Page 1

s

na zo ul

Jornal de Coleção • Ano 2 • Nº 19 • abril 2010 • 10.000 Exemp. • Tel. (51) 3268.4984 • distribuição Gratuita

ecologia

ao alcance de todos Mudança de pensamento é essencial para superar a crise climática 

Reflexão

Feio ou bonito: uma questão de magnetismo pessoal 

alimentação

Uma maça por dia faz muito bem para a saúde

Atuar de forma criativa aumenta a capacidade de desfrutar a vida, porque permite desenvolver a energia interna que nos une à natureza.


Bem Estar • Nº 19• Abril 2010 • 2

A grande lição do TAO:

A

estrada da vida é longa... Assim como é infinito o número de estrelas. Só o Tao sabe quantas há... Mas Ele não diz. Porque, talvez, isso não seja tão importante.  

Mais importante é a vida...

Cheia de Chi no coração. O Yang e o Yin se mesclando... O Céu e a Terra dançando entrelaçados.   O homem e a mulher são pólos opostos... Da mesma canção. Às vezes, dão certo; outras vezes, não. O que sobra é lição.   Nem todos são capazes de aprender. Muitos odeiam; outros perdoam. No entanto, o Tao é sempre o mesmo: Sereno e insondável.   Quem se agita, perde o foco. Quem bate, é fraco. Quem odeia é doente. E quem compreende a lição é sábio.

Ninguém pode descrever o Tao. E quem tenta é louco.

SIMPLESMENTE, SER! Wagner Borges Se os homens prestassem atenção nessa lição... Flutuariam, e jamais sucumbiriam ao que é danoso.

Só o Tao compreende o Tao. Cabe aos homens compreenderem a si mesmos. O infinito não cabe em mentes pequenas e rançosas. Nem o Tao visita corações vingativos. Por isso, o Chi de quem odeia é sujo. E um manto de trevas cobre o Ser.   O Chi amarelo faz muito bem para a cabeça. Limpa os pensamentos aflitivos. E nutre a mente de ideias claras e nobres. Então, tudo melhora.

O sábio carrega uma pérola em seu ventre. E, quando o chão se abre sob seus pés, ele flutua.

E eternos aprendizes do Tao. Emoções danosas causam muito mal. Enquanto os sentimentos nobres curam.

Óleo e água não se misturam. Amor e egoísmo também não. A raiva ataca o fígado!   E isso atrai os espíritos famintos. Quando seu corpo Eles se alimentam do Chi estagnado na dorme, o sábio voa, em região e fomentam mais confusões... espírito e frequenta a assembleia   dos imortais no Céu. Cabe aos homens o cuidado com tal Lá, ele aprende sobre os nove situação. mundos siderais. Carregar fantasmas em torno de si mesmo E, depois, volta contente para é horrível. casa, agradecido. Quem permite isso, causa grandes   danos em sua vida e passa a viver com o O homem ansioso e triste não semblante fechado, sem alegria. relaxa.   O apego é como um torniquete Por isso, os sábios sempre recomendam em sua mente. a serenidade antes da ação impensada, a Por isso, dorme e não voa; só ponderação inteligente. se debate. Diante de pequenas coisas, por que E, assim, deixa de aprender muitas coisas... grandes explosões emocionais?   A vida segue... E o importante é a lição O bom pastor vela por suas ovelhas. que fica. Assim como os sábios velam pelos que se   esforçam. Tudo vibra, mas o Tao é sempre sereno. Eles são irmãos mais velhos dos homens.

Boas Notícias

P R O M O V E

Palestra

Dermatologia Estética com a Dra. Janine Edfrennes

15/05/2010 10h00 Local: Confeitaria Leckerhaus Av.Pereira Passos 1125 lj 06 Copacabana Center.


Guia Saúde

3 • Nº 19• Abril 2010 • Bem Estar

Uma Importante Vitamina

P

Vitamina D reduz risco de câncer de cólon

essoas com mais vitamina D no sangue correm menos risco de desenvolver câncer de cólon do que aquelas que têm baixos níveis do composto, segundo um estudo publicado no “British Medical Journal”. A análise foi feita pela Agência Internacional de Investigação do Câncer, em Lion, na França, e pelo Imperial College de Londres. Segundo os estudos, o risco de sofrer da doença diminui 40%. Os cientistas observaram as quantidades do composto em 1.248 pacientes com câncer de cólon, destacando, entretanto, que a relação não é definitiva, e outros estudos clínicos devem ser realizados. A pesquisa não avaliou se o consumo de suplementos da vitamina pode ajudar a evitar a doença. Importante, a principal fonte da vitamina é a luz solar, mas ela também está presente em alguns alimentos, como o óleo de fígado de bacalhau. “Este é o maior estudo já realizado sobre o assunto, e agora há mais provas de que há maiores possibilidades de que as pessoas com baixos níveis de vitamina D possam desenvolver câncer de cólon. O próximo passo é realizar novos testes para tentar confirmar se o suplemento pode reduzir o risco – afirma o cientista Panagiota Mitrou.

Fortalecer os Ossos

Caminhada pode reverter perda óssea, afirma estudo

Novas Vacinas Na Rede Públíca

A

O SUS acrescenta duas vacinas infantis ao calendário básico

vacina pneumocócica 10-valente foi incluída no calendário básico de vacinação disponível na rede pública de saúde e será oferecida a partir de março. A vacina oferece proteção contra o pneumococo, bactéria causadora de meningite pneumocócica, pneumonia pneumocócica, sinusite e inflamação no ouvido, entre outras doenças. Serão ministradas três doses bimestrais a partir do segundo mês e um reforço entre os 12 e 15 meses. A vacina antimeningococo C, que imuniza contra a doença meningocócica (infecção que pode se manifestar como meningite ou meningococcemia, uma infecção generalizada), deverá estar disponível em agosto. Será aplicada em duas doses e um reforço no primeiro ano - a idade para a primeira dose ainda não foi definida.

