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Saga DSA - Livro 1

Doce Sonho Alado

Sheila Lima Wing


Copyright © 2013. Sheila Lima Wing. Todos os direitos reservados. A capa, revisão e diagramação foram feitas pela autora. Obra registrada no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional. É proibida a distribuição ou cópia do material contido nesta obra sem o consentimento da autora, de acordo com a Lei nº 9.610/98. Esta história é uma obra ficcional, todos os personagens, lugares e eventos não possuem qualquer relação com elementos reais. Qualquer semelhança é fruto da mais pura coincidência. Rio de Janeiro, RJ – Brasil 1ª Edição 2014


Para minha m達e Cida, para minha irm達 Denise e para todos os leitores do www.docesonhoalado.com


“Nada é tão nosso quanto os nossos sonhos”. (Friedrich Nietzsche)


Prólogo:

22 de Março de 2001 Pode haver no mundo algo mais belo e mais inconstante do que um sonho alado? Mesmo com a mais leve inquietação, é provável que ele fuja para além do alcance das mãos humanas, tornando sua procura algo além das possibilidades de qualquer mortal que habite este planeta. Frente a sua fuga, cada pessoa costuma reagir de forma diversa: o romântico põe-se a admirá-lo de longe, o realista prefere ignorá-lo e o pessimista tenta destruí-lo — correndo o risco de afetar também os sonhos alheios que estejam mais próximos. Se você possui um sonho alado, aceite este conselho amigo: jamais aja como nenhum dos que acabei de citar. Busque em seu interior seu potencial para a luta, siga em frente, ainda que para tanto seja necessário construir seu próprio caminho. Guarde no fundo de seu coração a ideia de que seu sonho só se tornará impossível no momento em que você desistir. E, acima de tudo, zele pela vida de seu sonho, não permita que ele seja destruído por outrem. Se a destruição do mesmo for inevitável, guarde os pedaços consigo, quem sabe não é possível encontrar a cola certa para emendá-lo? Sonhos não se destroem por completo, de certa forma cada um estará eternamente unido ao seu dono, só é preciso que a pessoa tenha a legítima vontade de reavivá-lo. E para onde a busca do sonho alado levará quem o possui? A resposta é bem simples: muito além do que qualquer indivíduo é capaz de prever. A história que contarei a seguir é uma das maiores provas dessa afirmação. Quem souber interpretá-la da forma correta, entenderá. A lua reinava no firmamento enquanto uma jovem a observava, sentada no degrau mais baixo da escadaria da biblioteca. A beleza celeste sempre a levara a sonhar, era o tipo de encanto inalcançável que a atraía, que lhe infundia um desejo ardente de liberdade e realização. Agora todos os astros estavam opacos aos seus olhos, mais distantes que o normal. Algo mudara no interior daquela mulher, ela sentia uma carga em seus ombros quase que insuportável, junto com uma angústia que praticamente sugava toda sua vontade de viver. Ainda tentava decidir se seu ver-

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dadeiro tormento era o que estava por vir, o que acabara de acontecer ou a escolha árdua que teria de ser feita ainda àquela noite. O que ela ainda não sabia era que essa indecisão perduraria até o último instante. O clima estava ameno, a brisa noturna secava as lágrimas que umedeciam a face da jovem, deixando seu rosto mais frio do que deveria estar. Impossível não chorar, não desejar que tudo aquilo não passasse de um engano que logo estaria resolvido; ou de um sonho mau do qual ela logo despertaria; ou de uma mera ilusão, que se desvaneceria em segundos. Mas não era. Era cruel, irreversível e tão real quanto ela mesma. As pessoas e os carros circunfluíam pela praça logo além. Todos continuavam a viver normalmente, o mundo girava no mesmo ritmo, tudo se desenrolava como num filme trivial. Ninguém ligava para a turbulência emocional daquela moça sentada na escada, ninguém sofria, ninguém se sentia num beco sem saída. Só ela. Isso parecia tão estranho aos seus olhos, era como se uma redoma ou um muro invisível houvesse sido erguido à sua frente, e agora ela já não conseguia qualificar a si mesma como um ser humano normal. Ao menos sua vida não era normal como antes. Quando ela se ergueu, o medo escorregou pelas veias, entupindo-as de uma sensação fria, deixando suas pernas pesadas e com um leve atraso em relação aos seus comandos mentais. Num gesto instintivo, a jovem levou os dedos trêmulos à nuca, sentindo em seu pescoço a corrente fina de seu colar. Ela o retirou e o guardou em segurança no bolso de trás de seu jeans, sentindo seus dedos tremerem enquanto o manipulava. Não havia mais motivos para usá-lo. Não agora. Não mais. Quem presenciasse o momento em que ela começou a caminhar pela calçada, julgaria que estava apenas matando tempo, aproveitando a noite. Na verdade ela hesitava, tudo o que queria era ter um pretexto para não chegar ao seu destino. A mulher teria de passar pelo dono do mercado no meio do caminho e essa não era exatamente a coisa mais desejável no momento. Não que fosse um homem desagradável, na verdade era afável, ela gostava de conversar com ele. Contudo, para ela, aquele era um dos momentos em que jogar conversa fora não passaria de puro aborrecimento; e a julgar pela última conversa que tivera com o homem ao fazer as compras do mês, estava certa de que ficaria pelo menos meia hora ouvindo sobre novenas e promessas

