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CARTA DO EDITOR Aqui da Redação! Somos capazes de tudo, não há nada que não se consiga com a força de vontade, a bondade e, principalmente, com o amor. Mas, pelo amor de Deus pra que essa embromation toda, cheia de frases feitas? Ah! É pelo seguinte: Essa é a nossa primeira edição da Arte em Pauta, estamos muito felizes de poder compartilhar com vocês matérias culturais e muito informativas. Queremos colaborar e discutir com a sociedade, questões culturais de todo o Brasil, afinal, a cultura brasileira não pode ser considerada alternativa dentro de sua casa, e sim a outra imposta pela mídia, já que, falar, cantar, trabalhar a sua cultura é algo natural, espontâneo, para ser consumido naturalmente. Somos plurais e dinâmicos. Nosso conhecimento abrange linguagens, artefatos, estilos, ideias e valores construído no passado, é o processo em fluxo de produzir e inovar, e é também projeto de conservar e transmitir o adquirido e ao mesmo tempo renová-lo e ampliá-lo. A capacidade de fazer isso depende de meios, recursos e técnicas. A Arte em Pauta vem mostrar para você um Brasil colorido, com todo patrimônio que na maioria das vezes é esquecido pela sociedade. Entre com a gente nessa maravilhosa viajem pelo universo cultural brasileiro e desfrute de cada matéria preparada para você com muito carinho. Camila Farias

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Sumรกrio

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Imagens: Divulgação

Não são todos os meses que existe sexta-feira 13, então, para os amantes do terror, novidades e curiosidades prometem aterrorizar os espectadores .

Quem não gosta de levar um bom susto no escurinho do cinema? Para isso, existem os filmes de terror – afinal, como já escrevia, no início do século XX, o autor de histórias de horror, H.P. Lovecraft, “a emoção mais antiga e mais intensa da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais intenso dos medos é o medo do desconhecido”. E medo é o que não falta no cinema de horror contemporâneo, que nunca foi tão explícito em retratar nas telas os danos provocados em suas vítimas por vampiros, lobisomens, zumbis e aparições do além. É sangue, muito sangue a jorrar de carótidas, vísceras explodindo de cavidades abdominais, ossos fraturados e expostos sem véus aos olhos do público, cabeças decapitadas à procura dos corpos que as perderam e por aí vai. Nos dias de hoje, o cinema atual é capaz de mostrar tudo isso e muito mais, graças à tecnologia à disposição nos departamentos de efeitos especiais dos grandes ( e não tão grandes assim) estúdios. Por obra da computação gráfica (CGI), nada é impossível na hora de tornar reais os nossos pesadelos mais medonhos. E claro que isso está em relação direta com a imaginação, cada vez mais fértil, dos roteiristas do cinema fantástico, para os quais nem o céu é limite. Para o jornalista Paulo Capuzzo, um apaixonado por filmes de horror, toda a parafernália tecnológica colocada à disposição pelo cinema moderno tem um lado bom e um lado ruim. “O lado bom é que hoje, graças ao computador, o cinema de terror pode mostrar de tudo. O que era inimaginável, até pouco tempo atrás, tornou-se realidade hoje. Por outro lado, toda essa tecnologia deixa pouco espaço para a imaginação, que é um ingrediente forte nos filmes de terror”. 5


A história do gênero pode servir de amparo ao argumento do jornalista. Portanto, vamos voltar um pouco no tempo. Nos anos 30, os monstros mais apavorantes – Drácula, Frankenstein, a Múmia, o Lobisomem – saíram dos estúdios da Universal, a qual, por sua vez, foi buscar no expressionismo alemão dos anos 20 – e em clássicos como “O Gabinete do Dr. Caligari” (The Cabinet of Dr. Caligari, Robert Wiene, 1919) e “Nosferatu” (Nosferatu, F.W. Murnau, 1922) - recursos típicos do cinema, como a angulação distorcida da câmera, o jogo entre luz e sombra, os cenários sombrios, que tão importantes foram – e ainda são – para criar a atmosfera e a ambientação gótica adequada para qualquer filme de horror que se preze. Eram filmes que, inspirados em clássicos da literatura, se apoiavam, acima de tudo, em tramas bem arquitetadas e em enredos consistentes para Imagens: Divulgação criar o medo. Mas para isso contribuía o pessoal responsável pelo Make Up, (O ator Boris Karloff, que, mais de uma vez, interpretou nas telas o monstro de Frankenstein, se submetia a sessões de quatro horas de maquiagem para poder ficar a caráter e encarnar o personagem, pois os maquiadores eram tão importantes para o cinema da época como são hoje os efeitos especiais). Também contribuía, e muito, para o sucesso desses filmes o magnetismo pessoal de atores que acabaram se especializando no gênero – caso, por exemplo, do húngaro Bela Lugosi, com seu sotaque do leste europeu, imortal no papel do conde Drácula. Ou Lon Chaney, chamado de O Homem das Mil Faces por sua capacidade de se transformar nas mais estranhas criaturas, usando a maquilagem e a habilidade que possuía de contorcer seu corpo em filmes como “O Fantasma da Ópera” (The Phantom of the Opera), Rupert Julian, 1925), “Londres depois da meia-noite” (London after Midnight, Tod Browning, 1927) ou “O Corcunda de Notre Dame” (The Hunchback of Notre Dame, Wallace Worsley, 1923). O público impressionável da época (afinal, estamos nos remetendo a um tempo - os anos 1930 - em que a arte cinematográfica praticamente acabara de passar da fase muda para a sonora) adorava e fazia fila nos cinemas para levar um bom susto. Nada como o próprio tempo, porém, para adequar cada época a seu público – hoje, esses monstros perderam o poder de assustar e viraram até temas de historietas infanto-juvenis e bonecos para crianças. Seja como for, quando se fala no gênero terror, não há meio termo: ou se ama ou se odeia. O cineasta Marcello Morgan é um dos que amam. “Minha paixão por filmes de terror começou na 6


infância, quando passei a vê-los com meu pai”, conta. “ Ele alugava diversos filmes do gênero e chamava a mim e a meu irmão para assistir em sua companhia. Era muito divertido, e desde então teve início a minha paixão por esse tipo de filme”. Morgan sabe que essa preferência pode soar estranha para alguns, mas garante que seus amigos, mesmo não conseguindo ver os filmes que ele consegue assistir, por curtirem mais os gêneros de ação e comédia, respeitam sua opção. Terror é também o gênero predileto de Capuzzo, um gosto cultivado, a exemplo de Morgan, ainda na infância. “Era uma coisa meio masoquista, porque, ao mesmo tempo em que eu gostava de ver filmes de horror na TV, eu tinha muito medo e dificuldades para dormir depois. Me assustava de verdade, mas isso nunca me impediu de continuar a gostar”, conta ele. “Tendo a concordar com o escritor de histórias de horror, Stephen King, quando ele argumenta que os filmes do gênero nos ajudam a lidar com nossos próprios medos. Acho agradável passar algumas horas me assustando dentro do cinema, e depois sair para a luz do dia, sabendo que tudo aquilo que foi exibido não passou de uma grande mentira. A lamentar apenas que a realidade seja muito mais assustadora”. Nos anos 40, nos estúdios da RKO-Pictures, o produtor Val Lewton deu um toque de classe e elegância ao gênero em uma série de filmes “B” em recursos, mas A em criatividade, célebres por privilegiar muito mais a sugestão do que o explícito. Eram produções que pediam licença para assustar e que deixavam para a imaginação do espectador a tarefa de iluminar as sombras e preencher os espaços vazios, em tramas como “Sangue de Pantera” (Cat People, Jacques Tourneur, 1942), “O Homem Leopardo” (The Leopard Man, Jacques Tourneur, 1943), “A Morta Viva” (I Walked with a Zombie”, Jacques Tourneur, 1943), “A Sétima Vítima” (The Seventh Victim, Mark Robson, 1943) ou “A Ilha dos Mortos” (Isle of the Dead, Mark Robson, 1945), só para citar os melhores de uma lista de nove filmes produzidos por Lewton, que aplicava nessas produções uma receita toda própria: uma história de amor, três cenas de horror apenas sugerido e uma de violência. Com isso, inscreveu seu nome na história do cinema de terror, muito embora, aos olhos do público moderno, seus filmes - que exploram o contraste entre luz e sombra, o lado bom e o lado ruim do ser humano não sejam nem um pouco assustadores. É preciso reconhecer que mais assustadores foram os filmes produzidos nos estúdios britânicos da Hammer, a partir do final dos anos 1950. A produtora britânica simplesmente apostou em uma volta ao passado e se deu bem, ou seja, reviveu os monstros clássicos da Universal dos anos 30: Drácula, Frankenstein, Lobisomem, a Múmia. A diferença, 7


aqui, estava nas cores, berrantes como o vermelho do sangue no olhar de um Conde Drácula vivido com mais malevolência do que placidez pelo ator inglês Christopher Lee. The Curse of Frankenstein (no Brasil, “A Maldição de Frankenstein”, Terence Fischer, 1957) foi o filme que deu início ao filão de ouro explorado à exaustão pela Hammer, ao qual se seguiu Horror of Dracula (“O Vampiro da Noite”, Terence Fisher, 1958), que, a exemplo do que já ocorrera no passado com Bela Lugosi na pele do famoso personagem, trouxe fama imortal a Lee, na pele do diabólico aristocrata que não se contentava apenas em sugar o sangue de jovens indefesas, mas também em seduzi-las. A velha fórmula sexo e sangue, que nunca deixou de ser um apelo nas bilheterias, também atraiu sobre si a atenção da censura, a qual, a partir daí, passaria a ser uma pedra no meio do caminho do sucesso trilhado pela Hammer. Não foram poucas as vezes em que a produtora teve de refazer cenas inteiras para agradar aos censores, enojados com a violência colorida que viam nas telas. Quando Drácula sugava suas vítimas, era um sangue vermelho e espesso que fluía das veias, e isso a censura da época não podia tolerar impunemente. Já o público adorava, e pedia mais. E teve. Foi uma overdose de sequências. Só Drácula teve cinco: “Drácula, o perfil do Diabo” (Dracula has risen from the grave, Freddie Francis, 1968); “O Sangue de Drácula” (Taste the Blood of Dracula, Peter Sasdy, 1970); “O Conde Drácula” (Scars of Dracula,Roy Ward Baker, 1971); “Drácula no Mundo da Minissaia” (Dracula A.D, Alan Gibson, 1972) ;e “Os Ritos Satânicos de Drácula “ (The Satanic Rites of Dracula, Alan Gibson, 1974). Na opinião dos críticos, porém – e tanto Capuzzo quanto Morgan concordam -, a grande guinada dos 8

Imagens: Mirella Capuzzo

Imagens: Mirella Capuzzo

Paulo Capuzzo, crítico de cinema, Imagens: Mirella Capuzzo – Adivinhem quem vem para assustar.


