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Jefferson Biajone

ITAPETININGA HERÓIS FEITOS E INSTITUIÇÕES 1ª Edição

Dirceu Campos Afrânio Franco de Oliveira Mello Edmundo José Vasques Nogueira

Gráfica Regional Itapetininga, SP 2012


Produção Editorial Digitação e Diagramação Revisão da Obra Fotografias e Capa Impressão e Acabamento Copyright

Fabio Henrique Silveira Edson de Lima Figueiredo Jefferson Biajone Jeniffer de Oliveira Drawanz Gráfica Regional - Itapetininga/SP © 2012 by Jefferson Biajone Todos os direitos reservados ao autor Rua Manoel Evaristo de Moura nº10 Vila São José, Itapetininga, SP CEP 18205-730 jbiajone@gmail.com

Exemplar de nº Dados internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, São Paulo – SP)

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160 Vários autores 978-85-65703-00-0


Agradecimentos aos patrocinadores da publicação de ITAPETININGA: HERÓIS FEITOS E INSTITUIÇÕES

AEI

2011/2012

FACULDADES

Fundada em 27 de Agosto de 1921 como Escola Técnica de Comércio de Itapetininga, em 16 de junho de 1950 como Associação de Ensino de Itapetininga e a partir de 01 de dezembro de 2004 como AEI – Organização Superior de Ensino, é parte integrante da história de vida acadêmico-cultural deste ímpar município, em particular como mantenedora da Faculdade de Ciências Contábeis de Itapetininga e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Itapetininga, Instituição de Ensino Superior tradicional na formação de Bacharéis e Licenciados em Letras, Pedagogia, Matemática, Administração, Ciências Contábeis, Sistemas de Informação, História e Ciências Sociais. Em reconhecimento aos excelentes serviços prestados ao Ensino Superior em Itapetininga, a AEI-OSE Faculdades recebeu para o biênio 2011/2012 a Certificação de Selo de “Instituição Socialmente Responsável” pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior. Como patrocinadora cultural de renome, a AEI-OSE Faculdades teve sob seu mecenato as seguintes obras: A Dimensão Social da Aprendizagem (1997); Auditoria: Abordagem contemporânea (2001); Capital Intelectual (2001); O Professor Universitário (2002); Igreja Itinerante (2003); Diário de um Combatente: As recordações de um pracinha sobre a participação da FEB (2005) e Itapetininga: Heróis Feitos e Instituições (2012), além da digitalização do Acervo da Diocese de Itapetininga (desde 1770), também contou com o apoio da AEI Organização Superior de Ensino. AEI – Organização Superior de Ensino AEI - OSE Faculdades Rua Silva Jardim, 234 Centro, Itapetininga-SP CEP: 18200-010 Fone: (15) 3275 7400 http://www.aei.com.br


Agradecimentos aos patrocinadores da publicação de ITAPETININGA: HERÓIS FEITOS E INSTITUIÇÕES

Com mais de 50 anos de existência, a Empresa Funerária Camargo é resultado da visão empreendedora do senhor Antônio Ferreira de Camargo, cujos filhos, Antônio Edison Camargo e Antônio Roberto Camargo, hoje estão à frente de uma das firmas familiares mais tradicionais e bem sucedidas de toda a região. Igualmente preocupada com o bem estar cultural da Itapetininga, a Empresa Camargo figura entre os principais mecenas de iniciativas desse jaez, entre elas obras de destaque como os livros “Livre Terra de Livres Irmãos: a saga da Itapetininga republicana” do Dr. Hiram Ayres Monteiro; “Uma História da Escola de Farmácia e de Odontologia de Itapetininga” do Prof. Cesário de Moraes Leonel Ferreira; “Itapetininga antiga em fotos” dos escritores Chiquinho Tambelli e Osvaldo de Souza Filho e a viagem dos pesquisadores José Luiz Ayres Holtz (Grilo) e José Luiz Nogueira ao Rio de Janeiro, onde no Arquivo Nacional encontraram a “Certidão de Nascimento” de nossa cidade.

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Sumário Prefácio I................................................................................... 07 Prof. Mário Celso Rabelo Orsi Júnior Presidente do IHGG de Itapetininga

Prefácio II....................................................................... 09 Dr. José de Almeida Ribeiro Presidente da Academia Itapetiningana de Letras

Introdução...................................................................... 11 Heróis Feitos e Instituições Jefferson Biajone

Parte I – Heróis Feitos Capítulo I........................................................................ 23 Francisco Fabiano Alves: um nome, uma vida e uma obra Jefferson Biajone

Capítulo II....................................................................... 35 Victório Nalesso: verás que um filho teu não foge a luta Dirceu Campos

Capítulo III...................................................................... 43 Durvalino de Toledo: aos camaradas Blindado, aos amigos Filo Jefferson Biajone

Capítulo IV...................................................................... 59

Edmundo Prestes Nogueira: bravo da pena, paladino da verdade Edmundo José Vasques Nogueira

Capítulo V....................................................................... 69

Juliana Fabiano Alves: uma aguerrida mulher brasileira Jefferson Biajone

Capítulo VI...................................................................... 77 Antenor de Oliveira Mello Júnior: um Paulista de pé e à ordem, sempre! Afrânio Franco de Oliveira Mello 05


Parte II – Instituições Capítulo VII..................................................................... 87

Sede da 2º Divisão Regional do DER: casa de bravos, morada de heróis Jefferson Biajone

Capítulo VIII.................................................................. 103 Tiro de Guerra 02-076: escola de civismo e cidadania Jefferson Biajone

Capítulo IX.................................................................... 119 Guarda Municipal de Itapetininga: cidadania, segurança e tradição Jefferson Biajone

Capítulo X..................................................................... 135 Núcleo de Correspondência Paulistas de Itapetininga! Às Armas!! Jefferson Biajone

Epílogo......................................................................... 147 Bibliografia................................................................... 149

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Prefácio I Prof. Mário Celso Rabelo Orsi Júnior (*) Em boa hora personalidades itapetininganas de outrora retornam ao nosso convívio. Personalidades e também tradicionais instituições partícipes de significativos momentos de nossa história, cujo resgate permite ao leitor compreender melhor o que é ser itapetiningano. Capitaneado por Jefferson Biajone, jovem pesquisador e constante instigador de novos temas da história do município, que em feliz parceria com Dirceu Campos, saudosista da outrora Estrada de Ferro Sorocabana; Afrânio Franco de Oliveira Mello, estudioso da genealogia das famílias itapetininganas e Edmundo José Vasques Nogueira, efusivo incentivador de narrativas históricas a serem ainda estudadas, soube essa feliz equipe organizar os dez capítulos que compõem esta antologia para aqueles interessados em conhecerem um pouco mais de Itapetininga, na existência de algumas de suas personagens e instituições mais expressivas. De fato, o livro Itapetininga: Heróis Feitos e Instituições, ora realizado com muito empenho e com dedicada maestria, traz a luz vários momentos até então desconhecidos do público em geral, e por vezes desmistifica vozes discordantes do que é historicamente apresentado nas diversas passagens de Itapetininga pela história de nosso Brasil. Sendo assim, falar de cada um dos personagens e instituições aqui retratados é condensar em simples palavras aquilo que o leitor tem que ler e sentir em seu todo, a fim de contextualizar e observar as constantes transformações que ambos expressaram em beneficio do povo itapetiningano. Este é o principal papel de Itapetininga, Heróis Feitos e Instituições, qual seja, oferecer ao leitor um relato de vivências deste ímpar município, percorridas pelas personagens e instituições aqui manifestas, de uma forma sutil e rica de novas paisagens humanas e sociais, constituindo assim uma nova frente de estudos da historiografia itapetiningana, que se avoluma a cada momento. Congratulo os autores pela iniciativa em prol do resgate e do enaltecimento das personagens e das instituições que se debruçaram para levar ao conhecimento de todos os itapetininganos de hoje e amanhã, suas histórias de valor, vida e exemplo.

(*) Prof. Mário Celso Rabelo Orsi Júnior é professor de História do Instituto Imaculada Conceição, presidente do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Itapetininga e do Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico Artístico Arquitetônico Turístico Literário e Paisagístico de Itapetininga. 07


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Prefácio II Dr. José de Almeida Ribeiro (*) O livro Itapetininga: Heróis Feitos e Instituições organizado pelo professor Jefferson Biajone, com a colaboração dos senhores Dirceu Campos, Afrânio Franco de Oliveira Mello e Edmundo José Vasques Nogueira, vem trazer ao público fatos de nossa gente e nossa terra, consubstanciados no relato de acontecimentos históricos que podem despertar grande interesse ao público em geral. Como sabemos, Itapetininga teve destacada e ativa participação na Revolução Paulista de 1924, ao libertar São Paulo sitiada pelos revoltosos com a lendária Coluna Sul, aqui formada e sob a liderança de seus ilustres chefes políticos, o Coronel Fernando Prestes de Albuquerque e seu filho Dr. Júlio Prestes de Albuquerque. Já nas revoluções de 1930 e 1932, estando essas mesmas lideranças no exílio, Itapetininga continuou a se destacar na história brasileira, porquanto nunca deixou de ser prenhe de filhos valentes, quer tomassem da pena ou das armas, para frente fazer às adversidades que enfrentou naqueles difícieis idos. Filhos dessa cidade como os neste livro retratados, Francisco Fabiano Alves, Durvalino de Toledo, Victório Nalesso, Juliana Fabiano Alves, Edmundo Prestes Nogueira e Antenor de Oliveira Mello Júnior. Histórias de vida de Itapetininganos resgatadas pelos seus respectivos autores, historiadores, filhos, familiares, amigos. Histórias essas que se fazem bem acompanhados da segunda parte da obra, referente à importantes instituições de nosso município, cujas histórias se confundem com a própria história de Itapetininga, como a Guarda Municipal, o Tiro de Guerra, o majestoso prédio do DER, sede de quartéis generais da antiga Força Pública e do Exército Brasileiro. Há também o Núcleo dos Veteranos de 32 de Itapetininga, um dos baluartes da causa de nossos ex-combatentes daquela cruenta campanha. Por tudo isso, agradeço ao organizador do livro Itapetininga: Heróis Feitos e Instituições, professor Jefferson Biajone e aos seus distintos colaboradores, os senhores Dirceu Campos, Afrânio Franco de Oliveira Mello e Edmundo José Vasques Nogueira, no esforço que em uníssono empreenderam para trazer a lume semelhante reconstruir da história de nossa cidade, nas pessoas e instituições por eles tão felizmente escolhidas e retratadas.

(*) Dr. José de Almeida Ribeiro é advogado, membro do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Itapetininga e presidente da Academia Itapetiningana de Letras. 09


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Introdução Adeus à querida escola

E

ra sete horas e trinta minutos exatos da manhã do dia 28 de fevereiro de 2011, quando a voz rouca do subcomandante da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx) bradou o comando “sentido” e apresentou todo o efetivo deste estabelecimento de ensino do Exército Brasileiro, sediado em Campinas, SP, ao seu comandante, o então coronel Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, hoje general de brigada, para que este autorizasse o início da formatura. Estávamos em forma, à testa esquerda do grupamento da Divisão de Ensino da escola, composto na sua íntegra de oficiais professores. Era aquela formatura matinal de segunda-feira, a última que participávamos como primeiro-tenente e professor de Matemática da Seção de Ciências Matemáticas daquela tradicional Escola Militar. Com o toque de “descansar”, fomos entretidos com lembranças que nos tomaram de sobressalto, lembranças essas que nos fizeram voltar no tempo quatro anos atrás, mais precisamente a 28 de fevereiro de 2007, quando nos apresentávamos naquela mesma escola, sendo então declarados aspirante-à-oficial, com destino à referida Seção de Ciências Matemáticas. Daquela inesquecível data em diante, quatro intensos anos se passaram. Aulas, instruções, serviços, missões inúmeras, representações, amizades, lutas, sacrifícios, momentos agradáveis e difíceis, um fluxo misto de emoções, sentimentos e recordações que invadiram a nossa mente e foram abruptamente cortadas quando os comandos de “sentido” e “esquerda volver” foram executados ao som dos toques de imperiosa corneta. Em uníssono, rompemos todos marcha com o pé direito, solidamente aplicado ao solo, quando o bumbo retumbou seco e poderoso. Era a EsPCEx, que sob o dobrado da emocionante canção Fibra de Heróis, desfilava garbosa em continência ao seu comandante. Subcomandante à frente, seguido de seu luzido Estado Maior, depois nosso grupamento de oficiais, daí seguindo a Primeira, a Segunda e a Terceira Companhias de Alunos, concluindo com a Companhia de Comando e Serviço. Todos esses grupamentos, quando passavam em frente ao comandante, prestavam-lhe vibrante e enérgica continência, sempre cadenciados pelo retumbar do bumbo, a orientar o pé direito de quase 500 militares que em uníssono faziam tremer o solo. Em meio aos meus companheiros de tantas formaturas como aquela, saímos de forma quando ouvimos o brado de “Fora de forma! Marche!” e, em ato contínuo, seguimos todos para o auditório general Osório, onde seria realizada cerimônia de despedida de oficiais. 11


Dois tenentes-coronéis que também passavam para a reserva nos acompanhavam nesse dia de despedida do Exército Brasileiro. Para cada um de nós foi lido pelos respectivos chefes um elogio por estes elaborados, enquanto que permanecia, cada um, em posição de destaque no palco do auditório, tendo à sua retaguarda, exibição de slides contendo imagens da trajetória de sua vida militar. Terminada a leitura do elogio, cada homenageado recebia das mãos do comandante um lembrança para os anos vindouros, um belo quadro contendo foto da EsPCEx com o posto e nome do agraciado e os dizeres, “Lembrança da Escola Preparatória de Cadetes do Exército pelos relevantes serviços prestados”. Por fim, fomos os três individualmente cumprimentados por todos os presentes, comandante, oficiais superiores, intermediários e subalternos, subtenentes e sargentos, efetivo da escola que, independente do posto e da graduação, conhecíamos pelo nome e na sua grande maioria há anos, porquanto ombro a ombro enfrentaram conosco o honroso desafio que foi contribuir para a formação do aluno da EsPCEx, futuro cadete de Caxias da Academia Militar das Agulhas Negras e oficial combatente do Exercito Brasileiro de amanhã. Concluída estava, pois, a nossa passagem pela nobre Força Terrestre e imbuídos da inabalável certeza de que a missão fora cumprida no melhor de nossas energias, deixávamos a condição de oficial convocado para o serviço ativo, para ingressar como primeirotenente da reserva de segunda classe no Corpo de Oficiais da Reserva do Exercito Brasileiro. De volta ao torrão de outrora A 1º de março de 2011, desembarcávamos no Terminal Rodoviário de Itapetininga, ainda sensibilizados com as despedidas vivenciadas na véspera, mas confiantes de que nova fase de nossas vidas se afigurava, prenhe de esperanças, possibilidades e novos desafios. E não tardou para que esses se apresentassem no novo exercício da nossa profissão como educador e professor de Matemática e Inglês. De fato, iniciávamos, naquele mesmo primeiro semestre letivo, aulas daquelas duas disciplinas para alunos de cursos de Tecnologia da FATEC de Itapetininga e de uma tradicional escola de idiomas do município. Tratava-se de uma nova fase em nossas vidas, tanto no aspecto profissional, quanto no pessoal, porquanto a hospitalidade e o carinho com o qual fomos acolhidos pelos novos amigos que fizemos e os alunos que nossos se tornaram, em muito nos possibilitou com que a adaptação ao novo ambiente transcorresse da maneira mais adequada 12


e tranqüila possível. Não mais residindo em prédio de aquartelamento, mas agora em companhia de nossa mãe, os dias da nova rotina de professor de Matemática e Inglês foram abrindo possibilidades de retomada de “hobby” que desde os tempos da caserna cultivávamos com carinho, qual fosse, o de resgatar histórias de vidas de ex-combatentes e veteranos de guerra. Sim, foi durante nossa permanência no Exército Brasileiro que viemos pela primeira vez conhecer esses brasileiros que hoje, octagenários, pelo menos, existem entre nós repletos de recordações de um tempo de lutas, sacrifícios e glórias vividos pela pátria brasileira. No contato prolongado com eles, viemos a desenvolver o gosto por conhecer suas histórias, feitos e lembranças, de tal monta que isso se tornara um costume, difícil mesmo de não realizar, até mesmo de se desapegar. Uma vez em Itapetininga, portanto, imaginamos que se tais veteranos existissem, onde estariam? Em conversa com o Dr. Roberto Soares Hungria, um dos primeiros amigos que fizemos na cidade e que nos ajudou sobremaneira nessa fase inicial de nossas buscas, viemos a saber da existência do Sr. Victorio Nalesso, veterano da II Guerra Mundial residente no bairro Jardim Itália. Nosso encontro com esse verdadeiro cidadão e herói Itapetiningano, que até então desconhecíamos ser, aconteceu na tarde do dia 6 de maio de 2011, quando fomos por ele convidados a conhecer o seu escritório repleto de relíquias do tempo de sua participação na Força Expedicionária Brasileira (FEB). Conversamos, trocarmos idéias e ficamos acertados de, inclusive, realizarmos alguma divulgação mais específica sobre a participação de Itapetininga naquele conflito. Por fim, entregou-nos Victório uma cópia de seu livro, “Diário de um Combatente” e nos convidou para com ele comparecer no Tiro de Guerra local, onde dali a dois dias, isto é, a 8 de maio, realizar-se-ia uma formatura em memória ao Dia da Vitória. Aceitamos o convite e de volta estávamos a uma organização militar do Exército Brasileiro. Pareceu-nos que a vida da caserna, mesmo estando na reserva agora, nos continuaria de alguma forma. E foi dito e feito, tratava-se, pois, do Tiro de Guerra 02-076 (TG), a Sentinela dos Campos de Itapetininga, onde nosso próprio pai, o Sr. Luis Carlos Biajone, formara-se atirador na turma que prestou o Serviço Militar Inicial em 1970. Ao chegarmos em companhia de Victório, fomos por Victório apresentados aos subtenentes Alexssandro Lucas Costa e João Iran Costa e, pouco antes do início da formatura, às pessoas do diretor do TG, o prefeito Roberto Ramalho Tavares e do vereador José Eduardo Gomes Franco, “Dudu Franco”, representando este último a Câmara Municipal de Itapetininga, 13


Ao término da solenidade, conseguimos autorização do prefeito para termos acesso às fotografias que ilustravam a galeria dos trinta e cinco ex-combatentes de Itapetininga da Segunda Guerra Mundial, galeria essa de fotos, pertencente e mantida pelo TG. A idéia que tivemos era a de digitalizar tais imagens e posteriormente postá-las em um website a ser construído e dedicado à esses veteranos, à exemplo do que fizemos no ano de 2008 em Campinas, por intermédio do Portal da Associação dos Expedicionários Campineiros, na Internet (http://aexpcamp.itapetininga.com.br/). Outrossim, nesse memorável dia 8 de maio de 2011 conhecemos também outras pessoas que nos indicaram a existência de veteranos que não eram da II Guerra Mundial, mas sim da Revolução Constitucionalista de 1932. Apesar da condição de recém sócios-correspondentes da Sociedade dos Veteranos de 32/MMDC, confessamos que ignorávamos até então quantas surpresas teríamos ao estudar o papel e a importância de Itapetininga naquela revolução. Motivados, pois, pela possibilidade de conhecer um veterano em pessoa dessa cruenta campanha partíamos às pesquisas em consonância com as indicações que nos foram feitas. A primeira delas foi com relação à pessoa do veterano Osvaldo Raphael Santiago, nos seus rijos 97 anos de idade, morador há muitos anos nas proximidades do Instituto Imaculada Conceição. Sua acolhedora família, bem como a sua digna esposa, D. Augusta, nos recebeu com enorme hospitalidade e nos auxiliou no que pode nas pesquisas que iniciamos sobre a empolgante história de vida desse célebre cidadão por todos carinhosamente conhecido pelo apelido de “Seu Nhová”. Em fins ainda daquele mês, enviávamos para o Jornal “32 em Movimento” da Sociedade dos Veteranos de 32/MMDC, o nosso primeiro artigo de correspondência sobre a história de vida de um veterano de 32 de Itapetininga, em função do qual, o presidente dessa sociedade e nosso amigo, coronel Mário Fonseca Ventura, da Policia Militar do Estado de São Paulo (PMESP), em muito nos parabenizou pela iniciativa, convidando-nos a aprofundar as pesquisas, caso mais veteranos de 32 tivessem existido ou ainda existissem na cidade.

História de vidas que mudaram vidas E foi precisamente o que ocorreu. Paralelamente ao incipiente trabalho com os veteranos de 32, estávamos juntos de Victorio Nalesso no resgate de dados que posteriormente constituíram o conteúdo do Portal do Ex-Combatentes de Itapetininga (http://pec.itapetininga.com.br), portal esse que foi 14


inaugurado na rede mundial de computadores no Dia do Soldado, a 25 de agosto de 2011. Além disso, apoiamos Victório Nalesso na reativação das atividades da Associação dos Ex-Combatentes de Itapetininga, o que aconteceu a 31 de maio, em solenidade toda especial organizada para esse fim na sede do TG, cedido que foi pelos nossos amigos subtenentes Alexssandro e Iran. Presentes estiveram nessa solenidade dedicados amigos que fizemos na caminhada pelas pesquisas históricas até então desenvolvidas, os senhores Dr. Roberto Soares Hungria, presidente do Museu de Som e Imagem de Itapetininga; o Dr. José de Almeida Ribeiro, presidente da Academia Itapetiningana de Letras; o Dr. Hiram Ayres Monteiro, membro desta mesma academia; o Prof. Mário Celso Rabelo Orsi Júnior, presidente do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Itapetininga e Edmundo José Vasques Nogueira, coordenador do setor de Comunicação Social da Prefeitura que, mais tarde, viria a se tornar um inestimável companheiro sincero e dedicado de tantos projetos que posteriormente tornariam este mesme livro uma realidade. Se as pesquisas relativas aos veteranos de 45 de Itapetininga estavam avançando à passos céleres, o mesmo poderia ser dito das realizadas sobre os veteranos de 32. Com efeito, no mês de junho tivemos a oportunidade de conhecer o veterano Francisco Vieira Trindade, que apresentado nos foi por Victorio Nalesso. Emocionado ao nos contar lances de sua participação na Revolução Constitucionalista de 32, “Chico Trindade” como é conhecido por todos, teve também a longa história de seus 99 anos de vida resgatada e publicada em três edições sucessivas do Jornal “32 em Movimento”. Depois que conhecemos “Nhová” e “Chico Trindade”, nos veio a informação de que o professor e dentista Francisco Fabiano Alves, falecido em 1990, também fora veterano de 32, bem assim como da Revolução Paulista de 1924 e da Revolução de 1930. Detalhes precisos sobre essa raríssima situação, enfeixada na singular pessoa do renomado professor Francisco Fabiano Alves, tivemos ao ler o que sobre ele foi escrito na inteligente pena do saudoso jornalista Edmundo Prestes Nogueira, em sua obra mais expressiva, o livro “Heroísmo Desconhecido”, publicado em 1987. Encontramos ali uma descrição fidedigna e ampla, não só dos feitos de Fabiano, como também da participação de Itapetininga, por meio da legendária Coluna Sul, na Revolução de 1924. Depois de Francisco Fabiano Alves, viemos a conhecer um outro não menos heróico veterano de 32, o saudoso Sr. Durvalino de Toledo, cuja história de vida nos foi relatada pelo filho dele, o Sr. Eugenio de Carmo Toledo, pessoa por demais amiga e a quem muito devemos pelos esclarecimentos prestados. 15


Devemos agradecer também a Carlos Fidêncio, cujo livro “Itapetininga Ontem - Hoje” (1986) em muito auxiliou nesses mesmos esclarecimentos sobre Durvalino, bem como nos apresentou também à aguerrida D. Juliana Fabiano Alves, uma das seis heróicas irmãs de Francisco Fabiano Alves, professora e até hoje a única mulher a ocupar a prefeitura de nossa cidade. Diante de tal volume e riqueza de informações que a cada nova pesquisa e entrevista realizadas eram em Itapetininga, decidimos criar outro portal na Internet, sob o nome de “Paulistas de Itapetininga! Às Armas!!” e nele tornar público os estudos consignados sobre as histórias de vida de veteranos de Revolução Constitucionalista de 32 deste ímpar município, sob o endereço http://mmdc.itapetininga.com.br. Este portal, inaugurado a 12 de julho de 2011, tornou-se não muito depois o canal de divulgação da sucursal da Sociedade dos Veteranos de 32/MMDC que fundamos naquela mesma data em Itapetininga, sob a denominação de Núcleo de Correspondência “Paulistas de Itapetininga! Às Armas!!”, a frente da qual assumimos a presidência e a pessoa de nosso amigo Afrânio Franco de Oliveira Mello, a vice-presidência. O capítulo dez, da parte II deste livro, relata com maiores detalhes o histórico da fundação e existência desta entidade, bem como as atividades que promove em Itapetininga e região. Destarte, nos meses de agosto e setembro de 2011, as histórias de vida dos veteranos de 32, enfermeira Juliana Fabiano Alves e soldado João Garcia Porto, foram adicionadas ao portal e também passaram a ser objeto de divulgação junto ao Jornal “32 em Movimento”. Entrementes, contatos que realizamos com associações de veteranos da II Guerra Mundial propiciaram um homenagem toda especial aos nossos veteranos de Itapetininga, os senhores Victório Nalesso, Argemiro de Toledo Filho, Amasílio Paulo de Campos e Higino Mendes de Andrade, que condecorados foram, em 28 de agosto daquele ano, com a medalha “Heróis do Brasil” da Associação dos ExCombatentes do Brasil, secção São Bernardo do Campo. Monumento, projetos e instituições Em uma visita que fizemos ao amigo vereador Dudu Franco, compartilhou ele conosco que Itapetininga não possuía um monumento em memória aos veteranos de 32 e que poderíamos juntos batalhar para conseguir essa homenagem, ainda que tardia. Tal visita ocorreu a 7 de junho de 2011 e de imediato aceitamos a empreitada, que não seria fácil porquanto teríamos de envolver vários setores da sociedade, mas o curioso foi que, justamente quando esses mesmos setores foram envolvidos, é que conseguimos concretizar o ideal do vereador em inaugurar o monumento. Com efeito, tivemos a participação da Prefeitura, que se 16


responsabilizou pela construção e seus custos; da arquiteta da Secretaria da Educação, Marina Almada Lobo, que ficou responsável pelo seu design; de nossa pesquisa para a idealização do conteúdo das duas placas que o compuseram e, por fim, do comando do 22º Batalhão de Policia Militar do Interior (22º BPM/I), que cedeu o local em área de destaque de seu aquartelamento, para que o monumento ali passasse a existir e habitar. Os meses de junho a setembro foram os necessários para que toda essa sinergia surtisse os resultados desejados e que obtivéssemos ,mais precisamente a 3 de outubro de 2011, a inauguração do Monumento aos Veteranos de 32 de Itapetininga em inesquecível e concorridíssima cerimônia na sede do 22º BPM/I. Dessa experiência que tivemos, pudemos estreitar relações com o tenente coronel PM Raul Galindo dos Santos, comandante do 22º BPM/I e com o capitão PM Jair Francisco Gomes Júnior, chefe da comunicação social dessa acolhedora unidade, amigos da PMESP que ali fizemos e desde então tem conosco cerrado fileiras para outros projetos que o Núcleo Paulistas de Itapetininga! Às Armas!! tem abraçado tanto em nosso município como em cidades da região. Três desses projetos que gostaríamos de destacar foram a concessão do Diploma de Honra ao Mérito Capitão Francisco Fabiano Alves, a todos que nos auxiliaram com as pesquisas realizadas pelo Núcleo, também a 3 de outubro de 2011; a entrega do Diploma de Honra ao Mérito Cabo Blindado Durvalino de Toledo, a integrantes afrodescendentes da PMESP, do Tiro de Guerra, do SAMU, à Guarda Municipal de Itapetininga, do Corpo de Bombeiros, da Policia Civil e também da enfermagem da rede municipal de saúde, tudo a 24 de novembro de 2011, quando celebramos o evento da Consciência Negra Constitucionalista e, a 7 de março de 2012, quando foi concedido o Diploma de Honra ao Mérito Enfermeira Juliana Fabiano Alves a quinze enfermeiras e estudantes de enfermagem de Itapetininga e da Polícia Militar, no evento de comemoração do Dia Internacional da Mulher, promovido pelo 22º BPM/I no teatro do SESI Itapetininga. Outrossim e a par desses acontecimentos, nossas pesquisas também encontraram campo fértil em outros setores intelectuais da sociedade itapetiningana, a exemplo do que ocorreu no Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Itapetininga (IHGGI). Nesta eminente entidade, na qual passamos a freqüentar as suas reuniões mensais, fomos, em setembro de 2011, convidados pelo seu presidente, o amigo professor Mário Celso Rabelo Orsi Júnior, para nos tornarmos confrades, honraria que muito nos dignou em conceder. A cadeira do IHGGI que passaríamos a ocupar seria a de número 21, cujo patrono é o saudoso jornalista Edmundo Prestes Nogueira, autor de “Heroísmo Desconhecido” e pai de nosso irmão de lutas Edmundo José Vasques Nogueira. Ter o privilégio de ocupar essa cadeira foi, indubitavelmente, 17


outro feliz desdobramento que o destino havia nos reservado, não só pelo o que a pessoa de Edmundo Prestes Nogueira significa para Itapetininga, como também pelos seus escritos que fundamentais foram para as pesquisas históricas realizadas. Como resultado, fomos aceitos no quadro de membros efetivos do IHGGI, tendo a solenidade de diplomação e oficialização desse ato prevista para ocorrer na noite de 22 de junho de 2012, na Câmara Municipal de Itapetininga, evento que certos estamos de ser abrilhantado pela presença reconfortante de muitos de nossos amigos e companheiros de jornada. Outrossim, outra instituição que nos facultou acesso e plena colaboração para os trabalhos historiográficos foi a 2º Diretoria Regional do Departamento de Estradas de Rodagem (DER.2), cujas portas de seu quase centenário e histórico prédio nos foram abertas por intermédio de seu diretor regional, o engenheiro Dr. Alfredo Moreira de Souza Neto. Estávamos nos meses de julho para agosto de 2011 quando o amigo Edmundo José Vasques Nogueira nos comentou da necessidade de se pesquisar as origens do 5º Batalhão de Caçadores (5º BC), unidade do Exército que sediada foi no atual prédio do DER.2. Aceitamos o desafio e em buscas de respostas acabamos descobrindo toda uma história de não só essa, mas de várias unidades militares que o prédio ocuparam desde a sua fundação em 1929. Essas descobertas, porém, só foram possíveis graças à colaboração imprescindível que tivemos das pessoas dos senhores Manoel Henrique Santana e de Wilson Rodrigues, funcionários do DER.2 que conosco estiveram em todos os cantos que do prédio percorremos para reconstituir a sua belíssima história. Estes levantamentos, meses depois, constituíram palestra que proferimos aos colegas confrades do IHGGI e que durante a mesma, esclarecidas foram algumas datas com a ajuda do confrade José de Almeida Ribeiro, tornando-se, eventualmente, o texto que gerou o capítulo oito da parte II deste livro. Concluída a pesquisa sobre o histórico do prédio do DER.2, sentimo-nos motivados o bastante para resgatar o histórico de duas outras instituições, a saber, o Tiro de Guerra 02-076 e a Guarda Municipal de Itapetininga (GMI). Uma vez mais com a indicação do amigo Edmundo e também agora com o aceite do coronel PM Josué Álvares Pintor, secretário municipal de Trânsito e Cidadania, comparecemos à GMI, onde intermediados pelos precisos esclarecimentos da guarda municipal Catarina Aparecida Nanini Motta, do comandante major PM Calil José Badin Vieira e de seu hábil subcomandante, o 1º tenente PM Adão Fernandes dos Santos, pudemos estudar os antecedentes dessa valiosa corporação desde os tempos da fundação da vila Nossa Senhora dos Prazeres de Itapetininga e, no processo, conhecer a 1º GMI que nos 18


anos 70 existiu, até a atual corporação criada em 2008. Desta nossa experiência na GMI, não podemos esquecer da valiosíssima contribuição do tenente coronel PM Airto Cavalheiro de Queiros, ex-guarda municipal da 1º GMI. Todos esses achados e levantamentos eventualmente constituíram o texto que ilustra o capítulo nove da parte II desta obra. No que compete ao quase centenário Tiro de Guerra de nosso município, aqui tínhamos uma motivação ainda maior, pelo fato de que nosso próprio pai havia prestado ali o Serviço Militar inicial em 1970. Isto posto e com a dedicada ajuda dos irmãos em armas, subtenentes Alexssandro e Iran, bem como dos preciosos dados levantados pelo senhor Edson Valério dos Santos, secretário há mais de três décadas do TG, logramos reconstituir a história desse distinto órgão de formação da reserva do Exército Brasileiro em Itapetininga no capítulo oito da parte II desta obra. Agradecimentos e um convite para a História Esclarecidos os fatos e acontecimentos que consubstanciaram e propeliram Itapetininga: Heróis Feitos e Instituições, chegada é a hora de conhecermos os dez capítulos que comprazem esta antologia de histórias de vida de heróis, seus feitos e instituições que este livro se propõe a apresentar. Outrossim, mister é elucidarmos a estrutura dessa obra que em duas partes dividida foi, cada qual em torno de eixo temático que a norteia, a saber, parte I, “Heróis Feitos”, com os capítulos de um a seis e a parte II, “Instituições”, composta dos capítulos de sete a dez. Os prefácios I e II, como veremos a seguir, realizados foram, respectivamente, pelos amigos o professor Mário Celso Rabelo Orsi Júnior e o doutor José de Almeida Ribeiro, cidadãos itapetininganos cujos méritos intelectuais estão acima de todo elogio. Nosso agradecimento, portanto, à distinção que nos conferiram em prefaciarem estes escritos. Elogios de não menor relevância gostariamos de consignar às pessoas amigas do doutores Roberto Soares Hungria e Hiram Ayres Monteiro, pelas apreciações que teceram ao nosso trabalho e que honradamente ilustram a contracapa de nossa obra. Quanto a parte I, “Heróis Feitos”, temos os heróis Francisco Fabiano Alves, Victório Nalesso, Antenor de Oliveira Mello Júnior, Durvalino de Toledo, Edmundo Prestes Nogueira e Juliana Fabiano Alves, cujas histórias de vidas a ilustram nos seus seis capítulos, tendo como autores Jefferson Biajone, Dirceu Campos, Afrânio Franco de Oliveira Mello, e Edmundo José Vasques Nogueira. Outrossim, agradecemos aos amigos Dirceu Campos, Afrânio Franco de Oliveira Mello e Edmundo José Vasques Nogueira por terem conosco marchado ombro a ombro não só na elaboração da parte I, 19


como também de toda a caminhada que juntos percorremos desde a criação, passando pela publicação e culminando com a noite de autógrafos do livro, a ocorrer em inesquecível evento previsto para 2 de junho de 2012, no teatro do SESI Itapetininga. Já os resgates históricos relativos ao prédio da 2º Diretoria Regional do Departamento de Estradas e Rodagem, a Guarda Municipal de Itapetininga, ao Tiro de Guerra 02-076 e ao Núcleo Paulistas de Itapetininga! às Armas!! constituem estes os quatro capítulos finais da parte II da obra, todos de nossa autoria. Complementam a obra o seu epílogo e a bibliografia, cujas referências possibilitam ao leitor aprofundamento dos assuntos tratados na antologia, na esperança de que possam motivar maiores estudos. A todos, pois, que direta ou indiretamente, contribuíram para que esse empreendimento literário ganhasse corpo, alma e atingisse a sua plenitude na publicação, que ora nas mãos de nosso leitor existe, os nossos mais sinceros e efusivos agradecimentos. Desejamos que esses mesmos votos sejam também estendidos à amiga Jeniffer de Oliveira Drawanz, pela brilhante elaboração da capa e contracapa, aos amigos Fabio Henrique Silveira e Edson Figueiredo, pelo excelente trabalho de diagramação, e a toda prestimosa equipe de profissionais liderada por Marcos Antonio Gonçalves Scudeler, da Gráfica Regional, estabelecimento esse que há mais de quatro décadas vem, sob a visionária direção do Sr. Carlos Scudeler, transformando sonhos em realidade, como transformou este nosso para a população de Itapetininga, à qual dedicamos, com o melhor de nossas energias, entusiasmo e alegria, esta antologia que vida ganhou no livro

Itapetininga: Heróis Feitos e Instituições

31 de Maio de 2012

Jefferson Biajone 20


PARTE I Itapetininga Herテウis Feitos e Instituiテァテオes

HERテ的S FEITOS...

