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ESTRATÉGIAS DE DESIGN ECOEFICIENTE PARA O POLO DE CONFECÇÕES DO AGRESTE PERNAMBUCANO Emilio Augusto Gomes de Oliveira (UFPE) emilioDesign@gmail.com

Resumo: Este artigo tem por objetivo apresentar alternativas de Design sustentável para a produção industrial do Polo de confecções do agreste pernambucano, notadamente nas cidades de Caruaru, Santa Cruz do Capibaribe, Toritama e Taquaritinga do Norte, sob a ótica das estratégias de Design ecoeficientes. Com com este trabalho, pretende-se contribuir para a difusão da construção de cenários atuais e de possíveis cenários futuros, para a sustentabilidade, propondo o designer como intérprete da sociedade na construção destes cenários. Desta forma, foi realizada uma pesquisa bibliográfica que forneceu subsídios teóricos para a fundamentação do estudo a partir das propostas dos professores Ezio Manzini e Carlo Vezzoli. Palavras chave: Design ecoeficiente. Sustentabilidade. Produção industrial

1 Introdução A emergência e a gravidade dos problemas ambientais, a consequente mobilização e a organização social e institucional em torno da problemática ambiental e a intensificação crescentes com os riscos ambientais globais, têm feito com que o conceito de desenvolvimento sustentável tenha se tornado vital para a compreensão da necessidade da obtenção de um desenvolvimento que considere o homem, a natureza e sua conservação. O desenvolvimento sustentável insere-se em um novo paradigma científico que procura a melhoria das condições de vida das sociedades atuais e futuras. Esta nova dimensão da teoria do desenvolvimento surgiu como resultado das lacunas conceituais, metodológicas e instrumentais dos modelos prevalecentes (crescimento, desenvolvimento econômico, desenvolvimento social). Sua compreensão conceitual conduz a um melhor entendimento processual, que abrange desde a economia, a ecologia, a legislação, a educação, a tecnologia, as políticas públicas e a administração empresarial, até questões relacionadas com a ética, a subjetividade, o comportamento humano e a cultura. Assim, de acordo com este novo paradigma, tecnologias e materiais alternativos podem ser utilizados, por exemplo, na organização espacial (através da reestruturação de zonas industriais e residenciais); no consumo e no aproveitamento de fontes alternativas de energia (solar, eólica e geotérmica); na produção e no processamento de alimentos (menos fertilizantes químicos, agrotóxicos e hormônios); na construção de casas (substituindo-se o aço, o concreto, o vidro, o alumínio, etc.) e no desenvolvimento de novos produtos utilizandose a atividade do Design industrial numa abordagem mais ecológica, como por


