Page 1

AURORA RÉGIA Jurai des da Cruz

Aurora rĂŠgia, aurora da minha vida, Tocantins, Serra Geral, monumento.


Este CD foi gravado em novembro de 2013 no estúdio Setup Music, em Goiânia/GO, com direção musical e técnica de Bororó e Jairo Reis, mixagem e masterização de Cesinha Canedo e arranjos de Bororó, Juraildes da Cruz e Jairo Reis. As fotografias são de J. Santos (Juraildes da Cruz), Pablo de Regino (Juraildes da Cruz e João Pedro), Raphael Rodrigues (Dani Bonfim) e Márcio Lima (Xangai). A arte gráfica é de Renato Cunha, da Siglaviva.


1

MARIA DA PENHA

Juraildes da Cruz/J. Araújo

BR.ZUR.14.00001

O cumpade bebeu a mais e a cumade foi atrás dele no boteco Ela, mulher de paz, mas estava demais o repeteco Seu nome era Das Dores, sobrenome Bordoada Cansada dos horrores, relação desgastada Naquele dia resolveu deixar de ser saco de pancada

Aí ela resolveu levantar a voz Em busca dos seus direitos se queixou da desventura 171 em cima do 190 Que desculpa que ele inventa pra não pagar a fatura E ele, o ó do borogodó, sambou, sambou no BO Sambou, sambou na cana dura E ele, o ó do borogodó, sambou, sambou no BO Foi passear de viatura De fala macia na delegacia um abnegado Verteu pranto, virou santo nas mãos do delegado Maria da Penha, Maria da Penha, o seu legado Tá na hora desses caras ver o sol nascer quadrado De fala macia na delegacia, que coisa feia Em que se ama não se bate, quando bate dá cadeia Maria da Penha, Maria da Penha, Maria da Penha Ensine com quantos paus, com quantos paus se faz a lenha

Juraildes da Cruz (voz e violão náilon), João Pedro (voz), Luiz Chaffin (cavaquinho), Bororó (baixo), Edilson Morais (percussão), Fabiana Tavares (vocal)

O cumpade não era fácil, vivia debruçado na sinuca Tipo chauvinista e com cachaça na cuca Seu temperamento meio desordeiro Por falta de instrumento fazia de pandeiro Aquela que lhe amava e lhe dedicava o tempo inteiro


2

SE CORRER O BICHO PEGA Juraildes da Cruz

BR.ZUR.14.00002

Eu pensei correr de mim Mas aonde eu ia eu tava Quanto mais eu corria Mais pra perto eu chegava

Eu pensei correr de mim Mas aonde eu ia eu tava Quanto mais eu corria Mais pra perto eu chegava

Quando o calcanhar chegava O dedão do pé já tinha ido Escondendo eu me achava E me achava escondido Só sei que quando penso que sei Já não sei quem sou Já enjoei de me achar No lugar que aonde eu vou eu tô

O espelho me disse Só tem um jeito pro assunto Não adianta querer morrer Porque se morrer vai junto Se correr o bicho pega Mas se limpar o bicho some Tem que desembaraçar O novelo da vida do homem

Eu pensei correr de mim Mas aonde eu ia eu tava Quanto mais eu corria Mais pra perto eu chegava

Se quiser que eu vá, eu vou Se quiser que eu fique, eu fico Quero ver você sair, meu irmão Dessa sinuca de bico

Tô pensando em tirar férias de mim Mas eu também quero ir Só vou se minha sombra não for Se ela for eu fico aqui Um dia desses sonhando Eu pensei: não vou me acordar Vou me deixar dormindo E levanto pra comemorar

Eu pensei correr de mim Mas aonde eu ia eu tava Quanto mais eu corria Mais pra perto eu chegava Juraildes da Cruz (voz e violão náilon), Jairo Reis (violão aço), Bororó (baixo), Edilson Morais (percussão), João Pedro (vocal)


3

HOT DOG LATINO Juraildes da Cruz

BR.ZUR.14.00003

O povo da minha terra Tá inventando moda e tão achando bom Ninguém quer se chamar João É Bill Clinton e Alain Delon Se Maria se chamasse Brooke Shields Michael Jackson, José Maria seria nome de valor E Michael Jackson um zé O menino do interior Não quer se chamar José É Jones Clay, Jaques Ney De botinão no pé Joaquim já deixou de ser Quinca Diz que agora é Rockefeller Foi pra Santa Fé, embarcou no whisky Tá querendo ser compadre de Mick Jagger Aroldo e sua jega quer se chamar Arnold Schwarzenegger O povo da minha terra... Cadê Herculano? Tá rebatizando Jovilino Manel, filho de Gertrude Agora é Joy Boy, bye-bye, menino Pra Flórida todo ano Com Smith, filho de Leobino