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Capítulo I Itapetininga Heróis Feitos e Instituições

Francisco Fabiano Alves

Um nome, uma vida e uma obra

Autoria de

Jefferson Biajone 23


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Homens de Fibra e Coragem

H

omens íntegros, de fibra e coragem são dádivas que cada geração recebe tendo em vista a satisfação de determinados propósitos para os quais eles foram chamados. O que pode parecer predestinação ou um lance do destino é, na realidade, o homem certo para o momento certo, sem delongas e nem tergiversações. Este foi o caso de Ulysses S. Grant, a única esperança que o Presidente Norte-Americano Abraham Lincoln pode contar no momento em que a sorte dos estados do Norte periclitava ante o avanço dos Confederados. Nossa história pátria também não carece de exemplos. Após a derrota sofrida na batalha de Curupaiti, o Exército Brasileiro e seus aliados entraram em franco período de estagnação no teatro de operações paraguaio. O sábio imperador Dom Pedro II se lembra do então Marquês de Caxias, o único brasileiro que naquele momento crítico da Guerra do Paraguai poderia resgatar os brios do Exército e conduzir o Império e seus aliados à vitória. Não obstante, há exemplos de integridade, fibra e coragem que os grandes compêndios da História não registraram. Exemplos esses cujas impressões nas mentes e corações da posteridade muitas vezes se perdem na névoa de um passado bruxuleante e que vez ou outra podem ressurgir, mas se o fazem é como se fossem rápidos lampejos de tempos e momentos gloriosos que não voltam mais. Francisco Fabiano Alves é um desses exemplos, cuja vida foi um lampejo que quase não obteve registro para a posteridade, dádiva que foi para os de sua geração enquanto homem íntegro, de fibra e coragem que soube arrostar os maiores perigos para defender a paz e a felicidade de sua gente e a sua terra de Itapetininga e São Paulo, nas revoluções de 1924, 1930 e 1932. Em busca de Francisco Fabiano Alves Sob o título “Fabiano, Herói Desconhecido”, o saudoso jornalista e advogado Edmundo Prestes Nogueira, no seu livro “Heroísmo Desconhecido” (1987), foi o primeiro a publicar fatos sobre a vida e a obra deste emérito cidadão de Itapetininga cujo privilégio ele teve de conhecer em vida e entrevistar pessoalmente. Passados 21 anos da publicação dessa obra, o casal João 25


Olympio de Oliveira Júnior e Teresa de Jesus Cardoso Oliveira lançaram o livro “Memórias de Itapetininga” (2008), onde resgatam fatos, datas e pessoas de relevância na história do município, dentre elas figurando Francisco Fabiano Alves. É, pois, referenciados por ambas as obras que ora consubstanciamos na sua essência o presente ensaio biográfico da pessoa de Francisco Fabiano Alves, na intenção de que sirva para contribuir e propagar o trabalho desses dignos autores na preservação da memória e dos feitos desse formidável filho de Itapetininga, que nela pode não ter nascido, mas que soube honrá-la até o último dos dias de sua profícua e longeva vida. E isso veremos a seguir, a explorar as diversas facetas que encetou enquanto em nossa cidade viveu, conviveu, amou e lutou. Vamos a primeira e mais conhecida dela, qual seja, Francisco Fabiano Alves: o professor No ano de 1897, a jovem República Brasileira se via ameaçada nos sertões da Bahia ao ter de se bater contra os sertanejos do líder messiânico Antonio Conselheiro no conflito que na História ficou registrado como a Guerra de Canudos. A muitos quilômetros dos combates encarniçados no sertão baiano, na então Vila de Bauru, nascia a 12 de setembro daquele ano, a 64º criança que ali veio a ser registrada, de nome Francisco Fabiano Alves, filho de Joaquim Fabiano Alves e de Ana Franco Fabiano Alves. O pai desta criança, o senhor Joaquim Fabiano Alves, era major da Guarda Nacional local e um dos desbravadores que fundaram a vila posteriormente elevada a categoria de município, a 1º de agosto de 1896. De Bauru, a família Alves passou a residir alguns anos na pacata vila interiorana paulista de São Manuel, anos esses que caracterizaram a feliz e despreocupada infância do menino Fabiano como já era por todos chamado - e cuja expressiva vontade de conhecer já se fazia demonstrar, de forma que ao atingir a adolescência, a pequena São Manoel já não mais oferecia atrativos para a sua vivaz e criativa inteligência. Para tanto, fora Fabiano matriculado no Colégio São Luiz, na capital paulistana, onde por vários anos, como aluno interno desse tradicional estabelecimento jesuíta de ensino, obteve ele o preparo intelectual, físico e moral que mais tarde caracterizariam a integridade como ser humano e cidadão que o acompanhou até o final da vida. Ali diplomado com louvor, Fabiano prestou os exames 26


vestibulares e ingressou na Faculdade de Farmácia e Odontologia da Universidade de São Paulo, de onde se tornaria cirurgião-dentista egresso, em fins de 1917, também brilhantemente graduado. Concluídos os estudos superiores, Fabiano opta por se mudar para Itapetininga, fixando nessa cidade residência em 1918 e, em parceria com outros homens de visão e atitude do município, fundaram a pioneira e lendária Escola de Farmácia e Odontologia de Itapetininga (EFOI), a 20 de Janeiro de 1920. Ademais, não fora apenas Fabiano um dos principais artífices da fundação daquela que seria a primeira instituição de ensino superior do gênero no interior do Estado de São Paulo. Foi ele um de professores mais dedicados do curso de Odontologia da EFOI, lente da cadeira de Patologia e Terapeutica Aplicadas, tendo abraçado por ideal o desenvolvimento acadêmicocientífico e literário de seus alunos, o que ele soube bem fazer ao fundar a “Revista Científica da Escola de Farmácia” (1924), a revista de poesias “Flor de Lótus” (1925) e a revista dos alunos universitários “Crisálida” (1926). Anos mais tarde, duas outras publicações estudantis sob sua iniciativa e orientação surgiriam ainda em Itapetininga, o “Acadêmico” (1934) e “Falena” (1954), esta última jornal dos alunos da Escola Normal Livre do município. Em entrevista com o seu primeiro biógrafo, o jornalista Edmundo Prestes Nogueira, Fabiano declarou que o título de “Athenas do Sul” conferido à Itapetininga naqueles idos, fora de sua feliz inspiração, porquanto então era crescente o número de educandários na cidade, bem como o fato de que muitos professores em exercício em São Paulo e em outros estados do país naquela época procedia de formandos da Escola Normal Peixoto Gomide. Fato, pois, é que Fabiano teve uma vida plenamente dedicada ao progresso, a educação, ao ensino, às artes e a ciência, mas em breve veremos que essa mesma vida também fora dedicada à defesa dos seus, da sua terra querida, da honra de seu estado e país, tal qual a sua próxima faceta nos revelará a seguir. Francisco Fabiano Alves: o soldado Estamos em 1922 e o suposto desafeto entre o presidente recém-eleito Arthur Bernardes e o Marechal Hermes da Fonseca provoca em militares do Exército Brasileiro um acirramento de ânimos que estopim foi para a revolta dos 18 do Forte de Copacabana. Repercussões graves desse acontecimento não chegaram 27


à pacata Itapetininga daqueles idos, mas constituíram substância tal que aliada aos demais descontentamentos relativos ao governo federal de então, formaram a massa crítica que inevitavelmente deslanchou a Revolução de 1924 em São Paulo. Sendo a segunda revolta tenentista depois do incidente do Forte de Copacabana, a Revolução Paulista de 1924 foi o maior conflito bélico já ocorrido na cidade de São Paulo. Comandada pelo general reformado Isidoro Dias Lopes, a revolta contou com a participação de tenentes do Exército Brasileiro que se rebelaram contra o governo do presidente Arthur Bernardes. Destarte, com o intuito de depor Bernardes à força das armas, os revoltosos decidiram iniciar a sua ação tomando controle do Estado de São Paulo, tomando-lhe a capital a 5 de julho de 1924. Dali, a meta era atingir o Rio de Janeiro, então distrito federal da república. Segundo Edmundo Prestes Nogueira (1987), a edição do Jornal Estado de São Paulo do dia 13 de Julho daquele fatídico ano retratava a desesperadora situação que se encontrava a capital bandeirante, sem ordem e sem governo, uma vez que a agressão dos invasores fora de assalto e fizera a população evadir-se espavorida para o interior do estado. Entretanto, o quadro na sua totalidade não era de total descontrole e nem de apatia. Em Itapetininga, o coronel Fernando Prestes de Albuquerque, então vice-presidente do Estado de São Paulo, deliberou em organizar uma força de reação composta por bravos itapetininganos que denominada fora de Coluna Sul. De acordo com Nogueira (1987), a Coluna Sul era composta dos batalhões Coronel Fernando Prestes e Ataliba Leonel, bem como de um Esquadrão de Cavalaria. O frenesi nos ares de Itapetininga por ocasião do recrutamento para a coluna era contagiante e o número de voluntários já passava de 3.000 homens de Itapetininga e cidades circunvizinhas da região. Ao professor da Faculdade de Farmácia e Odontologia Fabiano, pelas suas qualidades natas de liderança e iniciativa, coube o posto de capitão e o comando da 2º companhia do Batalhão Fernando Prestes. Seu primeiro-tenente foi o inspetor escolar José Francisco Marcondes e no posto de segundo-tenente o fazendeiro Jordão Thibes. Era chegada a hora de Fabiano deixar da pena e tomar da espada. E assim foi. Partícipe das ações que contribuíram para a retirada dos rebeldes de São Paulo e a conquista da cidade, o capitão Fabiano e sua companhia tiveram o batismo de fogo nas imediações de Itu, após terem tomado dos rebeldes a cidade de Porto Feliz. Segundo um contemporâneo seu, João Ayres de Camargo, o distinto oficial 28


portou-se com galhardia, motivando seus comandados a enfrentarem o inimigo com denodo, o que lhe valeu o seguinte elogio: O capitão Fabiano revela-se um guerreiro corajoso. Sua companhia está em plena linha de fogo, exatamente no terrível funil que os soldados passaram a chamar de garganta do diabo (NOGUEIRA, 1987, p.45). O sucesso obtido nessa ação, que ficou conhecida como Combate de Pantojo, possibilitou com que o Batalhão Fernando Prestes pudesse libertar Sorocaba e Votorantim dos revoltosos e ao avançar vitorioso em direção a capital, desalojar os efetivos rebeldes sob o comando do general Isidoro Dias Lopes. Com o fim da revolução de 1924 e a dissolução da Coluna Sul, pouco se sabe sobre Fabiano neste período até a Revolução de 1930, mas bem provável tenha sido que ele e seus companheiros combatentes retornaram à tranquilidade de seus lares, retomando assim aos afazares que outrora deixaram pela defesa da legalidade. Da participação de Fabiano na Revolução de 1930, Edmundo Prestes Nogueira no afirma na página 54 de seu “Heroísmo Desconhecido” (1987) que Fabiano nela particiou como oficial comissionado (provavelmente no posto de segundo ou primeirotenente), para batalhão da Força Pública do Estado de São Paulo (atual Polícia Militar do Estado), tendo marchado para as localidades de Apiaí e Ribeira.. Maiores informações sobre esse difícil período da vida de Fabiano não foram registrados pelos seus biógrafos, mas no que se refere à Revolução Constitucionalista de 1932, esta lançou novas luzes não só sobre a existência dele, como abriu caminho para conhecermos outros membros de sua família, não menos combativos e igualmente patriotas. É o que veremos a seguir. De fato, a Revolução Constitucionalista de 1932 trouxe memoráveis reflexos para a Itapetininga de então. Segundo o casal João e Teresa em “Memórias de Itapetininga” (2008) a movimentação armada daquele fatídico ano afetou o progresso da cidade, tanto na sua urbanização, quanto no seu crescimento educacional. Outrossim, quando a revolução irrompeu a 9 de julho daquele ano, os ânimos de Itapetininga já estavam por demais acirrados devido à conjuntura política desfavorável que não só este município, como todo o Estado de São Paulo, se encontravam imersos. Assim sendo, os preparativos para o combate iminente se 29


faziam ver por toda a parte. Voluntários afluíam de todos os rincões e arraiais e Itapetininga, pela sua privilegiada posição estratégica de acesso do sul do país à São Paulo, havia se tornado uma verdadeira praça de guerra. A atual sede da 2º Divisão Regional do Departamento de Estradas e Rodagem foi antes de o sê-lo, prédio de aquartelamento construído para sediar o 8º Batalhão de Caçadores Paulista (8º BCP), mas que na Revolução de 32 foi arvorado à condição de Quartel General do Exército Revolucionário do Setor Sul, em função daquela mesma posição estratégica. Segundo o livro “Memórias de Itapetininga” (2008), oitenta voluntários itapetininganos haviam partido para as linhas de frente em 25 de julho de 1932 e o Quartel General do Setor Sul passou a comando de Basílio Taborda, coronel de Artilharia do Exército Brasileiro. Levando em consideração o fato de que Fabiano já havia servido como oficial nas revoluções de 24 e 30, é quase certo de que tenha sido incluído no Exército Constitucionalista no posto de segundo ou primeiro-tenente para algum dos muitos batalhões de voluntários que a partir de 12 de julho daquele ano foram organizados em Itapetininga. Mas seja como tenha sido, Edmundo Nogueira afirma em “Heroísmo Desconhecido”, página 54, que o tenente Fabiano esteve presente e participou de ações de guerra nos municípios de Santa Rita da Extrema, Cambuí e em Bandeirantes, todos no Estado de Minas Gerais. Isto posto, na busca por maiores informações, viemos a tomar contato com familiares de Fabiano em Itapetininga e também na capital. Dentre esses familiares, podemos citar as pessoas de José Fabiano Almeida Alves, seu único filho, hoje residente em São Paulo; de Maria Teresa Alves Rolim e de Jomar Fabiano Alves, ambos sobrinhosnetos de Fabiano, residentes em Itapetininga. De seu filho José Fabiano Almeida Alves viemos a descobrir as informações constantes no início desse texto, mas particularmente ao período de estudos de Fabiano no Colégio São Luiz e outras informações que veremos mais adiante. No que compete a senhora Maria Teresa Alves Rolim, esta gentilmente nos forneceu informações e fotografias raríssimas não só sobre a pessoa do tio, mas igualmente de um irmão e das seis irmãs dele, os quais também combateram por São Paulo em 32. Com efeito, um dos irmãos de Fabiano, de nome Fábio Fabiano Alves, combateu como segundo-tenente na Revolução de 32 e que, segundo a senhora Maria Teresa, foi ele também membro da Comissão Roncador Xingú, responsável pelo desbravamento do Oeste 30


brasileiro, entre os anos de 1943 e 1949. Foi durante essa expedição que Fábio conheceu e privou da amizade de excelsos e lendários sertanistas brasileiros, entre eles, o marechal Cândido Mariano Rondon e os irmãos Vilas-Boas. Do exemplar do jornal itapetiningano, “Tribuna Popular”, compartilhado pela senhora Maria Teresa, viemos a descobrir que Fabiano fora o Diretor-Secretário desse mesmo jornal nos idos dos anos 40 e no seu nº 4951, edição de 17 de maio de 1944, consta artigo denominado “A Expedição Roncador Xingú” de autoria dele próprio sobre a comissão na qual o seu irmão Fábio pertencia. Mas não fora só o irmão Fábio que lutou por São Paulo. As seis irmãs de Fabiano, residentes em Itapetininga, a saber, Zulmira Fabiano Alves, Juliana Fabiano Alves, Lucila Fabiano Alves, Maria José Fabiano Alves, Maria Fabiano Alves, Jandira Fabiano Alves, também participaram, não empunhando das armas, mas cuidando de combatentes feridos que confluíam das diversas frentes e avolumavam as enfermarias e hospitais de sangue da cidade. Esta que acabamos de relatar foi a faceta do Fabiano, soldado, patriota, líder e partícipe de três revoluções consecutivas, ao final das quais ele pode novamente ser Francisco Fabiano Alves: o cidadão Com o final da revolução de 32, Fabiano retorna à Itapetininga, uma vez mais sobrevivente dos horrores da luta armada. Desta vez, porém, aguardava-o a jovem D. Maria de Jesus Almeida Camargo, com a qual se correspondia por cartas enviadas das frentes de combate e com quem se casou em 1933, vindo, naquele mesmo ano, a ter com ela o seu único filho, José Fabiano de Almeida Alves, nascido a 28 de outubro de 1933, um ano após o término da revolução. E não foi só essa alegria que o pós-revolução lhe trouxe. Com efeito, em conversa com o nosso amigo professor Cesário de Moraes Leonel Ferreira, aprendemos de sua obra “Uma História da Escola de Farmácia e de Odontologia de Itapetininga: retaliações de Getúlio Vargas à terra de Júlio Prestes?” (2004) que Fabiano tinha inclusive concluído, no ano de 1934, o curso de bacharelado em Farmácia, na própria EFOI que lecionava a largos anos. Com a paz, finalmente, Fabiano uma vez mais se encontrava à frente da sua carreira docente e nas décadas que se seguiram até a sua morte em 1990, várias gerações de itapetininganos estiveram 31


sob as auspicies de sua cátedra nos diversos estabelecimentos que lecionou em Itapetininga. Tanto assim o foi que hoje em dia mesmo não é difícil encontrar quem não tenha sido aluno do professor Francisco Fabiano Alves ou que conheça alguém que orgulhosamente não o tenha sido. Fato também é que Fabiano sempre fora muito partícipe da vida política, acadêmica e cultural de Itapetininga e por largos anos figurou entre os principais artífices das grandes decisões envolvendo o futuro e o bem estar da cidade. Com efeito, do Projeto de Lei nº 44/91, proposto pelo então vereador Omar José Ozi, no qual este propunha que a antiga rua 6 na vila Mazzei passasse a se chamar rua Professor Francisco Fabiano Alves, aprendemos que Fabiano não só fora professor de ciências físicas e naturais (química, física e biologia) no Ginásio de Itapetininga e na Escola Normal Peixoto Gomide. como também provedor da Santa Casa de Misericórdia do município e o primeiro Inspetor Federal da Faculdade de Ciências Contábeis da Associação de Ensino da cidade. Ademais, lemos nas páginas 181 e 221 do livro “Clube Venâncio Ayres: 121 anos de história” (2011) do nosso amigo e confrade do IHGGI, o Sr. Waldomiro Benedito de Carvalho, que Fabiano fora orador do Clube Venâncio Ayres sob a gestão dos presidentes Pedro Sabino Ayres (abril de 1931 a abril de 1932), do Prof. Ademar Soares (abril de 1940 a abril de 1941) e do coronel Antonio Vieira Sobrinho (abril de 1945 a abril de 1946) Já sob a gestão de Waldomiro de Carvalho, Fabiano ocupou a vice-presidência do Clube, entre maio de 1942 a abril de 1943. Além de consumado orador, Fabiano também era exímio enxadrista e nas competições do Clube Venâncio Ayres era presença constante ao lado de seu irmão e também enxadrista Joaquim Fabiano Alves. Em conversas com o seu único filho José Fabiano de Almeida Alves, este nos contou que seu pai fora ainda um dos responsáveis pela vinda do Tiro de Guerra para a cidade de Itapetininga, isso no ano de 1952, o que se concretizou com a Portaria Ministerial nº 075 de 13 de maio de 1952. Sob a denominação de Tiro de Guerra nº 293, esta organização militar iniciou a formação de sua primeira turma de atiradores naquela mesma data, turma essa composta de jovens nascidos no ano de 1933, dentre esses o próprio filho de Fabiano, o Sr. José Fabiano de Almeida Alves. Ademais, a PRD-9, a primeira Radio Difusora de Itapetininga, foi também resultante dos esforços de Fabiano e demais cidadãos 32


que se uniram e juntos trouxeram para a cidade mais esse avanço e importantíssimo meio de comunicação. Francisco Fabiano Alves: um nome, uma vida e uma obra Diante de tamanha e rica personalidade, é de se perguntar que outros fatos e informações encontram-se ainda por revelar sobre a pessoa de Francisco Fabiano Alves. Com efeito, não podemos dar aqui por encerrado este ensaio biográfico na premissa de que novos fatos acerca de sua rica personalidade não possam emergir nos anos vindouros. As descobertas sobre a sua pessoa, nas variadas facetas que aqui exploramos com alguma profundidade, quais sejam, professor, educador, orador, ex-combatente de três revoluções, intelectual primoroso, homem de visão, integridade, ação, coragem, iniciativa e atitude ao longo de 92 anos de vida, pois falecido foi a 13 de agosto de 1990, certamente não hão de parar por aqui de se manifestar e concitar outros estudos a respeito. Dos contatos que mantemos com a pessoa de seu filho, o Sr. José Fabiano de Almeida Alves, aprendemos que Francisco Fabiano Alves continua o seu legado por intermédio dele, dos três netos, o Sr. Alexandre Antonio Marcondes de Almeida Alves (afilhado), o Sr. Marco Antonio Marcondes de Almeida Alves e o Sr. Jose Fabiano de Almeida Alves Filho, e de seis bisnetos, a saber, Marco Antonio Marcondes de Almeida Alves Junior, Matheus Gustavo Rocha Marcondes de Almeida Alves, Mário Raphael Rocha Marcondes de Almeida Alves, Marina Rocha Marcondes de Almeida Alves, Marcelo Gabriel Rocha Marcondes de Almeida Alves e Paulo Henrique Marcondes de Almeida Alves. Quando da criação do Núcleo de Correspondência “Paulistas de Itapetininga! Às Armas!!” da Sociedade dos Veteranos de 32/MMDC, o nome de Francisco Fabiano Alves ornou a primeiríssima honraria da entidade, o Diploma de Honra ao Mérito Capitão Francisco Fabiano Alves, que desde a sua criação, a 12 de setembro de 2011, já foi conferido a quase uma centena de personalidades civis e militares, nacionais e até estrangeiras. Seu “heroísmo desconhecido”, tão felizmente resgatado por Edmundo Prestes Nogueira constituiu, sem dúvida, exemplo de caminho e conduta pelos quais toda uma geração de jovens entusiastas viveram e lutaram por uma Itapetininga, uma São Paulo e um Brasil que hoje podemos ter o privilégio de chamarmos de nossos, livres e prósperos. E a verdadeiros heróis como Francisco Fabiano Alves é que devemos esse inefável privilégio. 33


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Capítulo II Itapetininga Heróis Feitos e Instituições

Victório Nalesso

Verás que um filho teu não foge a luta!

Autoria de

Dirceu Campos 35


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Da chapadinha para a Itália

N

ascia a 4 de julho de 1922, no bairro itapetiningano da Chapadinha, o menino Victório Nalesso, filho do casal Moysés Nalesso e D. Anna da Conceição. Aos 8 anos de idade, iniciava Victório a sua escolarização no grupo escolar do bairro, atingindo o quarto ano do antigo curso primário, quando na adolescência, opta por se tornar padre, no Seminário dos Frades Capuchinhos, em Piracicaba. Naquele educandário da ordem franciscana, ele permaneceu como aluno nos anos de 1935 a 1938, quando certo ficou de que ser religioso não era a sua verdadeira vocação. Não obstante, do seu convívio com os frades, adquiriu o jovem Victório não só uma educação ampla e consistente, como também valores cristãos e humanitários que carregaria consigo ao longo de toda a sua vida. Agora vivendo no sítio com os pais e irmãos, ali ele permaneceu até ter sido convocado para a prestação do Serviço Militar Inicial, o que ocorreu em 1944, ano este que mudaria para sempre os rumos de sua até então pacata e simples vida. Era o mês de Fevereiro de 1944 quando Victorio Nalesso, aos vinte anos de idade, cruzava os portões de ferro do 5º Batalhão de Caçadores do Exército Brasileiro (5º BC), ocupante do atual prédio da 2º Diretoria Regional do Departamento de Estradas de Rodagem, na rua general Carneiro, em Itapetininga. Soldado recruta sob o número 983, pertenceu Victório à segunda companhia que após o período de instrução básica, já se encontrava na iminência de ser convocada para integrar a Força Expedicionária Brasileira (FEB) no maior conflito armado do século XX, a II Guerra Mundial (1939 – 1845). E foi exatamente o que ocorreu. A 7 de junho, efetivo de 150 militares do 5º BC seguiu para a capital do estado, onde passou por exames de uma junta médica. Dali, a 19 de junho, seguiram os selecionados para Caçapava, onde se encontravam outros efetivos em igual estado de mobilização para a FEB. Cumprida essa fase, o soldado Victório e seus companheiros, a 29 de julho, foram encaminhados para a Vila Militar, no Rio de Janeiro, sendo ali incorporado ao 11º Regimento de Infantaria (11º RI), originário de São João Del Rey, Minas Gerais. As horas e os dias passavam-se céleres e a preparação para a guerra foi rude e intensa. A ordem para seguir para o teatro de operações italiano havia finalmente sido dada e o segundo e terceiro 37


escalões da FEB estavam a caminho. E pertencente ao segundo estava o jovem Victório Nalesso. Com efeito, a 22 de setembro de 1944, partia do Rio de Janeiro, a bordo do navio norte americano General Meighs um efetivo de 5.345 homens, que neste vaso de guerra cruzou o oceano Atlântico até o porto italiano de Livorno, onde desembarcado foi a 8 de outubro daquele ano. Victório e seus companheiros foram rapidamente incorporados aos efetivos lá presentes, recebendo treinamento e adaptação ao fardamento, alimentação e armamento norte-americanos. Seu esperado batismo de fogo ocorreu pouco mais de um mês da sua chegada à Itália, a 24 de novembro, quando nesta jornada e na seguinte, a 25, avançaram as tropas brasileiras para a conquista do Monte Castelo, mas essa praça forte inimiga conseguiu ser tomada só no ano seguinte, a 21 de fevereiro de 1945, a custa de muitas vidas de brasileiros e aliados. Victório Nalesso, soldado pertencente ao 3º pelotão da 3º companhia do 1º Batalhão do 11º RI, presente esteve com a sua unidade em muitos combates, entre eles o mais sangrento já participado pela FEB – a tomada da cidade de Montese – nas terríveis jornadas de 14 e 15 de abril de 1945. Na vanguarda da libertação de várias outras cidades italianas do poderio nazi-fascista, o 11º RI foi também testemunha da rendição de toda uma divisão alemã, a 148ª Panzer, nos dias 28 a 30 de Abril, nas imediações de Parma. A partir daí as hostilidades no teatro de operações italiano foram se tornando cada vez mais rarefeitas. Mussolini fora fuzilado a 29 de abril e Hitler se suicidara a 3 de maio. A 8 desse mesmo mês, o tão aguardado e esperado término da II Guerra Mundial foi declarado. As tropas aliadas, no inesquecível dia 20 de maio de 1945, realizaram o desfile da vitória, na cidade de Alexandria. Marchou neste memorável desfile o soldado Victorio Nalesso, agora veterano de um sem número de entreveros, cicatrizado no corpo e na alma pelos horrores que vivenciou nas duras horas, dias, semanas e meses de tiroteios, estilhaços de granadas, sacrifícios e sofrimentos no frio das trincheiras, no fogo dos bombardeios e no rasgar da metralha. Impossível certamente é tentar descrever que lembranças foram essas que a sua memória resgatava à medida que o passo cadenciado e firme da tropa marchava pelas ruas de Alexandria, em meio à explosão de alegria e regozijo da parte de todos ali presentes. O que não podemos deixar de acreditar é que a esperança de retornar para a família que deixara no doce rincão de Itapetininga, de seu sítio e de sua chapadinha começava a aflorar depois de meses 38


hibernada no seu jovem coração de 23 anos de idade. Com efeito, foram ao todo 329 dias de guerra, os quais Victório Nalesso vivenciou de fio a pavio, só deixando a Itália a 4 de setembro de 1945, com destino ao amado Brasil, a bordo do mesmo General Meighs que para ali o havia trazido, há quase um ano atrás. Da guerra na Europa para a guerra na vida Após as emoções vividas no Rio de Janeiro na recepção que tiveram na chegada ao Brasil, bem como nas despedidas resultantes da dissolução da FEB, os veteranos agora finalmente seguiriam rumo ao lar, ao tão aguardado convívio dos seus. O mesmo se deu com Victório Nalesso, que chegou em Itapetininga às 23 horas do dia 7 de outubro de 1945, quando desembarcou do trem que seguiria adiante transportando os seus irmãos de armas dos estados do sul do Brasil. Na estação de Itapetininga, a emoção que contagiou a todos não poderia ter sido maior, porquanto o inesquecível reencontro do jovem veterano com os seus pais e familiares sinalizava o início de nova fase de toda uma vida, que outrora colocada em sacrifício fora, na luta pela liberdade e pela democracia. Dali a pouco mais de três dias, a 11 de outubro, Victório retornara à sua casa, na época um sitio no bairro da Chapadinha. A melhor descrição dos sentimentos que o tomaram ao nela adentrar pode-se ter ao ler as suas próprias palavras, publicadas no seu livro “Diário de um Combatente” (2005): Às 6 horas do dia 11 de outubro me arranquei a pé e fui para a minha casa no Bairro da Chapadinha, distante da cidade 9 quilômetros (...) Foi nesse dia em diante que comecei a voltar àquilo que era, vendo pai, mãe, irmãos, as vacas, os animais, os cachorros que me festejavam pulando e latindo devagar, fui entrando na minha casa adorada. Durante as muitas e muitas horas de inverno, de gelo e lama, lá na Itália, eu lembrava da comida quente, do cafezinho na hora que eu quisesse. Por simples que fosse, ali o conforto era completo e lá, dentro da mente, em todos os momentos, eu carregava uma pergunta “será que voltarei? (NALESSO et al., 2005, p.164) Mas o destino ainda lhe reservaria algumas outras surpresas. De fato, numa visita ao cemitério São João Batista, no dia de finados de 1945, conheceu Victório aquela que viria a ser sua esposa 39


e companheira para o restante de seus dias. Sua graça, D. Lucinda Nunes da Costa, residente no bairro da Chapada Grande, filha do Sr. Tonico Ricardo e irmã de seu grande companheiro da FEB, o veterano Benedito Nunes da Costa. Daquele dia em diante, iniciou Victório e Lucinda um namoro que, a 16 de fevereiro de 1946, os levariam a trocar alianças de casamento no altar, casamento esse que lhe concedeu os três filhos Ana Nunes Nalesso Bonifácio, Cleide Aparecida Nalesso e João Mateus Nalesso, e mais tarde, os netos Marcelo, Adriana, André e Lídia e os bisnetos Pietro, Cauan e Ettore. Destarte, a vida no pós-guerra seguiu o seu caminho para Victório propiciando-lhe além de uma feliz família, a oportunidade de trabalhar, crescer, evoluir e também de lutar pelo resgate das memórias, feitos e direitos seus e de seus irmãos pracinhas partícipes da II Guerra Mundial. Com efeito, nos primeiros cinco anos que se seguiram do seu casamento, Victório dedicou-se à lavoura. Como promessas realizadas pelo Governo aos ex-combatentes da FEB não foram cumpridas, Victório envia uma carta ao Presidente da República e, em resposta, recebe do governo oportunidades de ingresso em vários órgãos públicos do Estado de São Paulo, dos quais opta pela florescente Companhia da Estrada de Ferro Sorocabana. Tal ingresso se deu a 2 de janeiro de 1952, permanecendo Victório na Sorocabana até se aposentar em 1º de Agosto de 1975, aos 53 anos. O que este texto não teve a pretensão de resgatar foi a luta pelo e durante o primeiro emprego que Victório teve de enfrentar, este mesmo da Sorocabana, cujos desencontros, evoluções e peripécias, ele minuciosa e precisamente descreve nos capítulos XXVI e XXVII de seu livro “Diário de um Combatente”. Sugerimos pressurosamente a leitura de ambos os capítulos, na certeza de que o leitor terá uma idéia mais clara das dificuldades que um ex-pracinha passou para ter respeitado e garantido os seus direitos conquistados na participação como combatente de uma guerra mundial. Fato é que graças a uma determinação de aço e uma confiança inabalável em Deus, Victório Nalesso pode avançar e vencer não só nos campos de batalha italianos, como também nos da vida, servindo de exemplo e liderando outros ainda, ex-pracinhas como ele, que desconhecedores da realidade de seus direitos adquiridos, iam ficando pelo caminho do abandono, do esquecimento e da ignomínia por parte de governo que outrora deles tanto precisou para defender a honra brasileira perante as hostes nazi-fascistas. 40