exemplo, com a reutilização de resíduos sólidos urbanos. Esta ação contribui com o meio ambiente, na medida em que evita a sobrecarga e prolonga a vida útil dos aterros sanitários. Neste sentido, o Design se torna um agente fundamental na preservação do meio ambiente, na geração de emprego e renda, bem como na criação de novos nichos de mercado acessíveis a todas as camadas da população. Portanto, propor alternativas para mudanças na produção e no consumo faz parte das estratégias do Design ecoeficiente, isto é a integração do desenvolvimento sustentável na concepção de bens e serviços. É também um eixo de ação que foi retomado pelos países participantes da reunião de cúpula sobre o desenvolvimento sustentável, realizada em agosto de 2002 na África do Sul. Esse verdadeiro desafio planetário exige uma evolução maior: a passagem gradual de uma sociedade de consumo para uma sociedade de uso. A maior parte dos bens materiais deve ser concebida de outro modo. Desta forma, o desafio consiste em imaginar produtos e processos pensados em escala humana. Os bens produzidos pelas empresas são as células-tronco de um “planeta-consumo”. Assim, a empresa se torna um dos principais elos da cadeia da mudança, que poderia aprimorar esses produtos oferecendo alternativas para aqueles que os concebem, financiam, produzem e distribuem e, por fim e, sobretudo para aqueles que os utilizam. Nesta ótica, os objetos do nosso cotidiano devem mudar profundamente. Não se trata de produzir menos, mas de outro modo: imaginar objetos eficientes, de simples uso e que possam respeitar o meio ambiente. Diante do exposto e reconhecendo que estes problemas da produção e consumo trarão grandes danos ao meio ambiente, surge, portanto, a necessidade de viabilizar, para esta e as futuras gerações, soluções de caráter sustentável que serão propostas neste documento. Diante do exposto, este artigo tem por objetivo realizar uma breve análise do ciclo de vida da produção industrial do Pólo de Confecções do agreste pernambucano, notadamente nas cidades de Caruaru, Santa Cruz do Capibaribe, Toritama e Taquaritinga do Norte, sob a ótica da utilização de estratégias de produção industrial sustentável ecoeficientes. Estas cidades foram selecionadas em virtude da sua importância no âmbito da região objeto de estudo. 2 Material e métodos Este estudo é centralizado no Estado de Pernambuco, especificamente na região do Agreste Central e Setentrional. Compreende quatro municípios de grande dinamismo, situados ao longo da BR-104, com uma área total de 1.779,5 km2 e uma população de 354.239 habitantes, segundo dados da Agência Estadual de Planejamento e Pesquisas de Pernambuco (CONDEPE/FIDEM, 2008). Nesse conjunto de municípios, o arranjo produtivo local compreende, em sua maior parte, os produtos têxteis e de confecção. Caruaru, o grande centro de logística e distribuição;


Toritama, o maior produtor de confecções de jeans; Santa Cruz do Capibaribe, a malharia, e Taquaritinga do Norte, as roupas íntimas e camisas pólo. Estes municípios detêm 73% da produção de vestuário do Estado (850 milhões de peças ao ano), sendo o município de Toritama, sozinho, responsável por 14% da produção nacional de jeans. Em relação ao emprego, a taxa de desocupação é de apenas 2,3% em Toritama, quando a de Pernambuco é de 18% e a da Região Metropolitana do Recife de 23%. Em contrapartida, pesquisa recente realizada pelo SEBRAE Pernambuco | FADE (RAPOSO & GOMES, 2003) aponta uma movimentação no setor de R$ 1,73 bilhões por ano, o que corresponde a 77 mil empregos diretos e indiretos, e 12 mil empresas formais e informais. Ainda de acordo com a CONDEPE/FIDEM, o setor de vestuário apresenta uma participação no emprego municipal de 41,30% em Toritama, 38,45% em Santa Cruz do Capibaribe e 15,80% em Taquaritinga do Norte. Toritama vem se consolidando como o município do jeans. A Região de Desenvolvimento Agreste Central está localizada na mesorregião do Agreste Pernambucano, com uma área de 10.117 km2, que corresponde a 10,22 % do território do Estado. A Região é constituída por 26 municípios e uma população de mais de 881 mil habitantes. A economia regional está predominantemente vinculada ao Pólo de Confecções (vestuário e produto têxtil), à produção agrícola, pecuária de corte e de leite, avicultura, floricultura, turismo e pelas diversas atividades de comércio e serviços associados aos centros urbanos dinâmicos. A RD Agreste Central possui centros urbanos que se destacam pela sua função comercial, com a presença de indústrias leves e de bens de consumo e artesanato que atrai grande fluxo turístico. O principal acesso ao Agreste Central se dá através das BRs 232 e 104, nas quais circulam, praticamente, toda a produção e abastecimento da Região, no qual Caruaru é o grande centro da conectividade, pois se localiza na interseção das duas rodovias federais. Com a duplicação da BR 232, principal rodovia da região, houve uma nova dinâmica socioeconômica, através do incremento na renda pessoal e no emprego, favorecendo o crescimento de atividades comerciais e de serviços, como a expansão de empresas de transporte. A atividade turística é explorada em vários municípios, tendo como atrativos o artesanato, a Feira da Sulanca, o turismo do Forró (festas juninas) e o ecológico, além do Circuito do Frio (julho). Apesar deste contexto, o Agreste Central não difere das demais regiões do Estado e registra grandes carências nas condições de vida de sua população, notadamente nas áreas de saúde, educação, abastecimento d’água, saneamento, destino inadequado dos resíduos sólidos, habitação e meio ambiente, tendo como maior desafio alcançar um desenvolvimento mais equilibrado e distributivo, oferecendo melhores condições de renda e de vida a sua população. A população economicamente ativa é de 394.678 habitantes, dos quais 345.090 estão ocupados nos seguintes setores produtivos: agropecuária (35,2%), comércio e serviços (17,1%), indústria da transformação (13,1%) e serviços domésticos (14,9%). Os demais 29,7% estão distribuídos em outros setores produtivos como construção civil, alojamento e alimentação, transporte e armazenagem, entre outros. O PIB da RD está assim determinado:


  

PIB (milhões) - 2.306 PIB (Per Capita - R$) - 2.439 Participação % PIB PE - 6,8.

De acordo com os dados acima, o PIB da RD Agreste Central apresentou um crescimento de 28% no período de 1998 a 2001. O município com maior participação na economia regional é Caruaru, especificamente com o comércio, alojamento e alimentação. A Região de Desenvolvimento Agreste Setentrional está localizada na no Semi-Árido do Estado. Tem uma área de 3.544,5 Km2, sendo constituída por 19 municípios e com uma população de mais de 430 mil habitantes. A atividade econômica de maior peso nesta Região é a produção de confecções e artefatos de tecido. Entre os problemas identificados no Agreste Setentrional sobressai-se a falta de infra-estrutura necessária ao desenvolvimento do turismo, manutenção de estradas e vias e abastecimento d´água”. Diante dos dados apresentados, pretende-se, ao final deste artigo, apresentar algumas soluções tecnológicas de caráter sustentável para esta importante região do Estado de Pernambuco. Estas estratégias deverão permitir melhorias sociais e econômicas, tais como a oferta de emprego e renda à população, trazendo benefícios para a preservação do meio ambiente e originando mudanças educacionais e culturais, com impactos positivos na saúde e na apresentação estética das cidades. 3 Discussão Cavalcanti (1998) aponta que o desenvolvimento pode ser concebido basicamente como um processo de mudança estrutural, global e contínua, de liberação individual e social que tem por objetivo satisfazer as necessidades humanas, aumentando a qualidade de vida (pelo menos no prazo de uma geração), atingindo níveis superiores e mais desejáveis de realizações e organizações. No intuito de estudar novas modalidades de percepção de políticas de desenvolvimento, no ano de 1973, o ambientalista canadense Maurice Strong lançou o conceito de ecodesenvolvimento, cujos princípios foram formulados pelo cientista político Ignácy Sachs. Para ele, os caminhos do ecodesenvolvimento seriam seis:     

Satisfação das necessidades básicas; Solidariedade com as gerações futuras; Participação da população envolvida; Preservação e conservação dos recursos naturais e do meio ambiente; Elaboração de um sistema social que garanta emprego, segurança social e respeito a outras culturas;


Programas de educação.