Imagens: Divulgação

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filmes de terror se dá nos anos 1960, década em que são produzidas duas das mais influentes obras do gênero: “Psicose” (Psycho, Alfred Hitchcok, 1960) e “A Noite dos Mortos Vivos” (Night of the Living Dead, George Romero, 1968). O primeiro, que colocava um ser humano aparentemente normal na pele de uma monstro, tornou-se uma obra-prima intensamente discutida, dissecada e imitada ao longo do tempo, deu origem aos chamados slasher movies, sub-gênero de filmes de terror, quase sempre envolvendo assassinos psicopatas que matam aleatoriamente e que se revelaram um frenesi para os adolescentes nos anos 1980. E dá-lhe títulos como “O Massacre da Serra Elétrica” (TheTexas Chain Saw Massacre, Tobe Hooper, 1974 e série de seis filmes); “Halloween, a Noite do Terror (Halloween, John Carpenter, 1978 e série de nove filmes); e SextaFeira 13 (Friday the 13th, Sean S. Cunningham, 1980 e série de doze filmes), entre muitos outros, dos quais a maior parte beira o ridículo, mas que fazem a alegria da garotada. Já “A Noite dos Mortos Vivos”, filmado em preto e branco, um dos maiores cult do horror de todos os tempos, foi produzido com um orçamento de 114.000 de dólares, e após uma década de relançamentos cinematográficos, faturou cerca de $12 milhões só nos Estados Unidos e US$ 30 milhões no mercado internacional. “Mais importante”, acrescenta Capuzzo, “é que por seu grafismo, por mostrar a violência nua e crua em cenas de canibalismo explícitas, deu vazão a uma longa série de filmes de zumbi, um mais pavoroso do que o outro”. O próprio George Romero seria responsável por assinar outras duas obras-primas no gênero: “Madrugada dos Mortos” (Dawn of the Dead, 1978)) e “Dia dos Mortos” (Day of the Dead, 1985). 9


Na verdade, nos anos 1960, o gênero – até então confinado, basicamente, aos países de língua anglo-saxônica –, conhecendo uma extraordinária expansão mundial, floresceu na Itália, na Espanha, no México, no Japão, entre outros países. Até mesmo no Brasil o gênero se fez presente, na figura de José Mojica Marins, o criador do personagem Zé do Caixão, intrépido – e único – desbravador do muito pouco explorado terror tupiniquim, e, talvez por isso mesmo, muito mais conhecido lá fora do que aqui. O personagem de unhas longas nunca primou pela sutileza e não tardou a povoar seus filmes com mulheres seminuas, sobre cujos corpos passeavam aranhas, lacraias e outros animais peçonhentos. Joe Coffin, como é conhecido nos países de língua ianque, é o reputado autor de algumas obras bastante cultuadas pelos connoisseurs (“À Meia-Noite Levarei Sua Alma”, “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”, “O Despertar da Besta”, “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”, “Delírios de um Anormal” e, mais recentemente, “Encarnação do Demônio”.). A partir daí – e graças também a clássicos como “O Exorcista” (The Exorcist, William Friedkin, 1973) e “O Iluminado” (The Shining, Stanley Kubrick, 1980) – tudo passou a ser viável na grife terror moderno no cinema. Endereçados, nos dias de hoje, sobretudo a adolescentes, esses trens fantasmas têm vida breve, e são comentados somente até o momento em que surjam outras novidades na terra do efêmero onde reinam, regadas a tecnologias e efeitos de computador que nada escondem, uma vez que toda e qualquer monstruosidade é possível e passível de ser consumida por um público cada vez mais ávido por se expor a doses cada vez maiores de violência sanguinolenta, o chamado gore, que repele na mesma proporção em que atrai. Até onde o cinema de horror contemporâneo pode chegar nos dias de hoje ? A pergunta pode ser respondida com outra questão, talvez mais simples, a de saber até onde a tecnologia pode levá-lo, já que uma coisa está diretamente ligada a outra. Foi-se o tempo do romantismo, do susto gótico em preto-e-branco que nos dava Frankenstein, Drácula e congêneres do passado, ou mesmo do revival gótico da Hammer. Agora, qualquer Coisa pode nos assustar, desde que - na sombra da noite ou num remoto rincão rural da América profunda - devidamente amparada pela parafernália dos efeitos especiais - estes sim, verdadeiros protagonistas dos filmes de horror moderno, estão sempre bem na fita. A trama? Ora a trama. O enredo?... Ora, quem se importa com um detalhe tão insignificante, ambos tão descartáveis quanto a verossimilhança. E que chegue o próximo da lista para nos assustar. Será bemvindo, no escurinho do cinema ou na tela da TV. Por: Mirella Capuzzo

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Imagens: Divulgação

A rota Clandestina No meio da floresta a exuberância do mundo natural nos leva a caminhos que transportam os turistas a pedaços quase esquecidos da nossa história Algumas histórias do Brasil ainda não foram contadas por completo em livros, internet ou qualquer outro meio de comunicação. Muitos acontecimentos não ganharam registros, alguns permaneceram restritos a poucos pesquisadores e a maioria das informações desapareceu com a morte de testemunhas. Porém, aprender uma história é enriquecer o conhecimento no Estado de São Paulo, uma estrada localizada na Serra do Mar preserva em seu entorno vestígios do passado histórico brasileiro, o lugar mais conhecido como Rota Dória. E você já ouviu falar sobre esse patrimônio? Tudo começou com os padres Valério Alvarenga Ferreira e Manoel de Faria Dória, padres da cidade de São Sebastião que tiveram como determinação abrir novas passagens da cidade onde moravam até São José do Paraitinga, hoje Salesópolis. Para tal feito precisaram explorar alguns caminhos na Mata Atlântica. O município surgiu entre os séculos XVI e XVII no cruzamento das poucas trilhas que serviam de rotas comerciais e que ligavam o litoral norte Paulista ao Alto do Tietê e Vale do Paraíba. Diante da inexistência de melhores acessos para o Porto de São Sebastião, o governo da Província de São Paulo determinou que se iniciasse a abertura de estradas que levassem o comércio, a agricultura e o povoamento às regiões que compreendiam Ilhabela, São Sebastião, Caraguatatuba, Paraibuna e São José do Paraitinga. Por muito tempo a chamada estrada nova serviu como uma ligação direta para o litoral, onde viajantes e tropeiros faziam negócios. O padre Manoel de Faria Dória foi o único a completar sua missão e a de seus companheiros, mas, após ser assassinado em uma emboscada, a principal estrada foi fechada, e por interesses 11


Imagens: Divulgação - Rotas: Caminhos eram explorados na MataAtlântica.

políticos conflitantes, foi proibida de ser mencionada em mapas e documentos a partir de 1843. Nesse tempo, com a clandestinidade da estrada, as rotas Dória e do Sal se tornaram - se as principais rotas no tráfico ilegal de escravos. Segundo pesquisadores, eles chegavam a uma fazenda construída no alto do morro, isolada da comunidade que vivia no local, com 260 metros de altitude, para depois seguir caminho até seus compradores. “Depois de reestabelecidos da viagem, eles aprendiam algumas palavras em nossa língua para compreender algumas ordens que lhe eram dadas e um pouco sobre religião católica, só após esse feito eram vendidos”, conta um dos ex - monitores da rota Thiago Fernandes. As ruínas foram descobertas há apenas 20 anos, por acaso durante um sobrevoo. Após estudos realizados no sítio arqueológico de São Sebastião, constatou-se onde eram os aposentos dos Imagens: Divulgação - Passagens: Novas passagens foram abertas de São Sebastião até Salesópolis.

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Imagens: Divulgação - Memórias: Ruínas de antigos casarões.

escravos, pois as colunas eram altas e sem separações, uma espécie de senzala, onde ainda existem muitos símbolos e foram que ainda são estudadas e os de seus senhores, amplos e com inúmeras divisões. “Esse lugar é ainda desconhecido por muitos, mas, a estrada existe até hoje e também as ruínas dos casarões e igrejas da época”, conta a diretora de turismo Telma Dellamônica. O caminho, transformado em rota, levou a cultura africana para a cidade, deixando como herança crenças, danças, ervas medicinais, termos do vocabulário e a resistência negra. Apesar disto, muitas pessoas negam ter havido escravos na região. Desde 1831, com a implantação da Lei Feijó, o governo brasileiro considerava livres todos os africanos introduzidos no Brasil a partir daquela data. Completamente ignorada, a legislação abriu espaço para o contrabando de escravos a fim de manter a principal mão de obra utilizada na produção do país. Imagens: Divulgação - Desconhecidos: Muitos pontos ainda são desconhecidos.

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Com a morte do padre, em 1843, as autoridades locais fecharam a estrada com a justificativa de que a cidade ficara vulnerável aos ataques dos revoltosos contra o império. A decisão resultou até mesmo na retirada da via das descrições nos mapas da época. Segundo a diretora, a medida imposta pelos fazendeiros escondia os interesses escravocratas dos coronéis. A estrada funcionava mesmo como rota clandestina de comércio de escravos feito pelos traficantes negreiros. Após a proibição definitiva do tráfico de negros, em 1850, com a Lei Eusébio de Queiroz, a circulação ilegal pela estrada se fortaleceu. Com 120 quilômetros de extensão e construída em curvas, a via ligava a Fazendo do Descanso, em Ilha Bela, aonde chegavam os escravos, passava por São Sebastião (Fazenda da Engorda, hoje sítio arqueológico), por Caraguatatuba (Parque da Serra do Mar), por Paraibuna e terminava em Salesópolis, no Casarão Senzala utilizado como entreposto comercial, principalmente para a venda de escravos. Hoje a “Rota Dória” mapeia os passos dos africanos em terras brasileiras no Estado de São Paulo e se junta, como peça do quebra-cabeça dessa parte da história, com registros arquitetônicos que se tornaram pontos de visitação, como o Casarão Senzala em Salesópolis e o Sítio Arqueológico em São Sebastião. Apagada dos mapas, a Estrada Dória e sua importância para a região ainda permanece intacta na memória dos mais antigos até os dias atuais. Por: Camila Farias

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Cultura e lazer tem nome:

Embu das Artes

A pequena cidade, berço de grandes artistas que se tornaram ícones nacionais, é uma bela opção para passeio com a família Embu das Artes, a estância turística que carrega no nome sua principal atividade, da qual orgulha seus moradores e consagra seus artistas. A cidade, que passou a ser “das Artes” recentemente, não poderia ter outra marca senão o artesanato e pinturas, uma vez que sua história teve início com os índios tupiniquins. As terras receberam os jesuítas em 1554, que tinham como objetivo catequizar os índios. O grupo fundou a Aldeia M’Boi Mirim que, em 1607, passaram para as mãos de Fernão Dias, tio do bandeirante de mesmo nome e conhecido como o Caçador de Esmeraldas. Foi em 1937 que a vocação artística da cidade ganhou destaque. Cássio M’Boy, santeiro (que produz imagens de santos) de Embu, ganhou o primeiro grande prêmio de exposição internacional de artes técnicas em Paris, mas antes disso, ele foi professor de artistas do Movimento modernista de 1922 e das artes de São Paulo, como Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia e Alfredo Volpi. A partir daí a cidade passou a ser ponto de encontro de artistas, que começaram a expor suas obras na região central da cidade, ritual que acontece até os dias de hoje e encanta os turistas apaixonados por arte, como Joyce Gomes. Moradora da cidade vizinha, Taboão da Serra, Joyce vai à Embu das Artes com frequência. “Quase todo fim de semana eu venho (para Embu), gosto muito dos artesanatos expostos aqui. Já comprei alguns quadros e esculturas”. A famosa feirinha de artesanatos de Embu das Artes, que tanto agrada Joyce e diversos outros turistas, teve início em 1969, no Largo dos Jesuítas. Conduzidos pelo escultor Assis de Embu e com

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Embu das Artes

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Imagens – Divulgação – Cultura e lazer tem nome: Embu das artes


a presença de artistas e artesãos, a maioria da Praça da República de São Paulo. Nesse período, muitos talentos foram revelados, o que contribuiu para solidificar a tendência cultural e artística da região, iniciada na década de 20 com Cássio M´Boy e na década de 50, com Tadakiyo Sakai. Já nos anos 70, criadores dos mais variados estilos, muitos ligados ao movimento hippie, se reuniam no Largo 21 de Abril para produzir e vender arte. De lá pra cá, artistas e artesãos vêm produzindo e expondo as mais variadas obras para interessados, turistas e visitantes. A tradicional Feira de Embu das Artes conta com um grande número de produtos artesanais, obras de arte e manifestações culturais. O artista Paulo Dud é um exemplo dessa diversidade. Suas obras são trabalhadas com exercícios geométricos e de ilusão de ótica, no estilo do movimento da Optical Art, iniciado nos anos 1960 por artistas como Bridget Hilley e o húngaro Victor Vassarelli. “Esse estilo utiliza formas geométricas, além de ser composta por outros elementos abstratos”, explica Dud. Emanuel Massarani, um ex-diplomata e hoje crítico de arte, foi curador de uma das exposições de Dud, o que fez com que ele pudesse estudar mais de perto a obra do artista. Ele afirma que a arte de Dud pertence ao estilo do abstracionismo geométrico, como os de Kandinsky, Max Bill e outros. “Trata-se de uma pintura que tem sentido por possuir uma grande pureza de estrutura e uma total limpidez cromática”.

Eventos

Os artistas embuenses participam de diversos eventos, sejam os oferecidos pelo próprio município ou então em outras cidades. O Revelando São Paulo, que acontece na capital paulista todos os anos, é um exemplo de evento cultural que, por sinal, Embu das Artes já tem espaço garantido. O estande da cidade, onde um pouco do trabalho dos artesãos ficam expostos, é organizado pelos próprios participantes, que definem detalhes como a montagem e a decoração do espaço, além de discutir o trabalho em conjunto para garantir a funcionalidade do estande durante o evento.

