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Nasci

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Thérèse Hofmann Gatti

A história do papel artesanal no Brasil 1a edição

São Paulo 2007

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Todos os direitos desta edição são reservados a ABTCP - Associação Brasileira Técnica e Celulose e Papel. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida total ou parcialmente, guardada pelo sistema “retrieval” ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer meio, seja este eletrônico, mecânico, de fotocópia, de gravação, ou outros, sem prévia autorização, por escrito, da Associação e do autor. A violação dos direitos de autor, regida pela lei Lei nº 9.610 de Fevereiro de 1998, é crime estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal. Argumento e Texto: Thérèse Hofmann Gatti Coordenação geral e Revisão final: Gastão Campanaro e Francisco Bosco de Souza Projeto gráfico, criação de capa e produção: Fmais Comunicação e Marketing Revisão Ortográfica: Adriana Pepe Coordenação editorial: Patrícia Capo (Mtb 26.351-SP) e Julia Duarte Impressão: Gráfica Arizona Colaboração editorial: Ana Roth, Anna Beatriz Baptista de Mello, Daniela Oliveira, Joice Saturnino, Silvia Bugajer e Victoria Rabal. Papéis Artesanais: Papel Artesanal – Reciclando Papéis e Vidas – Laboratório de Materiais Expressivos – Universidade de Brasília.

Ficha Catalográfica – Biblioteca Central Universidade de Brasília G263

Gatti, Thérèse Hofmann A história do papel artesanal no Brasil / Thérèse Hofmann Gatti. – São Paulo: Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel – ABTCP, 2007. 150 p. : il.

ISBN

1. Papel – história. 2. Papel artesanal. 3. Papel evolução. I. Título. CDU 676

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A História do

Papel Artesanal

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prefácio

Nasci paulistano, urbano, mas com o DNA da floresta, benfazeja oportunidade, benção divina. Cresci aprendendo a amar as árvores, a entender sua missão em toda a dimensão, olhar troncos, copas e raízes, compreender seu potencial. Meus cinco sentidos acostumaram-se com este universo da natureza e fizeram do ofício de uma família a oportunidade de uma paixão. Mais tarde, aprendi também a ver além do sólido bruto, ao dedicar-me a um de seus mais nobres rebentos, o papel. Fui buscar na história sua origem, sua função, seu potencial. Mergulhei na arte da escrita, que me levou à educação, que me definiu os marcos civilizatórios e que, ao cabo, me permitiu razoável compreensão da humanidade. Hoje o continuo produzindo, levo a mensagem de suas fronteiras às novas gerações, penso nas novas fronteiras e sobre como o papel nos ajudará a alcançá-las. E vejo, desde sempre, na sua função cultural, a Arte. Percebo com clareza a expressão da diversidade eternizada, vejo como o impacto que uma folha em branco, no branco de qualquer cor, interfere na alma do artista e reflito a respeito do poder que esta interação exerce, tanto no protagonista da obra como nos coadjuvantes de suas mensagens. E intuo, acima de tudo, mais humanismo a cada olhar, possibilidades de avançar, o misto do belo que carrega a mensagem e nos permite buscar um espaço melhor como raça, que tem credo e valoriza seu espírito. Este livro, que ora se apresenta, é uma demonstração desses universos, uma expressão de criatividade, um exercício de lidar com a cor e a textura, com o traço e a linguagem. Fruto de um trabalho dedicado de toda uma gente “do bem” que não começou o apostolado ontem nem o terminará amanhã. É um registro importante, que merece respeito e acolhida e que tem na Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP) a guardiã de valores, que são caros a todos nós, produtores e usuários, mais próximos em nossas diferenças a cada página deste livro. Que seja uma fonte de prazer este volume. Que saibamos enxergar beleza, sabedoria e horizonte em tudo o que o compõe, material e espiritual, o produto final destas páginas seguintes. Horácio Lafer Piva Empresário do Grupo Klabin e presidente da Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa)

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SUMÁRIO

I - Introdução Motivo desta obra: Resgate Histórico 06

O Papel

32 Linha do Tempo do Papel Artesanal   - No Mundo   - No Brasil 42 O Papel Artesanal no Brasil:   História e Pioneiros     Otávio Roth - SP    Marlene Trindade - MG    Lygia Sabóia - DF 62 Como Fazer o Papel:     Etapas da evolução do processo,     marcas d’água e a produção artesanal 88

Tipos de Fibras e Usos Diversos

111 Conclusão 112 Terminologia 124 Bibliografia 127 Poesia – Eu, Papel

Amostras de Alguns Papéis

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Acervo da artista

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Obra Marlene Trindade

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O Papel TEXTO: THÉRÈSE HOFMANN GATTI

1.  Introdução

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ivemos em um mundo de constantes mudanças tecnológicas de um lado e valores eternos de outro”. Com a informática dominando cada vez mais os diversos setores da atividade humana, tornando-se parte integrante do nosso cotidiano, percebemos uma veloz modificação de diferentes aspectos do saber, do fazer, do ser e do crer. Como conciliar tantos avanços tecnológicos, que nos fascinam e intrigam, com a necessidade de não perdermos nossas bases culturais nem considerarmos obsoletos os progressos de tantas gerações? As invenções humanas têm significação e importância dentro do contexto social e cultural em que foram concebidas, mas não podem simplesmente ser descartadas pela evolução da tecnologia. Como concebermos os computadores modernos sem considerarmos e valorizarmos a invenção do ábaco usado pelos egípcios desde 500 a.C.? Não podemos admirar o presente nem tampouco imaginar o futuro sem olharmos para o passado. Vivemos em um constante dilema, pois cada vez mais o passado, ou melhor, o ultrapassado, torna-se mais distante e efêmero nesta era de tantas inovações tecnológicas.

. Miguel Angel Corzo – Diretor do Getty Conservation Institute, Los Angeles/Califórnia/EUA. www.Getty Conservation Institute and HP - Recording (For the sake of art) 1

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“A História não é a prisão do passado. Ela é a mudança, é movimento e transformação” 2.

2.  Histórico dos Suportes A História, como ciência, é tão difícil quanto imprecisa. Muitas vezes vemos os mesmos fatos, relatados por diferentes autores, serem apresentados de forma tão contraditória que não podemos afirmar qual seria a verdadeira história – nem se existe uma. Quanto mais examinamos o passado, mais relativos e especulatórios parecem ser os dados apresentados. Podemos até dizer que a verdade é quase sempre individual ou que gera percepções diferenciadas. Apresentamos aqui uma visão sucinta da história da evolução de alguns suportes físicos de registros de documentos impressos utilizados pelo homem, ressaltando os que estão mais diretamente ligados à história do papel. Algumas datas mencionadas sobre o surgimento de suportes físicos de registros são aproximadas e, como já dissemos, muitas vezes contestadas por escritores diversos 3. Antes de chegarmos à definição de História, temos como antecessores a Proto-História, que estuda a passagem do homem baseada na arqueologia e nos registros pictográficos, e a Pré-História, cujas datas não podem ser mencionadas com precisão, pois não há registros escritos. Se considerarmos a História como a ciência que estuda a evolução da sociedade humana através dos tempos, tendo início com o aparecimento da escrita e dos metais, temos um universo direcionado pela escrita e pelos materiais utilizados para essa finalidade. Para entendermos a evolução dos suportes de registro utilizados pelo homem para gravar suas idéias, devemos considerar que é inerente à condição humana a necessidade de registrar e preservar seus pensamentos para a posteridade. Essa necessidade visa aos mais variados fins: memória de atos, desejos, realizações e sonhos; necessidade de

. KATZENSTEIN, Úrsula E. A Origem do Livro. (citação de Sérgio Buarque de Holanda), p. 4-5. . Gostaríamos de lembrar que informação, saber e cultura sempre foram sinônimos de poder, o qual durante milhares de anos ficou restrito a poucos. Basicamente eram os monarcas e os sacerdotes que definiam, de acordo com os interesses políticos e religiosos, como e quais fatos deveriam ser narrados, escritos e perpetuados. Depois da era cristã, algumas crenças e lendas pagãs foram adulteradas para atender ao fortalecimento do poder da Igreja Católica . 2 3

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Fonte:http://www.arte.go.it/materiali/images/Lascaux.jpg

dar sentido à efemeridade da vida e, principalmente, o instinto básico de comunicação, ou seja, a troca de informações. “Os símbolos foram os meios através dos quais o homem conseguiu sair do estado animal de inconsciência para a primeira fase de consciência”4 , pois “os objetos simbólicos — pinturas, sinais, palavras, gestos — são codificações que representam conceitos mentais complexos”.5 Percebemos a última afirmação claramente nos registros feitos há mais de trinta mil anos, quando a caverna era o lar, o local de culto e o abrigo contra as intempéries e os animais ferozes. As pinturas rupestres, de uma grande leveza plástica, imortalizaram um momento importante da cultura, as quais podemos analisar por terem resistido ao tempo. Vemos isso nos registros, extremamente importantes, encontrados nas cavernas de Altamira6 (Espanha) e Lascaux 7 (França). Não podemos afirmar com precisão seu significado para os homens das cavernas. Alguns autores especulam que provavelmente se trataria de um rito de iniciação dos jovens caçadores, para citar apenas um posicionamento, visto não termos o propósito de indagarmos aqui a natureza desses registros. Se conseguirmos visualizar o ambiente das cavernas “decorado” com pinturas de animais, de acesso extremamente difícil e iluminação possível unicamente pela utilização de tochas, poderemos aceitar essa proposta de rito iniciático, quando o homem, estando só

Pintura rupestre encontrada na gruta de Lascaux.

. KATZENSTEIN, U.E. Op.cit., p. 9 (Erich Neuman). . Idem, p. 10. 6 . Universidade de Cantabria (www.veu.unican.es/arte/prehist/paleo/b/Default.htm).”A caverna de Altamira foi a primeira a ser descoberta com inscrições rupestres paleolíticas. Localizada acidentalmente em 1868 d.C., por Modesto Cubillas, sócio de D. Marcelino Sanz de Sautuola, que em 1879 d.C. mostrou ao mundo a fantástica descoberta.” 7 . (www.netwane.com/perigordtourisme/lascaux.htm) e (www.ruf.rice.edu/~raar/regions/jrobinson.htm). “ A caverna de Lascaux foi descoberta acidentalmente em 12 de setembro de 1940 d.C., por um grupo de cinco jovens que, seguindo seu cachorro que havia caído em um buraco, descobriram a caverna.” 4 5

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Fonte:http://gbiu.de/Hamsterkiste/Sachunterricht/Altamira/lascaux.jpg

diante da pretensa caça, poderia vivenciar todas as suas angústias, medos e inseguranças ante uma futura caçada real. Apesar da disponibilidade limitadíssima de ferramentas e técnicas, a presença do homem pôde ser claramente identificada pelo traço indelével de sua mão decalcado na caverna. “Qualquer animal deixa

sinais do que foi, mas só o homem deixa as marcas da sua inventividade”.8 Para entendermos mais claramente os processos de comunicação, propomos aqui um recuo além dos registros nas cavernas, quando os processos humanos de comunicação eram basicamente as linguagens corporais e gestuais. Utilizamos todo o nosso corpo para nos expressarmos, para comunicarmos nossos pensamentos, sensações e sentimentos: gestos, olhares, ruídos, odores e até mesmo o silêncio. O corpo é, desde sempre, o primeiro suporte de comunicação entre os homens e também entre os animais, de forma geral. As pinturas indígenas e as tatuagens, quando ainda não havia a escrita, tinham a pele do corpo como suporte físico de registro. Essas pinturas teriam por finalidade a distinção entre os seres humanos e o mundo animal. Até hoje, assim se explicam os índios brasileiros. Em quase todas as civilizações do mundo encontramos, ainda hoje, a pintura corporal como meio de comunicação, Acervo Otavio Roth

Pintura rupestre.

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Tribo indígena com pintura corporal – Tribo Waurá. 8

. BRONOWSKI, J. A Escalada do Homem. Martins Fontes e Editora Universidade de Brasília. 1983, p. 42-57.

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não somente nas tribos indígenas, mas também em sociedades consideradas evoluídas, indicando relações sociais, estado civil, grupos religiosos, “tribos” e até mesmo formas de sedução. Com relação à linguagem oral, seu surgimento baseou-se nas necessidades religiosa e social: “a transmissão (oral) dos mitos e lendas satisfazia o desejo inato do homem de investigar o próprio passado, tornando-o possível às gerações futuras”.9 Por meio da tradição oral, o homem pode transmitir seu patrimônio cultural, sua história coletiva, seus hábitos, crenças e conhecimentos, baseando na memória a preservação da história. Esse sistema, porém, era restrito às elites religiosas e/ou monárquicas, e havia complexos sistemas de seleção dos contadores de histórias e lendas. As formas utilizadas para memorização eram basicamente por meio de poesias ou canções. Outra característica da tradição oral é a alteração do conteúdo original feito pelos contadores: “não memorizavam seus textos palavra por palavra e sempre adicionavam novas nuanças às melodias, mas consideravam traição à sua missão autodesignada se afastarem um mínimo da essência da epopéia”10 . O historiador Cieza de León descreve a tradição oral dos incas: “Havia entre os incas uma classe especial de sábios (...) cuja obrigação era compor e perpetuar, de geração em geração, as tradições do povo, a história e a lenda (...). Logo que morria o rei (...), os mais velhos discutiam (...) se ele fora bom para o país, quais batalhas havia ganho dos inimigos da nação (...), decidiam se o rei morto fora tão feliz para merecer aplausos e fama e ser digno de ter sua memória preservada para sempre (...) Em seguida (...) eles selecionavam por sua habilidade na retórica e no uso das palavras, (aqueles que) sabiam como narrar os eventos em ordem regular, como os cantores de baladas e escritores de romances (...) Se tratavam de guerras, cantavam, na seqüência apropriada, as muitas batalhas travadas nas diversas regiões do império (...) de modo que o povo podia ser animado pela narração do que se passara em outras épocas. Estes índios, que aprendiam as narrativas por ordem do rei, eram reverenciados e tratados com carinho; grandes cuidados eram despendidos para ensinar seus filhos (...) Conforme este plano, uma geração ensinava verbalmente à sucessiva e esta podia relatar o que se tinha passado há quinhentos anos, como se fosse há somente dez anos(...)”.11 Podemos ver nesta citação que os fatos escolhidos para serem narrados não aconteciam necessariamente como eram transmitidos. Os relatos dependiam mais de vontades e interesses políticos e religiosos. A verdade histórica não era de grande importância, pelo menos nos moldes como hoje concebemos a História. A comunicação por meio da linguagem escrita, que deve ser entendida aqui como signos ordenados que podiam ser lidos por várias pessoas, e não somente os grafismos de milhares de anos, teve origem na Mesopotâmia, com os sumérios, por volta de 3500 a.C., quando no Ocidente havia basicamente arte rupestre. Podemos aceitar essa origem, pois ocorreu na região entre os rios Tigres e Eufrates, onde a civilização já era organizada em pequenas aldeias desde o Neolítico – período que . KATZENSTEIN, U.E. Op. cit., p. 16. . Idem, p. 19. 11 . Idem, p. 18. 9

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iniciou na vida da humanidade uma revolução tão importante quanto à revolução industrial, ocorrida no século XIX, e a revolução científica, que hoje acompanhamos. Essa primeira revolução trouxe inovações, como a cultura do trigo e da cevada, a domesticação de animais, o emprego do fogo para a preparação de cerâmicas e a utilização de instrumentos de pedra polida12. Nessa região se deu um grande salto de densidade populacional, principalmente devido à fertilidade do solo, transformando as aldeias em cidades com maior grau de complexidade de organização social e comercial. Nessa área geográfica surgiram cidades, como Kish, Erech, Ur, Acad, Sumer, Lagash, Umma, Uruk e Ebla, por exemplo. Na nova organização social, que se expandiu basicamente sob o poder dos soberanos e dos sacerdotes, dos palácios e dos templos, fica consolidado o poder da escrita como forma de controle comercial, registro de produção agrícola, estoques e cabeças de gado, bem como leis e orações. A partir desse momento podemos descrever o início da diversificação dos suportes de registro da escrita. A evolução da humanidade só foi possível, porque: “arte e ciência são ações exclusivamente humanas, fora do alcance de qualquer outro animal. Tanto uma quanto a outra derivam de uma só faculdade humana: a habilidade de enxergar o futuro, de antecipar um acontecimento e planejar a ação adequadamente, representando-o para nós mesmos em imagens projetadas ou dentro de nossas cabeças, ou em um quadrado de luz nas paredes escuras de uma caverna, ou, ainda, no vídeo de uma televisão.13 Não pretendemos detalhar nem afirmar seqüencialmente qual suporte físico de registro foi utilizado primeiro, pois, além das pedras já utilizadas desde as cavernas e pelo menos desde 6500 a.C. pelos egípcios com as imagens entalhadas nos imensos obeliscos14 e agora trabalhadas como suporte móvel, devemos considerar as inscrições feitas na areia ou na terra com fins mágicos e religiosos, podendo ser esses realmente os primeiros suportes, mesmo que ainda não pudéssemos considerar escrita propriamente dita, mas rabiscos, certamente plenos de significados, imagens e desenhos. Sabemos também que os suportes se desenvolveram diferentemente de acordo com as especificidades naturais e geográficas de cada região e com os aspectos culturais, políticos, religiosos e econômicos de cada civilização. Se tomarmos como base os textos sumérios, considerando-se realmente o que primeiro podemos chamar de “escrita”, compreendida como seqüência de signos que podiam ser facilmente decodificados, temos, então, como primeiro suporte de escrita, as placas de argila, nas quais os escribas faziam seus registros utilizando objetos pontiagudos de metal, osso e marfim. Esse tipo de escrita é denominado “cuneiforme” (em forma de cunha). Escavações arqueológicas recuperaram uma grande biblioteca na cidade de Ebla, considerada como um famoso centro de instrução da época na Mesopotâmia, onde se pode verificar que, além dos documentos estarem muito bem ordenados como em uma biblioteca moderna, a escrita cuneiforme teve sua expansão desde o sul da Pa-

. McEVEDY, Colin. Atlas da História Antiga. Ed. Verbo/USP: São Paulo. 1979, p. 22 – 31. . BRONOWSKI, J. Op. cit., p. 54 –56. 14 . ROTH, Otávio. Criando Papéis. MASP, 1982, p. 6. 12 13

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Fonte: http://members.tripod.com/obeliscos_egipcios/images.htm

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Inscrições em pedra – Obelisco.

lestina até o norte da Armênia, passando por adaptações a diversas línguas além da suméria, como a acádia, a hitita e a persa. Em seguida, temos o desenvolvimento da escrita própria do Egito (escrita hieroglífica, que em grego significa “escrita sagrada”)15, da Babilônia e da Índia. Nesta última, por motivos de poder religioso dos hindus e brâmanes, a tradição oral foi por muito tempo preservada. 15

. ASIMOV, Isaac. Cronologia das Ciências e das Descobertas. Ed. Civilização Brasileira.1993, p. 71.

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Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Rosetta_stone.jpg

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Pedra Roseta – Hieróglifos.

Encontramos na China inscrições em ossos e cascos de tartaruga, provavelmente amuletos, que datam do século XIV a.C. Neste primeiro momento, a escrita é denominada “pictográfica”, com signos inteligíveis dentro das comunidades e baseados em convenções culturais preestabelecidas. O momento seguinte consiste na evolução para a escrita ideográfica, quando os signos se transformaram em símbolos que transmitiam idéias; eram mais complexos e necessitavam de uma lista para serem compreendidos, o que podemos considerar como a criação do primeiro dicionário.

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Por último surgiu a escrita fonética, a base do que conhecemos como alfabeto. “O primeiro alfabeto surgiu por volta do ano de 1500 a.C., em Canaã (o alfabeto fenício), e dele derivaram os alfabetos grego, hebraico, aramaico e, mais recentemente, o latino”16; foi a grande revolução da escrita, pois ler e escrever ficou muito mais fácil e mais rapidamente se difundiu. Devemos ressaltar que, mesmo com o advento e a expansão da escrita, a tradição oral perpetuou-se ainda por séculos e até mesmo milênios em algumas civilizações. Para os filósofos gregos, por exemplo, a palavra escrita não seria capaz de transmitir fidedignamente a mensagem com a intenção da alma e a sonoridade oral: “a palavra falada(...) está gravada na alma do discípulo ( ... ), possui uma alma, da qual a palavra escrita, propriamente, não é mais do que uma imagem”.17 Nessa caminhada histórica, vemos que vários outros suportes físicos foram utilizados pelo homem para comunicar-se, desde cordas com nós (quipo ou quipu, utilizadas pelos incas18, chineses, persas, japoneses e indianos) até folhas de palmeiras, bambu, marfim, ossos, tábuas recobertas com cera (pugillares), conchas, metais, seda, peles de animais, líber (entrecascas de árvores) e outros materiais. Nosso objetivo é discutir sobre a importância do papel e, por isso, daremos destaque aos suportes que o antecederam mais diretamente, sem nos detalharmos nos demais. Entre os suportes que nos interessam, o papiro figura como um dos mais importantes, sendo inclusive utilizado até nossos dias. Desenvolvido pelos egípcios por volta de 3700 a.C. e de utilização bastante diversificada — como material de construção, para a confecção de cordas, esteiras, sandálias e até barcos antes de ser suporte de escrita —, o papiro é considerado o verdadeiro precursor do papel.

Instituto Papiro, Cairo, Egito. . KATZENSTEIN, U.E. Op. cit., p. 24 . Idem, p. 26. 18 . BRONOWSKI, J. Op. cit. “As mensagens chegavam ao inca sob a forma de dados numéricos marcados em pedaços de cordões chamados quipus....Os números que descreviam a vida de um homem no Peru eram coletados em uma espécie de cartão perfurado ao reverso, um cartão de computador em braille, organizado sob a forma de nós em um barbante”, p. 101. 16 17

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Pinturas sobre papiro egípcio.

Proveniente da planta aquática perene Cyperus papyrus, abundante às margens do rio Nilo, com a característica principal de formar rizomas e capacidade de atingir até seis metros de altura, o papiro era obtido através do corte do miolo fibroso da planta em tiras longitudinais, as quais eram dispostas em camadas perpendiculares e depois prensadas, lixadas e alisadas com marfim ou conchas até se obter um laminado, cuja superfície servia para a escrita. Essa é uma descrição muito simplificada do processo real de produção do papiro, que demorava entre sete e dez dias para ser finalizado e utilizado. Os egípcios detinham o monopólio de produção do papiro, um dos produtos mais exportados da época (à exceção do linho, produzido desde 6000 a.C.), sendo muito usado para escambo em toda a Europa, em regiões asiáticas e na própria África até o século IX da Era Cristã. O papiro era tão valorizado pelos romanos que eles o chamavam de “papelaugusto”, como forma de homenagear o imperador. O material apresenta grande durabilidade; já foram encontrados papiros com mais de cinco mil anos. Graças a essa durabilidade, tivemos acesso a uma enorme variedade de informações que nos permitiram “recompor a história da civilização em geral e da história egípcia em particular”.19 Com a exclusividade egípcia na produção do papiro por um lado e o incremento da necessidade de comunicação escrita por outro, além de questões políticas diversas — incluindo-se a comercialização, o preço e a exportação desse produto —, outros povos passaram a pesquisar novos suportes.

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. Hassan Ragab. In: Otávio Roth. Curso Prático para fabricação de papel para fins artísticos, p. 5.

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Vemos, então, o surgimento do pergaminho, que nada mais é do que a derme (ou cório) de animais, especialmente bois, bodes e camelos, ou do velino, proveniente de espécimes intra-uterinos, como bezerros, cabritos e veados, por exemplo, tratada como superfície destinada à escrita. Sua invenção (ou aperfeiçoamento, já que desde as cavernas, as peles de animais eram utilizadas para outros fins) é creditada aos persas durante o reinado de Eumenes II (197 – 159 a.C.), de Pérgamo, por volta de 200 a.C.20 Esse foi o principal suporte de escrita no Oriente e na Europa durante quase toda a Idade Média; após o século VII, substituiu em muitos locais o papiro. Além de a produção poder ser realizada em qualquer local, tinha resistência superior à do papiro, o qual ainda tinha a desvantagem de ser importado do Egito. No Pacífico e América Central, culturas, como as da Polinésia, Havaí, Nova Guiné, Java, bem como os povos asteca e maia, desenvolveram a tapa, suporte feito a partir da amoreira (Morus alba L. e Morus nigra L.), o huun, proveniente do vidoeiro (Betula alba L. e Betula nigra L.) e, posteriormente, o amatl, resultado do tratamento da figueira (ficus sp.), que eram basicamente entrecascas dessas árvores.

Preparação do pergaminho.

. Devemos registrar que, com a descoberta dos “rolos do mar Morto”, que consistem, entre outras, em uma série de manuscritos em pergaminho, nas cavernas de Qumram, deserto da Judéia, por expedições arqueológicas iniciadas em 1946 d.C., há indícios da utilização desse material antes do reinado de Eumenes II. Porém, pelo fato de o nome “pergaminho” ter a mesma raiz do nome da cidade Pérgamo, na época o grande centro de comercialização e exportação desse material, a maioria dos autores credita seu aperfeiçoamento aos persas. 20

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Pintura sobre pergaminho.

Com a invenção do pincel de pêlo em 250 a.C. pelo sábio chinês Meng T’ien, os chineses, que já conheciam a tinta nanquim e eram produtores de seda, passaram a utilizá-la também como suporte de escrita, mesmo porque era o material que mais se adaptava ao seu tipo de escrita ideográfica. Como sabemos, a única árvore em que o bicho-da-seda faz seu casulo é a amoreira (Morus alba L. e Morus nigra L.). A espécie Morus alba L. é originária da China e cultivada em todos os estados daquele país, com predominância nos do sul, onde a indústria sericícola tem maior importância. Essa cultura conta com grandes incentivos do gover-

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no, recebendo inclusive facilidades diversas e até mesmo prêmios em dinheiro. A espécie Morus nigra L. é originária da Pérsia e acha-se espalhada por todo o mundo, sendo cultivada para o fim especial de alimentar o bicho-da-seda. A amoreira foi introduzida no Brasil somente em 1811.21 A seda, porém, além de ter processo de produção extremamente trabalhoso e de alto custo, era também muito utilizada para vestuário. Com o incremento populacional e a necessidade comercial, os chineses foram obrigados a pesquisar alternativas de suporte, o que finalmente os levou ao descobrimento do papel. Gostaríamos de ressaltar também que o manuseio desses diferentes materiais sofreu evoluções significativas, permitindo o desenvolvimento da escrita e o surgimento do formato no qual hoje concebemos nossos livros. Sabemos que, por exemplo, as placas de argila (cunhadas e queimadas) e as tábuas (pugillares) eram largas, geralmente retangulares e rígidas, com escrita recebida em apenas uma face. O papiro e a seda, mais maleáveis e leves, podiam ser enrolados e tinham dimensões variadas. O bambu, cortado em tiras estreitas, conduzia a uma escrita vertical, mas permitia a amarração com cordas de seda e em forma de sanfona. O pergaminho, que podia receber escrita dos dois lados — e também era, obviamente, bem resistente —, possibilitou o surgimento de diferentes formas de costura e encadernação (códices).

. CORRÊA, M. P. Dicionário das plantas úteis do Brasil. Ed. Ibama e Ministério da Cultura. 1969/78

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2.1. O Papel O papel, tal como o conhecemos hoje, teve sua origem na China. A data de sua aparição é incerta e há controvérsias sobre quem o inventou. Segundo a maioria dos historiadores — entre eles o renomado Dard Hunter22 —, o ano de 105 d.C. é usualmente citado como o da invenção do papel porque foi quando Ts’ai Lun, funcionário imperial, reportou oficialmente ao imperador Ho-Ti (89 –105 d.C.) o processo de produção desse novo suporte. Apesar de termos registros que “atribuem a invenção do papel ao general MongTien, dos exércitos do primeiro imperador, T’sin She Hwang-Ti (246-210 a.C.)”23 , e também informações de pesquisas realizadas pelo Instituto de História e Ciência Natural de Pequim, que por meio de análises microscópicas identificou papéis datados de 140 a.C., existe na China um ditado popular ensinado em todas as escolas: “Ts’ang Chieh fez os caracteres e Ts’ai Lun fez o papel”.24 Qualquer que seja a verdade histórica, o fato é que os primeiros papéis foram produzidos pelos chineses a partir de fibras vegetais provavelmente de amoreira, rami (Boehmeria nivea), cânhamo (Cannabis sativa L.) e redes de pesca (tramadas a partir de fibras vegetais diversas, como, por exemplo, o bambu (Bambusa vulgaris). Essas plantas, depois de cozidas e maceradas25, davam como resultado uma pasta que, misturada com água, era depositada em uma tina. Com o auxílio de um molde (seda ou bambu tecidos e colocados sobre um suporte formando uma espécie de peneira) coava-se a polpa – na verdade um emaranhado de fibras que era colocado para secar nesse molde.

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. HUNTER, Dard. Papermaking – The History and tecnhique of an ancient craft.

. MOTTA, Edson. O Papel, p. 20. . HUNTER, Dard. Op. cit., p. 50. 25 . O cozimento provavelmente era feito utilizando-se uma solução alcalina de cinzas vegetais que é a base da soda cáustica usada atualmente para a extração da celulose. A maceração era feita batendo-se as fibras com martelos de madeira ou em pilões. Falaremos mais detalhadamente sobre isso a seguir. 23 24

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Fonte: http://www.kippo.or.jp/culture_e/washi/world/img/a02.jpg

Fonte: http://www.musashi.jp/archives/hanagoyo14_files/mitsumata2.jpg

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(foto da esquerda) Gampi - fibra típica usada no Japão. (foto da direita) Mitsumata - fibra típica do Japão.

