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Adrian Regis é um adolescente extraordinário. Dotado com a incrível e - ao mesmo tempo - assustadora capacidade de ver anjos e demônios, o jovem Arcano sempre foi considerado ''esquisito'' pelos outros garotos de sua idade. Acostumado a uma vida reclusa e sem grandes atrativos, o rapaz viu o seu mundo mudar por completo com a inesperada chegada de dois fascinantes - e misteriosos - irmãos à melancólica cidade de Ventura, o levando a embarcar na mais apavorante e perigosa aventura da qual já sonhara participar.


LIVRO UM: O GUARDIテグ


Todos os direitos reservados; nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida ou transmitida por meio eletrônico, mecânico, fotocópia ou de outra forma sem a prévia autorização do autor.

Copyright 2010, Henri B. Neto O Direito moral de Henri B. Neto foi assegurado por ele.

Arte da Capa e Diagramação Henri B. Neto Neto, Henri B. (Henrique Batista) 1989 Terra das Sombras – Livro Um: O Guardião Rio de Janeiro, 2012. Continua com: O Inimigo 1. Literatura de Ficção/Juvenil 2. Sobrenatural 3. Anjos/Demônios I. Neto, Henri B. - II. Título


PRÓLOGO

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''Ser diferente é normal...'' - Mas quanta bobagem! Ser diferente não é ser normal. Acredite, sei bem do que estou falando. Desde pequeno, todos me consideram bastante peculiar - o que na verdade é só um jeito bonitinho e eufemista de dizer que sou estranho. Por qualquer lugar que eu procurasse estar, não havia jeito, sempre encontraria cabeças que se viravam e cochichos que me seguiriam aonde fosse. Na escola, a maioria dos estudantes mantinham uma espécie de distância segura de mim; já os professores me olhavam de uma forma mais humanitária, me tratando como se eu fosse um portador de alguma coisa digna de pena. O que não deixa de ser verdade. Mas a grande questão é que ninguém nunca soube realmente o que acontece comigo. É de domínio público que eu não sou como os outros da minha idade, mas é fato também que não fazem a mínima idéia do que eu possa ter...


ou melhor dizendo, do que eu possa ser. Pois se todas as pessoas que conheci durante esses meus 18 anos tivessem uma pequena idéia das coisas que eu sei, das coisas que eu secretamente posso fazer, garanto que a minha vida chata e sem grandes preocupações se transformaria em uma gigantesca dor de cabeça num estalar de dedos. Na verdade, acho que esta é uma descrição perfeita para o que tenho: Uma Grande Dor de Cabeça! Algo que simplesmente acontece com a gente, sem que tenhamos sequer o direito de escolha. Por que, se eu tivesse o direito de poder escolher ser ou não ser o que sou, provavelmente eu escolheria a segunda opção. Afinal, entre ser um adolescente comum e um adolescente peculiar, quem seria o idiota que ficaria com o que eu tenho? Bom, me desculpem, acho que até agora não me apresentei. Olá, eu me chamo Adrian, e sou um Arcano. Assim como outros poucos iguais a mim, sou mais ágil, mais forte e tenho uma resistência maior do que a de uma pessoa comum... Mas, acima de tudo, a particularidade


que nos define é justamente por podermos ver coisas que a maioria das pessoas acreditam que não existem. Coisas que por serem tão surreais, tão malignas ou assustadoras, somente alguém com as minhas habilidades pode lidar. Mas, voltando ao que interessa, a história que vou lhes contar a seguir se passa justamente no momento em que a minha vida (pobre e sem grandes atrativos) definitivamente começou... E que, de um jeito irônico e cruel, tentaram arrancála de mim para todo o sempre.

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1. O S O N H O

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A

cordei completamente assustado. Minha camisa estava encharcada de suor e o meu

coração martelava desvairado contra o peito. Mesmo estando na segurança de minha cama, sentia como se o pesadelo ainda não tivesse acabado... Como se o ser produzido pelo meu subconsciente pudesse estar ali, escondido nas sombras da madrugada, só esperando para me atacar. Fechei os olhos novamente e procurei respirar fundo. Eu sabia que estava sendo irracional. Eu sabia que não havia um motivo real para entrar em pânico e começar a pirar. Tudo aquilo não passava de um sonho... Um sonho aterrorizante que – noite sim, noite não – me tirava o sono há mais de um mês. - Se controle, Adrian – sussurrei para mim mesmo, enquanto me encolhia feito uma bola por de baixo do cobertor – Você está sendo um medroso! No mesmo instante, a porta do quarto foi aberta com


energia e se chocou contra a parede lateral do cômodo, provocando um ligeiro tremor no piso. Sob a luz fraca do corredor se encontrava um homem alto e esguio, seus cabelos escuros emaranhados de uma forma estranha no topo de sua cabeça, o rosto magro e bonito deformado em uma careta dura de preocupação. - Filho, você está bem?! -Estou sim, pai - murmurei, sentido o sangue se concentrar em minhas bochechas - Foi só um maldito pesadelo. -Ah, claro! - no mesmo instante, a face de Cirus se descontraiu e ele conseguiu abrir um sorriso – Nossa, garoto, você me assustou!!! - Me desculpe. Isto era tudo o que eu podia falar sem entregar o medo que me consumia por dentro. Eu estava mais apavorado do que queria realmente demonstrar, e isto era ridículo, ainda mais considerando o que de fato eu era. - Mas o que é isso, Adrian? - perguntou meu pai, uma de suas sobrancelhas erguida em incredulidade - Você sabe


que não tem pelo o que se desculpar! Mas é claro que eu tinha. Afinal, se não fossem por minhas ''particularidades'', talvez aquele sonho fosse menos assustador. Talvez eu nem tivesse esse tipo de sonho. Percebendo a minha expressão preocupada, Cirus deixou a sua posição protetora na porta do quarto e se aproximou de onde eu estava, se sentando na beirada de minha cama e me avaliando com com um ar cansado e abatido. - Afinal, filho, que sonhos são esses que você anda tendo ultimamente? - instigou ele, um dos cantos de seus lábios se crispando deliberadamente - Você realmente acha que são apenas sonhos? Naquele pequeno segundo de antecipação, senti o meu sangue gelar. Pois, assim como eu, meu pai também era um Arcano. E, assim como eu, ele tinha certeza que eu não acabara de ter um sonho comum. Acho que é necessário dizer: às vezes, para um Arcano, os sonhos podem dizer bastantes coisas. Coisas que


não fomos capazes de ver durante o dia, e que a noite nosso subconsciente tentava nos alertar sobre o que estávamos deixando passar despercebido. Mas por mais que eu pensasse, nada estava me passando despercebido. A vida em Ventura continuava a mesma - pacata e sem atrativos, com cada um tentando bisbilhotar ou inventar alguma coisa sobre a vidinha monótona do outro. Então, por que essa droga de sonho não me deixava em paz? - Eu... Eu não sei... Quero dizer, sim! - Menti, com a minha melhor cara de inocente - Pelo menos, acho que sim. Sabe como sou, provavelmente não deve ser nada demais. - Hum, então você deve estar certo - replicou meu pai, com um olhar que dizia ''Você é o Pior Mentiroso do Mundo''. - Acho que realmente está na hora de voltarmos à dormir. Afinal, amanhã é dia de escola, não? - Nossa, ótimo lembrete! - resmunguei entre os dentes, com uma alegria claramente fingida. Sem dúvida alguma, esta deve ser a melhor maneira de se terminar um dia: acordar no meio da noite devido a um


pesadelo assustador e voltar a dormir pensando na ''grande'' manhã que teria na Academia Constantine.

‘’São só mais seis meses’’, eu pensei. ‘’Só mais seis meses, e você vai estar livre daquele lugar!’’ Bom, não era pedir muito de mim, era? Afinal, depois de Onze anos de total apatia e exclusão, esperar por apenas mais um semestre não seria nada. Acho que no fim, o purgatório até poderia ser um lugar acolhedor e com pessoas amáveis, não é mesmo? Tudo bem, a quem estava enganando - Não consigo mentir nem pra mim mesmo. - Isso aí, garoto, pensamento positivo! - sussurrou Cirus, ignorando por completo a minha encenação óbvia. Agora, feche esses olhos... e não se preocupe com nada! Aproveitando o fim repentino que dei em nossa ''conversa'', meu pai se levantou pesadamente da beirada da minha cama e caminhou de volta para o seu quarto sem olhar para trás, me deixando completamente sozinho e perturbado. Sabe, eu gosto muito do Cirus, e reconheço todo o trabalho que ele teve para me criar sozinho, mas


definitivamente nós não estávamos na mesma sintonia. Isto era um fato triste, porém irrefutável. As horas se passavam e eu não conseguia voltar a dormir. Mesmo quando eu queria me distrair com pensamentos estúpidos, minha cabeça trabalhava à mil por hora. Todas as vezes que tentava fechar os meus olhos, como o meu pai havia mandado, visões indistintas do meu pesadelo vinham à tona. Já eram 1h da manhã, e a única coisa que se fixava em minha mente era que eu tinha que fazer alguma coisa. Com um salto, me pus de pé e fui para o banheiro. Ironicamente, sempre achei o banheiro um ótimo lugar para se clarear as idéias. Talvez fosse a cor, talvez fossem as luzes, quem sabe poderia ser a acústica, mas qualquer que fosse a explicação, era lá que eu encontrava as respostas para as minhas perguntas. E foi isso que eu fui fazer. Encontrar a resposta para uma pergunta que nem eu sabia qual era. Completamente exausto, tirei a minha roupa e me enfiei debaixo do chuveiro. Por mais gelada que estivesse a


água, aquilo estava me deixando mais relaxado. Quase pude ver os meus músculos se descontraindo sob a pele e a minha pulsação acelerada se acalmar. Depois de cinco minutos, saí do Box renovado. E o melhor, meu cérebro parecia estar trabalhando de uma forma tranqüila, e não alucinada como estava antes da ducha. Sentindo-me mais calmo, me enrolei na toalha e segui em direção ao grande espelho sobre a pia. Já que estava no banheiro e sem um pingo de sono, iria aproveitar a ocasião pra fazer a droga da minha barba - o que me pouparia o trabalho na manhã seguinte, me dando mais tempo livre para ficar em casa antes de ir para a escola. Foi então que o meu cérebro deu um click. Só ao me olhar no espelho eu me dei conta que o antagonista do meu sonho era extremamente parecido comigo. Não com a minha aparência, é claro - ela não tinha os olhos cinzentos e os cabelos escuros como eu, muito menos a minha altura ou meu porte físico de nadador. Ao contrário, o ser era comprido ao extremo, passando de longe os meus 1,80. E diferente de mim - que devido a minha


condição, sou forte, porém magro - cada centímetro dele parecia exalar uma força bruta e cruel, quase que invencível. Na verdade, o que me fez lembrar dele foi algo que me perturbou durante todo o tempo em que estive inconsciente, e só agora parecia brotar do fundo da minha mente. O vilão que me atacava quase todas as noites e me fazia despertar de medo era um homem... Ou, ao menos, parecia ser um. E era isto o que me preocupava. Esquecendo-me por completo do que iria fazer, recoloquei as minhas roupas e voltei para o meu quarto. Com um movimento rápido, abri a janela e me pus a observar a cidade. Tudo continuava no seu devido lugar... Ao fundo, eu podia enxergar as belas colinas de Ventura recortando o horizonte, a luz da lua resplandecendo no topo das árvores mais altas. Já as ruas desertas eram iluminadas apenas pelos lampiões, e os antigos prédios góticos do centro estavam no escuro, sua arquitetura antiquada sempre me lembrando uma


catedral gigantesca que não parava de crescer. Por mais calmo que parecesse a paisagem, aquela visão não me deixou nenhum pouco tranqüilo. Pelo contrário, observar a cidade mergulhada no silêncio me deixou ainda mais apreensivo. Definitivamente, a calma que eu havia recuperado com o banho estava se esvaindo pelos poros, pouco à pouco. Minha mente era tomada de assalto por uma enxurrada de perguntas - e as mais preocupantes pareciam grandes letreiros de néon diante de mim. Será que os meus sonhos estavam sendo realmente um sinal? Ou melhor, será que o ser aterrador poderia estar naquele exato momento em algum beco escuro de Ventura, oculto pela sua falsa humanidade, só esperando para atacar? Sem sombra de dúvidas eu gostaria de ter as respostas para essas perguntas, mas infelizmente não tinha. Então fiz a única coisa que me parecia cabível naquela hora: fechei a janela do meu quarto, voltei para debaixo das cobertas, e obriguei o meu cérebro a se desligar de tudo e tentar dormir... De nada adiantaria eu continuar acordado,


me forçando a encontrar algo que ainda estava inacessível a mim. Por enquanto, eu sabia de tudo que era para saber.

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2. N O V A T O

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N

aquela manhã, antes mesmo do despertador tocar, eu já

estava acordado - o que não era nada bom, levando-se em conta de que eu havia tido apenas 4 horas de sono na noite anterior. Durante algum tempo, tudo o que eu fiz foi ficar deitado em minha cama, observando o teto escuro do quarto ir clareando aos poucos com as primeiras luzes do dia, pedindo secretamente que o sol não chegasse. Como consequência da minha ''pequena'' vigília por respostas, meu organismo cobrava à juros altos as horas de sono desperdiçadas. Cada centímetro do meu corpo parecia arder em chamas, minhas pernas pesavam mais que um saco de concreto e eu tinha a estranha sensação de que minha cabeça estava a ponto de explodir. Isso, sem falar no vazio que se apoderava de mim. Por mais cansado que estivesse, nada parecia ser capaz


de tirar da minha cabeça a terrível imagem do ser no meu sonho. O sorriso maligno, o olhar feroz... tudo tinha sido tão real, tão assustador, que por mais que eu tentasse esquecer, aquilo não saia da minha mente. ''Você está começando a ficar neurótico'', disse para mim mesmo. O que não deixava de ser verdade. Simplesmente tinha perdido as contas de quantas vezes, nas últimas horas, eu havia me sobressaltado com o mínimo ruído. Qualquer coisa naquele momento, desde uma buzina de carro até a minha própria sombra, parecia ter o poder de me assustar. Após meia hora de pura apatia, tomei coragem suficiente para me levantar. Enquanto caminhava sem pressa em

direção

ao

armário,

repassava

mentalmente

os

acontecimentos do último pesadelo. Não sabia como, mas tinha a impressão de que me esquecia de um detalhe, algo além da aparência do antagonista. Era estranho, pois só agora percebia que eu nunca me lembrava do sonho em si, apenas o momento em que o ser surgia diante de mim. O momento que me fazia acordar assustado.


- Já está de pé? - perguntou uma voz masculina, bem atrás de onde eu estava. Meu coração quase saltou pela boca. Ao virar, me deparo com meu pai, desta vez com seus cabelos negros perfeitamente arrumados, vestido por completo com seu uniforme de trabalho. Cirus era chefe da Brigada de Paramédicos de Ventura, o que era bastante irônico, se considerarmos o que ele secretamente podia ver e fazer. -Meu Deus, o que está acontecendo? -Não foi nada. Só levei um susto com o senhor... -Anh?! - Depois de um segundo de incompreensão, o rosto de Cirus se contorceu em uma careta de preocupação. Adrian, por que você não me conta logo sobre o que é esses seus sonhos? Sem dizer mais nada, peguei o uniforme horroroso da Constantine e comecei a trocar de roupa. Não estava preparado, nem com a mínima vontade de discutir sobre aquilo com meu pai. E pelo visto, ele também percebera isso, pois no instante seguinte, não estava mais no meu quarto. Depois de uma rápida passada no banheiro, onde


tentei (sem sucesso) me afogar na pia, resolvi ir tomar café. Desci rapidamente pelo poste de emergência, e corri em direção a cozinha. Este era um dos detalhes que me fazia gostar tanto da minha casa. Antes de meu pai e eu morarmos aqui, o prédio era na verdade a antiga sede do Corpo de Bombeiros da cidade. Quando viemos para cá, Cirus reformou o lugar todo, mas manteve algumas características como a faixada, o poste e o sino de alerta. Nossa, não está no gibi o quanto que meu pai teve que usar o sino para me obrigar a ir para escola, quando eu era menor. Ao chegar na cozinha, percebi que Cirus já estava terminando de comer. Sua testa estava frizada, enquanto lia com uma estranha concentração as manchetes do jornal em suas mãos. Outra coisa que também vi foi que ele me olhou brevemente por sobre as folhas abertas, e aquele era um claro sinal de que algo que eu fiz o incomodava - e muito. Obviamente, o meu silêncio sobre o pesadelo estava começando a irritá-lo. Mas, por mais que eu quisesse ajuda para desvendá-lo, falar com mais alguém significava que


havia uma possibilidade de tudo aquilo ser verdade... E no fundo, não era bem isso o que eu queria. Após meio minuto de um silêncio constrangedor, resolvi quebrar o gelo. - Hum, muita notícia ruim hoje? - Não, nada grave - murmurou Cirus, olhando-me novamente por sobre o jornal - Só a coclusão das investigações daquele acidente do mês passado envolvendo adolescentes em Dumont... - Ah, sim! - respondi, tentando demonstrar interesse. Do lado de fora do periódico, eu podia ver a manchete da matéria encabeçando uma grande foto de um dos envolvidos, um rapaz ruivo e simpático, que deveria ter no mínimo a minha idade quando a imagem fora tirada. Não sabendo o por que, aquilo me fez tremer ligeiramente... e me obrigou a continuar perguntando - Mas então, já sabem o resultado de tudo? - O de maior estava alcoolizado, é claro... resmungou meu pai, ainda sem tirar os olhos do papel - Pelo o que a polícia apurou, na velocidade em que o garoto vinha,


os passageiros do táxi atingido tiveram muita sorte de terem conseguido sair dessa sem um arranhão. A resposta fria e direta de Cirus me fez encolher aos poucos na cadeira. Estava claro e bastante nítido que o assunto macabro não estava ajudando em nada no desenrolar da coisa. E eu não podia deixar o barco continuar. - Me desculpe, pai! - explodi, sem um pingo de coragem para encará-lo -Tudo bem, eu sei que eu errei em não falar nada para o senhor, mas... eu sinto que ainda não estou pronto... - Claro, claro - com um movimento longo, Cirus devolveu o jornal à mesa e passou a mão sobre seus cabelos, seu rosto demonstrando pura frustração - É só que... eu quero que você saiba que pode contar comigo! Pra qualquer coisa! - É claro que eu sei que posso contar com o senhor pra qualquer coisa - resmunguei, começando a sentir o sangue fluir sobre a minha face - além do mais, quem acreditaria em mim se eu dissesse o que eu vejo, na verdade? Estamos condenados a morar juntos pelo resto de nossas


vidas. Por um breve instante, pude ver a expressão de Cirus se descontrair e a sua risada gutural começar a ser formar no fundo do peito. Quando ela finalmente atingiu a superfície, toda a tensão que parecia pairar sobre as nossas cabeças veio abaixo, como se as gargalhadas produzidas pelo meu pai fossem a única coisa capaz de expulsá-la. E aquilo me contagiou também. Sem perceber, eu já estava caindo de rir, as lágrimas incontroláveis rolando pelas minhas bochechas. - Nossa garoto, esse seu... ''otimismo''... é um verdadeiro estimulante – disse Cirus, enquanto enxugava os cantos de seus olhos com os punhos da camisa - Devia usá-lo em sua escola. - Escola... ?! - perguntei aéreo, olhando por puro instinto para o grande relógio pendurado na parede da cozinha - Droga, perdi a hora! - Pode deixar... - Cirus gritava para mim, enquanto voava de volta para o meu quarto para pegar o casaco e o material - ... eu te levo até lá antes de terminar a palavra ''atrasado''.


Dito e feito. Foi só eu meu encostar no banco do carona de nosso velho Mustang 64, que me pai disparou pela rua como um louco alucinado, os pneus do carro chiando perigosamente contra o asfalto. E assim como prometera, antes que eu pudesse soletrar qualquer coisa, estávamos derrapando em frente ao portão principal da Academia Constantine. Confesso que, mesmo depois de todos esses anos, eu não conseguia me acostumar ao jeito ''adolescente'' que Cirus dirigia. Muita das vezes, em situações iguais a esta, eu me via como o pai racional e reacionário, e ele como o filho rebelde e cabeça dura. - Destino final! Com uma piscadela marota, Cirus puxou o freio de mão e abriu a porta do carona, seu típico meio sorriso estampando suas feições. Ele nem parecia abalado por ter quase atingido um lampião de rua com a traseira do Mustang, e nem um pouco culpado por ter ultrapassado o limite de velocidade em uma área escolar - algo bem diferente de mim. Eu precisei de uns dois minutos para me recuperar,


murmurar um fraco ''obrigado'' e sair do automóvel. Assim que coloquei os pés na calçada, o Mustang avermelhado acelerou e partiu, se transformando em um borrão até desaparecer na esquina. - Tchau pra você também - falei, enquanto fechava o meu agasalho e seguia na direção do antigo prédio a minha frente. Era mais uma manhã fria como de costume, mas diferente do que se pode esperar, o céu estava claro e azul, pontuado por gigantescas nuvens repolhudas. A fraca claridade produzida pelo sol dava a Ventura um colorido estranho, como se a cidade toda fosse uma enorme aquarela viva. Sempre que eu via aquela imagem, logo me lembrava do que o nosso cartão-postal costumava dizer: ''A beleza da Primavera combinada com o clima do Inverno, durante todo o ano''. Mas nem a paisagem mais bela do mundo poderia me fazer esquecer do horror que teria que enfrentar durante metade do meu dia. Assim que me aproximei dos portões da escola, avistei a pessoa que eu menos queria encontrar logo pela manhã:


Oliver Nigro, rodeado por seus asseclas, encostados preguiçosamente no corrimão da escadaria de entrada, enquanto exibiam para todos os seus agasalhos caros por sobre o paletó vermelho da Constantine. Oliver, único filho do Diretor Nigro, sempre se achou o dono da escola. O pior, parecia que a maioria dos alunos também achavam. Desde pequeno, ele parecia ter me escolhido como seu ''saco de pancadas'' preferido, me constrangendo na frente dos outros e me extorquindo pelos cantos, sempre ladeado por seus amigos mais intimidadores. É claro que, se eu quisesse, já teria dado um fim nesta situação a muito tempo. Mas o que aconteceria se eu, finalmente, desse o troco em Oliver? Sem sombra de dúvidas, era uma idéia tentadora. Mas não seria nada ''legal'' de se ver. Então, tudo o que eu podia fazer era abaixar a cabeça e aturar tudo calado, como um bom garoto. E Deus sabe o quanto eu tive que me controlar para não perder a controle e fazer uma besteira. Seguindo a risca o meu plano de passar o último semestre na escola da forma mais indolor o possível, evitei de


passar na frente do ''Sr. Meu Cabelo Loiro-brilhante é Natural'' e me encostei no tronco de uma árvore próxima. Ainda faltavam três minutos para a sineta tocar, e cada vez mais a calçada frontal da escola se enchia de alunos e professores esperando o começo das aulas. Foi quando o que ninguém esperava aconteceu. Cruzando a rua em direção ao pátio da Constantine, um garoto nunca visto antes seguia lentamente na direção de Oliver e seu grupo. Era um tipo que, só de olhar, você sabia que não tinha nascido na cidade, e era o único em toda a quadra que usava um par de tênis Converse ao invés dos sapatos antiquados do uniforme. O rapaz era alto e magricela, sua cabeleira lanzuda caía desgrenhada sobre a testa e sua pele morena tinha um tom pálido doentio, como se não tomasse um banho de sol à tempos. Não fazia o tipo das pessoas que andavam com Oliver, isso eu tinha certeza. Mas não havia uma alma viva que eu conhecia que se aproximava dos Privilegiados sem ser convidado. Além de todos esses detalhes, parecia que eu conhecia


o novato de algum lugar. E, não sabendo bem o por quê, aquilo chamou minha atenção. Acho que foi a ousadia do garoto, ou o espanto de Oliver ao vê-lo se aproximando, mas de uma forma ou de outra, eu precisava saber o que aconteceria. Sabe, eu podia reclamar bastante desta coisa de ser um Arcano - tenho os meus motivos. Mas quando eu precisava, ter nascido com isto realmente era uma mão na roda. Hoje é um exemplo. Se eu fosse um garoto normal, não poderia escutar nada: a barulheira juvenil de pré-aula era quase ensurdecedora. Mas como eu não era, tudo o que eu tinha a fazer era me concentrar e localizar o ponto onde o som ao qual eu estava procurando era produzido e... ''voilá''! Eu estaria ouvindo tudo da forma mais nítida, como se estivesse participando da conversa. E foi exatamente isto o que eu fiz. O estranho se aproximou tão rápido de Oliver que eu quase perdi o começo da cena. Pelo visto, aquele era o primeiro dia de aula para o rapaz, e tudo o que ele estava fazendo era pedir ajuda para o primeiro veterano que


encontrava - que por acaso era O Veterano. Um engano fatal. - Você está me perguntando aonde é a secretaria? perguntou Oliver, a voz carregada de irônia e falsa surpresa Vem cá, está me achando com cara de Balcão de Informações? Os Privilegiados caíram na gargalhada. Alguns soltavam piadinhas ofensivas para o novato. A maioria das pessoas que estavam perto da escada pareciam ter parado para ver Oliver se fartar com a sua mais nova presa. Porém, novamente contrariando a lógica local, o rapaz também ria com a situação. - Ai, Droga! Mil desculpas - murmurou o estranho, com uma voz que indicava nenhum tipo de arrependimento - é sério, como eu pude ser tão estúpido e não reconhecer vocês? Subitamente, as risadinhas pararam. - Ah, por favor, poderiam me dar um autógrafo? - Um...um autógrafo?! - gaguejou Oliver, desta vez realmente surpreso. -Mas é claro! - exclamou o novato, um sorriso


brilhante iluminando seu rosto - Sabe, eu achava que esta história era puro clichê de filme adolescente, mas conhecer o Rei do Baile Sem Coração e os seus Capangas Descerebrados em carne e osso realmente é uma honra! No mesmo instante Oliver se levantou, o punho preparado para desferir o soco. E no mesmo instante, o Diretor Nigro apareceu no topo da escadaria, salvando o novo aluno com um ''timing'' que ele nunca teve com nenhuma outra vítima de seu filho. - Líon, aí está você, meu rapaz! - exclamou o Diretor, abrindo os braços na direção do jovem - Pelo visto, já está se enturmando! Não é mesmo, Oli? Tive que me controlar para abafar o riso. Era óbvio que Oliver e o garoto chamado Líon nunca seriam amigos. E mais óbvio ainda era a patética tentativa do Dir. Nigro de parecer simpático ao aluno. Ele não era simpático. Pelo contrário, parecia haver uma competição entre ele e o filho para saber quem conseguia ser mais intragável. Só podia haver um motivo para essa repentina mudança de personalidade, e qualquer que fosse, não deveria


ser nem um pouco nobre. - Venha, eu mesmo irei apresentar as instalações da Constantine para você... Ou prefere que o meu filho o guie? Durante um milésimo de segundo, pude ver a hesitação iluminar os olhos castanhos de Líon. Eu compreendia bastante. O Dir. Nigro não era exatamente o tipo de pessoa que você confiava a primeira vista. Nem à segunda vista, falando com sinceridade. Seus cabelos grisalhos e desgrenhados, a barba por fazer, as imperiosas feições leoninas – todo o conjunto parecia refletir uma esperteza com um quê de maligna. Porém, por mais suspeita que fosse a impressão que o Diretor estava causando, qualquer coisa no momento seria melhor do que a fúria invisível que Oliver emanava. Sem escolha, Líon subiu rapidamente a escadaria e se postou diante do administrador geral da Academia. - Muito Bem - Com um gesto largo, o homem enlaçou os ombros do rapaz, o conduzindo de uma forma imperiosa para dentro do prédio ainda vazio - Então, como está se sentindo? Onde está a sua irmã?


