Musicoterapia para todos

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Musicoterapia para todos: Vivências cotidianas

José Henrique Nogueira ORGANIZAÇÃO

Sinfonia na Cidade


José Henrique Nogueira ORGANIZAÇÃO

Sinfonia na Cidade

Musicoterapia para todos: Vivências cotidianas 1ª edição

ERECHIM - RS


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Even3 Publicações, PE, Brasil) N778m

Nogueira, José Henrique. Musicoterapia para todos: vivências cotidianas / José Henrique Nogueira ; organizador: Sinfonia na Cidade. – 1. ed. – Recife: Even3 Publicações, 2021. 1 livro digital. DOI: 10.29327/533260 ISBN: 978-65-5941-195-5 1. Paisagem Sonora. 2. Educação Sonora. 3. Música. I. Sinfonia da Cidade (org). II. Título. CDD 615.8 CDU 615.8

Índice para catálogo sistemático: 3. Música : Educação Sonora : Paisagem Sonora 615.8

Arte na capa: Val Schneider Design e diagramação da obra: Caio Afonso da Silva Brito Kamila Chiaradia Gilioli


Apresentação POR MARCELA ALVARES MACIEL

Vamos tornar os dias mais saudáveis e musicais? “Musicoterapia para todos: vivências cotidianas”

é uma iniciativa do Sinfonia na Cidade®, coletivo científico-artístico dedicado a criação, produção, mobilização e articulação de ideias inventivas em Paisagem Sonora, em parceria com o Espaço Musical 23.

O livro é produto de um curso ofertado aos discentes da Universidade Federal da Fronteira Sul,

Campus Erechim (RS) no período de isolamento social da pandemia de covid-19 no ano de 2020. Para tanto, contou com a participação do José Henrique Nogueira, musicoterapeuta e mestre em educação musical pelo Conservatório Brasileiro de Música (CBM-CEU), idealizador e diretor do Espaço Musical 23, sediado na cidade do Rio de Janeiro.

A proposta do livro é apresentar um convite à escuta ativa para a saúde integral, a partir de vivên-

cias sonoras do cotidiano. Assim, apresenta quatro temáticas ministradas em formato remoto, cujos links das gravações são disponibilizados neste livro, sendo: 1. Musicoterapia e o som ao redor; 2. Musicoterapia e música contemporânea; 3. Musicoterapia para todos e 4. Musicoterapia e memória musical.

Participe, a musicoterapia é para todos!


Sumário

VIVÊNCIA 1 – MUSICOTERAPIA E O SOM AO REDOR

5

VIVÊNCIA 2 – MUSICOTERAPIA E MÚSICA CONTEMPORÂNEA

9

VIVÊNCIA 3 – MUSICOTERAPIA PARA TODOS

14

VIVÊNCIA 4 – MUSICOTERAPIA E MEMÓRIA MUSICAL

18


VIVÊNCIA 1:

MUSICOTERAPIA E O SOM AO REDOR JOSÉ HENRIQUE NOGUEIRA Musicoterapeuta e mestre em educação musical pelo Conservatório Brasileiro de Música (CBM-CEU).

ATIVIDADE PRÉVIA:

que faz com que mesmo aqueles que não tenham

Gravar um objeto que faça som.

estudado sua estrutura, nem tão pouco os bene-

ATENÇÃO:

fícios que ela possa vir a trazer, sintam-se à von-

Não pode ser um instrumento musical! COMPARTILHE O SOM PELO LINK:

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1.1 BREVE HISTÓRICO DA MUSICOTERAPIA

tade para utilizá-la das mais diversas maneiras.

A utilização da música com finalidades

terapêuticas não é uma exclusividade do musicoterapeuta, sabemos muitos profissionais da área da saúde se especializaram na utilização da

Muitos utilizam a música com finalidade

música em suas atividades. Podemos citar o neu-

terapêutica. De certa forma a música traz consi-

rologista Oliver Sacks (1933-2015) que tinha um

go essa peculiaridade de ser próxima de todos, o

olhar diferenciado para a música. Ele escreveu di

5


versos artigos sobre o assunto e dedicou um livro

medicina, ela partia do princípio de que a música

especificamente relatando a relação da música

influenciava os afetos humanos e atuava no trata-

com pessoas de síndromes e dificuldades varia-

mento de estados depressivos.