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que a mulher dele andava cumprindo; coisas que a deixariam cansada demais só de se esforçar para parecer que se importava — e nada naquele dia parecia valer a pena de ser ouvido, por mais importante que o assunto fosse. Portanto, ela torcia para que ele não a notasse ao passar. Mas ele notou. E abriu um largo sorriso ao vê-la. — Boa noite, minha jovem! — Noite... Ao ouvir a resposta trêmula, o comerciante parou de varrer a calçada e se apoiou na vassoura, analisando-a. — Está tudo bem? — ele perguntou preocupado. — Sim... s-sim, está. Tenho apenas uns assuntos pendentes que andam me matando. — Ah, não se preocupe tanto, isso faz mal para o coração! Você é jovem demais para acabar morrendo de enfarto. Entregue essas preocupações nas mãos de Nossa Senhora, Ela vai interceder por você! — Com certeza. Obrigada pelo apoio. — Que isso! Estarei sempre aqui caso precise conversar (e até se não precisar). Desejo boa sorte! — Mais uma vez, obrigada. O senhor é muito gentil! — agradeceu a jovem, antes de partir. Até que não perdera tanto tempo assim. O sino do relógio da torre da igreja soava nove horas da noite. Ela sabia que seria indelicado procurar o padre a essa hora, mas garantir a lisura não era sua prioridade, então entrou assim mesmo. No interior da paróquia, a luz da iluminação noturna externa projetava as formas coloridas dos vitrais no chão. Não havia fiel algum ali, apenas um senhor a um canto preparava arranjos para o altar, com uma lâmpada acesa logo acima de onde trabalhava. Os passos da mulher ecoavam e pareciam se elevar até o teto abobadado. Ela parou no centro do templo e olhou diretamente para o crucifixo ao fundo, reunindo toda a coragem que ainda lhe restara. O rosto de Cristo parecia perscrutar seu interior, lendo seus sentimentos mais íntimos. Quando ela desviou o olhar e voltou a caminhar, seu passo era bem mais rápido do que antes, certa de que não aguentaria muito tempo sem se arrepender de ter vindo. A jovem disparou em direção à capela do Santíssimo, onde o sacerdote estava ajoelhado próximo ao sacrário, rezando as Completas, compenetrado

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demais para ouvi-la antes que estivesse bem perto. O padre olhou-a por cima do ombro, enquanto ela fazia meia genuflexão na entrada, apressada e nervosa demais para conseguir encostar no solo o joelho direito. — Aurora? — O padre levantou no mesmo instante, alarmado pela expressão grave do seu rosto. Ela estava pálida, lívida, sua respiração arfante enchia toda a capela. Aurora ainda hesitou um instante, procurando as palavras certas para começar, sentindo a angústia crescer em seu peito até explodir como uma bolha. — Padre, eu posso ser perdoada por um pecado que ainda não cometi? — Ela sabia que era uma pergunta tola, mas precisava iniciar o assunto de alguma forma.

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Capítulo I:

Um Pé Humano Quando abriu a porta da pensão para sair na rua deserta, a brisa leve da manhã de Fevereiro saudou o velho rosto cansado, enrugado e ainda entorpecido pelo sono do bibliotecário da cidade de Coronel Boaventura. Leônidas Wing, um senhor de cinquenta anos — que aparentava ser bem mais velho do que sua idade real —, acordara às seis da manhã para iniciar seu expediente solitário, como de costume. Enquanto caminhava pelas ruas, Leônidas ia observando as pessoas que já circulavam ou que surgiam pelas janelas em ambos os lados da rua, de cara amassada, absortos nos afazeres matinais. Era a primeira segunda-feira do segundo mês de 2012 e todos os brasileiros ainda tentavam se adaptar às atividades normais. Alguns ainda esperavam o fim do carnaval para retornar à rotina. De qualquer forma, poucos eram os que realmente desejavam estar acordados tão cedo. Alguns moradores cumprimentavam o bibliotecário, com acenos e sorrisos, Leônidas preferia ignorar a maioria. Ele não era uma pessoa doce, nem queria arranjar motivos para que um deles interpretasse um aceno seu como um convite para iniciar uma conversa torpe sobre assuntos supérfluos que só serviriam para minar o seu humor já bem escasso — segundo as palavras do próprio. Segurando numa das mãos o jornal do dia anterior e mais uma pequena pilha de livros que levara para casa, Leônidas atravessou a praça quase deserta e subiu a escadaria, pronto para abrir os portais de madeira de sua amada biblioteca. Ao abrir as portas, que rangeram como se lamentassem por ter sua letargia perturbada pelo homem, ele não notou nada diferente no recinto. De fato, apenas a costumeira camada de pó recobria de leve as prateleiras lotadas de livros, que por vezes se perdiam esquecidos pelos corredores. Depois de jogar o jornal sobre o balcão em semicírculo, perto do café frio que o velho comprara no dia anterior, ele pôs-se a devolver os exemplares que levara, cada um à sua prateleira de origem. O primeiro, um belo volume de Machado de Assis. “Grande gênio da li-