Durante este ano, as vacinas serão aplicadas em crianças com menos de dois anos - serão vacinadas aquelas de 12 a 24 meses que não foram imunizadas. A partir de 2011, serão indicadas para crianças com menos de um ano. Com a inclusão das duas substâncias, o calendário básico de vacinação passa a ter 13 tipos de vacinas contra 19 doenças diferentes. Após cinco anos do início da vacinação, o Ministério da Saúde pretende evitar 45 mil internações anuais por pneumonia. Hoje, ocorrem 54.427 internações por ano em média. Se você tem crianças em casa ou conhece quem tem, avise, pois uma simples vacina pode salvar a vida de uma criança, além de evitar graves doenças.

A

caminhada ajuda a reverter a perda óssea associada a um tratamento comum contra câncer de próstata, reduzindo o risco de fraturas e osteoporose, segundo pesquisa do Johns Hopkins Hospital feita com homens que estavam em tratamento com deprivação de androgênio e radioterapia. Os especialistas observaram, após oito semanas, que uma caminhada de passadas rápidas durante 30 minutos diários, cinco dias na semana, ajuda a fortalecer os ossos desses pacientes (ganho de 0,49% na massa óssea). Em contraste, aqueles que passavam pela terapia que bloqueia o hormônio e não praticavam a atividade apresentavam considerável perda de massa óssea (2,2% no período de dois meses), comum em pessoas mais velhas, mesmo saudáveis (perda de 0,5% a 1% por ano). O estudo sugere que o mesmo acontece com pessoas que não estejam sob tratamento. Ou seja, “uma ideia na cabeça e tênis nos pés” será o nosso lema.


Alimentação

Bem Estar • Nº 19• Abril 2010 • 4

UMA MAÇA POR DIA MANTÉM... A fruta faz muito bem para a saúde e previne o envelhecimento da pele e o câncer.

H

á um ditado popular que diz: “Uma maçã ao dia mantém o médico longe”. Talvez por isso, a maçã tem sido intensamente estudada nos últimos anos e demonstrado o que o ditado afirma: pesquisas mostram que a frequente ingestão da fruta ajuda realmente na manutenção da saúde. A maçã é rica em pectina, taninos, ácido málico e flavonoides que, entre outras funções, ajudam a amenizar problemas do sistema digestivo, como diarreia e constipação intestinal; ela previne o aumento das taxas de colesterol e mantém os níveis ideais de glicose e triglicérideos no sangue.

ANTICANCERÍGENA Pesquisas recentes reforçam as propriedades antioxidantes e anticancerígenas da maçã, especialmente pela quantidade de polifenóis e flavonoides existentes na fruta, substâncias que podem ajudar a retardar o envelhecimento, porque preservam as células. Entre os estudos que demonstram esta ação benéfica está o desenvolvido na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, que constatou que a combinação de fitonutrien-

tes encontrados na polpa e na casca da maçã é realmente uma importante fonte de antioxidantes, que evita que os radicais livres presentes no organismo causem danos aos tecidos e às células. Em estudos in vitro, os cientistas trataram células cancerígenas do cólon e do fígado com extrato de maçã e constataram que a proliferação dessas células foi inibida, o que indica uma importante ação no combate ao câncer. Em outro estudo, pesquisadores da Universidade da Califórnia demonstraram que tanto a maçã quanto o suco da fruta contêm parcelas significativas de fitonutrientes capazes de obstruir a oxidação do LDL, conhecido como mau colesterol e um dos principais causadores de doenças cardiovasculares.

ANTICARDÍACA Pesquisas realizadas na Finlândia indicam, ainda, que os fitonutrientes da maçã estão relacionados ao menor risco de ocorrências de doenças cardíacas e de câncer de pulmão. Os cientistas envolvidos com esses estudos argumentam que as propriedades benéficas da maçã podem estar tanto na fruta ‘in natura’ quanto nos sucos. Aliás, a trans-

formação da maçã em suco pode aumentar o efeito protetor de seus compostos fenólicos e antioxidantes. Por isso, inclua sempre a maçã em seu cardápio. Além de gostosa, ela vai garantir uma dose extra de saúde para você. Fonte: Celina Mayumi T. Hiramatsu, nutricionista pela Faculdade São Camilo.


5 • Nº 19• Abril 2010 • Bem Estar

Fique Alerta

“Não Estou Te Escutando Direito...” Permanecer pelo menos meia hora por dia em lugares muito barulhentos pode afetar, para sempre, a capacidade de ouvir.

S

egundo o England’s Royal National Institute of Deaf, três em cada quatro frequentadores assíduos de boates e danceterias correm o risco de perda permanente da audição. E o perigo não está só em locais fechados, mas também nas ruas, nas micaretas e durante o Carnaval, por exemplo. Estatística alarmante - A perda de audição afeta dez por cento da população mundial. No Brasil, cerca de quinze milhões de pessoas têm deficiência auditiva e 350 mil não ouvem absolutamente nada. Segundo médicos e fonoaudiólogos, os que gostam de baladas devem tomar cuidado. Quando estiverem expostos a muito barulho, como nas proximidades de um trio elétrico, devem se afastar a cada duas horas para locais mais silenciosos e lá permanecer por, pelo menos, vinte minutos, como forma de evitar o risco de perda auditiva. Outro perigo para a audição são os MP3, os MP4 players e os celulares que tocam música. Usados com frequência pelos jovens, possuem fones que, em contato direto com os ouvidos, podem fazer mal à saúde, se a música estiver sempre em volume alto. O vocalista do grupo Jota Quest, Rogério Flausino, é uma das vítimas ilustres. Ele perdeu 30% da audição de um dos ouvidos por causa

do uso do fone de ouvido durante os shows. Sua lesão é irreversível.

