 de março de 2019.

É perceptível, portanto, que a conclusão do artigo de opinião das autoras repete, resumidamente, a linha argumentativa desenvolvida no texto. Em seguida, a tese é reiterada, agora comprovada — “Todas essas são expressões da violência obstétrica, uma forma silenciosa e perene de violência baseada em gênero”. Como começar o artigo de opinião Assim como qualquer texto formal, sobretudo o argumentativo, elaborar um planejamento e um projeto de texto antes de começar a escrever fará toda a diferença na força persuasiva, articulatória e coesiva do texto. Considerar o processo de pesquisa, coleta e seleção de dados/informações a respeito do tema enriquecerá a produção. Da mesma forma, definir tese e selecionar as estratégias de argumentação que irão nortear o desenvolvimento de cada parágrafo poderá garantir que o texto fique bem escrito e coerente. O rascunho e a revisão também são duas etapas importantes no processo de escrita, visto que contribuem para que o produto final seja um texto que atenda ao que se espera de um artigo de opinião.

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Imagem 2.10.

O sistema prisional talvez seja a área da administração em que os políticos mais falam e fazem besteiras. Frases como “lugar de bandido é na cadeia”, “tem que acabar com benefícios que encurtam penas”, “vamos reduzir a maioridade penal” e, principalmente, “preso precisa trabalhar para pagar os custos da prisão” soam como música aos ouvidos da sociedade acuada pela violência. É compreensível que a maioria esteja de acordo com essas propostas. Dos que se candidatam para governar os estados e o país, entretanto, esperaríamos mais responsabilidade para não criar expectativas fantasiosas e evitar políticas inexequíveis num campo tão sensível. [...] Em 1989, quando comecei a atender doentes nas cadeias, havia no Brasil cerca de 90 mil presos. Hoje, temos ao redor de 800 mil, a terceira população carcerária do mundo. Não é verdade que prendemos pouco. O problema é que mandamos para trás das grades pequenos contraventores e deixamos em liberdade facínoras com dezenas de mortes nas costas. Como nos últimos 30 anos encarceramos quase nove vezes mais, e as cidades brasileiras tornaram-se muito mais perigosas, não é preciso ser criminalista com pós-graduação na Sorbonne para concluir: prender tira o ladrão da rua, mas não reduz a violência urbana. A pior consequência do aprisionamento em massa é a superpopulação. Os que não aceitam o argumento de que a pena de um condenado deve ser a privação da liberdade, não a imposição de condições desumanas, precisam entender que o castigo das celas apinhadas tem consequências graves para quem está do lado de fora. Quando trancamos 30 homens num xadrez com capacidade para receber menos da metade, como acontece nos Centros de Detenção Provisória de São Paulo e em quase todos os presídios do país, os agentes penitenciários perdem a condição de garantir a segurança no interior das celas. Como o poder é um espaço arbitrário que jamais fica vazio, o crime organizado assume o controle e impõe suas leis. Diante dessa realidade, uma autoridade vir a público para dizer que fará os presos trabalharem para compensar os gastos do Estado é piada de mau gosto. Primeiro, porque na construção das cadeias de hoje não foram projetados espaços para postos de trabalho; depois, porque é impossível trabalhar onde não existe emprego. Desde o antigo Carandiru, ouço diretores de presídios reclamarem da falta de empresas dispostas a instalar oficinas nas dependências das cadeias, a despeito das vantagens financeiras e tributárias que o governo oferece. Quer dizer, negamos acesso ao trabalho e nos queixamos que os vagabundos consomem nosso dinheiro na ociosidade. Embora tenha conhecido detentos que se vangloriaram de nunca ter trabalhado, eles são exceções. O que a sociedade não sabe é que os presos são os principais interessados em cumprir

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LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS

Exemplo Veja, a seguir, mais um exemplo de artigo de opinião. Desta vez, do médico Dráuzio Varella:

Cadeias e demagogia

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Capítulo 2 | Estratégias e recursos argumentativos

Jornal Folha de São Paulo, 03 de fevereiro de 2019.

