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PRESENÇA INVERNO 2017

CORTELLA e a revolução necessária na educação

REFORMAS e a perspectiva de futuro após as mobilizações

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REVISTA PRESENÇA Inverno 2017

Publicação do Sindicato dos Professores de Caxias do Sul Sinpro/Caxias

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PRESENÇA

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Coordenação: Secretaria de Comunicação do Sinpro Coordenadora: Olga Neri de Campos Lima Edição: VOXMIDIA - (54) 3028.7479 Jornalista responsável: Rose Brogliato - MTB 11004/RS Colaboração e Revisão: Karine Endres - MTB 12764/RS Colaboração: Gabriela Bento Alves

Tiragem: 1.000 exemplares Impressão: Lorigraf


ÍNDICE

ROSE BROGLIATO

4. Retrospectiva Nos primeiros meses de 2017, o Sinpro/Caxias se engajou às lutas por democracia e direitos

10. Perspectiva A Reforma da Previdência tramita no Congresso e pode trazer grandes prejuízos para os professores

11. Ordem do dia A Reforma Trabalhista pode ser neutralizada - isso depende dos responsáveis pela aplicação das leis

12. Especial Cortella motiva para a coragem e mostra que é um educador antigo, mas não velho

19. Artigo A professora Olga faz um resgate dos motivos pelos quais precisamos dizer SIM aos sindicatos

20. Recreio O hobbie dos professores revela que é fundamental o tempo para lazer e prazer

21. Primeira Pessoa Marcia Tiburi alerta: as mulheres devem disputar os espaços de poder sem medo

22. Sabatina A historiadora Loraine revela que nada une mais ou separa mais do que a ideologia

- Para participar da seção Artigo: envie textos de até 2700 caracteres. - Para participar da seção Sabatina: envie textos de até 4500 caracteres. - Sugestões, críticas, informações: sinprocaxias@gmail.com

Ousadia

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ernando Pessoa disse que “Tudo é ousado para quem nada se atreve”. Nestes tempos sombrios, a opção é atrever-se ou sucumbir, ousar ou submeter-se. Escolhemos ousar. E nisso, abraçamos Lya Luft: “Apesar de todos os medos, escolho a ousadia. Apesar dos ferros, construo a dura liberdade. Prefiro a loucura à realidade, e um par de asas tortas aos limites da comprovação e da segurança.” Ousadia é lançar uma revista quando a comunicação via papel está em decadência. Justificamos: é preciso estampar nossas vitórias e angústias na folha branca para encorpar toda uma história. Até hoje, os exemplares físicos demarcaram mais do que o que anda pela nuvem. Isso não quer dizer que a comunicação digital diminuirá. Ao contrário, as próximas semanas serão testemunhas de grandes novidades na comunicação do Sinpro/ Caxias via internet e redes sociais também. Ousadia é fazer um evento que interessou a quase 8 mil pessoas, como foi a palestra com o filósofo Mario Sergio Cortella, trazer a polêmica Marcia Tiburi para Caxias, apoiar a discussão sobre Mídia e Poder com o professor e jornalista Juremir Machado e assim deixar um grande rastro luminoso de informações, incentivo à leitura, reflexões e debates, tudo isso num semestre só. Ousadia é não calar diante do roubo de direitos, de humanidade, de civilidade. Sinpro/Caxias, presente. A Diretoria


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RETR O S PEC T IVA

Semestre em movimento Nos primeiros meses de 2017, o Sinpro/Caxias se engajou às lutas por democracia e direitos

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primeiro semestre de 2017 foi tão intenso que parece ter sido composto de muito mais do que seis meses.

Uma tendência à polarização e crise que não é restrita ao Brasil, mas é latino-americana e também mundial, afeta as instituições e gera conflitos de toda ordem. Conforme editorial da revista Le Monde Diplomatique Brasil (edição 120): “Nos países do Sul, particularmente na América Latina, a crise de legitimidade do sistema político atual se deve principalmente ao fato de que, na maioria das nações, as classes dominantes não aceitaram alargar a democracia para contemplar a chegada de novos atores populares e suas demandas. Ao contrário, as políticas conservadoras dos novos governos promovem a eliminação de direitos conquistados e a volta da exclusão do ‘povo’, recentemente incluído econômica e politicamente.” Em entrevista à Rádio Brasil Atual, o professor de Direito Consti-

tucional da Pontifícia Universidade Católica (PUC) paulista, Pedro Serrano, afirmou que o país está vivendo um dos piores cenários para a democracia nos últimos tempos: “É o pior momento desde o pós-guerra. Nunca atravessamos um momento tão aproximado do nazifascismo. Tem uma roupagem democrática, mas tem uma intensidade de mecanismos autoritários com medidas de exceção. Em vez de serem disfunções naturais de um Estado democrático de Direito, estamos diante de um Estado cada vez mais contrário às liberdades públicas, aos direitos sociais. A democracia está indo para o barranco.” Assim, tudo indica que no próximo período a luta de classes assumirá formas mais duras, mais confrontativas e mais violentas do que no período 2003-2016. O presidente da CUT/RS, Claudir Néspolo, defende: “Nenhum país do mundo saiu de uma crise econômica, tirando direitos e precarizando os empregos dos trabalhadores, mas sim através de programas de aquecimento da economia e de estímulo ao desenvolvimento.” O Sinpro/Caxias não poderia ficar indiferente ao contexto do país e participou ativamente dos movimentos pela defesa de direitos, valorizando a formação e mobilizando os professores e outros trabalhadores.