Não obstante, fruto de muita luta junto ao Exército Brasileiro, conseguiu Victório ser o primeiro veterano de Itapetininga a receber uma pensão pelos serviços de guerra prestados, mas isto só a 1º de outubro de 1981. Em contrapartida, muitos de seus irmãos em armas, de Itapetininga mesmo e cidades da região, não tiveram igual benefício. Segundo ele, isso ocorreu por que muitos faleceram sem conhecerem os seus direitos. Também cheguei a presenciar filhos de ex-combatentes ficarem órfãos de pai e mãe, sem a pensão militar com que viviam e mantinham os seus estudos, alguns fazendo faculdade e outros o magistério (NALESSO et al., 2005, p. 203). Com a promulgação da Constituição Brasileira de 1988, os direitos dos ex-combatentes da II Guerra Mundial foram finalmente consolidados, mas não para muitos daqueles que não viveram o bastante para aguardar a passagem de quase cinco décadas de espera. Outrossim, Victório Nalesso continuou a sua caminhada, não se descuidando sempre de manter firme a sua fé cristã, a mesma que aprendera em casa, nas sábias e tenras palavras de seus pais Moysés e D. Anna; a mesma que cultivou na sua vida de fiel da Igreja Católica e que quase o consagrou padre capuchinho; a mesma que o motivou, depois de aposentado, ingressar na Conferência Vicentina da Sociedade São Vicente de Paula, bem como a continuar seus trabalhos em prol dos mais necessitados e crianças carentes na Conferência de Nossa Senhora Aparecida. Por esses serviços de desprendimento e humanidade, tanto na guerra como além desta, Victório Nalesso conquistou o reconhecimento e o carinho não só de todos que lhe privaram e privam da existência, mas da cidade de Itapetininga e de várias de suas entidades, as quais lhe prestam merecidas homenagens, sejam em datas cívicas de importância para o município, para o estado ou para o país, sejam nos momentos de resgate da história, onde seu nome é sempre lembrado para a concessão de palestras e participação em entrevistas. Um herói de Itapetininga A 5 de novembro de 2011, por ocasião das comemorações do 241º aniversário de Itapetininga, estivemos na avenida Virgílio de Resende como testemunhas do empolgante desfile cívico ali ocorrido. Qual não foi a nossa alegria ao presenciar a passagem de um carro de combate do Exército Brasileiro, tendo em seu interior, em local 41


de destaque, a pessoa de Victório Nalesso, a acenar para a população com a sua boina verde de veterano? Para nós que acompanhamos aquela inesquecível cena, era como se aquele calejado cidadão itapetiningano, então nos seus 89 anos de vida, tivesse retornado sessenta e seis anos no tempo, e no sorriso e na continência que ele prestou às autoridades quando por elas passou, estava ele ali, moço, no vigor dos 22 anos, uniformizado com o distintivo da cobra fumando no seu braço esquerdo, e no coração, o imorredouro ideal de um mundo livre e democrático. Esses e outros momentos, para quem como nós tem acompanhado a vida de Victório nos últimos anos, nos enchem de orgulho, porquanto trata-se de um filho de Itapetininga que não fugiu a luta e até hoje continua entre nós ativo, e principal divulgador do que esta ímpar cidade pode colaborar no maior de todos os conflitos armados do século passado. Atualmente, o veterano Victório Nalesso é o patrono do Portal dos Ex-Combatentes de Itapetininga (http://pec.itapetininga.com.br) e pela sua participação na FEB, foi ele agraciado com a Medalhas Cruz de Combate de 1º Classe, Guerra, Campanha, Heróis do Brasil, General Pitaluga e a Expedicionário, esta última concedida pela Associação dos Ex-Combatentes do Brasil – Seção São Paulo, a 29 de outubro de 2011. Cidadão Honorário da cidade italiana de Montese, onde combateu nas jornadas de 14 e 15 de abril de 1945 para libertá-la do jugo nazista, Victório Nalesso foi também agraciado com a Medalha Tributo a Batalha de Montese, da Academia Brasileira de Medalhística Militar, nas comemorações do Dia da Vitória, no Tiro de Guerra de Itapetininga, a 12 de maio de 2012. Os títulos de Colaborador Emérito do Exército Brasileiro e o de Sócio Benemérito do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Itapetininga também lhe foram conferidos e, a 2 de junho de 2012, no teatro do SESI Itapetininga, quando da noite de autógrafos de “Itapetininga: Heróis Feitos e Instituições”, receberá ele das mãos do nosso amigo Jefferson Biajone, o primeiro dos mil livros que foram impressos dessa obra, bem como especial homenagem pelos 90 anos de idade que completará a 4 de julho próximo. Que possa o presente capítulo deste livro servir-lhe de presente, ainda que singelo entre tantos outros que ele faz jus, como reconhecimento pelo exemplo de bravo soldado e humanitário cidadão, que ao longo de toda a sua brilhante e honrada existência, tem sido. Ao herói de Itapetininga e veterano Victório Nalesso, a nossa mais vibrante e efusiva continência! 42


Capítulo III Itapetininga Heróis Feitos e Instituições

Durvalino de Toledo

Aos camaradas blindado, aos amigos Filo

Autoria de

Jefferson Biajone 43


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Traquinadas do Destino

E

m uma das conversas que tivemos com o veterano de 32 de Itapetininga, o Sr. Francisco Vieira Trindade, “Chico Trindade”, viemos a descobrir, que além dele e do “Seu Nhová”, outro veterano de 32 de Itapetininga existia, mas que ele sabia ser falecido, lembrando-se apenas do seu nome, Durvalino. Por não sabermos de nenhum outro detalhe a respeito da pessoa desse ex-combatente, deu Chico Trindade por encerrado o assunto e mês e pouco se passou desde o nosso último encontro, sem que nada mais ouvíssemos dele sobre a pessoa de Durvalino. Não obstante, quando de nossa visita ao Cemitério Municipal de Itapetininga para o levantamento de maiores dados sobre a pessoa do professor Francisco Fabiano Alves, em fins de julho de 2011, viemos a conhecer os senhores Wilson Gomes de Almeida Júnior e Walter Luiz de Oliveira, sendo o primeiro funcionário público lotado no cemitério e o segundo advogado e ferroviário aposentado. Ambos mostraram-se muito solícitos à nossa busca por informações e nos ajudaram sobremaneira, sendo que o Sr. Walter nos apresentou a pessoa de Francisco Manoel Soares, o “Seu Chiquinho” como ele o chamava, funcionário aposentado da Prefeitura que tinha a particularidade de colecionar revistas, documentos antigos e livros raros relativos à história da cidade. Se alguma coisa a mais sobre o professor Fabiano quiséssemos elucidar, talvez o “Seu Chiquinho” poderia nos ajudar em face dos documentos e outras coisas que ele porventura tivesse guardado. Assim sendo, partimos para a casa de Chiquinho que pressurosamente nos recebeu e levou para conhecermos a sua biblioteca. Ali, de imediato, apresentou ele uma cópia do número 4 da Revista Câmara Aberta, ano 2, edição de janeiro de 1987, na qual constava uma fotografia de Francisco Fabiano Alves sem o uniforme de capitão da Coluna Sul na Revolução de 24, e logo em seguida, nos emprestou o livro “ Ontem - Hoje” (1986) do célebre pesquisador, escritor e historiador itapetiningano, nosso amigo Carlos Fidêncio. Foi ao folhear esse livro que as surpresas que nos aguardaram emergiram de forma incisiva, porquanto tais páginas não só nos revelaram um pouco mais sobre a vida de até de uma das irmãs de Fabiano, a D. Juliana Fabiano Alves, como no Apêndice II da obra, intitulado “Revolução de 32”, viemos a nos deparar com biografia relativa à pessoa de Durvalino de Toledo, o mesmíssimo veterano de 32 que Chico Trindade havia nos mencionado da existência, mas sem os maiores e precisos detalhes que naquela obra encontramos. Com efeito, ao retornarmos para casa, lemos de uma só 45


tomada a totalidade do capítulo “Blindado, o herói itapetiningano” do livro de Fidêncio que Chiquinho nos emprestou. Tomando por base as informações ali existentes, que colhidas foram pelo autor em depoimentos a ele prestados pelo próprio Durvalino de Toledo, em meados de 1985, elaboramos o ensaio biográfico que a seguir apresentaremos, como tentativa de lançar luzes sobre a história de vida dessa personalidade ímpar, cujos contornos e desenlaces realmente demonstram quão feliz e apropriada foi a escolha do título “ Blindado, o herói itapetiningano” feita por Carlos Fidêncio para ilustrar o capítulo que escreveu em seu livro. Um goleiro da Força Pública O nosso veterano de 32, Durvalino de Toledo, nasceu em Itapetininga, a 29 de janeiro de 1907, filho do Sr. Eugenio de Toledo e da Sra. Brasilia Maria do Espírito Santo, casal oriundo de família local humilde, honrada e trabalhadora, cujos membros gozavam de excelente saúde, otimismo, iniciativa, garra e desprendimento, porquanto o jovem Durvalino, desde os mais ternos anos, já demonstrava não só esses atributos, como exibia no largo sorriso, um enorme e generoso coração. Nesse ambiente prenhe de valores sadios, Durvalino cresceu e sua expressiva complexão atlética, altura e largas espáduas denunciavam uma força física incomum, que aliada a um profundo senso de responsabilidade, não tardaram para fazer dele destaque tanto na profissão de pedreiro que abraçou, quanto na prática desportiva na condição de goleiro do time de futebol do bairro. Suas habilidades no esporte não passaram desapercebidas dos colegas mais chegados, que o apelidaram de “onça” e que mais tarde não deixaram de recomendá-lo para integrar o time de futebol do 8º Batalhão de Caçadores Paulistas (8º BCP) da então Força Pública do Estado de São Paulo (atual Polícia Militar estadual). Com relação ao seu ingresso naquele time, Carlos Fidêncio, nos informa na página 372 de “Itapetininga Ontem - Hoje” (1986) que Durvalino por dois anos fora goleiro desse batalhão sediado em Itapetininga, até que, em fins de 1931, o comandante do mesmo determinou que se ele quisesse permanecer no time, teria que assentar praça na Força Pública. Seja como for, a paixão pelo futebol realmente falou mais alto e deixar a prática desportiva que tanto gostava seria algo impensável para um Durvalino na plenitude de seus vinte e quatro anos. Que sentasse praça, então! trocava a profissão de pedreiro pela de soldado da Força Pública, mas não deixaria o time do coração 46


que tantos gols já havia defendido e haveria ainda de defender. Provavelmente foram esses, sem dúvida, os pensamentos que povoaram a mente de Durvalino e o motivaram a envergar a mesma briosa farda cáqui de seus companheiros de futebol. Não obstante, desconhecia o jovem itapetiningano que dali a menos de um ano, a decisão de assentar praça lhe acarretaria participar do maior movimento cívico do Estado de São Paulo, a Revolução Constitucionalista de 1932. Da bola para o fuzil Quando da deflagração da Revolução Constitucionalista de 1932, na memorável jornada de 9 de julho daquele memorável ano, o prédio da atual sede da 2º Diretoria Regional do Departamento de Estradas e Rodagem de Itapetininga foi arvorado à condição de Quartel General do Exército Revolucionário do Setor Sul, sob o comando do insigne coronel de Artilharia do Exército Brasileiro Basílio Taborda. Foi neste prédio que o então soldado Durvalino muito provavelmente conhecera tanto a Francisco Trindade, quanto a Osvaldo Santiago, atualmente os dois últimos veteranos de 32 de Itapetininga em vida, e com eles travara sólida amizade, quando não marcharam ombro a ombro em um dos vários batalhões de voluntários que ali se formaram a 12 daquele mês. Seja como for, Carlos Fidêncio não soube precisar que batalhão pertencera o soldado Durvalino por ocasião da Revolução de 32, mas o então capitão Dilermando Cândido de Assis, oficial de estado maior das forças adversárias que enfrentaram nossos paulistas em Itararé, para onde Durvalino e cerca de oitenta outros companheiros seguiram a 15 de julho, relata na página 108 de seu livro “Vitória ou Derrota” (1936) que as unidades por São Paulo ali presentes eram o 8º Batalhão de Caçadores Paulista (8º BCP) e o 1º Regimento de Cavalaria Paulista. Ora, sendo Durvalino soldado de infantaria e tendo ele assentado praça no 8º BCP, chances plenas são de que ele tenha partido pertencendo à esta unidade tendo tido o seu batismo de fogo nas sangrentas trincheiras de Itararé, nas jornadas de 17 a 18 de julho. Nos combates desses dois dias, a historiografia militar nos conta que sagraram-se vitoriosas os nossos adversários, quer pela superioridade numérica de efetivos, quer pelo expressivo poder de fogo de artilharia, que nas palavras do próprio capitão Dilermando “mais de 12 bocas de fogo de 75mm atirando ao mesmo tempo” (ASSIS, 1936, P. 122) colocaram em retirada os defensores de Itararé, mas ficando como 47


prisioneiros 45 paulistas. Durvalino, porém, fora um dos que conseguiram retirarse com sucesso, mas não antes de resgatar companheiros feridos e enterrar outros mortos na véspera. O soldado blindado Caída a posição de Itararé, conta-nos a História Militar brasileira que vencida a primeira resistência do Setor Sul, seguiam o grosso do efetivo adversário em direção à Itapetininga, mas este não haveria de lograr o seu intento sem antes enfrentar a garra do soldado paulista. De fato, a segunda posição de resistência passou a ser agora em Ibiti, na qual reagrupadas foram as tropas constitucionalistas, mas novo revés sofreram em face do grande número de armas automáticas, farta munição, além do crescente efetivo de infantaria, cavalaria, artilharia e aviação inimigas. De Ibiti nossos paulistas recuaram para a estação ferroviária de Engenheiro Maia, dali para Itapeva e tomada esta, para o município de Buri, onde, nos dizeres de Carlos Fidêncio, eles “fincaram o pé” (p. 373) conseguindo então resistir ao avanço inimigo por algum tempo. Foi a partir dessa resistência heróica em Buri que Durvalino ganhou o apelido de Cabo Blindado. Com efeito, a palavra “Blindado” se refere ao temível trem blindado ou, como era mais conhecido entre a soldadesca inimiga, o “fantasma da morte”. Mas o que era essa composição de locomotiva e vagões tão pavorosamente apelidada pelos seus contemporâneos de então? Tratava-se de uma invenção do Exército Constitucionalista que tinha por objetivo alvejar os inimigos nas estações e/ou qualquer ponto da extensa malha ferroviária onde eles estivessem. Segundo o portal do Historiador Militar Carlos Dároz, o trem havia sido fabricado em Sorocaba e se tratava de uma composição formada por dois carros, um de cada lado da máquina e revestidos de aço (duas placas de aço entremeadas de pranchões de cerne de peroba duríssima). Camuflado (era pintado com listas de diversas cores), o trem possuia um com canhão de 75 milímetros e metralhadoras pesadas nos flancos, além de dois potentes holofotes na parte superior (esses dois holofotes atualmente se encontram na Estação Ferroviária de Buri). Tal máquina mortífera, a distância, aparentava ser um trem com qualquer outro, mas quando se aproximavam deste os soldados inimigos para tomá-lo, eis que as metralhadoras surgiam das várias 48


aberturas existentes em seus flancos e à larga abatiam quem quer que cruzasse o seu caminho, gerando cenas lúgubres melhor descritas por Fernando Penteado Medici, testemunha ocular de um desses abates, registrados em seu livro “O Trem Blindado” (1933) (...) Dois quilômetros e o inimigo à vista. Os homens avançavam, certos de que era um trem de mercadoria, ou de víveres (realmente, como estava disfarçado), e, em posição de atirar, ajoelhavam pelos trilhos. As nossas metralhadoras picotaram os inconscientes. A primeira impressão foi dolorosa. Pungente mesmo. Presenciar umas cenas destas. Tal ferocidade e audácia, guardadas as devidas proporções, também foram as características de maior relevo observadas no soldado Durvalino pelos seus superiores. Com efeito, o seu sangue frio e expressiva combatividade perante o inimigo, fosse no combate à distância de tiro de fuzil ou no cruzar do aço da baioneta, demonstravam que Durvalino não arrefecia na sua vigorosa disposição física para lutar e não desanimava diante dos reveses e das baixas que seu batalhão sofria. Forças lhe sobravam ainda para enterrar os companheiros mortos e ajudar a evadir aqueles que feridos se encontravam. Como resultado dessa conduta excepcional no campo de batalha, o antigo apelido dos tempos de goleiro da vizinhança “Onça” não demorou muito para ser merecidamente substituído pelo de “Blindado” e, sob essa nova autonomásia, ficou o soldado Durvalino conhecido como soldado blindado, cada vez mais arrojado nas escaramuças que enfrentava quase que diariamente com o inimigo. Durvalino na Legião Negra Se tais atributos de coragem e intrepidez não passaram desapercebidos aos que conviviam com Durvalino, também não passarem eles ao comando do Quartel General do Setor Sul, em Itapetininga, que determinou a transferência de Durvalino do 8º BCP para unidade que ficou conhecida como a tropa de elite do Exército Revolucionário, a saber, a Legião Negra. Com efeito, organizada em três batalhões de infantaria, a quase totalidade dos 3.500 soldados que a compunham eram homens de afrodescendência, na época ditos “homens de cor”, depois apelidados de “pérolas negras”. Munidos dos mesmos uniformes do Exército Constitucionalista, 49


a Legião Negra distinguia-se das demais tropas desse exército apenas no chapéu, que era de abas largas. Segundo depoimentos de Durvalino prestados à Carlos Fidêncio, somente dois oficiais de um desses três batalhões que o nosso herói pertenceu não eram afrodescendentes. O major comandante do batalhão e um tenente que comandava de uma das companhias (FIDÊNCIO, 1986, p. 374) No entanto, o que realmente caracterizava tal tropa de elite não era a cor da pele de seus integrantes, nem o tamanho da aba dos chapéus, mas o alto nível de combatividade dos mesmos perante os maiores perigos que arrostavam bravamente por São Paulo. Segundo o portal Piracaia.com, em artigo intitulado “Revolução de 32 – a parte negra de nosso história” jornais da época enalteciam a conduta da Legião Negra nos seguintes termos (...) Resistindo ao furor das hostes ditatoriais, muitas vezes enfrentando contingentes numericamente superiores, os bravos pretos não recuam nem se rendem. Tem sido assim o seu proceder em diversos reencontros, fatos que têm sido testemunhados com visível admiração pelos demais companheiros que combatem ao seu lado (...) Felizmente, muito do que foi registrado sobre a saga da Legião Negra não ficou restrito a jornais e depoimentos. De fato, duas obras, recentemente publicadas, lançam luzes sobre essa tropa e a contribuição dos paulistas afrodescendentes na Revolução de 32. Em 8 de julho de 2009, a Imprensa Oficial lançou “A Revolução Constitucionalista de 1932 em quadrinhos” de autoria do cartunista Maurício Pestana. Já em 20 de julho de 2011, se deu em São Paulo a noite de autógrafos de “A Legião Negra – A luta dos afro-brasileiros na Revolução Constitucionalista de 1932”, (Editora Selo Negro Edições), do jornalista Oswaldo Faustino. E foi justamente nessa unidade que tantas glórias trouxe para São Paulo que o soldado Durvalino veio a participar de uma ação de combate que o elevaria à categoria de herói constitucionalista e marcaria para sempre o restante de sua vida. Combate da Capela de Santo Antonio Pois bem, estavam Durvalino e seus companheiros de Legião estacionados em Buri quando ordens receberam para dali se deslocarem 50


para as proximidades de Capão Bonito, mais especificamente na localidade de Capela de Santo Antonio, conhecida pela população ali residente de “Pimirim” ou ainda, “Apiaí-Mirim”. As ordens recebidas no dia 25 de agosto de 1932 foram claras: expulsar as tropas inimigas que naquele arraial haviam se instalado desde o dia 23. Informações eram de que se tratava de uma tropa de cavalaria de pequeno efetivo, parcamente armada e municiada. Segundo o então capitão Dilermando Cândido de Assis, na página 265 de seu livro “Vitória ou Derrota” (1936), essa tropa era o 1º esquadrão do 9º Regimento de Cavalaria Independente (I/9ºRCI) que para ali fora estacionado com destino à Capão Bonito. Depoimentos de Durvalino à Carlos Fidêncio apontam que o efetivo do batalhão que ele servia era de 150 homens. Já o capitão Dilermando de Assis, na página 267 de seu livro, indica que a tropa de Durvalino chegava ao número de 300. Seja qual tenha sido o quantitativo numérico exato, fato é que ao redor das 7 horas da manhã do dia 27 daquele mês, deu-se o contato entre o batalhão de Durvalino e o I/9ºRCI. E a realidade do entrevero provou que os efetivos e meios bélicos das forças adversárias não eram parcos e muito menos diminutos. Com efeito, Carlos Fidêncio relata em seu livro que Durvalino e seus companheiros foram recebidos a tiros, porquanto estavam os inimigos fortemente armados, inclusive com metralhadoras de grosso calibre. A recepção aos soldados da Legião foi violenta. Um negro tombou aos pés de Durvalino. O oficial mandou: Enterre o homem! – Durvalino enterrou. Antes o transportou nas costas por 500 metros. (FIDÊNCIO, 1986, p. 374). De acordo com informações posteriormente colhidas desobreviventes desse ataque, o capitão Dilermando de Assis relata que as forças constitucionalistas atacaram o esquadrão “inopinadamente, com armas automáticas, envolvendo logo a povoação, matando um oficial, vários praças e muitos cavalos” (ASSIS, 1936, p.267). Já do lado dos paulistas, Durvalino relatou a Carlos Fidêncio que o tiroteio não cessava. A sede que inclusive Durvalino estava momentos antes do entrevero era insuportável e desejava ele saciá-la a todo custo. Foi quanto então ele solicitou ao major que o deixasse se deslocar até local ali perto onde ele sabia existir uns pés de laranja lima. O major, seu comandante, de imediato não aquiesceu. Seria arriscado, não queria perder Durvalino por causa de 51


algumas laranjas. Que agüentasse a sede. Mas este último insistiu e o oficial superior autorizou, mas que fosse rastejando. E assim foi o soldado blindado. Ao aproximar-se do pé, eis que Durvalino encontrava-se numa posição tal que podia ele contemplar a disposição das forças inimigas, as metralhadoras, atiradores e cavalgada, sem ser alvejado e muito menos visto. Isso ocorreu de tal forma que enquanto ele deitado saciava a sede com algumas das laranjas que encontrou ao solo, não conseguiu Durvalino conter o sentimento de indignação que se apossou de seu coração ao testemunhar essas mesmas metralhadoras atirando na direção de seus companheiros e abatendo vários deles. Era chegada a hora de virar o jogo. Retornou Durvalino às suas posições e de imediato relatou ao major o que tinha visto. Este ainda deliberou que antes de tomarem as metralhadoras por aquele caminho, que parlamentassem com os inimigos, demandando que depusessem das armas e se rendessem aos paulistas. Isto mesmo quem fez, segundo relatou Durvalino à Carlos Fidêncio, foi o próprio major, que na tentativa de parlamentar fora também recebido a tiros, um dos quais quase lhe decepou a orelha esquerda (FIDÊNCIO, 1986, p.379). Possesso pelo ataque sofrido, o comandante esbravejou ordens para que as metralhadoras fossem tomadas a todo custo. Durvalino convoca alguns de seus companheiros mais arrojados e rastejam pela picada que dava acesso até os pés de laranja e de lá avançam em uníssono na retaguarda do inimigo, matando a tiro e a baioneta os primeiros que encontraram, para daí tomar das metralhadoras, as quais viraram em direção dos demais elementos do esquadrão de cavalaria e dispararam até o último cartucho. As lúgubres cenas de morticínio que aí se registraram escapam do escopo historiográfico desse ensaio, mas refletiram sobremaneira nas palavras de Carlos Fidêncio quando ele afirma que Durvalino contabilizara dezenas de soldados legalistas abatidos (FIDÊNCIO, 1986, p.379) entre os quais, Dilermando de Assis confirmou um oficial, várias praças e o vultoso número de 43 cavalos mortos (ASSIS, 1936, p.268). Seja qual tenha sido o real número de mortos colhidos pelo fio da baioneta e pelo fogo da metralha, o soldado Durvalino e seus companheiros assaltantes da posição, ao final do disparo da última munição, puderam então contemplar o silêncio da morte que há pouco havia ceifado a vida dos últimos inimigos haviam resistido até o fim. A cena deve ter sido por demais impactante. Até mesmo para aqueles combatentes calejados como Durvalino, cujo simples olhar 52


ao redor das fumegantes metralhadoras, bastaria para divisar corpos desfigurados de homens e cavalos em total conluio sangrento e visceral no campo de batalha. Tomado de forte emoção, Durvalino senta-se no chão, levanta a cabeça aos céus e em meio àquele inferno que acabara de sobreviver, ele chora. Muitos de seus companheiros que com ele ombro a ombro ali se bateram e sangraram também fazem o mesmo. E não era para menos. O preço daquela vitória, sem sombra de dúvida alguma, fora alto demais para todos que ali presenciaram os horrores vividos tão intensamente, que forçados somos a crer, que pena alguma seria capaz de descrever em toda a sua plenitude e extensão. Cabo Blindado As notícias da derrota do I/9ºRCI em Capela de Santo Antonio impulsionaram o comando das forças adversárias a multiplicarem os seus recursos humanos e bélicos objetivando apertar o cerco sobre os constitucionalistas em direção à tomada de Capão Bonito, o que desejavam a todo transe e finalmente conseguiram, após a vitória que obtiveram em um dos mais sangrentos entreveros de toda a revolução, o Combate do Rio das Almas, nas trágicas jornadas de 17 e 18 de setembro de 1932. Alheios ao que o futuro o aguardava, o batalhão da Legião Negra que Durvalino pertencia se retirou da Capela de Santo Antonio e seguiu a cumprir outras missões que os depoimentos prestados à Carlos Fidêncio não mencionaram, mas o reconhecimento obtido por Durvalino em face do combate de Apiaí-Mirim não ficou esquecido. Em menos de 24 horas após o término desse combate foi Durvalino promovido por bravura à graduação de cabo. Com efeito, diante da intrepidez, iniciativa e coragem incontestes sob fogo inimigo demonstrados por Durvalino, o major comandante o fez ascender à graduação de cabo e tal promoção, nas condições que a geraram, colaborou ainda mais para aumentar o prestígio que Durvalino já gozava entre seus pares na Legião. E a antiga autonomásia, soldado blindado, fora atualizada pela novíssima graduação militar, a saber, cabo blindado. Outrossim, os depoimentos de Durvalino prestados a Carlos Fidêncio sobre a Revolução de 32 chegam ao seu fim após o cabo blindado ter participado do Combate do Rio das Almas, durante quatorze dias, ao fim dos quais Durvalino foi removido para São Paulo, onde aguardou a assinatura dos termos do Armistício que ocorreu no dia 2 de outubro de 1932. 53


Estava a revolução acabada para o intrépido combatente. Aos vinte e cinco anos de idade, sobrevivente dos horrores que viveu e presenciou, Durvalino de Toledo ainda era membro da briosa Força Pública de São Paulo e poderia continuar a sua carreira policial militar se assim desejasse. Mas optou por ser licenciado a pedido da corporação e retornar ao berço de sua existência, a Itapetininga que deixara para combater por São Paulo, nos dolorosos três meses da revolução. E como veremos a seguir, o veterano Durvalino tinha muito mais do que pudesse imaginar lhe esperando em Itapetininga. Para os amigos Filo Anos antes de ingressar na Força Pública, é sabido que a 30 de abril de 1927, Durvalino casara-se com moça itapetiningana chamada Maria da Silva. Vieram, pois, os anos da Revolução de 32 e as agonias das incertezas de que Durvalino voltaria vivo ou não desse conflito não foram fortes o bastante para arrefecer o amor do jovem casal. Tanto assim o foi que dessa feliz união nasceram oito filhos, dos quais, até a publicação deste livro em 2012, vivos entre nós se encontram a primogênita D. Maria Francisca Toledo, que reside no Rio de Janeiro; D. Vera Leonardo, que reside em Santos; e o caçula do casal, o Sr. Eugenio de Carmo Toledo, residente no bairro Santana, em Itapetininga. Destarte, as informações que seguem sobre a vida de Durvalino de Toledo no anos pós-revolução nos foram gentilmente transmitidas por esse seu filho caçula, o Sr. Eugenio, que muito nostalgicamente relembrou de fatos sobre a vida de seu pai, fatos esses que se confundiram com a própria história de Itapetininga. E realmente assim o foi. Era 12 de agosto de 2011, quando caminhávamos em direção ao bairro do Santana em busca de familiares de Durvalino. A única informação que tínhamos era de que logo depois do supermercado COFESA, na rua Antenor de Oliveira Mello Júnior, haveria um viaduto com o nome de nosso veterano. Em conversa com Carlos Fidêncio, familiares do veterano estariam inclusive residindo naquelas imediações. Ao passar sobre o viaduto, eis a primeira de várias revelações que nos estavam reservadas para aquele dia. O nome de Durvalino ali estava consignado ao lado do título “ex-ferroviário”, portanto, no pós-revolução certo seria que fora essa a profissão adotada pelo nosso veterano. E tais suposições foram confirmaram. 54


Após algumas informações, encontramos a casa onde residiu Durvalino até falecer em 1º de Janeiro de 2001 e à porta desta, localizada exatamente na esquina da rua Santana com a rua Antonio de Almeida Leme, um de seus bisnetos, o jovem Alef Durvalino de Toledo Custódio. Apresentamo-nos a Alef e muito interessado ele ficou em colaborar com o nosso trabalho. De imediato, ele nos contou do tio Eugenio, único filho de Durvalino residente na cidade e nos levou até a residência dele, na parte alta do bairro Santana, onde na tarde daquele dia 12, passamos agradáveis horas conversando. Muito prestativo nas informações que compartilhou, o Sr. Eugênio nos deixou à vontade para compreender de fato quem veio a ser o Durvalino de Toledo após a Revolução de 32. Com efeito, Durvalino havia se desligado a pedido da Força Pública e ingressado na Companhia Ferroviária Sorocabana, onde fez carreira e se aposentou no final dos anos 50. Durante o período que trabalhou na Sorocabana, Durvalino não deixara também de exercer a sua primeira profissão, a de pedreiro, vindo no bairro de Santana a construir 28 casas. Como ferroviário, contudo, foi graxeiro e também truqueiro, funções que desenvolveu com bastante proficiência e profissionalismo, não só pelos conhecimentos técnicos que detinha, porquanto era responsável pela manutenção mecânica dos trens, como também pela necessária força e disposição física para a competente condução desses trabalhos realizados em trens de lenha, inclusive. Paralelamente às profissões de ferroviário e pedreiro, uma outra face de Durvalino surgiria nos anos após a Revolução e que muitos benefícios traria àqueles que privaram de seus cuidados e amizade. Na realidade, essa era a face da paixão pelo futebol que ele sempre tivera desde menino e que, a bem da verdade, nunca dificuldade alguma que enfrentara ao longo da vida conseguiu abafar. Eugenio, seu filho primogênito, tornou-se seguramente um apaixonado pelo futebol graças à influência do pai, fundador e técnico de vários times de futebol na cidade. Durante os anos 40, Durvalino foi também goleiro da Associação Atlética de Itapetininga e nos anos que se seguiram após o seu afastamento como jogador, dedicou-se ele a fundar times de futebol. De fato, o time do bairro Santana foi de sua inspiração e tamanha era a dedicação que tinha pelo desenvolvimento do esporte naquele bairro que Durvalino não só criava o time, mas fornecia uniforme, alojamento e até alimentação aos jogadores. De sua participação no esporte de Itapetininga, ele ainda 55


promovia a cada treze de maio, partidas de futebol entre times de jogares afrodescendentes com jogadores não afrodescendentes. Segundo Eugenio, até uma foto autografada pelo Rei do Futebol, Pelé, Durvalino recebeu das mãos deste, quando se conheceram anos atrás. Mas as paixões de Durvalino não residiam só no futebol. Era ele de fato um homem do povo e para o povo. Tudo que fazia era reconhecidamente em prol das pessoas de Itapetininga, em especial a sua juventude, e até o fim da vida, em 2001, não poupou esforços para ajudar no que pudesse os seus semelhantes. De fato, fora Durvalino comissário de menores, inspetor de quarteirão, presidente da Frente Negra de Itapetininga, presidente do Clube 13 de Maio, um dos fundadores da Escola de Samba Aristocrática do bairro de Santana, e ainda um dos fundadores e presidente da Associação de Amigos desse mesmo bairro. Por esses e outros feitos, Durvalino não deixou de ser merecedor do reconhecimento de seus concidadãos, sendo agraciado com a Medalha do Mérito, conferida pela Câmara Municipal de Itapetininga, em resposta ao decreto nº 159 de 5 de abril de 1988. Da sua participação na Revolução de 32, Durvalino recebeu a Medalha do Cinquentenário da Revolução Constitucionalista de 32 e seu respectivo diploma, honrarias que ao lado de outras tantas recebidas em vida, seu filho Eugenio hoje divulga e guarda com enorme carinho. Um herói afrodescendente para a posteridade Eis uma personalidade cujo esboço de vida tivemos o privilégio de retratar. A de homem de Itapetininga simples, humano, bondoso, forte, generoso e sábio pela escola da vida, pelas intempéries da existência, pelo valor e bravura demonstrados e pelos horrores vividos dos campos de batalha. Tão sábio fora Durvalino aos olhos de seus amigos e admiradores que conhecido era por um quarto e último apelido, qual fosse, o de “filo”, que advinha de filosofia. Com este último, completamos a lista de autonomásias que Durvalino colecionou ao longo dos 94 anos que viveu: onça, soldado blindado, cabo blindado e filo. Todas faces de um mesmo homem, de um mesmo ser humano que humano soube ser em todas as ocasiões de sua vida. Mas essa sua vida não terminou com o seu inesperado 56


falecimento em 2001. Com efeito, dez anos depois, a 10 de outubro de 2011, seu nome foi atribuído a uma honraria criada pelo Núcleo de Correspondência “Paulistas de Itapetininga! Às Armas!!” (NCPIAA), sucursal da Sociedade dos Veteranos de 32/MMDC em Itapetininga que concedida foi a integrantes afrodescendentes das Polícias Civil e Militar, Bombeiros, SAMU, Guarda Municipal, profissionais da enfermagem da rede pública de Saúde e da Associação Afro Cultural 13 de Maio, todos de Itapetininga, em memória aos combatentes afrodescendentes que lutaram por São Paulo e pelo Brasil na Revolução Constitucionalista de 1932. Tal concessão ocorreu durante a celebração do evento “Consciência Negra Constitucionalista”, idealizado e promovido pelo NCPIAA e realizado na Câmara Municipal, a 24 de Novembro de 2011, que além da concessão da honraria, contou com palestra sobre a vida de Durvalino de Toledo proferida por nós, bem como discursos de autoridades de forma a lhe prestar póstumas homenagens. Acreditamos ser de relevância histórica para as gerações futuras, deixar consignado na página seguinte a relação completa dos agraciados com a honraria Diploma de Honra ao Mérito Cabo Blindado Durvalino de Toledo, que a receberam das mãos do Sr. Eugenio de Carmo Toledo, nessa memorável noite da celebração da Consciência Negra Constitucionalista, em memória à pessoa de seu pai, Durvalino de Toledo, verdadeiro herói e cidadão itapetiningano.