4.3 • A diferença entre carta argumentativa e artigo de opinião Embora sejam dois gêneros argumentativos, a carta argumentativa e o artigo de opinião têm características formais peculiares e finalidades bem diferentes. Ambos têm sido solicitados em vestibu-

lares nos últimos anos e estão presentes no cotidiano comunicativo da sociedade, sendo publicados em jornais, revistas, blogs etc. Shutterstock.com

pena trabalhando: ajuda a passar as horas que se arrastam em dias intermináveis, permite cobrir os gastos pessoais, enviar dinheiro para a família e usufruir o benefício da lei que reduz um dia de condenação para cada três dias trabalhados. A questão prisional é muito grave para ficar nas mãos de aprendizes de feiticeiro sem noção da complexidade do sistema penitenciário, que repetem platitudes com ares de grande sabedoria e põem em prática medidas simplistas sem ouvir os que estão em contato diário com os encarcerados, nem os estudiosos do problema. A era das facções que comandam o crime de dentro dos presídios, capazes de dar ordens para vandalizar cidades, disseminar a violência pelo país inteiro e estabelecer conexões internacionais, requer dirigentes com experiência em segurança pública, que conheçam as condições de funcionamento das cadeias brasileiras. O combate ao crime organizado exige inteligência, entrosamento entre as polícias, centralização das informações num cadastro nacional, simplificação da burocracia e, acima de tudo, coragem do Judiciário para criar penas alternativas que reduzam a população carcerária. Palpites demagógicos de políticos despreparados são dispensáveis.

Imagem 2.11.

A carta argumentativa, por sua vez, é um texto no qual o autor manifesta sua impressão sobre algo, em forma de reclamação ou comentário ou por meio da qual faz uma solicitação. A carta argumentativa pode ser endereçada a jornais e revistas, por exemplo, caracterizando a interação do público leitor com o meio de comunicação ou pode ser encaminhada a órgãos públicos, empresas privadas etc. Já, o artigo de opinião é um texto no qual uma opinião sobre um tema atual, muitas vezes polêmico e de relevância social, será defendida por meio de argumentos sólidos e plausíveis. Podemos observar que, apesar de ambos serem argumentativos, os gêneros em estudo apresentam diferenças consideráveis. Os gêneros são práticas sociais e, portanto, devem ser lidos, analisados e escritos considerando suas particularidades para que a finalidade de cada um seja alcançada.

EXERCITANDO EM AULA LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS

10. O texto a seguir é uma carta publicada no jornal O Estado de S. Paulo, na seção São Paulo Reclama. Leia-o para responder às questões que seguem. Nunca antes, neste país... Vivendo em um país onde as pessoas parecem não mais se preocupar em cumprir suas obrigações, testemunho, aos 85 anos, que hoje a ética tem pouco valor e obter vantagens a qualquer custo passou a ser regra. Fui surpreendido por uma conta da [empresa]* [...] cobrando R$ 124,23, por uma ligação para Curitiba, em 21/12, com vencimento em 6/2. Não fizemos tal ligação nem conhecemos ninguém que more lá. Contatei 4 vezes a empresa, sem solução. Na última, o funcionário ameaçou protestar meu nome, se eu não pagar a conta, e que discutiria o ressarcimento após eu pagá-la. Pelo jeito, não são apenas os sequestradores que dão golpes pelo telefone. Não

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devo e não temo. Me recuso a pagar, já entrei no PROCON e peço ajuda ao jornal. A [empresa] responde: “Não identificamos irregularidades na cobrança. Os clientes podem nos contatar no [...] (telefonia fixa) e [...] (telefonia móvel). O site do fale conosco é [...]. Ou então devem ir à loja mais próxima.” O leitor comenta: Além de incompetentes e desonestos, são mentirosos. Até hoje dia (18), ninguém me contatou para esclarecer a cobrança descabida. A [empresa] enviou à coluna, no dia 20, resposta igual à enviada no dia 17, ratificando-a. No dia 23, o leitor confirmou que não recebeu telefonemas da empresa e que irá esperar a


Capítulo 2 | Estratégias e recursos argumentativos

solução do PROCON. Ele também agradeceu à coluna o envio da queixa à empresa.

b) Esse tipo de linguagem é comum nas cartas argumentativas? Justifique sua resposta.

(O Estado de S. Paulo, 27/06/2008)

* Para preservar a identidade dos interlocutores, suprimimos a identificação do remetente e o nome da empresa. A carta argumentativa de reclamação, como o nome sugere, apresenta uma reclamação a respeito de algum problema, enquanto a carta argumentativa de solicitação pede a solução de um problema. Quando apresenta simultaneamente uma reclamação e uma solicitação é chamada de carta argumentativa de reclamação e de solicitação. Como você classifica a carta lida? Justifique sua resposta.