das. Vários músicos, por sua vez, ingressaram na

Atualmente a musicoterapia está presente

área de saúde e atuam utilizando a música com

em diversos hospitais e clínicas particulares, aten-

bastante desenvoltura. A musicoterapia é uma ati-

dendo uma diversidade muito grande de pessoas.

vidade terapêutica que utiliza e observa como a

Cursos de graduação e pós graduação estão sendo

música atua no indivíduo, podendo ser indicada

abertos cada vez mais no Brasil. Enfim, a música

para diversos de tipos de transtorno: autismo, sín-

acompanha a humanidade, reinventa-se e trans-

drome de down, Alzheimer, entre outros.

forma-se com ela nos diversos tipos de cultura,

O conhecimento e a utilização de que mú-

participam intrinsecamente da vida das pessoas e

sica pode trazer uma melhora espiritual e corpo-

mesmo aqueles que não tem o hábito de cultuar a

ral é bastante antigo. Pesquisadores, antropólogos

arte musical podem estar envolvidos com a músi-

e arqueólogos trouxeram à tona imagens e relatos

ca e o som que as rodeiam. Para a musicoterapia,

da música acompanhando a humanidade desde

o conceito de música precisa ser ampliado. A or-

a pré-história, antiguidade e idade média. Um

questra sonora dos ruídos da cidade, os sons das

exemplo dessa relação com música com a saúde

florestas e mesmo o ambiente sonoro do entorno

poderíamos citar “Celsus (25 a.C.-50), que em

da nossa casa servirão de matéria para interagir

seu “De medicina” sugere a utilização de música

com os pacientes.

e o uso de ruídos para aliviar os pacientes com queixas depressivas decorrentes de sua doença. Particularmente me surpreendi, quando conheci

1.2 A INFLUÊNCIA E IMPORTÂNCIA DO AMBIENTE SONORO

a música de Hildegard von Bingen (1098-1180), uma abadessa mística que também praticava a 6


“Acordamos com a música do rádio dos nos-

voltada em outras direções. O estado de espírito

sos relógios, depois a usamos durante o café

das pessoas, seu modo de agir, de se relacionar,

da manhã, para juntar energia durante a hora do rush, para nos acalmar, durante o trabalho para anestesiar, e para relaxar, no fim do dia. E somos bombardeados com música não

de falar, de interagir com o outro e com o mundo, está diretamente ligado com o ambiente sonoro em que se vive. Por isso, sempre que atendo uma

solicitada. Uma hora vendo televisão é acom-

pessoa, durante a entrevista, pergunto entre ou-

panhada por dúzias de melodias projetadas

tras coisas, como é o som ambiente da casa, do

para atrair adrenalina, lágrimas ou dinheiro. A música é usada para fazer operários de fábricas produzirem mais engenhocas e as galinhas porem mais ovos. Já foi usada para curar,

seu entorno. Não raramente essa resposta só me é dada posteriormente. É necessário que a pessoa retorne para casa e passe então a perceber a sono-

hipnotizar, reduzir a dor e como auxiliar de

ridade do seu lar. Essas informações me ajudam a

memorização. Dançamos ao som da música,

construir o perfil sonoro/musical do paciente, que

compramos com música, limpamos a casa

muito me ajuda no contexto do atendimento.

com música, fazemos ginástica com música e amamos com música. E, vez por outra, nos sentamos e ouvimos atentamente música. Quanto mais somos cercados por música menos dela participamos.” (JOURDAIN, 1988)¹

O “som que nos rodeia” está presente em

nossas vidas desde que nós nascemos, e até mesmo ainda na barriga de nossas mães. Em meu livro O Bebê e a Música, eu chamo atenção para o detalhe de que se em uma creche se venha a tocar

A invisibilidade do som, consequente-

campainha 20 vezes por dia. observaremos que

mente da música, favorece a nossa distração, di-

por mês esta mesma campainha, que geralmente

gamos assim, da influência da música em nossas

não tem um som muito agradável, tocou 400 ve-

vidas. Mesmo não percebendo, ela nos rodeia e

zes. Por aí podemos observar, a falta de atenção

nos influencia mesmo que nossa atenção esteja

em relação a influência do som no local de traba-

¹JOURDAIN, R. Música,

7

cérebro e êxtase: como a música captura nossa

imaginação. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998.