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Diploma de Honra ao Mérito Cabo Blindado Durvalino de Toledo Solenidade da Consciência Negra Constitucionalista .: 24 de Novembro de 2011 :. Polícia Militar do Estado de São Paulo Cabo PM Benedito de Souza e Soldado PM Edson Antonio Cipriano Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo Cabo PM Sandro Aparecido Oliveira Santos Soldado PM Mauricio Lima Carvalho de Campos Polícia Civil do Estado de São Paulo Investigador de Polícia Reinaldo Gilberto de Campos Guarda Municipal de Itapetininga Guarda Municipal Marlon Gomes da Cunha Lourenço Guarda Municipal Eduardo Ferreira da Silva; Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) de Itapetininga Técnico de enfermagem Flávio Francisco dos Santos Rádio operador Reginaldo Carlos Nogueira Rede Municipal de Saúde Enfermeiro José do Carmo Mello Técnico de enfermagem Daniel Espírito Santo Tiro de Guerra 02-076 de Itapetininga Subtenente João Iran Costa e Atirador Samuel Mariano de Lima Câmara Municipal de Itapetininga Vereador Fuad Abrão Isaac e Vereador Dudu Franco Associação Afro Cultural 13 de Maio de Itapetininga Hilda Garcia, Benedita Correa, Benedito Martins Mário Antonio da Silva e Alef Durvalino de Toledo Custódio Movimento Negro do PTB de São Paulo Professora Odette Carvalho Sociedade dos Veteranos de 32/MMDC Coroneis PM Edilberto de Oliveira Melo e Mário Fonseca Ventura Fundação Cultural Palmares Presidente Elói Ferreira de Araújo Organizações Pelé Edson Arantes do Nascimento - Rei Pelé 58


Capítulo IV Itapetininga Heróis Feitos e Instituições

Edmundo Prestes Nogueira

Bravo da pena, paladino da verdade

Autoria de

Edmundo José Vasques Nogueira 59


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Menino de Pirapitingui

E

dmundo Prestes Nogueira nasceu no dia 09 de março de 1933, na cidade de Piracicaba. Filho de Dirce Prestes Nogueira e Joaquim Passos Nogueira, Edmundo teve uma infância pobre, mas muito feliz, em Pirapitingui, ao lado de seus oito irmãos: Reinaldo, Therezinha, Dirceu, Clóvis, Carlinhos, Rodolfo, isabel e Ana. Seu pai era chefe da estação ferroviária local, onde existia o “leprosário” de mesmo nome, um dos poucos hospitais que tratavam os portadores de Hanseníase na época. Apesar do casal ser humilde e ter poucos recursos, Joaquim e Dirce tiveram a sabedoria de providenciar um futuro melhor para seus filhos: ficaram apenas com as meninas e logo cedo encaminharam os filhos homens para o Exército e para o Mosteiro Carmelita, ambos na cidade de Itu. Era a única chance de proporcionar os estudos e uma boa educação para aquelas crianças. Foi desta forma que Edmundo seguiu para o Seminário Nossa Senhora do Carmo aos 11 anos, onde pôde crescer “de corpo e alma” num ambiente de fortes valores cristãos que vieram a marcar seu pensamento e seu espírito para o resto de seus dias. Nos dez anos que seguiram, Edmundo teve o privilégio de receber uma sólida formação em Sociologia e Filosofia, além de aprender os idiomas Grego, Latino, Francês e Português em profundidade. Após a conclusão do Curso Colegial do Seminário, foi para o Instituto Superior da Ordem Carmelita, em São Paulo, onde cursou Filosofia e iniciou Teologia. Após se formar, lecionou por dois anos Latim e Português no Colégio São Bento. Mas o destino de Edmundo era outro. Seu carisma pessoal, seu dom para escrever e sua fluência nas palavras faziam dele o homem certo para o ofício da comunicação. Porém, o jovem Edmundo ainda não sabia disso: deixou o Instituto Superior Carmelita para cursar a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo, onde ingressou com destaque, devido a sua sólida bagagem cultural. Neste momento entra em cena o humilde Joaquim Passos Nogueira, com toda a simplicidade daqueles que são guiados pelas mãos de Deus. Edmundo ainda era um rapaz tímido e precisa arrumar um emprego para poder sustentar-se e cursar a Faculdade. Joaquim vem do interior, pega o filho pela mão e segue para o centro da capital a fim de procurar um emprego. Ao adentrar o prédio do jornal “O Estado de São Paulo”, na rua Major Quedinho, Joaquim e mais o filho tomam o elevador e sobem até a sala da diretoria do jornal, onde Joaquim pede a secretária para “falar com o dono”. 61


Numa situação curiosa, Joaquim e Edmundo são recebidos por Júlio Mesquita Filho, que houve atentamente Joaquim falar das virtudes do filho, que com certeza seria um excelente funcionário para o jornal. Resultado da “conversa”: contratado como revisor de propagandas, Edmundo acabava de iniciar sua carreira como funcionário do jornal “O Estado de São Paulo”, onde trabalharia nos próximos 24 anos de sua vida. Da revisão dos anúncios para a revisão de matérias jornalísticas, em pouco tempo Edmundo conquistou um espaço na redação do “Estadão”. E logo na primeira oportunidade virou repórter, “setorista” da Prefeitura Municipal de São Paulo. Assim começou a carreira jornalística de Edmundo, que teve como mestre, entre outros grandes nomes, o poeta Menotti Del Picchia. E foi a redação do jornal “Estadão” o berço das grandes amizades que acompanharam Edmundo em sua brilhante trajetória de vida. Entre estas amizades estão a própria família Mesquita, que, como os outros funcionários do jornal, aprenderam a gostar daquele dedicado jornalista que cumprimentava e conversava com todos, sem fazer distinção, do porteiro aos proprietários da empresa. Dedicação à família e ao próximo Em 21 de agosto de 1958, sua família passou a residir na cidade de Sorocaba, para onde Edmundo viajava nos finais de semana. E foi num destes finais de semana, num baile do Sorocaba Clube, que Edmundo conheceu a grande paixão da sua vida, Cecília Pimentel Vasques, jovem professora da cidade de Itapetininga. Cecília também se apaixonou por ele e aquele baile deu início ao namoro dos dois. Edmundo e Cecília se casaram no dia 31 de janeiro de 1965. Eram tempos difíceis para o jornalismo. O governo militar iniciava suas restrições ao trabalho jornalístico e introduzia a censura nas redações. Foi dentro deste cenário que Edmundo aceitou um novo desafio: participar do projeto de expansão do jornal, chefiando uma inspetoria na cidade de Itapetininga. Ao lado de seus amigos René, de Bauru e Paterline, de Ribeirão Preto, Edmundo foi um dos grandes responsáveis pelo prestígio e credibilidade do jornal “O Estado de São Paulo” no interior paulista. A inspetoria do “Estadão” em Itapetininga era responsável por toda a região sul do país. Como Inspetor Regional, Edmundo coordenava as áreas de correspondentes, agentes comerciais, transportes e comunicação, contando com a ajuda de seu cunhado José Pautilo Pimentel Vasques, recém-casado com a professora Marli 62


Giaotto Vasques. Mas o coração do jornalista sempre bateu mais forte. Nas suas viagens constantes pelas cidades da inspetoria inúmeras matérias e reportagens eram publicadas nas páginas do jornal, mostrando para todo o Brasil como era a nossa região: por onde passou, ficou conhecido pelo apelido de “Edmundo do Estadão”. Já era o final da década de 1960 quando dois acontecimentos marcaram a vida de Edmundo: o nascimento de seu primeiro filho, Edmundo José e a causa “Barra Mansa”. Nesta época, paralelamente ao trabalho no jornal “O Estado de São Paulo”, Edmundo também advogava, assumindo, junto ao advogado e amigo Antonio Souto Labrunetti (que futuramente veio a ser juiz na cidade de Sorocaba) a causa de pobres colonos sem dinheiro algum, que viviam em sistema de caracterizada escravidão na fazenda “Barra Mansa”. Tantos foram os obstáculos colocados pelos proprietários da fazenda que foi necessário solicitar ajuda ao Exército, que enviou um contingente de militares para possibilitar a entrada na fazenda do perito que realizou a prova pericial, cumprindo-se assim a ordem judicial. Edmundo, com a ajuda do amigo e jornalista Alberto Isaac, tornou o caso conhecido em todo o Brasil, publicando nas páginas do “Estadão” reportagem com a manchete: “Fazenda esconde Miséria”. O Processo “Barra Mansa” demorou mais de dez anos para ser concluído, dando vitória aos trabalhadores da fazenda e mudando a vida de dezenas de famílias que eram exploradas pelas injustas condições de trabalho. Além de sua carreira como advogado, na qual foi eleito presidente da 43º Subsecção da Ordem dos Advogados do Brasil, Edmundo também foi professor do curso de Comunicação Social da Fundação Karnig Bazarian, lecionando por vários anos no ensino superior. Em 1972, um fato veio a abalar muito o lar dos Prestes Nogueira: o falecimento do segundo filho, Luciano, ainda bebê, de broncopneumonia. Edmundo, apesar de uma forte depressão ter abatido Cecília, Edmundo, com seu otimismo e sua fé em Deus inabaláveis, seria o alicerce para a superação daquele trauma familiar. Cecília era professora da classe especial para deficientes auditivos na escola de 1º e 2º Grau Cel Fernando Prestes. Nessa época (início da década de 1970) era muito comum o encaminhamento para tal classe de todo o tipo de deficientes mentais, uma vez que na percepção dos pais daquelas crianças, elas eram apenas surdas ou mudas. A grande maioria destes casos era de famílias muito pobres, sem as mínimas condições de buscar qualquer tipo de ajuda fora de Itapetininga. Desta forma, aquelas crianças ficavam sem perspectiva 63


nenhuma de tratamento, estando sujeitas a incompreensão até dos próprios pais. Esta situação levou o casal Edmundo e Cecília a levantarem a bandeira da Fundação da APAE de Itapetininga. Com a ajuda de amigos, de pessoas envolvidas com a causa dos deficientes e o apoio da comunidade em geral, em julho de 1973 a APAE de Itapetininga iniciava suas atividades, entidade cujos frutos até hoje são colhidos por estas pessoas tão especiais. Em 1975 a família Prestes Nogueira teve uma das suas maiores alegrias: o nascimento do terceiro filho do casal, Luís Francisco. Em 1977, Edmundo e Cecília conseguem concluir a construção da casa da família, cujo fiador do empréstimo levantado junto ao Banco Nossa Caixa foi Júlio de Mesquita Neto. Mas a vida do inspetor do jornal não era nada fácil: devido a abrangência da regional, Edmundo passava seus dias viajando pelas centenas de cidades pelas quais era responsável. Sua dedicação lhe rendeu inúmeros prêmios e muitos Troféus “Ex-Libris”, em reconhecimento pelo trabalho que realizava no jornal. Também foram inúmeros os acidentes automobilísticos pelos quais passou ( num deles a Rural Willis capotou e pegou fogo logo após Edmundo e o motorista saírem do veículo – sua recuperação física durou meses ). Edmundo já estava cansado daquela desgastante rotina, que o afastava daquilo que ele mais prezava: o convívio de sua família. Talvez, aquele homem que era só coragem, tenha tido o medo de não ver seus filhos crescerem. Foi com esta forte motivação pessoal que Edmundo veio a se desligar do jornal “O Estado de São Paulo” e fincar suas raízes definitivamente na cidade de Itapetininga. Nesta nova fase, ele finalmente viria a dedicar-se mais a família e a religiosidade, participando ativamente de vários movimentos da Igreja Católica, como o Cursilho, Os Vicentinos, O Instituto São Paulo Apóstolo, entre outros, além de ser Ministro da Eucaristia e Irmandade do Santíssimo. Em suas atividades na igreja, além do apoio de Cecília, Edmundo contava sempre com os cunhados Pedro Ayres e Therezinha Pimentel Vasques Ayres. Era o início da década de 1980. Não muito depois, Edmundo iniciou seu trabalho como Assessor de Imprensa da Câmara Municipal de Itapetininga. Itapetininga na Imprensa Uma das características principais de Edmundo era o seu envolvimento com a comunidade. Aproveitando seu trabalho na Câmara Municipal, Edmundo passou a desenvolver projetos que viessem a 64


divulgar positivamente a cidade de Itapetininga. Sempre contando com a ajuda de seus amigos jornalistas do Estadão (muitos dos quais já haviam se espalhado por toda a imprensa brasileira), Edmundo criou e desenvolveu os famosos “Seminários de Jornalismo de Itapetininga”, que em suas nove edições conseguiu trazer para Itapetininga os maiores nomes do jornalismo brasileiro.O evento se caracterizava por ser aberto e gratuito. Realizados desde 1985 pela Câmara Municipal, pela Casa da Cultura e pela Associação dos Jornalistas e Radialistas da Região de Itapetininga, os Seminários de Jornalismo despertaram a população local para os grandes temas nacionais. Estudantes, profissionais liberais e populares debatiam diretamente com os jornalistas convidados. Quem não podia ir ao auditório da Câmara, ouvia pelas rádios que levavam o Seminário para as 42 cidades da região. Em Itapetininga, as pessoas também acompanhavam pela SP SUL TV, o canal de TV Comunitária local. Os amigos Celso Prado (1985-1986), Antonio Camargo Ferreira (1987-1988), José Rubens de Mello Leonel (1989-1990) e Omar José Ozi (1991-1992 e 1995) foram os presidentes da Câmara Municipal de Itapetininga que viabilizaram os Seminários de Jornalismo. Edmundo também contou com o auxílio imprescindível dos jornalistas e amigos Carlos José de Oliveira e Silas Guering Cardoso. O Iº Seminário teve 10 palestras. Miguel Jorge, então editorchefe do “Estadão”, abriu com o tema O que é um Jornal; Clóvis Rossi, O que é Jornalismo; Ricardo Kotscho, Coberturas Especiais; Lourenço Diaféria, A crônica como gênero jornalístico; Laerte Fernandes, A função social do jornal; Percival de Souza, A notícia policial; José Maria Mairink , Jornalismo de Pesquisa; Marcos Faerman, A reportagem como núcleo central de jornalismo; Audálio Dantas, então presidente da FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas), Legislação e Sindicalismo. E encerrando Boris Casoy que falou sobre Jornalismo de bastidores. O IIº Seminário teve como tema a Economia. Participaram Marco Antonio Rocha, Rolf Kuntz, Bernardo Kucinski e José Serra. O IIIº, no ano de 1988, discutiu a Constituinte. Vieram para Itapetininga Florestan Fernandes, Alberto Goldman, Irede Cardoso e Miguel Colassuono. O IVº Seminário discutiu Os Novos Rumos do Jornalismo na Televisão, com Celso Kinjô, da Rede Globo, Albino Castro, do SBT, Murilo Antunes Alves, da TV Record, Nei Gonçalves Dias, da Bandeirantes e Carlos Nascimento, então da TV Cultura. O Vº Seminário de Jornalismo reuniu temas específicos, com Luiz Fernando Emediato, Ethevaldo Siqueira, Eduardo Martins e novamente Ricardo Kotscho. 65


O VIº Seminário teve dois temas: Jornalismo Agrícola com Humberto Pereira e José Hamilton Ribeiro; e Jornalismo Esportivo, com Juares Soarez e Dalmo Pessoa. O VIIº teve por tema Os Desafios e Modernidade dos Veículos, e trouxe a Itapetininga Júlio Moreno, da Agência Estado, Ernesto Paglia, da TV Globo, Nirlando Beirão, do “Estadão” e Hélio Campos Melo, da Agência Estado. O VIIIº realizou-se em novembro de 1992, com o tema O Papel da Imprensa na Sociedade Democrática, e teve como palestrantes os jornalistas Mário Vitor dos Santos, Ombudsman do jornal Folha de São Paulo, Caco Barcelos, repórter da TV Globo, Luciano Martins, editorexecutivo do “Estadão” e Celso Russomano, do SBT e da TV Gazeta. Em 1995, já sem Edmundo entre nós, tivemos o IXº Seminário de Jornalismo de Itapetininga, que a partir deste ano, em homenagem ao seu criador, passou a denominar-se “Seminário de Comunicação Edmundo Prestes Nogueira”, tendo por tema A Mídia e o Interior, contando com a presença de jornalistas dos veículos de maior expressão do interior de São Paulo: Roberto Godoi (editor chefe Correio Popular de Campinas), Fernando Schwarz (editor chefe da TV Globo de Sorocaba), Fernando Allende (editor chefe da Tribuna de Santos), Ulisses Alves de Souza (editor chefe do jornal Cruzeiro do Sul de Sorocaba), Galeno Amorin (editor chefe do Jornal da Manhã de Ribeirão Preto e correspondente especial de “O Estado de São Paulo” no interior), José Hamilton Ribeiro (editor da revista Globo Rural), David Filismino (Diretor da Área de Mídia da Agência Estado), Ari Schneider (editor chefe da Revista Imprensa – revista especializada em jornalismo), Laerte Fernandes (editor especial de “O Estado de São Paulo”) e Carlos Nascimento (TV Globo). Mas a participação de Edmundo na vida cultural da cidade não se limitou aos Seminários de Jornalismo. Historiador e Empresário Por ocasião do aniversário de 60 anos da Revolução de 1924, Carlos Scudeler, então editor do Jornal Tribuna Popular, solicitou a Edmundo uma reportagem sobre o movimento militar que teve forte participação da cidade de Itapetininga. O jornal Tribuna Popular acabou por publicar um suplemento especial escrito por Edmundo, cuja repercussão ultrapassou os limites do estado de São Paulo. Iniciavase naquele momento a produção do livro “Heroísmo Desconhecido”, publicação pioneira do movimento militar de 1924, lançado em no ano de 1987, em solenidade cívica no Clube Venâncio Ayres, que contou 66


com a presença da então Secretária da Cultura do Estado de São Paulo, Bete Mendes. No final da década de 1980, aconteceu um novo fato importante para a vida profissional de Edmundo. A Rede Globo de Televisão adquiriu a concessão de um canal regional situado na cidade de Sorocaba. Por indicação de amigos, Edmundo foi consultado para ser o gerente comercial da emissora. Edmundo nunca foi um homem vaidoso, sabia muito bem seus limites e fazia disso uma virtude. Como até aquele momento ele nunca havia trabalhado com a mídia televisão, recusou o convite, aceitando o desafio de aprender a trabalhar com televisão junto a nova equipe da emissora Sorocaba. O resultado dessa nova experiência profissional de Edmundo foi a criação da sua própria empresa, a EPN Comunicações, primeira empresa da nossa região especializada no planejamento e produção de campanhas publicitárias para veiculação em canais de televisão. A empresa EPN nasceu sob um caráter forte e eminentemente familiar, tendo Edmundo a frente dos projetos e contatos com os anunciantes, muitos dos quais tornaram-se seus grandes amigos. A nova empresa foi parceira da TV Aliança Paulista (Rede Globo de Sorocaba) na região de Itapetininga, que, em alguns períodos, chegou a ter mais clientes do que a cidade de Sorocaba. A EPN Comunicações também foi a primeira empresa a fornecer acesso à internet em Itapetininga, no ano de 1996. Infelizmente, na triste data de 22 de abril de 1994, faleceram Edmundo Prestes Nogueira e de seu filho Luís Francisco Vasques Nogueira, em um acidente automobilístico na Rodovia Raposo Tavares, quando retornavam de Sorocaba. Não obstante, as sementes que Edmundo Prestes Nogueira semeou continuam crescendo e dando frutos em nossa comunidade. É como diz o texto de abertura de “O Semeador”, jornal que Edmundo fazia com muito carinho para o Instituto São Paulo Apóstolo de Itapetininga:

.: Semeia Sempre :. NO GRANDE COSMO,TU ÉS UM SEMEADOR TU ÉS PRESENÇA E PESSOA NÃO PODES FUGIR À RESPONSABILIDADE DE SEMEAR... NÃO DIGAS: O SOLO É ÁSPERO... O SOL QUEIMA... CHOVE FREQUENTEMENTE... A SEMENTE NÃO SERVE... NÃO É TUA FUNÇÀO JULGAR A TERRA, O TEMPO E AS COISAS... 67


tua missão é semear... AS SEMENTES SÃO ABUNDANTES... E GERMINAM FACILMENTE. UM PENSAMENTO, UM GESTO, UM SORRISO, UMA PROMESSA DE ALENTO, UM APERTO DE MÃO, UM CONSELHO AMIGO, UM POUCO DE ÁGUA... NÃO SEMEIES, PORÉM, DESCUIDADAMENTE, COMO ALGUÉM QUE SE DESINCUMBE DE UM TRABALHO OU CUMPRE SIMPLES TAREFA... semeia com interesse... com amor e atenção... COMO QUEM ENCONTRA NISSO MOTIVO DE SUA FELICIDADE ! E AO SEMEAR NÃO PENSES: QUANTO ME DARÁ? QUANDO SERÁ A COLHEITA? RECORDA QUE NÃO SEMEIAS PARA ENRIQUECER, AGUARDANDO O GANHO MULTIPLICADO: semeias porque não podes viver sem dar, porque não podes servir a Deus sem servir a teus irmãos, demais homens. ÉS DONO DE TI MESMO E DA VIDA... QUANDO TROCAS O TEU POUCO COM OS OUTROS. SEM ESPERAR RECONPENSAS... SERÁS RECOMPENSADO SEM ESPERAR RIQUEZAS... ENRIQUECERÁS SEM PENSAR NA COLHEITA... TEUS BENS SE MULTIPLICARÀO. PORQUE SEMEIAS NUM REINO ONDE DAR É RECEBER... ONDE DAR A VIDA É PERDÊ-LA PARA ENCONTRÁ-LA ONDE GASTAR SERVINDO É CRESCER, TRANSFORMAR. semeia sempre, em todo terreno, em todo tempo... A BOA SEMENTE COM AMOR, COM CARINHO, COMO SE ESTIVESSE SEMEANDO O PRÓPRIO CORAÇÃO; O SANGUE A REGARÁ ! sai semeador... parte e prepara.... levando contigo tudo o que tens e acolhe o que o outro pode te dar VIGIA E VELA...

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Capítulo V Itapetininga Heróis Feitos e Instituições

Juliana Fabiano Alves

Uma aguerrida mulher brasileira

Autoria de

Jefferson Biajone 69


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Mulheres brasileiras

N

a História Militar de nosso Brasil, raras são as revoluções, combates, guerras e revoltas nas quais a participação feminina não tenha ocorrido. De fato, seja nas linhas de frente, tomando das armas para lado a lado combater com os homens ou preencher os claros que o fogo e o aço ceifavam, seja na retaguarda auxiliando, suprindo, confortando, salvando, atendendo e alimentando, as mulheres tiveram, ao longo de toda essa história, pontuada de vitórias e derrotas, um papel relevantíssimo e ajudaram, na sua maneira carinhosa, sincera, dedicada e decidida, a mudar o rumo dos destinos de nosso país. Com efeito, a aguerrida mulher brasileira, da estirpe de Maria Quitéria de Jesus, que deixou o lar no interior da Bahia para se alistar como soldado na luta pela independência do Brasil; de Ana Justina Ferreira Néri, que seguiu para a Guerra do Paraguai junto de seu irmão e filhos e lá fundou hospitais; de Anita Garibaldi, heroína de dois mundos, companheira de Giuseppe Garibaldi na Revolução Farroupilha; da major Elza Cansanção Medeiros, enfermeira da Força Expedicionária Brasileira na II Guerra Mundial..., em suma, mulheres que entre tantas outras, muitas até hoje incógnitas, participaram de sacrifícios em nome de ideais maiores e com o seu sangue e suor generosos ajudaram também a colher dos louros da glória.

Figura 1. Maria Quitéria, Ana Néri, Anita Garibaldi e Elza Cansanção Medeiros

Na Revolução Constitucionalista de 1932, o proeminente papel e a imprescindível presença da mulher não foram diferentes. É digno de reconhecimento que os tremendos esforços de guerra empreendidos por São Paulo para enfrentar as expressivas hostes inimigas que o acossavam exigiu de todos, homens, mulheres e até crianças, uma união indissolúvel e um comprometimento sem 71


paralelos na história desse estado nos quase três meses daquele conflito. Segundo o escritor Hernâni Donato, em sua obra “A Revolução de 32” (1982), os números bem revelam a solidez dessa união e salientam a presença e a contribuição das mulheres. De fato, Hernâni, na página 194 de sua obra nos conta que: - 72.000 mulheres trabalharam como voluntárias somente nas oficinas de costura, sendo que tais oficinas produziram 60.000 peças de fardamento em apenas vinte dias. Até o último dia de setembro, esse número alcançou a casa de 450.000 unidades; - A Cruz Vermelha fez funcionar, diuturnamente, cursos rápidos de enfermagem para moças e viúvas que, uma vez conhecedoras dos misteres básicos da atividade, seguiam para as frentes de combate, onde nos hospitais e postos de emergência iriam aplicar os seus conhecimentos; - Damas da alta sociedade paulista e moças de condição financeira menos abastada se uniram em salas de trabalho e em enfermarias para não só confeccionarem fardamento e agasalhos, material curativo e assistencial, mas também material de guerra; - Essas mesmas damas também não pouparam de suas posses para a Campanha “Ouro para o bem de São Paulo” cujas doações foram fundamentais para o sustento financeiro dos esforços de guerra empreendidos na revolução; - Grupos assistenciais de mulheres procuravam e atendiam soldados e as famílias de soldados em suas necessidades; - Houve ainda mulheres que tomaram das armas, entraram em combate e até fizeram prisioneiros, a exemplo da intrépida Maria Sguassábia, de São João da Boa Vista, que integrou a legendária coluna Romão Gomes, e de “Nhá” Chica Messias, descrita por um voluntário como mulher de idade que, fardada e armada de revólver, acompanhava os soldados a quem carinhosamente chamava de “meus mininos”. Quando de nossa pesquisa realizada sobre o atual prédio da 2º Diretoria Regional do Departamento de Estradas e Rodagem (DER.2), viemos a saber que Itapetininga sediara o quartel general do Exército Constitucionalista do Setor Sul, bem como várias outras entidades de suporte às ações de guerra ali empreendidas, entre elas, hospitais de campanha. Tal era o estado de coisas que o casal João Olympio e Teresa registrou em seu livro “Memórias de Itapetininga” (2008) que o município “abrigava, como podia, soldados mutilados das trincheiras e famílias famintas que abandonavam tudo, espavoridas” (p.91). 72


Figura 2. As seis irmãs Fabiano Alves enfermeiras na Revolução de 32

Entre as voluntárias que figuravam nos diversos serviços de enfermagem em pleno funcionamento na cidade, havia as seis irmãs do então tenente Francisco Fabiano Alves, todas enfermeiras voluntárias do Exército Constitucionalista, a saber, Zulmira Fabiano Alves, Juliana Fabiano Alves, Lucila Fabiano Alves, Maria José Fabiano Alves, Maria Fabiano Alves e Jandira Fabiano Alves. Destas seis irmãs, traremos a lume a vida de Juliana Fabiano Alves (na figura 2, a segunda pessoa da direita para esquerda na fila frontal) e veremos que como o seu irmão Francisco Fabiano Alves, estava ela destinada não só a lutar por São Paulo, mas também lutar pelo florescimento de Itapetininga nos anos pós-revolução. Dona Juliana Fabiano Alves Segundo o seu biógrafo Carlos Fidêncio, no livro “Itapetininga Ontem - Hoje” (1986), Dona Juliana Fabiano Alves, como veio a ficar conhecida de todos os itapetininganos, foi nascida a 13 de maio de 1913, no município paulista de São Manuel, filha do major da Guarda Nacional Joaquim Fabiano Alves e de D. Ana Franco Fabiano Alves. Nos conta Carlos Fidêncio, na página 171 de sua obra, que Juliana mudou-se para Itapetininga em 1924, aos 11 anos (muito provavelmente vinda de São Manoel com o restante da família) e uma vez aqui, aprendeu as primeiras letras, e posteriormente, graças a sua viva inteligência e dedicação inconteste aos estudos, se formou 73


professora na tradicional e prestigiosa Escola Normal Peixoto Gomide. Contava Juliana com dezenove anos completos quando estoura a Revolução Constitucionalista de 1932 e a exemplo das outras irmãs (a sua irmã mais velha, Mariana Fabiano Alves, já tinha inclusive sido enfermeira na Revolução Paulista de 1924) enverga do uniforme cáqui por São Paulo e segue para as diversas enfermarias dos hospitais de sangue em Itapetininga. Registros do que ela e outras voluntárias enfermeiras possam ter vivenciado em tais ambientes infelizmente inexistem atualmente, mas é de se crer que o sofrimento, as dores e as mortes que essas jovens moças testemunharam no abnegado e nobre exercício de suas funções devem ter deixado marcas indeléveis em suas memórias e corações para o restante de suas vidas. De fato, sabemos por intermédio do nosso confrade professor Mário Celso Rabelo Orsi Júnior que o Colégio Instituto Imaculada Conceição, um dos maiores hospitais de sangue na época em Itapetininga, chegou a atender 840 combatentes durante os trinta e oito dias que funcionou como hospital. Imaginem nossos leitores, pois, o enorme fluxo de soldados advindos das diversas frentes do setor Sul, entre elas Itararé, Buri, Capão Bonito e Paranapanema, feridos, mutilados e desfalecidos que diariamente lotavam os leitos deste e dos outros hospitais de sangue improvisados na cidade e poderá ser ter uma idéia do que essas e tantas outras enfermeiras voluntárias de Itapetininga vivenciaram diuturnamente. Pois bem, com o armistício em 2 de outubro de 1932, Juliana e suas irmãs deram prosseguimento às suas vidas e desse período em diante aprendemos pelas pesquisas de Carlos Fidêncio (1986) que Juliana iniciou a sua carreira no magistério como professora de programa de Alfabetização de Adultos, vindo a lecionar, posteriormente, no Grupo Escolar Major Fonseca, na época frequentado exclusivamente por itapetininganos de baixa renda, daí a escola ter sido apelidada de “Grupo de pé no chão”. Prosseguiu Juliana na carreira docente vindo a lecionar onde se formara anos antes, no conceituada Escola Normal Peixoto Gomide, além de outros estabelecimento de ensino do município até se aposentar. Ela também foi, ao lado do irmão Francisco Fabiano Alves, uma das personalidades artífices da fundação da Associação de Ensino de Itapetininga, vindo a se tornar vice-presidente desta entidade. Esta associação, mais tarde, foi a entidade de coordenação da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Itapetininga, do “Ginazinho”, e da tradicional Escola de Comércio. Mas Juliana não fora só educadora de escol antenada às 74


necessidades educacionais do município. As necessidades sociais eram igualmente de sua preocupação constante, porquanto fora ela também vereadora de Itapetininga por cinco legislaturas, vindo a assumir o cargo de vice-prefeita, na gestão de 1960 a 1963 e de prefeita em exercício, por 90 dias nessa mesma gestão, devido o afastamento do titular do cargo, o professor José Ozi. Sua ascensão à chefia do Executivo municipal inscreveu o seu nome nos rol dos Prefeitos como a primeira e a única mulher a ocupar este cargo, ainda que interinamente, na história de Itapetininga. Fervorosa católica e dedicada ministra da Eucaristia por muitos anos, D. Juliana Fabiano Alves não foi casada e nem deixou descendência de sangue, mas deixou em seus alunos e todos que com ela conviveram vasta descendência de idéias, ensinamentos e valores tais como simplicidade, patriotismo, abnegação e dedicação ao próximo, valores esses que caracterizaram toda a sua expressiva existência até os 82 anos, quando veio a falecer em 7 de novembro de 1995, em Itapetininga. Atualmente seus restos mortais descansam ao lado dos pais e dos irmãos, no Cemitério da Irmandade do Santíssimo Sacramento e, recentemente, foi o seu nome dado a uma Escola Municipal de Ensino Infantil, a EMEI Professora Juliana Fabiano Alves. Mas as homenagens não pararam por ai. Em 31 de janeiro de 2012, o presidente do Núcleo de Correspondência “Paulistas de Itapetininga! Às Armas!!”, da Sociedade dos Veteranos de 32/MMDC, criou o Diploma de Honra ao Mérito Enfermeira Juliana Fabiano Alves, a ser concedido à profissionais e estudantes da enfermagem do município, em memória desta mulher ímpar e insígne veterana da Revolução de 32. Isto posto, a primeira concessão desta honraria ocorreu no dia 7 de Março de 2012, no teatro do SESI Itapetininga, em solenidade promovida pelo 22º Batalhão de Policia Militar do Interior alusiva ao Dia Internacional das Mulher. Em momento especial dessa celebração, a história de vida de D. Juliana Fabiano Alves foi relembrada, à medida que quinze enfermeiras e estudantes de enfermagem de Itapetininga foram agraciadas. A título de registro histórico, apresentamos a seguir a relação completa dessas quinze mulheres, as primeiras a serem homenageadas com a digna honraria em nome de nossa excelsa heroína. Outrossim, D. Juliana Fabiano Alves, aceite esse nossas palavras como preito de reconhecimento pelo exemplo de ser humano, cidadã e aguerrida mulher brasileira que soube ser ao longo da profícua vida. Certos estamos que vosso nome e dedicação não são para jamais serem esquecidos. 75


Diploma de Honra ao Mérito ENFERMEIRA JULIANA FABIANO ALVES Solenidade do Dia Internacional da Mulher .: 7 de Março de 2012 :. Relação de Enfermeiras Agraciadas .: POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DE SÃO PAULO :. Soldado PM Enf. MÔNICA FUJIMOTO .: SECRETARIA MUNICIPAL DE SAUDE :. Enf. MIRIAM AKITI RODRIGUES Enf. LILIANE APARECIDA P. P. SIMIONE Enf. CARMELINA AGUIDA PRINCE MARCONDES Enf. PATRICIA NAZARE FONSECA MOTTA Téc. Enf. IRANI LOPES BORTOLAI Téc. Enf. LUCINALDA MARIA BUENO F. CORREA Téc. Enf. EDITH BAILONE T. PAREIA .: HOSPITAL UNIMED DE ITAPETININGA :. Enf. MÁRCIA ELIANE LEITE SOBRAL Téc. Enf. ROSELI APARECIDA RIBEIRO .: HOSPITAL REGIONAL DE ITAPETININGA :. Enf. ANA PAULA VIEIRA RODRIGUES E RODRIGUES Téc. Enf. NEUSA APARECIDA PRESTES SANCHES .: ESCOLA SENAC DE ITAPETININGA :. Enf. Profa. VANIZETI DE SIQUEIRA BONINI Aluna Téc. Enf. MARY APARECIDA LOPES DE ALMEIDA HORIY .: ESCOLA PLANETA DE ITAPETININGA :. Enf. Profa. ELISSANDRA RODRIGUES LOPES Aluna Téc. Enf. DAIANE FOGAÇA DE SOUZA 76


Capítulo VI Itapetininga Heróis Feitos e Instituições

Antenor de Oliveira Mello Júnior

Um Paulista, de pé e à ordem, Sempre!