O resultado era um suporte fino e delgado próprio para a escrita: o papel. O mais impressionante no processo de obtenção deste suporte era a simplicidade, a rapidez e o baixo custo. Tal processo, apesar de simples, foi mantido sob o domínio dos chineses por mais de 500 anos. Para os chineses, e os orientais de forma geral, o papel tinha um simbolismo sagrado; nenhum pedacinho era descartado, principalmente se contivesse algum escrito, sem um ritual de reverência que consistia na incineração e na dispersão das cinzas em água corrente. Somente em 610 d.C., quando os chineses invadiram a Coréia, é que se inicia a difusão da técnica para além da China. Os japoneses, também no mesmo ano, tiveram acesso ao segredo de produção do papel por meio dos ensinamentos de um monge coreano. Coincidentemente, na mesma época ocorreu a introdução do budismo naquele país. No Japão foram desenvolvidos intensos trabalhos de pesquisa e aperfeiçoamento das técnicas de manufatura, bem como a exploração de novas fibras abundantes, como o gampi (Diplomorpha sikokiana), kozo (Broussonetia kajinoki) e mitsumata (Edgeworthia papyrifera), que são utilizadas até hoje, inclusive produzidas de forma artesanal, e que são as mais procuradas para restauração de livros e documentos. O desenvolvimento da técnica foi tão significativo que, já no ano de 770 d.C., por ordem da imperatriz Shõtoku, imprimiu um milhão de cópias de uma oração de graças — dhãrani — sobre folhas de papel de kozo, medindo seis centímetros de largura por trinta a cinquenta de comprimento, utilizando-se pela primeira vez uma “matriz fixa de cobre” (outros autores citam mais provavelmente tipos móveis, blocos de madeira ou até mesmo metal e porcelana26). As orações foram acondicionadas dentro de pequenas pagodas de madeira. Essa foi, com certeza, a primeira

. HUNTER, Dard. Op.cit. p.71. Devemos citar também que, segundo Sukey Hughes , no livro Washi – The world of japanese paper, p. 42, as impressões foram feitas em blocos de madeira; por isso, devemos considerar esta informação como a mais correta. 26

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Fonte: http://www.kyohaku.go.jp/eng/dictio/data/kouko/hyakuman_l.htm

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Exemplar da Pagoda da Imperatriz Shotoku (Kyoto National Museum).

produção (impressão) em massa feita sobre papel de que se tem notícia. O projeto demorou seis anos para ser concretizado27, e existem até hoje exemplares no Japão. Mantida como segredo imperial, a manufatura papeleira só começa a ser difundida quando prisioneiros de guerra chineses foram obrigados a ensinar o processo aos árabes instalados em Samarkanda, no ano de 751 d.C. Tendo início em 795 d.C., em Bagdá, a produção de papel tem sua difusão acompanhando a expansão muçulmana e alcançando, pela costa norte da África, a Península Ibérica, através da Espanha, sendo, então, difundida com bastante rapidez pelo Ocidente. Relacionamos abaixo as datas de instalação de alguns moinhos, as quais nos permitem verificar que o desenvolvimento da produção de papel iniciada no século XII na Europa foi bem significativo, acabando com o monopólio oriental. Alguns deles, como Fabriano (Itália) e Capellades (Espanha), por exemplo, são, ainda hoje, não somente ativos centros produtores de papel artesanal, como também renomadas escolas que mantêm e perpetuam a tradição manufatureira.

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. ROTH, Otávio. Criando papéis – O processo artesanal como linguagem, p. 10.

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Alguns dos moinhos papeleiros da Era Cristã com as datas aproximadas de implantação são: Fez, 1100 (Marrocos); Xativa, 1151 (Espanha); Herault 1189 (França); Capellades, 1238 (Espanha); Fabriano, 1276 (Itália); Troyes, 1348 (França); Nuremberg, 1390 (Alemanha); Leiria, 1411 (Portugal); Kashemira, 1420 (Índia); Jemep, 1428 (Bélgica); Cracóvia, 1491 (Polônia); Hertfordshire, 1494 (Inglaterra); Viena, 1498 (Áustria); Culhuacán, 1575 (México); Moscou, 1576 (Rússia); Dordrecht, 1586 (Holanda); Dinamarca, 1635; Oslo, 1690 (Noruega); Pennsylvania, 1690 (EUA) e St. Andrews East, 1803 (Canadá)28. Distinguimos claramente as diferenças culturais e espirituais entre o Oriente e o Ocidente, tanto no processo de produção quanto na relação pessoal do homem com o papel. Convivendo tranqüilamente com o advento da indústria e das inovações tecnológicas, a produção de papel artesanal no Oriente nunca se interrompeu; perpetua-se até nossos dias como atividade sagrada, quase divina. No processo oriental, o papel é geralmente seco nos moldes, feitos basicamente de esteiras de bambu. Na China, o papel é utilizado nos funerais como “material na preparação do corpo, antes e depois do enterro e na cremação, para assegurar viagem serena ao espírito do morto”29. No Japão a produção de papel também segue toda uma tradição religiosa; as fibras utilizadas são preparadas em um ritual secular: “o papel é um material absolutamente integrado na cultura japonesa, onde tradicionalmente os artesãos, que mais se destacam em suas atividades, são elevados à condição

Moinho Papeleiro de Capellades – Espanha, hoje Museu Moli Paperer.

. D’ALMEIDA, Maria Luiza Otero (coord.). Celulose e papel. Editado pelo Senai e IPT, 1988, p.3 & Hunter, Dard. Papermaking – Ther history and technique of an ancient craft. Ed. Dover NY/NY 1978 29 . ROTH, Otávio. O que é papel. Ed. Brasiliense 1983, p. 26. 28

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Papéis secando nos moldes em Aldeia papeleira no Nepal.

de Tesouro Nacional Vivo, [que] é a mais alta homenagem prestada a um artista em vida”30. Isso aconteceu ainda no século passado, em pleno século XX, em um país consagrado pelo alto avanço tecnológico. Na Índia e no Nepal há ainda hoje centros de produção de papel artesanal em um processo que segue tanto a forma oriental quanto a ocidental. A matéria-prima mais utilizada é o algodão, existindo inclusive acordos governamentais que subsidiam as sobras das indústrias têxteis, que são destinadas à fabricação de papel. Encontramos na cidade de Poona, na Índia, um centro de produção de papel artesanal, o Handmade Paper Institute31, que confecciona os diplomas oficiais de noventa universidades indianas, em que cada tela, seguindo o processo ocidental que utiliza moldes de metal, tem a marca d’água32 com o símbolo de cada universidade. No Ocidente o papel foi, no início, recebido com desconfiança, tanto pelo questionamento de sua durabilidade em comparação ao pergaminho quanto por preconceitos religiosos e raciais dos cristãos em relação aos árabes, mouros e judeus, que eram os papeleiros.

. ROTH, Otávio. O que é papel. Ed. Brasiliense 1983, p. 34. . O Handmade Paper Institute, fundado em 1942, produz diariamente 2.500 folhas, tamanho A0, contando com o trabalho de 105 funcionários. As instalações são extremamente simples e até mesmo rudimentares; a matéria-prima utilizada é principalmente o algodão, basicamente trapos (dados referentes à visita feita pela autora em março de 1997). 32 . HUNTER, Dard. Op. cit. p. 260. As marcas d’água introduzidas por papeleiros italianos no século XIII (1282) eram obtidas através da fixação de um fio de metal sobre a tela, de tal forma que o fio, o qual podia ter formatos diversos, fazendo desenhos, inclusive com detalhes requintados, na tela de metal, obstruindo-a ligeiramente em alguns pontos, fazendo com que a polpa se dispersasse no local tramado. Isso criava áreas com menos depósito de fibra no papel, o que, sem furar o suporte, permitia que os desenhos fossem vistos principalmente contra a luz. Este processo é ainda muito utilizado atualmente, principalmente no papel-moeda. 30 31

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Refinadora, TIPO holandesa.

Algumas inovações feitas pelos árabes no processo chinês foram a especificação de medidas das folhas, conforme sua finalidade, e a coloração destas com o uso de corantes. Com a ampliação e a diversificação comerciais e culturais, a expansão do cristianismo e a conquista de novas terras, que determinaram uma crescente demanda por suportes de escrita, vemos na Europa, após as resistências iniciais, não só a consolidação definitiva da produção papeleira como também mudanças significativas nesse processo. Em oposição ao processo oriental, no qual o papel, depois de confeccionado, era deixado a secar em moldes feitos basicamente de bambu e que exigia grandes quantidades de moldes para uma produção maior, no sistema ocidental utilizavam-se moldes de madeira sobre os quais era costurada uma tela rígida, uma trama de metal, que, após a formação da folha, permitia sua transferência para um feltro, possibilitando a reutilização do molde rapidamente. Terminada essa etapa de produção, os papéis eram empilhados, entremeados de feltros e colocados em uma prensa, que os comprimia, retirando o excesso de água. Após esse processo, as folhas eram penduradas em um varal para secar. Finalmente, depois de secas, voltavam à prensa para serem planificadas. Como a escrita ocidental era feita basicamente com a utilização de penas rígidas, ao contrário dos pincéis de pêlo chineses, os europeus foram os primeiros a desenvolverem a colagem externa do papel, que consistia na imersão, após seco, em uma tina com colas preparadas basicamente a partir de ossos e peles animais, que, além de encorpar o papel, deixava-o menos poroso, impedindo a absorção excessiva da tinta.

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Não podemos deixar de mencionar que os japoneses são famosos pela utilização de uma mucilagem vegetal proveniente do Tororo-aoi (Abelmoschus maniihot) e do Nori-utsugi (Hydrangea floribunda, Regel e Hydrangea paniculata, Sieb.), que é adicionada à tina de formatação das folhas, impedindo que os papéis, extremamente finos, empilhados ainda úmidos e sem a separação por feltros, grudem uns aos outros; isso acontece provavelmente, porque a mucilagem propicia maior entrelaçamento das fibras, fortalecendo o papel33. Outra inovação ocidental foi a utilização de fibras longas34 de algodão e linho, em oposição às fibras curtas de outros vegetais, como o bambu, usados no Oriente. A utilização do algodão (Gossypium sp) e do linho (Linum usitatissimum) permitiu a produção de papéis mais brancos (os produtos alvejantes, como o cloro, só foram descobertos no final do século XVIII) e gerou a primeira inovação de maquinaria, com a invenção de uma refinadora que permitia a desintegração dos trapos em fibras. Essa máquina, denominada “holandesa”, foi desenvolvida no fim do século XVI pelos holandeses e utilizada até hoje, sem que, mesmo com uma série de aperfeiçoamentos, tenha tido alterada a idéia básica: um recipiente de forma oval, em que um rolo cilíndrico móvel, com uma série de barras metálicas, é montado sobre um eixo em uma das laterais do recipiente. Logo abaixo desse rolo temos, fixa no fundo do recipiente, outra barra de metal.

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O princípio básico é o seguinte: o rolo em movimento, com a adição de água, puxa os trapos colocados no recipiente, forçando a passagem destes entre o rolo dentado e a barra fixa, sendo assim esgarçados, ou seja, transformados em fibras. A esse processo damos o nome de refino, que era o mesmo feito pelos chineses quando maceravam as fibras utilizando martelos de madeira ou pilões. A distância entre o rolo e a barra pode ser controlada, dependendo da quantidade de trapos e do grau de refino desejado. No refino, temos o cisalhamento das fibras, que consiste na “abertura” destas em fibrilas, o que chamamos de “fibrilação”. Isso permite um aumento da área de contato, maior entrelaçamento e, conseqüentemente, um papel mais resistente.

. HUGHES, Sukey. Washi. The world of japanese paper. Kodansha International/EUA. 1978. p. 84. . D´ALMEIDA, M.L.O. Op. cit. p. 36-39. São consideradas fibras longas aquelas que têm em média entre 3mm e 10mm de comprimento, como, por exemplo, o algodão (Gossypium sp), de 10mm a 40mm; o linho (Linum usitatissimum), com 33mm, e o rami (Boehmeria nivea), em média com 120mm. As fibras curtas têm, em média, de 0,7mm a 3mm. 33 34

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Refinadora, TIPO holandesa.


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Fonte: www.flipperpaulista.blogger.com.br/mexendo-no...

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VESPEIRO – na verdade, o primeiro papel feito de fibras de madeira.

Essa invenção aumentou significativamente o consumo de trapos para a produção de papel, gerando, inclusive, crise no fornecimento da matéria-prima: “um decreto de 1666 do Parlamento Inglês estabeleceu que os mortos só seriam enterrados em trajes de lã, salvando (assim) cem toneladas anuais de linho e algodão para a fabricação de papel”.35 A pesquisa de novos materiais para a fabricação de papel torna-se evidentemente necessária. Desde então, muitas plantas e diferentes materiais fibrosos são testados, como, por exemplo, palha, resíduos agrícolas e folhas de diferentes vegetais. Alguns relatos de pesquisas são até engraçados. Em Portugal, chegaram ao extremo de experimentar estrume de gado e cavalo para a fabricação de papel: “E que dizer dum requerimento feito ao Governo [de Portugal] pelo fabricante Mr. Gitton, pedindo privilégio para o seu in-

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vento de papel de ... estrume de cavalo, que se propunha fabricar em Lisboa, na sua excelente fábrica do Palácio Ratton, à Rua Formosa!...”36. Somente em 1719 é que o francês René Antoine Ferchault de Réaumur (1683 -1757), após observar os vespeiros37, propõe a utilização de raspas de madeira para a confecção de papel. Partindo dessa proposta, foram feitas várias experiências com a polpação de serragem, madeira, palha e o “cabelo das sementes de certas árvores, que é o material utilizado na confecção dos vespeiros”.38 O material obtido, porém, ainda apresentava características pouco atraentes, com a polpa não totalmente desintegrada e de coloração amarelada. A utilização definitiva da madeira só acontece na segunda metade do século XIX, com o desenvolvimento dos processos químicos de cozimento da madeira e o aperfeiçoamento mecânico das máquinas inventadas. Em 1798, o também francês Nicholas-Louis Robert (1761-1828) inventa a primeira máquina de papel. Tendo sido empregado em um moinho papeleiro em Essonnes, de propriedade do Sr. François Didot (1730-1804), Robert conhecia bem a produção papeleira e ficava angustiado com as limitações dos tamanhos dos moldes de papel, bem como com o mau comportamento dos artesãos e a falta de disciplina da categoria. Isso o estimulou a desenvolver um processo que dispensaria a utilização de empregados na produção de papel. No seu pedido de registro de pa-

. ROTH, Otávio. O que é papel. Ed. Brasiliense, p. 41. . PINTO, Américo Cortez. Da famosa arte da imprimissão. Ed. Ulisseia. Lisboa, 1948, p. 158. 37 . As vespas, himenópteros, confeccionam seu ninho através da mastigação de lascas de madeira, que, maceradas e adicionadas a uma cola natural, da sua própria saliva, formam uma pasta celulósica que é o verdadeiro papel. Vemos, portanto, que, muito antes dos chineses ou de qualquer ser humano, o papel já era produzido pela natureza. 38 . D’ALMEIDA, M.L.O. Celulose e papel. Senai e IPT. São Paulo 1988. Volume 1, p. 4. 35 36

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Máquina de papel inventada pelo francês Nicholas-Louis Robert (1761-1828).

tente feito em nove de setembro de 1798 ao Ministro do Interior, em Paris (e aprovado em dezoito de janeiro de 1799), ele cita que sua intenção era produzir papel de comprimento extraordinário sem o auxílio de empregados, usando somente meios mecânicos.39 O princípio da máquina inventada por Robert é o mesmo empregado nas modernas indústrias papeleiras. A polpa, depois de refinada, era dispersa em uma esteira rotativa, tramada de metal (atualmente as indústrias modernas utilizam esteiras de nylon), que, movida por engrenagens e manivelas, movimentava a polpa, fazendo com que as fibras se emaranhassem e a água escorresse por gravidade para uma tina disposta abaixo da esteira. Como, porém, ainda não havia pensado no processo final de secagem, o papel era retirado úmido da esteira e colocado para secar em feltros, como no processo artesanal. Por diversos motivos, tais como a Revolução Francesa e brigas entre Robert e seu antigo patrão, o Sr. Didot (o qual repassou os princípios básicos da construção da nova máquina ao seu cunhado, John Gamble, que, em conjunto com os irmãos Henry e Sealy Fourdrinier, proprietários de moinhos papeleiros na Inglaterra, desenvolveram poucos aperfeiçoamentos à idéia inicial), o projeto de Nicholas-Louis Robert nunca passou de um protótipo.40 . HUNTER, Dard. Papermaking. p. 341-373. . Devemos citar que tanto o nome de Nicholas-Louis Robert quanto o dos irmãos Fourdrinier estão registrados em diversas literaturas como os primeiros idealizadores das atuais máquinas de papel, mesmo que nenhum deles tivesse obtido sucesso financeiro com seus projetos. 39 40

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As primeiras máquinas procuravam simplesmente imitar mecanicamente o processo artesanal de produção do papel; não previam a sucção da água nem a secagem final. A grande novidade apareceu na Inglaterra em 1821, com a utilização de cilindros secadores que, acoplados à máquina e aquecidos a vapor, prensavam e secavam o papel formado na esteira. Esse invento é creditado ao inglês Thomas Bonsor Crompton, cuja patente data de primeiro de novembro de 1820.41 Devemos ressaltar que as inovações tecnológicas não foram facilmente aceitas nem rapidamente assimiladas, principalmente pelos artesãos papeleiros, que, pressentindo que a máquina ameaçaria seus empregos, fizeram vários boicotes à introdução dos novos equipamentos, chegando, inclusive, a queimar não só as máquinas, como moinhos inteiros. 42 A partir daí, várias inovações são implementadas, e a indústria papeleira começa a tomar a forma atual. Em vez de aumentar de quantidade, os moinhos tenderam à concentração e integração. O desenvolvimento da indústria química com a utilização de soda cáustica e bissulfito, em meados do século XIX, e as inovações nos processos de branqueamento e encolagem possibilitaram a melhor exploração da madeira como matéria-prima, definitivamente consagrada na produção de papel.43 As madeiras atualmente mais utilizadas no mundo são as espécies de pínus (Pinus spp), cuja fibra é longa, e eucalipto (Eucalyptus spp), de fibra curta. Por fim, o que é realmente papel? Temos a seguinte definição técnica: “uma película de fibras de celulose – polissacarídeo de fórmula (C6H10O5)n –, obtidas através do cozimento e/ou maceração, podendo ser refinadas, emaranhadas e agregadas basicamente por ligações químicas de pontes de hidrogênio”. Todas as plantas são constituídas por materiais lignocelulósicos, que são compostos basicamente por celulose, hemicelulose, lignina e constituintes menores. Na produção de papel estamos principalmente interessados na celulose e na hemicelulose, ambos polissacarídeos. No que diz respeito à lignina e aos outros constituintes das plantas, não servem para a produção de papel e até mesmo prejudicam sua qualidade. Podemos arriscar a fazer a seguinte analogia: a celulose é o principal componente da parede celular da fibra de todas as plantas e o que interessa na produção de papel; já a lignina seria o “cimento” que une essas fibras, sendo o que deve ser eliminado, a fim de que possamos liberar as fibras e produzir o papel. O papel é um suporte bastante higroscópico, ou seja, absorve água, aceitando facilmente tintas e impressões diversas. Como já dissemos, o papel é feito de celulose, presente em todas as plantas, em menor ou maior grau de concentração. Dessa forma, podemos fazer papel a partir de qualquer planta. Este polissacarídeo, insolúvel em água, permite a restauração do papel com banhos aquosos sem que se desmanche. A lignina, também presente em todas as plantas e em concentração variada, é um polímero amorfo e de composição química complexa que dá rigidez e firmeza ao conjun. HUNTER, Dard. Op.cit. p. 361. . HUNTER, Dard. Op.cit. p. 361-364. Na verdade, o que temos hoje é o setor econômico que mais cresce no mundo e demanda cada vez mais mão-de-obra especializada. 43 . D’ALMEIDA, M.L.O. Op. cit. Vol. 1, p. 5. 41 42

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to de fibras de celulose. Esta, apesar de incolor, é altamente reativa à presença de oxigênio e luz (solar ou a visível de baixo comprimento de onda, entre 400 e 500nm, bem como a radiação UV e IV), dando origem a grupos cromóforos, ou seja, que transmitem cor. Podemos verificar a ocorrência disso na prática quando deixamos, por exemplo, um jornal exposto ao sol. Percebemos visualmente que em pouco tempo “amarela” – a reação fotoquímica da lignina. Papéis com alto teor de lignina e presença de finos, geralmente os produzidos das pastas de alto rendimento ou mecânicas, tendem a ficar enfraquecidos ou quebradiços. Percebemos bem essa reação nos livros impressos no final do século XIX e início do XX, quando o processo de polpação química da madeira ainda não estava bem desenvolvido. Quando entramos em uma biblioteca com acervo mais antigo, sentimos um forte odor, característico da umidade que provoca a acidez do papel. Nos dias de hoje, os processos utilizados industrialmente para a produção de celulose se diferenciam em: mecânico, termomecânico, quimitermomecânico e semiquímicos (sulfito ácido, sulfito neutro, sulfato e soda a frio) e químicos. Descreveremos sucintamente a seguir esses processos, baseando-nos principalmente nas descrições do livro Celulose e Papel – Tecnologia de Fabricação da Pasta Celulósica, IPT e Senai44. Não entraremos em detalhes sobre o que ocorre com as fibras celulósicas em cada processo, pois nosso objetivo aqui é dar uma noção básica sobre as diferentes formas de obtenção de celulose para a produção de papel. No processo mecânico, temos basicamente a madeira processada nas seguintes etapas: as toras passam por um descascamento, que é a retirada da casca externa da árvore; em seguida, são cortadas em pedaços menores que são forçados para um desfibrador – neste caso, um rolo de pedra dentado que esgarça a madeira, transformando-a em pasta. Neste processo, temos o aproveitamento total da madeira, com todos os seus constituintes. Os papéis assim produzidos são utilizados basicamente como papel-jornal, de embalagem, para isolamento acústico, sanitário, etc. No processo termomecânico, temos basicamente a adição de calor e pressão como diferença do processo anterior. A madeira cortada em pedaços, que são chamados de “cavacos”, é amolecida com vapor de água saturado à pressão de 1 a 3 atmosferas e calor de 120 ºC a 145 ºC. Em seguida, os cavacos passam por dois desfibradores, um pressurizado e o outro despressurizado, até virar pasta. Este processo apresenta melhoria na qualidade do papel obtido em relação ao processo mecânico, desde maior resistência física até melhor imprimibilidade. O processo quimitermomecânico acrescenta um ligeiro pré-tratamento químico dos cavacos, que em seguida são submetidos à pressão em um desfibrador de disco para a separação das fibras, como nos processos anteriores. Nos processos semiquímicos, há intermediação entre o processo descrito acima e o que chamamos de “processos químicos” (neste último, as concentrações dos reagentes e seu tempo de ação são maiores). Tradicionalmente se usam os seguintes reagentes:   1. anidrido sulfuroso: SO2 (dióxido de enxofre), a um pH entre 1 e 2, utilizados em baixa concentração no cozimento e a baixa temperatura, entre 120 ºC e 130 ºC; 44

. D´ALMEIDA, M.L.O. Op. cit., p. 129-400.

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  2. sulfito neutro: processo mais difundido, em que os cavacos de madeira são tratados à base de sulfito de sódio (Na2SO3) ou sulfito de amônio (NH4)2SO3; o pH é mantido entre 7 e 8, por meio da adição de agentes, que neutralizam a acidez do sulfito;   3. sulfato: também conhecido como “processo Kraft”. São utilizados hidróxido de sódio (NaOH) e sulfeto de sódio (Na2S). O tempo de cozimento varia entre 0,3 a 2h, e a temperatura média é de 160 ºC a 185 ºC;   4. soda a frio: o NaOH (hidróxido de sódio) é impregnado nos cavacos, o que permite o enfraquecimento das ligações entre as fibras, ou seja, a separação da lignina, em temperatura em torno de 25ºC. Em seguida, os cavacos passam por um desfibramento e se transformam em pasta.

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Nos processos químicos, temos a madeira descascada, cortada em cavacos, que têm em média de 2 a 4 cm2, colocada em um digestor (grande torre de cozimento que podemos comparar a uma panela de pressão gigante), onde se adicionam produtos químicos (já descritos acima), para o cozimento dos cavacos em condições de alta temperatura e pressão. Após o cozimento, os cavacos já transformados em pasta passam por processos de lavagem, para retirada dos produtos químicos; em seguida, essa pasta é refinada e, dependendo da destinação do papel, branqueada, sendo novamente lavada. A partir desse momento, a pasta, que pode ter adição de carga (caulim, carbonato de cálcio, etc.) e/ou cola (breu), entra nas esteiras de formação, feitas de telas de nylon, com rotação contínua e extensão que pode variar em centenas de metros, onde o papel se forma e passa por vários setores até a secagem, a calandragem, sendo finalmente, enrolado em bobinas.

Fábrica moderna – máquina de papel do século XXI.

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Fonte: www.unc.edu/news/pics/event/exhibit/Gutenberg.jpg

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Retrato de Gutenberg – gravura em metal.

Uma indústria de grande porte pode produzir quilômetros de papel em minutos. Cada vez mais, surgem indústrias que optam pelo funcionamento ininterrupto, o que traz como vantagens: menos custos de instalação e de operação; economia de vapor; melhor qualidade da pasta; rendimentos mais altos; menor corrosão do digestor; otimização dos fluxos de madeira, vapor e reagentes químicos; poluição atmosférica mais facilmente controlada e equipamentos mais facilmente adaptáveis ao controle por computador. Como já dissemos, a produção artesanal de papel no Oriente nunca se interrompeu, mesmo com o advento e o incremento da indústria papeleira. Já no Ocidente, observamos certo ressurgimento do papel artesanal na década de 1950, com artistas interessados em suportes diferenciados para suas obras: “uma obra-de-arte sobre este papel se valoriza na medida em que se pode apreciar, concomitantemente, os detalhes do suporte, o tipo de fibra utilizada, a consistência da folha, a rugosidade da sua superfície e o efeito desses detalhes sobre a imagem que lhe foi superposta”. Muitos outros fatores foram decisivos para o sucesso do uso do papel, mas o que o consagrou definitivamente como suporte de escrita foi, sem dúvida, a invenção da imprensa por Gutenberg, por volta de 1450.

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Linha do tempo do papel artesanal: no mundo e no Brasil THÉRÈSE HOFMANN GATTI e VICTÓRIA RABAL

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C Fonte: Indústria da pasta e do papel em Portugal - O Grupo Portucel de Jorge Fernandes Alves

omo vimos no capítulo anterior, a fabricação do papel teve uma evolução lenta, permanecendo durante séculos restrita primordialmente à China. Mantida como segredo imperial, a manufatura papeleira só começa a ser difundida quando prisioneiros de guerra chineses são obrigados a ensinar o processo aos árabes instalados em Samarkanda, no ano de 751 d.C. Tendo início em 795 d.C., em Bagdá, a difusão da produção de papel acompanha a expansão do Império Muçulmano, através da rota das caravanas, e alcança, pela cos-

Mapa da rota do papel.

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ta norte da África, a Península Ibérica, através da Espanha, sendo, então, disseminada com bastante rapidez pelo Ocidente. Relacionamos abaixo as datas de instalação de alguns moinhos, o que nos permite verificar que o desenvolvimento da produção de papel iniciada no século XII na Europa foi bem significativo, acabando com o monopólio oriental. Alguns dos moinhos papeleiros da

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Artesã produzindo papel em uma fábrica familiar de papel artesanal no Japão e, abaixo, a produção secando ao sol.

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Era Cristã com as datas aproximadas de implantação são: Fez, 1100 (Marrocos); Xativa, 1151 (Espanha); Herault 1189 (França); Capellades, 1238 (Espanha); Fabriano, 1276 (Itália); Troyes, 1348 (França); Nuremberg, 1390 (Alemanha); Leiria, 1411 (Portugal); Kashemira, 1420 (Índia); Jemep, 1428 (Bélgica); Cracóvia, 1491 (Polônia); Hertfordshire, 1494 (Inglaterra); Viena, 1498 (Áustria); Culhuacán, 1575 (México); Moscou, 1576 (Rússia); Dordrecht, 1586 (Holanda); Dinamarca, 1635; Oslo, 1690 (Noruega); Pennsylvania, 1690 (EUA) e St. Andrews East, 1803 (Canadá).1 Com o advento dos moinhos, o processo de produção deixa de ser totalmente artesanal, como ocorria no início, e começa a se mecanizar, até se transformar, alguns séculos mais tarde, em um processo totalmente industrial. No Ocidente, vemos claramente a interrupção do processo de produção artesanal de papel e sua completa industrialização até meados do século XX. Já no Oriente, certamente pelas marcantes diferenças culturais e religiosas em relação ao Ocidente, vemos que sempre houve significativa distinção, tanto no processo produtivo quanto na relação pessoal do homem com o papel. Apesar de a manufatura do papel ter sido primeiramente estabelecida no Oriente e a partir dali repassada ao Ocidente, percebemos claramente, desde o início, antes do século II da nossa era, uma “ocidentalização” no processo de produção e no entendimento sobre o papel.

. D’ALMEIDA, Maria Luiza Otero (coord.). Celulose e papel. Editado pelo Senai e IPT, 1988, p.3 & Hunter, Dard. Papermaking – Ther history and technique of an ancient craft. Ed. Dover NY/NY 1978

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No Oriente ocorreu uma transposição pacífica do processo de produção artesanal para o industrial e ainda existe uma tranqüila convivência, sem que as aldeias papeleiras tenham sido desativadas pelo surgimento da indústria. Encontramos, em pleno século XXI, papeleiros que mantêm a produção de papel artesanal praticamente com o mesmo processo de dois mil anos atrás, no início da Era Cristã. Já no Ocidente, houve total ruptura com o processo artesanal após o advento da indústria de celulose e papel. A Europa interrompeu a produção artesanal em fins do século XIX e início do XX; até 1919, cessa-se toda a produção artesanal. Os antigos moinhos começam a se transformar em museus ou são simplesmente fechados. O papel sempre foi um material utilizado pelos artistas para a execução de obras mais íntimas, mais diretas, momentâneas e com certo frescor. Talvez no desenho o artista consiga estabelecer maior conexão entre o pensamento e a mão que executa a obra. Os artistas têm escolhido o papel como suporte de suas obras em diferentes técnicas: desenho, gravura, aquarela e outras. Também se sentem atraídos por suas cores, texturas, gramaturas, formatos, filigranas ou até mesmo por seus defeitos. Juan Miró dizia que “as imperfeições do papel lhe inspiravam formas para suas composições”. Até o século XX, porém, o papel sempre funcionou como mero suporte passivo da obra-de-arte. Vemos, então, na metade do século XX, nos Estados Unidos, certo ressurgimento do papel artesanal na década de 1950, com artistas interessados em suportes diferenciados para suas obras: “Uma obra-de-arte sobre este papel se valoriza na medida em que permite apreciar, concomitantemente, os detalhes do suporte, o tipo de fibra utilizada, a consistência da folha, a rugosidade da sua superfície e o efeito desses detalhes sobre a imagem que lhe foi superposta”.2 A partir daí, tem início uma nova etapa na relação do papel e da criação artística. Precisamente, devido ao cansaço dos artistas gráficos causado, pela padronização na oferta de papéis no mercado, redescobre-se o papel feito à mão e seus processos artesanais. Este renascimento se deveu principalmente aos norte-americanos William Joseph “Dard” Hunter (1883-1966) e a Douglas Morse Howell (1906-1994), dois homens que figuram em quase todas as atividades relacionadas ao papel artesanal que seguimos hoje em dia, incluindo-se a produção de papel para livros e arte. Dard Hunter, sendo filho de um tipógrafo dono de jornal e xilogravador amador, desde cedo se viu imerso nas técnicas de impressão. Suas habilidades manuais logo apareceram, e ele trabalhou como tipógrafo no jornal do pai e designer gráfico. Atuou também na Europa como designer de vitrais, jóias, cerâmica e móveis. Fez cursos de litografia, ilustração de livros e caligrafia. Foi na primavera de 1911 que, ao visitar o Museu de Ciências de Londres, viu uma exposição de moldes de fazer papel e marcas d’água, além de outros . CLARK, Kathryn. Papel feito à mão: permanência e possibilidades estéticas. In: Otávio Roth.