Nome da cidade

Faz apenas dois anos que o município se chama Embu das Artes. Em 2009 o prefeito Chico Brito (PT) deu início ao processo para que Embu fosse, oficialmente, chamada de Embu das Artes, isso 17


porque a cidade costumava ser confundida com Embu-Guaçu. Em 25 de novembro, o prefeito e o vice deram início ao ato pró-plebiscito para a coleta de assinaturas, onde ao menos um por cento dos eleitores deveriam participar. O abaixo-assinado passou por toda a cidade através da campanha “Embu das Artes Todo Mundo Quer”, lançada pela Prefeitura. O plebiscito ocorreu em 1 de maio de 2011 e 66,48% da população optou pela nova denominação. Em 6 de setembro de 2011, o governador Geraldo Alckmin sancionou a Lei Estadual 14 537/11, que, oficialmente, deu ao o município o nome Embu das Artes.

Arquitetura

Na maior parte da cidade – principalmente na área central – os visitantes deparam-se com uma arquitetura histórica, ainda do tempo dos jesuítas. Algumas casas, restaurantes e toda a praça do centro da cidade conservam a história de Embu das Artes, tendo a colaboração dos artistas. Recentemente foi inaugurada a rodoviária da cidade e toda a sua estrutura foi feita nos moldes artesanais e de época: uma fachada que lembra as antigas estações de trem. As lojas de dentro da rodoviária são todas baseadas na arquitetura jesuíta preservada no município, e os produtos vendidos são todos feitos pelos artesãos da cidade: desde os alimentos até os souvenirs.

Copa de 2014

A Prefeitura quer aproveitar o grande número de turistas que devem chegar ao Brasil para a Copa de 2014, para divulgar a cidade como destino turístico. A ideia é fazer uma série de ações de promoção, como a criação de site, 18

revista, blog, vídeos institucionais, além de cartazes e anúncios para serem distribuídos em locais estratégicos de passagem de turistas na Capital paulista, como os aeroportos. Entre as atrações que serão divulgadas para os turistas estão o Museu de Arte Sacra dos Jesuítas, a Capela de São Lázaro, o Memorial Sakai, o Cento Cultural Mestre Assis do Embu, o Museu do Índio, o Parque do Lago Francisco Rizzo e a Feira de Artes e Artesanato.

Pontos mais famosos

Apesar da feirinha do centro ser muito famosa e chamar a atenção da maior parte dos turistas, há alguns pontos, também na região central, necessários para conhecer mais a fundo a história da cidade, como por exemplo, o Conjunto Jesuítico. O conjunto jesuítico Nossa Senhora do Rosário é formado pela igreja e pela antiga residência dos padres, conjugadas numa mesma edificação. O desenho das portas e janelas cria uma delicada movimentação da fachada. Tratase de um dos mais importantes e preservados remanescentes das construções jesuítas em São Paulo, caracterizadas pela simplicidade das linhas retas. A igreja começou a ser construída por volta de 1700 pelo Padre Belchior de Pontes em substituição à antiga capela da fazenda de Catarina Camacho situada não muito longe dali, também dedicada a Nossa Senhora do Rosário. “A nova igreja teria capacidade suficiente para que os índios e vizinhos pudessem comodamente observar os preceitos a que estão obrigados”, como registrou o Padre Manuel da Fonseca no livro ‘A Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes’. Outro passeio, também com origem jesuíta, é a Fonte dos Jesuítas, que foi descoberta em 1944, e é uma das mais antigas do Brasil. É aberta aos visitantes de segunda a sábado, das 8 às 17h. A Sociedade Ecológica Amigos de Embu coordena passeios de duas horas e meia, das 8h30 às 11h e das 13h30 às 16h, para grupos, com percurso por trilha, informações sobre ecologia e oficina. A entrada é gratuita para visitas diárias e grupos de escolas públicas.


O Parque do Lago Francisco Rizzo tem mais de 217 mil metros quadrados e é uma antiga área de extração de areia, que deu lugar a um espaço verde e a um grande lago de 56.000 m², povoado por dezenas de espécies de peixes. Possui pistas de Cooper, brinquedoteca, biblioteca sobre meio ambiente e viveiro de mudas, que oferece variedade de plantas e árvores – algumas nativas da região – para retirada e plantio. O Memorial Sakai do Embu, inaugurado em 2003, é um local para quem quer conhecer um pouco mais a obra do artista Tadakiyo Sakai, um dos maiores terracotistas do País. O conjunto arquitetônico inclui a Capela de Santa Cruz, inaugurada em 2008, o Cruzeiro da Paz e um pátio onde são realizados eventos. Além de uma ampla galeria de peças de Sakai e de outros artistas, o museu contém escola de terracota, com cursos regulares e oficinas, todos gratuitos. O museu é composto por 20 obras de Sakai, 13 da Via Crúcis, um baixo relevo da Festa de Santa Cruz, dois vasos, três touros, três índias e um São Francisco. As obras de Sakai são sincréticas. Ele acrescentou à cultura oriental elementos da cultura brasileira, indígena, católica e cabocla, acentuando uma identidade de traços entre a arte japonesa e a indígena do Brasil. Via-crúcis é um dos melhores exemplos da sua arte tão singular. É composta por baixos-relevos de cerâmica que representam a Paixão de Cristo, cenas do cotidiano da época, de lendas nacionais e do folclore local. A Praça de Alimentação foi criada depois de o governo municipal realizar, em 2009, por meio da Secretaria de Turismo, um levantamento em que foram constatadas as más condições de infraestrutura e atendimento no setor de alimentação da Feira de Arte e Artesanato. Diante disso, ao projeto elaborado pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano, de criação de um novo parque integrado ao Sistema Municipal de Áreas Verdes, com intervenções de infraestrutura urbana e recuperação ambiental da área, foi incluída a construção do novo complexo turístico e gastronômico na antiga Praça da Lagoa. A partir daí, elaborou-se um projeto oferecendo as condições ideais para manipulação e comercialização de alimentos, que foi apresentado e aprovado pelo público envolvido. Com a nova Praça de Alimentação, esperase fortalecer a marca da gastronomia local. O turista e o munícipe agora contam com uma infraestrutura para o atendimento, com manipulação adequada dos alimentos, água, esgoto, energia, pia, além de parque infantil, estacionamento, sanitários e área de lazer. São 24 quiosques de alvenaria, equipados com água e energia elétrica. Pergolado de madeira, que servem comidas rápidas, lanches, doces e bebidas. Há ainda parque infantil, palco para eventos, banheiros, fraldário e deque. O espaço, com mesas e cadeiras para mil pessoas, é bem iluminado e tem câmeras de monitoramento 24 horas. Por: Natalia Marques

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A Liberdade de São Paulo A Liberdade é um bairro turístico da cidade de São Paulo, localizado parte no distrito da Liberdade e parte no distrito da Sé. É conhecido como o maior reduto da comunidade japonesa na cidade, a qual, por sua vez, congrega a maior colônia japonesa do mundo, fora do Japão. Nessa imensidão que é a cidade de São Paulo, encontramos no centro o bairro da Liberdade, muito famoso e conhecido pelas suas referências japonesas. Principal bairro onde os japoneses e seus descendentes se instalaram na cidade, o lugar passou por uma transformação em 1912, quando os primeiros imigrantes japoneses começaram a se fixar nos arredores. Hoje, é o reduto de maior colônia nipônica do Japão. Sua transformação começou quando os orientais abriram várias instituições para a sua comunidade, como escola, restaurantes e hotéis. Caminhando pela Liberdade, encontramos luminárias tipicamente orientais, chamadas de suzurantõ, que foram instaladas com o objetivo de modificar a aparência do bairro, pois as fachadas dos prédios foram todas remodeladas ao estilo japonês e os estabelecimentos trocaram suas placas por letreiros bilíngues. Todas essas modificações fizeram com que o bairro mantivesse parte da cultura japonesa, fazendo certa alusão de que estamos realmente no Japão, o que o torna uma referência única. Na Liberdade, também encontramos as famosas feiras que acontecem nas tardes de domingo, são sempre temáticas, com barracas de comidas típicas, objetos orientais e artesanato. O Distrito da Liberdade faz parte do bairro da Aclimação, também localizado próximo a Sé e a

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São Joaquim. É muito comum, nessa região, se deparar com propagandas escritas em Mandarim, uma vez que sua cultura japonesa modificou um pouco a paisagem da região, alternando hábitos e costumes dos paulistanos, que, em meio a tanto concreto e cinza, podem conhecer um pouco do Japão e admirar o colorido de uma cultura tão ancestral. Ali, bem próximo ao bairro, temos a grande Avenida 23 de maio, de grande fluxo para os paulistanos, que liga principalmente as áreas norte, sul e centro de São Paulo. “Com certeza, este é o lugar certo para encontrarmos tudo sobre a cultura japonesa”, conta Bartira Quadros, aposentada e frequentadora assídua do bairro. Por onde olharmos veremos japoneses e sua cultura exatamente como é, ou pelo menos o mais próximo que eles trazem consigo. O bairro possui diversas lojas, restaurantes e bares orientais e por conter faculdades próximas do local, também pode-se observar muitas repúblicas. O bairro passou a oferecer muitos atrativos, já que a Praça da Liberdade que também é usada para a feira de Domingo, como citado acima, também serve como palco para grandes manifestações culturais, como, por exemplo, a dança folclórica japonesa. Dentro de uma cidade de pedra como São Paulo, a Liberdade pulsa todos os dias, trazendo sua cultura e seu povo; japoneses ou não, todos fazem deste um lugar único e especial. “O bairro da Liberdade, para mim, e como se fosse minha segunda casa, estou sempre por lá, principalmente aos domingos. Acho fantástica a tradição que esse bairro trouxe para nós”, conta Bartira. Por ali circulam milhares de pessoas todos os dias, já que o bairro é muito visitado por turistas e por residentes do local, funcionando como um pedacinho do Japão em São Paulo basta olhar os detalhes e ver em cada esquina e em cada luminária um pouco da história daquele país. Ao

Imagens - Camila Farias – A liberdade de São Paulo

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Imagens - Mirella Capuzzo – A liberdade de São Paulo

A Liberdade d visitá-lo sempre estaremos aprendendo um pouco sobre a cultura de outro país. “Moro aqui a 10 anos, é um bairro sempre muito movimentado, nunca para por aqui, os mercados estão sempre cheios”, conta uma moradora e comerciante do local, Satiko Nakaiama. Satiko conta que nasceu no Japão e que quando veio ao Brasil, logo conheceu o bairro da Liberdade e ficou apaixonada “Me senti como se estivesse no meu país de origem. Tudo por aqui nos deixa muito a vontade, como se estivéssemos realmente em casa, me sinto acolhida”. A diversidade do bairro é imensa, cheia de detalhes para serem vistos e a cada detalhe uma história. Lá podemos localizar grandes lojas e restaurantes moldados à cultura japonesa, dentro de suas casinhas típicas, construções bonitas e delicadas. Também encontramos hospitais ao modelo japonês, escritos com letras típicas do país, ou o famoso jardim Oriental, ótimo para quem quer dar uma relaxada e descansar da correria da cidade. “Sempre quando vou a Liberdade, dou uma passadinha no jardim, sento perto do lago que tem lá, e fico horas lendo ali somente com o barulho da água e dos pássaros, um lugar tão tranquilo em meio a tanta correria”, conta Bartira. Não surpreende, portanto, que, com suas cores fortes e vibrantes, o bairro já tenha sido vencedor do concurso de decoração de ruas das festas natalinas. 22


de São Paulo Não faltam por lá atividades culturais. O Festival das flores, Satiko nos informa acontece num sábado no mês de abril, “O desfile é maravilhoso: o ápice sendo um grande elefante branco que carrega um pequeno Buda”. Outro contraste é o festival Oriental, muito famoso no mês de Dezembro, pois são colocadas bandeiras verticais coloridas para enfeitar, a apresentação de diversas manifestações culturais do Oriente. O lugar permanece como ponto turístico em São Paulo, por ser o único no Brasil que tenta reproduzir um pouco do Japão. Atualmente, o bairro abriga não só japoneses, mas também asiáticos coreanos e chineses. “Gosto de morar e passear por aqui, estou entre amigos, principalmente aos domingos, quando acontece a feirinha oriental”, retrata Satiko. Para ela, o bairro é o melhor para se viver em São Paulo, “Não abro mão daqui por nada no mundo, e um lugar especial. Parece que aqui estou protegida, como se fosse outro mundo”. O contraste entre a cultura brasileira e a nipônica foi o que deu o charme ao local, e a razão dos turistas começarem a perceber o quão interessante era presenciar um território japonês em pleno solo brasileiro. Por: Mirella Capuzzo