Esta teoria referia-se principalmente às regiões subdesenvolvidas, envolvendo uma crítica à sociedade industrial. Foram os debates em torno do ecodesenvolvimento que abriram espaço ao conceito de desenvolvimento sustentável (SACHS, 1986). Em 1987, a comissão Mundial da ONU sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (UNCED), presidida pela Primeira-ministra da Noruega, Gro Brundtland, formulou e apresentou um documento intitulado “Our Common Future”, mais conhecido como Relatório Brundtland, no qual se conceituava Desenvolvimento Sustentável: “Um desenvolvimento que satisfaça as necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as futuras gerações satisfazerem suas próprias necessidades” (CAVALCANTI, 1998). Nesta ótica, o Desenvolvimento Sustentável possui dimensões que se referem não só a distribuição dos diversos ambientes na superfície, mas ainda às relações sociais como conexões estabelecidas pelos diferentes níveis de sistemas: o nível biofísico e o nível sóciocultural. As relações adaptativas que configuram os processos de evolução da natureza e da sociedade alteram as condições de equilíbrio, tendo um reflexo direto na configuração do espaço. Desta forma, encontram-se as seguintes dimensões do Desenvolvimento Sustentável: ambiental, espacial, tecnológica, econômica, social e cultural. Por esta abordagem apresentada neste artigo ter um caráter tecnológico, tal dimensão busca especificamente implementar as técnicas ambientalmente mais limpas, adequadas, de baixa porcentagem de resíduos e eficientes no uso de recursos e culturalmente apropriadas. Procura ainda um pluralismo e autodeterminação tecnológicos, e técnicas regenerativas, tais como a reciclagem, a logística reversa, a redução de materiais e a reutilização dos resíduos sólidos urbanos.

3.1 O aproveitamento de resíduos industriais Segundo Rodrigues (1998) compreende-se o “meio ambiente urbano”, como o conjunto das edificações, com suas características construtivas, sua história e memória, seus espaços segregados, a infra-estrutura e os equipamentos de consumo coletivos. O meio ambiente urbano diz respeito, ainda, ao conjunto das atividades exercidas na cidade, o que significa que compreende a dinâmica da própria sociedade. É preciso, assim, considerar que quando se fala de meio ambiente urbano se fala da concentração de edificações nos limites administrativos da cidade e que tem sido preocupação dos diferentes urbanistas e planejadores urbanos, que nem sempre levam em conta, no entanto, os processos socioprodutivos e a cidade real deles decorrente (GEDDES, 1994). Sob este foco, os sistemas industriais complexos, de hoje, são a principal força de destruição do ambiente planetário e, a longo prazo, a principal ameaça à sobrevivência da humanidade. Por isso deve-se repensar, de forma global, sobre as tecnologias e instituições sociais


para aproximar os projetos humanos e os sistemas ecologicamente sustentáveis da natureza (CAPRA, 2002). É importante ressaltar, segundo Lefèbvre (1991), que desde há algum tempo é a urbanização que comanda a industrialização. Um dos aspectos que pode demonstrar essa questão liga-se à problemática ambiental. Nas cidades torna-se, cada vez mais, necessário instalar filtros para combater a poluição, propor e/ou construir novas formas de captação e de tratamento de água, da coleta e reciclagem do lixo, inventando-se e produzindo novas mercadorias que são criadas para satisfazer novas necessidades ou resolver problemas. “Entender corretamente a cidade e as causas de seus problemas é uma condição prévia indispensável à tarefa de se delinearem estratégias e instrumentos adequados para a superação desses problemas” (SOUZA, 2005).

Neste contexto da problematização urbana, a sociedade moderna foi condicionada a um aumento de consumo e, consequentemente, foi levada à cultura do descarte. O produzido hoje será velho amanhã, exatamente como ocorre, por exemplo, com os computadores. Rodrigues (1998) ressalta ainda que esta sociedade do descarte é também “descartável”, pois seus problemas só seriam “resolvidos” no futuro. Esta cultura consumista proporcionou à produção de toneladas de lixo, que na maioria dos casos, não recebem destino adequado. A minimização de resíduos tem conceito tão amplo e tão complexo quanto o próprio termo lixo ou resíduos sólidos. Pode abranger todos os tipos de resíduos, em qualquer processo ou etapa de geração. Em termos práticos, a minimização pode ser desenvolvida principalmente pela reutilização e reciclagem destes rejeitos, a partir de ações como a coleta seletiva. Sem dúvida, estas são medidas corretas que amenizam a superlotação dos aterros sanitários (CEMPRE, 1993). Neste contexto, o objetivo básico da reutilização e da reciclagem é evitar a passagem descontrolada de materiais e objetos usados – os resíduos – para o meio ambiente. A reutilização difere da reciclagem como conceito, pois trata do aproveitamento do resíduo gerado, sem que o mesmo sofra qualquer tipo de alteração ou processo, excetuando-se a limpeza, podendo ser utilizado para a mesma finalidade original ou outra, conservando, porém as características iniciais. Já a reciclagem refere-se ao aproveitamento dos resíduos para, após uma série de processamentos e alterações em suas propriedades, retornarem ao processo produtivo, como matéria-prima, gerando novos produtos. Em nível corporativo, Kazazian (2005) aponta que empresas, de atividades e escalas diferentes, integraram o meio ambiente como uma oportunidade em sua estratégia de desenvolvimento. Reduziram custos por meio de escolhas tecnológicas ou inovações procedentes desses novos raciocínios: redução das matérias primas, do volume dos resíduos nos aterros (principalmente os mais perigosos), utilização eficiente de energia, abordagens curativas no controle de processo “end of the pipe”. A implantação e o sucesso de tais abordagens, cujo apelido em inglês é “win-win”, por serem ao mesmo tempo,