- Serina não pode vir hoje - respondeu Líon, o desconforto transparente em sua voz - Acho que ela acordou pouco disposta. Com um leve aceno de compreensão, o Dir. Nigro indicou o caminho à frente e levou o garoto para longe de todos. Quando voltei a minha atenção para Oliver, ele continuava parado no mesmo lugar - chocado pelo comportamento do pai, enraivecido pela perda de sua primeira vítima. Só depois de um cutucão de um dos amigos brutamontes ele pareceu voltar a si, justo quando eu me recuperava de um ataque de riso que acabava de ter. - Está sorrindo por quê, Mestre dos Esquisitos? A sineta impediu a resposta mal criada que eu estava prestes a dar. Mas não me importava. De uma forma inesperada, aquele meu último semestre na Academia Constantine prometia.

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3. S A L V A V I D A S

45

A

ntes de tomar coragem para entrar no prédio principal da

escola, decidi conferir mais uma vez os horários do meu último semestre. Segunda Feira:

1° tempo - Ed. Física.

Olhei para o papel em minhas mãos com extremo mal humor. Eu não suportava as aulas de Ed. Física. De todas as matérias, acho que ela era a única que ficava em primeiro lugar na lista de ''Coisas Que Mais Parecem Uma Tortura Diária''. Mas não me leve a mal - eu não sou nemhum nerd descoordenado. O principal motivo que me fazia odiar as aulas de Ed. Física - logo, tudo relacionado a ela – era bastante simples: por ser um Arcano, eu nunca pude


realmente praticar coisa alguma. Imagine correr, saltar, nadar e fazer outras coisas melhor do que qualquer um em sua escola e não poder nem ao menos demonstrar um terço disto... Era frustrante! Eu poderia calar a boca de muita gente, principalmente de Oliver e sua gangue, mas tudo o que eu podia fazer para não dar bandeira era entrar lá e fingir ser um perdedor total. Perfeito, não acha? Por isso que, quando eu finalmente resolvi deixar o meu abrigo debaixo da árvore, meu ânimo estava no chão. Eu estava cansado de fingir ser algo que eu não era. Logo que eu cruzei o portão de entrada, decidi seguir com

pressa

para

os

vestiários.

O

corredor

estava

completamente tomado por estudantes, e sem perceber, eu era conduzido pelo fluxo de gente em direção a Ala Norte da Academia Constantine. A escola era formada por um conjunto de prédios antigos, com direito à tijolos expostos e uma Torre do Relógio na construção principal. As aulas de Ed. Física eram realizadas no lado mais distante do campus, em uma área


fechada a qual eu chamava carinhosamente de ''Pavilhão de Tortura''. Assim que eu cheguei ao portão do Pavilhão, fui recebido pela bela - e nem um pouco simpática – Treinadora Kara. Ela usava o agasalho oficial da escola por cima do que pareciam ser roupas de banho. Seu cabelo negro estava preso bem firme à um coque, e seus olhos rasgados estavam contorcidos na costumeira carranca severa. - Até que fim as primeira mocinha chegou para a aula - disse a Treinadora, me olhando como se fosse capaz de me fulminar vivo - Ande, vá se vestir... Hoje a aula vai ser na piscina! - Na.. na piscina? - gaguejei, sentindo o sangue se concentrar furiosamente nas minhas bochechas. - E você por acaso é surdo? - resmungou Kara. Sem pensar duas vezes, fiz o que a treinadora havia pedido. Esta era a exata reação de qualquer um depois de se encontrar com a professora de Ed. Física. Sinceramente, eu achava que ela teria se dado muito melhor seguindo carreira em algum lugar mais rígido, tipo o Exército... mas é claro que


não tinha intenção alguma de compartilhar esta minha opinião com ela. Com relutância, troquei o paletó vermelho pelos trajes de banho da mesma cor, corando furiosamente só de imaginar alguém me vendo vestindo estas coisas - o que me lembrava que este era um dos motivos que não me faziam gostar da aula: o uniforme. Nem tanto o tradicional - feito para as atividades na área poliesportiva - e sim o traje de banho. Ele é vergonhoso, é sério. Toda vez que éramos obrigado a vestir estas ridículas sungas pretas junto com a camisa regata cor-de-tomate, as garotas se acotovelavam aos montes na porta do vestiário para conferir nossas... habilidades. E quando digo conferir, estou falando em conferir mesmo - sem pudor algum, e com direito a comentários. Arrepiado só de imaginar passar por esta situação novamente, corri para a beira da piscina, tentando esperar com paciência a hora que a aula iria começar. Só então percebi que o meu desconforto era cada vez mais palpável. A cada olhar que a Treinadora Kara lançava em minha direção,


era um gemido que eu produzia. Depois de mais cinco minutos, a turma se encontrava pronta e em formação diante da Treinadora. Ela caminhava imperiosamente a nossa frente, como um General em revista às tropas. Seu andar era firme e duro, e eu podia jurar que a cada passo que ela dava no piso de mármore, as águas na beira da piscina tremeluziam. - Ora, ora, ora... se não é a minha adorável turma de formandos - a Treinadora Kara parou diante de nós, com uma inegável expressão de satisfação sádica. Seus olhos faíscavam de uma maneira sombria, e ela parecia pronta para nos inflingir uma longa seção de dores e terror. Porém,

antes

dela

poder

continuar

com

seu

terrorismo psicológico, as portas do ginásio aquático foram abertas tão inesperadamente que surpreendeu não só a professora como também toda a classe. - Diretor Nigro!!! - exclamou a Treinadora, enquanto admirava estarrecida a figura leonina que invadia o pavilhão - Que visita inesperada... Como posso ajudá-lo? Com um leve sorriso, o administrador se aproximou


de onde estávamos e abrangeu a todos com um balançar de cabeça que pretendia ser paternal. - Ora, minha doce Kara, não se preocupe com nada... - pigarreou o diretor com uma piscadela marota - Não estou aqui para inspecionar suas aulas. Para falar a verdade, só estava apresentando o maravilhoso campus da Constantine para a nossa mais nova aquisição escolar! Ainda sorridente, o homem se virou e fez um pequeno sinal para a sombra escura que o esperava na porta do ginásio. De início, eu não podia dizer quem era. Tudo o que eu via era uma forma alta e magra recortada contra o sol da manhã, que parecia não estar muito animada em se aproximar do nosso grupo. Mas, depois que o diretor se mexeu novamente e encorajou a pessoa a chegar mais perto, eu pude reconhecer o novato sem nem olhar para o seu rosto. Líon, que já usava os trajes de banho vermelhotomate, caminhou incomodamente até parar entre a treinadora e o administrador da escola. O constrangimento parecia estar estampado na face do garoto, e como se pudesse


ser possível, sua pele castanha parecia estar mais pálida do que o normal. - Treinadora... formandos... gostaria que vocês conhecessem e cumprimentassem nosso jovem companheiro, Líon Biel! Sem disfarçar o movimento, o Dir. Nigro empurrou o garoto para o centro do círculo formado, numa tentativa mais do que furada de fazer o novato se enturmar com os novos colegas de classe. Sem saber o que fazer diante da situação, Líon reuniu toda a coragem que tinha, se empertigou e tentou lançar um ''positivo'' para a turma a sua volta - mas tudo o que conseguiu foi um olhar carrancudo de Oliver e uma conferida de cima à baixo das garotas mais próximas. Percebendo tardiamente que não tinha como a cena melhorar, o administrador abrangeu novamente a turma com o olhar e começou a recuar lentamente do grupo. - Bom, Kara, pelo visto o meu trabalho por aqui já está feito! - comunicou o diretor, o rosto púrpura como uma beterraba - Acho que nos veremos na Sala Reservada durante


o intervalo, não? - sem nem esperar por uma resposta para a pergunta, o homem acenou uma última vez para a professora e virou-se sem cerimônia alguma para tomar o caminho de volta para a saída do ginásio, o andar tão apressado que mais parecia que ele queria fugir do local o mais rápido que podia. No instante em que a porta de metal se fechou novamente, a Treinadora Kara voltou a sua atenção para a classe com força total - o seu ''olhar assassino'' mais poderoso do que nunca. O novato, que ainda não havia sentido a áurea letal que emanava da professora, tremeu ligeiramente da cabeça aos pés - acompanhado por todos os alunos, que pareciam ter prendido a respiração ao mesmo tempo, como se pudessem pressentir o que a mente engenhosa da professora poderia estar maquinando. -Como vocês devem saber - prosseguiu a Treinadora na minha matéria, o primeiro bloco do último semestre dos formandos da Academia Constantine é dedicado para as

atividades aquáticas.

Atividades Aquáticas.


Não sabia bem o por quê, mas eu não havia gostado nem um pouco do tom que a professora usou para falar esta frase. Era quase como um agouro... como se algo realmente ruim nos esperasse na piscina.

Besteira, pensei, enquanto sacudia a cabeça e continuava a ouvir o que ela dizia. - E já que posso ver que vocês estão devidamente preparados - ela inclinou-se brevemente para Líon, um sorriso maligno iluminando seu rosto oriental - acho que posso revelar que nossa primeira modalidade será: O Salto em Altura! Como esperado, a turma inteira se encolheu diante da ''novidade'' da professora. Salto em Altura? No que ela estava pensando? Posso afirmar com segurança que nenhum de nós - incluindo eu nunca havíamos pulado de lugar algum. Quanto mais de uma plataforma de concreto gigante à beira de uma piscina ''não tão'' funda. - Hei, por que estas carinhas tão preocupadas? perguntou a Treinadora, com uma risada cristalina - Eu vou


chamar um nome de cada vez, e aí, vocês só terão que subir na plataforma e saltarem para água! Uau, ela falando desse jeito fazia parecer tão simples... uma pena que não era. - Hum, Treinadora? - Oliver se destacou do grupo, seus ombros rígidos denunciando o tremor que ele tentava ocultar - Nós vamos ganhar algum... sei lá... bônus por tarefa concluída? -Bônus? - resmungou Kara, o rosto fechado – Superar os próprios medos já vai ser um bônus e tanto. Andem, formem uma fila descente! Sem perder tempo, formamos uma fila única e por tamanho diante da plataforma. A treinadora Kara se postou próxima a escada que levava ao topo da área de salto, seus olhos varrendo a longa lista com os nossos nomes, o papel preso à uma prancheta vermelha com o símbolo da Academia Constantine. Depois de um tempo concentrada, ela ergueu os olhos da listagem e anunciou o primeiro nome que iria se destacar do grupo e realizaria a tarefa:


- Alice Corvel! Alice, uma garota baixa e magricela, saiu logo da frente da fila e subiu na plataforma. Todos, até mesmo Oliver, pareciam apreensivos diante do que estava por vir. Sem se abalar, ela se posicionou à beirada do declive, ergueu os braços esguios e pulou. Durante o pequeno tempo em que o corpo frágil da veterana esteve no ar, a turma inteira prendeu a respiração. Só após que a cabeleira ruiva se destacou das bolhas produzidas na água foi que o grupo se permitiu relaxar, e os amigos mais chegados da garota esgueiraram para a beira da piscina e à ajudaram a sair de lá. - Ora, até parece que foi a coisa mais difícil do mundo! - retrucou Oliver para os seus seguidores, a voz abafada pelo barulho dos aplausos da turma. - Muito bom, jovem Nigro... - a treinadora Kara riscou o nome de Amanda da lista e virou-se para encarar o filho do diretor - Isto mostra que o senhor deve estar querendo ser o segundo candidato à enfrentar nossa pequena prova, não?


Oliver congelou no lugar. Estava claro que o seu comentário não significava nada além de pura inveja. Mas como a professora poderia ser tudo, menos injusta, era óbvio que ele agora se via obrigado a se apresentar realmente como segundo candidato para saltar. Reunindo toda a dignidade que podia, Oliver se encaminhou para a plataforma, seu olhar distante só ressaltando seu arrependimento por ter falado na hora errada. Com um ligeiro aceno de cabeça, ele se curvou e saltou para o fundo da piscina. Confesso que, por um milésimo, eu fiquei um tanto preocupado com a segurança física dele. Mas logo depois que o vi se erguer na beirada mais distante do tanque, com seu habitual sorriso presunçoso no rosto, qualquer traço de solidariedade que eu podia ter sentido se esvaiu pelo ralo mais próximo. - Eu disse que não era nada! - Oliver se vangloriou, retirando o cabelo ensopado da frente de seus olhos, ao mesmo tempo em que exibia-se para as garotas da classe. Mais três alunos - mais três saltos. Com o passar do


tempo, pude perceber que a tarefa não era tão assustadora quanto eu imaginava. Era difícil, sim, mas não impossível. Cada vez mais nomes eram chamados e, aos poucos, a fila diminuía. Sentia que o momento em que eu seria escolhido estava se aproximando e, por mais envergonhado que estivesse, estava pensando seriamente se não apelaria para uns de meus dons. Sim, eu sabia muito bem que era errado - uma trapaça - mas na verdade, estava começando a ficar cansado de fingir ser um ''garoto tapado''. A treinadora Kara terminou de cumprimentar Daniel Maltha por seu salto espetacular e voltou a sua atenção para a prancheta. Fiquei parado, a determinação em pessoa, esperando escutar o meu nome se anunciado em voz alta. Mas não foi isso que aconteceu. A professora levantou a cabeça, inspirou rapidamente e chamou: Líon Biel. Foi inesperado. Líon piscou umas duas vezes até perceber que era ele quem iria saltar. Sem acreditar, o novato olhou para todos ao seu redor, uma súplica silenciosa por


ajuda desfigurando-lhe o rosto. Tentei fazer uma careta encorajadora, mas só o que consegui foi parecer estar em choque. Desarmado, o rapaz caminhou lentamente para a plataforma, os ombros caídos e o ânimo no chão. A cada degrau que ele subia, a pouca cor que ele tinha se desvanecia. Assim que o rapaz chegou ao topo da plataforma, senti um calafrio estranho. Não era igual a nenhuma sensação que eu havia sentido antes: era pior. Como um cântico agourento, o medo chegou e me pegou, engolfandome em uma neblina cinza e gélida. O terror acelerou as batidas de meu coração, e as sombras no ginásio se atenuaram,

transformando-se em formas estranhas

e

tenebrosas na parede. ''Droga, o que está acontecendo?'', me perguntei, sentindo o pânico correr pelas minhas veias. Sacudi vigorosamente a cabeça, uma fraca tentativa de recuperar a pouca sanidade que tinha. Minha visão estava turva, a audição abafada, e o estranho palpitar no meu peito parecia me puxar até o topo da plataforma, onde Líon se preparava para pular.


Sem me dar conta do que estava fazendo, olhei na direção do novato, procurando pelo sinal que o meu corpo emitia... E foi neste momento que eu o vi. Para meu espanto, Líon não estava sozinho na plataforma. Logo atrás dele - parado com um olhar maligno havia um rapaz alto e forte, de cabelos tão vermelhos quanto o fogo. Ele não usava nada além de uma calça comprida de brim preta, e eu não sabia o por que, mas ele me parecia terrivelmente familiar. De início eu não conseguia encontrar uma razão para aquele cara estar parado junto com o novato em cima da plataforma. Mas, antes que eu pudesse fazer alguma coisa, a minha ficha finalmente caiu. No exato momento em que Líon tencionava os joelhos, na beira da grande murada, o estranho se aproximou e - com uma satisfação sombria - empurrou o garoto... fazendo o corpo do novato se precipitar e cair erroneamente em direção à piscina. Sem pensar em nada, me libertei da força que me


pregava ao chão e corri o mais rápido que pude. Para meu desespero, vi o rapaz girar pelo ar como uma gigantesca boneca de pano, suas mãos e seus braços balançado estranhamente em volta do corpo. Me joguei na piscina ao mesmo tempo em que escutava o som aterrador do choque de Líon com a massa de água gelada. Com um forte arrepio na espinha, prendi a respiração e senti o impacto do meu próprio mergulho sobre a pele. Quando abri os olhos, tudo em minha volta era de um azul celeste, surreal. Mergulhei mais à fundo na piscina, as bolhas produzidas pelos meus movimentos atrapalhando a minha busca. Então eu o encontrei - esparramado no chão do tanque, o rosto sereno como se dormisse dentro da água. Foi assustador o ver ali imóvel, seus cabelos revoltos contra a água, sua cabeça balançando preguiçosamente sobre o pescoço. Com mais duas braçadas, cheguei perto o suficiente para poder ergue-lo com minhas mãos. Ao tocar o seu pulso, percebi que os batimentos de Líon ficavam cada vez mais


lentos. Não perdendo tempo, o puxei para cima, lutando internamente contra a sensação de derrota que me consumia. Depois de abraçá-lo pela cintura, nadei com todas as minhas forças para a superfície. Antes de chegar ao topo, eu já podia ver os rostos da Treinadora Kara e dos outros alunos debruçados na margem da piscina, a preocupação e o medo visíveis mesmo com o rodopiar da espuma à minha frente. Antes do esperado, a luz artificial do Pavilhão cegou os meus olhos e uma algazarra de sons incompreensíveis tapou os meus ouvidos. Incontáveis pares de mãos içaram o meu corpo e o de Líon para fora do tanque, me fazendo expelir ruidosamente todo o ar que havia prendido durante o tempo em que ficara de baixo d'água - e me despertando por completo to torpor momentâneo no qual estava envolvido. Sem paciência, escapei rapidamente do grupo que se inclinava sobre mim e me arrastei para o lugar onde Líon recebia os devidos cuidados. - Ele está bem? - perguntei à professora, minha garganta seca como se estivesse sendo consumida por chamas.


- Eu não sei explicar - sussurrou a Treinadora Kara, examinando o pulso do novato com uma expressão de angústia. Com o coração na mão, me levantei e procurei pelo estranho que havia empurrado Líon da plataforma contra a piscina. Girei o meu corpo em todas as direções, tentando encontrá-lo aonde quer que estivesse, mas tudo o que via era o olhar preocupado dos meus companheiros de classe. Completamente vencido, praguejei uma maldição para mim mesmo e me sentei novamente ao lado do garoto. Seu rosto continuava com uma cor pálida estranha, e seus olhos fechados eram como cadeados de um diário secreto. Eu não podia imaginar quem poderia querer o mal dele, mas qual fosse a identidade do estranho, eu iria encontrá-lo.

62


4. E S P E L H O

63

-

A

cho que devemos levá-lo para a enfermaria, não? - Alice

Corvel espiava alarmada a cena por cima do braço de Daniel Maltha, as mãos apoiadas ingenuamente no ombro musculoso do rapaz. - Boa sugestão... - concordou a Treinadora Kara, avaliando cada aluno da turma com seus olhos puxados – Mas deve ser alguém que consiga carregar o garoto daqui até o Prédio Principal com o maior cuidado possível. - Eu posso levá-lo - me ofereci, mandando a cautela às favas. Sem esperar o consentimento da professora, me levantei em um pulo e ergui Líon como se segurasse um recém-nascido. No mesmo ritmo, me desviei das pessoas ao nosso redor e segui na direção da saída. Com um empurrão, abri uma das folhas de metal que formavam o portão do ginásio, andando tão apressado que nem parecia que


carregava uma pessoa de quase 80 quilos no colo. Mas eu carregava. E por onde passava, as pessoas pareciam notar este pequeno detalhe também. Com um suspiro, me esforcei para fazer uma careta de cansaço enquanto atravessava às pressas o campus da escola, indo em direção à Enfermaria no Prédio Principal. Isto não devia importar agora, mas por mais preocupado que estivesse com o bem estar do novato, não podia de forma alguma deixar que alguém suspeitasse de mim mais do que já era de costume. Mesmo com os solavancos que eu dava pelo caminho de pedra no pátio, o rapaz não se movimentava um milímetro

sequer.

Seus

olhos

continuavam

cerrados

melancolicamente e sua respiração ainda era pesada, como se ele se esforçasse para fazer uma tarefa tão simples. Não conseguindo mais conter a agonia, comecei a murmurar cada vez

mais

alto

os

meus

pensamentos,

esperando

ingenuamente que aquilo ajudasse o garoto em meus braços de algum jeito. -Ah, vamos lá cara, reaja! - resmunguei, no momento


em que eu entrava no corredor da enfermaria. - Reagir a quê? - uma voz seca me interrogou, me fazendo parar com o susto. Olhei abismado para o novato, não acreditando no que havia escutado. Mesmo conservando a palidez anormal e respirando com clara dificuldade, Líon parecia cem por cento melhor. Seus olhos, grandes e curiosos, agitavam-se em todas as direções e seus braços magros e compridos tentavam inutilmente se livrar do aperto inconsciente que eu dava. - Hei, o que está acontecendo aqui? - perguntou Líon, a confusão estampada em seu rosto redondo. No mesmo instante, o prof. Novaz - responsável pela enfermaria e pelas aulas de Biologia - veio correndo na minha direção, obviamente já avisado por telefone pela Treinadora Kara. - Pode deixar, Adrian - ordenou ele, tomando o novato dos meus braços e voltando para a sala às suas costas Eu cuidarei dele partir de agora. - Não, eu vou com vocês - disse em voz alta, num tom mais rude do que pretendia.


O professor se virou brevemente e concordou com impaciência. Sentindo um estranho puxão na beirada do estômago, segui os dois pelo corredor e entrei sem cerimônias na enfermaria. A sala era branca e contava com apenas uma maca, um armário para os medicamentos e uma pequena mesa cheia de papéis que deviam pertencer ao socorrista. Com uma habilidade impressionante, o jovem prof. Novaz pôs Líon cuidadosamente sobre a maca, sem demonstrar ter consciência de minha presença logo atrás dele. Em poucos minutos, o homem examinou a garganta do novato, mediu sua temperatura, verificou a pressão e escutou seus batimentos cardíacos. Líon observava tudo com uma feição curiosa, parecendo extremamente encantado com a situação. Nem parecia que aquele garoto havia quase partido desta para uma melhor há poucos instantes. Percebendo a minha expressão especulativa, o prof. Novaz se afastou do paciente, deu a volta na pequena enfermaria e sentou-se pesadamente na cadeira logo atrás de sua mesa.


- Bom - suspirou ele, arrumando a papelada sob a bancada - pelo visto, toda essa confusão não passou de um susto. - Um susto? - Eu mais uma vez falava com o socorrista mais alto do que na verdade queria - Professor, o Líon despencou de quase oito metros de altura! - Eu sei muito bem de onde o aluno Líon caiu - o prof. Novaz pareceu encontrar um papel pelo qual estava procurando e se levantou - Mas, pelo exames preliminares, tudo indica que ele está perfeitamente bem. Agora, se vocês me permitirem, irei avisar ao responsável do jovem sobre o ocorrido... -Não! - Líon exclamou, a voz ainda seca, porém demonstrando estar bastante consciente da situação. - Não?...Mas por quê? - o professor se deteve à porta da enfermaria, fazendo uma careta de espanto à reação inesperada (e exagerada) do aluno. - É que... é que... bem - o novato ergueu-se devagar, encostando sua cabeça na parede branca e colocando suas pernas para fora da maca - Meus pais devem estar acabando


de descarregar as nossas coisas na casa nova e... acabamos de chegar de Dumont... bom, não queria atrapalhar eles com uma coisa tão boba. O homem continuou parado, ainda sem entender aonde o rapaz queria chegar. - Senhor, acho que deve saber... - suplicou Líon, passando as mãos pelos cabelos molhados, o constrangimento estampado em cada gesto - Meu pai e minha mãe passaram por bastante dificuldades nesses últimos tempos... A última coisa que eu quero é estragar um raro dia de calmaria para eles com uma coisa que, segundo o senhor, nem teve tanta importância assim! O discurso de Líon parecia ter pego o prof. Novaz de calças curtas. Por um segundo, ele pareceu refletir sobre o que o garoto dissera - como se decifrasse uma misteriosa e difícil mensagem cifrada - até menear molemente a sua cabeça, demonstrando ter perdido a pequena batalha mental na qual travou consigo mesmo. - Se é assim que você quer... - ele entrou de novo na sala, detendo-se rapidamente na sua pequena bancada – Mas


você vai me prometer uma coisa: enquanto eu estiver na secretaria resolvendo alguns negócios, o senhor vai ficar aqui descansando, O.k.? -

Tudo

bem

-

concordou

Líon,

claramente

entusiasmado. - Hum - resmungou ele, olhando com cautela para o estranho entusiasmo do novato – Adrian, se não for pedir muito, será que poderia ficar de olho neste rapazinho para mim, por favor? - Sim, professor, é claro que eu fico - me prontifiquei, saindo de perto da parede e me postando perto da maca onde Líon continuava sentado. O prof. Novaz encarou mais uma vez o rosto abatido de Líon, viu as horas e deixou a pequena enfermaria com passos largos. Logo após, o novato levantou-se da cama e, com uma determinação assustadora, se virou na minha direção e me observou - como se os seus olhos fossem na verdade um par de detectores de mentira humano. - Como você fez aquilo? - ele me perguntou, sua voz ainda seca soando muito mais sinistra do que se estivesse com


o seu timbre normal. - Fiz o quê? - devolvi com outra pergunta, sabendo exatamente sobre o quê ele estava falando. Sem mistério algum, eu podia ver a questão implícita bem diante de sua testa castanha: Como eu tinha conseguido salvar ele, antes mesmo que qualquer outra pessoa tivesse notado o que realmente acontecera? Bom, na verdade, nem eu sabia. É claro que suspeitava que tivesse alguma coisa a ver com os meus dons de Arcano. Mas a questão é que nunca havia sentido nem presenciado algo como aquilo... nunca havia vivenciado uma experiência que chegasse ao menos perto daquela. Pra ser sincero, eu estava tão impressionado quanto Líon devia estar. E era certo que ele estava. Por um bom tempo ele me analisou. A sensação de ser scaneado por inteiro, provocado pelo olhar inquisidor do rapaz, permaneceu sobre mim no que me pareceu uma eternidade. No fim, Líon me libertou do estranho poder de seus olhos, parecendo - no mínimo - conformado com a minha ''não resposta''.


