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TURISMO SHIRLEY PACELLI/ESP. EM/D. A PRESS

A RUA É ARTE

Movimento ganhou a cena urbana no começo da década de 1970, em Nova York, e se espalhou pelo mundo. Inicialmente tratado como marginal, grafite de alguns virou obra popular

FOTOS: MARLYANA TAVARES/EM/D.A.PRESS

MARLYANA TAVARES De São Paulo

A moça de maria-chiquinha e vestido verde oferece uma flor. Sobre sua cabeça, um trecho de Guimarães Rosa: “Felicidade se acha em horinhas de descuido”. A gueixa moderna olha quem passa com ar de desinteresse. Repete a expressão, agora em companhia da menina com traços de mangá que dorme vigiada pelo gato preto sob um viaduto da Avenida Sumaré. Quem serão estas personagens? O passante que se presta a perceber através do caos urbano encontrará outras figuras, cenários, situações e abstrações que se sobrepõem à azáfama do trânsito para se tornarem, elas mesmas, integrantes do cotidiano. Sobrepostos em muros, sob viadutos, no chão e em equipamentos urbanos, os grafites de São Paulo amenizam a crueza do asfalto, embelezam o cinza e transmitem mensagens. Os desenhos gritam: “Ei, estamos aqui. Entre prédios, carros e a desumanidade da metrópole há sentimentos, expectativas, desejos, ilusões e a crença em algo além”.

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e para Rosa ela está em “horinhas de descuido”, para John Howard, “a felicidade é um muro branco”. Ele é um conhecido grafiteiro que começou a se expressar pelas ruas em 1975. Lá se vão uns bons anos e hoje, ainda que menos reconhecida no Brasil do que em outros países, a arte das ruas ganha virulência em vários bairros da maior capital do país. Na boemia Vila Madalena, descendo pela Rua Cardeal Arcoverde, o grafite aparece em viadutos, escadarias, muros e caixas de energia. No Beco do Batman (olha só a metáfora), com entrada pela Rua Harmonia, encontramos, numa gelada manhã de sábado, o tatuador Wagner Roza, de 25 anos, o motoboy Dhaner Reale, de 29, e a assistente administrativa Verônica Leão, de 25. Foi uma tremenda sorte topar com os três em plena atividade: eles limpavam um dos muros para renovar o grafite de sua autoria. Sim, porque pelo código de ética, grafiteiro que é grafiteiro só renova o próprio muro. “Está vendo aquele grafite ali no portão? Foi feito por Nigas, um grafiteiro que já morreu. “Mesmo que ele não esteja mais aqui, tem o respeito das ruas: ninguém vai lá pichar em cima”, garante Dhaner. Dhaner, ou DRXIII, como se identifica em seus desenhos, prefere usar as tintas para louvar a natureza, com seus pássaros imaginários. Seu amigo Wagner, que assina o sugestivo nome de Legalize, se expressa em seus desenhos contra o poder, valendo-se de coroas e temas indígenas: “A coroa é o poder e o índio é o que o poder matou”, explica. Verônica, a Verishas, mulher de Dhaner, adora bonequinhas, flores e borboletas. O cozinheiro Miguel Bushatsky, de passagem por ali, aprova este tipo de expressão. “Passava antes no beco e achava triste ver as paredes sem cor. O grafite não só

Exposição “Graffiti sem limite”, no Palácio das Artes tem obras como esta, de Estandelau, artista de 27 anos. Espaço antes em branco, ganhou contornos, cores e sentidos com os grafites

Passeio pela Vila Madalena virou roteiro turístico também devido à fama de seus grafites. Em seus becos, artistas variados transformaram o local em uma galeria a céu aberto

harmoniza, mas transmite uma mensagem”, diz. No Beco do Batman, podem-se ver as obras de Speto, Ninguém Dorme, Chivtz, Boleta, Presto, Zezão, entre outros. Perto dali, o Beco do Aprendiz, com entrada pela Rua Belmiro Braga, é uma profusão de desenhos, cada um mais instigante do que o outro. Entre os autores, estão John Howard e Titi Freak. Mais adiante, na Avenida Henrique Shaumann, um dos mais expressivos trabalhos é o do Studio Kobra, com suas imagens tridimensionais que se fundem com a cena urbana. Um imenso painel em preto e branco, retratando uma rua comercial nos anos 1920 se mistura ao tráfego caótico da maior cidade brasileira. Os carros parecem atropelar os senhores de chapéu coco e as senhoras de luva de filó que passeiam entre as lojas. De mesma autoria, o pedestre se confunde com os passageiros do velho bonde gravado em um muro da Rua Belmiro Braga. Além da Vila Madalena, o Cambuci é parada obrigatória para observar a obra da dupla Os Gêmeos (Gustavo e Otávio Pandolfo) e de Francisco Rodrigues, mais conhecido como Nunca. Os três viveram ali e integraram a mostra “Street Art”, em agosto de 2008, que estampou a fachada da prestigiada Tate Modern, às margens do Tâmisa, em Londres. As principais ruas do circuito são Lavapés e Justo Azambuja O túnel da Paulista, que leva à Avenida Rebouças é outro ponto coberto por painéis coletivos. Também no Liberdade, bairro oriental, as ruas Galvão e da Glória ostentam curiosos trabalhos. No Viaduto do Minhocão, às margens do Tietê, ruas do Consolação. A lista é grande e inspira a criação de roteiros turísticos para quem deseja apreciar esta arte vanguardista. Entre as agências que fazem estes tours estão a Graffit Viagens e Turismo, a Soul Sampa e o SP Bureau.