lho e de acolhimento das crianças. Neste contexto

to está tão repleto de outros “sons” que a música

poderíamos pensar em outras fontes sonoras se

que se quer tocar não consegue entrar. A música

manifestando diariamente: Campainha, rádio, te-

precisa de um espaço silencioso para preencher.

levisão, liquidificador, choro, falas, gritos, risadas,

Nos atendimentos que realizo, trabalho com algu-

telefone, descarga, água caindo, portas batendo,

mas pessoas, crianças e adultos, que não falam, ou

ventiladores, ar refrigerado... Pense agora em to-

que se expressam através de sons que só com o

das emitindo som ao mesmo tempo sem nenhum

tempo podemos codificar. Me guio nos detalhes

cuidado, sem nenhuma atenção. As pessoas ten-

das feições, dos gestos, de linguagens que criamos.

dem a se acomodar com a poluição, seja ela ar-

Numa das minhas anotações há alguns anos atrás,

quitetônica, sonora, olfativa, enfim, simplesmente

escrevi assim sobre minha ansiedade por respos-

vamos nos acostumando, nos adaptando.

tas sonoras, depois de um atendimento com uma senhora com Alzheimer:

1.3 O SOM DO SILÊNCIO MÚSICA

Muitas das informações que recolhemos

num encontro terapêutico musical estão inseridas no silêncio. Porém, sentimos necessidade de ocupar o silêncio prematuramente, e só o tempo para

“O silêncio é na verdade quem rege nossa relação. A sintonia entre o indizível e o impensável. A fina camada que sustenta nossa parceria. Os olhos expressam nossa melodia. Não sei por que o silêncio entre nossas palavras não ditas parece tão revelador. No contínuo fervor do trabalho, não percebo

nos trazer a calma necessária para esperar a hora

o quanto recebo. Muitas das vezes não paro para

certa para que o som preencha o espaço silencio-

refletir: sigo com a música da mesma forma como

so. Para os alunos iniciantes em música, costumo sugerir que quando forem tocar seu instrumento, para exercitar suas atividades musicais ou cantar

se estivesse respirando, apenas respirando. Acompanho o adormecer lento de sua fala, dos gestos, dos cantos e dos movimentos. Quando paro, reflito sobre meus excessos, sobre minha ansiedade. Do

alguma canção, observem se o seu espírito está

olhar, retiro a alegria e a certeza de seguir em si-

preparado para isso, muita das vezes o pensamen-

lêncio. Silêncio que também é música.”

8


VIVÊNCIA 2:

MUSICOTERAPIA E A MÚSICA CONTEMPORÂNEA JOSÉ HENRIQUE NOGUEIRA Musicoterapeuta e mestre em educação musical pelo Conservatório Brasileiro de Música (CBM-CEU).

ATIVIDADE PRÉVIA:

Gravar os sons da sua casa.

decorrer do tempo, adquirindo formas diferentes, seguindo seu rumo, sua evolução, que não é qualitativa, pois cada estrutura musical tinha sua

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2.1 INTRODUÇÃO

beleza correspondente com a estética e possibilidades de cada época. As estruturas desenvolveram-se com a evolução dos instrumentos musicais, que instigavam os compositores, que por sua vez criavam novas estruturas sonoras e assim

O que é música? Essa pergunta para ser

sucessivamente desde a pré-história musical até

bem respondida, se faz necessário um recorte

as possibilidades musicais futuristas que ainda

histórico, pois a música foi se estruturando no

estão por vir.

9


E como a música contemporânea pode

que por motivos diversos, seja por dificuldade fí-

contribuir com a musicoterapia? Quando a mú-

sica ou psíquica, possam por meio dos sons pos-

sica contemporânea trouxe novas possibilidades

síveis de serem produzidos, organizarem estru-

sonoras, um novo conceito para o que vem a ser

turas que possam vir a ser chamadas de música.

música (mais amplo), uma nova escuta e novas

Essas atividades trazem para muitos uma sensa-

possibilidades gráficas para a música, ampliou

ção positiva, de bem estar, fazem com que consi-

de certa forma as possibilidades musicais para as

gamos juntos organizar as possibilidades sonoras

atividades de musicoterapia. A música contem-

que antes pareciam caóticas e sem organização.