11. As cartas de reclamação ou de solicitação são, normalmente, endereçadas a órgãos públicos, secretarias do município, PROCON, OAB etc. Considerando que a carta lida foi publicada em um jornal, que o jornal também publicou a carta da empresa e, ainda, o comentário do leitor à resposta dada, responda: a) Qual é a intenção do locutor desse tipo de carta ao se servir do jornal para publicar sua reclamação e/ou solicitação?

13. (ENEM) Pesquisa da Faculdade de Educação da USP mostrou que quase metade dos alunos que ingressam nos cursos de licenciatura em Física e Matemática da universidade não estão dispostos a tornar–se professores. O detalhe inquietante é que licenciaturas foram criadas exatamente para formar docentes. A dificuldade é que, se os estudantes não querem virar professores, fica difícil conseguir bons profissionais. Resolver essa encrenca é o desafio. Salários são por certo uma parte importante do problema, mas outros elementos, como estabilidade na carreira e prestígio social, também influem. SCHWARTSMAN, H. Folha de S. Paulo, 13 out. 2012.

b) No caso da carta lida, por que a parte criticada, a empresa, respondeu ao remetente da carta usando o mesmo veículo que o leitor, isto é, o jornal?

Identificar o gênero do texto é um passo importante na caminhada interpretativa do leitor. Para isso, é preciso observar elementos ligados à sua produção e recepção. Reconhece-se que esse texto pertence ao gênero artigo de opinião devido ao(à) a) suporte do texto: um jornal de grande circulação. b) lugar atribuído ao leitor: interessados no magistério. c) tema tratado: o problema da escassez de professores. d) função do gênero: refletir sobre a falta de professores. e) linguagem empregada pelo autor: formal e denotativa.

14. (ENEM)

a) Que variedade linguística predomina: formal ou informal? Justifique sua resposta.

LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS

12. Observe a linguagem empregada no texto:

Novas tecnologias

Atualmente, prevalece na mídia um discurso de exaltação das novas tecnologias, principalmente aquelas ligadas às atividades de telecomunicações. Expressões frequentes como “o futuro já chegou”, “maravilhas tecnológicas” e “conexão total com o mundo” “fetichizam” novos produtos, transformando-os em objetos do desejo, de consumo obrigatório. Por esse motivo carregamos hoje nos bolsos, bolsas e mochilas o “futuro” tão festejado. Todavia, não podemos reduzir-nos a meras vítimas de um aparelho midiático perverso, ou de um aparelho capitalista controlador. Há perversão, certamente, e controle, sem sombra de dúvida. Entretanto, desenvolvemos uma relação simbiótica de dependência mútua com os veículos de comunicação, que se estreita a cada imagem compartilhada e a cada dossiê pessoal transformado em objeto público de entretenimento. Não mais como aqueles acorrentados na caverna de Platão, somos livres para nos aprisionar, por espontânea vontade,

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Capítulo 2 | Estratégias e recursos argumentativos

a esta relação sadomasoquista com as estruturas midiáticas, na qual tanto controlamos quanto somos controlados. SAMPAIO A. S. A microfísica do espetáculo. Disponível em: http://observatoriodaimprensa. com.br. Acesso em: 1 mar 2013 (adaptado).

Ao escrever um artigo de opinião, o produtor precisa criar uma base de orientação linguística que permita alcançar os leitores e convencê-los com relação ao ponto de vista defendido. Diante disso, nesse texto, a escolha das formas verbais em destaque objetiva a) criar relação de subordinação entre leitor e autor, já que ambos usam as novas tecnologias. b) enfatizar a probabilidade de que toda a população brasileira esteja aprisionada às novas tecnologias. c) indicar, de forma clara, o ponto de vista de que hoje as pessoas são controladas pelas novas tecnologias. d) tornar o leitor copartícipe do ponto de vista de que ele manipula as novas tecnologias e por elas é manipulado. e) demonstrar ao leitor sua parcela de responsabilidade por deixar que as novas tecnologias controlem as pessoas.

