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RUDE RUCKER

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RUDE RUCKER

Capítulo I

Estava a caminho do trabalho. Chovia pouco, porém o suficiente para encharcar meu cabelo, que foi caindo em meus olhos. A neblina, densa e imponente, arrepiava minha pele como um sopro gelado. Vi as mangas da camiseta se escurecer em pequenos pontinhos, que em poucos segundos, tomaram conta de tudo. A água das calhas e da enxurrada que passava ao lado da calçada formava uma sinfonia junto às gotas que caiam nas folhas das pequenas árvores que formavam uma fileira, e se perdiam no horizonte, junto à avenida. Raras eram as pessoas que estavam na rua, e a maioria delas estavam caminhando rápido fugindo da chuva.

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RUDE RUCKER Um clarão iluminou todo o meu campo de visão, um relâmpago. Ainda estava indignado com o que aconteceu mais cedo. As palavras do meu diretor ainda ecoavam na minha mente, “Recebi uma denuncia mais cedo de que você roubou o gabarito das provas finais de biologia... Como punição, todos seus direitos como bolsista estão suspensos a partir de hoje!”. Não contei para minha mãe ainda, pois, assim que saí do colégio, vim trabalhar. Em meio à correria, esbarrei em um cara no meio da calçada. Era uma pessoa fechada, com um sobretudo preto, gasto como se fosse a única roupa que havia usado durante a vida toda. Parou e me encarou. Parecia me conhecer, pois não parou de encarar por um segundo sequer enquanto andava, então, abaixei a cabeça e segui meu caminho. Meu dia não estava indo muito bem. Ainda me lembrava daquela discussão com o diretor e no fim das contas descobri que a pessoa que fez a falsa denúncia foi meu melhor amigo. Duvidei, pois sabia que não tinha feito nada. Então o diretor pediu para ver minha bolsa. Não tinha nada a temer, e deixei. Ele a revirou toda e pra minha surpresa lá estava o gabarito das provas. Não acreditei quando vi, era impossível eu nunca faria algo assim. Eu, de todas as formas, tentei me defender, mas em nada adiantou. Não havia como provar que eu estava certo, que não havia roubado o gabarito. No momento, em que o ouvi dizendo sobre minha bolsa de estudos, não havia palavras que descreveriam o que eu senti.

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RUDE RUCKER Minha família não tinha dinheiro para bancar a escola até o fim do ano letivo. Eu precisava dessa bolsa de estudos. Levei a carta com o comunicado formal, assinada pelo diretor, à minha mãe, que entrou em desespero. Ela e meu padrasto trabalhavam para pagar as contas pendentes mais antigas, deixando as mais novas para o próximo mês. Ela começou a chorar, como se toda a confiança que ela tinha em mim, tivesse ido por água a baixo. Quando à noite, minha mãe disse que eu teria que sair da escola, parar de estudar se quisesse ter algo na mesa para comer. Não queria admitir que eu tivesse perdido tudo o que construí com meus estudos e meu esforço, então no dia seguinte voltei ao colégio e exigi ao diretor que dissesse o nome da pessoa que destruiu tudo o que eu tinha para ser alguém no futuro, todos os meus sonhos. Ele não queria dizer, como diretor seria antiético, mas abriu uma exceção, Richard Wood, foi o que disse. Minhas pernas estremeceram, meus pensamentos só diziam “por que ele faria isso comigo, já o ajudei tanto, logo eu que era seu único amigo na escola, aquele que ouvia seus problemas e o entendia”, meu coração acelerou e a única coisa que me veio à cabeça foi a vontade de descontar toda minha raiva nele, Richard Wood. Em momentos complicados como esse gosto de falar com Anne, minha melhor amiga. Se havia alguém em que eu confiasse todos os meus segredos, era a ela. Talvez isso não fosse mais segredo, porém senti a