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Artistas Anônimos Imagens - Rafael Pires – Artistas anônimos

Pessoas comuns que chamam atenção por usarem o pouco que sabem de um tipo de arte para fazer alguma coisa incrível. Tem muito artista por aí. São tantos que não importa se eles são do canal 5, do canal 10 ou nem da TV, todos parecem a mesma pessoa. Não que esta seja uma critica ao trabalho deles, mas para chegar lá é preciso seguir um estereótipo. Só que até aí tudo bem, cada uma faz o que tem que fazer para correr atrás de um sonho. O problema é que todos esses rostos criaram uma barreira que generalizou e simplificou o sentindo mais básico da palavra artista, que é a ideia de que o que é arte para alguém pode não ser para outra pessoa. Agora só artista quem segue alguns padrões impostos por sei lá quem. Com isso, quem faz alguma arte que não seja a convencional, pode ser taxado de chato ou de várias outras coisas, menos artista. Um bom exemplo que deixa isso bem claro é o japonês que canta no metro. Ele costuma pegar o metrô na Estação Liberdade e descer, sabe-se lá onde, depois da Estação Paraíso. O diferente na coisa é que quando ele entra no vagão, já está cantando. Em japonês, claro. E não para. Seu repertório é enorme. Tem até vídeo no youtube. Para quem duvida, é só procurar “japonês que canta no metrô”. A reação das pessoas que estão em sua volta é uma espécie de incomodo e medo. Quem conta 24


isso é Leandro Cunha um estudante que costuma sempre pegar o metro junto com o cara, ele diz “Quando vi ele pela primeira vez eu pensei que ele era louco. Só que com o tempo eu me acostumei. Ele até que canta bem. Agora o que eu gosto de fazer quando ele entra no vagão é notar a reação de quem nunca viu ele.É engraçado”. Ninguém mais além de Leandro,pelo que parece, considera o que o japonês faz arte, porém é o que é. É uma interpretação de uma obra, ou seja, a definição da palavra artista no dicionário. É claro que esse é um exemplo bem esdrúxulo, mas bem simples de entender o que aquele estereótipo que os “verdadeiros” artistas fez com a arte. Assim, fica mais fácil de falar sobre Roger Lima. Roger é um garoto de 23 anos que desde quando saiu da escola, com uns 17, toca violão. Ele é apaixonado por música. Desde pequeno era fascinado pelas cores do Álbum Sargent Peppers do Beatles e pela pirâmide do Pink Floyd. Logo, como tantos outros, no começo o que ele queria era ser famoso, mas acabou sofrendo com que geralmente todo o músico iniciante, a falta de público. Entretanto, Roger além de tocar também tem outra paixão, trabalhar em ONGs e ele explica como isso começou. “Eu trabalhava em uma empresa grande, na área industrial, mas não me encontrava lá, não era o que eu gostava de fazer. Por isso pedi demissão e quando estava desempregado fui visitar uma ONG aqui perto de casa e me senti muito bem lá. Eles tinham uma oportunidade de trabalho voluntário com música e eu aproveitei”. Foi nesse novo trabalho, que era dar aulas de iniciação musical para crianças carentes que Roger descobriu que podia fazer muito mais com a música do que apenas tentar ser famoso. “Depois de dois meses ensinando a criançada junto com um professor, eu peguei a minha própria turma. O que foi muito legal. Eu comecei do nada e de repente virei uma parte do lugar. Além disso, as crianças são incríveis, eu aprendo muito com elas, por isso quando eu vejo alguma praticando e conseguindo fazer o que eu ensinei para ela é muito 25


Imagens: Rafael Pires

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gratificante. Nessa hora eu sei que elas são sentem mais falta de nada, estão completas pela música”. Comenta Roger orgulhoso. Nessa época ele costumava a dar as aulas duas vezes por semana, de quarta e quinta, mas por ser um habitante do planeta terra teve que arrumar um emprego. Roger explica ”Eu não queria ter saído de lá, todos queriam que eu ficasse, mas não deu”. Só que ele continuou no ramo, arrumou emprego em outra ONG e agora faz parte de um projeto, mas isso é assunto para outro dia. O que importa é que com essa nova paixão Roger acabou conseguindo algo que ele queria desde o começo, lugares e oportunidades para mostrar suas músicas. Agora ele costuma de vez em quando se apresentar em lugares inusitados, como bibliotecas. Ele consegue esses pocket shows com contatos que fez nessa sua jornada por ONGs e trabalhos voluntários. Esse contraponto do estereótipo que domina as grandes mídias além acontecer com o chato e com o adolescente acontece aos montes na Praça Benedito Calixto. O dono do nome era um tido como um dos quatro grandes pintores paulistas e teve tantas profissões quanto a variedade de comércios da praça que fica em Pinheiros. Calixto foi astrônomo, pintor, professor, desenhista e historiador. Não restam dúvidas de que ele é reconhecido em tudo quanto é canto e famoso, a ponto de merecer uma praça, no entanto, o nome que mais chama a atenção na praça que é de Calixto, é outra pessoa, um doceiro-poeta nada convencional, o Obeny das Candeias. Obeny trabalha lá a mais de 20 anos e é simplesmente apaixonado pelos doces que faz


Imagens: Rafael Pires - Estilos: são diversos os trabalhos feitos pelos “anônimos”

Imagens: Rafael Pires - Despercebido: muitos trabalhos passam despercebidos pelas pessoas

e vende. Tanto que escreve um poema para cada tipo de doce que cria. Ele justifica: “Estou casado há 40 anos. Eu e minha esposa querida simplesmente amamos os doces. A gente se abraça e faz. Assim fica tudo lindo”, declama. Na frente de sua barraquinha existem pelo menos umas 10 placas de madeira com poesias cravadas, cada uma sobre um doce. “Quando vejo minha querida fazendo um doce eu me apaixono por ele, e tenho que escrever um poema. Só que eu não quero publicar livro nem nada, o que me deixa feliz é ver o sorriso na cara das pessoas que estão lendo a poesia que escrevi sobre o doce que elas vão comer”, explica o “poedoceiro”, ou poeta-doceiro, como preferirem. É legal ver o quanto as pessoas que visitam a barraca de Obeny ficam empolgadas ao ver as poesias. Ele anima o dia delas sem nem dizer nada, Inconscientemente.

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Imagens - Rafael Pires

É o que conta Adriana Rodrigues uma estudante de fotografia que gosta muito de frequentar a feira da praça: “Eu gosto de vir aqui, adoro o doce de ambrosia e consigo passar horas lendo as poesias do Obeny. Elas são tão divertidas, e o motivo pelo qual ele as escreve é muito lindo e inspirador. Eu me sinto bem aqui.” Para ela uma visita a praça só vale a pena depois de pelo menos ver os doces do doceiro poeta. Entretanto Adriana não é a única a ser “hipnotizada” pela magia do lugar. Qualquer pessoa que passa pela parte coberta da praça, consegue ver como a Barraca do Obeny chama atenção. “É impossível olhar para a lojinha dele e não sorrir” completa Adriana. Velhinho, muito simpático, já trabalhou até em uma indústria automobilística, mas não gosta muito de lembrar ou de falar sobre isso. Hoje sustenta sua família apenas com a venda dos doces, o que segundo ele é muito mais saudável e desabafa: “Não quero ser médico, deputado ou senador, o que sou é isso o que faço. Já me formei em mecânica de autos, mas hoje sou formado em “doceiro poeta”, e amo isso, é a minha felicidade”. Empolgado ele resolve recitar o primeiro verso de seu poema sobre a paçoca.

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“Paçoquinha querida, Quantas vezes pude te ver Das mãos fortes e calejadas Do me vovô nascer. De você eu nada sabia, Senão o gostinho danado Do amendoim torrado.”

O ambiente ao redor de Obeny é cheio de românticos artesãos, orgulhosos de suas criações, prontos para fazerem mais, cheios de histórias para contar. No fundo eles são uma grande homenagem ao pintor autodidata Benetido Calixto, o nome da praça. Por: Rafael Pires

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O fenômeno

A história hilária, romântica, lúdica e nostálgica das exibições mambembes de cinema Acreditem se quiser, mas o filme Cine Holliúdy, do cearense Halder Gomes, desbancou o lendário Titanic (1998), batendo o recorde de bilheteria nas salas de cinema do Ceará. O filme teve audiência de 25 mil espectadores e uma média inimaginável de mais de 2.500 pessoas por sala. “Meu filme vem na contramão de tudo: é cearense, de baixo orçamento e com legendas em português”, conta Halder, radiante com os resultados. A produção é baseada no curta-metragem Cine Holiúdy – O Astista Contra o Caba do Mal, de 2004, que ganhou 42 prêmios. A partir dele, o diretor inscreveu o projeto de longa-metragem no edital de filmes de baixo orçamento do Ministério da Cultura. Rodou em seis semanas, em diversas locações no Ceará, com 1 milhão de reais. Mas, o que explica o desempenho tão impressionante da história de Francisgleydisson (Edmilson Filho), um apaixonado pela sétima arte que resolve fundar um cinema no interior do Ceará em plena ascensão dos aparelhos de TV? A resposta é fácil: a identificação das pessoas com o que vivem. “A grande razão do entusiasmo dos cearenses com Cine Holliúdy é a identificação com os regionalismos do filme. Quem mora no Ceará é impossível não se identificar com muitas expressões dos atores. Você dá boas gargalhadas e percebe que realmente fala muitas daquelas expressões”, diz a advogada Maria Isabel Ramos. “Enfrentei uma longa fila para garantir meu ingresso, mas valeu a pena. Adorei o filme”, afirma. Halder acredita que a obra faz um encontro raro de alinhamentos. “É um filme autoral, popular até demais e tem agradado muito a crítica nos festivais que passou”. Outro fator a favorecer a acolhida generosa do filme, concorda o diretor, é a popularidade de temas e personagens nordestinos que evocam termos e situações tipicamente da região. No elenco, a presença de artistas cearenses é majoritária. “O set de gravação era uma delícia. Muito divertido. Muitas cenas acabaram entrando no filme como consequência das nossas improvisações”. É o que afirma o ator cearense Jorge Ritchie. O Ceará é, por muitos, considerado o maior celeiro de humoristas do país. De lá vieram o 30


mestre, Chico Anysio, Renato Aragão, Tom Cavalcante entre muitos outros. “A comédia, é um gênero que o ator cearense já nasce dominando”, diz Ritchie. O sucesso do Cine Holliúdy confirma uma tendência nacional pela preferência do brasileiro pela comédia, essa tem sido apontada como a grande “salvação da lavoura” quando o assunto é cinema brasileiro. A nova comédia brasileira, como o movimento tem sido chamado, leva, em média, 2 milhões de espectadores ao cinema a cada lançamento. Nada menos que 96% de toda a renda bruta do cinema nacional vem hoje do humor. Na última década, geraram receita de 500 milhões de reais e, no ano passado, garantiram as cinco maiores bilheterias nacionais. Outro diferencial do longa, é a questão de ser o primeiro filme nacional legendado. É isso mesmo. Apesar de ter o idioma Imagens: Divulgação.

Imagens: Divulgação.