porânea não é algo simples. Pelo contrário, as

Essa, para mim, dentro do meu contexto musical

estruturas sonoras compostas para serem inter-

terapêutico é a mais importante contribuição que

pretadas pelos músicos são extremamente com-

a música contemporânea trouxe para a musicote-

plexas e necessitam de horas de estudo e de prá-

rapia; a ampliação da estética musical.

tica. Porém, podemos oferecer aos pacientes de

musicoterapia, alegrias musicais com as constru-

cional continua viva e sendo utilizada na prática

ções sonoras, composições terapêuticas ou peda-

da musicoterapia, suas estruturas continuam tra-

gógicas com a sonoridade que música contempo-

zendo muito prazer para aqueles que conseguem

rânea trouxe para o cenário musical. Sigo sempre

ingressar neste universo. É terapêutico poder vir

um princípio básico para fazer música com meus

a tocar uma bela melodia num instrumento, um

pacientes, que não se modificou com o decorrer

pandeiro, uma bateria. Inclusive a música tradi-

dos tempos: música é uma estrutura sonora or-

cional pode vir a ser mesclada com a contempo-

ganizada, com início e fim bem determinados e

rânea e vice versa.

com intenção musical.

A musicoterapia, e consequentemente o musico-

A estética musical terapêutica ganha ou-

terapeuta, devem estar preparados e abertos para

tra dimensão com o advento da música contem-

receber, utilizar e organizar todas as possibilida-

porânea, fica mais generosa, favorecendo aqueles

des sonoras: ruídos, grunhidos, estalidos, sussur

Importante ressaltar que a música tradi-

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ros, balbucios, gritos, silêncio, enfim; é possível

fazer música com os mais diversos tipos de sons

me ruídos sem perceber, sem escutar, os male-

na prática musicoterapêutica.

fícios que estes causam ao bem estar. “É muito

2.2 PAISAGEM SONORA E MUSICOTERAPIA “Assim como as imagens e as cores vivas dos outdoors impedem que vejamos a paisagem, roubam-na, invadem-na, apoderam-se, recal-

mais provável que o esgoto sonoro seja resultado de uma sociedade que trocou os ouvidos pelos olhos, e ainda vem acompanhado pela devoção pelas máquinas”. (Schafer, 2001)

cam-na, assassinam-na ... do mesmo modo

um ruído parasita impede que se fale e se

pelo crescente volume de ruídos indesejáveis e

ouça a pessoa ao lado; ou seja, impede com

maléficos a saúde. Até as noites, que deveriam ser

isso a comunicação. Coloquem no meio do hall de um edifício uma televisão funcionando o tempo todo: ninguém mais consegue o

Nossa cultura ocidental produz e conso-

A população urbana está sendo afetada

sagradamente silenciosas, estão perdendo esta qualidade devido a invasão “humano/ruidosa”.

menor diálogo, cada um olha, ouve a tela com

Ou seja, a falta de atenção e desconhecimento

suas transmissões que se apropriam de todas

em relação a qualidade dos ambientes sonoros,

as relações”. (SERRES, 2011)²

trazem um problema que me parece ser de saúde

A cidade está imersa em ondas sonoras

pública.

invisíveis, por isso perigosas, com decibéis altís-

A preocupação com a qualidade sonora

simos criando um ambiente favorável aos mais

do ambiente que está ao meu redor faz parte da

diversos tipos de distúrbios psíquicos. Muitas

minha atenção em relação aos benefícios que a

pesquisas são feitas sobre a influência do ambien-

música pode trazer ao ser humano, no caso re-

te sonoro nas reações psicossociais, e revelam da-

fletindo sobre paisagem sonora, benefícios aos

dos consideráveis de pessoas (crianças, jovens e

seres vivos, pois a perda e o silêncio da “orquestra

adultos), com irritabilidade, baixa capacidade de

da natureza” em contrapartida com o incremento

concentração, insônia, dor de cabeça.

dos ruídos “maquínicos”, produz um desequilí-

²SERRES, M. O mal limpo. Poluir para se apropriar? Trad. Jorge Bastos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.