15. (ENEM)

a) a utilização do termo download indica restrição de leitura de informações a respeito de formas de combate à dengue. b) a diversidade dos sistemas de comunicação empregados e mencionados reduz a possibilidade de acesso às informações a respeito do combate à dengue. c) a utilização do material disponibilizado para download no site www.combatadengue.com.br restringe-se ao receptor da publicidade. d) a necessidade de atingir públicos distintos se revela por meio da estratégia de disponibilização de informações empregada pelo emissor. e) a utilização desse gênero textual compreende, no próprio texto, o detalhamento de informações a respeito de formas de combate à dengue. PROPOSTA Após ler os textos motivadores, faça uma carta argumentativa a ser enviada ao Governo Federal em que se discutam os desafios da mobilidade urbana brasileira. ORIENTAÇÕES: a) Escreva, no lugar da assinatura: Cidadão Brasileiro ou Cidadã Brasileira. Em hipótese alguma escreva seu nome, pseudônimo, apelido etc. na folha de redação. b) Seu texto deve conter de 25 a 30 linhas. TEXTO I

MOBILIDADE URBANA NO BRASIL A mobilidade urbana é um dos desafios mais atuais do Brasil, pois a falta dela tem causado inúmeros problemas nas grandes cidades. A falta de planejamento e a prioridade dada aos automóveis são alguns dos fatores que contribuem para o caos que atrapalha a vida da população, que por sua vez tem pressionado o governo, exigindo a oferta de novas opções eficientes de transporte.

LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS

O QUE É MOBILIDADE URBANA?

Campanha conta a dengue (Foto: Uerj/2009)

O texto exemplifica um gênero textual híbrido entre carta e publicidade oficial. Em seu conteúdo, é possível perceber aspectos relacionados a gêneros digitais. Considerando-se a função social das informações geradas nos sistemas de comunicação e informação presentes no texto, infere-se que

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A mobilidade urbana é a condição desenvolvida com o objetivo de promover a locomoção das pessoas entre as diferentes regiões de uma cidade. Na atualidade, os meios de transporte públicos e os automóveis particulares são os meios de mobilidade urbana mais utilizados no Brasil. Porém, os carros são considerados um enorme problema para o desenvolvimento positivo da mobilidade urbana, principalmente nas cidades metrópoles e grandes centros urbanos, o que se deve ao fato de o volume de carros impedir que o trânsito flua na velocidade desejada. Quando o planejamento urbano de uma cidade é feito de maneira incorreta e não há investimento para a criação de alternativas ao uso das rodovias enquanto meio de locomoção, a tendência é que as regiões superpopulosas e com excesso de automóveis sofram com o ‘‘inchaço’’ das ruas, gerando congestionamentos diários e que afetam a qualidade de vida da sociedade.


Capítulo 2 | Estratégias e recursos argumentativos

O Brasil está entre os países que mais sofrem com os problemas gerados pela falta de mobilidade urbana, o que tem ocorrido há anos, tendo em vista que o país foi planejado com base no modelo rodoviarista, onde o investimento é voltado para a expansão e melhoria das rodovias. Além disso, a maioria das cidades brasileiras também é refém de um transporte público de má qualidade, que não comporta o crescimento populacional e as suas respectivas necessidades. Isso faz com que o cidadão almeje adquirir um veículo particular, o que, nessas condições, dá ao automóvel um significado de praticidade e liberdade de ir e vir. A crise da mobilidade urbana no Brasil atinge principalmente as capitais, um dos maiores exemplos é a cidade de São Paulo, que registra quilômetros de engarrafamento todos os dias em diversas regiões. Estima-se que o cidadão paulista gasta anualmente 45 dias parado no trânsito, o que compromete a sua qualidade de vida. A alta concentração de automóveis também prejudica o meio ambiente, devido aos gases poluentes emitidos pelos veículos. Isto tem criado uma grande demanda por alternativas de transporte sustentáveis.

O confronto entre automóveis x transporte público

Disponível em: https://foconoenem.com/mobilidade-urbana-no-brasil/ Acesso 15 novembro 2018.

TEXTO II

O desafio da mobilidade urbana no Brasil O intenso processo de urbanização, verificado no Brasil, principalmente a partir da década de 1960, se deu de forma rápida e desordenada. As cidades, que passaram a ser polos comerciais, atraíram - e ainda atraem - um grande contingente de

Disponível em: https://projetoredacao.com.br/temas-de-redacao/a-crescente-crise-da-mobilidade-urbana-brasileira/o-desafio-da-mobilidade-urbana-no-brasil-2/53656 Acesso 18 novembro de 2018.

