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INFORMÁTICA

MATÉRIA DE CAPA Fotos de crimes levam constrangimento à estreia do Google Street View no Brasil, mas serviço agrada a turistas virtuais. Reações das pessoas retratadas diferem e há quem adore virar celebridade

NA CENA, POR ACASO…

O universitário Lucas Durães foi surpreendido quando estava com amigos e um professor numa lanchonete na Savassi

FOTOS: GOOGLE STREET VIEW/REPRODUÇÃO DA INTERNET-5/10/10

Foi uma infelicidade enorme, mas uma das coisas que aquilo demonstrou, apesar de ser experiência forte desagradável, foi o desejo e agilidade do Google em retirar do ar esse tipo de coisa ■ Marcelo Quintella, responsável pelo Google Street View no Brasil

O blog www.googlestreetview.com.br se dedica a coletar imagens curiosas captadas pelas câmeras do Street View. Batidas policiais, acidentes e até o flagrante do carro da pitoresca desentupidora Rola Bosta mereceram destaque.

"Mesmo se estivesse em uma situação constrangedora, não é culpa do Google. Não posso responsabilizá-lo pelos meus atos. Estou na rua". Em defesa do Street View, ele enumera as vantagens da ferramenta: "Dá para mostrar aos amigos seu local de trabalho, sua casa e outros pontos de referência que só com o mapa não é possível", diz. Quem também destaca essa qualidade do site é o empresário Tiago Cussiol. "No mapa, as pessoas têm dificuldade de entender o caminho", explica. Ele foi outro belo-horizontino flagrado pelo Street View e gostou tanto que espalhou o link da imagem no Twitter. Teve mineiro até que foi flagrado longe de casa, no estado fluminense, durante as férias no início do ano. Romulo Avelar, gestor cultural, saía com um amigo da estação de metrô de Ipanema, no Rio de Janeiro, quando viu o carro passando. As fotos mostram seu olhar seguindo o veículo nada discreto. "Olha o carro do Google Street View!", sugere ele, como legenda da foto. Segundo o gestor, a imagem não o perturbou em nada, mesmo porque esfumaçaram o seu rosto para evitar a identificação.

SEM CHANCE DE PROTEÇÃO Já Lucas Durães, estudante de arquitetura que também foi clicado pelo veículo, pon-

dera a atuação da companhia. "Não cheguei a me incomodar com a foto, porque foi tirada numa situação cotidiana. Mas é um pouco de falta de privacidade. Tem a questão do uso de imagem e, neste caso, não pedem autorização para ninguém. Além disso, não vi nenhuma identificação do Google no veículo, para dar oportunidade de quem não quer aparecer na rede de se proteger", ressalva. O universitário foi surpreendido pela passagem do carro quando estava com amigos e um professor numa lanchonete. Na época, estava no 3º período, hoje já cursa o 6º. Apesar da inconveniência, o estudante considera os benefícios que o site pode trazer, principalmente, para um curso de arquitetura. "Tinha uma professora que dava aulas de urbanismo. Ela falava do Street View em outros países e dizia que isso ainda iria mudar o mundo, que era um passo importante. Uma visão meio apocalíptica... O site iria me ajudar muito com a matéria dela", conta Lucas. Houve também quem foi "clicado" e ainda não ficou sabendo. Juliana Baeta, estudante de jornalismo, revela que achou a foto de sua mãe e uma amiga pelo Google Maps. Mas, como elas não acessam muito a web, preferiu não comentar a novidade.

COMO FUNCIONA >> Tudo começa com a coleta das imagens, com a câmera 360 graus instalada no topo dos carros. No interior dos veículos, um computador armazena o material.

Seria interessante se, em vez de simplesmente retirar do ar o conteúdo, o Google abrisse a discussão sobre isso; a ferramenta tem esse potencial

>> Já no ar, o sistema é atrelado ao Google Maps. Para usar, basta arrastar esse bonequinho amarelo, o Pegman, para o trecho do mapa que deseja visualizar.

>> O Street View exibe um panorama da rua, navegável a partir das setas em círculo à esquerda. Para avançar, pode-se clicar nas setas do trajeto ou dar duplo clique em qualquer área da tela.

>> As fotos são tratadas nos EUA. Os rostos e placas de carros são borrados e um sistema processa o conteúdo, para a navegação em três dimensões.

MARCOS VIEIRA/EM/D. A PRESS

MARCOS VIEIRA/EM/D. A PRESS

■ Carlos Falci, professor da Escola de Belas Artes da UFMG

Bruno Galli se lembra de ter achado “estranho”passar um “carro espacial” pela rua

PRIVACIDADE EM JOGO

SUGERE AÍ!