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teratura!”, pensou o velho ao colocá-lo no lugar. O próximo, um exemplar de filosofia. De quem? Nem mesmo o bibliotecário sabia, começara a ler por curiosidade e perdera o interesse na leitura já na segunda página. Antes de devolvê-lo, Leônidas tirou do bolso um velho gravador, onde costumava registrar suas memórias. Apertou o botão de gravar ao mesmo tempo em que ajeitava o livro entre dois outros grandes exemplares da mesma série, sem se importar se estavam ou não na ordem correta. — Nunca mais perderei meu tempo com essas besteiras filosóficas — disse o velho simplesmente, apertando logo após o botão de pausa. Mudando de ideia, voltou a gravar: — Deixo estes disparates para meus irmãos, que apreciam mais essas coisas — E finalizou a gravação num gesto teatral. Virou-se então para buscar a seção de mistério, no corredor vizinho. Parou de chofre ao encontrar no fim do corredor algo que não deveria de forma alguma estar ali. Um pé humano. Era um pé humano que calçava um belo sapato social preto que parecia valer pelo menos algumas garoupas. Evidentemente, o bibliotecário levou um grande susto, derrubando os livros restantes no chão, espalhando pelo piso páginas soltas dos exemplares mais antigos. — Mas que diabos...? Seu primeiro pensamento foi: “Calma, Leônidas! Deve ser um vagabundo qualquer que entrou durante a noite”. Por um instante, o velho perdeu-se em devaneios, parado no meio do corredor, num legítimo vai-não-vai. Nesse meio tempo, tentou imaginar como o dito cujo conseguira entrar numa biblioteca fechada. Estranho? Certamente era. Mas não mais estranho do que um vagabundo como aquele ter nos pés um sapato tão bonito. Bom, não era um vagabundo qualquer, afinal... Vagarosamente, Leônidas aproximou-se do pé, ansioso para desvendar o mistério, e logo pôde vislumbrar o corpo ao qual ele pertencia. Corpo? Sim, esse era o substantivo exato para o homem que jazia inconsciente no fim do corredor com a cabeça apoiada na prateleira mais baixa. Após alguns gritos e meia dúzia de cutucões, Leônidas concluiu num assomo de terror: tratava-se de um cadáver que maculava cruelmente a imperturbabilidade de sua amada biblioteca. O falecido vestia-se bem, trajava terno de alta costura, usava relógio de ouro e gravata vermelha de seda. Sobre o peito imóvel, ainda segurava um

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livro aberto intitulado “O mistério do caso Boaventura”; um exemplar bastante conhecido, afinal de contas, tratava do mistério do caso mal resolvido do assassinato do fundador da cidade. O atônito Leônidas correu para o telefone. De tão nervoso que estava, chegou a errar o número três vezes, antes de discar corretamente: 1-9-0... Enquanto isso, não muito longe da biblioteca, tocava pela primeira vez naquele ano o sinal barulhento que indicava o início do ano letivo no conceituado Instituto Educacional A. W. Sigma, um semi-internato particular. Evangeline Maria Ayler chegava à Praça da Anunciação com sua amiga Hanna Auster, ambas calouras no Instituto. Mesmo antes de descer do ônibus, elas já haviam ouvido o ruído estridente do sinal que anunciava às duas o seu atraso. Na verdade, nenhuma delas tinha a condição financeira ideal para estudar naquela escola. Evangeline ainda tentava desvendar o porquê da súbita vontade de seu tio de consideração, o diretor Último Wing, de realizar um ato de caridade. Não poderia haver convite mais inesperado do que aquele, visto que era de domínio público que Aurora, mãe da garota, tinha um histórico extenso de brigas com o homem. Portanto, Aurora não deixou de alertar sua filha quanto aos perigos de se ter um indivíduo como Último por perto. “Não confie no diretor” foram as palavras com as quais Aurora iniciou seu alerta, antes do primeiro dia de aula, enquanto aquela pequena família tomava o café da manhã. — Ele é perigoso demais, fique o mais longe que puder de Último Wing! — advertia a mãe, agitando nervosamente a faca no ar enquanto falava. — E eu acredito, mãe! Só acho que a senhora não precisa me ameaçar de morte por causa disso! — gracejou Evangeline, cujo nariz estava a dois centímetros da ponta aguda da faca. Com um sorriso trêmulo, Aurora baixou o talher. Evangeline suspeitava que sua mãe estivesse preocupada com algo que ia além do óbvio, coisas que ela não revelaria nem tão cedo. — Só sei que eu não quero mais ver sua fuça por aqui, fedelha! — advertiu Genevieve, engolindo seu café tão rápido que era capaz de vomitar tudo em cinco minutos. Evangeline não duvidava que sua irmã fizesse isso às escondidas, mas não passava de uma suspeita.