Prevenção possível A fonoaudióloga Isabela Pereira Gomes, do Centro Auditivo Telex, explica que existem meios de auxiliar na prevenção da perda auditiva induzida por ruído. Ela recomenda o uso de protetores auriculares. “Eles reduzem o volume excessivo, mas quem usa não deixa de ouvir o som ambiente. São indicados principalmente para músicos, DJs, motociclistas e até dentistas.” Os protetores - ou atenuadores, como são chamados - são moldados de acordo com a anatomia do ouvido de cada pessoa. Existem dois modelos. O primeiro diminui em 15 decibéis o barulho ambiente, e o segundo reduz em 25 decibéis. Em várias profissões trabalhadores correm o risco de perda de audição por causa do barulho excessivo durante a jornada de trabalho. São operadores de britadeiras, operadores de áudio em estúdios e emissoras de rádio e funcionários de gráficas, entre outros. Não se deve ficar exposto a ruídos de 85 decibéis por mais de oito horas por dia. Isso corresponde ao barulho de um caminhão.

Sua saúde merece cuidado Notícias para ler e repassar

O Mau Uso De

Anticoncepcionais Estudo gaúcho revela mal uso de anticoncepcionais pela população.

C

omo todo ano, a época de Carnaval traz à tona a discussão sobre o uso da camisinha e de outros métodos anticoncepcionais. O carnaval já passou, mas essa questão recorrente ainda é necessária. Uma pesquisa feita com 3.542 pessoas de 15 anos ou mais, residentes na zona urbana de Pelotas (RS), revelou dados alarmantes sobre o uso incorreto dos métodos anticoncepcionais e sobre a falta de informação dos usuários. Coordenado pela farmacêutica Vera Maria Paniz, da Universidade Federal de Pelotas, a pesquisa foi realizada a partir da aplicação de um questionário com dez perguntas sobre o tema - cada uma valendo um ponto. A média de acertos ficou abaixo de

cinco pontos. “Apesar das campanhas, 30% dos homens entrevistados não sabem usar o preservativo corretamente”, afirma a pesquisadora. “Metade da população desconhece que o uso da camisinha é o único método para prevenir DSTs (Doenças sexualmente transmissíveis).”

Pílulas O estudo também mostrou que 70% das mulheres não sabiam o que fazer no caso de esquecer de tomar a pílula anticoncepcional. Além disso, 16,2% das entrevistadas relataram casos de gravidez indesejada. Entre elas, 5,8% usavam algum tipo de anticoncepcional. O método mais utilizado entre as mulheres foi o do anticoncepcional oral (38%). Os homens preferiram o preservativo (49%).


Ecologia

Bem Estar • Nº 19• Abril 2010 • 6

Evolução da consciência e crise climática Novo livro de Al Gore (autor de “Uma Verdade Inconveniente”) aponta caminhos e resistências para mudarmos a questão ambiental. Maurício Andrés Ribeiro

T

rês anos depois de ter lançado o livro “Uma Verdade Inconveniente” e o filme que ganhou o Oscar e lhe proporcionou o prêmio Nobel da Paz, Al Gore lançou novo livro em 2009: “Nossa Escolha - um plano para resolver a crise climática”. Al Gore considera que há um fio comum que liga três mega crises: a de segurança, a econômica e a climática. Tal fio é a dependência de petróleo e dos combustíveis fósseis. Para ele, a solução para todas essas crises é afastar-se da dependência dos combustíveis fósseis, desenvolvendo outras fontes de energia renováveis. Para propor soluções para a crise climática, Al Gore mobilizou mais de 30 encontros com cientistas e especialistas de vários países e áre-

as temáticas. Seus insights e propostas são apresentados no livro, que é uma chamada à ação: não a ação individual, mas a que interfere nos processos políticos, na elaboração de leis e regulamentos e na construção de uma infraestrutura coletiva que dê respostas à crise climática. Assim por exemplo, ele denuncia a desatualização regulatória e problemas na gestão de energia que precisam ser corrigidos com prioridade. Em 18 capítulos, o livro trata da crise atual, das fontes e de como usamos a energia, dos sistemas vivos, dos obstáculos que precisamos superar. Capítulos específicos tratam das florestas, do solo; da população, suas demandas e impactos ambientais e climáticos. Al Gore afirma que já temos conhecimento e tecnologia para enfrentar a crise climática, mas que falta despertar a vontade coletiva. A importância da evolução da consciência é enfatizada: “As únicas soluções efetivas e significativas para a crise climática envolvem mudanças massivas no pensamento e comportamento humanos.”