Autoria de

Afrânio Franco de Oliveira Mello 77


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As origens

A

ntenor de Oliveira Mello Júnior nasceu no município paulista de Bofete, a 16 de janeiro de 1914. Era filho de Antenor de Oliveira Mello e Alzira Alves de Almeida Mello. Bisneto de Joaquim de Oliveira e Silva e Deolinda Rosa de Oliveira, pelo lado paterno, e de Eugênio Lira de Almeida e Francisca das Chagas de Jesus, pelo lado materno, os quais também foram os fundadores de Bofete. Nas origens genealógicas de Antenor estão as famílias Pinto de Mello, Silva Mello, Oliveira e Silva, Corrêa de Mello, Santana de Mello, Paixão de Mello, Torres de Mello, Caldeira de Mello, Villas Boas de Mello, Bandeira de Mello, Pereira de Mello e, do lado italiano, a família Loretto e a família Perpeto, entre outras. Antenor nasceu na Fazenda de seu avô coronel Apolinário Alves de Almeida, que pertenceu à antiga “Collectoria Estadual”, tendo ocupado os cargos de agente, coletor, agente dos Correios, ajudante do Procurador da República, Delegado de Polícia, Inspetor Escolar, Tesoureiro da Câmara Municipal, todos na cidade de Bofete. Na grande crise do Café ocorrida nos anos de 1929 a 1930, o coronel Apolinário perdeu a fazenda e todos, seus pais e irmãos mudaram-se para Itapetininga, vindo a residir na rua Padre Albuquerque, onde possuíam um armazém. Corria o ano de 1932 e com a eclosão da Revolução Constitucionalista, intensa foi a propaganda em prol do alistamento voluntário da parte de todos os paulistas que em armas poderiam tomar. Tal era o clima de excitação, que o jornal “O Estado de São Paulo” assim se manifestava em seus editoriais do mês de julho daquele memorável ano: (...) o Estado transformou-se em uma caserna generalizada e a resposta era uma e única, a clarinada convocadora: “Presente!” Sim. Presente, o paulista de todas as procedências. Presente na entestada contra os exércitos da ditadura. Presente até os derradeiros momentos. Que maiores coisas se fariam por este Brasil, do que essa de oferecer, na ara do sacrifício, a própria vida? Grandes coisas se fizeram. O campo e a cidade, as lavouras e as fábricas se irmanaram na mesma orientação de luta. Homens e mulheres, moços e velhos confraternizaramse nos vários setores da mobilização. Todos se organizavam e contribuíam com o esforço da luta (...) 79


Antenor de Oliveira Mello Júnior, com pouco mais de 18 anos atendeu ao chamado do Exército Constitucionalista e, como voluntário, alistou-se no Batalhão “Voluntários de Itapetininga”. Designado foi esse batalhão para a região de Gramadinho e depois para o Rio das Almas, em Capão Bonito. O clima de beligerância nesses arraiais seria melhor descrito na reportagem de Stopin e Waldemar Buhr, correspondentes de guerra do jornal “O Estado de São Paulo”: (...) O vento causa arrepios, sibila pelos galhos, faz voejar as folhas secas espalhadas na estrada. E nosso carro rodando, rodando... Chegamos em Gramadinho. Precisamos visar, no Posto de Comando do coronel Milton, os documentos de livre trânsito nas zonas de operação. Conversam com o coronel Milton, com o Aristeu Seixas (grande artista, sutil burilador do “ Pôr do Sol”), com o capitão Paiva e com o famoso e valente capitão Affonso Negrão, comandante do trem blindado, na Zona Sul. Narrando fatos desse trem blindado, o capitão Affonso diz que, no dia 11 de setembro, realizaram forte ofensiva junto ao rio das Almas. Escoltado pelas tropas, o trem blindado “14 de julho” arrancou e, inesperadamente, surgiu ao lados dos adversários. A esta aparição intempestiva, precedida de fortíssimo ataque de fuzis e metralhadoras, os inimigos, espavoridos, debandaram, pondo-se em retirada. Os jornalistas desejam visitar as linhas avançadas. São apresentados ao major Rodrigues que os leva até as trincheiras. Junto à ponte que se debruça junto ao Rio das Almas, o major Rodrigues adverte a todos que devem seguir a pé, já que estavam de carro, pois poderiam ser alvejados pelos inimigos. Enveredam-se por uma picada, aberta recentemente, onde tropicam em galhos retorcidos e em troncos mal cortados. Duzentos metros dentro do mato, narram, que a solidão os envolve, que os acoberta, que os agarra impiedosamente, fazendo-os tremerem. Na clareira espiam com receio, temendo que o inimigo ali esteja de atalaia, pronto a atacar. Um pouco mais adiante, chegam às trincheiras repletas de nossos soldados. Ao entardecer, tiros espoucam junto aos jornalistas. O aspirante Salles esclarece que são tiros de inquietação, pois é hora em que o inimigo se prepara para jantar (...) Meu pai Antenor de Oliveira Mello Júnior sempre me contava que tinha lutado nessa região e que a ele, juntamente com seu colega 80


Tibagi, cabia patrulharem o mato, à noite, indo até as linhas inimigas verificar a movimentação de suas tropas e, no retorno, reportavam ao comandante do batalhão o que tinham visto. Mateiro de primeira linha, sempre chamavam o meu pai de “capitão”, autonomásia a ele conferida por seu professor Hermelino Corrêa, o “Seu Milico”, cunhado do eminente professor Paiva Pereira, de Itapetininga, quando Antenor fora aluno deste em Bofete.

Figura 1. soldado constitucionalista Antenor de Oliveira Mello Júnior, em 1932

Talvez por seu conhecimento de mato, posteriormente a mim confirmado pelo amigo Waldomiro Benedicto de Carvalho, o “Chuca”, que em caçadas nas matas de São Miguel Arcanjo, dizia nunca ter visto alguém piar o “ macuco ” e andar pelo mato como meu pai Antenor fazia. Creio eu que fora por causa dessa habilidade que tenha ele sido escolhido para essas missões de patrulha noturna. Ademais, contava-me meu pai que ele e o Tibagi haviam construído um abrigo, tipo trincheira pequena, junto a uma das pontes sobre o rio das Almas. Fizeram o buraco, cortaram árvores grossas e finas, construíram o abrigo. Desse abrigo saíam ele e o Tibagi para pesquisarem a movimentação das tropas gaúchas. Recordo-me de que quando estava eu construindo minha casa, o pedreiro Firmino ofereceu-me um fuzil que tinha sido usado na Revolução de 32. Perguntei como tinha conseguido tal arma, e ele contou que quando criança brincava muito em um abrigo, junto a uma ponte no rio das Almas e que passava perto do sítio do seu pai. Firmino, quando criança ainda, tinha visto muitos soldados 81


inimigos serem mortos pela metralha dos paulistas. Conta que os corpos abatidos eram enterrados em cova rasa. Depois do término da revolução, ele, seus irmãos e amigos, saiam pelo campo, a procura de cápsulas das balas e em uma dessas idas e vindas, tinham encontrado o fuzil. Em face desse relato, imediatamente levei Firmino para conversar com o meu pai sobre esse abrigo. Papai deu detalhes do espaço e da construção do mesmo, confirmados pelo Firmino. De fato, era o abrigo que construído e ocupado fora pelo meu pai e seu companheiro Tibagi. Eu, só escutando, enchia-me de orgulho. Outrossim, papai, ferido em batalha, foi encaminhado para Itapetininga, medicado, e ao final da revolução, quando retornou para o seio de sua família, pouco antes de chegar em casa, desmaiara na rua Prudente de Moraes, sendo socorrido pela mãe do Humberto Franci, a senhora Iria Luchesi, de tradicional família de Itapetininga. (Luchesi, Luchini, de Lucca, sobrenome dos originários da região de Lucca-Itália). Meu irmão Aguinaldo lembra que nossa avó Alzira contava que nesse dia do desmaio de papai estava ela na janela de sua casa que dava para a rua, quando avistara caminhando em sua direção um moço magro e barbudo, sorridente, e que para sua surpresa, constatara ser o próprio Antenor que voltava para casa. D. Alzira, contudo, não o reconhecera, pois quando ele seguiu para a revolução, estava menos magro e sem a barba.

Figura 2. (Da esquerda para a direita) soldado Antenor de Oliveira Mello Júnior, sargento Chico, soldado “Marmita” e o soldado enfermeiro Mazalai

Dos objetos que pertenceram ao meu pai nessa época, tenho o capacete, uma arma branca, longa e pontiaguda e alguns pentes de balas. Também possuo um periscópio de trincheira e as duas fotos que ilustram esse texto e, também, as medalhas pelo meu pai recebidas, uma por Honra ao Mérito ao ferimento em batalha recebido e outra pela participação no Movimento Constitucionalista. 82


Os outros parentes meus que lutaram na Revolução de 1932 foram Euvaldo de Oliveira Mello, ex-secretário da Educação do Governo do Estado de São Paulo, gestão do Governador Carvalho Pinto e, Alcínio Rocha, o “Tio Lico ”, pai da minha prima, professora e advogada Alcina Rocha Peres de Oliveira. A vida segue adiante Nos anos pós-revolução, meu pai Antenor foi químico na Empresa Elétrica Sul Paulista, no município de São Miguel Arcanjo; balconista das Casas Pernambucanas e depois comerciante com armazém de secos e molhados até que, em 25 de janeiro de 1940, casou-se ele com a professora Amélia Corrêa Franco Mello. Recém-casados, foram eles residir em um uma região de nome Taquaruçu, nas imediações do município paulista de Registro, na qual estava instalada uma colônia japonesa, onde Antenor e Amélia passaram a ser os únicos habitantes não nipônicos. D. Amélia, inclusive, foi ser ali professora e Antenor, agricultor dedicado ao cultivo do arroz. Durante a Segunda Guerra Mundial, fora Antenor nomeado elemento de ligação entre as autoridades e a colônia japonesa de Taquaruçu, dado a boa relação que ele e sua esposa detinham com os habitantes dali. Nesse período foi ele também agente recenseador e percorria a toda a região no lombo de seu intrépido cavalo “Gigante”, fazendo pesquisas e desenhando mapas em lâminas de vidro com tinta nanquim vermelha e preta. Essas lâminas e mapas foram mais tarde doadas ao Museu do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), onde atualmente existem para o conhecimento das gerações presentes e futuras. Posteriormente, foram Antenor e D. Amélia residir no Bairro Jacutinga e depois na cidade de Guarei, onde mais uma vez D. Amélia desempenhava as funções de professora primária. Continuava Antenor com as atividades ligadas à agricultura, quando em 1945, ingressou ele no IBGE, ano da fundação deste renomado instituto, no cargo de agente municipal. Foi no desempenho de suas funções nesse cargo que Antenor tornou-se geógrafo e estatístico, sendo posteriormente transferido para Itapetininga no exercício de idênticas funções. Nesta cidade que outrora partira soldado para a Revolução Constitucionalista de 32, agora voltara como agente do IBGE, ascendendo aos cargos de agente itinerante, supervisor e, por fim, delegado regional responsável pelo atendimento de 33 cidades de 83


nossa região. Aposentou-se ao final dos anos 70, após 35 anos de relevantes serviços prestados ao instituto, ao Estado de São Paulo e ao Brasil. Mas a vida profissional continuaria ainda mais para Antenor, que em 1971, ingressou na Faculdade de Direito da Fundação Karnig Bazarian, em Itapetininga, formando-se Bacharel em Direito no ano de 1975. Aprovado no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), obteve ele, na cidade de Curitiba, seção do Paraná, seu registro da OAB sob número 7634-1. Foi advogado do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Itapetininga por 10 anos. Antenor pertenceu à Loja Maçônica Firmeza, onde ingressou a 9 de outubro de 1954. Por duas vezes, Antenor ocupou a presidência da Loja, sendo ainda, o Vice-Presidente, Orador, Secretário e também Tesoureiro, atingindo ainda o cargo de Delegado Regional do Grande Oriente de São Paulo para a região de Itapetininga. Secretário do Grupo de Escoteiros quando o presidente era o “Seu Mimi ”, Antenor foi também secretário da Banda do Rosário, membro da Diretoria da Santa Casa de Misericórdia de Itapetininga por longos anos, tendo trabalhado para a construção do Hospital São José, do qual foi tesoureiro também por muitos anos. De outras entidades que pertenceu, cito que papai foi sócio de nº 738 do Departamento de Estradas de Rodagem de Itapetininga (DERAC), sócio da Associação Atlética de Itapetininga, do Clube Venâncio Ayres, do Clube Recreativo Itapetiningano, do Clube dos Bancários, bem como membro e juiz da Liga Itapetininga de Futebol. Antenor de Oliveira Mello Júnior faleceu a 24 de junho de 1988, ao 74 anos, de insuficiência cardíaca, em Itapetininga, onde se encontra sepultado. De seu casamento com a professora Amélia, deixou os filhos Aguinaldo Franco de Oliveira Mello, Annita Franco Mello Cabral e Afrânio Franco de Oliveira Mello. Na administração do Prefeito Municipal José Carlos Tardelli, o nome de papai foi dado a rua que liga a cidade a Vila Santana, aquela que passa por debaixo do Viaduto Ex-Ferroviário Durvalino de Toledo. Quis o destino nos pregar essa impressionante e derradeira peça. Unir neste local dois soldados constitucionalistas, o herói da Legião Negra cabo blindado Durvalino de Toledo e o soldado do Batalhão de Voluntários de Itapetininga Antenor de Oliveira Mello Júnior. Sem sombra de dúvida alguma, acredito ser essas as duas sentinelas que deixam muito bem guardada aquela entrada da Vila Santana em Itapetininga. 84


PARTE II Itapetininga Heróis Feitos e Instituições

... E INSTITUIÇÕES

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Capítulo VII Itapetininga Heróis Feitos e Instituições

Sede da 2º Diretoria Regional do DER

Casa de bravos, morada de heróis

Autoria de

Jefferson Biajone 87


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Um belíssimo quebra-cabeças

N

o caminhar de nossas pesquisas sobre histórias de vidas de veteranos de Itapetininga na Revolução de 32 e na Segunda Guerra Mundial, várias foram as pessoas e instituições com as quais fizemos contatos para que o quebra-cabeças que constituiria o panorama da participação de nosso município naqueles conflitos pudesse ganhar corpo e ser montado. Este quebra-cabeças, porém, não possuía uma figura que nos permitisse conhecê-lo por completo, como os possuem aqueles encontrados em lojas de brinquedo. A bem da verdade, a figura emerge e ganha seus contornos à medida que recebemos, de um e de outro, as peças que o vão compondo e o prazer de montá-lo reside justamente nisso, de não sabermos exatamente que figura se vai obter. Uma das peças que recebemos, numa dessas incursões, não só demonstrou esse fato, como nos fez constatar que uma peça, por si só, poderia também ser um quebra-cabeças de uma beleza e complexidade empolgantes. Semelhante peça nos foi entregue em fins de julho de 2011, pelo amigo Edmundo José Vasques Nogueira, em uma de nossas conversas sobre veteranos. Nela, Edmundo nos sugeriu que resgatássemos a história do 5º Batalhão de Caçadores, unidade do Exército Brasileiro cuja sede foi o atual prédio da 2º Diretoria Regional do Departamento de Estradas de Rodagem, a qual, doravante neste ensaio, ser-nos-á referida por “DER.2.”. Aceitamos de imediato o convite, incertos ainda do que encontraríamos ou até mesmo onde encaixaríamos a peça recebida no quebra-cabeça da história de vida dos veteranos, na qual já estávamos debruçados havia alguns meses. Mas avançamos mesmo assim e a feliz idéia do amigo Edmundo nos propiciou descobertas e implicações que foram imprescindíveis para compreendermos algumas das contribuições mais expressivas que Itapetininga deu à História Militar brasileira. O que, pois, era para ser o resgate histórico de uma unidade do Exército brasileiro na cidade, acabou se tornando uma viagem no tempo em um prédio que iniciara como residência e sede de decisões políticas, na década de 20 do século passado, até os dias de hoje, diretoria regional do departamento de estradas e rodagem estadual. É desse resgate que se trata o presente ensaio biográfico do 89


DER.2., o qual iniciamos com O sobrado de nº 12 da rua general Carneiro No seu livro “Heroísmo Desconhecido” (1987), o inclíto jornalista e advogado Edmundo Prestes Nogueira nos relata que por ocasião da Revolução de 1924, o município de Itapetininga iniciava na praça das três escolas e terminava na rua General Carneiro, abrangendo em torno de 18 a 20 mil habitantes. Mas essa pequena e briosa população estava destinada a presenciar grandes feitos de seus cidadãos na luta pela liberdade e pela democracia não só em 1924, como em 1930, 1932 e posteriormente em 1945, na II Guerra Mundial. Contudo, foi num sobrado sito naquela mesma rua General Carneiro, sob o número 12, que se dava início a odisséia de Itapetininga em todos aqueles importantes anos para a história de nosso Brasil. Tratava-se da residência-sede de propriedade pertencente ao coronel Fernando Prestes de Albuquerque, propriedade essa que, segundo a historiadora Margaret Grazioli Lopes Peretti, do Instituto Histórico Geográfico de Itapetininga (IHGGI), ocupava um quarteirão, da rua Sofia Cerqueira até o final da rua General Carneiro, compreendendo entre 1 mil e 2 mil metros quadrados, aproximadamente. Segundo Margaret, após a Revolta da Armada em 1893, o sobrado se tornou a central política de Itapetininga, para onde afluíam autoridades dos mais diversos segmentos do governo, tanto em tempos de paz como em guerra, à exemplo do que ocorreu na Revolução de 1924, quando o casarão se tornou sede do governo estadual, na assunção do coronel Fernando Prestes à presidência do Estado de São Paulo. Com efeito, segundo nos relata Nogueira, na página 34 de “Heroísmo Desconhecido” (1987), o telefone do sobrado de nº 12 da rua general Carneiro “tocava insistentemente” comunicando a adesão de amigos, voluntários e correligionários para comporem o Batalhão Fernando Prestes, que ao lado do Batalhão Ataliba Leonel e de um Esquadrão de Cavalaria, formariam a legendária COLUNA SUL que libertou as cidades de Sorocaba, Votorantim e finalmente a capital do Estado de São Paulo, ao combater os revoltosos que haviam tomado aquelas cidades nos meses de julho a agosto de 1924. Com o término da Revolução de 1924, o sobrado dos Prestes continuou sendo o centro irradiador das decisões políticas e militares de Itapetininga até o ano de 1926, quando fora então desapropriado. Este precioso informe a respeito da doação do casarão nos foi compartilhado pelo Dr. José de Almeida Ribeiro, quando em 9 de 90


novembro de 2011, proferimos palestra sobre as unidades militares que existiram no atual prédio do DER.2, na sede do IHGGI. Outrossim, após a desapropriação, foi o casarão ocupado pelo 3º Batalhão de Infantaria da Força Pública do Estado de São Paulo (atual Polícia Miltiar paulista), e entre 1929 e 1931, esta lendária edificação foi demolida e no seu lugar construído imponente prédio que nas décadas de 30 e 40 foi ocupado por outras unidades militares da Força Pública do Estado de São Paulo e também do Exército Brasileiro, vindo a se tornar, ao final da década de 50, a atual sede da DER.2. Realizada uma visão panorâmica dos antecedentes deste histórico prédio, passemos agora em revista à cada uma das unidades militares que o ocuparam, começando pelo

3º Batalhão de Infantaria da Força Pública de São Paulo (de 30 de abril de 1927 a 11 de setembro de 1931) Conforme nos relata a página de nº 124 do livro “A Força Pública de São Paulo” (1931), de Euclides Andrade e do 1º tenente Hely F. da Câmara, veio para ocupar o prédio construído pelo governo do Estado de São Paulo, no agora nº 126 da rua general Carneiro, o 8º Batalhão de Caçadores Paulistas (8º BCP), unidade da Força Pública para essa cidade destacada visando a garantia da segurança pública aos seus cidadãos. No entanto, pesquisas realizadas junto à obra “Álbum de Itapetininga” (1934) de autoria de João Netto Caldeira apontam que não se tratava exatamente do 8º BCP que para Itapetininga veio ocupar o recém-construído prédio, mas sim do 3º Batalhão de Infantaria da Força Pública bandeirante (3º BI). De fato, é o que lemos na página 78 da referida obra, cuja hoje raríssima cópia nos foi dado acesso pelo professor Mário Celso Rabelo Orsi Júnior, nosso confrade e presidente do IHGGI. Diante de tais constatações e do que pudemos estudar em 91


outra obra de relevantíssimo valor histórico, qual seja, o “Resumo Histórico da Polícia Militar” (1967), do coronel PM Luiz Sebastião Malvásio, nos foi possível encontrar as peças faltantes e começar a elucidar o intrincado quebra-cabeça das diferentes unidades militares que alojadas estiveram no imponente prédio da rua general Carneiro. Com efeito, segundo o que consta nas páginas 115 a 118 de “Resumo Histórico da Polícia Militar” (1967), aprendemos que o 3º Batalhão de Infantaria fora criado pela lei nº 776 de 28 de junho de 1901, sob esta designação e com um efetivo de 21 oficiais e 1233 praças. A 30 de abril de 1927, recebe o batalhão ordens para ocupar o que viria a ser futuro prédio de aquartelamento da Força Pública na rua general carneiro. O que ocorreu, porém, é que tal prédio ainda não tinha a sua construção iniciada e o 3º BI passou a ocupar, naquela data que também marcou o dia de sua chegada à Itapetininga, o próprio sobrado de nº 12 que pertencera à família Prestes, até que o prédio, cuja construção fora iniciada ao lado desse sobrado, viesse a ser concluído. Em visita que realizamos a 19 de outubro de 2011, na atual sede do 8º Batalhão de Polícia Militar do Interior (8º BPM/I), em Campinas, SP (unidade que fora o 8º BCP de Itapetininga) viemos a receber outra peça chave de nosso quebra-cabeças. No livro de boletins regimentais do ano de 1930 dessa unidade, que encontramos no acervo do Museu da Revolução de 32 mantido pelo 8º BPM/I, confirmamos na leitura do Boletim Regimental de nº 165, de 14 de julho de 1929, que a 30 de abril de 1927 fora mesmo a data na qual o 3º BI chegara à Itapetininga, vindo da capital, e que nesse mesmo dia tomara como sede o casarão de nº 12 da rua general Carneiro. Este relevantíssimo documento confirmou também que a 14 de julho de 1929 foi lançada a pedra fundamental do prédio que seria a atual sede do DER.2, pedra essa cujos conteúdos transcrevemos da Ata que lavrada foi, naquela mesma data, para registro desse importante acontecimento às gerações futuras, na página a seguir, fiéis à ortografica da época, inclusive.

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BOLETIM REGIMENTAL DE Nº 165 DE 14 DE JULHO DE 1929 Commando do terceiro batalhão de infantaria da Força Pública do Estado de São Paulo. Quartel em Itapetininga, 14 de julho de 1929 Aos catorze dias do mes de julho do anno de mil novecentos e vinte e nove, sendo presidente da Republica o excellentissimo senhor Dr. Washighton Luiz Pereira de Souza, Presidente do Estado, o excellentissimo Senhor Dr. Julio Prestes de Albuquerque, secretario de justica e segurança publica, o excellentissimo senhor Dr. Antonio Carlos de Salles Junior, Chefe de Policia, o excellentissimo senhor Doutor Mario Bastos Cruz e o commandante Geral da Força Publica, o excellentissimo senhor Coronel Joviniano Brandão, com a presença dos senhor Tenente Coronel Pedro de Moraes Pinto, comandante do batalhão, Major Genesio de Castro e Silva, fiscal e capitães Juvenal Baptista Gomes, Carlos Vasconcellos, Raul Pinto de Mello, Custodio Rodrigues de Moraes, Cicero Bueno Brandão e tenentes Izaltino de Almeida, José Feliciano Martins, Fredolino Ferreira Prates, Saturnino Pereira de Souza e Aymoré França e também as praças dessa unidade foi procedida com a maior simplicidade a solemnidade do acto de lançamento da pedra fundamental do quartel do batalhão, do que se lavrou esta acta em tres vias, sendo o original dactilografado e depois transcripto no presente boletim e juntamente com o resumo histórico relativo à vida do batalhão, no periodo decorrido de oito de agosto do anno de mil novecentos e um até o dia de hoje, jornaes do dia, moedas de nickel e prata correntes no paiz e um medalhão de bronze com a esphinge do presidente da republica, encerrado no interior da referida pedra, que foi devidamente fechada na presença de todos pelo comando do batalhão. E por ser verdade, lavrei este documento que vae por mim assignado e pela oficialidade do batalhão. Eu, Custodio Rodrigues de Moraes, capitão, o dactilographei. Sim, jornais do dia, moedas de níquel e prata que em vigor estavam no Brasil e um medalhão de bronze representativo da esfinge de Washington Luis, então presidente do Brasil. Estes foram os objetos que em 1929 encerrados foram na pedra fundamental pelo comandante do 3º BI, tenente coronel Pedro de Moraes Pinto, e que jazem desconhecidos em algum local ainda por se descobrir na ampla sede do DER.2. Maiores detalhes sobre a construção do prédio não encontramos, mas inferimos pelos estudos realizados que deva ter tomado os anos de 1929, 1930 e meados de 1931, porquanto as fotos constantes na página 124 de “A Força Pública de São Paulo” (1931), não deixam dúvida de que o prédio estava quase pronto naqueles idos. 93


8º Batalhão de Infantaria da Força Pública de São Paulo (11 de setembro de 1931 a 9 de julho de 1932) Outrossim, o 3º BI da Força Pública aqui permaneceu entre nós até 7 de outubro de 1932, quando retirou-se para a capital e de lá, em maio de 1941, seguiu para Campinas, onde hoje existe sob a denominação de 8º Batalhão de Polícia Militar do Interior (8ºBPM/I), na avenida João Jorge, sob o nº 499. Quanto à denominação de 8º Batalhão de Caçadores Paulistas (8º BCP), que recebeu o 3º BI, esta lhe foi dada a 11 de setembro de 1931, data na qual a Força Pública do Estado de São Paulo passou por expressiva reformulação da organização de seus efetivos e unidades (MALVÁSIO, 1967, p.118), alterando assim a nomenclatura de todas elas, e ao 3º BI coube também a sua parte. Esclarecidos os fatos que caracterizaram a vinda e instalação do 3ºBI/8ºBCP em Itapetininga, nos resta apontar a importância histórica que esta unidade teve não só pelos relevantes serviços que prestou à garantia da lei e da ordem no município, como também pelo fato de que fora a unidade que mais teve em suas fileiras itapetininganos em ações de guerra durante a Revolução Constitucionalista de 32. Um destes filhos de Itapetininga foi Durvalino de Toledo, que no 8º BCP assentara praça, a fim de poder continuar como goleiro do time de futebol da unidade, nos idos de 1931. É de se acreditar, inclusive, que jovem Durvalino tenha sido uma das prováveis testemunhas oculares da derrubada do casarão dos Prestes para a construção do prédio da atual DER.2, mas essas são especulações que aqui são ventiladas para que possam despertar a curiosidade de pesquisadores e pesquisas futuras. Destarte, sabemos de informações prestadas pelo casal João Olympio de Oliveira Júnior e Teresa de Jesus Cardoso Oliveira no livro “Memórias de Itapetininga” (2008), que com o início da revolução a 9 de julho de 1932, o prédio ocupado pelo 8º BCP veio a ser tornar o Quartel General do Exército Revolucionário do Setor Sul, sob o

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comando do coronel do Exército Basílio Taborda, auxiliado pelo major da Força Pública João Augusto Pereira Júnior, deram início à formação de batalhões de voluntários paulistas, já no dia 12 daquele mesmo mês.

Quartel General do Exército Constitucionalista do Setor Sul (9 de Julho de 1932 a 2 de Outubro de 1932) No seu livro “Vitória ou Derrota” (1936), o general de divisão Dilermando Cândido de Assis nos relata na página 272 que entre as várias unidades voluntárias naquele prédio formadas e compostas de cidadãos de Itapetininga e demais cidades da região destacaram-se em efetivo o 3º Batalhão de Caçadores Voluntários (374 homens), o Batalhão Paulista de Pirassununga (218 homens), o Batalhão Floriano Peixoto (172 homens) e o Batalhão Felipe Camarão (250 homens). Quando do início da revolução, ocupava o futuro prédio do DER.2. outro batalhão da Força Pública, a saber, o 4º Batalhão de Caçadores Paulistas, sendo que o 8º BCP se encontrava destacado no município de Capão Bonito (ASSIS, 1936, p.273). No primeiro combate que participaram os paulistas do Setor Sul, ocorrido em Itararé nas jornadas de 17 a 18 de julho de 1932, lá estiveram os soldados do 8º BCP, bem como os cavalarianos do 1º Regimento de Cavalaria Paulista, a enfrentar com denodo as forças legalistas advindas do Paraná. Já na página 117 de “Resumo Histórico da Polícia Militar” (1967), o coronel PM Malvásio confirma essas informações, ao relatar que o 8º BCP enfrentou as forças legalistas nas jornadas de 17 e 18 de agosto em Capão Bonito e de 10 a 20 de setembro, no terrível Combate do Cerrado, ocorrido no Rio das Almas. Com o término da revolução a 2 de outubro de 1932, o governo do Estado de São Paulo determinou que para Itapetininga fosse transferido o 7º Batalhão de Caçadores Paulistas, unidade que durante a revolução estava aquartelada em Guapiara (ASSIS, 1936, p.273) e 95


que uma vez em Itapetininga, ainda naquele mesmo mês, iniciaria uma nova página de relevantes serviços prestados à segurança pública local enquanto sediada naquele já histórico prédio da futura DER.2.

7º Batalhão de Infantaria da Força Pública de São Paulo (11 de outubro de 1932 a 20 de fevereiro de 1935) Destarte, mais precisamente a 11 de outubro de 1932, o comandante do 7º Batalhão de Caçadores Paulista (7º BCP) recebia do comando da Força Pública do Estado de São Paulo as seguintes ordens publicadas no Boletim Geral nº 237: (...) Atendendo às necessidades da manutenção da ordem pública no interior do Estado e conforme a determinação do Senhor Chefe de Polícia, deverão seguir no mais curto prazo possível, os destacamentos recolhidos por ocasião da mobilização geral. As sedes dos batalhões destacados serão localizados nas seguintes cidades: 3º BCP - Ribeirão Preto, 4º BCP - Bauru, 5º BCP - Taubaté, 6º BCP - Santos, 7º BCP - Itapetininga, 8º BCP - Campinas e 9º BCP na Capital (...) (Boletim Geral nº 237 de 11 Outubro de 1932, fonte: http:// www.polmil.sp.gov.br/unidades/5bpmi/index.htm) No curso de nossa pesquisa sobre o 7º BCP, encontramos na página 78 do “Álbum de Itapetininga”, de João Netto Caldeira (1934), a seguinte referência sobre as origens do 7º BCP: (...) desde 16 de dezembro de 1932 tem em sua sede nesta cidade o brioso 7º Batalhão de Caçadores da Força Pública do Estado. Unidade disciplinada, graças ao zelo de seu digno comandante e à fiel compreensão que a garbosa officialidade e praças têm de seus deveres militares e sociaes, gosa de muita sympathia entre nós, estando aquartelado no grande prédio construído para o então 3º Batalhão de Infantaria, com 96


frente na rua General Carneiro (...) (CALDEIRA, 1934, p. 78). Maiores informações sobre o 7º BCP não nos foi possível levantar até a data de publicação deste livro, mas o que se sabe na sua plenitude é que esta unidade, a exemplo de suas antecessoras, prestou relevantíssimos serviços à segurança pública de nossa cidade naqueles idos, e isso facilmente se depreende das palavras do próprio João Netto Caldeira, testemunha ocular desses fatos, que nos conta que o povo de Itapetininga sente-se bem com a permanência da sede dessa unidade da polícia estadoal, pois a população só tem merecido o respeito e a deferencia dos valentes militares, sem distincção de categoria (CALDEIRA, 1934, p. 79). Outrossim, as instalações de nosso histórico prédio do DER.2. serviram à Força Pública bandeirante até o vigésimo dia de fevereiro de 1935 (MALVÁSIO, 1967, p.115), quando o 7º BCP foi transferido para o município de Sorocaba, onde atualmente existe e se encontra sob a denominação de 7º Batalhão de Polícia Militar do Interior (7º BPM/I).