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— Olha a boca, Genny! Não chame sua irmã de fedelha! — advertiu Aurora, virando as costas em tempo de não testemunhar a retaliação de Evie, que mostrou a língua para a irmã. — E sua irmã não vai sumir daqui, só ficará longe nos dias letivos. Aliás, não sei para que essa pressa toda para ir se arrumar, você só precisa ir ao colégio mais tarde, lembra? Genevieve cursava o segundo ano do Ensino Médio. Frustrara-se ao saber que o A. W. Sigma era apenas de Ensino Fundamental, ela queria ingressar nele bem mais do que Evangeline jamais desejara. — Claro que sei. Sei também que tudo depende de uma boa primeira impressão, por isso tenho que ficar fabulosa! — explicou Genevieve, jogando os cabelos descoloridos com uma das mãos enquanto comia o último pedaço de pão. — “Por isso tenho que ficar fabulosa!” — repetiu Evangeline com voz de falsete, imitando a irmã, que retribuiu com uma careta. — Já chega vocês duas! Termine logo de tomar o café, Evangeline, e desça para ir ao Instituto com a Hanna antes que o ônibus das seis passe. — Mas não tem um ônibus só mãe! Depois passa outro às seis e quinze que vai pro centro... — Sem conversa, Evangeline! — Mas eu não quero mesmo ir pra essa escola, esse tal desse Instituto! — argumentou Evie, sentindo em suas palavras uma infantilidade exagerada que não quisera realmente acrescentar à fala. Aurora respirou fundo e levantou da mesa para se agachar em frente à sua filha, posicionando-se de forma que seu olhar ficasse no nível exato do dela. Evie retribuiu o olhar de sua mãe, analisando cada detalhe daqueles olhos cinza, os olhos que ela tão bem conhecia. Ela sempre acreditara ser diferente de sua família. Talvez por culpa de seus cabelos longos e escuros, tão diferentes das madeixas castanhas-claras de sua mãe e do castanho doentio que Genevieve tivera antes de pintar o cabelo. Talvez por culpa de sua pele, sempre tão mais clara do que a delas. Talvez pelo seu gosto peculiar e incompreendido por sua irmã. Mas nada mais tinha importância quando ela vislumbrava aqueles olhos. Eles eram exatamente iguais aos seus, tanto na cor quanto no formato, e na intensidade sonhadora que as duas sempre sustentaram. Aqueles olhos tão conhecidos choravam, estavam profundamente emocionados.

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— Não se preocupe, minha pequena borboleta, ninguém lhe machucará! Ficará tudo bem, desde que você não confie em Último Wing! Genevieve as olhava com uma expressão de nojo misturado à chateação. Vendo metade do rosto da irmã, Evie teve vontade de acertar-lhe um chute, lamentando o fato de não poder alcançá-la sem acertar também o lado de sua mãe. Em vez disso, a garota apenas colocou as mãos delicadamente em cada face de Aurora, impedindo que as lágrimas molhassem seu rosto por completo. — Eu acredito, mãe! — repetiu Evangeline, aceitando o abraço que Aurora lhe oferecia, encontrando sua coragem no calor de sua mãe. — Então desça e vá com a Hanna. Se comportem, estarei torcendo por vocês do trabalho! Evangeline ainda estendeu o abraço por mais alguns segundos. Quando por fim se levantou para sair de casa, Aurora já estava como antes, sem mais lágrimas. — Escafeda-se! — sussurrou Genevieve quando a irmã passou por perto. Evie nem se deu ao trabalho de prestar atenção. Evangeline era uma garota de onze anos normal, ou pelo menos o mais normal que uma garota de sua idade poderia ser. Seu cabelo intensamente preto era liso, terminando em cachos largos, com uma franja reta ocultando sua fronte. Em meio àquela multidão sufocante do ônibus, ela era claramente uma exceção. Não que isso fosse bom ou ruim, Evangeline era apenas uma garota diferente. Neste dia, vestia o uniforme de gala da escola, por ser o primeiro dia de aula (esse uniforme geralmente deveria ser usado às quartas-feiras). Era composto por uma camisa branca de mangas longas, fechada no punho por abotoaduras, que tinham o logotipo da escola, exatamente igual ao que estava bordado no colete preto sobreposto à camisa (a letra grega Sigma inclinada, dentro de um losango, com um traço ligando as duas retas centrais, formando assim, ao mesmo tempo, as letras “a”, “w” e “sigma”). No pescoço, usava uma gravata num tom roxo-acinzentado. A saia era cinza, de pregas e, por baixo dela, Evie acrescentara o short da escola; que não era exatamente um item obrigatório, mas recomendável para “preservar a decência” — conforme estava escrito no manual que fora enviado à sua mãe. Para terminar o look, meia colegial preta, com sapatilhas da mesma cor. Além de toda essa indumentária, a garota também levara consigo um