TANIA SILVEIRA


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ROSE BROGLIATO

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ASSISTA OS VÍDEOS

Baixe um aplicativo leitor de QR Code. METAMORFOSE VÍDEOS

O Sinpro/Caxias convocou a mobilização contra a Reforma da Previdência no dia 15 de março a partir de vídeo com a atriz caxiense Zica Stockmans (que doou o cachê para a ampliação da campanha).

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DIA DE MOBILIZAÇÃO CONTRA AS REFORMAS

FOTOS ARQUIVOS PESSOAIS

DATA: 15 de março

LOCAL: Instituições de ensino e praça Dante Alighieri 1. Madre Imilda 2. São José 3. Carmo 4. Cetec 5. Murialdo Ana Rech

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Uma marchinha carnavalesca, paródia da música “Jardineira”, de Orlando Silva, animou o bloco “Não é Reforma, é o FIM.”

ROSE BROGLIATO

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LÁPIDES DATA: Em diversos atos e

mobilizações LOCAL: Em locais estratégicos do centro da cidade, o sindicato colocou “lápides” com epitáfios remetendo à campanha “Não é Reforma é o FIM!”.

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A manifestação do dia 15 de março levou milhares de pessoas para o centro de Caxias do Sul MIRADOOR

ROSE BROGLIATO

KARINE ENDRES

OUTDOORS COMO DENÚNCIA

TRIBUNA LIVRE NA CÂMARA

CAMINHADA LUMINOSA

DATA: Segunda quinzena

DATA: 26 de abril

DATA: 26 de abril

de abril LOCAL: 10 pontos de Caxias do Sul, juntamente com outros sindicatos OBJETIVO: Denunciar os deputados que votavam contra os direitos dos trabalhadores e chamar a Greve Geral de 28 de abril.

LOCAL: Câmara de Vereadores de Caxias do Sul OBJETIVO: Divulgar a história de 30 anos do Sinpro/Caxias e o compromisso com a defesa de direitos e da democracia. José Carlos Monteiro, diretor do Sinpro/Caxias, denunciou que as alterações nas regras da Previdência e o estímulo às terceirizações vão trazer prejuízo ao equilíbrio entre capital e trabalho.

LOCAL: Ruas centrais de Caxias do Sul OBJETIVO: O ato fez parte das mobilizações que culminaram com a greve geral em 28 de abril. A caminhada prosseguiu até o Tri Hotel, local de realização da audiência pública promovida pela Comissão do Trabalho, Administração e Serviço Público (CTASP), da Câmara dos Deputados, para discutir a Reforma Trabalhista.


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GREVE GERAL DATA: 28 de abril LOCAL: Todo o país OBJETIVO: Alertar ao governo de que a sociedade e a classe trabalhadora não aceitavam as propostas de reformas da Previdência, Trabalhista e o projeto de Terceirização. Várias instituições de ensino fecharam nesse dia.

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PLENÁRIA CONTRA AS REFORMAS DATA: 23 de junho

A passeata luminosa foi uma das atividades que denunciou a perda de direitos e preparou a greve geral. Assista:

ROSE BROGLIATO

RODRIGO POSITIVO

LOCAL: Auditório do Sindicato dos Metalúrgicos DEBATEDORES: - Anderson Ribeiro, advogado especialista em Direito Previdenciário; - Guiomar Vidor, presidente da CTB/RS; - Amarildo Censi secretário-geral da CUT/RS; - Deputados federais Assis Melo (PcdoB) e Pepe Vargas (PT) - O ex-prefeito Alceu Barbosa Velho (PDT) foi representado por Jaison Barbosa.

PARTICIPARAM:

representantes de movimentos sociais e dos trabalhadores de Caxias do Sul e região.

ATOS FORA TEMER DIRETAS JÁ DATAS: 18, 19, 21 e 24

de maio LOCAL: Praça Dante Alighieri OBJETIVO: Fortalecer as mobilizações contra as reformas e o grande ato Ocupa Brasília, realizado em 24 de maio.

ROSE BROGLIATO


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PRESENÇA INVERNO 2017 FOTOS ROSE BROGLIATO

VIGÍLIA E ATO CONTRA AS REFORMAS GREVE E MOBILIZAÇÕES DATA: 30 de junho

LOCAL: Todo o país EM CAXIAS: Atos na Praça Dante Alighieri pela manhã e à tarde, com show musical e participação de diversas entidades. Alguns setores paralisaram o trabalho, outros fizeram mobilizações internas.

REUNIÕES DOS MOVIMENTOS SOCIAIS E DE TRABALHADORES Durante o semestre, o Sinpro/Caxias participou ativamente das reuniões que organizaram todos os atos e mobilizações de resistência às reformas e ao desmonte de direitos que o governo Temer está realizando.

DATA: 11 de julho

LOCAL: Praça Dante Alighieri e Foro Trabalhista de Caxias do Sul Movimentos sociais e de tabalhadores de Caxias do Sul ocuparam a praça Dante Alighieri para uma vigília contra a aprovação da Reforma Trabalhista. À tarde, os manifestantes se dirigiram para o Foro Trabalhista e participaram ao ato realizado no local pelos juízes, advogados e funcionários.

Assista ao programa da TV Caxias sobre a Plenária contra as Reformas e verifique a posição das lideranças políticas.

Acompanhe informações sobre novas mobilizações no site e redes sociais do Sinpro/Caxias.