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Fonte: http://www.dardhunter.com

equipamentos usados na velha produção artesanal de papel. Esse evento o estimulou a pesquisar mais sobre o assunto. Em 1912, muda-se com a esposa para Marlborough (Nova York), onde em 1913 constrói um moinho de papel. Unindo a experiência de tipógrafo à de designer, ele intensifica suas pesquisas sobre a produção artesanal de papel, tornando-se, no Ocidente, o pioneiro nas investigações sobre o papel artesanal. Hunter centrou seus estudos nos processos de fabricação artesanal e publicou o resultado das suas pesquisas em livros que são, ainda hoje em dia, considerados obras de referência sobre o assunto. Seu trabalho como papeleiro se voltou a obter excelência em papel artesanal como suporte de impressão; ele não explorou o material como meio de expressão. Cabe ressaltar também a grande coleção de papéis, moldes e documentos que reuniu em suas inúmeras viagens. Tal coleção se conserva hoje no Museu Americano de Produção de Papel, localizado no Instituto de Ciência e Tecnologia de Papel, no campus da Georgia Tech, situado na cidade de Atlanta, nos Estados Unidos.

Dard Hunter em sua biblioteca.

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Foi Douglas Morse Howell quem começou a explorar as possibilidades criativas do papel. Suas descobertas e sua influência marcaram o antes e o depois da relação entre o papel e a arte. Howell, na juventude, estudou em Florença, na Itália, onde teve a oportunidade de conhecer de perto os desenhos dos grandes mestres do Renascimento. Também visitou, em 1945, o moinho papeleiro de Richard de Bas, em Ambert, na França. Em 1946, de volta aos Estados Unidos, compra uma prensa artesanal e constrói sua primeira refinadora holandesa, estabelecendo seu ateliê em Long Island, onde iniciaria suas investigações sobre a fabricação de papel feito à mão com fibras de linho. Howell começa a produzir obras com o papel, iniciando o papel-arte ou “papetries”, como chamou, fazendo inclusões de fibras, tecidos e sutis inserções de filamentos no papel. Em 1955, suas “papetries” foram expostas na Galeria Betty Parsons, de Nova York. Artistas, como Juan Miró, Jasper Johns, Hayter e Jackson Pollock, atraídos pela beleza e originalidade, utilizaram os papéis produzidos por Howell. Em 1962, Laurence Barker (1930), à época diretor do Departamento de Gravura da escola de arte Cranbrook Academy of Art, de Michigan, nos Estados Unidos, atraído pela beleza dos papéis, fez um estágio de duas semanas no ateliê de Howell. Ao retornar a Cranbrook, Barker estabeleceu um ateliê e iniciou o primeiro programa de fabricação de papel à mão em uma escola. Durante mais de sete anos, formou-se em seu ateliê toda uma geração de artistas, entre os quais Walter Melody e Susan Gosin. Tais artistas, por sua vez, expandiram os conhecimentos sobre o papel e suas possibilidades plásticas, dando início ao que se conhece hoje por “papel-arte”.

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Fonte: http://www.nga.gov.au/BigAmericans/large/Link.htm

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Robert Rauschemberg, Pages and Fuses 1973-1974.

Por indicação de Ken Tyler, Robert Rauschemberg conheceu o moinho papeleiro Richard de Bas, na França, onde criou, em 1973, sua série “Pages and Fuses”, uma série de 12 obras na qual usou, entre outros elementos, polpa de papel colorida. Mais tarde, o próprio Ken Tyler estabeleceu o ateliê Tyler Gráficos Ltda., em Bedford Village, em Nova York, onde iniciou a utilização de papel feito à mão para suas edições gráficas. Ele também incentivou um grande número de artistas a trabalhar com a polpa de papel como meio de expressão plástica. Como resultado dessas experiências, surgiram obras de grande interesse plástico, como a conhecida série das piscinas de David Hockney, assim como outras obras de Elsworth Kelly, Kenneth Nolland, Robert Moderwell e Franck Stella, entre outros artistas. É curioso constatar que o renascimento do papel artesanal se deu precisamente em um país, como os Estados Unidos, com menos tradição papeleira do que a velha Europa. Talvez, tenha sido justamente por essa razão.

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Fonte: http://www.hockneypictures.com/works_paper_pools.htm

Em 1970, Laurence Barker se muda para Barcelona, na Espanha, e estabelece seu estúdio, onde trabalha até 1995. Um novo renascer do papel feito à mão chega com Barker à Europa, e pouco a pouco vão surgindo ateliês de artistas, que começam a trabalhar com o papel-arte. Entre esses artistas, temos John Gerard, Fred Siegenthaler (Alemanha), Silvie Turner, Sophie Dawson (Inglaterra), Anne Visboll (Dinamarca) e Peter Gentenaar (Holanda).

Fonte: http://www.hockneypictures.com/works_paper_pools.htm

David Hockney “Three-Panel Diving Board”, 1978 . Polpa de papel colorida e prensada, 51x96in.

David Hockney “Piscine Avec Trois Bleus”, 1978. Polpa de papel prensada, 72x85 1/2 in.

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Acervo Otavio Roth

O brasileiro Otavio Roth, que na metade da década de 1970 estava na Inglaterra, também figura no meio desses artistas, sendo um dos pioneiros dessa corrente de redescoberta do papel artesanal, do papel-arte, no Brasil. Em 1986, o Museu Leopold Hoechst organiza a Primeira Bienal de Papel-Arte, que contou com a participação de artistas de todo o mundo, entre os quais Otavio Roth. Naquele mesmo ano é fundada a IAPMA – Associação Internacional de Papel Feito à Mão e Artístico, que realizou seu primeiro congresso em 1987, no Museu Moli Paperer de Capellades, na Espanha. Douglas Howell, sem se dar conta, havia aberto um novo horizonte para o mundo do papel. A partir de sua experiência e do trabalho de muitos outros artistas, como Otavio Roth, por exemplo, o papel-arte hoje constitui um novo meio expressivo dentro da criação artística. Como qualquer outra técnica artística, o trabalho com papel requer profundo conhecimento do material e de seu processo de produção artesanal, mas muito além da manufatura, pois o papel artesanal oferece à criação uma infinidade de possibilidades plásticas, combinação de fibras, texturas, cores e também a realização de uma obra sem os limites físicos da tela de pintura. Nesse resgate ocorrido no século XX, o papel artesanal aparece com inúmeras possibilidades de uso artístico, jamais pensadas nos seus dois mil anos anteriores de utilização. O papel pode ter uma aparência camaleônica. Dependendo do seu processo de produção ou coloração, pode se parecer com vidro, cerâmica, metal, pele, etc. O papel pode ser, ao mesmo tempo, expressão em si mesmo ou servir de suporte para a fotografia, a escultura, a pintura, a instalação, o desenho, a gravura e outros usos. O aspecto realmente revolucionário do trabalho com a polpa de papel consiste no fato de que sua manipulação permite ao artista influenciar e desenvolver seu próprio material, seu meio, durante o processo criativo. A obra se realiza mediante a manipulação e a trans-

Obra de Otavio Roth. Título: Meia Lua. Série Entre o Meio e o Fim. Papel artesanal e madeira, 1984.

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Acervo Otavio Roth

Papel Artesanal

Trabalho Otavio Roth. Vista da instalação The Garden I. Instalação na Paper Conference – Kyoto, Japão, 1989.

formação da polpa. De acordo com suas fibras, o papel terá uma ou outra consistência, segundo seu grau de refino, colagem, pigmentação, colas, aditivos... O artista não se vê limitado por um espaço quadrangular de uma tela de pintura, pois, mediante a sobreposição de camadas de papéis, pode chegar a obter grandes superfícies retangulares ou irregulares e trabalhar com texturas, rugosidade, lisura, inclusões de outros materiais, superposições, transparências, translucidez. A polpa de papel se pode pigmentar, modelar, estender, cortar, dobrar, amassar, retorcer e tantas outras possibilidades infinitas. O papel-arte proporciona um meio de grande liberdade para o artista. Foi essa liberdade, sem dúvida, o que atraiu os artistas do século XX. Nesse resgate da tradição milenar da produção artesanal do papel, eles foram muito além, pois associaram também a criatividade de transformar o que antes era um nobre suporte em um material completo e expressivo por si só.

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Papel Artesanal

Sem título - Papel Artesanal (rami, juta, algodão) - Tintura química, 1985.

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O papel artesanal no Brasil: história e pioneiros

THÉRÈSE HOFMANN GATTI

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Brasil, diferentemente dos demais países do Oriente, da Europa e até mesmo da América, não experimentou significativamente uma produção artesanal de papel no período de seu descobrimento e colonização. Apesar de estarmos tão próximos a civilizações pré-colombianas, como os maias e os astecas, habitantes da Mesoamérica – principalmente no México – que tiveram uma produção centenária e significativa do Huun e Amatl, no Brasil não temos registros de processos de manufatura de papel antes da colonização nem mesmo depois, já que não houve a instalação de moinhos papeleiros. Com certeza, o primeiro papel que saiu do Brasil foi a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel, escrita em primeiro de maio de 1500, com o objetivo de informar sobre a viagem da frota de Pedro Álvares Cabral. Com a colonização portuguesa, recebemos diretamente as indústrias, que, como veremos, não obtiveram grande sucesso no período colonial nem receberam grandes incentivos da metrópole portuguesa. Vários interesses políticos impediram o desenvolvimento das iniciativas dos pioneiros brasileiros. Não podemos esquecer que a poucos interessava que a colônia Brasil tivesse acesso ilimitado ao papel, que funciona como suporte de informação – algo que, desde sempre, é sinônimo de poder. A coroa portuguesa proibia, não só a abertura de tipografias, como também vetava a circulação de publicações noticiosas, temendo que trouxessem propaganda incentivadora da rebeldia e da independência.1 Somente com a vinda do príncipe regente Dom João VI ao Brasil, em 1808, propiciam-se as condições para o início da fabricação nacional de papel. O primeiro impulso nesse sentido veio com a chegada da tipografia completa do Conde da Barca a bordo da frota real, a qual, depois de instalada, se transformou na Imprensa Régia. Não podemos deixar de registrar o esforço de Frei José Mariano da Conceição Veloso, botânico, que ensaiou a produção artesanal de papel no Brasil, utilizando como matéria-prima a embira2 (do tupi ybyra ou ymbyra, que pode designar várias espécies conhecidas como imbira3). Consta que uma folha produzida artesanalmente pelo religioso foi anexada a um ofício dirigido ao Conde de Linhares, ministro do Príncipe-Regente Dom João: “Que-

ABTCP - A Historia da Industria de Celulose e Papel no Brasil. Ed. ABTCP, SP,SP .2004. pág.19 Embira é sinônimo de fibra. Também várias árvores brasileiras têm por nome comum EMBIRA, EMBIREIRA, ENVIRA ou ENVIREIRA. Todas que recebem esse nome tem em comum a utilização das fibras (embiras) da casca e de outras partes da planta. São arvores (diferentes espécies) dos gêneros Tauari, Xylopia, Guatteria, Guazuma, e outras. Elas pertencem a diferentes famílias: Sterculiaceae, Rubiacea, Annonacea, etc... 3 Correa, M. P., Dicionário das Plantas úteis do Brasil, e das exóticas cultivas. Imprensa Nacional , Rio de Janeiro, RJ, 19261978. págs 224 a 234.

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rendo aproveitar-se da ocasião do portador e antecipar minha notícia, que julgo será a V.Excia. agradável, lhe remeto uma amostra do papel, bem que não alvejado, feito em primeira experiência, da nossa embira. Prosseguir-se-á a procurarmos outros gêneros de plantas filamentosas as mesmas tentativas. A segunda, que já está em obra, se dará alvo, e em conclusão pode V.Excia. contar com esta fábrica.4 Junto à folha de papel seguia a seguinte descrição: “O primeiro papel que se fez no Brasil, no Rio de Janeiro, em 16 de novembro de 1809”. Outro fator contribuiu para frustrar as iniciativas das indústrias de papel no Brasil: a concorrência do papel importado, de qualidade superior e mais barato, apesar de todo o incentivo fiscal propiciado por Dom João VI, pela concessão de isenções aduaneiras às matérias-primas necessárias às produtoras nacionais. A primeira fábrica de papel no Brasil foi construída entre 1809 e 1810, no Andaraí Pequeno, no Rio de Janeiro, por Henrique Nunes Cardoso e Joaquim José da Silva, industriais portugueses transferidos para o Brasil5. Com a intenção de trabalhar com fibras vegetais, eles iniciaram suas atividades entre 1810 e 1811, mas não tiveram êxito. Houve ainda o fracasso das fábricas instaladas no Rio de Janeiro em 1820 e 1821. Com a independência, em 1822, passamos a contar com o apoio de Dom Pedro I, que procurava estimular a indústria nacional. Ainda, porém, sem conseguir obter papel de boa qualidade para imprimir e escrever, as fábricas de André Gaillard (instalada em 1837 no Rio de Janeiro) e de Zeferino Ferrez (inaugurada em 1841 no Engenho Velho, também no Rio de Janeiro) acabaram fechando. Como mais uma iniciativa de pouco êxito citamos a fábrica do Engenho da Conceição, na Bahia, implantada em 1843. Essa unidade utilizou troncos de bananeira para fazer papel-jornal, sobre o qual se imprimiram periódicos e livros, mas sem condições de competir com o preço do papel importado. A iniciativa de maior longevidade foi a de Guilherme Schuch, engenheiro brasileiro diplomado pela Escola Politécnica de Viena que, unindo-se a Azevedo Coutinho, instalou uma fábrica de papéis em Orianda, nos arredores de Petrópolis, no Rio de Janeiro. Há registros de produção de papéis por 20 anos a partir da celulose de trapos de tecidos e fibras vegetais. Apesar de toda a amizade de Schuch com o imperador Dom Pedro II, o qual lhe concedeu o título de Barão de Capanema e também vários incentivos para a manutenção da fábrica, a falência ocorreu em 1874.6 A persistência dos industriais brasileiros conseguiu superar todos os obstáculos e, no final do século XIX, conseguimos estabelecer indústrias, que obtiveram êxito e transformaram o Brasil em um dos países mais expressivos no setor de celulose e papel no século XX.7 Nossa experiência com o papel artesanal se inicia na segunda metade do século XX, com a difusão feita por três brasileiros, principalmente: Otavio Roth (SP), Marlene Trindade (UFMG/MG) e Lygia Sabóia (UnB/DF). Motta, Edson & Salgado,M.L.G., O Papel – problemas de conservação e restauração. Ed. Museu de Armas Ferreira da Cunha. RJ,RJ . 1970 pág. 44. 5 Motta, Edson & Salgado,M.L.G., O Papel – problemas de conservação e restauração. Ed. Museu de Armas Ferreira da Cunha. RJ,RJ . 1970 pág. 43. 6 ABTCP - A Historia da Industria de Celulose e Papel no Brasil. Ed. ABTCP, SP, SP .2004. pág.22 7 Ver maiores informações na publicação ABTCP - A Historia da Industria de Celulose e Papel no Brasil. Ed. ABTCP, SP, SP .2004. 4

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Acervo do artista

os pioneiros

Otavio Roth.

OTAVIO ROTH “Lembro-me do medo que tinha do papel em branco.... Um dia aprendi a fazê-lo com as próprias mãos. Foi uma revelação. Hoje somos companheiros inseparáveis.”9 “Meu compromisso é com o passado e com o futuro. Sou e quero continuar sendo um criador de papéis, contribuindo com alguns de meus anos à longa história do papel feito à mão. Pretendo que meu trabalho sobreviva a nossa época do descartável.” 10 ROTH, Otávio. O que é papel. Coleção Primeiros Passos. vol. 99. Editora Brasiliense. São Paulo. Brasil. 1983. 99 p. il. Biografia 10 ROTH, Otavio. Criando papéis - o processo artesanal como linguagem.Catálogo MASP/SP e MAM/RJ 1982. 9

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O paulista Otavio Roth (1952-1993) foi, sem dúvida, um artista ímpar, tendo influenciado, contagiado e conquistado aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-lo e de compartilhar com ele a magia do papel e das artes. Inquieto e desbravador, cursou, em 1970, o primeiro ano da Escola de Engenharia Mauá, viajando em seguida para Jerusalém com uma bolsa de estudos do governo israelense. Durante aquele ano conheceu o artista Márcio Doctors, através do qual se inicia na carreira artística. Ao retornar ao Brasil, em 1972, o apelo das artes faz com que ele abandone a Engenharia e ingresse na Escola Superior de Propaganda. Inicia, então, seu trabalho como fotógrafo, com trabalhos apresentados em diversas exposições. Otavio não pára e, já em março de 1974, viaja para Londres, na Inglaterra, onde permanece até se graduar em Art and Design pela Hornsey College of Art. Estuda gravura com Paul Peter Piech, de quem recebe profunda influência. Através da gravura surge seu “caso de amor” com o papel feito à mão. Insatisfeito com o padrão dos papéis disponíveis para gravura, resolve fabricar suas próprias folhas. Ele sempre encarou o papel como elemento de composição da imagem e nunca como mero suporte. Acreditava que podia extrair do papel todo o seu potencial de beleza e toda a riqueza física de sua estrutura. Ele mesmo disse: “Foram anos de pesquisa e estudo desvendando segredos e entendendo a ‘alma’ dessa coisa maravilhosa chamada papel. O processo foi deixando de ser um meio para transformar-se num fim. Passei a criar imagens dentro do papel, durante o processo, em vez de sobre o papel, depois do processo.” 8 Ao terminar os estudos na Inglaterra, muda-se para a Noruega, onde trabalha como designer por dois anos. Durante os longos invernos escandinavos, Otavio realiza uma série de xilogravuras, baseadas nos artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Como naquela época a Noruega não oferecia grandes opções, e ele teria de importar da França todo o material necessário à execução da obra, começou a produzir seu próprio papel para a impressão das xilogravuras. Tal trabalho, de grande repercussão, primeiramente foi exposto durante as comemorações do 30º aniversário da Declaração, em 1978, no Informasjonsenteret, em Oslo/Noruega, e depois praticamente rodou o mundo. De volta ao Brasil em 1979, Otávio funda, em sociedade com Regina Barros, a Handmade Oficina de Papel, a primeira fábrica de papel artesanal do País. Começa, então, a difusão da técnica do papel artesanal em São Paulo. A Handmade se dispunha a produzir papéis diferenciados aos artistas, além de oferecer cursos e abrir o espaço a experimentações, com esse “novo/velho” médium que é o papel artesanal. Já em dezembro de 1979, ele expõe suas gravuras sobre papel artesanal no Instituto de Arquitetos do Brasil e recebe o prêmio de melhor gravador do ano, concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte. Otavio continua as pesquisas sobre o papel e intercala estadas entre o Brasil e o exterior, fazendo várias viagens para conhecer outras produções e aprofundar cada vez mais seus conhecimentos. Nos Estados Unidos, visita vários produtores de papel artesanal, trabalha no moinho Dieu Donné Papermill e ministra curso de papel no Center for the Book Arts em Nova York. Nas várias viagens feitas à Europa, visita os moinhos franceses, suíços, alemães e dinamarqueses. Na Espanha, conhece o moinho de Capellades.

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A História do

Acervo Otavio Roth

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Acervo Otavio Roth

Papel Artesanal

Xilogravura do artigo 15, da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em inglês. Noruega, 1978. Papel Artesanal de linter de algodão.

Acervo Otavio Roth

Acervo Otavio Roth

Xilogravura do artigo 22, da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em inglês. Noruega, 1978. Papel Artesanal de linter de algodão.

Xilogravura do artigo 01, da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em inglês. Noruega, 1978. Papel Artesanal de linter de algodão.

Xilogravura do artigo 08, da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em inglês. Noruega, 1978. Papel Artesanal de linter de algodão.

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A História do

Papel Artesanal

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Acervo Otavio Roth

Também vai algumas vezes ao Oriente, onde conhece as aldeias papeleiras do Japão, da Tailândia, do Nepal e da Índia. ) Durante sua permanência no Brasil, ele recebe bolsa do CNPq para desenvolver suas pesquisas sobre papel artesanal no Instituto de Pesquisas Tecnológicas da USP. Em 1982, expõe seus trabalhos em papel artesanal no Masp, em São Paulo, e no MAM, no Rio de Janeiro. Em 1983, escreve o livro O que é Papel, o volume 99 da Coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense, de São Paulo, com edição rapidamente esgotada. Ele participa do momento histórico da política brasileira, fazendo, em 1988, a nova Constituição toda em papel artesanal, em edição única. Foram impressos seis exemplares, assim distribuídos: um para o presidente da Constituinte (Ulysses Guimarães), um para o Congresso Nacional; um para o presidente da República (José Sarney), um para o presidente do Supremo Tribunal Federal (Rafael Mayer), um para o patrocinador (Papel Simão) e um para o artista. Em 1989 participa como palestrante da “Paper Conference”, conferência sobre o papel em Kyoto, no Japão. Em 1992 cria, em São Paulo, a Oficina das Artes do Livro em sociedade com Beatriz Miranda, que tinha como objetivo, além da produção de papel, já feita pela Handmade, incorporar as demais funções, que envolvem a produção do livro, do livro-arte e da impressão, bem como continuar dando cursos e palestras sobre papel.

Otavio Roth em seu atelier em Nova York selecionando os papéis e produzindo a série de gravuras “Conservação e Proteção da Natureza” (série de xilogravura em cores, com edição de 1000 exemplares, produzida para o lançamento internacional com selo comemorativo da World Federation of United Nations Associations/ Organização das Nações Unidas (WFuna Book Arts/ONU). Papel artesanal de linter de algodão com pétalas de flores. Nova York,1982.

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Em 1992, ministra curso de extensão na Universidade de Brasília. Tendo onze livros publicados, sendo dez em parceria com Ruth Rocha, recebe, em 1993, os prêmios da Academia Brasileira de Letras, da Fundação Nacional do Livro Infantil e dois Jabutis. Otavio morre repentinamente em 1993, aos 41 anos, após intensos 14 anos de amor pelo papel artesanal no Brasil, que ele difundiu criando obras individuais e coletivas, ensinando e semeando o respeito ao suporte, ao mesmo tempo milenar e tão repleto de novas possibilidades, que é o papel artesanal.

Papel de linter de algodao e pigmento natural.

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Acervo Therese Hofmann

Papel Artesanal

Otavio Roth ministrando curso no Departamento de Artes Visuais/IdA/ Universidade de Brasília, em 1992.


A História do

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Acervo do artista

Papel Artesanal

Marlene Trindade.

Marlene Trindade: UFMG/MG

Criada em 1927 como Universidade de Minas Gerais, uma instituição privada subsidiada pelo Estado, a UMG permaneceu na esfera estadual até 1949, quando foi federalizada. O nome atual – Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – só foi adotado em 1965. À época da federalização, já estavam integradas à UFMG a Escola de Arquitetura e as faculdades de Filosofia e de Ciências Econômicas. Depois, como parte de sua expansão e diversificação, a universidade incorporou e criou unidades e cursos. Surgiram, então, sucessivamente, a Escola de Enfermagem (1950), a Escola de Veterinária (1961), o Conservatório Mineiro de Música (1962) e as escolas de Biblioteconomia (1962) e Educação Física (1969). A Escola de Belas-Artes inicia suas atividades em 1957, em conjunto com a Escola de Arquitetura, tornando-se unidade independente em 1963.

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A História do

Papel Artesanal

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Mostruário - Tapa pigmento mineral - barbatimão, 1982.

Hoje, firmemente estabelecida como instituição de referência para o resto do País, a UFMG continua em franca expansão.11 A mineira Marlene Trindade, nascida em Santa Bárbara, em 1936, estudou Artes Industriais e Artesanato em Belo Horizonte, no antigo Inep, que concluiu em 1965. Entre 1966 e 1967, viajou aos Estados Unidos para estudar tecelagem em tear vertical na Wayne State University, em Detroit, passando, então, a se dedicar à tecelagem de forma intensiva. De personalidade vibrante e muito comunicativa, artista de grande versatilidade, Marlene Trindade foi a primeira deflagradora da artêxtil contemporânea em Minas Gerais, cujos ares seriam insuflados, tanto pelo sopro de uma expressiva obra pessoal quanto pelo estímulo, que ela soube proporcionar a outros artistas.12 Participou das principais mostras de Tapeçaria Brasileira no Brasil e no exterior, realizando também exposições individuais em Belo Horizonte, São Paulo e Brasília. Em 1973, ingressou como docente na Escola de Belas-Artes da UFMG, responsável pela disciplina de Tapeçaria. Na publicação Artêxtil no Brasil13, temos a seguinte descrição do percurso da artista: “Sua vasta experiência em tapeçaria facilitou-lhe o conhecimento das fibras para fins papeleiros, sendo esta a essência de sua pesquisa com papel artesanal. Foi a própria reciclagem dos restos de lã da tapeçaria que lhe despertou o interesse de fazer o mesmo com fibras celulósicas, pelas quais sempre se sentira atraída. Assim, Fonte site da UFMG: http://www.ufmg.br/conheca/hi_index.shtml acesso em 29/01/2007. Cáurio, Rita. Artextil no Brasil - Viagem pelo Mundo da Tapeçaria. Rio de Janeiro, RJ, 1985. 13 Cáurio, Rita. Artextil no Brasil - Viagem pelo Mundo da Tapeçaria. Rio de Janeiro, RJ, 1985. 11 12

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A História do

Papel Artesanal

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Mostruário - Fibra de algodão, 1982.

desde 1973, Marlene passou a estudar tudo o que concerne as nossas plantas fibrosas e tintoriais, realizando também um estágio em Londres sobre corantes, em 1977. Velhos catálogos de papéis japoneses e italianos indicavam à artista um novo caminho pessoal: o papel feito à mão. A partir de 1979, começou a reciclar as sobras vegetais que havia guardado de suas tapeçarias, bem como fibras de algodão, plantas e trapos, chegando a documentar numerosos tipos de papel por ela obtidos, alguns com inclusão de celulose industrial das

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A História do

Papel Artesanal

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Mostruário - Reciclagem de papéis - Pigmento mineral, 1982.

diversas fábricas, que visitou pelo País. Experimentou também vários tipos de conglomerados e laminados de fibras (casca de árvores), mais compatíveis com as nossas tradições indígenas. Deslumbrada com essas novas atividades com as fibras e surpreendida pela variedade e abundância encontrada no Brasil (rami no Paraná; juta e malva no Pará; buriti, sisal, tucum e pita, em Minas Gerais, etc.), Marlene defendia a idéia de sua incrementação em diversas áreas, sobretudo na educacional, em que os alunos de Artes Plásticas teriam um novo e promissor campo de pesquisa, experiência e sensibilização”. 14 Marlene começa, então, a tecer suas próprias folhas de papel, com as quais passa a compor delicadas esculturas. Em 1980, cria o primeiro ateliê experimental de papel artesanal, dentro da disciplina de Tapeçaria, na Escola de Belas-Artes da Universidade Federal de Minas Gerais. 14

Cáurio, Rita. Artextil no Brasil - Viagem pelo Mundo da Tapeçaria. Rio de Janeiro, RJ, 1985.

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Papel Artesanal

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Em 1981, oferece a oficina Artes da Fibra/Papel Artesanal no XIV Festival de Inverno da UFMG, na cidade mineira de Diamantina, onde participam pessoas de vários locais do Brasil. Em seguida, cria Núcleos de Artes da Fibra nas cidades de Diamantina e Ouro Preto. Dessa forma, Marlene se estabelece como difusora da magia do papel, estimulando novos talentos, jovens artistas de diversos pontos do País para trabalhar com ela. Muitos desses aprendizes logo montam seus próprios ateliês e centros de ensino e difusão. Em 1982, forma-se o grupo de produção de papel artesanal na comunidade do bairro Lindéia, na periferia de Belo Horizonte, em uma experiência inédita. Dando continuidade às suas pesquisas e visando à efetivação do papel artesanal como linguagem dentro dos cursos da Escola de Belas-Artes da UFMG, Marlene começou um processo de alteração e ampliação da disciplina de Tapeçaria para Artes da Fibra, a qual, depois de aprovada pelo MEC, passou a ser obrigatória para o curso de Licenciatura em Artes, com início previsto para agosto de 1985. Em julho do mesmo ano, porém, um acidente obrigou Marlene a se afastar de suas atividades como docente e como artista. A disciplina funcionou, durante alguns semestres, com várias abordagens trazidas por professores substitutos que nem sempre tinham a mesma experiência nem haviam feito pesquisa sobre papel artesanal. Em 1988, a professora Joice Saturnino, graduada pela EBA/UFMG, assume a disciplina. Por ter sido aluna de Marlene Trindade na primeira turma de Papel Artesanal, em 1980, ela continua as pesquisas e os projetos de extensão, mantendo a UFMG como referência para a história do papel artesanal no Brasil.

Tribo II - Celulose de pinho e buriti , 1985.

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Acervo da artista

Papel Artesanal

Lygia Sabóia .

Lygia Maria Maurity Sabóia: UnB/DF

A Universidade de Brasília (UnB), idealizada e fundada em 1962 por Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, trazia como modelo uma instituição voltada às transformações, diferente do modelo tradicional criado na década de 1930. No Brasil, foi a primeira universidade a ser dividida em institutos centrais e faculdades, em que os alunos, ao ingressarem, tinham uma formação básica e, depois de dois anos, seguiam para os institutos e faculdades específicos do curso escolhido. Em 1964, a ditadura instalada com o golpe militar traria anos difíceis para a UnB, que, justamente por estar perto do poder, foi uma das instituições universitárias mais atingidas pelo regime.15 O início da década de 1980 foi marcado pelo começo de redemocratização da universidade, cujo campus tem uma nova aura de perspectivas e realizações. Rodeada por esse clima de novos ventos iniciam-se as pesquisas da professora Lygia Sabóia sobre o papel. Carioca, Lygia Sabóia nasceu em 1943. Já Bacharel em Ciências Econômicas pela UFRJ — Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1966 se muda para Brasília e ingressa no seu segundo curso superior de Licenciatura em Desenho e Plástica, o qual conclui em 1977, na UnB.