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português como oficial, o filme adotou o sub-idioma cearense. “O Brasil é imenso. Cada região tem suas peculiaridades na fala. Um paulista certamente terá muitas dificuldades em compreender todo o teor de uma conversa entre dois cearenses. Ele não saberia o que é mah, por exemplo,” divertese o diretor. De acordo com o diretor, mah seria uma contração do termo “macho”, forma como os cearenses costumam se tratar em conversas informais. “Funciona como o cara em outras regiões do país. No lugar de falarmos: E aí cara? Tudo bem? Falamos: E aí mah, beleza?” Essas peculiaridades da fala exploradas no filme foram, inclusive, expostas no banner de divulgação do longa. “Impossível não parar e ler as pérolas da nossa linguagem. Tirei até foto e mandei para umas amigas do sul para saber se elas entenderiam os termos”, brinca Isabel ao comentar sobre a peça de divulgação com a qual se deparou no dia que foi assistir ao filme. Ao mandar a tal foto para o sul, Isabel, espontaneamente, acabou contribuindo com um dos tipos mais credíveis de publicidade, o chamado boca-a-boca. Através de atitudes simples como essa, o filme tem despertado a curiosidade de todos os brasileiros. Porém, apesar do estrondoso sucesso, o que tem feito distribuidores de todas as regiões brasileiras pedirem o filme, Cine Holliúdy só tem data marcada para chegar às demais capitais do norte e nordeste do país. No sudeste, maior circuito de cinema brasileiro, ainda não há previsão de estreia. “A gente vai manter a nossa estratégia com foco em cada praça. É um lançamento diferenciado para um produto diferenciado”, diz Gomes, para quem o filme se destaca também pelo modelo de distribuição.

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PEQUENO GLOSSÁRIO DE CEARENSÊS DO CINE HOLLIÚDY Aí dento: resposta a qualquer provocação. Anti-bullying cearense Ande, tonha: Yessssss Biloto: Botão Cangapé: Chute rodado Catrevage: Coisa velha Ispilicute: Do inglês “She´s pretty cute”. Engraçadinha. Mulher muito faceira. Coisar: Verbo que serve como substituto daquele que a pessoa esquece ou não quer, exatamente, usar. “Acho que essa menina está coisando com o namorado!...” Coisativo: Do verbo coisar. Lerowhite: Lero, lero, em inglês. Quer dizer, em cearenses. Amufinado: Murcho, triste, sem vontade pra nada. Se amostrar: Se exibir para os outros. Peristônio: Órgão próximo da pleura central da peridural. Sola no espinhaço: Peia muita. Amilton Melo: Um dos maiores craques do futebol cearense. Carniça: Maneira “carinhosa” dos torcedores do Fortaleza e Ceará se tratarem Do tempo em que King Kong era soim: Algo muito antigo Franga de urubu: Coisa muito feia. Um assombro. Mais invocado do que corrida de pato: Algo para lá de impressionante Frogoió: Mulher ruiva Pirangueiro: Sujeito folgado que queira tudo de graça Bife do oião: Ovo Mah: Contração de macho. Usado em qualquer conversa entre homens para começar e terminar qualquer frase. Mói de chifre: Caba traído Tira a macaúba da boca: Quando alguém fala de forma ininteligível você diz isso para ela. Indarrai: Palavra indiana ainda inédita na Índia, que sugere uma nova tentativa a quem acabou de se estrepar. Por: Vivian Queiroz

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A dor e a delícia de viver

Imagens: Jade Félix

O teatro é uma arte que encanta quem assiste e quem faz. Grande parte dos jovens já passou pela experiência de se apresentar em uma peça teatral quando crianças, mas, para alguns a arte foi além da escola e passou a fazer parte de suas vidas. “Eu sou Dioniso”. Foi com essa fala que, no século VI a.C., um jovem ateniense, com uma grossa túnica nos ombros e uma tosca máscara sobre o rosto, surpreendeu os cidadãos que estavam na praça do velho mercado de Atenas comemorando uma tradicional festa grega. O povo aceitou a ousadia de Téspis em incorporar Dioniso, o deus da alegria. Assim surgia o teatro. Além de ser considerado o primeiro ator de teatro, Téspis também é responsável por inovações na dramaturgia da época, dentre elas a inclusão de personagens solos que contracenavam com o tradicional coro grego. Em pouco tempo, a arte de Téspis ganhou o mundo. No Brasil, a primeira manifestação teatral aconteceu no século XVI com a chegada dos Jesuítas. O teatro foi usado para catequizar índios e colonos. Acompanhando as mudanças na história da humanidade, o teatro também mudou a sua forma e o seu conteúdo e, logo, percebeu que o fazer cênico é uma arte coletiva. Diversos profissionais como dramaturgos, atores, encenadores, figurinistas e cenógrafos se reuniam para montar uma produção teatral mais caprichada, porém, após a temporada teatral o grupo se desfazia. Com o objetivo de sistematizar o trabalho, ter uma identidade e montar espetáculos que fossem do seu interesse, alguns diretores e atores decidiram criar suas próprias companhias ou grupos de teatro permanentes. 34


da arte teatral Foi o caso do ator João Caetano que, em 1833, fundou a primeira companhia teatral brasileira. Outras companhias que marcaram a história do teatro no Brasil foram: o Teatro do Estudante, de Paschoal de Carlos Magno, o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), criado pelo empresário Franco Zappari, a Cia Cacilda Becker, a Cia Sérgio Cardoso, o Teatro Arena, sob o comando de Augusto Boal e o Teatro Oficina, do polêmico José Celso Corrêa. Essas e outras companhias teatrais, que foram fundamentais para a consolidação de um teatro genuinamente brasileiro, tinham suas sedes no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Atualmente, existe um grande número de companhias e grupos teatrais trabalhando com diferentes propostas e linguagens teatrais por todo o país, mas o fato comum entre elas, é que todas experimentam a dor e a delícia de se viver de teatro no Brasil. Se por um lado é imensa a realização pessoal de se fazer àquilo que se ama, por outro, são inúmeras as dificuldades encontradas no meio do caminho. “... O ator tem que saber que, para ser um ator de verdade, vai ter que fazer mil e uma renúncias, mil e um sacrifícios. É preciso que o ator tenha muita coragem, muita humildade e, sobretudo um transbordamento de amor fraterno para abdicar da própria personalidade...”, disse Plínio Marcos de Barros, ator, escritor e diretor ao escrever o texto O Ator. O trabalho de um ator começa muito antes da estreia de um espetáculo. São meses ou até

Por: Camila Farias e Vivian Queiroz

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anos de muita dedicação e preparação, construindo personagens e decorando falas que serão apresentadas ao longo da peça. Um exercício de concentração que, sozinha, já é bastante trabalhoso. A profissão passa por mudanças importantes onde há maior exigência de profissionalização do segmento, a grande procura por projetos de apoio e a cultura são valores altos para ingressar no mercado de trabalho. “O teatro é uma ferramenta poderosa, que pode ser voltada para “n” fins. Acredito que não diferente de outras esferas, seja artística ou não, o teatro realizado no Brasil tem a sua porcentagem benéfica e maléfica”, conta o estudante de teatro Rômulo Mendes. “Hoje o teatro não ocupa mais o centro da vida coletiva, pois, ele transformou-se em uma arte minoritária, não se tornando insignificante e nem em extinção, mas sim um meio que não consegue competir igualitariamente com a televisão, por exemplo,”, diz a professora de teatro Lilian Luchesi. O poder de persuasão e transformação da arte teatral, certas vezes pede licença e espaço para o capital, ou seja, conforme qualquer produto à mostra para ser vendido, precisa possuir atrativos suficientes para alcançar o lucro esperado. “Acredito que você perde o aspecto artístico da obra e em consequência disso, recursos que outrora serviam para sustentar a produção cultural do país (leis de incentivo), entram nessa roda e são redistribuídos de acordo com o que o mercado pede”, explica o estudante. Quando questionada sobre a grande 36


Imagens: Camila Farias - Legenda: Erivelto Santos na peรงa A Tela e a Cela, encenada no Teatro Next em Julho desde ano

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dificuldade de se fazer teatro no Brasil, a atriz carioca Julia Deccache é categórica ao afirmar que a má distribuição de verba é em sua opinião o principal problema. “O governo entregou às grandes empresas a responsabilidade de decidir sobre o que circulará de cultura no país quando criou a Lei Rouanet. Só interessa a um empresário investir num projeto que possa lhe render uma exposição midiática significativa. Dessa forma, só grandes produções, com uma ficha técnica notável, consegue captar verba através da (lei) Rouanet. Profissionais capacitados, conscientes da importância da arte para a sociedade é que devem avaliar o conteúdo dos projetos e aí sim selecionar os que deverão ser beneficiados pela lei de incentivo. O papel do governo é viabilizar isso, é criar diferentes editais que contemplem as diferentes produções. Vivemos num país em que a televisão exerce um poder avassalador sobre a população, e televisão aqui é política. Não interessa ao estado investir na cultura”. Outro fator apontando como desestimulante na profissão de ator teatral é a não valorização do seu trabalho. “Posso dizer que a profissão ator de teatro é valorizada dentro do meio artístico, uma vez que os que trabalham com arte sabem da importância do teatro na formação de um ator. Mas socialmente não. Valorizada é a celebridade que aparece na TV, infelizmente ainda hoje é isso o que importa no Brasil. Nossa população é carente de cultura; cultura, para a massa, é novela. Sou dos que acreditam que cultura é tão importante quanto pão. Uma sociedade que incentiva produções artísticas é uma sociedade mais consciente, menos ignorante, apta para escolher um representante que faça jus às riquezas e ao potencial do seu país”, conta o ator e autor de peças teatrais Rafael Martins. 38

Imagens Curso Ator . – A ator e a delicia de viver da arte teatral


Rafael diz ainda que encontrar espaço no mercado para as produções não comerciais governo também deveria investir nos projetos alternativos, deveria viabilizá-los. É fundamental para a formação de profissionais da área que os jovens também consigam produzir, que eles encontrem lugar para colocar em prática suas expressões artísticas. É fundamental que pequenos grupos que priorizem um teatro experimental, de pesquisa, sejam também contemplados com as leis de incentivo”. Outra questão delicada é no tocante a infraestrutura disponibilizada à classe artística nacional. Os teatros da rede pública normalmente são mal administrados e carecem de verbas para reformas e manutenção. “Não podemos contar só com as casas privadas que cobram uma fortuna de aluguel. Além disso, temos um grave problema no país no que diz respeito à formação de plateia, pouquíssimas pessoas tem acesso ao teatro. Ir à uma peça é muitas vezes considerado coisa de gente culta ou coisa de gente que tem dinheiro. O teatro, que quando surgiu tratava-se de um evento totalmente popular, atualmente não chega na massa”, afirma o ator e diretor teatral Lucas Sancho. Pós-graduado em gestão estratégica de tecnologia, formado em sistemas de informação, arquitetos, jornalistas, biólogos, engenheiros, administradores, são alguns exemplos das atividades que os integrantes do curso ator realizam paralelamente ao oficio de ator. Esta pluralidade de ocupações justifica as constantes alterações no elenco e as eventuais improvisações em algumas 39


peças, afinal viver só de teatro no Brasil é um grande impasse. As dificuldades encontradas hoje por pessoas que fazem teatro, como produtores e artistas são a falta de patrocínio tanto por órgão público quanto privado. A lei de incentivo a cultura foi criada com o intuito de mudar esse quadro, mas isso ainda não foi o suficiente. Ainda hoje, o teatro é direcionado a um publico segmentado. Apesar de muitas vezes não receber o seu devido valor, o teatro é fundamental na formação cultural de qualquer pessoa já que ele também nos faz conhecer um pouco mais sobre a cultura nacional. “A maior dificuldade hoje é conseguir teatro, isso é louco. Existe uma programação imensa, muitos grupos de teatro, calendários, agendas. E a captação também, porque tudo ficou inflacionado a partir da isenção”, comenta Samuel Mota, professor de teatro. Além disso, Samuka Anuragi, seu nome artístico, também esclarece que existe um mercado negro dos teatros. Ele reclama que quando entra em cartaz uma peça de teatro com um patrocinador, as casas inflacionam os valores de aluguéis, pois acreditam que é uma peça de grande porte, cheia de dinheiro. ”O Brasil acaba tornando-se podre em cultura pelo fato de ser dedicado a um público muito segmentado, devido ao valor dos ingressos para ver peças teatrais”, afirma Geórgia Ávila, estudante de Artes Cênicas. Esse quadro, para ela, podia ser facilmente resolvido, se o governo dedicasse uma verba maior para grupos de teatro, ou se empresas privadas investisse um patrocínio maior. 40