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C AD ER N O

DANIELA XU

PRIMEIRO PODER O auditório lotado na Câmara dos Vereadores de Caxias do Sul, na noite de 4 de julho, conferiu atento a palestra “Mídia e Poder no Brasil - No cenário de ameaças à democracia e aos direitos”, do jornalista Juremir Machado da Silva, com apoio do Sinpro/Caxias. O jornalista deixou claro, de início, como vê a capacidade de influência dos meios de comunicação: “quem acredita que a mídia é o quarto poder está completamente desatualizado. Hoje, a mídia é, totalmente, o primeiro poder”. FETEESUL

LONGA CAMPANHA A Campanha Salarial deste ano se estendeu de março a maio. Representes do Sinpro/Caxias participaram de reuniões, em Porto Alegre, para realizar a negociação da pauta de reivindicações com o sindicato patronal (Sinepe/RS). O resultado desse árduo processo está materializado nas convenções coletivas para a educação básica e educação superior. Acesse no site do Sinpro/Caxias.

RICARDO BARP

SINPRO NA TV Na TV Presença, canal do Sinpro/Caxias no YouTube, você pode assistir ao último vídeo institucional do sindicato, que conta a história da entidade a partir de depoimentos de alguns de seus fundadores e integrantes da diretoria atual. Ao mesmo tempo, questiona o papel dos sindicatos e mostra imagens de mobilizações contra as reformas da previdência e trabalhista e da greve geral de 28 de abril de 2017.


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P ER SPEC TIVA

Ameaça à aposentadoria

O THAÍS BACHI

principal impacto da Reforma da Previdência para os professores é que, se ela for aprovada nos moldes em que está sendo proposta, as aposentadorias especiais deixarão de existir. Essa é a avaliação de Deise Vilma Webber, assessora jurídica do Sinpro/caxias. A advogada explica que os professores terão que somar tempo de contribuição e idade para se aposentar, e não apenas tempo de contribuição — como era anteriormente. O projeto de lei que se configura como o mais radical desde a promulgação da Constituição Federal de 1988, pretendia exigir a idade mínima de 65 anos e um mínimo de 25 anos de contribuição de todos os trabalhadores, sem distinção para mulheres, servidores públicos, trabalhadores rurais ou professores da educação fundamental. Com a mobilização dos movimentos sociais e pressão sobre os deputados, o projeto foi alterado. Na proposta atual, as mulheres terão uma idade mínima de aposentadoria de 62 anos e os homens de 65 anos. Já para os professores de ensino básico e médio, a idade mínima para aposentadoria ficou em 60 anos, com tempo mínimo de contribuição de 25 anos, sem distinção entre os gêneros. Para Ademar Sgarbossa, coordenador da Secretaria de Previdência, Aposentados e Pensionistas da Contee, o efeito da reforma será mais drástico para os professores do que para os outros profissionais. “Se as novas regras forem aprovadas, como é a expectativa do Governo Federal e seus apoiadores, serão rebaixados tanto os dispositivos do Regime Geral de Previdência Social, que permitem aos profissionais

do magistério acesso à aposentadoria integral aos 25 anos de contribuição para as mulheres e aos 30 anos de contribuição para os homens —, quanto as normas do Regime Próprio de Previdência Social, que estabelecem, além do referido tempo de contribuição, idade mínima de 50 anos para as professoras e de 55 para os professores. É importante destacar que se, por um lado, o substitutivo preservou a aposentadoria diferenciada para o magistério, estabelecendo limites mínimos de idade e tempo de contribuição inferiores aos estipulados para os demais trabalhadores, por outro, igualou ambos os requisitos para professores e professoras, diferentemente do definido para os outros profissionais, para os quais a idade mínima fixada para a aposentadoria das mulheres é três anos inferior à dos homens”, explica Sgarbossa. O dirigente alerta: a luta está apenas começando. “Tudo indica que, com a aprovação da reforma trabalhista já efetivada, o próximo período vai ser de retomada da tramitação da reforma previdenciária. Somente conseguiremos impedi-la com intensa mobilização, principalmente dos trabalhadores em educação, tanto da rede pública como da privada”, afirma. Os professores já são desvalorizados dentro do cenário econômico brasileiro. A categoria recebe baixa remuneração e tem longas jornadas de trabalho. Esperar chegar aos 60 anos para ter direito a se aposentar representa mais uma dificuldade para seguir na profissão e ter condições dignas de vida às pessoas que são imprescindíveis para a melhoria da educação no país. O Sinpro/Caxias continuará mobilizado para impedir a aprovação da reforma.

ARQUIVO FETEESUL

Reforma da Previdência tramita no Congresso e pode trazer grandes prejuízos


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ORD EM D O D IA

Uma tragédia, se deixarmos A reforma trabalhista pode ser neutralizada, isso depende dos responsáveis pela aplicação das leis

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Juíza do Trabalho no TRT da Quarta Região (RS), Valdete Souto Severo, é uma incansável defensora da justiça trabalhista. No período de férias que tirou em julho, grande parte da agenda foi ocupada com a participação em eventos para discutir a recém aprovada reforma trabalhista. Em artigos no site Justificando (justificando.cartacapital.com.br), do qual é colunista, Valdete desconstitui a proposta apresentada pelo governo:

“Ao vangloriar-se da paternidade da nova lei, Temer pretende obscurecer um fato que não passa despercebido por aqueles que lidam diariamente com o Direito do Trabalho. Boa parte do texto da chamada ‘reforma’ não é senão a cópia do que há de pior em súmulas do TST ou em entendimentos minoritários já professados no âmbito das relações de trabalho judicializadas. Em alguns pontos, é verdade, a Lei 13.467 vai além, disciplinando maldades que não seriam compreendidas, senão no contexto da ânsia devora-

dora do capital sobre o trabalho”, afirma no texto E agora, José? A “refor-

ma” trabalhista diante da ordem constitucional. Neste artigo escrito após a reforma ter sido sancionada, a juíza destaca que a lei representa “uma deliberada vontade de promover a maior destruição de direitos sociais trabalhistas que já experimentamos por aqui”. Mas complementa que essa vontade se concretizará apenas e na medida em que o permitirem aqueles que lidam diariamente com as questões trabalhistas.