15

http://www.unb.br/unb/historia/resumo.php

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Foto aérea do Campus da Universidade de Brasília.

assunto. Como não havia material específico sobre o tema, ela recorre, tanto às informações contidas nos livros sobre a gravura japonesa como nos que versavam sobre o processo da indústria de papel. Mesmo sem conseguir informações precisas sobre o processo de obtenção da celulose, Lygia faz suas primeiras experiências. Assim, em 1980, começam as primeiras tentativas na produção de papel artesanal na UnB. No edifício idealizado por Oscar Niemeyer, mais precisamente nos jardins, localizados ao lado do ateliê de Litogravura, Lygia improvisa um espaço

Acervo da artista

Em 1978, viaja aos Estados Unidos e reside, entre janeiro e junho, em Washington, onde fez dois cursos de especialização em gravura, na Corcoran School of Arts, em Litografia e Serigrafia. Em seguida, viaja a Nova York, Montreal, Londres, Amsterdã, Paris e Madri, visitando os mais importantes museus e galerias de arte. Na sua estada nos Estados Unidos e na viagem à Europa, toma os primeiros contatos com o papel artesanal. Em 1979, é contratada para lecionar na UnB, no então Departamento de Desenho, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Ela tem sob sua responsabilidade as disciplinas de Gravura (Litografia); Técnicas de Gravura I, II, III e IV; Oficina Básica de Artes Plásticas; Oficina de Desenho II e Estágio Supervisionado em Educação Artística, entre outras. Sua paixão pela gravura, assim como Otavio Roth, a instiga a aprofundar as pesquisas sobre o suporte ao papel. Inicia, então, intensa pesquisa bibliográfica sobre o

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Regina Santos/Acervo ACS/UnB

Papel Artesanal

Primeiros papéis feitos pela Lygia na UnB, em 1980.

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Acervo da artista

para o cozimento das fibras: grama da universidade, milho, bananeira e outras e começa a produção dos papéis. Os primeiros resultados apresentam ainda um material impróprio como suporte às gravuras, pois as folhas ainda ficavam muito duras e com pedaços inteiros do vegetal utilizado. Ela ainda não conseguia o “ponto” do cozimento. A resposta, porém, vem em fevereiro de 1981, quando, em viagem ao Japão, ela visita Ogawa Machi16, uma cidade de tradição papeleira: “Quando eu vi o pessoal lá fazendo o papel e a polpa, entendi que eu estava cozinhando as fibras muito pouco e que deveria cozinhá-las muito mais. Com muito custo, consegui amostras da polpa com o responsável pela “fábrica”. De Ogawa Machi não tenho fotos; só as imagens visuais que não me saíram da lembrança – eles faziam papel como se fosse um ritual. Eram seríssimos e respeitosos com o que faziam. O interior do local era mais frio do que o lado de fora, pois eles precisam de frio para que o tororo aoi17 libere a goma que é usada como cola e esta penetre devidamente entre as fibras. De vez em quando, eles esquentavam as mãos numa chaleira que estava sempre quente e da qual saía fumaça, e voltavam a fazer o papel nas tinas com água quase congelada. Os mais velhos não faziam papel, mas faziam orações e meditações, sentados, vestidos de branco, em alguns lugares da pequena cidade. A cidade vivia exclusivamente da fabricação de papel. Assim que retornei, já consegui fazer umas folhas de qualidade aceitável. Na época, 1981, nosso contrato na UnB era de dois anos e, para ser renovado, tínhamos de enviar um relatório à reitoria das atividades docentes e de pesquisa para avaliação. Descrevi todo meu trabalho e o estágio em que me encontrava na pesquisa do papel: “...No campo de pesquisas, citaria meus trabalhos de desenvolvimento e aplicação

Papel, feito por Lygia, na UnB em 1981/1982.

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Acervo d a artista

Papel Artesanal

Papéis feitos pela Lygia e os alunos de artes na UnB entre 1981/1982.

de técnicas de papel feito à mão, com aproveitamento de matérias-primas tipicamente brasileiras, tais como, entre outras, folhas de bambu, bananeira, abacaxi e até grama do próprio campus universitário. O custo do papel vem subindo, particularmente no Brasil, e o papel feito à mão pode ser utilizado com vantagens no desenho e nas gravuras. A tradição do papel artesanal praticamente desapareceu no mundo atual, exceto no Japão, que é exportador do famoso “papel de arroz”. Assim, procuramos estimular esse artesanato no Brasil, enfatizando o uso de materiais próprios de nosso meio ambiente. Além disso, o papel por si só é também considerado importante manifestação artística, quando pigmentos e relevo podem ser acrescentados enquanto a polpa ainda está úmida, resultando uma obra-de-arte. Em termos de ensino, as técnicas de papel feito à mão têm sido aplicadas nos cursos da Oficina Básica de Artes Plásticas (Obap), com reações favoráveis de interesse por parte dos alunos. ...” 18 No documento da reitoria, efetivando minha recontratação na universidade, recebi os parabéns do então reitor pelas pesquisas elaboradas.” Como relata ao reitor, Lygia insere o tema do papel artesanal na disciplina de Oficina Básica de Artes Plásticas e desperta o interesse dos alunos na magia do papel. A turma de Obap, do verão de 1982, produz papéis tão bons, que já são usados como suporte das gravuras produzidas na disciplina de Litografia. Extrato retirado das págs. 14 e 15 do memorial da Profa. Lygia Sabóia encaminhado à reitoria da UnB em 1981. O documento na íntegra encontra-se no Departamento de Artes Visuais na pasta funcional da Professora. 18

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Litografias de Anna Mello sobre papel artesanal, produzido por ela, em 1982, sob a orientação da Profa. Lygia Sabóia.

Pronto; a semente está plantada, e logo começa a dar frutos! Em 1985, alguns alunos fazem uma exposição, intitulada Papéis Alternativos no Hall do Banco Central, com a participação de Anna Beatriz Baptista de Mello19, ElizaBeth Silva e Rosangela Frazão. Lygia continua seu trabalho como gravadora e, com o desafio do papel já conquistado, parte para novas pesquisas.20 O trabalho do papel tem continuidade, então, na disciplina de Análise e Exercício dos Materiais Expressivos, que tem por objetivo o resgate da “cozinha” das artes plásticas. Sob a responsabilidade da professora Zuleica Nunes da Silva de Medeiros, entre 1984 e 1988, o tema do papel artesanal começa a ser ministrado com regularidade junto com manufatura de tintas, giz de cera, giz pastel e pincéis. Cria-se o Laboratório de Materiais Expressivos 19

Atual chefe do Departamento de Artes Visuais, do Instituto de Artes, da Universidade de Brasília. (eleita para a gestão de 2006 a 2008)

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(Leme). Em 1991, a professora Thérèse Hofmann Gatti assume a disciplina, atualmente denominada Materiais em Arte. As pesquisas nunca pararam e se intensificaram ao longo desses 27 anos. Hoje, a Universidade de Brasília registra vários trabalhos de extensão e pesquisas de iniciação científica sobre papel artesanal e fibras alternativas para a produção de papel, além de deter duas patentes sobre o assunto, ambas sobre reciclagem: uma de dinheiro e a outra de filtros de cigarro.21 Esses três precursores principais causaram ramificações em uma infinidade de ações e de pessoas apaixonadas pela magia do papel. Se pesquisarmos hoje na Internet, os recursos de busca acusam aproximadamente 346.00022 sites para papel artesanal, só no Brasil. Na web, são aproximadamente 1.250.00023 de sites. Inúmeras ações decorrem desses desbravadores brasileiros. Trata-se de trabalhos sérios e de grande repercussão, que continuam a perpetuar a magia do papel artesanal.

( à esquerda) bitucas de cigarro para transformação em papel – Pesquisa VIS/IdA/UnB (acima à direita) Dinheiro descartado pelo Banco Central para reciclagem – Pesquisa VIS/IdA/UnB (abaixo à direita)Dinheiro descartado pelo Banco Central para reciclagem – Pesquisa VIS/IdA/UnB. Atualmente, depois de ter concluído seu doutorado em Multimeios na Unicamp, ela desenvolve trabalho na área de arte e tecnologia sendo responsável pelas disciplinas de Teoria da Composição e Mídias Contemporâneas. 21 Informações do inicio de 2007. 22 Pesquisa feita com o termo papel artesanal no site de busca: http://www.google.com.br/ . Acesso em 28/01/2007, 23 Pesquisa feita com o termo papel artesanal no site de busca: http://www.google.com.br/ . Acesso em 28/01/2007, 20

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Sergio Santorio/Arquivo ABTCP

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4 Como fazer o papel:

etapas da evoluçao do processo, marcas d’água e a produçao artesanal

THÉRÈSE HOFMANN GATTI

1. Introdução Desde a sua invenção até hoje, o processo de produção do papel não sofreu grandes alterações em sua essência. O que ocorreu ao longo dos séculos foi basicamente a mecanização do processo. Na verdade, o que é papel? Como vimos no Capítulo 1, a definição técnica de papel é: “uma película de fibras de celulose, polissacarídeo de fórmula (C6H10O5)n”. As fibras são obtidas pelo cozimento e/ou maceração, podendo ser refinadas, emaranhadas e agregadas basicamente por ligações químicas de pontes de hidrogênio. Todas as plantas são formadas por materiais lignocelulósicos – compostos basicamente de celulose, hemicelulose, lignina e constituintes menores. Na produção de papel, estamos principalmente interessados na celulose e na hemicelulose, ambos polissacarídeos e insolúveis em água. No que diz respeito à lignina e aos outros constituintes das plantas, não servem para a produção de papel e até mesmo prejudicam sua qualidade.

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Podemos arriscar a fazer a seguinte analogia: a celulose, o principal componente da parede celular da fibra de todas as plantas, é o que interessa na produção de papel; a lignina, que fuciona como o “cimento” que une essas fibras, deve ser eliminada, para que possamos liberar as fibras e produzirmos o papel. O papel é um suporte bastante higroscópico, ou seja, absorve água, aceitando facilmente tintas e impressões diversas. Como já dissemos, o papel é feito de celulose, que todas as plantas possuem, em menor ou maior grau de concentração. Dessa forma, podemos fazer papel a partir de qualquer planta, de qualquer fibra vegetal. A lignina – também presente em todas as plantas e em concentração variada – é um polímero amorfo e de composição química complexa que dá rigidez e firmeza ao conjunto de fibras de celulose. Apesar de incolor, é altamente reativa à presença de oxigênio e luz (a solar ou a visível de baixo comprimento de onda, entre 400 e 500 nm, bem como radiação UV e IV), dando origem a grupos cromóforos, ou seja, que transmitem cor. Vemos no percurso do papel algumas etapas significativas na evolução do processo produtivo, as quais podemos agrupar da seguinte forma: a) Da descoberta do papel até o ano de 751 Totalmente restrita ao Oriente, a produção artesanal de papel iniciou-se em um processo bem rudimentar, com telas ou moldes feitos de seda e depois tramas de bambu amarradas com crina de cavalo. As fibras utilizadas – basicamente de amoreira, bambu, rami e trapos – eram cortadas à mão em pedaços e cozidas em recipientes improvisados. Para a extração da celulose, usava-se um álcali à base de cal e cinzas vegetais. Depois, o material resultante era lavado na água corrente dos rios. O Tororo-aoi1 fornecia a goma para a encolagem. A secagem ocorria nos próprios moldes ou os papéis ficavam colocados uns diretamente sobre os outros, sem a intermediação de feltros. Como ainda não se conhecia o poder alvejante do cloro, as fibras utilizadas resultavam naturalmente em papéis, cuja cor variava entre creme e marrom. b) Entre os séculos VIII e XII O papel chega à Europa através das caravanas na rota da expansão muçulmana. Introduz-se no processo o amido de farinha de trigo para a colagem das fibras e, mais tarde, cola animal. Utilizam-se fibras de linho, cânhamo e algodão na preparação da pasta. Com o início da utilização de trapos de tecidos – já naturalmente brancos –, temos a primeira evolução para acelerar o processo produtivo com a introdução das máquinas cortadoras simples. Os trapos (exceto os de linho) eram submetidos à maceração ou fermentação. Nesse processo, que podia durar de cinco a 30 dias, utilizavam-se recipientes de pedra, nos quais os trapos eram amolecidos em água. Os trapos finos de linho eram deixados de molho várias horas em lixívia de potassa (solução de hidróxido de potássio em água). Para a obtenção de um bom papel, era imprescindível a fermentação dos trapos. Os trapos fermentados passavam por um tratamento para serem desfibrados. 1

Abelmoschus maniihot

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Os moldes ou as telas passam a ser de metal, e os papéis, ainda úmidos, ficavam intermediados com feltros para serem prensados. Depois, eram colocados a secar em varais. Tem início a implementação dos moinhos de martelo movidos com força hidráulica. O advento dos moinhos incrementa a produção, de modo que o processo deixa a condição de totalmente artesanal, como acontecia no início, e começa a se mecanizar, até se transformar, alguns séculos mais tarde, em integralmente industrial. c) Entre os séculos XII e XVII Vemos as primeiras “marcas d’água” no papel em 1293, no moinho italiano de Fabriano (instalado em 1276). Segundo Dard Hunter, não se sabe ao certo o porquê da denominação “marca d’água”, uma vez que não se deve à água a formação no papel de um desenho, que pode ser visto contra a luz. Uma especulação quanto ao nome “marca d’água” remonta aos primórdios da produção do papel, quando os papeleiros, ao retirarem das tinas as folhas formadas nos moldes para escorrer, deixavam pingar sobre elas água das mãos. Esses pingos, ao caírem sobre a folha recém-formada, ainda úmida, afastavam um pouco a polpa, deixando no local uma área mais fina com a forma ou o desenho de um pingo d’água. Isso ficava perceptível quando a folha, depois de seca, era colocada contra a luz. Vemos também a diferença na nomenclatura desse desenho sobre o papel entre as definições alemã, inglesa, francesa e holandesa: Em alemão, Wasserzeichen tem o mesmo significado do termo Inglês watermark. Em francês, chama-se filigrane, de igual significado em holandês: Papiermerken. Há ainda as seguintes definições: FILIGRANA (filigree): técnica de trabalho manual com fios metálicos colocados na tela ou no molde para a produção de linha d’água no papel; atividade artística por gravação (buril) para a composição de linhas, traços e figuras, formando uma imagem, identificada como marca d’água do papel. MARCA D’ÁGUA (Watermark): imagem formada durante a produção manual ou industrial do papel e obtida pela concentração diferenciada das fibras, visualizada quando colocada contra uma fonte de luz. Se existe algo na história do papel objeto de numerosos estudos é justamente a marca d’água, que ainda é motivo de controvérsia entre os historiadores, quanto ao porquê do uso dessas marcas. Existem muitas especulações sobre seu aparecimento e a razão de seu uso. Como dissemos, seu aparecimento data do século XIII, na Itália, porém, o motivo do uso pode ter sido, tanto o acaso quanto o desejo dos papeleiros de satisfazer suas aspirações artísticas, fazendo desenhos ou emblemas nas telas. Não se encontravam antes marcas nos papéis orientais, cujas telas ou moldes eram feitos de bambu. Com a introdução dos moldes de metal na Europa, mais rígidos, tornou-se possível fazer desenhos com fios de metal sobre a tela, na qual se podiam “fechar” alguns pontos para deixar menor concentração de polpa e, assim, formar desenhos, que apareciam quando o papel era colocado contra a luz.

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Segundo Dard Hunter2 , no complexo processo de fazer papel não há nada mais interessante ou fascinante do que deitar a folha de papel sobre o feltro e observar a marca impressa aparecer enquanto a água evapora. Outra especulação sobre o aparecimento das marcas d’água: o fato de os empregados dos moinhos papeleiros não saberem ler. Então, fazia-se necessário marcar as diferentes telas com símbolos, figuras ou letras para auxiliar na identificação de cada molde para o processo de produção. Essa hipótese corrobora o fato de as primeiras formas terem sido de desenhos simples, como cruzes, formas ovais, círculos e triângulos, de fácil identificação, Isso leva a crer que podem ter sido empregadas como sinais ou símbolos de significados convencionados entre os trabalhadores. O uso de marcas no papel rapidamente se generalizou com o emprego de centenas de diferentes temas nos diversos países e moinhos papeleiros. Vemos um segundo grupo de desenhos com forma humana, de afazeres relacionados à vida cotidiana. Nesse grupo aparecem também várias imagens de Cristo, indicando e acompanhando a expansão e o domínio da igreja católica. No terceiro grupo havia desenhos de flores, árvores, folhas, vegetais, grãos, plantas e frutas. No quarto grupo – provavelmente o mais interessante – incluíam-se animais selvagens, domesticados e lendários: cobras, peixes, caracóis, caranguejos, tartarugas, escorpiões e vasta variedade de insetos. Essas formas mostram toda a evolução da destreza dos artistas que as produziram. Tal trabalho requeria grande habilidade no manuseio dos fios de metal que eram costurados nas telas de papel. Naturalmente, os grupos descritos acima não ocorriam de modo individualizado e fechado, sendo freqüentemente encontradas formas associadas dos diversos grupos em uma mesma tela. As marcas d’água ganham grande expressão, e os desenhos se tornam cada vez mais detalhados e sofisticados, permitindo nuanças de tonalidades quando vistos contra a luz. Com a invenção da prensa de tipos móveis de Gutenberg, por volta de 1450, dá-se a consagração definitiva do papel como suporte e, portanto, aumento exponencial de seu consumo. Já no século XVI o suprimento de papel para impressão era abundante. Devemos ter cuidado ao tentar datar um documento pela marca d’água que apresenta. Não se pode estabelecer a data de uma impressão ou manuscrito pelo tipo de desenho formado no papel, pois as folhas comercializadas ficavam armazenadas nas tipografias ou em outros locais, sendo usadas anos após sua produção. Temos também o comércio natural de papéis entre os países. Não raramente se encontram em um mesmo livro vários tipos de papéis com marcas d’água de épocas e países distintos. Também é arriscado afirmar categoricamente a procedência de um papel, segundo sua marca d’água, uma vez que também as telas ou os moldes podiam ser comercializados e trocados entre os moinhos por diversos fatores – inclusive a falência de alguns. Com a transferência, as marcas das telas podiam não ser alteradas no novo local de produção. Verificamos também o registro de casos de falsificação de marcas d’água. HUNTER, Dard. Papermaking, The History and Techinique of an ancient craft, Ed. Dover, 1978. NY/NY. Pág. 259

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Em relação aos equipamentos usados no processo de produção do papel, constatamos, no fim do século XVI, na Holanda, o desenvolvimento de uma refinadora, denominada “holandesa”, usada para esgarçar as fibras dos trapos. Essa “máquina refinadora” gerava, em apenas quatro ou cinco horas, a quantidade de pasta que um antigo moinho de martelo com cinco pedras gastava vinte e quatro horas para fazer. d) Entre os séculos XVIII e XIX Somente em 1719 o francês René Antoine Ferchault de Réaumur (1683 -1757), após observar os vespeiros3, propõe a utilização de raspas de madeira para a confecção de papel. Com a descoberta do efeito branqueador do cloro, ocorrida em 1774 pelo químico alemão Scheele, tornou-se possível empregar outros trapos de tecidos mais grossos e coloridos como matéria-prima para a produção de papel. Em 1806 Moritz Illig substitui a cola animal por resina e alúmen. Outra evolução aconteceu com o surgimento da máquina de papel de folha contínua, inventada em 1798 pelo francês Nicolas Louis Robert (1761–1828), cuja patente foi cedida aos irmãos Henry e Sealy Fourdrinier, proprietários de moinhos papeleiros na Inglaterra, os quais desenvolveram poucos aperfeiçoamentos ao projeto e apresentaram a máquina de papel de tela plana, a primeira do tipo de que se tem notícia. Depois da máquina Fourdrinier, outra grande novidade surgiu na Inglaterra em 1821, com a utilização de cilindros secadores, que, acoplados à máquina e aquecidos a vapor, prensavam e secavam o papel formado na esteira. Esse invento é creditado ao inglês Thomas Bonsor Crompton, cuja patente data de primeiro de novembro de 1820.4 Em seguida, temos as máquinas de partida automática, que fortaleceram e consolidaram efetivamente a indústria de celulose e papel. Ao final do século XVIII começa-se a fabricar maior gama de papéis específicos para diferentes técnicas artísticas. Às classes de papéis já tradicionais para escrita, impressão e embalagem, agregam-se as variedades para desenho, aquarela e gravura de diferentes tons e gramaturas. e) A partir do século XIX O desenvolvimento da indústria química, com a utilização da soda cáustica e do bissulfito, em meados do século XIX, bem como as inovações nos processos de cozimento, branqueamento e encolagem, possibilitou melhor exploração da madeira como matériaprima. Com o aperfeiçoamento mecânico das máquinas inventadas, as fibras de madeira foram definitivamente consagradas na produção de papel.5 Atualmente, a indústria adota vários processos na obtenção da celulose e concentrase prioritariamente na exploração de fibras das madeiras de pínus (Pinus sp.) de fibra longa, e eucalipto (Eucalyptus sp.) de fibra curta. . As vespas, himenópteros, confeccionam seu ninho com lascas de madeira mastigadas. Maceradas e adicionadas a uma cola natural, da própria saliva desses insetos, formam uma pasta celulósica que, de fato, é o verdadeiro papel. Vemos, portanto, que, muito antes dos chineses ou de qualquer ser humano, o papel já era produzido na natureza. 4 . HUNTER, Dard. Op.cit., p. 361. 5 . D’ALMEIDA, M.L.O. Op. cit., vol. 1, p. 5. 3

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No Capitulo 1, vimos que os processos utilizados industrialmente para a produção de celulose se dividem em: mecânicos, termomecânicos, quimitermomecânicos e semiquímicos (sulfito ácido, sulfito neutro, sulfato e soda a frio) e químicos. No Capítulo 2, informamos que no Ocidente se percebe claramente a interrupção do processo de produção artesanal de papel e sua completa industrialização até meados do século XX.

2. Como fazer papel artesanal Como vimos, a celulose consiste em um polissacarídeo de fórmula C6H10O5 presente na parede celular de todas as plantas. Conseqüentemente, podemos fazer papel de qualquer planta, qualquer fibra vegetal. Atualmente, encontramos papéis feitos também de fibras sintéticas, como o rayon e o nylon. Desde sua descoberta, em 105 d.C., até hoje permanece inalterado o princípio básico da produção de papel, de extrair a celulose dos vegetais.

2.1. Espaço físico, equipamentos e materiais O espaço necessário para o cozimento da fibra e a confecção do papel dependerá do volume de produção desejado. Sugere-se, para o início do processo, basicamente o espaço de uma cozinha de porte médio. Nesse espaço, deve haver: a)   –   –   –

para a preparação da fibra: área para corte da fibra, podendo ser uma área externa; mesa de madeira ou bancada de cimento; prateleiras para o armazenamento da fibra a ser preparada (dependendo do volume de produção, faz-se necessário armazenar a fibra);   – freezer ou geladeira para armazenar a fibra depois de cozida, caso não seja imediatamente utilizada (as fibras também podem ser desidratadas depois de cozidas para serem armazenadas);   – facas, podões ou equipamentos de corte de plantas, como os utilizados para produção de forragem ou ração animal;   – Fita indicadora de pH, ou indicador de pH digital.

b)   –   –   –   –

para o cozimento da fibra: fogão industrial; panelas de aço inox (com capacidade de 20 litros ou mais); ou recipiente de ágata; ou recipiente de latão (os produtos alcalinos corroem o latão e o alumínio, encurtando a vida útil do recipiente feito desses materiais);

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botijão de gás; fósforo; pás de aço inox ou de madeira; soda cáustica (NaOH); ou carbonato de sódio (barrilha); ou cinza vegetal; recipiente do tipo de caixa d’água, para armazenar e decantar o resíduo do cozimento; ácido acético (vinagre); ou ácido fosfórico.

c) Para o branqueamento da fibra:   – água sanitária; ou   – cloro; ou   – peróxido de hidrogênio;   – baldes, bacias ou cubas de plástico. d) Para a lavagem da fibra:   – coadores de aço inox; ou   – coadores de pano de nylon; ou   – coadores de saco de pano de chão (como última escolha, pois os sacos são feitos de tecido de algodão, que podem rasgar-se facilmente com o processo de lavagem para a retirada da soda cáustica);   – tanque;   – mangueira;   – água corrente. e) Para o processamento da fibra:   – martelos de madeira; ou   – moinho de bola; ou   – refinadora, tipo holandesa. f) Para a homogeneização da fibra:   – liquidificador industrial de 25 litros. g) Para o tingimento da fibra:   – fogão industrial;   – panelas de alumínio ou aço inox;   – corantes ou pigmentos;   – alúmen de potássio, ou outro fixador, se necessário. h) Para a confecção do papel:   – cubas de plástico ou piscinas de plástico;   – telas de madeira forradas com nylon de diversos tamanhos;

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telas de madeira sem nylon; carboxi-metil-celulose; bacias; esponjas; baldes.

i) Para prensagem e secagem do papel:   – mata-borrão; ou   – feltros; ou   – entretelas grossas sem cola;   – prensa (de coluna ou hidráulica);   – tábuas forradas com fórmica;   – varais;   – pregadores. j) Outros materiais: (dependendo do volume de produção e do local)   – estufa para secagem dos papéis;   – hidrapúlper;   – pequena caldeira;   – calandra.

2.2. Matéria-prima Como dissemos, o papel constitui-se basicamente de celulose, um tipo de carboidrato formador da parede celular de todas as plantas, sendo, portanto, presente em todos os vegetais. Insolúvel em água, esse polissacarídeo permite que o papel, depois de pronto, sofra banhos sem se desmanchar. Embora a maior parte das fibras utilizadas pela indústria papeleira seja proveniente do tronco das árvores, podemos obter fibras de plantas, tais como: abacaxi, grama, sisal, bananeira, algodão, cana-de-açúcar, palha de arroz, taboa, helicônia e outras, além de aparas de papéis usados. As fibras vegetais, do ponto de vista papeleiro, são geralmente classificadas em longas e curtas. As curtas, obtidas de vegetais, têm comprimento médio entre 1 e 2 mm. Nesta classe estão as madeiras duras ou folhudas (das quais a de eucalipto é a mais usada em nosso país), bem como as palhas e os resíduos agrícolas (sendo o bagaço de cana o mais utilizado. As fibras longas têm comprimento médio acima de 3 mm. A essa classe pertencem as madeiras coníferas, cujas fibras apresentam comprimento de até cerca de 5 ou 6 milímetros; as fibras têxteis –, tais como algodão, linho, sisal, curauá, rami e outras – chegam a ultrapassar um centímetro. Das madeiras de fibra longa, a mais usada na indústria papeleira do País é a do pinheiro-do-paraná. 6 6.

Disponível em http://www.aracruz.com.br/show_inv.do?act=stcNews&orig=fin&id=643&lang=1, acesso em 22/03/2007.

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               Fibra Nome Comum Nome Científico

Comprimento (mm)

Araucária

Araucária sp.

2,00 – 5,37

Pínus

Pinus sp.

1,55 – 4,68

Bambu

Bambusa sp., Phyllostachys spp.

1,16 – 6,16

Eucalipto

Eucalipto sp.

1,15 – 4,15

Gmelina

Gmelina

0,70 – 1,40

Bagaço de cana

Saccharum officinarum

0,72 – 1,79

Linter de algodão

Gossypium sp.

0,82 – 3,91

Juta

Corchorus capsularis

Rami

Boehmeria nivea

120

Crotalária

Crotalaria juncea

7,5

Kenaf

Hibiscus cannabinus

6

Abacá

Musa textiles

6

Sisal

Agave sisalana

2

3–4

Fonte: Celulose e Papel, 1988

O primeiro passo na hora de escolher a fibra é observar a facilidade de sua obtenção. Uma vez que podemos produzir papel a partir de qualquer fibra vegetal, devemos verificar os custos para a obtenção de nossa matéria-prima. Na produção artesanal, há o objetivo de escolher matérias-primas oriundas de outras atividades agrícolas ou podas, que serão naturalmente descartadas. Uma atividade importante antes de começar a fazer papel: mapear o local, em que será feita a produção, para identificar as fibras existentes nas proximidades. Verificar as culturas próximas e também sua época de colheita que possibilitará o acesso a uma grande quantidade de matéria-prima.

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Quanto mais próxima estiver a matéria-prima a ser utilizada, menor o custo de transporte no processo. Os resíduos de algumas culturas têm peso significativamente maior do que outras. Tome-se como exemplo o cultivo da bananeira. Quando se colhe o cacho de banana, faz-se a poda do pé, descartando-se o tronco, que pode ser inteiramente utilizado na produção de celulose. O peso, porém, mostra-se elevado em comparação com a fibra resultante. Pode-se dizer que a quantidade aproveitada é de cerca de 20% do peso da bananeira na confecção de papel, pois os outros 80% constituem-se basicamente de água. Também a colheita da soja vale como exemplo. Na confecção de papel, toda a matéria fibrosa residual da colheita pode ser aproveitada, com peso bem inferior ao da bananeira e muito menos água. Da mesma forma, as culturas de milho, cana-de-açúcar, abacaxi, arroz, trigo, feijão, helicônia, sisal e girassol, entre outras, possibilitam matéria-prima para a confecção de papel. No caso das cidades, podemos considerar as podas de grama e jardins, bem como os descartes de papéis usados.

2.3. Obtenção da polpa A obtenção de polpa celulósica constitui a primeira etapa da produção de papel. Sob o ponto de vista técnico, o termo “polpa celulósica” compreende o resíduo fibroso proveniente da deslignificação parcial ou total da matéria-prima vegetal empregada.7 Para os vegetais não-madeireiros, os processos de polpação mais recomendados são os alcalinos. Entretanto, os processos mecânicos, termomecânicos e a cal (CaO) são também recomendados sob os pontos de vista prático e econômico. 2.3.1. Fibras vegetais O processo de obtenção artesanal da polpa a partir de fibras vegetais pode ser químico ou mecânico. a) Processo químico Utilizamos um álcali para eliminar grande parte dos componentes não-celulósicos, como a lignina e outros extrativos vegetais, através do tratamento químico – no caso, o cozimento com solução alcalina: NaOH (soda cáustica)8, por exemplo. Para a extração da celulose, o vegetal escolhido deve ser picado em pequenos pedaços e cozido com NaOH (soda cáustica)9 em um recipiente de aço inox, latão ou ágata. Dê preferência ao recipiente de aço inox, que não se degrada com a soda cáustica, que corrói outros recipientes. De maneira alguma utilize recipiente de vidro. FOELKEL & BARRICHELO, 1975, citados por SOFFNER, 2001. Soda cáustica (NAOH) – hidróxido de sódio. Existem vários níveis de pureza da soda. Quanto mais pura, mais irá reagir. No cozimento das plantas, a soda tem a função de retirar a lignina e outros componentes (extrativos), deixando somente a celulose, justamente a matéria-prima para a fabricação de papel. Outros elementos têm a mesma função da soda: decoada (cinzas vegetais), barrilha e cal, por exemplo, além da ação de bactérias. 8. 9.