AS PRINCIPAIS DIFICULDADES O livro mapeia três tipos de dificuldades associadas à mudança de pensamento que precisam ser superadas: em primeiro lugar, aponta que nosso cérebro foi programado para processar perigos como os que nossos antepassados


Ecologia

7 • Nº 19• Abril 2010 • Bem Estar

“Já temos conhecimento e tecnologia para enfrentar a crise climática, mas falta despertar a vontade coletiva. ‘As únicas soluções efetivas e significativas para a crise climática envolvem mudanças massivas no pensamento e comportamento humanos’”. precisaram enfrentar em sua luta pela sobrevivência. Entretanto, a crise climática não aciona as defesas emocionais que outros riscos despertam: ela é muito abstrata, exige muito conhecimento para ser percebida como uma ameaça, é grande demais e seu impacto parece remoto: “Seus efeitos são distribuídos pela Terra num padrão que torna difícil atribuir uma relação sem ambiguidades de causa

e efeito entre o que está acontecendo com a Terra como um todo e o que está acontecendo com um indivíduo num determinado momento e lugar”. Exemplifica ele que “é como se não sentíssemos a dor de uma queimadura e por isso continuamos a ser queimados sem perceber”. Em segundo lugar, como dificuldades adicionais para a mudança de pensa-

mento, nossos cérebros estão estressados pela overdose de estímulos bombardeados pela propaganda, conduzida a partir da neurociência pelos marqueteiros e publicitários, “os grandes usuários da nova pesquisa do cérebro”. Estresse, ansiedade e preocupação dificultam que se focalize a mente no longo prazo necessário para lidar com a mudança climática, e fazem com que se priorize o imediato, como ocorre com quem precisa lutar para sobreviver no dia a dia. Uma terceira dificuldade para a mudança de pensamento é o poder dos lobbies das empresas que lucram com o petróleo e o carvão. Repetindo a estratégia de companhias de cigarro, que negavam que o cigarro fizesse mal a saúde, as empresas de petróleo também fazem campanhas milionárias e doam recursos para eleger políticos. Dúvida e  controvérsia são semeadas na mente das pessoas e enfraquecem a motivação para agir de forma convergente. Uma estratégia de desinformação influencia o público, que tende a não querer acreditar que exista tal ameaça. “O resultado de semear tais dúvidas e controvérsias é paralisar os processos políticos ou atrasá-los, no sentido de postergar ações que contrariem interesses da indústria do petróleo e do carvão.” Al Gore defende o ativismo nas bases para neutralizar essa ação financiada por interesses poderosos. Para tanto, criou uma instituição, a “Aliança para a Proteção Climática” - www.climateprotect.

“Estresse, ansiedade e preocupação dificultam focalizemos a mente no longo prazo necessário para lidar com a mudança climática, e fazem com que se priorize o imediato, como ocorre com quem precisa lutar para sobreviver no dia a dia”. org - que divulga o tema na TV, rádio, internet, jornais e revistas. Ele nos dá pistas de que investir na ecologia mental e da consciência, ecologizar a cultura e a comunicação, são abordagens estratégicas para dar respostas à crise climática, que traz consigo uma crise da evolução.

Comente esta matéria

Dê sua opinião. Participe.

redacao@jornalbemestar.com.br

Maurício Andrés Ribeiro é autor de Ecologizar e de Tesouros da Índia para a civilização sustentável (http://www.ecologizar.com.br)

Ideias Fortes w

Polêmicas . instigantes . curiosas

Pequenos prazeres da vida

ESPECIALISTAS Roberto Crema

A

T

emos sido modelados para a especialização, e o especialista fechado é a pessoa que perdeu o olhar aberto, simples e natural. É alguém com a nuca rígida, que perdeu a flexibilidade de olhar para os lados, para cima, para baixo, para trás. É alguém com uma viseira, cujos cacoetes adquirem status. Neste olhar estreito e minimizado, o inusitado nos escapa. Perdemos o deslumbramento, o espanto essencial. No caminho viciado e repetitivo, a estagnação assassina o milagre de servir. Escapa-nos o poder inocente do arquétipo da Criança Divina. Na tumba do conhecido padecemos; já não renascemos mais para a “eterna novidade do mundo”

Ventos

“Nenhum vento sopra a favor de quem não sabe para onde ir”. SÊNECA­­­

vida nos zeres que não Danuza Leão custam nada, dá muie que também tos prazesão maravilhores, ah, isso dá. sos, como esDos mais simtar rodeada de ples aos mais pessoas felizes. sofisticados, Convenhamos: dos singelos ser feliz sozinha até aqueles que não tem tanvocê batalha ta graça, bom uma vida inteira mesmo seria sapara conseguir; ber que o munno tema, é clado inteiro está ro que dinheiro feliz - mas aí já é ajuda, e quem meio difícil. disser que não, está mentindo. Gente que estuda com sacrifício e um Mas existem prazeres que não cus- dia consegue se formar - emprego depois tam nada. Quando telefona aquele amigo é outra história -, não é o máximo? (...). que você adora, e diz “vou já para aí, esExistem coisas muito boas na vida tou louco para te ver”. E, quando chega, umas importantes, outras bem bobas. Um te dá um grande abraço e diz que você copo de cerveja gelada tomada de um está mais bonita do que nunca, tem me- gole só, numa tarde de calor; cheiro do lhor? carro novo; a empregada nova, quando E quando seu filho liga e diz “estou você percebe que ela acertou com o temcom saudades”, sem nenhuma segunda in- pero; o resultado do exame que diz que tenção - descolar uma grana, por exem- sua saúde está ótima; são sensações maraplo-, tem alguma coisa que faça seu cora- vilhosas, de tão boas. ção mais feliz? São coisas que quando me aconteExistem ainda outros tipos de pra- cem, me fazem sentir feliz.