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RUDE RUCKER necessidade de contar. Anne não estuda em meu colégio, mas mora no meu bairro. Contei o que havia acontecido, e igual a mim, também não acreditou na traição de Rick. Meu pai deixou minha mãe grávida de mim, diz ela que ele era alcoólatra e que foi melhor assim. Eu não acho. Ela não faz idéia de como é ter um pai e não poder conhecê-lo. Eu estava no segundo ano do ensino médio, Rick estava no terceiro, talvez ele não me considerasse como amigo como achei, e por estar terminando seus estudos, tenha feito isso. Ainda não consigo acreditar que ele tenha feito isso, mas todo esse sentimento de raiva cerrou quando chegou a noticia de que Richard havia morrido. Recebi a ligação do diretor, que se sentiu responsável por me avisar. A notícia calou fundo, por um momento pensei ter sido injusto por julgá-lo. Eu deveria ter falado com ele, acho que teria sido diferente. Fui procurar saber como aconteceu, um colega de classe dele, disse que ele havia sido atropelado enquanto seguia da escola para casa, então perguntei onde ele morava. O amigo não sabia. Ninguém sabia e fiquei sem saber o que fazer, afinal mesmo sendo traidor, ele era meu melhor amigo. Pensei em falar com a família dele, mas não a conhecia. Não havia mais registros de Richard Wood na diretoria, e como um aluno “delinquente”, eu não tinha direito a mais nada na escola enquanto estivesse suspenso. Naquela tarde

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RUDE RUCKER fui ao pátio da escola, me sentei em um banco ao lado do carvalho, a árvore mais velha dali, e comecei a pensar sobre como seria meu pai, e porque ele teria nos abandonado? Quando olhei para a rua, aquele homem de sobretudo preto estava em pé ao lado da cafeteria, me olhando. Parecia me conhecer, e de repente um caminhão estava passando, e quando passou, ele havia sumido. Eu trabalho em um modesto restaurante em meu bairro. Sou garçom. Trabalho somente à noite, por isso ganho pouco. O necessário para ajudar nas despesas de casa. O homem misterioso entrou no restaurante, eram dez e meia da noite. Fiquei com medo de atendê-lo, por isso pedi a uma garçonete para servi-lo. Ele só queria um café, pediu a conta e saiu. Limpei a mesa onde ele estava e havia um papel em baixo da xícara que dizia:

“Se quer toda a verdade, venha até o parque, hoje ao final do seu expediente!”. Não sabia ao certo se aquele bilhete era para mim, de qualquer maneira, fiquei com tanto medo que não fui capaz de ir ao encontro dele. Em casa, resolvi perguntar para a minha mãe sobre o meu pai, o porquê dele ter nos deixado, e se ela tinha noticia sobre ele. Ela disse que há algum tempo o encontrou em Chicago, quando estava em busca de trabalho, que acabou sem sucesso. Perguntei para ela como ele era e se eu parecia com ele – queria saber, mas

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RUDE RUCKER minha mãe não queria me contar. Não reagiu muito bem com minhas perguntas. Nunca o vi e acho que é direito de um filho conhecer o pai. – Fui dormir. Estava decidido. Percebi que pela empolgação que estava, acabei esquecendo Richard. Eu iria pesquisar sobre o meu pai. Talvez documentos em casa, algumas correspondências, fotos, qualquer coisa que leve a ele, ou pelo menos me permita vê-lo. Comecei pelo escritório do meu padrasto. Mas nada sobre ele. Fui para o quarto da minha mãe enquanto ela trabalhava. Encontrei uma caixa. Era de madeira, aparentemente velha e tinha um desenho com uma frase no canto inferior esquerdo que dizia “Now and Forever”, quando abri, encontrei fotos de quando eu tinha uns dois anos ou menos. Perdi quase uma hora relembrando da época das fotos, o quanto eu parecia feliz. Não que atualmente eu não esteja, porém seria mais feliz, agora, se encontrasse algum vestígio dele. Continuei tirando as coisas da pequena caixa que encontrei, até chegar ao fundo dela. Sem mais esperanças quanto a achar algo, quase desisti de continuar ali. Então percebi uma fresta em um dos lados. Peguei a caixa e levei para baixo da luz. Vi a luz entrar pela caixa e bem no fundo um papel amarelado. Um fundo falso. Corri na cozinha e usei uma faca para retirar a madeira que estava sobrepondo o resto das coisas. "Bingo!". Encontrei uma foto um pouco rasgada no canto. Nela tinha a minha mãe e um cara, um homem de aparência rude, no entanto parecia estar feliz somente pelo fato de estar ao lado da minha mãe. Acho

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RUDE RUCKER que era meu pai. E depois de olhar bem para a foto, percebi certa semelhança com alguém que eu já havia visto antes, mas não sabia quem. Na foto eles pareciam estar em um lugar paradisíaco. Fiquei imaginando como seria ele depois de todos esses anos. Minha mãe entrou em casa e assustado, fechei a caixa, sem querer acabei ficando com a foto. Não havia tempo suficiente para devolvê-la à caixa.

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Rude Rucker - Primeiro Capítulo  

Primeiro capítulo