EVITAR O REBAIXAMENTO DAS CONDIÇÕES DE TRABALHO A juíza respondeu com exclusividade dois questionamentos para a Revista do Sinpro/Caxias: Quais serão as consequências mais imediatas quando começar a vigorar a reforma trabalhista?

FOTO FEMARGS

Valdete Souto Severo: As consequências irão depender, sobretudo, de como empresários, advogados, sindicalistas e juízes se comportarem diante da reforma. Ao contrário do que se disse durante sua rápida tramitação, a Lei 13.467/17 é muito mal redigida, enxerta disposições sem alterar os institutos, então gerará muita insegurança e dará margem a uma gama variada de interpretações. Isso, para quem reconhece nessa lei a tentativa de desmanche dos direitos trabalhistas e lutou contra a sua aprovação, é um dado de certo modo positivo, pois temos condições de construir racionalidade que em alguma medida neutralize a pior parte de suas disposições. Se aplicada da forma como proposta, a lei causará, de imediato, o rebaixamento das condições de trabalho de vários trabalhadores, seja quanto ao tipo de contrato, seja no que tange à remuneração, além de prejudicar gravemente o acesso à justiça.

Qual a perspectiva futura que temos em relação aos direitos trabalhistas, após a aprovação da “reforma”? Valdete Souto Severo: A perspectiva segue sendo de que essa lei seja revogada o mais rápido possível e possamos voltar a discutir o que realmente importa: o reforço de alguns direitos como o de garantia contra a despedida, de forma a conferir estabilidade às relações sociais e, assim, incentivar o consumo interno. Se a lei “colar” e seus dispositivos forem aplicados tal como pretendem os idealizadores da reforma, a perspectiva é terrível, sem contar que crescerá, como já vem crescendo, o discurso de fim da Justiça do Trabalho, que corre mesmo o risco de perder sua identidade. Tudo isso, repito, vai depender do que farão aqueles responsáveis pela aplicação da lei. Os sindicatos, por exemplo, terão uma grande responsabilidade histórica, pois poderão certamente impedir praticamente todo o desmanche promovido na parte material da CLT, negando-se a firmar acordos ou convenções que fragilizem direitos.


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ESP EC IAL

Cora

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e maneira geral, professor gosta de professor e a gente se junta.“ Essa é a explicação simplificada de Mario Sergio Cortella ao traduzir um auditório lotado de professores para ouvir sua palestra na noite de 18 de maio. Simplista também seria dizer que o Sinpro/Caxias escolheu o palestrante por seu currículo como filósofo e escritor. Cortella tem Mestrado em Educação, orientado por Moacir Gadotti, e Doutorado com orientação de Paulo Freire, com quem também viria a trabalhar diretamente por al-

guns anos e admirar pelo resto da vida. Mario Sergio Cortella abandonou a perspectiva de uma vida monástica para seguir a carreira acadêmica. Tornou-se filósofo, escritor, educador, professor universitário e Secretário Municipal de Educação de São Paulo (91-92). É autor de diversos livros nas áreas de educação, filosofia, teologia, motivação e carreira, alguns deles há mais de dez anos na lista dos mais vendidos. Mas é na condição de palestrante que ele mostra todo o talento de 43 anos como educador. Um educador anti-


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Coragem não é ausência de medo. Coragem é a capacidade de enfrentar o medo. É preciso coragem para ser sindicalista, coragem para ser docente, coragem para reivindicar direitos, coragem para lutar por justiça, coragem para ser pai ou mãe, coragem para formar uma família que não degenera. A coragem é uma qualidade que os docentes têm que ter. Pais e mães têm que ter. Pessoas que lidam com formação têm que ter. Coragem para não desistir. Coragem para tropeçar e levantar.

agem, professor! Por Vera Mari Damian JORNALISTA FOTOS RICARDO BARP

go, mas não velho, como faz questão de diferenciar “porque nem tudo o que é antigo é velho”. Capaz de manter a atenção plena da plateia por uma hora e meia no formato de uma “simples” aula expositiva, sem recursos tecnológicos, mas com muito conteúdo e diversão. A palestra começou com a dica sobre a importância de ter coragem nestes tempos difíceis, tema do livro que ele lança até final do ano (A sorte segue a coragem). Antes da fala pública, o filósofo concedeu entrevista coletiva para um grupo de jornalistas e falou sobre política e educação.

No conhecimento tem coisa que é antiga e tem coisa que é velha. Numa escola, tem coisa que é antiga e tem coisa que é velha. Por que que eu tenho que ter um sindicato, ou um centro de professores? Para que, junto conosco, seja capaz de proteger uma coisa que é antiga, chamada docência.


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Paulo Freire dizia: é preciso ter esperança, mas tem que ser a esperança do verbo esperançar. Tem gente que tem esperança do verbo esperar. Espera que dê certo, espera que resolva, espera que aconteça. Isso não é esperança, isso é espera. Esperançar é ser capaz de entender que o conhecimento precisa ser uma ferramenta de liberdade, de autonomia, de dignidade.