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brio emocional para todos os animais e vegetais.

mais normal, pois não é hábito esta pergunta

O projetista acústico deveria ter um lugar

fazer parte de uma entrevista terapêutica, nem

de destaque em todos os investimentos em pro-

tampouco terem prestado atenção neste detalhe

jetos urbanísticos, implantação de fábricas, agro-

a ponto de descreverem os sons que os rodeiam.

negócios, etc, para tentar harmonizar a cacofonia que vem se alastrando, poluindo, criando uma paisagem sonora cada vez mais improvável de se viver.

A musicoterapia traz, no meu ponto de

vista, duas vertentes de atuação mais claras. A primeira é a conscientização do problema, ou seja, conhecer e perceber que o ambiente sonoro que vive está lhe trazendo e/ou ampliando seus distúrbios emocionais. E num segundo momento contribuir com suas técnicas sonoras/terapêuticas para que o paciente possa se harmonizar.

A terapia musical trabalha não só com

música organizada, melodias, ritmos regulares etc. É também objetivo da musicoterapia trabalhar com ruídos, com todo tipo de som que é emitido e que possa vir a fazer parte do contexto terapêutico. Costumo em minha clínica perguntar sobre o ambiente sonoro dos alunos e pacientes, não raramente não sabem dizer como é a paisagem sonora da sua casa, do entorno. Nada

2.3 RELATO DE CASO Já pude observar que o estresse e a ansiedade podem estar relacionados com o ambiente sonoro. Certa vez um paciente entrou em contato solicitando sessões da mesa lira e os tubos sonoros, instrumentos musicoterapêuticos que atuam muito bem na terapia de transtornos psíquicos tais como irritabilidade, insônia, e outros distúrbios da nossa vida atual. Com o passar das sessões, sob minha orientação, ele começou a perceber que sua casa era completamente ruidosa, não por causa da paisagem sonora externa e sim pelo ruído de dentro da sua própria casa, sua família era grande e todos falavam muito e com muita intensidade. Tal descoberta só foi possível quando ele passou a conhecer se relacionar com o seu silêncio. Enfim, foi um trabalho que ganhou desdobramentos para além do meu estúdio de musicoterapia, pois com o tempo e com meu apoio, ele conseguiu melhorar a postura ruidosa de seus 12


familiares a partir da sua própria mudança.

É fundamental que as pessoas percebam,

ouçam, se relacionem de forma reflexiva com a poluição sonora, ela precisa ser entendida para que possa ser valorizada, preservada ou modificada se for o caso. Quando localizamos as fontes sonoras ao nosso redor, as tornando-as concretas, parte de nossas vidas, como as cores, perfumes e objetos, deixamos de estar ingênuos diante da paisagem sonora que nos cerca e passamos a ficar atentos a um perigo invisível ao nosso redor. Como sempre, a humanidade continua e agora mais do que nunca precisando entender seus enigmas, como no mito da Esfinge da Grécia antiga que dizia aos que passavam: decifra-me ou te devoro.

2.4 SUGESTÕES PARA LEITURA COMPLEMENTAR

https://jhnogueira.blogspot.com/2016/02/o-ruido-em-belle-de-jour-trilha-sonora.html http://biologo.com.br/bio/a-paisagem-sonora

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VIVÊNCIA 3:

MUSICOTERAPIA AMBIENTAL JOSÉ HENRIQUE NOGUEIRA Musicoterapeuta e mestre em educação musical pelo Conservatório Brasileiro de Música (CBM-CEU).

ATIVIDADE PRÉVIA:

Transformar suas lembranças da paisagem sonora da sua casa numa “crônica”. COMPARTILHE SEU RELATO PELO LINK:

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3.1 INTRODUÇÃO

“musicoterapia ambiental”, ou seja, um novo conceito que inclui os efeitos do som ambiente sobre o indivíduo. Vem despertar e atentar para a atenção e acuidade auditiva que devemos ter com som que nos rodeia e como este interfere em nossa vida.

