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NILTON BUENO FISCHER – UM MESTRE DA EDUCAÇÃO POPULAR (texto de Rosa Maria Bueno Fischer, março/2012) NILTON BUENO FISCHER nasceu em Dom Pedrito, RS, aos 26 de fevereiro de 1947, e faleceu em Porto Alegre, aos 26 de julho de 2009, com apenas 62 anos. Graduado em Ciências Econômicas, pela UNISINOS, desde suas primeiras atividades profissionais definiu-se pela Educação, seguindo os passos de seus pais Eugênio Ricardo Fischer e Cidia Bueno Fischer, professores da rede pública estadual. Doutor em Educação nos Estados Unidos, pela Stanford University (com tese de doutorado sobre educação em periferias urbanas) e com pós-doutorado na University of Illinois, também nos Estados Unidos, Nilton Bueno Fischer desde os anos 70 passou a dedicar-se inteiramente à educação, nos mais diferentes níveis e instâncias. Foi diretor do Colégio Pio XII em Novo Hamburgo, quando tinha apenas 25 anos, registrando, já ali, o que seria sua marca inconfundível na vida profissional e pessoal: o amor e a dedicação irrestritos a tudo o que tivesse relação com a educação popular, a educação comunitária, a educação efetivamente “para todos”. Uma das primeiras iniciativas do professor Nilton nessa escola da rede privada foi exatamente conseguir a aprovação de compra de vagas para alunos carentes, junto ao Governo do Estado – uma conquista inovadora no início dos anos 70. Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) durante 27 anos (desde 1982), Nilton Bueno Fischer exerceu também o cargo de Secretário de Educação do município de Porto Alegre, em 1993, no governo de Tarso Genro. Na UFRGS, coordenou em duas gestões o Programa de Pós-Graduação em Educação, tendo permanecido por várias gestões como vice-coordenador, tal era seu envolvimento com a Faculdade de Educação, em especial o Programa de Pós-Graduação. Foi eleito, em 1995, Presidente do Fórum de Coordenadores de Programas de Pós-Graduação dessa Universidade. Como pesquisador, desenvolveu estudos sobre movimentos sociais, articulando sua grande preocupação com a educação popular a questões fundamentais da sociedade contemporânea, tendo como foco escolas da rede pública, atividades culturais com e para jovens de periferia urbana ou a vida de mulheres simples e pobres, diante dos 1


impasses da educação ambiental. Suas pesquisas mais recentes tratavam justamente das mulheres recicladoras de lixo em Porto Alegre; nesse sentido, sua atenção voltava-se para um trabalho contínuo junto à Associação de Reciclagem Ecológica Rubem Berta, buscando promover, por meio das pesquisas e contato permanente com os recicladores, o fortalecimento sócio-econômico dessa atividade, tão crucial nos meios urbanos. Talvez se possa dizer que esse trabalho junto aos recicladores de lixo sintetize toda a força do pensamento desse educador popular: a dedicação a um setor da sociedade que ainda fica à margem, e a aposta no seu fortalecimento individual e coletivo, por meio de ações centradas na ética, na possibilidade de uma profissionalização digna, nos laços de cooperação e ao mesmo tempo no aumento da capacidade produtiva desses grupos menos privilegiados. Importante lembrar que Nilton iniciou seu trabalho com pessoas que viviam do lixo nas ilhas do Guaíba, já nos anos 80; foi por sugestão dele que o cineasta Jorge Furtado realizou o premiado curta-metragem “Ilha das Flores”. O trabalho com e pelos mais pobres não se restringia a suas pesquisas na UFRGS, com a respectiva orientação de dezenas de dissertações e teses. Nilton Bueno Fischer atuou também como membro de diferentes Organizações Não-Governamentais, como a Associação Peito Aberto, uma ONG voltada a crianças com doenças pulmonares, em Porto Alegre. Participou ativamente da Ação Educativa, associação sem fins lucrativos voltada para os grandes temas da cultura, juventude e educação, particularmente da educação de jovens e adultos e de periferia urbana. Sua dedicação sem trégua às causas da educação fez com que fosse convidado para participar como consultor em várias entidades e agências de fomento, em nível nacional, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a Fundação Carlos Chagas (FCC), a Fundação Ford, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped) – da qual foi também vice-presidente e secretário geral. Na Anped, Nilton foi um dos participantes mais ativos do Grupo de Trabalho (GT) de Educação Popular, incentivando e fazendo circular estudos e pesquisas sobre movimentos sociais e novas formas do saber pedagógico para os grupos marginalizados da sociedade.

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Nilton Bueno Fischer associou seu interesse pelas camadas populares aos grandes debates acadêmicos, lutando para que a universidade se tornasse menos burocrática, de modo que as pesquisas científicas pudessem, efetivamente, chegar à população, especialmente aos menos favorecidos. Também lutou para que os poderes públicos, municipal, estadual e federal, ficassem mais atentos à melhoria das oportunidades educacionais, especialmente de jovens e de grupos marginalizados. Nilton Bueno Fischer deixou publicados inúmeros capítulos de livros e artigos em revistas especializadas, sobre o tema de suas pesquisas, em especial sobre os direitos na educação, trabalho e autonomia de trabalhadores, educação ambiental e compromisso com a educação popular, movimentos sociais e Educação de Jovens e Adultos, mulheres e cidadania. Em reconhecimento a seu trabalho de investigador, recebeu em 2007 o prêmio de Pesquisador Destaque, da FAPERGS – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul. O mestre da educação popular acreditava que era preciso reinventar o presente. Que era preciso articular os processos educativos escolares e não escolares. Que era preciso ampliar as ações das esferas públicas, a partir de uma compreensão de uma pedagogia social e urbana que fosse interdisciplinar, aberta aos novos movimentos sociais, às ações organizações não-governamentais sérias e às múltiplas iniciativas da sociedade civil. O mestre da educação popular, Nilton Bueno Fischer, era em suma um inquieto e esperançoso cidadão, atento a cada mínimo detalhe de tudo o que tivesse a ver com a possibilidade de fazer de cada um – especialmente daqueles menos favorecidos – um ser humano digno, atuante, respeitado, provocador de transformações na vida privada e especialmente na vida pública. Escola e vida, universidade e comunidade, público e privado para ele caminhavam juntos, e só faziam sentido na medida em que estivessem voltados para uma educação efetivamente libertadora, como queria um de seus maiores inspiradores, Paulo Freire.

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Biografia  

biografia Nilton Fischer

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