O senhor é favorável a uma reforma do ensino no Brasil? O Brasil precisa ter uma base curricular comum. Somos uma das poucas nações que não tem. A reforma de ensino vem sendo feita de modo atabalhoado e até incompetente. A reforma do ensino médio é necessária, mas foi colocada de forma extemporânea, sem discussão com as estruturas que debatem isso há muito tempo. Portanto, de modo inadequado e inconveniente. É necessário que seja feita, mas não é este governo que a fará. Ele não entende de educação escolar pública. Educação não pode ser um plano de governo. Tem que ser um plano de nação, um compromisso nacional. O Brasil avançou muito nos últimos 30 anos na área de educação escolar. Os avanços estão longe

do que a gente exige, merece e precisa, mas já não estamos mais naquela miserabilidade que tínhamos há 30 anos.

Qual é a revolução necessária na educação? A primeira delas é ter uma distribuição de recursos que rompa o mito de que o Brasil destina dinheiro suficiente para a educação, mas de que ele não é bem usado. Nós sabemos que muita coisa não é bem usada, mas os recursos nesta área não são suficientes. Aplicarmos hoje taxas de 5% do PIB – assemelhadas às de países de primeiro mundo – condiz com países que estão numa estrutura de manutenção da qualidade de ensino. Nós ainda estamos fazendo um esforço de decolagem. Por isso, se não chegarmos paulati-


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namente a 10% do PIB, não vamos conseguir dar este passo. Em segundo lugar, temos a necessidade de democratização do acesso, da permanência e da organização de colegiados escolares e conselhos regionais, com a participação de fato da população nos Conselhos Municipais de Educação que estão previstos na Lei de Diretrizes e Bases desde 1996. Mas há cidades em que a população nem sabe que existem estes conselhos e que precisa estar presente neles. Terceiro, a ideia de uma reorientação curricular com reordenamento das condições de trabalho e da formação docente, incluindo a organização estruturada dos três níveis de governo para que haja um esforço na aplicação dos recursos. E, por último, a educação de jovens e adultos. Temos um país que é uma das dez maiores economias do planeta e que ainda tem 13 milhões de homens e mulheres com mais de 15 anos que não leem o lema da própria bandeira. Isso é mais do que um problema educacional. É uma vergonha ética que tem que ser rompida.

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O número de canalhas no Brasil não chega a 10%. Noventa por cento da nossa população acorda todo dia cedo, vai trabalhar, se dedica, não furta, não desvia. Os 10% dos canalhas na área pública e privada tentaram, primeiro, nos convencer que não ser canalha é ser otário. Segundo, nos convencer de que eles são invulneráveis. Mas eles podem ter uma terceira tentativa: nos fazer desistir por cansaço: ‘não aguento mais ouvir falar disto tudo, toda hora denúncia, delação, não quero mais ouvir falar desse assunto’. A maior derrota que nós poderemos sofrer é se os canalhas nos fizerem desistir por cansaço.

A pior coisa que você pode fazer em relação ao conhecimento é pensálo como fruto de uma inspiração, uma genialidade que nasce pronta. O conhecimento não é fruto da genialidade, é fruto do esforço, da dedicação, do estudo, da aplicação.


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Me sinto honrado de ver neste auditório tanta gente, tantos homens e mulheres que não desistiram. De fato é difícil, é complexo e não é algo que se percorra com tranquilidade. Mas é honrado, é algo que nos dá dignidade, é o que faz com que a nossa profissão seja a nossa obra, a nossa capacidade de vida e também o nosso encanto.

Educação não é só um emprego. É uma obra. Emprego é fonte de renda. Um trabalho que é uma obra é fonte de vida.

Como o senhor vê o fim do programa Ciência sem Fronteiras? Quando se ceifa um programa como o Ciência Sem Fronteiras estamos tirando as bases de futuro. Há tantos outros lugares onde se pode fazer economia de recursos. Não roubar já economizaria 30%.

Na sua opinião, qual será o futuro da escola? A escola vai construir um futuro em que possa separar aquilo que é arcaico daquilo que é tradicional. Nem tudo o que vem do passado tem que ser descartado. Nem tudo tem que ser guardado. Por exemplo, algo que vem do passado e precisa seguir adiante é a autoridade docente. O autoritarismo tem que ser deixado lá para trás. Precisa trazer a atenção aos conteúdos científicos. Descartar o conteudismo

(fixação em conteúdos). Tem que ser trazida a capacidade de participação dos alunos. Deixado para trás o ativismo, achando que só o fazer sem refletir funciona.

Como a escola deve se relacionar com o mundo digital? A escola ganha, com o mundo digital, uma capacidade espetacular. Nunca tivemos a quantidade de jovens lendo como agora. Hoje, 40% dos meus leitores – e eu escrevo livros de Filosofia – tem menos de 20 anos de idade. A nova geração começou a ler de novo. A geração do meu filho não lia. Falava ao telefone. Hoje, com as plataformas digitais, os blogs, as redes sociais, os jovens voltaram a ler e a escrever. E gostam de ler. A escola precisa retomar este tipo de prazer que a leitura coloca e não fazer o que já fez no


passado que foi entender a leitura como tortura. A nova escola não deve ter nem informatofobia (temor do mundo digital) nem informatolatria (adoração ao mundo digital).