João Pedro (voz) Juraildes da Cruz (violão náilon e vocal), Jairo Reis (violão aço), Bororó (baixo), Edilson Morais (percussão), Amim Braga (sanfona), Fabiana Tavares (vocal)

Só come diet, só bebe light Mas é um hot dog latino Até meu cachorro caçador Quer se chamar Faro Fino O povo da minha terra... Good morning, seu Raimundo Meu breakfast é cuscuz Workshop dos tupiniquins É proteger os caititus Tatu de paletó e gravata É bravata, Luizim Mas é direito do jabuti Querer se chamar Brad Pitt [Justin Bieber] Mesmo que fique parecendo Um vitrô num rancho de capim O povo da minha terra... Ô Letisgo! Vem cá, Letisgo! Que Letisgo o quê, rapaz Você nunca viu filme americano, não? O nome do menino é Let’s Go


4

AURORA RÉGIA Juraildes da Cruz

BR.ZUR.14.00004

Eu canto, canto, minha terra querida Batizado o chão do livramento Aurora régia, aurora da minha vida Tocantins, Serra Geral, monumento Eu posso até não ser o mel das abelhas Mas só de ser o samburá já tá bom Meu jatobá que sombreava as ovelhas Era tão belo no sol da manhã Meu pai campeava gado Minha mãe sonhava que eu fosse doutor De Erondina e Abilio nasceu A semente que esse chão brotou O povo dessa terra é um povo natural Tem o seu modo de ser feliz Tem sua filosofia original Melhor fanhoso do que sem nariz Cachoeira da Sombra, água boa Remanso Maria Velha No poço ainda moço me banhei Menino de abrir cancela Eu canto, canto, minha terra querida Batizado o chão do livramento Aurora régia, aurora da minha vida Tocantins, Serra Geral, monumento

Banco de areia é coisa de cinema Meu pé de serra de iaiá e ioiô Lá pro Mocambo, lá pro lado das Ema Buritizim do véi Antenor O Azuis tão cristalino por fora Por dentro azul-turquesa Meus olhos de menino ainda choram Preserve a natureza Na vida eu tive dois privilégios Presentes que Deus me deu De ter nascido nesse pé de serra E o outro onça não me comeu Cachoeira do Ribeirão, pé de Deus Escorrega, mas não cai Ponha o pé nessa fôrma menino Que essa fôrma é do teu pai Eu canto, canto, minha terra querida Batizado o chão do livramento Aurora régia, aurora da minha vida Tocantins, Serra Geral, monumento

Juraildes da Cruz (voz e violão náilon), Jairo Reis (violão aço), Bororó (baixo), Edilson Morais (percussão), Andréa Teixeira (flauta)


5

EM NOME DO PAI Juraildes da Cruz

BR.ZUR.14.00005

Quem é, quem é, quem veinlá, quem lainvai? O pai tem que ser honrado Filho se apresenta em nome do pai Filho de quem? é filho de Rufino Que tomava banho lá no engenvéi Filho de quem? é fi de Catulino Que tomava banho lá no engenvéi Fi de Doca, fi de Manel, fi de Pedim, fi de Ladu Mãe de tia, mãe de Jany, finado Antonho, pai de Patu Chico Gongó, filho do tempo, fi de Bento, fi de João Fi de Roberto, fi de Gervalino, parentes de outra geração Antonim, meu pai titi, mas quem fez um golaço é fi de Miltão Fi de Severo, fi de Lindolfo, fi do véi Ranolfo, fi de Antenor Alegria, filhos de Joaquim de Souza, não se meta com Zuza Tambor Fi do véi Chico, fi de Brail, fi de ti Zezim, Fi de Mãe Anja, a parteira que pegou mais de cem Pra saber qual é a sua procedência, ei você aí é filho de quem? Quem é, quem é, quem veinlá, quem lainvai? O pai tem que ser honrado Filho se apresenta em nome do pai Filho de quem? é fi de Pedacunha Que tomava banho lá no engenvéi Filho de quem? é fi de Salduína Que tomava banho lá no engenvéi