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sobretudo acinturado preto, que descia até a altura do joelho. Ele estava guardado em sua mochila preto-e-rosa, a garota sabia que antes de entrar no colégio teria que vesti-lo. Esse deveria ser o uniforme dos sonhos de qualquer garota, mas não era exatamente o que Evangeline sonhara para si. Ela estava desconfortável, sentia-se levemente sufocada, daria tudo para voltar a casa e vestir pelo quinto ano seguido o uniforme de escola pública. Pelo menos dessa forma não precisaria ir a um colégio onde provavelmente não se adequaria. — Vamos andando, Hanna! — disse a garota quando desceu do ônibus para a praça. Agarrou o braço da amiga antes que ela chegasse ao solo e a puxou para junto de si. Hanna de Oliveira Auster era a melhor amiga de Evangeline. As duas moravam na mesma casa desde que nasceram. Hanna morava com sua avó no andar de baixo, chamada Conceição. Assim que Evangeline soube que ingressaria no Instituto, asseverou que nesse colégio ela se sentiria imensamente deslocada. Sua intenção inicial era que isso possibilitasse sua permanência na escola antiga, mas o diretor surpreendeu a todos quando disse que a deixaria convidar uma amiga para o Instituto, tudo o que fosse necessário para que ela não deixasse de se matricular no A. W. Sigma. É claro que Hanna fora sua primeira escolha. Ela era um pouco mais baixa que Evie, tinha olhos azuis e cabelos loiros, lisos e sempre adornados com a tiara azul preferida da garota, que ela insistia em usar com todas as roupas, combinando ou não. Agora estavam as duas paradas, próximas a um canteiro do pátio de entrada do Instituto, meio escondidas atrás do tronco de uma árvore para vestir o sobretudo. Evangeline aproveitou a pausa e analisou longamente a fachada do colégio. Era incrível, bem maior do que a de qualquer outra escola que já vira. Um grande portão prateado estava aberto, ele tinha o logotipo da escola em roxo no centro. No seu topo, uma bela faixa de boasvindas. O porteiro sentara numa cadeira posta no lado direito da entrada, dali ele observava os alunos. Era um senhor de pele negra que usava boina e camisa listrada. Tinha feições engraçadas, como as de uma caricatura, e sorria espontaneamente para todos os transeuntes. Os alunos que afluíam pelo portão andavam tranquilos, ignorando o sinal que tocara há pouco.

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— Eles não parecem estar com pressa — comentou Hanna enquanto ajeitava o cabelo. — Eles não são a gente — explicou a outra, tirando a poeira dos sapatos novos. Sem trocar palavra, as amigas dispararam pelo corredor em meio aos outros alunos, até chegar à última sala de aula do térreo, onde deveriam estudar neste ano. Quando adentraram em velocidade supersônica, dez dos vinte alunos da turma 603 já ocupavam suas carteiras. As garotas disparavam entre as fileiras do meio e a do canto direito — a única de cinco mesas individuais — quando Evangeline colidiu com ímpeto na mesa de uma jovem de pele negra e cabelos cacheados que se maquiava. O impacto fez com que a garota pintasse parte de seu rosto com a sombra dourada que aplicava sobre a pálpebra. — Desculpe... — começou Evangeline, sem ter muita noção de como deveria agir. — Você me borrou! — constatou a garota, chocada. — Eu peço perdão, não consegui desviar da sua mesa e... — Você me borrou! — repetiu a menina, com ira na voz. — Olha, você não precisa fazer tanto drama... — VOCÊ ME BORROU! — ela voltou a repetir, alteando a voz a cada sílaba. A garota levantou da mesa. Ela se preparava para recomeçar a berrar quando foi interrompida: — O que está acontecendo aqui? — perguntou um dos funcionários da escola que chegara à porta, atraído pelo grito. Ele olhou dos rostos culpados de Evie e Hanna para o rosto meio dourado da garota. Era um jovem de óculos com cara de sério e cabelos castanhos amarrados na nuca num pequeno rabo-de-cavalo. Usava terno preto com gravata igual a dos alunos. Antes de responder, a menina da maquiagem estudou Evangeline. — Nada não, só me assustei — mentiu enquanto voltava a sentar. Evie ainda ficou estática junto a Hanna, à semelhança de um “dois-depaus”, olhando para a garota sentada sem entender a mudança de humor repentina. No seu antigo colégio, um esbarrão daqueles seria a desculpa perfeita para um belo de um barraco.

