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Brasir Cabocro Miguel dos Santos Terra


Prefácio A pedido do meu amigo Dr. Filhinho (filho do “Seu” Quitu e de D. Hilda), vou escrevinhar o prefácio do livro Brasir Cabocro do Tio Miguer. A sua poesia remexe a poeira das estradas dos nossos sítios, tem o frescor das nascentes do Ribeirão, do Passinho e do Guapé, tem o perfume das flores das laranjeiras dos nossos quintais, tem a quentura do sol que se levanta todos os dias e tem um bom tanto de saudade do bairro Pinheiro dos Nunes em Guapiara e do bairro Tupãmirim em Sete Barras, entre tantos outros lugares que andou lecionando vida afora. Sentiu medo ao percorrer a B116, ufa! Seu vocabulário tipicamente sãomiguelês relembra o “borná”, o “picuá”, o “saraquá”, o “bodoque”, o “pelote” e a “setra”. Traz também o canto mavioso dos nossos sabiás e o choro melancólico do nhambú no entardecer. Saudade do fogão de lenha da Nhá Roberta, mãe do autor, com seus tições em brasa e gravetos, queimando palmas bentas ao menor sinal de relâmpagos e trovoadas, torrando, moendo e coando um café tão aromático que ensejava vários dedos de prosa e longas histórias. Abençoadas sejam as mãos da parteira que trouxe à luz o filho do Major Juvenal dos Santos Terra, menino arteiro, artista e artesão, que hoje em dia anda até pintando o 7. Um abraço do amigo “fier” João de Oliveira Rodrigues Juiz de Direito


Por que Brasir Cabocro A cultura sertaneja do Brasil vem da origem do casamento do português com o paulista donde, através de séculos, herdamos de nossos ancestrais usos e costumes de um povo que habitava diversas regiões do interior de Portugal. No Brasil, o índio, o caboclo, o caiçara, o mameluco e o capiau foram os que mais contribuíram para o enriquecimento do acervo cultural brasileiro na divulgação dos mais variados eventos como: — a Bandeira do Divino Espírito Santo, a dança de São Gonçalo do Amarante, fandango, catira, batuque, caçadas, instrumentos musicais, artesanatos, a arte culinária, emprego de ervas medicinais, crenças e superstições. O nosso caipira representa a adaptação do colonizador, portanto, “BRASIR CABOCRO” é herança de nossos ancestrais e vem da alma e da cultura sertaneja, buscada no fundo do baú de recordações. O Autor


Sobre o Autor

Quando meus avós Roberta e Juvenal comemoravam o Natal de 1921 tiveram motivos de sobra para a festa. Nascia neste dia o menino Miguel, décimo primeiro dos catorze filhos do casal. Residiam no sítio do Pocinho, arredores de São Miguel Arcanjo, para onde mudaram ainda na década de 20. “Tio Miguer”, como é carinhosamente chamado por todos, fez o curso primário no Grupo Escolar de São Miguel Arcanjo, mas só continuou os estudos após quase 30 anos, quando ingressou, nos anos 60, na primeira turma do Ginásio de São Miguel Arcanjo. Até lá, exerceu várias profissiões, como engraxate, vendedor, tipógrafo, escriturário, protético e comércio. Diplomou-se professor do ensino fundamental em 1967 pelo Instituto de Educação Peixoto Gomide e iniciou sua carreira no Vale do Ribeira onde desenvolveu intenso trabalho nas escolas comunitárias da região. Foi nas andanças pela zona rural que ganhou inspiração para sua obra literária. Aos 84 anos, tio Miguer tem mais de 300 poesias escritas no linguajar caboclo, retratando a vida e a cultura do caboclo desta região. Escritor, pintor (faz pintura em telas), contador de “causos”, é uma pessoa alegre e fascinante. Solidário, carinhoso e conselheiro é conhecido e amado por todos em São Miguel Arcanjo onde reside. Com certeza o mundo seria mais feliz, se cada um de nós, tivesse um “Tio Miguer” para alegrar nossas vidas. Miguel Terra Domenici (Mi)


Dedico Aos meus irmãos, pois nestas trovas e versos, estão muitas passagens de nossas vidas.

Agradeço Aos meus irmãos, sobrinhos e amigos que sempre me estimularam a escrever sobre os “causos” de nossa vida cabocla.

À professora Angelina Cardoso Hungria que teve o carinho de ler e a difícil tarefa de fazer a revisão do vernáculo, corrigindo letras e frases desta obra.

Aos patrocinadores: Organização Bandeirantes, Style Empório, Paraíso dos Calçados, Style Magasin e Orocentro-Estudos Odontológicos, que possibilitaram a publicação desta obra.