- Obrigado - ele disse simplesmente. - Não à de quê - eu respondi, só agora percebendo que havia atravessado a metade da escola com um garoto nos braços e vestido apenas com os ridículos trajes de banho vermelho-tomate. Parecendo entender o meu embaraço, Líon sorriu e voltou a se sentar na maca de vinil negro. Ele arriou a cabeça e sem querer acompanhei o seu olhar pelo piso claro da enfermaria,

completamente

marcado

por

nossos

pés

descalços e molhados. - Me desculpe, acho que estou sendo rude – disse o garoto de repente, obviamente tentando acabar com aquele silêncio constrangedor – Eu me chamo... - Líon Biel – completei sem pensar, antes mesmo que o rapaz terminasse de falar – Eu estava no Pavilhão... quero dizer, no Ginásio quando você chegou. Rapidamente, o novato se interrompeu, o seu rosto pálido ganhando um leve tom de roxo ao se lembrar da cena embaraçosa que o Dir. Nigro o forçou à passar. - Sinto muito, acho que agora quem foi rude fui eu –


continuei, percebendo na mesma hora a gafe que tinha acabado de cometer – Por que não esquecemos estes últimos instantes e começarmos do zero?... Bom, eu me chamo Adrian. - Prazer em conhecê-lo, Adrian – disse Líon, meneando levemente a cabeça na minha direção como quem faz uma reverência. Assim que ele se reergueu, nós dois nos entreolhamos e – sem nenhum motivo aparente – começamos a rir. Era óbvio para os dois que nem ele e nem eu tínhamos muito tato quando o quesito era ''relações interpessoais'', e se nós continuássemos tentando, o estrago só seria maior. Como se para provar esta teoria, aos poucos as nossas risadas foram minguando. Ainda mantínhamos um riso cúmplice nos lábios, porém a sombra do nosso silêncio pesado de pouco tempo atrás começava a ameaçar reinar novamente na enfermaria. - Sabe, por que você não quis realmente chamar os seus pais? - me ouvi interrogando, antes mesmo de pensar em me refrear. Era algo estúpido para se perguntar, e eu


tinha plena consciência que só estava fazendo aquilo para que o silêncio não caísse de vez sobre nós. Só que, além disto, havia algo que estava me incomodando. Eu sabia que ele não havia simplesmente escorregado... Mas eu tinha que conter a minha língua para não falar demais. - Acho que você, assim como metade dessa cidade, deve saber, não? - ele murmurou, os olhos ainda detidos no chão - Meu pai e minha mãe mal se recuperaram do meu último susto... Não quero que eles saibam de mais um erro meu. - Não foi um erro seu! - rebati, tentando descobrir o que Líon achava que eu sabia, ao mesmo tempo em que me lembrava com clareza do que tinha acabado de acontecer. Você estava apenas fazendo o que a doida da Treinadora Kara havia pedido quando... Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, eu calei a minha boca. Só pela cara do novato, dava para ver que eu começava a falar demais. De alguma forma sinistra, ninguém além de mim havia visto o cara estranho na plataforma. E aquilo começava a me assustar ainda mais.


Líon me encarou novamente, mas desta vez seu rosto não indicava que ele me avaliava – e sim, indicava que ele admirava o estranho fato de eu demonstrar estar preocupado com o seu bem estar. O que, sem sombra de dúvidas, me fez corar como um louco. - Seus pais devem ter muito orgulho de você. - Meu pai - corrigi, olhando tão atentamente para o chão que podia vislumbrar as falhas nos rejuntes do piso. - Droga, me desculpe - Líon se deu um forte tapa na testa, esperando que isto soasse como uma forma de punição para o seu deslize. Após um segundo, ele limpou a garganta e prosseguiu - Se bem que... hoje em dia é muito normal vermos pais separados. Em Dumont, eu tinha vários amigos na mesma situação que a sua. Mordi meus lábios com força, para tentar conter o riso desenfreado que surgia de novo. Ele estava entendendo tudo errado. - Não Líon, meu pai não é separado... - expliquei, conseguindo tirar minha atenção da trama de rejuntes – Ele na verdade é viúvo.


- Pausa para o momento ''me abra um buraco no chão que eu quero fugir!''- Líon deitou-se na cama com força, a mão esquerda na testa e a direita em seu pescoço, tentando se matar de duas formas diferentes. - Deus, eu não dou uma dentro! Me encostei na parede e esperei o novato terminar de se auto-flagelar. No fim, ele se recompôs, respirando lentamente e murmurando mais mil desculpas para mim. - Está tudo bem - respondi com sinceridade - Eu não tive muito contato com ela. O que era cruel de se dizer, eu reconheço, mas era a mais pura verdade. Só que isto fez com que, mais uma vez, nós ficássemos calados - só encarando um ao outro – sem saber como continuar. - Quando foi que ela... você sabe, se foi? - eu podia ver todo o arrependimento de Líon por perguntar algo tão pessoal através apenas de sua expressão. - Se não quiser responder, eu entendo! - acrescentou ele de forma rápida. - Assim que deu a luz à mim. - respondi, mesmo sabendo que não tinha nenhuma obrigação de contar aquilo


a ele. Mas, no fundo, eu sempre quis contar aquilo. Na verdade, eu sempre quis contar qualquer coisa para alguém. E além do mais, Líon foi o único - além de Cirus - a me fazer uma pergunta tão pessoal em todos esses meus dezoito anos. Acho que ''devia'' essa resposta a ele, como forma de gratidão por um momento tão incomum. Ficamos em silêncio mais uma vez, os dois virados na direção do armário de remédios, por um bom tempo. Assim como acontecia todas as vezes que eu me recordava de minha mãe, fechei os meus olhos e tentei puxar alguma lembrança em que ela estivesse envolvida. E como sempre, só o nada preenchia a minha mente - ocupado apenas pela imagem das fotos espalhadas por nossa casa-de-bombeiros e pelo nome presente em minha certidão de nascimento: Helena Regis. - Acredite, se sua mãe soubesse o que você fez por mim hoje, ela teria muito orgulho de você - a voz de Líon já devia estar voltando ao normal, mas ao dizer aquilo, eu podia jurar que ela havia falhado - Pode ter certeza disto. Antes que eu pudesse agradecer, o prof. Novaz entrou


na enfermaria a passos largos, se postando mais uma vez à frente de Líon e o examinando rapidamente. - E agora, como você está? - Acho que bem melhor - o rapaz encolheu os ombros, a careta de curiosidade e inocência de volta a sua face. - Hoje realmente foi um dia difícil para você – o professor sentou-se em sua mesa, pegou um pedaço de papel com o timbre da Academia e começou a escrever - Por que nós não aproveitamos e lhe damos uma folga? Líon fitou o socorrista sem palavras. Em um pulo, ele se levantou e pegou a licença assinada pelo prof. Novaz com as mãos trêmulas e uma expressão arrebatada. - Obrigado, obrigado, obrigado - ele repetia enquanto me acompanhava de volta para o corredor, o rosto afogueado de adrenalina. Nós começamos a caminhar para a saída quando, num surto de inspiração, ele parou, girou nos próprios calcanhares e se inclinou de volta para a enfermaria. - Ah, senhor... - O rapaz se dirigiu novamente à sua bancada, a face tristonha e abatida. - Posso lhe pedir um


outro favor? - Claro que pode - O professor fitou Líon sem entender. - Hum, o senhor sabe que eu não quero fazer muito alarde sobre o ''incidente da Ed. Física'' - ele revirou os olhos deliberadamente, como se o seu quase afogamento estivesse em um passado bem distante - Mas eu não tenho muita certeza se consigo ir sozinho para casa... Parecendo cansado e distante dali, o socorrista pegou mais um papel timbrado, rabiscou de uma forma ligeira sobre ele, e depois o entregou a Líon. Com um último sorriso, o aluno agradeceu a ajuda e se voltou para mim, um brilho triunfante iluminando o seu rosto. - Aqui - ele me estendeu o papel, quando já estávamos de volta ao corredor - sua carta de alforria por hoje. Logo que eu terminei de ler o que havia escrito nele, tive que parar de andar. Eu estava em choque. Não podia acreditar no que estava em minhas mãos. - Você arranjou para mim uma dispensa escolar? perguntei com a voz entrecortada pela surpresa. - Eu nunca


tive uma dispensa escolar em, tipo, toda a minha vida! - Bom, para isso, você vai ter que me levar para casa ele levantou as mãos, como se isso pudesse ser um impasse mas, como depois vai ter um dia inteiro de folga... Acho que estou meio que pagando a minha dívida por... bom, por tudo o que você fez hoje! Continuei parado no corredor, olhando do papel para Líon. Após uns segundos, o novato estalou os dedos diante de mim, olhou ao redor e disse: - Hei, cara... Acho que você não percebeu que estamos no meio do corredor, usando apenas sungas e camisetas! Sentindo um grande sorriso tomar conta do meu rosto, acompanhei o rapaz de volta para os vestiários do Pavilhão da Tortura, mais apressado do que antes. Mesmo usando aquela roupa ridícula, eu me sentia bem. Pois, se houvessem mais pessoas como o Líon estudando na Constantine antes dele chegar - sem duvida alguma - a Academia não teria sido o lugar infeliz que foi para mim nestes últimos onze anos.


5. O A N J O

81

L

íon e eu saímos do Prédio Principal da Academia

Constantine no exato momento em que o sino da torre do relógio anunciava para todo o quarteirão o começo do segundo período. O sol estava apino, mas como de costume, o vento ártico varria a rua da escola, que se encontrava deserta aquela hora do dia. - E então - puxei assunto, enquanto terminava de abotoar meu agasalho por cima do uniforme - você mora muito longe daqui? - Não muito - disse Líon - mas você não precisa

realmente me levar pra casa... Eu só estava brincando. - Tudo bem, eu levo mesmo assim... - completei, seguindo o caminho que ele tomava - vai que você atravessa a rua sem a devida atenção e não tem niguém lá pra te salvar do atropelamento iminente? Olhei sarcasticamente para o novato, no mesmo


instante em que ele se virava para mim e me mostrava o dedo médio - o que foi muito grosseiro, não nego, mas me fez cair na gargalhada. Afinal, mesmo quando estava aborrecido, Líon era uma pessoa fácil de se lidar. E diferente dos outros garotos de Ventura, ele não parecia esperar que eu lhe transmitisse algum tipo de doença mortal ou qualquer coisa do tipo. - Bom, não pode negar que há uma possibilidade... continuei, logo depois de ter certeza que ele parecia não estar mais irritado. - e que seria realmente útil se houvesse alguém por perto. - Sabe, você tem razão - concordou Líon de má vontade - São poucas as pessoas que tem a oportunidade de conferirem o meu ''pendor para desastres'' logo no dia em que me conhecem. - Então devo ficar honrado? - perguntei, a expressão sarcástica ainda em meu rosto e em minha voz. Só pela careta de Líon, percebi que ele estava falando sério quanto a história de ''pendor para desastres''. Sem sombra de dúvidas, eu havia encontrado um concorrente


sério para o prêmio de Azarado do Ano. Só que tinha certeza absoluta que a má sorte dele só não era maior que a minha por um mero detalhe: Ele não precisava se preocupar em esconde-la toda vez que botava os pés para fora da cama. Depois de atravessarmos duas avenidas e percorremos quatro blocos, entramos em uma rua calma e arborizada. Ela era composta basicamente de residências altas e estreitas, os jardins sem muro se resumindo a um quadrado na calçada, as casas separadas umas das outras apenas por pequenos vãos entre as paredes - assim como todas as áreas residenciais da cidade. Eu conhecia bem aquele lugar. Usando como referência a vista panorâmica que eu tinha do meu telhado, aquela parte de Ventura ficava atrás da minha casa, duas quadras abaixo. Era engraçado imaginar que, hoje pela manhã, eu não estava com a mínima vontade de ir para a escola e, agora, eu estava contando as horas para que o dia seguinte chegasse logo. Como eu imaginaria que iria conhecer o primeiro aluno decente da Constantine no meu último semestre lá?


Antes do esperado, nós já havíamos chegado à residência de Líon e estávamos parados em frente à pequena escada de entrada da morada dos Biel. Eu estava prestes a me despedir do garoto quando algo surreal me paralisou: um vulto escuro e baixo surgiu no batente da porta, um silvo agudo escapando de suas presas à mostra. Antes que pudesse pensar em fazer alguma coisa, a sombra negra arqueou o corpo e saltou na minha direção, suas garras longas e afiadas prontas para perfurarem o meu rosto. Me preparei psicologicamente para sentir a dor aguda do ataque... mas não foi o que ocorreu. Com uma agilidade inesperada, Líon aparou o vulto com as mãos e o aninhou em seu colo. Foi só então que eu percebi que a coisa que havia acabado de tentar me atacar não passava de um gordo e feio gato preto de olhos amarelos. - Ai, ai, ai! O que foi isso Sortudo? - Líon ralhava com o animal, mas o bichano continuava a me observar irritado O papai já não disse que não se deve atacar às visitas?! - Papai? Sortudo? - eu sabia que meu rosto devia estar em choque. E o gato continuava me encarando ferozmente,


os pelos da nuca eriçados e suas pequenas presas arreganhadas como uma placa de aviso. - Sim, ele é meu - respondeu o novato, ainda distraído em sua tentativa de acalmar o felino - Ganhei de presente da minha irmã, Serina... uma brincadeira com toda a história da minha ''má sorte''. Bom, se Líon estava tentando mudar a sua fortuna, eu tinha absoluta certeza que ter um gato preto como bicho de estimação não estava ajudando muito. Não que eu não goste de gatos - pelo contrário, são eles que não gostam de mim! Uma vez, quando eu era menor, um gato de rua tentou arrancar os meus olhos só por que passei perto demais. Depois do episódio, meu pai me explicou que geralmente animais e insetos podiam reconhecer quando uma pessoa era completamente normal ou era ''tocada'' por algo sobrenatural. O único problema nisto estava no fato de que geralmente os gatos (assim como a maioria dos seus irmãos felinos) eram os únicos que não sabiam reconhecer quando o ''toque'' significava ser algo bom ou ruim - o que os deixam arredios e violentos sempre que se deparam com algo


que não consideram natural. Resultado: não importa se você é um Arcano ou algo muito pior, gatos sempre irão querer acabar com a sua raça. Enquanto Líon tentava inutilmente acalmar os ânimos de Sortudo, resolvi admirar um pouco a faixada da casa dos Biel. Assim como os outros prédios da rua, a construção era de um tom escuro, com o telhado cor-de-chumbo em diagonal, inclinado na direção da entrada, e o canteiro ao lado da pequena escada repleto de flores coloridas. Eu não podia enxergar muita coisa do seu interior - quase todas as janelas estreitas estavam cobertas por finas camadas de cortinas de seda clara. Quase todas... exceto uma. Logo acima da entrada, uma janela se encontrava ligeiramente entreaberta. As cortinas pendiam livres atrás do vidro, formando uma pequena brecha pela qual podia-se ver o teto rebuscado de um quarto e a luminária delicada fixada no centro. Sem saber muito bem o por que, fixei o meu olhar naquela direção e não desviei mais. Parecia que uma estranha força me conduzia naquela direção, como por encanto.


Não era a mesma sensação que eu sentira na piscina com o Líon. Muito pelo contrário. Era como se todo o meu instinto quisesse ficar parado ali, só admirando aquele pedaço do cômodo, sem ver o tempo passar. E foi isto que eu fiz, por longos minutos. Parte de mim ainda podia vislumbrar a pequena luta do novato com o seu gato, e outra pequena parte parecia estar atenta ao fato de eu estar parado no meio de um rua completamente estranha. Porém, todo o conjunto dominante, desde os meus nervos até a consciência, pareciam estar interligados àquela janela - como se esperassem que algo grandioso e surpreendente pudesse acontecer a qualquer instante. E para o meu total espanto, aconteceu. Detrás do véu de seda, um rosto belo e delicado como o de um anjo surgiu, observando a rua deserta. Uma longa cascata de cabelos cor-de-chocolate emolduravam a face estranhamente perfeita, sua pele castanha irradiando fracamente os raios de sol que se infiltravam para o quarto pela brecha da janela. Seus olhos escuros e intensos admiraram a rua de ponta à ponta, até que eles finalmente


recaíram sobre mim - aprisionando-me por completo. A ligação estava feita. A garota e eu nos encaramos por um longo tempo, e eu já podia sentir no meu rosto o fluxo repentino de sangue se formando. Ela me observava com as sobrancelhas cerradas, como se tentasse me reconhecer de algum lugar - a mesma sensação que eu sentia parado na calçada. Para mim, nada ao redor importava. Tudo o que eu precisava era ficar ali, admirando aquele ser celestial à minha frente. Nosso pequeno momento parecia estar durando uma eternidade. A garota-com-rosto-de-anjo continuou a me olhar e eu retribuía na mesma intensidade. Após mais um minuto, ela mordeu os lábios rosados e balançou de leve a cabeça, como se tentasse forçar a si mesma a voltar à realidade. Com um movimento rápido, a menina se levantou de onde estava e fechou as cortinas - assim quebrando bruscamente o estranho elo que havia se formado entre nós. Sem fôlego, fechei os olhos e também sacudi a cabeça. - Hei cara, você está legal? - Líon me encarava preocupado, o bichano em seu colo (apesar de ainda emanar


uma áurea ameaçadora) muito mais controlado. Balancei afirmativamente a cabeça como resposta. As coisas ao meu redor já haviam voltado ao normal. Aquilo não devia ter passado de um breve segundo, mas para mim foi como se tivesse durado o dia inteiro. Mesmo estando ainda descomposto, meu cérebro trabalhava a uma velocidade surpreendente.

Durante

um

breve

instante

para

considerações, acabei concluindo o óbvio: a garota na janela só podia ser uma única pessoa - Serina, a irmã de Líon... Mas isto não explicava o por quê da sensação de eu à conhecer de algum lugar. - Líon, por acaso você e a sua família já vieram para Ventura alguma vez? - antes de terminar a pergunta, eu já havia me arrependido de a ter feito. - Hum, não - Líon franziu a testa com desconfiança, mas continuou - Para ser sincero, mesmo morando em Dumont, eu nunca imaginei vir para Ventura. O novato acariciou ternamente o gato em seu colo e suspirou. Estava na cara que se mudar para Ventura não havia sido nada legal para o garoto. E eu não podia muito


menos culpá-lo por se sentir infeliz aqui. Afinal, eu mesmo queria meter o pé desta cidade - que apesar de linda – era recheada de pessoas falsas e interesseiras. - Acho que está na hora de eu entrar - disse Líon, ainda acariciando Sortudo. - É, você tem razão - concordei, satisfeito por ele não ter maldado nenhum pouco a minha pergunta. - Acho que nos vemos amanhã na escola, não? - Com certeza! - o novato abriu um enorme sorriso, e girou lentamente em direção a porta. Esperei Líon entrar e trancar a porta de entrada para dar uma última olhada na janela do quarto de Serina e voltar para casa. Eu estava cansado e tinha a esquizita impressão de que minha cabeça pesava mais do que o resto do meu corpo. Flashes dos momentos na piscina e do rosto da irmã de Líon iam e vinham na minha mente, e cada músculo meu parecia estar esticado e retesado como se eu acabasse de percorrer uma maratona. Sem

duvida

alguma,

aquele

foi

o

dia

mais

movimentado de todos os meus 18 anos em Ventura. Eu não


entendia muito bem, mas parecia que a minha vida só havia começado naquela manhã - como se todo o resto não passasse de

um

pesadelo,

uma

sombra

indistinta

em

meus

pensamentos. Dei uma última olhada para a casa dos Biel e virei a esquina. Por mais excitado, impressionado, desconfiado e cansado que estivesse, tudo o que eu queria naquele ponto era estar em casa - esparramado sobre o sofá da sala, aproveitando cada segundo deste meu inesperado dia de folga.

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6. Q U E B R A C A B E Ç A

A

ssim que cheguei em casa, corri para cozinha. Já se passava

de meio-dia, e eu podia sentir o meu estômago se contorcendo, protestando com fome. Abri a geladeira e procurei por algo que pudesse ser feito rapidamente. Por sorte, havia um pouco da lasanha do jantar da noite anterior. Peguei a vasilha, tirei a tampa e coloquei no microondas. Enquanto o meu almoço esquentava, enchi um copo com refrigerante e me sentei à mesa da cozinha. Não existia uma boa explicação, mas a casa parecia mais colorida. Era como se o sol iluminasse todas as janelas de uma vez, dando um brilho dourado e uniforme para os cômodos. Fiquei tão distraído com esta minha nova percepção do lugar, que quase caí da cadeira quando o timer do microondas soou avisando que a minha comida estava pronta. Ainda um pouco estabanado pelo susto, retirei a vasilha do eletrodoméstico e despejei a lasanha fumegante sobre um prato. A fumaça que


se desprendia da massa borbulhante parecia formar para mim vultos espiralantes, que se contorciam e se elevavam em minha direção – iguais às sombras que eu havia visto um pouco antes de Líon cair na piscina. ''Mais que bobagem'', pensei alto, levando a minha refeição para a sala e ligando a televisão. Não havia nada de interessante àquela hora. Depois de passar os canais umas duas vezes, sem encontrar algo que me chamasse a atenção, resolvi desligar o aparelho e comer o meu almoço em silêncio. Apesar da lasanha estar extremamente quente, a engoli com uma voracidade animalesca. Logo depois da última garfada, me arrependi do meu afobamento. A comida estava à tal temperatura que parecia que a sala estava sendo consumida por um incêndio de chamas invisíveis. Tentando consertar o estrago, bebi o refrigerante de um só gole, ao mesmo tempo em que tirava o paletó e a camisa do uniforme. Não adiantou nada – meu corpo ainda transpirava e minha garganta parecia mais seca do que nunca. Sem pensar em nada, voei escada acima, na direção do


banheiro. Eu só precisava de um banho... talvez aquilo resolvesse. Terminei de tirar a roupa e me enfiei em baixo do chuveiro. De início, a ducha diminuiu a minha temperatura elevada - mais não melhorou em nada na minha agitação. Mas isto realmente não me surpreendia. Em uma única manhã havia acontecido mais coisas do que em toda a minha vida em Ventura. Conhecer Líon, o salvar de um afogamento iminente e ainda por cima ter uma reação estranha só de ver a irmã dele não eram coisas que eu esperava viver quando saí de casa pela manhã. Depois de tudo aquilo, parecia surreal que até a noite passada minha maior preocupação era um mísero pesadelo. Coloquei meu uniforme e minha toalha no cesto de roupas sujas e vesti meu velho moletom. Escovei os dentes com força, sem realmente ver meu reflexo no espelho, e saí do banheiro não pensando muito no que ia fazer. Deixei que minhas pernas tomassem o controle do meu corpo, guiandome pelo corredor do 2º andar, me levando na direção do meu quarto. Antes que eu percebesse alguma coisa, já havia entrado no cômodo e me sentado de frente para o meu


cavalete de desenho – um velho presente que meu avô, desenhista de mão cheia, havia me dado um pouco antes de morrer. Com uma reação natural, peguei um lápis esquecido no móvel e repousei a minha mão sobre o papel em branco. Foi automático. Assim que a ponta do grafite tocou a superfície lisa, minhas mãos começaram a traçar linhas e formas. Toda a minha agitação parceia fluir unicamente para aquela zona do meu corpo, os movimentos cada vez mais precisos e retos. Parte do meu cérebro sabia muito bem o que eu estava desenhado, mais a outra parte - a consciente – se surpreendia ao ver os detalhes se formando diante dos meus olhos. Trabalhei com afinco por horas, às vezes apagava um canto e o redesenhava. A imagem tomava conta de todo o papel, e assim que finalmente minha mão traçou a última sombra, não pude deixar de arquejar - ao mesmo tempo espantado e maravilhado. Pois, impresso à minha frente como uma fotografia em preto-e-branco, estava a cópia exata da janela do quarto de Serina, a figura perfeita da irmã de Líon parcialmente oculta pelas cortinas.