Esta atenção, ou seja, o exercício desta

consciência auditiva também faz parte de um trabalho de um terapeuta musical. Não somen-

A musicoterapia não se resume nos tra-

te para verificar e alertar que as dificuldades do

tamentos e no apoio as síndromes, dificuldades

paciente podem estar relacionadas com excesso

motoras e psíquicas. Atualmente vem surgindo a

de ruídos que o rodeia, mas também para que ele

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possa ter lucidez em relação a estes sons. Pois só

silêncio da madrugada, o som dos poucos car-

se afastando de seu estado de ingenuidade au-

ros que passam, de alguns jovens chegando em

ditiva é que será possível perceber a paisagem

risadas, cantos e gritos, e a companhia perpétua

sonora que está ao seu redor e fazê-la parte in-

do ruído da geladeira; tudo isso somado àquele

tegrante de sua vida. É isso que tento mostrar

zumbido agudo constante cerebral proveniente

neste texto que apresento a seguir. Eu trans-

das sinapses que se fazem necessárias para esta

formei a paisagem sonora que percebi e regis-

minha tentativa de eleger sons que me marcam,

trei e as lembranças sonoras em uma “crônica”.

que me fazem lembrar de algo esquecido, de algo

Convido

que não sei explicar.

ao

leitor

a

fazer

o

mesmo.

Bons sons!

3.2 QUAL SOM VOCÊ MAIS GOSTA?

O som dos sinos

Os sinos badalam para todos, indiferen-

Não sei de qual som eu mais gosto. Como

tes aos credos de cada um. Alcançam distâncias,

perfumes, alguns sons trazem sensações confor-

levando em sua onda conteúdos informativos e

táveis e incômodas de vida, de passado e de lem-

comunicativos, espirituais e estéticos.

branças. Memórias de algo que ficou esquecido

Informativos, pois sempre há aqueles que se

lá, bem lá atrás, em algum ruído perdido no tem-

guiam em suas tarefas pelos sinos das igrejas,

po.

hora do almoço, de trabalhar ou de encerrar al-

Dentro dessas múltiplas e intensas pos-

guma tarefa.

sibilidades sonoras, tentarei escolher apenas al-

guns, aqui, nesta noite agradável do bairro das

o sinal da cruz, olham para o céu, rezam uma bre-

Laranjeiras, onde vivo e produzo música, sons,

ve oração movidos pela emoção sonora dos sinos.

silêncios e ruídos há mais de vinte anos.

E certamente há ainda os que se deleitam escu-

Enquanto me preparo para essa tarefa,

tando as badaladas, como se estivessem numa

soa agora em meus ouvidos, neste improvável

sala de concerto. Escutam como música, contam

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Espirituais pelo fato de que muitos fazem


suas batidas, observam os timbres, as alturas, a

pontual. Com hora certa para iniciar e acabar.

reverberação e acompanham a duração das bada-

E, da mesma maneira que o som dos sinos, sus-

ladas até o último suspiro, o fio sonoro metálico

cita também as mais diversas sensações. Medo,

que vai saindo de cena até o duvidoso silêncio.

respeito, tranquilidade, paz, tensão são alguns

Engraçadas essas lembranças sonoras,

sentimentos que brotam. O imaginário sono-

não fica claro para mim se elas se fixaram numa

ro humano transporta o ouvinte para instâncias

escuta recente ou se já foram instaladas num me-

desconhecidas da audição. Os sentimentos são

morial sonoro humano que vem transpassando

geralmente explicados sem muita fundamenta-

por muitas gerações. Como é o caso dos sons cur-

ção lógica.

tos, ligeiros, intermitentes, friccionados (por isso

– Os sons da noite me dão medo, não sei por quê.

fantásticos) dos grilos, insetos, sapos e pererecas.

Da mesma forma, mas por um outro ângulo, há

também.

Poderia ainda somar a estes alguns outros

sons médios, mais longos, também intervalados,

– Não consigo explicar, mas adoro ficar ouvindo

de alguns pássaros de hábitos noturnos que ha-

este som.

bitam as florestas, ou, para nós, urbanos, que vi-

vemos na cidade, os pequenos oásis verdes que

ções há muito tempo, muito antes da elaboração,

ainda resistem perto de nossas janelas. Som das

da construção, da invenção da maravilhosa músi-

folhas ao vento forte e na brisa leve. As gotas de

ca.

chuva caindo ao acaso do tempo nas copas das

árvores. Os gatos pisando sorrateiramente as fo-

além desses dois sons, também elegi pra mim es-

lhas secas. Os gambás que de noite caçam e cor-

tes outros:

Os sons relacionam-se com nossas emo-

Não posso terminar sem antes relatar que

rem feito loucos atrás não sei do quê. Os saguis que resolvem apitar, e apitam alto de doer.

som de bebê sorrindo

som de chuva no telhado

Enfim, sons noturnos, uma orquestra

maravilhosa, rica em detalhes e, o mais incrível,

som do mar 16


Todos esses sons que escolhi foram lem-

branças, e também não saberia explicar a razão de tê-los como prediletos. Sons que já estão em mim possivelmente há muito tempo. A ideia de uma onda contínua sonora em timbres diversos, originária de fontes variadas acompanhando nossa história desde o nascimento, rica em detalhes, conteúdos, histórias, me agrada muito.