Qual a sua opinião sobre o movimento “Escola Sem Partido”? Eu não conheço ninguém que defenda a escola com partido. Assim, nem entendi o título deste movimento. Toda pessoa com bom senso defende que a política faz parte da atividade escolar. Seria estranho retirar dos conteúdos aquilo que é o mundo do debate, da reflexão, da vida comunitária. Por outro lado, aqueles que militam no tal “Escola Sem Partido” argumentam que docentes ligados à esquerda fizeram a cabeça dos alunos nos últimos 30 anos. Eu costumo dizer que, se isso aconteceu desse jeito, então nós, docentes, somos de uma incompe-

tência brutal, porque nos últimos 30 anos elegemos tanta gente que só fez bobagem e tanto canalha que, se os professores estavam doutrinando dentro da sala de aula, foram de uma incompetência maravilhosa. Ninguém em sã consciência defende a escola com partido. A democracia coloca a necessidade de não se partidarizar a estrutura pública. Já, na área privada, a escola pode ser confessional ou ideologicamente situada.

O que falta para os professores contribuírem mais com a educação? A escola não se dilacerou no Brasil porque há um grupo de profissionais de várias áreas que atuam dentro da educação básica. Homens e mulheres que não desistiram. Uma sociedade que exclui, que diminui e humilha sua força docente com desprezo, com a miserabilidade de con-

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Muitas vezes a palavra aluno é identificada como ‘aquele que não tem luz’. Isto não tem sentido. Etimologicamente, a palavra aluno significa aquele que está sendo nutrido. Nenhum de nós que se dedica a uma profissão está qualificado – nós estamos sempre qualificando. Formação não é um verbo no imperativo. É gerúndio. É sempre ‘formando, qualificando, estudando, debatendo, discutindo’.


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PP RR EE SS EE NN ÇÇ AA INVERNO INVERNO 2017 2017

dições, com a banalização salarial, é uma sociedade que iria entender qual o valor da camada docente no dia em que esta camada desistisse e saísse fora. Fosse vender cachorro quente, plantar uva... Já que não nos pagam direito, não garantem as condições, entendem a escola como que regida pelo código do consumidor - não por uma relação de trabalho e de respeito - cuidem vocês aí da educação. Ou façam como diz aquela velha frase norte-americana: “se você não acha que educação é um bom investimento, tente investir em ignorância”.

“ “

Na gestão do conhecimento, o nosso principal desafio é a capacidade de termos paciência, coragem e humildade para saber que tem coisas que a gente ainda não sabe e que nós temos que juntos e juntas aprender.

Educação lida com vida. Vida é processo e processo é mudança.


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AR TIG O

Sim ao sindicato! RICARDO BARP

A história mostra que a relação entre capital e trabalho sempre foi desigual. Por volta de 1860 e 1870, nos países mais industrializados – Inglaterra e Alemanha – começaram a ser elaboradas as leis trabalhistas. Legislação essa que previa fixação de níveis salariais, descanso semanal e defesa contra acidentes. Várias greves, naquela época, foram realizadas exigindo uma série de leis de proteção ao trabalho. A burguesia tinha seus partidos para defender seus interesses, logo cabia aos trabalhadores organizarem-se para que fossem criados os primeiros partidos políticos e as primeiras centrais sindicais que representassem a classe trabalhadora. Muitas lutas foram necessárias. Mortes, prisões e perseguições marcaram todo o século XIX para que a redução da jornada de trabalho fosse conquistada no mundo. Somente na década de 1910 começou a vigorar, em alguns países, o direito às oito horas diárias de trabalho. Essa conquista marcou profundamente a história da classe trabalhadora mundial. Além dessa importante vitória, outras eram fundamentais: aumento de salário (para não morrer de fome), redução da jornada (para não morrer de trabalhar) e segurança no trabalho para que os acidentes fossem diminuídos. Todos esses avanços não foram obra do acaso, mas resultado da reação de trabalhadores contra a exploração que lhes era imposta, que politizaram suas lutas e se organizaram em sindicatos, que nada mais são do que entidades que têm opção, lado e consciência de classe. Sabe-se que aquele que compra o trabalho assalariado determina as condições pelas quais ele será ex-

plorado. Na lógica do dinheiro, há que se ter a propriedade de tudo e especialmente diminuir o custo da produção, para tal é preciso precarizar as condições de trabalho, tirar direitos e baratear o custo da mão de obra. No atual cenário brasileiro, a classe trabalhadora que, através de suas organizações de classe – os sindicatos –, lutou e luta contra o capital para conquistar um mínimo de direitos, poderá ver, numa rapidez avassaladora, suas conquistas destruídas. Ao invés da lei, poderá reinar a “livre” negociação. Os direitos adquiridos poderão ser substituídos pela chamada “flexibilização”. A hegemonia do mercado será então resumida através da frase lapidar: “O negociado vale mais do que o legislado”. Portanto, é imperativo lembrar: jornada de trabalho de oito horas, salário mínimo, direito a férias, 13º salário, FGTS, licença maternidade, licença paternidade e descanso semanal remunerado não foram benesses da classe patronal, mas resultado da luta de homens e mulheres, trabalhadores do campo e da cidade organizados em seus sindicatos. Se o papel dos sindicatos não fosse tão importante e decisivo nessas conquistas, eles não estariam sendo tão fortemente atacados, numa clara tentativa de impedir a organização, a luta e os mínimos direitos sociais àqueles que vendem a sua força de trabalho. Resgatando a luta dos trabalhadores ao longo da história, entendemos porque é necessário dizer sim à organização que pode representá-los e defender seus direitos numa situação tão desigual como a relação entre o capital e o trabalho: o sindicato.