Por um curto espaço de tempo fiquei adimirando o desenho, a sombra da estranha ligação daquela manhã me conectando a imagem. Só o fato do rosto de Serina parecer ter sido esculpido por anjos já era motivo suficiente para prender a minha atenção... Mas algo naquele rosto não me era estranho. A certeza disto martelava de forma insistente em minha cabeça, o por que de minha agitação ficando mais claro. Ela era um enigma. E eu tinha que desvendá-lo. O barulho da porta de entrada sendo forçada me despertou do devaneio. Instintivamente, olhei para o relógio luminoso na cabeceira da minha cama e pulei da cadeira. Já eram seis da tarde, e eu não havia feito nada além do desenho. Com pressa, guardei a ilustração da janela de Serina em uma pasta que estava sobre a minha escrivaninha e corri para a sala. - E aí, garoto? Parece que o seu primeiro dia não foi tão ruim quanto esperava - Cirus me encarou sorridente, assim que aterrizei no piso sob o poste de emergência. - É, mais ou menos isso - respondi baixo, encolhendo


os ombros - Acho que fiz um colega. que eu terminei de falar, meu pai congelou no lugar. Com um movimento lento, ele girou nos calcanhares e me observou estupefato. - Vo.. você disse... um colega? - perguntou Cirus, os olhos esbugalhados - Você está me dizendo que Adrian Regis fez um colega? - Bom, foi o que eu disse! - resmunguei, cruzando os braços sobre o peito. - Nossa, acho que estou vendo tudo girar! Não pude deixar de revirar os olhos enquanto Cirus fingia perder o equilíbrio e se apoiava na estante da televisão. Era mais uma pérola dos nossos momentos de Filho versus Pai. Sem perder tempo vendo a gracinha do meu responsável crianção, cruzei a sala em passos largos e me sentei pesadamente na poltrona ao canto. - Se o senhor já terminou de me fazer de bobo... Cirus se permitiu um último sorriso e pendurou suas chaves no gancho ao lado da porta. Com passos firmes, ele caminhou na direção do sofá à minha frente, acomodando-se


pesadamente com um olhar ainda divertido. - Tudo bem, tudo bem - murmurou ele, despenteando os cabelos negros de uma forma marota - Então, o que você quer saber? Eu sabia que ele faria esta pergunta, mas como sempre, a sua falta de rodeios ainda me impressionava. Me controlei, respirando fundo, então resolvi explicar tudo desde o começo, nos mínimos detalhes. Contei como conheci Líon no pátio, falei de como ele foi paparicado pelo Dir. Nigro até chegar ao ponto principal da conversa: o incidente no Pavilhão da Tortura. Durante toda a minha descrição do atentado, o rosto de Cirus se transformou de divertido para apreensivo. Quando terminei minha breve narração, ele fechou os olhos de forma concentrada e balançou vagarosamente a cabeça para cima e para baixo, como se coloca-se engrenagens invisíveis para funcionar só com a força do pensamento. Continuei

sentado

na

poltrona,

meus

braços

envolvendo minhas pernas, esperando pacientemente o veredito dos fatos ocorridos naquela manhã - coisa que


aconteceu meio minuto depois. - Hum, interessante - começou Cirus, abrindo os olhos - Você disse que sentiu algo parecido como um imã lhe atraindo para o garoto Líon, um pouco antes dele escorregar da plataforma? - Sim... - E também que viu um garoto... alguém que você nunca viu na vida e que, pelo visto, só você o havia notado... empurrando o seu colega do alto da plataforma? - Sim... - respondi, desta vez mais nervoso do que antes. - Hum, interessante - repetiu Cirus, pondo-se de pé e caminhando na direção da janela à minhas costas – Pode parecer estranho, mais não exite outra explicação! Meu pai se virou para mim e, desta vez, sua face trazia uma expressão de surpresa. Sua boca se entreabriu boquiaberta e seus olhos cinzentos pareciam querer saltar das órbitas. - Filho - disse ele, num tom mais baixo que um sussurro - acho que o seu colega está sendo perseguido por


um... demônio. - O quê?! - exclamei, alarmado demais só de imaginar algo como aquilo. O que Cirus estava me dizendo não fazia o menor sentido. Eu já havia visto um demônio antes. Para falar a verdade, eu já havia visto uma dezenas deles. E uma coisa era certa: todos, sem exceção alguma, não lembravam em nada o garoto que empurrara Líon da plataforma da piscina. - Pai, isto não pode ser possível – resfoleguei, começando a sentir o ar me faltar nos pulmões - Eu já vi demônios antes, e tenho certeza que saberia reconhecer um. Mas o cara da Constantine... não, ele parecia tão comum... tão humano! Cirus meneou a cabeça em consentimento. Ao que parecia, ele esperava que eu tivesse aquela reação. - Eu sei, eu sei - concordou ele, ainda balançando a cabeça - Eu prestei bastante atenção ao seu relato. Mas Adrian, acredite, a maioria dos demônios que você já viu nesses seus dezoito anos, por mais breve que foi o momento, já foram exatamente como o rapaz misterioso da sua escola.


Eu ainda não podia acreditar. Como se fosse possível, expeli o pouco ar que me restava nos pulmões e apertei ainda mais o abraço que dava em minhas pernas. Percebendo a minha reação, Cirus se postou no braço da poltrona aonde eu estava e começou a afagar ligeiramente o topo da minha cabeça. - Fica calmo, amigão, isto tudo pode ser resolvido bem rápido - prometeu ele, agitando um pouco mais rápido os meus cabelos, se esforçando ao máximo para demonstrar confiança no que estava dizendo. - Afinal, ao que parece, o demônio de Líon ainda está em um estágio inicial... E como dizem, quando o mal é descoberto no começo, ele pode ser neutralizado mais rápido. - ''O demônio de Líon ainda está em um estágio inicial'' - repeti , não entendendo patavinas sobre o que meu pai estava falando - O que o senhor quer dizer com isso? Avaliando a minha confusão, Cirus se levantou do braço da poltrona e se postou na minha frente com os braços cruzados. Eu reconheci aquele movimento. Significava que meu pai estava pronto para me dar mais uma ''Lição de Como


Ser Um Arcano''. - Adrian - começou ele, sua voz já no modo ''professor'' - você sabe como ''nasce'' um demônio? Mesmo tentando me controlar, tive que revirar os olhos diante da pergunta. É claro que eu sabia como os demônios haviam nascidos. Acho que até quem não era um Arcano sabia. Porém, avaliando a minha rápida conclusão, Cirus balançou a sua cabeça negativamente e continuou: - Não, não estou falando dos Originais, muito menos dos Semi-demônios ou os das Classes Inferiores... O que estou perguntando é se você sabe como os demônios Comuns, aqueles que nós enfrentamos no dia-a-dia, surgem? Aquilo sim me pegou de surpresa. Que diferença poderia haver entre os Originais e os outros tipos de demônios? Mas uma vez naquele dia parecia que pai falava uma língua que eu não conhecia. - Eu acho que não estou entendendo aonde o senhor quer chegar - confidenciei, a confusão crescendo cada vez mais em minha mente. Com outro aceno, Cirus se distanciou de mim e


postou-se no sofá mais a frente, a resignação de ter que explicar algo que parecia óbvio para ele estampada em sua face. - Filho - Cirus piscou, o meio sorriso brincando em seus lábios - os seres que enfrentamos não são os mesmos das Primeiras eras. Assim como o pessoal do nosso lado, eles também se dividiram e formaram novas raízes. Os demônios que chamamos de Comuns, e que nós enfrentamos tão rotineiramente hoje em dia, só podem atuar no Mundo Material... Diferente dos Originais, que são muito mais poderosos e perigosos. Assenti devagar, começando a entender o que ele me falava. - Então, como nascem esses ''demônios Comuns''? perguntei, já tentando imaginar qual seria a resposta. - Bom, é uma história um pouco complexa - confessou Cirus, encolhendo os ombros ligeiramente – Basicamente, todos eles já foram humanos. - Já foram o quê?! - exclamei, o choque cobrindo a minha face.


- Isso mesmo, já foram humanos - repetiu meu pai, não alterando o seu tom calmo - Na verdade eles são justamente isto: Humanos que morreram mas que não completaram a passagem devido a algum empecilho. Empecilho? Que tipo de empecilho poderia poderia aprisionar alguém na forma eterna de uma criatura das trevas? - Geralmente, o rancor - continuou Cirus, antevendo a minha pergunta antes mesmo de fazê-la - ou o ódio extremo. Somente esses dois sentimentos poderiam ter o poder de confinar uma alma aqui na terra e transformá-la em um demônio, mesmo o corpo dessa pessoa estando morto. - Mas isto é horrível! - exclamei, o choque e o medo presentes tanto na minha voz quanto em meu rosto. - Eu sei - concordou meu pai, o olhar mais penetrante a cada palavra - Mas é a verdade. Quanto mais essa alma guarda este rancor, ou este ódio, mas ele se transforma em um ser negro. Por isso o jovem que você encontrou lhe pareceu diferente dos outros demônios que encontramos. Ele ainda está no começo do processo... ainda há chances de


intervir sem danos piores. ''Danos Piores''. Agora eu conseguia enchergar o que essas palavras significavam. E, tenha certeza, eu não desejava esse destino para o meu pior inimigo - muito menos Oliver. - O que vamos fazer? - questionei por fim, a pressão em meus pulmões mais dolorosa do que nunca. - Hoje, nada - afirmou Cirus, pondo-se de pé e indo em direção à cozinha da nossa casa de bombeiros – Amanhã, eu vou procurar no meu intervalo alguma peça que esteja faltando nesse nosso pequeno quebra-cabeça. Enquanto isso, quero que você fique de olho nesse Líon. Por mais que eu ache que o garoto-demônio possa demorar um pouco para agir novamente, é melhor estarmos preparados para qualquer surpresa, não? Concordei molemente com a cabeça, o cansaço e a força das revelações desta noite fazendo um grande esforço contra as minhas costas. Antes que eu pudesse pensar em fazer alguma coisa, meu pai voltou a se sentar no braço da poltrona ao meu lado, o olhar cintilando estranhamente à luz do anoitecer.


- Tudo vai ficar bem, O.k.? - murmurou ele, ao mesmo tempo em que dava palmadinhas desajeitadas em minhas costas - Acho que tivemos um longo dia, não? Por que você não vai lá pra cima descansar um pouco enquanto eu preparo o jantar para nós dois? Era tudo o que eu precisava. Sem dizer uma palavra, me levantei da poltrona e fui para o meu quarto. Assim que entrei no cômodo, me atirei na cama e enfiei minha cara no travesseiro, sem me preocupar em ascender a luz. Pelo o que eu podia ver, o céu exibia profundos tons púrpuras e já estava escuro o suficiente para que os lampiões de ruas estivessem acesos. Agora já estava bem explícito o que havia acontecido no Pavilhão de Tortura. A questão era que a resposta havia me deixado mais encucado do que a própria pergunta. Eu não me sentia nem um pouco relaxado, muito pelo contrário, estava ainda mais apreensivo. Então Líon estava sendo perseguido por um demônio psicótico? Como a única pessoa legal que eu havia conhecido na Constantine poderia ser o objeto de ira de uma criatura


tão maligna? Com o passar do tempo, fui sentindo meu corpo mais pesado e minha mente mais leve. Eu sabia que logo a inconsciência iria chegar, mas será que eu queria realmente dormir? Tentando não pensar no assunto, puxei minhas cobertas e me acomodei na cama. Entre as dúvidas que eu tinha sobre o presente e o meu pesadelo, eu ficava com o segundo. Pelo menos, com ele eu só tinha tinha que me preocupar durante a noite. E foi assim que – ao tentar não me preocupar com nada - minhas pálpebras foram ficando cada vez mais pesadas e, junto com o sereno da noite, o sono chegou.

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7. V I S I T A N T E

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F

oi uma noite longa, com pouco descanso para mim. Assim que os primeiros raios de sol cruzaram as

densas nuvens que cobriam os céus de Ventura, pulei da cama sem cerimônia alguma e corri para o quarto de Cirus. Para minha decepção, meu pai já não estava mais em casa. Tudo que havia no cômodo dele era um pequeno pedaço de papel recostado sob a cama arrumada e os simples dizeres escrito às pressas:

Tive que sair... Chamado de Emergência. Me desculpe.

Olhando desolado para o recorte dobrado em minhas mãos, voltei para o meu quarto e me obriguei a vestir o


uniforme antiquado da Constantine. Por mais receoso que estivesse até o momento com o dia que iria enfrentar, eu sabia que tinha dado a minha palavra à meu pai - uma palavra de Arcano -, e não havia chances de burlar o acordo. Além do que, por mais perigoso que pudesse ser estar com Líon neste exato momento, uma boa parte de mim realmente queria ver o garoto de novo... (sem contar a outra parte que estava de fato fascinada e intrigada pela irmã dele). E foi neste estado de espirito pra lá de divido que eu resolvi acabar com aquela lenga-lenga e me dirigir para a escola de uma vez. E foi neste exato momento que eu escutei o estranho barulho de algo caindo com estrépido no andar de baixo. Assim que o som alto e metálico chegou aos meus ouvidos, todo o meu corpo se enregelou. Eu não sabia explicar o por que, mas eu podia sentir o medo começar a invadir a minha corrente sanguínea. ''Se meu pai saiu, quem poderia ser?'', eu pensava, não querendo imaginar o que poderia estar me esperando no 1° piso.


Quase que involuntariamente, meu cérebro me levou para o dia anterior - para ser mais preciso, a enfadonha aula de Ed. Física, no Pavilhão de Torturas - e sem me dar conta, o rosto glorioso e infernal do jovem demônio de cabelos corde-fogo se materializou na minha frente, um sorriso maligno lhe estampando os lábios. Então era isto? Era ele que estava lá embaixo, me esperando? Não podia ser. Eu não queria acreditar. Tomado por um impulso de coragem extra e anormal, saltei pela passagem do poste de emergência e aterrizei de gatas no chão de linóleo da sala. Sem deixar brechas para que o meu medo surgisse novamente, me coloquei de pé sem um único ruído e me pus a escutar com atenção. O barulho parecia estar vindo da garagem - e lá era o pior local onde o demônio-em-treinamento poderia estar. Era na garagem que Cirus guardava e produzia todos os objetos que usávamos nas nossas Sessões de Exorcismo. E se - de alguma forma - o intruso descobrisse para quê servia


todas as coisas presentes nos armários embutidos do cômodo, eu tinha certeza que o ''bicho ia pegar'' para o meu lado. Ainda agindo unicamente pelo ''instinto Arcano'', cruzei a distância de onde estava até a porta da garagem em apenas duas batidas do meu coração. Com o máximo de cuidado, me agachei e encostei o ouvido na fechadura, cerrando os olhos para poder me concentrar em todos os ruídos produzidos do outro lado da passagem de madeira branca. Como se adivinhasse o que eu estava fazendo, subitamente o intruso ficou mortalmente silencioso. Tentei olhar pelo buraco da fechadura, mas não havia nada para ver. A via estava escura, com certeza obstruída pela chave presa no verso oposto da porta. Fiquei nesta posição - encolhido e imóvel como uma estátua - por uns bons cinco minutos. Quando eu começava a achar que toda aquela situação crítica não passava de paranoia produzida pela minha imaginação, a maçaneta prateada logo acima da minha cabeça começou a girar, e as velhas dobradiças enferrujadas começaram a ranger e gritar


melancolicamente. Sem ter para onde fugir, saltei o mais rápido que podia e me segurei igual a uma aranha nas paredes estreitas do corredor, obrigando aos meus músculos à se fixarem o mais firme que podiam. Um segundo depois de me esconder, o chão de linóleo foi tomado pelo vasto rastro de luz amarela que vinha da garagem, revelando - para o meu total desespero - uma sombra longa e disforme. - Mas que merda! - resmunguei baixo, quando uma única gota de suor ameaçou escorregar da ponta do meu nariz e cair inconvenientemente no chão. No mesmo instante, o intruso apareceu abaixo de mim, vestindo um estranho par de botas de cano-alto, uma calça de brim negra surrada e um velho moletom com capuz. Com um último e longo suspiro, me precipitei com violência na direção do desconhecido, deixando que a gravidade somada ao meu peso agisse por conta própria. Percebendo o meu ato de insanidade, o intruso se esquivou de meu ataque de forma ágil e fugiu pela porta da garagem. Assim que meu corpo se chocou contra o concreto


firme e gelado, todo o ar que eu havia segurado foi expelido para fora dos pulmões, o impacto da batida ecoando em todo o meu interior feito um sino de igreja. De imediato, meus olhos se encheram de lágrimas e um terrível tremor percorreu por toda a minha coluna - com certeza uma consequência nada boa do meu erro de cálculo. Eu sabia que com aquela burrada eu assinava o meu próprio epitáfio. Machucado e desarmado, não conseguia enxergar um palmo sequer diante de mim, e para completar, o corredor parecia girar ao meu redor. ''Mas que situação, hein?'' pensei infeliz, tomando a real consciência dos riscos que enfrentava e decidindo fazer a única coisa que me restava: lutar até o fim - por mais idiota que parecesse - como um verdadeiro Arcano. Ainda vendo estrelas, tentei me levantar e atacar novamente, o mais rápido que podia. Porém, antes que eu pudesse alcançar a garagem, a porta de madeira se fechou ruidosamente em meu rosto, estalando com um ruído canhestro a minha cartilagem nasal e me atirando com um baque surdo no piso encerado.


Para mim, era o fim. O confronto havia acabado. Sem chance alguma de defesa, limpei o filete de sangue que escorria até os meus lábios e esperei a chegada de minha hora mais sombria. Com um ruído baixo e seco, ouvi meu carrasco se aproximar de mim lentamente, e para meu completo estarrecimento, produzir um ruído alto e estrangulado de preocupação. - Adrian Regis! - exclamou o intruso, com uma voz aguda e feminina estranhamente familiar – Mas que idiotice foi essa?! Atordoado, fiz força para focalizar o estranho logo acima de mim, ao mesmo tempo em que ele - quero dizer, ela - tirava o capuz do casaco de sua cabeça, deixando revelar uma longa cascata de cabelos prateados escorridos, que chegavam até o meio de sua cintura. Com a claridade que irradiava da garagem, vi que seus olhos eram de um azul profundo aterrador e sua pele clara parecia irradiar a luz ambiente ao seu redor igual à uma fada gigante. Em toda a minha vida eu só conhecera uma única pessoa que corresponderia à estas singulares características


físicas, e pensar que ela poderia estar ali na minha casa aquela hora da manhã - foi um choque e uma alegria tão grande para mim que, mesmo tomado pela dor, me levantei num salto e a agarrei no abraço mais apertado que eu podia dar. - Ti... tia Angelina! - gaguejei, não conseguindo controlar a enxurrada de perguntas que tomavam o meu cérebro de assalto - O que a trouxe aqui? Como você entrou em casa? Quando chegou a Ventura? Quanto tempo vai ficar? - Calminha aí, garotão... - esbravejou Tia Angelina com a sua vozinha de vento - Do que é que foi que você me chamou mesmo? Só depois da pequena bronca que percebi a grande gafe que eu havia acabado de cometer; eu acabara de chamar minha tia Angelina de ''tia''... e, para ela, não poderia haver insulto maior nem mais imperdoável. Tentando reparar o meu erro, sorri da forma mais inocente que podia, o pedido de desculpas implícito em meu rosto. Afinal, desde que me conheço por gente, eu entendo essa implicância que Angel (o apelido adotado por ela assim


que começara a falar) tinha ao título que recebera. Pois, se eu estivesse no lugar dela, e me deparasse com um sobrinho apenas 3 anos mais novo e com 15 centímetros a mais de altura, acho que me comportaria de uma maneira muito menos delicada. - Ah, que se dane - resmungou Angel, retribuindo o sorriso, ao mesmo tempo que revirava os olhos de forma deliberada - Desculpas aceitas! Mas então, onde está o meu querido, rabugento e possessivo irmão mais velho? Antes que eu pudesse responder algo a respeito, caí na gargalhada. Isso era tão estranho. Só de pensar em Cirus como alguém ''rabugento'' e ''possessivo'' eu me dobrava de rir. Era engraçado, até irônico, ver a diferença de tratamentos dele para com nós dois. Enquanto, na maioria das vezes, Cirus se comportava como o meu irmão mais velho idiota e irresponsável, quando o assunto era Angel, ele era totalmente o oposto: um controlador ao extremo, exatamente como um pai deveria ser. - Cirus? - perguntei, ainda tentando controlar o riso Ele saiu muito cedo, pelo visto. Só me deixou um bilhete,


que não dizia coisa nenhuma - então, quando parei de rir, percebi algo mal explicado na pergunta dela - Hum, Angel... Se você não viu o meu pai, como foi que você entrou aqui em casa? Por um momento, Angel congelou no lugar e me lançou um olhar do tipo que vemos em pessoas pegas no flagra. Mas, antes que perdesse por inteiro a compostura, ela girou nos calcanhares tal qual uma ninfa dos bosques e voltou-se para a garagem. Ainda esperando a sua resposta, me apoiei na parede do corredor e a segui aos trancos e barrancos. - Acho que você me não respondeu - comentei de forma incisiva, assim que entrei no cômodo, contendo a dor que me queimava por inteiro - Por falar nisto, você ainda não respondeu a nenhuma das minhas perguntas. - Se quer saber mesmo - disse ela, sua atenção voltada para uma pesada mochila aberta aos seus pés - Eu estava tocando a minha vida como sempre faço, resolvendo um caso de perseguição demoníaca em Dumont, não contando com a ajuda de ninguém. Só que, antes que eu pudesse agir de


alguma forma, as vítimas foram embora e, como uma formiga abandonada pelas suas companheiras, eu me vi sozinha no meio do nada. Então, sem ter o que fazer e sem um tustão furado no bolso, me lembrei que o meu único irmão (e meu sobrinho enxerido e encrenqueiro) moravam na cidade ao lado de onde estava, e que isto era uma opção viável para mim. Reunindo as poucas coisas que tinha, peguei a primeira carona que arrumei na estrada e cheguei aqui hoje, antes que o sol começasse a aparecer no céu ou que os lampiões da rua se apagassem. Mesmo não tendo a chave da porta, eu (com ajuda de umas habilidades que você, a essa altura do campeonato, deve conhecer bem) consegui forçar a trinca do portão da garagem, assim entrando aqui e não perturbando ninguém logo cedo, como uma boa convidada deve ser... E, antes que me esqueça - ainda sem olhar para mim, Angel puxou algo pesado e comprido do fundo da sua mochila e o jogou na minha direção - acho que isto pertence a você! Com um movimento rápido, aparei o objeto lançado e o coloquei diante dos meus olhos. Para minha surpresa e espanto, era nada mais nada menos do que o meu velho skate


de guerra, dado pelo meu pai no meu décimo segundo aniversário. Os desenhos presentes na base de madeira eram de uma ''sutileza'' ímpar: Céu e Inferno travando uma batalha épica, com direito a nuvens carregadas, labaredas de fogo e, é claro, anjos e demônios. Há um ano e meio, desde que Angel partiu daqui de casa pela última vez, eu vinha procurando por aquele skate feito louco. E só agora, da forma mais idiota possível, eu consegui ligar um fato ao outro e descobri aonde ele estava esse tempo todo. - Então - pigarreei, lutando para não demonstrar o quão irritado estava por finalmente saber quem tinha pego o meu skate emprestado sem a minha permissão - pelo visto, você não viu o meu pai sair. - Não, eu não vi - fechando sua bolsa mais violentamente do que o necessário, Angel se levantou e recostou-se sobre a máquina de lavar desligada - mas se por acaso eu tiver chego em uma má hora, eu posso muito bem sair e só voltar quando o Cirus chegar. Mas uma vez, apenas naquele dia, percebi o quanto


estava sendo rude com Angel, e mais uma vez tentei me desculpar. - Não seja boba - suspirei, andando até ela e pegando a mochila de suas mãos - você sabe que esta casa é tão minha quanto sua. - Então você está dizendo que eu posso ficar? Não respondendo a sua provocação, dei as costas a Angel e segui para a cozinha. Eu sabia que ela deveria estar com mais fome do que demonstrava, por isso não me surpreendi quando, assim que joguei a sua mochila no tampo de mármore da pia, ela já se encontrasse sentada à mesa como quem espera o seu pedido em um restaurante elegante. Revirando os olhos, abri a geladeira e procurei por algo que pudéssemos comer. Havia uma embalagem de ovos fechada e um pedaço de queijo e outro de presunto. Sem pensar em nada, peguei os três de uma única vez, coloquei o que era necessário sobre a mesa e me agachei para procurar a frigideira que meu pai guardava dentro do forno do fogão. - Pelo visto, acho que teremos Omelete-Maluca no café, não é mesmo Cheff Adrian?