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A Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo diz que conta com programas de incentivo a cultura como o PROAC que é realizado com recursos orçamentários próprios da Secretaria. É um mecanismo de financiamento que busca ampliar e diversificar a produção, criar novos espaços, preservar o patrimônio e promover formas de circulação de bens culturais no Estado. A proposta é viabilizar projetos que muitas vezes não teriam participação no mercado cultural, mas que têm grande significado para a sociedade. Com essas leis nada muda, e produtores culturais continuam a reclamar da falta de patrocínio tanto de órgão publico quanto privado. O estudante de artes cênicas Marcelo Oliveira diz que tem grande paixão por teatro, mais acredita que aqui no Brasil essa expressão artística não tem grande reconhecimento por grande parte da população brasileira. “As peças de teatro apresentam cultura e transmitem conhecimento aos telespectadores, as pessoas devem valorizar e apreciar essa arte, mas, acredito que ainda carece de uma disseminação maior para o publico e demanda de incentivos para se caracterizar como um hábito popular, como assistir jogos de futebol ou ir ao cinema”. O teatro é fundamental na formação cultural de qualquer povo. Além de nos mostrar a cultura e forma de pensar de determinada época e contexto social, o Teatro também nos faz rir ou chorar, sendo considerada uma das expressões artísticas mais fortes de qualquer povo. “Faço teatro para usá-lo como uma ferramenta de transformação pessoal por meio da arte e passar conhecimento e informação adiante de forma lúdica e expressiva, conta Marcelo com grande entusiasmo”. A vida de quem vive de teatro é intensa e instável ao mesmo tempo. “É preciso muito trabalho e empreendedorismo, diferentemente do que se pensa, é preciso acordar a sete da manhã e trabalhar oito horas por dia, como todo mundo, às vezes mais, muito mais. É preciso ter um bom planejamento, afinal você é seu próprio patrão”, explica Karen Guimarães atriz recém-formada. “O trabalho continua muitas vezes na confecção de figurino, cenário, preocupação com divulgação, produção, enfim, tiramos a função de outros profissionais justamente devido a falta de recurso e de apoio. Infelizmente essa não é uma realidade regional, mas sim de todo um cenário teatral”, completa Fabiano Santos, produtor e diretor de teatro. A vida de quem vive de teatro é uma montanha-russa. “Tem correr muito para trabalhar. Hoje tenho o meu grupo de teatro, mas temos que correr atrás de apoiadores, projetos e leis de incentivo. Em um momento estamos lá em cima, em outro sofremos uma queda. Mas a adrenalina que sentimos… ah! Não tem nada que pague”, contou. Erivelto Santos, estudante da arte conclui. “Na minha vida o teatro tem o papel de repensar a realidade, o de aproximar da fantasia, o de entreter, o de questionar. O teatro é a expiração de forma sutil de toda a grandeza da capacidade e criatividade do ser humano. O teatro cada vez mais me aproxima do humano, em um cotidiano que nos força a sermos máquinas”.

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Publicidade dá adeus à Francesc Petit Maior publicitário do País morre em decorrência de um câncer e deixa publicidade de luto Em setembro deste ano os admiradores da arte publicitária e da pintura ficaram de luto e o Brasil perdeu um dos maiores diretores de arte. Francesc Petit Reig, o “P” da renomada agência publicitária DPZ morreu em decorrência de um câncer, com o qual conviveu por um ano. Petit foi o responsável pela criação de logotipos famosos no País, como o S da Sadia e a pedra preta – hoje azul – do Banco Itaú, além da marca Gol Linhas Aéreas e, em parceria com Washington Olivetto, a famosa campanha do Bombril, que teve como garoto propaganda o ator Carlos Moreno. A história do espanhol no Brasil começou em 1952, quando tinha 18 anos. Petit trabalhou na JWT e na McCann-Erickson antes de se tornar sócio-fundador da DPZ junto com Roberto Duailibi e José Zaragoza. Além de pintor, ele também foi autor de livros, entre eles o Propaganda Ilimitada, em que fala sobre o negócio da propaganda, e Faça Logo uma Marca, sobre marcas famosas criadas por ele.

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A DPZ A história da DPZ começou cerca de dez anos antes da criação da agência, com o estúdio Metro 3, uma sociedade entre Zaragoza, o produtor gráfico Ronald Persichetti e Petit (até então na McCann). Eles ganharam notoriedade por dois aspectos, que eram a excelência dos layouts que produziam para as agências e o uso de uma tecnologia ainda incomum à época – o uso de fotografias nas publicidades. Duailibi já colaborava para o estúdio como freelancer, pois gerenciava o escritório paulista da Standard, que era a maior agência do País até o momento. O trio se encontrava fora do expediente, em almoços de segunda-feira organizados na casa da mãe de Duailibi, no bairro Paraíso, Zona Sul de São Paulo. Foi num deles que Duailibi foi convidado para ser sócio de uma agência ao lado de Zaragoza e Petit. Em julho de 1968, em plena Ditadura Militar, surgiu a DPZ, ocupando uma casa – com direito a estúdio fotográfico – no Jardim Paulista, bairro nobre de São Paulo. Além dos três sócios. Os primeiros clientes da agência que ajudaram a empresa a conquistar outros de maior porte, foram à rede de revendedoras da Ford Borda do Campo e a Fotoptica. A estabilidade da empresa se confirmou três anos depois. Assim como a economia brasileira vivia um milagre, a DPZ passava a criar para ícones do capitalismo brasileiro, como o Banco Itaú.

Imagens: Divulgação - Publicitário era um dos sócios da conceituada DPZ.

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Da casa na Alameda Casa Branca, migrou para outra, na esquina da Avenida Brasil com a Rua Augusta. O imóvel pertencia a um contato comercial de um grande veículo. Em 1971, o problema chegou ao fim: apesar do terreno comprado no Real Parque para construir uma sede, os sócios optaram por se mudar para um prédio próprio a poucas quadras de sua então sede, na Cidade Jardim, onde a DPZ opera até hoje.

Campanhas mais famosas Bombril Entre as marcas famosas criadas por Petit está Criada a campanha da Bombril com Carlos Moreno como garoto-propaganda. A produção contou com a ajuda do redator Washington Olivetto. A campanha fez tanto sucesso que foi listada no Guinness Book em 1994 como a que se manteve mais tempo no ar estrelada pelo mesmo ator. Sadia Criado em 1971 como parte da estratégia da empresa para popularizar seu frango defumado, o franguinho Sadia, o mascote Lequetreque, foi uma criação de Petit, assim como o “S” que o acompanha. Em 1985, o nome do personagem foi escolhido por meio de um concurso entre consumidores.

Imagens Divulgação Legendas: Foto 1 – Campanha ficou famosa com imagem do ator Carlos Moreno. Foto 2 - Cor: S da Sadia ganhou destaque. Foto 3 - Mais moderna: Cores da logomarca foram trocadas. Foto 4 - Fama: Empresa contratou DPZ devido sua notoriedade.

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Banco Itaú Petit também está por trás da escolha do logotipo e identidade visual do Itaú. A primeira versão, criada em 1973, não nasceu com as cores, azul, laranja e amarelo atuais - era em preto e branco. As cores foram introduzidas à marca somente em 1992, quando o banco decidiu modernizar o seu visual e sua linguagem. Da década de 1990 até hoje, apenas mudanças sutis foram feitas. Gol linhas aéreas A DPZ foi escolhida pela GOL para a criação da sua identidade visual no nascimento da empresa, em 2001. O projeto é assinado pelo diretor de arte. Por: Natalia Marques

Foto 1.

Foto 2.

Foto 3.

Foto 4.

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Imagens: Divulgação - Natureza: PET aproxima as pessoas da natureza

Aventuras pela Natureza do Parque Ecológico Esse é um ponto de lazer, em que quase ninguém sabe que pode visitar shoppings ou restaurantes, sempre são as primeiras opções do público Passeios, mas culturais não são o foco da maior parte dos jovens de São Paulo. O PET- Parque Ecológico do Tietê- que conta com três núcleos: o Engenheiro Goulart, Jacuí, Ilha do Tamboré. O parque foi tombado pelo Governo do Estado e passou a ser administrado pelo Daee (Departamento de Águas e Energia Elétrica). Criado em 30 de abril de 1976, o Parque Ecológico do Tietê só foi inaugurado em março de 1982, e o Projeto Arquitetônico Paisagístico do arquiteto Ruy Ohtake, possui uma área de 15,6 milhões m²: Desse total, 14 milhões m² pertencem ao Núcleo Engenheiro Goulart; 171 mil m² ao Núcleo Vila Jacuí; e cerca de 1,5 milhões m² ao Núcleo Ilha do Tamboré. O PET equivale a cinco Central Parks de Nova Iorque ou a 11 Ibirapueras de São Paulo.

Núcleo Engenheiro Goulart

O parque núcleo Engenheiro Goulart, localizado no bairro do Cangaíba, na Zona Leste de São Paulo representa, atualmente, o maior dos três núcleos abrangidos pelo PET que, por sua vez, está inserido no Projeto Parque Várzeas do Tietê. São 14 milhões m² de espaço verde visitado por cerca de 300 mil pessoas, mensalmente, a procura de uma opção mais ecológica de lazer e diversão gratuita. Quem for ao Engenheiro Goulart poderá desfrutar de 9 km de trilhas; pista de bicicross; 14 km de ciclovia (na área externa do centro de lazer) e aluguel de bicicletas; três quadras de futsal, duas quadras poliesportivas e cinco campos de futebol society; 16 campos de futebol (quatro internos e 12 externos); um campo de beisebol; conjunto aquático composto por três piscinas (adulto juvenil 46


e infantil); playground; academia; palco ao ar livre; teatro de arena; anfiteatro; nove quiosques com churrasqueira e 12 churrasqueiras descobertas; lago com pedalinho e pedalão; passeio de trenzinho e triciclos; restaurante e lanchonetes (que funcionam todos os dias). A estrutura do parque conta ainda com 12 sanitários, sendo quatro para pessoas com deficiência, sete vestiários e ambulatório. São três quadras de futsal, duas quadras poliesportivas e cinco campos de futebol society; 16 campos de futebol (quatro internos e 12 externos). O uso das quadras e dos campos de futebol é realizado mediante reserva, já os campos de futebol society são de uso livre, por ordem de chegada. O núcleo dispõe de uma academia com equipamentos para musculação. Ela funciona todos os dias, das 7h às 17h. Além disso, as terça e quinta, das 8h às 9h e das 9h às 10h acontecem aulas de ginástica para todos que quiserem participar. Ambos são gratuitos e basta levar atestado médico autorizando a prática de atividades físicas. O exame médico é realizado em postos de saúde da prefeitura ou do estado, uma exigência para a confecção da carteirinha para a entrada. O núcleo conta com um palco ao ar livre, anfiteatro e teatro de arena. Para a utilização dos mesmos é necessário agendamento prévio. O parque oferece também pedalinho/cisne (duas pessoas R$ 17,00 – 30 minutos); e pedalão (quatro pessoas R$ 30,00 – 30 minutos),ótimo para a criançada aproveitar a natureza e o aluguel de bicicleta (R$ 7,00 – 1 hora) e triciclo individual (R$ 7,00 – 1 hora); triciclo família (duas adultos e uma criança R$ 25,00 – 1 hora) e passeio de trenzinho (R$ 4,00 p/ pessoa – 30 minutos). Esses serviços funcionam nos finais de semana e feriados.

Núcleo Vila Jacuí (São Miguel Paulista)

Quem visitar o Jacuí, núcleo um pouco menor com 171 mil m² - bem ao lado do Núcleo Engenheiro Goulart, na zona leste - encontrará: 2 campos de futebol, 3 quadras poliesportivas, pista de bicicross e skate, quadra para vôlei de praia, áreas para recreação, 12 quiosques com churrasqueira, salão de festa, vestiários, pista de cooper, equipamento e centro de atividades para a terceira idade. Imagens: Divulgação - Atrações: Pedalinho é uma das atrações do Parque

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Imagens: Divulgação

Como Chegar: Entre no km 23, da Rodovia Ayrton Senna, pista sentido Rio de Janeiro; de Metrô, desembarque na Estação Artur Alvim, pegue o ônibus 2702-10 - Vila Americana - desça na Av. São Miguel, altura do nº 9.000, siga até o acesso ao túnel da CPTM. Após passar pelo túnel já estará no parque; pela CPTM, desembarque na Estação Ermelino Matarazzo, pegue o ônibus 2590-10 União de Vila Nova e desça em frente ao parque.