Olga Neri de Campos Lima é professora e dirigente sindical do Sinpro/Caxias. Esse artigo teve o objetivo de combater as visões preconceituosas e rasas sobre o sindicalismo. Foi publicado no jornal Pioneiro e nos portais da Contee, CUT/RS e vários sindicatos pelo país afora.


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Recreio

Há anos o Sinpro/Caxias denuncia o excesso de demandas de trabalho fora do horário contratado, que compromete a qualidade de vida dos docentes e, em diversas pesquisas, foi identificado como um dos principais fatores de adoecimento. Para destacar a importância da vida fora do trabalho, mostramos coisas prazerosas que professores fazem para além do horário nas instituições de ensino e que os completam como profissionais e seres humanos.

FOTOS ARQUIVO PESSOAL

Caí na teia Eu costuro desde criança, aprendi com mãe/avó e até a adolescência foi apenas “um hobbie”. Na medida em que passei a conhecer e estudar Arte, compreendi a costura como uma possibilidade de expressão artística. Por meio da mistura de técnicas têxteis, pode-se integrar cores, tecidos, memórias, histórias. Eu integro às costuras as histórias da minha vida e de quem participa dela. Isso me conecta com uma parte de mim que se orgulha de saber costurar, fazer, pensar, reunir partes, cores e – por que não? – tecidos de florzinha. E me liga com muitas pessoas interessantes e que também costuram. Me “costura” à Arte. Dizem os mitos e muitos poetas que aranhas são artistas. Fiam. Tecem. Criam com linhas. Costuram. Acho que caí na teia (risos). Meu trabalho cotidiano me dá muito prazer, sou feliz quando estou em sala de aula. Fico feliz em museus, exposições de arte, livrarias, cafés. Mas, quando entro em uma loja de tecidos e “apetrechos costurísticos”... confesso: me sinto num parque de diversões!

Meu momento Eu danço desde os 17 anos. Iniciei com a dança do ventre e agora faço dança cigana. Queria algo diferente que não fosse ballet ou dança contemporânea. Quando vou para a aula de dança cigana, é o meu momento, esqueço os problemas e preocupações. A dança além de fazer bem para o físico, também proporciona momentos de descontração. Como professora de Educação Física, sei que temos que ter um tempo para cuidar da nossa saúde, cuidar do nosso corpo, mente e espírito.

Patricia Stuani Prof. na E.E.F. São José Capivari

Ciberespaço Meu hobbie é um complemento da minha atividade docente e de pesquisador. Eu acompanho as discussões, reflexões e publicações sobre a conjuntura política e seus reflexos nas políticas públicas e utilizo as redes sociais, especialmente Facebook e Twitter, para disponibilizar uma leitura sobre os acontecimentos atuais a partir de fontes confiáveis e com reconhecida produção cientifica. No momento em que movimentos políticos se organizam a partir da produção de notícias falsas, de um discurso xenófobo, autoritário, racista e intolerante, através da reprodução constante de um discurso de negação da política e dos políticos, com o suporte dos grandes veículos de comunicação e dos grandes grupos econômicos, vejo como necessária a atuação nas redes sociais como uma nova forma de ativismo, pois o ciberespaço é um lugar de produção do conhecimento, de encontro de pessoas, de discussões coletivas, de mediação política e da possibilidade de radicalização da democracia.

SINARA BOONE

Andrey Felipe Sgorla

Docente do Centro de Artes e Arquitetura da UCS

Professor de Sociologia na Fac. Murialdo

Para participar dessa seção, envie fotos e descrição para sinprocaxias@gmail.com com o título RECREIO.


A PP RR EE SS EE NN ÇÇ A INVERNO 2017 2017 INVERNO

FOTOS RICARDO BARP

PRIM EIRA PES SO A

A

s mulheres precisam ter a consciência de que é imprescindível ocupar os espaços de poder neste momento histórico, pois há o risco real de se ficar sob o jugo do que há de pior na sociedade brasileira.” A afirmação é da filósofa e feminista Marcia Tiburi, na palestra realizada no dia 9 de março, no Teatro Murialdo. Marcia Tiburi argumentou que as mulheres não sabem fazer o exercício do poder, pois foram historicamente convencidas de que isso corrompe. É necessário desconstituir esse discurso e para isso as mulheres têm que ocupar os espaços políticos. Ela chamou os professores a desempenharem o papel de incentivadores da participação feminina nas organizações sociais e políticas. O evento “Não é por rosas, mas pelos direitos das mulheres”, em referência ao Dia Internacional da Mulher, foi promovido pelo Sinpro/Caxias em parceria com o Sindicato dos Bancários de Caxias do Sul e Região, Sindicato dos Servidores Municipais de Caxias do Sul (Sindiserv) e com o apoio da livraria Do Arco da Velha. Na abertura, a batucada da Marcha Mundial de Mulheres deu o seu recado. Confira no vídeo.

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Ocupar os espaços de poder!


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SAB ATIN A

A política e a cidade Não há nada que una mais do que a ideologia, não há nada que separe mais do que ela. Numa cidade de tamanho médio como Caxias do Sul, as diferenças ideológicas têm o poder de unir e de separar. No decorrer da história há inúmeros fatos que atestam tal afirmação.

FOTOS ARTE VOXMIDIA SOBRE ARQUIVOS PESSOAIS

CATÓLICOS X MAÇONS A primeira grande divisão da cidade ocorreu no final do século XIX, quando maçons de um lado e católicos de outro lutaram, literalmente, nas ruas por suas crenças diferentes. A causa foi a invasão dos territórios pontifícios pelas tropas de Garibaldi, dando origem à Questão Romana (1870-1929). Em Caxias, os maçons defendiam a unificação italiana e os católicos defendiam a posse do Papa dos Estados Pontifícios. Vários foram os enfrentamentos entre as duas facções. As lutas levaram ao fechamento da Loja Maçônica Força e Fraternidade.