Para comemorar o aniversário de São Paulo, Eduardo Kobra, um dos renomados grafiteiros da capital, entrega hoje mais um dos seus trabalhos. Ele e uma equipe de oito pessoas, fizeram um painel num prédio, na Avenida Tiradentes, Bairro Bom Retiro. O trabalho segue a mesma linha do seu projeto “Muros da Memória” (ver foto da capa), que tem vinte murais espalhados pela cidade, retratando-a como nos anos 1920. O maior de seus painéis, fica na Avenida 23 de Maio e tem mil metros. A obra também foi um presente de aniversário para a cidade, há dois anos. O artista, que pinta desde 1987, já teve suas telas expostas no Museu do Louvre, em Paris, um dos mais famosos do mundo. No Brasil, além de São Paulo, os murais de Eduardo Kobra podem ser conferidos no Pará e no Rio Grande do Sul. Apesar de seu estúdio estar localizado na cidade mineira de Extrema, na divisa com São Paulo, ele ainda não tem trabalhos nas Gerais, mas já expôs sua vontade de

grafitar em Belo Horizonte. Kobra ficou conhecido também pela arte única, no país, de grafites em 3D. Ele desenvolve um trabalho que permite que o público interaja com a obra. Utilizando luz, sombra e brilhos seu traços enganam os olhos do público. Dependendo do ângulo em que se observa o grafite, se tem uma perspectiva de profundidade. As pessoas se divertem se integrando ao grafite, simulando ações e se fotografando junto às obras . “O meu trabalho é sempre com base em imagem retrô. Somente o 3D que é mais lúdico”, detalha o artista. Eduardo Kobra, acha válida a exposição de grafiteiros em galerias de arte. “A essência está em ele continuar a pintar na rua. Não tem como vender o muro, você precisa da tela. A diferença das ruas, é que desde garis até intelectuais podem ver as obras. É uma galeria de arte a céu aberto”, ressalta o artista. Representante legítimo da arte urbana paulista da Vila Madalena, Speto, ou Paulo César Silva, defende a grafia em in-

Citação de Guimarães Rosa ganha cor nos muros de São Paulo

Difícil é achar um viaduto sem intervenções glês da palavra: “graffiti”. Mas como existe a versão aportuguesada, cá estamos a escrevê-la em sua forma abrasileirada. Para ele “os grafites já se fizeram presente nos cartões-postais da cidade”. O artista, que atua na área há 25 anos, acredita que arte urbana no Brasil é muito diferente do resto do mundo. Ele, que chegou a ser influenciado pelo grafite americano, se apaixonou pela arte folclórica e criou uma identidade com o cordel. Seus murais são marcados pelas cores preta e branca e por traços cheios, além de retratar personagens como sereias e peixes. Speto faz uma espécie de diálogo com a xilografia dos cordéis, mas com tom próprio, como ele mesmo explica: “Tento não me apropriar dessa expressão cultural”. Morador da Vila Madalena, não é raro Speto se deparar com turistas falando do seu trabalho no Beco do Batman. “Gosto de ficar de longe observando o que as pessoas falam do meu mural ”, revela. O beco, para ele, é cenográfico, atraindo inclusive a publicidade. “Tem equipes que vêm gravar comercial sem falar com o artista. É um trabalho autoral”, reivindica. Como sugestão de pontos de grafites imperdíveis em São Paulo, o artista cita os painéis de Os Gêmeos na Avenida 23 de Maio, o trabalho de Herbert no Centro Histórico de São Paulo, os murais de Titi Freak no Bairro Liberdade e claro, a Vila Madalena. “Grafite é uma expressão artística de grande expressão no mundo. Não em sua estética, mas na forma de agir. É popular, é um privilégio poder fazer parte desta arte”, finaliza Speto. (Com Shirley Pacelli)