vencedoras para as empresas e para o meio ambiente, dependem invariavelmente de um engajamento permanente da diretoria da empresa e de seus empregados. “menos poluição = melhor imagem = melhor relacionamento com órgãos ambientais, imprensa e comunidade = acesso mais fácil a linhas de crédito = captação de melhores cérebros = maior competitividade (ALMEIDA, 2002)

Esta crescente conscientização sobre a importância da proteção ambiental e dos impactos associados a produtos manufaturados e consumidos tem aumentado o interesse no desenvolvimento de métodos para melhor compreender e diminuir estes impactos. Uma das técnicas em desenvolvimento com este propósito é a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV). A norma NBR ISO 14040 descreve os princípios e a estrutura para se conduzir e relatar estudos de ACV e inclui certos requisitos mínimos (ABNT, 2001). Neste cenário, a ACV é fundamental para a economia. Cada uma das etapas da vida do produto gera inputs e outputs que terão impactos sobre o meio ambiente. Essas etapas devem ser analisadas desde a concepção do produto, porque cada uma contém um potencial de otimização ambiental: na seleção de matérias-primas, das tecnologias e dos processos de fabricação, na organização da logística; em seguida, no contexto de um uso aprimorado e da valorização final do produto. Essa abordagem permite uma visão muito mais ampla da vida do produto, de seu futuro, seu fim de vida e o valor que poderá lhe ser atribuído na hora de uma possível reintegração no ciclo de outro produto. Ainda de acordo com Kazazian (2005), integrar a idéia de ciclo na fabricação de produtos implica que, aos poucos, todos os produtos manufaturados adquiram uma nova função essencial: a de serem valorizáveis. A valorização designa toda etapa de tratamento que dá lugar, seja à reutilização do produto ou de um de seus componentes, seja à recuperação de energia pela incineração ou de matérias via reciclagem, seja à compostagem do produto, se ele for de fibra vegetal. De forma ideal, todos os elementos de um produto deveriam poder circular indefinidamente – ou pelo menos durante um período tão longo quanto possível – nos sucessivos ciclos de utilização. Finalmente, é importante salientar que qualquer produto terá impactos ambientais e o que se busca são abordagens de melhorias contínuas, já que nenhum estado é definido ou encerrado. Neste sentido, é preciso também analisar, de forma especial, o ciclo produtivo e compreendelos em sua complexidade para realizar releituras do território que compreendam a produção e consumo. Ciclo produtivo este, que compreende o processo produtivo desde a exploração da matéria prima, os produtos e seus resíduos. Essa complexidade explica por que a cidade e o urbano não são objetos de análise exclusiva de nenhuma ciência, até, pelo contrário, só é possível compreender a diversidade com a contribuição das várias disciplinas científicas e das muitas abordagens sobre a cidade e a problemática ambiental.


