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A INFLUENCIA DA POSIÇÃO DA LENTE DOS ÓCULOS EM RELAÇÃO AOS OLHOS * Alex Dias A preocupação com a estética tem levado à criação de novos modelos de armações que buscam produzir os mais diferentes resultados para atender o desejo do cliente e as demandas da moda. Por meio das armações é possível transmitir a aparência do intelectual ao romântico, passando pelo ousado até o esportivo. O que dificulta é que com as lentes oftálmicas possuem certas características que limitam o desenvolvimento de novas armações e obrigam um estudo mais complexo da óptica envolvida na construção da lente. Infelizmente, alguns profissionais se mostram resistentes à necessidade de ampliar o conhecimento técnico, em função das novas tecnologias que surgem a cada dia. As armações curvadas, normalmente utilizadas em óculos esportivos, não fogem à regra e são o principal foco desta análise, porém isto ocorre em qualquer armação. Muitas vezes pecamos por não observar cuidadosamente as recomendações relativas à nova proposta, fazendo uma tomada de medida precária, pois não estamos acostumados com os novos parâmetros envolvidos. Preocupamo-nos com o centro óptico da lente e esquecemos o

“CENTRO ÓPTICO”

PONTO FOCAL

eixo óptico, que é a reta imaginária na qual se encontra o ponto focal e que é perpendicular à mesma, sendo o nosso conhecido “centro

Figura 1 – Eixo óptico

óptico” - ponto que em uma lente real é chamado de vértice anterior da lente. Outro aspecto importante são os cálculos mais simples que consideram lentes muito finas, mas nem sempre a espessura pode ser desprezada.


Numa condição normal para adaptação de óculos o eixo óptico da lente deve estar alinhado com o eixo visual do olho, que é a reta imaginária que liga a mácula (região mais nobre da retina) com o ápice corneano, como ilustrado na figura 2. Quando utilizamos o pupilômetro é justamente o ponto que passa pelo eixo visual que encontramos. No

caso

de

armações

ÁPICE CORNEANO

MÁCULA

muito

curvadas, não é possível obter o alinhamento. armação

Dependendo

podemos

da

encontrar

Figura 2 – Eixo visual

ângulos de até 20º entre o eixo da lente e o eixo do olho, que está relacionado com o que chamamos de ângulo de curvatura da armação. Outro ângulo mais

Figura 3 – Comparação entre alinhamentos

conhecido, o pantoscópico, tem função de atender à necessidade fisiológica de alinhamentos dos eixos. A inclinação da lente produzida pelo ângulo de curvatura induz um astigmatismo com eixo a 90º de mesmo sinal que o esférico da receita, além de aumentar a potência da dioptria esférica, também induz a um prisma de base temporal que depende essencialmente da espessura da lente e de sua base. Um ângulo pantoscópico mal definido induz efeitos semelhantes, porém com um astigmatismo com eixo a 180º e prisma base inferior ou superior. Considerando uma armação curvada, que apresentará simultaneamente o ângulo pantoscópico e o ângulo de curvatura, em que for aplicada uma prescrição que apresente dioptria cilíndrica e, portanto, astigmatismo, todos estes fatores devem ser considerados na fabricação da lente. Se a lente for fabricada conforme a prescrição, sem considerar os ângulos envolvidos, ela aparentemente estará correta ao ser medida no Lensômetro comum que não


possui qualquer dispositivo para compensar a inclinação da lente. No Lensômetro comum o eixo óptico da lente está alinhado com o do próprio Lensômetro. Torna-se, então, necessário produzir uma lente com uma prescrição completamente diferente da existente na receita, quando medida no Lensômetro, mas que neutralizará os astigmatismos e prismas induzidos, gerando na posição de visão do usuário a prescrição que ele necessita.

Figura 4 – Angulo de curvatura na armação.

Exemplificando: Um paciente com uma prescrição de -5,00 DE, com uma armação com ângulo de curvatura de 15º de inclinação para cada olho, e uma lente em CR39, teria efetivamente diante de seu eixo visual uma dioptria de -5,11 DE <> -0,37 DC x 90°(1), além de um prisma de base temporal de 0,32 dioptrias prismáticas

(2)

.

Para garantir que o paciente tivesse diante de seu eixo visual o valor correspondente a prescrição de -5,00, a lente a ser confeccionada deveria ter a potência de -4,56 DE<>-0,33 DC x 180º, além de se incluir um prisma de base nasal de 0,32 dioptrias prismáticas, que seria obtido através de uma descentração do centro óptico da lente. Como ainda existe no Brasil uma questão quanto ao termo “ângulo de curvatura”, a figura 4 apresenta qual o ângulo considerado. Como profissionais, fazemos tudo para que os usuários acreditem no conforto e na satisfação da solução proposta por nós, mas, muitas vezes, em nosso íntimo, não acreditamos em algumas propostas que fogem de nossa forma usual de trabalho. Não é somente o nosso cliente que precisa acreditar, nós também precisamos. Se você tem dúvida e o fornecedor garante o produto oferecido, faça um teste em você e em seus funcionários. Avie para você


mesmo os novos óculos, mobilize o fabricante e veja as garantias que ele pode oferecer em caso de não adaptação. Pense nisso. Não são raros os casos de produtos que não conseguem se consolidar por falta de cuidado em sua aplicação, que é feita de maneira amadora. São casos que perdem oportunidade de ganhar novos clientes para novas opções. Até a próxima. * Técnico em Óptica e Engenheiro Mecânico; professor licenciado em Física; docente da área de surfaçagem de lentes oftálmicas do Senac Tiradentes. Referências: (1)

Keating, Michael P. Oblique Central Refraction in Spherocylindrical

Corrections with Both Faceform and Pantoscopic Tilt. Optometry and Vision Science, 1995, vol 72, n. 4, pg. 258-265 (2)

Blendowske, Ralf. Oblique Central Refraction in Tilted Spherocylindrical

Lenses. Optometry and Vision Science, 2002, vol 79, n.1, pg.68-73


Posição da lente dos oculos