Fi de Felipa, fi de Alice, filhos de Erondina, filhos de Lu Se não fosse essas mulheres honradas e os homens no guatambu Fi de Manezim, fi de Vitalina, fi do véi Nezim, filhos do sertão Abenildo, fi de Ozebe, que é pai de Quinca do Boqueirão Homens que os olhos brilhavam quando a chuva molhava o chão Fi de Ló, fi de Jó e Dó, ti Zifirino, bicho mateiro Era bom tocador de caixa, só via ele no mês de janeiro Fi de Zé Pereira, fi de João Ribeiro, fi de Antero, fi de Carrim Filhos desse pé de serra, do puçá e do bacupari Fui mimbora dessa terra, mas essa terra não saiu de mim Quem é, quem é, quem veinlá, quem lainvai? O pai tem que ser honrado Filho se apresenta em nome do pai Filho de quem? é filho de Laurindo Que tomava banho lá no engenvéi Filho de Maria, de Derlindo Que tomava banho lá no engenvéi Quem é, quem é, quem veinlá, quem lainvai? O pai tem que ser honrado Filho se apresenta em nome do pai Filho de Enoque do Baleia Que tomava banho lá no engenvéi E a beleza da lua cheia Que tomava banho lá no engenvéi

Juraildes da Cruz (voz e violão náilon), Jairo Reis (violão aço), Edilson Morais (percussão), Marcelo Voninho (sanfona), Andréa Teixeira (flauta), Fabiana Tavares (vocal)


6

RODA GIGANTE Juraildes da Cruz

BR.ZUR.14.00006

Mundo velho tá maduro Mas continua dando cacho Se hoje você tá por cima Amanhã você pode estar por baixo É uma roda gigante Dentro da justiça divina Se hoje você tá por baixo Amanhã você pode estar por cima Tem gente que não devia Deixar rastro por onde passa Porque ali nunca mais nasce Capim nem pé de cabaça Tem gente que pra ter lucro Faz armadilha pro outro entrar Vai receber com juros no cartório do futuro Nas voltas que o mundo dá Tire esse olho gordo De cima do que eu consegui Foi com suor do rosto Com muito esforço que eu venci O maior tesouro da vida é o despertar da consciência Pra não mais ter que matar Pra não mais ter que roubar E sair da penitência

Mundo velho tá maduro Mas continua dando cacho Se hoje você tá por cima Amanhã você pode estar por baixo É uma roda gigante Dentro da justiça divina Se hoje você tá por baixo Amanhã você pode estar por cima Coisas da natureza É sempre bom prestar atenção Se você planta caju, com certeza não colhe mamão Essa vida prega peça Já vi gente cair do cavalo Zombando da dor do outro O outro chora, ele acha pouco Não sabe onde aperta o calo A justiça verdadeira é fiel, é equilibrada Não tem jogo de interesses Também não tem cartas marcadas Esse mundo velho é grande Mas cabe na mão calejada O pouco com Deus é muito E na balança do justo O muito sem Deus é nada Dani Bonfim (voz), Juraildes da Cruz (violão náilon), Jairo Reis (violão aço), Bororó (baixo), Edilson Morais (percussão)


7

CANTÃO

Juraildes da Cruz

BR.ZUR.14.00007

Deve haver em algum canto do mundo Um canto brincante que encante o meu viver Retrato do amor, semblante do amanhecer E ser enfim a real de um sonho Que eu tenho em mim Encontrar um canto, água e sentimento Segredo do vento no coração E o cantar dos passarinhos no cantão Passarão cantador no cantão E o sol com seu esplendor Pra que querer ir pra lua? Se eu tenho na terra o encanto que a lua tem Pra que querer ir pra lua? Se tem no cantão lua cheia, meu bem Deve haver um novo encanto no mundo Um lugar macio já que o mundo é redondo Um coração cheio de cachoeiras Borboletas, colibris Homens lavando as mágoas Meu canto, me encante, tão bela é a palavra Na essência desse chão E o cantar dos passarinhos no cantão Passarão cantador no cantão E o sol com seu esplendor