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Determinam-se a proporção de soda e o tempo de cozimento de acordo com o vegetal escolhido. Cita-se como exemplo a bananeira, para a qual se utiliza um recipiente com volume de 20 litros de água e 250 g de soda em quatro horas de cozimento. Quando a fibra estiver se soltando, retira-se a panela do fogo e deixa-se a soda esfriar. ATENÇÃO: a soda cáustica, extremamente perigosa, pode causar queimaduras graves. Sempre manipule esse material usando luvas e lave bem as mãos após o uso. Para neutralizar a soda, extremamente alcalina, pode-se usar um pouco de vinagre (ácido acético). O licor (água negra resultante do cozimento) pode ser aproveitado em outro cozimento. Para tanto, passe a polpa por um coador de nylon ou aço inox dentro de um recipiente ou panela de aço inox e acrescente a nova fibra a ser cozida. Caso não deseje fazer um novo cozimento, o licor deve ser neutralizado antes do descarte. Para neutralizar o licor de cozimento, pode-se adotar o seguinte procedimento: despejá-lo em um recipiente do tipo de uma caixa d’água e adicionar um ácido fraco, como o acético (vinagre) ou o fosfórico, até que a solução esteja neutra. É importante fazer o controle do pH. Para isso, utilizam-se os papéis ou as fitas indicadores de pH, encontrados em casas de produtos químicos. O licor só deve ser descartado, quando o pH tiver um valor entre 5 e 9. Após a retirada do licor, lava-se bem o vegetal — agora já transformado em polpa — em água corrente, usando-se para tanto o mesmo coador de nylon ou aço inox. Dessa forma, retira-se toda a soda cáustica residual existente. b) Processo mecânico A pasta ou a polpa é obtida pelo processo mecânico de maceração das fibras. Neste caso, o vegetal selecionado deve ser picado e, com o auxílio de um pilão, martelo ou moinho, macerado até se transformar em polpa. Percebe-se que todo o material constituinte da planta permanece na polpa resultante da maceração. Com isso, teremos materiais indesejáveis, como tecidos parenquimáticos e elementos de vasos denominados “medula” – constituintes dos vegetais, que dificultam o processo de polpação e implicam perda de qualidade da polpa celulósica. Tanto no processo químico quanto no mecânico, recomenda-se, para a formação da folha, que a polpa resultante passe por um processo de desagregação da fibra (liquidificador) e, quando possível, pelo processo de refinação (holandesa e/ou moinho de bola). 2.3.2. Fibras recicláveis A definição das matérias-primas fibrosas recicláveis, utilizadas para a fabricação de papel, compreende dois grandes grupos: aparas e papéis usados. As aparas (em inglês, trimmings), juntamente com materiais refugados e não utilizados, resultam de operação industrial que transforma papéis e cartões em uma variada gama de artefatos. O grupo caracteriza-se como “de pré-consumo”.

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Os papéis usados (em inglês, waste paper), também designados “papéis velhos”, consistem nos diferentes tipos de papéis e artefatos de papel descartados pelos usuários finais. O grupo caracteriza-se como “de pós-consumo”. 9 Materiais proibitivos10 Proibitivos são quaisquer materiais, cuja presença em quantidade maior que a especificada, inutilizam o fardo em que estão contidos para a fabricação de determinado tipo de papel. Entre os materiais proibitivos, podem ser citados: • papéis vegetais ou glassine; • papel e papelão encerados, parafinados ou betuminados; • papel-carbono; • papel e papelão revestidos ou impregnados com substâncias impermeáveis; • papel e papelão laminados, tratados ou revestidos com plásticos, betume ou camada metálica; • colas à base de resinas sintéticas; • fitas adesivas sintéticas. A classificação das aparas apresentada acima foi feita em 1973. Nesses últimos 30 anos, ocorreram muitas mudanças no perfil dos papéis. Atualmente, a Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap) e a Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP) trabalham para a formalização de uma nova classificação. O processo artesanal de obtenção da polpa através de aparas de papel ou de papéis usados pode ser: a) químico – quando ocorre o cozimento das aparas ou papéis usados em solução alcalina, tal como soda cáustica. Adota-se tal procedimento principalmente para os papéis usados ou aparas obtidas a partir de polpa mecânica, como os jornais. O cozimento com produto alcalino também ajuda na retirada da tinta de impressão contida nos papéis; b) mecânico – quando se dá a desagregação dos papéis usados ou das aparas em liquidificador ou hidrapúlper. Aconselha-se a deixar os papéis, que serão desagregados imersos em água, por um período entre 12 e 24 h.

2.4. Branqueamento O branqueamento pode ser definido como “tratamento físico-químico que tem por objetivo melhorar as propriedades ópticas da pasta celulósica”. Como parâmetros usuais que medem a eficiência do branqueamento estão as propriedades ópticas da pasta – alvura,

Fonte: Associação Nacional de Aparistas de Papel (Anap). http://www.anap.org.br/qualificacoes.htm, acesso em 12.02.2007. Fonte: Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa)/ Associação Nacional de Aparistas de Papel (Anap). http:// www.anap.org.br/qualificacoes.htm, acesso em 22.02.2007. 9.

10.

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brancura, estabilidade da alvura. O agente clareador mais utilizado é a água sanitária, mas também se pode usar o cloro ou o peróxido de hidrogênio (água oxigenada). O processo de branqueamento acontece pela adição do produto alvejante diretamente sobre a fibra. Após o cozimento, lave a fibra e deixe escorrer a água. Coloque a fibra em um recipiente, como uma bacia ou cuba de plástico. Acrescente o produto alvejante (água sanitária, por exemplo), e exponha ao sol. O clareamento é perceptível. Quando a fibra estiver branqueada, lave-a para a retirada do produto. Nesse caso, também se usa um ácido fraco, como o vinagre, para neutralizar o pH da água sanitária.

2.5. aditivos Uma folha, que contenha exclusivamente celulose, não apresenta as características do papel geralmente desejadas. Se produzida exclusivamente de fibras de celulose, a folha é porosa, geralmente de superfície enrugada e com pouca resistência à umidade. Dessa forma, é comum a adição de produtos com a finalidade de acrescentar ou melhorar certas propriedades do papel. 2.5.1. Cargas As cargas têm como finalidade básica propiciar maior uniformidade à superfície e melhorar as características físicas, tais como alvura, lisura e opacidade, fornecendo, ainda, melhores condições para uma boa impressão. De modo geral, as cargas tendem a aumentar a gramatura do papel, ao ocuparem os espaços, que não puderam ser preenchidos pelas fibras de celulose. Caso haja o excesso em seu uso, a resistência física do papel tende a diminuir. As cargas podem ser incorporadas em diversos pontos do processo de fabricação do papel, embora haja estudos para identificar o momento mais adequado de adicioná-las. No processo artesanal, recomenda-se fazer isso na etapa de homogeneização da fibra, quando no liquidificador. Os principais materiais utilizados como carga são: dióxido de titânio (purificação química dos minerais rutilo e anatásio), caulim (caulinita), carbonato de cálcio (obtido do calcário) e talco (silicato hidratado de magnésio, geralmente extraído de depósitos naturais). 2.5.2. Colas Uma propriedade importante para um grande número de papéis é a resistência à penetração de líquidos, como água, tintas, sangue, leite, sucos, óleos, gorduras e outros. Para isso, existem dois tipos de colagem de papel: a interna e a superficial. a) Colagem interna: processo no qual se adicionam produtos químicos à massa durante sua preparação, para se depositarem entre as fibras, com o propósito de controlar a penetração de líquidos no papel. Tem a característica de permitir a resistência à penetração de líquidos em toda a estrutura fibrosa do papel. Papéis para imprimir, escrever, de embalagens, sacos e vários outros são fabricados de modo a oferecer resistência à penetração de água e, por isso, passam pelo processo de colagem interna.

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b) Colagem superficial: tem por objetivo aumentar a resistência à penetração de líquidos, com a aplicação de produtos químicos adequados sobre a superfície já formada da folha de papel. Além de dificultar a penetração de líquidos, este processo melhora as características mecânicas da folha. Restringe a penetração de líquidos nas camadas mais externas. As principais colas adicionadas à polpa na manufatura artesanal de papel são: cola de breu, gelatina, carboximetilcelulose (CMC) e amidos. Na confecção de papéis artesanais, é comum o uso do CMC para colagem interna, pois esse produto também tem a função de dispersor. Com a finalidade de dispersor, podemos também utilizar a cola de quiabo11, a qual nos remete, em semelhança, à mucilagem vegetal usada pelos orientais – o Tororo-aoi (Abelmoschus maniihot). É importante ressaltar que, com a utilização de papéis usados e aparas para manufatura de papel, reaproveitamos não somente a celulose, mas também seus aditivos, entre os quais, as colas e as cargas. Papéis de seda, mata-borrão, toalha, lenço e guardanapo são chamados de “materiais não colados ou com pouquíssima cola”. 2.5.3. Corantes e pigmentos Na indústria papeleira, os corantes são mais utilizados que os pigmentos na coloração do papel, devido às seguintes vantagens: maior solubilidade, maior poder tintorial, disponibilidade de maior gama de tonalidades e o fato de não alterar as propriedades mecânicas do papel. Os pigmentos são sólidos finamente divididos que se obtêm a partir de minerais ou da síntese de compostos orgânicos, não apresentando afinidade pelas fibras, sobre as quais são fixados através do sulfato de alumínio ou alúmen de potássio. Existem corantes específicos para celulose e papel, mas podemos também usar os corantes comercializados para tingimento de tecidos de algodão. O processo de tingimento é igual ao especificado para os tecidos: em uma panela, adicione a fibra de papel a ser tingida, picada ou liquidificada. Em seguida, acrescente água e o corante de tecido e deixe ferver. 2.5.4. Mordentes Os mordentes são quaisquer substâncias que, combinadas com um corante, servem para fixar as cores. Exemplos: sulfato de alumínio, alúmen de potássio (pedra-hume). No caso do alúmen de potássio, a ação se dá através do calor. Por isso, quando for utilizar o alúmen para fixar, ferva a solução.

Cola de quiabo: bata no liquidificador 1 litro de água e de 3 a 4 quiabos. Coe a solução e use. Assim como o Tororo-aoi, a cola de quiabo não deve ser guardada, pois rapidamente perde suas características. Alguns papeleiros costumam cortar o quiabo em pedaços e deixar de molho em um pouco de água. para que a “baba” escorra. Da mesma forma, deve-se coar a solução e usar (faz-se necessário adicionar um fungicida neste caso. Uma sugestão: fungicida usado na indústria alimentícia, como o Nipagin, por exemplo).

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2.6. Passo a passo

Ricardo de Sagebin

Existem várias nuanças no processo de produção artesanal de papel. Cada papeleiro tem um jeito específico de fazer sua produção. Demonstraremos um processo que, com certeza, é o mesmo utilizado por muitos papeleiros, mas, acima de tudo, consiste no processo mais básico, que pode ser facilmente replicado. O exemplo apresentado a seguir pode ser adaptado para a extração da celulose de qualquer vegetal. Utilizaremos a fibra de helicônia, planta herbácea rizomatosa que mede entre 50 cm e 10 m de altura, conforme a variedade da espécie. Como o gênero da helicônia é ainda muito pouco estudado, não se sabe ao certo o número de espécies existentes que devem estar na faixa de 150 a 250. No Brasil, cerca de 40 espécies ocorrem naturalmente e são conhecidas por vários nomes, conforme a região, tais como: bananeira-de-jardim, bananeirinha-de-jardim, bico-de-guará, falsaave-do-paraíso e paquevira.

Touceira de helicônia Bihai.

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Fotos: Ricardo de Sagebin

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A haste e as folhas podem ser totalmente aproveitadas na preparação da polpa que será usada para a produção de papel.

Corte em pedaços de mesma dimensão. O corte pode ser manual ou pode-se utilizar equipamentos, tipo triturador de forrageira.

A planta picada é colocada em uma panela de aço inox.

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Fotos: Ricardo de Sagebin

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Obs. A helicônia, assim como a bananeira, tem alta umidade. Cerca de 80% do seu peso é água.

Adiciona-se água. Pela alta umidade da planta em uma panela com capacidade para 20 L, acrescentamos junto às fibras, no máximo, 10 L de água.

Acrescenta-se um álcali para a extração da celulose. Neste exemplo acrescentamos Soda Cáustica, NaOH, na proporção de 250 g para 10 L de água. Pode-se também usar Carbonato de Sódio (Na2CO3) ou Cinza Vegetal (decoada), entre outros álcalis.

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Fotos: Ricardo de Sagebin

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Deixe cozinhar até as fibras começarem a se soltar. Em alguns processos, o tempo de cozimento pode ser entre 02 a 04 horas. Se necessário, acrescente mais água. A função do cozimento com a adição de um álcali é retirar a lignina, entre outros extrativos vegetais presentes nas fibras que não são necessários na fabricação do papel. Depois que a fibra estiver cozida, desligue o fogo e espere a solução (ou licor) esfriar. ATENÇÃO: a utilização de produtos químicos deve ser feita com extremo cuidado. Ao manipulá-los, utilize sempre os Equipamentos de Proteção Individual – EPI, tais como luvas e máscaras. A soda cáustica é extremamente alcalina e em alta temperatura existe grande perigo de causar queimaduras graves.

Depois que a solução (licor) estiver fria, coe a fibra em um coador, feito com tecido de nylon. Caso deseje, pode-se aproveitar esta solução (licor) para outros cozimentos.

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Fotos: Ricardo de Sagebin

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Quando não desejar mais utilizar o licor do cozimento, faz-se necessário neutralizá-lo antes de descartá-lo. Uma das formas é acrescentar um ácido fraco, tipo ácido acético (vinagre) ou ácido fosfórico, até que neutralize o álcali do cozimento.

Com o auxílio de uma fita medidora de pH, verifica-se se a solução já está neutralizada. O ideal é que o pH esteja entre 5 e 9, para que a solução possa ser descartada.

A fibra cozida deve ser lavada em água corrente, acondicionada no coador de nylon, para a retirada de toda a soda residual. Nesta etapa, pode-se também dar um banho na fibra com uma solução de água e um ácido fraco, tipo ácido acético (vinagre), para neutralizar o pH da mesma.

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Fotos: Ricardo de Sagebin

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Depois de lavada, a fibra deve ser refinada.

Para tanto, podemos usar uma refinadora, tipo holandesa, como a acima, ou também um moinho de bolas, ou um pilão, ou martelos de madeira.

Depois de refinada, a fibra será desagregada e homogeneizada em um liquidificador.

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Fotos: Ricardo de Sagebin

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Neste momento, podemos adicionar os aditivos, como cola e carga. Uma das colas utilizadas é o carboxi-metil-celulose, e como carga utilizamos o caulim ou carbonato de cálcio.

Em seguida, a fibra é transferida para uma cuba, com o auxílio de baldes. Podemos usar cubas de plástico ou piscinas.

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Fotos: Ricardo de Sagebin

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Com o auxílio de telas de madeira, prepare-se para formar as folhas. As telas ou moldes podem ser de tamanhos variados, sempre em pares, sendo uma tela forrada com nylon e a outra sem nylon, cuja função é reter as fibras dentro do molde.

Introduza a tela inclinada na cuba, e faça movimentos horizontais, para que as fibras se entrelacem.

Retire a tela verticalmente e permaneça com ela paralela, para que a água escorra. Caso a tela fique inclinada, quando ainda tiver muita água nas fibras, as mesmas podem se deslocar para o lado da inclinação, e o papel ficará com um lado com maior concentração de polpa do que o outro. Ou seja, ficará mais grosso de um lado. Depois que a fibra se assentou sobre a tela, retire o excesso de água da janela, para evitar que caia pingos sobre a folha formada.

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Fotos: Ricardo de Sagebin

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Retire a janela.

Deite a tela sobre um mata borrão, podendo usar feltros ou entretelas. Neste caso, estamos usando uma entretela grossa.

Deixe a entretela absorver um pouco a água do papel.

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Fotos: Ricardo de Sagebin

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E, em um movimento contínuo, retire a tela, deixando o papel sobre a entretela.

Repita a operação até preencher metade da entretela. Depois feche a outra metade sobre as folhas formadas.

Depois de formadas todas as folhas desejadas, leve a pilha de entretelas para uma prensa. Acondicione as entretelas entre duas tábuas forradas com fórmica. Prense para retirar o excesso de água.

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Fotos: Ricardo de Sagebin

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Em seguida, deixe secar em um varal.

Podemos secar os papéis direto nas telas. Para isso, basta que tenha tantas telas quantas folhas desejar formar por dia.

Depois de prontos, os papéis podem ser acondicionados em mapotecas.

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Sergio Santorio / Arquivo ABTCP

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5 Tipos de fibras e

seus diversos usos

THÉRÈSE HOFMANN GATTI e DANIELA DE OLIVEIRA

No começo das manufaturas papeleiras, utilizavam-se fibras têxteis, entre as quais, as reaproveitadas de tecidos usados, ou seja, trapos. Essas fibras têxteis destinadas à fiação e tecelagem eram obtidas de uma atividade agrícola, como o plantio de algodão ou linho, por exemplo. O aproveitamento dos trapos nos moinhos papeleiros, após o uso das fibras como tecidos, propiciou um material fibroso muito econômico, a ponto de ter monopolizado o fornecimento dessas fibras para a confecção de papel durante 15 séculos. Com o aumento da demanda de papel, as fibras de trapos – subproduto têxtil/agrícola – usadas desde o início das manufaturas papeleiras foram substituídas pela serragem de madeira, subproduto florestal sem outro valor até então, a não ser seu poder calorífico. A partir de meados do século XIX, com a mecanização e a industrialização do processo de obtenção de celulose e fabricação de papel, as indústrias papeleiras consolidaram sua produção com a utilização de fibras de madeira, as quais se firmaram como a principal fonte de fornecimento de celulose, ocupando o espaço até então das fibras não madeireiras e têxteis.

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Essa evolução teve início em países tradicionalmente ativos na industrialização de produtos florestais e onde existiam condições para oferecer uma grande quantidade de subprodutos da madeira a custos suficientemente baixos, o que tornou economicamente convidativa a substituição de fibras de origem agrícola e de trapos reutilizados. A abundância da oferta de madeira propiciou um rápido e desordenado crescimento que visava somente à questão econômica do processo. As pesquisas sobre a nova fonte de fibras não foram aprofundadas à época, para verificar a condição de durabilidade e permanência do papel produzido a partir da celulose da madeira. Naquele momento, não se verificou o teor de lignina e outros extrativos vegetais presentes em maior quantidade nas fibras de madeira do que nas têxteis, como o algodão. Em conseqüência, os papéis produzidos no início da utilização das fibras de madeira que viraram suporte de livros e documentos encontram-se em avançado estado de degradação. Em levantamentos feitos por restauradores e conservadores no final do século XX, diagnosticou-se que, nos países culturalmente mais desenvolvidos, de 40% a 60% dos acervos nas bibliotecas e arquivos produzidos com papéis feitos em meados do século XIX e no início do XX não podiam mais ser acessíveis para consulta pelo público interessado, devido ao avançado estado de degradação. Entre as principais causas dessa deterioração está a acidez, que se desenvolve nos papéis, quebrando as ligações de pontes de hidrogênio e, assim, enfraquecendo sua estrutura. Segundo tudo indica, essa acidez, que está desintegrando os acervos documentais impressos sobre suportes papeleiros, decorre da presença da lignina nas fibras celulósicas de origem florestal, madeireira, a princípio usadas para complementar as fibras têxteis, substituídas totalmente mais tarde. O desenvolvimento das pesquisas tornou possível detectar e corrigir tal situação. As indústrias, então, passaram a produzir uma vasta gama de papéis a partir das fibras madeireiras com alta qualidade – inclusive os chamados papéis permanentes. Esse fato descreve bem o cuidado que devemos ter ao pesquisar novas fibras para a produção de papel. Como vimos no capítulo anterior, podemos fazer papel de qualquer planta, de qualquer vegetal; precisamos apenas observar algumas condições para garantir uma produção ambientalmente correta e sustentável. Consistem em boa opção as fibras oriundas de resíduos de colheitas – a biomassa, muitas vezes descartada ou queimada. A escolha do vegetal para a produção de fibras está ligada também ao custo de produção, que deve considerar a disponibilidade, a facilidade de obtenção, o manejo, a sazonalidade e o processamento do material. Em uma linha que contempla o estudo de fibras vegetais alternativas, descreveremos a seguir algumas destas espécies, utilizadas para a manufatura de papel artesanal: abacaxi, bambu, bananeira, cana-de-açúcar, cana-do-reino, coco, casca de eucalipto, grama, helicônia, milho, pita, agave, soja, paineira, taboa e abacá, além das recicláveis.

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http://www.tpech.gov.tw/UserFiles/Image/ CHINESE%20PHOTO/中藥園地/IMG_6800美人樹.JPG

ABACÁ Nome científico Musa textilis Née Família Musaceae

Descrição da planta Estolonífera, com pseudocaule cilíndrico, na cor verde, de até 8 m de altura. As folhas são oblongas, deltóides na base, nas cores verde-clara na parte superior e verde-glauca na inferior, com até 6 m de comprimento e dotada de pecíolos grossos (de 30 cm a 35 cm de comprimento), com manchas bicolores e bainha escura. As flores encontram-se dispostas em espigas pendentes, mais curtas que as folhas com brácteas violáceas. Produz fruto trígono-ovóide recurvado, verde, duro e não comestível. Esta planta assemelha-se à bananeira, mas com propriedades e usos diferentes. A plantação tem o aspecto de um bananal. Cortam-se as plantas pela base antes que cheguem a frutificar. Parte(s) utilizada(s) para manufatura de papel O pseudocaule e o resíduo da fabricação de cordoalha e tecidos. As diferentes variedades produzem fibras nas cores parda, amarelo-clara, amarelo-escura, amarelo-marfim, vermelho-clara, vermelho-escura, violácea e branca. Além de sua enorme resistência à tensão, é dificilmente deteriorável sob a ação da água, tanto doce quanto salgada. As fibras dessa musácea tropical têm de 2 a 4 metros de comprimento e procedem dos pecíolos das folhas. Utilização do papel Na fabricação de sacos (pseudocaule) para o acondicionamento de farinhas, cimento, cal e artigos semelhantes, bem como na manufatura de papelão resistente, usado na construção de paredes e móveis (Japão). Emprega-se também o abacá na manufatura de papel de embrulho e pasta de papel, na indústria de saquinhos de chá, papel-moeda filipino, papel-de-seda, papel de embalagem e capa de embutidos alimentares. Artefatos de papel, impressão e escrita. Bibliografia CORRÊA, M. P. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil. Ed. IBAMA e Ministério da Cultura. 1969/78. SOFFER, M. L. A. P. Produção de Polpa Celulósica a partir de Engaço de Bananeira. Dissertação de Mestrado: ESALQ, 2001. MEDINA, J.C. Plantas Fibrosas da Flora Mundial. Campinas: Instituto Agronômico de Campinas, 1959 citado por SOFFER, 2001. HOFMANN GATTI, T. & CEDRAN, L. Papel, Emoção e História. ABTCP e Ministério da Cultura, 2001. Disponível em http://www.papeloteca.org.br/Bananeira.htm

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Domingo Haroldo Reinhardt

ABACAXI Nomes científicos Ananas sativus Schult Ananas comosus (L, Merril) Ananas comosus (L.) Merrill Cayenne Família Bromeliaceae

Descrição da planta Terrestre, com caule (talo) curto e grosso, ao redor do qual crescem as folhas. O sistema radicular é fasciculado, superficial e fibroso, encontrado em geral a 30 cm e, raras vezes, a mais de 60 cm de profundidade. A planta adulta das variedades comerciais mede de 1,00 m a 1,20 m de altura e de 1,00 m a 1,50 m de diâmetro. Apresenta folhas lineares (de 25 a 50) dispostas em roseta, coriáceas, mais ou menos aculeadas e de ápice espinescente, de até 120 cm de comprimento, revestidos de pêlos (sobretudo na parte inferior). As folhas fornecem fibras brancas, sedosas, flexíveis, com cerca de 60 cm, muito resistentes à tração e ao vapor. Produz flores violáceas e fruto comestível com tamanhos variados, carnoso, fibroso, mais ou menos elipsóide, de cor verde, amarelo-avermelhado ou violáceo, coroado com uma roseta de folhas idênticas à da planta, porém, menores. Parte(s) utilizada(s) para manufatura de papel Roseta (coroa) do fruto e folhas da planta, também utilizada para confecção de cordoalha, linhas e redes de pesca, rendas e guarnições delicadas. Quando espremidas, resultam em um suco útil para branquear outras fibras, tais como cânhamo e linho. Tem destinação diferenciada, por causa da proporção de polpa pura e aparas de papel. Utilização do papel Revestimento, encadernação e impressão.

Bibliografia CORRÊA, M. P. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil. Ed. IBAMA e Ministério da Cultura. 1969/78. PEREIRA, P. C. & MELO. B. Cultura do Abacaxizeiro. Disponível em http://www.fruticultura.iciag.ufu.br/abacaxi-2.html CABRAL, J.R. e MATOS, A.P. Imperial, Nova Cultivar de Abacaxi. Comunicado Técnico 114, Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical.

Pesquisadores da Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical – Caixa Postal 0007 – 44380- 000 – Cruz das Almas – BA. Tel.: (75 ) 3621-8027. E-mail: jrenato@cnpmf.embrapa.br e apmatos@cnpmf.embrapa.br. 1

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http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/b/ bc/Furcraea_foetida.jpg/290px-Furcraea_foetida.jpg

AGAVE Nome científico Agave sisalana Família Amarilidaceae

Descrição da planta Com caule de 1 m a 2 m de comprimento. As folhas, de coloração verde e brilhante, são desprovidas de espinhos nas bordas, mas com um longo na extremidade, quase planas, de comprimento de 1,3 m a 2 m e largura de 10 cm a 12 cm, inseridas em forma de rosetas. As flores têm pendão alto e ocorrem em panículas. Há raras ocorrências de frutos. Parte(s) utilizada(s) para manufatura de papel As fibras oriundas das folhas são ásperas, resistentes, gomosas e brancas. A fibra têxtil, de comprimento entre 60 cm e 1,6 m, é muito utilizada para fabricação de papel artesanal e tipo kraft. Assim como a pita, é utilizada para flocagem/ornamentação de papéis de outras fibras (não madeireiras) e aparas de papel Utilização do papel Revestimento, impressão e escrita.

Bibliografia CORRÊA, M. P. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil. Ed. IBAMA e Ministério da Cultura. 1969/78.

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BAMBU Nome científico Bambusa spp. Dendrocalamus sp. Phyllostachys spp. Guadua spp. Família Graminaceae

Descrição da planta De porte arbóreo, cuja estrutura consiste em sistema subterrâneo de rizomas, colmos e galhos. As características dos colmos (tamanhos, diâmetros, cores e texturas diferenciadas) ajudam na identificação das espécies. Os galhos se desenvolvem a partir das gemas existentes nos nós dos colmos, com número habitual de galhos em dada espécie, o que também contribui para facilitar a identificação. As folhas são lâminas caulinares que podem ser curto-peciolodas, lineares, oblongas, agudas, ásperas e com nervuras. No que diz respeito às flores, o bambu apresenta um ciclo de floração raro, em intervalos longos (uma vez a cada 10 ou 100 anos), com posterior morte. Parte(s) utilizada(s) para manufatura de papel As fibras do colmo, muito resistentes, têm qualidade semelhante à fibra longa de algumas espécies de pínus. No Brasil, existem mais de 200 espécies nativas de bambu, somando-se ainda a esse número as variedades exóticas. A espécie amplamente utilizada para fabricação de papel e celulose é a Bambusa vulgaris. Na manufatura artesanal de papel, dá prioridade às fibras das folhas, galhos e brotos. Utilização do papel Revestimento, impressão e escrita. Bibliografia CORRÊA, M. P. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil. Ed. IBAMA e Ministério da Cultura. 1969/78.