Um mundo mais intessante Leoni (Músico) Não podemos perder a oportunidade de enxergar uma luz no fim do túnel. Faz tempo que falta um motivo ou uma ideia que conduza o mundo na direção da solidariedade e da compaixão. Essa história de sermos guiados pelas leis cegas do mercado e da competição sempre me pareceu que não podia dar certo para sempre. Não deu. A urgência criada pelo aquecimento global pode ser o começo de um novo humanismo, de uma mudança significativa de valores. Não se trata mais de encontrar formas de manter o nosso estilo de vida, mas de mudar o estilo de vida. Desacelerar, reduzir, reciclar e consumir menos é necessário e faz bem. Também podemos trocar de consumo. Em vez de consumir modelos novíssimos de coisas novas que a publicidade nos convenceu de que estão velhas, consumir conhecimento e cultura, que nos enriquecem sem poluir. Esse é o verdadeiro consumo consciente. O mundo do consumo desenfreado de bens cada vez mais descartáveis tem que acabar porque é inviável para seis bilhões de seres humanos lidando com recursos cada vez mais escassos. Sem 20 pares de sapato, sem um 4x4, sem desperdiçar luz e sem o desejo insaciável dá para viver muito bem e o planeta agradece.


Matéria

um dom Maria Pigem

Atuar de forma criativa aumenta a capacidade de desfrutar a vida, porque permite desenvolver a energia interna que nos une à natureza.

A

o finalizar meus estudos de Arte Dramática viajei buscando aprofundar minha educação. Minha curiosidade abarcava muitas disciplinas artísticas: música, fotografia, literatura, pintura... Trabalhei com músicos, poetas, cantores... e me surpreendeu descobrir que o processo criativo, em sua essência, é comum. A expressão final e a técnica de cada disciplina são diferentes, mas as etapas e os elementos que aparecem neste processo são os mesmos. O segundo passo foi descobrir que a

criatividade não é uma ilha habitada só por artistas e cientistas, nem se relaciona com uma atividade em particular. A criatividade é uma qualidade da consciência e pode estar presente potencialmente em qualquer ação. Atuar de forma criativa é uma escolha pessoal. Assim, uma pessoa pode escrever um livro de forma não criativa e outra limpar o chão de maneira criativa. Ou como dizia Abraham Maslow: “uma sopa de primeira categoria é mais criativa que uma pintura de segunda categoria”.


de

Capa

ao alcance de todos A criatividade é um potencial de todos e não só isso, a vida em si mesma é um projeto criativo.

NASCEMOS CRIATIVOS Os elementos que fazem parte do processo criativo já se encontram presentes ao nascer: abertura, curiosidade, capacidade de surpreender-se ante qualquer coisa, expressividade... mas podem desaparecer progressivamente ao entrar em contato com a cultura e a sociedade. A cultura ocidental levou milhares de anos insistindo num modelo de pensamento e numa visão

de mundo que nos alheia do potencial criativo. Este modelo atualmente se baseia principalmente na visão científica, intelectual, de que tudo pode ser calculado matematicamente, ignorando sistemas baseados na experiência cotidiana e direta na relação com o mundo que nos rodeia. Stanilavsky, ator, diretor de teatro e criador de um método de preparação para atores no começo do século XX, falava dos “hábitos sócio-culturais de não expressão”, tudo aquilo inerente em nossa cultura e sociedade que reprime a capacidade expressiva e criativa. Frases tão simples como “não podes caminhar como uma pessoa normal?” ou “não chores que é coisa de crian-

ça” são sementes desses mandatos que vão se desenvolvendo e fixando à medida que crescemos. Mas colocar a culpa no sistema educativo ou nos pais não é nada criativo, o criativo é colocar mãos à obra, ser consciente de tudo aquilo que nos condiciona e liberar-se deles. E assim recuperar os “olhos de criança” que uma vez tivemos de forma inconsciente e que agora podemos recuperar num processo consciente.

EXPLORAR E EXPERIMENTAR A diferença básica entre o modelo educativo ocidental e a educação criativa é que o primeiro diz unicamente que se deve aprender, enquanto a educação criativa mostra como aprender, e oferece as

“Os elementos que fazem parte do processo criativo já se encontram presentes ao nascer: abertura, curiosidade, capacidade de surpreender-se ante qualquer coisa, expressividade... mas podem desaparecer progressivamente ao entrar em contato com a cultura e a sociedade”. ferramentas para isso, incentivando a exploração e a experimentação (um processo que nos acompanhará por toda a vida). O primeiro modelo considera os alunos como objetos padrão,

a


Matéria a segunda entende que cada aluno tem uma qualidade precisa que deve ser escutada e potencializada. A sociedade atual (escolas, concursos...) premia a informação pela informação, não incentivando o aprofundamento do conhecimento. O conhecimento que se valoriza é o intelectual, o dos jogos mentais que não vão mais além do conhecido. O intelecto pode produzir, fabricar, mas nunca criar. Não existe a possibilidade de criatividade intelectual. O intelecto se nutre da lógica, da informação, costuma ser rígido, imóvel. A criatividade, como a existência, esta cheia de paradoxos, de mistérios, que a mente não pode alcançar. Outra coisa é falar da inteligência. Esta provém de uma grande coragem, da liberdade interior. Não tem a ver com a cabeça, mas com um coração desperto, desejoso de caminhar no desconhecido, por deixar-se surpreender pelo mundo, enquanto vai dançando intimamente com ele. O modelo educativo predominante oferece uma visão de mundo que permite que a mente se posicione como “senhora do castelo”, submetendo-nos a um governo nada democrático e nem um pouco “orgânico”. É incrível a crença que o único vivo existente é a mente e que o corpo seja puramente um pedestal mecânico que nos transporta de um lado para outro. Com os anos temos es-

de

Bem Estar • Nº 19• Abril 2010 • 10

Capa

“A beleza inerente na vida cotidiana se mostra quando temos olhos para vê-la. Da mesma maneira que temos uma maior capacidade para desfrutar da pintura quando nos ensinam a olhar um quadro”.