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— Está tudo bem, Claus! — disse uma voz atrás das garotas. Evie se virou e encontrou o único rosto que conhecia naquele lugar: Roxane Wing, filha do diretor e sua prima de consideração, uma bela salvação de cabelo lambido e dividido de lado. — Espero que sim. Vão para seus lugares! — ordenou simplesmente o homem, saindo de sala. Enquanto ele seguia pelo corredor, as três garotas se encaminharam para as últimas carteiras do canto esquerdo. Roxane Wing já visitara Evie algumas vezes, nas épocas em que sua tia Eleanor vinha à cidade. Lá na casa da garota, ela sempre encontrava Hanna, como se as duas fizessem parte de um pacote “compre um e leve dois”. Mesmo a conhecendo tão bem, Evie nunca visitara sua casa e nem conhecera seus pais, a única coisa que ela sabia era que a mansão dos Wings ficava logo atrás do Instituto. Já sentada, Evangeline começou a observar seus companheiros de classe. Um pouco mais à frente estava um garoto que falava sem parar e, ao seu lado, uma garota mandava mensagens de texto pelo seu Smartphone. Ela não estava nem aí para o colega ao lado, que acabara num monólogo interminável. O menino era grande, com o cabelo repleto de gel. A outra era ruiva natural, com o cabelo levemente ondulado, rosto expressivo, sobrancelhas arqueadas, postura pavoneada e nariz empinado; a ruiva parecia achar que o mundo abaixo dele não é digno de sua admirável presença. Na coluna do meio, logo na frente, estava uma garota que ostentava uma longa cortina de pesados cabelos castanhos, e ao seu lado um garoto gordinho de face corada. Pelo trecho que pôde extrair da conversa, Evie concluiu que eram os outros novos bolsistas da turma. Logo atrás, uma pequena oriental de cabelo curto e liso, usando óculos, ouvia atentamente o que os bolsistas diziam, sorvendo cada tópico da conversa, aparentemente sem o consentimento dos dois. Atrás dela, estava a menina na qual Evie acabara de esbarrar. Ela continuava alheia a tudo o que ocorria na sala, apenas se maquiava, analisando seu reflexo num pequeno espelho circular que segurava à altura do rosto. Nas últimas cadeiras da fileira do meio estava um garoto magro de estatura baixa, cabelo espetado e uma bela quantidade de sardas no rosto. Ele virara a cadeira para trás para conversar com as gêmeas da turma, ambas mulatas de cabelo crespo curto, usando tiaras grossas de cores distintas.

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— Meu nome é José Roberto Fiel — dizia o garoto —, mas me chamam de Zé Roberto, de Zé ou de Zero. — Por que Zero? Você não vale nada, é? — arriscou a gêmea de tiara laranja. — Hum... Não... eu valho muito, sabe — inferiu Zé Roberto, que pelo visto não apreciava a modéstia. — E vocês, como se chamam? — Eu sou a Verônica Monteverde — disse a gêmea de tiara amarela — e essa é minha irmã Carmen. — Verônica e Carmen? Que curioso... — Por que curioso? — estranhou Carmen. — Geralmente nomes de gêmeos são parecidos, tipo Verônica e Varíola ou Carmen e Carmela... Ah! Vocês poderiam ter apelidos, como Ctrl+C e Ctrl+V! As duas se entreolharam. Não acharam graça alguma. Havia um quadro-negro na parede ao fundo. Evidentemente não era usado para a função original, em vez disso, haviam colado nele com fita adesiva alguns informes da escola. Pelos desenhos a giz que cobriam sua superfície, podia-se deduzir que os alunos que acabaram de chegar já o haviam rabiscado assim que chegaram, ou que limpá-lo não era uma prioridade do pessoal da limpeza. O décimo terceiro aluno entrou em silêncio e sentou na segunda cadeira individual. Era pálido e franzino, com cabelos pretos, lisos e com uma franja que ocultava toda sua testa. Seus olhos azul-turquesa claro estavam emoldurados por uma grossa camada de lápis de olho preto. Aparentava ser ligeiramente mais velho do que os demais. Ele se virou de lado na cadeira, apoiando as costas na parede, e pôs-se a observar a turma, assim como fizera Evangeline. Ela não demorou a desviar o olhar, antes que o garoto olhasse em sua direção. Ele dispensara o sobretudo masculino, que jogara sobre a mesa antes de sentar. O uniforme de gala masculino, por sua vez, era composto por uma camisa de mangas longas fechada no punho por abotoadura com emblema da escola — que o garoto de franja retirara e dobrara as mangas até o cotovelo, conforme Evangeline vira antes de virar o rosto —, calça cinza, colete preto masculino com o logotipo bordado, gravata igual à das meninas e sapato social preto bem engraxado.

