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“Foi o primeiro lugar que meus olhos viram, e serviria de modelo para tudo o mais que viesse a ver e conhecer no mundo, que sempre avaliei e medi pelas réguas e compassos que me deram as ruas, as praças e os quintais da minha terra.”

SENADO FEDERAL

Meu mundo, meu quintal

Capa: Paulo@ervinho

SENADORA

SIMONE TEBET BRASÍLIA – DF


Introdução

No dia 15 de junho de 2015, Três Lagoas comemorou seu primeiro século de existência. Antes distrito de Paranaíba, foi emancipada e elevada à condição de Município pela Lei Estadual nº 706/1915. De lá para cá, são cem anos de uma história similar à de tantas outras cidades do interior deste País tão vasto, tão diverso e, ao mesmo tempo, tão unificado em seus anseios, princípios e valores. Três Lagoas tem uma posição geográfica privilegiada, às margens da bacia hidrográfica do Rio Paraná e sobre um dos maiores mananciais de água doce do planeta, o Aquífero Guarani, considerado o maior do Brasil, o que lhe propiciou o título de Cidade das Águas. O Município faz divisa com o estado de São Paulo e se constitui na porta de entrada para Mato Grosso do Sul. Essa localização estratégica logo chamou a atenção dos governos brasileiros, a começar pela construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, ligando Mato Grosso do Sul, via Três Lagoas, ao Porto de Santos e, de lá, à travessia do Atlântico. Foi o primeiro impulso de desenvolvimento da cidade, o que garantiu sua emancipação. Portanto, geografia e história caminharam de mãos dadas no desenvolvimento de Três Lagoas. Na “Era Vargas”, com o incentivo oficial à ocupação do Oeste. Depois, os cinquenta anos em cinco, liderados por Juscelino Kubitschek, que promoveram a definitiva integração do interior brasileiro, com o investimento em grandes obras de infraestrutura, principalmente estradas e energia elétrica.

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Em todo esse período, Três Lagoas recebeu, além da ferrovia, investimentos em suas malhas viária e fluvial. Em 1961, iniciou-se a construção do Complexo Hidrelétrico de Urubupungá – na época, o maior do mundo. Ali também foi construída, às margens do Município, a Usina de Jupiá, inaugurada em 1974. Foi o segundo grande impulso de crescimento da nossa cidade. Com isso, além do acesso privilegiado a outras regiões do País, a disposição de água, energia, inclusive com termelétrica, além de matéria-prima e mão de obra, permitiu que, no final da década de 90, Três Lagoas começasse sua transição econômica da pecuária para a industrialização. Hoje, é o terceiro município mais populoso de Mato Grosso do Sul e um dos mais dinâmicos polos econômicos de toda a região Centro-Oeste. A cidade cresceu, nos últimos 10 anos, a taxas acima da média nacional. Os 85 mil habitantes de 2004 hoje são 111 mil, de acordo com o IBGE. Mais do que crescimento, houve desenvolvimento: o PIB per capita saiu de R$ 11.614,00 na última década para os mais de R$ 35 mil atuais, um crescimento da renda por habitante de 300%, segundo estimativa de 2014. A indústria é responsável por 48% dos salários pagos na cidade e emprega formalmente 37% dos trabalhadores, ao lado dos serviços, com 25%; comércio, 17%; administração pública, 12%; e agropecuária, 9%. As indústrias instaladas são as mais diversas: desde as maiores fábricas de celulose do mundo até indústrias de metal mecânica, confecção, alimentos, esmagadoras de soja, entre outras. São

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mais de 400 indústrias na cidade, com média salarial de R$ 2.592,00, maior que a média brasileira, que alcançou, em 2014, R$ 2.100,00. Para este ano, estão previstos investimentos da ordem de 16 bilhões e 700 milhões de reais na construção e ampliação de duas plantas de celulose e na ampliação de uma unidade esmagadora de soja. No dia do centenário, os jornais de Três Lagoas publicaram um texto no qual busco retratar a minha emoção de cidadã três-lagoense num momento tão significativo da história do Município, neste limiar do século XXI. Compartilhei também essa minha emoção, por meio de discurso no Plenário do Senado Federal, com todos os brasileiros de hoje, que certamente se reconhecerão nessa história exemplar de uma cidade. Ao incluir as minhas palavras nos Anais do Senado e ao promover esta publicação, o meu objetivo é que elas possam alcançar, igualmente, os três-lagoenses e brasileiros do amanhã. Denominei o meu texto “Três Lagoas: meu mundo, meu quintal”, e o considero mais um preito de homenagem e gratidão ao pequeno e imenso pedaço de terra em que nasci.

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Três Lagoas: meu mundo, meu quintal

Nasci em Três Lagoas. Enquanto viver, serei grata por isso. Naquele tempo, Três Lagoas era muito menor do que hoje, mas para meus olhos e coração de criança, era maior do que o mundo inteiro, maior do que as grandes cidades de que falavam os adultos, maior do que qualquer um daqueles reinos, reais ou imaginários, que povoavam nossos livros coloridos. Foi o primeiro lugar que meus olhos viram, e serviria de modelo para tudo o mais que viesse a ver e conhecer no mundo, que sempre avaliei e medi pelas réguas e compassos que me deram as ruas, as praças e os quintais da minha terra. Aqui estavam as primeiras pessoas que amei, e que me ensinaram a amar: avós, pai, mãe, irmãos, tios e tias, primos e primas, depois colegas de escola e amigos da mesma idade, que compartilhavam comigo as descobertas e encantamentos que Três Lagoas tão generosamente nos oferecia. Com o passar dos anos, deixei Três Lagoas, e mergulhei no mundo dos livros. Neles, aprendi que o mundo era maior do que o meu mundo, estudei os sonhos e necessidades de outros povos, em outros tempos e lugares, construí um campo de estudos e ingressei numa profissão. Casei, tive filhas, plantei árvores. Mas Três Lagoas era sempre um chamamento dentro de mim, e voltei. Voltei para reencontrar o território da minha infância, e também para devolver, dentro das minhas possibilidades, o que Três Lagoas havia me dado.