- NÃO É uma Omelete-Maluca - respondi entre dentes, não conseguindo me refrear. Desde quando éramos pequenos, Angel sempre me achincalhava pelo fato de eu saber cozinhar. Bom, não foi ela quem perdeu a mãe assim que nasceu, e cujo pai passava metade do tempo fora de casa. Assim que o pensamento me veio a cabeça, isto me fez lembrar de uma outra coisa – uma coisa que eu tinha certeza que a irritaria profundamente. - Mas, e aí, você por acaso falou com a vovó que vai ficar por um tempo aqui em Ventura? Como esperado, o rosto de Angel se transformou por completo à minha frente - da forma exata como um felino se comporta quando se encontra com um Arcano. Logo depois de presenciar a sua reação, me arrependi de verdade de ter feito o comentário. A relação de Angel e Vovó era, no mínimo, conturbada. Assim como a minha mãe não era uma Arcano nem sabia nada sobre isso quando conheceu o meu pai, o caso de Zoraia e Galadriel Regis foi bastante parecido. Só que, enquanto a nora aceitava da melhor forma possível o


fardo do marido, o mesmo não acontecia com a sogra. Pelo o que eu sabia, no começo Vó Zora até aceitava, mas tudo mudou quando ela descobriu que os ''dons'' eram hereditários - e que, de uma forma incancelável, os seus dois filhos estavam obrigados a seguir o mesmo destino perigoso do esposo. A única coisa que posso dizer é que ela não ficou nada feliz ou satisfeita ao ver que meu pai e tia Angel não se importavam tanto assim com o ''trabalho obrigatório'' que eles receberam quanto ela; e acho que nem é preciso falar que tudo foi de mal a pior quando o Vô Gal se foi em um combate sangrento junto com o demônio mais maligno e cruel que eu já vira em toda a minha vida. De qualquer forma, citar as obrigações de filha para minha tia era quase tão irracional quanto andar em uma auto-estrada movimentada na contramão. - Escute aqui - recitou ela, seus olhos azuis tão brilhantes quanto fogo-fátuo em mato seco - se você pensa que vai me irritar com isto, pode tirar o seu cavalo da chuva! Angel me falou de forma baixa e clara, mas cada pelo


do meu corpo se arrepiou tanto com cada palavra que parecia que ela havia cuspido todas elas diante da minha cara. Sem dizer nada, apenas assenti o mais breve possível e voltei toda a minha atenção para o café da manhã. Quando terminei de preparar os nossos omeletes, separei dois pratos na mesa da cozinha e coloquei as porções fumegantes em cada um, enquanto Angel ia até a geladeira e trazia dois grandes copos de leite para nós. - Olha bem - disse ela, colocando os copos na nossa frente, sua voz no tom de sino novamente - Acho que começamos o dia meio que com o pé esquerdo, não? - Eu acho que sim - concordei, ainda não conseguindo tirar os meus olhos do prato sobre a mesa. - Então, e aí? - continuou Angel, o sorriso de fada voltando a iluminar o seu rosto - Como vão as coias na escola, na Constantine? Você já fez algum amigo? Por acaso já conheceu alguma garota legal? - Constantine? Amigo? Garota?! - entoei, tirando os meus olhos como por encanto da mesa e os guiando para o relógio da cozinha, dando um salto da cadeira ao ver a hora -


Mas que droga, estou atrasado de novo! Repetindo a manhã anterior de uma forma tenebrosa, corri para o meu quarto em um piscar de olhos, apanhei todo o material que precisava levar e voltei voando para o térreo, sem tempo nem para ver como eu estava. - Adrian, se acalme! - exclamou Angel para mim, seus olhos azuis tentando acompanhar o borrão vermelho em que eu me transformara. - Me acalmar? - parei por um momento, não acreditando no que eu havia acabado de escutar - Eu não tenho tempo para me acalmar, a escola fica a três quadras daqui de casa e eu só tenho 14 minutos para chegar lá! Como se tivesse acabado de ter uma grande ideia, Angel olhou para o molho de chaves jogado sobre a cômoda da sala, depois voltou o rosto na direção da porta da garagem e, do jeito mais maroto do mundo, disse: - Acho que existe uma forma bem rápida de você ir para a escola sem se atrasar, e se quiser, eu posso ajudá-lo... Só de acompanhar o pensamento que surgia a minha frente, eu pude sentir o meu sangue gelar. É claro que sabia


sobre o quê Angel estava falando. Mas se ela estava imaginando que eu ia dar autorização para ela mexer na ''sacro-santa'' moto de Cirus... Eu não estava pronto para ser morto, muito menos nas mãos do meu próprio pai. Se havia algo que Cirus amava mais do que tudo mais até que nossa Casa-de-Bombeiros ou o Mustang 64 - era essa bendita moto. Foi o presente que o Vô Gal dera a ele no seu décimo oitavo aniversário, e a sua adoração para com o troço era tanto que ele nem andava com a máquina... Apenas a lavava e a mantinha na garagem, em um espaço que mais parecia um altar. Eu nem queria saber o que Cirus poderia fazer com quem tocasse na coisa, então logo tratei de cortar as asinhas de Angel pela raiz. - Ah, você nem é louca! - suspirei atordoado, ajeitando as alças da minha mochila sobre os ombros - No dia em que estiver com pensamentos suicídas tudo bem, mas hoje nem pensar! - Oras, mas se eu não te levar para escola na moto do Cirus, como você vai conseguir chegar lá a tempo?


Angel me acompanhava na direção da garagem, e eu não podia acreditar que ela estava tentando me fazer entregar os pontos usando a sua carinha de ''gato sem dono''. Se eu não a conhecesse, já teria lhe dado as chaves da moto à muito tempo; mas como eu conhecia, apenas dei as costas à ela sacudindo a minha cabeça, entrando na garagem e abrindo o portão. - Sabe, eu acho que existe outra forma de chegar à Constantine sem correr o risco de morrer hoje a noite respondi, me colocando com habilidade sobre o meu skate recém-recuperado e partindo na maior velocidade que podia sem dar bandeira para os vizinhos, deixando Angel e sua carranca

contrariada

Bombeiros.

127

no

batente

da

nossa

Casa-de-


8.

129

C

SERINA

omo por milagre, consegui fazer todo o percurso da Casa-de

Bombeiros até a Academia em apenas 4 minutos. Quando finalmente cheguei ao portão da escola, o pátio de entrada ainda estava abarrotado de estudantes e a barulheira de conversas que tomava conta de todo o ar parecia ainda pior do que a do dia anterior. Completamente cego pela forte claridade do sol naquela manhã, desencavei do fundo da minha mochila o meu velho par de óculos escuros e me encostei na mesma árvore frondosa de sempre - brincando distraidamente com as rodas gastas do meu skate enquanto observava o ir e vir do corpo docente e discente da Constantine por detrás das minhas lentes baças. Sem prestar atenção em nada particular, percebi um ligeiro burburinho se formar no canto mais distante da rua.


Ouvindo a confusão de vozes que chegava até a mim, me inclinei com cuidado na direção da algazarra e apurei a minha audição o máximo que podia – distinguindo claramente o tom insuportavelmente pretensioso de Oliver Nigro, acompanhado pelas gargalhadas estúpidas de todos os seus asseclas da turma Privilegiada. - Vejam só, caras - cacarejou Antoni Pabin, o Capitão ''só-músculos'' da Equipe de Natação da escola, para quem quisesse ouvir - acho que a gatinha aqui não tem língua! Em resposta a provocação do amigo, todos os garotos urraram e assobiaram com prazer. Ao que parecia, a horda de desocupados da Constantine havia encontrado uma nova vítima para atazanar e, não sabendo muito bem o por que, aquilo não estava me cheirando nada bem. - Hei, não precisa ficar com medo - disse Oliver cauteloso, suas verdadeiras intenções disfarçadas em um tom de voz cordial que eu nunca o vira usar com ninguém – Eu não vou te machucar, acredite... nós só queremos, você sabe, conhecer melhor nossa nova colega de classe. Antevendo a confusão formada, contornei o tronco da


árvore aonde eu estava escondido e encarei o famoso grupinho de baderneiros, minhas sobrancelhas unidas só de imaginar o que eles poderiam estar aprontando. Para meu espanto, Oliver e todos os seus seguidores formavam um círculo estranho e ameaçador ao redor de ninguém menos que Serina Biel - cujo rosto perfeito estava visivelmente lívido em uma mescla de impaciência e asco ao ver um de seus cachos escuros se enroscarem entre os dedos pálidos do malicioso filho do Dir. Nigro. Sentindo um formigamento nada convencional me subir pela coluna, caminhei à passos largos a pequena distância que separava o gramado da Constantine da esquina da rua e mergulhei no interior da roda de Privilegiados. Eu sabia que estava cometendo um suicídio - não só no sentido social - mas acotovelei todos os idiotas que me trancavam a passagem até parar bem à frente do líder estúpido deles, a vista embaçada e vermelha iguais à de um touro enfurecido. - O que vocês pensam que estão fazendo com ela? perguntei, não reconhecendo o tom sombrio de minha própria voz, tamanha a força que me controlava.


Por um segundo, todos me encararam. Pelo visto, eu não havia sido o único que fora pego de surpresa pela ''audácia'' dos meus instintos. Eliezer Mantiz e Lucas Darvel trocaram uma longa e significativa olhada, enquanto a maioria dos caras da Equipe de Natação - incluindo o parrudo Antoni Pabin - deram meio passo para trás, como se só a minha presença ali fosse capaz de lhes transmitir o vírus ebola. Eu estava pouco me lixando para a reação daqueles acéfalos bombados e sobre o quê eles pensavam ou deixavam de pensar sobre mim. O que me importava - e me consumia pouco a pouco por dentro como o veneno quente e pegajoso de uma víbora era o fato de que, por mais perturbado que pudesse parecer, Oliver continuava com sua mão nojenta nos cabelos da irmã de Líon. E que, além de repulsiva, a atitude parecia ser de uma ousadia sem par - mesmo para brutamontes estúpidos como os Privilegiados. - O que vocês pensam que estão fazendo com ela? repeti a pergunta, mantendo os meus braços trêmulos bem


colados junto ao corpo, contando de 1 até 100 para não fazer nenhuma loucura. Recuperando-se momentâneo

que

gradativamente

minha

entrada

do

causou,

choque Oliver

se

desvencilhou de Serina e se virou para mim - a atitude autoritária e de superioridade que ele sempre utilizava quando falava comigo no seu nível máximo. - E o que o Senhor Bizarro tem a ver com isso? devolveu o garoto, suas mandibulas tão tensas que eu seria capaz de dizer quantos músculos haviam surgido em sua face. - Pelo o que percebi, o assunto ainda não chegou na lixeira que você mora... Tive que respirar umas cinco vezes para não esmagar o filho do diretor na frente daquelas hienas que ele chamava de amigos. Foi um momento de perigo particular. Por mais que o meu lado consciente e racional dissesse para mim que qualquer tolice pudesse representar o fim da minha vida ''silenciosa'' em Ventura, o resto do meu ser gritava para acabar com o falatório e ir para os finalmentes com o Rei dos Bundões.


Eu não sabia explicar minha reação – estava encurtando ainda mais a distância que havia sido feita no centro do círculo, minhas mãos cerradas em punhos e o meu coração palpitando tanto que eu não conseguia escutar os meus próprios passos. Era como se, naquela manhã, um Adrian menos responsável e mais exibido tivesse se libertado dentro de mim... e o seu primeiro desejo era esfregar a carinha mais-que-simétrica de Oliver no asfalto quente até não sobrar nada, só para ver como é que ficaria. Porém, antes que o ''Adrian Rebelde'' pudesse agir e ferrar com tudo, Serina saiu de seu estado de observadora e se colocou no centro do círculo - suas mãos agarrando o meu braço esquerdo ao mesmo tempo em que seus olhos escuros fuzilavam o líder dos Privilegiados com uma indiferença quase que mortal. - Nossa, até que enfim... pensei que você não ia chegar nunca! Com um sorriso angelical, a garota me encarou e piscou - e eu conseguia ler em cada traço de sua expressão inocente as palavras de aviso: ''se acalme, não se encrenque e


deixe tudo comigo''. - Muito bem, acho que não preciso mais da ajuda de vocês - continuou ela, reforçando a palavra ajuda como quem dizia ''caiam fora da minha frente agora, ou vão me conhecer de verdade!'' - Adrian, por que não me leva para conhecer a Academia? Não pensando duas vezes, puxei a novata pelo braço e a tirei do círculo, sentindo os olhares incrédulos de Oliver e seus cumpinchas perfurando as minhas costas de uma forma bastante ofensiva. Eu poderia dizer que o meu ''Eu louco'' ainda rosnava para o grupo deixado para trás, mas a verdade era que - assim que Serina colocou as suas mãos suaves e delicadas sobre a minha pele - toda a raiva e a tensão que parecia prestes a explodir de mim desapareceu, como se nem tivesse existido. - Obrigada - sussurrou Serina, quando estávamos longe o bastante para não sermos ouvidos pelos Privilegiados – Eu já ia resolver tudo com aqueles... otários, mas... Foi muito legal você ter aparecido para me defender. Muito legal mesmo.


- Não precisa me agradecer - respondi, sentindo o sangue fluir e se concentrar em meu rosto - Eu vi o que eles estavam fazendo e não achei justo. Só fiz o que era o certo. Por um milésimo, ela me encarou e sorriu. - Líon tem razão - comentou a garota, assim que chegamos às raízes da árvore onde eu havia largado minhas coisas – Meu irmão acha que você deve ter algum tipo de gene sobre-humano ou coisa assim. Depois do que você fez hoje, tenho que concordar com ele. Sentindo um forte aperto no peito, parei e olhei para Serina um tanto assustado. Então Líon desconfiava de mim, mesmo me conhecendo em menos de um dia... Será que eu era tão estranho assim que ninguém acreditava no meu disfarce de ''adolescente normal''? - Bom, ele não fez nenhum tipo de fofoca - continuou ela, percebendo minha reação e interpretando de forma errada, como quem se desculpa por ter dito algo errado Líon só me contou o que aconteceu ontem na piscina, e devo dizer que estava assombrado. Acho que notou que ele não é exatamente o típico garoto que faz muitas amizades em uma


escola; mas aí chega alguém como você e o trata como um igual, com respeito... Eu não tenho nem palavras para agradecer, de verdade! Eu fiquei parado no mesmo lugar sem entender aonde ela queria chegar. Se Líon não desconfiava do que eu realmente era, por que ele ficaria tão impressionado comigo? Eu não processava nem um pouco como uma pessoa normal poderia se sentir assim com relação a mim, e muito menos o que Serina queria dizer com aquela história de ''alguém como você''. No ranking para descobrir qual adolescente era o Mais Deslocado do Mundo, eu tinha certeza que levaria o primeiro lugar em disparada. E foi tentando dizer isso a ela que eu acabei percebendo o quão próximos nós dois estávamos. Meu rosto deveria estar a uns dez centímetros acima do dela, e só de olhar o meu reflexo naqueles seus olhos escuros e profundos, uma sombra forte e embaraçosa da ligação que eu havia sentido na manhã anterior tomou conta de todo o meu corpo de assalto e se espalhou pelo ar igual á uma tempestade de


verão. Eu tinha certeza, mais do que nunca, que a conhecia de algum lugar – mas de onde era o mistério. Em um tempo inestimável, ficamos congelados naquela posição - um encarando o outro - até que um pigarro alto e claro ao nosso lado nos despertou por completo. - Pelo visto, acho que você e minha irmã se conheceram muito bem... Líon estava parado à uma pequena distância de nós, os braços cruzados sobre o agasalho com capuz e a expressão dividida entre a confusão e o divertimento. Rapidamente, Serina e eu nos separamos, o que me deu a chance de me virar e pegar o meu material no chão - evitando ao máximo o olhar pra lá de inquisitivo do rapaz às minhas costas. - Nossa garoto, mas você demorou! - ofegou Serina, como se tivesse acabado de realizar a prova dos 200 metros com barreira. - O que eu podia fazer? - retrucou o novato, pegando o meu skate com os pés e o segurando na minha direção hoje é o primeiro dia do papai no trabalho novo, e o banheiro da suíte dele e da mamãe não está funcionando...


Ainda um tanto afobado, me levantei da posição em que me encontrava e peguei o skate das mãos de Líon, o agradecendo pela ajuda sem ter coragem o suficiente de o encarar nos olhos. - E aí, será que eu preciso mesmo fazer as apresentações? - perguntou o garoto, sua voz destilando sarcasmo - Por que, se quiserem, eu faço com todo prazer: Serina, este é o Adrian, de quem eu lhe falei ontem... Adrian, esta é minha irmã-gêmea Serina. Depois dessa, eu tive que levantar o meu rosto e admirar o novato à minha frente. - O quê? - soltei sem pensar, tendo certeza que a minha expressão estava tão espantada quanto eu me sentia Ela é sua irmã-gêmea? Sem cerimônia alguma, tirei os óculos escuros da minha frente e me virei de um para outro umas cinco vezes. Aquilo era inacreditável. Enquanto Serina era baixa e sua pele castanha parecia resplandecer cada raio de sol, Líon era um verdadeiro poste, cuja pele morena parecia não ter visto a luz do dia por um longo tempo... Nem o cabelo dos dois eram


iguais: o do novato era lanzudo e sem forma, caindo para os lados de todas as direções - já o da garota era bonito e sedoso, uma verdadeira cascata cacheada da cor do chocolate. - Sim, infelizmente ele é o meu gêmeo - respondeu a garota para mim, ao mesmo tempo em que empurrava com força o ombro esquerdo do irmão - Porém eu sou a filha mais velha. - Só oito minutos mais velha! - protestou Líon, massageando a clavícula de cara feia. - Claro, mas isto não muda o fato que eu continuo sendo a mais velha... Antes que eu me recuperasse totalmente da surpresa, o sinal da Academia ecoou pela calçada. Sem perceber, tanto Serina quanto o novato me levaram escada acima para o Portão de Entrada, os dois rindo até não poderem mais da minha careta congelada de espanto. Quando chegamos no pequeno patamar, Oliver e os Privilegiados nos alcançaram, tirando Líon e eu do caminho - ao mesmo tempo em que olhavam para a irmã do novato e resmungavam para quem pudesse ouvir coisas como ''Que


desperdício!''. Foi então que o pequeno balão de entusiasmo que havia crescido dentro de mim desde que Serina me tocara começou a se esvaziar. Estava na cara que toda aquela atenção que a garota estava tendo comigo logo iria acabar. Era só olhar para o lado; por onde ela passava, não importava quem fosse, todos a acompanhavam. Com o tempo, finalmente Serina iria ver que existiam companhias muito melhores e mais parecidas com ela na Constantine do que o irmão-gêmeo e - é lógico - eu. E com a cabeça cheia de tudo aquilo, nem notei o vulto alto e ruivo que nos seguia à uma pequena distância ao longo

do

corredor,

seus

olhos

transbordando em um prazer ofensivo.

141

negros

e

malignos


143

C

9. O

CONFRONTO

ontrariando todo o bom senso, logo na primeira aula – que

foi no laboratório de Biologia - Serina dividiu a mesa com o irmão e comigo. E verdade seja dita, oportunidade de se esquivar de nossa companhia não lhe faltou. Depois que entramos na sala, toda a turma de veteranos nos encarou - ou melhor, encararam à ela estupefatos. Percebendo nossa chegada, o Prof. Novaz pediu para que a garota se apresentasse à classe, antevendo que Líon já deveria ter tido a oportunidade de fazê-lo no dia anterior. Aceitando o convite com um meio sorriso tímido, e uma naturalidade sem tamanho, ela o fez. Pelos dois minutos em que falou, ela nos teve na palma de sua mão. Nem mesmo Oliver e parte do grupo dos Privilegiados que dividiam as aulas conosco pareciam ser imunes ao poder que Serina irradiava. Secretamente,


enquanto a observava à frente do quadro negro, percebia o quanto ela se parecia com o sol lá fora - repleta com uma força magnética, a garota era capaz de envolver quem quer que seja ao seu redor. Assim que terminou o seu pequeno discurso, metade das garotas - incluindo Alice Corvel e suas amigas ofereceram suas mesas para Serina se sentar. Porém, surpreendendo à todos, ela recusou educadamente os pedidos e se acomodou entre Líon e eu (me lançando uma rápida piscadela que quase fez meu estômago rodopiar). Durante o resto do dia, os dois irmãos me seguiram por todas as salas de aula. Mas, diferente de mim ou do novato, a menina atraía a atenção das pessoas por onde passava. Sem dúvida alguma, o momento mais embaraçoso foi na hora do intervalo. Metade dos grupinhos espalhados pelo Pátio Central da Constantine pareciam ter separado um lugar cativo para Serina ao meio deles. Só que, novamente frustrando a expectativa geral, a garota preferiu se recolher junto comigo e Líon em uma pequena banqueta na Galeria


que ligava o Prédio Principal da Academia à velha construção que nos servia como Biblioteca. Por alguns minutos, tudo o que fiz foi ficar admirando como a claridade que invadia a Galeria por entre as frestas deixadas por suas colunas de tijolos vermelhos resplandecia pela pele morena da garota. Eu tinha plena consciência que Líon falava alguma coisa comigo, mas todas as palavras que saíam de sua boca pareciam flutuar a minha volta, como se eu estivesse usando potentes fones de ouvido no volume máximo. ''Não fique encarando muito a novata, esquisitão!'', eu me repreendia silenciosamente, quando Serina descansou o sanduíche que comia em seu colo e virou-se na minha direção, seus olhos castanhos repletos de uma preocupação que não combinava com suas feições angelicais. - Acho que aquele loirinho de hoje cedo está encarando você... - cochichou ela, inclinando minimamente o seu queixo na direção de Oliver Nigro, cujo a expressão carrancuda parecia indicar que ele estava me fulminando mentalmente.


- Ah, não se preocupe - respondi, não conseguindo controlar o riso que surgia em meus lábios - Ele e os amiguinhos dele sempre fizeram isto... Não é agora que iriam parar. - Mas por quê? - continuou Serina, sua face demonstrando todo o choque que sentia - Por que eles te tratam desse jeito? - Sei lá... Acho que não me encacho nos ''altos padrões'' de aceitação dos Privilegiados. Parecendo não acreditar no que havia acabado de escutar, a garota chegou mais perto de mim e me esquadrinhou por inteiro, igual às garotas que ficavam espremidas na porta do vestiário masculino antes das aulas de Ed. Física. - Você só pode estar brincando! - disse ela, meneando a cabeça em descrença, um breve sorriso surgindo em seus lábios - Ou isso, ou você não deve ter um espelho sequer na sua casa! Agora quem não acreditava no que havia escutado era eu. Foi isso mesmo que eu ouvi? Serina, a garota que


praticamente parou a Constantine com a sua chegada, acabara de dizer que me achava bonito? - Hei, sobre o que vocês estão cochichando? interrompeu Líon, olhando de mim para a irmã com pura suspeita. - Nada - respondeu sua gêmea, pegando de volta o seu sanduíche e o mordiscando de leve - Só estava dizendo para o Adrian aqui que eu acho que aquele loirinho, da nossa sala, está pensando em aprontar alguma coisa pra cima dele... - O quê? O Oliver?! - exclamou o novato, não disfarçando seu olhar de repulsa ao se inclinar para o outro lado do pátio, onde os Privilegiados estavam - Tudo bem, ontem ele se mostrou para mim um Otário com O maiúsculo... Mas por que ele iria armar alguma coisa contra o Adrian? - Bom - começou Serina, claramente arrependida de ter tocado no assunto na frente do irmão - Assim que eu cheguei na escola, ele e o grupinho dele meio que... me importunaram - na menor menção de Líon em se levantar, a garota correu para apoiar sua mão esquerda sobre o peito


dele, tratando logo de acrescentar - Mas eu tinha tudo sobre controle! Só que... bem, o Adrian viu e interferiu. - E? - indagou o novato, claramente nem um pouco convencido com o final que sua gêmea havia dado ao assunto. - Ahn - continuou Serina, olhando para mim como quem pedisse um pouco de apoio - Ficou meio óbvio que esse tal de Oliver não ficou feliz com a interferência do Adrian na nossa ''conversa''. Só que, antes que as coisas ficassem realmente feias, eu consegui separá-los. - Então era por isso que vocês dois estavam se agarrando em baixo da árvore quando eu cheguei? - Sim, quero dizer, não! - engasgou-se a garota, ao mesmo tempo em que eu tentava afrouxar o nó da minha gravata - Não seja idiota. Depois que Serina me alertou sobre o comportamento de Oliver, durante o resto do dia me vi observando o garoto por cima do braço - sempre me esquivando quando percebia que ele se virava para mim. Era bastante nítido para qualquer um que nós dois nunca tivemos uma relação de grande


camaradagem ao longo desses onze anos. Mas, até então, eu nunca tinha visto o filho do diretor me encarar com tamanha raiva - geralmente era só nojo. Pois foi isso o que Oliver fez: me encarou com raiva no intervalo... me encarou com raiva na aula de Cálculo... Me encarou com raiva no Laboratório de Informática, até que o último sinal do dia tocou, e toda a turma de veteranos se dispersou, fugindo da sala como se houvesse uma ameaça de bomba na escola. Quando terminei de vestir o meu agasalho de estimação por cima do paletó vermelho do uniforme, acompanhei Líon e Serina na direção da entrada, fazendo questão de ignorar o olhar persistente do rapaz sentado no canto mais escuro do Laboratório. - Então - eu disse, colocando minha mochila sobre os ombros e subindo em cima do meu skate - tenho uma vaga sobrando no meu automóvel. Quem quiser uma carona para casa, é só subir. Mas vou avisando, as damas tem prioridade! O Novato revirou os olhos deliberadamente, ao passo que sua irmã se colocou entre nós dois e sorriu de forma


marota para mim. - Você é um palhaço, sabia? - riu ela, ajeitando uma mecha escura que havia caído sobre o seu rosto - Mas hoje vou ter que recusar. Papai vem buscar a gente de carro para almoçar, sabe... Comemorar o novo emprego dele e tal. - Tudo bem - comentei, tentando esconder a minha decepção. - Mas amanhã eu vou aceitar essa carona com todo o prazer! - completou a garota, assim que chegamos ao Pátio de Entrada da Constantine. - Eu não vou me esquecer disso... - eu disse, contemplando os dois se afastarem de mim e entrarem em um carro preto e elegante do outro lado da calçada. Líon, que não havia perdido a esportiva, abaixou a janela ao lado do seu banco e gritou na minha direção: - Hei, eu também não vou me esquecer que vocês dois iam me deixar voltar para casa a pé! Ao som de uma breve buzinada de despedida provavelmente do pai dos gêmeos - o automóvel negro acelerou e partiu, me deixando sozinho junto com os outros


estudantes que saiam da Academia e partiam para os seus destinos. Ainda rindo sem saber o por quê, dei impulso no meu skate e segui à toda na direção da Casa-de-Bombeiros. O trânsito pelas ruas de Ventura aquela hora estava bastante movimentado, por isso resolvi pegar um atalho. Como esperado, a passagem subterrânea que cruzava uma das avenidas principais se encontrava vazia e mal iluminada, então me dei ao luxo de continuar na mesma velocidade que estava sem me preocupar em ''atropelar'' alguém. Porém, antes que eu pudesse chegar ao fim da pequena via, um vulto alto e forte bloqueou o meu caminho, seu rosto oculto por um capuz e sua mão direita armada com uma barra de ferro. Assustado, parei o skate de forma brusca e tentei me equilibrar sem ver o chão, meus olhos congelados na figura ameaçadora á minha frente. Por um minuto, me lembrei do jovem demônio perseguidor. Mas, assim como naquela manhã, eu estava completamente equivocado. Com uma destreza particular, o vulto girou a barra de ferro em sua mão e puxou o capuz do


seu casaco para trás, revelando seus olhos claros cobertos de rancor. - Oliver - sussurrei, tentando manter a calma - o que você está fazendo aqui? Com um sorriso sem humor algum, o rapaz parou e me encarou, o bastão metálico ainda girando em sua mão. O eco seco de passos às minhas costas me mostravam que ele não viera sozinho. Quando me virei com cautela, vi Antoni e Thomas se aproximando de mim, o primeiro segurando um taco de beisebol e o segundo alizando um longo pedaço de madeira. - Hei, caras, nós sabemos que não precimos disso tudo - tentei apaziguar, mas tudo o que eu consegui foi fazer Oliver acertar a parede ao seu lado com a barra de ferro. O som correu pela passagem e me encheu de pânico. É claro que eu já havia brigado - ou melhor, apanhado outras vezes com aqueles caras. Porém, das outras vezes, foram carne contra carne. Eu podia suportar. Só que, alguma coisa me dizia, daquela vez eles queriam deixar uma mensagem bastante clara para mim.