Núcleo Ilha do Tamboré (Barueri)

Já no Ilha do Tamboré, localizado na zona oeste, os frequentadores têm à disposição uma área total de 1,5 milhões de m² e poderão usufruir de: quatro quadras poliesportivas; dois campos de futebol; três quadras de vôlei de praia; três mesas de ping pong; pedalinho; playground; passeio de trenzinho; palcos para apresentações; 3 salões de festa; 1 alojamento para escoteiros; 9 quiosques; 25 churrasqueiras e o Salão de Curiosidades. O núcleo, a exemplo do Engenheiro Goulart, também possui um roteiro de educação ambiental próprio. Endereço: Av. Via Parque, 1600. Atividades e equipamentos que precisam ser agendados: Área Esportiva, Educação Ambiental, quiosques e salões. Como Chegar: De carro, pegue acesso por meio da Rodovia Castelo Branco no Km 24, sentido SP/ interior; já no Terminal Rodoviário em Barueri, pegue o ônibus com o destino ao Residencial “Dezoito do Forte”- via parque. Já para os frequentadores que procuram um pouco mais de cultura, o parque oferece:

Museu do Tietê

O Rio Tietê é um dos símbolos mais fortes do Estado de São Paulo e para retratar todas as etapas da sua história ao longo dos anos, o Daee mantém, há 12 anos, um museu no Centro de Lazer do Núcleo Engenheiro Goulart. Ali, encontra-se um rico acervo, dividido em blocos temáticos. Cada ambiente retrata um ciclo da cronologia do rio. No primeiro espaço o visitante encontra artefatos dos índios que viviam próximos às suas margens, tais como peças usadas pelos homens 48


para caçar na floresta e se defender, nos rituais sagrados e objetos usados pelas mulheres para preparar alimentos. Várias réplicas de pinturas do século 19, também estão expostas no salão representando o ciclo das Monções, expedições fluviais povoadoras e comerciais que navegavam pelo rio Tietê até o rio Cuiabá. As fototelas são de artistas consagrados como o da“Partida”, de autoria de José Ferraz de Almeida Junior, apresentado ao público em 1898. O outro bloco do museu agrega um acervo fotográfico que retrata as primeiras décadas do século 20, quando o rio se destacou como a arena dos esportes náuticos, pescarias e um dos principais locais de lazer da cidade de São Paulo. Há ainda uma embarcação “ouble Skif de 1937, doada pelo Clube de Regatas Tietê que participou de várias competições de regatas”. No último bloco o visitante depara-se com fotos mais atuais, em que o Tietê já aparece poluído e sem vida; e amostras de água coletada em várias cidades por onde ele passa no percurso da nascente em Salesópolis até Barra Bonita. Imagens: Divulgação

Os grupos que queiram fazer uma visita monitorada ao Museu devem agendar previamente. As visitas são realizadas de segunda a sexta das 9h às 16h. O Museu do Tietê é composto de 9 mil exemplares. O acervo inclui livros dos mais variados temas, porém com maior ênfase em relação às questões ambientais, sobre o rio Tietê e a história da cidade de São Paulo. Além dos livros estão disponibilizados vários TCCs e monografias contando a história do Tietê e outros assuntos relacionados a ele, doados pelos próprios estudantes. Aceita-se doação de livros, principalmente àqueles voltados à ecologia e educação ambiental. A consulta dos exemplares pode ser feita no local, ou o interessado leva o livro para casa. Neste caso, é necessário preencher um cadastro, apresentar RG e comprovante de residência.

Oficina Cultural do Tietê

É outro espaço de arte e reflexão sobre a natureza e aberto às manifestações culturais da comunidade. No roteiro de suas atividades há como vivenciar as transformações sofridas ao longo dos anos pelo 49


Imagens Divulgação – Diversão: Parque é ideal para passeios em família.

rio Tietê, fruto de um desenvolvimento desorganizado e predatório, assim como a sua recuperação, por meio de projetos desenvolvidos pelo Daee e outros órgãos governamentais. A oficina oferece atividades, tanto para as crianças como para toda a comunidade, abordando temas culturais e educativos, além de desenvolver programas pedagógicos sobre assuntos ambientais, a exemplo de reciclagem, que visam a proteção do rio Tietê.

Programa de Educação Ambiental

O DAEE iniciou as atividades de Educação Ambiental em abril de 1984 e, desde então, realiza um trabalho constante de conscientização sobre o meio ambiente. Até hoje, já recebeu cerca de 320 mil visitantes. O Centro de Educação Ambiental tem um programa que propõe contribuir no despertar das iniciativas de construção para um ambiente favorável à melhoria da qualidade de vida, contando com a participação consciente e construtiva da população. Nele são propostas atividades que proporcionam o contato com a fauna e flora local e que abordam os seguintes temas: - Ambiente físico (ecossistemas naturais e ecossistemas transformados), Seres vivos (importância, descrição, e inter-relacionamento), Uso racional das potencialidades naturais, Impacto da alteração do ambiente (desmatamento, construção de barragens nos rios, urbanização, agriculturação, entre outros), Aproveitamento e situação atual da várzea do rio Tietê, Poluição e propostas de recuperação do rio Tietê, Fauna e flora do Parque Ecológico, História da ocupação da várzea do rio Tietê e do local onde hoje fica o PET, Poluição e lixo (tratamento, aproveitamento, reciclagem, entre outros). Essa programação é para grupos de 50 pessoas e é necessário agendamento prévio. Os horários disponíveis para recepção dos grupos é às 9h e às 13h de segunda a sexta. Ela pode ser feita de duas maneiras:

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Imagens Divulgação – PET: Parque oferece bicicletas para serem alugadas

Visita ao Viveiro

Um dos principais motivos que leva o visitante a realizar o passeio do viveiro de mudas é presenciar os estágios de crescimento das plantas e também a possibilidade de encontrar animais em seu habitat natural.

CRAS (Centro de Recuperação de Animais Silvestres)

Há mais de 27 anos, o DAEE administra o CRAS. Diversas espécies chegam ao local pelas mãos de profissionais ligados ao IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), Polícia Militar Ambiental, Corpo de Bombeiros e o Centro de Controle de Zoonoses. Em alguns casos especiais, os animais são entregues por seus proprietários, que os mantinham em cativeiro como bichos de estimação. Os animais são recebidos de segunda à sexta, das 8h às 17h. A unidade realiza um importante papel em prol do meio ambiente, pois trata as espécies apreendidas ou resgatadas pelos órgãos fiscalizadores. Inaugurado em 1986, o CRAS cuida de vários animais, desde os mais comuns até os ameaçados de extinção. Anualmente, recebe em média sete mil deles. Após a recepção, mamíferos, répteis e aves são identificados por espécie, sexo e procedência, passam por uma avaliação de seu estado físico para obter o tratamento mais adequado e são registrados para, finalmente, receberem uma anilha (anel de identificação colocado na pata do animal) ou microchip com seus dados. Vale ressaltar, que o núcleo atende apenas animais de pequeno porte, tais como araras, papagaios, avião, macacos, cobras, tartaruga e jabutis, além de muitos pássaros. Como chegar ao PET O Parque está localizado na Av. Dr. Assis Ribeiro, altura do nº 3.000. Indo de carro, entre no km 17 da rodovia Ayrton Senna, sentido SP/Rio. De Metrô, desembarque na estação Penha, pegue o ônibus Jardim Keralux e desça na entrada do parque; pelo trem da CPTM, desembarque na estação Engenheiro Goulart, e siga caminhando até a entrada do parque, que é gratuita para todos os públicos. Por: Blenda Amarílis

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O que vale mais é o dinheiro e não as histórias

O cine Belas Artes fechou as portas para virar mais um prédio abandonado no centro de São Paulo.

Todo fã paulistano de cinema alternativo com certeza conhecia, ou já ouviu falar do cinema Belas Artes. Algumas pessoas iam sempre, outras, de vez em quando. Era um ótimo lugar para ver um filme e para conhecer pessoas. Porém, ele parou de funcionar em março de 2011. E agora, dois anos depois, é só mais um prédio abandonado no centro de São Paulo. Segundo boatos que corriam pela cidade, o proprietário havia se cansado do cinema e queria colocar no lugar alguma coisa mais lucrativa, principalmente com o fim do patrocínio do bando HSBC. Entretanto, o que revolta os jovens e os velhos amantes do cinema não é o tanto o fechamento do Belas Artes, mas sim o fato de que não aconteceu nada lá. A estudante de Arquitetura e ex - frequentadora do cinema, Érika Endo, é uma das indignadas e acha tudo isso é um desperdício de espaço e de cultura. “Antes, virar a esquina da Avenida Paulista com a Consolação era empolgante. Tinha sempre aquela sensação de ‘Eu vou ver um filme que não tem em nenhum outro lugar’, mas agora tem só essa coisa pichada e abandonada”, explica a estudante ainda não conformada com o que aconteceu com o cinema.

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Para Érika, o Belas Artes era o melhor cinema de São Paulo, porque ele colocava em cartaz todos os filmes que elas queria ver. “Eu me lembro de um filme que desde que eu fiquei sabendo que ia ser gravado, fiquei preocupada. Porque ele era muito ‘B’ para passar nos cinemas dos shoppings, mas eu queria muito ver antes de ter que baixar da internet. Era o Control, que contava a história do Ian Curtis, vocalista do Joy Division. Só que daí ele entrou em cartas no Belas Artes. Eu fiquei super empolgada, e depois que assisti não queria mais sair da sala”, disse com um tom de tristeza. Foi aí que Érika notou uma coisa que quase todo mundo que ia ao cinema notava. O Belas Artes era realmente um lugar, no sentido mais filosófico da palavra. Era difícil alguém ir lá só para ir ao cinema depois da primeira vez. Todo mundo sentia a vontade de aproveitar o lugar. Era comum chegar algumas horas antes do filme para aproveitar o Snack Bar, a Vendinha de filmes e os cartazes nas paredes. Renan Ribeiro, um estudante de fotografia, é forçado a passar quase todo o dia na frente do prédio por ser seu caminho para a faculdade. “Está difícil de acostumar com a falta do cinema. Eu sempre passo aqui na frente e sinto falta de tomar um café, sentir o cheiro de pipoca e conversar como meus amigos. Ver ele assim, todo largado é também muito esquisito”. Ele aproveitava o Belas Artes. Às vezes, nem ia ao cinema. Só passava para relaxar. Ver o lugar. Curtir o lugar. Ver um filme era consequência. Quem levou Ribeiro ao Belas Artes pela primeira foi sua tia. “Uma maluca pela sétima arte e colecionadora de fitas VHS chamada Magali”. Eles foram ver um filme francês que o ele nem sequer lembra o nome, mas foi que foi perfeito para as suas descobertas. “Quando eu entrei no prédio, fiquei hipnotizado pelo o que eu vi. Entrar em um cinema de rua tão bonito quanto o Belas Artes foi uma experiência, completamente nova para mim. Foi aí que eu soube que era lá que eu queria ficar”. E foi o que ele fez quase todos os dias ele ia lá com alguém, até para fazer trabalhos da faculdade. Na fachada do prédio havia um letreiro que dizia “Desde 1952” e logo que ele fechou, o letreiro continuou por um tempo. O que dava uma sensação de ironia e até um fim meio cinematográfico.

Imagens: Divulgação

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Uma última coisa para ficar na cabeça de todo mundo depois de saírem do cinema, igual um filme do Kubrick ou do Hitchcock. Porém, até esse resquício que ele deixou inconscientemente foi apagado. Algum dos responsáveis pelo imóvel provavelmente não gostou da ironia que a frase criava e mandou tirarem o letreiro. Quando alguém fica um tempo parado na frente do prédio, percebe que quase ninguém consegue permanecer apático ao que aconteceu com o local. Todos têm um comentário, uma indignação ou somente uma surpresa ao não ver nada além de mais um lugar caindo aos pedaços bem no meio da Cidade de São Paulo. Parece que a não há um senso de conformidade com o que aconteceu, e isso é contagiante. Entretanto, segundo o que o advogado do dono do imóvel disse em uma entrevista para o Estadão em 2011, logo depois do encerramento das atividades do cinema que essa paisagem triste, dramática e claro cinematográfica vai continuar. E até hoje realmente continuou. Por enquanto não há nenhum novo inquilino e nenhuma novidade. Então, a conclusão dos assuntos inacabados do cinema ainda vai demorar, mas quem não vai descansar paz serão os paulistanos que viviam o Belas Artes. Por: Rafael Pires

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Imagens: Divulgação - Tombado: Cine Belas Artes teve suas atividades encerradas em 2011. Imagens: Divulgação - Cine: O Belas Artes era um dos cartões postais de São Paulo.