Para este artigo, o enfoque torna-se voltado para a análise do ciclo de vida dos bens produzidos a partir do objeto da pesquisa, bem como soluções processuais ecoeficientes. 3.2 Metodologia de produção industrial sustentável (Design ecoeficiente) A tecnologia “apropriada ou adaptada” é um termo que vem sendo usado nas últimas décadas para Designar o esforço com vistas à adequação de determinadas tecnologias às condições do homem e às peculiaridades regionais. Baseia-se na conotação ampla do termo tecnologia que envolve questões relativas às técnicas, métodos, procedimentos, ferramentas, equipamentos e instalações que concorrem para a realização e obtenção de vários produtos industrializados, através, entre outras, da atividade do Design. Esta atividade profissional tem por objetivo conceber e realizar os produtos, segundo parâmetros econômicos, técnicos, estéticos e sociais. Neste contexto, o designer industrial é um profissional que desempenha atividade de processo tecnológico de projeto de produtos, de forma interdisciplinar, atuando nas fases de definição de necessidades, concepção e desenvolvimento de projetos, objetivando a adequação destes às necessidades do homem e às possibilidades de produção e comercialização. No que diz respeito às necessidades do homem, este deve ser entendido como ser integrante de grupo social, caracterizado pelos aspectos sócio-econômicos e culturais da região geográfica na qual está inserido. Como possibilidades de produção, devem ser entendidas as limitações de matérias-primas, caracterizadas do parque industrial, disponibilidade de mão-de-obra, dentro de um contexto geo-econômico. No âmbito da sustentabilidade, Oliveira (1998) define o Design ecoeficiente, como o desenvolvimento de produtos com preocupações ambientais, diferindo do Design tradicional por inserir estas questões a partir do início do processo de Design. Se, há algum tempo o Design deveria abranger do projeto ao produto, ele hoje se estende até a reciclagem e reutilização. Esta mudança de paradigma pode ser denominada, segundo Capra (2002), de uma visão de mundo holística, que concebe o mundo como um todo integrado, e não como uma coleção de partes dissociadas. Pode também ser denominada visão ecológica, se o termo “ecológico” for empregado num sentido muito mais amplo e mais profundo do que o usual. Os dois termos, “holístico” e “ecológico”, diferem ligeiramente em seus significados, e parece que “holístico” é um pouco menos apropriado para descrever o novo paradigma. Uma visão holística de um móvel, por exemplo, significa vê-lo como um todo funcional e compreender, em conformidade com isso, as interdependências das suas partes, como o assento, o encosto, os elementos de fixação, entre outros. Uma visão ecológica do móvel inclui tudo isso, mas lhe acrescenta a percepção de como o móvel está encaixado no seu ambiente natural e social – de onde vêm as matérias primas que nele são incorporados, como foi fabricado, como seu uso afeta o meio ambiente natural e a comunidade pela qual é usado, e assim por diante. Ainda inserindo o Design no contexto ambiental, Bonsiepe (1997) afirma que hoje nenhuma profissão pode ignorar os seguintes problemas: poluição, exploração de recursos


naturais, crescimento da população, proteção das espécies, perturbação do equilíbrio ecológico, efeitos da própria atuação profissional sobre o meio ambiente. As profissões projetuais se vêem confrontadas com o desafio de inventar novos padrões profissionais para um Design ecologicamente correto e nessa perspectiva, os designers começam a tratar, de maneira crescente, dos problemas da eliminação de lixo, do uso de energia renovável e do uso de material reutilizável. O Design ecoeficiente, cuja primeira definição foi dada por Papanek (1985), participa de um processo que tem por conseqüência tornar a economia mais “leve”. Igualmente chamada “ecoconcepção”, trata-se de uma abordagem que consiste em reduzir os impactos de um produto, ao mesmo tempo em que conserva sua qualidade de uso (funcionalidade, desempenho), para melhorar a qualidade de vida dos usuários. Segundo essa abordagem, o meio ambiente é tão importante quanto a exeqüibilidade técnica, o controle de custos e a demanda de mercado. Este processo de “eco-planejamento” consiste também em aplicar o conhecimento ecológico para o replanejamento das tecnologias e instituições sociais, de modo a estabelecer uma ponte entre o planejamento humano e os sistemas ecologicamente sustentáveis da natureza. Kazazian (2005) aponta que é nessa altura que o designer se distingue, porque seu papel pode ser transversal, integrador e dinâmico entre ecologia e concepção de produtos, inovações econômicas e tecnológicas, necessidades e novos hábitos. Nessa abordagem global, o Design ecoeficiente prevê o futuro do produto para reduzir o impacto ambiental por todo o ciclo de vida: fabricação, uso e fim de vida (RAMOS, 2001). Em seguida, considerando-se o produto como um sistema constituído tanto por componentes quanto por consumíveis, peças de troca, suportes publicitários, embalagens utilizadas para todos esses elementos, cujo impacto pode às vezes ser maior que o do produto em si. Desta forma, distinguem-se cinco níveis de intervenção possíveis no “sistema” do produto, propostas por Manzini & Vezzoli (2005):     