- Regis, Regis... - suspirou Oliver, chegando mais perto de onde estava - cadê toda aquela bravura que você demonstrou pra gente hoje de manhã? Foi embora com a garota? Antoni e Tomas riram atrás de mim. De fato, pela primeira vez na vida, eu queria mesmo que o ''Adrian Rebelde'' e sem medo de ser expor estivesse ali para me controlar. Mas, como ele mesmo disse, parecia que o meu espirito destemido havia ido embora naquele carro elegante junto com Líon e Serina. - Você sabe que seria mais racional se você simplesmente me dissesse para que, da próxima vez, eu ficasse fora do seu caminho, não? - perguntei, pegando cautelosamente o skate dos meus pés e o segurando á minha frente. - É claro que eu sei... - respondeu o líder dos Privilegiados - Mas hoje eu estou afim de tirar um pouco de sangue dessa sua carinha. Se não fosse pelos meus dons de Arcano, eu tinha certeza que teria caído no chão sem pensar duas vezes. Assim


que terminou de falar, Oliver girou o seu bastão tão rápido na minha direção que tudo o que eu pude fazer foi me esconder embaixo da prancha do skate. O choque do metal com a madeira o desequilibrou, mas isto não impediu que seus amigos viessem ao seu auxílio. Antes que os dois pudessem me atingir, joguei o meu skate para trás com toda a força. A prancha os atingiu em cheio no meio do estômago, e tanto Antoni quanto Tomas foram arremessados para trás iguais à duas grandes e horrendas marionetes. Recuperado do choque, Oliver tentou me acertar mais uma vez, porém eu consegui ser mais rápido. Aparei a barra de ferro entre as minhas duas mãos e a entortei, transformando-a em um enorme ponto de interrogação. Aterrorizado, o garoto tentou fugir, mas era tarde demais. A adrenalina tomava conta do meu ser, e tudo o que eu via na minha frente eram formas escuras e vermelhas. Sem dar margem para escapatória, peguei o filho do Diretor Nigro pelo colarinho do uniforme e o joguei na mesma direção onde seus amigos tentavam se levantar. O


choque fez os três caírem novamente, uma emaranhado grotesco de braços e pernas se movendo em todas as direções. - Que tipo de coisa é você? - bradou Oliver, assim que conseguiu se levantar e limpou o pequeno filete de sangue que escorria pelo canto de sua boca. Eu não tive tempo de responder que tipo de coisa eu era. Após ajudar os amigos a se levantarem, Oliver e seus dois comparsas correram á toda velocidade na direção contrária da passagem subterrânea - deixando para trás apenas o taco de beisebol, o pedaço de madeira e os bastão de ferro retorcido. Assim que os três saíram do meu campo de visão, um poderoso sentimento de culpa me tomou. O que eu havia feito? Eu usara meus dons de Arcano para machucar outra pessoa, drasticamente mais fraca e quebrável do que eu. Respirando rápido, tentei reunir todas as minhas coisas que haviam se espalhado durante o confronto. Enquanto jogava tudo o que eu alcançava para dentro da minha mochila, eu pensava que Oliver poderia estar neste exato momento contando para todos que conhecíamos o que


eu havia acabado de fazer à ele, Antoni e Thomas. E foi neste instante que a luz da passagem se ascendeu e voltou a se apagar. Confuso, olhei para os lados para tentar ver o que havia acabado de acontecer. Para meu espanto, parado contra a luz do sol - no lado oposto do vão - se encontrava a sombra alta e descamisada de um rapaz ruivo e musculoso. Seus olhos negros como a noite me avaliavam com atenção, um dos cantos de sua boca levemente repuxado em uma expressão de contentamento. Contrariando a lógica normal, me levantei e segui à passos largos na direção do demônio que perseguia Líon e que o empurrara da plataforma do Pavilhão de Tortura no dia anterior. Quando cheguei perto dele, tudo fez sentindo. Foi ele! Aquilo tudo, desde de manhã, havia sido armado por ele! O aprendiz de assassino havia controlado a Oliver e a mim para que nos confrontássemos, para que eu usasse os meus dons de Arcano. Por isso a sensação de ser tomado por uma personalidade que não era minha. - O que você quer? - cuspi com raiva, tendo que


inclinar a minha cabeça para poder olhar o rosto zombeteiro à minha frente. - O que eu quero? - disse ele, com uma voz grave e divertida - Hum, eu acho que você sabe... Eu quero você fora do meu caminho! Eu o admirei, minhas mãos fechadas em punho. Ele estava pedindo para eu sair de fininho e observar Líon morrer? Só podia ser brincadeira. - Acho que isso vai ser meio impossível – respondi, meus dentes tão cerrados quanto os meus olhos. - Impossível, é? Então acho que vou ter que preparar muitas outras brincadeiras para nós dois! Com

um

sorriso

maligno,

o

jovem

demônio

tremeluziu e desapareceu. Eu ainda girei nos calcanhares, na vaga esperança de o encontrar atrás de mim, mas tudo o que eu podia ver era minha mochila, meu skate e a luz do sol que invadia a pequena passagem - sem dar pistas da aparição que havia acabado de se materializar ali.

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M

10. P E S A D E L O

esmo sabendo que estava seguro na Casa-de-Bombeiros,

meu coração continuava martelando forte contra o peito. Durante todo o relato do meu encontro com o demônio de Líon, meu pai e Angel não trocaram uma só palavra. Cirus, que continuava usando o seu uniforme da Brigada de Paramédicos, parecia aturdido ao escutar cada descrição que eu fazia. Já minha tia olhava para mim em um estado de choque, sua expressão mudando para a indignação assim que terminei de contar tudo o que aconteceu. - Eu não acredito que ele te ameaçou, veja só! Ou ele não faz a miníma idéia com quem está se metendo, ou ser um Arcano hoje em dia não deve significar mais nada... Ainda pensativo, Cirus se levantou da poltrona onde estava sentado e começou a andar de um lado para outro. Eu sabia muito bem o que ele estava fazendo, e também sabia que estava prestes a enfrentar um breve interrogatório.


- Você disse que o demônio controlou você e Oliver? - perguntou ele junto a mim, os braços cruzados sobre o peito e seus olhos cinzentos mais frios do que eu já havia visto até então. - Bom, foi mais ou menos o que ele deu a entender repliquei, não estando tão certo sobre isto quanto antes. Com um balançar de cabeça, meu pai voltou ao seu percurso rotativo em meio a sala de estar, enquanto Angel se ajeitava sobre o braço do sofá em que eu estava sentado. - Mano, isto não faz o menor sentido! - disse ela, seus olhos azuis congelados de espanto e dúvida – Demônios Comuns não podem atuar no campo espiritual... Muito menos infligir seus poderes à um Arcano. - Mas é aí que está a questão - respondeu Cirus, parando novamente de caminhar - Acho que o que ele fez foi interferir nas emoções presentes no ambiente ao seu redor, e para isto, nem é preciso atuar no campo espiritual. É como possuir um corpo: ele vai controlar seu organismo, mas não sua alma. Poucos seres da classe Comum sabem como fazer isto, mas pelo jeito, o que nós estamos enfrentando é mais


inteligente do que esperávamos. Angel pareceu entender muito bem a explicação de seu irmão, porém, eu continuava perdido e assustado. Agora, mais do que nunca, Líon corria perigo. E não só isso: todos ao seu redor, incluindo Serina e quem quer fosse, também. - Sei o que está pensando - disse meu pai, parando ao meu lado e passando seu braço pelo meu ombro – mas acredite, tudo vai ficar bem. Temos que ficar mais alerta, sim... Mas nada vai acontecer com seu amigo; lhe dou a minha Palavra de Arcano. Por um momento, olhei atônito para Cirus. A Palavra de Arcano era o maior juramento que alguém como nós poderia dar. Depois disso, vi que meu pai estava realmente empenhado em me ajudar nesta missão. - E agora, o que vamos fazer? - inquiriu Angel, reunindo rapidamente seus cachos platinados com as mãos e os prendendo com um elástico no alto da cabeça. - Para início de conversa - começou Cirus, sua postura reta e autoritária, em uma posição que eu intimamente chamava de ''Módulo Arcano em Ação'' - Você e eu iremos


pesquisar qualquer coisa que possa ter acontecido com o rapaz ou que esteja relacionado à ele... Vamos procurar nos hospitais, na delegacia, no corpo de bombeiros e até no cartório. Qualquer informação, por menor que seja, pode ser valiosa para nós. Angel meneou a cabeça em concordância, se levantou do braço do sofá e deixou a sala, como se fosse partir em sua busca naquele exato instante. - Quanto a você... Antes que meu pai me dissesse qual era a minha parte ativa no plano, eu já estava consciente do que iria fazer. Para falar a verdade, eu meio que já sabia a minha função desde que vira o demônio de cabelo cor-de-fogo no Pavilhão de Tortura da Academia. Eu seria o guardião secreto de Líon Biel. A partir daquele instante, eu o seguiria para qualquer lugar, estaria atento à tudo ao nosso redor e o protegeria da menor ameaça que surgisse no nosso caminho - igual à um cão de caça treinado... ou à um Anjo da Guarda, olhando a situação por um ângulo mais objetivo.


E foi exatamente o que eu fiz nas três semanas seguintes. Todos os dias, eu buscava o garoto em casa, o levava para a escola e o acompanhava em todas as aulas. A volta era bastante parecida, e eu só me sentia tranquilo quando via que a porta de entrada da moradia dos Biel estava sendo trancada à chave. Não que isso pudesse de fato deter qualquer manifestação sobrenatural, mas a simbologia que a cena representava me deixava muito mais calmo pelo resto do dia. Um bônus inesperado que recebi por esta dedicação foi a presença de Serina. Assim como eu, a garota acompanhava o irmão na ida e na volta para casa. E, mesmo tendo que dividir a sua atenção entre as dezenas de seguidores que conquistara na Constantine, ela sempre arrumava uma brecha para ficar na nossa companhia por um tempo. E não era só a amizade com Serina que estava seguindo um rumo diferente do qual eu previra. Para minha surpresa, nem Oliver - nem nenhum dos seus amigos - comentou um detalhe sequer da nossa briga sob a passagem subterrânea logo no segundo dia de aulas. Na


verdade, depois que o assunto esfriou em minha mente, eu comecei a suspeitar que admitir que apanhara como nunca do ''Mestre dos Esquisitos'' não era exatamente algo que o líder dos Privilegiados estivesse louco para fazer - por mais que isto pudesse arruinar a minha vida. Não que o ato não tivesse gerado uma consequência. Se antes Oliver não me suportava, agora ele me odiava com todas as suas forças. Estava escrito, desenhado e estampado na cara dele. Sempre que me virava na sala de aula, o garoto parecia me encarar, seus olhos claros me enviando onda atrás de onda de tensão. Como se fosse possível, a cada dia que passava, a raiva parecia consumir o filho do diretor aos poucos: Sua pele começou a ganhar um estranho tom pálido, sua barba estava sempre por fazer, e seu cabelo – outrora brilhante e dourado – parecia opaco e apagado. Se as coisas pareciam estar indo de mal a pior para Oliver, o mesmo eu não poderia dizer sobre mim. Uma das grandes vantagens de eu ter, praticamente, começado a seguir os gêmeos Biel foi que um terço dos estudantes da


Academia Constantine pareciam ter perdido a ''aversão'' que sentiam por mim. Eles deviam pensar: ''se Serina e o irmão parecem gostar dele, por que não dar uma chance?'' Às vezes, quando a garota conseguia um tempo e se sentava com Líon e eu na hora do intervalo, Alice Corvel trazia todas as suas amigas para conversar conosco, formando um gigantesco grupo para lá de peculiar. Quando elas não estavam por perto, Daniel Maltha e seus companheiros da Equipe de Lutas vinham se encostar ao redor de mim e do novato, rindo e falando sobre qualquer coisa: desde esportes até o clima, mangás, filmes, música e... bom, meninas, é claro. Era confuso, mas eu me sentia normal pela primeira vez. Quando eu passava pelo corredor, as pessoas agora me cumprimentavam. E, como se não bastasse, nessas três semanas eu não tive um vislumbre sequer do aprendiz de demônio. Mas não pense que isto fez com que eu abaixasse a minha guarda, não mesmo. De vez em quando, eu me pegava pensando na criatura, no que ela poderia estar tramando para


desaparecer por tanto tempo. Na sexta feira, quando estávamos na Biblioteca no horário da Rede de Leitura, Serina me flagrou desenhando distraidamente as feições nebulosas do perseguidor. - O que você está fazendo? - perguntou ela, pegando o meu caderno e encarando o esboço de um par de olhos negros e famintos. - Não é nada - respondi rápido, tentando tirar a folha de suas mãos - é só um desenho-de-treino. - Nossa, é tão lindo e... assustador ao mesmo tempo disse ela, me devolvendo o caderno e colocando o seu queixo sobre as mãos. - Ih, se prepara que ela vai te pedir alguma! sussurrou Líon ao meu lado, enquanto corria os olhos pela página do livro que lia. Com um movimento, a garota jogou o volume que segurava na cabeça do irmão e se voltou para mim, como se nada tivesse acontecido. - Então - continuou ela, deslizando o seus dedos pela espiral do meu caderno até encontrar a minha mão -


Amanhã, a Equipe do Daniel vai enfrentar o pessoal do Instituto Delta aqui na escola, à noite. As meninas todas vão vir, e eu gostaria de saber se você não quer vir comigo? Em uma batida, meu coração parou. Tentando compreender o que estava se passando ali, olhei por sobre o ombro da garota à minha frente e vi suas colegas reunidas atrás de uma estante, observando nós dois sem pudor algum e dando altas risadinhas. Já em algumas mesas de distância, Daniel e os outros garotos da Equipe balançavam os braços para mim, amostrando pequenos cartazes-de-papel com dizeres como ''Vai fundo, cara!'' e ''Você é nosso herói!''. Por um milésimo, me imaginei passeando com Serina, nós dois de mãos dadas e quem sabe, bem... Mas, assim que imaginei isto, percebi a presença de Líon ao meu lado e tudo veio abaixo. Eu não podia deixá-lo sozinho para poder sair com a irmã dele. As consequências de um erro meu poderiam ser terríveis, e eu nem queria pensar nelas. Foi então que eu tive uma idéia brilhante para aproveitar aquela oportunidade única, não esquecendo dos meus compromissos de Arcano. - É claro que sim - respondi, abrindo o sorriso que eu


usava quando queria pedir alguma coisa para Cirus - mas eu tava pensando: Por que não levar o Líon? - Ah, nem pensar! - arfou o novato, olhando de mim para irmã de forma carrancuda - É ruim que eu vou sair com vocês pra ficar de vela! Mas uma vez, a irmã pegou o livro que segurava e o bateu na cabeça do irmão. - Tudo bem, eu entendi! - disse Líon a contragosto, massageando o ponto em que o livro o acertou - Isso não é um encontro, é só uma saída de ''amigos''... Ao falar ''amigos'', o garoto fez questão de formar aspas no ar com os dedos. Mas aquilo bastou para ela e para mim. No dia seguinte, lá estava eu, acompanhando os dois gêmeos pelas ruas de Ventura, na direção do campus da Constantine. Já eram seis e meia da noite, e todas as luzes da escola estavam ligadas. Olhando de relance para a fachada dos prédios, a Academia mais parecia um castelo do que outra coisa - suas pequenas luminárias banhando as paredes de tijolos vermelhos de baixo para cima. Do lado de fora, nós


conseguíamos escutar com nitidez a algazarra que vinha do Pavilhão de Tortura e enchia o ar crepuscular da rua. Quando

finalmente

chegamos

ao

Ginásio

Poliesportivo, onde aconteceria o Desafio de Lutas, a banda do Instituto Delta terminava de fazer sua apresentação um tanto desafinada ao som do clássico ''Hey, Mickey!''. Ao que parecia, antes dos membros de cada equipe se enfrentarem na arena, o pessoal das bandas faziam o mesmo - só que com seus instrumentos, ao invés de braços e pernas. Assim que encontramos o nosso lugar junto das colegas de Serina, Daniel e seus companheiros se viraram para mim e piscaram deliberadamente. Eu tentei fingir não ver os olhos de Líon rolarem para o céu como se dissesse ''eles pensam que me enganam'', por isso tentei prestar atenção ao máximo na Equipe da Constantine. Eu não sabia como Daniel e os outros conseguiam se sentir tão confortáveis estando naqueles colantes vermelhos. Eram constrangedores. As Garotas da Conferida estavam posicionadas estrategicamente logo atrás da área de concentração do time da Academia, e toda hora elas


apontavam para os rapazes de vermelho e se abanavam. Depois do Diretor Nigro ir até o centro da Arena e cumprimentar o administrador do colégio adversário cheio de pompas desnecessárias, o juiz chamou os capitães das duas equipes e explicou as regras. Daniel e o outro garoto pareceram concordar com os termos apresentados, então os dois tomaram suas posições na área atapetada e o juiz assoou o apito. Eu gostaria de dizer como foi a luta, mas não posso. E quando eu digo não, estou querendo dizer na verdade ''não sei o que aconteceu''. Pois, logo após que escutei o eco do apito chegar até mim, eu senti uma dor alucinante rasgar o meu cérebro e desmaiei. Ao acordar, eu não estava mais no ginásio. Na verdade, nem na Constatine eu deveria estar. Tudo ao meu redor parecia escuro, e os único ruídos que quebravam o silêncio era o barulho fraco de um motor e duas vozes familiares cantarolando despretensiosamente ''Bohemian Rhapsody'' atrás de mim. Tentei abrir os olhos, mas minhas pálpebras pareciam


pesadas e lentas. Com um esforço digno de Hécules, consegui despertar de vez. Em um esgar de espanto, percebi que estava sentado no banco do carona de um Táxi - o automóvel, cujo o rádio parecia estar no último volume, percorrendo uma longa avenida ladeada por grandes eucaliptos. Eu reconheci o lugar (era a autopista que ligava Ventura à Dumont), só não sabia por que estava ali. Ao meu lado, o taxista - um homem alto e jovem, com grandes costeletas e olhos brilhantes - concentrava toda a sua atenção na estrada à nossa frente, nem parecendo perceber que eu havia acabado de acordar. Ainda sentindo a forte dor de cabeça, me virei na direção das vozes alegres e estridentes que quebravam o silêncio dentro do carro e tentei ver quem me acompanhava naquela viagem... mas tudo que eu consegui foi me olhar no reflexo de um vidro escurecido, refletindo nas sombras as curvas sinuosas do caminho. De repente, em sincronia com o clímax da música, um par de luzes ganhou vida do nada e eu senti o mundo inteiro perder o eixo. Som de pneus freando e o barulho de um automóvel capotando cruzou os ares da noite. O Táxi girou


mais três círculos perfeitos de 360°, até que atingiu em cheio o tronco largo de um eucalipto, fazendo o vidro dianteiro se estilhaçar em mil pedaços. Atordoado, tirei o cinto de segurança que me prendia e corri para ajudar o taxista, que estava desacordado. O homem tinha uma feia marca roxa na testa, mas graças ao seu cinto, nada mais tinha sofrido. A barulheira produzida pelos passageiros atrás de mim havia morrido, porém não me preocupei - o maior dano estava na frente do Táxi, não atrás. Respirando fundo, tentei abrir a porta do lado do carona, mas não consegui. Olhando para os lados, usei minha força extra e ainda assim a passagem continuava emperrada. Aquilo era ridículo. Como eu iria ajudar os outros se nem a mim mesmo eu podia ajudar? Sentindo um forte arrepio, me virei para frente e o meu sangue ferveu. Do outro lado da pista, um conversível negro e elegante se encontrava de cabeça para baixo, seu teto removível jogado à uns oito metros de distância. Eu não conseguia ver como o motorista do outro carro estava, e aquilo estava me deixando aflito.


Fazendo mais força para me libertar, percebi que cada vez mais as cores ao meu redor pareciam se esvair, e uma névoa gélida e cortante começou a se espalhar pela via, suas formas se espiralando e ganhando dimensões estranhas. Um rasgar cortante e espectral cruzou a autopista, e com o coração na mão, vi o dono do outro automóvel se arrastar por debaixo da carroceria - seus braços e suas pernas em ângulos macabros e impossíveis. Congelado, vi o motorista se erguer igual à uma marionete, seus pés trás traçando uma reta na direção do Táxi abatido. Eu queria gritar, mas minha voz não saía e todos os meus movimentos pareciam mais lentos. Curvandose na minha direção, o homem arrancou a porta do carona e o jogou para longe, o metal produzindo uma chuva de faíscas ao tocar o solo asfaltado à mais de quinze metros. Reunindo toda a minha coragem, encarei o estranho que se agigantava sobre mim e senti o choque me abater. Recortado contra lua, o rosto maligno do demônio que seguia Líon me encarava com prazer, sua cabeleira ruiva vergastando contra o vento ártico.


- Acho que nos encontramos de novo, não? - disse ele, seu hálito pesado me atigindo com um soco. Antes que a criatura fizesse algo mais, consegui me livrar das amarras invisíveis que vedavam a minha boca e gritei. E foi o meu grito sufocado que me libertou e me fez acordar de verdade, estatelado sobre a maca de vinil negro da Enfermaria da Constantine. Quando abri os olhos, Serina e Líon estavam ao meu lado, acompanhados por toda a Equipe de Lutas, mais Alice e suas amigas. O Prof. Novaz avaliava metodicamente a minha pressão, até que percebeu que eu havia acordado, e me encarou com seus olhos imensos e simpáticos. - Vejam só, o dorminhoco acordou! A tensão que sustentava o ar se dissipou rapidamente. Pude perceber cada músculo do maxilar do novato se descontrair, e com um pequeno suspiro, sua gêmea chegou mais para perto da minha cama e passou as mãos pelos meus cabelos úmidos de suor. Eu sabia que aquele não era um momento apropriado, mas um terço da ligação que me tomou à três semanas atrás


percorreu com força todo o meu corpo. Por um segundo, eu queria que nos deixassem sozinho, e que parassem de olhar para mim daquele jeito assustador. - Hei, o que foi que aconteceu, cara? - perguntou Daniel, dando um leve tapinha na minha perna direita Você nem viu a nossa escola estraçalhando os babacas do Delta! Com um incontrolável bocejo, me levantei da maca e olhei ao meu redor. Eu não havia desmaiado - na verdade, eu havia mergulhado no sonho que me atormentava quase todos os dias, mesmo estando acordado. Algo me fez ficar inconsciente, e algo havia me revelado a cena inteira do meu pesadelo. Até aquele momento, a cena sempre acabava quando o motorista do outro carro arrancava a porta do carona e a jogava para trás, suas mãos retorcidas se aproximando de mim e tentando me pegar. Porém, hoje, eu vira o rosto dele... e eu não tinha nem palavras para descrever o que estava sentindo. Aquilo era ruim. Muito ruim.


- Eu, eu preciso ir para casa - sussurrei, minha voz engrolada e seca como se eu tivesse acabado de ser resgatado de um deserto. - Se acalme, jovem Regis - disse o Prof. Novaz, pegando um estetoscópio e o levando na direção do meu peito - Seu pai já foi avisado, e ele está vindo aqui para buscá-lo. - Mas e Serina, e Líon? Quem vai levá-los para casa?perguntei, olhando de um rosto a outro, como se pedisse ajuda. - Não se preocupe - disse Líon, passando o braço pela cintura da irmã - Nossos pais já chegaram, eles vão nos levar. Só estávamos esperando para ver se você estava melhor. Sem saída, fechei os meus olhos em concordância e deixei o socorrista terminar o seu trabalho. Tudo não havia passado de uma ilusão. Eu nunca seria normal, e nada poderia mudar essa condição. Esse tempo todo eu estava tendo sonhos com o demônio assassino, mas só agora eu descobrira. Que tipo de Arcano eu era? Olhando para os rostos preocupados que me


rodeavam, percebi que as coisas haviam mudado, sim. E por três semanas eu me deixei acreditar que eram para melhor. Só então eu entendi que tudo fazia parte de uma estratégia, um plano maligno e cruel. Pois, olhando para aquelas pessoas, finalmente vi que o jogo das sombras havia começado. E logo eu, o garoto mais solitário de Ventura, enfim tinha muito mais coisas a perder do que antes.

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11. M E N S A G E M

A

quele foi o pior domingo da minha vida. Deitado na minha cama, repassei mentalmente todos

os acontecimentos do dia anterior: O mergulho para o inconsciente, a visão do jovem demônio sobre mim, os rostos de preocupação me rodeando na Enfermaria da Constantine, a mão de Serina alisando os meus cabelos... Era como andar em uma Montanha-Russa de emoções. No meio da manhã, Daniel me ligou, perguntando como eu estava me sentindo. Ele parecia realmente preocupado, mas parte do meu cérebro se questionava como ele havia conseguido o número do meu telefone. - Foi como o prof. Novaz explicou - disse eu, agradecendo em silêncio a boa desculpa que o socorrista da Academia tinha providenciado para mim - Com esse estresse do último semestre, a pressão para a Faculdade... Sabe como é, a gente acaba se alimentando mau e... resultou nisto.


