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© Siglaviva, 2015 © Francisco K, 2015 edição, revisão e design gráfico Renato Cunha

Dados internacionais de catalogação na publicação [CIP]

K, Francisco [1961] Error Brasília: Siglaviva, 2015 80 p. ISBN 978-85-66342-14-7

1. Poesia brasileira. I. Título. CDD 869.91

Índice para catálogo sistemático 1. Poesia: literatura brasileira 869.91

Siglaviva Comunicação e Design siglaviva@siglaviva.com.br www.siglaviva.com.br [2015] Impresso no Brasil


Error

FRANCISCO K

siglaviva


Incursões em Error Compõem o substrato da poética de Francisco K tendências radicais e inovadoras do fazer poético. Poesia é sua religião e pólis. Percurso iniciado há 25 anos com uma obra de beleza rara e estranha, como a da própria Tennin, personagem desse seu primeiro livro: Aresta/Hagoromo. Enquanto a Tennin baila para obter o seu manto sagrado de volta, Francisco produz escritas dançarinas, ora logopaicas, fanopaicas, ora densas ou irônicas. Tennin kaquiana também samba, Francisco K parangoleia sem manto e quer copiar e recriar, colando sambas. Coisa de malandro... opa! Já estou entrando no poema “Samba”. Error... é sem dúvida o seu livro mais inventivo e arriscado, potencialização da poesia do estranhamento. Profundamente metalinguístico, cinematográfico e político. A obra é dividida em três poemas:


“Error” (que dá título ao livro), “Sublevação” e por último “Samba”. Em 1997, lança o seu segundo livro: 1001. Em que está presente a força da poesia visual. Nessa estética intersemiótica encontramos a influência da poesia concreta, neoconcreta e poema processo. Nascem depois eu versus, Poesia Aporia e Diz. Nessas obras movidas pela tradição da ruptura emergem elementos como o quase-verso, a busca da concisão e condensação. A valorização da estética do mínimo, unida a jogos de invenção da linguagem, leva a caminhos imprevisíveis em sua fatura poética. Percurso esse instigador e problematizante. A obra Error assume outra roupagem, seus poemas são bem extensos comparados aos outros. E por vezes quer ser narrativa, dentro de uma forma marcadamente fragmentária. Também utiliza a colagem como procedimento estruturante do poema, em “Sublevação” e principalmente em “Samba”. Bebendo em vários autores. Pegando pedaços de várias criações.


os 3 poemas Quem está a fim? Esse primeiro texto, “Error”, é um poema-convite aos solitários a um passeio/caminhada... Essa é uma criação que sugere um curta, dependendo das probabilidades do olhar. Aqui a câmera errante narra, é o olho do narrador. Há um espaço/cena de investigação do caminhante narrador. Nesse monólogo, angulações e cortes inesperados provocam sentidos. E uma luminosidade estourada, “vermelho em torno cegante”. A visão do voo de uma ave e o enquadramento no pedaço de embalagem de cigarro no meio do lixo compõem esse cenário (urbano da periferia), onde a poesia encontrou terreno e refúgio: divisa-se a casa ao lado monturos lixo hábito qboa hollyw Em “Sublevação” a primeira imagem que surge é de uma personagem, uma moça, quem será ela? Uma musa, uma guerrilheira? Um tema delicado se mis-


tura com o comportamental e o erótico: o da resistência armada à ditadura. A inquietante personagem “desliza” por espaços poéticos e de guerrilha: “palmas / a palmares / outubro / rubro / ou nada / um anelo”. Essas são referências e homenagens a alguns dos principais grupos da guerrilha nacional. Assim, vê-se que lirismo e utopia se tocam: “a foto dela / estava ... / ... no / cartaz / indivídua / portanto / temível / ... / belí / fera / a ser minuciosamente / observada”. No terceiro texto, o samba propriamente dito é enaltecido, fragmentos de sua história e da nossa são cantados em coro. Aparece uma pluralidade de vozes e sentidos e vários sambistas são trazidos à cena. Há diversos trechos de letras e de alguns outros textos. Prevalece, assim, a voz da coletividade. É possível ouvir saindo dessas páginas o batuque dos tambores e o pé sambando, a voz dos nossos heroicos negros e negras contando as suas histórias de luta: “o arrepio na serra da / barriga quem sabe cisma / ... / sina braba que nos abrasa” (aqui, nas palavras do autor).


A voz do samba que canta o morro, o samba descendo o morro, o primeiro samba gravado, o samba carnavalesco. O samba que fala da vida urbana e das dificuldades, que fala da boemia, dos amores e desilusões. O samba-canção, samba de breque, da batucada, do prazer e alegria, melancolia, enfim, eis uma réplica de uma épica. Uma épica sem enredo. História descontínua. Expressando diferentes visões sobre o samba e a malandragem, as vozes de Noel Rosa e Wilson Batista ressoam sua famosa polêmica e revelam uma forte tendência desse poema-colagem. Kaq com a sua arte está sempre nos perguntando: o que é a poesia? Esta obra exige de nós uma leitura atenta e experimental. Com um olhar inquieto podemos adentrar nesse universo inventivo — ora desvelado, ora obscuro —, que propõe caminhar nas trilhas do risco e da surpresa. Lurya Nascimento

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Páginas iniciais de Error, de Francisco K.

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