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Hanna mal deu atenção ao garoto, ela olhava as carteiras desocupadas. — Ué... — disse, coçando a cabeça devagar. — Por que não tem cadeira ali? — E apontou para a mesa em frente ao garoto recém-chegado. — É onde senta o Mikael — informou Roxie, como se fosse a coisa mais óbvia. — Ele é cadeirante — completou ao ver a expressão aturdida das meninas. — E esses dois aí na frente, quem são? — quis saber Evangeline, apontando com o queixo para a garota do Smartphone e o menino que falava sozinho. — São o Vitório Andrade e a Grace Helen Farias, a filha do prefeito. Dois riquinhos metidos a besta, não vale a pena gastar a saliva com eles. — Hum... — Aquela japonesinha é a Kiara, entrou aqui no segundo ano — informou Roxie, percebendo o interesse da prima pelos outros alunos. — Ela é legal, fala comigo às vezes — e abaixou a voz: — quando não está fofocando. A menina na qual você esbarrou é a Magda, ela ficou sozinha neste ano, as amigas dela foram para outra escola. Os pais dela disseram que isso não era motivo suficiente para transferi-la também. — E você sabe por que ela não me dedurou? Foi tão estranho... — Isso é porque ela está em perigo de expulsão, tem um histórico enorme de chiliques e ceninhas, e meu pai detesta esse tipo de comportamento. Fico feliz por saber que ela decidiu se segurar um pouco. O funcionário de rabo-de-cavalo acabara de retornar à porta da sala. Imediatamente, todos pararam de conversar para prestar atenção no que ele anunciaria. — O diretor vos aguarda no auditório, para o discurso de abertura das aulas do Segundo Segmento — disse simplesmente. — Esse daí é o Claus, inspetor do térreo — sussurrou Roxane enquanto levantavam. — Ele é legal, só meio sério. A turma se levantou com estardalhaço, arrastando as cadeiras. O inspetor Claus aguardou a saída de todos, que se juntaram aos demais alunos que já seguiam para o andar superior. Juntos, eles se adiantaram rumo ao fim do corredor do terceiro piso, onde ficava o grande auditório. Era um salão imponente, estrategicamente localizado para que os pais que viessem às reuniões semestrais pudessem contemplar toda a beleza do estabelecimento antes de chegar ao seu desti-

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no. À sua entrada de portas duplas acotovelava-se uma pequena aglomeração, que se espremia para chegar a uma espécie de antessala. Ao perceber que Roxane se aproximava, a multidão deu espaço, numa cena semelhante a de uma ambulância tentando ultrapassar os carros num engarrafamento. — Odeio quando as pessoas fazem isso, até parece que sou uma espécie de burocrata, princesa ou presiden... — Roxie deixou o resto da frase morrer ao notar que suas companheiras ficaram na ponta do ajuntamento, acanhadas. — Venham, meninas! Não me deixem falando sozinha! Os estudantes em volta olharam torto para as amigas que entravam, puxadas pelo pulso por Roxie. — Não liguem pra eles não! — acrescentou ela, abanando a mão em sinal de indiferença. Roxane conduziu-as até o primeiro monitor à direita. Kiara Shimizu era atendida pelo monitor ao lado, ela estava com os braços unidos atrás do corpo, se balançando de um lado para outro. A garota olhou para Roxie e deu um sorrisinho cortês. Quando chegaram mais perto, Evie pôde notar que a colega de classe era dois dedos mais baixa do que Hanna, que já era uma menina pequena. — Bom dia, senhorita Roxane! — disse o monitor que lhes atendia, um jovem que pelo visto acabara de atingir a maioridade. Sem perguntar mais nada, o rapaz pôs-se a vasculhar uma grande caixa separada em compartimentos, com etiquetas roxas salientes, cada uma com uma letra do alfabeto impressa. O rapaz procurava alguma coisa em “R”. Ao voltar, entregou a Roxie um cartão magnético roxo com uma chave pendurada, que ela examinou dos dois lados, impassível. — Essas são duas bolsistas calouras, Evangeline Ayler e Hanna Auster — informou Roxane. Ao ouvi-la, o monitor se afastou para um canto, procurando algo em outra caixa menor. Elas ficaram sozinhas, observando o movimento dos outros alunos que passavam, consultavam os monitores e entravam no auditório. Minutos depois, o monitor entregou a Evie e Hanna cartões semelhantes ao de Roxie, com a foto e os dados pessoais de cada uma estampados na frente e uma chave prateada pendendo de uma argola presa ao cartão. Entregou também um livreto de capa roxa escura com os dizeres: “Manual do Bolsista”, uma folha de horários e um segundo manual intitulado: “Regras