Pra que querer ir pra lua? Se eu tenho na terra o encanto que a lua tem Pra que querer ir pra lua? Se tem no cantão lua cheia, meu bem Deve haver em algum canto do mundo Um lugar onde eu possa encontrar as estrelas E tê-las ao certo bem junto de mim Que não partirá dos nossos corações Nem dos olhos dos bichos Na primavera, no verão lembre disso Do compromisso do coração E o cantar dos passarinhos no cantão Passarão cantador no cantão E o sol com seu esplendor Pra que querer ir pra lua? Se eu tenho na terra o encanto que a lua tem Pra que querer ir pra lua? Se tem no cantão lua cheia, meu bem

João Pedro (voz), Juraildes da Cruz (violão náilon e vocal), Jairo Reis (violão aço), Bororó (baixo), Edilson Morais (percussão), Gidesmi Alves (violoncelo), Dani Bonfim e Emidio Queiroz (vocal)


8

ALIANÇA

Juraildes da Cruz/Genésio Tocantins

Por onde passo com a minha viola Morena consola acenando com a mão No meu ponteio vou tocando a sorte Não tem sul nem norte essa solidão A minha sede, calor da labuta Entregando a luta um sonho de paz Fiz com o tempo uma aliança Que não morra a esperança Que meu peito traz O vento açoita esse corpo moreno Banhado em sereno, lua de marfim Trazendo um cheiro de quem foi meu bem Será que ainda tem saudade de mim? Maior é o amor que o veneno O contraveneno é amar ainda mais Fiz com o tempo uma aliança Que não morra a esperança Que meu peito traz Quem não tem casa carregue um chapéu Cruzeiro do céu pra se orientar Boca fechada não entra mosquito Reze seu bendito antes de deitar Onde tem fumaça tem o fogo Cheguei nesse globo porque sou capaz

BR.ZUR.14.00008

Fiz com o tempo uma aliança Que não morra a esperança Que meu peito traz Quando menino lembro das igrejas Dos louvado seja, o sino a badalar A minha herança nessa comunhão Foi essa benção de poder cantar Minha viola é assim meu luzeiro No coração saudade dos Gerais Fiz com o tempo uma aliança Que não morra a esperança Que meu peito traz Fiz com o tempo uma aliança Viva sempre a confiança Que meu peito traz

Juraildes da Cruz (voz e violão náilon), João Pedro (voz), Jairo Reis (violão aço), Bororó (baixo), Edilson Morais (percussão), Gidesmi Alves (violoncelo)


9

DODÓI

Juraildes da Cruz

BR.ZUR.14.00009

[Minha flor... Minha flor do campo Minha flor cristalina Minha flor dos Gerais] Ei, flor, cadê o cheiro que você prometeu? Ei, flor, não venha dizer que se esqueceu Ei, flor, será que não se lembra mais d’eu? Ei, flor, daquele cravo de juntim seu Amor, nosso brinquedo no pé de juá Ei, flor, não se esconda e vê se vem me dar Amor, será que se esqueceu de mim? Não acredito no que vejo Pois sei que seu desejo Era me amar até o fim Amor, será que bicho foi que te mordeu? Ei, flor, será o que foi que se assucedeu? Amor, não lembra mais do seu dodói? Eu era o lírio dos teus olhos Nóis banhava no riacho Diacho, valha-me Deus! Ei, flor, cadê o cheiro que você prometeu? Ei, flor, não venha dizer que se esqueceu Ei, flor, será que não se lembra mais d’eu? Ei, flor, daquele cravo de juntim seu

Juraildes da Cruz (voz e violão náilon), João Pedro (voz), Jairo Reis (violão aço), Bororó (baixo), Edilson Morais (percussão), Emidio Queiroz (vocal)


10

MEMÓRIA DE CARREIRO Juraildes da Cruz

BR.ZUR.14.00010

Quando ouço na chapada o tinir da canga e do carretão Sinto por dentro umas pontadas, que dor no coração É que esse canto em eras passadas representava uma aliança Entre os cascos na poeira da estrada e mil sonhos de criança O canto da passarada com o carro duetava O azul do céu com a terra naquele instante se encontrava O orvalho da manhã era cristal na luz do dia Até parecia o amor ardente dos olhos de Maria Ê, tempo que foi, te guardo no coração Ê, carro de boi, sumiste no estradão Hoje eu tenho as mãos calejadas e um trabalho duro e cruel Só me restou uma sorte malvada, boi de canga do coronel Faço parte dessa manada na cidade tonta e perdida Me vem na garganta um nó de laçada e no peito uma saudade doída A cantoria da chapada hoje é buzina de metal O aboio da boca da noite hoje é sirene de hospital Orvalho só resta nos olhos, o sol já não faz meio-dia O que ainda me sustenta é a fé em Deus e paz na guia Ê, tempo que foi, te guardo no coração Ê, carro de boi, sumiste no estradão