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Foi então que Três Lagoas me propiciou sair dos livros que havia lido e dos muitos que sonhava ler, e reaprender que as melhores histórias são aquelas que nós mesmos fazemos. O povo três-lagoense me acolheu com generosidade nas minhas campanhas políticas, e me permitiu exercer, por duas vezes, o honroso posto de Prefeita Municipal. Da primeira campanha, nunca me esquecerei dos meus apoiadores mais entusiasmados, quando ainda era uma candidata com poucas chances de vitória – foram as crianças de Três Lagoas que primeiro me abraçaram nas praças e nos comícios, que me cercavam pedindo autógrafos, e que finalmente abriram para mim as portas de suas casas. Elas me fizeram ver que, na verdade, o mundo não era maior do que o meu quintal, como disse um dia o poeta de todos nós, Manoel de Barros. É no quintal que cultivamos as “lembranças que vão e vêm”, o que a nossa professora, escritora e poetisa Flora Egídio Thomé chamou de “chão da memória”. Ao assumir a Prefeitura, muitos foram os problemas e desafios que encontrei, mas me movia uma certeza que jamais me abandonou: Três Lagoas possuía todas as condições – naturais, geográficas, humanas – para trilhar um caminho de desenvolvimento sustentável, capaz de responder às necessidades e às potencialidades de sua gente. Todas essas condições já estavam aí – sempre estiveram aí –, faltava apenas saber utilizá-las. Três Lagoas era um diamante bruto, e cabia a nós lapidá-lo. Entre tantas passagens dos tantos livros que li, uma me veio então à mente: Michelangelo, artista

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-maior do Renascimento – autor de obras-primas da escultura como a Pietá, o David, o Moisés, a Noite, e tantas outras –, quando perguntado de onde vinha a grande arte que fazia, respondia que a arte, na verdade, já estava pronta dentro do mármore, e que cabia ao artista tirar-lhe os excessos e expô-la à luz. O futuro promissor de Três Lagoas também sempre esteve diante de nós, e a construção desse futuro deve ser realizada como a obra do artista: respeitando a natureza do material que trabalha, para que a obra final não contradiga o espírito profundo que nele habita, e o desejo do Criador que o arquitetou. Quando perguntada sobre qual seria a minha maior realização como Prefeita, eu poderia citar, por exemplo, a duplicação do número de creches e escolas municipais. Ou o fato de ter triplicado a extensão de vias asfaltadas. Ou ter dobrado o número de clínicas especializadas em saúde pública. Ou a construção da primeira biblioteca pública municipal de Mato Grosso do Sul. Ou ter construído mais de mil casas populares. Ou a revitalização do Balneário Municipal. Ou o incentivo à industrialização, que gerou milhares de empregos de qualidade para os trabalhadores de Três Lagoas e de outras regiões. Poderia me referir, igualmente – ou preferencialmente – à criação do Centro de Referência de Assistência Social e Educacional, que denominei carinhosamente de Coração de Mãe. Trata-se de um espaço capaz de oferecer, com toda a infraestrutura física e humana, atendimento a até 5 mil crianças e adolescentes, de 9 a 17 anos, com atividades educacionais, sociais e esportivas.

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Resumo a importância dessa obra nas palavras que saíram do coração de uma mãe: “Para mim, como o próprio nome diz, é um Coração de Mãe. Porque eu me sinto segura trabalhando e sabendo que tem pessoas capazes, competentes, para estar olhando a minha filha onde os meus olhos não estão”. Como mãe de duas filhas, essa é uma obra que me toca de uma maneira especial e profunda. Mas, apesar da importância dessas obras, e de tantas outras, o que eu sempre digo é que a minha maior realização como Prefeita, aquela que mais me comove e pela qual quero ser lembrada, foi ter resgatado, no coração das pessoas, o orgulho de viver em Três Lagoas. Esse orgulho estava no interior da alma de cada três-lagoense – só precisava de um pequeno incentivo para fazê-lo vir à luz. Hoje, ao comemorar seus primeiros cem anos de existência, Três Lagoas tem recebido numerosos títulos, alguns grandiloquentes: “capital mundial da celulose”, “polo industrial do centro-oeste”, “cidade líder do desenvolvimento”, entre outros. Esse reconhecimento é muito bom. Crescer é muito bom. Mas meu coração de criança, que nunca morreu, me lembra sempre que o crescimento não é um valor em si. É preciso saber crescer. Para uma cidade, o crescimento que interessa é aquele que atende às necessidades e anseios de sua gente, que respeita os seus valores e valoriza a sua qualidade de vida. Dito de outra forma: mais do que crescimento, devemos buscar o desenvolvimento, que inclua todos os três-lagoenses, aproveitando tudo aquilo que

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já fizemos e preparando um solo acolhedor e benfazejo para aqueles que virão depois de nós. Muitas outras crianças abrirão ainda os olhos em Três Lagoas. Que elas também possam se maravilhar e descobrir o mundo, mas sem perder o orgulho pelos seus quintais – pois são eles, na verdade, que compõem e constroem o mundo. Parabéns a Três Lagoas – nosso pedaço de mundo – neste primeiro Centenário e em todos os outros que virão.

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Tres lagoas meu mundo meu quintal  

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