Índice Seu Moço ...................................................................... 13 Fier ................................................................................ 15 Do Baú as Buniteza ...................................................... 17 Rosa.............................................................................. 18 O Fim do Sertão............................................................ 19 Noite de São Juão ......................................................... 21 Trova ............................................................................. 24 A Iscolinha do Arraiá ...................................................... 25 Santo Casamentero ...................................................... 27 Brasir Cabocro .............................................................. 29 O Luá do Sertão ............................................................ 37 Compaixão .................................................................... 40 Futebor dos Bicho ......................................................... 41 Diz-que-diz-que no Arraiá .............................................. 44 Rimas e Trovas ............................................................. 45 Caminhoneiro ................................................................ 46 Tempo de Dante ............................................................ 49 Cantá de Galo ............................................................... 51 Irmão Caminhonero ...................................................... 52 São Juão Milagroso ....................................................... 54 Prece............................................................................. 58 Vida Amorosa ................................................................ 59 Estiagem ....................................................................... 61 Maria.............................................................................. 63 Frô qui si cheira............................................................. 64 Mãe de Pureza .............................................................. 65 Meu Ranchinho ............................................................. 68 De Presente no Natá ..................................................... 70 Fitiço no oiá ................................................................... 71 Galo Infadado ................................................................ 73 Um pedaço do céu ........................................................ 76 Cabocra Bunita ............................................................. 77 De Papé Passado ......................................................... 79 Mar de Amô ................................................................... 81


Meu presente de Natá ................................................... 82 Impricância .................................................................... 85 São Jusé da Capela ...................................................... 86 Adond´eu Moro .............................................................. 88 A Frô do Maracujá ......................................................... 91 Pesadelo ....................................................................... 92 Arrecordação................................................................. 97 A Vóiz do Sino ............................................................... 100 Seco Seco, sempre Seco ............................................. 102 Mãe................................................................................ 103 Lenda d´um Cabocrinho................................................ 104


Seu Moço Madruguei lá no povuado lá nos confis do serrado umas par de léguas daqui, mor de ispiá as beleza donde canta a natureza pra quem passá por ali. No fazê essa caminhada a luiz da lua pratiada alumiava bem ao arredó, de banda inxergava as tigüera o vurto de arguma tapéra a sombra de argum paió. N´eu caminhá sintia que o cheiro do chão me siguia passo-a-passo por lá, parecendo dizê: — Seu moço pare, iscuite o arvoroço quando o dia dispontá. Sem uma cisma eu via que no crariá do dia quar hino santo de amô, tanta avezinha cantando o novo dia saudando lovando seu criadô. No arto d´uma painera o juão-de-barro i a companhera preste preste a terminá, sua modesta casinha pra despois os passarinho vim cantá no revuá.


Meu Deus! Quanto quanto passarinho! cuitelo, tiziu, andurinha revuando au arredó de mim também parecia dizê: — Seu moço, tudo esse arvoroço é mor de nascê um chupim. A titica isvuaçando dos gaio pro chão pulando num contentamento sem fim, parece dexá o seu ninho pra catá argum bichinho pro seu fio adotivo chupim. Ansim fosse a humanidade usá de caridade abrindo seu coração, acoiendo um minino de rua que tem por teto a lua i um jorná feito corchão.


Fier Amigo, que buniteza é amizade quando num há farsidade de tudos amigos qu´eu tive, só um me dexô sodade, esse sim, era amigo de verdade porque era fier. Fier foi meu companhero meu amigo derradero otro iguá, num vô achá, que cachorro inteligente Fier era obediente Fier só fartava falá. Tudas manhã bem cedinho Fier vinha de aparzinho da cama só pra me’spiá, s´eu continuasse roncando ele não se conformando garrava as cuberta a puxá. S´eu alevantasse, que alegria! Fier corria i latia fazendo festa pra mim, varava o dia contente pra num perdê de vista a gente num disgarrava de mim. Quando eu tava trabaiando Fier ficava me’spiando querendo também me ajudá, se acuasse uma caça pra mostrá que tinha raça num dexava iscapá. Tudas tarde c´o meu cachorro campiava nas varzeas, nos morro as vaca de leite por lá, se mar inchergava as danada Fier punha im debandada inté entrá no currá. Mais c´o passá dos ano quem num sofre os desengano.