SHOW DE HORRORES

Se um carro com uma parafernália de câmeras passou por você no último ano, acredite: seus 15 minutos de fama estão próximos. Depois do lançamento de algumas capitais brasileiras (dentre elas a mineira) no Google Street View, as descobertas de suas próprias imagens, no site, pelos belorizontinos estão "pipocando" e há quem adore esta novidade. É o caso do veterinário Bruno Galli, que define a ferramenta como fantástica e se entusiasmou ao se achar no site: "Saí e virei fã do Google", brinca. Um amigo de Bruno, que atualmente mora no Rio de Janeiro, postou numa rede social fotos da antiga casa dele em Minas. Todas tiradas pelo Street View. Depois disso, Galli se lembrou que o carro da empresa também havia passado por ele. O veterinário resolveu então se procurar pelo mapa e levou um susto quando realmente achou a imagem. "Há um tempo, num domingo de manhã, um Doblô vermelho, parecendo um ‘carro espacial’, passou na rua a uma velocidade muito baixa, a uns 40km/h. Eu estava sozinho na rua sentado na calçada. Ainda me lembro de me questionar: o que o Google está fazendo aqui?", recorda. Bruno não se incomodou em aparecer na web e, se questionado sobre a polêmica da privacidade, afirma:

BETO MAGALHÃES/EM/D. A PRESS

CONCURSO Por falar no boneco, o Google lançou o concurso Encontre o Pegman. O personagem ficará escondido por um dia nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, dando pistas de seu paradeiro no twitter (@googlebrasil) e no blog oficial do Google (googleblog.blogspot.com). Quem encontrá-lo deve mandar o link do Google Maps para um endereço que estará no site (www.exploreostreetview.com.br) e passará a concorrer a 20 smartphones com sistema operacional Android.

Para tornar a ferramenta mais interativa, o Google aceitará sugestões dos internautas sobre os locais que gostariam de ver mapeados pelo triciclo. Sugestões podem ser enviadas no site www.exploreostreetview.com.br. Os lugares mais votados serão listados e terão prioridade na captação das imagens.

SORRIA, VOCÊ ESTÁ

NO STREET VIEW!

MARIA TEREZA CORREIA/EM/D. A PRESS

FREDERICO BOTTREL

A despeito de um ou outro deslize ocasional de flagrantes constrangedores, não há como negar que o Google Street View é ferramenta impressionante e divertida. Apertando setinhas que indicam os caminhos, é possível fazer verdadeiras viagens virtuais, o que transforma o serviço em aliado incomparável para planejar viagens ou mesmo incursões a bairros cujos trajetos não se domina. As imagens que compõem a base de dados do Street View foram capturadas durante ronda de carros do Google munidos de uma espécie de antena, no topo da qual estava instalada uma câmera de 360 graus. Por onde o carro passou, em julho de 2009, capturou o que rolava na hora. (A partir de agora, vai circular também o GOOGLE TRIKE, triciclo adaptado com o mesmo equipamento. Como é mais leve e sem motor, pode ir a parques, praças, orla e estádiosdefutebol,completandooserviço.) Cento e cinquenta mil quilômetros depois, imagens tratadas e processadas, entraram no ar, há uma semana, os mapas interativos de mais de 51 municípios brasileiros – as capitais Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo e as cidades históricas mineiras, como Congonhas, Mariana e Tiradentes, são os destaques. Imagens como as da cena de crime no Barreiro, ou o rapaz VOMITANDO NA SAVASSI, devem sair do ar tão logo a empresa receba a denúncia, isso de acordo com o próprio Google. O corpo estirado na via pública, no Rio de Janeiro, flagrado pelo Street View foi a primeira grande polêmica. “Foi uma infelicidade enorme, mas uma das coisas que aquilo demonstrou, apesar de ser experiência forte desagradável, foi o desejo e agilidade do Google em retirar do ar esse tipo de coisa”, defende Marcelo Quintella, responsável pelo Street View no Brasil. A medida, na opinião do professor Carlos Falci, da Escola de Belas Artes da UFMG, não é ideal. “O Google apaga a imagem e é como se eximisse da responsabilidade. Na verdade o Street View é um desses mecanismos que produzem memória, produzem história, e apagar essa memória não anula o que fizeram, uma vez que muitas pessoas já viram os conteúdos antes da remoção”, acredita o pesquisador de cultura, narrativas e meios digitais. Para ele, uma das questões que a ferramenta incita é a discussão do espaço público e do que chamamos de direito à privacidade. As mazelas brasileiras mostradas no serviço também merecem atenção: se o país não é só corpo morto estirado no chão e cena de investigação policial, não há como negar que também há isso nas ruas brasileiras. “Seria interessante se, em vez de simplesmente retirar do ar o conteúdo, o Google abrisse um fórum de discussão sobre tudo isso; a ferramenta também tem esse potencial.” De qualquer maneira, o serviço agrega recurso interessantíssimo ao Google Maps. Fácil de usar, o Street View ganha pontos na simplicidade: a partir de uma pesquisa comum no serviço de mapas, basta arrastar o bonequinho amarelo conhecido como Pegman, ícone do serviço, e posicioná-lo no trecho que deseja visualizar, a partir do ponto de vista da rua. O serviço abre o mapa tridimensional na mesma tela e, para navegar, basta seguir as setas.