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BANANEIRA Nomes científicos Musa spp Família Musaceae

Descrição da planta Perene, herbáceo-arborescente, com pseudocaule mais ou menos cilíndrico, normalmente verde-violáceo, formado pelas bainhas foliares superpostas, mais freqüentemente de 7 m a 8 m de altura e de 25 cm a 30 cm de diâmetro. As folhas se apresentam divergentes, longo-pecioladas, lanceolado-oblongas, verdes, com limbo de até 25 m de comprimento e 80 cm de largura. De inflorescência pêndula de até 1,2 m de comprimento, e as flores ficam reunidas em espigas cobertas de brácteas. Parte(s) utilizada(s) para manufatura de papel Folhas, pêndulo da inflorescência (também chamado “engaço”) e pseudocaule, do qual se obtêm fibras longas e amareladas, de fácil branqueamento, sedosas e brilhantes a depender da variedade e também das condições climáticas e do terreno. A fibra, de 2 mm a 8 mm, apresenta-se lustrosa, de cor, que varia do branco ao ocre pálido, resistente, elástica, duradoura e imputrescível na água. Do pseudocaule da bananeira é possível extrair vários tipos de fibras, cada qual com características próprias. A camada do pseudocaule constitui-se de três partes: capa (externa), seda (interna) e renda (intermediária). Usa-se a camada externa (a mais grossa) para trabalhos, que exijam resistência do material; a interna (a mais fina) para acabamento das peças, e a intermediária para ornamentar. Utilização do papel Papéis artesanais de bananeira são muito usados em cartonagem, impressão e luminárias. Há interessantes resultados em papel de bananeira para restauro. No Brasil, alguns estudos apontam para o uso na fabricação de caixas de papelão para embalagens. A Costa Rica utiliza o engaço da bananeira (na proporção de 10% de engaço e 90% de aparas de papel) para a produção de papéis de impressão. Também aplicável para escrita e papelaria. Bibliografia CORRÊA, M. P. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil. Ed. IBAMA e Ministério da Cultura. 1969/78. SOFFER, M. L. A. P. Produção de Polpa Celulósica a partir de Engaço de Bananeira. Dissertação de Mestrado: ESALQ, 2001. GARAVELLO, M.E.PE & SOFFER, M.L.A.P. Relatório técnico: viabilidade de implantação de planta piloto de produção de papel especial com fibra de bananeira. Piracicaba: ESALQ, 1997, citado por SOFFER, 2001. SBRT - Serviço Brasileiro de Resposta Técnica. Resposta Técnica: Como extrair a fibra da bananeira?, SBRT, 2006 SEBRAE - Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa. Tecnologia & Inovação para a indústria. SEBRAE, 1999. Disponível em http://www.papeloteca.org.br/Bananeira.htm Disponível em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/11/11149/tde-13122001-114259/publico/soffner.pdf

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CANA-DE-AÇÚCAR Nome científico Sccharum officinarum Família Graminiaceae

Descrição da planta Herbácea, de raiz gemiculada e, em parte fibrosa, com colmo cilíndrico (de 40 a 50) articulado, mais ou menos ereto e de até 6 m de altura e 6 cm de diâmetro, revestido de epiderme lenhosa e vermicosa de cor amarela, verde, vermelho-escura ou violácea (a depender da variedade). Tem folhas amplexicaules na base, alternadas ou opostas, planas, lineares, agudas no ápice com até 1,4 m de comprimento e 6 cm de largura. Produz flores pequenas, que formam espigas agrupadas em panículas e rodeadas por longas fibras sedosas, congregando-se em enormes pendões terminais de coloração cinzento-prateada. Parte(s) utilizada(s) para manufatura de papel O bagaço, resíduo da cana-de-açúcar para a produção da garapa (primeiro tratamento do colmo), é aproveitado como celulose para fabricação de papel. As fibras são curtas, finas, flexíveis e ligeiramente intumescidas ou deformadas na obtenção da garapa. A polpa bruta, amarelada ou um pouco rósea, é de fácil branqueamento. Em certas condições, a fibra assemelha-se bastante à maioria das extraídas de madeira dura de média densidade, mas de comprimento superior. A fibra do bagaço permanece como um dos mais importantes materiais não lenhosos para a produção de papel, composta por 44% de celulose, 27% de hemicelulose e 22% de lignina Utilização do papel Embalagens, revestimento, artefatos de papel, impressão e escrita. O bagaço da cana-de-açúcar destaca-se por constituir um bom material no que se refere a fibras para produção de papel e papelão. Também destinado à impressão e escrita. Bibliografia CORRÊA, M. P. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil. Ed. IBAMA e Ministério da Cultura. 1969/78. SBRT - Serviço Brasileiro de Respostas Técnicas. Resposta Técnica: Papel Artesanal de Bagaço de Cana. SBRT, 2006. Disponível em http://www.sbrt.ibict.br1

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CANA-DO-REINO Nomes científicos Arundo donax L. (Donax, Scolochloa) Família Musaceae

Descrição da planta Perene, atinge de 4 m a 6 m, raramente passando dos 10 m (no Brasil), com ramos ocos de 2 cm a 3 cm de diâmetro. As folhas, que variam entre 30 cm a 60 cm de comprimento e de 2 cm a 6 cm de largura, apresentam tonalidade verde-acinzentada e têm bases com tufos. A flor brota no verão tardio, nas seções elevadas da planta, com 40 cm a 60 cm de comprimento. Apesar das sementes raramente férteis, essa planta reproduz-se por rizomas subterrâneos, rijos e fibrosos, a aparentar nós. Essas estruturas dispersamse pelo solo a até 1 m de profundidade, compondo uma rígida base à planta. Parte(s) utilizada(s) para manufatura de papel Colmos e folhas. O colmo, embora tenha usos variados, destaca-se pelo percentual de celulose (43%) e lignina (14%). Vale ressaltar que a história da cana-do-reino na fabricação de papel começa em 1830, na América do Norte. O característico crescimento rápido da cana-do-reino já sugeria uma ótima opção de produção de biomassa e celulose para papel. Naquela época, obtinha-se a polpa da fervura dos colmos em hidróxido de cálcio. Os primeiros estudos com os processo kraft e soda, bem como o branqueamento à base de cloro, ocorreram entre 1930 e 1950. Utilização do papel Revestimento, encadernação, impressão e escrita.

Bibliografia CORRÊA, M. P. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil. Ed. IBAMA e Ministério da Cultura. 1969/78. SHATALOV, A.A and PEREIRA, H. Paper making fibers from giant reed (Arundo donax L.) by advanced ecologically friendly pulping and bleaching technologies. Bioresources 1(1):45-61, 2006. PERDUE, R.E. Arundo donax: source of musical needs and industrial cellulose. Economic Bot. 12,368-404, 1958 citado por SHALATOV and PEREIRA, 2006. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Cana-do-reino Disponível em http://www.bioresourcesjournal.com/index

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COCO Nome científico Cocus nucifera Família Palmaceae

Descrição da planta Palmeira solitária, de estirpe cilíndrica, lisa, que pode chegar a 20 m de altura. Tem folhas de até 3 m de comprimento, de bainha de fibra grosseira e cor castanha, pecíolo longo e cerca de 100 pinas (folíolos) distribuídas em intervalos regulares. O fruto, de forma ovóide e cerca de 15 cm de diâmetro, apresenta, quando maduro, coloração castanha e polpa abundante de até 2 cm de espessura, com cavidade central que contém um líquido aquoso ou leitoso, conhecido como “água de coco”. Esse fruto é constituído pelo exocarpo (parte externa lisa), pelo mesocarpo (fibroso e espesso) e pelo endocarpo (casca duríssima e lenhosa). As flores, unissexuais, reúnemse em inflorescência ramificada (espádice) que se forma na axila de cada folha e se encerra em uma larga espata lenhosa composta por uma raque, em que, nos dois terços superiores, se situa um aglomerado de flores masculinas pequenas com apenas alguns milímetros, de coloração esbranquiçada ou amarelo-clara, localizadas na parte basal. Parte(s) utilizada(s) para manufatura de papel As folhas dão fibras têxteis brancas e sedosas que podem ser utilizadas para manufatura artesanal de papel. O mesocarpo produz fibras, que podem ser utilizadas em diversas aplicações industriais, entre as quais, a fabricação de papel. O mesocarpo é formado por densas e resistentes fibras agregadas pelo tecido conjuntivo. O mesocarpo de cocos maduros e secos fornece fibra lenhosa e dura, a partir da qual se extrai coiro2 ordinário. Os cocos verdes são os que fornecem a melhor fibra celulósica. A de coco pertence à família das fibras duras, tais como o sisal, e apresenta grande percentagem de lignina (de 35% a 45%) e celulose (de 23% a 43%). Utilização do papel Embalagens e revestimento. Bibliografia CORRÊA, M. P. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil. Ed. IBAMA e Ministério da Cultura. 1969/78. CARRIJO, O.A.; LIZ, R.S.; MAKISHIMA, N. Fibra da casca do coco verde como substrato agrícola. Horticultura Brasileira, Brasília, v. 20, n. 4, p. 533-535,dezembro 2002. NOGUERA, P; ABAD, M; NOGUERA, V; PURCHADES, R; MAQUIERA, A. Coconut coir waste, a new and viable ecologically-friendly peat substitute. Acta Horticulturae, 517 p. 279-286, 2000. citado por CARRIJO,LIZ e MAKISHIMA, 2002. SENHORAS, E. M. Estratégias de uma Agenda para A Cadeia Agroindustrial do Coco: Transformando a Ameaça dos Resíduos em Oportunidades Eco-Eficientes. Monografia. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Economia, Campinas, Abril, 2003. SENHORAS, E. M. Oportunidades da Cadeia Agroindustrial do Coco Verde, Do Coco verde Nada se Perde tudo se Desfruta. Revista Urutagua, Maringá: UEM, disponível em http://www.urutagua.uem.br/005/22eco_senhoras.htm Disponível em http://fazendabelavista.br.tripod.com/bv/id9.html 2

No comércio, a fibra tem o nome de coiro ou cairo.

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EUCALIPTO (CASCA) Nomes científicos Eucalyptus spp. Família Myrtaceae

Descrição da planta O gênero do eucalipto possui aproximadamente 600 espécies, das quais se utilizam algumas para a fabricação de celulose e papel no Brasil. Entretanto, para o processo artesanal de manufatura de papel, utiliza-se freqüentemente a casca como matéria-prima. A casca consiste na cobertura exterior de toda a árvore, desde as raízes até o tronco e os ramos. Apresenta tecidos específicos para transportar a seiva orgânica elaborada pelas folhas, para armazenar substâncias energéticas e nutrientes minerais, bem como para dar suporte e prover de resistência a matriz que ajuda a compor (a árvore). Os eucaliptos são conhecidos pela diversidade de suas cascas, de diferentes modelos, texturas, desenhos e cores. É mesmo possível identificar com alguma precisão certas espécies de eucaliptos pelo tipo da casca. Entre os diversos tipos de cascas dos eucaliptos, as mais comuns são: (i) as lisas e brilhosas: depois de mortas, se soltam e deixam exposta outra casca lisa e normalmente muito clara (E. grandis, E. saligna, E. viminalis, E. globulus, E. camaldulensis, Corymbia citriodora, Corymbia maculata e outras espécies); (ii) as esfoliantes: soltam-se em pequenas partes, lembrando pedaços de papel se desprendendo, e ocorrem em espécies de casca lisa em determinadas épocas do ano (E. grandis); (iii) as vermelhas ou sangrentas: na verdade, variantes também das cascas lisas, com a diferença de que as partes mortas que se soltam têm a cor vermelha ou marrom muito intensa (E. urograndis e Corymbia citriodora); (iv) as permanentes enrugadas, rugosas, suberosas e protuberantes: às vezes com aspectos de cordas ou estrias (E. paniculata, E. acmenioides, E. obliqua e E. microcorys); (v) em forma de escamas: não se soltam, mas se rompem na forma de escamas ou rede (E.tesselaris e E.cloeziana). Parte(s) utilizada(s) para manufatura de papel As cascas sésseis. Vale relembrar que a polpa, obtida no processo artesanal, produz papéis de baixíssimas alvuras (escuros) e pouca resistência, exigindo a incorporação de aditivos (cola e dispersantes). Tais características influenciam na destinação do papel. Utilização do papel Revestimento, artefatos, encadernação, decoração, impressão e suporte para óleo e aquarela. Bibliografia CORRÊA, M. P. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil. Ed. IBAMA e Ministério da Cultura. 1969/78. FOELKEL, CELSO. Casca da árvore do eucalipto: Aspectos morfológicos, fisiológicos, florestais, ecológicos e industriais, visando a produção de celulose e papel. Eucalyptus Online Book & Newsletter. ABTCP/TAPPI. Disponível em http://www.abtcp.org.br/ ROTH, OTAVIO. O que é Papel. Coleção Primeiros Passos, Editora Brasiliense: 1983 HOFMANN GATTI, T. & CEDRAN, L. Papel, Emoção e História. ABTCP e Ministério da Cultura, 2001.

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GRAMA Nome científico Zoysia japonica Steud Zoysia tenuifolia Trin Axonopus affins Chase Axonopus compressus Beauv Stenophrum secundatum (Walt) Kuntze Paspalum notatum Flüegge Cynodon dactylon (Pers.) L. Família Graminaceae

Descrição da planta Entre os diversos tipos de grama, a esmeralda (Zoysia japonica Steud) figura como uma das mais difundidas no Brasil: planta herbácea, originária do Japão, tem de 10 cm a 20 cm de altura e folhas em forma de lança, pequenas e estreitas, muito densas e pilosas. Trata-se de uma planta rizomatosa, isto é, com o caule abaixo do solo a emitir as folhas para cima. Seguida da Santo Agostinho (Stenophrum secundatum – Walt Kuntze), tem as folhas de largura e comprimento médios, lisas e sem pêlos, na cor verde-escura. Também podemos citar a japonesa (Zoysia tenuifolia Trin), variedade originária das Ilhas Mascarenhas que mede de 15 cm a 30 cm, com folhas muito finas e macias a lhe conferir aspecto aveludado. A Mato Grosso e a batatais (Paspalum notatum Flüegge), planta herbácea e rústica, tem de 15 cm a 30 cm de altura e folhas lineares, muito pilosas e alongadas. Há ainda a São Carlos (Axonopus compressus Beauv), rasteira, de origem brasileira, com altura de 10 cm a 20 cm e folhas lisas, perenes e lineares. Finalmente, existe o tipo Bermuda (Cynodon dactylon – Pers. L.) Parte(s) utilizada(s) para manufatura de papel As folhas, tanto para fabricação da polpa quanto para flocagem/ornamentação de papéis de outras fibras (não madeireiras) e aparas de papel Utilização do papel Freqüentemente para revestimento, impressão e encadernação. Bibliografia CORRÊA, M. P. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil. Ed. IBAMA e Ministério da Cultura. 1969/78. Disponível em www.cuestajardins.com.br/?id=132

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HELICÔNIA Nomes científicos Heliconia spp. Família Heliconiaceae

Descrição da planta Por ser ainda um gênero muito pouco estudado, não se sabe ao certo o número de espécies existentes de helicônia (atualmente, estão cadastradas de 150 a 250). No Brasil, cerca de 40 espécies ocorrem naturalmente, conhecidas por vários nomes, conforme a região: bananeira-de-jardim, bananeirinha-de-jardim, bico-de-guará, falsa-ave-do-paraíso e paquevira . As helicônias, plantas herbáceas rizomatosas, medem de 50 cm a 10 metros de altura, a depender da espécie, com folhas que se apresentam em vários tamanhos. As espécies possuem um rizoma subterrâneo normalmente usado na propagação. As inflorescências podem ser eretas ou pendentes, com as brácteas distribuídas no eixo em um mesmo plano ou em planos diferentes. Apenas a H. reptans Abalo e Morales apresenta a inflorescência na posição horizontal, distendendo-se junto ao solo em seu desenvolvimento. O fruto, do tipo baga, tem cor verde ou amarela, quando imaturo, e azul-escuro depois da maturação completa. Parte(s) utilizada(s) para manufatura de papel Dentro da perspectiva de aproveitamento integral da cultura e geração de “resíduo zero”, nos propusemos a verificar a possibilidade de utilizar os restos de colheita na fabricação artesanal de papel. Embora o aproveitamento do resíduo fibroso da produção de flores em geral e das helicônias em particular para a produção de papel seja desprezível no Brasil, alguns papeleiros utilizam o pseudocale e folhas da helicônia. A Universidade de Brasília realizou testes com os resíduos das colheitas de helicônia, apontando o grande potencial dessa matéria-prima. Aparentemente, as fibras são longas, o que permite a obtenção de papéis de alta resistência. Utilização do papel Revestimento, encadernação, impressão e escrita. Bibliografia CORRÊA, M. P. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil. Ed. IBAMA e Ministério da Cultura. 1969/78. HOFMANN GATTI, T. et ALL. Heliconias e o Complexo Agroindustrial das flores do Brasil. Trabalho Final da disciplina Política Ambiental e Sociedade Civil Organizada do Curso de Doutorado em Desenvolvimento Sustentável do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília. 2004. JARDIM DE FLORES. Heliconias, charme tropical. Disponível em: http://www.jardimdeflores.com.br/floresefolhas/A10heliconia. Disponível em htm 2004 citado por GATTI et ALL,2004 Disponível em http://www.plantarum.com.br/helico1.htm

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www.resimao.org/.../region/product/product_id/2

MILHO Nome científico Zea mays Família Graminiaceae

Descrição da planta Planta anual com altura de 1 m a 3 m, raízes fibrosas e caule robusto coberto de folhas largas, lanceoladas-acuminadas. Apresenta espiguetas monóicas: masculina biflora (pendão do milho) e feminina uniflora (espigas axilares). As espigas são envolvidas por longas brácteas (envoltório palhoso). Parte(s) utilizada(s) para manufatura de papel A palha, fibra natural de altíssima resistência, não só do ponto de vista físico (pois resiste a fortes trações), como também químico e biológico (já que não é muito vulnerável a fungos e a outros tipos de ataques). A palha de milho apresenta valores de celulose semelhantes aos de outros resíduos agrícolas, como a casca de arroz e a palha de trigo (40%). Podemos também utilizar o pé de milho depois da colheita. Utilização do papel Revestimento, encadernação, impressão, escrita e papelaria. Bibliografia CORRÊA, M. P. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil. Ed. IBAMA e Ministério da Cultura. 1969/78. SALAZAR, R. F. S.; SILVA G. L. P.,;SILVA, M. L. C. P. Estudo da composição da palha do milho para posterior utilização como suporte na preparação de compósitos. VI Congresso Brasileiro de Engenharia Química em Iniciação Científica, 2005. Disponível em http://www.feq.unicamp.br/~cobeqic/trabraceit.html Disponível em http://www.cyberartes.com.br/indexFramed.asp?pagina=indexAprenda.asp&edicao=89

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http://www.tpech.gov.tw/UserFiles/Image/ CHINESE%20PHOTO/中藥園地/IMG_6800美人樹.JPG

PAINEIRA Nome científico Chorisia speciosa St. Hil Família Bombacaceae

Descrição da planta Árvore grande, com tronco provido de acúleos e folhas alternas, digitadas, de 4 a 7 folíolos lanceolados, dentados, longo-peciolados. Apresenta flores vermelhas ou róseas, grandes, com pétalas ovais espatuladas. Fruto de cápsula oblonga com 20 cm de comprimento por 5 cm de diâmetro e sementes envolvidas em filamentos sedosos (paina). A Bombax marginatum Schum (também conhecida por “paineirado-campo”), da mesma família, também possui sementes envolvidas em paina. Parte(s) utilizada(s) para manufatura de papel A madeira (no processo industrial) e a paina (artesanal). Foram observados diferentes resultados com a utilização da paina: papéis de qualidade (paina pura), finos e resistentes (paina + bananeira) e fino e amarelado (paina + bambu)3. Utilização do papel Revestimento, impressão e escrita.

Bibliografia CORRÊA, M. P. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil. Ed. IBAMA e Ministério da Cultura. 1969/78. LORENZI, H. Árvores Brasileiras: Manual de Identificação e Cultivo de Plantas Arbóreas Nativas do Brasil. Nova Odessa: Plantarum, 1992.

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Segundo Pio Correa

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http://163.23.117.65/~tea02/37.JPG

PITA Nomes científicos Fourcroya gigantea Vent. Fourcroya flavo-viridis Hook Agave foetida L. Fourcroya foetida Haw

Família Amarilidacea

Descrição da planta De porte herbáceo, com caule, que pode atingir 1 m de altura e folhas (de 40 a 50) denso-rosuladas, ensiformes, mucronadas, sem espinhos nas margens de 1,5m a 2 m de comprimento, na cor verde lustrosa, que exalam um odor desagradável quando esmagadas. A haste floral atinge até 12 m de altura, tendo ao alto numerosas ramificações espalhadas. As flores se apresentam na cor branco-esverdeada. Parte(s) utilizada(s) para manufatura de papel As longas folhas fornecem fibras fortes e resistentes, utilizadas para fabricação de papel, após a retirada da fina película que recobre o limbo. Assim como o sisal, as fibras podem ser utilizadas para flocagem/ornamentação de papéis de outras fibras (não madeireiras) e aparas de papel. As fibras, facilmente branqueáveis, também aceitam muito bem tingimentos. Utilização do papel Revestimento, impressão e escrita.

Bibliografia CORRÊA, M. P. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil. Ed. IBAMA e Ministério da Cultura. 1969/78.

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SOJA Nomes científicos Glycine max Família Leguminosaea

Descrição da planta Anual, herbácea, de caule ramoso e pubescente, podendo alcançar altura de 80 cm a 1,00 m. As folhas, longo-pecioladas, têm três folíolos cordiformes bem desenvolvidos. Com flores axilares, sésseis, brancas, amarelas ou violáceas e fruto tipo vagem. Parte(s) utilizada(s) para manufatura de papel Resíduo da colheita de grãos (folhas secas). Utiliza-se também a palha da soja para flocar (adornar ou produzir texturas) em outros tipos de papéis. Utilização do papel Revestimento, impressão, embalagem e escrita.

Bibliografia CORRÊA, M. P. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil. Ed. IBAMA e Ministério da Cultura. 1969/78.

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TABOA Nomes científicos Typha dominguensis Pers Família Tifaceae

Descrição da planta Aquática, de caule mais ou menos cilíndrico e folhas ensiformes, espessas, esponjosas, coriáceas, lineares e oblongas de até 4 m de comprimento. Tem numerosas flores, agrupadas em espiga cilíndrica e inflorescência fusiforme ou cilíndrico-oblonga. Parte(s) utilizada(s) para manufatura de papel A folha e a haste floral. Ambas as partes fornecem fibras resistentes, de excelente celulose para manufatura artesanal de papel. Utilização do papel Revestimento, impressão, escrita e suporte para desenho e pintura (carvão e guache)

Bibliografia CORRÊA, M. P. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil. Ed. IBAMA e Ministério da Cultura. 1969/78.

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FIBRAS RECICLÁVEIS O reaproveitamento de celulose e papel, resíduos do processo de produção e pós-consumo, é prática adotada desde os primórdios da invenção do papel. Naquele período, o reaproveitamento ocorria em menor escala. Nos dias de hoje, em âmbito mundial, por razões ambientais e, em especial, para diminuir o volume de lixo produzido diariamente, verifica-se intenso estímulo à reciclagem de forma geral para diversos materiais. Como vimos, no caso do papel, a grande maioria dos produtos feitos com esse material pode ser 100% reciclada, com pequena parcela definida como “proibitiva”4. Em 2005, o Brasil consumiu 3,4 milhões de toneladas de papéis recicláveis, com taxa de recuperação de 46,9% do consumo aparente de papel5. Em uma linha que contempla o desenvolvimento tecnológico na área de reciclagem para a produção de papel, podemos citar:

APARAS DE PAPEL e PAPÉIS USADOS Origem A definição das matérias-primas fibrosas recicláveis utilizadas para a fabricação de papel compreende dois grandes grupos: aparas e papéis usados. Consideramos aparas de papel (em inglês, trimmings) o grupo de matéria-prima fibrosa reciclável, os materiais refugados e não utilizados, resultantes de operação industrial que transforma os papéis e cartões em variada gama de artefatos. Tal grupo também se caracteriza como “de pré-consumo”: branco I, branco III, branco V, kraft I, cartões de pasta mecânica (aparas paraná), jornais II, cartolina i, cartolina II, cartolina III, ondulado I, revistas II e tipografia6. Os papéis usados constituem um segundo grupo de matéria-prima reciclável, em inglês waste paper. Também designados de “papéis velhos”, são os diferentes tipos de papéis e artefatos de papel descartados pelos usuários finais após a utilização, sendo denominados “de pós-consumo”: cartões perfurados (hollerith), branco II, branco IV, branco VI, kraft II, kraft III, jornais I, cartolina IV, ondulado II, ondulado III, revistas I, misto I, misto II e misto III7. A classificação dos papéis de pré e pós-consumo foi feita em 1973. Nos últimos 30 anos, porém, ocorreram muitas mudanças no perfil dos papéis. Atualmente, a Associação Nacional dos Aparistas de Papel (Anap) e a Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP) trabalham para a formalização de uma nova classificação.

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Como as aparas e os papéis usados têm tipologias diferentes (processo de obtenção da polpa, aditivos, utilização e outros aspectos), resultam em diferentes possibilidades de reaproveitamento. Utilização do papel Revestimento, artefatos de papel, embalagem, impressão e escrita. Bibliografia ANAP- Associação Nacional de Aparistas de Papel. Informações disponíveis em http://www.anap.org.br/qualificacoes.htm acesso em 12/02/2007. CEMPRE – Compromisso Empresarial para Reciclagem. Informações disponíveis em: http://www.cempre.org.br

Proibitivos são quaisquer materiais cuja presença em quantidade maior que a especificada tornam o fardo que os contém não utilizável para a fabricação específica de determinado tipo de papel. Entre os materiais proibitivos, destacam-se: • papéis vegetais ou glassine; • papel e papelão encerados, parafinados ou betuminados; • papel-carbono; • papel e papelão revestidos ou impregnados com substâncias impermeáveis à água; • papel e papelão laminados, tratados ou revestidos com plásticos, betume ou camada metálica; • colas à base de resinas sintéticas; • fitas adesivas sintéticas. Fonte: Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa), de Associação Nacional de Aparistas de Papel (Anap), disponível em http://www.anap.org.br/qualificacoes.htm (acesso em 12.02.2007). 5 Dados da Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa) e Cempre (Compromisso Empresarial para Reciclagem). Fonte: Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa), de Associação Nacional de Aparistas de Papel (Anap), disponível em http://www.anap.org.br/qualificacoes.htm (acesso em 12.02.2007). 7 Fonte: Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa), de Associação Nacional de Aparistas de Papel (Anap), disponível em http://www.anap.org.br/qualificacoes.htm (acesso em 12.02.2007). 4

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PAPEL-MOEDA

Origem O papel-moeda brasileiro é produzido à base de uma mistura de fibras de celulose, entre as quais, o algodão, fibra longa e resistente que mede entre 2 mm e 5 mm. Devido à má conservação do dinheiro por parte dos usuários, que usam as notas sem muito cuidado (dobram, amassam, rasgam e riscam, entre outras ações), o Banco Central fica obrigado a triar e descartar mensalmente algumas toneladas do dinheiro/papel-moeda desgastado pelo mau uso. Devido às suas características específicas, o papel-moeda não se insere no processo normal de reciclagem artesanal de papel. Na verdade, faz parte dos materiais considerados proibitivos para a reciclagem, pois é impregnado de substâncias impermeáveis à água, responsáveis por dar resistência à umidade ao dinheiro, de modo a impedir a penetração da água nas fibras –justamente o princípio básico da reciclagem de papel. O reaproveitamento desse material só se tornou possível depois de longa pesquisa que identificou produtos químicos com a capacidade de umectar os confetes de papel-moeda descartados pelo Banco Central. Tal resultado consta como objeto de patente da Universidade de Brasília, sob a denominação de invenção de tecnologia “reciclagem de papel-moeda com utilização de anti-resistência à úmido”, que possibilita a reciclagem de material de alta qualidade fibrosa pela aplicação conjunta de álcalis, condições de temperatura, pressão e outros produtos a atuar nas ligações químicas do formol-melamina.

Utilização do papel Revestimento, artefatos de papel, impressão e escrita. Bibliografia INPI - Instituto Nacional de Propriedade Industrial. Pedido de Patente nº PI9605508-1. HOFMANN GATTI, T; ANDREOLI, J.; ANDRADE, S. - Reciclagem de papel moeda com a utilização de anti-resistência a úmido. Anais do 29º Congresso Anual de Celulose e Papel – ABTCP. São Paulo,1996.

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ACETATO DE CELULOSE Origem O Acetato de Celulose (AC) é um derivado da celulose amplamente utilizado como produto para fabricação de filtros de cigarro e suporte para filmes fotográficos. Trata-se de um éster, produzido pela reação da celulose extraída e purificada da polpa de madeira com anidrido acético e ácido acético na presença de ácido sulfúrico (catalisador). Os resíduos gerados pelo hábito de fumar e pela produção de cigarros e cargas de canetas, entre outros itens, não tinham destinação, a não ser os depósitos de lixo. Uma pesquisa desenvolvida demonstrou a possibilidade de utilização para produzir papéis de alta qualidade. O reaproveitamento desse material é objeto de patente da Universidade de Brasília sob a denominação de invenção de tecnologia de “reaproveitamento de fibras de acetato de celulose e filtros de cigarro para obtenção de celulose e papel”. Tal invenção refere-se ao uso de resíduos compostos por fibras de acetato de celulose, sejam oriundos de sobras industriais (aparas ou descartes) ou materiais consumidos (filtros de cigarro, cargas de canetas, entre outros produtos). Nessa tecnologia, esses materiais são usados para a obtenção de uma massa de celulose passível de uso na produção de papel ou outros produtos. A invenção é concretizada no uso de resíduos de acetato de celulose para a obtenção de polpa de celulose. Para tanto, a reação de hidrólise dos grupos acetato, acelerada pela presença de ácidos ou bases no meio, leva à formação de celulose. Utilização do papel Revestimento, artefatos de papel, impressão e escrita. Bibliografia INPI - Instituto Nacional de Propriedade Industrial. Pedido de Patente nº PI9605508-1. HOFMANN GATTI, T; ANDREOLI, J.; ANDRADE, S. - Reciclagem de papel moeda com a utilização de anti-resistência a úmido. Anais do 29º Congresso Anual de Celulose e Papel – ABTCP. São Paulo,1996.

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CONCLUSÃO Estamos chegando ao final deste livro, mas não da obra que pretendemos fazer, obra essa iniciada e editada por várias mãos, assim como o papel, sempre produzido por várias pessoas. Muito versátil, o papel é rico em possibilidades e utilidades. Tem nuances multifacetadas que despertam a curiosidade, o interesse e o fascínio de inúmeras pessoas. Alguns o usam como suporte; outros, como expressão, mas, independentemente da função, com certeza o papel sempre causa emoção àqueles que se permitem conhecer seus encantos e mistérios. Vimos nesta obra algumas dessas pessoas que resgataram o papel artesanal no Ocidente. Foram os pioneiros que deram início a uma multidão que cresce a cada dia, cultuando, preservando e sempre renovando o fazer papel. Como vimos, a história do papel começa no Oriente. no século II da era cristã, ou talvez até um pouco antes. Passa, no Brasil, por iniciativas, entre as quais vale destacar a do Frei José da Conceição Veloso. Até hoje, no século XXI, ainda temos muito a falar sobre este material. Ao fazer referência aos artistas brasileiros Otavio Roth, Marlene Trindade e Lygia Sabóia, não tivemos a intenção de excluir ninguém, mas sim de, através deles, fazer uma reverência a tantos outros. Três artistas, três histórias, três Estados do Brasil, três momentos praticamente simultâneos que resultaram em uma infinidade de artistas, professores e produtores de papel artesanal espalhados pelo País - pessoas que trabalham sério e com afinco, ensinando, divulgando e ampliando o universo dos apaixonados pelo papel. Se você é uma dessas pessoas, entre em contato conosco, conte sua história, mostre seu trabalho e venha fazer parte de nossa associação. A ABTCP quer que você também faça parte desta história! Afinal, assim como Jules Heller, acreditamos que papeleiros são sortudos integrantes de um grupo especial que ama o que faz, dividindo uma incurável, contagiante, febril e misteriosa doença com todos os amigos e conhecidos: a fabricação de papel.