Para ajudá-lo nessa atividade, observe o roteiro abaixo:

LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS

A falta de uma política constante de investimento na melhoria do transporte público criou um serviço de baixa qualidade e caro. Entre os problemas comuns neste âmbito estão o número insuficiente de veículos realizando percursos demorados,acarretando a superlotação dos utilitários, atrasos e grande tempo de espera nos pontos de parada. Também pode-se destacar o baixo investimento no transporte ferroviário, pois são poucas as capitais urbanas que possuem linhas de metrô. Isto traz, como resultado, o uso demasiado dos automóveis, que prejudica a vida do cidadão nas metrópoles com a emissão de poluição, com o tempo gasto no trânsito para se deslocar de uma região para a outra, e no aumento do número de acidentes. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), somente em 2013, mais de 41 mil pessoas perderam a vida nas ruas e estradas brasileiras. Desde 2009, o número de acidentes no Brasil subiu de 19 para 100 mil habitantes para 23,4 para 100 mil habitantes, sendo este o maior registro nos países da América do Sul.

população, que migra para essas em busca de uma melhor qualidade de vida. Contudo, essa qualidade não vem sendo alcançada plenamente, visto que as pessoas têm enfrentado sérios problemas decorrentes daquela urbanização desorganizada. As cidades não possuíam, e ainda não possuem, uma infraestrutura adequada que possa abrigar esse novo contingente populacional. Com isso, o deslocamento de pessoas e veículos no espaço urbano tem sido um desafio. Estima-se que os brasileiros gastem, em média, duas horas por dia no trânsito; a situação é ainda pior na cidade de São Paulo, onde o tempo gasto no trânsito ultrapassa essas duas horas para 23% dos paulistanos. É válido ressaltar ainda que os problemas no trânsito são resultado do grande número de veículos que circulam diariamente nas metrópoles brasileiras. Pesquisas apontam que a frota de automóveis no Brasil cresceu 11 vezes mais do que a população. Tal fato pode ser explicado pela baixa qualidade dos transportes coletivos, que estimula o indivíduo a buscar o conforto dos transportes particulares. Nota-se que o incentivo ao uso de automóveis é difundido, principalmente, pela mídia, através das inúmeras propagandas e novelas que atrelam a ideia de felicidade ao consumo de tais produtos. Portanto, medidas são necessárias para sanar o problema na mobilidade urbana. Para tanto, é preciso que os governos municipais criem projetos para melhorar a infraestrutura de suas cidades e destinem uma parte da verba para a construção e melhoria das estradas, a fim de diminuir os congestionamentos. Somado a isso, faz-se necessário um investimento maior nos transportes coletivos para melhorar a qualidade e estimular o uso destes. Deve haver ainda uma diminuição no número de propagandas que estimulem o consumo de automóveis. Assim, os cidadãos alcançarão uma qualidade de vida melhor e terão seu direito de ir e vir garantido.

Organize o texto em parágrafos. Você pode apresentar a ideia principal (a tese) no primeiro parágrafo e, nos parágrafos seguintes, os argumentos que a fundamentam. No último parágrafo, deve constar a conclusão. Outra possibilidade é estruturar o texto em um esquema, como por exemplo: • Tese • Desenvolvimento • 1º argumento • 2º argumento • 3º argumento • Conclusão Concluído o texto, dê a ele um título interessante e, antes de passá-lo a limpo, faça uma revisão cuidadosa, seguindo as orientações mostradas a seguir: •

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Avalie seu texto argumentativo Observe se o texto apresenta três partes essenciais: introdução (com a tese ou ideia central), desenvolvimento e conclusão;

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Reveja se, no desenvolvimento, os argumentos fundamentam devidamente o ponto de vista, estabelecendo relações de causa e efeito ou apoiando-se em comparações, depoimentos ou citações de pessoas especializadas no assunto, dados estatísticos, pesquisas, alusões históricas etc.; se a linguagem empregada está adequada ao gênero, ao público e à situação.


GABARITOS

Capítulo 2 | Estratégias e recursos argumentativos

GABARITOS Capítulo 1

Capítulo 2

EXERCITANDO EM AULA

EXERCITANDO EM AULA 01.

02. 03. 04. 05. 06. 07. 08.

a) Resposta pessoal. b) Resposta pessoal. (b) (b) (a) (d) (a) (d) a) A ideologia é diferente, porque trata de assuntos distintos. A primeira da questão da permanência de um determinado comportamento, enquanto houver quem o defenda. No segundo, texto a citação refere-se à modernidade líquida de Bauman. O emprego do argumento de autoridade serve como apoio para defesa do ponto de vista do autor do texto. b) Citação indireta. “Parafraseando o sociólogo ZygmunT Bauman, enquanto houver quem alimente a intolerância religiosa, haverá quem defenda a discriminação.” / “Outro fator importante reside no fato de que as pessoas estão vivendo tempos de “modernidade líquida”, conceito proposto pelo sociólogo Zygmunt Bauman, o qual evidencia o imediatismo das relações sociais.”