Escuto aqui e agora, pela minha janela, as

cigarras loucas cantando, anunciando para nós uma nova manhã, um novo dia, provavelmente quente. Os sabiás lideram, como de costume, entre cambaxirras, bem-te-vis e outros, a algazarra sonora matinal dos pássaros. As maritacas ainda não vieram, os tucanos, pela hora, já deixaram a entender que não virão.

Uma bicicleta passa veloz. Os carros e

ônibus ruidosos já, já começam seus ruídos. Portas metálicas sobem. Sabiás, caga-sebos, bem-te-vis insistem. Um primeiro avião sola e, assim, uma outra orquestra se anuncia.

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VIVÊNCIA 4:

MUSICOTERAPIA E MEMÓRIA MUSICAL JOSÉ HENRIQUE NOGUEIRA Musicoterapeuta e mestre em educação musical pelo Conservatório Brasileiro de Música (CBM-CEU).

ATIVIDADE PRÉVIA:

Vamos barulhar? Registre suas memórias dos primeiros sons da sua infância no mural colaborativo. COMPARTILHE SEU RELATO PELO LINK:

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4.1 VOCÊ SABE ASSOBIAR?

Eu vivi uma época em que muitos as-

Era comum, para mim, ouvir o silvo do

assovio do meu pai, preenchendo com lindas melodias, o silêncio bucólico das tardes dos finais de semana. Ele assobiava em momentos de breves trabalhos domésticos: trocando uma lâmpada, serrando uma madeira, apertando um parafuso, enfim parece que o assovio criava um ambiente sonoro propício ao trabalho e ajudava passar o tempo.

Também era comum escutar o seu asso-

soviavam e cultivava-se o hábito de pesquisar

vio quando chegava a noite em casa do trabalho.

diferentes possibilidades sonoras do assobio.

Era uma breve e ritmada melodia (ostinato) espe18


cífico com 2 ou 3 notas no máximo, como se fosse

chamar o porteiro ou zelador quando a por-

uma marca sonora que anunciava a sua chegada.

taria estava fechada e era comum todos olha-

Os meus tios, irmãos no meu pai, tam-

rem de suas janelas para verem quem tocava.

bém cultivavam esse hábito. Assoviava-se na ja-

A brincadeira sonora de tocar a campainha e

nela olhando os transeuntes passando pela rua,

sair correndo, devo confessar era uma saudável

na mesa naquele momento de “tristeza” pós refei-

estripulia que nos proporciona muita alegria.

ções, geralmente belas e breves melodias que tive

a sorte de conviver, ouvir, agora lembrar e escre-

do, de aproximação e de comunicação. Cha-

ver, que é como se estivesse ouvindo novamente.

mávamos também as meninas, assim como

Quando menino eu e meus amigos asso-

nossas namoradas que apareciam na janela

viávamos com prazer, aparentemente por pura

com vigor, com o sorriso estampado e ante-

brincadeira. Mas hoje penso que poderíamos es-

cipado pois já sabiam quem iriam encontrar.

tar demarcando nosso território sem saber. Na rua

onde morei assoviávamos para chamar os amigos

do grupo, cada um também tinha seu tipo de

em suas casas, pelas ruas e calçadas. Tínhamos

assobio. Era comum ficarmos procurando por

os assobios comuns ao nosso grupo, aconte-

timbres diferentes a partir de técnicas diversas;

cia sem nenhum tipo de planejamento, quando

com os dedos das mãos, comprimindo os lábios

víamos, ou melhor ouvíamos, o assobio, nos-

e a língua, com a mão em forma de concha. En-

sa marca, patente sonora já havia sido definida.