“O Centro de toda cidade fala quem são os grandes artistas”. Se tomarmos como verdade a frase de Dalata, o André Gonzaga, não faltam talentos do grafite em Belo Horizonte. Ele próprio é um dos exemplos de destaque da arte de rua mineira. No Centro da capital, a criatividade exposta nos muros atrai olhos dos que passam, dos que param e dos que também intervêm. Rua da Bahia, Guaicurus, avenidas Assis Chateaubriand, dos Andradas, do Contorno. Existe também a BH dos grafites. Dalata acredita que Belo Horizonte tem um potencial para roteiros de arte de rua. Segundo ele, o grafite de BH surgiu simultaneamente ao de São Paulo, mas pela capital paulista ser um mercado maior ela se sobrepôs aos mineiros em número de profissionais reconhecidos e murais nas ruas. O grafiteiro reclama que profissionais que têm talento só são reconhecidos fora de Minas. É possível encontrar gigantescos painéis dele em Roterdam, na Holanda. Atualmente, Dalata é artista residente em uma galeria na Vila Madalena (SP) e brinca que também faz parte do “hall da fama”, no Beco do Batman, no mesmo local. “As pinturas duram pouco tempo às vezes, porque gera uma briguinha para apropriar-se do espaço, mas eu fiz um trabalho lá em 2006 e outro dia vi na TV o meu painel. Ri muito”, relata. Brincar de descobrir o trabalho do Dalata nos muros da cidade mineira, pode render um tour legal. O grafiteiro, que diz se inspirar na natureza, tem como marca retratar figuras de LUCAS PRATES/ESP.EM/D.A PRESS

Encontro: os grafiteiros Dalata e Hyper são referência da arte de rua em Belo Horizonte

Serviço Esposição “Graffiti sem limite” De 16 a 27 de janeiro. Para intervenções, somente até amanhã, dia 26. Terça a sábado, das 9h às 18h. Domingo das 16h às 21h. Palácio das Artes. Av. Afonso Pena, 1.537- Centro BH/MG Entrada franca

animais, como peixes, gatos e cachorros, que se fundem e se confundem, gerando um resultado final psicodélico. Outro artista de Belo Horizonte que também é referência do grafite brasileiro é Hyper, ou Carlos Felipe Gonçalves. Desde 1997, se aventura nos caminhos da arte urbana. Ele e um grupo de 13 amigos recentemente grafitaram um prédio, de 40 metros de comprimento por 5m de altura, próximo à parte de baixo do Viaduto Santa Tereza, na Região Central de Belo Horizonte. Mandalas, vasos, budas e outros temas relacionados à física, à ciência e à espiritualidade fazem parte dos seus trabalhos e estão distribuídos em diversos pontos da capital. Hyper vai até mesmo estrelar a campanha de uma marca de cuecas para grafiteiros, com estampas de sua autoria. Ele é constantemente convidado para trabalhos dos mais diversos tipos, como pintar modelos para comerciais. O grafiteiro reconhece a importância de exposições para valorizar a arte de rua diante do público. Mas sobre a polêmica de a arte perder a sua essência ao ser exposto em uma galeria, ele é enfático: “O grafite nunca entrou numa galeria. Grafite é a atitude da intervenção na rua sem ninguém autorizar”.

SEM LIMITE A cidade, que já teve uma Bienal Internacional do Grafite em 2008 abriu oportunidade para os grafiteiros gastarem seus sprays e sua imaginação no Palácio das Artes. A exposição “Graffiti sem limite”, na galeria Maristella SHIRLEY PACELLI/ESP. EM/D. A PRESS

Stickers (adesivos) estão na exposição do Palácio das Artes, como o ‘Dilma Hendrix’, de Felipe Godoy

Tristão começou no dia 16 e vai até quinta-feira, dia 27. O evento, que faz parte da programação do Festival Verão Arte Contemporânea, funciona como uma galeria aberta para quem quiser deixar sua marca no local. O espaço, segundo a organização, é democrático como a rua. Desde a abertura, intervenções das mais diversas apareceram: sorvete, gorila, homem de duas cabeças, dragões, vacas, bonecas fofinhas e até um sticker da “Dilma Hendrix” (a presidente e o roqueiro). Este último, foi uma invenção do estudante de artes Felipe Godoy, que saiu de Sete Lagoas e veio a Belo Horizonte só para expor seu trabalho. “É como diz o nome do evento, sem limites”, brinca. Já o arte-educador Tiago Santos, o Dequete, reuniu cinco amigos e decidiram fazer um grande painel com a temática da tragédia da Região Serrana do Rio de Janeiro. Logo no dia

de abertura, eles marcaram presença. Para a sua parte no painel, Tiago se inspirou na senhora que foi resgatada das águas por uma corda com ajuda dos vizinhos, em São José do Vale do Rio Preto. Mas em vez da mulher, observa-se a imagem de uma espécie de homem, que, segundo ele, na verdade é um gato, seu personagem registrado nos muros de Belo Horizonte. “Eu conto toda a história da minha vida por meio deste personagem, o Dequete. Quando me casei, eu o grafitei em um canto da cidade e minha esposa em outro. Meus amigos sabem o que está acontecendo comigo por meio dos muros da cidade”, acredita. Em um dos trabalhos na exposição lê-se: “A ética do nosso trabalho é a repulsa da cidade”. Em São Paulo o grafite atrai visitantes. Em Belo Horizonte não precisa ser diferente. (Com Shirley Pacelli)

A felicidade é um muro branco  

“'OCentro de toda cidade fala quem são os grandes artistas'. Se tomarmos como verdade a frase de Dalata,oAndré Gonzaga, não faltam talentos...

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