5º Batalhão de Caçadores do Exército Brasileiro (5 de junho de 1935 a 14 de março de 1947) Tentaremos agora encaixar mais uma peça que surgiu em nosso quebra-cabeças que nos ajudará a entender o que se passou no prédio após a sua ocupação por unidades da Força Pública. Trata-se de peça referente ao 5º Batalhão de Caçadores (5º BC), unidade do Exército Brasileiro cujo resgate exato de datas e personalidades só nos foi possível realizar graças aos estudos gentilmente realizados pelos pesquisadores da equipe do nosso amigo capitão Alcemar Ferreira Júnior, historiador do Arquivo Histórico do Exército (AHEx), no Rio de Janeiro. Segundo os documentos históricos por eles encontrados, 97


o 5º BC originou-se do 12º Batalhão de Infantaria (1888), o qual foi transferido com a denominação de 5º BC para as localidade paulistas de Lorena (1919), Rio Claro (1923), São Paulo capital (1934), finalmente atingindo Itapetininga em junho de 1935, para ali existir até março de 1947, quando foi declarado sem efetivo. Segundo o estudo da AHEX, o primeiro comandante dessa unidade foi o tenente coronel de infantaria Antonio Tomé Rodrigues, que assumiu o batalhão a 5 de novembro de 1934 e o com ele veio para Itapetininga a 5 de junho de 1935, data que sinalizada a instalação do 5º BC no atual prédio da DER.2. Já o seu último comandante foi o tenente coronel de infantaria Edgard Baxbaum que assumiu o comando a 15 de abril de 1946 e o deixou a 14 de março de 1947. Finalmente, em 31 de dezembro de 1947, o 5º BC foi declarado extinto. Não obstante, cabe resgatar aqui o importante valor que essa unidade teve para a cidade de Itapetininga, porquanto foi nela que se deu a formação de gerações de reservistas para o Exército nacional nos doze anos em que nesta cidade ela funcionou. De fato, foram quase dez turmas de jovens itapetininganos que ali prestaram o Serviço Militar Inicial, sendo que pouco mais de trinta deles vieram a ser convocados para ingressar a Força Expedicionária Brasileira (FEB) com destino os campos da Itália para lutarem contra as forças nazi-fascistas pela liberdade e pela democracia. Um destes jovens foi Victório Nalesso, nascido em 4 de julho de 1922 e que no 5º BC prestou o Serviço Militar Inicial em 1944, na graduação de soldado, sob o nº 983. Anos mais tarde, na década de 50, Victório e seus companheiros veteranos da II Guerra Mundial fundaram a Associação dos Ex-Combatentes do Brasil – secção Itapetininga. Nos anos que seguiram o término de II Guerra Mundial, o 5º BC já se encontrava em processo de transferência para Lorena, SP, e quando oficialmente deixou de existir na cidade de Itapetininga, em 1947, o Exército Brasileiro enviava a 2º Companhia de Transmissões para ocupar o prédio da DER.2., como veremos a seguir.

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2º Companhia de Transmissões do Exército Brasileiro (15 de março de 1947 a dezembro de 1950) Segundo levantamento realizado pelo Centro de Documentação do Exército (CDOCEx) relativo às origens do 2º Companhia de Comunicações Leve (2º Cia Com L), chegamos a precisar o período de estadia da 2º Companhia de Transmissões (2º Cia Trns) em Itapetininga. De fato, assim como o 5º BC, a 2º Cia Trns originou-se de outra unidade, mais especificamente da 1º Companhia de Transmissões do 1º Batalhão de Transmissões do Rio de Janeiro, RJ (1935). Destacada desse batalhão em 1946, ela recebeu a denominação de 2º Cia Trns ainda no Rio de Janeiro e em 14 de março de 1947, data em que o 5º BC foi declarado sem efetivo, ela veio para Itapetininga, aqui ficando até dezembro de 1950 quando foi transferida para Jundiaí e de lá para Campinas (1980) onde atualmente existe sob a denominação de 2º Companhia de Comunicações Leve. O redator do jornal Folha de Itapetininga, o jornalista Carlos José de Oliveira prestou o Serviço Militar Inicial na 2º Cia Trns em 1949 e não consegue esconder as saudades dos tempos intensamente vividos nas dependências daquele prédio que somente dali a 10 anos, em 1959, iria se tornar a sede da DER.2. A exemplo do 5º BC, a 2º Cia Trns também formou gerações de jovens itapetininganos que nesta unidade prestaram o Serviço Militar inicial para a reserva do Exército nacional. As lembranças desses tempos são objeto de comemorações de quem os viveu até hoje. De fato, todos os anos, Carlos José de Oliveira e companheiros que serviram na 2º Cia Trns em Itapetininga, Jundiaí e Campinas se encontram nesta última cidade para participarem da cerimônia de incorporação dos novos soldados da 2º Cia Com L, bem com relembrar os velhos tempos de soldados de Rondon. Informações nos foram passadas pelo Sr. Carlos que há, inclusive, livro sendo editado sobre esta histórica unidade. 99


O prédio de nº196 da rua general Carneiro Com a transferência da 2º Cia Trns em 1950, o prédio do nº 196 da rua general Carneiro foi ocupado pelo Departamento de Estradas e Rodagem do estado, que nele desejoso estava em sediar as futuras instalações de sua 2º Diretoria Regional (DER.2). Essa aspiração atingiu a sua concretização por intermédio dos esforços empreendidos pelo engenheiro Dr. Péricles Dávila Mendes, então diretor da DER.2, que para aquele prédio recebeu a determinação de sediar a mesma, dado que até então ela existia em três diferentes localidades na cidade, nas ruas Quintino Bocaiúva, Pedro Marques e Silva Jardim. A data de 15 de agosto de 1959 marca a inauguração desta mesma diretoria que desde então tem prestado relevantíssimos serviços ao Estado de São Paulo nas estradas de rodagem que se encontram sob sua jurisdição. Ademais, encontra-se em 2012 na sua direção o ínclito engenheiro Dr. Alfredo Moreira de Souza Neto. Outrossim, com a mudança em definitivo da DER.2 para o nº 196 da rua general Carneiro, completamos com a derradeira peça faltante o intrincado e empolgante quebra-cabeças que foi o histórico desse prédio, cujo inegável patrimônio histórico é para a cidade e história de Itapetininga. De fato, vimos peça a peça que a história do prédio atualmente ocupado pela DER.2. confunde-se com a história desta cidade e quiçá de nosso país. Iniciada a sua existência como casarão da família do coronel Fernando Prestes de Albuquerque, onde se formou a legendária COLUNA SUL que debelou os revoltosos de 1924, o prédio surgiu para se tornar a sede de três batalhões de Caçadores Paulistas da Força Pública do Estado de São Paulo, e nos tempos da Revolução Constitucionalista de 1932, foi o Quartel General do Exército Revolucionário do Setor Sul, para daí, posteriormente servir ao Exército Brasileiro sediando um batalhão de Caçadores (Infantaria) e uma companhia de Transmissões (Comunicações), unidades que ali existiram e formaram gerações de jovens itapetininganos, não só para uma reserva cidadã e patriótica, como também soldados que arrostaram os maiores perigos na Segunda Grande Guerra Mundial na Itália. Concluímos o ensaio com um esquema que foi apresentado em palestra por nós proferida e intitulada “O prédio da 2º Diretoria Regional do DER de Itapetininga na História Militar brasileira” no Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Itapetininga, a 9 de novembro de 2011. Neste esquema, didático e informativo, apresentamos o 100


quebra-cabeças, de forma resumida, cujas peças buscamos encaixar no presente ensaio, na esperança de que possa servir de singela contribuição às gerações futuras que porventura se debruçem sobre o belíssimo histórico dessa casa de bravos, morada de heróis! Quadro Síntese das Unidades Militares que ocuparam o Prédio da DER.2.

Legenda do quadro

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Capítulo VIII Itapetininga Heróis Feitos e Instituições

Tiro de Guerra 02-076

Sentinela dos Campos de Itapetininga

Autoria de

Jefferson Biajone 103


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Uma bela manhã de formatura

Q Q

uando a 8 de maio de 2011 celebrou-se ao redor do globo o 66º aniversário do fim da II Grande Guerra Mundial (1939-1945), estávamos em visita ao Tiro de Guerra 02-076 (doravante denominado TG 076) de Itapetininga, sito na vila Barth, defronte à FATEC “Prof. Antônio Belizandro Barbosa Rezende”, a fim de participar das comemorações que naquele dia foram realizadas em memória ao término do maior conflito armado do século XX. Foi na radiante manhã desse dia que conhecemos pela primeira vez os subtenentes Alexssandro Lucas Costa e João Iran Costa, chefe de instrução e instrutor, respectivamente, do referido TG. Desde o nosso licenciamento do Exército Brasileiro em fins de fevereiro daquele ano, esta fora a primeira organização militar que adentráramos até então e foi como estar em casa, porquanto a sede e as demais dependências do TG, os instrutores, os atiradores e o belíssimo pavilhão nacional a tremular altaneiro no pátio de formatura eram todos parte do Exército nacional ao qual tivemos a excelsa honra de servir por alguns anos. Neste dia conhecemos também o secretário do TG, o Sr. Edson Valério Ramos, e reencontramos as pessoas dos veteranos da II Guerra Mundial Victorio Nalesso e Argemiro de Toledo Filho, que presentes estavam para abrilhantarem as comemorações, na condição de umas das últimas testemunhas partícipes na luta que nosso país empreendeu pela liberdade e pela democracia, nos campos e nos ares da Itália. Entre demais autoridades civis e militares presentes, em destaque o diretor do TG, o prefeito municipal Sr. Roberto Ramalho Tavares e o 2º Tenente Uiltron Canedo Góes, delegado da 16ª Delegacia de Serviço Militar, a formatura atingiu o seu zênite com o desfile dos garbosos jovens atiradores, cuja firmeza da cadência e o porte marcial demonstravam o apuro com o qual a instrução que detinham lhes era ministrada. Ao final da solenidade, encontramo-nos com o subtenente Alexssandro defronte à galeria de fotografias dos Ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Lá solicitamos a ele, já aquiescido o diretor do TG dessa requisição, que nos facultasse acesso às trinta e cinco fotos dos veteranos ali existentes, para que, uma vez digitalizadas, pudessem compor página do Portal do Ex-Combatentes de Itapetininga, idéia de inclusão digital da história da participação desse município na II Guerra Mundial que tivemos naquele dia mesmo 105


das comemorações do 8 de maio e que, só a 25 de agosto de 2011, Dia do Soldado, conseguimos concretizar, sob o endereço na Internet http://pec.itapetininga.com.br. Mas foram durante os dias e semanas compreendidas entre esses dois meses vividos para construir e disponibilizar o portal que, em outras visitas realizadas ao TG 076, pudemos aquilatar o valor do trabalho de civismo e cidadania empreendido por essa tradicional instituição do Exército Brasileiro em Itapetininga. Em uma dessas visitas, tivemos a oportunidade de inclusive ter acesso aos livros de registros das realizações do TG nos anos anteriores, e para a nossa inopinada e emocionante surpresa, nos foi apresentado pelo secretário Edson o seguinte registro, constante na página 21 do Livro Histórico do TG de 1952 a 1985: (...) LUIS CARLOS BIAJONE, nascido a 16 de junho de 1951, pertenceu a turma de 1970, matriculado que foi sob o nº 88, em 14 de janeiro de 1970, sendo que a 23 recebeu identidade de nº 2g617624a, tendo sido submetido e aprovado nos exames finais de 28 de junho. A 29 prestou compromisso a bandeira e foi desligado, recebendo certificado de serviço militar de nº 178349A. Ora, Luis Carlos Biajone não seria outra pessoa senão o nosso próprio pai e que fora, em 1970, atirador daquela mesmíssima organização militar, onde prestou o Serviço Militar Inicial e se formou na graduação de soldado, reservista de segunda categoria, do Exército Brasileiro. Diante de semelhante descoberta e ao folhear as fotografias dos atiradores da época tivemos a grata idéia de resgatar os antecedentes históricos dessa relevante casa de formação de cidadãos para o município de Itapetininga, para o estado de São Paulo e para o nosso Brasil. De imediato aquiesceram com a proposta os amigos subtenentes Alexssandro e Iran e naqueles idos mesmo, iniciamos com as pesquisas que mais tarde consubstanciaram o presente texto. Isto posto, veremos a seguir que a organização do histórico do Tiro de Guerra em Itapetininga, desde a sua primeira existência em 1918 até o ano da publicação desse livro, 2012, se deu em torno das três denominações que ele teve ao longo dos últimos 93 anos de vida, a saber, o TG 234, o TG 293 e o atual TG 076.

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Tiro de Guerra 234: precursor do Serviço Militar em Itapetininga (Do ano de 1918 a 13 de Março de 1952) A busca pelos antecedentes históricos do TG 076 nos levou a contatar outros amigos dos tempos de serviço ativo do Exército Brasileiro. Tratava-se do capitão Alcemar Ferreira Júnior, historiador do Arquivo Histórico do Exército (AHEx), sito no Rio de Janeiro, RJ. Este valoroso oficial e sua equipe uma vez mais nos prestaram relevante serviço nos esclarecimentos históricos que solicitamos junto ao AHEX por meio de mensagens trocadas via correio eletrônico. Já havíamos estreitado relações desde o trabalho de levantamento de dados que realizamos sobre o histórico do 5º Batalhão de Caçadores em Itapetininga e agora, sobre o TG 076, a profusão e qualidade das informações prestadas não foram de menor valia. Isto posto, a documentação constante no AHEX nos informou que a primeiríssima instituição Tiro de Guerra que existiu em Itapetininga fora o TG 234, tendo a data a sua fundação ocorrida no ano de 1918. Deste ano até o dia 13 de Março de 1952, o Serviço Militar Inicial prestado pelos jovens itapetininganos ocorreu nas dependências desse TG, subordinado ao 4º Centro de Recrutamento, da 2ª Região Militar. O 234, porém, nunca teve sede fixa como o atual 076 possui há largos anos. Pelo contrário, em conversas com familiares de atiradores que nele serviram pudemos constatar que ele mudou de sede por várias ocasiões até atingir a presente localidade na vila Barth, hoje defronte à FATEC “Prof. Antônio Belizandro Barbosa Rezende”. O conhecimento de onde fora a primeira sede do TG 234 nos fora transmitido pela avó da esposa do Sr. Edson, a senhora Iracema Albino de Oliveira, cujo marido já falecido, o Sr. José Leonel de Oliveira, fora atirador desse mesmo TG no período de 27 de novembro de 1940 a 22 de agosto de 1941. O Sr. José Leonel de Oliveira, avô da esposa do amigo Edson, pertenceu à turma dos itapetininganos nascidos em 1922 que convocados em 1941 foram para a prestação do Serviço Militar Inicial. Conjuntamente com ele, atiradores também foram dessa turma itapetininganos ilustres como os senhores Betoven Tavares de Lima (filho do augusto professor Modesto Tavares de Lima), Léo Orsi Bernardes e os irmãos Júlio e Jorge de Almeida. Segundo nos informou Edson, do depoimento por ele colhido de D. Iracema, avó de sua esposa, a primeira sede do referido TG era localizada na rua Silva Jardim, centro de Itapetininga, e teve na época 107


em que serviu o Sr. José Leonel, o sargento Figueiredo como instrutor chefe e, posteriormente, o sargento Lourival, quando aquele primeiro fora transferido para o Rio de Janeiro. Em 1942, o TG 234 teve sua sede transferida para a rua José Bonifácio e lá permaneceu até 1952, quando então foi transferido para onde hoje existe Loja Maçônica na esquina da rua coronel Pedro Dias Batista com a rua Pedro Marques. De acordo com o Dr. José de Almeida Ribeiro, presidente da Academia Itapetiningana de Letras, esse prédio antes de pertencer à Maçonaria foi sede da Sociedade Italiana e nele os atiradores dos anos de 1952 a 1953 realizaram a prestação do Serviço Militar Inicial. Tiro de Guerra 293: berço de lideranças e expoentes (13 de Março de 1952 a 1974) Segundo o que consta na página 1 do Livro Histórico do TG de 1952 a 1985, descobrimos que o TG 234 deixara de existir e no seu lugar fora criado o Tiro de Guerra 293, a 13 de março de 1952, que nos seguintes termos e na presença das seguintes autoridades, foi instalado em nossa cidade a 1º de maio de 1952: Ministério da Guerra 2º Região Militar Inspetoria de Tiro Dia 1º de maio de 1952, às 14 horas com a presença do exmo Sr. Dr. Antonio Madureira de Camargo, Juiz de Direito, exmo. Sr. Dr. Ciro de Albuquerque, Prefeito Municipal, Sr. Tenente Severino de Andrade Guedes, delegado de recrutamento e demais autoridades civis e militares, eclesiásticas e grande massa popular, foi instalado oficialmente o Tiro de Guerra 293 desta cidade de Itapetininga, criado pela portaria ministerial nº 75 do Diário Oficial da União de 13 de Março de 1952, a solenidade revestiu-se de grande brilhantismo. Fizeram uso da palavra os oradores que esclareceram a finalidade cívica e patriótica da nova escola de formação de reservistas e elevaram bem alto o nome do Exército Brasileiro. Sede do Tiro de Guerra em Itapetininga, 1º de Maio de 1952 Consta também naquela mesma página o lançamento da ocorrência relativa à entrega da Bandeira Nacional, que doada fora ao TG 293 pela D. Ernesta Xavier Rabelo Orsi, excelsa educadora itapetiningana e avó de nosso amigo e presidente do IHGGI Mário Celso Rabelo Orsi Júnior, conforme se lê a seguir 108


A 17 de Julho de 1952, ás 19h30 horas, no pátio da Escola Normal Peixoto Gomide, foi feita a entrega da Bandeira Nacional ao Tiro de Guerra, doada pela exma Sra. Ernesta Xavier Rabelo Orsi que proferiu brilhante discurso referente à solenidade. Após o recebimento da Bandeira Nacional pela guarda constituída de alunos, usou da palavra o Sr. Diretor agradecendo em nome do Tiro de Guerra e ressaltando a alta significação da solenidade, que revestiu-se de grande brilhantismo. O ato contou com a presença do Sr. Coronel chefe da 14º S.R. José de Souza Carvalho, exmo Sr. Dr. Juiz de Direito Raul da Rocha Medeiros Júnior, exmo Sr. Prefeito Municipal Dr. Ciro de Albuquerque e demais autoridades civis e militares. Na direção do recém-criado TG 293, encontrava-se o prefeito municipal Dr. Ciro de Albuquerque, tendo como instrutor-chefe o 1º tenente R/1 Severino de Andrade Guedes e como instrutor o 1º Sargento Cristiano Marques Monteiro Filho. As atividades de instrução tiveram início em 1º de Maio desse ano, com a matrícula de cento e vinte e nove atiradores da classe de 1933, isto é, dos nascidos em 1933. Dentre estes atiradores que constituíram a primeira turma formada pelo TG 293 estava o jovem José Fabiano de Almeida Alves, filho do professor, dentista, orador, jurista e veterano das revoluções de 24, 30 e 32, Francisco Fabiano Alves, personalidade por demais influente na vida cultural de Itapetininga e que, segundo depoimentos que colhemos de seu filho José Fabiano, responsável fora também nos esforços de dedicados munícipes para que o referido tiro de guerra viesse a existir na cidade. Ainda referente a essa primeira turma de atiradores, encontramos na página 3 do referido Livro Histórico, lançamento referente ao exame final de conclusão do Serviço Militar Inicial por eles realizado em dezembro de 1953: 1953 – exame dos convocados foi realizado nos dias 2 e 3 de dezembro pela comissão designada pelo Exmo Sr. General comandante da 2º Região Militar composta do diretor do Tiro de Guerra, do Sr. Ciro de Albuquerque, Prefeito Municipal e Sr. 2º tenente Ivan de Andrade do 2º BC. Concurso de Tiro foi realizado no dia 4 do corrente, presidido pela mesma comissão de exame, tendo sido classificado em 1º lugar o convocado nº 30 Erotildes Roserio e em 2º lugar o convocado nº 24 Darcy Vilar. O compromisso à Bandeira dos novos reservistas foi realizado no dia 4 às 17h30 horas na praça Duque de Caxias, com a presença de todas as autoridades desta cidade e pela comissão examinadora, usaram da palavra o exmo. Sr. Dr. Ciro de Albuquerque – Prefeito Municipal e Sr. Tenente Ivan de Andrade. Após as solenidades do compromisso à Bandeira o Tiro de Guerra desfilou em continência as autoridades. Itapetininga a 4 de dezembro de 1953 109


Interessante observar que era costume do Tiro de Guerra daqueles idos realizar a cerimônia de Juramento à Bandeira, ato que sinalizava a conclusão do Serviço Militar Inicial, na Praça Duque de Caxias, sob o olhar atento da população itapetiningana. Outrossim, a sede do TG 293 deixou o prédio da sociedade italiana sito na esquina da rua coronel Pedro Dias Batista com a rua Pedro Marques e foi instalado na chácara do Sr. Orestes Albuquerque, ali encontrando morada nos anos de 1954 e 1955. Esta informação nos foi relatada pelo nosso amigo e confrade José de Almeida Ribeiro, porquanto este se recorda que a turma de atiradores de seu irmão naquela chácara obteve a sua formação. Em 1956, porém, o TG 293 mudaria uma vez mais de localização, vindo agora a se instalar na Igreja Nossa Senhora Aparecida que naqueles idos se encontrava em construção. Quem testemunhou essa terceira fase de sede do memorável 234 foi o professor Dirceu Campos, nosso amigo e também confrade do IHGGI, emérito cidadão honorário itapetiningano. Dirceu Campos, nascido em 1938, pertenceu à turma de atiradores de 1957, convocada para a prestação do serviço militar de fevereiro a novembro daquele ano. Segundo José de Almeida Ribeiro, que também pertencera a turma de Dirceu, as instruções teóricas ocorriam nas instalações onde hoje seria a sacristia da referida igreja e os exercícios práticos e o ordem unida nas imediações da mesma. Destarte, marcharam ombro a ombro com Dirceu Campos e José de Almeida Ribeiro outros tantos itapetininganos de escol, jovens que como eles se tornariam mais tarde expoentes na vida cultural, intelectual, política e social de Itapetininga, entre os quais Roberto Soares Hungria, Antonio Fernando da Silva Rosa, Zeca Borba, Marcos de Campos Fiúza, Emerval Victor Alciati, Otávio de Oliveira “Macalé”, entre outros. Foram os instrutores dessa turma os sargentos Cristiano e Elpídio, homens cuja inteireza de caráter e esmerado profissionalismo os fizeram inesquecíveis de todas as turmas de atiradores que com eles conviveram. No livro “Histórias que a história não contou” que recentemente publicou com o espeleólogo Manoel Silvério, Dirceu nos conta no texto “Atiradores de 1957 revivem a glória” toda a atmosfera sadia da experiência que ser militar proporcionou àqueles jovens, bem como o quanto essa mesma experiência lhe fora particularmente significativa, conforme se pode depreender quando ele afirma que “servir a pátria é mais do que uma obrigação, é um privilégio de poucos, é aprender viver para a sociedade” (CAMPOS & SILVÉRIO, 2011, p. 15). Em novembro de 1957, Dirceu nos relata ainda que o busto 110


do maior soldado da História Militar brasileira, o marechal de exército Luis Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, foi inaugurado na praça que leva o seu nome, defronte da Igreja Matriz da Nossa Senhora dos Prazeres. Foi nessa inauguração que o atirador Dirceu e seus companheiros de turma juraram a Bandeira, desfilando pela última vez em continência à mesma, encerrando assim o serviço militar prestado. Mas a sede do TG 293 outra vez mais seria transferida e isso ocorreu em 1959, quando as novas instalações que a receberam estavam localizadas na esquina da rua Prudente de Moraes com a avenida Peixoto Gomide, mais precisamente onde hoje se encontra a garagem da empresa Viação Cometa. Neste local permaneceu o tiro de guerra 293 por quase dez anos cumprindo a sua elevada missão até que, em 3 de junho de 1966, ele se mudou para a vila Barth, em terreno que hoje ocupa em caráter definitivo. Tal mudança se deveu à filantropia prestada pela família Barth que doou terreno que possuíam na vila que hoje leva o seu nome para que a prefeitura pudesse ali garantir a instalação permanente do Tiro de Guerra. Foram nesse importante ano para o 293, o prefeito municipal Joaquim Aleixo Machado, diretor do TG, e o 2º sargento Edmur Doro, instrutor-chefe. A construção da ampla sede que o TG hoje possui, esta só atingiu a sua inauguração em 1º de fevereiro de 1969, sob a direção do prefeito engenheiro Walter Tufik Curi, que tinha como chefe da instrução o 2º sargento José Bernardo da Silva, posteriormente substituído pelo 2º sargento Antonio Renato Margarida, em 1970, instrutor-chefe da turma de Atiradores que pertenceu Luis Carlos Biajone, nosso pai. Tiro de Guerra 076: escola de civismo e cidadania (De 1976 aos dias atuais) Segundo o nosso amigo Edson Valério Ramos, secretário do TG de Itapetininga desde 1982, a denominação 293 foi substituída pela denominação 076 nos idos da passagem do ano de 1975 para 1976, dada a reorganização estrutural pela qual passou todos os tiros de guerra pertencentes à 2ª Região Militar. Com esse ato, surgiu o atual TG 076, a sentinela dos campos de Itapetininga, como é carinhosamente conhecido de toda a população e que relevantíssimos serviços vem prestando a nossa sociedade na formação de uma reserva atenta, sadia, patriótica e cidadã. Para melhor cumprir essa importante missão, o TG 076 111


segue as diretrizes que lhe são pertinentes no artigo 2º do R-138, Regulamento para os Tiros-de-Guerra e Escolas de Instrução Militar, no qual preconiza que os TG são órgãos de formação da reserva que possibilitam a prestação do Serviço Militar Inicial no município sede onde se encontram de modo a atender à instrução, conciliando o trabalho e o estudo do jovem cidadão. Isto posto, o artigo 2º salienta ainda que missão dos atuais Tiro de Guerra existentes nas mais diversas localidades de todo o território brasileiro é de: - Prestar o Serviço Militar Inicial; - Contribuir para estimular a interiorização e evitar o êxodo rural; - Constituir-se em pólos difusores do civismo, da cidadania e do patriotismo; - Colaborar em atividades complementares, mediante convenio com órgãos federais, estaduais e municipais, no funcionamento de ensino profissionalizante em suas dependências e na utilização das mesmas em práticas cívicas, esportivas e sociais, em benefício da comunidade local; - Atuar na garantia da Lei e da Ordem (GLO) e na Defesa Territorial; - Participar da defesa civil; - Colaborar em projetos de ação comunitária Já o artigo 4º daquele mesmo regulamento prescreve que a instrução ministrada nos tiros de guerra brasileiros tem por objetivo - Preparar munícipes conhecedores dos problemas locais, interessados nas aspirações e realizações de sua comunidade e cidadãos integrados à realidade nacional; - Preparar reservistas de 2ª Categoria (Combatente Básico da Força Territorial), aptos a desempenharem tarefas limitadas na paz e na guerra, nos quadros de Defesa Territorial, GLO, Defesa Civil e Ação Comunitária; - Preparar líderes democratas, atentos aos ideais da nacionalidade brasileira e à defesa do Estado Democrático de Direito; - Desenvolver valores espirituais e morais da nacionalidade, o sentimento das obrigações para com a Pátria e a compreensão das instituições básicas que regem a sociedade, tais como Governo, Família, Igreja e Forças Armadas; - Desenvolver o sentimento de responsabilidade no desempenho de suas atividades, como cidadão e Atirador, no trato do público e do material.

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O TG 076, em fina consonância com esses dois artigos que são os eixos norteadores de sua própria existência e fundamento do que realiza, consubstanciou a concretização do que lhe compete em torno das seguintes atividades que ocorrem ao longo de seu ano de instrução, que atualmente inicia-se na primeira semana de março e chega a seu termo na primeira semana de dezembro. Não obstante, cabe ressaltar que as instruções ocorrem das seis às oito horas da manhã, de segunda à sexta, salvo os dias em que o Atirador está de serviço à guarda de quartel ou em outras atividades como exercícios militares, desfiles, formaturas, solenidades e representações em outros municípios. Isto posto, passemos agora em revista a essas atividades, as quais organizamos em torno de quatro grandes áreas de atuação do Tiro de Guerra, a saber, atividades de incorporação, de formação militar, de representação e de caráter cívico-assistencial. Essas atividades nos foram informadas pelo subtenente Alexssandro Lucas Costa, atual chefe de instrução do TG 276 e nosso amigo e dedicado irmão em armas, o qual agradecemos pela gentileza em compartilhar conosco de detalhes da intensa missão que é formar o jovem reservista do Exército Brasileiro em Itapetininga. I) Das atividades de incorporação dos novos Atiradores - Apresentação de 300 jovens inscritos para prestação do Serviço Militar Inicial, na qual 100 destes são selecionados para matricula no curso de formação de reservistas. - Realização da Aula Inaugural pelo Sr. prefeito municipal, diretor do Tiro de Guerra. - Efetivação da matrícula dos Atiradores recém-incorporados em solenidade na sede do Tiro de Guerra com a participação das autoridades locais e familiares. - Reunião com pais e responsáveis dos Atiradores, na qual são orientados à respeito do ano de instrução, serviço, missões, etc... que seus filhos estarão sujeitos ao longo do mesmo. II) Das atividades de formação militar realizadas pelos Atiradores - Ordem Unida, Treinamento Físico Militar, Armamento, Munição e Tiro, Hierarquia e Disciplina, entre outros assuntos pertinentes à formação do reservista de segunda categoria do Exército Brasileiro. - Serviço de guarda ao quartel (sede do TG e demais instalações) nas funções de comandante da guarda, cabo da guarda, 113


estafeta e sentinela dos postos P1 e P2. - Desfile militar nas seguintes solenidades e datas comemorativas: Matrícula (mês de março), Dia do Exército (19 de abril), Dia da Vitória (8 de maio), Dia do Soldado (25 de agosto), Dia da Independência (7 de setembro), Aniversário de Itapetininga (5 de novembro), Dia da Bandeira (19 de novembro) e Formatura de Encerramento do Serviço Militar Inicial (fins de Novembro). - Realização de três marchas a pé correspondendo o cumprimento das distâncias crescentes de 8, 12 e 16 quilômetros. - Exercício de Curta Duração (ECD) no qual é realizada a operação boina, quando realizam os atiradores exercício de tiro com o armamento mosquefal, pista de cordas, maneabilidade no terreno, tocas e abrigos, pista fio e bivaque, ou seja, o pernoite dos atiradores no campo. - Curso de Formação de Cabos (CFC) no qual os Atiradores partícipes são distinguidos com a condição de monitores da turma e se aprovados no curso, são promovidos à graduação de cabo da reserva de 2º categoria, na formatura de Encerramento do Serviço Militar Inicial. III) Das atividades de representação realizadas pelos Atiradores - Participação dos Atiradores pertencentes à Guarda-Bandeira do TG 076 na cerimônia de entrega de Certificado de Dispensa de Incorporação (CDI) nas cidades não tributárias: Guareí, Sarapuí, São Miguel Arcanjo e Alambari. - Participação dos Atiradores pertencentes à Guarda-Bandeira do TG 076 na solenidade de aniversário da cidade de Quadra. - Participação da turma de Atiradores em desfiles nos municípios de Alambari, Campina do Monte Alegre, Boituva e Taquarivaí. IV) Das atividades cívico-assistenciais realizadas pelos Atiradores - Participação nas campanhas assistenciais do Agasalho, do Alimento, da Doação de Sangue, Doação de Medula Óssea e do Plantio de Árvores. - Participação em várias procissões religiosas nas igrejas da cidade, onde Atiradores são convidados para conduzir os andores dos respectivos santos. - Participação na EXPOAGRO. - Realização de palestras nas escolas do município sobre temas relativos ao culto do civismo, da cidadania e do patriotismo, 114


bem como da importância do Exército Brasileiro para uma nação forte, soberana e segura. - “Atirador por um dia”, atividade que ocorre duas vezes no ano de instrução e na qual membros da Guarda Mirim de Itapetininga vivenciam a experiência de ser Atirador por um dia. A par dessas atividades de cunho cívico-assistenciais, a sede do Tiro de Guerra é concedida todas as noites durante a semana à entidade local do Fundo Social de Solidariedade para a realização de um Curso Pré-Vestibular gratuito. O mesmo espaço é também por vezes utilizado pela FATEC de Itapetininga para a realização de seminários, encontros, colóquios, cursos e congressos. Apoios, Parcerias e Honrarias Outrossim, concorrem também para o sucesso das atividades consubstanciadas em torno das quatro grandes áreas de atuação do TG 076 mencionadas, outras instituições, entidades e personalidades cuja participação, seja em menor ou maior escala, contribui, cada qual a sua maneira, para aperfeiçoar e integrar a formação do reservista do Exército Brasileiro à diversas áreas de exercício do civismo e da cidadania. São eles, o 22º Batalhão de Policia Militar, que ministra instruções sobre trânsito; o 1º posto do 4º Subgrupamento de 15º Grupamento de Bombeiros do Estado de São Paulo, que ministra instruções relativas ao combate de incêndios, primeiros socorros e pista de cordas; Agentes Penitenciários do Estado de São Paulo que ministram instruções sobre drogas; o Secretário do Meio-Ambiente de Itapetininga, que ministra instruções sobre assuntos relativos ao Meio Ambiente e o Veterano da II Guerra Mundial, o Sr. Victorio Nalesso, que ministra palestras sobre a participação do Exército Brasileiro na Força Expedicionária Brasileira. Em prol da valorização dos Atiradores que se destacaram no cumprimento do Serviço Militar Inicial, o TG 076 faz uso das seguintes honrarias, consubstanciadas em diplomas que levam os seguintes títulos e requisitos para concessão: - Diploma Praça mais Distinta, ao Atirador que foi o destaque de toda a turma; - Diploma de Honra ao Mérito, ao Atirador que não teve nenhuma falta durante o ano de instrução; 115


- Diploma de Melhor Atirador Combatente, ao Atirador destaque no exercício de armamento, munição e tiro; - Diploma de Melhor Aptidão Física, ao Atirador destaque no quesito da preparação e higidez fisica adquirida no ano de instrução. Há ainda o Diploma de “Amigo do Tiro de Guerra”, do TG 02-076, a Medalha “Mérito TG”, da Academia de Estudos de Assuntos Históricos e a Medalha “Mérito Cívico Militar”, da Academia de Medalhística Militar, honrarias conferidas à personalidades civis e militares que por abnegação, dedicação e capacidade profissional tenham contribuído para o fortalecimento e engrandecimento da instituição Exército Brasileiro por intermédio do Tiro de Guerra. Em 2011, a Medalha “Mérito TG” foi conferida ao Atirador Praça Mais Distinta, o jovem André Ferreira de Souza, que também foi agraciado pela Câmara Municipal de Itapetininga com uma placa comemorativa, em sessão solene ocorrida a 24 de novembro. Já a Medalha “Mérito Cívico Militar” foi entregue ao prefeito Roberto Ramalho Tavares, na Formatura de Encerramento do TG 076, ocorrida no dia seguinte, a 25 de novembro. Quanto ao Diploma “Amigo do Tiro de Guerra” daquele ano, o receberam o senhores Edmundo José Vasques Nogueira, Edson Valério Ramos e o 1º Tenente R/2 Jefferson Biajone. Outro reconhecimento aos Atiradores da turma de 2011 ocorreu na mesma sessão solene promovida pela Câmara na noite de 24 de novembro, quando o núcleo de correspondência da Sociedade dos Veteranos de 32/MMDC, o “Paulistas de Itapetininga! Às Armas!!” concedeu ao Atirador afrodescendente, Samuel Mariano de Lima, o Diploma de Honra ao Mérito Cabo Blindado Durvalino de Toledo e, na Formatura de Encerramento do TG, a 25, este núcleo conferiu o Diploma de Honra ao Mérito Soldado Constitucionalista João Garcia Porto ao Atirador Praça Mais Distinta André Ferreira de Souza e a dois outros Atiradores de ilibada conduta e não menor merecimento, os Atiradores João Vitor de Carvalho Correa Sá Freire e José Elias da Silva Neto. O Tiro de Guerra de amanhã Concluímos o presente texto de resgate histórico do Tiro de Guerra em Itapetininga com a certeza de que longa e profícua continuará sendo a caminhada dessa valorosa instituição do Exército Brasileiro na contribuição que presta ao nosso município, ao nosso estado e ao nosso país. De fato, a cada ano que passa, nas turmas de reservistas que forma, o Tiro de Guerra da cidade de Itapetininga devolve ao seio 116


de suas famílias jovens mais sadios, conscientes de seus direitos e deveres, possibilidades e potencialidades, cujos corações e mentes encerram e expressam civismo, cidadania e patriotismo. Estes nobres atributos que sobejamente tiveram a oportunidade de vivenciar durante a prestação do Serviço Militar seguramente, estarão com eles ao longo de toda a vida esperançosa, seja na condição de futuras lideranças e esmerados expoentes, seja como honrados cidadãos benfeitores da municipalidade. A título de conclusão, gostaríamos de tornar público a Galeria de Instrutores-chefe do Tiro de Guerra 076, como preito de lembrança àqueles militares que, desde 1918, têm se sucedido na dedicação do melhor de suas energias na formação de uma juventude sadia, cidadã, patriótica e cívica para Itapetininga, por São Paulo e pelo Brasil!