A PERCEPÇÃO SENSORIAL quecido que o corpo é nosso grande sensor do mundo. Como disse David Abraham em seu livro “A Magia dos Sentidos”, “o corpo é uma forma desenhada para o mundo”, e rodeados como estamos de tecnologias que podem fazer que percamos a perspectiva e nos entreguemos a elas cegamente, necessitamos mais que nunca reconhecer as texturas, os ritmos e os sabores do mundo físico. Se nossos sentidos estão adormecidos, aturdidos, bloqueados por uma ditadura intelectual (baseada em conceitos, opiniões,

preconceitos), a percepção – elemento indispensável para a criatividade – será pobre, para não dizer nula. Pior ainda: a mente, desconectada do corpo físico, pode criar uma percepção de mundo artificial e alterada. A percepção não surge de uma análise mental ou dedutiva, mas de uma “participação dinâmica entre meu corpo e as coisas” (A. Maslow). Devemos desaprender a lógica mental, para aprender como ver, como escutar, como sentir. Como conta E. Harding em seu livro “Viver sem

a


Matéria

11 • Nº 19• Abril 2010 • Bem Estar Cabeça”, “havia perdido uma cabeça e ganhado um mundo”. Convém, pois, recuperar esse corpo receptor e expressivo com o qual nascemos, e reconectar-se com o mundo ilimitadamente rico da realidade sensorial. Estudando o processo criativo ativamente descobri que a mente é a fonte de meus principais bloqueios: me vende o conceito de que sou um ente separado do mundo, dá voz aos medos, me permite retornar ao passado, projetar-me ao futuro, mas quase nunca de estar presente ao “aqui/agora”. Sem dúvida, pode-se estabelecer uma relação justa com a mente. É um processo duro no qual se pode perder constantemente. Mas quando finalmente ganhamos a batalha e lhe mostramos qual é o seu lugar, a mente se converte num bom aliado, uma “secretária eficaz”.

VER O EXTRAORDINÁRIO NO ORDINÁRIO A beleza inerente na vida cotidiana se mostra quando temos olhos para vê-la. Da mesma maneira que temos uma maior capacidade para desfrutar da pintura quando nos ensinam a olhar um quadro. Esse potencial poético que nos

“Se nossos sentidos estão adormecidos, aturdidos, bloqueados por uma ditadura intelectual (baseada em conceitos, opiniões, preconceitos), a percepção – elemento indispensável para a criatividade – será pobre, para não dizer nula. Pior ainda: a mente, desconectada do corpo físico, pode criar uma percepção de mundo artificial e alterada”. rodeia não é algo que imponhamos artificialmente para adoçar a visão do mundo, é algo relacionado com a capacidade de ver com os olhos da criança interior, a capacidade de perceber com ingenuidade, com o olhar limpo. Desta maneira tantos escritores e muitos outros artesãos e artistas conseguiram evocar-nos com tanta beleza momentos da vida! Quando proponho o exercício de perceber situações da vida cotidiana que podem em seguida ser evocadas em sala de aula, muitas vezes encontrei algum aluno que opinava que a vida cotidiana é por demais chata para encontrar situações,

de

Capa

gestos ou momentos que lhe chamassem a atenção de maneira especial. Mas levando a cabo o exercício com seus companheiros, o aluno acabava reconhecendo que era sua limitada maneira de perceber que não tinha lhe permitido ver. A maior parte do tempo muitos de nós olhamos ao redor e só vemos monotonia e caos. Mas o caos aparente tem uma ordem, um equilíbrio interno ou “unidade” que quando a percebermos a chamamos de beleza. Todos temos a capacidade de ver a beleza que aparece ao percebermos a existência como uma unidade orgânica e harmônica. Essa harmonia está presente na natureza. De fato, o uso da criatividade com fins terapêuticos é uma prática reconhecida, já que quando as pessoas entram em contato com o potencial poético que nos rodeia, com todos esses ingredientes necessários para o processo criativo, descobrem facetas ignoradas de si mesmas e sua qualidade de vida melhora substancialmente. MARIA PIGEM é professora de Teatro, Cinema e ministra cursos de Criatividade. Publicado em CUERPOMENTE

Comente esta matéria

Dê sua opinião. Participe.

redacao@jornalbemestar.com.br

“O intelecto se nutre da lógica, da informação; costuma ser rígido, imóvel. A criatividade, como a existência, esta cheia de paradoxos, de mistérios, que a mente não pode alcançar”.


Matéria

de

Capa

Bem Estar • Nº 19• Abril 2010 • 12

D icas para desenvolver a capacidade criativa A atitude frente a experiência criativa é primordial: o medo do fracasso, o ego, a insegurança ou a incapacidade para conectar-se consigo mesmo podem bloquear nossa capacidade criativa.Por isso é importante potencializar uma série de qualidades. Estas são algumas das mais importantes: 4 Não deixar-se

enredar pelo ego. Para atuar de forma criativa é fundamental abandonar-se de forma ativa e consciente. Converter-se numa espécie de “filtro” que permita expressar algo muito maior. O que bloqueia e limita a capacidade criativa é o ego que só é capaz de produzir projetos pequenos, pobres, pois não pode ir além de si mesmo e não é capaz de escutar algo maior, universal, comum à experiência humana, como os sentimentos que compartilhamos com os demais ou o equilíbrio interno que reina na natureza. Como descreve N. Goldberg, “esqueça-se de si mesmo, desapareça naquilo que miras.”