Minimização de recursos: reduzir o uso de materiais e de energia; Escolha de recursos e de processos de baixo impacto ambiental: selecionando os materiais, os processos e as fontes energéticas de maior ecocompatibilidade; Otimização da vida dos produtos: projetar artefatos que perdurem; Extensão da vida dos materiais: projetar em função da valorização (reaplicação) dos materiais descartados; Facilidade de desmontagem: projetar em função de separação das partes dos materiais.

Ao inserir o Design sustentável no contexto da cidade, Casagrande JR (2004) aponta que deve-se alinhar a criação dos parques tecnológicos ou os arranjos produtivos locais às diretrizes das cidades sustentáveis, que fazem parte da Agenda 21 brasileira e seus quatro princípios para se alcançar a sustentabilidade urbana:


   

Aperfeiçoar a regulamentação do uso e da ocupação do solo urbano e promover o ordenamento do território; Promover o desenvolvimento institucional e o fortalecimento da capacidade de planejamento e de gestão democrática da cidade; Promover mudanças no padrão de produção e consumo da cidade, reduzindo custos e desperdícios e fomentando o desenvolvimento de tecnologias sustentáveis; Desenvolver e estimular a aplicação de instrumentos econômicos no gerenciamento dos recursos naturais visando a sustentabilidade urbana.

Diante do exposto, pretende-se, a seguir, apresentar algumas estratégias importantes que possibilitarão uma produção mais sustentável para o Polo de confecções do agreste pernambucano. 3.3 Estratégias de Design ecoeficiente para o Polo de confecções do agreste pernambucano A partir destes níveis de intervenção supracitadas, pode-se apresentar, conforme Manzini & Vezzoli (2005), algumas alternativas de soluções sustentáveis para as atividades produtivas comumente realizadas no Polo de Confecções da região objeto do estudo, especificadas abaixo. 3.3.1. Minimização de recursos materiais e de energia 3.3.1.1 Redução de recursos materiais na produção     

Utilização de sistema de corte zero-resíduo para minimizar as perdas e refugos dos materiais têxteis; Utilização de instrumentos e aparelhagens produtivas eficientes (p.ex: sensor de controle de volume da água no processo de lavanderia); Minimização do consumo de papelaria de escritório; Utilização de sistemas de recuperação/uso de materiais (p.ex: redistribuição de água no processo de lavanderia); Utilização de embalagens mais leves e compactas.

3.3.1.2 Redução de consumo de energia para a produção  

Utilização de sistemas de desligamento automático de equipamentos elétricos; Utilização de sistemas de transformação/ transmissão de energia de alto rendimento (p.ex: LEDs).

3.3.2. Escolha de recursos e de processos de baixo impacto ambiental


3.3.2.1 Escolha de materiais e processos de baixo impacto ambiental    

Não utilização de materiais tóxicos e nocivos; Utilização de materiais de baixo impacto ambiental no acabamento (p.ex: algodão colorido); Utilização de materiais renováveis na fabricação de têxteis (p.ex: fibra de bambu, fibra de coco, couro de peixe); Utilização de materiais biodegradáveis (p.ex: bioplásticos nas embalagens).