Desidratação. Eu sei, estava contando uma mentira deslavada. Não estava desidratado. Nunca em minha vida eu havia deixado de comer por qualquer coisa e muito menos estava preocupado com a escola. Porém, eu não podia simplesmente contar para ele o que de fato aconteceu. - É, eu seu como é - continuou Daniel, sua voz um tanto paternalista - Mas isso não pode se repetir! E se a Equipe de Lutas por acaso ficar desfalcada para as Regionais e precisarmos de um substituto? O que iríamos fazer? Precisei de meio minuto para entender o que o rapaz do outro lado da linha estava me falando. E precisei de mais um minuto para compreender boa parte das três semanas que haviam passado. A aproximação repentina de Daniel e dos garotos da Equipe nada tinha a ver com os irmãos Biel. De alguma forma, o capitão e os outros rapazes descobriram o meu pequeno duelo contra Oliver Nigro e dois de seus cumpinchas mais habilidosos. E agora, para meu espanto, eles me queriam perto do time - como um verdadeiro reserva


de luxo. - Eu... eu não sei o que dizer. - Não se preocupe com nada - disse Daniel – Apenas se cuide, valeu? Nos vemos amanhã na escola. Antes que eu me recuperasse da surpresa e conseguisse recusar o convite de forma gentil, a ligação acabou. - Ótimo... agora sim ferrou tudo - murmurei para mim, recolocando o aparelho no gancho e indo para a cozinha preparar o almoço. Como eu esperava, nem Cirus nem Angel estavam em casa. E, mesmo se estivessem, seria eu mesmo quem iria preparar a refeição de qualquer forma. Por isso, enquanto remexia na geladeira da cozinha procurando algo que fosse rápido e fácil, tudo o que eu fazia era pedir a Deus que nenhum integrante da Equipe de Lutas da Constantine se contundisse durante esse último semestre. Já estava bastante difícil de me concentrar só nas ações psicóticas de uma criatura das trevas vingativa. Acho que não precisava também de um processo por Lesões


Corporais Graves para arruinar a minha vida. Foi pensando nisso que eu acabei me lembrando de Líon e Serina. Eu queria ligar para os dois, saber como eles estavam, mas sabia que seria esquisito se eu o fizesse. Segundo os últimos acontecimentos, era eu quem precisava de atenção, não os gêmeos. Perdido neste torpor, escutei a porta de entrada da Casa-de-Bombeiros ser aberta e os passos pesados de Cirus se aproximarem da cozinha, seu estômago roncando ruidosamente. - Hum, torta de queijo! - exclamou meu pai, pegando uma garrafa de água e se escorando no mármore da pia, onde eu preparava o almoço - E aí, garoto, como você está se sentindo? - Normal - respondi, olhando diretamente para o tabuleiro untado de manteiga em minhas mãos. Cirus me encarou, esperando que eu continuasse a frase, porém eu não falei nada. Quando o meu pai me pegou ontem na escola, não comentei sobre o sonho que tive – o sonho que me fez desmaiar do nada. Entretanto, como sempre, ele sabia que eu estava escondendo algo dele. E


como sempre, eu me sentia culpado por isso. - Onde está a Angel? - perguntei, tentando desesperadamente mudar de assunto. - Não sei - disse ele, levando mais uma vez a garrafa de água a boca - Hoje de manhã, quando estávamos na garagem, ela disse algo sobre ''a peça que estava faltando''... Sabe como aquela menina é, no mínimo tá aprontando alguma coisa. Concordei com a cabeça, mas ainda assim não olhei para ele diretamente. Depois de alguns minutos, logo após eu ter colocado a massa da torta no forno para assar, Cirus se esparramou em uma cadeira e me avaliou, seus olhos cinzentos tão brilhantes quanto o flash de uma máquina fotográfica. - Será que já disse para você que eu te acho o pior mentiroso do mundo? Sentindo um arrepio na espinha, me virei para ele e suspirei, obrigando os meus lábios a falarem tudo o que eu estava ocultando desde a noite anterior. - O que aconteceu na escola não foi um desmaio


clínico - disse por fim, o peso que estava sobre as minhas costas se agravando gradativamente - Algo me fez ficar inconsciente... - ... e eu acho que sei quem foi - completou Cirus, suas feições duras e sérias. - Pai, como isso é possível? - questionei, lutando para que minha voz mantivesse o tom calmo - Eu não sei o que

ele está planejando, mas eu sinto como se estivesse enlouquecendo! - É esse o seu problema, Adrian - murmurou meu pai, se colocando ao meu lado em um átimo de segundo, seu braço esquerdo descansando de forma gentil nos meus ombros tensos - Você se deixa abalar facilmente. De cara ele percebeu isto, e está óbvio que o demônio está usando suas emoções ao favor dele. Mesmo eu não querendo admitir, Cirus estava coberto de razão ao meu respeito. Por isso que, depois de servir o almoço para nós dois (Angel ainda não havia aparecido) e arrumar a bagunça que tinha ficado na cozinha, fui para o meu quarto e me obriguei a pensar com clareza.


Eu sabia que meu pai não iria me interromper pelo resto dia - domingo era o ''Dia de Total Reclusão'' dele então não vi necessidade de trancar a porta. Durante a tarde inteira, e boa parte da noite, vaguei de um lado para o outro forçando a mim mesmo a me controlar. Se aquela criatura estava pensando que iria usar meus próprios medos contra mim mesmo, ela podeira tirar o seu par de asinhas coráceas da chuva. Antes que desse por mim, a escuridão da madrugada se dissipou e os primeiros tons do alvorecer iluminaram o vasto céu aquarelado de Ventura. Fiquei um curto tempo sentado na minha cama, observando a constelação de poeira matinal atravessar a janela do quarto, até que o relógio digital soou o seu alarme – ironicamente entoando a melodia compassada de ''Bohemian Rahpsody'' - e eu me vi levantando e me arrumando mecanicamente para o novo dia de escola. Não procurei por Cirus, muito menos por Angel. Para falar a verdade, nem tinha a noção se minha tia havia voltado para casa ontem. Tudo o que eu queria era sair dali e ver se


Serina e Líon estavam bem. Se nada de ruim havia acontecido com eles enquanto estava longe. Por isso que eu acho que dá para imaginar de uma forma bastante clara como eu fiquei surpreso quando abri a porta da Casa-deBombeiros, pronto para partir, e me deparei com os gêmeos empoleirados na soleira da entrada - os rostos idênticos franzidos em apreensão. - Vejam só, o Belo Adormecido finalmente saiu do castelo! - exclamou Líon, ao mesmo tempo em que Serina me estendia um grande copo de isopor repleto de chocolate quente, seu sorriso solar se expandindo pelo rosto. - Nós estávamos preocupados - disse ela, encolhendo os ombros delicadamente assim que viu a minha expressão confusa - Não paramos em casa ontem, mas não fiquei um minuto tranquila. Você realmente nos assustou no sábado! De forma inconsciente, a garota ergueu a mão direita e passou pelo meu braço, como se para ter certeza que era eu mesmo ali na frente dela. Em resposta ao seu toque, pude sentir minhas orelhas ficarem quentes, e o velho rubor se espalhando pelas minhas bochechas.


- Eu... eu estou bem - disse por fim, assim que consegui tomar o controle das minhas cordas vocais. - Foi só um ataque de fraqueza. Não precisava se preocupar. Muita mais poderosa do que da primeira vez, a sensação da ligação que me tomava sempre que eu encontrava Serina encheu o ar à nossa volta como uma tempestade elétrica. Por um segundo, me permiti mergulhar nos

olhos

escuros

da

garota,

sua

pele

castanha

resplandecendo contra a minha, alva e pálida. - Será que o dois já terminaram de flertar? - retrucou Líon, esfregando suas mãos uma na outra - O dia está lindo como sempre, mas aqui fora parece que está caindo neve! Como se despertasse de um sono profundo, Serina olhou envergonhada para a mão que continuava a alisar o meu braço esquerdo. Assim que ela recolheu o seu toque, minha pele protestou indignada. Fingindo não escutar o martelar desvairado do meu coração, tranquei a porta às minhas costas e acompanhei os dois na diração da escola. - Então Adrian - começou Serina, passando o seu braço sobre o ombro do irmão, tentando ao máximo disfarçar


o que havia acabado de acontecer - Você soube? Já começaram a planejar o nosso Baile de Formatura. Em resposta à novidade, senti os meus ombros se encolherem e minha garganta se fechar com um ruído fraco. O Baile de Formatura da Academia Constantine era mais uma tentativa frustrada e clichê do Diretor Nigro de induzir cada veterano de sua instituição à se sentir em um filmeco adolescente feito para a televisão. Como a cerimônia era o auge do reinado dos Privilegiados, não precisava pensar muito por que eu não gostava nem um pouco de me imaginar pisando no salão de festas do Grand Hotel Ventura – onde sempre aconteciam os eventos de gala da cidade - na noite do Baile. Para piorar as coisas (ou refrescar ainda mais a minha memória), assim que chegamos ao campus da Academia, vi um grupo de zeladores estendendo na Torre do Relógio uma enorme faixa vermelha com os dizeres:

16º Baile Anual de Formatura ''UMA NOITE CELESTIAL'' Ingressos na Secretaria


- Urgh, que tipo de tema é esse? - indagou Líon, olhando tão exasperado para o cartaz quanto eu – ''Uma Noite Celestial''?! Já posso imaginar as fantasias bizarras que vão surgir no dia... Serina pareceu indignada com o comentário do irmão. Depois de olhar do novato para mim, ela meneou a cabeça com reprovação e saiu apressada na direção do Pavilhão de Tortura, não antes de murmurar um ''garotos...'' impiedoso para nós dois. - Mas o que foi que eu fiz? - resmunguei admirado, ao passo que olhava o rastro deixado por Serina enquanto se afastava de onde estávamos - Eu não disse nada de ruim sobre esse maldito Baile! O garoto se virou para mim com uma careta que dizia claramente ''uma imagem vale mais do que mil palavras'', mas no fim, ele acabou inspirando fundo e falando com uma calma bastante fingida: - Basta comprar os convites, levá-la para esta tal festa e ela vai se esquecer de tudo... Eu garanto. Já imaginando o sangue que deveria estar se


concentrando em minha face, encarei Líon sem saber o que fazer. Revirando os olhos deliberadamente, o rapaz girou nos próprios calcanhares e me puxou para os vestiários, seus passos tão apressados que quase me obrigou a correr atrás dele. Para nosso espanto, não se via o sinal da Treinadora Kara em lugar algum da entrada do Pavilhão - o que era bastante atípico, já que toda as segundas-feiras ela recebia os alunos do último ano em frente ao portão de folhas duplas do ginásio. - Deus, esse lugar está tão escuro! Onde está todo... Antes que Líon pudesse completar a pergunta, um grito alto e agudo quebrou o silêncio do Pavilhão e se chocou contra a parede atrás de nós, de forma fria e cruel. Não pensando em nada, olhei brevemente para o novato ao meu lado e corremos o máximo que podíamos - o máximo que eu podia sem revelar o meu segredo - e irrompemos na área da piscina, o sangue fervendo em minhas veias. - Eu não estou enxergando nada! - exclamei, tateando as cegas pela escuridão, à procura da caixa de força do


Pavilhão de Tortura. Quando encontrei o interruptor certo, puxei a alavanca para cima e cobri o meu rosto, esperando que as minhas pupilas se dilatassem até que eu me acostumasse com a forte luz artificial e pudesse ver alguma coisa. Parado á alguns metros na minha frente se encontrava Líon. O garoto estava meio curvado e meio agachado sobre uma forma emaranhada e um pouco estendida no chão de mármore, seu rosto oculto pelas sombras produzidas por seu cabelo lanzudo. Só pude distinguir os contornos outrora elegantes e retos de Serina quando me aproximei da cena, o corpo de seu gêmeo a cobrindo gentilmente - como se a protegesse de algo que eu ainda não conseguia decifrar. - O que foi que aconteceu? - sussurrei sem fôlego, minha voz tomada pelo choque de ver as lágrimas de terror escorrerem livremente pela face delicada da garota, seu uniforme desalinhado e amarrotado. Com um leve movimento, o garoto ergueu o queixo e me indicou o que estava assustando sua irmã, seus grandes olhos escuros denunciando todo o medo que ele estava


sentindo no momento. Um pouco mais adiante, uma mancha escarlate escorria pelo chão. Foi o cheiro que denunciou tudo. Antes que eu chegasse mais perto, o odor metálico e pungente me atingiu em cheio. Respirando forte, olhei para o piso aos meus pés e me deparei com uma única palavra escrita no chão, em grandes letras vermelhas:

C H EQ U E - Isto... isto é sangue - suspirou Serina com força, as lágrimas ainda manchando o seu rosto - Isto foi escrito com... com sangue. Mas aquilo não era tudo. Um pouco mais à frente, o corpo de um homem alto e atlético boiava de bruços na piscina, uma horrenda mancha carmesim tomando conta da água ao seu redor. Meu estômago embrulhou na hora, mas nada teve haver com o sangue espalhado por todo o lugar ou pelo grande buraco escuro que se abria onde um dia foi um crânio humano... Era


pelo simples fato de eu conhecer quem era o estranho, mesmo estando de costas para mim. Ele era o taxista. O cara que estava ao meu lado todas as vezes em que sonhava com o demônio que perseguia Líon. - Temos que sair deste lugar. Agora! Sem dar chances do novato ou sua irmã protestarem, guinchei os dois pelos ombros e os levei à passos largos para fora do Pavilhão de Tortura. Eu tinha certeza, a mensagem escrita no mármore era para mim. E, por mais que não parecesse, o seu significado era bastante simples e claro: a primeira rodada do jogo havia acabado. E se eu não corresse logo, esta seria apenas a minha primeira derrota.

193


12. A R Q U I V O

195

-

N

MORTO

ão me mande ficar calmo! - bradou o Diretor Nigro, no

auge do seu descontrole - Um homem foi encontrado morto na piscina da minha escola! O que esperava que eu fizesse? - Eu não esperava nada - respondeu o Delegado Maltha, sua voz baixa e cautelosa - só gostaria que o senhor mantivesse um pouco de compostura na minha Delegacia, se é que posso lhe cobrar isto. Qualquer que fosse a resposta que o Dir. Nigro esperava, certamente não era aquela. Com um suspiro forçado, ele encarou por um segundo o homem de olhos verdes por detrás da mesa atravancada de papéis à sua frente e começou a caminhar de um lado para o outro no pequeno escritório - parecendo mais do que nunca um velho leão sufocado em uma jaula estranha. Líon, Serina e eu havíamos tido o prazer de presenciar uma verdadeira Disputa de Poder. E pelo o que eu conseguia


entender, o pai de Daniel tinha acabado de levar a melhor. Mas, por mais interessante que aquele duelo de egos poderia parecer, eu não estava nem um pouco interessado. Nós três já estávamos presos naquele escritório pequeno e escuro à mais de quatro horas, tive que prestar depoimento para o escrivão no mínimo umas duas vezes, meu cérebro latejava forte e sem piedade contra o meu crânio e tudo o que eu queria era poder ir embora dali o mais rápido possível. Não fazia sentido eu ficar parado, esperando, sem fazer nada. A polícia simplesmente não tinha meios, nem era páreo para pegar o verdadeiro culpado. Somente um Arcano poderia deter o assassino. Somente eu tinha que acabar com a raça daquele demônio ruivo. Alheia à confusão que se passava em minha cabeça, Serina tentava se manter calma respirando com força – sua cabeça recostada pesadamente no ombro de Líon, enquanto sua mão direita segurava firme a minha mão esquerda. Se eu não soubesse o motivo por detrás daquele gesto, eu teria


amado a sensação de sua pele contra a minha, de nossos braços se tocando levemente... Mas eu sabia. Muito mais do que os gêmeos poderiam suspeitar. E aquilo me matava. Do outro lado do sofá apertado que dividíamos, o novato mantinha o seu olhar perdido, as mãos pálidas acolhendo com energia um volume grosso e elegante de capa dura, a luva envernizada do livro sem uma única marca de dedo. Pode parecer maluquice, mas foi só neste momento específico que percebi que Líon sempre vivia colado com algum livro, o carregando para cima e para baixo. - Ótima capa - sussurrei, me agarrando à idéia de uma conversa furada com todas as minhas fibras - Pelo título parece ser bom. Líon ergueu seu olhar abatido para mim e se forçou a sorrir, seu rosto mais velho do que ele realmente era. - É fantástico - disse ele de volta, sua voz mais fraca do que a minha, enquanto acariciava com ternura as pequenas letras prateadas do título – Este é um dos meus


preferidos. - Legal - comentei, espiando de relance o caminhar imperativo do Diretor Nigro - Então, ele fala sobre o quê? Pela desenho desta fita e tal, eu diria que é um mistério... ou romance. Com um riso apagado e baixo, Serina tirou a cabeça lentamente do ombro do irmão e me encarou, sua mão pulsando marotamente contra os meus dedos. - Você vai ser arrepender de ter feito essa pergunta cochichou a garota, indicando seu gêmeo com o queixo - Lí é a maior ''traça-de-biblioteca'' que eu já conheci na vida, pode confiar em mim. Antes que ela percebesse, Líon se sacudiu e empurrou a irmã para o lado, tentando se afastar dela. Em um dia normal, eu teria certeza que aquela havia sido uma implicância comum entre os dois, mas hoje não. Era visível o nosso esforço para parecermos naturais, e eu não os culpava por isso - eu mesmo me esforçava para parecer o mais natural possível. Assim que me recostei novamente no meu canto do


sofá, a porta do escritório foi aberta e um jovem policial se esgueirou para dentro, desviando-se da marcha metódica do Dir. Nigro, até se aproximar da mesa onde o Delegado Maltha estava. - Senhor, os responsáveis das testemunhas já chegaram. - Muito bem - disse o delegado, retirando os olhos da papelada que examinava e se virando para o sofá onde os irmãos Biel e eu estávamos encolhidos - Agora já podemos tomar o depoimento dos gêmeos. Garoto Regis, o senhor está liberado. Com um breve aceno de cabeça, me despedi de Líon e, depois de apertar um pouco mais a mão de Serina, acompanhei o policial para fora do escritório. Logo depois de cruzar a porta, um casal se aproximou de mim e eu tive que parar. Eles não eram pessoas conhecidas, mas eu sabia muito bem de quem eles eram pais. O homem, alto e forte, tinha os cabelos cor-de-bronze cuidadosamente penteados e o rosto quadrado contrastando de forma simétrica com a serenidade que exibia. Já a mulher


era um pouco mais baixa que ele, com um rosto perfeitamente redondo e delicado igual à de um anjo, sua pele da cor do ébano parecendo ser tão macia quanto seda. - Você deve ser o Adrian Regis, não? Sem dar tempo para qualquer resposta, a mãe dos irmãos Biel me puxou para mais perto e me enlaçou em um longo e profundo abraço. Eu poderia ficar um pouco embaraçado com a situação, mas só naquele gesto eu conseguia sentir todo o amor e adoração que a mulher nutria pelos filhos fluir para mim. Um pouco atrás da esposa, o pai de Líon e Serina me examinava com inegável respeito, o agradecimento mudo presente em seu olhar. Mesmo depois de me separar do casal e observar os dois entrarem juntos no escritório do Delegado Maltha, a minha voz ainda não havia voltado. Agora que eu conhecia pessoalmente os pais dos gêmeos, eu mais do que nunca me sentia a maior fraude do mundo. Um Arcano completamente incompetente, que não conseguia nem lidar com um demônio Comum. Como eu iria me sentir se aquela família fosse


destruída, por uma falha minha? O jovem policial que me acompanhava indicou o caminho para a saída e eu o segui. Do lado de fora, Cirus e Angel me esperavam, meu pai ainda vestindo o uniforme da Brigada de Paramédicos. No início eu achei ótimo ter os dois ali, assim eu falaria logo tudo o que tinha para contar, mas depois de ver as expressões sérias tomando o rosto de cada um, não sabia mais se aquela era uma boa ideia. - Adrian, precisamos conversar. Eu não disse! Só por essa frase do Cirus eu sabia que vinha mais bomba na minha direção. E foi com esse peso no estômago que eu segui meu pai e minha tia até o estacionamento deserto e entrei relutânte no nosso Mustang vermelho. - Legal, podem acabar comigo de uma vez! - comecei, meu sangue correndo à mil por hora nas minhas veias – Mas eu só gostaria de lembrar que esta é a minha primeira Missão, logo eu... Não me dando chances de continuar a minha defesa, Cirus virou-se para mim do banco do motorista e jogou no


meu colo uma pesada pilha de jornais e recortes velhos. Por um segundo, a única coisa que eu consegui fazer foi ficar olhando para o bloco de papel àspero em minhas mãos, me perguntando aonde o meu pai queria chegar. Era certo que eu esperava o maior sermão que alguém já temera receber na vida, mas aquilo com certeza não se enquadrava em categoria alguma de punição. - O que significa tudo isto?! - Apenas leia as notícias, está bem? Era isso, só ler as notícias. O que só podia significar que a situação estava ficando pior do que eu imaginava. - Será que você pode fazer isto um pouquinho mais rápido? - disse Angel, remexendo-se com impaciência no seu banco. - Tá bom, tá bom. Não precisa ficar irritadinha! respondi com acidez, ao mesmo tempo que pegava o primeiro jornal da pilha. Antes mesmo de eu desdobrar a primeira página, o choque me atropelou feito um trem desgovernado. Encabeçando uma notícia de destaque, a foto de um rapaz


ruivo e bonito, com profundos olhos negros, me encarava sorridente e meio debochado - como se soubesse o salto vertiginoso que o meu coração dera ao vê-lo ali. - Mas... mas... é ele! É o demônio que está tentando matar o Líon! - Sim, foi o que Angel e eu supomos – comentou Cirus, seus olhos cinzentos indo do papel nas minhas mãos até o meu rosto - Agora vá até a página seis e leia a matéria completa. Obedecendo à meu pai com um profundo temor, corri as folhas do jornal rapidamente e encontrei a notícia relacionada à manchete, meu dedos tremendo tanto que eu mal conseguia distinguir os parágrafos de forma correta:


O CORREIO DE VENTURA POLÍCIA DE DUMONT ENCERRA INQUÉRITO SOBRE ACIDENTE Depois de três semanas de intensa investigação, o 12ª Departamento de Polícia dos Três Estados finalmente concluiu o inquérito sobre o trágico acidente ocorrido na rodovia que liga as cidades de Ventura e Dumont, envolvendo dois adolescentes e um jovem universitário. ''Não foi um caso exatamente complicado'', declarou um dos detetives responsáveis por conduzir o caso, ''mas haviam uma dúzia de fatores que precisavam ser concluídos, antes que déssemos fim aos trabalhos e reuníssemos os arquivos''. Segundo o relatório oficial, o incidente ocorreu na noite de Sexta Feira (21), pouco antes da meia-noite. De acordo com a perícia, o taxista Xavier Goldin – de 29 anos - realizava sua última viagem acompanhando os irmãos Líon e Serina Biel – ambos com 17 anos - , quando os três foram surpreendidos pelo estudante de medicina Alexander Morton – de 24 anos - , que dirigia o seu conversível importado na contra-mão e acima do limite de velocidade. ''O exames laboratoriais confirmaram que Alexander ingeriu uma grande quantidade de álcool e drogas ilícitas antes de pegar o volante, o que contribuiu para o acidente e, obviamente, o rápido falecimento do mesmo'', afirma o detetive, salientando os fatores que causaram o óbito do universitário antes mesmo da chegada da primeira ambulância no local do acidente. Apesar de terem sofrido apenas ferimentos leves, fontes ligadas aos dois passageiros e ao motorista do táxi informaram que os sobreviventes estão constantemente recebendo consultoria psicológica de uma junta médica do Hospital Geral de Dumont. Procurados pela nossa equipe de reportagem, nenhum dos envolvidos no incidente quiseram prestar uma declaração sobre o encerramento do inquérito.


Mesmo tendo terminado de ler a notícia, por um bom tempo eu encarei apenas o jornal na minha frente. Naqueles poucos segundos de silêncio, o meu sonho se materializou diante de mim e eu pude visualizar perfeitamente Xavier Goldin ao meu lado, concentrado na estrada com todas as suas fibras. No banco de trás, as risadas altas e alegres de Líon e Serina eram liberadas aos borbotões, os dois nem imaginando o que iria acontecer a seguir. - Adrian, você está bem? Angel me observava com cautela, seus grandes olhos azuis me escaneando da cabeça aos pés. Eu gostaria de dizer à ela que estava bem - que aquilo me dera forças para continuar a minha missão - mas eu saberia que era uma mentira. A verdade era que, a cada dia que passava, as coisas pioravam mais. Descobrir que uma parte do meu sonho fora real, que esse tempo todo eu ''via'' os irmãos Biel no meu subconsciente, só me deixou mais arrasado ainda. - Alexander Morton... então, esse é o nome do demônio.


Nem Cirus nem Angel falaram nada sobre o assunto. Só menearam a cabeça em concordância, todo o peso do mundo pairando sobre os dois. Eles nem precisavam se dar ao trabalho de esboçar qualquer reação ao meu comentário, eu estava cem por cento certo quanto a isto. Com um lampejo, me lembrei do meu primeiro dia de aula e de meu pai lendo o jornal na nossa cozinha, falando sobre a conclusão das investigações de um acidente em Dumont envolvendo jovens. Depois, a imagem do Dir. Nigro, engolindo todo o seu autoritarismo e tratando Líon da forma mais afável que podia me encheu a mente - só para ser substituída

depois

pelo

próprio

novato,

sozinho

na

enfermaria e me confidenciando os problemas pelo qual a sua família vinha passando nos últimos tempos. - Como pude ser tão imbecil? Como pude ser tão obtuso com relação aos sinais que me rodeavam? Mais uma vez, nenhuma resposta oral. Agora eu percebia que o demônio, Alexander Morton, não estava perseguindo só o Líon - mas também Serina e o taxista, Xavier. Alexander Morton queria vingar a sua morte.