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Capítulo IX Itapetininga Heróis Feitos e Instituições

Guarda Municipal de Itapetininga

Segurança Cidadania e Tradição

Autoria de

Jefferson Biajone 119


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Itapetininga aos 241 anos

N

a manhã do dia 5 de novembro de 2011, comparecemos às festividades de comemoração do aniversário dos 241 anos de Itapetininga que abrilhantadas foram com um desfile cívico pela avenida Virgilio de Resende de várias entidades municipais, estaduais e federais em homenagem à nossa querida cidade. Um palanque fora montado à frente da Igreja de Nossa Senhora das Estrelas e às oito horas se deu início a cerimônia de hasteamento das bandeiras Nacional, do Estado de São Paulo e de Itapetininga, realizada, respectivamente, pelas autoridades prefeito Roberto Ramalho Tavares, deputado estadual Edson Giriboni e o presidente da Câmara Municipal vereador Fuad Abrão Isaac, acompanhados que estavam dos veteranos da II Guerra Mundial Victorio Nalesso e Argemiro de Toledo Filho, bem como do instrutor-chefe do Tiro de Guerra 02-076 de Itapetininga, o subtenente Alexssandro Lucas Costa. Sob a voz barítona e empolgante do Sr. Bene Luiz, as festividades atingiram o seu zênite com o desfile de diversas entidades que ali estiveram para prestigiar Itapetininga, deixando a população presente em pleno entusiasmo pela multiplicidade e diversidade de vozes, expressões e personalidades que compõem nosso município. Foi nesta ocasião que tivemos a oportunidade de estreitar laços com algumas pessoas que nos foram apresentadas por amigos em comum. Uma delas foi o Sr. Josué Álvares Pintor, coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo (PMESP) e secretário de Trânsito e Cidadania de Itapetininga, que nos foi apresentado pelo amigo em comum Edmundo José Vasques Nogueira. É lícito que confessemos que o catalisador de tal apresentação fora uma idéia nossa que Edmundo sabia existir já algum tempo sobre um resgate que desejávamos realizar da história da Guarda Municipal de Itapetininga (GMI) e ali, naquele local e circunstâncias, entendeu Edmundo ser o momento ideal e a ocasião mais propícia para se levar a idéia ao secretário cuja instituição encontrava-se sob sua subordinação. O coronel PM Pintor de imediato aquiesceu com a idéia e predispôs o seu pessoal para nos receber na sede da GMI assim que desejássemos na semana seguinte. E assim fizemos na terça-feira do dia 8 de novembro, quando na manhã daquele dia fomos recebidos na sede daquela briosa instituição pela senhora Catarina Aparecida Nanini Motta, guarda municipal (GM) e diretora do Departamento de Proteção Comunitária e Patrimonial, um dos vários órgãos que compõem a estrutura organizacional da 121


corporação. Na conversa que tivemos ao longo de toda aquela manhã, durante a qual pudemos também conhecer a carismática pessoa do senhor Adão Fernandes dos Santos, 1º tenente da reserva da PMESP e atual subcomandante da GMI, pudemos nos inteirar de informações que tanto Catarina quanto Fernandes nos compartilharam, e que foram fundamentais, posteriormente, na elaboração do presente capítulo. São essas informações, portanto, que a seguir apresentaremos, inseridas em um contexto histórico maior que também exploraremos, no intuito de resgatar fatos e acontecimentos, cujas evoluções e desdobramentos ao longo de largos anos fizeram surgir a Guarda Municipal de Itapetininga que hoje luzida, profissional e altaneira sabe bem realizar as missões de segurança pública e defesa social que lhe competem. Raízes históricas da Guarda Municipal de Itapetininga Segundo consta nas páginas 20 e 21 da preciosa obra “Itapetininga e sua História”, publicada em 1956 pelo célebre escritor Antonio Galvão Júnior, a cerimônia de fundação de Itapetininga foi realizada no dia 5 de novembro de 1770. Estavam presentes na manhã desse memorável dia, ocorrido há 241 anos, as pessoas de Salvador de Oliveira Leme; Domingos José Vieira; Simão Barbosa Franco; o doutor Salvador Pereira da Silva, ouvidor geral da comarca de São Paulo; Antonio de Miranda Cavalheiro, juiz ordinário de Sorocaba; membros da Câmara de Sorocaba; convidados e o povo presente. Na cerimônia foi levantado o pelourinho em concordância com a legislação da época, seguido o ato de missa solene presidida pelo padre Ignácio de Araújo Ferreira, primeiro vigário da freguesia de Itapetininga que naquela data passava a se chamar “Vila Nossa Senhora dos Prazeres de Itapetininga”, conforme consta no termo de abertura do pelouro, quando da posse da primeira câmara municipal de nossa cidade, a 3 de março de 1771 (GALVÃO JÚNIOR, 1956, p. 24). Esse breve resgate da fundação de Itapetininga foi para trazermos à memória as pessoas de Domingos Jorge Vieira e Salvador de Oliveira Leme. Homens que não só concorreram com o melhor de suas energias para essa fundação, mas que como veremos adiante, significado todo especial tiveram para a Guarda Municipal hoje existente. De fato, Domingos Jorge Vieira fora um português de Braga radicado para o Brasil e casado com moça sorocabana, desejou se dedicar à lavoura em local onde eventualmente seria o da fundação da 122


futura vila de Itapetininga. Sendo, pois, reconhecido como o principal artífice dessa fundação, fora ele a tempo relembrado pelas autoridades da capitania de São Paulo quando Itapetininga crescia e progredia a olhos vistos. De fato, o crescimento e o progresso trouxeram com eles a necessidade de um capitão-mor para a florescente vila. Mas quem ocuparia esse cargo? Foi quando então despontou o nome de Domingos. Mas, antes disso, o que seria um capitão-mor e para que finalidade tal cargo? Segundo o que consta no portal da Wikipedia.org, lê-se a seguinte definição: (...) capitão do donatário, capitão-donatário ou ainda capitãomor, era um cargo tardo-feudal criado nas ilhas atlânticas e no Brasil onde vigorava o regime da donataria. Cabia ao capitãodonatário a representação na capitania dos interesses do donatário, garantindo os seus proventos e administrando os seus bens. Serviam ainda de interlocutor entre as populações e o donatário. Os capitães do donatário gozavam de latos poderes administrativos, judiciais e fiscais, sendo a autoridade máxima na sua Capitania. (...) O capitão do donatário recebia poderes, tanto no campo cível como no criminal mas era obrigado a apresentar as partes desavindas perante juizes da terra que deveriam aplicar o direito (...) O cargo era em geral hereditário, estando sujeita a um regimento específico e, em geral, a confirmação real (...) (fonte: Wikipedia.org. Termo de busca: capitão do donatário). Dessa explanação depreendemos que dentre o rol das múltiplas atribuições de seu futuro cargo, encontrava-se Domingos Jorge Vieira na condição de primeiríssimo agente imbuído pelos poderes constituídos da época, no caso a Coroa Real Portuguesa, para a garantia da segurança pública e da defesa social das pessoas residentes na vila de Itapetininga. Ora, aconteceu que a ascensão de Domingos ao referido cargo necessitou da colaboração de outro residente de Itapetininga igualmente histórico, Salvador de Oliveira Leme, que conhecido era de todos da época e nos centenários vindouros pela lendária autonomásia “Sarutayá”. Pois bem, por ter sido Sarutayá capitão-mor de Sorocaba, gozava ele de expressivo prestígio junto à Coroa Portuguesa e sua indicação de Domingos para o cargo em Itapetininga teria todas as chances de se concretizar. Não obstante, Antonio Galvão Júnior nos conta em sua 123


supracitada obra (1956, p 31) que Sarutayá enviara a pessoa de Simão Barbosa Franco, outro importante fundador de Itapetininga, para São Paulo onde este, a 3 de dezembro de 1771, prestou o juramento de assunção ao posto de capitão-mor de nossa cidade, apenas para efeito de transferi-lo à pessoa de Domingos Jorge Vieira, quando de volta à Itapetininga Simão estivesse. E foi como de fato ocorreu. Assumindo o cargo, Domingos Jorge Vieira foi ainda declarado alferes (patente que na época corresponderia ao atual posto de segundo-tenente) e foi capitão-mor com tal afinco e amor pela vila que só o deixara de sê-lo onze anos depois, isto é, a 1782, quando o excesso de trabalho e atribuições que lhe eram inerentes perante uma Itapetininga em vertiginoso crescimento não lhe permitiram mais prestar seus relevantes serviços. Como substituto de Domingos, assume Salvador de Oliveira Leme, o Sarutayá, o cargo de capitão-mor, a contar de 2 de agosto de 1785, tendo lhe sido expedida a respectiva carta patente confirmatória do posto pela rainha D. Maria I, a 17 de outubro do mesmo ano. Mas tal como ocorreu com Domingos, Sarutayá também eventualmente teria as suas forças exauridas no excesso de trabalho que Itapetininga, já cidade grande, haveria de lhe proporcionar. A solução para tal impasse foi proposta pela Câmara Municipal nos seguintes termos: propor à Capitania de São Paulo a criação de um novo cargo, a saber, o de sargento-mor, o qual tinha por finalidade assistir o capitão-mor nas quase inúmeras e crescentes responsabilidades administrativas, judiciais e fiscais que este último enfeixava para si. Ratificada a solicitação da Câmara pela Coroa, o primeiro ocupante desse honroso posto foi Salvador de Oliveira Ayres, distinto itapetiningano e neto de Sarutayá, que sargento-mor foi empossado a contar de 5 de julho de 1802. São nesses fatos aí explicitados, oriundos da inteligente pena de Antonio Galvão Júnior, que em documentação da época se apoiou para escrever “Itapetininga e sua História” (1956), que entendermos residirem as raízes históricas da origem da atual Guarda Municipal. Com efeito, foi por meio das ações pioneiras desses três bravos, a saber, Domingos Jorge Vieira, Salvador de Oliveira Leme “o Sarutayá” e o neto deste, Salvador de Oliveira Ayres, os quais poderiam, mui merecidamente, ser relembrados pelo epíteto que aqui cunhamos de “a tríade da segurança pública e da defesa social de Itapetininga”, que se pode aquilatar a real importância da Guarda Municipal como instituição herdeira das tradições e serviços prestados por esses mesmos pais e heróis de nossa municipalidade. 124


A primeira Guarda Municipal de Itapetininga Se relatar o fato de que as origens da Guarda Municipal de Itapetininga (GMI) remontam à época da fundação de nossa cidade foi basilar para esse resgate histórico, não menos importante é relatar o fato de que antes da atual GMI uma outra existiu, ainda que por curto espaço de tempo, na metade final do século passado. Sim, a existência de uma GMI anterior à atual é do desconhecimento de muitos cidadãos Itapetininganos e tal revelação nos chegou graças aos esclarecimentos prestados pela pessoa do 1º tenente Fernandes, subcomandante da atual GMI. Segundo o subcomandante Fernandes, nos idos dos anos 70 houve uma GM nos moldes similares à atual GMI, mas cujos maiores detalhes e efetivo ele também desconhecia e nisso nos sugeriu que investigássemos junto à pessoa do Sr. Airto Cavalheiro de Queiros, tenente coronel da reserva da PMESP e ex-integrante daquela que teria sido a primeira GMI, a qual doravante nos referiremos por 1ª GMI. E assim procedemos. Em contato com o 22º Batalhão de Polícia Militar do Interior (22º BPM/I), conseguimos por intermédio do Setor de Relações Públicas, na pessoa da soldado PM Márcia Aparecida de Oliveira Vieira, o telefone de contato do referido militar, que inclusive fora subcomandante desta unidade, quando no posto de major de Polícia Militar. Por telefone e posteriormente por visita que realizamos ao domicílio do tenente coronel PM Airto Cavalheiro de Queiros, viemos a aprender os seguintes fatos que pela qualidade e profusão de informações neles contidas, só nos resta deixar aqui consignado, uma vez mais, os nossos efusivos agradecimentos pelo serviço que prestou para os anais da história da corporação GMI. Isto posto, a 1ª GMI foi resultante da iniciativa do então vereador Humberto Pelegrini, que segundo Cavalheiro foi o grande batalhador para a sua criação, sendo que em função desses esforços que empreendeu foi instituído presidente de honra da mesma, pelo então prefeito de Itapetininga, o engenheiro Valter Tufi Curi. Como diretor administrativo da 1ª GMI foi nomeado o senhor Orlando Lopes Vieira e como primeiro comandante daquela corporação o senhor José Edson Rodrigues. Sobre a nomeação de José Edson Rodrigues para o comando da 1ª GMI, Cavalheiro nos conta que o então prefeito Valter Tufi Curi procurou o 2º sargento PM Pedro Rodrigues Batista, que naquela época comandava o Destacamento de Polícia Militar da 2ª Companhia 125


de Polícia Militar, ambos órgãos policiais sediados em Itapetininga e subordinados ao 7º Batalhão de Polícia Militar do Interior, em Sorocaba, para comandar a 1ª GMI que almejava criar para funcionar em início de 1972. Ocorreu que o sargento PM Pedro Rodrigues Batista se declarou impossibilitado para assumir o cargo, indicando em seu lugar José Edson Rodrigues, seu filho. Além desses fatos, Cavalheiro nos relatou também que a 1ª GMI foi criada nos moldes da Guarda Municipal de Piracicaba (GMP), sendo que por três dias, os recém nomeados comandante José Edson Rodrigues e diretor administrativo Orlando Lopes Vieira realizaram um estágio na GMP, a fim de melhor se capacitarem para o exercício de suas respectivas recém-empossadas funções. Em fins de 1971, Cavalheiro nos informa que o edital do concurso para a 1ª GMI é aberto, sendo ao final do mesmo selecionados 35 futuros Guardas Municipais. Dentre os que prestaram esse concurso, cujas fases compreenderam as provas intelectual, psicológica e física, sagramse Cavalheiro e trinta e quatro outros companheiros aprovados para realizar curso de formação que compreendeu disciplinas de caráter teórico e de condicionamento físico, que ministradas foram pela Polícia Civil de Itapetininga, por intermédio do Dr. Otávio Trabali Camargo, então delegado seccional, responsável pela regularização da 1ª GMI junto aos escalões competentes. É com saudosa nostalgia que Cavalheiro recorda-se que as aulas teóricas ocorreriam nas dependências da Delegacia Seccional em Itapetininga, enquanto que as aulas de preparação física se davam no campo da Associação Atlético Clube, respeitável agremiação de futebol de Itapetininga. O curso de formação durou todo o mês de janeiro de 1974, sendo que ao final deste os GM aprovados foram efetivados no cargo, a contar de 1º de fevereiro de 1972. Além do Dr. Otávio Trabali Camargo, foram também Instrutores da turma de Cavalheiro, o Dr. Viana e o Dr. Matroni, sendo que este último conseguiu autorização de porte de arma para que os GM formados nessa primeira turma pudessem assim trabalhar.

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Figura 1. 1ª GMI em uniforme para solenidade de formatura e em uniforme operacional (1972)

Cavalheiro, por fim, nos mostrou a sua Identidade de GM, cujo número é o de 25, bem como a sua Carteira de Trabalho e Previdência Social da época, na qual pudemos constatar que ele serviu na grande parte do período em que a 1ª GMI existiu, a saber, de 1º de fevereiro de 1972 a 16 de janeiro de 1974.

Figura 2. Cédula de Identidade do GM nº 25 Airto Cavalheiro de Queiros (1972)

A partir de 1974, a 1ª GMI continuou a existir somente de direito, deixando de ser incentivada pelo Poder Público Municipal, cujo Prefeito sucessor foi o senhor Darci Pereira de Moraes, e em conseqüência os guardas municipais existentes foram convidados, individual e paulatinamente, a serem funcionários em trajes civis, não mais fardados, de outros setores da Prefeitura ou a solicitarem exoneração, se assim desejassem. O então GM Cavalheiro, por sua vez, já havia solicitado a sua exoneração, vez que no primeiro semestre daquele ano de 1974 havia ingressado na PMESP como aluno soldado e, logo a seguir, por força de novo concurso prestado em 1975, na Academia de Policia Militar do 127


Barro Branco, onde como aluno-oficial concluiu mais tarde o Curso de Formação de Oficiais, foi declarado aspirante-a-oficial e posteriormente, realizou brilhante carreira policial militar que o levou a ocupar como major o subcomando do 22º BPM/I, nos idos de 1998 a 2000. Resgatados os fatos relativos à criação e existência da 1ª GMI, aberto está o caminho para apresentarmos o histórico da atual GMI, do qual daremos conta a seguir. A Guarda Municipal de Itapetininga de hoje A 28 de março de 2008, o prefeito de Itapetininga, o Sr. Roberto Ramalho Tavares, promulgou e sancionou, com a aprovação da Câmara Municipal, a Lei de nº 5.247 que rege a criação, o funcionamento e a organização da atual GMI, cujo Artigo 1º transcrevemos na sua íntegra para melhor ilustramos a razão de ser dessa corporação que instituida foi 31 anos após a desmobilização de sua briosa antecessora: Art. 1° Fica criada a Guarda Municipal de Itapetininga, corporação civil em serviço, fardada e armada de acordo com o que dispuser em regulamento próprio, de caráter preventivo, integrando um sistema articulado e cooperativo de segurança pública, para execução das políticas públicas de Segurança e Defesa Social, subordinada à Secretaria Municipal de Gabinete. Com o ato da criação da GMI que consubstanciado ficou nesse dispositivo legal, a contar de 28 de março de 2008, encontravase a corporação uma vez mais em condições de solicitar a abertura de um edital para concurso com vistas ao preenchimento de seus quadros, cujos claros foram inicialmente previstos para um efetivo de 100 guardas municipais de carreira. Não obstante, o edital de concurso público de nº 003, publicado a 4 de abril de 2008, ofereceu aos interessados apenas 40 vagas, sendo 28 para candidatos do sexo masculino e 12 para candidatos do sexo feminino. Segundo a diretora GM Catarina Aparecida Nanini Motta, este concurso, do qual ela foi partícipe, constou de cinco fases, a saber, 1º) conhecimentos intelectuais aferidos em provas escritas (eliminatória e classificatória); 2º) teste de aptidão física (eliminatória e classificatória); 3º) avaliação psicológica (eliminatória); 4º) exame de detecção de uso de drogas (eliminatória) e 5º) curso de formação técnico-profissional (eliminatória). Para a participação nesse concurso foram exigidos, dentre 128


outros requisitos, o de ser brasileiro ou estrangeiro nos termos da Emenda Constitucional n.º19/98; ter escolaridade em nível de Ensino Médio no ato da posse; não possuir antecedentes criminais; ter altura mínima de 1,65 m (homem) e 1,60 m (mulher); possuir a idade mínima de 19 anos; ter boa saúde física e mental; estar no gozo dos direitos políticos e civis, bem como quite com o Serviço Militar e não ter sido demitido “a bem do serviço público – por justa causa” nas esferas federal, estadual ou municipal da Administração direta ou indireta; O edital exigia também que o candidato fosse detentor de carteira de habilitação nas habilitações “A” e “B” ou superior. A título de resgate histórico para estudos futuros, interessante é que registremos as três disciplinas e seus respectivos conteúdos que objeto foram da prova intelectual, realizada em 25 de maio de 2008, o primeiro desafio que vencido foi pelos GM hoje na plenitude do exercício de suas funções em Itapetininga:

Concluídas as quatro fases iniciais, 44 foram os candidatos matriculados no curso técnico-profissionalizante, que realizado foi nas dependências do SESI Itapetininga, de 4 de setembro a 8 de dezembro de 2008, sob as auspicies da Assessoria Segurança e Trânsito. Deste curso, sagraram-se concluintes 42 candidatos, sendo que pela portaria de nº 277, de 19/12/2008, foram 38 os nomeados GM em estágio probatório, a contar da data de 22/12/2008, dentro da seguinte ordem classificatória que obtiveram por término de curso:

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Classificação por término de curso de formação da turma de GMIs Fonte: Semanário Oficial de Itapetininga, Ano III, nº 133, de 20/12/2008, páginas 4 e 5

Em 8 de novembro de 2011, data na qual realizadas foram as entrevistas que consubstanciaram esse capítulo, 33 era o efetivo de guardas da primeira turma da GMI que desde 2008 passou a existir. Não obstante, é fundamental que não deixemos de ressaltar que a atual GMI foi resultado da iniciativa do prefeito Roberto Ramalho Tavares e do vereador Dr. Mauri de Jesus Moraes, delegado de Polícia Civil aposentado, os quais uniram decididos esforços para que ela viesse a existir e fortemente enraizada se tornasse no cotidiano de nosso município.

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Figura 3. Insíginas dos diversos cargos em vigor na GMI nos anos de 2005 a 2011

Para tanto, contaram eles com a imprescindível consultoria e dedicado apoio do major da reserva da PMESP Calil José Badin Vieira, que auxiliado pelo 1º tenente Adão Fernandes dos Santos, criaram o design e layout das insígnias, uniformes, honrarias, logotipos, emblemas, brasões, viaturas, motocicletas e bicicletas, bem como a estrutura hierárquica-organizacional e operacional que se encontra em vigor na GMI desde a elaboração deste capítulo. Como resultado dos trabalhos desenvolvidos, foram tanto o major PM Badin, quanto o 1º tenente PM Fernandes, ainda em 2008, nomeados para os cargos de comandante e subcomandante da GMI, respectivamente.

Figura 4. A atual Guarda Municipal de Itapetininga

Mas a criatividade dos comandantes Badin e Fernandes não cessou com a fundação da GMI nesses três últimos anos de existência da corporação. Pelo contrário, estão eles agora a finalizar um Plano de Carreira para a GMI a ser implementado ainda em 2012. 131


Segundo eles, neste novo Plano de Carreira, cuja plena implantação necessitará de um aumento expressivo do efetivo da GMI para os próximos anos, está prevista a criação de novos cargos que poderão ser galgados pelos membros da corporação, entre os quais, o de guarda municipal de terceira, segunda e primeira classe, bem como os de classe especial e classe distinta, que poderão dar acesso, futuramente, aos cargos já existentes de inspetor, subinspetor e até possivelmente ao de subcomandante e comandante da corporação. Além desse grande incentivo que se almeja dar ao futuro GM, Fernandes nos apresentou também o sistema de honrarias que o comando da GMI pretende fazer uso, no mais tardar em 2012, tendo em vista a valorização dos guardas municipais que por meritórios serviços prestados à população de Itapetininga, assim se fizerem merecedores.

Figura 5. A Láurea do Mérito Pessoal nos graus terceiro, segundo e primeiro

A principal dessas honrarias é a Láurea do Mérito Pessoal, criada em 2011 e que se encontra no aguardo da homologação junto ao Executivo municipal para imediata concessão. Existente em três graus, a saber, bronze, prata e ouro, essas láureas do mérito pessoal são para serem concedidas, respectivamente, pelo comandante da GMI, pelo secretário de Cidadania e Trânsito e pelo prefeito municipal, agregando assim um valor ainda maior a esse novíssimo reconhecimento a ser conferido aos membros da GMI que pautam na excelência os serviços que prestam à nossa cidade. Atualmente a GMI encontra-se diretamente subordinada à Secretaria de Trânsito e Cidadania, na qual esta a frente o secretário municipal coronel PM Josué Álvares Pintor. No que se refere à organização operacional de seu efetivo, está a GMI organizada em equipes de guardas municipais sob comando de um inspetor, equipe essa responsável pelo cuidado dos próprios municipais em turnos diários de 8 horas, além, é claro, de outras atribuições que a GMI possa ser requisitada pelos poderes municipais a cumprir. Para melhor caracterizar que outras atribuições seriam essas, 132


nos esclareceu desse particular a diretora Catarina ao relatar que a GMI desenvolve uma extensa gama de atividades de caráter preventivo e educativo em Itapetininga, entre as quais o trabalho desenvolvido no ordenamento do trânsito, que foi imprescindível para a queda acentuada do número de acidentes com vitimas e consequente diminuição da mortalidade, o que vem sendo observado na cidade nos últimos anos. Catarina nos apontou também que além da realização das rondas diárias nos próprios municipais, as equipes de GM também são responsáveis pela travessia de escolares, policiamento preventivo nos eventos de grande circulação de pessoas, seja em eventos religiosos, culturais e desportivos, como o que ocorre à exemplo dos Jogos Regionais. Por fim, ela ressalta que a GMI é responsável também pela elaboração e aplicação de Campanhas Educativas e que, só no ano de 2010, a corporação ministrou palestras abordando temas como atitudes cidadãs e segurança no trânsito para cerca de 16.000 pessoas, entre elas, crianças, jovens e adultos. A GMI também ministra aulas no Curso de Especialização para Condutores de Táxi e na área da Segurança Pública e tem ela, desde a sua criação, marchado ombro a ombro com a Polícia Civil e Militar, tanto na prevenção de crimes contra o patrimônio e a pessoa, como na realização de prisões em fragrante, inclusive, de procurados pela Justiça. A Guarda Municipal de Itapetininga de amanhã Nossa investigação sobre as origens da GMI nos concedeu o privilégio de resgatar pouco lembrada parte da história da segurança pública e defesa social de Itapetininga nas pessoas de seus fundadores. De fato, Domingos Jorge Vieira, Salvador de Oliveira Leme “o Sarutayá” e Salvador de Oliveira Ayres, homens da fibra e coragem, bravura e tino, que não hesitaram em lutar por uma vila de nossa senhora dos prazeres de Itapetininga, incipiente, pequena, mas florescente e senhora de um potencial inesgotável, na expressividade de seu belo e íntegro povo. Cada Guarda Municipal de Itapetininga pode se orgulhar de pertencer a uma corporação cujas raízes remontam ao significado que esses homens tiveram quando da fundação e desenvolvimento de nossa cidade.

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Figura 6. Guarda Municipal: gerações de servidores em prol de Itapetininga

E não só isso, podem também ser orgulhar por serem a primeira linha de expressão e defesa de nossa municipalidade, de nossa essência de ser itapetiningano, não só no que tange aos bens públicos, mas nas pessoas de nossa briosa população, tal como se sentiram aqueles três homens, seus sucessores, a primeira Guarda Municipal e indubitavelmente, a Guarda Municipal de Itapetininga de amanhã.

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Capítulo X Itapetininga Heróis Feitos e Instituições

Sociedade dos Veteranos de 32/MMDC

Núcleo Paulistas de Itapetininga! Às Armas!!

Autoria de

Jefferson Biajone 135


136


Paulistas de Itapetininga! Às Armas!!