Thérèse Hofmann Gastão Campanaro Francisco Bosco

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GLOSSÁRIO DE PAPEL ARTESANAL ABACÁ – (Manila hemp). Também cânhamo-de-manila (Musa textilis), espécie de bananeira originalmente cultivada nas Filipinas. Do pecíolo de suas folhas são extraídas fibras excepcionalmente fortes, utilizadas em cordoalha e têxteis, e com as quais é também produzida polpa celulósica versátil e multiuso para produção de papéis. Não confundir com o verdadeiro cânhamo: Cannabis sativa. ABRASIVIDADE - (Abrasiveness). Propriedade da superfície do papel de desgastar, riscar ou arranhar; indesejável, especialmente para fins de impressão. ABSORÇÃO (Absorption) – Ação ou efeito de absorvência. ABSORÇÃO DE TINTA – (Ink absorption). A propriedade do papel de absorver rapidamente tinta de impressão, como o papel-jornal, tintas de revestimento, ou o contrário. Propriedade testada sob condições controladas. ABSORVÊNCIA - (Absorbency). Termo genérico que indica a propriedade do papel de embeber-se, com maior ou menor facilidade, em líquidos, como água, soluções ou produtos químicos específicos. ACABAMENTO – (Finishing). Normalmente entendido como o conjunto de operações subseqüentes ao processo de fabricação como tal, podendo incluir fases de condicionamento, revestimento superficial, calandragem, gofragem, cortes, escolha e assemelhados. ADSORÇÃO, Fixação – (adsorption, embedding,). Incorporação de produtos em folha de papel, de modo que as fibras retenham em sua superfície os produtos incorporados por via de interações de natureza química ou física. AGENTE DE COLAGEM – (Sizing agent). Substância aplicada para aumentar a resistência do papel à penetração de líquidos. Agente misturado na massa antes da formação da folha resulta em ‘colagem interna’. A colagem interna mais comum é feita com emulsão de resina (breu), que, porém, é de processo ácido. Para preservar a permanência do papel, onde é requisito a ausência de acidez, são aplicados agentes sintéticos reativos à celulose. Cola aplicada em superfície de folha pronta e seca é definida ‘colagem externa’ ou ‘superficial’. A colagem superficial não somente altera a resistência a líquidos, mas também características ópticas ou mecânicas superficiais da folha. AGENTE DE LIGAÇÃO (química) - (Bonding agent). Produto adicionado à massa para melhorar a resistência das ligações entre fibras durante processamento ou para criar novas ligações nas operações de desaguamento e secagem da folha, de modo a aumentar a resistência final do papel. Amidos e algumas resinas específicas são agentes promotores da ligação.

AGENTE TAMPÃO (reserva alcalina) – (Buffering agent – alkaline reserve). Substância alcalina, usualmente carbonato de cálcio ou carbonato de magnésio, adicionada à massa para proteger o papel de qualquer acidez que possa desenvolver. ÁLCALI - (Alkali). Substância cáustica, de pH elevado, usualmente hidróxido de sódio – NaOH -, utilizada na polpação de madeiras ou outros vegetais para a remoção de lignina, extrativos e outros elementos não-celulósicos. ALGODÃO – (Cotton). Fibra vegetal alva e fina que envolve as sementes do algodoeiro (Gossypium sp.). Uma das formas mais puras da celulose é a fibra primária com que foi feito papel manual no ocidente. ALUME, sulfato de alumínio - (Alum). É adicionado à massa de papel para a fixação de resina (cola) às fibras no processo de colagem ácida, dando ao papel propriedades de resistência a umidade. Também utilizado como mordente de corantes. Sulfato de alumínio é causa de acidez no papel, que, não sendo neutralizada, contribuirá para perda de permanência. ALVEJANTE - (Bleach). Produtos químicos oxidantes ou redutores variados – cloro, dióxido de cloro, peróxido de hidrogênio, ozônio -, utilizados para modificação de cor que resulte em aumento da alvura da massa de papel. ALVURA - (Brightness). O grau de intensidade com que o papel reflete a luz em comparação ao grau de refletância de uma superfície branca de referência, normalmente de óxido de magnésio, medido sob condições específicas. AMATE - (Amatl) – Papel artesanal de casca triturada de amoreira, semelhante ao Tapa, este uma especialidade originalmente feita pelos Astecas com a parte interior da casca da figueira (Fícus sp.). O Amate continua fabricado pelos Índios Otomi, do sul do México, mediante técnica pré-colombiana, quando era basicamente destinado a usos pictóricos ou religiosos. ANILINAS - (Aniline dyes). Classe de corantes solúveis obtidos por síntese orgânica a partir de derivados do alcatrão de carvão mineral, e que é de aplicação preponderante na indústria do papel. As anilinas se classificam em três tipos principais: básico, ácido e direto. ARQUIVO - (Archival). Termo agora empregado vagamente - assim como a palavra ‘permanente’ - para caracterizar material que pode ser utilizado, sem riscos de deteriorações, na conservação ou cuidados de documentos e artefatos importantes; ou na produção de itens novos projetados para exibir excelentes propriedades de envelhecimento. ARRANCAMENTO SUPERFICIAL – (Picking). A remoção, ou arrancamento, de partículas da superfície da folha durante a fabricação ou a impressão. Efeito que ocorre quando uma força de tração aplicada à superfície é maior que a força de coesão das fibras e materiais agregados. ASSENTADOR, estendedor - (layer). Operador que separa atentamente as folhas de papel artesanal dos feltros depois da prensagem, e as deposita sobre chapa metálica coberta com feltro, para a formação de novas pilhas.

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AUXILIAR DE FORMAÇÃO – (Formation aid). Aditivo, geralmente de efeito dispersante ou antifloculante de fibras, adicionado à massa para melhorar a formação. Na técnica de manufatura artesanal japonesa, é praticada a adição de extrato vegetal (ver Néri) como agente controlador da viscosidade da polpa de fibras longas e, assim, controlar melhor o desaguamento durante a formação. AUXILIAR DE RETENÇÃO – (Retention aid). Aditivo químico, formulado especificamente para melhorar a retenção por efeito de adsorção, de finos, pigmentos, corantes e eventualmente outros aditivos na massa para papel, adicionados durante a preparação da massa. BACIA - (Hand basin). Vasilha ou bacia colocada junto à tina ou cuba, para que o operador possa limpar regularmente as mãos de grumos ou resíduos de massa. BAMBU - (Bamboo). Designação comum a várias espécies de gramínea, neste caso referido ao bambu-mirim ou ‘golden bamboo’ (Phyllostachys áurea), de cujo caule os chineses extraíam fibras para a produção de papel. BARRILHA – (Soda ash). Uma substância alcalina (carbonato de sódio) utilizada no cozimento de fibras floemáticas ou de plantas nativas. Químico suficientemente forte para dissolver os componentes não-celulósicos da planta, mas, ainda assim, sem prejudicar a resistência do papel final. BASE - (Base). Termo utilizado na arte do Origami para descrever uma forma básica dobrada simples, abstrata e geométrica, com potencial para ser convertida numa variedade de desenhos distintos. Uma base é identificada por modelo tradicional bem conhecido a partir do qual podem ser desenvolvidas variantes; por exemplo: base do peixe; base da pipa, base waterbomb, base do sapo, base do pássaro. BATEDOR – (Stamper). Um dispositivo primitivo, acionado por vento, água ou força animal, consistindo de martelos socando em um pilão. É utilizado para converter em polpa trapos e outras matérias-primas, também amplamente substituído por máquinas de refino, como a Holandesa. BISEL - (Ass, Horn). Peça de madeira com uma face oblíqua, usada para fixar em determinado ângulo de drenagem a moldura, que contém a forma da folha. BOLHA - (Blister). Deformação pontual visível na superfície do papel, que pode ser causada por motivos variados, inclusive, por ar preso entre feltro e folha ou por desprendimento de borbulhas de ar na massa durante a formação da folha. BORDA ÁSPERA – (Grainy edge). Região áspera próxima às bordas, por má formação da folha, ou problemas na prensagem ou secagem. BORDA FINA (Feather edge). Menor gramatura na margem da folha de papel. BORDA GROSSA – (Thick edge). Um defeito causado por pressão desuniforme numa das bordas durante a manufatura da folha, que pode levar a acumulo maior de massa nessa extremidade, causando borda grossa.

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BORDA ONDULADA - (Wavy edges). Problema observado em papel em fardo quando as bordas das folhas sofrem expansão devido à absorção localizada de umidade. BRANCO-FIXO - (Blanc fixe). Sulfato de bário precipitado. Utilizado no revestimento de papéis fotográficos, papéis para mapas e em aplicações correlatas. BRANQUEAMENTO – (Bleaching). Processo utilizado para purificar e alvejar polpa mediante ulterior eliminação de lignina remanescente, com a utilização de agentes químicos oxidantes ou redutores (derivados de cloro, peróxido de hidrogênio e ozônio). BRILHO – (Glazing). Operação de tornar a superfície do papel ou cartão polida ou brilhante por meio de equipamentos apropriados de secagem ou processo mecânico de acabamento. Como para ‘lustração’. CADERNO, mão – (Quire). Usualmente um caderno não costurado de 24 folhas de papel. Medida também definida como ‘mão’. CAIXA DE SUCÇÃO, mesa de vácuo – (Suction box, Vacuum table). Um sistema de formação do papel que utiliza um processo a vácuo para compactar a polpa, usualmente composto de uma tampa ou cobertura perfurada ligada à câmara de vácuo. CALANDRAGEM – (Calendering). Processo de prensagem da folha entre rolos (ou placas) de metal ou com revestimentos, para aumentar a lisura superficial e, eventualmente, regularizar o perfil da espessura. Também para efetuar estampas em relevo (gofragem) na folha. CAMADA HIDRATADA – (Hydrated shell) – Uma camada fina de líquido fortemente associada a certas fibras, resultado de água aderida e/ou moléculas de agentes auxiliares de formação. CÂNHAMO – (Hemp). Planta de que se extraem fibras de alto teor de celulose de seu floema, classificada como Cannabis sativa e, assim, como para abacá e linho, uma das fibras mais longas e fortes para a produção de papel. CARBONATO DE CÁLCIO - (Calcium carbonate). Um pigmento mineral, natural ou precipitado, adicionado à massa como carga mineral para assegurar longevidade ao papel por inibir formação de acidez ou para melhorar sua opacidade, brancura e estabilidade dimensional. Também utilizado como pigmento em tintas de revestimento para incrementar alvura. CARGA DE MASSA – (Charge). Ação de apanhar da tina ou cuba, com o molde, quantidade de massa suficiente para inundar a superfície da tela do molde, como em ‘carregar um molde’; ou carregar a holandesa com fibras e água. Ou uma concha com massa suficiente para cobrir a superfície do molde, como para ‘manipular a carga no molde’. CARGA MINERAL – (Filler, Loading). Normalmente um pigmento mineral - tal como caulim, carbonato de cálcio, talco ou dióxido de titânio -, adicionado à massa para preencher espaços e frestas entre fibras, com vistas à obtenção de folha mais densa, macia, brilhante, lisa e opaca. Pode ser também elemento para baratear custos.

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CARTÃO POLIDO – (Glaze board). Cartão pesado, tipo manila, utilizado para dar acabamento fosco, tipo casca-de-ovo a certos papéis, mediante a passagem de um ‘sanduíche’ de papel e cartão-manila através de rolos de calandra. CASCA BRANCA – (White bark). A mais interna das três camadas da casca utilizada em papéis japoneses. A casca branca possui a maior parte das fibras fornecidas pela ‘casca preta’ – esta consistindo do conjunto das três camadas da casca - e utilizada exclusivamente na manufatura de papéis apenas levemente tingidos e de alta qualidade. CASCA PRETA - (Black bark). Uma das três camadas (branca, verde e preta) da casca descorticada das plantas - kozo, mitsumata e gampi - para manufatura de papel japonês e refere-se, também, ao conjunto das três camadas de casca, a branca, a verde e a preta. Quando considerada isoladamente, indica somente a camada externa da casca. CASCA VERDE – (Green bark). A camada central das três camadas da casca das plantas kozo, mitsumata e gampi. Pode se referir, também, às cascas branca e verde combinadas, em oposição à ‘casca preta’, composta por todas as três cascas, e à ‘casca branca’, esta composta exclusivamente pela casca branca. CASEÍNA – (Casein). Uma proteína obtida do leite desnatado e utilizada como um adesivo na composição de tintas para revestimento superficial do papel. CAULIM – (China clay, Kaolin). Um pigmento mineral finamente disperso – um silicato de alumínio hidratado – utilizado como carga mineral na massa de papel e em tintas de revestimento da folha, para efeito de brilho, maciez e alvura. CELULOSE – (Cellulose). O principal constituinte estrutural dos tecidos das plantas, de onde deve ser separada por processo químico para se constituir, então, na substância básica para a fabricação de papel. A celulose é elemento inerte, composto por monômeros de glicose ligados entre si, com fórmula química básica (C6H10O5)n. CELULOSE ALFA – (Alpha cellulose). A porção da polpa celulósica de cadeia molecular longa, resistente à solução alcalina forte sob condição normal de temperatura (solução de hidróxido de sódio de 17,5% e 20ºC). Equivalente ao conceito químico de celulose. CELULOSE DE LINTER – (Cotton linter pulp). Produzida com as fibras curtas que permanecem aderidas à semente de algodão mediante cozimento, refino e distribuição da polpa em folhas uniformemente compactadas. Devido possuir células com paredes espessas e resistentes à fibrilação, esta polpa não responde satisfatoriamente ao refino, sendo evitada em papéis de resistência. CELULOSE DE TRAPOS DE ALGODÃO - (Cotton-rag pulp). Polpa inicialmente feita com fibras longas da semente do algodão. Pode, todavia, ser de ‘panos velhos’ de algodão, mas, na atualidade, normalmente significa ‘de sobras de panos novos’, tais como aparas de tecidos (camisas, lençóis, etc.) de fábricas de confecções. É também usado o remanescente das fibras

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longas de algodão resultantes do processo de fiação. Polpa principalmente usada para efeitos especiais. CINZAS - (Ash). O resíduo inorgânico obtido pela incineração de uma amostra de papel de tal forma que todas as substâncias orgânicas ou voláteis sejam eliminadas. Determina a quantidade de carga mineral no papel. CISALHAMENTO ação de – (Shearing action). Ação que cause deslizamento de partes contíguas de um corpo, uma em relação à outra, em uma direção paralela ao seu plano de contato. Como cartas deslizando numa mesa. Também entendida como uma força que modifica a forma, como de uma fibra, por exemplo. COESÃO INTERNA, força de coesão– (Internal bonding). Caracteriza a resistência da ligação entre fibras ou entre camadas que permite ao papel resistir a efeitos de arrepelamento ou arrancamento de partículas superficiais ou separação de camadas, especialmente durante impressão sólida de áreas grandes. De muita importância nos processos gráficos. COLA – (Size). Substância adicionada durante a preparação de massa ou aplicada como revestimento sobre a superfície da folha para tornar o papel mais resistente à água. Eram originalmente utilizados cola animal, resinas e amidos, atualmente substituídos por variados agentes químicos. COLA ANIMAL – (Gelatine). Um entre vários tipos de cola, esta obtida de tecidos animais ou ossos, aplicada na superfície do papel para torná-lo resistente à água. Também aplicado em papel waterleaf para evitar permeação de tinta. COLAGEM POR IMERSÃO – (Tub sized). Papel colado em cuba ou tina depois de formado, em oposição ao papel colado por adição de cola na massa. COLOIDAL – (Colloidal). Qualquer substância em estado de dispersão muito fina. Sistema aparentemente homogêneo, que contém uma fase dispersante e outra dispersa, com partículas de tamanho intermediário entre as de solução verdadeira e as de uma suspensão, com propriedades peculiares de dispersão. COMPRESSIBILIDADE – (Compressibility). A propriedade de uma folha que lhe consente resistir à pressão, como ocorre na operação de impressão. CONCAVIDADE – (Dished). Referência ao aspecto de uma pilha de folhas de papel que toma uma configuração decididamente côncava ao invés de plana. CONSISTÊNCIA – (Consistency). A quantidade de fibras em dado volume de água, usualmente expresso em porcentagem, utilizada para indicar a concentração de fibras na massa. Consistência de um-por-cento (1%) significa um grama de fibra seca em noventa e nove mililitros, ou noventa e nove gramas, de água. CONTRÁRIOS – (Contraries). Impurezas ou partículas indesejadas de materiais que se incorporam à folha. Também definidas como ‘rejeitos’.

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CORANTES, anilinas - (Dyes). Corantes solúveis em água, que aderem e penetram nas fibras. Os corantes (anilinas) incluem os tipos: diretos, corantes orgânicos derivados do alcatrão de carvão mineral; corantes reativos às fibras, que estabelecem ligação química com as fibras; e corantes naturais, tais como o índigo e a alizarina (madder). Corantes que requeiram um mordente ácido para sua fixação à fibra devem ser usados com cautela. CORTE – (Cutting). Uma função opcional do refino, para encurtamento das fibras. COZIMENTO – (Cooking). O tratamento da matéria-prima fibrosa para promover a separação das fibras, a remoção de contaminantes e a dissolução de materiais indesejados (veja também ‘lignina’), normalmente feito em solução alcalina. CRUZ – (Cross). Peça semelhante a uma régua-T. No passado, utilizada para o manuseio de papéis ao serem colocados ou retirados das linhas de pêlos-de-vaca na área de secagem. CUBA – (Vat). Tina ou tanque que contém massa pronta e de onde é transferida para a fôrma a fim de ser formada a folha. DAPHNE – (Daphne). Uma planta arbustiva, dita ‘Planta do Papel do Nepal’, a Daphne bholua pertence à família Thymelaeaceae, assim como a Mitsumata e a Gampi. Com ela é produzido um papel extremamente forte. DEFLOCULAÇÃO – (Deflocculate). Efeito de dispersar e prevenir a formação de flocos de fibras na massa, propiciando, com isso, formação da folha mais uniforme e densa. DENSIDADE APARENTE - (Apparent density). Aplicada em terminologia de papel e determinada pela relação entre a gramatura da folha de papel e a sua espessura. DENTADO - (Tooth). Termo para descrever a superfície de uma folha de papel considerada de textura um tanto áspera, por possuir, possivelmente, demasiados ‘montes e vales’. DESCANSO, apoio – (Stay). Uma tábua disposta através da tina ou cuba onde o operador descansa a fôrma depois de formada a folha. DESCOLORAÇÃO - (Bleeding) – Referida ao processo de impressão. Fenômeno que ocorre quando as margens de uma área colorida começam a se dissolver devido à presença de água, óleo ou elementos com superfície quimicamente ativa no papel. Também no caso de leve coloração em áreas que não deveriam ser impressas. DIVISÓRIA - (Midfeather). Parede divisória longitudinal na tina da Holandesa, para controlar o fluxo da massa durante a refinação. DOBRAMENTO – (Crumpling). Uma técnica de dobragem Origami, em que o papel é modelado enquanto úmido. DOBRAMENTO A ÚMIDO – (Wet paper folding). Uma técnica de dobramento Origami em que o papel é modelado em sua forma definitiva enquanto úmido, mediante a feitura de vincos suaves que se mantêm em posição quando o papel seca.

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DRENABILIDADE, escoamento – (Freeness, Drainability). A facilidade com que uma pasta celulósica se separa da água quando drenada por gravidade. Testes de laboratório a exprimem como Canadian Freeness (CFS) ou ºSR (Schopper Riegler). Massa ‘magra’ (fast stock) drena velozmente, enquanto massa ‘gorda’ (slow stock) drena lentamente. ENCANOAMENTO – (Curl, curling). Tendência da folha de papel de enrolar-se sobre si mesma devido a teor de umidade desigual entre as faces da folha. No caso, uma das faces expande-se mais que a face oposta. Mudança de temperatura também afeta o equilíbrio. ENEGRECIMENTO DE CALANDRA – (Calender blackening). Ocorre no caso de umidade alta – condição que pode ser agravada por má formação e, portanto, má distribuição da massa e umidade -, daí acontecendo manchas ou estrias escuras durante a calandragem. ENVOLTÓRIO (Ream wrapper). Envoltório de papel utilizado para o acondicionamento final da resma de papel artesanal, etiquetado. É objeto de interesse de colecionadores e historiadores. ESPALHAMENTO - (Tinting, Feathering). Efeito da difusão ou infiltração de tinta ou cor numa folha de papel. ESPESSURA – (Thickness, Caliper). Distância entre as superfícies da folha de papel, determinada conforme método padrão. Também espessura média das folhas num maço. ESTABILIDADE DIMENSIONAL – (Dimension stability). Capacidade de o papel manter estáveis dimensões e formas apesar de mudanças em seu teor de umidade, por via, por exemplo, de variações da umidade relativa do ar ou de esforços físico e mecânico durante operações de conversão e uso. ESTALO – (Rattle). Som produzido por uma folha de papel ao ser agitada, e que dá indícios quanto a sua dureza, rigidez, flexibilidade ou falta de umidade. ESTATOR DE CONTRAFACAS – (Bedplate). Normalmente entendido como o elemento fixo dotado de lâminas e situado sob o rotor da holandesa, com o qual interage para efetuar a refinação da polpa. ESTENDEDOR, Transferidor – (Couch, couching). Ação de transferir a folha recém formada do molde para um feltro plano umedecido, para fins de desaguamento. Transferidor é quem efetua esta operação. EXPANSIBILIDADE – (Expansibility). Mudança das dimensões de folha de papel devido a excesso de umedecimento, mais acentuada no sentido transversal às fibras (perpendicular ao eixo das fibras). FARDO – (Pack). Na prática ocidental (Tame-zuki), uma pilha de folhas úmidas separadas do feltro após a primeira prensagem para receber uma segunda prensagem mais gentil. Na prática japonesa (Nagashi-zuki) refere-se ao bloco de papel úmido após a prensagem. Também uma pequena pilha de papel pronto para o processo de lustração/brilho.

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FELTRO – (Felt). Manta retangular de tecido pesado e absorvente - usualmente de lã, mas agora também de fios sintéticos - sobre a qual a folha de papel é transferida da forma e que lhe serve de apoio durante a prensagem; também para retirar água da folha por meio de esponja (aplicação do ‘método mais fácil’ de fazer papel). Feltro é ainda utilizado como separador entre folhas úmidas empilhadas, auxiliando na secagem. FIBRAS – (Fibers). Elementos celulares longos, fusiformes, de estrutura tubular, com paredes relativamente grossas compostas por fibrilas delgadas assemelhas a filamentos. São obtidas de plantas e outros vegetais e formam, quando misturadas com água, o componente básico da folha de papel. FIBRAS EM BRUTO – (Raw fibers). No sentido da manufatura de papel artesanal japonesa são: cascas preta, verde ou branca colhidas e secadas, prontas, antes do processamento para a produção de papel. FIBRAS DO FLOEMA - (Bast fibers). As fibras floemáticas - casca interna ou entrecasca – de algumas plantas dicotiledôneas, tais como linho, cânhamo, rami, gampi, mitsumata e kozo (estas três últimas da família das Thymelaeaceae), separadas do córtex - casca externa – e apropriadas para a manufatura de papéis de grande resistência. FIBRILAS – (Fibrils). Filamentos muito pequenos (microscópicos), formados nas paredes externas das fibras da polpa, por ação do refino. Seu diâmetro depende da intensidade do tratamento mecânico dado.

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FÔRMA – (Mould). A ferramenta básica do papel artesanal em qualquer país. A fôrma consiste de uma peneira plana manipulada, de modo a filtrar uma camada uniforme de fibras em suspensão aquosa, previamente preparada numa tina. É dotada de moldura de madeira removível. Existem muitos modelos de fôrmas, segundo a tradição dos vários países. FÔRMA TECIDA– (Wove mould). Cobertura de forma feita de fios tecidos (no tame-zuki) ou com tecido de seda (no nagashi-zuki) e usada na manufatura de papéis em que é exigida folha muito consistente, livre de marcas de trama e urdidura. FÔRMA ESTRIADA (Laid mould). Fôrma com cobertura que é feita - contrariamente à fôrma com cobertura tecida -, de arames ou varinhas finas, de madeira ou bambu, que podem deixar linhas de marca d’água regulares e paralelas na folha acabada, e mantidas em posição por arames ou fios transversais mais espaçados. FORMAÇÃO (Formation). O grau de uniformidade da distribuição das fibras na folha de papel. A qualidade da formação influencia, além da aparência, todas as demais propriedades do papel. FORMAÇÃO A VÁCUO – (Vacuum forming). Processo para formação de peças de papel planas e em baixo-relevo. FORMAÇÃO NUBLADA, FLOCADA – (Cloudy, Wild formation). Folha de papel com distribuição de fibras desuniforme, nublada ou mosqueada quando vista contra a luz.

FIBRILAÇÃO - (Fibrillation). Formação de fibrilas na superfície das fibras, mediante a ruptura de suas paredes por tratamento mecânico (refino); tem o objetivo de maior flexibilidade e maior área superficial da fibra, a fim de aumentar ligações interfibras por pontes de hidrogênio. Embora a fibrilação seja importante, há quem considere a plastificação da fibra como tão ou mais importante para efeito de desenvolvimento da resistência do papel acabado.

FORMAÇÃO UNIFORME, FECHADA – (Close formation). Folha de papel com distribuição de fibras uniforme e densa quando vista contra a luz. Oposto de nublada ou flocada.

FILIGRANA – (Filigree). Técnica de trabalho manual com fios metálicos, colocados na tela ou molde para a produção de linha d´água no papel; atividade artística por gravação (buril) para a composição de linhas, traços e figuras, formando uma imagem, identificada como marca d´água do papel.

FOURDRINIER – (Fourdrinier). Termo usualmente dado à área de formação da folha de máquina com mesa plana e tela formadora. Originalmente desenhada por N. L. Robert e financiada pelos irmãos Fourdrinier.

FINOS – (Fines). Fibras muito pequenas, fragmentos de fibras ou fibrilas soltas, geralmente produzidas durante o refino ou provenientes de elementos naturais da polpa. A presença de finos normalmente melhora densidade e opacidade da folha e, em alguns casos, também a resistência. Podem concorrer para ocorrência de pó.

FORMATOS, padronização - (Standard sizes). – Apesar do ventilado estabelecimento de padrão internacional para formatos do papel, parece não ser ainda prática realmente comum.

FUROS-DE-AGULHA – (Pinholes). Defeitos na folha que, quando vista contra a luz, aparentam ser perfurações de agulha. Originados durante o processo de fabricação do papel. G/M2 – (g/m2). Gramas por metro quadrado. A forma de expressar o peso do papel.

FLOCULAÇÃO – (Flocculation). Processo de aglutinação da fase dispersa da suspensão fibrosa, principalmente induzida por forças eletrocinéticas e de entrelaçamento mecânico. Fibras com tendência a flocular tendem a produzir papel com formação irregular, nublada.

GAMPI – (Gampi). Planta de que se extraem fibras do floema, classificada como Wikstoemia diplomorpha, da família das Thymelaeaceae ou Daphne, utilizada na produção de papel artesanal japonês. É planta de crescimento lento e de cultivo difícil. Ver também as plantas Kozo e Mitsumata.

FÓLIO – (Folio). Uma folha de papel (tradicionalmente de 17 x 22 polegadas – 432 x 559 mm) ou uma folha dobrada em dois.

GOFRAGEM – (Embossing). Processo de imprimir papel ou cartão a seco com relevo, sem usar tintas ou cores, com texturas diversas, em máquina própria. Resulta imagem em relevo no produto final.

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GOTAS – (Drops). Gotas de água que formam marcas em folhas recém formadas, vindo a causar um ‘defeito’ visível ao observar a folha contra a luz. As gotas originam-se dos braços de artesãos, seja o transferidor da folha do molde ou o operador da forma redonda, caso não sejam corretamente treinados. GRAMATURA - (Basis weight). É o peso da folha de papel por unidade de superfície, expresso em gramas por metro quadrado, medido em amostras apropriadas sob condições padronizadas de temperatura e umidade. GRANADO – (Grainy). Acabamento superficial algo áspero, causado por encolhimento da folha sob certas condições. GRÃO – (Grain). Indica o alinhamento das fibras numa folha de papel, originado pelo fluxo direcional da massa sobre a superfície do molde durante a formação da folha. Também, ireção de máquina. HEMICELULOSES – (Hemicelluloses). Qualquer de um certo número de polissacarídeos das paredes da célula. Hemiceluloses formam um tipo de matriz não cristalina que: a) absorve água contribuindo para o inchamento da fibra, resultando melhor resposta ao refino; b) dada sua natureza adesiva, tende a endurecer com o encolher da fibra e fibrilas durante a secagem, resultando folha acabada mais resistente, encrespada, menos opaca e menos absorvente; e c) devido a suas qualidades mucilaginosas, contribui para a dispersão das fibras durante a formação. HIDRATAÇÃO, inchamento – (Hydration, Swelling). Termo impreciso, usado para descrever ação de refino das fibras que altera sua formologia de modo a aumentar-lhes a capacidade de retenção de água. Hidratação, ou inchamento, aumenta a flexibilidade e o potencial de ligações químicas das fibras, com ganho de resistência. HIDRODINÂMICA – (Hydrodinamic). Relativo ao comportamento dos líquidos em movimento. HIDROXILA – (Hydroxyl group). Um grupo químico (OH) presente na celulose, hemiceluloses, água e nas moléculas de tororo-aoi, e que atua como núcleo para as ligações por pontes de hidrogênio. HIGROEXPANSIVIDADE – (Hygroexpansivity). A propriedade de expansão ou contração do papel em função de mudanças das condições de umidade do ar.

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KONNYAKU – (Konnyaku). A espécie vegetal japonesa Amorphophalus konjac K. Koch, utilizada como alimento ou para a preparação de um tipo de cola. KAMIKO - (Kamiko). Papel japonês tipo não-tecido. KAN – (Kan). Termo japonês para designar ‘sexto sentido’ ou a capacidade de julgar intuitivamente. KENAF – (Kenaf). Planta de que se extraem fibras do floema, classificada como Hibiscus cannabinus. Como nos demais casos, suas fibras devem ser cozidas em lixívia, lavadas e refinadas. KOZO – (Kozo). Classificada como Broussonetia papyrifera Vent., é a fonte de fibras de floema mais largamente usada no Japão. É planta de crescimento rápido e cultivo fácil, um arbusto da família das moráceas ou amoreira. Tem sido fonte de fibras desde os primórdios da manufatura de papel e, em geral, produz uma folha forte e dimensionalmente estável. Contudo, é a Broussonetia kazinoki Sieb a reputada como a de melhores fibras. O comprimento das fibras de Kozo varia entre três e 25 milímetros, com média de 12 mm. LÂMINA DO MOLDE - (Deckle slip). Lâmina de latão fixada na parte inferior do molde para impedir a permanência de restos de polpa sob o molde. Especialmente utilizada com molde novo. LAMINAÇÃO – (Laminating). A sobreposição de duas ou mais folhas de papel úmidas recém formadas, de modo a convertê-las em folha única. Também se entende por laminação a aplicação de algum tipo de material em folha, como cobertura de folha pronta e seca de papel. LAVAGEM – (Washing). Refere-se ao processo de limpeza das fibras depois do cozimento, branqueamento ou tingimento. LBS – (LBS). Unidade inglesa para expressar o peso de uma resma de 500 folhas de papel com determinadas dimensões. Quanto mais alto o número, mais pesado o papel. Também define: gramatura. LICOR, lixívia – (Liquor, Lye). Solução alcalina forte para o cozimento da madeira ou fibras. Normalmente uma solução de soda cáustica ou carbonato de sódio.