Se vingar das três pessoas que haviam sobrevivido ao seu acidente fatal, que ele mesmo provocara. Fora por isso que a família Biel resolveu se mudar para Ventura. Eles estavam tentando reconstruir suas vidas novamente, bem longe das lembranças daquele terrível dia. Só que eles não contavam que a lembrança principal não estava nem um pouco disposta a ser esquecida. - Angel - comecei, me lembrando de algo que minha tia dissera assim que chegou na Casa-de-Bombeiros – eram eles, não eram? A família que você estava tentando ajudar em Dumont, mas que foram embora antes de você poder fazer qualquer coisa. - Sim - confirmou ela, simplesmente - mas eu não fazia idéia que eram eles quem você estava protegendo. Só fiz a ligação dos fatos ontem de manhã, quando encontrei o jornal na garagem. Infelizmente, ao que parece, foi tarde demais. - Não seja ridícula - a cortei, mais ríspido do que o necessário. - Como não? Eu não sabia da existência do taxista,


nem imaginava que houvesse um acidente na história! Para mim, Alexander só estava perseguindo a família Biel por uma obsessão doentia... O pai dos garotos era tutor dele na Faculdade. - O quê?! - golejei, a confusão mais uma vez fervilhando em minha mente. - Você pode não saber, Adrian, mas Marcus Biel é um renomado médico-cirurgião - enquanto falava, Cirus se inclinou sobre mim e pegou a instável pilha de jornais em meu colo - Há um mês ele pediu transferência para o Hospital daqui da cidade, e só agora me dei conta do por quê - depois de uma rápida conferida, meu pai estendeu sua mão e colocou um pequeno recorte sobre a notícia que eu acabara de ler - Essa matéria aqui fala justamente da grande ironia causada pelo acidente: Um dos estagiários mais brilhantes que o Dr. Biel monitorava no Hospital Geral de Dumont quase causou a morte prematura de seus dois únicos filhos. Eu olhei para a fotografia séria do pai dos gêmeos e me lembrei do nosso pequeno encontro na Delegacia, à poucos minutos atrás. Será que ele suspeitava que seu ex-


protegido ainda estava tentando destruir a vida de sua família? - Eu não sei o que pensar - disse por fim, jogando tudo que eu segurava no chão do Mustang - Parece que estou mergulhando em queda livre para dentro de um grande filme de terror. - Então acho melhor você se preparar por mais recomeçou Angel, sua voz cantada e cristalina repinicando misteriosamente - Ontem à tarde, enquanto procurava mais informações sobre o Morton, acabei descobrindo algo que pode nos ajudar. Abrindo o porta-luvas do carro, a garota puxou duas fotocópias amassadas e as passou rapidamente para Cirus e para mim. Depois de uma rápida conferida na folha, percebi que o papel era a reprodução de um documento hospitalar, mais precisamente uma ficha de internação, no nome de ''Suzana N. Leniscky''. - Quem é Suzana N. Leniscky? - Ah, eu sabia que vocês iriam perguntar – Angel recostou-se em sua poltrona, e um tímido sorriso de triunfo


brincou em seus lábios - Suzana N. Leniscky nada mais é do que a ''namorada-viúva'' de Alexander Morton. Cirus e eu nos encaramos por um breve momento. - Hum, claro - pigarreou meu pai, analisando mais um vez a ficha com afinco - Mas aqui não diz por que ela foi internada recentemente em uma ''Casa de Repouso''. Desta vez, eu consegui ligar os pontos mais rápido do que Cirus. Afinal, o que um responsável ''normal'' faria se sua filha chegasse em casa e falasse que estava tendo encontros esporádicos com o namorado morto? - Angel, acho que nós precisamos urgentemente conversar com Suzana N. Leniscky.

210


EPÍLOGO

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O

caos da cena era delicioso. Criava a quantidade perfeita de

desordem para que ele pudesse ficar completamente invisível em meio à confusão. Entretanto, todo este cuidado não era necessário. O aprendiz de Arcano estava bem longe, protegendo de forma inconveniente as suas presas, e só haviam humanos ao redor. Mas era assim que Alexander Morton gostava de operar. Exatamente indetectável. Apesar da caçada ser a força motora principal que o fazia continuar naquele jogo, secretamente, era este o seu prazer culposo. Observar a sua obra – o resultado de um assassinato – exposto ao mundo. Como deveria ser. Afinal de contas, foi um despejo na água... Em uma piscina de colégio. Alguém acabaria encontrando, mais cedo ou mais tarde. A única surpresa, foi a rapidez com que a mensagem foi entregue aos verdadeiros destinatários. Mas estava tudo bem. Era este o objetivo. E, mais uma


vez, o seu objetivo fora alcançado. Perfeito. Equipes de polícia e bombeiros trabalhavam em conjunto para preservar a cena enquanto vasculhavam as águas e varriam as margens em busca de provas. Algo deliciosamente inútil. Observou

enquanto

curiosos

e

estudantes

se

empurravam e puxavam uns aos outros, tentando enxergar melhor o que havia acontecido. Gostava da energia que irradiavam, dos desejos insaciáveis pelos detalhes mais sórdidos, não importando quão repulsivos ou perturbadores pudessem ser. E, agora, estavam vorazes. Ele ficou mais próximo, ouvindo, deliciando-se com aquele circo sinistro. Falavam sobre a sua obra, sobre o que ele fizera, sem nem perceberem que o autor estava entre o grupo. Aquilo o animava. Sentia-se poderoso. Vivo. Com isto, as chamas em seu peito se abrandaram, e ele decidiu que já tinha visto tudo o que precisava para manter-


se bem. Hoje tinha sido um bom dia, e o dem么nio estava satisfeito. Por enquanto.

FIM DO LIVRO UM.

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AGRADECIMENTOS

215

Escrever um livro não é fácil. Começar uma série, então, é algo que não tenho palavras para descrever. Por isto gostaria de agradecer uma turma que me apoiou ao longo de todo este tempo, me dando forças para continuar com este projeto e não me deixaram desistir, mesmo ele sendo um pouco ambicioso demais para que um escritor em treinamento bancasse praticamente sozinho. Em primeiro lugar, não poderia falar de outra pessoa, se não a minha super-incrível mãe, que me ensinou à ter paixão pelos livros e que é tão incomparável que eu simplesmente não consegui criar uma representante à altura de sua magnitude e personalidade para inserir nesta história. Valeu, Dona Tininha! Além da my fair lady, eu também tenho a obrigação de dar os meus '' muito origado'' ao Senhor Carlos Henrique, que ainda pode não ter um Mustang 64 vermelho irado (nem uma motocicleta), mas é um pai tão ''garotão'', corajoso e irritante para mim quanto o Cirus é para o Adrian. Ainda na família, é lógico que eu tenho que agradecer à minha irmã gêmea do mal, que mesmo não sabendo, foi a responsável por uma das personagens mais importantes da trama. Viviane, você pode negar à vontade, mas todos sabemos que a senhora foi o Sonho


Adolescente de mais ou menos 95% dos meus amigos na adolescência. Fora a minha turma de casa, eu preciso cumprimentar também a todos os meus amigos, que sempre me fazem sentir como se eu fosse alguém importante só por quê escrevo histórias - em especial à... Natália, valeu pelas nossas milhares de horas de ''papos cabeças'', pelo Drumondzinho e por sempre ver o lado profundo de tudo – mesmo até quando nem eu vejo! Patrícia, muito obrigado por todas as vezes que você puxava a minha orelha para saber se os manuscritos já estavam prontos (viu, agora estão!). Symathon, eu nunca posso me esquecer da primeira pessoa que apostou em mim. Yes, man, we can! Também tenho que dividir este espaço com toda a galera do blog ''Terra das Sombras'' e da comunidade ''Os Segredos de Uma Noite'', que acompanharam (desde o comecinho) o nascimento de uma fic que – com muita energia positiva – se transformou em um livro. Peeps, palmas e reverências para vocês! Muito, muito, muito obrigado ao pessoal que lota as paredes do meu quarto de sonhos, aventuras e descobertas e obrigado à Deus por ter colocado tanta gente do bem na minha vida.

216


A SAGA DAS SOMBRAS CONTINUA COM

Terra das Sombras LIVRO DOIS: O INIMIGO

SAIBA O QUE VEM DEPOIS...


1. O

DESPERTAR

E

ra noite, e o bosque estava escuro como breu. O topo dos

grandes eucaliptos se escondiam no infinito negro à minha cabeça, e uma névoa fina e rastejante impregnava-se no musgo aos meus pés, formando um imenso oceano verde e branco. Eu sabia que estava na Reserva Florestal de Ventura. Tudo naquele lugar, desde as árvores até o formato das elevações do terreno mais à frente, me eram familiar. O que não sabia, na verdade, era o que eu estava fazendo ali, parado no meio do nada. - Achei que nunca chegaria... - sussurrou uma voz feminina, clara e musical, bem atrás de mim. Sobressaltado, virei-me com pressa, preparado para atacar o que estivesse à espreita. Só não contava encontrar com Serina, sentada tranquila sobre as raízes de um


imponente eucalipto, os cabelos cor-de-chocolate ondulando ao seu redor. Mesmo nas sombras, sua pele morena irradiava um brilho dourado e quente, intensificado pelo belo vestido marfim que usava. - Eu...eu... eu não esperava lhe encontrar aqui respondi, mal disfarçando minha surpresa. Sem se deixar abalar pelo meu mau jeito, a garota se levantou da base da árvore com tal leveza que me pareceu que ela nem havia feito algum esforço. Antes que eu pudesse pensar em alguma coisa, Serina já estava diante de mim, seu rosto angelical apenas à centímetros de distância do meu. - Você é bonito - disse ela simplesmente, erguendo a mão direita com delicadeza e acariciando minha face. Não posso descrever com palavras tudo o que senti naquele momento. Para falar a verdade, acho até que não tenho coragem de contar algumas coisas que pensei quando ela me tocou. O que eu posso dizer é que meu corpo reagiu das maneiras mais estranhas... Meu coração disparou como cavalos em uma corrida, meu sangue ferveu como se eu ardesse em febre e minha garganta se fechou - me obrigando


a respirar por um breve e lento arquejo. - Me desculpe - murmurei, enquanto ela continuava a explorar o meu rosto com as mãos. Para meu espanto, Serina aproximou-se mais um passo de mim e encostou a sua bela cabeça em meus ombros. Foi aí que entrei em parafuso. Quase que tomado por uma força sobrenatural, apertei a garota firmemente entre os meus braços e mergulhei o meu nariz na base suave e perfeita de seu pescoço. Com um profundo suspiro, inspirei todo o perfume adocicado que sua pele castanha exalava, correndo os meus dedos com cuidado pelos seus cabelos e por suas costas. E assim ficamos os dois, por um tempo que me pareceu uma eternidade... até que toda a cena mudou em um piscar. A névoa, que antes era alva e rasteira, começou a se elevar perigosamente - ganhando um mórbido tom de chumbo. Um vento frio e úmido vergastou os nossos cabelos, ao passo que a estranha sensação que eu havia sentido à um mês na piscina da Constantine começou a tomar conta do


meu corpo novamente. Rápido como um relâmpago, coloquei Serina sob a proteção de minhas costas e me agachei, me preparando para o ataque que estava por vir. Mesmo sem poder vê-la, eu sabia que a garota deveria estar congelada no lugar - suas mãos, apoiadas em meus braços, estavam gélidas e escorregadias. - Não se preocupe, vai ficar tudo bem... - disse em um tom baixo, mesmo sem ter plena convicção do mesmo. Vasculhei a floresta à minha frente, procurando por qualquer sinal da coisa que se aproximava. Mesmo forçando os meus olhos ao máximo, eu não enxergava nada a não ser as árvores e a neblina. Aquilo não me tranquilizou. Mesmo não o vendo, eu sentia que havia algo por ali, espreitando a mim e a garota - só esperando o momento certo para aparecer. E ele apareceu... mais cedo do que eu esperava, e muito mais rápido do que eu julgava ser capaz. Surgindo em meio a neblina, Alexander Morton emergiu

do

espesso

mar

branco-pérola,

caminhando

lentamente na direção da campina em que eu e Serina


estávamos. O rapaz trajava apenas uma velha calça de brim preta e seus cabelos ruivos ricocheteavam no alto de sua cabeça como violentas chamas vivas. Os seus olhos, negros e com as pupilas dilatas iguais à de uma fera em caça, transmitiam uma frieza perversa que destoava por completo do rosto bondoso; um verdadeiro lobo na pele de cordeiro. Muito mais fatal e cruel. - Quem é ele? - perguntou Serina, sua voz cantada tomada de pânico. - Não tenha medo... Tudo vai se resolver. Ao escutar nosso pequeno diálogo, o demônio parou e inclinou a cabeça para o lado. Seu rosto estava impassível, livre de qualquer expressão. A esta altura, eu já podia imaginar o que estava para acontecer. Com um último impulso, me afastei brevemente de Serina, colocando-me mais à frente - dando uma chance, por menor que fosse, para a garota escapar. Por um minuto, ficamos parados - apenas nos encarando. Eu sabia que o momento do ataque estava para chegar. E também sabia que ele seria letal. Assim, quando o


ser se agachou, pronto para dar o bote, eu respirei fundo. Era o meu fim, e não via como poderia terminar de outra maneira. Sem pestanejar, Morton lançou-me um último sorriso e saltou - tão alto quanto um gato e tão rápido quanto uma pantera. Não pensando em nada, fechei os meus olhos, me preparando para a dor que viria me atingir... E ela veio. Menos penosa do que eu podia supor, e muito mais gelada. Despertei enroscado no meu cobertor e estatelado de cara no chão. Minha cabeça martelava devido ao impacto da queda e os meu tórax ardia com a falta de ar. Com os dentes cerrados, inspirei profundamente e tentei me recompor. Sem paciência alguma, puxei o lençol que me enrolava com força e o joguei em cima da cama. O quarto ainda estava escuro, e a rua lá fora não emitia um barulho sequer. Acordado na madrugada de novo. Quanta novidade. Ainda

sentindo

o

meu

corpo,

me

apoiei

desengonçadamente na janela e me pus a observar a cidade. Diferente das outras noite, o céu estava nublado, coberto por nuvens macabras de cores esverdeadas. Os velhos edifícios


pontiagudos do centro recortavam a paisagem de um jeito nem um pouco acolhedor. E ao fundo, os imensos eucaliptos nas encostas das colinas agitavam-se furiosamente contra o rotineiro vento ártico. Sem pensar em nada, fechei a janela contra a friagem que invadia o meu quarto e me virei na direção da cama. Mesmo tendo uma visão apurada no escuro, não consegui evitar o encontrão que dei na escrivaninha. Com o solavanco inesperado, todas as coisas que estavam sobre a mesa se esparramaram no piso do quarto, me obrigando a me abaixar e arrumar tudo. Bufando de contrariedade, peguei a maioria dos papéis, meu player de mp3 e a luminária desligada e empurrei tudo de uma vez só para o tampo do móvel. Quando me preparei para guardar as folhas novamente dentro da pasta onde deveriam ficar, me deparei com o desenho de Serina que eu havia feito assim que as aulas começaram. Ao olhar para o rosto no papel em minhas mãos, senti o meu estômago despencar. Desde a segunda feira retrasada,


quando o corpo de Xavier Goldin foi encontrado boiando no meio da piscina olímpica do Pavilhão de Torturas, eu não tive mais notícias dos gêmeos. Confesso que no começo achei que esta havia sido a melhor forma dos dois lidarem com os acontecimentos afinal, não se falava em outra coisa nos corredores da escola (pelo visto, eu era o único em toda a cidade que não sabia dos motivos da mudança de Líon e Serina para Ventura), e vez ou

outra

eu

reconhecia

um

repórter-sensacionalista

rondando a porta de entrada do Dr. Biel e sua família atrás de um furo jornalístico. Mas depois de uma semana, quando a poeira - e as fofoquinhas maldosas - finalmente começaram a baixar, vi que a auto-reclusão obrigatória planejada pelos dois não era nem um pouco temporária. - Eles estão bem, Adrian - falava a mãe dos garotos, toda vez que eu ligava para a casa dos irmãos em busca de algum sinal de vida - Só precisam de um pouco de descanso... Não precisa se preocupar. ''Tarde demais'', eu resmungava, assim que recolocava


o aparelho no gancho. A questão na verdade era que eu, enfim, havia despertado - e a cada dia que passava, via com mais clareza o perigo real que Alexander Morton representava. Contrariando todas as expectativas, ele tinha plena consciência dos poderes que estava ao seu dispor; aparecera para um ser humano comum, quebrando todos os protocolos e paradigmas; dera cabo de um homem, da forma mais cruel possível - e ao que parecia, não iria sossegar (ou deixar ser apanhado por um Arcano em Treinamento) enquanto não superasse a sua morte... ... Enquanto não se vingasse de Líon e Serina. Com a cabeça cheia de temores e preocupações, meu humor na semana seguinte decididamente foi para o buraco. Mesmo depois de descobrir um homem morto dentro do campus restrito e vigiado da Constantine, as pessoas (principalmente os alunos) não pareciam mais se perturbar tanto com o assunto. Se antes o tom da conversa girava em torno de perguntas do tipo ''quem será que colocou o taxista aqui na


Constantine, e por quê?'', agora o burburinho era sobre futilidades como ''que tipo de fantasia eu devo usar na festa de Formatura?'', ou ''Será que a minha mina vai deixar eu ir para a faculdade virgem?''. Acreditem, não inventei nenhuma das pérolas citadas. O ápice da minha impaciência ocorreu na sexta-feira, pouco antes das aulas acabarem. Daniel e eu guardávamos o nosso material na mochila (o capitão da equipe de Lutas ocupava o lugar que rotineiramente era de Líon), quando Oliver Nigro se aproximou de nós, mais magro e pálido do que nunca. - Ora, vejam só - resmungou o rapaz ao meu lado, assim que percebeu a presença do filho do Dir. Nigro - a que devemos a honra de receber a visita do Rei da Academia Constantine? Por um segundo, pensei que Oliver fosse responder à Daniel com a sua grosseria costumeira - mas, para minha surpresa, tudo o que ele fez foi esboçar um sorriso apático para o capitão e levantar as duas mãos, em sinal de rendição. - Calma aí, amigão... Vim em missão de paz!


''Missão de Paz''? Esse cara só podia estar querendo tirar um sarro da minha cara... Antes que eu desse por mim, uma risada sarcástica e grotesca escapou da minha boca, paralisando no lugar o restante da turma que ainda se retirava da sala de aula. Impassível, Oliver me encarou demoradamente, seu rosto congelado em uma expressão tão propriamente divertida que (não sei por que motivo) me fez tremer por dentro. - Como eu estava dizendo - continuou o rapaz, sem tirar aquele olhar estranho de cima de mim - vocês devem saber que o Baile de Formatura está se aproximando, não? Eu me controlei para não responder. É claro que nós sabíamos disso - se a pessoa fosse surda o suficiente para não escutar o burburinho pelos corredores, bastava olhar para as dezenas de flâmulas e cartazes coloridos espalhados estrategicamente pela escola. - Sim... E o que nós dois temos a ver com isso? perguntou Daniel, tirando as palavras da minha boca. Sem pestanejar, Oliver abriu o seu paletó e tirou de um bolso interno dois folders impressos em papel vermelho,


do mesmo tom usado nos materias de circulação interna da Academia. - É que, para alguns, existe um evento muito mais esperado do que o Baile organizado pela escola - o filho do diretor Nigro olhou para os lados e diminui o seu tom em duas oitavas - e, cai entre nós, não estou falando do última dia de aula! Por um breve momento, o capitão da Equipe de Lutas e eu trocamos uma significativa mirada. Só a ideia de estar tendo uma conversa ''conspiratória'' com Oliver me causava arrepios... Ainda mais agora, quando o rapaz decididamente resolvera explorar o seu lado mais sombrio. - Você ficou maluco?! - esbravejou Daniel, picotando rapidamente o folder em sua mão e pegando a mim e ao líder dos Privilegiados de surpresa - Se o seu pai te pega com isso, eu nem quero estar perto para saber o que vai acontecer! - O que Arthur Nigro não sabe, não precisa saber retrucou Oliver, deixando transparecer em sua voz uma ligeira ponta de amargura - Além do mais, a festa vai acontecer fora do campus da Constantine...


- Hei, do que vocês estão falando? - interrompi, me sentindo mais perdido do que um cego em um tiroteio - E que história é essa de festa? Com um movimento rápido, Daniel puxou o encarte remanescente da minha mão e o elevou na altura do meu rosto. Depois de um minuto de leitura, meu estado de espirito estava tão alterado quanto o do garoto ao meu lado. - Vocês estão planejando uma ''Festa dos Veteranos''? perguntei, não acreditando no que estava escrito no papel. Em resposta à minha exaltação, tudo o que Oliver fez foi se virar novamente para mim e me lançar aquele olhar estranho. Oras, como ele esperava que eu reagisse? A Festa dos Veteranos nada mais era que uma espécie de preparação para o Baile de Formatura não supervisionada, onde os estudantes tinham a oportunidade de se esbaldarem até o dia raiar, entornando litros e mais litros de álcool e fazendo coisas que não fariam nem em sonhos na frente do pais. Acho que nem preciso me dar ao trabalho de dizer que


este evento era terminantemente abominado pela Junta de Pais e Mestres da Academia Constantine - com direito a suspensão registrada na ficha escolar em todo aquele que ousasse pensar em realizar a festa. Mas é claro que para Oliver e todos os seus seguidores Privilegiados, esta regra não passava de uma lenda. - Só queria deixar claro que eu informei pessoalmente todos os alunos do último ano sobre essa nossa ''reunião'' dessa vez, toda a simpatia e humor que Oliver havia usado até então foi substituída rapidamente pela sua usual ameaça jovial - Então, se alguém der com a língua nos dentes, eu e meus amigos saberemos exatamente quem foi. Aquilo foi a gota d'água. Se já não bastasse ter que me preocupar todos os dias com os planos malignos de um jovem demônio perseguidor, agora tinha que também ter o cuidado de não estragar a bacanal proibida dos alunos do último ano... Quem eles pensavam que eu era? - Acho que você se esqueceu da nossa última ''conversa''! - explodi, o sangue pulsando em minhas orelhas.


- Não me esqueci não - o filho do Diretor Nigro se aproximou de mim de forma ameaçadora, nós dois separados apenas pelo espaço ocupado por Daniel Maltha - E é justamente por isso que estou lhe avisando... Antes que eu pudesse pular em seu pescoço, Oliver girou sobre os calcanhares e deixou a sala de aula, seu cabelo louro ressecado fustigando à brisa do início da tarde e seus ombros caídos, como se carregasse sobre si todo o peso do mundo. Era engraçado, mas mesmo eu estando ali no meu quarto, um dia inteiro depois desse nosso encontro, aquela vontade louca de esganar meu ''arqui-inimigo de colegial'' ainda não havia passado - e dessa vez eu nem podia colocar a culpa em Alexander Morton por isso. - Problemas para dormir? Depois de quase dar um mortal de costas pelo susto, me virei rapidamente na direção da porta e vi tia Angelina parada na soleira do meu quarto, vestindo um leve robe de seda rosa sobre seu pijama de mesma cor, os cabelos prateados firmemente presos em um rabo de cavalo.


- Escutei um barulho - disse ela, apoiando-se na parede com seu jeito displicente - vim ver o que era. - Não... não foi nada - me apressei a dizer, guardando o desenho de Serina em minha pasta - só ''coisas da escola'', sabe como é... - Sim, acho que sei - num piscar de olhos, Angel moveu-se da entrada do meu quarto e foi até a beirada da minha cama, onde o folder vermelho da Festa dos Veteranos jazia incólume - E aí, preparado para amanhã? Sinceramente, não sabia o que responder. Desde de segunda feira, quando por fim eu abri os olhos e descobri toda a verdade sobre a história por detrás da vinda dos irmãos Biel à Ventura, a coisa que eu mais queria fazer era me encontrar com Suzana N. Leniscky e interrogála de todas as formas possíveis para poder saber como Aexander Morton apareceu para ela, e o que ele poderia estar tramando. Porém, agora que faltava poucas horas para a nossa visita à Casa de Repouso, eu não sabia muito bem o que fazer por lá. - Será que esta é uma boa ideia? - perguntei, uma


estranha sensação de vazio se apoderando da boca do meu estômago. - Esta é uma ótima ideia - respondeu Angel com simplicidade - Além do mais, você quer que algo de ruim aconteça com o seu amigo? Quer que este tal de Morton consiga aprontar alguma coisa com a Serina? - É claro que não! - exclamei, minha voz mais feroz do que o necessário. - Então está esperando o quê para ir dormir?! Aceitando o conselho com determinação, guardei minha pasta de desenhos na gaveta da minha escrivaninha, puxei os lençóis que estavam espalhados pelo chão e me esgueirei para cima da cama, as molas do colchão protestando ruidosamente sob o peso do meu corpo. Minha tia estava certa; eu estava em uma missão... Uma missão cujo o prêmio nada mais era do que a salvação de duas pessoas que haviam deixado o meu mundo de cabeça para baixo. Não havia tempo para eu ter um ataque de ''dilemas adolescentes''. - Angel - sussurrei, me dando conta de um detalhe


somente quando me encolhi debaixo da proteção e do calor dos meus cobertores - Por que você deu dois pesos diferentes para a situação do Líon e da Serina? - Bom, acho que todos nós sabemos muito bem o por quê... - foi tudo o que ela disse quando apagou a luz do corredor e se retirou de forma elegante e graciosa do meu quarto, um sorriso conspiratório lhe tomando a face.


H E N R I B. N E T O Nasceu no Rio de Janeiro, no ano de 1989, assim como os seus personagens. Apaixonado por livros desde pequeno, é um ''escapista''de carteirinha, e tem como grande paixão a Literatura de Fantasia e Sobrenatural. Atualmente, ele divide o seu tempo entre a Faculdade de Pedagogia, seu blog sobre romances para o público Jovem-Adulto e na produção dos novos volumes da ''Saga das Sombras''.



Terra das Sombras: O Guardão, de Henri B. Neto