H

á setenta e nove anos atrás, mais precisamente a 2 de outubro de 1932, chegava ao fim a Revolução Constitucionalista, na qual, Itapetininga, assim como os demais municípios paulistas, participou efetivamente dos esforços de guerra que objetivaram concretizar duas aspirações: a derrubada do governo ditatorial de Getúlio Vargas e a promulgação de nova e legítima Constituição brasileira. De fato, sob as auspicies do sacrifício dos jovens Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, cujos nomes formaram a divisa da revolução - M.M.D.C. - paulistas de todo o estado engrossaram as fileiras de batalhões voluntários e, em Itapetininga não foi diferente, tomando os melhores de seus filhos do fuzil, da farda cáqui, da baioneta e do capacete de aço para lutarem por São Paulo e pelo Brasil. Os esforços de guerra em Itapetininga não passaram desapercebidos e nem foram inexpressivos às forças adversárias que se bateram contra os bravos voluntários aqui arregimentados. Tanto assim o foi que em nossa cidade foi sediado o Quartel General do Exército Constitucionalista do Setor Sul (cuja sede foi o atual prédio da 2º Diretoria Regional do DER, na rua general Carneiro), setor este em que ocorreram sangrentos combates nas localidades de Itararé, Faxina (Itapeva), Ribeira, Ribeirão Branco, Capinzal, Apiaí, Guapiara, Pinhal, Buri, Ribeirópolis, Rio das Almas e Paranapema. Mapas de efetivos da época atestam que só neste setor combateram ao redor de 10.000 paulistas pertencentes a unidades de Infantaria, Cavalaria, Artilharia, Engenharia, Aviação e o legendário Trem Blindado de número 2. Dentre as unidades combatentes paulistas destacaram-se o 8º Batalhão de Caçadores Paulistas, o 3º Batalhão de Caçadores Voluntários, os batalhões Floriano Peixoto, Marcílio Franco, 14 de Julho e o 2º Batalhão da Legião Negra, este último formado exclusivamente de oficias e praças afrodescendentes. Estas e tantas outras unidades militares foram compostas na sua maioria por voluntários de Itapetininga e cidades da região, porquanto os efetivos existentes da então Força Pública (atual Polícia Militar do Estado) eram insuficientes. Mas quem foram esses efetivos de voluntários? Mais particularmente, quem foram os itapetininganos que deixaram os seus lares, tomaram das armas e participaram do maior movimento cívico do Estado de São Paulo? Foi na procura de respostas a indagações como estas que a 137


12 de julho de 2011, data do início da formação dos primeiros batalhões de voluntários em Itapetininga, que o Núcleo de Correspondência “Paulistas de Itapetininga! Às Armas!!” foi por nós fundado. O título de “Núcleo de Correspondência” desta entidade se deve ao fato de que ela é uma extensão da Sociedade dos Veteranos de 32/MMDC que criada foi em 07 de Julho de 1954, com propósitos cívicos e patrióticos junto à Casa Civil do Governo do Estado de São Paulo, sediada na Rua Anita Garibaldi, nº 25, São Paulo, e reconhecida como de Utilidade Pública pela Lei Estadual 5.530 de 14/01/60 e pelo Decreto Municipal 8.790 de 23/05/1970. Assim sendo, o Núcleo de Correspondência “Paulistas de Itapetininga! Às Armas!!” (NCPIAA) foi fundado com a missão estatutária de investigar fatos relativos à memória e os feitos de combatentes que participaram da Revolução Constitucionalista de 1932, sejam eles nascidos em Itapetininga ou que neste município vieram a residir, estando eles em vida ou já falecidos, de forma a gerar informações e difundir conhecimento. Em tempos de cibercultura, o NCPIAA faz pleno uso do seu portal na Internet para gerar informações e difundir conhecimentos, qual seja, http://mmdc.itapetininga.com.br, e nas pesquisas que ali já se encontram publicadas pelos pesquisadores associados do Núcleo, percebe-se que a entidade apenas começou a tocar a ponta do que seria o “iceberg” da diversidade de histórias de vidas de combatentes de Itapetininga da campanha de 32. De fato, são histórias como a de homens do calibre de Francisco Fabiano Alves, já falecido, dentista, professor, poeta, jurista, escritor, enxadrista e intelectual de escol, capitão na Revolução de 1924 e tenente nas revoluções de 1930 e 1932; Francisco Viera Trindade, motorista aposentado do DER, 1º sargento que sobreviveu aos horrores do Rio das Almas, hoje residente na vila Aurora, aos 99 anos de idade; Durvalino de Toledo, já falecido, ferroviário aposentado da Sorocabana, ex-presidente de clubes e associações, técnico de futebol, cabo do 2º batalhão da Legião Negra, herói do combate de Capela de Santo Antonio, o que lhe valeu o título de “cabo blindado”; Osvaldo Raphael Santiago, o seu “Nhová”, motorista aposentado do DER, chofer em Itapetininga, soldado armeiro na revolução e hoje aos 97 anos; João Garcia Porto, já falecido, o menino soldado do 8º Batalhão de Caçadores Paulistas, ferido em ação no Combate do Cerrado, ex-ferroviário da Sorocabana; D. Juliana Fabiano Alves, enfermeira por São Paulo, ao lado de suas cinco irmãs... esses e tantos outros nomes que os pesquisadores do NCPIAA têm encontrado em suas pesquisas e que constituem, na sua essência, o maior patrimônio histórico da participação de Itapetininga na Revolução Constitucionalista de 32. 138


Em funcionamento desde 12 de julho de 2011, quando abrimos as suas portas sob o lema “sustentae o fogo que a victória é nossa”, o NCPIAA é desde então por nós presidido e em seu quadro de pesquisadores conta com intelectuais itapetininganos compromissados com a preservação da memória constitucionalista, a saber, o genealogista Sr. Afrânio Franco de Oliveira Melo, vice-presidente do núcleo e o capitão PM Jair Francisco Gomes Júnior e o jornalista Dirceu Campos como pesquisadores associados. Além destes, nossa entidade conta também com a preciosa colaboração de até a publicação deste livro de oito pesquisadores associados honorários, presidentes de núcleos de correspondência que surgiram motivados pela iniciativa do NCPIAA, nas cidades de Piracicaba (Sr. Egydio João Tisiani), Itapira (Sr. Eric Lucian Apolinário), São Vicente (Sr. Guilherme Andreolli Corrêa), Cruzeiro (Cap PM Anderson Luiz Alves dos Santos), Buri (Dr. José Roque Dias), São João da Boa Vista (D. Neusa Maria Soares de Menezes) e Itapeva (1º Ten PM Wagner Luciano de Oliveira). Participam também do núcleo, como pesquisadores associados honorários correspondentes, as pessoas do Sd PM Euclides Cachioli de Lima (São Paulo capital) e do acadêmico Lizeu Albino da Silva Júnior (São Miguel Archanjo). Outrossim, a 3 de outubro de 2011, foi o NCPIAA também responsável pela concatenação de esforços que levaram à inauguração do primeiro Monumento aos Veteranos de 32 de Itapetininga, na sede do 22º Batalhão de Polícia Militar do interior (22º BPM/I). De tal realização que ajudou a evidenciar a contribuição e a importância histórica de Itapetininga na Revolução Constitucionalista de 32, daremos conta a seguir: O ideal de um pai e de um filho Em 08 de maio de 2007, registraram os meios jornalísticos que na sede do Tiro de Guerra 02-076 fora inaugurado o Monumento aos Veteranos de Itapetininga da II Guerra Mundial (II GM). Para os ex-combatentes itapetininganos, a inauguração deste marco indelével constituiu a consagração do reconhecimento que buscavam firmar em resposta ao vigor, juventude e sacrifícios que colocaram perante o altar da liberdade e da democracia naquele que foi o maior conflito armado do século XX. Tal reconhecimento tornou-se realidade enquanto fruto da iniciativa do então prefeito municipal, o Sr. Roberto Ramalho Tavares, e do então vereador Sr. Geraldo Correa Franco, tendo sido inaugurado 139


em 8 de maio de 2007, 62º ano de aniversário do Dia da Vitória. Pouco mais de três anos após a inauguração deste monumento, mais precisamente a 7 de junho de 2011, o vereador José Eduardo Gomes Franco, “Dudu Franco”, filho do ex-vereador Geraldo Correa Franco, então falecido, em conversa conosco, compartilhou da premente necessidade de se erigir um monumento aos Veteranos da Revolução Constitucionalista de 1932 em Itapetininga, porquanto soube da nossa intenção de fundar o NCPIAA para breve. Diante de tão honroso convite, aceitamos de imediato a proposta e apontamos ao vereador que por ter sido o seu falecido pai, o Sr. Geraldo Correa Franco, o autor do projeto do Monumento aos pracinhas do município que fosse ele, seu filho, o autor do projeto do que viria a ser o primeiro Monumento aos Veteranos de 32 de Itapetininga. Acrescentamos ainda ao vereador que à exemplo do que havia ocorrido com o monumento da II GM, que sediado fora por unidade do Exército Brasileiro local, que fosse o batalhão da Polícia Militar local, por motivos plenamente históricos, a sediar este último. Em comum acordo com essas deliberações, cerramos fileiras em prol de conjunto de ações que mais tarde concretizariam a construção do monumento. Concatenação de esforços De fato, a 14 de junho de 2011, fomos recebidos pelo capitão PM Jair Francisco Gomes Júnior, chefe da Seção de Comunicação Social do 22º Batalhão de Polícia Militar do Interior (22º BPM/I) e em conversa com este oficial compartilhamos da idéia da construção do referido monumento e de que a sede deste batalhão poderia ser o local mais adequado para que o mesmo passasse a existir. O capitão PM Gomes Júnior participa então essa idéia ao comandante do batalhão, o tenente coronel PM Raul Galindo dos Santos, que de imediato concorda e coloca o seu pessoal da Seção de Comunicação Social à disposição do que necessário fosse para o andamento dos trabalhos. Nesse ínterim, o vereador Dudu Franco, assistido pelo amigo Edmundo José Vasques Nogueira, deram início aos procedimentos administrativos necessários para captação de recursos e encaminhamento da construção do monumento. Não muitos dias depois, a 8 de julho de 2011, na sede do 22º BPM/I, ocorreu a solenidade de comemoração do dia 9 de julho, data que marcou o início da Revolução Constitucionalista de 1932. 140


Neste evento, presentes estiveram os coronéis PM Mário Fonseca Ventura e Carlos Alberto Mendes, presidente e então vicepresidente, respectivamente, da Sociedade dos Veteranos de 32/ MMDC. Neste encontro, no qual os veteranos de 32, Sr. Osvaldo Raphael Santiago e o Sr. Francisco Vieira Trindade foram condecorados com a Medalha Constitucionalista, o vereador Dudu Franco acompanhado do tenente coronel PM Raul Galindo, apresentou aos referidos coronéis e ao prefeito Roberto Ramalho Tavares o local exato no batalhão onde seria construído o Monumento aos Veteranos de 32 de Itapetininga. Desta data em diante, todos os esforços que possíveis foram de serem somados em prol da construção deste monumento ocorreram. A pedido do vereador Dudu Franco, nós elaboramos o conteúdo de duas placas, 80cm de altura por 60cm de base, para ilustrarem o monumento, placas essas cujos dizeres foram oriundos de pesquisas realizadas em bibliografia específica da época da revolução. O motivo que nos levou a identificar unidades ao invés de nomes de militares se deveu ao fato da impossibilidade de se precisar os nomes de todos os combatentes Itapetininganos de 32. Na placa que ficou sendo a frontal do Monumento, lê-se:

Já na placa que ficou posicionada da parte posterior do monumento, lê-se:

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Confeccionadas em aço inoxidável, essas placas foram chumbadas ao corpo do monumento, que feito de alvenaria, teve seu design magistralmente elaborado por Marina Almada Lobo, arquiteta da Secretaria de Educação, à pedido do nosso companheiro Edmundo José Vasques Nogueira.

Figura 1. Placas frontal e posterior do Monumento aos Veteranos de 32 de Itapetininga

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Inauguração de um marco histórico Resgatados os fatos que antecederam a concepção do monumento, discorramos agora sobre a sua inauguração, ocorrida a 3 de outubro de 2011, na sede do 22º BPM/I. Com efeito, a cerimônia de inauguração do Monumento aos Veteranos de 32 de Itapetininga foi abrilhantada com a execução do Hino Nacional e da apresentação da tropa a mais alta autoridade militar presente, o coronel PM Marco Antonio Severo Silva, subcomandante do CPI-7, representando a comandante do CPI-7, coronel Fátima Ramos Dutra. Encerrada a apresentação, deu-se a concessão da honraria Medalha Governador Pedro de Toledo, pelo Coronel PM Mário Fonseca Ventura à personalidades civis e militares e, logo em seguida, à entrega do Diploma de Honra ao Mérito Capitão Francisco Fabiano Alves, por nós, à sessenta e cinco personalidades em reconhecimento aos relevantes serviços que prestaram aos trabalhos de nosso núcleo. Finalizada a entrega que contou com a participação do neto do capitão Francisco Fabiano Alves, o Sr. Marco Antonio Marcondes de Almeida Alves, prosseguiu a solenidade nos pronunciamentos emitidos pelo coronel PM Mário Fonseca Ventura; pelo deputado estadual Edson Giriboni, secretário estadual de saneamento e recursos hídricos; pelo Sr. Roberto Ramalho Tavares, prefeito municipal e pelo coronel PM Luiz Eduardo Pesce de Arruda.

Figura 2. Momento da Inauguração do Monumento aos Veteranos de 32 de Itapetininga 143


O público, então, foi convidado para participar da cerimônia de inauguração do Monumento aos Veteranos de 32 de Itapetininga, da qual foram convocados para o ato de descerramento o deputado Edson Giriboni, o prefeito Roberto Ramalho Tavares, o vereador Dudu Franco, os coronéis PM Mário Fonseca Ventura, Edilberto de Oliveira Melo, Luiz Eduardo Pesce de Arruda, Marco Antonio Severo Silva, os tenente coronéis PM Raul Galindo dos Santos e João Renato Borges de Moura e nós. Concluída a inauguração, puderam todos os presentes aquilatar, nas palavras sinceras e comovidas do historiador da Polícia Militar do Estado de São Paulo, o coronel PM reformado Edilberto de Oliveira Melo, o significado mais expressivo do monumento ali ofertado ao povo de Itapetininga, porquanto a legenda latina nele gravada PRO BRASILIA FIANT EXIMIA (pelo Brasil façam-se grandes coisas) continua e continuará viva e forte no coração de todos aqueles que lutaram e lutam por uma São Paulo íntegra e consciente de que o culto ao passado é condição sine qua non para um futuro próspero, justo e promissor. Memórias e Honrarias Uma outra iniciativa do NCPIAA em prol do resgate da memória dos veteranos de 32 foi a criação de vários diplomas de Honra ao Mérito, nas pessoas de ex-combatentes de Itapetininga. Por outro lado, estes diplomas, enquanto honrarias concedidas pela presidência do Núcleo, também carregam consigo o objetivo de materializar o agradecimento desta entidade pela colaboração de pessoas, as quais, direta ou indiretamente, se tornaram merecedoras pelos relevantes serviços prestados em prol de sua missão. A exemplo do que ocorreu no dia 3 de outubro de 2011, sessenta e cinco personalidades foram agraciadas com o Diploma de Honra ao Mérito Capitão Francisco Fabiano Alves, que acompanhado veio de um texto resumo da vida desse bravo e inesquecível veterano e cidadão de Itapetininga. No dia 24 de novembro de 2011, data quando o Núcleo comemorou a Consciência Negra Constitucionalista, em sessão extraordinária na Câmara Municipal, foram entregues a dois integrantes afrodescendentes de vários órgãos municipais e estaduais da segurança pública, saúde e defesa social de Itapetininga, o Diploma de Honra ao Mérito Cabo Blindado Durvalino de Toledo. Dentre os agraciados dessa honraria constaram o sr. Edson Arantes do Nascimento, o rei “Pelé“, que conheceu Durvalino nos anos 80 e o sr. Elói Ferreira de Araújo, presidente da Fundação Cultural 144


Palmares, em Brasília. A 25 de novembro de 2011, data em que se celebrou a formatura de conclusão do Serviço Militar Inicial da Turma de Atiradores de 2011, formada no Tiro de Guerra 02-076, concedeu o núcleo o Diploma de Honra ao Mérito Soldado João Garcia Porto à três atiradores destaques da turma, em memória à juventude constitucionalista. Já a 7 de março de 2012, data que comemoramos o Dia Internacional da Mulher, realizou-se no teatro do SESI Itapetininga solenidade de entrega do Diploma de Honra ao Mérito Enfermeira Juliana Fabiano Alves à quinze enfermeiras da PMESP, da rede de saúde pública e particular de Itapetininga, bem como estudantes de enfermagem em honra dos enfermeiros da Revolução de 32. Essas honrarias criadas e agraciadas em nome de nossos veteranos itapetininganos são outra face positiva do trabalho realizado pelo NCPIAA, na certeza de que a conscientização de que esses homens e mulheres um dia existiram e ajudaram com o seu sacrifício a escrever a nossa história jamais perecerá. A Sociedade dos Veteranos de 32 no século XXI Em um século caracterizado pela cibercultura e pelo ciberespaço, a Sociedade dos Veteranos de 32/MMDC encontrou na rede mundial de computadores uma maneira ágil e efetiva de perpetuar os feitos e a memória dos veteranos de 32 para as gerações futuras, gerações essas que infelizmente não terão o mesmo privilégio que tivemos em conhecer um ex-combatente constitucionalista em vida. Outrossim, na forma de hipertexto, esses feitos e memórias, doravante digitalizados, poderão sobreviver o desgaste natural da passagem dos anos e servir de material historiográfico para o pesquisador, o estudante, o cidadão, o entusiasta, o descendente do combatente das gerações futuras. Fundamentados nessa idéia é que surgiram os Núcleo de Correspondência da Sociedade dos Veteranos de 32/MMDC, núcleos estes, no qual “Paulistas de Itapetininga! Ás Armas!!” foi o pioneiro, não só na hipertextualização de conteúdos locais da Revolução Constitucionalista de 32, mas sobretudo na marcha pela conquista do interior do Estado de São Paulo, onde muita informação, imagem, som e relíquia encontram-se inertes, na guarda de familiares, de terceiros, de museus espalhados aqui e ali, monumentos lá e acolá, os quais os efeitos da inexorável passagem do tempo não lhes têm sido misericordiosos. É, pois, nessa marcha pela conquista de cidades interioranas 145


cuja participação de seus filhos tenha ocorrido na Revolução de 32, que núcleos da modalidade correspondência estão sendo fundados, formados e colocados em operação, pesquisando, divulgando fatos e produzindo informações, seja nos órgãos de imprensa local, seja no próprio jornal digital da Sociedade dos Veteranos, o 32 em Movimento. De fato, dos oito núcleos de correspondência já fundados e em plena operação nos últimos meses, quais sejam, Piracicaba, Itapira, São Vicente, Cruzeiro, Buri, São João da Boa Vista e Itapeva, acreditamos que os próximos meses ainda nos trarão maiores surpresas e realizações, à medida que marchamos ombro a ombro em prol de nosso ideal. Neste ano de 2012, a Sociedade dos Veteranos de 32/MMDC comemora o 80º aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932 e como presente, expressivas são as homenagens que os núcleos de correspondência estão preparando em todo o interior do estado. Em Itapetininga, haveremos de inagurar a 10 de julho de 2012 o que será o seu segundo Monumento aos Combatentes de 32, em forma de uma placa, no Cemitério Municipal, que contará não só com os nomes dos heróis de Revolução de 32, como também da Segunda Guerra Mundial, todos de Itapetininga, falecidos em combate. Já em trabalho conjunto desenvolvido com o Núcleo de Correspondência de Buri, o “Baionetas de Buri”, as comemorações constitucionalistas interioranas atingirão o seu zênite com a inauguração do Monumento aos Heróis deste histórico município, a ocorrer em 16 de junho de 2012, com previsão de salva de 21 tiros realizada por alunosoficiais da Academia de Polícia Militar do Barro Branco, em honra aos paulistas tombados em combate, entre eles o cadete Ruytemberg Rocha, um dos ícones da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Há ainda previsão de inaguração do Parque Constitucionalista Trem Blindado na cidade, no qual será resgatada a história dessa incrível arma da genialidade bélica paulista, que em ação esteve nos Setor Sul, preferencialmente nos combates em Buri e no Rio das Almas. Por fim, o primeiro e-book dos núcleos de correspondência, contando as suas histórias, projetos e realizações está no prelo com previsão para 2012 também, a saber, ‘‘Núcleos de Correspondência MMDC: a Sociedade dos Veteranos de 32 no Século XXI’’, de tiragem gratuita e de ampla difusão a todos os interessados, amigos e entusiastas da saga constitucionalista de 32. Longa vida à memória e aos feitos de nossos irmãos paulistas de outrora! Avante camaradas! Sustentae o fogo que a Victória é nossa!

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Epílogo Itapetininga: Heróis Feitos e Instituições é uma antologia de esboços biográficos e históricos que nos remete ao fato de que anos e gerações passam, mas os verdadeiros exemplos de vidas são perenes, impactuam e arrastam. Exemplos de vida como as das seis personalidades nesta obra retratadas. De fato, cidadãos de Itapetininga que heróis foram e o são não pelos formidáveis feitos que realizaram ou pela desenvoltura física que possuíam ou ainda pela vontade férrea e inabalável demonstrada perante tantas adversidades. Pelo contrário, Francisco Fabiano Alves, Victório Nalesso, Durvalino de Toledo, Edmundo Prestes Nogueira, Antenor de Oliveira Mello Junior e Juliana Fabiano Alves heróis o são precisamente pelo conjunto de predicados que têm em comum e que souberam sobejamente vivenciar ao longo de suas ímpares existências. Predicados esses que acintosamente emergem da leitura que a história de cada dessas personalidades itapetininganas nos propicia, como que a nos lembrar de que independente das condições morais que a época ou a sociedade se encontrem, tais predicados jazem latentes na essência de ser humano e é nisto acreditamos ser o verdadeiro herói que estes célebres itapetininganos foram na precisão integral do termo. Isto é, aquele cujo exemplo de vida desperta em nós a Integridade, ou ainda, a liderança que se revela ao realizar uma promessa e ser capaz de cumpri-la; o Senso de Dever, crença de que viver não é tão somente cuidar de si próprio, mas estar à serviço de um propósito maior em tudo o que se dispõe a fazer; a Fé, comprometimento inexpugnável de se acreditar em algo, em alguém, custando o que custar; a Devoção, dedicação absoluta a um ideal objetivando o seu sucesso, seja perante que obstáculos e desafios surgirem; o Altruísmo, capacidade de sacrificar os próprios interesses em prol do bem estar e interesses alheios, sem a espera de algo em retorno; a Compaixão, desejo genuíno de aliviar a dor dos menos afortunados, dos que estão em perigo, dos que necessitados de ajuda e, por fim, o Perdão, enquanto graça que resignifica erros e ofensas, apaga mágoas e absolve desafatos e desagravos, na percepção de que uma segunda chance é eminentemente um direito de todos. Escrever esta antologia foi para nós uma oportunidade singular, na exata medida de que possível nos foi, ao passar em revista vidas e históricos tão prenhes de valor e significados, resgatar às gerações presentes e futuras algo de um passado pujante de heróis, feitos e instituições de um povo que se orgulha em ser, lutar e viver por

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Bibliografia ASSIS, D. C. de. Vitória ou Derrota: memórias da campanha contra São Paulo no setor Sul em 1932. Calvino Filho Editor, Rio de Janeiro, RJ. 1936. ANDRADE, E. & CAMARA, H. F. da. A Força Pública de São Paulo: esboço histórico. Sociedade Impressora Paulista, São Paulo, SP. 1931. BIAJONE, J. (Org.) Pracinhas Campineiros: reminiscências de vidas que fizeram história. Editora Scortecci, São Paulo, SP. 2010. CALDEIRA, J. N. Álbum de Itapetininga. Organização Cruzeiro do Sul e Gráfica Paulista, São Paulo, SP. 1934 CAMPOS, D. & SILVÉRIO, M. Histórias que a história não contou. Gráfica Regional. Itapetininga, SP. 2011. CARVALHO, W. B. de. Clube Venâncio Ayres: 121 anos de história. Gráfica e Editora Cidade. Sorocaba, SP. 2011. DONATO, H. A Revolução de 32. Círculo do Livro. Abril Editora. São Paulo, SP. 1982. FERREIRA, C. de M. L. Uma História da Escola de Farmácia e de Odontologia de Itapetininga: retaliações de Getúlio Vargas à terra de Júlio Prestes? Via 7 Editoral, Itapetininga, 2004. FIDÊNCIO, C. Itapetininga Ontem – Hoje. Editora Cehon. Itapetininga, SP. 1986. GONÇALVES, C. Carne para Canhão. Renascença Editora, Rio de Janeiro, RJ. 1933. MALVÁSIO, L.S. História da Força Pública. Força Pública do Estado de São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo, SP. 1967. MORAES, J. B. M. A FEB pelo seu Comandante. Editora Progresso Editorial. São Paulo, SP. 1947 MONTEIRO, H. A. Livre Terra de Livres Irmãos. Editora Gril. Taguarituba, SP. 2009. NALESSO, V., ARRUDA e MIRANDA, H. R de; SCUDELER, C.; SCUDELER, R. C. G. Diário de um Combatente: as recordações de um pracinha sobre a participação da FEB na Segunda Grande Guerra Mundial. Gráfica Regional. Itapetininga, SP. 2005. NOGUEIRA, E. P. Heroísmo Desconhecido. Gráfica Regional. Itapetininga, SP. 1987. OLIVEIRA MELO, E. de. Clarinadas da Tabatinguera. Associação de Oficiais da Reserva da PMESP, São Paulo, SP. 2010. OLIVEIRA JÚNIOR, J. O. & CARDOSO OLIVEIRA, T. de J. Memórias de Itapetininga. Editora Parma, São Paulo, SP. 2008. 149


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Sobre os autores Jefferson Biajone nasceu em 23 de dezembro de 1975, em Votorantim, SP. Descendente de Luigi e Annunziata Biagioni, casal de italianos que imigrou para Itapetininga em 1897. Licenciado em Matemática, Português e Inglês, Mestre em Educação Matemática pela UNICAMP, Jefferson Biajone é professor assistente da FATEC de Itapetininga, 1º tenente R/2 do Exército Brasileiro, presidente do Núcleo de Correspondência da Sociedade dos Veteranos de 32/MMDC Paulistas de Itapetininga! Às Armas!! e membro titular da cadeira de nº 21, patrono Edmundo Prestes Nogueira, do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Itapetininga. É autor dos livros “Pracinhas Campineiros: reminiscências de vidas que fizeram história” (2010) e “Núcleos de Correspondência MMDC: a sociedade dos veteranos de 32 no século XXI” (2012). Em 2007, fundou a revista “SecMat: Educação Matemática Militar em Revista” (ISSN 1983-4837), da Seção de Ciências Matemáticas da Escola Preparatória de Cadetes do Exército, dirigindo a sua publicação e divulgação junto às escolas de Ensino Médio militar das Forças Armadas nos quatro anos seguintes. Pelos relevantes serviços prestados à causa dos ex-combatentes do Brasil, foi agraciado com a Medalha Marechal Mascarenhas de Moraes, da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expediconária Brasileira e com a Medalha MMDC, da Sociedade dos Veteranos de 32/MMDC. Em 2011, recebeu o Diploma de Amigo do Tiro de Guerra 02-076. As placas que ilustram o Monumento aos Veteranos de 32 de Itapetininga (sede do 22º BPM/I), do Monumento aos Heróis Itapetininganos (Cemitério Municipal de Itapetininga), do Monumento da Praça 9 de Julho, em Buri e do Monumento aos Heróis de Buri foram de sua iniciativa, pesquisa e criação. Dirceu Campos nasceu em 19 de agosto de 1938, em Itararé, SP. Filho de Vicente de Campos e Leonilda Dias Costa Campos. Filho e neto de ferroviários, Dirceu Campos seguiu idêntica profissão, tornando-se telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, quando aos 18 anos prestou Serviço Militar em Itapetininga. Como líder de sua classe, defendeu por muitos anos os direitos de seus companheiros ferroviários. Em agosto de 1984, aposentou-se como Controlador de Trem da Ferrovia Paulista Sociedade Anônima (FEPASA). Sempre atento aos estudos, Dirceu Campos se formou nas seguintes faculdades: Direito na FKB e Ciências Contábeis, Ciências Físicas e Biológicas, História, Matemática e Pedagogia na Associação de Ensino de Itapetininga. De 1952 e 1957, foi campeão de ciclismo em Itapetininga, sendo que em 1988 tornou-se professor da rede pública de ensino e, em 1997, colunista do jornal “Folha de Itapetininga”, sendo desde então um dos mais lidos. Pelos relevantes serviços prestados recebeu do Tiro de Guerra 02-076 quatro diplomas de Amigo do TG, um diploma da Associação dos Ex-Combatentes do Brasil – secção Itapetininga e um diploma de Colaborador do Serviço Militar expedido pelo Exercito Brasileiro. Foi também agraciado cinco vezes com o certificado de honra ao mérito da Câmara Municipal de Itapetininga. Com mais de mil artigos no Jornal “Folha de Itapetininga”, Dirceu Campos é um dos autores do livro “Contos que nos Contam” (1997) e de “Histórias que a História não contou” (2011). Dirceu Campos é titular da cadeira de nº 7, patrono Gustavo Barroso, do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Itapetininga e pesquisador associado do Núcleo de Correspondência da Sociedade dos Veteranos de 32/MMDC Paulistas de Itapetininga! Às Armas!! Atualmente é fotógrafo que realiza seus serviços gratuitamente a todos que dele necessitam, em especial os mais carentes. Casado com Ercilia Rodrigues Campos, tiveram os quatro filhos: Dirceu Campos Filho, Maria Cecília Campos, Cleonice Aparecida Campos e Miriam Estela Campos, bem como sete netos e dois bisnetos. 151


Sobre os autores Afrânio Franco de Oliveira Mello nasceu em 3 de dezembro de 1946, em Itapetininga, SP. Filho do Estatístico, Geógrafo e Advogado Antenor de Oliveira Mello Júnior e da Profª. Amélia Corrêa Franco Mello, Afrânio realizou seus estudos nos educandários Colégio Instituto Imaculada Conceição, Instituto de Educação “Peixoto Gomide“ e no Colégio Comercial de Itapetininga. Trabalhou na Casa Rex e na Magister Magazine, tradicionais casas comerciais de Itapetininga. Foi funcionário do Banco do Commércio e Indústria de São Paulo e do Unibanco, onde atingiu os cargos de Gerente e Superintendente Regional, trabalhando nos Estados de São Paulo , Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Afrânio foi também professor de Contabilidade de Custos no Colégio Comercial de Itu e proprietário da firma Mellocar Peças e Serviços Ltda, no ramo de Auto Peças e Recuperação de Veículos, quando em 1984 se aposentou. Foi sócio da Flash Indústria e Comércio e Produtos e Serviços Eletroeletrônicos Ltda, sediada em Sorocaba. Diretor de Patrimônio do Esporte Clube Laranjalense, de Laranjal Paulista, no ano de 1977, exerceu Afrânio as seguintes funções e cargos: Diretor Esportivo do Marília Esporte Clube (1978); Tesoureiro do Derac de Itapetininga (1986); Membro do Conselho Comunitário de Segurança de Itapetininga (1986); Membro do Tribunal do Júri e prestador de serviços junto a Justiça Eleitoral por mais de 20 anos; Diretor Adjunto, 2º. Vice Presidente, Vice Presidente e Membro do Conselho Deliberativo da Associação Comercial de Itapetininga (1993 a 1997); Membro da Diretoria da Santa Casa de Misericórdia e do Hospital São José (1995 a 1997); Membro da Loja Maçônica Firmeza desde março de 1976, tendo sido seu presidente (1987 a 1989) e é o atual curador de seu museu; tendo sido ainda Secretário, Orador, Delegado Regional e Delegado Coordenador para esta região do Grande Oriente de São Paulo. Sócio do Clube Venâncio Ayres e do Clube dos Bancários de Itapetininga há muitos anos, Afrânio é membro fundador do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Itapetininga, titular da cadeira de nº. 1, patrono João Neto Caldeira. Atualmente presta serviços às empresas do Grupo Pig. Em 2011, Afrânio foi agraciado com a Medalha Governador Pedro de Toledo pelos relevantes serviços prestados à Sociedade dos Veteranos de 32/MMDC. Edmundo José Vasques Nogueira nasceu em 30 de março de 1967, na cidade de Sorocaba, SP. É filho do jornalista Edmundo Prestes Nogueira e da professora de alunos especiais Cecília Pimentel Vasques Prestes Nogueira. Passou sua infância em Itapetininga e na juventude concluiu o curso de jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, onde foi presidente do Centro Acadêmico Vladimir Herzog, participando ativamente do Movimento Estudantil. Após atuar alguns anos na área jornalística nas cidades de São Paulo e de Manaus, fundou com seu pai, em 1993, a empresa EPN Comunicações, pioneira na cidade e região nas áreas da comunicação pela Televisão e pela Internet, sendo a primeira empresa a produzir e veicular comerciais de TV e também a primeira a oferecer os serviços de conexão local de internet na cidade de Itapetininga. De 1997 a 2005, Edmundo atuou como professor e Chefe de Departamento do Curso de Comunicação Social das Faculdades Integradas de Itapetininga, da Fundação Karnig Bazarian. Atualmente é coordenador do Departamento de Comunicação e Imprensa da Prefeitura Municipal de Itapetininga. Edmundo foi agraciado com as medalhas Governador Pedro de Toledo, Constitucionalista e Expedicionário, pelos relevantes serviços prestados, respectivamente, ao resgate da memória e dos feitos dos ex-combatentes itapetininganos da Revolução Constitucionalista de 1932 e da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial. É casado com Patrícia Duarte Nogueira e possui quatro filhos: Raisa, Augusto, Gabriel e Laura. 152


Agradecimentos aos patrocinadores da publicação de ITAPETININGA: HERÓIS FEITOS E INSTITUIÇÕES

Duratex Os autores de ITAPETININGA: HERÓIS FEITOS E INSTITUIÇÕES e a presidência do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Itapetininga agradecem à DURATEX pelo patrocínio concedido, que consubstanciado nesta obra, o foi em prol da cultura de nossa gente e de nosso município, cultura essa na qual a Duratex, presente em Itapetininga há mais de quarenta anos, já constitui parte relevante, expressiva e indelével.

EMPRESA DURATEX Rodovia Raposo Tavares, Km 172,1 - Marabá - Itapetininga/SP CEP 18 203 340 – Tel. (15) 3275 8610 www.duratex.com.br


Agradecimentos aos patrocinadores da publicação de ITAPETININGA: HERÓIS FEITOS E INSTITUIÇÕES

BARÃO Os agradecimentos aqui consignados à Panificadora Barão não se restringem apenas ao patrocínio de lançamento de ITAPETININGA: HERÓIS FEITOS E INSTITUIÇÕES, mas vão além no que tange aos excelentes serviços de alimentação prestados por essa tradicional empresa de Itapetininga a todos os presentes na noite de autógrafos da obra, quando também celebramos os noventa anos de vida de nosso biografado Victório Nalesso, herói itapetiningano da Força Expedicionária Brasileira na II Guerra Mundial, em 2 de junho de 2012, no teatro do SESI Itapetininga.

PANIFICADORA BARÃO Rua Coronel Fernando Prestes, nº 75, Itapetininga/SP Tel. (15) 3271 8080 http://www.baraochoperia.com.br


Agradecimentos aos patrocinadores da publicação de ITAPETININGA: HERÓIS FEITOS E INSTITUIÇÕES

Os autores de ITAPETININGA: HERÓIS FEITOS E INSTITUIÇÕES desejam aqui expressar ao SESI Itapetininga os mais efusivos agradecimentos pela gentileza ao nos conceder as instalações e o apoio dos profissionais do teatro do SESI Itapetininga, em 2 de junho de 2012, quando concretizamos a noite de lançamento e autógrafos desta obra, bem como a emocionante e inesquecível celebração de aniversário dos 90 anos de nosso herói Itapetiningano da II Guerra Mundial, o pracinha da Força Expedicionária Brasileira, veterano Victório Nalesso.

SESI/SP ITAPETININGA Avenida Padre Antonio Brunetti, 1360 Vila Rio Branco, Itapetininga/SP Tel (15) 3275 7925


Agradecimentos aos patrocinadores da publicação de ITAPETININGA: HERÓIS FEITOS E INSTITUIÇÕES

A Prefeitura Municipal de Itapetininga é compromissada no resgate dos feitos e da memória dos cidadãos por meio de iniciativas sócio-culturais que como esta obra trazem a lume a essência do ser Itapetiningano para gerações presentes e futuras, testemunhas de um passado glorioso nas personalidades e instituições que compõem este bicentenário e histórico município. UMA MENÇÃO EM ESPECIAL Os autores de ITAPETININGA: HERÓIS FEITOS E INSTITUIÇÕES aqui consignam os votos mais efusivos de agradecimentos ao Sr. Roberto Ramalho Tavares, Prefeito Municipal e cidadão partícipe e incentivador dos mais entusiastas em projeto culturais desse jaez, bem como à pessoa da Sra. Suzana Eugênia de Mello Moraes Albuquerque, Secretária Municipal de Educação, cuja feliz inspiração e iniciativa fez com que a biblioteca de cada escola municipal de Itapetininga adquirisse em seu acervo um exemplar desta obra, de forma que as futuras gerações de itapetininganos pudessem conhecer, desde a mais tenra idade escolar, o passado glorioso daqueles que os precederam em construir uma Itapetininga forte, pujante e promissora.

PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE ITAPETININGA Praça dos Três Poderes, 1000 - Jd. Marabá Itapetininga/SP - CEP 18213-900 Tel 15 3376-9600


LIVRO: ITAPETININGA HEROIS FEITOS E INSTITUIÇÕES  

Livro lançado em 02 de junho de 2012 sobre personalidades e instituições de Itapetininga participes de grandes momentos da História do Brasi...

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