4 Saber atravessar

com êxito cada uma das etapas do processo criativo. Isso implica, por exemplo, saber discernir entre um momento de bloqueio e um momento de gestação. São parecidos em sua manifestação no mundo físico, mas originam-se de momentos muito diferentes e se não soubermos distingui-los podem nos confundir. Nada tem que ver a etapa do projeto em que se necessita de tempo, repouso, reflexão, talvez silêncio, com um período de bloqueio. Outro exemplo seria reconhecer quando está falando nosso juiz interior, que nos guia com claridade e nos mostra os erros, e quando o faz nosso crítico, que põe aditivo em nossos medos, ao nosso “não será capaz”.

4 Ficarmos mais conscientes daquilo que experimentamos e expressamos. Por exemplo, podemos criar conscientemente o ambiente que necessitamos para que nosso projeto aconteça. Se observamos que aspectos do ambien-

te o bloqueiam ou se interpõem para a criação, já temos o material básico para transformá-lo. Mas cada projeto e cada pessoa ou grupo que o realiza podem ter necessidades diferentes, por isso é necessário aprender a escutar nosso eu mais íntimo.

4 Converter-se

em um filtro Em geral, se tem a imagem de que a criatividade surge unicamente de um ser “realizador”. Sem dúvida, grandes criadores falam de uma experiência comum a todos eles: ao finalizar um projeto não se sentiam com direito a assiná-lo, mas sim que tinham a impressão de terem sido o filtro através do qual algo maior que eles havia se expressado. Mas seria um erro crer que a criatividade não necessita da técnica, do conhecimento e da dedicação que cada disciplina requer.

4 Escutarmo-nos

intimamente Com frequência escutamos unicamente o que comunicam as palavras e esquecemos que a expressividade gestual

Para atuar de forma criativa é fundamental abandonar-se de forma ativa e consciente. Converter-se numa espécie de “filtro” que permita expressar algo muito maior. e corporal contém a essência da comunicação, é o substrato profundo do que fala D. Abraham: “o significado explícito de cada palavra cavalga sobre a superfície de um substrato mais profundo, como as ondas que cavalgam sobre a superfície profunda do mar”.


13 • Nº 19• Abril 2010 • Bem Estar


Estética Profunda

Bem Estar • Nº 19• Abril 2010 • 14

Reflexos do ser O que leva pessoas fisicamente belas a se transformarem em figuras inexpressivas, enquanto outras, feias, irradiam forte magnetismo pessoal? Pierre Weill

D

uas atitudes perante a vida são, fundamentalmente, as responsáveis diretas ou indiretas pelo fato de algumas pessoas feias parecerem belas, enquanto outras, mesmo muito bonitas, não atraem a atenção de ninguém. A primeira atitude é decorrente de um conjunto de emoções negativas e destrutivas que criam em torno de pessoas fisicamente bonitas um ambiente carregado de negatividade: essas emoções afetam também a saúde física e mental e as relações interpessoais. A primeira emoção desse conjunto - ao qual dou o nome de fantasia da separatividade - é a possessividade (ou apego) a objetos, pessoas ou ideias. A possessividade provoca o medo e a desconfiança. Quando alguém se apega a uma jóia ou a um namorado (não há diferença nenhuma neste nível de posse...), aparece imediatamente o receio de perder ou ser roubado. Nasce aí a desconfiança paranóica. Se estes sentimentos perdu-

ram durante anos, isto acaba se refletindo no rosto e no olhar, enquanto os músculos do corpo assumem uma forma defensiva, expressando fechamento completo aos outros. Eu não me surpreenderei se vierem a constatar que a origem da artrite (doença que deixa as mãos crispadas e os dedos retorcidos) tem relação com a possessividade exagerada... Se alguém ameaça se apoderar do objeto de apego do possessivo, nasce o segundo veneno - a rejeição. Provocada pelo medo de ser roubado, atacado ou enganado, ela leva a agressão física ou verbal e, logo, à violência. A expressão fisionômica típica nesse caso é a de ódio e desprezo, que se percebe facilmente na boca, cujos cantos são virados para baixo, denotando o contrário do sorriso acolhedor. O corpo todo expressa a defesa e está sempre pronto para atacar. Como no nosso mundo civilizado as pessoas não podem sair atacando fisicamente umas às outras, o que sobra é uma tensão mus-

cular permanente, aliada a disfunções glandulares, principalmente do fígado e da vesícula biliar - o que dá aquela cor biliosa aos raivosos. Os outros dois sentimentos destrutivos são o ciúme e o orgulho. O ciúme, companheiro da inveja, gera a luta competitiva, que muitas vezes vem acompanhada de raiva e agressão. Estes sentimentos são de tal forma entrelaçados que é difícil dissocia-los. O orgulho, por sua vez, é a crença descabida da superioridade: física, intelectual ou mesmo espiritual. Este sentimento leva a uma expressão corporal bem definida: o tórax se enche, a cabeça se levanta para olhar os outros de cima, o canto dos lábios é de desprezo, toda a atitude é de arrogância. O orgulho é um exagero da fantasia da separatividade.