Xangai (voz), Juraildes da Cruz (voz e violão náilon), Bororó (baixo), Edilson Morais (percussão), Marcus Biancardini (viola caipira), Gidesmi Alves (violoncelo), Emidio Queiroz (vocal)


11

NÓIS É JECA MAIS É JOIA Juraildes da Cruz

BR.ZUR.14.00011

Andam falando que nóis é caipira Que a nossa onda é montar a cavalo Que a nossa calça é amarrada com imbira Que a nossa valsa é briga de galo Andam falando que nóis é butina Mais nóis num gosta de tramoia Nóis gosta é das menina Nóis é jeca mais é joia Mais nóis num gosta de jiboia Nóis gosta é das menina Nóis é jeca mais é joia Se farinha fosse americana Mandioca importada Banquete de bacana era farinhada Andam falando que nóis é caipira Que nóis tem cara de milho de pipoca Que o nosso rock é dançar catira Que a nossa flauta é feita de taboca Nóis gosta é de pescar traíra Vê a bichinha chorando na vara Nóis num gosta de mentira Nóis tem vergonha na cara Vê a bichinha gemendo na vara Nóis num gosta de mentira Nóis tem vergonha na cara

Juraildes da Cruz (voz e violão náilon), Jairo Reis (violão aço), Bororó (baixo), Edilson Morais (percussão), Marcelo Voninho (sanfona), João Pedro (vocal)

Se farinha fosse americana Mandioca importada Banquete de bacana era farinhada Andam falando que nóis é caipora Que nóis tem que aprender inglês Que nóis tem que fazer sucesso fora Deixe de bestage Nóis nem sabe o português Nóis somo é caipira pop Nóis entra na chuva e nem moia Meu I love you Nóis é jeca mais é joia [Tiro bicho de pé com canivete Mais já tô na internet Nóis é jeca mais é joia]


12

BIODESAGRADÁVEL

Juraildes da Cruz/Edemerson/Marcione

Eu vou, eu vou atravessar o oceano Um dia desse me peguei pensativo E o motivo começou me preocupar Um amigo me disse que tem um livro Que fala das mil e uma maneiras de roubar Um jeito só já causa tanto prejuízo Imagine um milhão de gente com mil formas de furtar Me lembro minha mãe falando Um alfinete é roubo sem o dono autorizar Parece que esse tempo já passou E depois que globalizou a coisa fez foi piorar E a laranja que não tem nada com isso Virou ponte de desvio pro malandro escapar Meu pai dizia que o crime não compensa Parece que essa crença já perdeu o valor O cara rouba, vai preso, amanhã tá solto Se você fizer as contas, parece que compensou Vai preso hoje, amanhã já estão soltando Assim caminha a humanidade Com a impunidade, olha a merda compensando

BR.ZUR.14.00012

Tem o pi que não é soma Tem o pira que já pirou O pirata que é a toma A pirataria pirateou Quem é esse cara com a cara de pau? Esse cara com a cara de réu Esse cara cara de lalau Esse cara com a lábia de mel Patenteando a alegria do vizinho Olha a minguante em lua cheia Querendo ser feliz com a felicidade alheia Eu vou, eu vou que mandaram me chamar Vejam só o tamanho do desaforo Tão surrupiando em plena luz do dia Um jeito light de levar o nosso ouro E o nome desse furto é biopirataria Tão querendo patentear a mandioca Pelo jeito agora vão valorizar a farinha Tão levando o filhote e o pirarucu E o Brasil do babaçu babando e ficando à míngua É o cúmulo já dizia a mula Invasão internacional e o povão bebendo pinga


Tão patenteando até a pororoca E tão com uma lorota que é pra fazer usina Se quiserem patentear carrapicho Pra festa de halloween, esse até que eu endosso Só não aceito levarem minha mangaba A mutamba, o açaí e a cana que eu adoço Tão levando as plantas medicinais Fazem isso sem remorso Como contrapartida só o abacaxi que é nosso Tem o pi que não é soma... Eu vou, eu vou hoje sim, amanhã não Vejam só o tamanho da arataca Já patentearam a jararaca e a cascavel Se o cabra for ofendido de cobra Cair de queixo mole e bater o pacau Ainda tem que pagar um tal de royalty Porque o veneno é internacional É como se o atropelado tivesse Que doar sangue pra quem o atropelou Dessa vez argumentando que a pancada Já foi patenteada, levou pau, pagou Além de abotoar o paletó Vai ter que pagar pela paulada que levou