JUAREZ RODRIGUES/EM/D. A PRESS

Cena do jovem se aliviando na Savassi e do corpo no chão no Barreiro poderão sair do ar, mas, para isso, é preciso que a Google receba denúncia de usuários

HISTÓRIA PARA CONTAR Até a semana passada, quem planejava uma viagem a Ouro Preto pelo Google Maps poderia esbarrar em imprevistos chatíssimos, na forma das ladeiras que marcam os tortuosos caminhos da cidade histórica e que surgiam sem avisar no meio do passeio. Vistos de cima, os trajetos não denunciavam o relevo

– elemento que, ali mais que em qualquer outro lugar, não pode ser ignorado. O Street View, que já trouxe no lançamento um conjunto de cidades históricas mineiras, resolve isso brilhantemente. Na viagem virtual que o serviço propõe, é possível fazer os trajetos entre os principais pontos turísticos

da cidade, como de praxe no Google Maps. A novidade é poder mergulhar no espaço e visualizar as atrações em detalhes – muitas delas, como a Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, têm bancos de imagens adicionais, com fotos em 3D e em alta definição, que trazem detalhes sobre obras que ornamen-

tam as fachadas, por exemplo. O material é fantástico para quem gosta de se planejar bem antes de uma viagem. Só não foram mapeadas as vielas por onde os carros não conseguiam transitar. Agora quando encarar as subidas e descidas, o turista já pode ir preparado, sem surpresas no caminho.

Romulo Avelar, gestor cultural, saía com um amigo da estação de metrô de Ipanema, no Rio de Janeiro, quando foi flagrado

Placas de carros e rostos borrados e retirada do conteúdo do ar após a reclamação do usuário não eximem o Google da responsabilidade, caso a exposição no Street View fira a privacidade de alguém. Essa é a opinião dos especialistas com os quais o Informátic@ conversou sobre o assunto. “Tratar as fotos para embaçar os rostos poderia resolver talvez só a questão da imagem do fotografado. O problema pode ser maior do que isso”, diz Alexandre Atheniense, advogado especializado em direito tecnológico. Para o professor da Faculdade de Direito da UFMG Brunello Souza Stancioli, a questão começa no trabalho de captura das fotos: “As pessoas não são informadas de que suas imagens estão sendo captadas naquele

momento. Já começa pelo não consentimento”. O professor lembra o barulho causado nos EUA e Europa e aguarda, curioso, a repercussão no Brasill, embora seja um fã confesso do Google. “A privacidade não tem só a ver com o lugar em que a pessoa está, se é um lugar privado ou público. Porque posso estar em um local público, como as ruas, e querer ter controle sobre as minhas informações – aonde vou, por exemplo”, diz Stancioli. Atheniense completa: “Uma foto da casa da pessoa ou de alguém em um ambiente que seja inerente aos hábitos privados dela pode revelar questões de esfera íntima, por mais que esteja vulnerável a ser descortinada no espaço público”.

A questão é a transposição para a internet. “Quando você congela esse mundo real e coloca no virtual, dá acesso, em potencial, a toda a humanidade. E é possível congelar situações que hiperexponham as pessoas. Para uma rede de conhecidos, mesmo com rosto embaçado, é fácil reconhecer, por exemplo, um amigo saindo do motel.” Além disso, depois de publicado, o estrago está feito. Retirar o conteúdo do ar, horas depois, não livra a barra do Google, de acordo com os especialistas. O conselho de Stancioli, antes de o usuário reportar a denúncia, é fazer um print-screen da imagem, para se resguardar juridicamente, caso haja necessidade de processar a empresa. (Colaborou Shirley Pacelli)

Sorria, você está no Street View.  

"Se um carro com uma parafernália de câmeras passou por você no último ano, acredite: seus 15 minutos de fama estão próximos. Depois do lanç...

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