fim, sem nos darmos conta, além da alegria do

É importante lembrar que estou falan-

momento, marcava-se o nosso território, pois

do de uma região onde os prédios eram baixos,

certamente o som era ouvido ao longe. Mui-

quatro andares quase sempre e alguns como

tas das vezes, algumas delas no silêncio da noi-

eu, moravam em casas que não havia inter-

te, assobiávamos de casa, na janela, no portão e

fone para anunciar a chegada. Casas usavam

outros assobios em respostas eram ouvidos. Al-

campainhas, prédios tinham campainhas para

guns deles podíamos reconhecer como sendo

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O assobio tinha uma função de chama-

Embora tivéssemos o assovio comum


de nossos amigos, outros não, pois havia aque-

les assobios que vinham com o som bem fra-

filhas a assoviar ainda pequenas. Assoviam até

quinho pois estavam bem distantes, de outras

hoje. Conseguem elaborar pequenas melodias

ruas, outros meninos, outros territórios sonoros.

e particularmente me sinto muito feliz e or-

gulhoso por terem adquirido esta habilidade.

Meus assobios são esses: o tradicional

Fiz questão de ensinar as minhas duas

fazendo bico; com este consigo fazer melodias.

Sei também utilizando quatro dedos, indicador

sendo um hábito cultivado. Alguns povos ain-

e médio de cada mão. Eu consigo também as-

da se comunicam através dele, algumas pessoas

soviar utilizando dois dedos um de cada mão:

principalmente os que vivem fora dos centros

só dois indicadores, dois médio, até os min-

urbanos, conseguem imitar os pássaros com

dinhos. Com os dois polegares não consigo.

muita perfeição. Mas não resta dúvida que esta

Com muito orgulho assobio com a mão

habilidade sonora vem perdendo seu prestígio.

em forma de concha. Com essa técnica con-

Com isso, o som do assobio, deixa de fazer par-

sigo variar as alturas os sons, graves e agudos.

te do território sonoro que ocupava. Da mesma

Conseguia, na época, com a mão em forma de

maneira que o som do amolador de facas, as vo-

concha com os dedos cruzados, um som úni-

zes dos ambulantes com os seus “pregões”, assim

co, com pouca alteração na altura do som.

como tantos outros que vem sendo silenciados.

Cheguei a ver alguns assoviando com um

Certamente o assobio ainda continua

O primitivismo sonoro presente no as-

dedo só, outros assoviando comprimindo os lá-

sobio nos conecta aos nossos ancestrais, pos-

bios, alguns com a língua pra fora enrolada. Certa-

sivelmente os pássaros nos inspiraram, ou sim-

mente existem muitas outras técnicas de assobios.

plesmente o acaso de um sopro proporcionou

Ao longo desses anos trabalhando em ins-

uma sonoridade que instigou a curiosidade

tituições de ensino pouco ouvi as crianças brincan-

humana e fez surgir esta maravilhosa e pou-

do de assoviar, fora alguns momentos das minhas

co explorada habilidade sonora; o assobio.

aulas de música que estimulava esta prática sonora.

Você sabe assobiar? 20



Arte na capa Val Schneider (artista) Título 27°28'45.0"S 51°56'55.8"W 2016 Recipiente de vidro, água, acrílica, resíduos de terra e 24 pinturas em óleo sobre fórmica 26 x 26 x 7 cm

Sobre o trabalho O título 27°28’45.0”S 51°56’55.8”W refere-se ao lugar nas margens do Rio Uruguai, no norte do Rio Grande do Sul, onde vivi na infância (as coordenadas podem ser visitadas no Google Earth). Neste trabalho busco um “lugar-imagem da memória” das cheias, das pedras, das brincadeiras, dos verões e das enchentes daquela época em que o Rio corria seu curso natural. Atualmente o local está submerso por conta da Barragem de Itá-SC. As pinturas são mergulhadas no recipiente com água e resíduos de terra do Rio. São retratos dos participantes e referências pessoais pintadas a óleo sobre fórmica.O trabalho foi realizado durante o projeto coletivo “O lugar do Outro Lugar” e a exposição realizada em 2016 no Espaço Cultural Elefante em Brasília.

FOTOGRAFIA DE DETALHE

Fotografia Osnei de Lima


Vamos tornar os dias mais saudáveis e musicais? O livro é um convite à escuta ativa para saúde integral, a partir de vivências sonoras do cotidiano. Participe das vivências, a musicoterapia é para todos!