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História na História de São Paulo

São Paulo é uma cidade como nenhuma outra no Brasil. Maior metrópole da América do Sul que trás consigo atrações culturais inesquecíveis.

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Em São Paulo temos várias opções de lazer, parques, shopping, Monumentos e os museus em pontos estratégicos da cidade, sempre quando nos deparamos com um, algumas pessoas não gostam de entrar e conhecer o conteúdo que pode sim fazer muita diferença na vida de uma pessoa. Existem museus espalhados por São Paulo que ficam discretos e nem todos tem conhecimento e nem procuram, explorar a cidade onde moram.

Museu Anchieta

Imagens: Divulgação

Museu Anchieta fica Localizado no Pateo do Collegio na região da Sé, o Museu Anchieta é composto por cerca de 700 objetos que integram as coleções, hoje expostas em seis salas e no espaço da cripta, o espaço oferece ao visitante a oportunidade de se situar geográfica e historicamente frente ao sentido que tem o espaço para o nascimento da cidade de São Paulo. Textos explicativos, mapas e maquete recentemente restaurados estão expostos e registrados ali para todos poderem conhecer. O acervo foi constituído a partir de coleções particulares pertencentes a padres residentes na comunidade do Pateo do Collegio, de doações e da devolução de alguns dos objetos que pertenceram originalmente à Igreja e ao Colégio dos Jesuítas. O local, conta ainda com intérpretes de Libras para surdo/Mudo, além de profissionais para tratamento ao público com deficiência intelectual, uma preocupação que o museu tem em mostrar em detalhes para todos suas peças. Há uma entrada especial para cadeirantes, bilheteria acessível e obras em uma altura acessível. Para deficientes visuais, o museu oferece mediação e percurso tátil. 57


MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand) A arquitetura “futurista” do museu do MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand) – localizado na Av.Paulista é um dos mais importantes museus do hemisfério Sul e um dos principais cartões-postais da cidade. Está na lista das dez atrações turísticas mais visitadas de São Paulo e, as terças, oferece visita gratuita ao público em geral. Nos demais dias, de quarta a domingo, o ingresso custa R$ 15. Desde a fundação, o museu recebeu centenas de exposições de artistas internacionais, através do intercâmbio de obras com diversos museus do mundo e foi sede de instituições renomadas, como a ESPM – Escola Superior de Propaganda e Marketing e a escola de artes da FAAP – Fundação Armando Álvares Penteado. A Mostra Internacional de Cinema também iniciou atividades no museu. O MASP é um dos locais mais frequentados da cidade e encanta seus visitantes com um acervo de cerca de oito mil peças. Possui obras de grandes nomes da pintura nacional (Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Anita Malfatti e Almeida Junior) e internacional (Rafael, Mantegna, Botticceli, Delacroix, Renoir, Monet, Cèzanne, Picasso, Modigliani, Toulouse-Lautrec, Van Gogh, Matisse e Chagall).

Museu do Relógio O Museu do Relógio mostra a modernização desses simples acessórios tão fundamentais no cotidiano. Fundado em 1975, O Museu do Relógio ficou um período fechado para reforma e ampliação e foi reaberto para visitação no final de outubro de 2011. No início, o local tinha somente peças da coleção pessoal do fundador da empresa de relógios DIMEP, o professor Dimas de Melo Pimenta. Atualmente, o acervo possui mais de 600 peças que contam boa parte da história evolutiva dos relógios no mundo e é composto também por exemplares provenientes de doações de diversos admiradores deste objeto.

Museu Afro do Brasil O Museu Afro do Brasil foi fundado em 23 de outubro de 2004 e possui um acervo com mais de cinco mil obras, produzidas desde o século XV, representando a cultura africana e afro-brasileira. O museu fica no Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega, um dos edifícios integrantes 58


do conjunto arquitetônico do Parque Ibirapuera, projetado por Oscar Niemeyer na década de 1950. Com pinturas, esculturas, gravuras, documentos, fotografias e peças etnológicas, o local abarca traços das diversas representações da cultura africana e afro-brasileira, na perspectiva de autores nacionais e internacionais. As obras abordam temas como religião, trabalho, arte, história e escravidão do povo. O curador e artista plástico Emanoel Araujo foi responsável pela doação de mais de duas mil obras do acervo. O museu mantém o programa “Singular Plural: Educação Inclusiva e Acessibilidade”, que atende às pessoas com deficiência. Para esse público, é possível agendar visitas guiadas, além de disponibilizar recursos sem marcação prévia. Existem vagas de estacionamento reservadas, além de intérpretes de Libras, rampas acessíveis e espaços adaptados, material informativo em braile e alto contraste, entre outros. A programação do Museu Afro Brasil é ocupada com exposições de longa duração, como a “África: Diversidade e Permanência”, temporárias e atividades educativas periódicas. O visitante poderá aproveitar também a loja de produtos com temática africana. Temos muito mais lugares históricos pela cidade, mas muitos não são explorados e outros que se tornam inexistentes, então, mostrando um pouco da vida de cada um deles, podemos descobrir coisas fantásticas que só tende a acrescentar no conhecimento. Vale a pena conferir esses acervos. Por: Blenda Amarílis

Imagens: Divulgação - Afrobrasil: Museu foi inaugurado em 23 de outubro de 2004.

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Imagens: Divulgação - Estilo: As variações do sertanejo ainda são muito discutidas

Afinal, qual é o sertanejo verdadeiro? Devido às mudanças e misturas no estilo sertanejo as pessoas passaram a ter certa confusão a respeito da classificação do gênero O sertanejo sofreu diversas modificações desde o seu surgimento, em 1910, até os dias de hoje. Na década em que nasceu, nas fazendas do interior de São Paulo, o estilo – puramente nacional – tinha como principal característica as raízes caipiras e, consequentemente, os compositores eram as pessoas que viviam na área rural. Também conhecido como modas, toadas, cateretês, chulas, emboladas e batuques, o sertanejo tem como som predominante a viola e é caracterizado pelas melodias românticas e uma dança animada. Destacaram-se inicialmente, entre as duplas pioneiras nas gravações em disco de vinil, Zico Dias e Ferrinho, Laureano e Soares, Mandi e Sorocabinha e Mariano e Caçula. Foram as primeiras duplas a cantar principalmente as chamadas modas de viola, de temática principalmente ligada à realidade cotidiana - casos de A Revolução Getúlio Vargas e A Morte de João Pessoa, composições gravadas pelo Zico Dias e Ferrinho, em 1930, e A Crise e A Carestia, modas de viola gravadas por Mandi e Sorocabinha, em 1934. Gradualmente, as modificações melódicas e temáticas (do rural para o urbano) e a adição de novos instrumentos musicais consolidaram, na década de 1980, um novo estilo moderno da música sertaneja, chamado hoje de sertanejo romântico – primeiro gênero de massa produzido e consumido no Brasil, sem o caráter geralmente épico ou satírico-moralista e menos frequentemente, lírico do sertanejo de raiz. Para o músico Julio César Porto, que toca em barzinhos da Vila Madalena, as recentes mudanças que o sertanejo sofreu deve-se ao novo público que passou a ouvir o estilo. “Acredito que tenha 60


ocorrido devido a mudança do público, a evolução “do mundo” com a miscigenação dos estilos, o inevitável acréscimo de novos sons, com o intuito de agradar o público cada vez mais diversificado e com gostos cada vez mais seletos”, explica. Apesar disso, para o músico ainda é possível encontrar cantores atuais com as características de sertanejo de raiz: “Para mim o sertanejo real é extremamente antigo e vem daquelas duplas e bandas que ainda tinham muito da influência de moda de viola, porém o sertanejo se adaptou. Hoje em dia, um bom exemplo de sertanejo seria sons como os da dupla Victor e Léo ou então da Paula Fernandes e Jorge e Matheus”. Ainda segundo Julio, os novos cantores, como Luan Santana, Gusttavo Lima, e duplas como Thaeme e Thiago e Fernando e Sorocaba não cantam – exatamente – sertanejo, mas sim uma variação do gênero. “Pode ser considerada uma variação do sertanejo pelo estilo melódico das musicas. De forma geral, acredito que eles se encaixam melhor em uma nova categoria ramificada do sertanejo”. O primeiro sinal de mudança no sertanejo surgiu no final de 1960, quando a dupla Léo Canhoto e Robertinho incluíram a guitarra elétrica nas melodias. A partir daí o chamado ritmo jovem começou a ganhar forma. Um dos integrantes do movimento musical Jovem Guarda, o cantor Sérgio Reis passou a gravar na década de 1970 um repertório tradicional sertanejo, de forma a contribuir para a penetração mais ampla ao gênero. Renato Teixeira foi outro artista a se destacar àquela altura. Naquele período, os locais de performance da música sertaneja eram originalmente o circo, alguns rodeios e principalmente as rádios AM. Já a partir da década de 1980, essa penetração estendeu-se às rádios FM e também à televisão - seja em programas semanais matutinos de domingo ou em trilhas sonoras de novela ou programas especiais. Durante os anos oitenta, houve uma exploração comercial massificada do sertanejo, somado, em certos casos, à uma releitura de sucessos internacionais e mesmo da Jovem Guarda. Dessa nova tendência romântica da música sertaneja surgiram inúmeros artistas, quase sempre em duplas, entre os quais, Trio Parada Dura, Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Zezé Di 61


Camargo e Luciano, João Paulo & Daniel e Rick & Renner, além das cantoras Nalva Aguiar e Roberta Miranda. Alguns dos sucessos desta fase estão Fio de Cabelo, de Marciano e Darci Rossi, Pense em Mim, de Douglas Maio, Entre Tapas e Beijos, de Nilton Lamas e Antonio Bueno e Evidências, de José Augusto e Paulo Sérgio Valle. Contra esta tendência mais comercial da música sertaneja, reapareciam nomes como da dupla Pena Branca e Xavantinho, adequando sucessos da MPB à linguagem das violas, e surgiam novos artistas como Almir Sater, violeiro sofisticado, que passeava entre as modas de viola e os blues. A indústria fonográfica lançou na década de 2000 um movimento similar, chamado por alguns de sertanejo universitário, com nomes como Guilherme & Santiago, Marcos e Léo, João Bosco & Vinícius, César Menotti & Fabiano, Jorge & Mateus, Victor & Leo, Fernando & Sorocaba, Luan Santana, Marcos & Belutti, João Neto & Frederico. Como esse movimento não para e ganha cada vez mais adeptos, o mercado que antes tinha como foco de surgimento de duplas e artistas sertanejos no estado de Goiás, hoje tem eleito novos ídolos do estado de Mato Grosso do Sul como a revelação escolar Luan Santana e a dupla Maria Cecília & Rodolfo.

Sertanejo universitário

O Sertanejo Universitário mudou muito a forma do sertanejo convencional, já que alguns instrumentos como a sanfona, se tornaram mais eletrônicos, assim, tornando a música com um ritmo um pouco mais acelerado. Sua composição tem como temas de festas, mulheres, por vezes cômica, e chama-se universitário pelo fato de que seus maiores ouvintes são adolescentes. Na segunda década do século XXI o estilo sertanejo recebe tendências de vários estilos mais comerciais, como axé, pagode e até funk, além de estilos com raízes mais populares, como o “arrocha”. Tais misturas vêm sendo criticadas, principalmente pelas duplas mais antigas, por descaracterizar a música sertaneja em praticamente todas suas instâncias: letra, melodia, toada e qualidade vocal. Discussões a parte, o gênero “misto”, seja qual for a classificação formal, se popularizou no Brasil, e vem cada vez mais conquistando adeptos com o rótulo comercial “sertanejo universitário”. Por: Natalia Marques

Imagens: Divulgação - Sucesso: Fernando e Sorocaba é um dos sucessos do sertanejo universitário.

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