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do Instituto Educacional A. W. Sigma para Ensino Fundamental, Segundo Segmento”. Debaixo do logotipo do A. W. Sigma, estava escrito o lema do instituto: “Sonhos transformados em futuro”. — Obrigada, Roberto! — agradeceu Roxie, ao que o monitor respondeu com um sorriso e uma leve reverência. Finalmente, elas puderam entrar no auditório e se encaminhar para três cadeiras vazias da quinta fileira. Roxie ia à frente, pedindo licença, com Hanna atrás dela, passando em suavidade de pluma. Evie fechava a fila, pisando sem querer no pé de todo mundo que estava no caminho. — Desculpa! — disse pela quarta vez, antes de sentar entre Hanna e o menino de franja e lápis de olho, que mal se mexera à passagem das garotas. Apenas Evie percebeu que ele teve o cuidado de encolher discretamente as pernas o máximo possível quando ela passou. É claro que a estratégia não adiantou muito. — Meu nome é Grégor Uno — disse em voz baixa, só para a garota ao seu lado escutar. — Evangeline — respondeu ela, ficando ligeiramente envergonhada quando o colega sorriu, olhando diretamente em seus olhos. Era um olhar amistoso, como o que se oferece para uma irmã ou uma amiga de infância. Lá no palco majestosamente iluminado, o diretor Último limpava seus óculos num lenço de seda azul-marinho. Mesmo com o cabelo penteado para trás, era possível perceber que suas madeixas, quando soltas, deveriam descer até os limites do rosto. Usava por cima de seu terno um sobretudo preto que terminava na altura das canelas, emprestando a ele um ar de mistério e altivez. Ajeitando os óculos na ponte do nariz, Último fitou os alunos que já ocupavam seus lugares no auditório. Como ele gostaria que durante o ano eles permanecessem assim, na disciplina e excitação do primeiro dia de aula! Asseados, calmos, simpáticos, apenas com o único defeito de tagarelar compulsivamente, repassando as lembranças acumuladas durante as férias para todos os amigos. Pousando as mãos sobre o púlpito transparente, atrás do qual se posicionara, observou por um instante sua filha sentada na quinta fila. Seu olhar vagou mais para a esquerda e finalmente recaiu sobre a sobrinha postiça. Se

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Evie percebesse o olhar do diretor e analisasse a expressão que agora ele exibia, certamente começaria a se preocupar com os conselhos da mãe. Mas não, ela apenas olhava ao redor, apreciando o novo ambiente. Depois de um tempo, Último virou a cabeça para o fundo do palco, num ponto próximo ao piano, onde deveria estar seu bedel favorito, o adulador Zeno Aguiar. Não demorou a notar que o inspetor-chefe saíra dali disfarçadamente. — Onde está Zeno? — perguntou à sua esposa, a vice-diretora Ayla, que estava sentada logo atrás dele. — Está procurando Miguel. Ele ainda não chegou e nem deu notícias. Ao ouvir a informação, o diretor verificou as cadeiras à direita e esquerda de Ayla. De fato, os únicos assentos vagos na mesa eram o da professora de Artes, que chegaria na semana seguinte, e o do novo mestre de Educação Física, que já deveria estar presente. — Diacho! — exclamou, voltando-se para frente. Automaticamente, encostou a mão no botão do microfone, que amplificou volume de sua prosopopeia pelas caixas de som espalhadas pelo auditório, junto com a microfonia do aparelho. Alguns alunos olharam-no, curiosos; ele apenas desligou o microfone, tossindo para disfarçar o quanto estava encabulado. Último examinou mais uma vez a multidão. O tédio daquele lugar se tornava crescente, muitos já apoiavam a cabeça nos braços cruzados sobre o encosto da cadeira da frente, obviamente cochilando; outros bocejavam abertamente, desacostumados com a rotina matinal da escola. Ao fundo, havia fortes indícios de princípio de confusão, coisa que só Último sabia identificar como ninguém. — Querida, eu não posso adiar o discurso só por causa do Miguel! — disse por fim, virando-se mais uma vez. — Pelo menos espere o Zeno voltar, ele foi até... olha lá, ele está vindo agora mesmo! Ayla apontava para um homem que entrava correndo pelos portais duplos, empurrando todos que estavam no seu caminho. Zeno Aguiar era careca, tinha um rosto perfeitamente ovalado e atualmente empapado de suor por culpa do estirão. Ele estava esbaforido e apertava com a mão direita uma dor que sentia no lado pelo esforço da corrida. Assim que chegou, se apoiou nos degraus de acesso ao palco, com um suspiro longo e dolorido. — N... ach... vi... — balbuciou o inspetor-chefe, com a última gota de

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fôlego que conseguiu extrair sofregamente. — O quê? — exclamou o diretor, se esforçando para entender. — Não... achei... — repetiu ele, fazendo mímica com as mãos enquanto falava. — Ninguém viu... — Tudo bem, tudo bem! — disse Último, agitando as mãos para que o outro parasse de falar. — Muito obrigado, Zeno, pode ir ao seu lugar! Zeno prontamente seguiu para seu assento, cambaleando nas pernas bambas. Ao sentar, pôs a perna direita de mau-jeito na cadeira rotativa e caiu no chão com estardalhaço, fazendo-a deslizar até o lado oposto do palco e bater com estrondo na parede. Obviamente, ergueu-se uma enxurrada de risos e deboches da plateia, que acordara instantaneamente. — ‘Tá tudo bem! — gritou o homem no chão, erguendo o polegar. O diretor, que olhara preocupado para o bedel, voltou-se novamente aos seus alunos e, numa manifestação de sua autoridade, conseguiu calá-los com apenas um olhar severo. Logo abriu seu notebook para projetar a apresentação no telão ao fundo, começando assim sua preleção de início às aulas.

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Espero que a sua leitura tenha sido prazerosa! Beijinhos Alados, Sheila Lima Wing (www.docesonhoalado.com)

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