SER, AO INVÉS DE TER Por causa dessa fantasia, a crença de que somos irremediavelmente separados do mundo exterior - o


15 • Nº 19• Abril 2010 • Bem Estar “Se alguém ameaça se apoderar do objeto de apego do possessivo, nasce o segundo veneno - a rejeição. Provocada pelo medo de ser roubado, atacado ou enganado, ela leva a agressão física ou verbal e, logo, à violência. A expressão fisionômica típica nesse caso é a de ódio e desprezo, que se percebe facilmente na boca, cujos cantos são virados para baixo, denotando o contrário do sorriso acolhedor.”.

que é uma ilusão, como mostra particularmente a física quântica e a psicologia transpessoal - nos leva à compulsão de possuir, de ter em vez de simplesmente ser (Erich Fromm descreveu magistralmente este fenômeno). E por causa dela também que pessoas bonitas acabam parecendo feias. Com o passar do tempo, esses sentimentos negativos provocam as rugas e as deformações no rosto. Nem mesmo as operações plásticas solucionam esses problemas: se não houver uma mudança radical na própria mente, as rugas e as marcas voltarão com o tempo. Quando, ao contrário, as pessoas se sentem permanentemente em harmonia com o universo, a natureza, os animais e os seres humanos, desenvolve-se uma outra atitude perante a existência, que vai se refletir em todo

Estética Profunda o corpo. Em todas as tradições culturais e espirituais, conserva-se a memória de um tempo em que os homens viveram numa felicidade ou mesmo beatitude absoluta. Por motivos difíceis de expor aqui, houve uma “queda”, conhecida na tradição judaico-cristã como a queda de Adão. Este simbolicamente saiu da árvore da vida, isto é, da vida de plenitude feita de amor e sabedoria inseparáveis, para a dualidade, a separatividade, a fragmentação da árvore do conhecimento, isto é, da discriminação. Restou no homem uma saudade difusa, uma espécie de lembrança daquela felicidade, inscrita em algum lugar da sua memória ancestral. Por isso, ele procura a felicidade e foge da dor. Só que a felicidade não se encontra onde ele a procura, isto é, fora dele. Daí ele se apegar desesperadamente a tudo o que lhe dá prazer. O desespero é imenso, pois nenhum prazer é permanente. No entanto, quando descobre que esta felicidade está dentro dele mesmo, começa, então, o caminho de retorno à arvore da vida. Quando entende que a separação é apenas ilusória, aos poucos ele volta a vivenciar o ser. O ser que cultivava o ter, em virtude da ilusão, não vê mais nenhum interesse nisso começou o desapego.

AMOR, RECEITA DE BELEZA E cultivando os sentimentos que catalisam o ser que o homem pode sair da neurose do paraíso perdido. A beleza interior emergirá aos poucos e irá refletir-se no exterior da pessoa. E quais são estes sentimentos? São, como no caso da fantasia da separatividade, quatro. Primeiro, a alegria - a alegria de ver todos os seres felizes. Em segundo lugar, o amor. Enquanto confundimos o amor com o apego, não conseguimos ser felizes. O amor a que nos referimos consiste em querer a felicidade de todos os seres e em trabalhar para isso na nossa vida cotidiana. Lembro-me de que, certa vez, em uma estação de trem no interior da França, havia duas filas: numa, as pessoas estavam caladas e indiferentes; na outra, as pessoas sorriam, estavam alegres. O motivo era simples: enquanto na primeira atendia uma mulher comunicativa, que brincava com cada passageiro, na outra havia um funcionário que se limitava a carimbar o ticket, receber o dinheiro e entregar o bilhete. A funcionária não tinha nada de especialmente bonito, mas seu olhar irradiava um brilho de felicidade, enquanto o rapaz, embora tivesse feições agradáveis, parecia um autômato, irradiando feiura. O terceiro sentimento e a compaixão.

“É cultivando os sentimentos que catalisam o ser, que o homem pode sair da neurose do paraíso perdido. A beleza interior emergirá aos poucos e irá refletir-se no exterior da pessoa”.

Muito ligada ao amor, consiste em se abrir ao sofrimento e à neurose alheia e contribuir para dissolvê-los. Consiste, antes de tudo, em saber ouvir o outro e a se colocar no seu lugar. O quarto e último sentimento é a equanimidade, que consiste em aplicar estes três primeiros sentimentos de maneira igual, sem nenhuma preferência, a todos os seres. Quem se volta para dentro de si, através da meditação, do ioga ou de outros caminhos, e pratica estes quatro catalisadores do ser, reencontra o paraíso que julgou perdido, mas que, na verdade, foi apenas reprimido nos confins da alma. Então, beleza interior e exterior tendem a formar um conjunto harmônico, pois a primeira condicionará a segunda. Mais do que isto, a beleza se tornará contagiante, estimulando a experiência estética profunda em todo mundo. PIERRE WElL foi Doutor em Psicologia pela Universidade de Paris; professor da Universidade Federal de Minas Gerais, fundador e Reitor da UNIPAZ, autor de vários livros sobre comportamento humano e holística. Faleceu em 2007.

Comente esta matéria

Dê sua opinião. Participe.

redacao@jornalbemestar.com.br

Renato Guariglia e Renata Cunha Editores - Zona Sul Fábio Ferreira Diagramação Renato Guariglia Comercial Impressão: Grupo Sinos Tiragem: 10 mil exemplares Contato: (51) 3268.4984

zonasul@jornalbemestar.com.br

REDE BEM ESTAR Érico vieira Comercial/Relacionamento Max Bof Administrativo/ Produção Editorial Ralph Viana Conteúdo/Arte Jaqueline Bica Diagramação Central Jornalista responsável: Max Bof (mtb 25046) Material: Revistas CUERPOMENTE, UNO MISMO, NEW AGE, PSYCHOLOGY TODAY, BUENA SALUD, THE QUEST, PSYCHOLOGIES, SHAMBHALA SUN, MAGICAL BLEND, NOUVELLES CLÉS. Informes publicitários, textos e colunas assinadas não correspondem necessariamente à opinião do jornal e são de responsabilidade de seus autores.

Que todos os méritos gerados por esse trabalho beneficiem e tragam felicidade para todos os seres.


Bem Estar • Nº 19• Abril 2010 • 16

Bem Estar Zona Sul abril 2010  

Jornal Bem Estar, edição Zona Sul, abril 2010