09. a) Conforme a constituição brasileira, todas as pessoas possuem direito à vida privada, inclusive as públicas. O fato de as pessoas públicas estarem vinculadas diretamente à vida pública, não implica na possibilidade de seu direito à vida privada poder ser violado pelo Estado ou por terceiros, com intenção ou simplesmente curiosidade em expor suas particularidades e intimidades. Impende mencionar, por oportuno, não ser o direito à vida privada ilimitado, não podendo ser arguido, por exemplo, como fundamento para desobediência à ordem judicial, cedendo diante de imperativos de segurança da sociedade. b) A escravidão contemporânea no Brasil

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(d) (b) (b) (c) (e) (d) (4 – 2 – 5 – 3 – 1 – 6 ) “Torna-se necessário o debate acerca da manipulação comportamental do usuário pelo controle de dados na internet.” 09. (d) 10. a) Citação. b) Citação. c) Afirmação. d) Alusão histórica. e) Citação. 11. Resposta pessoal. 12. (b) 13. (c) 14. Resposta pessoal. 15. (a) 16. (e) 17. a) “É notável que a descrença nos sentimentos tidos verdadeiros vem de cedo.” b) “Além disso, o individualismo crescente, em muito incentivado pela mídia, deturpa e perverte uma série de valores.” 18. a) Resposta pessoal. b) Resposta pessoal. c) Resposta pessoal. 01. 02. 03. 04. 05. 06. 07. 08.

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Capítulo 2 | Estratégias e recursos argumentativos

LINGUAGENS, CÓDIGOS E SUAS TECNOLOGIAS

assemelha-se à servidão e tem sua face rural e urbana. Tanto no campo quanto nas cidades se encontram pessoas em condições vis de trabalho escravo. As cidades grandes são terra fértil para aproveitadores que exploram a vulnerabilidade de indivíduos que não têm outra alternativa senão aceitar trabalhos degradantes à dignidade humana. Entre eles estão brasileiros que migraram de regiões pobres do país e estrangeiros ilegais oriundos de países onde há situações de grande miséria ou conflitos armados. Tem-se como exemplo o tratamento destinado a algumas trabalhadoras domésticas, o qual é estarrecedor, pois muitas dessas moças são praticamente forçadas a realizarem trabalhos domésticos, sem qualquer contrapartida financeira, vivendo em celas improvisadas, aqueles cubículos de apartamentos, geralmente conhecidos como “dependência da empregada”. É triste constatar que a análise de Rosseau de que o homem é o lobo ainda é vigente no Brasil atual. c) O mundo vive um conflito em relação aos refugiados. Esses emigrantes são tratados de forma desumana em muitos locais onde chegam. Em vista do preconceito exacerbado contra essas vítimas de guerra, alguns países europeus elaboraram legislações severas. Isso ocorre, porque, segundo Bauman, “os refugiados simbolizam, personificam nossos medos”. Dessa maneira, muitas nações estáveis financeiramente querem mantê-los longe. Fato indignante e inaceitável. d) O sistema de transporte público brasileiro mostra-se ineficaz em atender as demandas da população. O sucateamento dos veículos públicos, somado aos problemas de superlotação e lentidão, em virtude dos congestionamentos, afasta os cidadãos dos transportes coletivos e gera preferência pela aquisição de automóveis particulares. Nesse contexto, destacam-se a histórica priorização do transporte individual pelo próprio Estado, a qual se estende aos tempos atuais, e a baixa diversificação de modais de mobilidade urbana. Assim, é perceptível que o assunto seja analisado para

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GABARITOS

quer medidas sejam adotadas para resolução do problema, pois, segundo Bowersox e Closs, para poder tomar decisões eficazes é preciso conhecer os aspectos econômicos que envolvem a atividade de transporte. 10. A carta acima é classificada como de reclamação e argumentação, pois expõe um problema e cobra a solução para o mesmo. 11. a) Tornar pública sua reclamação. b) A empresa tornou pública sua resposta para evitar difamação. 12. a) Na carta predomina a norma culta da linguagem, pois é um gênero textual bastante utilizado em órgãos públicos. b) A norma culta é comum nas cartas argumentativas, pois se trata de um texto formal, endereçado a alguém que não há intimidade. 13. (d) 14. (d) 15. (c)

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SEPARATA 3º ANO PRODUÇÃO TEXTUAL  

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