Às vezes eu fico me perguntando O que foi que aconteceu com os dirigentes da nação Parece que o carro desgovernou E o pobre do motorista desmaiou na direção Tá mais fácil agendar um piquenique Entre Israel e Palestina na beira do rio Jordão Tá mais fácil confiar em gasolina derramando pelo chão E um doido cheio de bomba com um detonador na mão

Juraildes da Cruz (voz e violão náilon), Jairo Reis (violão aço), Bororó (baixo), Edilson Morais (percussão), Fabiana Tavares e João Pedro (vocal)


13

PRIMAVERAS

Juraildes da Cruz

BR.ZUR.14.00013

O sol nasceu, já é hora de acordar De se levantar, de aprumar na vida Amanheceu, caminhão, e a missão Só termina quando é cumprida Ele pisou nesse chão pra vencer as barreiras O que fez foi ensinando, não fez de outra maneira Praticava esporte, gostava de capoeira Embrenhou nas florestas sabendo das clareiras Foi buscar um grande tesouro pra vida inteira Gostava de brincar, mas não era brincadeira Mostrando como se faz pra construir a paz Despertando a confiança na prática verdadeira Pôs a mão no barro, ensinou a ser amigo Trabalhar unidos erguendo essa bandeira Não tinha vaidades, não se exibia Sabendo onde dormem as andorinhas

Juraildes da Cruz (voz e violão náilon), Luiz Chaffin (cavaquinho), Jairo Reis (violão aço), Edilson Morais (percussão), Fabiana Tavares e João Pedro (vocal)

Pra construir essa riqueza Contou com a fortaleza de uma flor pequenina Todo ano tem primavera e pra cada uma delas Sua estrela é quem brilha

Cumpria seus compromissos, seu verbo era e é a lei Não tinha duas conversas, palavra de rei Sabia o que fazer, mas vivia como ser comum Mostrando que vencer é possível pra cada um Conhecedor dos segredos, de como nos defender Bem mais que José, só é só pra quem sabe ver Ensinando que quem direito anda direito tem Portanto boa prece é a prática do bem Trabalhava e ganhava o pão na olaria No coração reinando sabedoria Caboclo do sertão ser tão harmonia Onde a humildade é a ordem do dia

O sol nasceu, já é hora de acordar De se levantar, de aprumar na vida Amanheceu, caminhão, e a missão Só termina quando é cumprida

Pra construir essa riqueza Contou com a fortaleza de uma flor pequenina Todo ano tem primavera e pra cada uma delas Sua estrela é quem brilha


14

JALAPÃO

Juraildes da Cruz

BR.ZUR.14.00014

Areias de um sertão, berço de quem sonha O cerrado estende a mão, portal da Amazônia Pro mundo inteiro Areia não é colírio, coração não é pandeiro O luar com esse brilho é Catulo da Paixão De um sertão brasileiro Mudo o meu ponto de vista clareando a visão Faz tão bem pros olhos Que parecem estrelas entre os lírios do chão Achar um lugar bonito, basta ter bom gosto Mas tem uns que dão ao rosto um ar de redenção Areia cor de ouro num sonho desenhado Fertilizou as raízes do nobre Tocantins E o que era confins hoje é capim dourado Maravilha admirável, jalapa cor da paz Imagine o imaginável, tudo isso e muito mais O Jalapão, o Jalapão Multiplique se puder, use a imaginação Dobre o belo da beleza, acalme a respiração O artesão desse lugar que é mais que um paraíso Criador da alegria no mesmo dia Deu alma ao sorriso e aumentou a inspiração

Juraildes da Cruz (voz e violão náilon), Luiz Chaffin (violão 12 cordas), Jairo Reis (violão aço), Gidesmi Alves (violoncelo), Fabiana Tavares (vocal)


Aurora Régia  
Aurora Régia  

Encarte do CD Aurora Régia, de Juraildes da Cruz, produzido pela Siglaviva.

Advertisement