HIGROSCÓPICO - (Hygroscopic). Elemento que facilmente absorve e retém umidade.

LIGAÇÃO (química) - (Bonding). Define a capacidade inerente a fibras de celulose de se unirem umas às outras, especialmente através de ligações químicas por pontes de hidrogênio – união de grupos hidroxilas da celulose – e que se constitui no maior efeito de resistência dos papéis. Fibrilação, prensagem úmida e secagem são fatores que promovem a ligação.

HOLANDESA - (Hollander, Beater). Equipamento composto de cuba, com separação central parcial, dotada de rotor com lâminas (facas), girando sobre uma placa fixa, também provida de lâminas, entre as quais a polpa é circulada para efeito de refinação. Também utilizada para a mistura de diferentes ingredientes do papel. Inventada no século XVII por holandeses.

LIGNINA – (Lignin). Polímero aromático e amorfo, hidrofóbico, presente em vegetais. É a porção não-carboidrato da maior parte das paredes das células, que cimenta as fibras e gera resistência estrutural. Elevada quantidade de lignina no papel favorece seu amarelecimento e inibe as ligações por pontes de hidrogênio, com isso prejudicando características de cor e resistência.

HIGRÔMETRO – (Hygrometer). Nome genérico de instrumentos que servem para medir o teor de umidade de gases ou do ar.

JORDAN - (Jordan). Refinador composto de estator e rotor cônicos, usualmente instalado próximo à caixa de entrada da máquina de papel para o ajuste final da refinação.

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LINHO – (Flax). Planta de cujo floema são extraídas fibras de alto teor de celulose, classificada como Linum usitatissimum. Polpas de fibras ou trapos de linho produzem papel excepcionalmente forte e translúcido. LÍNTER – (Linter). Penugem que fica presa às sementes após o descaroçamento do algodão, utilizada como matériaprima para papel. LOMBADA – (Spine). Dorso do livro, a parte oposta ao corte das folhas, e onde geralmente figuram o título da obra e o nome do autor. LONA – (Canvas). Tecido usualmente multicamadas, usado como base sobre a qual são postas a secar, na área de secagem - folhas grandes de papel artesanal. Existem atualmente muitas opções alternativas a este tipo de tecido. LUSTRAÇÃO – (Glazing). Operação de tornar polida ou brilhante a superfície de papel ou cartão, por meio apropriado de secagem ou processo mecânico de acabamento. LUSTRAÇÃO POR CALANDRA – (Calender glazing) – Polimento dado ao papel por rolos de calandra ou supercalandra. Na produção de papéis artesanais, a folha de papel é inserida entre folhas de cartão pesado, tipo manila, e o conjunto passado através de calandra para dar acabamento fosco, tipo casca-de-ovo, a certa classe de papéis. LUSTRAÇÃO POR PLACAS – (Plate glazing). Processo no qual uma pilha de folhas de papel, entre cada uma das quais está inserida uma placa de zinco, é submetida à pressão de rolos de aço que geram leve fricção e da qual advém o efeito de polimento. MACERAR – (Macerate, Retting). Processo preliminar para amaciar ou amolecer materiais, deixando-os mergulhados em líquido, tal como feito com vegetais ou trapos. Na produção de papel, é operação manual para converter material fibroso em polpa, usualmente feita por imersão em água associada a movimentos de desintegração, rasgamento ou batimentos.

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MARCA D’ÁGUA DE URDIDURA – (Chain lines). Linhas de marca d’água no sentido longitudinal da folha em papel vergê, uniformemente espaçadas, criadas por fio delgado aplicado ao elemento filtrador do molde manual ou em cintamento da tela sobre fôrma redonda. Industrialmente, linhas d’água deste tipo podem ser feitas por rolo bailarino ou arames espaçados apoiados sobre a tela formadora de mesa plana. MARCAS DE FELTRO – (Felt mark). Marcação característica que aparece em uma das faces do papel, provocada por marcação de tecido de feltro já excessivamente gasto. MARCAS PÊLO-DE-VACA – (Cow Hairline). Marcas das linhas de varais em que o papel foi pendurado para secar no recinto de secagem. Eram feitas de juta envolvida em pêlos de vaca, ou cavalo, para evitar manchamento no verso da folha. MARGENS DE MOLDE – (Deckle edge). Bordas irregulares e levemente rotas ou onduladas de folha de papel artesanal, causadas por pequeno vazamento de massa ou onde a polpa também se afina em direção a essas bordas, resultando um efeito típico de papéis artesanais. MASSA DE PAPEL – (Furnish, Stock, Stuff). A mistura ou suspensão específica de uma ou mais pastas de fibras, completa dos correspondentes produtos químicos, para a fabricação de determinado tipo de papel. É definida massa de papel enquanto transite entre os estágios de desagregação e de formação da folha. MASSA MAGRA – (Fast, Free stock). Denominação de polpa ou massa de drenagem rápida através do elemento desaguador. (Ver também: Drenagem). MASSA SEMIPRONTA – (Halfstuff). Massa de papel parcialmente desagregada ou refinada, preparada comercialmente ou adquirida de indústrias. Necessita de refinação ulterior antes de utilizada para produção de papel.

MAÇO – (Spur). Certa quantidade de folhas retiradas de um fardo e postas a secar juntas, em ambiente natural.

MATURAÇÃO – (Maturing). O processo de envelhecimento do papel. Idealmente, o papel deveria envelhecer consideravelmente antes de ser utilizado por pintores, artistas plásticos ou impressores. Alguns idealistas gostariam de aguardar 300 anos.

MANCHAMENTO – (Foxing). Manchas ou pintas no papel atribuídas à presença de ferro, cobre ou combinação de ambos, e também à ação de organismos biológicos.

MAZÈ – (Mazé). Um dispositivo semelhante a pente ou a cardador, utilizado no Japão para misturar massa na tina. Pronúncia: mah-.zeh.

MANTA – (pilcher). Nome dado aos três ou quatro feltros sobrepostos e costurados juntos, colocados no topo da pilha recém formada de papel, antes de ser levada para a prensagem.

MELAMINA, resina – (Melamine resin). Um agente químico adicionado à massa para dar ao papel maior resistência quando em estado úmido.

MARCA D’ÁGUA – (Watermark). Imagem formada durante a produção manual ou industrial do papel e obtida pela concentração diferenciada das fibras, visualizada quando ela for colocada contra uma fonte de luz. MARCA D’ÁGUA DE TRAMA – (Laid lines). Linhas de marca d’água no sentido transversal da folha em papel vergê, uniformemente espaçadas, criadas por fio delgado aplicado ao elemento filtrador do molde manual ou à tela da forma redonda. Industrialmente, linhas d’água deste tipo podem ser feitas por rolo bailarino.

METILCELULOSE – (Methylcellulose). Agente químico, especialmente formulado, que pode ser aplicado como adesivo para colagem superficial da folha ou para melhorar as ligações interfibras, visando a maior resistência. MÉTODO OCIDENTAL DE MANUFATURA – (Western hand papermaking). Um método europeu de produzir papel artesanal, em que são normalmente utilizados retalhos de tecidos novos ou usados de linho ou algodão como matériaprima. Dito tame-zuki em japonês. MITSUMATA – (Mitsumata). Uma das três principais plantas, juntamente com Gampi e Kozo, utilizadas para fabricar papel

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artesanal no Japão. A Mitsumata (Edgeworthia papyrifera Sieb. et Zucc. e a Edgeworthhia chrysantha Lindley) pertence à família Thymelaeaceae ou Daphne. A fibra é macia, absorvente e levemente brilhante, com comprimento variando de 1 a 5 mm, média 3,3 mm, e diâmetro médio de 0,020 mm. Produz um papel de superfície lisa, muito apreciado para impressão. MODELO, padrão – (Template) – Molde ou gabarito, usualmente de cartão ou de folha metálica, com o qual pode ser feito desenho igual ou semelhante. MOLDURA – (Deckle frame). Quadro de madeira removível que se ajusta a um molde com tela e auxilia a reter a polpa sobre sua superfície durante o processo de formação da folha. A moldura previne transbordamento de polpa do molde, o que dá à borda da folha aspecto serrilhado ou ‘encrespado’, característico de papel não refilado. Também define o tamanho da folha. MORDENTE – (Mordant). No tingimento, um agente químico para favorecer a fixação de tintas às fibras. NAGASHI-ZUKI – (Nagashi-Zuki). Processo de formação da folha em camadas, praticado no Japão e caracterizado por uso de: várias cargas da tina e ação enérgica durante a formação, fibras de floema muito longas, adição de auxiliar de formação viscoso (Néri) na massa, utilização de forma com cobertura flexível e removível, deposição da folha sem utilização de feltros e pressão muito suave. Ver diferenças entre os processos oriental Nagashi-zuki e ocidental tame-zuki. NERI – (Néri) – Um líquido viscoso, tido como especialidade na manufatura japonesa de papel, normalmente obtido da raiz da planta tororo-aoi, da família dos hibiscos. Este líquido modifica a viscosidade da água, com isso mantendo mais as fibras em suspensão e diminuindo a taxa de drenagem, condição que consente ao papeleiro mover repetidamente as fibras sobre a superfície da tela e construir a espessura do Washi camada por camada. NÓ – (knot). Definição para aglomerado de fibras emaranhadas ou torcidas, normalmente maior que cabeça de alfinete, podendo ser encontrado em bateladas de fibras refinadas. Quando em quantidade, pode prejudicar seriamente a qualidade de uma folha que, de outro modo, poderia ser de alta qualidade. Também referido a partículas mais duras da madeira e a certas impurezas. NORIUTSUGI – (Noriutsugi). A casca interna de um arbusto, uma espécie das Saxifragaceae (Hydrangea paniculata Sieb ou Hydrangea floribunda Regel), que pode fornecer um auxiliar de formação, ocasionalmente utilizado em substituição ao tororo-oi. OLHOS-DE-PEIXE – (Fish-eyes). Defeito correspondente à mancha arredondada, normalmente com núcleo mais escuro ou perfuração central, com área que se torna translúcida na calandragem. Defeito causado por material estranho, como limo, impurezas, partículas de rejeitos e semelhantes incorporados na folha. ONDULAÇÃO – (Cockling). Efeito de ondulações na superfície da folha, devido à secagem desuniforme, decorrente de má formação, com áreas localizadas de densidade e, por isso, de umidade variadas. Também classifica laterais onduladas ou enrugadas de folha de papel manual, usualmente também resultantes de secagem irregular.

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OPACIDADE DE IMPRESSÃO – (Printing opacity). A propriedade de uma folha que impede que a impressão sobre uma das faces da folha seja também vista, através do papel, na outra face. ORELHAS – (Corner up). Cantos da folha levantados. Também ditos ‘orelha-de-cachorro’. ORIGAMI - (Origami). Arte japonesa de dobrar pedaços de papel em formas representativas de animais, objetos, flores etc. De ori ‘dobra’ + kami ‘papel’. Na sua forma mais pura, o papel é somente dobrado, não cortado nem colado ou decorado. PAPEL DE ARROZ – (Rice Paper). Termo comumente e erradamente dado aos papéis artesanais japoneses, washi ou nagashi-zuki. Arroz raramente faz parte da preparação do papel manual japonês. Fibras de palha de arroz podem ser eventualmente usadas em associação com outras fibras. Arroz, como tal, não produz papel. O verdadeiro papel de arroz é fabricado cortando finamente e prensando a medula cilíndrica da planta de papel-arroz, – Tetrapanax papyriferum - família das eraliaceae, nativa de Taiwan. Uma especialidade de papel artesanal que se iniciou no Japão, ainda no início dos anos 700. Modernamente, o termo continua livremente utilizado para definir papéis produzidos com ou contendo fibras de uma diversidade de plantas.(Bambus, amoreiras, cânhamo, linho, abacá e outras). PAPEL MOLDADO, fundido – (Cast paper). Peças tridimensionais de massa de papel, usualmente produzidas vertendo ou prensando polpa em ou ao redor de um molde ou fôrma. O excesso de água é removido por absorção. Logo que seco, o papel é separado de seu molde e pode ter uso individual como relevo ou escultura. Tem sido desenvolvidas muitas variações deste processo. PAPEL PRENSADO A FRIO – (C.P. Cold Pressed Paper). Um papel polido e brilhante, com superfície dura. Obtido mediante a prensagem da folha entre chapas de zinco em prensa compressora. PAPEL-TECIDO – (Wove paper). Papel-tecido, japonês. Papel feito em fôrma, onde o elemento filtrador é uma fina malha tecida. Papel-tecido é mais liso que papel artesanal convencional ou vergê que tem aparência de nervuras causada pelas linhas marcas d’água paralelas. PAPEL VERGÊ – (Laid paper). Papel que exibe linhas paralelas regularmente espaçadas, no sentido da trama ou da urdidura, feitas por marca d’água. PAPIRO – (Papyrus). Erva aquática (Cyperus papyrus) da família das ciperáceas, de caules triangulares, altos e flexíveis. Também definição de folha para escrever e/ou pintar, feita de tiras cortadas destas hastes, umedecidas, justapostas e/ou entrecruzadas, batidas para obter sua homogeneização e geralmente polidas após a secagem. Criada pelos egípcios, foi o principal suporte da escrita na Antigüidade, especialmente no Mediterrâneo, onde a maior parte dos livros e registros eram constituídos por rolos de papiro. PAPIER MACHÉ – (Papier Maché). Polpa de papel velho ou de aparas previamente molhados e desmanchados. Com esta polpa, adicionada de cola, são moldados objetos em muitas culturas diferentes.

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PERGAMINHO – (Parchment). Uma superfície para escrita preparada com pele curtida e polida de caprino ou ovino. Mais modernamente, também utilizada em encadernação. Produto que foi aperfeiçoado no antigo reino de Pérgamo, que originou sua denominação. PERMANÊNCIA – (Permanence). O termo refere-se, usualmente, à propriedade de o papel manter inalteradas suas características ópticas ou físicas. pH – (pH). Medida da concentração de íons de hidrogênio, portanto, do grau de acidez ou alcalinidade numa escala de 0 a 14, sendo 7 o ponto neutro. Progressivamente mais ácido de 7 a 0 e progressivamente mais alcalino de 7 a 14. PIGMENTO – (Pigment). Substância sólida insolúvel, em forma de pó micronizado, natural ou produzida quimicamente, usada como corante ou carga mineral. Por não ter afinidade com o material em que é aplicada, deve ser suplementada com agente de retenção (mordente), a fim de assegurar a máxima intensidade da cor e fixação às fibras. Também referido a pigmentos utilizados como carga mineral em papéis. PILHA – (Post, Stack). Pilha de folhas de papel úmidas recém formadas, dispostas alternadamente entre feltros. Depois de completada a pilha, o artesão efetua a prensagem para remover o excesso de água, usualmente com dispositivo semelhante a uma prensa tipográfica. No procedimento japonês Nagashi-zuki, é a pilha de folhas úmidas recém formadas, mas sem feltros, antes da prensagem. PITUITOSIDADE – (Pituitousness). O caráter de um líquido viscoso formar longos filamentos pegajosos. Mucoso. PÊLO, cabelo – (Fur). Defeito por presença de pêlo, anteriormente aderido a um feltro e transferido para folha nova recém formada, possivelmente, devido à transferência e disposição incorretas da folha úmida. PENUGEM – (Fuzz, Lint). Material fino fibroso que se projeta da superfície do papel, devido à insuficiente colagem superficial, refinação inadequada ou efeitos durante o processo de fabricação. PLASTICIZAR – (plasticize). Efeito de amolecer fibras de celulose, colapsar suas paredes e saturá-las com água mediante refinação. Embora para este processo seja costumeiramente usado o termo ‘hidratar’, isso não é apropriado, pois implicaria numa alteração química que não acontece de fato. PÓ – (Dust). Material celulósico e/ou de cargas finamente dividido, solto sobre a superfície do papel. POLISSACARÍDEO – (Polysaccharide). Cadeia polimérica formada por seqüência linear ou ramificada de monossacarídeos, ligados por covalência. POLIURONÍDEO – (Polyuronide). Um polímero feito por unidades de açúcares portadores de grupos ácidos conseqüentes de oxidação. Ácido galacturônico é um poliuronídeo.

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POLPA – (Pulp). Ver também ‘polpa de madeira’. Material de fibras celulósicas, resultante de processo de polpação, para a produção de papel, disponível em estado fibroso úmido ou seco. Antes de a polpa ser convertida em papel deve ser desintegrada, refinada e diluída à consistência apropriada para a formação da folha. Usualmente, é também adicionada de produtos químicos específicos. POLPA DE MADEIRA – (Wood pulp). Refere-se à polpa de uma variedade de madeiras de fibra longa (softwood) e de fibra curta (hardwood) obtida por processo químico, para a produção industrial de papéis. O comprimento das fibras varia consideravelmente, dependendo da origem e do grau de tratamento da polpa. Fibras de madeira softwood têm usualmente comprimento de 3 a 5mm e largura média de cerca de 0,040mm. O teor de hemiceluloses varia de alguns pontos percentuais a 20% e, o conteúdo de lignina de zero a 27%, dependendo do rendimento estabelecido no cozimento e do branqueamento. Fibras de hardwood, por sua vez, têm comprimento médio de 1 a 2mm e largura de 0,035mm, possuindo teores de lignina e hemiceluloses semelhantes. PONTE - (Bridge). Plataforma colocada através da tina ou cuba. PROTEÍNA ALFA - (Alpha protein). Proteína de soja, que utilizada individualmente ou associada a caseína, resulta em adesivo para o revestimento superficial do papel. PRENSAGEM DO FARDO – (Pack pressing). A prensagem de um fardo de feltros úmidos intercalados com folhas de papel recém formadas, submetido a grande pressão, por meio de prensa, usualmente prensa, tipo hidráulica. PRENSAGEM SECA – (Dry pressing). A prensagem final aplicada a determinada folha de papel artesanal antes que deixe a área de prensagem e seja contada e embalada. PRENSAGEM SECA QUENTE (H.P.-Hot Pressed). Papel com superfície polida, dura e brilhante. Era processado, passando-o entre folhas quentes de metal através de cilindros de prensa. PREPARADOR DE MASSA – (Vatman). O artesão responsável pela preparação da receita da massa e formação da folha. É elemento-chave na manufatura de papel artesanal, pois de sua habilidade e movimentos dependem a qualidade de todo o processo. RAMI – (Ramie). Arbusto (Boehmeria nivea) da família das urticáceas, de cujo caule é obtida uma das mais longas, resistentes e sedosas fibras vegetais. RECLASSIFICADO – (Retread). Folhas de papel artesanal com pequenos defeitos. Segunda escolha. RECORTE e COLAGEM – (Collage). A criação de uma imagem mediante o recorte e montagem de várias imagens em momentos diferentes numa mesma superfície, normalmente papel ou cartão - às vezes pano - para suporte da composição. Também definido como Papier collé ou decoupage. REFINAÇÃO - (Beating - Refining). Processo de hidratação, encurtamento ou abertura e fibrilação das fibras em que estas têm aumento de área superficial e, portanto, de seu potencial

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de ligação por pontes de hidrogênio durante a formação da folha. A refinação influencia fortemente as características do produto. Em alguns casos, o processo pode ser por via manual ou por maceração. REFINADOR NAGINATA – (Naginata beater). Um refinador de desenho exclusivo para a preparação de fibras longas floemáticas. O refinador Naginata é igual à Holandesa, com a diferença de não ter estator de contra-facas e efeito de refluxo de massa, tipicamente dotado de facas curvas. REFUGO - (Broke, outsides). Celulose e papel desclassificados por defeitos e rupturas, deficiências em qualidade, danos. REJEITOS – (Rejects). Partículas indesejadas de materiais de variada natureza que se incorporam à folha. Também definidas como ‘contrários’. RESERVA ALCALINA - (Alkaline reserve). O efeito de aditivo adicionado ao papel para neutralizar a ação de deterioração que elementos acídicos em insumos aplicados durante fabricação ou conversão do papel ou, ainda, existentes no meio ambiente, poderiam causar ao produto. Usualmente carbonato de cálcio. RESILIÊNCIA – (Resilience). A propriedade que permite a uma folha de papel retornar à sua forma original depois de sofrer deformação (nos limites da característica de elasticidade). RESINA, breu – (Rosin). Um agente de colagem derivado da destilação da secreção resinosa de plantas, especialmente coníferas, (Pinus elliottii, Pinus palustris, etc.); também definido colofônia. É elemento naturalmente acídico. Sua aplicação requer o uso de sulfato de alumínio, para que haja adsorção da resina às fibras. RESISTÊNCIA AO CORTE – (Shearing strength). A propriedade da folha que lhe dá resistência à ação de corte. RESISTÊNCIA À TRAÇÃO – (Tensile strength). A força de tração que o corpo de prova de papel suporta antes de se romper, teste realizado sob condições padrão. RESISTÊNCIA AO RASGO – (Tear resistance). Força necessária para continuar o rasgo de um corte inicial, feito sob condições padrão, em folha única de papel. RESISTÊNCIA A ÚMIDO – (Wet strength). É o valor da relação de uma determinada resistência do papel no estado de saturação por água para aquela do mesmo papel no estado seco, medida segundo método padronizado. RESISTÊNCIA DA FOLHA ÚMIDA – (Wet-web strength). A resistência do papel enquanto ainda úmido, depois da prensagem (e antes da secagem). RESMA – (Ream). O conjunto formado por quinhentas folhas de papel. Também, mas arcaico, vinte mãos de papel. Entende-se por ‘mão’ um bloco de 24 ou 25 folhas, a depender do tamanho da folha e dos costumes locais. RHAMNOSE – (Rhamnose). Um açúcar methyl-pentose constituinte de unidades de moléculas de hemiceluloses. RIGIDEZ – (Stiffness). Resistência que o papel oferece a flectir ou deixar-se encurvar.

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ROLO BAILARINO – (Dandy roll). Na indústria de papel, um rolo de grandes dimensões posicionado no final do espelho d’água da mesa plana para melhorar a formação ou imprimir marcas d’água no papel. Esta marca d’água, vista contra luz, é mais escura que a área circunstante. Efeito oposto ao das marcas d’água em relevo aplicadas na forma redonda. ROTEIRO SCÉNICO- (Scenic route). A mais bonita seqüência de dobramento para a obtenção de um modelo Origami. Raramente é o roteiro mais direto. RUGOSIDADE – (Crinkled). Um efeito de crepagem ou enrugamento feito deliberadamente na indústria, para aumentar a extensibilidade da folha, ou tido como defeito em papel artesanal devido a movimentos incorretos durante a transferência da folha úmida do molde para o feltro de apoio. SACUDIDA – (Shake). Termo aplicado aos movimentos laterais dados à forma durante a formação da folha, para entrelaçar as fibras enquanto ainda em suspensão na massa. Demanda habilidade e longa experiência. SECAGEM AO AR - (Loft drying). Ambiente grande e arejado, geralmente com possibilidade de aquecimento, onde era tradicionalmente secado o papel artesanal. Atualmente entende-se como ‘loft drying, qualquer procedimento de secagem livre ao ar. SEPARAÇÃO – (Pack parting). No processo ocidental, a separação da pilha ou fardo das folhas de papel intercaladas com feltros e recém prensadas. No processo japonês, a retirada do fardo recém prensado de folhas sucessivas dispostas sem feltros. SEPARADOR DE NÓS – (Knotter). Depurador composto de cesta-peneira perfurada, dotada de foils rotativos internos para a limpeza superficial da chapa, destinado a reter nós, astilhas e outras impurezas existentes no fluxo de polpa para o tanque de deposito. SHA - (Sha). Malha tratada de seda ou sintética, fixada a uma tela normal para eliminar linhas de trama e urdidura no papel acabado, para dar à folha final uma superfície tecida. SHIFU – (SHIFU). Papel-tela tecido japonês. SISAL - (Sisal). Da planta do mesmo nome, ou Agave sisalana. Sisal fornece uma polpa de fibra longa, semelhante à do Abacá. SOLIDEZ À COR – (fastness). Qualidade buscada por todo papeleiro, a resistência a alteração da tonalidade dos corantes utilizados. Ou seja, evitar o desvanecer da cor. O papel deveria ser também sólido a ácido e álcali. SU – (Su). A cobertura flexível e removível da forma utilizada no nagashi-zuki. Usualmente construída com hastes finas de bambu unidas com fios de seda ou sintéticos. SUGETA – (Sugeta). A forma estilo japonês de fabricar papel, que inclui o su - cobertura flexível removível, e a keta – a moldura de madeira com dobradiças. SULFATO – (Sulphate). Refere-se ao processo de polpação alcalina, também processo kraft, para produção industrial de celulose.

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SULFITO – (Sulphite). Refere-se ao processo de polpação ácida para produção industrial de celulose. Praticamente em desuso.

TRANSLUCIDEZ – (Translucence). A propriedade de uma folha permitir a passagem de certo grau de claridade. Não transparente.

TAME-ZUKI – (Tame-zuki). Termo japonês que define o sistema ocidental de produzir papel artesanal, em que se procede com a tomada de uma carga de massa da tina, sacudimento gentil durante a formação, feltro entre cada folha ao retirar a folha da fôrma e pressão inicial forte. O termo é eventualmente também utilizado para o sistema chinês antigo, assim como ao pré-nagashi-zuki japonês.

TRANSPARÊNCIA – (Transparency). A propriedade de uma folha permitir que objetos sejam vistos e distinguidos através da própria folha.

TAPPI - (TAPPI). Abreviação para a organização industrial americana Technical Association of the Pulp and Paper Industry. Os métodos padrão TAPPI são utilizados internacionalmente em pesquisas e testes pertinentes à indústria de celulose e papel.

TRAPOS – (Rags). Pedaços de tecido usado ou fragmentos de tecidos novos, preferencialmente de linho ou algodão, material originalmente utilizado na manufatura de papel. Atualmente de utilização rara, exceto no caso da manufatura de papel especial de alta qualidade. TRINCAS – (Cracking). Quebras visíveis ao longo dos vincos feitos em folhas quando o papel é dobrado ou gravado.

TEMPERATURA - GALPÃO DE SECAGEM – (Loft temperature). Tem sido considerado um truísmo incontestável que papel secado em galpão não seja submetido a temperaturas acima de 32ºC (90ºF).

UMIDADE – (Moisture content). É o percentual de umidade no papel acabado. O teor de umidade é expresso em percentual de perda de massa (peso), relativamente à sua massa inicial, depois de seco em estufa.

TESOURO VIVO NACIONAL– (National Leaving Treasure). Uma pessoa apontada como “portadora viva de propriedade cultural intangível” pelo Governo Japonês. Com o título, o contemplado passa a receber remuneração que lhe possibilita continuar em sua atividade e treinar outros na arte ou artesanato tradicional que lhe é próprio.

VARETAS – (Ribs). Finas hastes de madeira que suportam a tela de cobertura do molde. Normalmente dispostas no sentido do lado menor. Na forma de linhas d’água apóiam os fios marcadores longitudinais.

TEXTURA – (Texture). Sensação causada pela superfície do papel ao toque, uma percepção pessoal e subjetiva, difícil de ser descrita ou medida. TINA – (Vat). Cuba ou tanque que contém massa pronta e de onde é transferida para a fôrma, para que seja formada a folha. TINTA DE REVESTIMENTO – (Coating color, Slip). Uma tinta composta de pigmentos minerais, adesivos e ligantes aplicada sobre a folha como revestimento, para melhores efeitos ópticos, especialmente gráficos. TITÂNIO dióxido de – (Titanium dioxide). Pigmento mineral adicionado à massa para realçar a alvura do papel, pois pode converter a radiação ultravioleta em luz visível. É também o pigmento mais eficaz para opacificação. Contudo, seu custo relativamente alto inibe maiores aplicações. TORORO – (Tororo). Abreviação para a planta tororo-aoi, das secreções de cujas raízes é extraído o auxiliar de formação mais comum na manufatura contemporânea japonesa de papel artesanal. Habitualmente citado como Abelmoschus manihot Medikus ou Hibiscus manihot L., espécies da família das malváceas, o tororo é planta anual, possivelmente originária da China. TRADICIONALISTA – (Traditionalist). Termo para referência a qualquer artesão que valoriza as técnicas antigas e coloca qualidade e caráter de seu papel acima de considerações de ganhos. Refere-se, também, a artesãos que recusam o uso de polpa de madeira e de químicos fortes, e que raramente usam máquinas na manufatura de seus papéis.

VENEZIANA - (Louver). Tipo de aberturas que, no galpão de secagem de antigas fábricas de papel, permitem a adequada circulação do ar. VERGÊ – (Laid). Estrias translúcidas, paralelas, exibidas por certo tipo de papel (vergê), na forma de marcas d’água originadas por arames dispostos regularmente no lado da formação da forma. VOLUME ESPECÍFICO APARENTE – (Specific volume). É a relação entre o volume e a massa (peso), medido sob condições-padrão. Também definido como corpo do papel ou bulk. WASHI - (Washi). Termo japonês derivado de wa – Japão – e shi – papel, washi é palavra atualmente usada para referência a qualquer tipo de papel artesanal japonês, produzido de forma tradicional ou não, e, em certos casos, mesmo a alguns papéis feitos com máquinas. WATERLEAF – (Waterleaf). Termo usado para designar folha de papel recém formada, sem cola, e portanto muito absorvente. XX – (XX). Marcação em embalagem de papel adotada por algumas fábricas para indicar produto com pequenos defeitos, de segunda escolha. XXX – (XXX). Marcação em embalagem de papel adotada por algumas fábricas para indicar produto desclassificado/rejeitado. Glossários de referência Japanese Papermaking – Timothy Barrett On paper - New paper art Papermaking – Jules Heller The art and craft of handmade paper – Vance Studley The craft of handmade paper – Plowman

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4ª CAPA

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A História do Papel Artesanal no Brasil

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