Um dia Fier caiu duente dexô de saí c´a gente andava triste, acanhado, se c´um ele eu falava fingia que se alegrava pra mor d´eu nun tê cuidado. No lambê as minha mão sinti dô no coração no vê seus zóios chorá, n´eu inxugá o seu pranto eu pidi pra tudos santo pro meu amigo sarvá. Pidi... Improrei... Peguei um fórfe i uma vela fui correndo na capela pro seu protetô fui rezá, ajueiado no chão fiz premessa se Fier sarvasse dessa de fazê um festão no arraiá. mais quá! Pra sarvá meu companhero eu viajei o dia intero campiando um benzedô, antes num tivesse ido porque ansim tinha assistido a hora que Fier fartô. Fier morreu sozinho longe dos meu carinho cumo dueu isso pra mim, isperô qu´eu saísse num quis qu´eu me dispidisse num quis qu´eu visse seu fim. Mais Fier no vê a gente sabia fingi tão contente só pra mim num s´importá; desse jeito meu amigo usando de farsa cumigo sobe tão bem m´imbruiá. Fier só me deu alegria mor d´isso no meu dia-a-dia si’squeço que ele morreu se ao longe iscuito um latido apuro bem os ovido pra vê se num é o seu.


Do Baú as Buniteza Num ressoná tão profundo sonhei qu’eu andava pro mundo pra meus versos recitá, me vendo no arto dos montes versejava no horizonte pro eco pro mundo ispaiá. I lá, quando versejava ansim meus versos rimava d’um modo tão naturá, mais o eco recramava qu’eu no baú ocurtava linda istórias pra contá. Mais logo acordei, que tristeza, do baú as buniteza pro eco num pude falá. Falá d’uma foia seca quando garra dispencá, da sua graça i beleza inté no chão se ajeitá. Falá das noite iscura, do medo do zumbido no vargedo d’uma caça a se safá, da onça acuada, traiçuera das garça rufrando as penas d’uma rês vadia a berrá Falá das queimada de coivara dos istralos de taquara nas queimada nos grotão, da Lua cheia briante descomuná no horizonte pratiando o meu rincão, Falá d’uma otra era dos casarão, das tapera dos tempo d’escravidão, da Negra Véia da Zala que nasceu numa senzala que a sua Sinhá amamentô, falá d’uma Princesa das festas das buniteza quando a “Lei Áurea” assinô.


Rosa Adond’eu morava, a Rosa era a moça mais formosa era a frô lá do arraiá, nas minha imaginação nem na otra geração num vai nascê otra iguá. Quando debarde alembrando é de ficá imaginando que tanta beleza sem par, tornasse um jardim frorido sem graça, disinxavido diante da sua rivar. Dois zóios castanho brejero a cor da pele triguera eram dote naturá, ponhando bem arreparo, a Rosa era muito mais formosa sem infeite artificiá. Andava c’um tanta graça mais arvo que pena de garça seus dente de branco marfim, naquela carinha corada uma covinha do lado infeitava o seu sorri. Duas trança na frente apartada numa fita presa inlaçada sempre trazia uma frô, i, aquela cabocra bunita as veiz eu nem arquedito que foi meu primero amô. A Rosa jurô sê só minha que um dia na capelinha nóis havera de casá, sustentando o juramento nóis marquemo o casamento i, principiemo o se noivá.


O Fim do Sertão D´antes se via que o verde sumia diante do oiá, cubria as terra dos vale, das serra im tudos lugá. Sempre a chuva caía os açude se inchia inté transbordá, água pro gado pasto tratado nunca veio fartá. Que vivê tão contente se notava mas gente de lá do sertão por lá as romaría quém é que num ia c’um fé i devoção O povo a contento im quarqué casamento tavam sempre a festá, os baile se ia da noite pro dia inté o Sor raiá. Agora ca istiage prantá roça é bobage num dá arroiz nem fejão, isturricô tudas terra dos vale, das serra acabou-se o sertão. Hoje é tão deferente que os sonhos da gente é tão sem feição, c’a seca danada deu tudo im nada o vivê nos sertão.


Cavera de gado nos caminho de lado retrata o sertão, os dias passando as isperança robando dos sonhos a ilusão. As árvres secando seus gaio se erguendo pros céu a improrá, uma só gota d´água pra afogá um poco as mágoa inté a chuva vortá. Os roçado acabô aumentô as minha dô c’as minha afrição, carecia i simbora antes da hora d’eu perdê a razão. Sofrendo amargura pra isquecê as tortura rezei tanta oração, mais a fé foi-se indo i eu assistindo o fim do sertão. Fiz premessa d’um dia siguí romaria pras chuva vortá, mais quá eu sonhava que o verde ausentava ninhuma foia por lá. Peguei a mudança a muié, as criança num parei pra pensá, na pió situação disse adeus pro sertão nunca mais vortei lá. Quantas noite eu sonhando c’as chuva vortando pras banda de lá, no meus sonho eu via que a chuva caía sem tê o que moiá.


Livro Brasir Cabocro  

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