3.3.2.2 Escolha de recursos enérgeticos de baixo impacto ambiental  

Utilização de energias renováveis na fabricação de têxteis (p.ex: energia solar e eólica); Utilização de energias renováveis na distribuição (p.ex: transporte por biodiesel);

3.3.3. Otimização da vida dos produtos 3.3.3.1 Facilitar a reutilização através do projeto  

Reutilização de produtos (p.ex: resíduos de peças de vestuário na fabricação de bolsas e acessórios); Reutilização de embalagens (p.ex: embalagens de transporte na fabricação de peças de vestuário, móveis e acessórios).

3.3.4. Extensão da vida dos materiais 3.3.4.1 Facilitar a reciclagem através do projeto 

Reciclagem de produtos (p.ex: utilização de fibras de PET na fabricação de peças de vestuário e acessórios).

3.3.3. Facilidade de desmontagem 3.3.3.1 Facilitar a desmontagem através do projeto 

Desmontabilidade de produtos (p.ex: logística reversa para materiais recicláveis de peças de vestuários, tais como botões e fechos).

Desta forma, a partir destas possibilidades, o diagrama abaixo (Figura 1) ilustra uma visão geral do que seria um produto ecoeficiente em todas as suas abordagens, incluindo uma gestão sustentável de recursos, materiais, humanos e de energia. Esta abordagem, portanto, poderá ser adaptada e aplicada para a produção de industrail em qualquer segmento.


Figura 1 – Diagrama do produto ecoeficiente

4 ConclusĂŁo


Através das possibilidades apresentadas, pode-se afirmar que Design para a sustentabilidade é uma espécie de Design estratégico, ou seja, projeto de estratégias aplicadas pela empresa que se impuseram seriamente à prospectiva da sustentabilidade ambiental. Neste sentido, a mudança da cultura da produção industrial existente na região do agreste pernambucano para uma proposta mais sustentável, pode contribuir para impulsionar aspectos de produtividade e de consciência ambiental por parte dos atores envolvidos. Em suma, consciência ecológica e inovação tecnológica estão intimamente relacionados. A exigência ambiental estimula a criatividade e pode estar na origem de maiores evoluções: novas funcionalidades, novos materiais, novos processos, novos usos. Não existe discussão sobre ecologia sem discutir simultaneamente o Design, pois cada homem é o criador de seu próprio ambiente, adaptando-se às evoluções sociais e econômicas, na busca da melhoria da qualidade de vida. Referências ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR ISO 14040: Avaliação do Ciclo de Vida – Princípios e Estrutura. Rio de Janeiro: ABNT, 2001. ALMEIDA, Fernando. O Bom Negócio da Sustentabilidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. BONSIEPE, Gui. Design: do material ao digital. Florianópolis: FIESC/IEL, 1997. CAPRA, Fritjof. As Conexões Ocultas: Ciência para uma Vida Sustentável. São Paulo: Cultrix, 2002. CASAGRANDE JR, Eloy Fassi. Inovação Tecnológica e Sustentabilidade: possíveis ferramentas para uma necessária interface. In: Curitiba: Indicadores para a sustentabilidade. Curitiba: PPGTE, CEFET-PR, 2004. CAVALCANTI, Agostinho Paula Brito (org). Desenvolvimento Sustentável e Planejamento: bases teóricas e conceituais. Fortaleza: UFC – Imprensa Universitária, 1998. CEMPRE (Compromisso Empresarial para a Reciclagem). Cadernos de Reciclagem. Rio de Janeiro: IBAM, 1993. CONDEPE/FIDEM. Região de Desenvolvimento Agreste http://www.condepefidem.pe.gov.br/>. Acesso em 06 jul. 2008.

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ESTRATÉGIAS DE DESIGN ECOEFICIENTE PARA O POLO DE CONFECÇÕES DO AGRESTE PERNAMBUCANO