FASCISTAS X NACIONALISTAS A segunda grande divisão aconteceu no período entre guerras (1920-1939) quando outros dois grupos se forma-

ram: de um lado os fascistas e de outro os nacionalistas. Este segundo enfrentamento estava ainda vinculado à Itália. Um grande número de técnicos italianos veio para a região. Além de suas habilidades traziam outra missão, a de divulgar o fascismo junto à elite caxiense. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra (1939-1945), a luta entre os dois grupos levou até à troca de nome da praça central da cidade, com a retirada de placas e colocação de novas sem a licença do poder municipal. A praça deixou de ser Dante Alighieri e passou a se chamar Ruy Barbosa, tal fato durou até 1992, quando voltou o nome antigo.

ARENA X MDB A terceira grande divisão tem início em 1961, quando da Campanha da Legalidade iniciada pelo

governador Leonel Brizola que, emendada no Golpe de 1964, levou à queda do presidente João Goulart e ao advento da ditadura militar (1964-1988). Foi uma época de delações, de prisões e de inimizades para sempre. Foi uma época dolorosa de ausência de liberdade e de autoritarismo extremo, com mortes de muitos militantes de esquerda. As duas facções então formadas eram sintetizadas nas siglas ARENA e MDB, que de certa forma marcaram as posições de direita e esquerda que persistem até hoje. Houve os que tiveram vantagens com o golpe. O antigo prefeito de Caxias, major Euclides Triches, foi nomeado governador do Estado. Com o retorno dos partidos políticos, novas agremiações se constituem, a maior e a mais importante era a do PMDB, partido que se formara na luta contra o regime militar. Mas outros partidos se formam, alguns retomam suas antigas siglas e a esquerda avança na cidade com a criação do PT (1980). Este, de certa forma, divide as esquerdas antes formadas pelo PCB e pelo PCdoB. Os comunistas que tinham se abrigado no PMDB se sentiram agredidos com a nova agremiação que pretendia unir os trabalhadores do Brasil. Eles estavam em outros partidos, entre os quais o PDT, que reuniu os antigos trabalhistas. Aos poucos, uma nova forma de militância se forma, a estudantil, e o PT cresce, enfraquecendo os outros partidos de esquerda.


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PT X PMDB Com a eleição de Lula, o PT se torna uma potência. Para poder governar, o partido assume fórmulas antigas usadas pelos partidos tradicionais, visando à adesão de deputados. Tais fatos vão repercutir na imprensa, uma campanha tem início na rede Globo contra qualquer ação do PT e se mantém até hoje. O que era lícito para os outros partidos tornou-se ilícito para o PT. A difamação pública tem início e nunca mais parou, revistas e jornais da grande imprensa se somam à TV. Alguns de seus líderes são presos e condenados. Ainda assim, o partido conseguiu eleger Dilma Rousseff como sucessora de Lula. A campanha para a reeleição de Dilma foi catastrófica. Nunca os ânimos se acirraram mais do que então. Com a vitória de Dilma, em 2014, teve início o mais articulado golpe à democracia que poderia ter sido engendrado. No Rio Grande do Sul, e portanto em Caxias, houve um elemento complicador: O PMDB gaúcho rejeita a aliança nacional que levou Michel Temer à vice-presidência. O Partido apoiou inicialmente Marina Silva e, no segundo turno, Aécio Neves. Desde o início do segundo mandato, o golpe foi sendo articulado, tendo à frente o vice-presidente que se uniu ao sempre derrotado PSDB, com a adesão do Congresso

presidido por Eduardo Cunha e do Judiciário. Foi um golpe de mestre – votou-se o impeachment da presidenta. Temer assume a presidência apoiado por parte do PMDB e pelo PSDB. O partido derrotado assume o governo do país, dando sustentação ao Golpe de 2016. Enquanto em nível nacional dominava o PT, em Caxias se formou uma aliança de mais de vinte partidos e durante doze anos essa aliança governou a cidade, com predominância do PMBD. Tal união impossibilitou a eleição de candidatos de outras siglas. Estava feita a quarta divisão política da cidade. De um lado, um grupo de partidos e de outro as outras siglas sem condições de vencer. Foi esta divisão que levou à vitória de Daniel Guerra, de um partido com poucos seguidores.

POLÍTICAS SOCIAIS X ESTADO MÍNIMO A grande questão que divide o PT dos partidos conservadores é as políticas sociais. Desde o Consenso de Washington, o capitalismo mundial aponta para uma política em que o social aos poucos deixa de ser função do Estado. O que significa que educação, saúde e moradia devem ser realizadas pelos setores privados. Logo, o Estado Social – proposto nos governos de Lula e Dilma – deveria terminar. Como diz Malthus, os pobres são responsáveis pela própria miséria. Dividir a riqueza com eles só empobrece a nação. Em síntese, é a história do impeachment. Os detalhes são nacionais e a ligação é internacional, simples assim! Este é um resumo da nova divisão política da cidade, que sempre esteve dividida historicamente.

Loraine Slomp Giron é doutora em Ciências Sociais, historiadora e pesquisadora.

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Revista presença inverno 2017 l  

Revista do Sindicato dos Professores de Caxias do Sul - edição Inverno 2017

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